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TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO 1. RECONHECER AS ALTERAÇÕES QUANTITATIVAS DA CONSCIÊNCIA (NÍVEL DE CONSCIÊNCIA, ALERTA, RESPONSIVIDADE, ATENÇÃO, ORIENTAÇÃO E CAMPO DA CONSCIÊNCIA) Apesar de ser absolutamente necessário o estudo analítico das funções psíquicas isoladas e de suas alterações, nunca é demais ressaltar que a separação da vida e da atividade mental em distintas áreas ou funções psíquicas é um procedimento essencialmente artificial. Trata-se apenas de uma estratégia de abordagem da vida mental que, por um lado, é bastante útil, mas, por outro, um tanto arriscada, pois pode suscitar enganos e simplificações inadequadas. É útil porque permite o estudo mais detalhado e aprofundado de determinados fatos da vida psíquica normal e patológica; é arriscada porque facilmente se passa a acreditar na autonomia desses fenômenos, como se fossem objetos naturais. Que fique claro: não existem funções psíquicas isoladas e alterações psicopatológicas compartimentalizadas desta ou daquela função. É sempre a pessoa na sua totalidade que adoece. O que conta não são os sinais e os sintomas, mas, sobretudo, o fundo mental e inter-humano do qual eles procedem e no qual se realizam e que, afinal, determina sua significação, seu sentido. DEFINIÇÃO DA CONSCIENCIA Na língua portuguessa, a palavra consciência tem, pelo menos, 3 definições diferentes: A definição neuropsicológica emprega o termo “consciência” no sentido de estado vígil (vigilância), o que, de certa forma, iguala a consciência ao grau de clareza do sensório. Consciência, aqui, é fundamentalmente o estado de estar desperto, acordado, vígil, lúcido. Trata-se especificamente do nível de consciência. Já a definição psicológica a conceitua como a soma total das experiências conscientes de um indivíduo em determinado momento. Nesse sentido, consciência é o que se designa campo da consciência. É a dimensão subjetiva da atividade psíquica do sujeito que se volta para a realidade. Na relação do Eu com o meio ambiente, a consciência é a capacidade do indivíduo de entrar em contato com a realidade, perceber e conhecer os seus objetos. Por fim, a definição ético-filosófica é utilizada mais frequentemente no campo da ética, da filosofia, do direito ou da teologia. O termo “consciência” refere-se à capacidade de tomar ciência dos deveres éticos e assumir as responsabilidades, os direitos e os deveres concernentes a essa ética. Assim, a consciência ético-filosófica é atributo do homem desenvolvido e responsável, engajado na dinâmica social de determinada cultura. Refere-se a consciência moral, ética e política. John Searle (2000), talvez um dos filósofos contemporâneos que mais se tem dedicado ao estudo da consciência, diz que O aspecto fundamental da consciência que se deve tentar explicar, segundo ele, é seu caráter de unidade qualitativa subjetiva. Mas o que é isso? Todo estado de consciência vem acompanhado de um sentimento qualitativo especial. A experiência de beber uma cerveja com os amigos é muito diferente da de ouvir uma sinfonia de Beethoven, e ambas são distintas de sentir o perfume de uma mulher bonita ou ver o crepúsculo na praia. Esses exemplos revelam o caráter qualitativo das experiências conscientes. Experimentar os estados de consciência é também algo essencialmente subjetivo. A experiência da consciência é sempre realizada em um sujeito, vivenciada na primeira pessoa. Searle (2000) afirma que sem subjetividade não há experiência consciente. Assim, os estados de TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO consciência são experimentados como um campo de consciência unificado. Dessa forma, unidade, subjetividade e caráter qualitativo são as marcas da experiência dos estados de consciência. Segundo ele, estes são sempre vivenciados com caráter prazeroso ou desprazível, como experiências totais e globalizantes (caráter gestáltico) e com um senso de familiaridade que impregna todas as experiências conscientes (mesmo quando vejo uma casa que nunca vi antes, ainda reconheço que é uma casa; sua forma e estrutura me são familiares). Os pintores surrealistas tentaram quebrar tal senso de familiaridade, mas mesmo o relógio derretendo de Salvador Dali nos remete à estrutura familiar de um relógio. NEUROPSICOLOGIA DA CONSCIÊNCIA / NÍVEL DA CONSCIÊNCIA O Sistema Reticular Ativador Ascendente (SRAA ou SARA) contém construtos psicológicos dimensionais relevantes tanto para o comportamento humano normal como para a psicopatologia. No campo da neuropsicologia da consciência, o RDoC propõe sistemas reguladores relacionados ao nível de consciência (arousal), os quais são responsáveis por gerar toda a ativação dos sistemas neurais nos vários contextos da vida. Eles têm por função produzir uma regulação adequada dos estados de consciência vígil (sujeito acordado) e dos períodos de sono. Segundo o RDoC, deve-se salientar que o nível de consciência é o continuum de sensibilidade e alerta do organismo perante os estímulos, tanto internos como externos. As principais características e propriedades do nível de consciência são: 1. O nível de consciência facilita a interação da pessoa com o ambiente de forma adequada ao contexto no qual o sujeito está inserido (p. ex., em situações de ameaça, alguns estímulos podem ser ignorados, e, ao mesmo tempo, a sensibilidade para outros, mais relevantes, pode estar aumentada, expressando o chamado estado de alerta). 2. O nível de consciência adequado pode ser evocado tanto por estímulos externos ambientais como por estímulos internos, como pensamentos, emoções, recordações. 3. O nível de consciência pode ser modulado tanto pelas características dos estímulos externos como pela motivação que o estímulo implica para o indivíduo em questão. 