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História da Filosofia Medieval Fábio Antonio Gabriel © 2020 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. Imagens Adaptadas de Shutterstock. Todos os esforços foram empregados para localizar os detentores dos direitos autorais das imagens reproduzidas neste livro; qualquer eventual omissão será corrigida em futuras edições. Conteúdo em websites Os endereços de websites listados neste livro podem ser alterados ou desativados a qualquer momento pelos seus mantenedores. Sendo assim, a Editora não se responsabiliza pelo conteúdo de terceiros. Presidência Rodrigo Galindo Vice-Presidência de Produto, Gestão e Expansão Julia Gonçalves Vice-Presidência Acadêmica Marcos Lemos Diretoria de Produção e Responsabilidade Social Camilla Veiga 2020 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Gerência Editorial Fernanda Migliorança Editoração Gráfica e Eletrônica Renata Galdino Luana Mercurio Supervisão da Disciplina Maria Julia Souza Chinalia Revisão Técnica Luciana Colin Talavera Maria Julia Souza Chinalia Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Gonçalves, Patrícia Graziela G635h História da filosofia medieval / Patrícia Graziela Gonçalves, Fábio Antonio Gabriel. – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2020. 184 p. ISBN 978-65-86461-50-3 1. Filosofia. 2. Cristianismo. 3. Escolástica. I. Gabriel, Fábio Antonio. II. Título. CDD 180 Jorge Eduardo de Almeida CRB-8/8753 Sumário Unidade 1 Filosofia e cristianismo ................................................................................. 7 Seção 1 O que se entende por filosofia medieval .......................................... 8 Seção 2 O cristianismo e a filosofia ..............................................................21 Seção 3 A influência da Bíblia no pensamento ocidental ..........................34 Unidade 2 A Patrística ...................................................................................................51 Seção 1 A Patrística Grega .............................................................................52 Seção 2 A Patrística Latina ............................................................................66 Seção 3 Santo Agostinho e o apogeu da Patrística .....................................80 Unidade 3 A gênese da escolástica ...............................................................................95 Seção 1 O surgimento das universidades ....................................................97 Seção 2 A controvérsia dos universais ......................................................111 Seção 3 A gênese da escolástica: a Escola de Chartres ............................123 Unidade 4 A escolástica nos séculos XIII a XV .......................................................141 Seção 1 As filosofias árabe e hebraica e a penetração de Aristóteles no Ocidente ..........................................................................................143 Seção 2 Tomás de Aquino e a síntese escolástica .....................................156 Seção 3 A crise da Escolástica e os últimos pensadores medievais .......168 Palavras do autor Prezado aluno, bem-vindo:Neste livro, convidamos você a percorrer os caminhos da fasci-nante história da filosofia medieval, a partir de temas que são extre- mamente relevantes para a compreensão da construção do pensamento ocidental. E você pode se perguntar: mas por que estudar a filosofia pelo olhar da história? Pois bem, ótima pergunta! É que a história da filosofia nos impede de qualificar uma filosofia como velha, atrasada, fora de nossos tempos. Isto porque não se ascende à filosofia senão pela história dela, isto é, pela reatualização dos experimentos filosóficos que só a história nos oferece. Trata-se, portanto, de um convite à reflexão crítica. Esperamos que você consiga reconhecer não só os principais momentos da filosofia medieval, mas também compreender os debates acerca das bases do pensamento filosó- fico na Idade Média. Com isso, você será capaz de reconhecer as relações entre filosofia e cristianismo; analisar a filosofia patrística grega e latina, com destaque para o pensamento de Santo Agostinho; compreender a gênese da escolástica e seu posterior desenvolvimento, com ênfase no pensamento de Tomás de Aquino; e problematizar a crise escolástica e os últimos pensadores filosóficos da Idade Média. Nosso percurso tem início com o desvendamento do contexto histórico a partir do qual emergiu a filosofia medieval para, em seguida, caracterizá-la e distingui-la da teologia, mas sem deixar de demonstrar a íntima relação entre elas, principalmente com o estudo da conexão entre filosofia e cristianismo e da importância da Bíblia no pensamento ocidental. Na sequência, adentramos no estudo do movimento filosófico dos primeiros padres da igreja cristã, a Patrística, para compreender as suas peculiaridades tanto na área cultural de língua grega quanto latina. Esse estudo perpassa a ação dos padres apologistas, dos padres mais relevantes, até chegar em Santo Agostinho, talvez o mais expressivo expoente desse movimento. Esse percurso continua com o estudo da gênese da escolástica, para compreender as nuances do contexto histórico a partir do qual esse movimento filosófico surgiu e se desenvolveu. Nesse sentido, nossa atenção centra-se no surgimento das universidades, na controvérsia dos universais e nas escolas de Chartres. Por fim, chegamos na análise da escolástica entre os séculos XIII e XV, no intuito de elucidar o ápice e a crise desse movimento filosófico. Para tanto, estudaremos as filosofias árabe e hebraica e a penetração de Aristóteles no ocidente; Tomás de Aquino e a síntese escolástica; e a crise da escolástica e os últimos pensadores medievais. Aproveite e bons estudos! Unidade 1 Patricia Graziela Gonçalves Filosofia e cristianismo Convite ao estudo Nesta unidade, o tema é filosofia e cristianismo. E, por esse título, você pode se perguntar: a filosofia medieval é uma filosofia cristã? Existiu uma filosofia medieval? Bom, tudo isso você vai descobrir a partir do estudo das seções que compõem esta unidade. O fato é que a filosofia guarda uma relação muito estreita com a teologia na Idade Média e alguns pensadores preferiam a designação de teólogos à de filósofos e afirmavam que “a filosofia é serva da teologia” (DAMIÃO apud GILBERT, 1999, p. 68). Mas você sabia que tanto a filosofia quanto a teologia, enquanto conceitos, têm origem na filosofia grega? É que a cristianização do conceito de teologia levou séculos. E no cristianismo, encontram-se posições em relação à filosofia que vão desde a rejeição total até a apropriação, colocando-a, simplesmente, a serviço da fé cristã. Esse, portanto, é um problema complexo de séculos de história no pensamento filosófico e no pensamento cristão. Na primeira seção desta unidade, analisamos o contexto histórico a partir do qual emergiu a filosofia medieval para, em seguida, caracterizá-la e distingui-la da teologia, mas sem deixar de demonstrar a íntima relação entre elas. Na segunda seção, estudamos mais de perto a conexão entre filosofia e cristianismo no intuito de entender a noção desenvolvida por alguns autores de que a filosofia medieval é uma filosofia cristã, para então problematizá-la. Na terceira seção, o enfoque é a compreensão da importânciada Bíblia no pensamento ocidental com base no estudo da estrutura e do significado da Bíblia, dos problemas emergentes do impacto com a Bíblia e das ideias bíblicas que influenciaram o pensamento ocidental. Bons estudos! 8 Seção 1 O que se entende por filosofia medieval Diálogo aberto Neste momento, discutiremos o que se entende por filosofia medieval. Para tanto, contextualizaremos a Idade Média e a existência de uma filosofia nesse período, suas características e as suas relações com a teologia. Esses assuntos são interessantes e importantes no estudo da história da filosofia medieval e suscitam uma série de questões que podem ser sistematizadas pela situação-problema a seguir: Em uma conversa informal, no intervalo de Ciclo de Palestras sobre a Filosofia Medieval, Charles e outros participantes lembram de um vídeo muito interessante, o famoso jogo de futebol filosófico (The Philosophers’ Football Match) encenado no filme Monty Python ao Vivo no Hollywood Bowl, de 1982. Nesse jogo foram escalados, de um lado, filósofos gregos como Heráclito, Platão, Aristóteles e Plotino e, do outro, alemães como Kant, Hegel, Nietzsche, Beckenbauer. Marx está no banco. O juiz é Confúcio e os bandeirinhas são Santo Agostinho e São Tomás. A filmagem começa com o título “Filosofia internacional” e Palin fornece a narrativa. Os jogadores entram animados no campo, mas quando Confúcio dá o apito inicial, nada acontece. Melhor dizendo, os filósofos de ambos os times meditam de um lado para o outro, alguns coçam a cabeça, outros, o queixo. Pois bem, a problemática acerca do vídeo refere-se ao fato de Santo Agostinho e Santo Tomás serem bandeirinhas. Para além de ser uma boa piada, essa posição assumida por esses pensadores medievais suscita algumas questões interessantes acerca da filosofia na Idade Média. Nesse sentido, Charles comenta com seus colegas que na palestra do dia anterior, o professor de História da Filosofia Medieval de determi- nada universidade afirmou ser a filosofia medieval um objeto de estudo relativamente recente. O desafio para Charles e os demais colegas é entender as razões de tal afirmação do palestrante, somada ao fato de Santo Agostinho e Santo Tomás serem bandeirinhas no famoso jogo de futebol filosófico. Nesse sentido, se perguntam: houve filosofia na Idade Média? Não é ela a época das trevas? Não lhe faltaram as luzes do pensar e a claridade da razão? Como então, falar de filosofia na Idade Média? 9 Não pode faltar A invenção da Idade Média Quem inventou a Idade Média? Sim, ela foi inventada, pelo menos enquanto representação. É isso o que afirma Carlos Arthur do Nascimento (1992), professor de História da Filosofia, ao discorrer sobre os problemas escondidos na expressão “filosofia medieval”. Parece que foi o estudioso clássico alemão Christoph Cellarius (1639-1707) um dos primeiros a conso- lidar o uso da expressão “Idade Média” como designativo de uma das divisões de uma história universal (Idade Antiga, Idade Média e Idade Moderna). O conceito generalizou-se no século XVIII dos iluministas, quase sempre com sentido pejorativo. Desde o século XV, a expressão “Tempo Médio” era empregada para denominar o período intermediário entre a Antiguidade Clássica e o Renascimento. Essa expressão revelava a repulsa que os humanistas, princi- palmente os italianos, nutriam pelos séculos que os separavam do esplendor da civilização greco-latina, considerados por eles um tempo marcado pelo declínio intelectual, cultural e artístico. Ainda no século XIV, o italiano Francesco Petrarca (1304- 1374) já olhava com aversão o período compreen- dido entre o fim do Império Romano e a sua época, momento de descoberta da Antiguidade, definindo-o como uma era de “trevas”. Essa ideia sombria foi reafirmada na obra Décadas históricas após o declínio do Império Romano, do humanista Flávio Biondo (1388-1463) e vinculada à noção de “Tempos Médios” pelo bispo Giovanni Andrea dei Busi, em 1469 (PEDRERO- SÁNCHEZ, 2000). O preconceito com os tempos medievais foi reforçado pelo Iluminismo, nos séculos XVII e XVIII. Visando combater os resquícios feudais ainda sobreviventes no século das Luzes, a maioria dos escritores iluministas lançou um olhar hostil para a Idade Média. Voltaire (1694-1778), por exemplo, no Ensaio sobre os costumes (1756), caracterizou a época medieval como séculos de grosseiros e bárbaros. A igreja foi o principal alvo do antimedievalismo do Século das Luzes. Para os iluministas, a influência da igreja católica era o empecilho ao progresso, à ciência e à liberdade, tanto na época em que viviam quanto no medievo. Obscurantismo clerical e Idade Média, para esses homens, eram termos sinônimos (VERDON, 2004). Com a eclosão do romantismo na primeira metade do século XIX (em alguns países nos finais do século XVIII), a imagem do medievo ganhou uma nova leitura. De “Idade das Trevas”, o passado medieval passou a ser valorizado, admirado, exaltado. A Idade Média tornou-se a “Idade de Ouro”, momento do nascimento das nações europeias. Contudo, se houve um 10 resgate positivo do medievo, ele continuava sendo mal compreendido. Os autores românticos nutriram uma visão bastante idealizada da Idade Média. No século XX, os estudos sobre a Idade Média sofreram uma grande revisão, assim como a historiografia em geral. As novas concepções sobre a prática histórica trazidas pela Escola dos Annales contribuíram de maneira significativa para a história medieval. Atualmente, a tendência nos estudos sobre a Idade Média é a de tentar compreendê-la por ela mesma, levando em consideração que as diversas concepções sobre esse período histórico – inclusive a contemporânea – resultam de questões postas pelo momento em que vivemos (AMARAL, 2012, p. 6). Reflita O que vem a sua mente quando você se depara com a expressão “Idade Média”? Provavelmente um passado distante marcado pela presença de admiráveis castelos, donzelas, trovadores, cavaleiros e de inqui- sidores implacáveis. Em alguns momentos, também podemos ver o termo “Idade Média” ou o seu correspondente “medieval” serem empregados de forma bastante negativa. Não raro eles são usados em nosso cotidiano para designar situações de intolerância, atraso, penúria e brutalidade. Como essas imagens que povoam o nosso imaginário são alimentadas ainda hoje? Mas quais são as características principais dessa temporalidade que ficou conhecida como Idade Média? Se pensarmos no ocidente medieval cristão, a primeira coisa que precisa ser dita é que a Idade Média foi o resultado da confluência de três fatores fundamentais: a ruína do mundo clássico antigo, a barbarização do espaço europeu e o advento do cristianismo. Essa conflu- ência se inicia ainda durante o Império Romano e se torna determinante a partir do século V. Portanto, não foi um processo de mudança histórica abrupta. A passagem de uma temporalidade para a outra foi marcada por permanências de valores culturais, principalmente gregos, e rupturas no plano da civilização ou das infraestruturas materiais. Assim, as características fundamentais do ocidente medieval cristão decorrem do processo da sua gênese e compreendem-se a partir dos três fatores que a determinaram. Vamos começar pela medievalização do clássico: o legado clássico greco-romano é submetido ao espírito próprio da tempo- ralidade. O latim é mantido como língua; as escolas agora estão ligadas às dioceses e aos mosteiros, ao clero e aos monges e os seus programas orien- tam-se para o estudo da teologia, da liturgia e da pastoral; as ciências adqui- ridas e o pensamento em geral são igualmente aproveitados em função da 11 compreensão da fé; mantém-se o modelo administrativo imperial-romano é utilizado pela igreja (dioceses, hierarquia governante, títulos). Pela decisiva influência do cristianismo, o homem tende a viver voltado para as coisas do espírito, o que refletiu, em grande medida, na filosofia do período. A forte influência do cristianismodetermina também o sentido teocêntrico da civilização e da cultura medievais: Deus será, aí, o centro de convergência e o supremo referencial da vida. A teologia ocupa o topo do saber, se considera a rainha das ciências, à qual todas as demais estão subor- dinadas e em função da qual existem e funcionam. Além disso, o homem possui uma visão tendencialmente fideísta do mundo e da vida – despre- zando a razão, preconiza a superioridade da fé no conhecimento das verdades inatingíveis. Como consequência, a filosofia tem dificuldade em ser afirmar como saber autônomo em relação à ciência da fé (a teologia). A Idade Média ocidental cristã vive a tensão entre o humano e o divino, entre o pecado e a graça, ou na famosa metáfora agostiniana, entre a cidade terrestre e a cidade celeste. Nesse sentido, vive o extraordinário florescimento dos santos. O reflexo disso na filosofia é o seu pouco apreço como mera curiosidade intelectual e na sua frequente tensão para a mística. Ademais, a cristandade – espécie de grande comunidade político-religiosa, formada pelo conjunto das nações cristãs – tomou o lugar do Império Romano do Ocidente. A profissão de uma mesma fé e a submissão à suprema autoridade de um chefe comum, o papa, podem ser considerados os dois fatores essen- ciais de coesão e unidade da cristandade. Contudo, convém ressaltar que, tal como recorda o historiador da cultura e da educação Henri Iréneé Marrou (1977), existem várias Idades Médias: a ocidental latina, a bizantina, a muçulmana e a judaica. E é no fluxo de três tradições (a grega, a hebraica e a romana) que a história da Idade Média no ocidente é nutrida. Da tradição grega vem o pensamento na forma da filosofia; da hebraica, a fé judaico-cristã e a Bíblia; da romana, as formas de ordenamento do poder, a atitude pragmática em face do real e a sua corres- pondente metafísica. Toda a Idade Média cristã, latina e bizantina, é romana. Nesse sentido, afirma Alain de Libera (2004, p. 11-12): A Idade Média – era intermediária entre a Antiguidade e os tempos modernos – é, segundo diz, o período compreen- dido entre a queda do Império Romano do Ocidente (476) e a tomada de Constantinopla pelos turcos (1453). Dois eventos políticos circunscrevem esses dez