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1
Introdução ao Estudo da Medicina
Legal
1. Medicina Legal: Conceito. Definição. Sinonímia. Relações com as demais
ciências médicas e jurídicas. Noções históricas. Classificação. Importância do
estudo da Medicina Legal. Metodologia de ensino. Situação atual e
prospectiva. Medicina Legal baseada em evidências. Medicina Legal e
direitos humanos.
CONCEITO
A Medicina Legal é uma ciência de largas proporções e de extraordinária
importância no conjunto dos interesses da coletividade, porque ela existe e se
exercita cada vez mais em razão das necessidades da ordem pública e do
equilíbrio social.
Não chega a ser propriamente uma especialidade médica, pois aplica o
conhecimento dos diversos ramos da Medicina às solicitações do Direito.
Mas, pode-se dizer, que é Ciência, Técnica e Arte ao mesmo tempo. É
Ciência porque sistematiza seus métodos para um objetivo determinado,
exclusivamente seu, sem com isso formar uma consciência restrita nem uma
tendência especializada, daí exigir uma cultura maior e conhecimentos mais
abrangentes do que em qualquer outro campo da Medicina. É
inquestionavelmente Ciência pois ela interpreta e justifica seu pensamento
seguindo as exigências dos princípios da Filosofia da Ciência estabelecidos
desde Aristóteles. Ela é Ciência mesmo sem as exigências do necessário. A
Medicina Legal não é apenas um saber técnico: ela se insere em um corpo de
doutrina e conhecimentos que transcende o campo puramente médico.
Não há como deixar de incluir o agir médico-legal no rol das Ciências,
mesmo sem um grau de certeza absoluta. Seus laudos estão de acordo com os
cânones rigorosos da Filosofia das Ciências. Basta ler os enunciados de
Aristóteles ao expor os fundamentos do pensamento científico. Seus
fundamentos, seus temas e, sobretudo, sua doutrina é Ciência de acordo com
aqueles critérios. E, finalmente, é Ciência porque seu conhecimento é
especialmente testado e obtido por meio do método científico.
O ato médico-legal é Técnica porque utiliza métodos sofisticados em
busca da verdade, tendo-se sempre o cuidado de usá-la no seu tempo certo:
sem sua tirania e sem seu monopólio na construção do pensamento. Sem seu
caráter de dominação e de hegemonia que subestima a inteligência. Ninguém
discute que a tecnologia constitui, na atualidade, a principal força produtiva
da sociedade. Nem pode-se deixar de reconhecer que a não tecnologia é uma
atitude de lesa-humanidade. A tecnologia exige um conhecimento do por quê
e do como seus objetivos são alcançados, não sendo apenas um conjunto de
habilidades e competências que se admitem como eficazes na busca de
melhorar uma prática de viver. Não é ético limitar o conhecimento humano.
Mas, cabe à inteligência, disciplinar seu uso e direcionar seus resultados.
E é Arte também porque, mesmo aplicando técnicas e métodos muito
exatos e sofisticados em busca de uma verdade reclamada, exige qualidades
instintivas para demonstrar de forma significativa, por exemplo, a sequência
lógica do resultado dramático da lesão violenta. Tudo isso sujeitado à ciência
– uma arte forçosamente científica. Aqui não se pode dizer que seja uma arte
voltada para a produção de efeitos estéticos, nem para a manifestação
fantástica e ilusória a que o virtuosismo espiritual aspira e promove, mas uma
arte estritamente objetiva e racional, capaz de colocar o analista dos fatos
diante de uma concepção precisa e coerente. A Arte neste sentido é inserir na
descrição do laudo o devido entendimento que se deve ter de sua leitura a
partir da exata compreensão do fato analisado. Como dizia Alves de
Menezes: “tem-se de construir sua frase como se não estivesse escrevendo,
mas fotografando.” E mais: “a arte que serve a uma perícia é, portanto, aquela
em que a dialética está a serviço exclusivo de uma realidade, sem quaisquer
artifícios emergidos das divagações estéticas.” O ato médico-pericial, desse
modo, é um exercício de arte científica.
O fazer da Medicina Legal é técnico e científico a exigir recursos e
práticas, mas a montagem da diagnose é puramente arte. Como ciência
experimental ela é um saber dedutivo, e não indutivo: tem uma conclusão
empírica, nunca completa, e, às vezes, suas conclusões são prováveis. Mesmo
assim, aqui o provável nunca é uma abstração, mas aquilo que se situa entre o
possível e o real: a chamada “probabilidade objetiva”. A Medicina Legal é
bem mais uma ordem do pensar do que do ser.
Hoje, mais do que nunca, a Medicina Legal se apresenta como uma
contribuição da mais alta valia e de proveito irrecusável. É uma disciplina de
amplas possibilidades e de profunda dimensão pelo fato de não se resumir
apenas ao estudo da ciência hipocrática, mas de se constituir da soma de
todas as especialidades médicas acrescidas de fragmentos de outras ciências
acessórias, destacando-se entre elas a ciência do Direito.
Além do conhecimento da Medicina e do Direito, exige-se o concurso de
outras ciências afins e da tecnologia para se firmar com mais precisão o
resultado desejado, esclarecer coerentemente o raciocínio e exercer com
facilidade a dialética.
Hélio Gomes asseverava que “não basta um médico ser simplesmente um
médico para que se julgue apto a realizar perícias, como não basta a um
médico ser simplesmente médico para que faça intervenções cirúrgicas. São
necessários estudos mais acurados, treino adequado, aquisição paulatina da
técnica e da disciplina. Nenhum médico, embora eminente, está apto a ser
perito pelo simples fato de ser médico. É-lhe indispensável educação médico-
legal, conhecimento da legislação que rege a matéria, noção clara da maneira
como deverá responder aos quesitos, prática na redação dos laudos periciais.
Sem esses conhecimentos puramente médico-legais, toda a sua sabedoria será
improfícua e perigosa”.
Tourdes chegou a afirmar que “os médicos resolvem as questões, e os
juízes decidem as soluções” e que “sua importância resulta da própria
gravidade dos interesses que lhes são confiados, não sendo exagerado dizer
que a honra, a liberdade e até a vida dos cidadãos podem depender de suas
decisões”. Hélio Gomes ainda sentenciava que “o laudo pericial, muitas
vezes, é o prefácio de uma sentença”. A missão do perito, portanto, é a de um
verdadeiro juiz de fato.
