Prévia do material em texto
Conflitos africanos Alessandra de Fatima Alves 12 3 CONFLITOS AFRICANOS “Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.” (Nelson Mandela) “A liberdade de um homem é o jugo de outro.” (provérbio africano de Benim) Uma breve história da África pré-colonial: aspectos físicos, povos e cultura A África, embora tenha uma população reduzida com quase 1 bilhão de habitantes (14% da população mundial), ocupa 20% da superfície terrestre, constituindo um dos continentes mais extensos. Essa massa de terra está posicionada no “centro do mundo”, considerando os atuais centros civilizatórios e os fluxos e conexões exis- tentes entre eles. O continente africano possui 54 Estados independentes, o que representa 27% dos membros das Organização das Nações Unidas. Da mesma forma, eles constituem um terço dos Estados-membros do Movimento dos Países Não Alinhados. Jovens residentes de Ondjiva, província do Cunene (sul de Angola), defendendo o uso de trajes africanos. É enganosa a ideia de que o continente africano evoluiu isolado dos grandes fluxos internacionais. Desde o início dos tempos históricos, a metade norte e leste do continente manteve contatos regulares com a Ásia e a Europa. Por essa razão, qualquer estudo que deseje colocar o continente numa perspectiva global deve iniciar pelo conhecimento e pela análise da dimensão pré-colonial e fazer estruturas profundas da história do continente. Da mesma forma, conhecer sua configuração geográfica é indispensável, especialmente a partir da formação de um sistema mundial calcado nos fluxos comerciais dos grandes espaços oceânicos, a partir do século XV. É errônea a percepção de uma África cristalizada em dezenas de povos e centenas de “tribos”, com suas estruturas específicas consolidadas. O quadro é mais o de um intenso deslocamento, interação, fusões e o sur- gimento de novas entidades. Da ocupação de espaços e seus conflitos, do desenvolvimento de novas formas de produzir e das conexões com outros povos africanos e extracontinentais foi emergindo uma espécie de sistemas de “relações internacionais”, que terá uma dinâmica apenas parcialmente determinada pelos estrangeiros e que não desaparecerá por completo, mesmo com a ocupação europeia. 4 O continente africano está separado da Europa pelo mar Mediterrâneo e da Ásia pelo mar Vermelho, mas liga-se a ela por meio de sua extremidade nordeste, o istmo de Suez. A principal subdivisão da África se refere às duas regiões que ficam ao norte e ao sul do Saara – África subsaariana ou África negra, e ao norte da África, ou Magreb (Ocidente, em árabe). Sendo o terceiro maior continente da Terra, a África ocupa, juntamente com as ilhas adjacentes, uma superfície de 30 milhões de km2, mais de 20% do total das massas terrestres, formando um espaço compacto. Com exceção dos montes Atlas, no norte, do maciço etíope e do Drakensberg sul-africano, o território africano é um planalto vasto e ondulado, marcado por quatro grandes bacias hidrográficas: do Nilo, do Níger, do Congo e do Zambeze. A África pode ser dividida geograficamente em três regiões distintas: o planalto setentrional, os planaltos central e meridional e as montanhas do leste. Em geral, a altitude do continente aumenta de noroeste para sudeste. A característica peculiar do planalto setentrional é o Saara, que se estende por mais de um quarto do território afri- cano. As faixas litorâneas baixas, com exceção da costa mediterrânea e da costa da Guiné, são estreitas e elevam-se bruscamente em direção ao planalto. O litoral se caracteriza por dimensões contínuas, quase sem reentrâncias e portos de águas profundas e com plataforma continental muito exígua, o que limita as possibilidades de pesca e jazidas de petróleo off-shore. Por fim, os rios, em sua maioria, não são navegáveis a grandes embarcações, devido a um grande número de corredeiras, dificultando o acesso ao interior do continente. Outra característica peculiar é que boa parte dos rios africanos tem drenagem endorreica, ou seja, correm para o interior do continente, não atingindo o mar. 5 A África é riquíssima em recursos minerais, possuindo em seu subsolo a maioria dos minerais conhecidos, sobretudo os mais raros e valiosos, muitos deles em quantidade e qualidade notáveis. Sua principal atividade eco- nômica é a mineração, principalmente nas grandes jazidas de carvão, reservas de petróleo e gás natural, bem como as maiores reservas de ouro do mundo, diamantes, bauxita, cobre, manganês, níquel, germânio, lítio, fosfato, rádio e titânio. Os principais países produtores desses minérios são a República Democrática do Congo, a África do Sul e a Namíbia, que juntos representam aproximadamente 98% da produção mundial de diamantes. A profunda contradição do continente africano fica explícita numa comparação referente à energia, pois há aproximadamente 66 bilhões de barris de petróleo apenas ao sul do Saara e inúmeras jazidas de gás natural, entre- tanto, a maior parte da energia consumida na África provém da lenha (90%). A segunda atividade econômica mais importante no continente é a agricultura, praticada de três formas específicas: de subsistência, em sistemas de rota- ção de terras, desenvolvida por nativos nas áreas de floresta e savana; permanente, realizada por povos berberes no Marrocos, felás no Egito e alguns povos negros da África ocidental e da meridional; e plantation, cultivo de produtos tropicais em grande escala, direcionada para exportação. Dentre esses produtos agrícolas exportados encontram-se o café, o cacau, a borracha, a cana-de-açúcar, o algodão, o amendoim e o azeite de dendê. 