Prévia do material em texto
CENTRO UNIVERSITÁRIO AUGUSTO MOTTA MICHELLE CRISTINA SANTOS DE FIGUEIREDO ATUAÇÃO DO PSICÓLOGO EM INSTITUIÇÃO DE ACOLHIMENTO INFANTIL Rio de Janeiro/RJ 2023 MICHELLE CRISTINA SANTOS DE FIGUEIREDO Atuação do psicólogo em Instituições de acolhimento infantil Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Graduação em Psicologia do Centro Universitário Augusto Motta para a obtenção do título de Bacharel em Psicologia. Orientador: Nihil Scarpine Malheiros Rio de Janeiro 2023 FOLHA DE AGRADECIMENTO FOLHA DE APROVAÇÃO RESUMO FIGUEIREDO, Michelle. Atuação do Psicólogo em Acolhimento Infantil. 2023. (Número total de folhas). Trabalho de Conclusão de Curso – Centro Universitário Augusto Motta. Rio de Janeiro, 2023. As instituições de acolhimento infantil desempenham um papel fundamental na proteção de crianças e adolescentes em situações de grave risco à sua integridade. Essas instituições oferecem um ambiente temporário para crianças que enfrentam dificuldades em suas famílias de origem. O trabalho do psicólogo envolve a promoção de bem-estar emocional, a construção de relações afetivas e o apoio na reintegração familiar sempre que possível. O profissional de psicologia atua em diversas frentes, avaliando a situação da criança e da família, promovendo relações saudáveis entre cuidadores e crianças e facilitando a reintegração familiar sempre que possível. Ele também desempenha um papel importante na comunicação e cooperação entre a instituição, a família de origem e outros sistemas que afetam a criança. A legislação, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), estabelece a importância de garantir as necessidades básicas das crianças, mas muitas vezes as instituições enfrentam dificuldades para atender a essas necessidades. Os desafios encontrados nas instituições de acolhimento incluem problemas estruturais e operacionais, como falta de recursos adequados para infraestrutura e alta rotatividade de profissionais. Em suma, o psicólogo desempenha um papel essencial na promoção da saúde mental e no desenvolvimento saudável de crianças em instituições de acolhimento, garantindo que elas recebam o apoio necessário e a possibilidade de reintegração na família, sempre que isso for viável. Palavras-chave: Instituições de acolhimento infantil, Bem-estar emocional, Reintegração familiar, Saúde mental, Psicólogo. ABSTRACT FIGUEIREDO, Michelle. The Role of Psychologists in Child Care. 2023. (Total number of pages). Bachelor's Thesis – Augusto Motta University Center. Rio de Janeiro, 2023. Childcare institutions play a crucial role in safeguarding children and adolescents in situations of serious risk to their well-being. These institutions provide a temporary environment for children facing difficulties within their biological families. The work of psychologists involves promoting emotional well-being, building affectionate relationships, and supporting family reunification whenever possible. Psychologists work on various fronts, assessing the child and family's situation, fostering healthy relationships between caregivers and children, and facilitating family reunification whenever feasible. They also play a significant role in communication and cooperation between the institution, the biological family, and other systems affecting the child. Legislation, such as the Child and Adolescent Statute (ECA), emphasizes the importance of ensuring children's basic needs, but institutions often face challenges in meeting these needs. Challenges in childcare institutions include structural and operational issues, such as a lack of adequate resources for infrastructure and a high turnover of professionals. In summary, psychologists play an essential role in promoting the mental health and healthy development of children in childcare institutions, ensuring they receive the necessary support and the opportunity for family reunification whenever possible. Keywords: Childcare institutions, Emotional well-being, Family reunification, Mental health, Psychologist. 