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Conflitos africanos
Alessandra de Fatima Alves 12
3
CONFLITOS AFRICANOS
“Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. 
Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.”
(Nelson Mandela)
“A liberdade de um homem é o jugo de outro.”
(provérbio africano de Benim)
Uma breve história da África pré-colonial: aspectos físicos, povos e cultura
A África, embora tenha uma população reduzida com quase 1 bilhão de habitantes (14% da população 
mundial), ocupa 20% da superfície terrestre, constituindo um dos continentes mais extensos. Essa massa de terra 
está posicionada no “centro do mundo”, considerando os atuais centros civilizatórios e os fluxos e conexões exis-
tentes entre eles. O continente africano possui 54 Estados independentes, o que representa 27% dos membros das 
Organização das Nações Unidas. Da mesma forma, eles constituem um terço dos Estados-membros do Movimento 
dos Países Não Alinhados.
Jovens residentes de Ondjiva, província do Cunene (sul de Angola), defendendo o uso de trajes africanos.
É enganosa a ideia de que o continente africano evoluiu isolado dos grandes fluxos internacionais. Desde 
o início dos tempos históricos, a metade norte e leste do continente manteve contatos regulares com a Ásia e a 
Europa. Por essa razão, qualquer estudo que deseje colocar o continente numa perspectiva global deve iniciar pelo 
conhecimento e pela análise da dimensão pré-colonial e fazer estruturas profundas da história do continente. Da 
mesma forma, conhecer sua configuração geográfica é indispensável, especialmente a partir da formação de um 
sistema mundial calcado nos fluxos comerciais dos grandes espaços oceânicos, a partir do século XV.
É errônea a percepção de uma África cristalizada em dezenas de povos e centenas de “tribos”, com suas 
estruturas específicas consolidadas. O quadro é mais o de um intenso deslocamento, interação, fusões e o sur-
gimento de novas entidades. Da ocupação de espaços e seus conflitos, do desenvolvimento de novas formas de 
produzir e das conexões com outros povos africanos e extracontinentais foi emergindo uma espécie de sistemas de 
“relações internacionais”, que terá uma dinâmica apenas parcialmente determinada pelos estrangeiros e que não 
desaparecerá por completo, mesmo com a ocupação europeia.
4
O continente africano está separado da Europa pelo mar Mediterrâneo e da Ásia pelo mar Vermelho, mas 
liga-se a ela por meio de sua extremidade nordeste, o istmo de Suez. A principal subdivisão da África se refere às 
duas regiões que ficam ao norte e ao sul do Saara – África subsaariana ou África negra, e ao norte da África, ou 
Magreb (Ocidente, em árabe). Sendo o terceiro maior continente da Terra, a África ocupa, juntamente com as ilhas 
adjacentes, uma superfície de 30 milhões de km2, mais de 20% do total das massas terrestres, formando um espaço 
compacto. Com exceção dos montes Atlas, no norte, do maciço etíope e do Drakensberg sul-africano, o território 
africano é um planalto vasto e ondulado, marcado por quatro grandes bacias hidrográficas: do Nilo, do Níger, do 
Congo e do Zambeze.
A África pode ser dividida geograficamente em três regiões distintas: o planalto setentrional, os planaltos 
central e meridional e as montanhas do leste. Em geral, a altitude do continente aumenta de noroeste para sudeste. 
A característica peculiar do planalto setentrional é o Saara, que se estende por mais de um quarto do território afri-
cano. As faixas litorâneas baixas, com exceção da costa mediterrânea e da costa da Guiné, são estreitas e elevam-se 
bruscamente em direção ao planalto. O litoral se caracteriza por dimensões contínuas, quase sem reentrâncias e 
portos de águas profundas e com plataforma continental muito exígua, o que limita as possibilidades de pesca e 
jazidas de petróleo off-shore. Por fim, os rios, em sua maioria, não são navegáveis a grandes embarcações, devido 
a um grande número de corredeiras, dificultando o acesso ao interior do continente. Outra característica peculiar 
é que boa parte dos rios africanos tem drenagem endorreica, ou seja, correm para o interior do continente, não 
atingindo o mar.
5
A África é riquíssima em recursos minerais, possuindo em seu subsolo a maioria dos minerais conhecidos, 
sobretudo os mais raros e valiosos, muitos deles em quantidade e qualidade notáveis. Sua principal atividade eco-
nômica é a mineração, principalmente nas grandes jazidas de carvão, reservas de petróleo e gás natural, bem como 
as maiores reservas de ouro do mundo, diamantes, bauxita, cobre, manganês, níquel, germânio, lítio, fosfato, rádio 
e titânio. Os principais países produtores desses minérios são a República Democrática do Congo, a África do Sul e 
a Namíbia, que juntos representam aproximadamente 98% da produção mundial de diamantes.
A profunda contradição do continente africano fica explícita numa comparação referente à energia, pois há 
aproximadamente 66 bilhões de barris de petróleo apenas ao sul do Saara e inúmeras jazidas de gás natural, entre-
tanto, a maior parte da energia consumida na África provém da lenha (90%). A segunda atividade econômica mais 
importante no continente é a agricultura, praticada de três formas específicas: de subsistência, em sistemas de rota-
ção de terras, desenvolvida por nativos nas áreas de floresta e savana; permanente, realizada por povos berberes no 
Marrocos, felás no Egito e alguns povos negros da África ocidental e da meridional; e plantation, cultivo de produtos 
tropicais em grande escala, direcionada para exportação. Dentre esses produtos agrícolas exportados encontram-se o 
café, o cacau, a borracha, a cana-de-açúcar, o algodão, o amendoim e o azeite de dendê.
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A pecuária é pouco praticada nas áreas equa-
toriais e tropicais, mas, na zona norte africana (Egito, 
Líbia, Marrocos, Argélia e Tunísia), há grandes criações 
de camelos, ovinos e caprinos. O nível de industrializa-
ção africana é baixo, existindo, no entanto, no norte do 
continente, indústrias relativamente bem desenvolvidas, 
especialmente no Egito (alimentícia, petrolífera, têxtil 
e siderúrgica) e na Argélia (óleos vegetais e máquinas 
agrícolas). No sul africano, também há industrialização 
média no Zimbábue (alimentícia e de energia) e na Áfri-
ca do Sul (têxtil, alimentícia, química, siderúrgica, meta-
lúrgica e de equipamentos de transporte).