6 A pecuária é pouco praticada nas áreas equa- toriais e tropicais, mas, na zona norte africana (Egito, Líbia, Marrocos, Argélia e Tunísia), há grandes criações de camelos, ovinos e caprinos. O nível de industrializa- ção africana é baixo, existindo, no entanto, no norte do continente, indústrias relativamente bem desenvolvidas, especialmente no Egito (alimentícia, petrolífera, têxtil e siderúrgica) e na Argélia (óleos vegetais e máquinas agrícolas). No sul africano, também há industrialização média no Zimbábue (alimentícia e de energia) e na Áfri- ca do Sul (têxtil, alimentícia, química, siderúrgica, meta- lúrgica e de equipamentos de transporte). Atualmente, vive no continente africano quase 1 bilhão de pessoas, com densidade demográfica de 30 habitantes por km2. A população urbana é de, aproxi- madamente, 40%, ao passo que a rural é de 60%. O continente está dividido em cerca de 800 grupos ét- nicos, cada qual com sua própria língua e cultura. A distribuição populacional da África é muito irregular: as regiões desérticas são quase desabitadas; em compen- sação, nas regiões às margens do rio Nilo, nos vales do Marrocos, na Tunísia, na Nigéria, na área urbano-indus- trial da África do Sul e na região dos grandes lagos, a densidade é bastante elevada. Ruanda e Burundi, por exemplo, destacam-se por estarem entre as mais altas densidades demográficas do mundo. Obá Ovonramwen, de Benin, e sua família Na África, são faladas mais de mil línguas dife- rentes, que são divididas em quatro famílias: as afro- -asiáticas, as khoisan, as nígero-congolesas e as nilo- -saarianas. Além do árabe, as mais faladas são o suaíle e o hauçá. Há também várias línguas que pertencem a famílias de línguas não africanas, como a malgaxe, que é uma língua austronésia (malaia), e o afrikaaner (derivado do holandês), pertencente à família das lín- guas indo-europeias, assim como a maioria das línguas crioulas da África. Além disso, a maior parte dos países africanos adotou, pelo menos como uma de suas lín- guas oficiais, uma língua europeia (português, francês e inglês nas respectivas ex-colônias), sendo que essas línguas são geralmentefaladas pela população urbana desses países e, particularmente, por todas as pessoas com uma escolaridade significativa. As línguas alemã, italiana e espanhola são ainda faladas por minorias na Namíbia, Camarões, Eritreia, Líbia, Somália, Marrocos e Guiné Equatorial. Muitas foram as tentativas de classificar os gru- pos étnicos na África, seja pela cor da pele, pela iden- tidade linguística ou pelas características culturais. Uma das primeiras tentativas nessa direção foi a de definir os habitantes do norte da África como caucasoides e os ha- bitantes, ao sul do Saara, como negroides. Entre esses dois grupos podem ser encontradas variações e, além dis- so, entre todos esses povos houve cruzamentos, de forma que múltiplos graus de mestiçagem ocorreram e ainda são esperados. Originalmente, também as fronteiras geo- gráficas não eram tão rigorosas como atualmente. A África pré-colonial era dividida em grandes rei- nos ou impérios, que funcionavam com uma organiza- ção política e socioeconômica assentada em estruturas específicas, cujo núcleo de base é a família estendida. A sociedade africana tradicional era dividida em várias categorias sociais ou castas, que exerciam de forma ex- clusiva uma função ou uma atividade socioeconômica específica. Essa organização social, apesar de suas ca- racterísticas complexas, tanto dos pontos de vista po- lítico e cultural, quanto do ponto de vista econômico, teve um papel fundamental nas relações internacionais da época. Outro ponto importante se refere à questão da posse da terra. Na Idade Média, o sistema feudal derivava da posse da terra, frustrando os habitantes, teoricamente protegidos pelo Estado, e resultando na formação de uma nobreza na Europa e em outras partes do mundo. Já na África negra, nem o rei ou qualquer outro senhor tinha o sentimento pela da posse da terra, ou seja, a consciência do poder político derivava princi- palmente de concepções religiosas e morais. O rei, um pequeno senhor local, possuía escravos e reinava sobre toda região, cujos limites conhecia perfeitamente. A fon- 7 te de recursos do Estado tradicional africano sempre foi baseada em um sistema de taxas, extração e dos bens provindos da guerra. Do ponto de vista religioso, o continente africano apresenta uma rica variedade que reflete o importante papel das crenças nas organizações políticas e socioeconômicas. Isso mostra a importância da religião, da divin- dade ou do sagrado na vida dos africanos, bem antes da chegada das chamadas religiões reveladas (cristianismo e islamismo). Nesse sentido, a África tem sido uma grande precursora dos valores humanos incorporados pelas religiões reveladas, apesar do discurso que anunciava a tarefa de “civilizar” os povos africanos a partir de seus valores. Da mesma maneira, a diversidade dos grupos linguísticos, bem como a organização sociopolítica da África pré-colonial, continua pouco conhecida ou simplesmente desvalorizada. A religião tradicional africana teve um papel importante na formação política, social, econômica e cultural do continente, da mesma maneira que outras religiões e crenças em outras partes do mundo. O continente africano é conhecido pela diversidade e pela riqueza de suas culturas e religiões, mas sobre o período pré-colonial a maioria dos filmes e documentários mostra uma imagem essencialmente primitiva e “bárbara”. No entan- to, essa visão não passa de um olhar racista e ideológico que busca descaracterizar o continente para poder controlá-lo com facilidade. Apesar disso, nenhuma das classificações pode apagar a história da mais antiga região do mundo, que é, culturalmente, um conjunto plural, um mosaico de nações étnicas correspondentes a identidades distintas. O legado colonial No final do século XIX, o capitalismo caminhava em passos largos para a monopolização da economia a que assistimos atualmente; os trustes nascidos no continente europeu atingiram uma força tão grande, que os mesmos Estados aos quais estavam associados lançaram-se sobre novas bases territoriais, procurando garantir o acesso facilitado às fontes de matérias-primas existentes na África e na Ásia. Assim, na busca por novas áreas que garantissem a expansão capitalista, em 1885 deu-se a Conferência de Berlim, que instituiu uma divisão do continente em territórios coloniais, submetidos ao poder e aos interesses das potências europeias. Essa “partilha da África” não respeitou os limites culturais dos povos africanos, fazendo com que populações milenarmente ligadas fossem separadas, enquanto outras, muitas vezes inimigas, fossem subme- tidas a um mesmo poder central. Iniciava-se, então, o neocolonialismo e um intenso processo de expropriação das riquezas africanas. 