A Medicina Legal não se preocupa apenas com o indivíduo enquanto
vivo. Alcança-o ainda quando ovo e pode vasculhá-lo muitos anos depois na
escuridão da sepultura. É muito mais uma ciência social do que propriamente
um capítulo da Medicina, devido à sua preocupação no estudo das mais
diversas formas da convivência humana e do bem comum.
Seus cultores quase não servem mais à Medicina. São servidores da
Justiça e do Direito. Por isso, formam, hoje em dia, uma verdadeira
“magistratura médico-social”, em que prestam relevantes serviços à
comunidade.
Uma criança trocada em uma maternidade, um pai que nega a
paternidade, um casamento malsucedido por doença grave e incurável, um
acidente de trabalho ou uma doença profissional têm nesta ciência uma ajuda
indispensável. Do mesmo modo, uma marca de dentada, um fio de cabelo,
um dente cariado ou restaurado, uma impressão digital, uma mancha de
sangue ou pequenos fragmentos de pele sob as unhas de um suspeito, que à
primeira vista não mostram nenhuma importância, são subsídios por si sós
capazes de ajudar a desvendar o mais misterioso e indecifrável crime.
Pelo visto, a Medicina Legal é uma disciplina eminentemente jurídica,
mesmo que ela tenha muitos dos seus subsídios trazidos da Medicina e das
outras ciências biológicas e da tecnologia. Ela é uma disciplina jurídica
porque foi criada e subsiste em face da existência e das necessidades do
Direito. E muito se realçará à medida que mais valorizem e mais exijam as
ciências jurídico-sociais.
Por outro lado, não há caminho mais espinhoso do que o trilhado pelos
obstinados dessa ciência. Não há vocação maior do que a inclinação às
perícias médico-forenses, em que a rocha, muitas vezes, é cavada com as
próprias mãos. Não há tarefa mais discreta, pois seus resultados se perdem no
anonimato e no silêncio,pois que deles tomam conhecimento apenas as
autoridades policial-judiciárias.
É uma ciência curiosa, vivaz, apaixonante e, por vezes, espetacular, que
cativa e seduz aqueles que por ela começam a se interessar.
DEFINIÇÃO
As inúmeras relações com outras ciências e o seu extenso raio de atividade
tornam a Medicina Legal difícil de ser definida com precisão. Em geral, cada
definidor conceitua esta ciência, levando em consideração sua forma de
atuação, como entende sua prática, sua contribuição e sua importância diante
dos justos e elevados reclamos da sociedade.
Ambroise Paré a definiu como “a arte de fazer relatórios em juízo”, e
Foderé como “a arte de aplicar os conhecimentos e os preceitos dos diversos
ramos principais e acessórios da Medicina à composição das leis e às diversas
questões de direito, para iluminá-los e interpretá-los convenientemente”.
Há outros conceitos dados à Medicina Legal, como:
“É a Medicina considerada em suas relações com a existência das leis e a
administração da Justiça” (Adelon).
“A aplicação dos conhecimentos médicos nos casos de procedimento
civil e criminal que possam ilustrar” (Marc).
“É a ciência do médico aplicada aos fins da ciência do Direito”
(Buchner).
“O conjunto de conhecimentos físicos e médicos próprios a esclarecer os
magistrados na solução de muitas questões concernentes à administração da
Justiça e dirigir os magistrados na elaboração de um certo número de leis”
(Orfila).
“A arte de periciar os efeitos das ciências médicas para auxiliar a
legislação e a administração da Justiça” (Casper).
“A aplicação do conhecimento médico-cirúrgico à legislação” (Peyró e
Rodrigo).
“A expressão das relações que as ciências médicas e naturais podem ter
com a Justiça e a Legislação” (Dambre).
“A ciência que ensina os modos e os princípios como os conhecimentos
naturais, adquiridos pela experiência, aplicam-se praticamente e conforme as
leis existentes para auxiliar a Justiça e descobrir a verdade” (Schermeyer).
“Constitui-se em ciência e arte que tem por objetivo a investigação de
fatos médicos e biológicos empregando recursos atualizados disponíveis em
todas as áreas do conhecimento técnico e científico” (Francisco Moraes
Silva).
“O conjunto de princípios científicos necessários para esclarecer os
problemas biológicos humanos em relação com o Direito” (Samuel Gajardo).
“A arte de pôr os conceitos médicos ao serviço da administração da
Justiça” (Lacassagne).
“A aplicação das ciências médicas ao estudo e solução de todas as
questões especiais, que podem suscitar a instituição das leis e a ação da
Justiça” (Legrand du Saule).
“O conjunto sistemático de todos os conhecimentos físicos e médicos que
podem dirigir as diversas ordens de magistrados na aplicação e composição
das leis” (Prunelle).
“A arte de aplicar os documentos que nos proporcionam as ciências
físicas e médicas à confecção de certas leis, ao conhecimento e à
interpretação de certos feitos em matéria judicial” (Divergie).
“A ciência que emprega o princípio das ciências naturais e da medicina
para elucidar e resolver algumas das questões compreendidas na
jurisprudência civil, criminal, administrativa e canônica” (Ferrer y Garcés).
“O ramo da medicina que reúne todos os conhecimentos médicos que
podem ajudar a administração da Justiça” (Vargas Alvarado).
“O conjunto de conhecimentos médicos e biológicos necessários para a
resolução dos problemas que apresenta o Direito, tanto em sua aplicação
prática das leis como em seu aperfeiçoamento e evolução” (Calabuig).
“A resposta ou solução da medicina aos problemas do Direito ou da Lei”
(Teke).
“Um conjunto de vários conhecimentos científicos, principalmente
médicos e físicos, cujo objeto é dar devido valor e significação genuína a
certos feitos judiciais e contribuir na formação de certas leis” (Mata).
“A medicina considerada em suas relações com o Direito Civil, Criminal
e Administrativo” (Briand e Chaudé).
“O estudo do homem são ou doente, vivo ou morto, somente naquilo que
possa formar assunto de questão forense” (de Crecchio).
“Um método de dar testemunho, na Justiça, nos casos de feridos aos
médicos” (Baptiste Condronchi).
“A ciência que ensina a aplicação de todos os ramos da Medicina aos fins
da Lei, tendo por limites, de um lado, os quesitos legais e, de outro, a ordem
interna da Medicina” (Taylor).
“A aplicação dos conhecimentos médicos aos problemas judiciais” (Nerio
Rojas).