Atualmente, vive no continente africano quase 
1 bilhão de pessoas, com densidade demográfica de 30 
habitantes por km2. A população urbana é de, aproxi-
madamente, 40%, ao passo que a rural é de 60%. O 
continente está dividido em cerca de 800 grupos ét-
nicos, cada qual com sua própria língua e cultura. A 
distribuição populacional da África é muito irregular: as 
regiões desérticas são quase desabitadas; em compen-
sação, nas regiões às margens do rio Nilo, nos vales do 
Marrocos, na Tunísia, na Nigéria, na área urbano-indus-
trial da África do Sul e na região dos grandes lagos, a 
densidade é bastante elevada. Ruanda e Burundi, por 
exemplo, destacam-se por estarem entre as mais altas 
densidades demográficas do mundo.
Obá Ovonramwen, de Benin, e sua família
Na África, são faladas mais de mil línguas dife-
rentes, que são divididas em quatro famílias: as afro-
-asiáticas, as khoisan, as nígero-congolesas e as nilo-
-saarianas. Além do árabe, as mais faladas são o suaíle 
e o hauçá. Há também várias línguas que pertencem 
a famílias de línguas não africanas, como a malgaxe, 
que é uma língua austronésia (malaia), e o afrikaaner 
(derivado do holandês), pertencente à família das lín-
guas indo-europeias, assim como a maioria das línguas 
crioulas da África. Além disso, a maior parte dos países 
africanos adotou, pelo menos como uma de suas lín-
guas oficiais, uma língua europeia (português, francês 
e inglês nas respectivas ex-colônias), sendo que essas 
línguas são geralmentefaladas pela população urbana 
desses países e, particularmente, por todas as pessoas 
com uma escolaridade significativa. As línguas alemã, 
italiana e espanhola são ainda faladas por minorias na 
Namíbia, Camarões, Eritreia, Líbia, Somália, Marrocos e 
Guiné Equatorial.
Muitas foram as tentativas de classificar os gru-
pos étnicos na África, seja pela cor da pele, pela iden-
tidade linguística ou pelas características culturais. Uma 
das primeiras tentativas nessa direção foi a de definir os 
habitantes do norte da África como caucasoides e os ha-
bitantes, ao sul do Saara, como negroides. Entre esses 
dois grupos podem ser encontradas variações e, além dis-
so, entre todos esses povos houve cruzamentos, de forma 
que múltiplos graus de mestiçagem ocorreram e ainda 
são esperados. Originalmente, também as fronteiras geo-
gráficas não eram tão rigorosas como atualmente.
A África pré-colonial era dividida em grandes rei-
nos ou impérios, que funcionavam com uma organiza-
ção política e socioeconômica assentada em estruturas 
específicas, cujo núcleo de base é a família estendida. 
A sociedade africana tradicional era dividida em várias 
categorias sociais ou castas, que exerciam de forma ex-
clusiva uma função ou uma atividade socioeconômica 
específica. Essa organização social, apesar de suas ca-
racterísticas complexas, tanto dos pontos de vista po-
lítico e cultural, quanto do ponto de vista econômico, 
teve um papel fundamental nas relações internacionais 
da época.
Outro ponto importante se refere à questão 
da posse da terra. Na Idade Média, o sistema feudal 
derivava da posse da terra, frustrando os habitantes, 
teoricamente protegidos pelo Estado, e resultando na 
formação de uma nobreza na Europa e em outras partes 
do mundo. Já na África negra, nem o rei ou qualquer 
outro senhor tinha o sentimento pela da posse da terra, 
ou seja, a consciência do poder político derivava princi-
palmente de concepções religiosas e morais. O rei, um 
pequeno senhor local, possuía escravos e reinava sobre 
toda região, cujos limites conhecia perfeitamente. A fon-
7
te de recursos do Estado tradicional africano sempre foi baseada em um sistema de taxas, extração e dos bens 
provindos da guerra.
Do ponto de vista religioso, o continente africano apresenta uma rica variedade que reflete o importante 
papel das crenças nas organizações políticas e socioeconômicas. Isso mostra a importância da religião, da divin-
dade ou do sagrado na vida dos africanos, bem antes da chegada das chamadas religiões reveladas (cristianismo 
e islamismo). Nesse sentido, a África tem sido uma grande precursora dos valores humanos incorporados pelas 
religiões reveladas, apesar do discurso que anunciava a tarefa de “civilizar” os povos africanos a partir de seus 
valores. Da mesma maneira, a diversidade dos grupos linguísticos, bem como a organização sociopolítica da África 
pré-colonial, continua pouco conhecida ou simplesmente desvalorizada. A religião tradicional africana teve um 
papel importante na formação política, social, econômica e cultural do continente, da mesma maneira que outras 
religiões e crenças em outras partes do mundo.
O continente africano é conhecido pela diversidade e pela riqueza de suas culturas e religiões, mas sobre o período 
pré-colonial a maioria dos filmes e documentários mostra uma imagem essencialmente primitiva e “bárbara”. No entan-
to, essa visão não passa de um olhar racista e ideológico que busca descaracterizar o continente para poder controlá-lo 
com facilidade. Apesar disso, nenhuma das classificações pode apagar a história da mais antiga região do mundo, que é, 
culturalmente, um conjunto plural, um mosaico de nações étnicas correspondentes a identidades distintas.
O legado colonial
No final do século XIX, o capitalismo caminhava em passos largos para a monopolização da economia a que 
assistimos atualmente; os trustes nascidos no continente europeu atingiram uma força tão grande, que os mesmos 
Estados aos quais estavam associados lançaram-se sobre novas bases territoriais, procurando garantir o acesso 
facilitado às fontes de matérias-primas existentes na África e na Ásia.
Assim, na busca por novas áreas que garantissem a expansão capitalista, em 1885 deu-se a Conferência de 
Berlim, que instituiu uma divisão do continente em territórios coloniais, submetidos ao poder e aos interesses das 
potências europeias. Essa “partilha da África” não respeitou os limites culturais dos povos africanos, fazendo com 
que populações milenarmente ligadas fossem separadas, enquanto outras, muitas vezes inimigas, fossem subme-
tidas a um mesmo poder central. Iniciava-se, então, o neocolonialismo e um intenso processo de expropriação das 
riquezas africanas.
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A África foi retalhada, de acordo com as possibilidades de exploração, e submetida ao sistema capitalista na 
sua mais cruel forma de espoliação. Assim, os solos mais férteis foram destinados à agricultura do tipo plantation, 
e dedicados à produção de café, cana-de-açúcar, cacau e algodão, produtos que não abasteciam as populações 
locais, mas sim eram exportados para a Europa, onde eram industrializados.
As imensas riquezas minerais estimularam a corrida imperialista, que, além de prioritária aquisição das fontes 
de matéria-prima, também visava converter aqueles habitantes em mão de obra capaz de dar vazão à produção. Os 
africanos foram introduzidos em relações de trabalho destoante dos padrões culturais até então vigentes e a novas 
formas de organização social e política, que lhes eram estranhas: o Estado-nação, o modo de produzir e o salário.