8 A África foi retalhada, de acordo com as possibilidades de exploração, e submetida ao sistema capitalista na sua mais cruel forma de espoliação. Assim, os solos mais férteis foram destinados à agricultura do tipo plantation, e dedicados à produção de café, cana-de-açúcar, cacau e algodão, produtos que não abasteciam as populações locais, mas sim eram exportados para a Europa, onde eram industrializados. As imensas riquezas minerais estimularam a corrida imperialista, que, além de prioritária aquisição das fontes de matéria-prima, também visava converter aqueles habitantes em mão de obra capaz de dar vazão à produção. Os africanos foram introduzidos em relações de trabalho destoante dos padrões culturais até então vigentes e a novas formas de organização social e política, que lhes eram estranhas: o Estado-nação, o modo de produzir e o salário. Conferência de Berlin A intensificação da corrida por esferas de influência no território africano, originada pela disputa entre capi- talistas europeus e Estados africanos, como Ashanti, Benin e N’Gola, que controlavam ferreamente as exportações de novos produtos (óleo de palma, amendoim, ouro e marfim), foi potencializada pela crise econômica que eclodiu na década de 1870. Para os europeus, era necessário abrir o comércio direto para os produtos africanos e manufa- turados europeus. Nesse quadro, tornou-se necessária uma ruptura do controle do acesso ao interior, que era man- tido pelos Estados do litoral. Tais Estados vinham, ao longo do século XIX, estabelecendo impérios tributários com a subjugação dos vizinhos menos poderosos e, assim, compensando a repressão ao tráfico internacional de escravos. Outro aspecto decorrente do processo foi a internacionalização, no continente, da escravidão moderna, para atender à demanda do comércio legítimo dos novos produtos. A utilização de escravos na produção africana provocava o aumento da intervenção filantrópica (via missionários) e da pressão sobre os Estados europeus para intervir, com o estabelecimento de consulados e agentes para firmar acordos de proibição do tráfico de escravos e da liberalização de mercados, além de estabelecimentos de esferas de interesse. 9 Frente aos tradicionais parceiros nas relações da Europa com o continente africano – Inglaterra, França e Portugal –, que deslocaram os outros da época mer- cantilista, surgiram novos competidores: o rei Leopoldo II, da Bélgica, e empresários alemães. Se o rei pretendia construir um império colonial privado na África central, os alemães desejavam estabelecer esferas de influência no litoral dos territórios com projeção para o interior, nas áreas não controladas por potências tradicionais. Méto- dos privados, através de empresas que recebiam apoio estatal e de entidades filantrópicas, foram empregados. Associações aparentemente internacionais de explora- ção, além de companhias com carta de direitos emitidos por potências europeias, mesclaram-se nessa corrida, ge- rando desconfiança recíproca e instabilidade. Exploradores e viajantes, agindo por representa- ção ou autonomamente, estabeleciam, por onde passa- vam, tratados e acordos pessoais em benefício de Esta- dos europeus, sob a formade cessão de soberania ou de estabelecimento de esferas monopolistas de proteção. Portugal tentou fortalecer, com reconhecimento interna- cional, seu controle sob a foz do rio do Congo, sendo barrado pelo governo britânico. Essa situação, numa área de intensa disputa, proporcionou condições para a con- vocação de uma conferência internacional na cidade de Berlin, de novembro de 1884 a fevereiro de 1885. Nesta conferência, foram estabelecidas regras para a liberdade de comércio e igualdade de condições para os capitais concorrentes. O mundo liberal vencia o protecionismo. Paralelamente aos tratados de navegação, foi re- conhecida a esfera de influência da Alemanha sobre os territórios litorâneos conquistados ou ocupados por suas Chartered Companies e o Estado Livre do Congo, pro- priedade pessoal do rei da Bélgica. Definiam-se, também, a legitimidade e inviolabilidade das esferas dos antigos ocupantes do litoral da África – Inglaterra, França e Portu- gal. A conferência estabeleceu ainda as regras para a le- gitimidade da dominação: a prova de ocupação definitiva e a declaração de tais normas para possível contestação por outras potências europeias e assinaturas de acordos. Após a conferência, os beneficiários trataram de impor sua dominação no interior e de remodelar geopolí- tica, social e economicamente o continente, transformado em objeto pelo novo tipo de imperialismo que surgia na Europa. Para isso, usavam os mesmos argumentos de sua instalação no litoral: fim da escravidão, civilização, cristia- nismo e abertura do território para o comércio internacio- nal. Iniciaram-se as guerras de conquista e a dependência econômica do continente às economias industriais das potências europeias. Tendo o Congresso de Berlin estabelecido as re- gras para a partilha da África e reconhecido a supremacia das potências europeias, cabia realizar ajustes das fron- teiras litorâneas e a incorporação do interior do conti- nente. Diplomacia – para as relações entre os europeus – e armas modernas – para as relações com os africanos – seriam utilizadas. A dominação efetiva do continente gerou guerras de conquista territorial e para a submissão dos africanos até as vésperas da Primeira Guerra Mun- dial. Os naturais do continente resistiam à perda de uma soberania e às transformações econômicas, fiscais e polí- ticas que, junto com a exploração predatória de recursos naturais e demográficos, impunham a transformação da África. Os defensores do imperialismo visavam explorar economicamente o continente e adaptá-lo à nova divi- são internacional do trabalho como região periférica e subordinada. A riqueza produzida com o atendimento da demanda de minerais, matérias-primas e gêneros tropi- cais da nova sociedade fabril, monopolista e urbanizada deveria ser acumulada na metrópole para garantir lucro e custo de produção, além de reservas que possibilitassem a liberdade de ação e produção das potências imperialis- tas. Para isso, era necessário submeter territórios e popu- lações, reorganizar a produção, o sistema de propriedade e obrigar a população ao trabalho orientado pelos novos objetos e volumes de produtos. Esse imenso processo de expropriação da economia, do tempo, da cultura e das condições de vida originou rebeliões e resistências, prin- cipalmente nas sociedades sem organização estatal. A anulação da soberania e a subordinação das sociedades organizadas sob formas estatais foram efetivadas através de guerras de conquista. A superioridade em armamentos e meios de locomoção proporcionada pela nova tecnolo- gia foi a garantia da vitória na repressão às resistências e nas guerras. Enquanto a violência física e simbólica marcou as relações de conquista, as diferenças entre as potências eram resolvidas entre os diplomatas, por meio de mapas incompletos e falhos. Isso resultou no estabelecimento de fronteiras em linhas retas que reuniam, em uma unidade administrativa, povos diferentes e até inimigos e dividiam conjuntos étnico-linguísticos com uma longa história de unidade. 