“Uma disciplina que utiliza a totalidade das ciências médicas para dar
respostas a questões judiciais” (Bonnet).
“A aplicação dos conhecimentos médicos às questões que concernem aos
direitos e deveres dos homens reunidos em sociedade” (Tourdes).
“O ramo das ciências médicas que se ocupa em elucidar as questões da
administração da justiça civil e criminal que podem resolver-se somente à luz
dos conhecimentos médicos” (Hoffmann).
“A parte da jurisprudência médica que tem por objeto o estabelecimento
das regras que dirigem a conduta do médico, como perito, e na forma que lhe
cumpre dar às suas declarações verbais ou escritas” (Souza Lima).
“O conjunto de conhecimentos médicos e paramédicos destinados a
servir ao Direito, cooperando na elaboração, auxiliando na interpretação e
colaborando na execução dos dispositivos legais, no seu campo de ação de
medicina aplicada” (Hélio Gomes).
“A aplicação de conhecimentos científicos dos misteres da Justiça”
(Afrânio Peixoto).
“A aplicação dos conhecimentos médicos ao serviço da Justiça e à
elaboração das leis correlativas” (Tanner de Abreu).
“Um ramo das ciências jurídicas que estuda os princípios biológicos e
físico-químicos enquanto o servem à edição e à aplicação das Leis” (Mac
Iver).
“A disciplina que efetua o estudo teórico e prático dos conhecimentos
médicos e biológicos necessários para a resolução dos problemas jurídicos,
administrativos, canônicos ou militares, com utilitária aplicação propedêutica
a estas questões” (Basile e Waisman).
“A aplicação dos conhecimentos médico-biológicos na elaboração e
execução das leis que deles carecem” (Flamínio Fávero).
Em suma, a Medicina Legal é a contribuição da medicina, e da tecnologia
e outras ciências afins, às questões do Direito na elaboração das leis, na
administração judiciária e na consolidação da doutrina.
SINONÍMIA
A Medicina Legal tem recebido denominações várias, cada qual revelando as
diversas tendências com que ela tem sido encarada em sua finalidade e em
sua conceituação.
Assim, temos: Medicina Legalis Forensis (A. Paré); Relationes
Medicorum (F. Fidelis); Questiones Medico Legalis (P. Zacchias); Medicina
Crítica (Amman); Schola Juris Consultorum Medica (Reinesius); Corpus
Juris Medica Legale (Valentini); Jurisprudência Médica (Alberti);
Antropologia Forensis (Hebenstreit); Bioscopia Forensis (Meyer); Medicina
Legal Judicial (Prunelle); Medicina Política (Marc); Medicina Forense
(Sydney Smith); Medicina Judiciária (Lacassagne).
Mesmo considerando-se, na maioria das vezes, Medicina Legal como
sinônimo de Medicina Forense e de Medicina Judicial, é evidente que estas
duas últimas expressões são mais ajustadas às atividades das instituições de
perícias junto à administração dos tribunais, enquanto Medicina Legal tem,
pela maior extensão e abrangência, uma contribuição que vai mais além,
inclusive com sua contribuição legislativa, doutrinária e filosófica, advinda
principalmente do ambiente universitário.
Certamente por isso Medicina Legal é a denominação mais aceita. O uso
a consagrou não como a mais correta, mas como a menos imperfeita.
Para nós, melhor seria chamá-la de Medicina Política e Social, devido à
suas múltiplas intimidades nos relacionamentos social e político do homem e
por não ser apenas a “medicina da lei”.
RELAÇÕES COM AS DEMAIS
CIÊNCIAS MÉDICAS E JURÍDICAS
A Medicina Legal relaciona-se, especificamente, no campo da Medicina, com
a Patologia, Psiquiatria, Traumatologia, Neurologia, Radiologia, Anatomia e
Fisiologia Patológicas, com a Microbiologia e Parasitologia, Obstetrícia e
Ginecologia e, finalmente, com todas as especialidadesmédicas.
Com as Ciências Jurídicas e Sociais, a Medicina Legal empresta sua
colaboração ao estudo do Direito Penal nos problemas relacionados com
lesões corporais, aborto legal e aborto criminoso; infanticídio, homicídio e
crimes contra a liberdade sexual. Com o Direito Civil, nas questões de
paternidade, nulibilidade de casamento, testamento, início da personalidade e
direito do nascituro. Com o Direito Administrativo, quando avalia as
condições dos funcionários públicos, no ingresso, nos afastamentos e
aposentadorias.
Com o Direito Processual Civil e Penal, quando estuda a psicologia da
testemunha, da confissão, do delinquente e da vítima. Com a Lei das
Contravenções Penais, ao tratar dos anúncios dos meios abortivos, da
omissão de comunicação de crime no exercício da Medicina, da inumação e
exumação com infrações das disposições legais, e da embriaguez.
Contribui com o Direito Trabalhista no estudo das doenças do trabalho,
das doenças profissionais, do acidente do trabalho, com a prevenção de
acidentes, com a insalubridade e a higiene do trabalho. Com o Direito
Penitenciário, ao tratar dos aspectos problemáticos da sexualidade nas prisões
e da psicologia do encarcerado com vistas ao livramento condicional. Com o
Direito Ambiental, quando se envolve nas questões ligadas às condições de
vida satisfatórias em um ambiente saudável, seja nos locais de trabalho, seja
fora deles. E também com o Direito Administrativo, quando se presta aos
interesses da administração pública no sentido de apreciar as admissões,
licenças, aposentadorias e invalidezes dos servidores públicos.
Com o Direito dos Desportos, analisando detidamente as mais diversas
formas de lesões culposas ou dolosas verificadas nas disputas desportivas e
no aspecto do “doping”, principalmente nos chamados desportos de
competição. Com o Direito Internacional Público, ao considerar as razões
médico-legais implicadas nos tratados dos quais nosso país é signatário no
concerto das nações. Com o Direito Internacional Privado, ao decidir as
questões civis relacionadas com o estrangeiro no Brasil. Com o Direito
Comercial, não apenas nas perícias dos bens de consumo, mas ao atribuir as
condições de maturidade para a plena capacidade civil dos economicamente
independentes. E com o Direito Canônico, no que se refere, entre outras
coisas, à anulação de casamento em que a perícia de conjunção carnal pode
resultar fundamental na apreciação do processo pelo Tribunal da Santa Rota.