4. O nível de consciência varia ao longo de um continuum que inclui desde o estado total de alerta, passando por níveis de redução da consciência até os estados de sono (variação normal) ou coma (variação patológica). O primeiro elemento do sistema nervoso relacionado ao nível de consciência é o chamado sistema reticular ativador ascendente (SRAA). Foram Horace Winchell Magoun e Giuseppe Moruzzi (Moruzzi; Magoun, 1949) que inicialmente propuseram o SRAA. Esses autores partiram da noção de que a capacidade de estar desperto e agir conscientemente depende da atividade do tronco cerebral e do diencéfalo. Essas estruturas exercem poderosa influência sobre os hemisférios cerebrais, ativando-os e mantendo o tônus necessário para seu funcionamento normal. O SRAA se origina no tronco cerebral, e sua ação se estende até o córtex, por meio de projeções talâmicas. Elementos do SRAA particularmente importantes para a ativação cortical são os neurônios da parte superior da ponte e os do mesencéfalo. Tais neurônios recebem impulsos da maioria das vias ascendentes, as quais trazem estímulos intrínsecos (proprioceptivos e viscerais) e extrínsecos (órgãos dos sentidos: visão, audição, tato, paladar e olfato). Lesões ou disfunções no SRAA produzem alterações do nível de consciência e prejuízo a todas as funções psíquicas. Embora a importância do SRAA para o nível de consciência seja aceita até hoje, sabe-se atualmente que várias estruturas mais altas, do telencéfalo, têm também participação crítica na gênese do nível de consciência. Verificou-se, por exemplo, que a ação sincrônica de numerosas áreas corticais visuais, que contêm amplas redes neuronais bidirecionais, é uma pré-condição para a visão consciente. É de fundamental importância, para a atividade mental consciente, a atividade do lobo parietal direito, o qual está intimamente relacionado ao reconhecimento do própriocorpo, dos objetos e do mundo, assim como da apreensão TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO daquilo que, convencionalmente, se denomina realidade. Também as áreas pré-frontais são fundamentais na organização da atividade mental consciente. Por fim, reconhece-se a importância das interações talamocorticais na ativação e na integração da atividade neuronal cortical relacionada à consciência (Zeman; Grayling; Cowey, 1997). Nos anos de 1990, o cientista Francis Crick, que formulou, com James Watson, a tese do DNA como dupla hélice, também propôs, juntamente com o neurocientista Cristof Koch, uma hipótese original para dar conta das atividades mentais conscientes mediadas pelo nível de consciência. Eles propuseram que as atividades mentais conscientes emergiriam relacionadas aos disparos sincronizados dos neurônios do tálamo e das camadas quatro e seis do córtex cerebral, em ritmo de 40 vezes por segundo. Apesar do caráter ambicioso da proposta de Crick e Koch (1998), a maioria dos neurocientistas concorda que é extremamente difícil encontrar os correlatos neuronais da emergência dessa experiência humana chamada atividade mental consciente. Estão relacionados a alterações do nível da consciência na síndrome denominada delirium (que veremos adiante) as regiões do córtex parietal posterior direito superficial, o córtex pré-frontal bilateral, o córtex fusiforme (ventromedial temporoparietal), o giro lingual, o tálamo anterior direito e os núcleos da base. Também têm sido reconhecidas as conexões talamofrontais e temporolímbicas frontais, em nível subcortical, como importantes na gênese dos quadros de delirium (Trzepacz; Meagher; Wise, 2006). Assim, pode-se concluir que, além do SRAA, também o tálamo e as regiões do córtex parietal direito e pré-frontal direito têm importância estratégica para o funcionamento da consciência, sobretudo no seu aspecto de nível de consciência. O tálamo é uma estrutura posicionada singularmente no centro do cérebro para filtrar, integrar e regular as informações que chegam ao córtex cerebral, dados que partem da periferia do organismo e meio externo e se dirigem ao córtex cerebral. O tálamo é extensiva e reciprocamente interligado a todas as áreas do córtex cerebral, de forma que uma pequena lesão talâmica pode produzir graves alterações do nível de consciência, como, por exemplo, o delirium (Trzepacz; Meagher; Wise, 2006). Por fim, deve-se ressaltar a importância das estruturas encefálicas do lado direito (parietais, frontais e mesmo talâmicas) na origem dos transtornos da consciência. CAMPO DA CONSCIÊNCIA Ao voltar-se para a realidade, a consciência demarca um campo, no qual se pode delimitar um foco, ou parte central mais iluminada da consciência, e uma margem (franja ou umbral), que seria sua periferia menos iluminada, mais nebulosa. Segundo a psicopatologia clássica, é na margem da consciência que surgem os chamados automatismos mentais e os estados ditos subliminares. ATENÇÃO A atenção pode ser definida como a direção da consciência, o estado de concentração da atividade mental sobre determinado objeto. A fim de explicitar o que os mecanismos de atenção representam para o funcionamento psíquico normal, William James dizia que: Milhões de itens [...] que são apresentados aos meus sentidos nunca ingressam propriamente em minha experiência. Por quê? Porque esses itens não são de interesse para minha pessoa. Minha experiência é aquilo que eu consinto em captar... Todos sabem o que é a atenção. É o tomar posse pela mente, de modo claro e vívido, de um entre uma diversidade enorme de objetos ou correntes de pensamentos simultaneamente dados. Focalização, concentração da consciência são a sua essência. Ela implica abdicar de algumas coisas para lidar eficazmente com outras. TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO A atenção se refere, portanto, ao conjunto de processos psicológicos que torna o ser humano capaz de selecionar, filtrar e organizar as informações em unidades controláveis e significativas. Os termos “consciência” e “atenção” estão estreitamente relacionados. A determinação do nível de consciência é essencial para a avaliação da atenção. Em outros palavras, a atenção é um processo psíquico que concentra a atividade mental sobre determinado ponto, traduzindo um esforço mental. É resultado de uma atividade deliberada e consciente do indivíduo. Tomando-se em consideração a natureza da atenção, pode-se discernir dois tipos básicos de atenção: - a atenção voluntária (ativa e intencional – capacidade de ler um livro) e; - a espontânea (que ocorre por algum interesse incidental e momentâneo por algum objeto – capacidade de parar de