10 Processo de descolonização A expansão colonial europeia na África havia divi- dido o continente entre quatro potências – Grã-Bretanha, França, Bélgica e Portugal. Essas potências coloniais se diferenciavam em níveis de desenvolvimento, riquezas e necessidades. Tal situação determinou diferenças secun- dárias, porque as colônias eram predominantemente de exploração e não de povoamento. Determinou também uma reorganização na geografia política africana, volta- da para o comércio metropolitano, unindo e separando áreas e economias, sociedades e povos. Tal reorientação geoeconômica manifestou-se pelas criações de novas “regiões” na África, que entravam em contradição com a tradicional ordenação continental, externalizando sua economia e criando novas realidades sociais e políticas. O domínio colonial clássico na África durou apro- ximadamente 75 anos, tempo suficiente para o amadure- cimento de sua incorporação na economia mundial, das economias capitalistas monopolistas e para a emergência de um movimento emancipacionista bastante problemá- tico. Nesse período, os impérios coloniais submeteram ou cooptaram tanto as resistências tradicionais como as “modernizantes”, ordenaram o continente e mudaram seu perfil. O auge da dominação e reordenação se deu no período entre guerras, com marcada participação da crise econômica de 1929 e a posterior recessão. Ao final da Segunda Guerra Mundial, a situação crítica das metrópoles europeias e sua necessidade de riquezas entraram em contradições com os ideais dos social-democratas que chegaram ao poder em 1945. Isso levantou o problema da evolução dos impérios. Por ou- tro lado, certos grupos empresariais já haviam alcançado um nível de desenvolvimento que podia prescindir da subordinação direta à metrópole. A solução era apresen- tada por um longo e quase secular processo evolutivo de emancipação. Frente a tal projeto, classificaram-se vários elementos de oposição: a ascensão dos Estados Unidos e da URSS como potências mundiais e anticolonialistas; o sistema da Organização das Nações Unidas, com seu comitê de descolonização; as reivindicações africanas de emancipação; e os interesses econômicos das emer- gentes multinacionais estadunidenses – com obstáculos estabelecidos pelas políticas dos impérios coloniais. Tais fatores foram determinantes nos processos de descoloni- zação. Na África, onde os colonizados e suas reivindica- ções são protagonistas preponderantes, deve-se agregar o papel das decisões da Conferência de Bandung e das guerras anticoloniais da Ásia como elementos-chave da descolonização. Embora o auge da descolonização da África tenha acontecido na passagem da década de 1950 para a de 1960, a reivindicação pacífica ou violenta pela indepen- dência se iniciou no imediato pós-guerra. Ela se aprofun- dou e se radicalizou com as tentativas das metrópoles que buscaram criar mecanismos de autonomização lenta e controlada. Isso favorecia as forças internas arcaicas e a permanência das colônias subordinadas à metrópole. Regionalização geopolítica da África contemporânea e seus principais conflitos A África adentrou o século XXI apresentando um melancólico estado econômico, social e também geopo- lítico. Esquecido pela globalização, o continente assiste impotente à degradação humana e a proliferação da pobreza. Guerras, fome e aids figuram entre os compo- nentes da realidade de boa parte do continente. Para onde quer que se olhe, veem conflitos de ordem étni- ca, religiosa ou política. Na porção centro-meridional, a trágica situação social da África subsaariana faz dessa região a mais pobre do Planeta. Eis o legado colonial! Os conflitos na África são basicamente motiva- dos por: disputas territoriais; golpes de Estado, que geram crises políticas; rivalidades tribais, motivadas por questões étnicas ou religiosas; disputas por água erecursos minerais; e imersão do povo na miséria. Es- sas motivações são provenientes do processo de colo- nização do continente, da Guerra Fria, da intervenção de terceiros Estados e de eleições conturbadas. Por anos, a África tem sido lembrada como um continente em completo caos, marcado por guerras, fome e miséria, e cujas esperanças de melhorias são irrisórias. Todas essas mazelas foram associadas ao subdesenvolvimento dos países desse continente de tão ricas culturas. Contudo, essa realidade caótica está mais relacionada à própria estrutura e estabilidade do Estado do que ao próprio desenvolvimento desses países. 11 Pesquisas apontam que a baixa autoridade es- tatal, isto é, a presença pouco efetiva do Estado em seu território era o fator mais relevante na ocorrência de guerra civis e de falência de Estados – momento no qual a estrutura estatal deixa de cumprir suas funções básicas e o país é tomado por ondas de violência –, se comparado à variável do desenvolvimento e subdesen- volvimento dos países da África subsaariana. Uma importante questão constatada a partir dessas pesquisas foi a de que a existência de lideranças tradicionais e a continuidade de características das civi- lizações pré-coloniais desempenharam papel essencial para a autoridade do Estado, em alguns casos fortale- cendo-a e, em outros, concorrendo com essa. Pesquisadores atentam também para o fato de que, nos 21 países que nunca tiveram guerra civis ou conflitos não estatais, a estabilidade foi garantida devi- do a fatores históricos e políticos no período pós-colo- nial, que garantiram a capacidade do Estado de projetar seu poder por todo seu território. Ao lado disso, países que passaram por guerras, mas não retornaram mais a estágios de colapso após a paz, optaram pelo caminho de reconstrução da estrutura do Estado e de retradi- cionalização das instituições políticas, e não tanto pela busca de desenvolvimento, como é o caso de Angola, República do Congo, Libéria e Ruanda. Isso demonstra que, seja através da modernização das instituições es- tatais, seja pela aproximação das