Assim, a Medicina Legal tem um extenso raio de atividades nos diversos
ramos do Direito. Ainda se relaciona com a História Natural no estudo da
Antropologia e da Genética, nos problemas da identidade e da identificação, e
no estudo da Entomologia, no processo de determinação do tempo de morte
pela fauna cadavérica.
Relaciona-se a Medicina Legal com a Química, a Física, a Toxicologia, a
Balística, a Dactiloscopia e a Documentoscopia. Com a Sociologia, a
Economia e a Demografia, no estudo do desenvolvimento e nos aspectos da
natalidade. Com a Filosofia, a Estatística, a Informática e a Ecologia.
NOÇÕES HISTÓRICAS
 No exterior
Embora os fatos comprovem a participação médica em seus processos
judiciais, os antigos não conheceram a Medicina Legal no sentido mais
específico e mais moderno como ciência.
Numa Pompílio, em Roma, segundo se crê, ordenou o exame médico na
morte das grávidas. Adriano e Justiniano utilizaram-se dos conhecimentos
médicos de então para esclarecer alguns fatos de interesse da Justiça.
Segundo os relatos de Suetônio, o médico Antístio examinou o cadáver
de Júlio César e determinou que, dos muitos ferimentos recebidos, apenas um
foi mortal.
Somente com a legislação canônica, em 1209, por um decreto de
Inocêncio III, iniciou-se a perícia médica quando os profissionais da
medicina eram convidados a visitar os feridos que estivessem à disposição
dos tribunais.
Gregório IX, em 1234, em Decretales, sob o título Peritorum indicio
medicorum, exigia como requisito indispensável a opinião médica para
distinguir, entre várias lesões, aquela cujo resultado era especificamente
mortal, e, sob o título De probatione, colocava a nulidade de casamento ao
exame da mulher cujo resultado coincidia com a não consumação da
conjunção carnal.
Lazaretti afirma que o início da Medicina Legal prática foi na Itália, em
1525, com o Edito della Gran Carta della Vicaria di Napoli.
Foi no século XVI que a Medicina Legal teve sua marcada contribuição
depois da publicação, em 1532, da Constitutio Criminalis Carolina, em que
era exigida a presença dos peritos nos diversos tipos de delito, embora as
necropsias forenses tivessem sido realizadas muito antes. Em 1521, quando o
Papa Leão X morreu com suspeita de envenenamento, seu corpo foi
necropsiado.
Em 1575, Ambroise Paré lançava o primeiro tratado sobre Medicina
Legal, intitulado Des Rapports et des Moyens d‘Embaumer les Corps Morts,
no qual tratava não apenas da técnica de embalsamamento do cadáver, mas
ainda da gravidade das feridas, de algumas formas de asfixia, do diagnóstico
da virgindade e de outras questões do mesmo interesse.
Por isso, atribui-se a Ambroise Paré a paternidade da Medicina Legal.
Foi, no entanto, Fortunatus Fidelis, de Palermo, em 1602, quem lançou o
primeiro tratado sobre o assunto, de forma mais completa e detalhada, sob o
título De Relatoribus Libri Quator in Quibis ea Omnia quae in Forensibus ae
Publicis Causis Medici Preferre Solent Plenissime Traduntur.
Surgiu, nessa mesma época, outra obra, intitulada Questiones Medico
Legales Opus Jurisperitis Maxime Necessarium Medicis Perutile, de Paolo
Zacchias, que, para alguns, é o verdadeiro pai da Medicina Legal.
O século XVIII foi marcado por grande progresso, e, precisamente em
1722, na Alemanha, surge Herman Teichmeyer com seu notável trabalho
Institutiones Medicinae Legalis vel Forensis. Mais tarde, Carlos Liman,
Albert Ponsold, Fritz Strassmann, Richard von Kraft Ebing e Johan Ludwig
Casper. Agora, Wolfgang Reimann, Manfred Oehmichen e Otto Prokop. Foi
na Alemanha que surgiu a primeira Revista especializada em Medicina Legal
em 1821, com o título Zeitschrift für Staartzheikunde.
Na França, Mathieu Joseph Bonaventure Orfila cria, em 1821, a
Toxicologia Forense. Guillaume Alphonse Divergie empresta uma dimensão
nova à prática da Medicina Legal. Philippe Pinel, Jean Etienne Dominique e
Esquirol estruturam a Psiquiatria Forense. Ambroise Auguste Tardieu
reformula velhos conceitos e começa a organizar uma Medicina Legal mais
objetiva. Paul Camille Hippolyte Brouardell imprime características
científicas às ciências médico-legais. Seguem a luta pela redenção da
especialidade: Alexander Lacassagne, Jean Bonoit Foderé, Etienne Rollet,
Leon Henri Thoinot, Legrand du Saulle, Joseph Victor Ernest Chaudé, Victor
Balthazard, Etienne Martin, Edmond Locard e mais recentemente Leopoldo
Camille Simonin, Louis Roche e Etienne Fournier. Orfila e Tardieu criaram a
segunda Revista de Medicina Legal em 1829, sob o título de Anuals
d’Hygiene Publique et de Medicine Légale.
Joseph Bernt, em 1818, em Viena, cria o primeiro Instituto Médico-Legal
e, juntamente com Eduard von Hoffmann, Albin Haberda e Arnold Paltauf,
desenvolve magistralmente esta ciência.
Na Inglaterra, mesmo com os esforços de John Gordon Smith, Sidney
Alfred Smith, Bernard Spilsbury e Harvey Littlejohn, a Medicina Legal cai
no descrédito. Criam-se os coroners – peritos leigos eleitos pela comunidade.
Mais recentemente John Cyril Polson, Keith Simpson, David Osselton e
Bernard Knigth.
Na Itália, surgem, em uma fase áurea, Angiolo Fillipi, Cesare Lombroso,
Vincenso Mario Palmieri, Mario Carrara e Enrique Ferri. Mais recentemente,
Cesare Gerin e Luigi Macchiarelli.
Na Espanha surgem nomes como Pedro Mata (criador da primeira cátedra
de Medicina Legal e do Corpo de Médicos Forenses), Lecha Marzo e
Antonio Piga Pascual. Hoje, este país está entre os que desenvolvem uma boa
Medicina Legal, graças a mestres como Enrique Villanueva Cañadas, José
Antonio Sanchez y Sanchez, Emilia Lopes Lachica, LuisConcheiro Carro,
Cesar Parabia Fernandez, Jacinto Corbella Corbella, Leopoldo Lopez Gomez,
Angel Carracedo Álvarez, Maria Castellano Arroyo, Ricardo de Angel
Yáguez, Joan Carol Joval, Maria Gisbert Grifo, Fernando Alejo Verdú
Pascoal, Aurora Valenzuela Garach, José Luiz Palanco, Antonio Pla
Martinez, Aurélio Luna Maldonado, Emílio Huguet Ramia, Maria Dolores
Garcia Garcia, Eduardo Murcia Sáiz, Miguel Lorente Acosta, Claudio
Hernandez Cueto e, o mais notável deles, recém-falecido, Juan Antonio
Gisbert Calabuig.
