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OE Giovanni Domenico Tiepolo, Procissão do cavalo de Troia, 1773, óleo sobre tela, National Gallery, Londres, Inglaterra/Web Gallery of Art (Domínio público) � Em busca do estilo literário Um escritor, antes de tudo, tem uma mensagem a transmitir; uma história que se animou a colocar no papel. Mas, ainda que sejam ideias visionárias, os autores de literatura têm apenas as ferramentas do sistema cultural no qual estão inseridos para expressar essas ideias, portanto escrevem de acordo com sua ideologia, submetidos a um contexto histórico e sociopolítico. Por isso, os textos literários nos dão acesso ao modo de ver o mundo que marcou uma época e/ou uma cultura. Isso quer dizer que, ao ler um romance do século XVIII, você terá a chance de entrar em contato com um modo de ver o mundo daquela época. O estilo literário é definido nesse encontro/confronto entre o indivíduo (escritor) e seu meio (contexto histórico e socio- político) e, por conta disso, diferencia-se em estilo individual e estilo de época. Estilo de época Estilo individual ESTILO INDIVIDUAL é a forma pessoal com que determinado escritor se expressa e manipula a linguagem literária, procurando melhor resultado estético. Está relacionado ao repertório individual (vocabulário, sintaxe e ritmo, biblioteca pessoal, modo de ver e pensar o mundo etc.) e à criatividade do autor, que busca fazer algo original a partir desse repertório. Além de ser a maneira como cada escritor dialoga com sua época, é também a forma como ele se apropria de saberes de outros tempos. Assim, temos a manifestação da individualidade. ESTILO DE ÉPOCA é determinado pelo conjunto de características e procedimentos artísticos semelhantes empregados pelos autores que viveram em um mesmo período histórico. Diz respeito ao modo de interpretar o mundo e a arte, compar- tilhado por grupos de indivíduos que representam os costumes vigentes e as preocupações recorrentes de uma época. Por que chamamos de épico um filme com cenas de ação espetaculares, protagonizadas por um herói destemido? Por que dizemos que, em certas letras de canções, há lirismo? E de onde vem a nossa disposição para nos emocionar- mos com o drama vivido por personagens em cenas de novelas ou em filmes dramáticos? Épico, lírico e dramático envolvem conceitos relacionados à Literatura, e compreendê-los exige certa disponibilidade para os estudos literários. A seguir, apresentaremos os gêneros literários, noções de estilos literários – coletivos e indi- viduais – e as transformações da Literatura ao longo da história. Estilos e gêneros literários 2 ATIVIDADE C6 | H13 LITERATURA – FRENTE ÚNICA214 ATIVIDADE 2 Estilos e gêneros literários Lit er at ur a 2020-PV-LIT-OCTA+-V1-FU.INDD / 22-10-2019 (09:19) / ANDERSON.OLIVEIRA / PDF GRAFICA 2020-PV-LIT-OCTA+-V1-FU.INDD / 22-10-2019 (09:19) / ANDERSON.OLIVEIRA / PDF GRAFICA OE Giovanni Domenico Tiepolo, Procissão do cavalo de Troia, 1773, óleo sobre tela, National Gallery, Londres, Inglaterra/Web Gallery of Art (Domínio público) � Em busca do estilo literário Um escritor, antes de tudo, tem uma mensagem a transmitir; uma história que se animou a colocar no papel. Mas, ainda que sejam ideias visionárias, os autores de literatura têm apenas as ferramentas do sistema cultural no qual estão inseridos para expressar essas ideias, portanto escrevem de acordo com sua ideologia, submetidos a um contexto histórico e sociopolítico. Por isso, os textos literários nos dão acesso ao modo de ver o mundo que marcou uma época e/ou uma cultura. Isso quer dizer que, ao ler um romance do século XVIII, você terá a chance de entrar em contato com um modo de ver o mundo daquela época. O estilo literário é definido nesse encontro/confronto entre o indivíduo (escritor) e seu meio (contexto histórico e socio- político) e, por conta