instituições daquilo que eram anteriormente à chegada dos colonizadores, os países que foram sucedidos em seus processos de pacificação e estabilidade foram os que seguiram um caminho focado na reconstrução do Estado e na efetiva execução de suas funções. Um dos maiores desafios da África será mudar a imagem pela qual ge- ralmente é lembrada, trazendo uma nova que reflita a heterogeneidade e tendência de pacificação da região. Sudão e o conflito norte-sul O cenário geopolítico do maior país africano é marcado por uma guerra civil que perdurou por mais de 20 anos e tem conduzido ao genocídio da população. A guerra tem razões religiosas e envolve, de um lado, a maioria muçulmana, ao norte do país, e, de outro, uma forte minoria cristã e animista do sul. Essa situação de instabilidade vem desde a inde- pendência do Sudão, em 1956, mas se agravou a partir de 1983. Naquele ano, o governo muçulmano impôs a sharia (lei corânica) a todo o conjunto da sociedade, fomentando a imediata reação das populações cristã e animista do sul. Começava, então, uma sangrenta guerra civil. O Sudão é ex-domínio egípcio e ex-colônia britâ- nica: para além da questão religiosa, o fator étnico é dos mais complicados, uma vez que se contabilizam no país, aproximadamente, 570 grupos distintos e mais de cem idiomas. Árabes e núbios concentrados no norte somam aproximadamente 50% da população. A outra metade está dividida em inúmeros grupos minoritários. Após a radicalização islâmica do governo de Car- tum (capital sudanesa), surgiu nos anos 1980, no sul do país, um movimento denominado MPLS (Movimento Po- pular de Libertação do Sudão). Com um viés ideológico e empunhando a bandeira do socialismo, o MPLS propu- nha um novo governo de unidade nacional, com respeito à diversidade religiosa que caracteriza o Sudão, opondo- -se ao modelo teocrático de imposição do islã como re- ligião oficial. Para fazer frente à repressão do governo central, derivou do MPLS uma facção armada, o SPLA (Exército Popular de Libertação do Sudão). A guerra civil se agravaria a partir de então. O que motivava a guerrilha do sul a insistir na ação armada era o desprezo com que o governo muçulmano do país tratava as áreas cristãs e animistas. 12 Alternando golpes militares intrínsecos ao gover- no sudanês e frágeis eleições, o país seguiu praticamen- te dividido entre o norte e o sul, prolongando a guerra. Algumas publicações internacionais relataram que os EUA passaram a apoiar e armar os guerrilheiros do sul. Especula-se que, em represália, o governo sudanês tenha passado a dar abrigo a militantes da Al-Qaeda. No meio desse emaranhado, encontra-se a popu- lação sudanesa que sofreu as mais duras consequências. A maioria muçulmana do norte foi atacada constante- mente por guerrilhas cristãs, enquanto o governo central de Cartum isolava as aldeias e tribos simpatizantes dos guerrilheiros cristãos, levando-as à miséria. Com uma ge- ografia natural não muito favorável em grandes trechos do país, o Sudão teve uma seca longa e intensa, o que agravou as condições da agricultura, principal atividade nacional. O resultado de tantas situações críticas foi uma gravíssima crise humanitária: de 1983 até 2005, a guerra provocou 2 milhões de mortes e mais de 6 milhões de refugiados, que é aproximadamente o total da população do país. É isso que está por traz das cenas de crianças africanas abandonadas e degradação humana no Sudão, que, por vezes, a mídia veicula. Aproximando-se sobremaneira da opção funda- mentalista, o governo sudanês se envolveria ainda em duas contendas internacionais. A primeira foi uma dispu- ta territorial na zona de fronteira com o Egito: os suda- neses requerem o direito sobre a região de Halaíb (rica em minérios, particularmente o fosfato). O Egito, por sua vez, acusou o Sudão de apoiar grupos fundamentalistas egípcios. A segunda se deu após ataques terroristas à embaixada estadunidense em Nairóbe (Quênia) e Dar Asslaan (Tanzânia), quando os EUA acusaram o Sudão de ter dado abrigo e proteção aos terroristas que realizaram os atentados, atribuídos à Al-Qaeda. Em represália a essa hipótese, os EUA bombardearam uma fábrica em Cartum, a qual, segundo os estadunidenses, produzia armas quí- micas. O governo do Sudão afirmou tratar-se apenas de uma fábrica de remédios. Depois de vinte anos sem guerra, assinou-se, em 2005, um acordo de paz entre o governo de Cartum e os rebeldes do sul, liderados por John Garang (do MPLS). O que parecia impossível há alguns anos enfim aconte- ceu: o Sudão seria dividido em duas porções geopolíticas, uma ao norte e outra ao sul. Cada uma teria leis e exér- citos próprios, mas continuariam fazendo parte de uma só nação, ao menos até 2011, quando foi realizado um plebiscito pelo status final do país. O que realmente per- mitiu o acordo foi um fator econômico e não geopolítico: o petróleo. Norte e sul ainda precisariam chegar a um acordo com relação ao traçado da nova fronteira e como ela será controlada, como dividir a dívida do Sudão e os royalties do petróleo do novo país e que moeda será ado- tada por ele. A questão de Darfur Localizada no oeste do Sudão, a região de Darfur tem o tamanho da França e apresenta acelerado cresci- mento demográfico. Os violentos conflitos – a que um observador da ONU, Mukesh Kapila, caracterizou como “a maior crise humanitária do mundo” – iniciaram-se em 2003. Trata-se novamente de uma questão territorial separatista. Representantes da população local acusam o governo central de desprezar Darfur, entregando-a à própria sorte. Nesse contexto, enquanto o governo su- danês empregava todas as suas forças no sul, organi- zou-se em Darfur um movimento contestatório denomi- nado Frente de Libertação de Darfur (FLD) e igualmente um braço armado, o Exército de Libertaçãode Darfur (ELD ou SLAN, das iniciais em inglês Sudan Liberation Moviment Army). 