séculos. A própria natureza desses acontecimentos mostra que a compreensão tradicional do período medieval está centrada, inconscien- 12 temente, na romanidade. [...] Embora a tomada de Constan- tinopla marque o fim da Idade Média, portanto, da Idade Média ocidental, a história do Império Romano do Oriente não faz parte da história ocidental. No fundo, a visão de Idade Média confunde-se com o que é chamado de “Ocidente cristão”, ela está nele centrada, e o que não é, simultane- amente ocidental e cristão é posto à margem, considerado apêndice exótico, sem legitimidade própria. Portanto, para Alain de Libera (2004), na visão tradicional da história, a Idade Média é confundida com o ocidente cristão e nele é centrada. Nessa perspectiva, o que não é cristão e ocidental é posto à margem, não tem legitimidade própria. Vejamos o caso dos bizantinos: são cristãos, mas não ocidentais; e o caso dos judeus e muçulmanos: ainda morando no ocidente, não eram cristãos. Na dupla oposição ocidente-oriente, a “Idade Média” é confiscada em proveito de um só grupo: os ocidentais cristãos ou cristãos ocidentais” (LIBERA, 2004, p. 12). A propósito da existência de uma filosofia medieval Se a Idade Média é uma invenção, então também seria a filosofia medieval? A filosofia medieval pode ser distinguida de uma teologia revelada, filosofi- camente equipada? Essas questões são geralmente levantadas por filósofos e historiadores da filosofia e merecem a nossa atenção. A filosofia medieval enquanto objeto de estudo é algo inventado muito recentemente. Pelo menos é o que parece. Aliás, durante muito tempo se duvidou que houvesse mesmo uma filosofia medieval, tanto entre os filósofos quanto entre os historiadores da filosofia. Quais são as razões para isso? Pois bem, é certo que elas são encontradas na íntima relação entre filosofia e teologia: “estudiosos discutem para saber se de fato houve filosofia nesse período, ou se tudo o que se fez foi teologia. Poucos eram os autores cristãos que se julgavam filósofos. Por várias razões, eles preferiam ser denominados teólogos” (STORCK, 2003, p. 10). Exemplificando A título de exemplificação, na primeira metade do século XX, o filósofo inglês Bertrand Russell afirmou que não há filosofia medieval e que tudo na Idade Média é teologia. Nessa mesma direção, o filósofo alemão Martin Heidegger viu no pensamento medieval o encontro entre o aristotelismo e o modo de representação oriundo do judeu-cristia- 13 nismo. Nesse mesmo período, o historiador Paul Vignaux publicou um livro com o título O pensamento na Idade Média (1938) e somente 20 anos depois o rebatizou como A filosofia na Idade Média (LIBERA, 1999). Em 1922, o destacado historiador da filosofia medieval Étienne Gilson publicou a primeira versão do seu La Philosophie au Moyen Âge (A Filosofia na Idade Média), evitando o uso do termo filosofia medieval. Surpreendentemente, essa obra permanece intempestiva, ainda que o conhe- cimento atual de filosofia medieval seja muito maior do que era possível na primeira metade do século XX. Isto porque, entre a respeitável massa de documentos ainda inéditos, foi descoberto um número significativo de obras, com autoria e datação determinados, além de velhas edições refeitas e vastas edições críticas em como comentários em grande escala (ESTEVÃO, 2011). O mesmo Etienne Gilson reconheceu a existência de uma filosofia medieval ao confessar no prefácio da obra L’Esprit de la philosophie médiévale (O espírito da filosofia medieval), publicada pela primeira vez em 1932, que descobriu que não só existe uma filosofia medieval como ela é uma filosofia cristã por excelência. Ainda assim, reconhece que não se poderia afirmar que não houve, na Idade Média, outra filosofia que não a cristã. Ainda em fins do século XX, Alain de Libera, historiador da filosofia francesa, publicou uma obra intitulada Pensar na Idade Média (1991), jogando com o primeiro título de Paul Vignaux, mas trocando o substantivo pelo verbo e enfocando em como nós concebemos o pensamento medieval (ESTEVÃO, 2011). A propósito de Alain de Libera, há pelo menos 20 anos ele estuda diferentes formas de filosofia praticadas na Idade Média e seu interesse não é apologético-religioso, como muitas vezes ocorre com estudiosos do pensamento medieval. É dele a citação a seguir e que representa a problemá- tica até aqui tratada: Aprisionada na rede complexa e paralisante de tradi- ções historiográficas multisseculares, objeto de conflitos, projetos e dissociações impostas aos fatos por paixões contraditórias, a filosofia medieval nunca se libertou total- mente das imagens e dos preconceitos cultivados tanto por partidários como por seus adversários. (LIBERA, 1990, p. 7) Para Alain de Libera (1990), os mil anos de pensamento, reflexão, inova- ções e trabalho da temporalidade que ficou conhecida como Idade Média ficaram adormecidos no intervalo entre a Antiguidade e a Idade Média. 14 Portanto, caracterizariam uma longa transição ora invocada como “a idade ideal do magistério intelectual da igreja”, ora como rebaixada como a “época infeliz de um longo e laborioso sacrifício do pensamento”, ora adornada “com os faustos equívocos de uma clareza para sempre perdida” e ora perse- guida e denunciada como “a manifestação mais evidente do ‘obscurantismo’” (LIBERA, 1990, p. 7). E de onde provém essa depreciação da filosofia medieval? Essa é uma questão historiográfica que remonta ao Humanismo. Alain de Libera (1991) ressalta como a historiografia tradicional interiorizou a visão renascentista acerca desse aspecto da realidade social medieval. A visão negativa e pejora- tiva acerca da Idade Média foi construída a partir do olhar dos renascentistas,que enxergavam nessa temporalidade um longo período de adormecimento do conhecimento dos antigos gregos e que foi resgatado por eles na transição para a modernidade. Em contraposição a isso, Libera (1990; 1991) defende o lugar da Idade Média na filosofia, não como a manutenção do antigo ou o anúncio do novo tempo, mas como temporalidade repleta de movimentos de ideias não disso- ciadas da organização da vida intelectual. Afirma que “os estudos de história da filosofia medieval emanciparam-se progressivamente dessas tutelas narra- tivas”, dentre as quais a “retomada não crítica da distinção entre razão e fé, e em sua repartição institucional, sem levar em conta a pluralidade das formas do racional e da interpenetração dos domínios” (LIBERA, 1991, p. 144). Mas, afinal, o que se entende por filosofia medieval? Como o próprio nome indica, filosofia medieval é o conjunto de formas de pensamento filosófico que se desenvolveu na Europa durante a Idade Média (entre os séculos V e XV). Se levarmos em consideração que a Idade Média tem início (pelos marcos temporais tradicionais) no século V, então a chamada Patrística, reflexão filosófica dos primeiros padres da igreja, não estaria incluída nessa expressão. No entanto, praticamente todos os manuais de história da filosofia medieval, a Patrística está presente e nesse livro não será diferente. Feitas essas considerações iniciais, é necessário deixar claro que a filosofia produzida na Idade Média não é apenas uma filosofia cristã, tal como autores como Etienne Gilson (2006) nos fizeram acreditar. E Alain de Libera ressalta muito bem isso: A história da filosofia medieval é escrita, em geral, do ponto de vista do cristianismo ocidental. Este gesto não é isento de consequências: ele fixa os objetos, os problemas, 15 os campos de investigação, avalia, distribui, poda, reparte segundo suas perspectivas, interesses, tradições, impõe seus esquecimentos, imprimi suas diretrizes e direções. (LIBERA, 2004, p. 7) A filosofia medieval, portanto, deve ser analisada como o produto das relações intermitentes entre ocidente e oriente. Não podemos nos esquecer que o pensamento árabe e judaico é tão profundo quanto o cristão. E “essa simples constatação implica não apenas que conside- remos a origem e o desenvolvimento de cada uma dessas formas, mas também que possamos identificar as possíveis influências e fontes comuns” (STORCK, 2003, p. 8). Ademais, convém destacar que a filosofia medieval tem origem na filosofia grega. Santo Agostinho, filósofo da Patrística, se utilizou de categorias do pensamento de Platão para fundamentar os dogmas cristãos na virada da Antiguidade para o medievo. Depois, os sírios transmitiram a mesma filosofia grega aos árabes e estes em boa medida aos judeus. Mais tarde, “os cristãos novamente a recuperaram, assimilando teses árabes e judaicas, e buscando mais uma vez as fontes gregas. Os especialistas designam esse movimento de transmissão de translatio studiorum, isto é, o deslocamento dos saberes” (STORCK, 2003, p. 8-9). No que se refere às relações entre filosofia e teologia no medievo, apesar de os pensadores cristãos refutarem a designação de filósofos – já que para eles filósofos eram pagãos, como Aristóteles ou Platão, ou infiéis, como Avicena e Averróis – eles tinham uma ideia bem clara do que era filosofia, entendendo-a não como uma disciplina específica, mas como o conjunto das disciplinas científicas. Desse modo, compreendiam a sua estrutura e “participavam de polêmicas sobres os limites e as pretensões da filosofia. Considerando esse fato, podemos investigar o que os medievais pensavam acerca da filosofia, mesmo se eles, e principalmente os cristãos, não se reconhecessem como filósofos” (STORCK, 2003, p. 9). Para além disso, “se entendermos por ‘filosofia’ a prática da argumentação, os teólogos medievais acabaram por filosofar tanto ou até mais que os filósofos de ‘ofício’” (LIBERA, 1991, p. 146), o fato é que a oposição entre a razão dos filósofos e a fé dos teólogos é mesmo anterior à Idade Média. Na Antiguidade Tardia, houve o choque efetivo de uma filosofia grega ainda viva e a teologia dos padres da igreja, em fase de conquista. 16 Assimile O conceito de Antiguidade Tardia foi cunhado pelos historiadores para designar o período de translatio entre a Antiguidade Clássica e a Idade Média, momento em que a sociedade medieval ainda não estava formada e a sociedade antiga já não mais existia. As interpretações historiográficas ora enfocam as rupturas, ora as continuidades, e estão diretamente relacionadas com a abordagem teórico-metodológica e com concepções do próprio historiador. Para entender mais sobre essas discussões, faça a leitura do seguinte texto: AMARAL, R. A Antiguidade Tardia nas discussões historiográficas acerca dos períodos de translatio. Alétheia – Revista de estudos sobre Antigui- dade e Medievo, p. 1-08, jan./dez. 2008. Convém afirmar, também, que a filosofia medieval possui formas e modos de expressão filosófica que são particulares do período e que seguiam normas mais ou menos precisas e expressavam uma certa ideia de rigor e de método filosófico. Nesse sentido, a filosofia medieval é compreendida como a configuração de um modelo de diálogo filosófico, imbuído de um novo método, sobretudo porque representa a acolhida do pensamento antigo, greco-romano, com os dados da revelação judaico-cristã. Trata-se de um sistema que busca a compreensão da verdade que é Deus. Este modelo de pensamento trouxe um novo conceito de ciência em relação aos dados da fé e sua vinculação aos norteamentos da razão natural, dos mitos que transitavam pelas comunidades ocidentais primitivas em relação a este mesmo vínculo. Pelo fato de estar na história e ter uma história, a filosofia costuma ser apresentada em grandes períodos que acompanham, às vezes de maneira mais próxima, às vezes de maneira mais distante, os períodos em que os historiadores dividem a história da sociedade ocidental. Não que esses momentos representem, de fato, toda a filosofia produzida na Idade Média. No entanto, serve de referencial para pensarmos as influências da filosofia grega e do pensamento dos judeus e dos muçulmanos no pensamento filosó- fico ocidental. Devemos, contudo, ressaltar que alguns historiadores consi- deram como medieval apenas a filosofia escolástica. A seguir, uma divisão ainda muito divulgada hodiernamente: 1. Filosofia Patrística, com três períodos: I. Patrística Incipiente (sécs. I-III); II. Apogeu da Patrística (sécs. IV-V); III. Patrística Tardia (sécs. VI-VIII). 17 2. Pré-escolástica (sécs. IX-X). 3. Filosofia escolástica, com três períodos: I. Escolástica Incipiente (sécs. XI-XII); II. Apogeu da Escolástica (séc. XIII); III. Decadência Escolástica (sécs. XIV-XV). Após a compreensão do contexto histórico em que se desenvolveu a filosofia medieval, a defesa de sua existência e a sua caracterização, temos condições de avançar nas discussões acerca das suas peculiaridades, enten- dendo desde a ação dos chamados padres apologistas, passando pela Patrística e Santo Agostinho, pela gênese da escolástica, até chegar na crise desta e na transição para o pensamento filosófico moderno. Sem medo de errar A situação-problema que abre esta seção nos leva a pensar a existência de uma filosofia medieval e suas características. No cenário apresentado, um grupo de pessoas que participa de um Ciclo de Palestras sobre a Filosofia Medieval relembra o famoso jogo de futebol filosófico (The Philosophers’ Football Match) encenado no filme Monty Python ao Vivo no Hollywood Bowl, de 1982. Nesse jogo, temos um time formado por filósofos gregos e outro time formado por filósofos alemães. A questão levantada refere-se ao fato de Santo Agostinho e Santo Tomás de Aquino serem os bandeirinhas do jogo. Ora, não são considerados filósofos? Melhor: houve filosofia na Idade Média? Não é ela a época das trevas? Não lhe faltaram as luzes do pensar ea claridade da razão? Como então, falar de filosofia na Idade Média? Para responder a essas perguntas, precisamos, primeiramente, entender que a caracterização do medievo como idade das trevas, do obscurantismo, aconteceu a posteriori, inclusive a nomenclatura “Tempo Médio” foi dada pelos renascen- tistas, que viam essa temporalidade como um longo intervalo entre a Antiguidade e a Modernidade. Essa visão negativa foi perpetuada pelos pensadores dos séculos seguintes e se concretizou com os iluministas do século XVIII. Aliás, a própria ideia de um período medieval como componente de uma história universal é datada do século XVII, quando Christoph Cellarius cunhou o termo “Idade Média”. Essa visão negativa a Idade Média repercutiu na história da filosofia, principalmente pelo fato de a igreja cristã ter sido a instituição mais poderosa do período medieval. Nesse sentido, o pensamento filosófico na Idade Média é confundido com a própria teologia, já que a justificação dos dogmas cristãos e da fé subjugou a razão humana em diversos momentos. Por isso mesmo, 18 muito filósofos e historiadores da filosofia desconfiavam da existência de uma filosofia medieval e afirmavam que na Idade Média tudo é teologia. O fato é que a filosofia medieval enquanto objeto de estudo é algo recente e tem sido defendida por pesquisadores como Alain de Libera (1999), que enxerga o lugar dela na história da filosofia. Esse período é rico em movimentos de ideias filosóficas que deve ser compreendida à luz das carac- terísticas da sociedade de então. Podemos nomear esses movimentos, tais como Patrística e escolástica, mas não podemos nos esquecer que a filosofia medieval não é apenas uma filosofia cristã, dada a existência e a influência dos judeus e dos muçulmanos nesses movimentos e na construção do pensa- mento filosófico ocidental tal como nós estudamos. Faça valer a pena 1. “Exaltados aqui por evocar a idade ideal do magistério intelectual da igreja, rebaixados ali por assinalar a época infeliz de um longo e laborioso sacrifício do pensamento, adornados, segundo alguns, com os faustos equívocos de uma clareza para sempre perdida, perseguidos e denunciados por outros como a manifestação mais evidente das trevas do ‘obscurantismo’, mil anos de pensa- mento, de reflexão, de inovações e de trabalho dormem no silencioso inter- regno que separa a Antiguidade da improvável configuração formada pelo Renascimento, a Reforma e a época dita ‘clássica’.” (LIBERA, 1990, p. 7) Considerando as informações apresentadas, analise as afirmativas a seguir: I. Os dez séculos que compõem a Idade Média caracterizam um longo parênteses na história da filosofia ocidental. II. Devido à influência da igreja cristã em todos os âmbitos da vida em sociedade, inclusive nas formas de pensar, na Idade Média não houve filosofia e sim teologia. III. A Idade Média é uma temporalidade repleta de movimentos de ideias filosóficas, não dissociadas da organização da vida intelectual. Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em: a. I, apenas. b. II, apenas. c. III, apenas. d. I e II, apenas. e. II e III, apenas. 19 2. “Vista da Índia ou China, nossa civilização ocidental aparece como uma subsidiária da civilização grega [...]. Mas a transição da Grécia clássica para a Europa moderna não foi alcançada por filiação direta: houve, entre ambos, lugar para mediações; aqueles que representam o Renascimento humanista e, antes disso, cristianismo medieval são bem conhecidos por todos.” (MARROU, 1977, p. 8) Com base na leitura da citação, podemos concluir que: a. A Idade Média não deixou seu legado para civilização ocidental, já que nosso conhecimento é subsidiário do grego. b. Na Idade Média, o cristianismo foi reinante e que a produção de conhecimento ficou estagnada. c. A transição da antiguidade para a modernidade se deu de maneira obscura, pela existência do medievo como idade das trevas. d. Os gregos e o modernos foram os grandes responsáveis pela formação da civilização ocidental e que nada de importante existiu entre eles. e. Apesar de parecer que a civilização ocidental é subsidiária da grega, cujo conhecimento foi retomado pelos modernos, muita coisa aconteceu no medievo e isso não pode ser ignorado. 