ler o livro para focar em algum barulho que ocorre no momento). Em relação à direção da atenção, pode-se discriminar duas formas básicas: a atenção externa, projetada para fora do mundo subjetivo do sujeito, voltada para o mundo exterior ou para o corpo, geralmente de natureza mais sensorial, utilizando os órgãos dos sentidos. Difere-se da atenção interna, que se volta para os processos mentais do próprio indivíduo. É uma atenção mais reflexiva, introspectiva e meditativa. Em relação à amplitude atencional, há a atenção focal, que se mantém concentrada sobre um campo determinado e relativamente delimitado e restrito da consciência, em contraposição à atenção dispersa, que não se concentra em um campo determinado, espalhando-se de modo menos delimitado. Foi o psiquiatra suíço Eugen Bleuler (1857- 1939) que sugeriu, no início do século XX, que a atenção tinha duas qualidades fundamentais: tenacidade e vigilância. A tenacidade consiste na capacidade do indivíduo de fixar e manter sua atenção sobre determinado estímulo, em um tema da conversa ou em um campo de atenção. Na tenacidade, a atenção se prende a certo estímulo, fixando-se sobre ele. A vigilância (nessa conceitualização de Bleuler) é definida como o aspecto da atenção relacionado a mudança de foco, de um objeto para outro. Tais qualidades são com frequência antagônicas; por exemplo, nos estados maníacos, os pacientes costumam apresentar hipotenacidade (redução da capacidade de fixar a atenção) e hipervigilância (uma atenção que salta rapidamente de um estímulo para outro). - será * ALERTA? Atenção flutuante é um conceito desenvolvido por Freud (1856-1939), relativo ao estado de como deve funcionar a atenção do psicanalista durante uma sessão analítica. Segundo Freud, a atenção do analista não deve privilegiar a priori qualquer elemento do discurso ou comportamento do paciente, o que implica deixar funcionar livremente sua própria atividade mental, consciente e inconsciente, deixando livre a atenção e suspendendo ao máximo as motivações, os desejos e os planos próprios. É um estado artificial da atenção, cultivado pela necessidade técnica do processo psicanalítico. Para o psicanalista inglês Wilfred Bion (1897-1979), a atenção do analista deve se manter o máximo possível aberta à experiência imediata, evitando a fuga para o passado ou para o futuro; assim, o profissional buscaria abolir momentaneamente a memória e o desejo, a fim de que sua atenção permaneça livre para o que realmente emerge na experiência mútua (analista-analisando) da situação analítica. Investiga-se assim: -Atenção normal ou euprosexia; - Hiperprosexia: ocorre um estado de atenção exarcebada; - Hipoprosexia: diminuição global da atenção; - Aprosexia: abolição total da capacidade de atenção; - Hipertenacidade: a atenção se adere em demasia a algum estímulo específico, ocorrendo diminuição da atenção espontânea (quadros obsessivos e síndromes depressivas); - Hipotenacidade: a atenção se afastacom demasiada rapidez do estímulo específico, ocorrendo diminuição da atenção voluntátia (ansiedade intensa e estados maníacos). TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO NEUROPSICOLOGIA DA ATENÇÃO Atenção e funções executivas frontais As funções executivas, processadas nos lobos frontais (áreas pré-frontais), são um conjunto de habilidades cognitivas relacionadas à capacidade do indivíduo de planejar, executar e monitorar de forma flexível comportamentos com objetivos (Lezak; Howieson; Bigler, 2012). Os déficits em funções executivas impedem o indivíduo de iniciar, parar ou mudar seus comportamentos, conforme as exigências ambientais. As funções executivas incluem processos cognitivos relacionados à ação apropriada sobre o ambiente, ou seja, processos relacionados ao agir, como planejamento da ação, início da atividade, geração de hipóteses, flexibilidade cognitiva, tomada de decisões, regulação do comportamento, julgamento, utilização de feedback e autopercepção (Yuana; Raza, 2014). As funções executivas são divididas em “quentes” e “frias”. As quentes incluem os aspectos emocionais e volicionais como parte central de tais funções, enquanto as “frias” se referem a atividades cognitivas sem envolvimento de fatores emocionais, como, por exemplo, realizar cálculos matemáticos mentalmente ou decorar números. Em neuropsicologia, a atenção é vista por alguns autores como uma função básica de apoio às funções executivas e, por outros, como parte das funções executivas. De qualquer forma, como modelo da interação entre a atenção e as funções executivas (incluindo o controle executivo), quatro componentes têm sido sugeridos: memória de trabalho, seleção competitiva (competição entre diferentes estímulos), controle sensorial top-down (do córtex pré-frontal para os processos sensoriais e de vigília) e filtros de saliência (seleção dos estímulos mais salientes). No processo bottom-up, as informações sensoriais que chegam ao cérebro são filtradas a partir de sua importância para o sujeito, sendo filtrados os estímulos mais relevantes do ponto de vista de sobrevivência, assim como os mais infrequentes. Os estímulos são, então, codificados e sofrem uma seleção competitiva baseada na força relativa do sinal, no sentido de poder acessar o sistema de memória de trabalho. Sendo um dos elementos principais das funções executivas, a memória de trabalho usa a informação fornecida pelo processo atencional para dirigir e gerenciar os comportamentos subsequentes, assim como faz dirigir a atenção por meio de um mecanismo top-down mediado pelo córtex pré-frontal. NEUROANATOMIA E REDES NEURAIS DA ATENÇÃO A atenção resulta da interação complexa de diversas áreas corticais e subcorticais do sistema nervoso, não sendo, portanto, um processo unitário (Cohen; Salloway; Zawacki, 2006). As principais estruturas subcorticais do sistema nervoso relacionadas à atenção são: no tronco cerebral, o sistema reticular ativador ascendente (SRAA) e o locus ceruleus noradrenérgico (LCN); no diencéfalo, o tálamo; e, no telencéfalo, o corpo estriado; no nível cortical, o córtex parietal posterior direito (não dominante), o córtex pré- frontal e o giro cingulado anterior (também na região