13 Esse movimento realizou uma ofensiva para o leste, conquistando partes do território do país. O go- verno, ocupado com os combates no sul, confiou então a grupos de mercenários e saqueadores tribais armados a função de combater a nova insurgência, ou seja, o governo de Cartum delegou uma responsabilidade de Estado a grupos paramilitares, localmente denominados janjawid. Segundo analistas, esses grupos de extermínio existem há muito tempo, e antes da explosão da crise separatista, já saqueavam as aldeias de Darfur, promo- vendo uma verdadeira limpeza étnica, com a conivência de Cartum. O governo, obviamente, nega. A ONU, os Estados Unidos e a comunidade in- ternacional passaram a pressionar o governo sudanês para intervir mais energicamente e suspender o genocí- dio que já se verificava em Darfur. A descoberta de petróleo nessa região fez com que os países olhassem com mais atenção para lá. Du- rante encontros internacionais em Nairóbe, os Estados Unidos manifestaram a intenção de uma intervenção “humanitária” em Darfur – ideia imediatamente frus- trada pela China, que anunciou veto a qualquer iniciati- va nessa direção, no âmbito do Conselho de Segurança da ONU. Atualmente, o Sudão é um importante forne- cedor de petróleo à China, país que tem investido em oleodutos sudaneses. O conflito já causou 70 mil mortes, mais de 2 mi- lhões de refugiados (principalmente no vizinho à oeste, o Chade) e aproximadamente 3,2 milhões de depen- dentes diretos de assistência humanitária, dentro e fora de Darfur. Uma acordo foi assinado em abril de 2004, mas não trouxe segurança. Ainda há milhões de pesso- as desabrigadas por conta desse conflito. Somália: um país de guerra e fome Situada numa estratégica posição no golfo de Áden, a Somália dividi com Dijibuti o controle do estreito de Bab el Mandeb, em sua vertente ocidental. Encontra- -se em estado técnico de guerra civil, desde 1991. Dife- rentemente dos casos anteriores, o país apresenta certa homogeneidade étnica. Fala-se predominantemente a língua somali; o árabe é uma forte minoria, mas é o mesmo grupo étnico falando uma língua diferente, he- rança que remonta ao período de arabização promovida pela expansão do islã. Apesar da uniformidade, o país se encontra fragmentado em diversos clãs rivais – os protagonistas deste estado de guerra. Colonizada por italianos e britânicos, a Somália alcançou a independência em 1960, quando se firmou como uma república. Nove anos mais tarde, um regime comunista alinhado com Moscou chegaria ao poder por meio de um golpe militar. Em 1977, travou uma guerra contra a Etiópia pela disputa de Ogaden (guerra do chifre africano), re- gião que os britânicos concederam à Etiópia, o que os somalis nunca aceitaram. A Somália saiu derrotada e ainda perdeu a ajuda de Moscou, que optou por apoiar o inimigo. Soldados cubanos que davam suporte à Etió- pia ajudaram a derrotar a Somália. Em 1991, o regime militar somali foi derrubado por um emaranhado de tribos que combatiam anar- quicamente o governo. O único fator de convergência entre essas tribos era o ódio que todas nutriam con- tra o regime centralizado do governo somali. Diante do caos, o presidente se exilou e o país ficou literalmente desgovernado. Os vários clãs – aproximadamente vinte milícias tribais – não se entenderam e mergulharam em intensa guerra civil, todos contra todos. Com o caos instalado, a fome se alastrou pelo país, já prejudicado pela natural aridez. Diante da si- tuação, grupos de ajuda humanitária limitavam-se a sobrevoar e despejar pacotes de alimentos junto às 14 áreas castigadas. Mas os donativos eram confiscados pelas milícias, que assim impediam aos rivais o acesso à comida. As plantações também eram atacadas por gru- pos inimigos. Em 1992, houve uma fracassada intervenção estadunidense, que permitiu duas leituras: os Estados Unidos tentavam conter o quadro generalizado de guer- ra e a degradação humana na Somália; ou os Estados Unidos estavam se aproveitando do cenário caótico para posicionar-se estrategicamente no estreito de Bab el Mandeb, controlando, assim, a rota do petróleo, uma vez que já haviam saído vitoriosos da Guerra do Golfo, no mesmo ano. Uma mistura de duas hipóteses talvez seja o mais provável. Mas a Somália se converteu numa espécie de “breve Vietnã” aos Estados Unidos que, der- rotados, após três anos, se retiraram. No transcorrer dos conflitos, varias regiões so- malis anunciaram suas respectivas “independências”: a República da Somalilância, Puntland, Somália do Su- doeste, entre outras. Diante da obscuridade da guerra, nenhuma das pseudorrepúblicas foi reconhecida por regime algum e muito menos pela ONU. O cenário beligerante e a prolongada seca de 1997 levaram a uma nova crise humanitária. Os anos de guerra em que todos perderam e a triste realidade do país fizeram com que as principais lideranças dos inúmeros meros grupos sentassem a uma mesa de ne- gociação em 2000, no Dijibuti. Mas líderes tribais não contemplados na conferência continuaram a luta arma- da. Uma conferência maior em 2004, contando com quase todos os chefes tribais, levou a um acordo mais consistente. Criou-se um parlamento transitório, cuja composição obedeceria à proporcionalidade demográ- fica das tribos, mas que, por motivos de segurança, per- maneceria instalado provisoriamente no Quênia, país que patrocinou o mais bem-sucedido acordo de paz até então. O caso da Nigéria Potência regional africana, a Nigéria é o país mais populoso do continente, muito rico em petróleo e membro da Opep. Contudo, também vive há longos anos sob instabilidade política. A causa maior é a difi- culdade de convivência harmônica entre muçulmanos do norte e os cristãos ao sul, diferenças que já puseram o país em guerra civil. A Nigéria abriga mais de 200 etnias que abra- çam três religiões: islamismo, cristianismo e animismo. Dentre os diversos grupos, destacam-se os hauçás, fula- nis e iorubas. Os ibos, uma forte minoria, tentaram, sem sucesso em 1996, construir um Estado independente na região de Biafra, o que levou, diante da negativa do go- verno central, a uma violenta guerra civil. As duas reli- giões dominantes são o cristianismo (sul) e o islamismo (norte), que aproximadamente se equivalem em número de seguidores: cerca de 45% da população para cada. O restante pratica ritos tribais do animismo. Há minorias religiosas cristãs no sul e no norte. A formação política e cultural nigeriana foi in- fluenciada por essas três fontes distintas: a cultura islâ- mica, levada à Nigéria com a expansão muçulmana; a influência cristã, trazida pelo colonizador britânico; e os ritos tradicionais do milenar animismo africano. Apesar da relativa liberdade política e de culto, essa convivên- cia não foi pacífica. Alguns Estados nigerianos (de um total de 36) adotam a sharia (lei islâmica), e isto é fator de tensão, pois os cristãos não a aceitam. Desde sua independência, em 1960, a Nigéria é uma República Federativa, apresentando