3. “[...] se alguém der uma olhada na prateleira de filosofia numa livraria, certamente vai encontrar algum volume com o título ‘filosofia medieval’. Tudo isso parece familiar e sem problemas. Nem desconfiamos que a expressão ‘filosofia medieval’ esconde uma quantidade de problemas. Comecemos, portanto, perguntando se houve mesmo uma idade média e se houve mesmo uma filosofia nessa tal idade média.” (NASCIMENTO, 1992, p. 9) Acerca da Idade Média e da filosofia medieval, classifique as afirmativas a seguir em (V) verdadeiras ou (F) falsas. ( ) Tanto a periodização da história ocidental em antiga, medieval e moderna como a interpretação negativa do período medieval são resultados de inter- pretações do período contemporâneo. ( ) Na modernidade, a expressão “Tempo Médio”, de cunho pejorativo, foi empregada para denominar o intervalo entre a antiguidade e a modernidade. Tal expressão foi substituída por “Idade Média” no século XVII e a visão negativa do período foi reforçada no século XVIII pelos iluministas. 20 ( ) As razões para a desconfiança da existência de uma filosofia medieval encontram-se na íntima relação desta com a teologia. ( ) Ainda hoje, é consenso entre os filósofos e historiadores da filosofia que na Idade Média, a fé predominava sobre a razão e que é complicado falar em pensamento filosófico nesse período. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta de classificação, de cima para baixo. a. V – V – F – F. b. F – F – V – F. c. F – V – V – F. d. V – F – V – F. e. F – F – F – V. 21 Seção 2 O cristianismo e a filosofia Diálogo aberto Agora que você já compreendeu as discussões historiográficas acerca da existência da filosofia medieval, bem como o contexto histórico em que ela emergiu e as suas principais características, é o momento de entender outra polêmica: a existência uma filosofia cristã medieval, uma noção desta e suas características. Esse tema tem íntima relação com a nossa disciplina e suscita debates interessantes e relevantes para a sua compreensão. Vamos fazer isso por meio de outra situação-problema, que servirá de base para nossas reflexões. A pesquisadora Fabiane Taís foi contactada por uma revista científica para escrever um artigo sobre a filosofia medieval, com enfoque no pensa- mento dos filósofos cristãos. A premissa inicial é a de que na Idade Média a filosofia desenvolvida foi de caráter eminentemente cristão e que a sua influ- ência sobre o pensamento ocidental foi demasiadamente importante. Essa discussão, longe de ser ultrapassada, tem a sua pertinência ainda nos dias atuais em virtude das características de uma sociedade que se encontra, de certo modo, em crise com seus valores éticos e princípios morais. Como primeiro passo para a construção do artigo, Fabiane Taís fez um levantamento bibliográfico a fim de verificar o que os historiadores da filosofia debateram e debatem sobre essa temática. A partir da análise atenta da bibliografia levantada, constatou que há um consenso acerca da influ- ência da filosofia grega e helenística no cristianismo no período da Patrística e da escolástica. De fato, os pensadores cristãos utilizaram a filosofia para compreender as verdades reveladas e aceitas pela fé e para defendê-las dos seus adversários intelectuais. Para tanto, utilizaram e incorporaram catego- rias do pensamento de Platão e de Aristóteles, conciliando fé e razão. Entretanto, Fabiane Taís se deparou com questões importantes: a filosofia medieval foi afetada pelo contato com o cristianismo? Ou será que apenas o cristianismo foi afetado pelo contato com a filosofia? Para diversos autores, apenas a segunda pergunta é respondida de modo afirma- tivo.No entanto, o filósofo e historiador da filosofia Étienne Gilson procura demonstrar em seus escritos que a filosofia da Idade Média é uma filosofia cristã por excelência. Estaria Étienne Gilson correto em sua perspectiva? Seria a filosofia medieval uma filosofia cristã? Mas, afinal, o que podemos entender por filosofia cristã? 22 Não pode faltar O problema de uma filosofia cristã No prefácio da obra O espírito da filosofia medieval, Étienne Gilson (2006) esclarece que não apenas descobriu que há uma filosofia medieval, como também ela é uma filosofia cristã por excelência. Isso não implica em dizer que não houve outra filosofia que não a cristã naquele período, mas sim em “saber se a noção de filosofia cristã tem sentido e se a filosofia medieval, considerada em seus representantes mais conceituados, não seria a expressão histórica mais adequada” (GILSON, 2006, p. 2). E já conclui de antemão que o espírito da filosofia medieval é o espírito cristão que penetra na tradição grega, trabalhando-a por dentro e fazendo-a produzir uma visão do mundo especificamente cristã. Ao se debruçar sobre a problemática da filosofia cristã, Étienne Gilson (2006) afirma, de imediato, que o pensamento cristão medieval manteve estreitas relações com o pensamento judaico e com o pensamento muçulmano e que não seria adequado estudá-lo de maneira isolada. Esse não seria o problema, portanto, já que é puramente histórico e facilmente resolvido. O verdadeiro problema seria saber se houve filósofos cristãos na Idade Média, problema este que se colocaria de modo semelhante para os muçulmanos e judeus. De acordo Étienne Gilson (2006), caracterizar a existência ou a possi- bilidade de uma filosofia cristã se torna problemático e esbarra em alguns obstáculos. O primeiro deles é a crítica de historiadores da filosofia e filósofos que desacreditam a sua existência. Comecemos com os historiadores, que antes mesmo de discutir a existência ou possibilidade de uma filosofia cristã, afirmam os pensadores cristãos da Idade Média (e aqui a referência é feita aos escolásticos) deixaram para a posteridade apenas uma colcha de retalhos de doutrinas gregas (Platão e Aristóteles) mal tecida com a teologia. Entre os filósofos, aqueles de orientação racionalista afirmam que entre religião e filosofia existe uma diferença de essência que torna impossível a colaboração entre elas. Mesmo não estando de acordo acerca da essência da religião, afirmam que a razão não lhe pertence. E se a razão pertence à filosofia, ela é inconciliável com a irracionalidade da revelação. Portanto, não há que se falar em filosofia cristã (GILSON, 2006). Exemplificando Emile Bréhier (1876-1952) é um filósofo francês e historiador da filosofia que representa muito bem esse pensamento dos racionalistas. Na sua 23 obra Histoire de la Philosophie, afirma o seguinte: “esperamos, pois, mostrar, neste capítulo e nos seguintes, que o desenvolvimento do pensamento filosófico não foi influenciado demasiadamente pelo advento do cristianismo, e para resumir nosso pensamento em uma palavra: não há filosofia cristã” (BRÉHIER, 1977, p. 207-208). Emile Bréhier (1977) teorizou sobre a impossibilidade de haver uma ciência com influências deterministas externas, como é o caso da fé, que aceita verdades reveladas de maneira extrínseca ao homem. Por isso mesmo, não poderia existir uma filosofia cristã e uma ciência teológica, já que a fé não tem condições de fornecer elementos essenciais para uma reflexão científica. Ademais, desacredita de qualquer contribuição medieval ao pensamento racional, devido à forte presença do elemento religioso (SANTOS, 2019). Nesse mesmo sentido, entre os filósofos neoescolásticos, alguns admitem as premissas da argumentação racionalista e até aceitam a sua conclusão, apesar de jamais negarem a relação entre filosofia e religião. Aceitam que Tomás de Aquino fundou uma filosofia cristã, mas seria ele o único, já que sua filosofia se constituiu em um plano puramente racional? Assim, “é muito mais uma discordância sobre os fatos que os separa dos racionalistas do que uma discor- dância sobre os princípios” (GILSON, 2006, p. 8). Em resumo, se para os racio- nalistas, a filosofia está no topo das ciências e se identifica com a sabedoria, para os neoescolásticos, a filosofia é subalterna à teologia, ainda que alguns pensem que a sua natureza é idêntica à filosofia concebida pelos racionalistas. Assimile Neoescolástica é a designação dada ao movimento filosófico e teoló- gico que teve início no século XIX e que procurou revitalizar a escolástica medieval. O impulso inicial foi dado pela encíclica Aeterni Patris (1879), do papa Leão XIII, que propôs a filosofia de Tomás de Aquino como resposta contra os desafios lançados contra a doutrina católica pelas escolas de pensamento modernas. De início, ficou restrita aos centros e instituições de ensino ligados à igreja católica na Itália, Espanha e França e, somente no final do século XIX, conseguiu se desvencilhar das amarras eclesiás- ticas, com a ampliação de suas pesquisas para além desses países. Entretanto, ainda que historiadores, filósofos racionalistas e filósofos neoes- colásticos neguem a existência ou mesmo a possiblidade de uma filosofia cristã na Idade Média, o fato é que nenhum deles recusa o fato de que houve uma 24 relação muito próxima entre o pensamento filosófico e a fé cristã. A questão que surge imediatamente é saber como essa relação afetou a ambos. O segundo obstáculo para caracterizar a existência ou a possibilidade de uma filosofia cristã é a concepção de renomados historiadores da filosofia de que o cristianismo primitivo se baseia no caráter exclusivamente prático, sem qualquer aspecto especulativo. Étienne Gilson (2006) reconhece que o cristianismo primitivo não é uma filosofia, mas não se pode afirmar que não há nele nenhum elemento especulativo, sob pena de ir além do que a análise histórica permite. Nesse sentido, argumenta que, ainda que a Bíblia não seja um livro filosófico, seria errôneo afirmar que ela não possa ter influenciado o desenvolvimento da filosofia e essa possibilidade se encontra nos elementos especulativos contidos nas origens da vida cristã: O terceiro obstáculo para caracterizar a existência ou a possibilidade de uma filosofia cristã é a aparente independência filosófica do pensamento moderno em relação à filosofia medieval. Contrário a esse argumento, Étienne Gilson (2006) advoga a favor da influência do pensamento cristão na filosofia medieval que pode ser percebida, inclusive, nos filósofos modernos. Ao argumentar contra todos esses obstáculos apresentados, Étienne Gilson (2006) procura demonstrar a plausibilidade de uma filosofia da Idade Média como uma filosofia cristã. Isto não porque considera que ela foi construída fielmente sobre bases bíblicas, mas por ter sido radicalmente influenciada pelo cristianismo em todos os seus aspectos. Ainda que a filosofia cristã seja pautada nos elementos da fé, ela motiva e gera a razão na busca por respostas e reflexões de seus elementos. Mas você pode se perguntar agora: Étienne Gilson (2006) foi o único a argumentar em favor da existência de uma filosofia cristã? Pois bem, a resposta é: não! É que ele talvez seja o mais expressivo dentre os historia- dores da filosofia e que conhecemos por aqui. No entanto, outros filósofos e historiadores da filosofia corroboram com essa ideia. Por exemplo, Jacques Maritain (1882-1973), filósofo francês, não descarta o argumento histórico desenvolvido por Gilson (2006), mas vai além deste ao afirmar que a razão é um dom de Deus para a humanidade e que a filosofia, ainda que nutrida pela revelação, possui o exercício da razão e, portanto, é autônoma em relação à teologia no período medieval (SANTOS, 2019). Anterior a Gilson e Maritan, August Heinrich Ritter (1791-1869), filósofo e historiador alemão da filosofia que, em meados do século XIX, modificou radicalmente o quadrohistoriográfico relativo à formação do pensamento moderno, pugnou pela existência de uma filosofia cristã, argumento que o cristianismo exerceu influência importante para a filosofia, apresentando novos problemas e exigindo dela investigações aprofundadas. Ademais: 25 Chamamos nossa filosofia de “filosofia cristã” pela única razão de que o acompanhamento dos desenvolvimentos que ela abraça deriva essencialmente de movimentos históricos que a expansão do espírito cristão aumentou na humanidade. (RITTER, 1843, p. 30-32) Enfim, Gilson, Maritain e Ritter, no decorrer das obras citadas, teorizaram em defesa da existência de uma genuína filosofia cristã na Idade Média, ainda que entre eles existissem diferenças na forma como esboçaram essa defesa. Acreditando na influência positiva da fé cristã na história da filosofia, enten- deram que o legado da antiguidade e o nascimento da modernidade foram enriquecidos com a filosofia cristã surgida na transição para o medievo. Assimile Em 21 de março de 1931, Étienne Gilson, Jacques Maritain e Heinrich Ritter se envolveram num debate sobre a existência de uma filosofia cristã, promovido pela Société Française de Philosophie, em Paris. Defensores daquela, eles tiveram como adversários os filósofos modernos Emile Bréhier e Léon Brunschvicg. Foi uma discussão oriunda do “pensamento católico francês” (BORGHESI, 1999, p. 313). Naquele contexto, “[...] a Europa assiste à imposição de um totali- tarismo pagão e, paralelamente, à decadência daquela subjetivi- dade que deveria constituir a nova metafísica, edificada, em grande medida, pelo cristianismo” (BORGHESI, 1999, p. 314). Posteriormente, o debate saiu dos limites do pensamento intelectual francês envolveu outros interlocutores, dentro e fora da França. A noção de filosofia cristã Em outra obra de grande relevância, História da Filosofia Cristã (1991), Philotheus Boehner e Étienne Gilson denominam de filosofia cristã o conjunto de sistemas filosóficos surgidos desde os tempos apostólicos até os nossos dias. Esses sistemas não são homogêneos e, portanto, possuem divergências e contrastes, por vezes, notáveis, mas se constituem em um todo fundamen- talmente unitário. Não justificando o conceito propriamente dito de filosofia cristã, explicam que o sentido dado por eles é exclusivamente histórico e limitado especificamente com o fim de demarcar o mais exatamente possível o fato histórico por ela representado. Sendo assim, apresentam, ainda que provisoriamente, a seguinte definição: 26 É cristã toda filosofia que, criada por cristãos convictos, distingue entre os domínios da ciência e da fé, demonstra suas proposições com razões naturais, e não obstante vê na revelação cristã um auxílio valioso, e até certo ponto mesmo moralmente necessário para a razão. (BOEHNER; GILSON, 1991, p. 9). Ainda o cristianismo não seja uma religião filosófica, ele encontra sua satisfação na própria reflexão filosófica. Partindo de uma série de fatos históricos, o cristianismo apresenta uma mensagem histórica de redenção. Acompanhado de todas as exigências morais, ascéticas e religiosas, ele não pode ser tido como uma filosofia, porque é perma- nentemente uma religião. Isto porque a filosofia tem seu ponto de partida no homem e apela para o seu intelecto, principalmente, tratando de noções e problemas puramente naturais com o objetivo de fornecer uma interpretação racional do mundo, da natureza, da sociedade e do homem (BOEHNER; GILSON, 1991). No entanto, ainda que não seja uma filosofia, o cristianismo deu origem a um movimento filosófico de grandes proporções. A razão, orientada pela fé, seria o ponto de partida para o aprofundamento racional das verdades reveladas. Estas verdades religiosas possuem em germe e em estado latente muitas doutrinas filosóficas que, ao serem trazidas à luz pelo esforço especulativo de gerações sucessivas, demons- tram-se passíveis de desenvolvimento filosófico extremamente fecundo (BOEHNER; GILSON, 1991). Vamos agora entender como se deu a aproximação do cristianismo com a filosofia. Para tanto, é necessário retornar ao contexto de crise e queda do Império Romano do Ocidente, momento em que a experiência religiosa desenvolvida pelos cristãos modificou o entendimento do homem e da socie- dade acerca da religião. Essa modificação, em grande medida, atingiu tanto o campo das religiões de uma maneira geral quanto os grupos sociais sem religião definida (SANTOS, 2019). Para Carlos Palácio (1991), filosofia e cristianismo não são duas grandezas homogêneas. Enquanto a filosofia se situa na inteligibilidade do real, o cristia- nismo tem seu ponto de partida num acontecimento real, a vida e a morte de Jesus. A tensão entre a experiência e razão (logos) atravessa toda a história do próprio cristianismo. Mas a pergunta a ser feita é: por que o cristianismo manifestou desde a sua origem essa irresistível atração pela razão? A reposta pode ser encontrada nos meandros da história: 27 A história das relações entre cristianismo e filosofia se confunde, em grande parte, com a história do próprio cristianismo. Foi ele, com efeito, o herdeiro indiscutível da “antiguidade tardia” (essa grande tradição cultural que foi a civilização greco-romana) e a matriz fecunda de uma nova cultura, dessa fantástica aventura histórica, religiosa e cultural que foi o ocidente cristão. Cultura cristã, inegavel- mente teológica nas suas raízes, mas misteriosa e parado- xalmente anticristã neste seu momento particularmente crítico e sombrio. Começo do fim ou prenuncio de outra cultura? (PALÁCIO, 1991, p. 508) É fato que o cristianismo, desde seu início, manteve relações com a filosofia pagã, marcada pela filosofia dos estoicos, dos cínicos e dos epicu- ristas. Por uma necessidade histórica e psicológica interna, o cristianismo tomou contato com a filosofia, tendo sido dominante nos primeiros séculos da era cristã, o que lhe exigiu uma tomada de posição. O cristianismo estava repleto de ideias suscetíveis de desenvolvimento e valorizadas pelo esforço especulativo sistemático, principalmente no sentido de confrontar posicio- namentos religiosos da filosofia pagã helenística. Sendo assim, o cristianismo assumiu uma postura crítica em relação a essa filosofia e, dotado de uma verdade dita absoluta, a da revelação, garantiu aos cristãos um critério seguro de julgamento em face das especulações gregas (BOEHNER; GILSON, 1991). É preciso frisar que os apóstolos São Paulo e São João utilizaram conceitos e termos próprios da filosofia pagã nos seus ensinamentos. Entre eles ainda não havia filosofia, até mesmo porque havia uma relação dúbia com essa filosofia, ora rejeitando-a com o horror próprio daquele contexto, ora aceitando-a e entendo-a como uma aliada. A partir disso, no século II, com os ataques feitos à fé cristã por alguns filósofos pagãos, surgiram os primeiros pensadores cristãos no Oriente e no Ocidente, os apologistas, elaborando obras e discursos calcados na razão instrumental e da fé, principalmente (SALES, 2008). Portanto, nos primeiros séculos da era cristã, a filosofia foi utilizada para fundamentar o discurso cristão. Santo Agostinho (354-430) talvez represente o ápice da conciliação entre cristianismo e filosofia, naquilo que convencio- nou-se chamar de nostra philosphia christiana (SALES, 2008). O objetivo central de Agostinho era demonstrar a revelação cristã como a verdadeira filosofia, o que nos permite concluir que ele entendeu a sua atividade como a de um filósofo. E, mais, “a postura teórica de Agostinho ganha expressão muito antes no seguinte dito: se Platão fosse vivo, racionalmente ele teria de dar razão ao cristianismo” (HORN, 2003, p. 229). 