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1 1Graduando do curso de Medicina Veterinária da Universidade Positivo; 1Graduando do curso de Medicina Veterinária da Universidade Positivo; 2Docente do curso de Medicina Veterinária da Universidade Positivo. ASPECTOS TOMOGRAFICOS DE MIELOMENINGOCELE EM CÃO - RELATO DE CASO TOMOGRAPHICAL ASPECTS OF MYELOMENINGOCELE IN DOG – CASE REPORT Gianlucca Rossetim1; Rafael Henrique da Silva Pereira1; Mariana Hecke Tramontin2. RESUMO: Um bulldog inglês, macho de 3 anos de idade foi encaminhado a centro de diagnóstico por imagem para realização de tomografia computadorizada de coluna lombar e lombosacra, sem histórico clínico. Após execução da tomografia sob anestesia geral, foi revelada presença de espinha bífida em vértebras L7 e sacrais, com protrusão de meninges e medula espinhal, identificado como mielomeningocele, associada a sinus dermóide do tipo IV. Outras má formações vertebrais também foram reveladas no exame como hemivértebras e cifose em região torácica. Este relato de caso descreve os principais achados de imagem na tomografia computadorizada relacionados a espinha bífida e consequente mielomeningocele. PALAVRAS-CHAVE: Mielomeningocele; Bulldog inglês; Espinha bífida; Sinus dermóide; Tomografia Computadorizada. ABSTRACT: A 3 years old male English Bulldog was forward to diagnostic image center to perform a computed tomography in lumbar spine and lombosacral, without medical historic. After execution of computed tomography under general anesthesia, the presence of spina bifida in vertebrae L7 and sacrals was revealed, with protrusion of meninges and spinal cord, identified as myelomeningocele, also associated with dermoid sinus type IV. Others vertebral malformations were also revealed with the examination as hemivertebrae and kyphosis in thoracic region. This case report describes the main computed tomography images findings related to spina bifida and consequent myelomeningocele. KEY-WORDS: Myelomeningocele; English bulldog; Spina bifida; Dermoid sinus; Computed tomography. 1. INTRODUÇÃO Os defeitos de tubo neural são um conjunto de má formações congênitas na coluna vertebral e na medula espinhal, os quais ocorrem devido ao desenvolvimento anormal do tubo neural durante o processo de embriogênese (SONG et al., 2015). A classificação para tais defeitos ainda possui grandes inconsistências na terminologia médica, porém, por meio da classificação 2 estipulada por McComb (2015), pode-se aplicar as terminologias para a medicina veterinária. A mielomeningocele, classificada como defeito de tubo neural aberto, é a alteração na qual há um defeito no fechamento dos arcos vertebrais, chamada espinha bifida, leva a protrusão de meninges e medula espinhal (WESTWORTH, STURGES, 2010). Apesar da etiologia ainda ser desconhecida na medicina e na medicina veterinária, sabe-se que as causas dos defeitos de tubo neural são multifatoriais, com diversas contribuições tanto de fatores genéticos quanto ambientais (SHIMOJI et al., 2013; KUMAR, TUBBS, 2011). Em humanos, sabe- se que doenças nutricionais como a deficiência de vitamina B9, B12, cloro e doenças metabólicas como diabetes mellitus e obesidade durante a gestação, podem provocar má formações de tubo neural (OSTERHUES, ALI, MICHELS, 2013; FLORES, et al., 2014). Estudos experimentais também demonstraram a indução de má formações em gatos após a administração de antifúngicos como griseofulvina e etilenotiureia ou agentes tóxicos como metilmercúrio e hidroxiureia (SONG et al., 2015; WESTWORTH, STURGES, 2010). A real incidência de tais alterações na medicina veterinária ainda é desconhecida devido excasses de relatos e destes se demonstrarem muitas vezes assintomáticos e/ou não diagnosticados corretamente por meio dos exames de imagem, podendo também serem apresentadas em animais natimortos, nos quais não é realizada necropsia e consequentemente não há diagnosticado (SONG et al., 2014). Má formações em cordão espinhal podem ser diagnosticadas por meio do exame clínico, neurológico, estudos histológicos, mas principalmente por meio de exames de imagem. Diversos métodos foram descritos na medicina veterinária para o diagnóstico de defeitos de tubo neural, sendo a radiografia, mielografia, tomografia computadorizada e a ressonância magnética os métodos de predileção clínica (WESTWORTH, STURGES, 2010; SONG et al., 2015). A ultrassonografia como método de diagnóstico a nível fetal é comum na medicina, porém não há relatos na medicina veterinária (GHI et al., 2015; MICU et al., 2018). 