Na Grécia chegam notícias apenas de Allex Pallis e Constantin Eliakis, e
do primeiro professor de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Ilha
de Corfu, Constantin, Vivitzianos, em 1808.
A Rússia, a partir de 1858, começa a desenvolver a Medicina Legal com
Sergei Gromov, S. G. Gueorguieff e N. S. Bokarius, além dos brilhantíssimos
Dragendorf e Pirogoff.
Em Portugal, no passado, destacaram-se José Joaquim da Silva Amado,
Juan Alberto Pereira de Azevedo Neves, Almeida Ribeiro, Asdrubal Antonio
de Aguiar, Luiz Augusto Duarte Santos, Fernando de Almeida Ribeiro e
Fernando Manuel Oliveira de Sá. Atualmente, destacam-se Duarte Nuno
Pessoa Vieira, José Eduardo Lima Pinto da Costa, Lesseps José Antonio
Lourenço Reys, Francisco Manuel Andrade Corte-Real Gonçalves, Ascenção
Rebelo, Rita Duarte, Tereza Maria Salgado Magalhães e Jorge Costa Santos.
Na Argentina, o ensino da Medicina Legal teve início em 1852 com a
organização provisória da Faculdade de Medicina de Buenos Aires, sendo
Nicanor Albarellos seu primeiro professor. De lá para cá, surgiram os mestres
Eduardo Wilde, Francisco Xavier de la Concepción Muñiz, Eduardo Perez,
Horacio San Martin, Eduardo Puyol, Francisco de Veyga, José Ingenieros,
Domingos Sáenz Cavia, Nerio Rojas, Juan Ramón Beltran, Luiz Felipe Cia,
José Balbey, Emilio Frederico Pablo Bonnet, Alejandro Antonio Basile,
Victor Poggi, Mariano Castex, Alfredo Achával, Luis Alberto Kvitko, Julio
Alberto Ravioli, José Ángel Patitó, Oscar Augustin, Ignácio Lossetti,
Fernando Claudio Trezza, Celminia Gusmán, Carlos Fernandez Dri e Oscar
Gervasio Sanchez. No interior do país, destacam-se Juan Bialet Massé,
Gregorio Bermann, Ariosto Licurzi, Mário Germán Vignolo, Carlos Alberto
Bergese, Emilio Mercado e Victor Alberto Cinelli, em Córdoba; Miguel
Garcia Oliveira, Juan José Miorano e Miguel Angelo Maldonado, em La
Plata; Raymundo Bosch, León Levit, Victor Augustin José Frigieri, Osvaldo
Luiz Avaro, Oscar Sanchez e Leon Julio Lencioni, em Rosário; Pedro Jesus
Diaz Colodrero, Rouben Rovner e Alberto José Viturro, em Corrientes;
Alberto Semorille, José M. Solá y Paz e Carlos Poquet, em Mendoza; Alberto
Daniel e Isaac Freidenberg, em Tucumán.
Na Bolívia, destacam-se Rolando Costa Ardúz e Saul Pantoja Vacaflor
(La Paz), Manoel Michel Huertas e Jorge Nunes de Arco (Sucre) e Raul Paz
Roldan (Cochabamba).
No Chile, a primeira Faculdade de Medicina foi criada em Santiago,
sendo seu professor inicial de Medicina Legal Guillermo Blest. Foram
sucedendo-o Juan Miquel, Vicente Padim, Pablo Zorilla, Frederico Puga
Borne, Gregorio Amunategui, Carlos Ibar de la Serra, Alberto Benitez, Jaime
Vidal Oltra, Alfredo Vargas Baeza, Alberto Teke Achilicht e, atualmente,
Luis Ciocca Gómez. E da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais da
Universidade do Chile os mestres Samuel Gajardo e Luis Cousiño Mc Iver.
A Colômbia teve sua primeira Faculdade de Medicina em 1833 na cidade
de Bogotá, sendo seu titular de Medicina Legal Felix Merizalde, vindo depois
dele Luis Cuervi Márquez, Gabriel Camargo Angulo, Juan David Herrera,
Hernando Hueda Herrera e, até pouco tempo atrás, Guillermo Uribe Cualla, o
qual foi também diretor da Escola Superior de Ciências Médico-Forenses,
fundada em 1945. Hoje, um nome de expressão é o de Cesar Augusto
Giraldo.
No Equador, Julio Andara e Luis Vásconez Suárez. No Peru, Mariano
Arosamena Quesada, que foi o primeiro docente de Medicina Legal da
Faculdade de Medicina de Lima, em 1855, sucedendo-o Manoel C. Barrios,
Leonidas Avendaño Ureta, Guillermo Fernandez D’Avila, José Dário Torres,
Jorge Avedaño Hubner e Carmem Palao Rosa.
No Paraguai, a disciplina de Medicina Legal e Deontologia da Faculdade
de Medicina de Assunção teve início em 1903 com Manuel Fernandez
Sanchez, seguindo-o Flaviano Rubio, Rogelio Alvarez, Moleón Andreo e
Gregorio Ortiz Mayans.
O Uruguai, por sua vez, desenvolveu a Medicina Legal com José Maria
Estapé, Carlos Santin Rossi, Antonio Sicco e Antonio Camaño Rosa.
Atualmente pontificam a cátedra Guido Berro Rovira, Hugo Rodríguez
Almada, Maria de Carmen Curbelo e Guillermo López.
A Venezuela desde 1841 ensina a Medicina Legal por uma sequência de
professores, entre os quais destacam-se Antonio José Rodriguez, José Maria
Vargas, Gregorio Blanco, Francisco Antonio Risquez, Humberto Giugni e,
agora mais recentemente, Ruben Hernandez Serrano, Luiz Alberto Cardoso,
José Felix Martin Corona e Alfredo Gonzales Carrero.