frontal), assim como estruturas do lobo temporal medial do sistema límbico. O SRAA possibilita o nível de consciência básico para manter a vigilância necessária aos processos de atenção; assim, fornece a preparação inespecífica à atenção. O LCN é o principal centro de alerta subcortical, importante para a manutenção de um estado de alerta eficiente. A noradrenalina do LCN inibe a atividade neuronal espontânea, permitindo o aumento da resposta neuronal específica para estímulos sensoriais. Os núcleos intralaminares do tálamo filtram os sinais enviados pelo tronco cerebral e os projetam para o núcleo caudado (no corpo estriado) e para o córtex pré-frontal, assim como para outras áreas corticais (exceto as áreas sensoriais primárias). O núcleo reticular do tálamo também tem associações recíprocas com o córtex pré-frontal e com núcleos sensoriais do tálamo. Ele age como um filtro ou uma comporta, permitindo que apenas algumas informações prossigam em direção ao córtex cerebral (Cohen; Salloway; Zawacki, 2006; Langner; Eickhoff, 2013). TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO Por sua vez, o córtex parietal (sobretudo o posterior direito) também está envolvido na seleção sensorial (principalmente na atenção seletiva visual e na atenção dirigida ao espaço extrapessoal), ao passo que o córtex frontal do cíngulo se vincula à intensidade do foco de atenção e à motivação. No nível cortical, são as estruturas do córtex pré-frontal as mais relevantes à atenção. As áreas pré-frontais dorsolaterais (na porção mais externa e alta do cérebro frontal) estão muito relacionadas à “seleção de resposta e controle seletivo”. Além disso, desempenham um papel na manutenção da flexibilidade da resposta e na geração de alternativas de respostas, assim como na memória de trabalho (ver esse conceito no capítulo sobre memória) e no sequenciamento da informação temporal. Na região pré-frontal, em particular o córtex do cíngulo anterior e o córtex pré-frontal dorsolateral direito agem para manter o nível de atenção, modulando a atividade do locus ceruleus via núcleo reticular do tálamo. Além disso, o sistema atencional de alerta é mediado, ainda, por um circuito frontoparietal ventral direito, também responsável pela obtenção e manutenção de um nível apropriado de alerta atencional. Lesões nas áreas frontais dorsolaterais produzem alterações da atenção, como distraibilidade, impersistência e perseveração (repetição automática de respostas). Já as áreas pré-frontais orbitomediais (córtex frontal medial acima dos globos oculares) relacionam-se à modulação dos impulsos, ao humor e à memória de trabalho. Lesões nessas áreas ocasionam alterações da atenção relacionadas a impulsividade, desinibição e labilidade afetiva (Cohen; Salloway; Zawacki, 2006; Langner; Eickhoff, 2013). Além dos lobos frontais, diversas estruturas límbicas nas porções medianas dos lobos temporais estão envolvidas no interesse afetivo, principalmente no que diz respeito a atração, motivação, importância do estímulo e carga emocional que este ou aquele objeto desperta na mente. Assim, também participam dos mecanismos neuronais da atenção. Nesse sentido, há consenso de que os aspectos motivacionais e afetivos da atenção, mobilizados em áreas límbicas, devam interagir com os aspectos de seleção e hierarquização da atividade consciente, elaborados em áreas pré-frontais e parietais, produzindo um vetor final, a saber, a atividade atencional do indivíduo (Engelhardt; Laks; Rozenthal, 1996). Cabe mencionar, ainda, que a atenção sustentada depende intimamente da ação do mesencéfalo e do tronco cerebral interagindo com o córtex pré-frontal. A atenção seletiva, focada, também depende do córtex temporal superior, do córtex parietal inferior e do striatum. Por fim, o processo de codificação dos estímulos, processados pelo sistema atencional, irá depender intimamente do hipocampo e da amígdala. Psicopatologia da atenção A alteração mais comum e menos específica da atenção é sua diminuição global, a chamada hipoprosexia. Nessa condição se verifica uma perda básica da capacidade de concentração, com fatigabilidade aumentada, o que dificulta a percepção dos estímulos ambientais e a compreensão; as lembranças tornam-se mais difíceis e imprecisas, e há dificuldade crescente em todas as atividades psíquicas complexas, como o pensar, o raciocinar e a integração de informações. Denomina-se aprosexia a total abolição da capacidade deatenção, por mais fortes e variados que sejam os estímulos utilizados. Por sua vez, a hiperprosexia consiste em um estado da atenção exacerbada, no qual há uma tendência incoercível a obstinar-se, a deter-se indefinidamente sobre certos objetos com surpreendente infatigabilidade. Em psicopatologia, usa-se o termo distração para um sinal, não de déficit propriamente (não é anormalidade), mas de superconcentração ativa da atenção sobre determinados conteúdos ou objetos, com a inibição de tudo o mais (Nobre de Melo, 1979). Há, nesse sentido, certa hipertenacidade e hipovigilância. É o caso do cientista que, pelo fato de seu interesse e de sua atenção estarem totalmente voltados para um problema, comete erros do tipo esquecer onde estacionou o carro ou colocar meias de cores diferentes. Já a distraibilidade, diferentemente da distração, é um estado patológico que se exprime por instabilidade marcante e mobilidade acentuada da atenção voluntária, com dificuldade ou incapacidade para fixar-se ou deter-se em qualquer coisa que implique esforço produtivo. Ou seja, a atenção do indivíduo é muito facilmente desviada de um objeto para outro. TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO ALERTA Compreende a manutenção de um foco de atenção para estímulos externos. Pode estar aumentada (hipervigilante) e diminuída (hipovigilante). ORIENTAÇÃO É um complexo de funções psíquicas pelo qual tomamos consciência da situação real em que nos encontramos. Ela encontra-se intimamente ligada as noções de tempo e espaço. Em geral, o primeiro sentido de orientação que se perde é o de tempo, depois o de espaço, que envolve deslocamento e localização e, num estado mais grave, a desorientação do próprio eu (identidade e