disso, diferencia-se em estilo individual e estilo de época. Estilo de época Estilo individual ESTILO INDIVIDUAL é a forma pessoal com que determinado escritor se expressa e manipula a linguagem literária, procurando melhor resultado estético. Está relacionado ao repertório individual (vocabulário, sintaxe e ritmo, biblioteca pessoal, modo de ver e pensar o mundo etc.) e à criatividade do autor, que busca fazer algo original a partir desse repertório. Além de ser a maneira como cada escritor dialoga com sua época, é também a forma como ele se apropria de saberes de outros tempos. Assim, temos a manifestação da individualidade. ESTILO DE ÉPOCA é determinado pelo conjunto de características e procedimentos artísticos semelhantes empregados pelos autores que viveram em um mesmo período histórico. Diz respeito ao modo de interpretar o mundo e a arte, compar- tilhado por grupos de indivíduos que representam os costumes vigentes e as preocupações recorrentes de uma época. Por que chamamos de épico um filme com cenas de ação espetaculares, protagonizadas por um herói destemido? Por que dizemos que, em certas letras de canções, há lirismo? E de onde vem a nossa disposição para nos emocionar- mos com o drama vivido por personagens em cenas de novelas ou em filmes dramáticos? Épico, lírico e dramático envolvem conceitos relacionados à Literatura, e compreendê-los exige certa disponibilidade para os estudos literários. A seguir, apresentaremos os gêneros literários, noções de estilos literários – coletivos e indi- viduais – e as transformações da Literatura ao longo da história. Estilos e gêneros literários 2 ATIVIDADE C6 | H13 LITERATURA – FRENTE ÚNICA214 ATIVIDADE 2 Estilos e gêneros literários Lit er at ur a 2020-PV-LIT-OCTA+-V1-FU.INDD / 22-10-2019 (09:19) / ANDERSON.OLIVEIRA / PDF GRAFICA 2020-PV-LIT-OCTA+-V1-FU.INDD / 22-10-2019 (09:19) / ANDERSON.OLIVEIRA / PDF GRAFICA Os estudos literários procuram identificar, primeiramen- te, os estilos de época para, depois, investigar as particulari- dades de cada escritor. Em Literatura, “todo mundo imita todo mundo”, ninguém cria a partir do nada. Quanto mais obras literárias você conhe- cer, mais apto estará para reconhecer a tradição literária e o repertório comum que as povoam. O estudo de estilos de época motivou o desenvolvimen- to da história da Literatura, que procura organizar e interpre- tar fatos literários ao longo do tempo. O início dessa história remonta, mais uma vez, à Antiguidade Clássica, berço da ci- vilização ocidental. Só muito recentemente as obras literárias orientais têm conquistado espaço nesse meio. � A história da Literatura Au to r d es co nh ec id o/ W ik im ed ia C om m on s (D om ín io p úb lic o) Autor desconhecido, King Arthur and attendants, c. 1400, Metro- politan Museum of Art, Nova York, Estados Unidos. Tapeçaria me- dieval com representação do rei Artur. O primeiro autor a figurar nesse cenário é Homero, com suas obras Ilíada e Odisseia, escritas na Grécia Antiga. Homero é um poeta lendário – sobre o qual pouco se sabe – que teria divulgado esses textos de forma oral. Mais tarde, conforme a escrita se desenvolvia na Grécia, essas obras de tradição popular foram passadas para o papel por compila- dores e copistas. Mais adiante, com o fim do Império Romano, os países ocidentais se separaram e, aos poucos, definiram suas fron- teiras de acordo com suas línguas. O início das literaturas nacionais é marcado pela necessidade de afirmação dessas línguas diante do latim, que até então era o idioma dos textos oficiais escritos. Durante a Idade Média, foi comum a produção de cantigas (poemas musicados) e autos (peças teatrais religiosas) no ter- ritório europeu. Dessa época, merecem destaque as Cantigas de Santa Maria, reunidas – e algumas delas compostas – pelo rei castelhano Afonso X, o Sábio; a série de contos sobre a lenda do Rei Artur