Na América Central, destacam-se Alfonso Acosta Guzmán, Francisco
Rucuvado Leon e Eduardo Vargas Alvarado, na Costa Rica; em Cuba, José
Lletor de Castroverde (primeiro professor de Medicina Legal da Faculdade de
Medicina de La Habana), Ramón Zambrana Valdés, Oscar Amoedo,
Fernando Ortiz, Gonzalo Iturrioz (o criador da prova de parafina), Antonio
Barreras Fernández, Raimundo de Castro, José Fernández Benitez, Israel
Castellanos, Criner García, Diaz Padrón, Francisco Lancis y Sanchez e, mais
recentemente, Mayda Abeledo Concepción, Dayse Ferrer Marrero, Héctor
Soto Izquierdo, Francisco Ponce Zerquera, Jorge Gonzalez Perez e Alicia
Marlenne Basanta Montesinos. Em Honduras, Dennis Castro Bombadilla. No
Panamá, Luigui Barrera, Humberto Más Galzadilla e Rodolfo Ermocilla e na
Nicarágua Simeón Rizo Castellón e Hugo Argüello. Em El Salvador, seu
maior especialista é Roberto Masferrer.
Na América do Norte, destaque no Canadá para Wilfred Derome, Rosario
Fontaine e Jean Marie Roussel, todos eles ligados ao Instituto Médico-Legal
e de Polícia Científica de Montreal. Nos EUA, em que pese sua posição de
grande potência internacional, a contribuição médico-legal é praticamente
irrisória, limitando-se apenas aos exames mais sofisticados de laboratórios,
inclusive suas Faculdades de Medicina e de Direito não contam com essa
disciplina. Citam-se alguns nomes de mais expressão como Milton Helpern,
Duane Spencer, Mary Jumbelic, Ivan Balazs e Werner Spitz. Lá, ainda se usa
o modelo “coroner”, que é um cargo político e pode ser exercido por um
profissional não médico. Ou o sistema de médico-examinador, sempre
especializado em anatomia patológica, sendo sua função quase
exclusivamente determinar a causa mortis e a sua causa jurídica. Já o México
tem uma tradição mais forte no ensino e na prática médico-legal. Entre os
professores, evidenciam-se Casemiro Liceaga, Rafael Lucio, José Ignácio
Durán, Luiz Hidalgo y Carpio, Augustín Andrade, Nicolás Ramirez de
Arellano, Samuel Garcia, Henrique Oregón, Francisco Castillo Nájera, Lucio
Gutierrez e José Torres Torija. Grande contribuição à Medicina Legal deu
Alfonso Quiróz Cuaron, tanto no ensino da disciplina nas Faculdades de
Medicina e de Direito da Universidade Autônoma do México, como nos
trabalhos produzidos. Nomes que não se podem omitir são os de Arturo
Baledón Gil e Salvador Iturbide. Atualmente, sobressaem-se Alberto Isaac
Correa Ramirez e José Ramón Fernandez Caceres.
 No Brasil
No Brasil, a influência da Medicina Legal francesa foi decisiva, embora não
se possa negar que influenciaram de maneira marcante a alemã e a italiana.
Portugal no passado pouco nos influenciou. Hoje, no entanto, notáveis são as
contribuições da nova escola médico-legal portuguesa, com os trabalhos de
José Antônio Lourenço Lesseps (Lisboa), José Eduardo Lima Pinto da Costa
(Porto) e Duarte Nuno Pessoa Vieira e Francisco Corte-Real (Coimbra).
A nacionalização da Medicina Legal brasileira e a sua estruturação como
especialidade começaram com a entrada de Agostinho José de Souza Lima,
na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, inclusive inaugurandoo
primeiro curso prático de prática tanatológica forense.
Todavia, a verdadeira nacionalização se deu com Raymundo Nina
Rodrigues na Bahia, iniciando-se com ele a fase da pesquisa científica
médico-legal a partir de nossa própria realidade.
Em seguida, surge Oscar Freire de Carvalho, vindo da Bahia para São
Paulo, onde iniciou o exercício da especialidade e dando início à publicação
de trabalhos experimentais, inclusive com a criação do Instituto em 1922, que
hoje tem seu nome.
A escola baiana seguiu com Virgílio Clímaco Damásio, José Rodrigues
da Costa Dória, Estácio Luiz Valente de Lima, Waldemar da Graça Leite,
Maria Tereza Pacheco, Luis Carlos Cavalcanti Galvão. O Rio de Janeiro, que
sempre teve uma grande tradição nesta área, desponta com nomes como os de
Diógenes de Almeida Sampaio, Nascimento Silva, Antenor Costa, Henrique
Tanner de Abreu, Leonídio Ribeiro, Julio Afrânio Peixoto, Juliano Moreira,
Gualter Adolpho Lutz, Hélio Gomes, Nilton Salles, Nilson Amaral
Sant’Anna. Em São Paulo, depois de Oscar Freire de Carvalho, vieram
Famínio Fávero, Hilário Veiga de Carvalho, Arnaldo Siqueira Alcântara
Machado, Arnaldo Amado Ferreira, Guilherme Oswaldo Arbens, Armando
Canger Rodrigues e Marco Segre. Em Pernambuco, Edgar Altino de Araújo,
Raimundo Teodorico de Freitas, José de Aguiar Costa Pinto, Antonio Persivo
Cunha e Evaldo Altino.
Outros nomes que não se podem deixar de lembrar pela elevada
contribuição e significativo exemplo às gerações atuais: Oscar de Oliveira
Castro (Figura 1.1), José Geraldo de Freitas Drumond, Ernani Simas Alves,
Rubem Lubianca, João Batista Perez Garcia Moreno, Pedro Neiva de
Santana, Jorge de Souza Lima, Oswaldo Pataro, José Glauco Lobo, José
Alves de Assumpção Menezes, Milton Ribeiro Dantas, Napoleão Teixeira,
Benedito Soares Camargo Junior, José Carlos Ribeiro, Holdemar Oliveira de
Menezes, José Lima de Oliveira, Luiz Duda Calado, Nativa Salaru, José do
Ribamar Carneiro Belford, Telmo Ferreira Reis, Olympio Pereira da Silva,
Odon Ramos Maranhão, Nivaldo José Ribeiro, Geraldo Alves dos Santos,
Ivan Nogueira Bastos, Idelbrando Xavier da Silva, João Henrique de Freitas
Filho, Clovis Olinto Bastos Meira, Edilberto Parigot, Carlos Alberto
Delmonte Printes, Marilu Mota, Gerardo Magela Fortes Vasconcelos, Edson
Silveira, Alfredo José da Costa Machado, Acylino de Leão Rodrigues,
Alfredo Barroso Rebello, Humberto Fenner Lyra, Leão Bruno, Cezar
Papaleo, Antônio Ferreira de Almeida Junior, Francisco Rodrigues de Souza
Filho, Hermes Rodrigues de Alcântara, Cristobaldo Motta de Almeida, André
Luiz Barbosa Roquette, José Geraldo Vernet Taborda, Serynes Pereira
Franco e Nelson Caparelli.