três regiões principais e autônomas. Também com um passado de golpes militares, o país tem, desde 1999, um presiden- te (cristão) democraticamente eleito e que tentou, com muita dificuldade, minimizar a instabilidade política de- corrente dos conflitos religiosos. Os conflitos são mais intensos no norte do país, onde a maioria islâmica persiste na aplicação da sharia e pretende fazer valer a sua jurisdição sobre as minorias não muçulmanas. Apesar de os políticos muçulmanos afirmarem que a sharia não atingiria os cristãos, na prática foi o contrário o que aconteceu: discriminados, muitos fugiram para outras áreas. A séria crise em 2002 deu-se porque, ignorando a fragilidade da convivência entre cristãos e muçulma- nos, organizou-se no país o concurso de “miss univer- so”. O presidente, um cristão anglicano, deu apoio à re- 15 alização do evento.Os muçulmanos consideraram uma profanação ao islã aquela exposição de mulheres semi- nuas em pleno mês do Ramadã, período sagrado para eles. A situação se agravou com uma frase divulgada no jornal mais importante do país: “até Maomé se renderia àquelas beldades”. Isso bastou para que muçulmanos e cristãos se armassem com o que podiam rumo a uma batalha campal que deixou mais de cem mortos. O epi- sódio pôs à mostra a instabilidade do país. Assim, em linha gerais, o cenário geopolítico que caracteriza o mais populoso país africano pode ser sin- tetizado pela seguinte leitura religiosa: muçulmanos de um lado, cristãos e animistas do outro. Essa divisão gera um constante quadro de tensão, levantes separatistas e frequentes distúrbios. Boko Haram O Boko Haram é um grupo terrorista surgido na Nigéria que, muitas vezes, é denominado como “grupo radical islâmico”, pois as suas ações correspondem ao fundamentalismo religioso de combate à influência oci- dental e de implantação radical da lei islâmica, a sharia. O nome Boko Haram significa “a educação não islâmi- ca é pecado” ou “a educação ocidental é pecado” na língua hausa, um idioma bastante falado no norte do território nigeriano. Logomarca do grupo terrorista Boko Haram O surgimento do Boko Haram ocorreu em 2002 como uma seita religiosa, fundada por Mohammed Yusuf, na cidade de Maiduguri, capital do Estado de Borno, na Nigéria. Para Yusuf e seus seguidores, a cultura ocidental reproduzida na sociedade seria a principal razão para os males do país, sendo necessária a sua erradicação para combater a corrupção e o descaso das autoridades para com o povo. O líder atual do Boko Haram é Abubakar Shekau. Com o passar do tempo, o Boko Haram foi se tornando um grupo militar cada vez mais bem armado, recebendo vários treinamentos e ações de formação por parte da Al-Qaeda do Magreb e de alguns outros gru- pos militares radicais existentes na região setentrional da África. Em 2009, com a morte de Mohammed Yusuf durante um confronto armado, o Boko Haram tornou-se uma organização militar totalmente radical. No entanto, somente em 2013, os Estados Unidos passaram a consi- derar, oficialmente, o Boko Haram como grupo terrorista, que é hoje um dos maiores da atualidade. O principal objetivo do Boko Haram atualmente, além de combater os princípios e legados ocidentais dei- xados pela colonização britânica no país, é a construção de uma república islâmica. Para conseguir esse objetivo, o grupo terrorista utiliza muitos métodos radicais, incluin- do a realização de atentados e o sequestro para realizar avanços territoriais. O Boko Haram também age por meio do sequestro de mulheres, utilizando-as para a obtenção de resgates e, principalmente, negociando-as como es- cravas sexuais. A ação mais notória do grupo até hoje ocorreu em abril de 2014, quando o Boko Haram sequestrou cerca de 276 mulheres, entre 16 e 18 anos. Segundo relatos de algumas das que conseguiram escapar, os militantes utilizavam-nas como escravas sexuais e vendiam-nas para membros da organização a um preço médio de 12 dólares. Indícios posteriores também afirmaram que boa parte das mulheres foi utilizada em diversos combates. Grupo de nigerianos protesta contra o Boko Haram, na cidade de Alicante, Espanha. 16 Não há números concretos sobre a ação do Boko Haram, mas estima-se que o grupo terrorista já tenha exe- cutado mais de 3 mil pessoas, número que se eleva conti- nuamente a cada conflito ocorrido. O grupo já tomou boa parte do território da Nigéria, sobretudo as suas áreas ao norte e a nordeste, em um mapa difícil de ser representado, pois, a cada mês ou semana, um nova cidade é tomada ou perdida para as tropas do governo nigeriano, realinhando as fronteiras da república radical islâmica. Os milhares de combatentes e militantes do Boko Haram vêm lutando não somente contra as tropas gover- namentais da Nigéria, mas também contra o apoio de ou- tros países. Chade e Níger, que formam uma coalização africana, vêm atuando no território nigeriano para com- bater as ações da milícia terrorista, que eventualmente realiza atividades fora da Nigéria e ameaça, com uma possível expansão, os países circunvizinhos, principal- mente Camarões, que já sofreu alguns atentados. As ações do Boko Haram são uma demonstra- ção da expansão da atividade de grupos terroristas pelo mundo, algo que se intensificou nos períodos posterio- res à Guerra Fria. O líder Abubakar Shekau jurou, in- clusive, uma lealdade a outro grupo terrorista radical, o Estado Islâmico. Essa postura não se trata, ao menos por enquanto, de uma aliança entre os dois grupos, mas pode indicar um paralelo sem igual para o crescimento da ação de grupos radicais pelo mundo. O domínio colonial em Ruanda e a rivalidade entre tutsis e hutus Ruanda é um pequeno país da região centro- -oriental do continente africano e historicamente foi habitado por diferentes etnias: hutus e tutsis formavam a maioria da população da região e os twa compunham uma minoria étnica. A rivalidade entre hutus e tutsis passou a ser construída a partir do século XVIII. Tutsis e hutus eram as etnias majoritárias que habi- tavam Ruanda e, do ponto de vista cultural, possuíam uma série de similaridades, pois compartilhavam, em geral, as mesmas tradições e falavam o mesmo idioma (kinyaruanda). O início dessa rivalidade entre essas duas etnias remonta à formação do Reino de Ruanda, no século XVIII, quando os tutsis ocuparam cargos governamentais importantes e for- maram quase que inteiramente a elite econômica do país. A