1 - INTRODUÇÃO As instituições de abrigo têm o papel - de forma provisória e excepcional - receber crianças e adolescentes somente quando as mesmas estão em circunstância grave de risco à sua integridade física, psicológica e sexual (Estatuto da Criança e do Adolescente [ECA], 1990). Sendo assim, o abrigo é uma proteção social que diante da incapacidade dos pais ou responsáveis de fornecer as necessidades básicas à sobrevivência (moradia, alimentação, saúde e educação) estabelece de maneira definitiva ou por tempo determinado esse direito (Fundo das Nações Unidas para a Infância [UNICEF], 2005; Silva, 2004). O serviço de acolhimento institucional possui algumas modalidades e formatos. Sendo diferenciado pelo público alvo, com tempo de permanência no local distinto e o modelo em si. De modo resumido, ele é ofertado nas seguintes modalidades: Crianças e Adolescentes - Casa-Lar, Abrigo Institucional; Adultos e Famílias - Abrigo Institucional, Casa de Passagem; Mulheres em Situação de Violência - Abrigo Institucional; Jovens e Adultos com Deficiência - Residências Inclusivas; Idosos - Casa-Lar, Abrigo Institucional (Inst. De Longa Permanência – ILPI (BRASIL, 2009). Portanto, este trabalho terá o foco no Abrigo Institucional para crianças e adolescentes. As pessoas que se ocupam da rotina de cuidados diretos de crianças e adolescentes acolhidos tendem a se constituir em um referencial de família, já que podem ser fonte de apoio, orientação e afeto. Nesse sentido, Cassol e De Antoni (2006) entendem a instituição de acolhimento como um contexto onde busca reproduzir as relações parentais. O cuidador pode ser considerado como mediador da atenção, cognição, linguagem e emoções da criança, aspectos relevantes de seu desenvolvimento psicossocial (Barros & Fiamenghi Jr., 2007; Prada, 2007). As orientações do CONANDA/CNAS (2006, 2008), por sua vez, destacam que a entidade de acolhimento deve estabelecer uma relação afetiva, segura e estável da criança e do adolescente com o profissional. Esse profissional deve vincular-se afetivamente às crianças atendidas e colaborar para a construção de um ambiente familiar. Todavia, deve evitar construir uma relação de posse com a criança ou adolescente, assim como competir ou desvalorizar a família de origem ou substituta. Tais políticas reforçam que o serviço de acolhimento não deve ter a pretensão de ocupar ou sobrepor o lugar da família de origem, mas contribuir para o fortalecimento dos vínculos familiares, favorecendo o processo de reintegração familiar ou o encaminhamento para família substituta. Vale ressaltar que, neste estudo, os termos abrigo e instituição de acolhimento como sinônimos, pois ambos são encontrados com o mesmo significado na literatura sobre a temática. Dito que o termo acolhimento institucional tem sido indicado para denominar a medida de abrigo, de acordo com o Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária - de autoria do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente [CONANDA] e do Conselho Nacional de Assistência Social [CNAS] (CONANDA/CNAS, 2006). Os embasamentos citados neste trabalho corroboram as dificuldades enfrentadas nas instituições de acolhimento, destacando a necessidade de recursos adequados, a complexidade das relações afetivas, a importância do cuidado e a responsabilidade municipal na implementação dessas políticas. Em um viés estrutural o acolhimento institucional é encargo do município, que assume parte substancial do Sistema de Garantia de Direitos da Criança e do Adolescente, e, portanto, maior responsabilidade sobre as políticas para o público infanto-juvenil. Com isso, o Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) e o ConselhoNacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA) firmaram, em 2009, um documento denominado Orientações Técnicas para os Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes (Brasil, 2009b). Para melhor entendimento, pode-se entender os parâmetros obrigatórios separados em dois quesitos, sendo primeiro a estrutura física e logo em seguida as orientações técnicas e os recursos humanos de maneira geral. Dentre estas orientações quanto a estrutura física, tem-se: 1) ter no máximo quatro crianças ou adolescentes por quarto; 2) ter uma sala de estar que contenha espaço suficiente para acomodar a todos; 3) Dispor de um banheiro para cada seis pessoas, tendo, no mínimo, um adaptado para pessoas com necessidades especiais. Quanto a equipe profissional, as Orientações Técnicas (Brasil, 2009b) exigem que a instituição de acolhimento possua: 1) coordenador com formação superior e experiência congênere; 2) equipe técnica com formação superior e com experiência no atendimento de crianças e adolescentes em situações de risco; 3) educadores/cuidadores com formação mínima de nível médio e capacitação específica, ocupando um profissional para cada dez crianças ou adolescentes; 4) auxiliares de educador/cuidador com, no mínimo, Ensino Fundamental