28 Isso nos leva à afirmação de Boehner e Gilson (1991) de que a tradição é o que norteia a filosofia cristã e que quase todos os pensadores cristãos levaram em consideração seus predecessores imediatos, procurando aprofundar ou melhorar suas obras e a eles reportando-se ouse sentindo devedores: “Justino, por exemplo, descobre os elementos cristãos na filosofia grega e muitos “escolásticos” do século XVIII se apoiam em Agostinho e nos padres da igreja. Em parte alguma se verifica ruptura completa com o passado” (BOEHNER; GILSON, 1991, p. 11). Boehner e Gilson (1991) descrevem as propriedades essenciais da filosofia cristã. Em primeiro lugar, uma filosofia cristã consta exclusivamente de proposições suscetíveis de demonstração natural. Ou seja, só podemos falar filosofia cristã quando a concordância às proposições por ela anunciadas se basear nas reflexões de ordem racional. Seu ponto de partida não são as verdades reveladas (inacessíveis à razão), mas o esforço de compressão e a percepção da ação de Deus. Em segundo lugar, uma filosofia cristã jamais irá de encontro às verdades de fé claramente formuladas pela igreja. Ou seja, uma filosofia cristã não tolera a contradição consciente à doutrina da igreja, caso contrário não será denominada de cristã essa filosofia. Portanto, a filosofia cristã “deve origi- nar-se sob a influência consciente da fé cristã. Mas esta influência não é de natureza sistemática, e sim psicológica” (BOEHNER; GILSON, 1991, p. 10). Sua manifestação ocorre, sobretudo, de quatro maneiras: a. A fé preserva a filosofia de muitos erros, dando à razão certos limites de caráter inviolável. b. A fé propõe certas metas ao conhecimento racional, cabendo à razão analisar e aprofundar as verdades reveladas, descobrir para elas um fundamento acessível ao saber natural com a finalidade de trans- formar as convicções religiosas em evidências racionais. c. A fé determina a atitude cognoscitiva do filósofo cristão, fornecendo uma concepção de mundo que lhe proporciona uma visão onicom- preensiva do mundo e da vida. d. A fé determina o sentido do labor filosófico, que assume a feição de verdadeira tarefa religiosa, colocando o pensador cristão a serviço da edificação da igreja. No que concerne às caraterísticas da filosofia cristã, Boehner e Gilson (1991) escrevem que ela tende a fazer a seleção dos seus problemas. Isto pode ser explicado a partir da sua finalidade, que consiste na elucidação da fé e, sendo assim, nem todos os problemas interessam igualmente. Nesse sentido, 29 três classes de problemas podem ser distinguidos: os de base, tais como o da existência da imortalidade da alma e o da liberdade; os imprescindíveis para toda a construção filosófica, tais como as questões de natureza lógica e epistemológica, as da divisão e natureza das ciências; os não essenciais, quase todos pertencentes à filosofia da natureza. Além disso, outra característica da filosofia cristã é que ela manifesta, quase sempre, tendência sistematizadora, aspirando a uma visão total da realidade. Para tanto, empenha-se mais em coordenar os problemas já aprofundados em um grande conjunto harmônico do que em aprofundar problemas isolados, compensando a sua falta de espírito criativo pelo vigor de sua visão em conjunto. Uma visão geral é proporcionada ao pensador cristão pela revelação e pela sistemática da fé (BOEHNER; GILSON, 1991). A fé em busca de entendimento (fides quaerens intellectum). É em torno desse princípio que toda a especulação medieval gravitou, incluindo a filosofia cristã. Da revelação, apenas algumas verdades acreditadas podem ser tornar verdades inteligíveis. E esse é o objeto da filosofia cristã: o corpo de verdades reveladas inteligíveis por meio da razão e com o sentido exata- mente definido por ela. Nas palavras de Étienne Gilson (2006, p. 42-43): “o conteúdo cia filosofia cristã é, portanto, o corpo das verdades racionais que foram descobertas, aprofundadas ou simplesmente salvaguardadas, graças à ajuda que a revelação deu à razão”. Reflita É na atmosfera religiosa que o homem medieval nasce, vive e morre e que sua inteligência pensante se move. Quando decide pensar racio- nalmente o mundo e a vida (portanto, filosofar), o homem medieval encontra os pressupostos no credo da sua fé. Seria, então pensar racio- nalmente, já que a fé não é, em si mesma, um pensamento pensado pelo homem, mas um pensamento revelado por Deus? O fato é que o homem medieval sentiu a nessessidade (própria na natureza humana) de pensar por si o mundo e a vida e, ao fazê-lo, não se propunha a encontrar a inteligibilidade ou o sentido ignorados (por não o eram), mas pensar por si o que já estava dado pela divina revelação. Munido dessas informações acerca da existência e das características da filosofia cristã, bem sobre a existência de uma filosofia medieval multi- facetada, você terá condições de refletir e analisar criticamente os demais conteúdos deste livro, principalmente a influência da Bíblia no pensamento ocidental e os movimentos filosóficos característicos da Idade Média. Avante! 30 Sem medo de errar A pesquisadora Fabiane Taís é contactada por uma revista para escrever um artigo sobre a filosofia medieval, com enfoque no pensamento dos filósofos cristãos. Em suas pesquisas, se deparou com um debate interessante: a filosofia medieval sido teria sido o que foi sem o contato com o cristia- nismo? Ao perceber que a maioria dos pesquisadores responde “sim” para essa pergunta, entendeu que há no senso comum uma ideia de que apenas o cristianismo foi influenciado pela filosofia, mas não o contrário. Mas há um autor em especial que defende veementemente a influência do cristianismo na filosofia bem como a existência de uma genuína filosofia cristã como essência da filosofia medieval: Étienne Gilson (2006). A grande questão é saber se esse autor está correto na sua perspectiva e, em caso afirmativo, quais seriam as características de uma filosofia cristã. Para resolver essa problemática, é necessário, primeiramente, entender os argumentos contrários à uma filosofia cristã. Em primeiro lugar, historia- dores e filósofos céticos em relação à filosofia na Idade Média afirmam que os pensadores cristãos se apoderaram das ideias dos filósofos clássicos (notada- mente Platão e Aristóteles) e de aplicá-las a seus dogmas cristãos, não contri- buindo em nada com as discussões filosóficas. Dentre estes, os racionalistas puros diferenciam essencialmente religião e filosofia, dizendo que a razão (pertencente à ordem da filosofia) tornaria impossível a colaboração entre elas. Além disso, os filósofos escolásticos entendem que a única filosofia cristã existente é a de Tomás de Aquino, justamente porque ele fez a conciliação entre fé e razão. Em segundo lugar, encontra-se a concepção de renomados historiadores da filosofia de que o cristianismo primitivo se baseia no caráter exclusivamente prático, sem qualquer aspecto especulativo e, portanto, sem espaço para a filosofia. Por fim, em terceiro lugar, a aparente independência filosófica do pensamento moderno em relação à filosofia medieval, como se tivesse acontecido um salto entre os gregos e os modernos. Étienne Gilson rebate todos os argumentos contrários à existência de uma filosofia cristã ao afirmar que a razão filosófica é essencial para a inteli- gibilidade humana das verdades relevadas por Deus. Portanto, não haveria incompatibilidade entre filosofia e cristianismo. Além disso, o cristianismo primitivo também possuía elementos especulativos, contidos nas origens da vida cristã. E mais, o pensamento moderno seria herdeiro do pensamento medieval em muitos aspectos, notadamente da escolástica. Ao caracterizar a filosofia cristã, Étienne Gilson (2006) elenca duas grandes propriedades: uma filosofia cristã consta exclusivamente de propo- sições suscetíveis de demonstração natural; uma filosofia cristã jamais irá de 31 encontro às verdades de fé claramente formuladas pela igreja. Além disso, elenca algumas características principais: a filosofia cristã é norteada pela tradição e seus pensadores sempre levam em consideração os seus predeces- sores imediatos; a filosofia cristã tende a selecionar seus problemas, já que nem tudo interessana defesa da fé; a filosofia cristã manifesta, quase sempre, tendência sistematizadora, aspirando a uma visão total da realidade. Faça valer a pena 1. “Na verdade, os trabalhos de Gilson foram influenciados por um debate mais amplo, ocorrido nos anos de 1930-40, em torno da possibilidade em geral de uma filosofia ‘cristã’. Buscava-se saber se, ao fazer filosofia, um cristão deveria respeitar certos elementos básicos (a existência de Deus, a existência de uma alma espiritual, a salvação do gênero humano, a centralidade de Cristo etc.). E, caso houvesse tais elementos, se isso não representaria um atentado contra a autonomia da razão filosófica.” (SAVIAN FILHO, 2010, p. 67) Sobre o conteúdo dos trabalhos de Étienne Gilson (2006) acerca da filosofia cristã medieval, analise as afirmativas a seguir: I. Para Étienne Gilson (2006), não somente há uma filosofia na Idade Média, como nela se encontra o ápice do que se poderia chamar de uma filosofia cristã. II. Étienne Gilson (2006) defende a presença positiva e sempre influente da fé cristã sobre a própria história da filosofia. III. Com suas obras, o objetivo de Étienne Gilson (2006) é propor que a filosofia medieval foi construída sobre fundamentos bíblicos. Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma em: a. I, apenas. b. II, apenas. c. III, apenas. d. I e II, apenas. e. II e III, apenas. 2. “Não há expressão que venha mais naturalmente ao pensamento de um historiador da filosofia medieval do que filosofia cristã; nenhuma, parece, que possa levantar menos dificuldades, portanto não há por que se espantar de 32 vê-la empregada com tanta frequência. Mas há poucas que, refletindo melhor, se revelam mais obscuras e incômodas de definir.” (GILSON, 2006, p. 5) Acerca da problemática que envolve a filosofia cristã, assinale a alter- nativa correta: a. Considerando a essência da filosofia e da religião, uma de caráter racional e a outra de caráter dogmático, não há que se falar em aproxi- mação entre elas. b. A impossibilidade de existência de uma filosofia cristã reside no fato de nem mesmo os pensadores cristãos se considerarem filósofos. c. Se a religião possui a teologia enquanto ciência para estudar a natureza de Deus, seus atributos e de suas relações com o homem e com o universo, isso por si só impediria a existência de uma filosofia cristã. d. Os racionalistas estão corretos ao afirmarem que a discordância entre a fé e a filosofia é um sinal certo de erro filosófico que impede a carac- terização de uma filosofia cristã. e. A filosofia medieval não teria sido o que foi sem a influência do cristianismo e isso permite caracterizar existência de uma genuína filosofia cristã na Idade Média. 3. “Das atividades culturais, na ordem da natureza, nenhuma entende tão de perto com os destinos da pessoa como a filosofia. Fruto da razão no exercício do seu mais nobre mister, apresenta-se como a sabedoria: explicação do universo e norma da vida. O homem é, por natureza, racional. Em face da multiplicidade das cousas e do mistério da consciência indaga porquês e investiga razões. [...] O cristianismo não se apresentou como uma filosofia, mas como uma salvação. [...] Será então que o cristianismo passará à margem da filosofia sem conhecê-la, nem influenciá-la? As duas sabedorias – a cristã e a humana – continuarão a desenvolver-se, uma ao lado da outra, sem influ- ências, como paralelas que se ignoram?” (FRANÇA, 1951, p. 148-149) Acerca das razões para essa problemática, analise as asserções e relação proposta entre elas: I. De início, entre o cristianismo nascente e a filosofia pagã a oposição foi radical. Na consciência dos primeiros discípulos do Evangelho vivia a forte impressão de uma incompatibilidade irredutível entre ambos. 33 PORQUE II. As relações históricas entre o cristianismo e o paganismo nos permitem constatar que os primeiros pensadores cristãos se valeram de conceitos e termos do pensamento grego e helenístico, mas entre eles ainda não havia filosofia. A respeito dessas asserções e da relação entre elas, assinale a alternativa correta: a. As asserções I e II são proposições verdadeiras e a II justifica a I. b. As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não justifica a I. c. A asserção I é uma proposição verdadeira e II, falsa. d. A asserção I é uma proposição falsa e II, verdadeira. e. As asserções I e II são proposições falsas. 34 Seção 3 A influência da Bíblia no pensamento ocidental Diálogo aberto Você já conhece as noções introdutórias acerca da Filosofia Medieval e da Filosofia Cristã e compreende as principais discussões acerca da existência ou da possibilidade de existência de uma e de outra. Nesse sentido, para você, já deve estar claro que a Idade Média é um período muito controverso na história ocidental e que o pensamento filosófico medieval é cercado de diversos aspectos religiosos, os quais, muitas vezes, levaram ao seu descré- dito. Ao centrarmos nossa atenção especialmente nas relações entre filosofia e cristianismo, somos levados, naturalmente, a analisar a influência da mensagem bíblica no pensamento filosófico medieval e que chegou até a atualidade. Esse, portanto, é o tema desta seção. Vamos problematizá-lo com outra situação-problema! Você atua em uma ONG cristã denominada Visão Mundial e foi incum- bido pelo presidente dela a organizar uma palestra aberta à comunidade, cujo tema deve ser relacionado aos dogmas cristãos na atualidade. Então, você entrou em contato com a pesquisadora e teóloga Bernadete de Lourdes e a convidou para proferir a referida palestra. De pronto, ela aceitou, enxergando na palestra uma ótima oportunidade para compartilhar os resultados da sua mais recente pesquisa relacionada à temática. Já na palestra, Bernadete de Lourdes iniciou com a seguinte problemática: vocês já pararam para pensar em todas as mudanças ocorridas nos últimos séculos em termos de produção de conhecimento? Ora, a ciência moderna, surgida entre os século XVII e XVIII, com Galileu Galilei, René Descartes, Isaac Newton, Nicolau Copérnico, Francis Bacon, entre outros pesquisadores (que também eram filósofos), procurou sistematicamente se afastar da influ- ência da religião cristã e dos estudos antigos em filosofia natural por enxer- garem uma excessiva dependência de especulações metafísicas. A palestrante afirmou que, naquele contexto de surgimento da ciência moderna, o enfoque passou a ser dado na experiência como verdadeira forma de produzir conhecimento – aí as origens do método experimental/empírico. Esses estudos científicos não provocaram transformações apenas na metodo- logia de produção do conhecimento mas também na visão do mundo. Uma nova visão científica emergiu em contraste àquela até então predominante, oriunda da mistura de elementos da filosofia antiga e da filosofia e religião 35 medievais. No centro dessa nova visão, o mundo físico como responsável pelos processos mecânicos que envolvem o movimento dos corpos. Continuando sua fala, Bernadete de Lourdes ressaltou que a ciência caminhou a largos passos, com progressos em diversas áreas, proporcio- nando ao ser humano avanços advindos do uso político-ideológico ou técnico dos seus conhecimentos. A crença no poder da ciência foi triunfante entre intelectuais e cientistas. O Positivismo como corrente teórica influen- ciou as ciências sociais e humanas. E Darwin, influenciado por todo esse movimento científico, cunhou a teoria da evolução das espécies, pondo em xeque a explicação religiosa da criação da natureza e do homem por Deus. Então, Bernadete lançou algumas perguntas para a plateia, incluindo você: com todas essas transformações na maneira de produzir conhecimento e enxergar o mundo, que são oriundas da ciência moderna, qual é o lugar da mensagem bíblica no pensamento ocidental? Será que ainda hoje as ideias inovadoras do Novo Testamento encontram seu lugar na nossa forma de conceber o mundo? O criacionismofoi de fato superado ou ainda encon- tramos resquícios dele entre nós? Quais são os conhecimentos suficientes para responder a essas questões levantadas por Bernadete de Lourdes? Com as discussões que serão travadas nesta seção, você terá condições de refletir acerca desses questionamentos e compreender como a mensagem bíblica perpassou a Idade Média e chegou até a contemporaneidade. Não pode faltar A Bíblia no contexto medieval Nas sociedades do ocidente medieval, herdeiras do mundo greco-ro- mano e optantes pelo cristianismo e sua forma romana, a escrita teve impor- tância significativa. Ainda que na Alta Idade Média (séculos V a X) a orali- dade tenha sido privilegiada em todos os atos cotidianos, principalmente nos da liturgia (apoiada em textos codificados), a escrita operava certa magia. É nesse contexto que se insere a história da Bíblia, que não é apenas a história de um livro ou de sua recepção, de sua leitura e de seus leitores, de suas funções e de seus usos, mas também das perseguições ao seu texto e de seus conte- údos pelos códigos sociais. A Bíblia alimentou e inspirou a maior parte das criações medievais, isto porque as Sagradas Escritas Cristãs foram reconhe- cidas como elemento superior da sociedade, representando a segurança contra o esquecimento e, portanto, a memória da lei (LOBRICHON, 2006). 