Figura 1.1 Prof. Oscar de Oliveira Castro (1899-1971).
Mais recentemente, Lamartine de Andrade Lima, Marcos de Almeida,
Arnaldo Ramos de Oliveira, Moacir Assein Arus, José Frank Marotta, Barros
Azevedo, Lourival Saade, Victor Pereira, Hygino de Carvalho Hércules,
Carlos Guido Pereira, José Carlos Ribeiro Filho, José Hamilton Amaral,
Glício da Cruz Soares, José Eduardo Zappa, Nilo Jorge Rodrigues Gonçalves,
Carmen Cynira Martin, José Hamilton Maciel Silva, Gilka Gattas, Clovis
César Mendonza, Alírio Batista de Souza, Hermano José Souto Maior, Luiz
Rodolpho Penna Lima, Elias Zacarias, Ramon Sabatér Manubens, Daniel
Romero Muñoz, Carlos de Faria, Graccho Guimarães Silveira, José Jozefran
Berto Freire, Roberto Blanco, Claudio Cohen, Oscar Luiz de Lima e Cirne
Neto, Renato Affonso Meira, Elesbão Munhoz, Leo Meyer Coutinho, Hélcio
Miziara, Nelson Massini, Fortunato Antônio Badan Palhares, Anibal Silvany
Filho, Elizário Couto Bastos, José Américo Seixas Silva, Edmar Jorge
Anunciação, Helena Caúla Reis, Francisco Morais Silva, Wilmes Roberto
Gonçalves Teixeira, Talvane Marins Moraes, Ayush Morad Amar, Jorge
Paulete Vanrell, Juarez Oscar Montanaro, José Maria Marlet, Eudes Mesquita
Martins, Emilio Bicalho Epiphanio, José Frota Vasconcelos, José Mauro de
Morais, Jalvo Chucair Granhen, Humberto Soares Guimarães, Francisco
Autran Nunes Filho, José Eliomar da Silva, Carlos Campana, Emilio
Barbieri, João Francisco Duarte, Elisar Reis Lopes, Isaque Kelbert, Edson
Reis Lopes, José Mariano Cavaleiro de Macedo, Renato Posterli, Lena
Tereza de Melo Lapertosa, Ivan Chaib Demes, entre tantos.
E finalmente um grupo jovem e muito promissor que vai se destacando
no magistério e no exercício da legisperícia: Gerson Odilon Pereira, Maria
Luisa Duarte, Miguel Angelo Martinez, Aluísio Trindade Filho, Zulmar
Coutinho, José Eduardo da Silva Reis, José Emídio Freire, Abelardo Brito,
Reginaldo Inojosa Carneiro Campello, Paulo Roberto de Souza, José
Ribamar Morais, Luiz Carlos Barreto Silva, Emídio de Brito Freire, Vitor
Ribeiro Romeiro, Irene Batista Muakad, Lélia Gerson, Antonio Brussolo
Cunha, Vitor Hugo Rangel, João Bosco Penna, Elizabeth Bezerra Azevedo,
Misael Fernandes Neto, Maria do Carmo Malheiros Gouvea, Roberto
Wagner, Dary Alves de Oliveira, Abelardo Brito, João Carlos Belo da Fonte,
Carlos Ehlke Braga Filho, Iris Noburo Nagano, José Roberto Souza
Cavaleiro de Macedo, Malthus Fonseca Galvão, Raul Coelho Barreto Filho,
Aroldo de Souza Rique, Júlio César Fontana-Rosa, Henrique Caivano Soares,
Oswaldo Wolf Dick, Anelino José de Resende, Railton Bezerra de Melo,
Romildo Rabbi, Luiz Renato da Silveira Costa, RenatoRoberto Evando
Moreira Filho, Chu En Lay Paes Leme, Manoel Campos Neto, João Arnaldo
Damião Melki, Jaque Henrique Mecler, Rita de Cassia M. de Carvalho, Febe
Costa, Mario Perez Gimenez, Rogério Eisele, Ronivaldo de Oliveira Barros,
Armando Fortunato Filho, Eunice Moreira Vitória, Alecsandro de Andrade
Cavalcante, Carlos Henrique Durão, Antonio Batista de Queiroz, Antonio
Alves Madruga, Abraão Lincoln de Oliveira, Leonardo Mendes Cardoso,
Débora Maria Vargas Lima, Benedita Carneiro Pinto, Sami A. L. J. El Jundi,
Luiz Airton Saavedra de Paiva, Jose Roberto de Rezende Costa, Luiz
Eduardo Toledo Avelar, Leonardo Santos Bordoni, Marcelo Mari de Castro,
Paulo Sérgio P. Cunha, Maximiano Leite Barbosa Chaves, Rita de Cássia
Bonfim Leitão Higa, Lilian Cristina Zazá Santos Barreira e muitos outros que
irão surgir.
As duas primeiras Faculdades de Medicina do Brasil – a da Bahia e a do
Rio de Janeiro – incluíram oficialmente a Medicina Legal como disciplina
obrigatória a partir de 1832. Neste mesmo ano, o Código de Processo
Criminal estabelecia a perícia oficial para a realização dos exames de corpo
de delito. Muitos destes dispositivos ainda se encontram no Código de
Processo Penal em vigor.
Mesmo com a vigência daquele Código a partir de 1832, somente depois
de 1856 foi regulamentada a atividade médico-pericial, através do Decreto no
1.746, de 16 de abril de 1856, quando se criou, junto à Secretaria de Polícia
da Corte, a Assessoria Médico-Legal, à qual cabia a realização dos exames de
“corpo de delito e quaisquer exames necessários para a averiguação dos
crimes e dos fatos como tais suspeitados”.
Foi criado na Bahia o Serviço Médico-Legal na estrutura da Secretaria de
Polícia e Segurança Pública, por um Decreto datado de 24 de abril de 1896.