e capacitação específica, além de experiência em trabalho com crianças e adolescentes. Há fatores institucionais das casas de acolhimento relevantes com relação ao bom funcionamento (Salina-Brandão e Williams , 2009), tais como: habilidade dos funcionários da instituição para desempenhar suas funções, composição multidisciplinar da equipe de profissionais, plano de trabalho institucional compatível com os princípios do ECA (Brasil, 1990), além da ausência de rotatividade dos profissionais nas instituições (Ali, Silveira, & Lunardelli, 2004; Carvalho, 2002; Shaw, 2007). Além do fato de as entidades responsáveis por serviços de acolhimento institucional serem organizadas e planejadas no modelo de casa-lar ou de república, responsáveis por executar as medidas de proteção para crianças e adolescentes em estado de vulnerabilidade (Gulassa, 2010). A vertente humana se destaca em abrigos, mas também pressupõe que os mesmos possuam bens e aparelhos indispensáveis ao seu funcionamento num local devido. Relativamente aos recursos humanos, é imperativo que a equipa técnica tenha formação adequada para prestar cuidados e responder às necessidades das crianças e jovens, e que esta formação se adeque às funções que irá exercer (Pinheiro, 2000). A equipa técnica é multidisciplinar e é constituída pelas valências de psicologia, serviço social e educação, contendo ainda a colaboração de profissionais na área de medicina, direito, enfermagem e organização dos tempos livres (Ramião, 2014). Segundo Valle e Zurita (2000) o papel destes profissionais envolve um perfil polivalente, onde existe flexibilidade, maturidade, integridade, responsabilidade, competências emocionais e estabilidade emocional. Com isso, temos a formação da equipe da seguinte forma: · Técnicos de serviço social, é função dos mesmos, o planejamento na interação com as crianças/jovens e a sua família um propósito de intervenção social que tem em vista um projeto de ascensão e reintegração da criança/jovem no seu meio social. · Técnicos de educação cabe a eles implantar e examinar medidas que ultrapassem as dificuldades educacionais da criança/jovem, redigir um plano educacional e alavancar a orientação profissional. · Aos médicos e enfermeiros compete a eles o encargo de diagnosticar a existência de maus-tratos ou outro tipo de diagnóstico possível e o plano de recuperação. · Os técnicos de direito deverão determinar os limites e limitações dos direitos parentais (e.g., regulação do regime de visitas). · Os técnicos de organização de tempos livres tem como função ocupar os horários de lazer, elaborando tarefas e atividades de reintegração social. · A competência do psicólogo, inserido na equipa técnica, é detectar a situação em que a criança/jovem se encontra, explicar os comportamentos familiares que levam à situação de perigo e como ultrapassá-la, assim como intervir nos sintomas familiares e sociais próprios à medida de acolhimento (Borges, 2007). A partir do exposto, um questionamento emerge: quais ações o psicólogo pode ter para melhor colaborar dentro de uma Instituição de Acolhimento Infantil? A atuação psicológica em serviços de acolhimento é complexa e ainda pouco explorada, principalmente pelo psicólogo ainda estar se apropriando dessa demanda (Silva, 2009); para tal exploração é preciso que se ultrapassem as tarefas operacionais de apenas garantir que as necessidades básicas de alimentação e conforto da criança sejam supridas, a fim de gerar um ambiente de apoio afetivo e acolhedor que procurem reduzir as marcas da violência trazidas pela sua história de vida que por sua vez as trouxe a situação de acolhimento (Antoni & Koller, 2001). Contudo, apesar de ainda em descobrimento o papel do Psicólogo é de suma importância dentro de um abrigo, podendo atuar em vários aspectos, por exemplo: na avaliação da criança e sua família; apontando as mudanças necessárias para a reinserção da criança no lar; mantendo o vínculo familiar; e dando treinamento e suporte psicológico à equipe técnica (CECIF, 2005). O Psicólogo faz parte de uma equipe multidisciplinar, cujo trabalho deva ultrapassar as tarefas operacionais de suprir as necessidades básicas de alimentação e conforto da criança; tentando propiciar um ambiente de apoio afetivo e acolhedor; e na busca por amenizar as marcas da violência trazidas pela sua história de vida (ANTONI e KOLLER, 2001). Dado a relação direta do acolhimento e os direitos das crianças, é importante entender que as formas de atendimento a