3 Este artigo tem como objetivo descrever um caso de mielomeningocele em um cão da raça Bulldog Inglês, e relatar os principais achados do exame de tomografia computadorizada. 2. RELATO DE CASO Um cão macho da raça bulldog inglês de 3 anos de idade, foi encaminhado a centro de diagnóstico por imagem para a realização de exame de tomografia computadorizada da coluna. O equipamento utilizado para o exame foi um tomógrafo (Somaton emotion 6, Siemens®) de 6 canais, onde foram realizados cortes da coluna lombar (T10-L7) e lombosacra (L4-Sacrais) com cortes finos de 1,25mm, pela técnica de aquisição de volume contínuo de 6x1,00mm e respectivas construções. O paciente foi submetido a anestesia geral durante todo o exame com acompanhamento de anestesista. Nos cortes da coluna lombar foram encontradas hemivértebras em T10, T11 e T12, apresentando diferentes graus de aplasia do corpo vertebral, provocando consequente cifose. Também se observou osteófito ventral anquilosante entre T11-L1. Já em região lombosacra percebeu-se que L7 e vértebras sacrais (S1-S3) apresentavam incompleto fechamento dorsal, com ausência dos processos espinhosos vertebrais, e havendo como consequência o desvio do saco dural e medula espinhal nesta região, onde também nessa região havia ondulação com afundamento na superfície da pele. Em L7 pode ser observado também um estreitamento lateral do canal raquidiano, com presença de osteófito ventral entre L7 e S1. As demais estruturas analisadas apresentavam-se íntegras, sem qualquer alteração digna de nota. Não houve identificação de lesão neoplásica ou acúmulo anormal de contraste em estruturas, além de não apresentar extrusão ou protrusão de discos intervertebrais. Tecido muscular, gorduroso e tecal também com valores de atenuação normais. 3. DISCUSSÃO A grande maioria das anormalidades neurológicas relatadas em cães e gatos, como estenose lombosacra, hemivértebras, vértebras em bloco, espinha bífida e suas complicações como meningocele e mielomeningocele, 4 semelhantes a este relato, possuem como principal suspeita a origem congênita, uma vez que a indução desta alteração só é realizada como método de pesquisa (WESTWORTH, STURGES, 2010; SONG et al., 2015). As más formações como resultado de fatores genéticos também podem estar presentes, comumente relatadas em cães de raças braquicefálicas, principalmente os que apresentam “cauda em parafuso” como pug, bulldog francês e bulldog inglês (KOPKE, et al., 2019; PLOYART, et al., 2013; MOTTA, et al., 2011; BERTHAM, HAAR, DECKER, 2019). Devido a seleção genética nestas raças, visando somente características estéticas, alterações anatômicas foram indiretamente selecionadas, levando a consequências ortopédicas como descritas neste caso e também consequências relacionadas as vias respiratórias como a síndrome braquicefálica (KAYE, et al. 2015). A espinha bífida associada a meningocele ou mielomeningocele possui maior ocorrência em região lombosacra, como a evidenciada nesse caso, região onde normalmente há prolapso de raízes nervosas e nervos espinhais pertencentes a região de cauda equina, produzindo principalmente a síndrome lombosacra descrita quando os animais se apresentam na forma sintomática, apresentando principalmente sinais envolvendo membros pélvicos, vesícula urinária,esfíncter anal e caudal, podendo variar de flacidez a paralisia (SONG, et al., 2014; RICCI, et al., 2011; ALLETT, et al., 2012; GOMES, et al., 2014; PLOYART, et al., 2013; TAMURA, et al., 2017). A base