36 Durante a Idade Média ocidental, sobre a Bíblia, se pronunciavam juramentos, compromissos de fé e promessas essenciais. Na cerimônia de vassalagem, por exemplo, ao receber as terras do suserano, o vassalo presta- va-lhe homenagem e jurava-lhe fidelidade enquanto punha as mãos na Bíblia. Os prelados (autoridades eclesiásticas), quando empossados, usam a Bíblia como horóscopo para fazer previsões sobre o seu governo. Certos guerreiros levavam uma Bíblia de alto valor para o combate para servir de escudo protetor e signo de eleição para seus guardiões. Portanto, a Bíblia era a autoridade principal no período medieval, a lei dos cristãos, um código ou norma intocável (LOBRICHON, 2006). A palavra “bíblia” advém do grego biblía e significa “livros”. É, na verdade, a coletânea de uma série de livros, com títulos e peculiaridades específicas. Há quem afirme que ela seria uma “coletânea de coletânea de livros”, já que alguns deles são precisamente a coletânea de outros. Ao todo, são 73 livros considerados inspirados, divididos em Antigo Testamento (46 livros) e Novo Testamento (27 livros). Os livros do Antigo Testamento foram redigidos entre, aproximada- mente, 1300 a.C. e 100 a.C., e os primeiros baseiam-se em uma tradição oral antiquíssima. Dividem-se em livros históricos, livros didáticos e livros profé- ticos. Os primeiros cinco livros históricos (Genesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio) são os livros da Lei ou Pentateuco. Os livros do Novo Testamento remontam todos ao século I d.C., centrando-se inteiramente na nova mensagem de Cristo, sendo composto pelos quatro Evangelhos, pelas Cartas de Paulo, pelas Cartas dos Apóstolos e pelo Apocalipse (REALE; ANTISERI, 2005). Os livros que compõem a Bíblia foram redigidos em três línguas: hebraico (maior parte do Antigo Testamento); aramaico, dialeto hebraico (uma pequena parte); e grego (alguns textos do Antigo Testamento e prati- camente todos do Novo Testamento). Das traduções realizadas, duas tiveram grande importância histórica. A primeira foi a tradução de todo o Antigo Testamento, feita do hebraico para o grego, que teve início em Alexandria, no século III a.C., e ficou conhecida como “Versão dos Setenta” (ou Septuaginta), pois setenta e dois rabinos (seis de cada uma das doze tribos) foram respon- sáveis pela tradução. A segunda, por sua vez, foi a tradução para o latim feita por São Jerônimo (entre os séculos IV e V d.C.), que ficou denominada de “Vulgata” e se impôs de modo mais estável, a ponto de ser adotada pela Igreja. Na Baixa Idade Média (séculos XI a XV), os redatores de inventários tratavam a Bíblia como um objeto presente em todo lugar e destinado a ser usado em bibliotecas de instituições eclesiásticas, igrejas, mosteiros, confra- rias, casas partículas, sobretudo, de clérigos, como também em casas de leigos, burgueses e camponeses, principalmente, após a diminuição da taxa de analfabetismo no final da Idade Média. Foi a partir do século IX que nas 37 bíblias começaram a se multiplicar os apoios à leitura e à interpretação, tais como os prólogos, a lista de cânones e as interpretações de nomes hebraicos, ainda que a eficácia desses instrumentos e a sua utilidade sejam questioná- veis. Mas, no século XIII, o ordenamento das partes da Bíblia foi estabili- zado e surgiram instrumentos mais práticos, tais como o moderno sistema de capítulos, que se impôs sobre as divisões anteriores, e o “índex”, desti- nado aos mestres do ensino bíblico e aos pregadores, que tinham a missão de selecionar um tema da Escritura para resumir as intenções da liturgia. Os eruditos passaram a se interessar em uniformizar o texto bíblico entre 1253 e 1280. A ideia era difundir um texto mais preciso, revisado, respondendo às exigências científicas da época (LOBRICHON, 2006). Importante nesse processo foi a tentativa de uniformização do texto bíblico no chamado Renascimento Carolíngio (séculos VIII e IX), ocorrido no reinado de Carlos Magno e caracterizado pelo florescimento artístico e literário, que resultou na conservação e cópia de manuscritos, bem como no emprego de modelos romanos na arquitetura, além da invenção da minús- cula carolíngia. A tarefa coube ao monge inglês Alcuíno de Iorque (735-804), que se baseou na versão latina feita por São Jerônimo, mas dela eliminando interpolações, revendo a tradução e corrigindo passagens. Além disso, o monge “reviu várias obras litúrgicas, preparando o fim da diversidade de ritos existente na Cristandade latina” (FRANCO JR., 2001, p. 148). Assimile O formato em livro da Bíblia foi invenção do século III, em substituição ao formato cilíndrico anterior, e isso foi resultado da necessidade de manuseio por parte dos membros da Igreja. Entretanto, esse novo formato guardava certas dificuldades práticas, já que ainda era uma obra pesada, contendo dois ou mais volumes. Nos séculos VI e VII, houve a necessidade de abastecer as novas igrejas com a Bíblia, e os ateliês italianos ficaram encarregados de recopiar os textos sagrados em escri- turas comumente mais legíveis, em letras grandes e arredondadas, dando origem aos tomos. Com a criação da caligrafia minúscula carolíngia no século VIII (mais fácil dos que as anteriores), a produção tornou-se relativa dos livros, bem como a sua circulação. Mas, isso ainda não levou necessariamente à diminuição do formato da Bíblia. A ideia da Bíblia de bolso surgiu apenas no século XIII, e as universidades e os ateliês de Paris até fizeram disso uma especialidade. Com a invenção da imprensa, no século XV, o livro ganhou difusão devido à maior rapidez de cópia e de seu menor custo, mas o seu formato ainda era pouco menor do que o manus- crito. Portanto, o formato da Bíblia não é o melhor indício para avaliar a sua difusão, e sim as suas marcas de uso e de posse (LOBRICHON, 2006). 38 As ideias bíblicas que impactaram o pensamento filosófico ocidental Ainda que não seja um livro filosófico, a Bíblia contém mensagens que impactaram diferentemente a filosofia e influenciaram a formação do pensa- mento ocidental. Antigo professor de Filosofia da Universidade de Chartres e do Instituto Pontifício de Estudos Medievais em Toronto, Édouard Jeauneau (1986) afirma que, se perguntássemos aos filósofos medievais qual elemento teve maior importância na origem de sua filosofia, eles certamente menciona- riam a Bíblia, notadamente o Novo Testamento. Temos, então, que a difusão da mensagem do Novo Testamento mudou irreversivelmente as caracterís- ticas da espiritualidade ocidental, produzindo uma verdadeira revolução na abordagem de temas tratados pela filosofia anteriormente, bem como daquelesque seriam propostos no futuro. Desse modo, “não será mais possível filosofar fora da fé, no sentido de filosofar como se a mensagem bíblica nunca tivesse feito seu ingresso na história” (REALE; ANTISERI, 2005, p. 9). Então, quais foram as principais ideias bíblicas que revolucionaram o pensamento filosófico ocidental? Comecemos com o conceito de monote- ísmo, ou seja, de um Deus uno e único. Entre os gregos, nem mesmo Platão e Aristóteles conseguiram fornecer uma concepção clara e distinta de Deus, que nunca deixou de estar associado a uma pluralidade de deuses menores associados a algo do mundo. No entanto, o cristianismo fornece uma concepção de Deus enquanto criador, primeiro princípio e origem de todo o ser, do que decorre uma nova concepção de transcendência ao impossibi- litar a consideração de qualquer outra coisa como divino além dele próprio (BOEHNER; GILSON, 1991; COUTINHO, 2008; REALE; ANTISERI, 2005). Em decorrência da nova concepção bíblica de Deus, temos a teoria da criação a partir do nada, o criacionismo. Entre os gregos e outros pensadores pagãos, a ideia de criação foi simplesmente ignorada, já que o mundo era visto como eterno e autossuficiente, ainda que seu movimento dependesse de um motor- -primeiro (tese defendida por Aristóteles), ou como exteriorização de Deus (tese estoicista), ou ainda como participação (tese de Platão) ou emanação (tese de Plotino) necessária e eterna a partir dele. Ao iniciar com a frase “No princípio Deus criou o céu e a terra”, em Gênesis 1:1 (BÍBLIA, 2005, p. 3), a Bíblia difundiu a mensagem de que Deus criou diretamente todas as coisas a partir do nada, sejam elas espirituais ou materiais, por um ato livre de sua vontade, incluindo o próprio homem. Disso advém a percepção de que o mundo não é autossufi- ciente e nem absoluto: “é finito, contingente e frágil, mutável e temporal, radical- mente inconsistente por si mesmo, apenas subsistindo pela radical e permanente dependência do seu Criador” (COUTINHO, 2008, p. 20). 39 A par da concepção criacionista bíblica, temos a concepção antropocên- trica, que identifica o lugar seu na ordem hierárquica da criação. Entre os gregos, essa concepção era limitada, com forte prevalência da visão filosófica cosmocêntrica – que afirma a prioridade do mundo natural que ligaria o homem e o cosmos. Na Bíblia, notadamente no livro de Gênesis, o homem é percebido como a criação privilegiada de Deus, feito à sua imagem e semelhança e, por conseguinte, senhor de todas as outras coisas. Ademais, ao fazer a vontade de Deus, de maneira livre, o homem se assemelharia a ele e se santificaria, reforçando a ideia de criatura privilegiada (BOEHNER; GILSON, 1991; REALE; ANTISERI, 2005). Intimamente relacionada com a concepção antropocêntrica é a mensagem bíblica de Deus enquanto a fonte da lei moral, dada ao homem na forma de mandamentos. Caberia ao homem obedecê-los. A obediência a eles seria a forma de praticar a virtude, o bem moral supremo, enquanto a desobediência levaria ao pecado, o mal moral supremo. Diferentemente dessa concepção, entre os gregos antigos, a lei moral era fundamentada na physis, ou seja, na natureza, e vinculava tanto o homem quanto o próprio Deus (REALE; ANTISERI, 2005). Na narrativa bíblica, o “pecado original” teria sido justamente a desobe- diência de Adão e Eva a um mandamento de Deus: não comer do fruto “da árvore do conhecimento do bem e do mal” (Gn 2:17) (BÍBLIA, 2005, p. 4). Como consequência dessa soberba humana: o castigo na forma de expulsão do paraíso terrestre e de inserção no mundo do mal, da dor e da morte e, portanto, o afastamento de Deus. A salvação do pecado original e de todas as suas consequência não poderia ser alcançada pelo homem por si mesmo. Daí a necessidade de resgate do homem pelo próprio Deus. Exemplificando Figura 1.1 | Eva surgindo da costela de Adão Fonte: Costa e Grau-Dieckmann (2013, p. 477). 40 Essa imagem faz parte da tapeçaria da Catedral de Gerona, Catalunha, do início do século XII, e representa Eva ainda presa na costela de Adão e já tentada pelo fruto da árvore proibida, que culminaria no chamado pecado original. A narrativa bíblica da criação e do pecado original foi, por muito tempo, utilizada para justificar a pretensa inferioridade da mulher em relação ao homem. Deus criou primeiramente o homem, Adão, à sua imagem e semelhança e o colocou para viver no paraíso. Depois de um tempo, percebeu que os demais animais tinham em par. Então, decidiu dar a Adão um par também, Eva, que foi criada não do barro ou do sopro (como Adão), mas da costela de Adão, ou seja, de uma criatura já pronta. Aqui já notamos uma hierarquia na criação: Deus fez primeiro o homem e dele fez a mulher. Em seguida, Eva comeu o fruto da árvore proibida. Essa narrativa serviu para que Santo Agostinho argumentasse a favor da submissão e subserviência da mulher ao homem, tanto porque ela é criatura secundária na ordem da criação quanto porque ela foi a respon- sável pelo pecado original que toda a humanidade carrega. Durante a Idade Média, foram atribuídas a todas as mulheres as mesmas caracte- rísticas de Eva: a curiosidade, o orgulho, a fragilidade e a desobediência. Em função disso, as mulheres eram vistas como um risco de subversão da hierarquia masculina instituída e fortalecida naquele contexto. A mensagem da encarnação, morte e ressureição de Cristo como forma de expiar o antigo pecado subverteu inteiramente os quadros do pensamento grego, nos quais a culpa original era vinculada ao mal que o homem sofre em si e que era cancelado naturalmente pelo ciclo dos nasci- mentos (metempsicose – transmigração da alma de um corpo para outro) e quebrado pela virtude do conhecimento entre os filósofos. Portanto, se entre os gregos o resgate do pecado dependeria apenas do homem, agora depende da iniciativa gratuita de Deus. A mensagem bíblica também inova no que se refere à concepção de Providência – capacidade de Deus governar a vida e o destino do homem. Entre os gregos antigos, a Providência nunca dizia respeito ao homem individual; entre os estoicos, ela até coincidia com o destino, mas estava ligada ao aspecto racional do homem. A Providência divina cristã, ao contrário, dirige-se ao homem individual, especialmente os mais humildes e necessitados e os próprios pecadores, e relaciona-se com a necessidade de segurança em um contexto histórico inseguro, como foi o período helenís- tico. Além disso, relaciona-se com a própria ideia de redenção – a Bíblia é essa mensagem histórica em essência (BOEHNER; GILSON, 1991; REALE; ANTISERI, 2005). 