Conferência de Berlin
A intensificação da corrida por esferas de influência no território africano, originada pela disputa entre capi-
talistas europeus e Estados africanos, como Ashanti, Benin e N’Gola, que controlavam ferreamente as exportações 
de novos produtos (óleo de palma, amendoim, ouro e marfim), foi potencializada pela crise econômica que eclodiu 
na década de 1870. Para os europeus, era necessário abrir o comércio direto para os produtos africanos e manufa-
turados europeus. Nesse quadro, tornou-se necessária uma ruptura do controle do acesso ao interior, que era man-
tido pelos Estados do litoral. Tais Estados vinham, ao longo do século XIX, estabelecendo impérios tributários com a 
subjugação dos vizinhos menos poderosos e, assim, compensando a repressão ao tráfico internacional de escravos.
Outro aspecto decorrente do processo foi a internacionalização, no continente, da escravidão moderna, 
para atender à demanda do comércio legítimo dos novos produtos. A utilização de escravos na produção africana 
provocava o aumento da intervenção filantrópica (via missionários) e da pressão sobre os Estados europeus para 
intervir, com o estabelecimento de consulados e agentes para firmar acordos de proibição do tráfico de escravos e 
da liberalização de mercados, além de estabelecimentos de esferas de interesse.
9
Frente aos tradicionais parceiros nas relações da 
Europa com o continente africano – Inglaterra, França 
e Portugal –, que deslocaram os outros da época mer-
cantilista, surgiram novos competidores: o rei Leopoldo 
II, da Bélgica, e empresários alemães. Se o rei pretendia 
construir um império colonial privado na África central, 
os alemães desejavam estabelecer esferas de influência 
no litoral dos territórios com projeção para o interior, nas 
áreas não controladas por potências tradicionais. Méto-
dos privados, através de empresas que recebiam apoio 
estatal e de entidades filantrópicas, foram empregados. 
Associações aparentemente internacionais de explora-
ção, além de companhias com carta de direitos emitidos 
por potências europeias, mesclaram-se nessa corrida, ge-
rando desconfiança recíproca e instabilidade.
Exploradores e viajantes, agindo por representa-
ção ou autonomamente, estabeleciam, por onde passa-
vam, tratados e acordos pessoais em benefício de Esta-
dos europeus, sob a formade cessão de soberania ou 
de estabelecimento de esferas monopolistas de proteção. 
Portugal tentou fortalecer, com reconhecimento interna-
cional, seu controle sob a foz do rio do Congo, sendo 
barrado pelo governo britânico. Essa situação, numa área 
de intensa disputa, proporcionou condições para a con-
vocação de uma conferência internacional na cidade de 
Berlin, de novembro de 1884 a fevereiro de 1885. Nesta 
conferência, foram estabelecidas regras para a liberdade 
de comércio e igualdade de condições para os capitais 
concorrentes. O mundo liberal vencia o protecionismo.
Paralelamente aos tratados de navegação, foi re-
conhecida a esfera de influência da Alemanha sobre os 
territórios litorâneos conquistados ou ocupados por suas 
Chartered Companies e o Estado Livre do Congo, pro-
priedade pessoal do rei da Bélgica. Definiam-se, também, 
a legitimidade e inviolabilidade das esferas dos antigos 
ocupantes do litoral da África – Inglaterra, França e Portu-
gal. A conferência estabeleceu ainda as regras para a le-
gitimidade da dominação: a prova de ocupação definitiva 
e a declaração de tais normas para possível contestação 
por outras potências europeias e assinaturas de acordos.
Após a conferência, os beneficiários trataram de 
impor sua dominação no interior e de remodelar geopolí-
tica, social e economicamente o continente, transformado 
em objeto pelo novo tipo de imperialismo que surgia na 
Europa. Para isso, usavam os mesmos argumentos de sua 
instalação no litoral: fim da escravidão, civilização, cristia-
nismo e abertura do território para o comércio internacio-
nal. Iniciaram-se as guerras de conquista e a dependência 
econômica do continente às economias industriais das 
potências europeias.
Tendo o Congresso de Berlin estabelecido as re-
gras para a partilha da África e reconhecido a supremacia 
das potências europeias, cabia realizar ajustes das fron-
teiras litorâneas e a incorporação do interior do conti-
nente. Diplomacia – para as relações entre os europeus 
– e armas modernas – para as relações com os africanos 
– seriam utilizadas. A dominação efetiva do continente 
gerou guerras de conquista territorial e para a submissão 
dos africanos até as vésperas da Primeira Guerra Mun-
dial. Os naturais do continente resistiam à perda de uma 
soberania e às transformações econômicas, fiscais e polí-
ticas que, junto com a exploração predatória de recursos 
naturais e demográficos, impunham a transformação da 
África.
Os defensores do imperialismo visavam explorar 
economicamente o continente e adaptá-lo à nova divi-
são internacional do trabalho como região periférica e 
subordinada. A riqueza produzida com o atendimento da 
demanda de minerais, matérias-primas e gêneros tropi-
cais da nova sociedade fabril, monopolista e urbanizada 
deveria ser acumulada na metrópole para garantir lucro e 
custo de produção, além de reservas que possibilitassem 
a liberdade de ação e produção das potências imperialis-
tas. Para isso, era necessário submeter territórios e popu-
lações, reorganizar a produção, o sistema de propriedade 
e obrigar a população ao trabalho orientado pelos novos 
objetos e volumes de produtos. Esse imenso processo de 
expropriação da economia, do tempo, da cultura e das 
condições de vida originou rebeliões e resistências, prin-
cipalmente nas sociedades sem organização estatal. A 
anulação da soberania e a subordinação das sociedades 
organizadas sob formas estatais foram efetivadas através 
de guerras de conquista. A superioridade em armamentos 
e meios de locomoção proporcionada pela nova tecnolo-
gia foi a garantia da vitória na repressão às resistências 
e nas guerras.
Enquanto a violência física e simbólica marcou as 
relações de conquista, as diferenças entre as potências 
eram resolvidas entre os diplomatas, por meio de mapas 
incompletos e falhos. Isso resultou no estabelecimento de 
fronteiras em linhas retas que reuniam, em uma unidade 
administrativa, povos diferentes e até inimigos e dividiam 
conjuntos étnico-linguísticos com uma longa história de 
unidade.