corpo) A orientação divide-se em: - Autopsíquica: paciente reconhece dados de identificação pessoal e sabe quem é; - Alopsíquica: paciente reconhece os dados do ambiente: Temporal: dia, mês, ano em que está; em que parte do dia se localiza (manhã, tarde, noite); Espacial: em que lugar se encontra, para que está lá, a cidade onde está; como chegou ao consultório. A capacidade de situar-se quanto a si mesmo e quanto ao ambiente é elemento básico da atividade mental e fundamental para a sobrevivência do indivíduo. A avaliação da orientação é um instrumento valioso para a verificação das perturbações do nível de consciência, da percepção, da atenção, da memória e de toda a cognição. As alterações da orientação também podem ser decorrentes de déficits cognitivos graves (como nas demências) e de qualquer transtorno mental grave que desorganize de modo marcante o funcionamento mental global. Muitas vezes, verifica-se que um paciente com nível de consciência aparentemente normal está, de fato, desorientado. Assim, ao examiná-lo melhor, verifica-se que, na realidade, ele está com a consciência ligeiramente turva e rebaixada, o que se revela pela sua desorientação. Desse modo, investigar a orientação é também um recurso útil para aferir o nível de consciência dos pacientes. A capacidade de orientar-se requer, de forma consistente, a integração das capacidades de nível de consciência preservado, atenção, percepção e memória. Alterações de atenção e retenção (memória imediata e recente), moderadas ou graves, costumam resultar em alterações globais da orientação. Além disso, a orientação é excepcionalmente vulnerável aos efeitos da disfunção ou do dano cerebral. A desorientação é um dos sintomas mentais mais frequentes e sensíveis das doenças cerebrais. A capacidade de orientar-se é classificada em autopsíquica e alopsíquica. A orientação autopsíquica é aquela do indivíduo em relação a si mesmo. Revela se o sujeito sabe quem é: seu nome, idade, profissão, estado civil, com quem mora, etc. Já a orientação alopsíquica diz respeito à capacidade de orientar-se em relação ao mundo, isto é, quanto ao espaço (orientação espacial ou topográfica) e quanto ao tempo (orientação temporal). Orientação espacial Por orientação espacial entende-se vários subtipos de orientação: quanto ao local onde o sujeito está no momento (o local específico, o tipo de edifício, distância entre onde está e sua casa, etc.), orientação topográfica (ter a noção do arranjo e da organização de seu quarto, de sua casa, saber se localizar em seu bairro, sua cidade), orientação geográfica (saber onde fica sua cidade, seu país, saber localizar-se em relação a mapas), julgamento de distância (quão longe é o hospital de sua casa, sua cidade de outras cidades conhecidas, etc.) e capacidades de navegação (conseguir seguir caminhos e rotas previamente conhecidos ou com pistas suficientes) A orientação temporal necessita de uma adequada percepção do tempo e da sequência de intervalos temporais, de sua correspondente representação mental e do processamento mental da temporalidade. Essa orientação é, de modo geral, mais sofisticada que a espacial e a autopsíquica. A orientação temporal indica se o paciente sabe em que momento cronológico está vivendo, a hora do TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO dia, se é de manhã, de tarde ou de noite, o dia da semana, o dia do mês, o mês do ano, a época do ano, bem como o ano corrente. Também é possível avaliar a noção que o paciente tem da duração dos eventos e da continuidade temporal. O examinador pode perguntar: há quanto tempo o senhor está neste local? Há quanto tempo trabalhou (ou se alimentou) pela última vez? Faz quanto tempo que o senhor não me vê? A orientação temporal é adquirida mais tardiamente que a autopsíquica e a espacial na evolução neuropsicológica da criança. Jean Piaget notou que crianças de 4 a 7 anos, no nível pré- operatório, têm ainda algumas dificuldades com a noção de tempo. Elas acreditam que pessoas mais altas são sempre mais velhas, que árvores altas, mais largas e com mais frutos são sempre “mais velhas” e que a duração de uma viagem é dada pelos pontos de chegada, sem consideração da velocidade de locomoção (Beard, 1978). Assim, a temporalidade (timing), em relação à espacialidade, é uma função que exige maior desenvolvimento cognitivo do indivíduo, além da integração de estímulos ambientais de forma mais elaborada. Por isso, em relação à orientação espacial, a orientação temporal é mais fácil e rapidamente prejudicada pelos transtornos mentais e distúrbios neuropsicológicos e neurológicos, particularmente pelos que afetam a consciência; do mesmo modo, costuma ser o último aspecto da orientação a se recuperar. RESPONSIVIDADE: Prontidão em resposta ao estímulo. SENSOPERCEPÇÃO Sensação é o fenômeno que estimula órgãos receptores., gerada pior estímulos físicos, químicos ou biológicos. Percepção é a tomada de consciência de tal estímulo sensorial. Podem ser quantitativas como qualitativas: Quentitativas: - Hiperestesia: intoxicação por alucinógenos, epilepsia; - Hipoestesia: quadros depressivos; - Anestesia: abolição de todas as formas de sensibilidade Qualitativas: - Alucinação: alteração do sensopercepção. Inserção de um objeto que não existe no campo daquele sujeito. Pode haver vozes, ver coisas, por ex. - Ilusão: Tambem alteração do sensopercepção. Só que aqui o objeto de fato existe, mas ele se altera. Paciente começa a ver um vaso de planta se mexendo, uma flor anadando, por ex. 2. DEBATER SOBRE AS ALTERAÇÕES PATOLÓGICAS (estado crepuscular, estado de transe, dissociação, experiência de quase morte e delírio) E AS FISIOLÓGICAS (sono). Em diversos quadros neurológicos e psicopatológicos, o nível de consciência diminui de forma progressiva, desde o estado normal, vígil, desperto, até o estado de coma profundo, no qual não há qualquer resquício de atividadeconsciente. Os diversos graus de rebaixamento da consciência (Ramos Jr., 1986) são: 1) obnubilação, 2) torpor, 3) sopor e 4) coma. Examinemo-los com mais detalhes. •1º grau, OBNUBILAÇÃO: turvação da consciência ou sonolência patológica leve. Trata-se do rebaixamento da consciência em