41 Reflita A fé foi a lente por meio da qual o homem medieval olhou para o mundo. No Ocidente, a Bíblia, enquanto verdade revelada por Deus, exerceu um papel epistemológico quase que totalitário. É dela que pretensamente advinham os saberes necessários à humanidade. Como consequência desse estatuto epistemológico, os demais saberes, principalmente os advindos da experiência empírica, foram legados a segundo plano. A causa primeira dos fenômenos naturais era deixada de lado para dar lugar a uma explicação fideísta – Providência Divina. Portanto, com a doutrina da revelação, as respostas para múltiplos problemas funda- mentais colocados ao espírito humano já teriam sido dadas por Deus. Enquanto na filosofia grega o componente humano valorizado era o conhecimento (epistéme), sendo a fé considerada uma forma de opinião (doxa), no cristianismo acontece justamente o inverso: a fé é colocada acima da própria razão e da ciência. Não que a fé não possuísse um valor cognos- citivo próprio, mas a sua natureza era tida como diversa da do conhecimento e do intelecto: “de todo modo, trata-se de um valor cognoscitivo que só se impõe a quem possui aquela fé. Como tal, ela constitui verdadeira ‘provo- cação’ em relação ao intelecto e a razão” (REALE; ANTISERI, 2005, p. 17). Como resultado, temos uma nova concepção antropológica: o homem não é apenas corpo e alma (entendidapelos gregos como razão e intelecto), mas corpo, alma e espírito (que designa a participação no divino por meio da fé). Outra revolução provocada pelo texto bíblico do Novo Testamento é a ideia de que “Deus é amor” (Jo 4:7-16) (BÍBLIA, 2005, p. 1414), criando uma concepção de amor (ágape) que contrasta completamente com o amor (eros) da filosofia grega. Os gregos (Platão e Aristóteles) valorizaram a ideia do amor enquanto carência e procura da plenitude divina aspirada pelo coração humano, que tendia a elevar-se do terreno para o celeste, buscando a sua plenitude e revolucionando essa concepção, o amor cristão (ágape) é eminentemente divino, uma doação de Deus, um dom, ou seja, não surge entre os homens, é um movimento do mais alto para baixo. Num segundo é que temos esse amor entre os homens, a partir do qual ele será vivido e compartilhado (caridade). Cumpre salientar que a caridade é o amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo, em conformidade com os dois maiores mandamentos; é a fé atuando pela caridade (BOEHNER; GILSON, 1991; COUTINHO, 2008; QUADROS, 2011). Não apenas a concepção de amor foi revolucionada pela mensagem cristã, como também uma série de valores da história humana. Não seria exagero afirmar que houve uma verdadeira subversão dos valores antigos, oriunda 42 da mensagem das bem-aventuranças e do Sermão da Montanha (Evangelho de São Mateus, 5:1-12) (BÍBLIA, 2005, p. 1123), que privilegia a humil- dade enquanto virtude fundamental (desconhecida dos gregos antigos) e a mansidão humana. Portanto, desabou o ideal supremo de sábio autossufi- ciente do período helenístico e criou-se o dogma da salvação não enquanto fruto do esforço humano, mas enquanto um dom divino, externo ao homem (COUTINHO, 2008; REALE; ANTISERI, 2005). O idealismo metafísico grego tem na concepção da psyché (alma imortal, substância imaterial dotada de razão, vontade e desejo) o seu ponto alto. É, portanto, o conceito de “alma”, uma criação dos gregos para exprimir a verdadeira essência do homem – lembre-se da metempsicose. O cristianismo não aponta propriamente para a imortalidade da alma de modo absoluto, mas para a “ressurreição dos mortos”, que implicaria, também, o retorno do corpo à vida. Haveria uma preservação de cada pessoa, com seu nome e identidade própria (COUTINHO, 2008; REALE; ANTISERI, 2005). Por fim, com o cristianismo, há uma nova concepção de tempo, o linear – da criação até o juízo final (eternidade). É um tempo progressivo, voltado para a salvação da alma e para a realização do reino de Deus. Os aconte- cimentos são irrepetíveis e se abrem para o horizonte da plenitude e do encontro com Deus. Diferentemente disso, entre os gregos, a concepção era a de tempo cíclico, ligado ao mito do eterno retorno, ou seja, a história não tem início nem fim, ela retorna sempre idêntica (COUTINHO, 2008; REALE; ANTISERI, 2005). Problemas decorrentes da conciliação do Antigo e do Novo Testamento A partir da segunda metade do século I, alguns escritos apostólicos começaram a ser produzidos e eles se multiplicaram com o passar do tempo, mas nem todos possuíam credibilidade histórica. Esse é, portanto, o primeiro problema decorrente da mensagem cristã: a fixação do cânon, ou seja, a autenticidade dos textos bíblicos. Era necessário não apenas recolher esse material, como também fazer a sua seleção, com o objetivo de encontrar os autênticos. Foram necessários três séculos e muito esforço para a constituição do cânon definitivo, e somente no ano de 367 é que houve a fixação do cânon do Novo Testamento a partir de uma carta de Atanásio, bispo de Alexandria, na qual ele lista vinte e sete livros aprovados para instrução doutrinária. O segundo problema decorrente da mensagem cristã é a conciliação com o Antigo Testamento. Como conciliar o Deus de justiça do Antigo Testamento com o Deus de amor do Novo? A dificuldade residia na linguagem antropomórfica contida no Antigo Testamento, que atribuía a 43 Deus algumas características humanas (o que era absolutamente comum na mitologia grega). Dos debates existentes nos primeiros séculos, algumas posições surgiram: a negação do Antigo Testamento pelos gnósticos; a inter- pretação alegórica de Fílon de Alexandria; e a “distinção de vários níveis de compreensão do texto bíblico, que abririam amplos espaços para a reflexão teológica, moral e filosófica” (REALE; ANTISERI, 2005, p. 28). O terceiro problema decorrente da mensagem cristã é a questão da identidade do cristão. A mensagem evangélica sofreu ataques, principal- mente, dos hebreus, dos pagãos e, posteriormente, dos heréticos. Era neces- sária sua defesa. Esse foi um trabalho que levou alguns séculos e que contou com os seguintes momentos: 1. Os chamados padres apologéticos (século I), que estavam ligados aos apóstolos e ainda não enfrentavam problemas filosóficos. 2. Os chamados padres apologistas (século II), que fizeram a defesa do cristianismo de enfrentaram os filósofos como inimigos. 3. Patrística, movimento filosófico dos primeiros padres da igreja que fizeram a conciliação entre cristianismo e filosofia e estabeleceram os dogmas da Igreja Cristã. Essas discussões acerca da defesa da mensagem evangélica serão tratadas posteriormente. Por agora, você já tem condições de compreender como a filosofia foi afetada pelo cristianismo na transição da Antiguidade para a Idade Média e como o pensamento ocidental foi fortemente influenciado pela mensagem bíblica. Sem medo de errar Ao iniciarmos esta seção, deparamo-nos com os questionamentos da pesquisadora e teóloga Bernadete de Lourdes, em palestra proferida na ONG Visão Mundial, que exigiam a reflexão acerca da ciência moderna e das transformações na maneira de produzir o conhecimento e de enxergar o mundo. Bernadete de Lourdes afirmou que, a partir do século XVII, a observação e experimentação foram subvertendo a antiga dependência de aspectos especulativos e metafísicos, característicos da filosofia antiga e medieval da religião cristã. Com isso, temos a concepção do mundo físico como responsável pelos processos mecânicos que envolvem o movimento dos corpos. No século XIX, em meio à crença exacerbada na ciência, surgiu a teoria evolucionista de Darwin, contrapondo uma das principais narrativas bíblicas: a criação. Após essas colocações iniciais, Bernadete de Lourdes questionou: na atualidade, diante de tantas transformações, qual é 44 o lugar da mensagem bíblica no pensamento ocidental? Será que ainda hoje as ideias inovadoras do Novo Testamento encontram seu lugar na nossa forma de conceber o mundo? O criacionismo foi de fato superado ou ainda encontramos resquícios dele entre nós? Para responder a esses questionamentos, é necessário que você compre- enda quais são as ideias bíblicas que influenciaram o pensamento filosófico ocidental para, a partir de então, sabermos se elas estão superadas. Comecemos com o conceito de monoteísmo e a ideia de um Deus uno e único. Será que o monoteísmo está superado hoje? Com certeza, não! Pensem em quantas pessoas são cristãs, islâmicas ou judias na atualidade. E a concepção antro- pocêntrica que identifica o homem como criatura privilegiada na ordem da criação, está superada? Ora, não seria o humanismo renascentista e as suas implicações em todas as áreas decorrência dessa concepção? E a concepção de Deus como fonte da lei moral – os dez mandamentos? Se pensarmos na moral em Immanuel Kant (2006, p. 51), ainda que independente da religião, traz no imperativo categórico – “age só segundo máxima tal que possas ao mesmo tempo querer que ela se torne lei universal” – um mandamento como reflexo da concepção de ágape. Quanto ao criacionismo, colocado em xeque com a teoria da evolução, de fato foi superado em nosso pensamento ocidental? Ou a ciência criou uma teoria que também é passível de contestação? A explicação da origem do universo continua sendo mitológica, seja na ciência, seja na religião. Nossaconcepção de história linear, escatológica, é fruto da mensagem bíblica e, de alguma forma, relaciona-se com a criação. Ainda explica a origem de todas as coisas, mas nenhuma resposta é pronta e acabada. Portanto, é inegável que as ideias bíblicas que impactaram a filosofia medieval ainda continuam presentes entre nós, daí a importância de conhecê-las e problematizá-las. Faça valer a pena 1. Na linguagem comum, essa palavra às vezes é empregada no lugar de beneficência, isto é, para indicar a atitude de quem quer o bem do outro e se comporta generosamente para com ele. Mas a linguagem comum também conhece e usa o significado correto desse termo, ao dizer, por exemplo, que ‘é preciso um pouco de caridade’ a quem julga com demasiada severidade o seu próximo: nesse caso, obviamente, caridade significa amor ou compreensão. (ABBAGNANO, 2007, p. 118) 45 Sobre o conceito de caridade na sua acepção cristã, analise as afirmativas a seguir: I. A caridade está intimamente relacionada ao eros e se concretiza no movimento ascendente do amor, do humano ao divino. II. A caridade é a virtude cristã fundamental que consiste no amor a si mesmo em primeiro lugar, para amar ao próximo como a ti mesmo. III. A caridade é a ligação entre o homem e Deus e consiste na concre- tização do preceito cristão fundamental de amar ao próximo como a ti mesmo. Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma apenas em: a. I. b. II. c. III. d. I e II. e. II e III. 2. [...] embora não sendo urna ‘filosofia’ no sentido grego do termo, a visão geral da realidade e do homem que a Bíblia nos apresenta, no que se refere a alguns conteúdos essen- ciais dos quais a filosofia também trata, contém uma série de ideias fundamentais que tem urna relevância também filosófica de primeira ordem. (REALE; ANTISERI, 2005, p. 8) Sobre as ideias bíblicas que possuem relevância filosófica, julgue as afirma- tivas a seguir em verdadeiras (V) ou falsas (F): ( ) A Bíblia difundiu a mensagem de que Deus criou diretamente todas as coisas a partir do nada, sejam elas espirituais e materiais, por uma ato livre de sua vontade, incluindo o próprio homem. ( ) A concepção antropocêntrica presente na Bíblia identifica o lugar do homem na ordem hierárquica da criação como sendo criatura privilegiada e, portanto, imune à lei moral emanada de Deus. 46 ( ) A culpa original foi tratada na Bíblia como o mal que o homem sofre em si mesmo e que seria cancelado naturalmente pelo ciclo dos nascimentos, quando haveria a transmigração da alma de um corpo para outro. ( ) Com a mensagem das bem-aventuranças, a Bíblia privilegia a humildade enquanto virtude fundamental e a mansidão humana. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: a. V – V – F – F. b. F – F – V – V. c. V – F – V – F. d. V – F – F – V. e. V – V – V – F. 3. O Deus criador está sempre presente, mas dissimula sua potência criadora sob a sua paternidade. [...] Por isso, ao mesmo tempo que conserva o fundamento sobre o qual já repousava na Bíblia, a noção cristã de providência se reveste de um novo aspecto. As relações pessoais que ligam cada criatura a seu criador se estendem ao conjunto da natureza, porque as obras de Deus são suas e ele ama até as mais humildes dentre elas. (GILSON, 2006, p. 207) Especificamente acerca da noção de Providência cristã, analise as afirma- tivas a seguir: I. A noção de Providência divina cristã relaciona-se com a coletividade e intimamente com o aspecto racional do homem. II. A ideia de Deus governar a vida e o destino do homem forneceu segurança para este homem em um contexto histórico inseguro, como foi o período helenístico. III. Com a nova noção de Providência divina introduzida pelo cristia- nismo, temos a emergência da própria ideia de redenção, cuja mensagem histórica em essência é a Bíblia. Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma apenas em: 47 a. I. b. II. c. III. d. I e II. e. II e III. Referências ABBAGNANO, N. Dicionário de filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2007. AMARAL, R. 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A patrística centraliza sua preocupação nos dogmas cristãos e busca teorias filosóficas que confiram suporte filosófico ao estudo da revelação divina. Destaque-se que, até o século XIII, a corrente que mais influenciou os padres da Igreja foi o neoplatonismo (MARÍAS, 2004), além do estoicismo e do judaísmo (DUTRA; HEBECHE, 2008). A moral do estoi- cismo expunha elementos comuns com o cristianismo, o que pode ser obser- vado até os dias atuais. (DUTRA0; HEBECHE, 2008). Já no século XII, houve a retomada da influência de Aristóteles para se compreender a fé cristã. O gnosticismo seria uma espécie da heresia, a se ver a seguir, que defendia um dualismo entre o bem e o mal. Em contrapartida, surgiria a “gnose cristã”, elaborada pelos padres da Igreja como uma forma de combater as inconsis- tências do gnosticismo. Nessa época, a cultura pagã exibia ainda seu domínio mantido por diversos séculos; eis que, em Atenas e em Roma, o cristianismo foi paulati- namente estendendo sua influência e se impondo. Paulo foi o apóstolo que se destacou como vetor decisivo nesse processo de expansão do cristianismo para os não-judeus. Na Sagrada Escritura, no livro dos Atos dos Apóstolos, capítulo 17, versos 16-34, Paulo foi questionado em Atenas a respeito da nova doutrina que pregava e que tanto perturbava seus interlocutores. O apóstolo vai justamente afirmar que, observando os altares, era possível constatar que cultuavam vários deuses, mas ele anunciava um deus apenas, tratava-se do deus desconhecido. Nesse contexto, os padres da Igreja tiveram também de administrar tensões diante do processo de enculturação do cristianismo entre os gregos. Vamos, nesta unidade, aprofundar nossos conhecimentos a respeito da Gnose; dos apologistas gregos e dos luminares da Capadócia. 52 Seção 1 A Patrística Grega Diálogo aberto Neste momento, estudaremos a primeira tentativa de sistematização da fé cristã que ocorre no contexto do surgimento do gnosticismo. O gnosti- cismo defende que conhecimento é redentor, bastando o conhecimento para se chegar à salvação. Assim, surgirão os Padres da Igreja gregos que buscarão conciliar teologia e filosofia, procurando estabelecer um diálogo com a razão para iluminar as verdades da fé. Outrossim, posteriormente, veremos os Padres Capadócios que avançarão na relação de diálogo entre filosofia e teologia. Trata-se de tempos de tensão sobretudo pela presença de heresias. Passamos a discorrer sobre o contexto de aprendizagem. Você foi convidado a ministrar uma série de palestras sobre a temática fé e religião numa determinada instituição. Numa primeira palestra piloto você tratou sobre o argumento da aposta (sobre a existência de Deus) em Blaise Pascal. A palestra motivou os acadêmicos a questionar você se em outros períodos da história do pensamento também existiu essa busca de conciliar a fé e a razão. Você, palestrante, respondeu que Paulo é o primeiro dos apóstolos a propor um cristianismo que saísse das fronteiras judaicas e que um período na história da filosofia, em especial, dedicou-se a buscar conciliar fé e razão. Esse período é a Patrística. A coordenadora considerou oportuno abrir, no ambiente virtual, para os acadêmicos postarem questio- namentos para o palestrante (você), tendo em vista que o curso tem uma carga horária 20% virtual. Entre os questionamentos selecionados está o seguinte, que norteia nosso estudo: Um dos alunos escreve uma mensagem no fórum: “Professor, estive lendo sobre os gnósticos. Eles são considerados hereges. Mas, na verdade, eles não queriam unir fé e razão? O conhecimento da verdade realmente não leva à salvação? A Igreja parece que defendeu tanto a unidade entre fé e razão, mas quando os gnósticos apresentam seu entendimento sobre a importância do conhecimento a Igreja os condena”. Outro aluno sobre esse mesmo assunto levantou o seguinte questionamento: “Alguns cristãos tiveram contato com o gnosticismo e passaram a querer interpretar o evangelho a partir do gnosti- cismo. Poderíamos pensar numa ‘gnose’ cristã no contexto da evangelização das primeiras comunidades?”