10
Processo de descolonização
A expansão colonial europeia na África havia divi-
dido o continente entre quatro potências – Grã-Bretanha, 
França, Bélgica e Portugal. Essas potências coloniais se 
diferenciavam em níveis de desenvolvimento, riquezas e 
necessidades. Tal situação determinou diferenças secun-
dárias, porque as colônias eram predominantemente de 
exploração e não de povoamento. Determinou também 
uma reorganização na geografia política africana, volta-
da para o comércio metropolitano, unindo e separando 
áreas e economias, sociedades e povos. Tal reorientação 
geoeconômica manifestou-se pelas criações de novas 
“regiões” na África, que entravam em contradição com 
a tradicional ordenação continental, externalizando sua 
economia e criando novas realidades sociais e políticas.
O domínio colonial clássico na África durou apro-
ximadamente 75 anos, tempo suficiente para o amadure-
cimento de sua incorporação na economia mundial, das 
economias capitalistas monopolistas e para a emergência 
de um movimento emancipacionista bastante problemá-
tico. Nesse período, os impérios coloniais submeteram 
ou cooptaram tanto as resistências tradicionais como as 
“modernizantes”, ordenaram o continente e mudaram 
seu perfil. O auge da dominação e reordenação se deu 
no período entre guerras, com marcada participação da 
crise econômica de 1929 e a posterior recessão.
Ao final da Segunda Guerra Mundial, a situação 
crítica das metrópoles europeias e sua necessidade de 
riquezas entraram em contradições com os ideais dos 
social-democratas que chegaram ao poder em 1945. Isso 
levantou o problema da evolução dos impérios. Por ou-
tro lado, certos grupos empresariais já haviam alcançado 
um nível de desenvolvimento que podia prescindir da 
subordinação direta à metrópole. A solução era apresen-
tada por um longo e quase secular processo evolutivo de 
emancipação. Frente a tal projeto, classificaram-se vários 
elementos de oposição: a ascensão dos Estados Unidos 
e da URSS como potências mundiais e anticolonialistas; 
o sistema da Organização das Nações Unidas, com seu 
comitê de descolonização; as reivindicações africanas 
de emancipação; e os interesses econômicos das emer-
gentes multinacionais estadunidenses – com obstáculos 
estabelecidos pelas políticas dos impérios coloniais. Tais 
fatores foram determinantes nos processos de descoloni-
zação. Na África, onde os colonizados e suas reivindica-
ções são protagonistas preponderantes, deve-se agregar 
o papel das decisões da Conferência de Bandung e das 
guerras anticoloniais da Ásia como elementos-chave da 
descolonização.
Embora o auge da descolonização da África tenha 
acontecido na passagem da década de 1950 para a de 
1960, a reivindicação pacífica ou violenta pela indepen-
dência se iniciou no imediato pós-guerra. Ela se aprofun-
dou e se radicalizou com as tentativas das metrópoles 
que buscaram criar mecanismos de autonomização lenta 
e controlada. Isso favorecia as forças internas arcaicas e 
a permanência das colônias subordinadas à metrópole.
Regionalização geopolítica 
da África contemporânea e 
seus principais conflitos
A África adentrou o século XXI apresentando um 
melancólico estado econômico, social e também geopo-
lítico. Esquecido pela globalização, o continente assiste 
impotente à degradação humana e a proliferação da 
pobreza. Guerras, fome e aids figuram entre os compo-
nentes da realidade de boa parte do continente. Para 
onde quer que se olhe, veem conflitos de ordem étni-
ca, religiosa ou política. Na porção centro-meridional, a 
trágica situação social da África subsaariana faz dessa 
região a mais pobre do Planeta. Eis o legado colonial!
Os conflitos na África são basicamente motiva-
dos por: disputas territoriais; golpes de Estado, que 
geram crises políticas; rivalidades tribais, motivadas 
por questões étnicas ou religiosas; disputas por água 
erecursos minerais; e imersão do povo na miséria. Es-
sas motivações são provenientes do processo de colo-
nização do continente, da Guerra Fria, da intervenção 
de terceiros Estados e de eleições conturbadas.
Por anos, a África tem sido lembrada como um 
continente em completo caos, marcado por guerras, 
fome e miséria, e cujas esperanças de melhorias são 
irrisórias. Todas essas mazelas foram associadas ao 
subdesenvolvimento dos países desse continente de tão 
ricas culturas. Contudo, essa realidade caótica está mais 
relacionada à própria estrutura e estabilidade do Estado 
do que ao próprio desenvolvimento desses países.
11
Pesquisas apontam que a baixa autoridade es-
tatal, isto é, a presença pouco efetiva do Estado em 
seu território era o fator mais relevante na ocorrência 
de guerra civis e de falência de Estados – momento no 
qual a estrutura estatal deixa de cumprir suas funções 
básicas e o país é tomado por ondas de violência –, se 
comparado à variável do desenvolvimento e subdesen-
volvimento dos países da África subsaariana.
Uma importante questão constatada a partir 
dessas pesquisas foi a de que a existência de lideranças 
tradicionais e a continuidade de características das civi-
lizações pré-coloniais desempenharam papel essencial 
para a autoridade do Estado, em alguns casos fortale-
cendo-a e, em outros, concorrendo com essa.
Pesquisadores atentam também para o fato de 
que, nos 21 países que nunca tiveram guerra civis ou 
conflitos não estatais, a estabilidade foi garantida devi-
do a fatores históricos e políticos no período pós-colo-
nial, que garantiram a capacidade do Estado de projetar 
seu poder por todo seu território. Ao lado disso, países 
que passaram por guerras, mas não retornaram mais a 
estágios de colapso após a paz, optaram pelo caminho 
de reconstrução da estrutura do Estado e de retradi-
cionalização das instituições políticas, e não tanto pela 
busca de desenvolvimento, como é o caso de Angola, 
República do Congo, Libéria e Ruanda. Isso demonstra 
que, seja através da modernização das instituições es-
tatais, seja pela aproximação das instituições daquilo 
que eram anteriormente à chegada dos colonizadores, 
os países que foram sucedidos em seus processos de 
pacificação e estabilidade foram os que seguiram um 
caminho focado na reconstrução do Estado e na efetiva 
execução de suas funções.
 
Um dos maiores desafios da África será mudar a imagem pela qual ge-
ralmente é lembrada, trazendo uma nova que reflita a heterogeneidade e 
tendência de pacificação da região.
Sudão e o conflito norte-sul
O cenário geopolítico do maior país africano é 
marcado por uma guerra civil que perdurou por mais de 
20 anos e tem conduzido ao genocídio da população. 
A guerra tem razões religiosas e envolve, de um lado, a 
maioria muçulmana, ao norte do país, e, de outro, uma 
forte minoria cristã e animista do sul.
Essa situação de instabilidade vem desde a inde-
pendência do Sudão, em 1956, mas se agravou a partir de 
1983. Naquele ano, o governo muçulmano impôs a sharia 
(lei corânica) a todo o conjunto da sociedade, fomentando 
a imediata reação das populações cristã e animista do sul. 
