Prévia do material em texto
A prática psicanalítica com Lacan Tema de hoje: O sujeito do inconsciente (referência Seminário 11 – Do sujeito da certeza, pp. 33- 44) “Vocês concordarão comigo em que o um que é introduzido pela experiência do inconsciente é o um da fenda, do traço, da ruptura” (p.30) E isto repercute diretamente sobre a escuta do analista, o manejo da transferência, a direção do tratamento. O Um da fenda, do não-todo ( -> Unbewusste) Sincronia de conceitos para dar conta desta fenda (que, alguns anos mais adiante, será abordada de uma forma lógica, na figura do não-todo) falta-a-ser hiância hiância pré- ontológica “... ele *o conceito de inconsciente+ não é ser nem não- ser, mas é algo de não realizado” (p.34) “É notável que o que se anunciava como uma abertura infernal tenha sido, na sequencia, também notavelmente assepticizado.” (p. 34) Lacan alerta aos analistas quanto à tendência à não se escutar o inconsciente: Sob quais modos esta tendência a não se ouvir o inconsciente se apresenta hoje, entre nós? ALEXANDRE SIMÕES ® Todos os direitos de autor reservados. Abertura e fechamento do Inconsciente: Operação de sutura (cf. 28) “ O que é ôntico na função do inconsciente, é a fenda por onde esse algo, cuja aventura em nosso campo parece tão curta, é por um instante trazida à luz - por um instante, pois o segundo tempo, que é de fechamento, dá a essa apreensão um caráter evanescente.” (p. 35) esta pulsação, ao ver de Lacan, comporta uma demarcação inédita: “Onticamente então, o inconsciente é o evasivo - mas conseguimos cercá-lo numa estrutura, uma estrutura temporal, da qual se pode dizer que jamais foi articulada, até agora, como tal.” (p. 36) Inconsciente como EVASIVO: Instante de ver (onde algo é sempre elidido, senão perdido) Momento (onde algo é sempre não- concluído, dando a impressão de uma recuperação malograda) Gradativamente, Lacan assumindo o compromisso inicial de explorar os fundamentos da Psicanálise, vai desenvolvendo os contornos de alguns conceitos Nesta terceira lição (29/01/1964), Lacan aborda a transferência e a repetição: TRANSFERÊNCIA REPETIÇÃO Os 4 conceitos fundamentais da Psicanálise: SUJEITO INCONSCIENTE TRANSFERÊNCIA REPETIÇÃO PULSÃO Sujeito dividido: “... é o sujeito que está interessado no campo do inconsciente” (p. 41) “Em suma, Freud está seguro de que esse pensamento está lá, completamente sozinho de todo o seu eu sou, se assim podemos dizer, - a menos que, este é o salto, alguém pense em seu lugar.” (p. 39) Para melhor localizarmos o que Lacan aborda sob o título de ‘sujeito do inconsciente’, temos de voltar ao objeto: “... A verdade do sujeito, mesmo quando ele está em posição de mestre, não está nele mesmo, mas, como a análise o demonstra, num objeto, velado por natureza...” (p. 13) A dimensão da linguagem (os significantes); A dimensão do objeto (o a-significante); Não são duas coisas ou substâncias distintas que nos habitam. São dois atributos que se descompletam mutuamente e que fazem de nós o que somos; Se o sujeito (por conta de seu atrelamento ao significante) nós sabemos, em certa, medida o que é, o que produz, em que implica ... o objeto é aquilo que faz parte de mim, me faz ser irremediavelmente diferente de qualquer outro e que, contudo, eu não sei muito bem o que é, no que implica, o que promove Neste sentido, o analista deve considerar (orientando-se por Lacan) que o objeto é sempre evasivo quanto a uma imagem: por exemplo, Lacan enfaticamente propôs o olhar como objeto exatamente porque ele é aquilo que da nossa própria imagem não se deixa ver. Para localizarmos a função do objeto em Lacan e, sobretudo, a articulação entre Lacan e Freud, neste aspecto: temos de considerar o percurso que vai da ‘falta do objeto’ ao ‘objeto da falta’ A base freudiana da falta do objeto: em 3 tempos Freud, (bem inicialmente, em 1895), propõe que a primeira experiência de satisfação deixa marcas (traços) no psiquismo. Primeiro tempo: o protótipo de toda a experiência: quando alguma experiência de desconforto se impõe ao bebê, há um grito. O outro, toma o grito como apelo e, assim, o relaciona a uma falta (fome, dor, frio, etc.). A princípio, o que é recebido, oferece uma forma de satisfação diante do desconforto. Este encontro deixa um resto: o traço (marca). Segundo tempo: o ressurgimento do incômodo denuncia que o objeto já não mais está lá e, assim, possibilita primeiramente que o traço de satisfação da experiência anterior seja investido e o objeto se apresente alucinatoriamente. Entretanto, a manutenção do incômodo indica a precariedade da revivência alucinatória do objeto. Quando um outro objeto é oferecido à criança, há a discrepância entre este objeto e o objeto alucinado. Terceiro tempo: ao longo da vida, há uma tentativa de reencontro da primeira experiência. Mas, notemos: essa primeira experiência é mítica,. O que fica dela é um resto e a demarcação de um ponto de furo no psiquismo, que causa no sujeito a busca de um reencontro, um reencontro do objeto perdido. Essa parte que se perde da primeira experiência de satisfação, Freud a chamou de das Ding. Das Ding é o vazio por excelência, que não pode ser preenchido por nenhum outro objeto. Daí, a crucial afirmação de Lacan no seminário 11: “O objeto a é algo de que o sujeito, para se constituir, se separou como órgão.” (Lacan, Seminário 11, p. 101) Prosseguiremos com Significante e estrutura (referência Seminário 11 – Da rede dos significantes, pp. 45- 54)