diagnóstica para os casos de espinha bifida associada com meningocele ou mielomeningocele envolvem principalmente a apresentação clínica da má formação associada aos importantes achados dos exames de imagem, podendo ser realizado a radiografia simples ou mielografia, tomografia computadorizada e também a ressonância magnética, padrão ouro para alterações em sistema nervoso (THRALL, 2018). A confirmação diagnóstica neste caso foi descrita principalmente pelos achados da tomografia computadorizada. Com os cortes transversais das vértebras de região lombosacra, pode ser confirmado a ausência de processo espinhoso e/ou fechamento incompleto desta mesma estrutura, principalmente das vertebras L7 (Figura 1.A) e S1 (Figura 1.B), onde através desta fenda houve desvio dorsal de saco dural e medula espinhal para fora do canal medular (Figura 1.C). Outra 5 alteração amplamente descrita em associação com espinha bifida em cães e gatos, e também evidenciada neste caso, é a depressão cutânea ou sinus dermóide em região de má formação vertebral (Figura 1.C), caracterizada pela falha na separação do tubo neural e a ectoderme no desenvolvimento embriológico, sendo neste caso de tipo IV, caracterizando mielomeningocele (KOPKE, et al., 2019; KIVIRANTA, et al., 2011; PLOYART, et al., 2013; MOTTA, et al., 2011; TAMURA, et al., 2017). Figura 1: A, Corte transversal em tomografia computadorizada em região de coluna lombar, demonstrando ausência e/ou não fechamento de processo espinho em L7 (setas pretas). B, Corte transversal em tomografia computadorizada em região de coluna sacral, demonstrando ausência e/ou não fechamento de processo espinhoso em S1 (setas pretas) e presença de sinus dermóide (seta branca). C, corte sagital em tomografia computadorizada em região lombosacra, demonstrando desvio dorsal de raiz nervosa (seta preta) em região de ausência de processo espinhoso vertebral de L7 a S3 com comunicação com sinus dermóide (seta branca). D, Reconstrução 3D de região lombosacra acometida pela falha no fechamento dorsal (setas pretas), evidenciando a espinha bifida, e “cauda em parafuso” (setas branca). Fonte: autor, imagens do paciente. Tanto em humanos quanto em animais, diversas outras anomalias congênitas podem estar associadas a espinha bifida e mielomeningocele. A 6 hidrocefalia, deslocamento de cerebelo, mielodisplasia, vértebras em bloco, transicionais e hemivértebras são as principais descrições na literatura (BERTHAM, HAAR, DECKER, 2019; KIVIRANTA, et al., 2011; KOPKE, et al., 2019). As hemivértebras são má formações congênitas relativamente comuns em cães braquicefálicos que possuem “cauda em parafuso” (Figura 1.D), amplamente associada a diversos graus de cifose e escoliose devido à instabilidade em coluna vertebral, como neste caso. A classificação das má formações em vértebras torácicas nestas raças foi proposta por Gutierrez- Quintana et al. (2014), o qual baseado na medicina, propôs a classificação de acordo com o segmento vertebral mal desenvolvido. Neste relato, pode-se evidenciar a presença de hemivértebras em região torácica, em T12 há descontinuidade do corpo vertebral em porção lateral, classificada como aplasia lateral vertebral (Figura 2.A), e em T13 a hemivertebra possui aspecto de borboleta devido a falha no desenvolvimento vertebral (Figura 2.B). Uma acentuada instabilidade em coluna vertebral também foi revelada no paciente, onde devido a presença das hemivértebras houve desvio do eixo em tantos graus 29° da coluna vertebral e consequente cifose (Figura 2.C), levando a formação de osteófito ventral anquilosante compensatório entre as vértebras T11 a L1 e entre L7 a S1. O único método terapêutico eficaz para as afecções de espinha bifida e mielomeningocele é a intervenção cirúrgica. Na literatura, relatos de terapia cirúrgica foram propostos com o único objetivo de prevenção a infecções bacterianas no espaço subaracnóideo e consequente prevenção de meningomielite, uma vez que os sinais clínicos devido ao prolapso de cordão espinhal podem ser reduzidos porém ainda permanecerem presentes (PLOYART, et al., 2013; SONG, et al., 2014; MOTTA, et al.). 