Começava, então, uma sangrenta guerra civil.
O Sudão é ex-domínio egípcio e ex-colônia britâ-
nica: para além da questão religiosa, o fator étnico é dos 
mais complicados, uma vez que se contabilizam no país, 
aproximadamente, 570 grupos distintos e mais de cem 
idiomas. Árabes e núbios concentrados no norte somam 
aproximadamente 50% da população. A outra metade 
está dividida em inúmeros grupos minoritários.
Após a radicalização islâmica do governo de Car-
tum (capital sudanesa), surgiu nos anos 1980, no sul do 
país, um movimento denominado MPLS (Movimento Po-
pular de Libertação do Sudão). Com um viés ideológico 
e empunhando a bandeira do socialismo, o MPLS propu-
nha um novo governo de unidade nacional, com respeito 
à diversidade religiosa que caracteriza o Sudão, opondo-
-se ao modelo teocrático de imposição do islã como re-
ligião oficial. Para fazer frente à repressão do governo 
central, derivou do MPLS uma facção armada, o SPLA 
(Exército Popular de Libertação do Sudão). A guerra civil 
se agravaria a partir de então. O que motivava a guerrilha 
do sul a insistir na ação armada era o desprezo com que 
o governo muçulmano do país tratava as áreas cristãs e 
animistas.
12
Alternando golpes militares intrínsecos ao gover-
no sudanês e frágeis eleições, o país seguiu praticamen-
te dividido entre o norte e o sul, prolongando a guerra. 
Algumas publicações internacionais relataram que os 
EUA passaram a apoiar e armar os guerrilheiros do sul. 
Especula-se que, em represália, o governo sudanês tenha 
passado a dar abrigo a militantes da Al-Qaeda.
No meio desse emaranhado, encontra-se a popu-
lação sudanesa que sofreu as mais duras consequências. 
A maioria muçulmana do norte foi atacada constante-
mente por guerrilhas cristãs, enquanto o governo central 
de Cartum isolava as aldeias e tribos simpatizantes dos 
guerrilheiros cristãos, levando-as à miséria. Com uma ge-
ografia natural não muito favorável em grandes trechos 
do país, o Sudão teve uma seca longa e intensa, o que 
agravou as condições da agricultura, principal atividade 
nacional. O resultado de tantas situações críticas foi uma 
gravíssima crise humanitária: de 1983 até 2005, a guerra 
provocou 2 milhões de mortes e mais de 6 milhões de 
refugiados, que é aproximadamente o total da população 
do país. É isso que está por traz das cenas de crianças 
africanas abandonadas e degradação humana no Sudão, 
que, por vezes, a mídia veicula.
Aproximando-se sobremaneira da opção funda-
mentalista, o governo sudanês se envolveria ainda em 
duas contendas internacionais. A primeira foi uma dispu-
ta territorial na zona de fronteira com o Egito: os suda-
neses requerem o direito sobre a região de Halaíb (rica 
em minérios, particularmente o fosfato). O Egito, por sua 
vez, acusou o Sudão de apoiar grupos fundamentalistas 
egípcios. A segunda se deu após ataques terroristas à 
embaixada estadunidense em Nairóbe (Quênia) e Dar 
Asslaan (Tanzânia), quando os EUA acusaram o Sudão de 
ter dado abrigo e proteção aos terroristas que realizaram 
os atentados, atribuídos à Al-Qaeda. Em represália a essa 
hipótese, os EUA bombardearam uma fábrica em Cartum, 
a qual, segundo os estadunidenses, produzia armas quí-
micas. O governo do Sudão afirmou tratar-se apenas de 
uma fábrica de remédios.
Depois de vinte anos sem guerra, assinou-se, em 
2005, um acordo de paz entre o governo de Cartum e os 
rebeldes do sul, liderados por John Garang (do MPLS). 
O que parecia impossível há alguns anos enfim aconte-
ceu: o Sudão seria dividido em duas porções geopolíticas, 
uma ao norte e outra ao sul. Cada uma teria leis e exér-
citos próprios, mas continuariam fazendo parte de uma 
só nação, ao menos até 2011, quando foi realizado um 
plebiscito pelo status final do país. O que realmente per-
mitiu o acordo foi um fator econômico e não geopolítico: 
o petróleo. Norte e sul ainda precisariam chegar a um 
acordo com relação ao traçado da nova fronteira e como 
ela será controlada, como dividir a dívida do Sudão e os 
royalties do petróleo do novo país e que moeda será ado-
tada por ele.
A questão de Darfur
Localizada no oeste do Sudão, a região de Darfur 
tem o tamanho da França e apresenta acelerado cresci-
mento demográfico. Os violentos conflitos – a que um 
observador da ONU, Mukesh Kapila, caracterizou como 
“a maior crise humanitária do mundo” – iniciaram-se 
em 2003.
Trata-se novamente de uma questão territorial 
separatista. Representantes da população local acusam 
o governo central de desprezar Darfur, entregando-a à 
própria sorte. Nesse contexto, enquanto o governo su-
danês empregava todas as suas forças no sul, organi-
zou-se em Darfur um movimento contestatório denomi-
nado Frente de Libertação de Darfur (FLD) e igualmente 
um braço armado, o Exército de Libertaçãode Darfur 
(ELD ou SLAN, das iniciais em inglês Sudan Liberation 
Moviment Army).
13
Esse movimento realizou uma ofensiva para o 
leste, conquistando partes do território do país. O go-
verno, ocupado com os combates no sul, confiou então 
a grupos de mercenários e saqueadores tribais armados 
a função de combater a nova insurgência, ou seja, o 
governo de Cartum delegou uma responsabilidade de 
Estado a grupos paramilitares, localmente denominados 
janjawid. Segundo analistas, esses grupos de extermínio 
existem há muito tempo, e antes da explosão da crise 
separatista, já saqueavam as aldeias de Darfur, promo-
vendo uma verdadeira limpeza étnica, com a conivência 
de Cartum. O governo, obviamente, nega.
A ONU, os Estados Unidos e a comunidade in-
ternacional passaram a pressionar o governo sudanês 
para intervir mais energicamente e suspender o genocí-
dio que já se verificava em Darfur.
A descoberta de petróleo nessa região fez com 
que os países olhassem com mais atenção para lá. Du-
rante encontros internacionais em Nairóbe, os Estados 
Unidos manifestaram a intenção de uma intervenção 
“humanitária” em Darfur – ideia imediatamente frus-
trada pela China, que anunciou veto a qualquer iniciati-
va nessa direção, no âmbito do Conselho de Segurança 
da ONU. Atualmente, o Sudão é um importante forne-
cedor de petróleo à China, país que tem investido em 
oleodutos sudaneses.