e a Távola Redonda, denominada A demanda do Santo Graal, originalmente escrita em francês e traduzida para quase todas as línguas europeias naquele tempo; e a coletâ- nea de contos do Oriente Médio As mil e uma noites, cuja in- trodução no Ocidentese daria no século XVIII. Aqui no Brasil, estudamos a disciplina Literatura levando em conta a história da Literatura em língua portuguesa. Por isso, a aprendizagem implica o conhecimento de autores e estilos de época, protagonistas da nossa história nacional, bem como al- guns expoentes da Literatura de língua portuguesa em geral. � Os gêneros literários A necessidade de categorizar as obras literárias remonta à Antiguidade Clássica, a partir dos estudos de Aristóteles, que, em sua Poética, dividiu-as em três gêneros: o épico, o lírico e o dramático. O filósofo grego identificou as caracte- rísticas particulares de cada um deles, resultando em uma divisão que, até os dias atuais, é bastante considerada para orientar os estudos literários. Mas vale lembrar que os artistas são seres inquietos e in- ventivos e, com o avançar da história da Literatura, sentiram a necessidade de inovar, rompendo com as limitações que os forçavam a escrever seguindo as normas rígidas ditadas pelos manuais de escrita literária. Daí surgiram os gêneros híbridos, misturando características de determinados gêneros a outros. Assim, quando falamos de gênero no âmbito das Artes, estamos nos referindo a um conjunto de obras que se aproxi- mam por carregarem características comuns, seja em relação às formas nas quais se estruturam, seja em relação aos con- teúdos que expressam. Os estudos literários têm se ocupado dos elementos constitutivos da lírica, da épica e da dramática desde sempre. A teoria da poesia engloba o estudo do verso (versificação), de seu sistema métrico (metrificação), da musicalidade das palavras (ritmo), da disposição das rimas (alternativas, inter- poladas, cruzadas etc.) e das estrofes (estrofação). A teo ria do drama distingue as diferentes modalidades teatrais (tragédia, comédia, tragicomédia, farsa, ópera, teatro do absurdo, teatro do oprimido etc.), a construção cênica (cenografia), os efei- tos sonoros (sonoplastia) e a estruturação das falas (diálogos, monólogos etc.). A teoria da narrativa discrimina e explica os elementos que compõem uma história (foco narrativo, per- sonagens, tempo, espaço e enredo). Gênero lírico O gênero lírico é o mais subjetivo. Nos textos líricos, a voz central exprime um estado de alma por meio de sentenças de forte cunho emocional. Diz respeito à expressão de emoções e disposições psíquicas ou a concepções e reflexões intensamente vividas e experimentadas. A voz que fala nesses textos, o emissor, LITERATURA – FRENTE ÚNICA ATIVIDADE 2 Estilos e gêneros literários 215 2020-PV-LIT-OCTA+-V1-FU.INDD / 22-10-2019 (09:19) / ANDERSON.OLIVEIRA / PDF GRAFICA 2020-PV-LIT-OCTA+-V1-FU.INDD / 22-10-2019 (09:19) / ANDERSON.OLIVEIRA / PDF GRAFICA é chamada de eu lírico. Cuidado para não o confundir com o autor do texto, pois o ser que fala de si em Literatura é sempre ficcional, criado pelo autor no fazer discursivo poético. O meu olhar é nítido como um girassol. Tenho o costume de andar pelas estradas Olhando para a direita e para a esquerda, E de vez em quando olhando para trás... E o que vejo a cada momento É aquilo que nunca antes eu tinha visto, E eu sei dar por isso muito bem... Sei ter o pasmo comigo Que tem uma criança se, ao nascer, Reparasse que nascera deveras... Sinto-me nascido a cada momento Para a eterna novidade do mundo... [...] PESSOA, Fernando. O guardador de rebanhos e outros poemas. São Paulo: Cultrix, 1997. Aqui, o eu lírico nos convida a abrir os olhos para as coisas como se as estivéssemos vendo, sempre, pela primeira vez e a nos deslumbrarmos com elas. O que interessa na lírica não é passar uma mensagem clara, mas