adolescente e crianças em condição de vulnerabilidade psicológica e social, situações de abandono no Brasil foram amplamente reformulados a partir da lei n° 8.069 publicada em 1990 pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Onde a mesma garante que toda criança e adolescente devem ser criados em ambiente familiar, podendo ser reintegrados à família biológica ou postos em família substituta. Bronfenbrenner explica que se o ambiente ecológico em que a criança está inserida for bom, o tempo contará a favor do seu desenvolvimento, caso contrário, o tempo contará desfavoravelmente. O potencial desenvolvimental do meio ambiente é observado na medida em que permite a motivação e o engajamento do sujeito em atividades e interações cada vez mais complexas (Bronfenbrenner, 1996). A reformulação foi embasada pela Doutrina da Proteção Integral na Convenção sobre os Direitos da Criança da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 20 de novembro de 1989. Tendo também como principais diretrizes: o valor intrínseco da criança como ser humano; a necessidade de especial respeito à sua condição de pessoa em desenvolvimento; o reconhecimento de sua vulnerabilidade, tornando a criança e o adolescente merecedores de proteção integral por parte da família. Assim, iniciou-se um processo de desinstitucionalização no atendimento de crianças e adolescentes, já que o papel da família, as ações locais e as parcerias no desenvolvimento de atividades de atenção passaram a ser valorizadas (Rizzini & Rizzini, 2004). De acordo com Countreras, Kerns, Weimer, Gentzler e Tomich (2000), a teoria do apego mostra os estilos de regulação de emoções como processos intrínsecos e extrínsecos responsáveis pelo monitoramento, avaliação e modificação das reações emocionais. Nesse sentido, para Bowlby (1969/1990) as relações de apego seguro colaboram com o desenvolvimento de modelos internos caracterizados por valorização e apoio. Nessas relações, as crianças aprendem expectativas sociais positivas e um entendimento rudimentar de trocas recíprocas. Por outro lado, nas relações de apego inseguro não há predomínio de sentimento de segurança e valorização. Em função de interações aversivas, a criança pode desenvolver expectativas negativas, especialmente,em torno da disponibilidade dos outros em momentos de necessidade e estresse, evidenciando, posteriormente, insensibilidade, raiva, agressão e falta de empatia nas relações subseqüentes. A medida de acolhimento é executada quando o contexto familiar da criança esgota todas as condições para o desenvolvimento sadio da criança - seja na família substituta ou nuclear, fazendo com que a exposição contínua lhe possa causar dano físico ou psíquico. A intervenção é vista como diferente da relação parental em que estas crianças e jovens se desenvolviam. Há a possibilidade da relação parental desmoronar e existir desvinculação se está interferir com os interesses do indivíduo, perante a situação de perigo, visando uma intervenção mínima e participada (Borges, 2007). Com isso, o objetivo principal do estudo é entender a atuação do psicólogo e a importância da saúde mental dentro de uma Instituição de Acolhimento Infantil. Tendo como objetivos específicos: obter informações sobre o estudo da saúde mental em crianças e adolescentes abrigados; descrever todas as tarefas exercidas pelo profissional de psicologia; entender sobre a estrutura organizacional de uma casa de acolhimento. Este estudo é relevante à gestores de instituições de acolhimento, pois gera conhecimento para melhores práticas de profissionais da área de psicologia que atuam no meio. Também é relevante à pesquisadores acadêmicos, pois pode contribuir a trabalhos futuros semelhantes no tocante à estruturação de passos para realização de pesquisas aplicadas na área. 2 - METODOLOGIA Foi realizada uma busca abrangente em bases de dados acadêmicas, como PubMed, Scielo, PsycINFO, GOV e em bibliotecas virtuais, como a Biblioteca Virtual em Saúde (BVS), usando palavras-chave relacionadas ao tema, como "acolhimento institucional", "abrigo de crianças", "atuação do psicólogo em instituição de acolhimento", entre outras. 