O conflito já causou 70 mil mortes, mais de 2 mi-
lhões de refugiados (principalmente no vizinho à oeste, 
o Chade) e aproximadamente 3,2 milhões de depen-
dentes diretos de assistência humanitária, dentro e fora 
de Darfur. Uma acordo foi assinado em abril de 2004, 
mas não trouxe segurança. Ainda há milhões de pesso-
as desabrigadas por conta desse conflito.
Somália: um país de guerra e fome
Situada numa estratégica posição no golfo de 
Áden, a Somália dividi com Dijibuti o controle do estreito 
de Bab el Mandeb, em sua vertente ocidental. Encontra-
-se em estado técnico de guerra civil, desde 1991. Dife-
rentemente dos casos anteriores, o país apresenta certa 
homogeneidade étnica. Fala-se predominantemente a 
língua somali; o árabe é uma forte minoria, mas é o 
mesmo grupo étnico falando uma língua diferente, he-
rança que remonta ao período de arabização promovida 
pela expansão do islã. Apesar da uniformidade, o país 
se encontra fragmentado em diversos clãs rivais – os 
protagonistas deste estado de guerra.
Colonizada por italianos e britânicos, a Somália 
alcançou a independência em 1960, quando se firmou 
como uma república. Nove anos mais tarde, um regime 
comunista alinhado com Moscou chegaria ao poder por 
meio de um golpe militar.
Em 1977, travou uma guerra contra a Etiópia 
pela disputa de Ogaden (guerra do chifre africano), re-
gião que os britânicos concederam à Etiópia, o que os 
somalis nunca aceitaram. A Somália saiu derrotada e 
ainda perdeu a ajuda de Moscou, que optou por apoiar 
o inimigo. Soldados cubanos que davam suporte à Etió-
pia ajudaram a derrotar a Somália.
Em 1991, o regime militar somali foi derrubado 
por um emaranhado de tribos que combatiam anar-
quicamente o governo. O único fator de convergência 
entre essas tribos era o ódio que todas nutriam con-
tra o regime centralizado do governo somali. Diante do 
caos, o presidente se exilou e o país ficou literalmente 
desgovernado. Os vários clãs – aproximadamente vinte 
milícias tribais – não se entenderam e mergulharam em 
intensa guerra civil, todos contra todos.
Com o caos instalado, a fome se alastrou pelo 
país, já prejudicado pela natural aridez. Diante da si-
tuação, grupos de ajuda humanitária limitavam-se a 
sobrevoar e despejar pacotes de alimentos junto às 
14
áreas castigadas. Mas os donativos eram confiscados 
pelas milícias, que assim impediam aos rivais o acesso à 
comida. As plantações também eram atacadas por gru-
pos inimigos.
Em 1992, houve uma fracassada intervenção 
estadunidense, que permitiu duas leituras: os Estados 
Unidos tentavam conter o quadro generalizado de guer-
ra e a degradação humana na Somália; ou os Estados 
Unidos estavam se aproveitando do cenário caótico 
para posicionar-se estrategicamente no estreito de Bab 
el Mandeb, controlando, assim, a rota do petróleo, uma 
vez que já haviam saído vitoriosos da Guerra do Golfo, 
no mesmo ano. Uma mistura de duas hipóteses talvez 
seja o mais provável. Mas a Somália se converteu numa 
espécie de “breve Vietnã” aos Estados Unidos que, der-
rotados, após três anos, se retiraram.
No transcorrer dos conflitos, varias regiões so-
malis anunciaram suas respectivas “independências”: 
a República da Somalilância, Puntland, Somália do Su-
doeste, entre outras. Diante da obscuridade da guerra, 
nenhuma das pseudorrepúblicas foi reconhecida por 
regime algum e muito menos pela ONU.
O cenário beligerante e a prolongada seca de 
1997 levaram a uma nova crise humanitária. Os anos 
de guerra em que todos perderam e a triste realidade 
do país fizeram com que as principais lideranças dos 
inúmeros meros grupos sentassem a uma mesa de ne-
gociação em 2000, no Dijibuti. Mas líderes tribais não 
contemplados na conferência continuaram a luta arma-
da.
Uma conferência maior em 2004, contando com 
quase todos os chefes tribais, levou a um acordo mais 
consistente. Criou-se um parlamento transitório, cuja 
composição obedeceria à proporcionalidade demográ-
fica das tribos, mas que, por motivos de segurança, per-
maneceria instalado provisoriamente no Quênia, país 
que patrocinou o mais bem-sucedido acordo de paz até 
então.
O caso da Nigéria
Potência regional africana, a Nigéria é o país 
mais populoso do continente, muito rico em petróleo 
e membro da Opep. Contudo, também vive há longos 
anos sob instabilidade política. A causa maior é a difi-
culdade de convivência harmônica entre muçulmanos 
do norte e os cristãos ao sul, diferenças que já puseram 
o país em guerra civil.
A Nigéria abriga mais de 200 etnias que abra-
çam três religiões: islamismo, cristianismo e animismo. 
Dentre os diversos grupos, destacam-se os hauçás, fula-
nis e iorubas. Os ibos, uma forte minoria, tentaram, sem 
sucesso em 1996, construir um Estado independente na 
região de Biafra, o que levou, diante da negativa do go-
verno central, a uma violenta guerra civil. As duas reli-
giões dominantes são o cristianismo (sul) e o islamismo 
(norte), que aproximadamente se equivalem em número 
de seguidores: cerca de 45% da população para cada. 
O restante pratica ritos tribais do animismo. Há minorias 
religiosas cristãs no sul e no norte.
A formação política e cultural nigeriana foi in-
fluenciada por essas três fontes distintas: a cultura islâ-
mica, levada à Nigéria com a expansão muçulmana; a 
influência cristã, trazida pelo colonizador britânico; e os 
ritos tradicionais do milenar animismo africano. Apesar 
da relativa liberdade política e de culto, essa convivên-
cia não foi pacífica. Alguns Estados nigerianos (de um 
total de 36) adotam a sharia (lei islâmica), e isto é fator 
de tensão, pois os cristãos não a aceitam.
 
Desde sua independência, em 1960, a Nigéria 
é uma República Federativa, apresentando três regiões 
principais e autônomas. Também com um passado de 
golpes militares, o país tem, desde 1999, um presiden-
te (cristão) democraticamente eleito e que tentou, com 
muita dificuldade, minimizar a instabilidade política de-
corrente dos conflitos religiosos.
Os conflitos são mais intensos no norte do país, 
onde a maioria islâmica persiste na aplicação da sharia 
e pretende fazer valer a sua jurisdição sobre as minorias 
não muçulmanas. Apesar de os políticos muçulmanos 
afirmarem que a sharia não atingiria os cristãos, na 
prática foi o contrário o que aconteceu: discriminados, 
muitos fugiram para outras áreas.