. Nesse sentido, o palestrante (você) responde problematizando ainda mais a situação: 53 Será que fé e razão podem caminhar juntas? O surgimento da filosofia não foi justamente um movimento para se explicar racionalmente o cosmos e banir a ideia de divindade? Na modernidade, com a valorização da razão pelo positivismo, deixou-se de considerar um mito a religião. Com o filósofo contemporâneo Nietzsche foi proclamada a verdade que afirmava que Deus estava morto. Deus não estaria morto justamente por causa da valorização excessiva da razão na modernidade? Passamos a algumas considerações preliminares para que você possa se situar sobre os pressupostos filosóficos e teológicos do que será desenvol- vido aqui. É central que você, enquanto palestrante convidado, tenha conhe- cimento sobre a gnose cristã, o gnosticismo e a expansão da fé cristã em território da cultura grega e quais foram as reações que os Padres da Igreja apresentaram no sentido de buscar conciliar fé e razão. À medida que o cristianismo entrou em contato com os povos do helenismo, houve uma primeira dificuldade de conciliar os elementos filosó- ficos da cultura grega com os valores do evangelho. Enquanto esteve restrito ao mundo judaico, o cristianismo já enfrentava problemas teológicos porque foi justamente o povo judeu que renegou aceitar Jesus como verdadeiro Messias, justamente porque muitos judeus aguardavam um Messias que fosse poderoso e tivesse muito prestígio terreno. Pelo contrário, Jesus nasceu humilde e morreu em uma Cruz. A Cruz, sinônimo de maldição, era sinal de alguém que sequer deveria ser lembrado. Outrossim, em ambiente grego, o primeiro desafio a superar é a heresia do gnosticismo, que considerava o conhecimento como fonte de salvação e, em algumas vertentes, defendia que apenas alguns escolhidos, apenas aqueles que haviam tido acesso aoevangelho, e a salvação, dessa forma, seria restrita a uma elite. O gnosticismo reduzia o espaço para a adesão pela fé, porque valorizava demasiadamente a razão. Nesse contexto, temos a importância dos padres da Igreja que deram sua contribuição para o pensamento cristão e sua sistematização defendendo-se das heresias. Procuraram apresentar a verdadeira gnose cristã, contextualizando a importância de que a razão pode contribuir para o estudo e aprofundamento das verdades cristãs. Em última instância, porém, a razão humana não pode conhecer a Deus. Ele vai paulatinamente revelando-se para a humanidade através dos profetas e, em Jesus Cristo, Verbo Encarnado, há a manifestação plena de sua revelação. Assim, com o auxílio da razão, podemos aprofundar nosso conhecimento sobre Deus, mas é necessário partir do pressuposto de que Ele veio ao nosso encontro revelando-se a nós. Entre as heresias com que vamos nos deparar, destaque-se o arianismo, que não aceitava que Jesus era o verdadeiro Deus e verdadeiro homem, e 54 atacava a Santíssima Trindade. A Igreja, guiada pelo Espírito Santo, soube discernir as diversas situações e deixar-se guiar pela ortodoxia. Aqui, após aprofundarmos conhecimentos sobre a gnose, estudaremos alguns dos apologistas gregos e os chamados luminares da Capadócia que contribuíram para que a Igreja permanecesse no caminho da reta fé. Não pode faltar A Patrística grega - A gnose O gnosticismo constituiu-se como a heresia mais bem sistematizada dos primeiros séculos (MARÍAS, 2004) e tem como elemento central a duali- dade entre o bem (Deus) e o mal (a matéria) (MARÍAS, 2004). “O mundo é uma etapa intermediária entre o divino e o material” (MARÍAS, 2004, p.119). Nesse contexto, os grandes momentos da fé cristã, como a criação do mundo, seriam apenas mais um momento de antagonismo entre o bem e o mal. Entende-se que: “o saber gnóstico diz respeito à salvação de alguns homens, cuja alma se encontrava degradada neste mundo” (DUTRA; HEBECHE, 2008, p.32). Esclarecendo, um ponto diferencial do cristianismo é que, segundo a gnose, o “conhecimento dos mistérios divinos é reservado apenas a uma elite” (DUTRA; HEBECHE, 2008, p.33). Os padres da Igreja tiveram que defender a ortodoxia da fé não apenas no contexto dos inimigos externos da instituição como também dos inimigos internos. Os gnósticos consistiam em um grupo de pensadores cristãos para os quais o conhecimento seria condição para salvação. Um desses pensa- dores foi Basílides, que atuou como mestre espiritual entre 120 e 140, na Alexandria, e cujo pensamento entendia que a fé representava uma dádiva inscrita no coração humano por Deus para um grupo de predestinados para a salvação (ABBAGNANO, 1976, p. 85). Assimile Em 1945, no Alto Egito, em Nag Hammadi, em um cântaro enterrado, foram encontrados 53 escritos gnósticos, em língua copta. Somente em 1977 tivemos uma tradução completa dos documentos em referência para o inglês (REALE; ANTISERI, 2019, p.35). A partir desses documentos, no geral, pode-se depreender que o mundo é mau, que não foi criado por Deus, mas por um demiurgo mau. Em relação a Cristo, encontramos variantes, mas é comum o pensamento de que Cristo teria um corpo apenas aparente e de que Jesus teria anunciado o Evangelho para pessoas escolhidas, os discípulos, assim os evangelhos seriam uma “revelação secreta” (REALE; ANTISERI, 2019, p.36). 55 Apresentar a verdadeira gnose, eis a missão dos padres da Igreja. Trata-se de transmitir o conjunto dos dogmas de fé apresentados pelos apóstolos da Igreja. Diferentemente da gnose herética, essa gnose não propõe a pretensão de superar os limites humanos e nem restringir a salvação para alguns predestinados. Clama por repúdio, também, a afirmação dos gnósticos heréticos de que o mundo não havia sido criado por Deus, mas por um demiurgo que emanou de Deus. Os apologistas gregos Como reação ao gnosticismo, encontramos padres gregos (com formação em língua grega), cujo marco inicial foi São Irineu (século II) até o término do século IV. Os feitos de Jesus de Nazaré não só marcam uma divisão histó- rica do tempo em antes e depois de Cristo, mas também o modo de compre- ender a vida e dar sentido a ela. Paulo, quando cai do cavalo a caminho de Damasco, é exemplo de conversão (Metanoia - mudança de mentalidade) de todos aqueles que aderem à fé cristã. Dutra e Hebeche (2008, p.16) escla- recem que a expressão patrística grega preserva semelhante entendimento que se tem do termo “patrologia”. A Patrística pode também ser entendida como patrologia. “Patrologia” é também um modo grego de pensar e estudar. Esta disciplina trata do estudo dos Padres, dos fundadores, isto é, daqueles que, com os apóstolos e os evangelistas, cimen- taram as bases do cristianismo. (DUTRA; HEBECHE, 2008, p.16) Fílon de Alexandria Fílon, considerado precursor da patrologia, foi o primeiro a se preocupar em conciliar as verdades cristãs com a filosofia grega (REALE; ANTISERI, 2019). Nasceu em Alexandria entre 10 e 15 a. C. e atuou no século I d. C. A Bíblia, segundo esse Padre da Igreja, apresentava, um sentido literal, que não seria o mais relevante, uma vez que possuiria também um sentido alegórico, o de transmissor de uma mensagem. Exemplificando, na primeira Carta aos Coríntios, a afirmação de Paulo de que a mulher cristã não poderia cortar o cabelo, podemos entender tal passagem, não em sentido literal, mas, sobretudo, em sentido alegórico, contex- tual. Nesta última perspectiva, importante resgatar o contexto histórico em que se inseria a recomendação de Paulo, uma vez que, em Corinto, era comum que as prostitutas cortassem o cabelo; assim, Paulo estaria recomendando para as mulheres cristãs não se deixarem confundir com as prostitutas. A mensagem 56 de pano de fundo, apontada por Paulo, buscava orientar para a preservação da dignidade da mulher em todas as situações de sua existência. O homem era constituído, para Fílon, em corpo, alma-intelecto e espírito, advindos de Deus (REALE e ANTISERI, v.2, 2019, p.33). O ser humano possui uma dimensão imortal que provém do divino. É na observância de uma vida moral segundo os desígnios de Deus que o ser humano logra unir-se misticamente a Deus e imortalizar-se no céu. Reflita No mundo em que vivemos, quais são os elementos presentes na filosofia pós-moderna que se apresentam como empecilhos para uma vivência cristã? Será que, com o advento do capitalismo e do neoliberalismo, Deus também não se tornou uma mercadoria entre tantas outras? Clemente de Alexandria, falecido no início do século III, defendia que a verdadeira gnose consistiria na revelação cristã, e a filosofia seria o veículo transmissor desse conhecimento maior, dessa revelação que são os dogmas. Chamado “Alexandrino”, é considerado o fundador da teologia especulativa; pioneiro defensor da fé como o instrumental da filosofia, ao contrário dos gnósticos, considera importante a conciliação entre fé e razão; assim, a fé é aprofundada por meio da razão (REALE e ANTISERI, v.2, 2019, p.44). Reale e Antiseri (2019, p.44) apresentam como de suma importância, na reflexão teológica de Clemente, o conceito de “logos”, entendido em triplo sentido: “a) princípio criador do mundo; b) princípio de toda forma de sabedoria, que inspirou os profetas e filósofos; c) princípio de salvação (logos encarnado). Sabemos de Clemente que não era sacerdote e sua obra relaciona-se com três momentos da conversão: o protréptico, o pedagogo e os stromata (HAMMAN, 1995, p.56). 1) protréptico: trata-se de um último apelo para que os gregos voltem-se para Deus seu coração, fala do paganismo como um conhecedor e anuncia a proposta da boa nova do evangelho; 2) pedagogo: é o catecismo do cristão, trata-se, como o próprio nome induz, de conduzir o cristão para a reta fé no Senhor Jesus nosso Redentor; 3) stromata: trata- se, segundo contexto da época, do escrito cristão mais longo a respeito de diversos temas, entre os quais,a relação entre filosofia e revelação; filosofia, ciência humana, e revelação e gnóstico perfeito. Bogaz, Couto e Hansen (2008) destacam que a eclesiologia de Clemente de Alexandria exortava para um entendimento da Igreja como universal e único, e o batismo como pórtico na vida da graça de Deus. Como podemos nos afastar de Deus pelo pecado, resta-nos receber a purificação de nossos pecados. 57 Orígenes: Nascido em 185, em Alexandria, foi executado em Tiro, aproximadamente no ano 254. Além de ele próprio ter sido martirizado, o mesmo fim foi dado ao seu pai (Leônidas). Em 231, Orígenes foi ordenado sacerdote, mas o bispo Demétrio o destituiu (DUTRA; HEBECHE, 2008). Vai, então, para Cesareia, Palestina, onde fundou uma escola e dedicou-se à pregação. Destacou-se como o escritor antigo do qual temos mais infor- mações (HAMMAN, 1995, p.58). Eusébio catalogou dois mil escritos sobre diversos temas da vida espiritual de Orígenes. A obra central desse Padre da Igreja é De principii (“Do Princípio” – escrito entre 220 e 230). Discípulo de Clemente de Alexandria, era eclético, reunindo ideias de Platão, Aristóteles e estoicos. Se os gnósticos entendiam a criação como o momento natural, para Orígenes “ele a interpretava rigoro- samente como a produção do mundo a partir do nada, por um ato livre da vontade de Deus” (MARÍAS, 2004, p.121). A questão da criação é discutida em toda a história da teologia, primeiro porque houve sempre dificuldades em se entender como Deus poderia ter criado a partir do nada absoluto e, depois, porque é importante observar que estudiosos da Bíblia contempo- râneos, como Frei Ildo Perondi, consideram mais oportuna uma interpre- tação entendida como mensagem de fé do livro do Gênesis a uma descrição fundamentalista da criação do mundo. Apesar das atribulações que sofreu, Orígenes manteve-se fiel à máxima: Sine Ecllesia nulla salus, que se traduz por “Sem a Igreja não há salvação” (DUTRA; HEBECHE, 2008, p.49). Exemplificando Exemplificando a teoria da interpretação alegórica de Orígenes, podemos entender melhor o trecho da Carta aos Coríntios em que o apóstolo Paulo afirma que as mulheres não deveriam cortar os cabelos. Nessa perspectiva alegórica, que se distancia de um fundamenta- lismo bíblico, podemos entender que o apóstolo orienta as mulheres, buscando preservar-lhe a dignidade, tendo em vista que, naquela comunidade em específico, as prostitutas cortavam o cabelo. Assim, alegoricamente falando, Paulo tem uma mensagem de fé, de valori- zação da dignidade da mulher e do devido respeito que devem ser dados a elas e também ao fato de que as mulheres cristãs devem distin- guir-se pelos bons costumes. Em sua segunda obra, Orígenes responde às críticas que “um tal” Celso dirigiu ao cristianismo. Celso entende o cristianismo como uma ameaça à cultura romana. Expõe suas críticas em uma obra denominada: Discurso verdadeiro contra os cristãos (tornada pública em 178). Se Paulo 58 havia anunciado que se não acreditamos na ressurreição, vã é a nossa fé, para Celso, a ressurreição seria um novo entendimento da metempsicose (DUTRA; HEBECHE, 2008). Para Celso, a expressão máxima da fé, que seria o martírio, era para ele demonstração de fanatismo. Em Contra Celso, Orígenes, já no prefácio, discorre acerca do silêncio de Jesus perante todos aqueles que o acusavam. Diferentemente de Sócrates, conforme relatado por Platão, que se defendeu, Jesus manteve-se em silêncio. Outra crítica de Celso é contra a atitude dos cristãos por promo- verem reuniões secretas; também se posiciona contrariamente a respeito da caridade mútua entre os cristãos. Orígenes rebate Celso, dizendo que os cristãos faziam reuniões secretas em determinados locais com o objetivo de não serem mortos e não porque estivessem a conspirar contra a sociedade. Segundo Celso, para a cultura grega e romana, a fé dos cristãos significava um absurdo, a crença no nascimento virginal de Jesus, tanto quanto o era a ideia de que alguém pudesse merecer veneração por ter tido morte na cruz para redimir a humanidade (DUTRA; HEBECHE, 2008). Orígenes contra-argumenta dizendo que tanto os cristãos quanto os pagãos possuem crenças. Orígenes aponta que Celso parte de crenças para atacar os cristãos e não se apoia em crenças racionais. Celso difama os milagres de Jesus, chamando-os de arte mágica e não os admitindo como verdadeiros milagres. Orígenes destaca que Jesus cumpriu a tradição bíblica a respeito de tudo que foi anunciado pelos profetas desde todos os tempos (DUTRA; HEBECHE, 2008). Sobre a teologia de Orígenes: A teologia de Orígenes, com toda a abertura para a recepção de diferentes concepções do mundo, assentava-se basica- mente na proclamação joanina de que Jesus Cristo é único caminho, a verdade e a vida. Ele é a luz do mundo. E isto quer simplesmente dizer que sem ele o mundo andaria nas trevas. Não haveria nenhuma saída e salvação. (DUTRA; HEBECHE, 2008, p.69) Em Orígenes, muito da filosofia dos gregos, especialmente platônicos e estoicos, é utilizada para aprofundar os dados da fé cristã e o filósofo centra seu estudo teológico em Deus e na Trindade. Destaque maior recebe a noção de incorporeidade de Deus. Assim, Deus não poderia ser entendido como corpo e não poderia ser conhecido em sua natureza. Com relação a Jesus, ele considerava como “Sabedoria de Deus substancialmente subsistente”; entendia que Jesus foi gerado ab aeterno pelo Pai e, assim, não foi criado; sendo homooúsios – da mesma natureza do pai. É controverso em sua teologia 59 o fato de reconhecer certa subordinação do Filho ao Pai, talvez por influência do neoplatonismo. Reale e Antiseri (2019, v.2, p.46) destacam que Orígenes quis ser cristão até as últimas consequências e seu pensamento e doutrina ganharam sentido no contexto em que viveu. Foi um grande apologista da fé cristã. Enfim, “para Orígenes, a economia da salvação se resumia à tríplice presença de Deus e de Cristo: na Escritura, na Igreja e no fiel. (HAMMAN, 1995, p.61). Orígenes contribuiu com a exegese bíblica por sua visão de interpretação alegórica apresentando o modelo tipológico e o modelo escatológico. No primeiro modelo, o Antigo Testamento é considerado como preparatório para o Novo Testamento e, assim, as grandes figuras do Antigo Testamento passam a ser consideradas propedêuticas do Novo Testamento. O maná caído céu é prefiguração da Eucaristia, por exemplo. No segundo modelo, temos a inspiração de pensar no Novo Testamento, buscando compreender a realidade última da salvação proposta a todas as pessoas (BOGAZ; COUTO; HANSEN, 2008, p.127). Os três luminares da Capadócia Em 313, por meio do Edito de Constantino, permite-se à fé cristã sair da clandestinidade. É marcante também o Concílio de Niceia, em 325, que fixou o credo da fé cristã. Na Capadócia, temos Gregrório de Nissa (335-394); Basílio de Cesareia (331-379) e Gregório Nazianzeno (330-390). Esses teólogos visavam a uma civilização cristã total e já não tinham mais que defender a fé cristã no mesmo tom que os teólogos gregos iniciais que viviam em uma época de perseguição contra o cristianismo. Viviam uma espécie de neoclassicismo cristão (REALE; ANTISERI, 2019, p.57). Gregório de Nissa: Na sua teoria, temos como pontos principais a preva- lência do mundo inteligível sobre o mundo sensível; na antropologia, o ponto central é a semelhança entre o homem e Deus; podemos nos afastar do que é carnal e aproximarmo-nos de Deus (REALE; ANTISERI, 2019, p.57). Nas palavras do teólogo: “Usamos a Sagrada Escritura como norma e lei de toda doutrina”. Em Gregório de Nissa encontramos a primeira síntese orgânica dos dogmas cristãos. O Padre da Igreja afirma que o homem não é um micro- cosmo, como disseram os filósofos gregos; a grandeza do homem está em ser imagem do criador. Ainda uma máxima sua: “A medida pela qual podeis conhecer a Deus está em vós mesmos”. Entre as obras do legado de Gregório de Nissa, temos A catequese da fé. Trata-sede um texto dirigido aos catequistas, buscando uma adaptação pedagógica das verdades da fé para as pessoas do mundo grego. É um dos 60 Padres da Igreja que mais atribuiu valor à Sagrada Escritura (HAMMAN, 1995, p.122). Um dos questionamentos respondidos por Gregório de Nissa destaca o momento da criação da alma: se ela preexiste ou se ocorre no momento da fecundação gerada. Como resposta, ele afirma que “o germe humano, produto da concepção, já contém em si, de maneira invisível, o homem inteiro” (BOEHNER; GILSON, 2012, p.95). O ensinamento de Gregório de Nissa e sua teologia têm como compre- ensão a Deus enquanto absoluto e o ser humano limitado e instável. O ser humano é feito à imagem do criador por Deus e para Deus e participa da liberdade divina. O conhecimento que pensamos ter de Deus é desconhe- cimento, porque não pode um ser finito conhecer o infinito (SPANNEUT, 2013, p. 72). Basílio de Cesareia: Nascido em 329, completou seus estudos em Cesareia, onde estabeleceu amizade com Gregório de Nazianzo. Viajou e conheceu mestres de Constantinopla e de Atenas (HAMMAN, 1995, p.113) e, após de ser batizado, entrou para a escola dos monges do Egito e da Mesopotâmia. Por questão de saúde, deixou a vida ascética, retornando para sua cidade. Ordenado sacerdote em Cesareia, passou a residir naquela localidade. Em 370 sucedeu ao bispo Eusébio e se tornou um grande bispo, embora com saúde precária. Preparado para ser um grande teólogo, sofreu uma frustração em razão das incumbências pastorais. Deixou o legado de sua firme resistência contra o arianismo, tendo escrito: Contra Eunômio – um bispo ariano radical contra quem afirmava a igualdade entre as três pessoas da Santíssima Trindade. E ainda legou a obra: O Tratado do Espírito Santo, descrevendo a ação do Espírito Santo na vida da Igreja. Defensor dos direitos sociais e da dignidade da pessoa humana, foi considerado o gérmen do pensamento social da Igreja. Também foi muito dedicado a aprimorar a liturgia de Cesareia (HAMMAN, 1995, p.118). Basílio de Cesareia destacou-se não apenas por orientações aos fiéis a ele confiados por meio de suas