7 Figura 2: A, Corte transversal em tomografia computadorizada de região torácica, indicando hemivértebra devido a aplasia vertebral em T12 (seta branca), e consequente formação de osteófito ventral anquilosante (setas pretas). B, Corte horizontal em tomografia computadorizada de região toracolombar, demonstrando hemivértebra do tipo borboleta (seta preta) e hemivértebra devido a aplasia vertebral (seta branca). C, Corte sagital em tomografia computadorizada de região toracolombar, demonstrando importante cifose com alteração da angulação em 29° da coluna vertebral (linha branca) e formação de osteófito ventral anquilosante (setas pretas). Fonte: autor, imagens do paciente. 4. CONCLUSÃO Diante os diversos métodos para o diagnóstico de afecções em sistema nervoso, sabe-se que a ressonância magnética é o padrão ouro para um diagnóstico preciso e detalhado, a qual muitas vezes é impossibilitada devido ao alto custo de execução e/ou indisponibilidade em algumas regiões. Com isso, a introdução de padrões bem definidos e a descrição de achados tomográficos na literatura, relacionada a tais afecções, é de extrema importância para o correto uso e acessibilidade clínica do método, tornando assim, a tomografia computadorizada um meio alternativo para o diagnóstico de alterações nervosas, 8 podendo se manter principalmente o detalhamento, a alta resolução de imagem e um consequente diagnóstico preciso. 5. REFERÊNCIAS ALLETT, B., et al. MRI of a Split cord malformations in a german shepherd dog. Journal of American Animal Hospital Association, v. 48, p. 344-351, 2012. BERTRAM, S.; HAAR, G. T., DECKER, S. Congenital malformations of the lombosacral vertebral columm are common in neurologically normal French Bulldogs, English Bulldogs, and Pugs, with breed-specific diferences. Veterinary Radiology & Ultrasound, v. 1, p. 9, 2019. FLORES, A. L., et al. Global burden of neural tube defects, risk factors, and prevention. Indian Journal of Community Health, v. 26, p. 3-5, 2014. GHI, T., et al. Prenatal diagnosis of open spina bifida i Emilia-Romagna. Fetal Diagnosis and Therapy, v. 37, p. 301-304, 2015. GOMES, C. A. R. et al. Espinha bífida associada à síndrome do cão nadador: Relato de caso. Revista científica Universitas, Itajubá, v. 5, p. 11-19, 2018. GUTIERREZ-QUINATA, R. et al. A proposed radiographic classification scheme for congenital thoracic vertebral malformations in brachycephalic “screw-tailed” dog breeds. Veterinary Radiology & Ultrassound, v. 55, n. 6, 2014. KAYE, B. M. et al. Computed tomagraphic, radiographic, and endoscopic tracheal dimensions in english Bulldogs with grade 1 clinical signs of brachycephalic airway syndrome. Veterinary Radiology & Ultrassound, v. 56, n. 6, p. 609-616, 2015. KIVIRANTA, A. M. et al. Dermoid sinus and spina bifida in three dogs and a cat. Journal of Small Animal Practice, v. 52, p. 319-324, 2011. KOPKE, M. A., et al. Dermoid sinus type VI associated with spina bifida and tethered cord sydrome in a French Bulldog. Journal of Veterinary Diagnostic Investigation, v. 31, p. 294-297, 2019. 9 KUMAR, A., TUBBS, R. S. Spina bifida: A diagnostic dilema in paleopathology. Clinical anatomy, v. 24, p. 19-33, 2011. MICU, R., et al. Ultrasound and magnetic resonance Imaging in the prenatal diagnosis of open spina bifida. Med Ultrason, v. 20., p. 221-227, 2018. MCCOMB, J. G. A practical clinical classification of spinal neural tube defects. Childs Nervous System.v. 31, p. 1641-1657, 2015. MOTTA, L. et al. Dermoid sinus type IV associated with spina bifida in a Young Victorian bulldog. Veterinary Record, v. 170, p. 127b, 2012. OSTERHUES, A., ALI, N. S., MICHELS, K. B. The role of folic acid fortification in neural tube defects: a review. Food Science and nutrition, v. 53, p. 1180-1190, 2013. PLOYART, S. et al. Myelomeningocoele and a dermoid sinus-like lesion in a French bulldog. 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