A séria crise em 2002 deu-se porque, ignorando 
a fragilidade da convivência entre cristãos e muçulma-
nos, organizou-se no país o concurso de “miss univer-
so”. O presidente, um cristão anglicano, deu apoio à re-
15
alização do evento.Os muçulmanos consideraram uma 
profanação ao islã aquela exposição de mulheres semi-
nuas em pleno mês do Ramadã, período sagrado para 
eles. A situação se agravou com uma frase divulgada no 
jornal mais importante do país: “até Maomé se renderia 
àquelas beldades”. Isso bastou para que muçulmanos 
e cristãos se armassem com o que podiam rumo a uma 
batalha campal que deixou mais de cem mortos. O epi-
sódio pôs à mostra a instabilidade do país.
Assim, em linha gerais, o cenário geopolítico que 
caracteriza o mais populoso país africano pode ser sin-
tetizado pela seguinte leitura religiosa: muçulmanos de 
um lado, cristãos e animistas do outro. Essa divisão gera 
um constante quadro de tensão, levantes separatistas e 
frequentes distúrbios.
Boko Haram
O Boko Haram é um grupo terrorista surgido na 
Nigéria que, muitas vezes, é denominado como “grupo 
radical islâmico”, pois as suas ações correspondem ao 
fundamentalismo religioso de combate à influência oci-
dental e de implantação radical da lei islâmica, a sharia. 
O nome Boko Haram significa “a educação não islâmi-
ca é pecado” ou “a educação ocidental é pecado” na 
língua hausa, um idioma bastante falado no norte do 
território nigeriano.
Logomarca do grupo terrorista Boko Haram
O surgimento do Boko Haram ocorreu em 2002 
como uma seita religiosa, fundada por Mohammed Yusuf, 
na cidade de Maiduguri, capital do Estado de Borno, na 
Nigéria. Para Yusuf e seus seguidores, a cultura ocidental 
reproduzida na sociedade seria a principal razão para os 
males do país, sendo necessária a sua erradicação para 
combater a corrupção e o descaso das autoridades para 
com o povo. O líder atual do Boko Haram é Abubakar 
Shekau.
Com o passar do tempo, o Boko Haram foi se 
tornando um grupo militar cada vez mais bem armado, 
recebendo vários treinamentos e ações de formação por 
parte da Al-Qaeda do Magreb e de alguns outros gru-
pos militares radicais existentes na região setentrional 
da África. Em 2009, com a morte de Mohammed Yusuf 
durante um confronto armado, o Boko Haram tornou-se 
uma organização militar totalmente radical. No entanto, 
somente em 2013, os Estados Unidos passaram a consi-
derar, oficialmente, o Boko Haram como grupo terrorista, 
que é hoje um dos maiores da atualidade.
O principal objetivo do Boko Haram atualmente, 
além de combater os princípios e legados ocidentais dei-
xados pela colonização britânica no país, é a construção 
de uma república islâmica. Para conseguir esse objetivo, 
o grupo terrorista utiliza muitos métodos radicais, incluin-
do a realização de atentados e o sequestro para realizar 
avanços territoriais. O Boko Haram também age por meio 
do sequestro de mulheres, utilizando-as para a obtenção 
de resgates e, principalmente, negociando-as como es-
cravas sexuais.
 
A ação mais notória do grupo até hoje ocorreu em 
abril de 2014, quando o Boko Haram sequestrou cerca 
de 276 mulheres, entre 16 e 18 anos. Segundo relatos 
de algumas das que conseguiram escapar, os militantes 
utilizavam-nas como escravas sexuais e vendiam-nas 
para membros da organização a um preço médio de 12 
dólares. Indícios posteriores também afirmaram que boa 
parte das mulheres foi utilizada em diversos combates.
Grupo de nigerianos protesta contra o Boko Haram, 
na cidade de Alicante, Espanha.
16
Não há números concretos sobre a ação do Boko 
Haram, mas estima-se que o grupo terrorista já tenha exe-
cutado mais de 3 mil pessoas, número que se eleva conti-
nuamente a cada conflito ocorrido. O grupo já tomou boa 
parte do território da Nigéria, sobretudo as suas áreas ao 
norte e a nordeste, em um mapa difícil de ser representado, 
pois, a cada mês ou semana, um nova cidade é tomada ou 
perdida para as tropas do governo nigeriano, realinhando 
as fronteiras da república radical islâmica.
Os milhares de combatentes e militantes do Boko 
Haram vêm lutando não somente contra as tropas gover-
namentais da Nigéria, mas também contra o apoio de ou-
tros países. Chade e Níger, que formam uma coalização 
africana, vêm atuando no território nigeriano para com-
bater as ações da milícia terrorista, que eventualmente 
realiza atividades fora da Nigéria e ameaça, com uma 
possível expansão, os países circunvizinhos, principal-
mente Camarões, que já sofreu alguns atentados.
As ações do Boko Haram são uma demonstra-
ção da expansão da atividade de grupos terroristas pelo 
mundo, algo que se intensificou nos períodos posterio-
res à Guerra Fria. O líder Abubakar Shekau jurou, in-
clusive, uma lealdade a outro grupo terrorista radical, 
o Estado Islâmico. Essa postura não se trata, ao menos 
por enquanto, de uma aliança entre os dois grupos, mas 
pode indicar um paralelo sem igual para o crescimento 
da ação de grupos radicais pelo mundo.
O domínio colonial em Ruanda e 
a rivalidade entre tutsis e hutus
Ruanda é um pequeno país da região centro-
-oriental do continente africano e historicamente foi 
habitado por diferentes etnias: hutus e tutsis formavam 
a maioria da população da região e os twa compunham 
uma minoria étnica. A rivalidade entre hutus e tutsis 
passou a ser construída a partir do século XVIII.
Tutsis e hutus eram as etnias majoritárias que habi-
tavam Ruanda e, do ponto de vista cultural, possuíam uma 
série de similaridades, pois compartilhavam, em geral, as 
mesmas tradições e falavam o mesmo idioma (kinyaruanda). 
O início dessa rivalidade entre essas duas etnias remonta à 
formação do Reino de Ruanda, no século XVIII, quando os 
tutsis ocuparam cargos governamentais importantes e for-
maram quase que inteiramente a elite econômica do país.
A ampliação dessa hostilidade entre hutus e tut-
sis ocorreu no período neocolonialista, com os domínios 
alemão e belga. Os primeiros colonizadores europeus a 
estabelecerem-se na região foram os alemães, a partir 
da divisão territorial realizada na Conferência de Berlim. 