ampliação dessa hostilidade entre hutus e tut- sis ocorreu no período neocolonialista, com os domínios alemão e belga. Os primeiros colonizadores europeus a estabelecerem-se na região foram os alemães, a partir da divisão territorial realizada na Conferência de Berlim. Os alemães exerceram seu domínio em parceria com os tutsis, concedendo-lhes uma série de privilégios na ad- ministração colonial. Após a Primeira Guerra Mundial, a região foi entregue para os belgas, que ampliaram o abismo nas relações entre tutsis e hutus. Os colonizadores europeus justificavam os privilégios aos tutsis alegando que eles eram “naturalmente superiores”, de acordo com os princípios do darwinismo social em voga nesse período. Essa divisão étnica foi intensificada pelos belgas a partir da década de 1930, quando documentos de identifica- ção passaram a ser emitidos com a informação da etnia de cada pessoa. Com o processo de descolonização, o movimento de independência ganhou força com a adesão dos hu- tus, que exigiam um governo democrático liderado pela maioria hutu. Isso deu início à revolução ruandesa, em 1959, que concluiu a transição do país para uma nação independente de caráter republicano e governada pelos hutus. Nesse período, foram registrados alguns ataques contra os tutsis, o que forçou milhares a refugiarem-se em países vizinhos, como Uganda. Presidência de Juvénal Habyarimana e a guerra civil Durante a década de 1970, um golpe de Esta- do colocou Juvénal Habyarimana no poder de Ruanda. Habyarimana manteve a discriminação contra o tutsis, iniciada com o processo de independência, e organizou 17 um governo extremamente corrupto e ditatorial. Seu governo sofreu grande enfraquecimento a partir de uma grave crise econômica, enfrentada pelo país na década de 1980. À medida que o governo de Habyarimana en- fraquecia-se, o discurso de poder dos hutus crescia impulsionado pelo Akazu, um grupo que passou a di- fundir um discurso de ódio exaltando os hutus e disse- minando preconceito contra os tutsis. Posteriormente, o Akazu transformou-se no Poder Hutu, grupo lidera- do por Agathe Habyarimana, esposa do presidente. Os membros desse grupo foram responsáveis diretos pelo genocídio em Ruanda. A crise do governo de Habyarimana motivou grupos de refugiados tutsis a organizarem-se para to- mar o poder em Ruanda. Assim, surgiua Frente Patri- ótica de Ruanda (FPR), um grupo guerrilheiro que se organizou em campos de refugiados de ruandeses tutsis instalados em Uganda. O interesse da FPR era realizar a tomada do poder para permitir o retorno dos refugiados tutsis ao país. Com o crescimento da tensão em Ruanda, a FPR iniciou o ataque contra as tropas governamentais de Habyarimana, marcando o início da guerra civil, em 1990. Essa primeira fase do conflito estendeu-se até 1993, quando um cessar-fogo foi assinado entre as partes. Esse cessar-fogo garantia o retorno dos exilados tutsis e, além disso, propunha a criação de um exército composto tanto por tutsis quanto por hutus e a realiza- ção de eleições presidenciais no país. Genocídio ruandês A assinatura do cessar-fogo, realizada pelo presi- dente Habyarimana, não agradou aos grupos extremis- tas de hutus, principalmente o Poder Hutu, que começa- ram a criticar o governo ruandês. Seguiu-se um clima de tensão muito grande no país, com o desenvolvimento de milícias populares que se armavam de todas as ma- neiras possíveis, especialmente com facções. Relatórios humanitários entregues à ONU com estudos sobre Ruanda concluíram que a chance de re- tomada do conflito era elevada e que as milícias hu- tus, chamadas de Interahamwe (aqueles que lutam), representavam um risco para parte da população. Os relatórios foram ignorados pela ONU, que não tomou nenhuma medida. Em 6 de abril de 1994, o avião do presidente Juvénal Habyarimana foi atacado em Kigali, capital de Ruanda, causando a sua morte. Esse ataque, cuja auto- ria nunca foi de fato esclarecida, foi utilizado como pre- texto pelo Poder Hutu para convocar a população hutu a iniciar os ataques contra tutsis e hutus moderados. Os cem dias seguintes em Ruanda foram mar- cados pelo horror, com um genocídio de proporções gigantescas promovido contra a população tutsi. Nes- se período, cerca de 800 mil tutsis foram assassinados por milícias hutus, sobretudo com o uso de facões. Não houve nenhum tipo de mobilização internacional para impedir esse massacre, e mesmo as tropas existentes da ONU foram retiradas do país. O genocídio dos tutsis foi interrompido quando a FPR conseguiu conquistar cidades importantes do país, como a capital Kigali, e anunciar a destituição do antigo governo. Após a vitória da FPR, registraram-se também pequenos ataques contra comunidades hutus em repre- sália. Desses ataques, estima-se que podem ter morrido até 60 mil hutus. República Democrática do Congo Os conflitos que pairam no Congo perpassam questões políticas, econômicas, étnicas e culturais. A República Democrática do Congo enfrentou inúmeros golpes de Estado e governos ditatoriais. A ONU já es- tabeleceu, sem sucesso, três missões de paz nesse ter- ritório. Os atuais conflitos envolvem, principalmente, disputas de poder na política e na economia. No país, há presença de diversos grupos armados, e governos de países vizinhos acusam o governo congolês de apoiar esses grupos rebeldes. 18 Os conflitos no Congo iniciaram-se em 1996 e são provenientes do genocídio em Ruanda, no qual hutus assassinaram cerca de 800 mil pessoas e segui- ram para a República Democrática do Congo. Os tutsis também migraram para Ruanda, com medo de uma nova ofensiva. Após o intenso fluxo migratório, os tutsis, novamente, começaram a sofrer represálias por parte dos congoleses e também dos hutus. Esse cenário deu origem à primeira guerra do Congo, na qual os tutsis, que voltaram ao poder por meio de Laurent Kabila, acreditavam que era necessário rebelarem-se contra os hutus, envolvendo nessa represália todos os países constituídos por essa etnia. Kabila encontrou dificuldades para governar. Sem apoio político, passou a enfrentar o desconten- tamento dos tutsis, que cobravam o cumprimento das promessas feitas pelo então presidente do Congo. Para demonstrar controle e proteger os tutsis, Kabila expul- sou tropas de Ruanda e Uganda, dando início à segun- da guerra do Congo. O conflito só cessou em 2002 com a intervenção da Organização das Nações Unidas. Conflitos africanos