grau leve a moderado. À inspeção inicial, o paciente pode já estar claramente sonolento ou parecer desperto, o que pode dificultar o diagnóstico desse estado. De qualquer forma, há sempre diminuição do grau de clareza do sensório, com lentidão da compreensão e dificuldade de concentração. Nota-se que o indivíduo tem dificuldade para integrar as informações sensoriais oriundas do ambiente. Assim, mesmo não se notando a sonolência do paciente de forma evidente, observa-se, nos quadros de obnubilação, que a pessoa se encontra um tanto perplexa, com a compreensão dificultada, podendo o pensamento que expressa revelar confusão mental. No geral, o indivíduo diminui a atenção para as solicitações externas, dirigindo-se para a sonolência. Já se pode observar alguma lentificação do traçado eletrencefalográfico. TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO •2º grau, TORPOR: é um grau mais acentuado de rebaixamento da consciência. O paciente está evidentemente sonolento; responde ao ser chamado apenas de forma enérgica e, depois, volta ao estado de sonolência evidente. A resposta aos estímulos externos, quando solicitado energicamente, é mais curta do que nos estados de obnubilação, mas menos frustra que no estado de sopor. Na obnubilação e no torpor, o paciente pode ainda apresentar traços de crítica e pudor, tentando cobrir as partes íntimas de seu corpo com o cobertor, quando em uma enfermaria ou emergência de hospital. No sopor e no coma, tal pudor e crítica da situação não existe mais, estando o indivíduo totalmente indiferente à exposição de partes íntimas (o que deve ser evitado sempre que possível, em respeito à pessoa). •3º grau, SOPOR: é um estado de marcante e profunda turvação da consciência, de sonolência intensa, da qual o indivíduo pode ser despertado apenas por um tempo muito curto, por estímulos muito enérgicos, do nível de uma dor intensa. Nesse momento, o paciente pode revelar fácies de dor e ter alguma gesticulação de defesa. Retorna, então, muito rapidamente, em segundos, à quase ausência de atividade consciente. Portanto, aqui, ele sempre se mostra intensamente sonolento, quase em coma. Embora ainda possa apresentar reações de defesa muito esporádicas, é incapaz de qualquer ação espontânea. A psicomotricidade encontra-se mais inibida do que nos estados de obnubilação e de torpor. O traçado eletrencefalográfico acha-se global e marcadamente lentificado, podendo surgir as ondas mais lentas, do tipo delta e teta. •4º grau, COMA: é a perda completa da consciência, o grau mais profundo de rebaixamento de seu nível. No estado de coma, não é possível qualquer atividade voluntária consciente. Além da ausência de qualquer indício de consciência, os seguintes sinais neurológicos podem ser verificados: movimentos oculares errantes com desvios lentos e aleatórios, nistagmo, transtornos do olhar conjugado, anormalidades dos reflexos oculocefálicos (cabeça de boneca) e oculovestibular (calórico) e ausência do reflexo de acomodação. Além disso, dependendo da topografia e da natureza da lesão cerebral, podem ser observadas rigidez de decorticação ou de decerebração, anormalidades difusas ou focais do EEG com lentificações importantes e presença de ondas patológicas. Os graus de intensidade de coma são classificados de I a IV: I, semicoma; II, coma superficial; III, coma profundo; e IV, coma dépassé. DELLIRIUM Delirium é o termo atual mais adequado para designar a maior parte das síndromes confusionais agudas (o termo “paciente confuso”, muito usado em serviços de emergência e enfermarias médicas, refere-se a tais síndromes confusionais, ou seja, ao delirium). Cabe ressaltar que esses termos (síndrome confusional e paciente confuso) dão ênfase ao aspecto confuso do pensamento e do discurso do paciente (fala incongruente, com conteúdos absurdos e sem articulação lógica), um dos traços do delirium, mas não necessariamente o mais importante ou mais frequente. Daí a opção preferencial de se utilizar o termo delirium em vez de síndrome confusional. O delirium é uma das síndromes mais frequentes na prática clínica diária, principalmente em pacientes com doenças somáticas (emergências e enfermarias médicas e geriátricas) e idade avançada. O delirium diz respeito, portanto, aos vários quadros com rebaixamento leve a moderado do nível de consciência, acompanhados de desorientação temporoespacial, dificuldade de concentração, perplexidade, ansiedade em graus variáveis, agitação ou lentificação psicomotora, discurso ilógico e confuso e ilusões e/ou alucinações, quase sempre visuais. Trata-se de um quadro que oscila muito ao longo do dia. Geralmente, o paciente está com o sensório claro pela manhã, e, no início da tarde, o nível de consciência “afunda”, piorando no fim da tarde e à noite. Podem surgir, então, ilusões e alucinações visuais, bem como intensificar-se a desorientação e a confusão do pensamento e do discurso, com a TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO possibilidade de haver também agitação psicomotora e sudorese. Não se deve confundir delirium (quadro sindrômico causado por alteração do nível de consciência, em pacientes com distúrbios cerebrais agudos) com o termo “delírio” (ideia delirante; alteração do juízo de realidade encontrada principalmente em psicóticos esquizofrênicos ou em outras psicoses). ALTERAÇÕES PATOLÓGICAS QUALITATIVAS DA CONSCIÊNCIA Além dos diversos estados de redução global do nível de consciência, a observação psicopatológica registra uma série de estados alterados da consciência, nos quais se tem mudança parcial ou focal do campo da consciência. Uma parte do campo da consciência está preservada, normal, e outra, alterada. De modo geral, há quase sempre, nessas alterações qualitativas, algum grau de rebaixamento (mesmo que mínimo) do nível de consciência. Têm-se, então, as seguintes alterações qualitativas da consciência: ESTADOS CREPUSCULARES (état crepusculaire, twilight state, Dämmerzustand). Consistem em um estado patológico transitório no qual uma obnubilação leve da consciência (mais ou menos perceptível) é acompanhada de relativa conservação da atividade motora coordenada. Permite a ocorrência dos chamados atos