3 - ANÁLISE E DISCUSSÕES DE RESULTADOS 3.1 - Dificuldades encontradas nas instituições de acolhimento: 3.1.1 - Desafios Estruturais e Operacionais: O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) de 1990, mencionado no texto, estabelece que as instituições de acolhimento devem garantir as necessidades básicas das crianças e adolescentes, como moradia, alimentação, saúde e educação. No entanto, a falta de recursos adequados para a infraestrutura e pessoal pode dificultar a oferta desses cuidados, o que foi destacado pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) em 2005 e por Silva em 2004. De acordo com as diretrizes do CONANDA/CNAS (2006, 2008) e as Orientações Técnicas (Brasil, 2009b), é fundamental que as instituições de abrigo tenham uma estrutura física completa, com quartos que acomodam no máximo quatro crianças ou adolescentes e instalações que garantem o conforto e a acessibilidade. O desafio aqui é financiar e manter essa infraestrutura. Enfatiza a necessidade de profissionais com formação adequada, como coordenadores, educadores/cuidadores e profissionais de saúde, para garantir o atendimento de qualidade. No entanto, encontrar e manter uma equipe comprometida pode ser complicado, especialmente em regiões com escassez de profissionais com formação e disposição para tal serviço. A alta rotatividade de profissionais, conforme foi indicado neste trabalho, pode comprometer a estabilidade e a continuidade do cuidado, além de deficiências no estabelecimento de vínculos com as crianças e adolescentes. Isso ressalta a necessidade de estratégias para reter funcionários específicos. Dado o histórico de traumas, violência e abandono que muitas crianças e adolescentes abrigados enfrentam, o psicólogo desempenha um papel crucial na abordagem de questões psicológicas e sociais. Essa complexidade exige abordagens terapêuticas sensíveis e eficazes. Destaca a importância de manter vínculos familiares ao mesmo tempo em que se assegura o bem-estar das crianças. Essa é uma tarefa complexa, que envolve o trabalho do psicólogo na construção de relações afetivas e de confiança com os profissionais da instituição, sem sobrepor o lugar da família de origem. A responsabilidade do município na gestão do sistema de acolhimento implica um desafio significativo, uma vez que requer alocação de recursos financeiros substanciais e a garantia de que as políticas estejam em conformidade com regulamentações e padrões de qualidade. O acolhimento institucional é encargo do município, com base em documentos do Conselho Nacional de Assistência Social (CNAS) e do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (CONANDA). Isso reflete a importância da descentralização das políticas sociais, conforme discutido por Carvalho (2011) e está alinhado com as diretrizes estabelecidas em documentos como as "Orientações Técnicas para os Serviços de Acolhimento para Crianças e Adolescentes" de 2009 (Brasil, 2009b). A desinstitucionalização, orientada pelas diretrizes do Estatuto da Criança e do Adolescente, representa uma mudança de paradigma na forma de atender crianças e adolescentes em situação de risco. Isso implica na necessidade de criar redes de apoio e garantir que o sistema de acolhimento seja parte de um processo de reintegração familiar ou encaminhamento para família substituta, quando apropriado. Esse processo é desafiador, pois requer uma análise cuidadosa das situações familiares, bem como a implementação de medidas que promovam o retorno das crianças ao ambiente familiar sempre que possível. 3.1.2 - Reprodução das Relações Parentais: A visão de que as instituições de acolhimento buscam reproduzir as relações parentais, mencionada neste trabalho, está alinhada com a ideia de que os cuidadores nessas instituições desempenham um papel fundamental. Autores como Cassol e De Antoni (2006) concordam com essa perspectiva, enfatizando a importância das relações afetivas no desenvolvimento das crianças em acolhimento. As orientações do CONANDA/CNAS, também mencionadas no texto, estão alinhadas com a Teoria do Apego de Bowlby (1969), que destaca a importância dos vínculos afetivos seguros. Essas orientações refletem a necessidade de criar um ambiente de cuidado afetivo nas instituições de acolhimento, conforme discutido por autores como Barros & Fiamenghi Jr. (2007) e Prada (2007). 