Os alemães exerceram seu domínio em parceria com os 
tutsis, concedendo-lhes uma série de privilégios na ad-
ministração colonial.
Após a Primeira Guerra Mundial, a região foi 
entregue para os belgas, que ampliaram o abismo nas 
relações entre tutsis e hutus. Os colonizadores europeus 
justificavam os privilégios aos tutsis alegando que eles 
eram “naturalmente superiores”, de acordo com os 
princípios do darwinismo social em voga nesse período. 
Essa divisão étnica foi intensificada pelos belgas a partir 
da década de 1930, quando documentos de identifica-
ção passaram a ser emitidos com a informação da etnia 
de cada pessoa.
Com o processo de descolonização, o movimento 
de independência ganhou força com a adesão dos hu-
tus, que exigiam um governo democrático liderado pela 
maioria hutu. Isso deu início à revolução ruandesa, em 
1959, que concluiu a transição do país para uma nação 
independente de caráter republicano e governada pelos 
hutus. Nesse período, foram registrados alguns ataques 
contra os tutsis, o que forçou milhares a refugiarem-se 
em países vizinhos, como Uganda.
Presidência de Juvénal Habyarimana 
e a guerra civil
Durante a década de 1970, um golpe de Esta-
do colocou Juvénal Habyarimana no poder de Ruanda. 
Habyarimana manteve a discriminação contra o tutsis, 
iniciada com o processo de independência, e organizou 
17
um governo extremamente corrupto e ditatorial. Seu 
governo sofreu grande enfraquecimento a partir de uma 
grave crise econômica, enfrentada pelo país na década 
de 1980.
À medida que o governo de Habyarimana en-
fraquecia-se, o discurso de poder dos hutus crescia 
impulsionado pelo Akazu, um grupo que passou a di-
fundir um discurso de ódio exaltando os hutus e disse-
minando preconceito contra os tutsis. Posteriormente, 
o Akazu transformou-se no Poder Hutu, grupo lidera-
do por Agathe Habyarimana, esposa do presidente. Os 
membros desse grupo foram responsáveis diretos pelo 
genocídio em Ruanda.
A crise do governo de Habyarimana motivou 
grupos de refugiados tutsis a organizarem-se para to-
mar o poder em Ruanda. Assim, surgiua Frente Patri-
ótica de Ruanda (FPR), um grupo guerrilheiro que se 
organizou em campos de refugiados de ruandeses tutsis 
instalados em Uganda. O interesse da FPR era realizar a 
tomada do poder para permitir o retorno dos refugiados 
tutsis ao país.
Com o crescimento da tensão em Ruanda, a 
FPR iniciou o ataque contra as tropas governamentais 
de Habyarimana, marcando o início da guerra civil, em 
1990. Essa primeira fase do conflito estendeu-se até 
1993, quando um cessar-fogo foi assinado entre as 
partes. Esse cessar-fogo garantia o retorno dos exilados 
tutsis e, além disso, propunha a criação de um exército 
composto tanto por tutsis quanto por hutus e a realiza-
ção de eleições presidenciais no país.
Genocídio ruandês
A assinatura do cessar-fogo, realizada pelo presi-
dente Habyarimana, não agradou aos grupos extremis-
tas de hutus, principalmente o Poder Hutu, que começa-
ram a criticar o governo ruandês. Seguiu-se um clima de 
tensão muito grande no país, com o desenvolvimento 
de milícias populares que se armavam de todas as ma-
neiras possíveis, especialmente com facções.
Relatórios humanitários entregues à ONU com 
estudos sobre Ruanda concluíram que a chance de re-
tomada do conflito era elevada e que as milícias hu-
tus, chamadas de Interahamwe (aqueles que lutam), 
representavam um risco para parte da população. Os 
relatórios foram ignorados pela ONU, que não tomou 
nenhuma medida.
Em 6 de abril de 1994, o avião do presidente 
Juvénal Habyarimana foi atacado em Kigali, capital de 
Ruanda, causando a sua morte. Esse ataque, cuja auto-
ria nunca foi de fato esclarecida, foi utilizado como pre-
texto pelo Poder Hutu para convocar a população hutu 
a iniciar os ataques contra tutsis e hutus moderados.
Os cem dias seguintes em Ruanda foram mar-
cados pelo horror, com um genocídio de proporções 
gigantescas promovido contra a população tutsi. Nes-
se período, cerca de 800 mil tutsis foram assassinados 
por milícias hutus, sobretudo com o uso de facões. Não 
houve nenhum tipo de mobilização internacional para 
impedir esse massacre, e mesmo as tropas existentes da 
ONU foram retiradas do país.
O genocídio dos tutsis foi interrompido quando a 
FPR conseguiu conquistar cidades importantes do país, 
como a capital Kigali, e anunciar a destituição do antigo 
governo. Após a vitória da FPR, registraram-se também 
pequenos ataques contra comunidades hutus em repre-
sália. Desses ataques, estima-se que podem ter morrido 
até 60 mil hutus.
República Democrática do Congo
Os conflitos que pairam no Congo perpassam 
questões políticas, econômicas, étnicas e culturais. A 
República Democrática do Congo enfrentou inúmeros 
golpes de Estado e governos ditatoriais. A ONU já es-
tabeleceu, sem sucesso, três missões de paz nesse ter-
ritório. Os atuais conflitos envolvem, principalmente, 
disputas de poder na política e na economia. No país, 
há presença de diversos grupos armados, e governos de 
países vizinhos acusam o governo congolês de apoiar 
esses grupos rebeldes.
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Os conflitos no Congo iniciaram-se em 1996 
e são provenientes do genocídio em Ruanda, no qual 
hutus assassinaram cerca de 800 mil pessoas e segui-
ram para a República Democrática do Congo. Os tutsis 
também migraram para Ruanda, com medo de uma 
nova ofensiva. Após o intenso fluxo migratório, os tutsis, 
novamente, começaram a sofrer represálias por parte 
dos congoleses e também dos hutus. Esse cenário deu 
origem à primeira guerra do Congo, na qual os tutsis, 
que voltaram ao poder por meio de Laurent Kabila, 
acreditavam que era necessário rebelarem-se contra 
os hutus, envolvendo nessa represália todos os países 
constituídos por essa etnia.
Kabila encontrou dificuldades para governar. 
Sem apoio político, passou a enfrentar o desconten-
tamento dos tutsis, que cobravam o cumprimento das 
promessas feitas pelo então presidente do Congo. Para 
demonstrar controle e proteger os tutsis, Kabila expul-
sou tropas de Ruanda e Uganda, dando início à segun-
da guerra do Congo. O conflito só cessou em 2002 com 
a intervenção da Organização das Nações Unidas.
Conflitos africanos

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