Este Serviço contava com dois médicos que se incumbiam dos exames de
lesões corporais, das necropsias, dos exames toxicológicos, das verificações
de óbito e de outros exames ou diligências médico-legais afetos à Justiça.
Ainda que instalada na Bahia desde 1832 a Cadeira de Medicina Legal,
tendo como seu primeiro regente João Francisco de Almeida, sua atividade
prática só se concretizou com Virgílio Clímaco Damásio. O apogeu da
Medicina Legal baiana se deu com Raymundo Nina Rodrigues (1894-1906).
De 1914 a 1918, assume a Cadeira o professor Oscar Freire, que acumulou,
também, a direção do Serviço Médico-Legal. De 1918 em diante, Oscar
Freire mudou-se para São Paulo, a fim de instalar a disciplina na antiga
Faculdade de Medicina Paulista.
No Rio de Janeiro, a história do ensino médico-legal registra,
inicialmente, o nome do Conselheiro José Martins da Cruz Jobim, que só se
projetou com a contribuição de Agostinho José de Souza Lima que, na
verdade, foi quem iniciouo ensino e a prática eficaz neste Estado.
Nos cursos de Direito e de Medicina Legal, seu ensino foi proposto por
Rui Barbosa, que conseguiu aprovar na Câmara dos Deputados um Decreto
criando a Cátedra de Medicina Legal nas Faculdades de Direito de todo o
país, a partir do ano de 1891.
Hoje, com se sabe, a prática médico-legal brasileira é uma atividade
oficial e pública, exercida nos Institutos Médico-Legais localizados nas
capitais dos 26 Estados federativos e na capital da República, além de sua
expansão no interior do país nos chamados Postos Médico-Legais, na sua
maioria ainda desprovidos das mínimas condições de trabalho.
A maioria dos Institutos Médico-Legais no Brasil permanece no âmbito
dos órgãos de segurança pública. A partir de alguns anos, começou-se a
verificar a desvinculação destes Institutos da área da Segurança. Um exemplo
é o do Estado do Amapá, que criou a Coordenadoria de Perícias, com status
de Secretaria de Estado, com verbas asseguradas e independência
administrativa. Outro é o Estado do Rio Grande do Sul, que vinculou o IML à
Secretaria de Estado de Justiça, Trabalho e Cidadania. E, mais recentemente,
o Pará, que também desvinculou o Instituto Médico-Legal e o Instituto de
Criminalística da Secretaria de Segurança Pública, criando uma estrutura
totalmente independente, ligada diretamente ao Governador do Estado.
Nos Estados do Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, os IML estão
estruturados em uma Coordenadoria Geral de Perícias, junto com a
Criminalística e a Identificação, embora ainda vinculados às respectivas
Secretarias de Segurança Pública.
Há, entre os legistas e professores de Medicina Legal, um movimento a
favor da autonomia da perícia médico-legal, liderado pela Sociedade
Brasileira de Medicina Legal e Perícias Médicas e pela Associação Brasileira
de Criminalística, com o apoio de diversas entidades civis, a exemplo da
Associação dos Magistrados do Brasil, da Ordem dos Advogados do Brasil,
da Comissão dos Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e da Secretaria
Especial de Direitos Humanos.
Espera-se que o Governo Federal, que criou desde 1996 o Plano Nacional
de Direitos Humanos, enfatizando a questão da perícia médico-legal na luta
contra a impunidade, venha a adotar medidas que possam assegurar a
autonomia e independência da atividade médico-legal.
Tal autonomia se justifica porque a Medicina Legal tem de ser vista como
um núcleo de ciência a serviço da Justiça, e o médico nestas condições não
pode ser um preposto da autoridade policial. Por uma distorção de origem,
quando as repartições médico-legais nada mais representavam senão simples
apêndices das Centrais de Polícia e os legistas como meros agentes policiais,
permanece o desagradável engano.
Foi com esse pensamento que a Comissão de Estudos do Crime e da
Violência, criada tempos atrás pelo Ministério da Justiça, propôs ao Governo
a desvinculação dos Institutos Médico-Legais e da própria Perícia Criminal,
dos órgãos de polícia repressiva. O objetivo era o de “evitar a imagem do
comprometimento sempre presente, quando, por interesse da Justiça, são
convocados para participar de investigações sobre autoria de crimes
atribuídos à Polícia”.
Ninguém de bom senso pode assegurar que dessa vinculação possa existir
sempre qualquer forma de coação. Mas, dificilmente se poderia deixar de
aceitar a ideia de que em algumas ocasiões possa haver pressão, quando se
sabe que alguns órgãos de repressão no Brasil estiveram ou estão ainda
envolvidos no arbítrio e na violência. Pelo menos, suprimiria esse grave fator
de suspeição, criado pela dependência e pela subordinação funcional.
CLASSIFICAÇÃO
Levando-se em consideração o enfoque ou a sua destinação, a Medicina
Legal pode ser classificada sob os ângulos histórico, profissional, doutrinário
e didático.
A classificação sob o prisma histórico diz respeito às várias fases
evolutivas desta ciência, que a divide em Medicina Legal Pericial, Medicina
Legal Legislativa, Medicina Legal Doutrinária e Medicina Legal Filosófica.
A Medicina Legal Pericial, também chamada de Medicina Forense ou
Medicina Legal Judiciária, é a sua forma mais anterior e está voltada aos
interesses legispericiais da administração da Justiça. A Medicina Legal
Legislativa contribui na elaboração e revisão das leis em que se disciplinam
fatos ligados às ciências biológicas ou afins. A Medicina Legal Doutrinária –
de caráter mais refinado e compromisso com a ordem do pensar – teve início
entre nós com Afrânio Peixoto no segundo quartel do século passado. Trata
de temas subsidiários que sustentam e explicam certos institutos jurídicos
onde o conhecimento médico e biológico faz-se necessário e, por isso, ela é,
na verdade, bem mais uma ordem do pensar do que do agir. E a Medicina
Legal Filosófica, mais recente, discute os assuntos ligados à Ética, à Moral e
a Bioética Médica no exercício ou em face do exercício da Medicina ou tenta
explicar, por meio de ensaios epistemológicos, o agir e o pensar médico-
legal.
A classificação sob a visão profissional da Medicina Legal está inclinada
à forma como se exerce na prática essa atividade. Assim, divide-se em
Medicina Legal Pericial, Criminalística e Antropologia Médico-Legal, que
são exercidas respectivamente pelos Institutos de Medicina Legal, de

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