automáticos. O estado “crepuscular” caracteriza-se por surgir e desaparecer de forma abrupta e ter duração variável, de poucos minutos ou horas a algumas semanas (Sims, 1995). Durante esse estado, ocorrem, com certa frequência, atos explosivos violentos e episódios de descontrole emocional (podendo haver implicações legais de interesse à psicologia e à psiquiatria forense). Geralmente ocorre amnésia lacunar para o episódio inteiro, podendo o indivíduo se lembrar de alguns fragmentos isolados. Os estados crepusculares foram descritos classicamente como associados à epilepsia, mas também podem ocorrer em intoxicações por álcool ou outras substâncias psicoativas (SPA), após traumatismo craniano (TCE), em quadros dissociativos histéricos agudos e, eventualmente, após choques emocionais intensos. ESTADO SEGUNDO. Estado patológico transitório semelhante ao estado crepuscular, caracterizado por uma atividade psicomotora coordenada, a qual, entretanto, permanece estranha à personalidade do sujeito acometido e não se integra a ela. Com certa frequência, alguns autores utilizam os termos “estado segundo” e “estado crepuscular” de forma indistinta ou intercambiável.Em geral, atribui-se, ao estado segundo, uma natureza mais psicogenética, sendo produzido por fatores emocionais (choques emocionais intensos). Já ao estado crepuscular, são conferidas causas mais frequentemente orgânicas (confusão pós-ictal, intoxicações, traumatismo craniano, etc.). Os atos cometidos durante o estado segundo são geralmente incongruentes, extravagantes, em contradição com a educação, as opiniões ou a conduta habitual do sujeito acometido, mas quase nunca são realmente graves ou perigosos, como no caso dos estados crepusculares (Porot, 1967). Do ponto de vista do mecanismo produtor da alteração, o estado segundo se aproxima mais da dissociação da consciência do que do estado crepuscular. DISSOCIAÇÃO DA CONSCIÊNCIA. Tal expressão designa a fragmentação ou a divisão do campo da consciência, ocorrendo perda da unidade psíquica comum do ser humano. O termo “dissociação” pode cobrir não apenas a consciência como também a memória, a percepção, a identidade e o controle motor. Em geral ocorre nos quadros histéricos. Vista como uma estratégia defensiva inconsciente para lidar com a ansiedade. O indivíduo se desliga da realidade para não sofrer. Quadros dissociativos são também frequentes em pessoas com o diagnóstico de transtorno da personalidade borderline. TRANSE. Se assemelha a sonhar acordado, porém há atividade motora automática e estereotipada acompanhada de suspensão parcial dos movimentos voluntários. O estado de transe ocorre sobretudo em contextos religiosos e culturais (espiritismo kardecista, religiões afro-brasileiras e religiões evangélicas TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO pentecostais e neopentecostais). O transe dito extático pode ser induzido por treinamento místico-religioso, ocorrendo geralmente a sensação de fusão do eu com o universo. Não se deve confundir o transe religioso, culturalmente contextualizado e sancionado, com o chamado transe histérico, que é um estado dissociativo da consciência relacionado frequentemente a conflitos interpessoais e alterações psicopatológicas. Os estados de transe e possessão culturalmente contextualizados e sancionados são fenômenos muito difundidos nas várias culturas em todo o mundo, vistos, na atualidade, como um recurso religioso e sociocultural que permite às pessoas, sobretudo às mulheres, lidar com as dificuldades da vida por meio de estratégias religiosas socialmente legitimadas. ESTADO HIPNÓTICO. É um estado de consciência reduzida e estreitada e de atenção concentrada, que pode ser induzido por outra pessoa (hipnotizador). Trata-se de um estado de consciência semelhante ao transe, no qual a sugestionabilidade do indivíduo está aumentada, e sua atenção, concentrada no hipnotizador. Nesse estado, podem ser lembradas cenas e fatos esquecidos e podem ser induzidos fenômenos como anestesia, paralisias, rigidez muscular, alterações vasomotoras. Não há nada de místico ou paranormal na hipnose. É apenas uma técnica refinada de concentração da atenção e de alteração induzida do estado da consciência. EXPERIÊNCIA DE QUASE MORTE: Em situações de grave ameaça a vida (parada cardiorrespiratória (PCR), isquemia, acidentes) ocorrem experiências muito rápidas em que um estado de consciência particular é vivenciado e registrado por essas pessoas (sensação de paz e tranquilidade, presença de um espírito). O genial geólogo suíço Albert von St. Gallen Heim (1849-1937) teve uma marcante EQM ao sofrer grave queda quando escalava os Alpes suíços, em 1872. Ele passou, então, a coletar relatos de experiências semelhantes e as descreveu no Clube Alpino Suíço, em 1892. Em seu relato, afirmou a sensação de paz e tranquilidade imensa e deslocamento muito rápido ao longo de um túnel escuro que, ao fim, tinha uma luz particularmente brilhante. Disse, ainda, que tal “viagem” se acompanhara da passagem rapidíssima de um “retrospecto da vida” e da sensação da presença de um espírito pleno de amor (Vignat, 1996; Nahm, 2016). Estudos de revisão (Nelson et al., 2006) têm mostrado que as características mais frequentes desses estados (EQM) são as seguintes (em 55 casos revisados a partir da literatura científica internacional): sensação de paz (87%), de estar fora do próprio corpo (80%), de estar rodeado por uma luz intensa (78%), de estar em “outro mundo” (75%), sensações de “união cósmica” (67%), de ter atingido um “ponto de não retorno” (67%), de alegria intensa (64%), de “compreensão imediata” (60%) e de contato com uma “entidade mística” (55%). As EQMs parecem ocorrer em muitas culturas, com variações nos seus conteúdos. Nos Estados Unidos, aparentemente, ocorrem em 6 a 12% das pessoas que sobreviveram a uma parada cardíaca, e, na Europa, 6% de uma amostra de 14 mil pessoas da população em geral relatou já ter experienciado EQM. Em estudo recente, Nelson e colaboradores (2006) buscaram demonstrar que a EQM seria a consequência de uma invasão maciça de atividade cerebral do tipo sono REM nas pessoas enquanto passavam por tais experiências. Entretanto, há