3.2 - Atribuições do Psicólogo nas Instituições de Acolhimento O psicólogo nas instituições de acolhimento tem a responsabilidade de oferecer suporte emocional e psicológico às crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. Ele desempenha um papel fundamental na promoção do desenvolvimento saudável desses jovens, considerando a importância da família e dos direitos estabelecidos pelo ECA e pela Doutrina da Proteção Integral. A mediação realizada pelo psicólogo é de grande relevância, pois este fará a inclusão, em seus relatos e relatórios, do desejo e da opinião dos acolhidos (Bento, 2010). De acordo com Antoni e Koller (2001), o psicólogo desempenha um papel crucial em uma equipe multidisciplinar que atua em instituições de acolhimento. Suas atribuições vão além das tarefas operacionais básicas, como alimentação e conforto. O psicólogo tem a responsabilidade de criar um ambiente de apoio afetivo e acolhedor para as crianças, buscando mitigar as marcas da violência e do abandono que fazem parte de suas histórias de vida. O papel do psicólogo nas instituições de acolhimento dentro do contexto legal estabelecido pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Esse marco legal garante os direitos das crianças e adolescentes, estabelecendo que eles devem ser criados em ambiente familiar sempre que possível. Essa reformulação foi embasada na Doutrina da Proteção Integral, que reconhece o valor intrínseco da criança, sua condição de pessoa em desenvolvimento e sua vulnerabilidade. A partir da Doutrina da Proteção Integral, iniciou-se um processo de desinstitucionalização no atendimento de crianças e adolescentes. Esse movimento visa a valorização do papel da família, ações locais e parcerias no desenvolvimento de atividades de atenção, conforme discutido por Rizzini& Rizzini (2004). Nesse contexto, o psicólogo desempenha um papel central ao promover o bem-estar emocional e psicológico das crianças e adolescentes acolhidos. 3.3 - Como o trabalho do psicólogo pode ser desenvolvido na prática O trabalho do psicólogo em instituições de acolhimento infantil é multifacetado e crucial para o bem-estar das crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. As contribuições da Teoria Ecológica de Bronfenbrenner (1996) considera que o desenvolvimento de uma criança é influenciado por diversos sistemas, desde o microssistema (a família) até o macrossistema (a sociedade). O psicólogo pode aplicar essa perspectiva para entender como a interação entre a criança e sua família impactou seu desenvolvimento e identificar fatores de risco. Na avaliação e Intervenção nos Microssistemas, o psicólogo pode trabalhar diretamente com as crianças, cuidadores e famílias para avaliar e intervir nas relações próximas. Isso envolve fornecer apoio emocional às crianças, promover relações saudáveis com os cuidadores e facilitar a reintegração familiar, conforme determinado pelo ECA. Intervenção no Mesossistema: O psicólogo pode facilitar a comunicação e a cooperação entre a instituição de acolhimento, a família de origem e outros sistemas que impactam as crianças. Isso ajuda a garantir que a criança experimente transições saudáveis e evite o isolamento social. Na atuação no exossistema, psicólogo pode colaborar com órgãos externos, como o Conselho Tutelar, para garantir que os direitos das crianças sejam respeitados e que as políticas de acolhimento estejam alinhadas com as normas estabelecidas pelo ECA. Considerando o Macrossistema, o psicólogo deve estar ciente das influências culturais e ideológicas que afetam o ambiente da instituição de acolhimento. Isso é crucial para compreender o contexto social em que as crianças se desenvolvem e adaptar as intervenções de acordo. No monitoramento e Avaliação Contínua, O ECA exige avaliações periódicas da situação das crianças em acolhimento. O psicólogo pode desempenhar um papel fundamental na condução dessas avaliações, determinando se a reintegração familiar é viável ou se outras soluções de cuidado são necessárias. O psicólogo deve estar atento aos fatores de risco e proteção que afetam as crianças no ambiente de acolhimento. Isso pode incluir a identificação de possíveis traumas, problemas de adaptação e necessidades específicas de apoio. A Doutrina da Proteção Integral, baseada na Convenção sobre os Direitos da Criança, enfatiza o valor intrínseco da criança e sua condição de pessoa em desenvolvimento. O psicólogo, guiado por essa doutrina, trabalha para preservar os vínculos familiares sempre que possível, reconhecendo que a família deve ser a unidade básica de cuidado e apoio. Essa abordagem está em conformidade com os princípios do ECA, que busca reintegrar a criança na família de origem ou em uma família substituta. Os princípios da ética profissional em psicologia, como a orientação do Conselho Federal de Psicologia, destacam a importância da supervisão e do suporte entre profissionais. O psicólogo pode fornecer treinamento, orientação e supervisão para a equipe que