suscitar, por meio do arranjo de palavras e das escolhas visuais, sensações e emoções no leitor. Note as palavras selecionadas para se criar a percepção de olhar pela primeira vez: “girassol”, planta guiada pela luz do Sol; o “pasmo”, a surpresa de uma nova descoberta; “aquilo que nunca antes eu tinha visto”, expressão do modo de ver do eu lírico, sempre disponível para a “eterna novidade do mundo”. Formas líricas Nos processos de composição da lírica, destacam-se muitas maneiras de estruturação do gênero poético, resul- tando em formas variadas que mantêm íntima relação com o conteúdo, tais como a elegia, a écloga, a ode e a cantiga. A mais popular dessas formas é o soneto, estruturado em duas estrofes de quatro versos (quartetos) e duas estrofes de três versos (tercetos). O soneto caracteriza-se por propiciar um movimento reflexivo que leva a uma conclusão argumental. Observe um soneto de Álvares de Azevedo: Perdoa-me, visão dos meus amores, Se a ti ergui meus olhos suspirando! ... Se eu pensava num beijo desmaiando Gozar contigo uma estação de flores! De minhas faces os mortais palores. Minha febre noturna delirando, Meus ais, meus tristes ais vão revelando Que peno e morro de amorosas dores... a b b a a b b a Morro, morro por ti! Na minha aurora A dor do coração, a dor mais forte, A dor de um desengano me devora... Sem que última esperança me conforte, Eu – que outrora vivia! – eu sinto agora Morte no coração, nos olhos morte! AZEVEDO, Manuel Antônio Álvares de. Lira dos vinte anos. São Paulo: Ateliê Editorial, 1999. Recursos da construção poética O poema tradicional é versificado. Isso quer dizer que ele apresenta um metro, que determina o padrão de cada verso e quantas sílabas ele terá. Já as estrofes são conjuntos de ver- sos e podem ser classificadas de acordo com o número deles, como dístico (2), terceto (3), quarteto (4), sextilha (6) etc. Os versos são classificados de acordo com o número de sílabas poéticas que apresentam, sendo os mais conhecidos: redon- dilha menor ou pentassílabos (5), redondilha maior ou hep- tassílabo (7), decassílabo (10) e os bárbaros (versos com mais de 12 sílabas poéticas). Além disso, as palavras são escolhidas segundo sua sonoridade, semelhança e diferença em relação às demais empregadas nos outros versos do poema. Assim, em um texto lírico, cada palavra é pensada e planejada como se fosse um número em uma equação matemática. Para tornar um poema mais expressivo, o poeta explora a sonoridade das palavras em articulações que resultam nos principais recursos da construção poética, a saber: • Rima: repetição de sons semelhantes no fim de cada ver- so. As rimas podem ser emparelhadas (aabb), alternadas (abab), interpoladas (abba) ou mistas. Observe os versos da primeira estrofe de um dos sonetos de Camões: Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, Muda-se o ser, muda-se a confiança; todo o mundo é composto de mudança, tomando sempre novas qualidades. CAMÕES, Luís Vaz de. Sonetos de Camões. São Paulo: Ateliê Editorial, 2001. • Assonância: repetição do mesmo som vocálico ao longo de um verso, de uma estrofe ou mesmo no poema todo. Observe os versos da primeira estrofe do poema “Ária do luar (XIV)”, de Alphonsus de Guimaraens: O luar, sonora barcarola, Aroma de argental caçoula, Azul, azul em fora rola... GUIMARAENS FILHO, Alphonsus de (Org.). Melhores poemas de Alphonsus de Guimaraens. Rio de Janeiro: Global, 2013. • Aliteração: repetição do mesmo som consonantal ao lon- go de um verso, de uma estrofe ou mesmo do poema todo. a b b a c d c d c d LITERATURA – FRENTE ÚNICA216 ATIVIDADE 2 Estilos e gêneros literários 2020-PV-LIT-OCTA+-V1-FU.INDD / 22-10-2019 (09:19) / ANDERSON.OLIVEIRA / PDF GRAFICA 2020-PV-LIT-OCTA+-V1-FU.INDD / 22-10-2019 (09:19) / ANDERSON.OLIVEIRA / PDF GRAFICA Literatura – Frente única Atividade 2 - Estilos e gêneros literários