também consistentes hipóteses socioculturais e históricas para tal experiência DELÍRIO: Alteração de juízo de realidade, pensamento alterado, alteração da criticidade. A alucinação muitas vezes complementa o delírio, mas são coisas diferentes. Por exemplo: delírio – “aqui embaixo mora um grupo do estado islâmico”. Só que isso normalmente vem acompanhado de uma alucinação – “Toda noite eu escuto eles conversando”. ALTERAÇÕES FISIOLÓGICAS (sono). SONO TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO Não é inconsciente! É um estado especial da consciência que ocorre de forma recorrente e cíclica, necessário para a fisiologia/ homeostasia do organismo. Divide-se em: NREM (o sono sincronizado, sem movimentos oculares rápidos): SINCRONIZADO. Possui elementos eletrencefalográficos próprios ( como os fusos do sono, os complexos K e as ondas lentas de grande amplitude) e alterações no SNA (simpático diminuído e parassimpático aumentado). Por isso, menor FC, FR, PA, DC e os movimentos intestinais. As alterações normais da consciência ocorrem no contexto dos chamados ritmos circadianos (relógio interno de 24 horas que nossos corpos seguem, é mantido pela exposição a estímulos externos, padrões e hábitos de vida e funções naturais do corpo.) A luz desempenha um papel fundamental durante a regulação do ritmo circadiano. Uma vez que os olhos captam a luz do sol, um sinal é enviado ao hipotálamo de que é hora de ficar alerta. Se os olhos não forem expostos à luz por um longo período de tempo, o cérebro interpreta que é para desencadear a liberação de melatonina. Isso faz com que você se sinta cansado quando o sol se põe. Possui 4 estágios: Estágio 1: mais leve e superficial, com atividade regular do EEG de baixa voltagem, de 4 a 6 ciclos por segundo (2-5% do tempo total de sono). •Estágio 2: um pouco menos superficial, com traçado do EEG revelando aspecto fusiforme de 13 a 15 ciclos por segundo (fusos do sono) e algumas espículas de alta voltagem, denominadas complexos K (45-55% do tempo total de sono). •Estágio 3: sono mais profundo, com traçado do EEG mais lentificado, com ondas delta, atividade de 0,5 a 2,5 ciclos por segundo, ondas de alta voltagem (3-8% do tempo total de sono). •Estágio 4: estágio de sono mais profundo, com predomínio de ondas delta e traçado bem lentificado. É mais difícil de despertar alguém nos estágios 3 e 4, podendo o indivíduo apresentar-se confuso ao ser despertado (10- 15% do tempo total de sono). REM (sono dessincronizado, com movimentos oculares rápidos): DESSINCRONIZADO. Corresponde a 20- 25% do sono, É um estágio peculiar, cujo padrãodo EEG é semelhante ao do Estágio 1 do não REM. Há instabilidade do sistema simpático (aumento - variações das frequências cardíaca e respiratória, da pressão arterial, do débito cardíaco e do fluxo sanguíneo cerebral e ereções penianas totais e parciais.). Possui ao mesmo tempo atonia muscular e movimentos oculares sacádicos (rápidos e conjugados). É durante o sono REM que ocorre a maior parte dos sonhos, e, em 60 a 90% das vezes, se o indivíduo for despertado durante a fase REM, relatará que estava sonhando. Durante o sono REM, dá-se a ativação das vias neuronais que TUTORIA 13 Alterações da consciência FRANCIELLE SANTOS AGOSTINHO PINHEIRO ligam o tronco cerebral ao córtex occipital (a área da visão); são as chamadas ondas ponto-genículo- occipitais. Tal ativação cerebral das áreas occipitais se relaciona ao caráter visual dos sonhos. O sono REM não é, entretanto, um sono leve, tampouco profundo, mas um tipo de sono qualitativamente diferente. Em uma noite normal de sono, esses ciclos se repetem de 4-6 vezes em uma noite, com duração de 70-110 minutos cada. Seu inicio ocorre 70 a 120 minutos após o indivíduo adormecer, pela fase 1. Com o passar da noite, os estágios vão se acelerando, reduzindo os estágios 3 e 4, com isso os períodos REM vão se tornando mais frequentes e prolongados. A maior quantidade de sono REM ocorre no último terço da noite, geralmente de madrugada (das 4 às 7h da manhã), momento em que a maioria das pessoas mais sonha. O Estágio 4, de forma oposta, ocorre predominantemente no primeiro terço da noite. Pessoas com depressão grave e narcolepsia podem ter a latência – adormecimento-primeiro sono REM – bastante diminuída, implicando geralmente uma inversão da arquitetura do sono. ESTRUTURAS RELACIONADAS: - Núcleo supraquiasmático: no hipotálamo anterior; - Glândula pineal: secreta melatonina bifásica (entre 22 horas e 1 hora), modulador do ciclo sono- vigília. - Sistema reticular mesencéfalo e bulbos: gera sono REM; - Receptores aminérgicos, colinérgicos e histaminérgicos. SONHO É um fenômeno associado ao sono e uma alteração normal da consciência. Maioria das pessoas sonham várias vezes durante a noite, mas acabam se esquecendo rapidamente (6-8 min). São vivências predominantemente visuais, sendo rara a ocorrência de percepções auditivas, olfativas ou táteis. Isso se deve às ondas ponto-genículo- occipitais que ativam as áreas corticais visuais do lobo occipital. Em sonhos eróticos, podem ocorrer sensações de orgasmo. Pessoas cegas de nascença geralmente relatam sonhos com sensações corporais e de movimento, mas obviamente sem o caráter visual das pessoas que enxergam. O seu significado ainda permanece controvérsio. As diversas culturas tendem a interpretá-los a partir de seus símbolos, crenças religiosas e valores próprios, geralmente tomando-os como mensagens divinas ou demoníacas. No ano de 1900, Freud publicou um de seus mais importantes trabalhos: A interpretação do sonho. Nessa obra, ele busca demonstrar que o sonho não é nem um “produto aleatório e sem sentido de um cérebro em condições alteradas de funcionamento”, nem um “mensageiro de recados do além”. O sonho é um fenômeno psicológico extremamente rico e revelador de desejos e temores, ainda que de forma indireta e disfarçada. Enfim, para ele, o conteúdo do sonho tem um sentido. Dessa forma, para Freud, o sonho é uma solução de compromisso, o resultado de uma intensa negociação entre o inconsciente (que visa expulsar, forçar os desejos para a consciência) e o consciente (que visa impedir que tais desejos inconscientes surjam).