cuida das crianças acolhidas, assegurando que as práticas sejam baseadas em evidências e respeitem os direitos e bem-estar das crianças. A terapia cognitivo-comportamental, que tem base em pesquisas sólidas, pode ser uma abordagem eficaz na intervenção psicológica. O psicólogo pode usar essa abordagem para lidar com questões como trauma, abuso, e dificuldades emocionais. Além disso, abordagens de grupo podem ajudar a criar um senso de comunidade e apoio entre as crianças e adolescentes acolhidos. A Teoria do Apego de Bowlby (1969) destaca a importância das relações afetivas para o desenvolvimento. O psicólogo, ao criar um ambiente afetivo e acolhedor, está trabalhando para atender às necessidades emocionais das crianças, fornecendo um ambiente seguro e apoiador que ajuda a atenuar as marcas de violência e abandono. Além disso, a literatura teórica sobre a desinstitucionalização e o fortalecimento do papel da família, como discutido por Rizzini & Rizzini, destaca a importância de preservar os vínculos familiares e trabalhar para reintegrar as crianças na família sempre que possível. O psicólogo, portanto, tem a responsabilidade de apoiar esse processo. As diretrizes do CNAS e CONANDA também estão alinhadas com a importância de uma estrutura física adequada e uma equipe multidisciplinar bem preparada. O psicólogo desempenha um papel fundamental nessa equipe, fornecendo sua expertise na área de saúde mental. Em relação à formação da equipe multidisciplinar, o psicólogo, conforme definido no estudo, deve ser polivalente, flexível e emocionalmente estável. Ele deve trabalhar em colaboração com profissionais de serviço social, educação, medicina, direito e organização de tempos livres para garantir um atendimento abrangente e holístico. Sendo assim, o papel do psicólogo em instituições de acolhimento infantil é altamente complexo e exige uma abordagem que abranja diversas teorias e diretrizes éticas. Sua atuação está fortemente enraizada nas bases teóricas, legais e éticas, garantindo que as crianças e adolescentes recebam o apoio necessário para seu desenvolvimento saudável e a possibilidade de reintegração na família, sempre que isso for viável. 4 - CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente pesquisa analisou de forma minuciosa o cenário das instituições de acolhimento para crianças e adolescentes, bem como explorou a complexidade do papel desempenhado pelos psicólogos nesse contexto. Os desafios estruturais e operacionais enfrentados por essas instituições, como a falta de recursos adequados e a alta rotatividade de profissionais, foram discutidos detalhadamente. Assim sendo, o estabelecimento de vínculos afetivos e a preservação dos laços familiares são aspectos cruciais do trabalho do psicólogo, em conformidade com as diretrizes legais, como o Estatuto da Criança e do Adolescente e a Doutrina da Proteção Integral. Além disso, a pesquisa ressalta a importância da Teoria Ecológica de Bronfenbrenner (1996), que oferece uma perspectiva abrangente para entender a influência dos diversos sistemas no desenvolvimento das crianças acolhidas. O estudo também evidenciou que o trabalho do psicólogo não se limita a questões operacionais, como garantir necessidades básicas, mas envolve a criação de um ambiente afetivo e acolhedor, considerando os traumas e experiências passadas das crianças. A importância da formação de uma equipe multidisciplinar, com profissionais de diversas áreas, foi destacada, demonstrando a necessidade de abordagens holísticas para cuidar das crianças e adolescentes de maneira integral. No entanto, apesar dos desafios e complexidades, este estudo ressalta o papel vital do psicólogo na promoção do bem-estar emocional e psicológico das crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade. O profissional, ao adotar uma abordagem ética e baseada em evidências, contribui significativamente para a possibilidade de reintegração familiar sempre que isso for viável. Por fim, esta pesquisa proporciona uma compreensão aprofundada das instituições de acolhimento, destacando a relevância do trabalho do psicólogo e sua influência positiva no desenvolvimento das crianças e adolescentes acolhidos. Espera-se que essas descobertas informem e orientem práticas futuras nas áreas de psicologia, assistência social e política pública, buscando sempre o bem-estar das crianças e adolescentes em situações desafiadoras. 5 - REFERÊNCIAS Ali, N. S. A., Silveira, R. S. M., & Lunardelli, M. C. F. (2004). Relato de experiência de estágio com monitores que trabalham em entidade que abriga menores em situação de risco. Em E. L. C. Goulard Júnior, M. C. F. Câneo, & A. F. Lunardelli (Eds.). Campo de estágio: Espaço de aprendizagem e diversidade (pp. 170-179). Antoni, C., Koller, S. H. (2001). O psicólogo ecológico no contexto institucional: umaexperiência com meninas vítimas de violência. Psicologia: Ciência e Profissão, 21(1), 14-29. Barros, R. C. & Fiamenghi Jr., G. A. (2007). Interações afetivas de crianças abrigadas: um estudo etnográfico. Ciência & Saúde Coletiva, 12(5), 1267-1276. Borges, B. (2007). Proteção de crianças e jovens em perigo. Coimbra: Almedina. Bowlby, J. (1988). A Secure Base: Parent-child attachment and healthy human development. New York : Basic Books. Brasil. (2009b, junho 18). Ministério do Desenvolvimento Social. Orientações técnicas: Serviços de acolhimento para crianças e adolescentes. Brasília, DF. Recuperado de http://www.mds.gov.br/cnas/noticias/orientacoes_tecnicas_final.pdf BRASIL. Estatuto da Criança e Adolescente (ECA), Lei 8069 de 13 de julho de 1990, alterada pela Lei n° 12010, 3 de agosto de 2009. Bronfenbrenner, U. (1996). A ecologia do desenvolvimento humano: experimentos naturais e planejados Porto Alegre: Artes Médicas. Carvalho, A. (2002). Crianças institucionalizadas e desenvolvimento: possibilidades e desafios. Em E. Lordello, A. Carvalho, & S.H. Koller (Orgs.), Infância brasileira e contextos de desenvolvimento (pp. 19-44). São Paulo: Casa do Psicólogo. Cassol, L. & De Antoni, C. (2006). Família e abrigo como rede de apoio social e afetiva. In D. D. Dell'Aglio, S. H. Koller, & M. A. M. Yunes (Orgs.), Resiliência e psicologia positiva: interfaces do risco à proteção (pp. 173-201). São Paulo: Casa do Psicólogo. Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente / Conselho Nacional deAssistência Social. (2008). Orientações técnicas para os serviços de acolhimento para crianças e adolescentes. Rio de Janeiro. Conselho Nacional dos Direitos da Criança e doAdolescente / Conselho Nacional de Assistência Social. (2006). Plano nacional de promoção, proteção e defesa de crianças e adolescentes à convivência familiar e comunitária. Rio de Janeiro. Countreras, J. M., Kerns, K. A., Weimer, B. L., Gentzler, A. L., & Tomich, P. L. (2000). Emotion regulation as a mediator of associations between mother-child attachment and peer relationships in middle childhood. Journal of Family Psychology, 14, 111-124. Fundo das Nações Unidas para a Infância. (2005). Situação da infância brasileira: Crianças de 0 a 6 anos: o direito à sobrevivência e ao desenvolvimento. Acesso em 02 de Abril, 2023 em http://www.unicef.org.br. Gulassa, M. L. C. R. (2010). Novos rumos do acolhimento institucional. São Paulo: NECA. http://www.psicoexistencial.com.br/web/detalhes.asp?cod_menu=108&cod_tbl_texto=2031 Lei nº. 8.069, de 13 de julho de 1990 (1990). Dispõe sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente, e dá outras providências. Acesso em 24 de Abril, 2023, em http://sileg.sga.df.gov.br/ legislacao/Federal/Leis%20federais/lei_8069_90.htm Pinheiro, I. (2000). Manual de gestão e funcionamento dos lares. Lisboa: Europress. Prada, C. G. (2007). Avaliação de um programa de práticas educativas para monitoras de um abrigo infantil. Tese de Doutorado, Programa de Pós-Graduação em Educação Especial, Universidade Federal de São Carlos, São Carlos, SP. Ramião, T. (2014). Lei de proteção de crianças e jovens em perigo. Lisboa: Quid Juris Sociedade Editora Rizzini, I. & Rizzini, I. (2004). A institucionalização de crianças no Brasil: percurso histórico e desafios presentes. Rio de Janeiro: Editora PUC-RJ. Salina-Brandão, A., & Williams, L. C. D. A. (2009). O Abrigo como Fator de Risco ou Proteção: Avaliação Institucional e Indicadores de Qualidade. Psicologia: Reflexão e Crítica, 22(3), 334-343. Shaw, T. V. (2007). Reentry into the foster care system after reunification. Children and Youth Services Review, 28(1), 1375-1390. Silva, L. B. (2009). O psicólogo em abrigo – uma compreensão fenomenológico-existencial. Psico-existencial. Recuperado em 20 outubro, 2012, de Silva, E. R. A. (2004). O perfil da criança e do adolescente nos abrigos pesquisados. In E. R. A. Silva (Org.), O direito à convivência familiar e comunitária: os abrigos para crianças e adolescentes no Brasil (pp. 41-70). Brasília: IPEA. Valle, J., & Zurita, J. (2000). El acogimiento residencial en la protección a la infancia. Madrid: Ediciones Pirámide. image1.png