homilias, mas, por atuar como represen- tante dos defensores do Credo do Concílio de Niceia, principalmente no que concerne à igualdade das três pessoas da Santíssima Trindade (SPANNEUT, volume II, 2013, p.44). Em relação à estrutura do mundo, Basílio entendia que se derivava de quatro elementos: fogo, ar, água e terra. Deus represen- tava o supremo criador que, harmoniosamente, fundamentando-se em tais elementos, fez surgir o mundo (BOEHNER e GILSON, 2012, p. 89). Gregório de Nazianzo - nascido em 329, seguiu o ciclo clássico de estudos, estudando em Constantinopla, Alexandria e Atenas. Retornando em 357 à terra natal, recebeu o batismo. Foi nomeado bispo de um local muito humilde, totalmente desconhecido para ele, tratava-se da localidade 61 de Sasimo. Em 379, cristãos de Constantinopla chamaram-no para liderar a comunidade. Foi nomeado, em 381, bispo dessa localidade, mas, diante da contestação que sofreu, refugiou-se em Azianzo, dedicando-se aos estudos teológicos. Além de teólogo, deixou-nos um legado como humanista e poeta (HAMMAN, 1995, p.120). Gregório de Nazianzo questiona-se a si mesmo uma vez que parte do pressuposto que Deus é incognoscível; como então poderíamos nos mover em direção a Ele? Como resposta aos seus questionamentos, entende Deus como ser infinito e eterno; com o primeiro predicativo, quer demonstrar, sobretudo, que, embora Deus não seja cognoscível, podemos presumir que Ele é infinito no sentido de ser a plenitude do Ser; com o segundo predicativo quer justificar que Deus existe ab aeterno, Ele apenas é; de certa forma, fora do tempo. Se nós, criaturas, somos temporais, Deus é, desde a eternidade, sempre Ele mesmo (BOEHNER; GILSON, 2012, p.84). Deixou um legado de 45 discursos ou homilias e neles encontramos como assuntos principais: a consubstancialidade do Verbo; discursos contra as teses arianas; e sobre a divindade do Espírito Santo (SPANNEUT, 2013, p.51). Vimos nesta seção a importância dos apologistas gregos dos padres capadócios na defesa da fé cristã, buscando dialogar com a filosofia grega, mas sem deixar de resguardar as verdades da fé. Procuramos elencar os principais representantes dos apologistas gregos e os Padres da Capadócia. Neste sentido, concluímos que a filosofia é muito bem-vinda no âmbito da teologia desde que não negue valores fundamentais do cristianismo. Sem medo de errrar Retomando o contexto de aprendizagem, você é o palestrante que foi convidado para uma série de palestras sobre “fé e razão”. Na primeira palestra você tematizou a aposta sobre a existência de Deus em Blaise Pascal. O assunto provocou os acadêmicos a profundas indagações e questionaram o palestrante (você) se haveria outro período histórico em que a fé e a razão estiveram unidas. Sua resposta foi de que houve um período chamado patrís- tica em que os chamados Padres da Igreja buscaram justificar racionalmente a fé. Os primeiros padres foram os chamados padres gregos. Como havia um fórum para os alunos, um aluno questionou por que os gnósticos foram considerados hereges se eles buscavam apenas valorizar a razão. E este aluno formulou a seguinte argumentação: “Alguns cristãos tiveram contato com o gnosticismo e passaram a querer interpretar o evangelho a partir dele. Poderíamos pensar numa “gnose” cristã no contexto da evangelização das primeiras comunidades? ”. 62 Neste sentido, você, como palestrante e professor convidado, poderia responder que sim, é possível, como nos mostram os apologistas gregos e os Padres da Igreja da Capadócia. Pode-se pensar em um cristianismo em que a luz da razão ilumine a fé cristã. A reta doutrina prevaleceu e condenou o gnosticismo que entendia os grandes momentos da história como um momento de luta entre o bem e o mal, além de defender que não havia sido Deus que criara o mundo, mas um demiurgo em seu lugar. Podemos citar alguns dos Padres da Igreja que nos ajudam a entender a importância em conciliar a filosofia e a teologia, ou seja, a fé e a razão. Fé e razão são duas grandes asas de uma mesma ave, que representa o conhecimento de Deus, conforme nos ensinou o papa João Paulo II no documento Fides et Ratio. Você poderia ainda mencionar que nos Padres da Igreja que estudamos vemos Fílon de Alexandria, que nos auxilia a refletir que é possível uma inter- pretação não fundamentalista da Sagrada Escritura. Clemente de Alexandria, por sua vez, defende a importância em conciliar fé e razão; esse padre se apropria do conceito teológico e filosófico do “Logos” para esclarecer que Jesus é o Verbo Encarnado, o “Logos” por excelência, o Redentor. Orígenes, como muitos dentre os primeiros cristãos, doa sua vida até às últimas consequências, vivenciando o martírio. Com relação à questão sobre a união entre filosofia e teologia, Orígenes utiliza-se de estudos platônicos para enriquecer suas reflexões teológicas. Gregório de Niss, também se destacou como um grande homem que buscou integrar o mundo grego às verdades da fé cristã, deixando-nos como legado a obra A catequese da fé, na qual apresenta uma adaptação das verdades da fé para o mundo grego. Em síntese, em resposta a essa situação-problema, você poderia responder para o acadêmico que postou no fórum que as verdades da fé exigem uma adesão à fé diante da revelação das Escrituras e do Verbo Encarnado, mas a razão pode auxiliar-nos, mesmo que de forma limitada, a conhecer mais profundamente os mistérios revelados. A razão também é um dom de Deus aos homens para que todos possam melhorar sua existência, darem sentido à sua vida e procurarem formas de aprofundar o conhecimento sobre os mistérios divinos. Jesus encarnou na reali- dade humana e, diante do anúncio do evangelho, também podemos nos apropriar de filosofias, modos de pensar, vivências que contribuam para o entendimento e para o aprofundamento da fécristã, sem com isso renegar as verdades essenciais do evangelho. 63 Faça valer a pena 1. “A importância de Orígenes é notável em todos os campos. Seus próprios erros devem-se aos excessos de um grande espírito generoso, não a mesqui- nhos desejos de originalidade. Ele quis ser cristão até as últimas consequências, suportando com heroísmo as torturas que o levariam à morte, para perma- necer fiel a Cristo. As próprias doutrinas que não se inserem nos quadros de ortodoxia são explicáveis, plausivelmente, se colocadas na situação concreta de momento em que Orígenes viveu. E, como alguns estudiosos ressaltaram muito bem, elas revelam um profundo significado ‘apologético’ em favor do cristianismo” (REALE e ANTISERI, 2019, volume 2, p. 46). Tendo em vista o enunciado e a grande contribuição de Orígenes para a teologia dos primórdios das comunidades cristãs, é correto afirmar que ele considerava, em relação à criação: a. Era uma produção a partir do “nada”, um ato da liberdade divina. b. Era um tema do Antigo Testamento sem valor para os cristãos da sua época. c. Abordava outros assuntos em sua filosofia, mas não sobre a criação. d. Entendia como os gregos que o mundo não foi criado e sim que o mundo é cíclico. e. Defendia que o mundo havia sido criado por um demiurgo e não por Deus. 2. “Chama-se patrística à especulação dos Padres da Igreja, nos primeiros séculos do cristianismo. O propósito dos cristãos não intelectual nem teórico. São João ou São Paulo, apesar da extraordinária profundidade de seus escritos, não tentam fazer filosofia; contudo, é inevitável que a filosofia tenha que se ocupar deles. [...] Quando São Paulo, no Areópago, se dirige aos refinados e curiosos atenienses do século I, que só se interessavam por dizer ou ouvir algo novo, estes o escutam com atenção e cortesia enquanto lhes falava do Deus desconhecido que fora lhes anunciar; mas quando menciona a ressurreição dos mortos, alguns riem e outros dizem que mais uma vez irão escutá-lo falar aquilo, e quase todos o abandonam” (MARÍAS, 2009, p.117). Considerando as informações apresentadas, analise as afirmativas a seguir: I. Paulo torna-se apóstolo dos gentios anunciando a universalidade da salvação para todos os povos. II. Paulo é considerado perseguidor dos cristãos e não é conside- rado apóstolo. 64 III. Paulo defende que o cristianismo fique limitado ao povo judeu para quem Jesus foi enviado pelo Pai. IV. Paulo procurar inculturar a mensagem do evangelho para os mais diversos povos. V. Os padres da Patrística são valorizados porque tiveram um contato relativamente próximo (cronologicamente) aos apóstolos, principal- mente Paulo apóstolo dos gentios. Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em: a. I, IV e V, apenas. b. I, II, e III, apenas. c. III, IV e IV, apenas. d. I, III e V, apenas. e. II, III e IV, apenas. 3. “Defronta-nos a história como uma série de sistemas filosóficos cujo caráter distintivo provém da fé cristã. Em seu conjunto, estes sistemas formam um grupo bem delimitado e nitidamente distinto de outros grupos de sistemas, dos helênicos, dos latinos, dos chineses, dos islamíticos, por exemplo. A despeito de todas as divergências, por vezes notáveis, e até mesmo dos contrastes que se nos deparam no seio desse grupo, ele não deixa de constituir um todo funda- mentalmente unitário. A este conjunto, que compreende os sistemas filosó- ficos surgidos desde os tempos apostólicos até os nossos dias, dá-se o nome de “filosofia cristã” (BOECHER e GILSON, 2012, p.11). Acerca da Patrística e da Filosofia Medieval, julgue as afirmativas a seguir em (V) Verdadeiras ou (F) Falsas. ( ) Os padres da Igreja eram totalmente contra a qualquer filosofia, aceitando apenas a teologia. ( ) Os padres da Igreja eram assim chamados porque foram todos ordenados sacerdotes e pertenciam a hierarquia da Igreja. ( ) Os padres da Igreja muito contribuíram para a sistematização da fé cristã porque colocaram a fé em diálogo com a filosofia e com a cultura dos povos evangelizados. 65 ( ) Os padres da Igreja pertencem ao período moderno da Igreja em que a fé já estava sistematizada. ( ) Os padres da Igreja procuraram dialogar com a filosofia, evitando sempre cair em heresias, mas procurando aproveitar adaptar a fé cristã à filosofia grega. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA. a. F – V – F – V – V. b. F – F – V – V – V. c. F – F – V – F – V. d. F – F – F – V – F. e. V – F – V – V – F. 66 Seção 2 A Patrística Latina Diálogo aberto Prezado acadêmico, você foi convidado como palestrante para uma série de palestras sobre “Fé e Razão” numa determinada instituição de ensino superior. Outrossim, na primeira palestra você tematizou sobre a prova da existência de Deus em Blaise Pascal. Decorrente desta primeira palestra foi aberto um fórum no ambiente EAD para os acadêmicos postarem seus questionamentos e percepções sobre a palestra. Ainda na palestra os acadê- micos haviam questionado se houve uma tentativa de harmonizar fé e razão em outros contextos históricos. Você respondeu que sim e que este período foi a Filosofia Medieval, mais especificamente durante a Patrística. Como foi aberto o fórum, uma acadêmica levantou questionamento sobre quais seriam os padres da Igreja deste período e o que defenderam. A acadêmica comentou no fórum sobre a primeira palestra, cujo tema consistiu sobre Blaise Pascal, afirmando que considera imprópria a sua argumentação quando se refere a um argumento da aposta sobre a existência de Deus. Ela assim argumenta porque acredita que precisamos crer na existência de Deus e não a questionar racionalmente. Como no final da palestra foi apontado sobre os Padres da Igreja, ela também perguntou no fórum, gerando uma questão-problema a ser apresentada em outra palestra: “Quais são os principais Padres da Igreja grega e latina e quais contribuições possibilitaram para a sistematização da fé cristã? Os Padres da Igreja aceitavam que a razão era importante no processo de estudo sobre a fé cristã ou eram fideístas e defendiam que apenas a fé deve iluminar a vida do cristão? Para que você, como palestrante, tenha condições de responder esses questionamentos à acadêmica vamos estudar, neste momento, a Patrística Latina, suas nuances e suas intepretações filosóficas e teológicas. Assim, apresentamos, a seguir, uma síntese do que será estudado neste momento. O espírito medieval e a sistematização do cristianismo medieval obedecem à máxima que remonta a Anselmo de Cantuária, que afirmará “saber para crer, crer para poder saber”. Na Idade Média, encontramos uma busca pela conciliação entre fé e razão. Nesse período, temos o imperativo da fé unida à razão, de tal modo que a filosofia é considerada serva da teologia, sem com isso desvalorizar a filosofia. Mas a filosofia na Idade Média teve vida própria e “agitou muito bem de um ponto de vista e com métodos puramente filosóficos” (HIRSHBERGER, 1966, p.23). A sistematização da fé ocorre na 67 Idade Média e não se pode ser anacrônico e julgar a Idade Média segundo parâmetros dos valores atuais. Nesse contexto, perguntamos: quais são os principais padres da Igreja grega e latina e quais contribuições possibilitaram a sistematização da fé cristã? Nos padres da Igreja latina encontramos importantes reflexões acerca da criação, do “logos”, da alma e da moral. O problema da criação foi um problema teológico que esteve sempre presente nos primór- dios da Igreja, justamente porque o mundo latino teve dificuldade de compreender a criação divina a partir do “nada absoluto”. No contexto da teologia, encontramos padres da Igreja, entre outros: Tertuliano, Minúcio Félix, Ambrósio, Rufino e Hilário de Poitiers. Pensando na sistematização da fé, apresentamos uma síntese dos principais concílios, a saber: Nícéia (325); Constantinopla (381); Éfeso (431); Calcedônia (451); e II de Constatinopla (453). Esses concílios buscaram definiros dogmas de fé que são válidos até hoje. Nos padres da Igreja citados encontramos um ponto de convergência no fato de que eles mantêm certa reserva para com a filosofia e alguns deles, como Tertuliano, chegam mesmo a criticar a filosofia, embora aceitassem a contribuição dessa mesma ciência para que a fé cristã fosse sistematizada. A filosofia, que muitas vezes contribuiu com as heresias, acaba encontrando restrições de aceitação nos padres da Igreja. Entre os padres da Igreja latina em estudo, Tertualiano, embora fosse um grande teólogo, no fim de sua vida acabou aderindo à heresia do Montanhismo, que rejeitava o Antigo Testamento entre outros pontos da fé cristã aceitos como ortodoxos. Tertualiano é aquele que, na sua obra Carne de Cristo, dedicar-se-á a combater aqueles que negam a ressurreição de Cristo. É celebre também a composição teológica de Tertuliano que contribuirá com o pensamento trinitário, defendendo a fórmula: “Uma Substância em Três Pessoas”. Outro importante padre da Igreja que veremos é Ambrósio de Milão. Talvez a grande contribuição de Ambrósio seja justamente ter sido canal da graça para que Agostinho de Hipona (que veremos posteriormente) se convertesse. Ambrósio de Milão valoriza o uso da razão, mas reconhece que quando filósofos se limitam ao uso da razão podem cair em erros inumerá- veis, principalmente em questão de fé. Agora, veremos outros padres da Igreja que consideramos oportunos para ilustrar o entendimento filosófico teológico vivenciado pelos padres latinos. 68 Não pode faltar A Filosofia Patrística A Patrística trata de um período todo particular da Filosofia, cujo epicentro é a boa-nova de Jesus Nazareno que, crucificado, fez da cruz um sinal de esperança. O evento pascal sintetiza a mensagem do cristianismo; trata-se da Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus. Dutra e Hebeche (2008, p.14) esclarecem a respeito da Patrística: A Patrística alimenta-se desse acontecimento singular. Tudo o que é pensado, ensinado e anunciado pressupõe a sua incorporação, isto é, o acontecimento de Jesus de Nazaré torna-se o cerne a partir do qual é compreendido. Ou melhor, esses primeiros esforços de compreensão teoló- gica são tentativas de incorporar o pensamento reflexivo à singularidade desse evento. (DUTRA; HEBECHE, 2008, p.14) Ainda nos primórdios da fé cristã, registra-se um novo tipo de ato heroico: o martírio (DUTRA; HEBECHE, 2008). Trata-se da vivência e testemunho da fé até as últimas consequências. Os piores sofrimentos e humilhações são assumidos de forma resignada, tendo em vista um bem maior que é a ressur- reição. O perdão é a boa-nova do cristianismo, que supera a lei de talião e o legalismo judaico. Perdoar sempre será a boa-nova do cristianismo. Jesus, também, com suas bem-aventuranças, valoriza o pobre, a ponto de dizer que o que se faz a um pobre é a Jesus que se está fazendo. Assim, o cristia- nismo nascente inverte significativamente valores considerados “loucura” no mundo grego e latino. Os padres da Igreja são, por extensão, os guardiões espirituais da fé; caso essa mesma fé permanecesse restrita aos judeus seria mais fácil tal manutenção, mas Paulo discerne que o evangelho é para todos os povos e coloca-se a evangelizar outros povos além dos judeus. Assimile Os padres da Igreja não eram contra a filosofia, mas tinham certo receio de uma filosofia que menosprezasse a fé, como vemos em Agostinho de Hipona, em Creio mesmo no absurdo, não no sentido de menosprezar a fé cristã, mas em perceber que a fé tem primazia sobre a razão. E que a nossa fé em Cristo e seu ato redentor é que nos salvam. Percebemos, nos diversos padres latinos, que muitos receberam contribuições dos filósofos no processo de organização e sistematização da fé cristã. 69 Vale ressaltar que mesmo muitos judeus aceitaram a Jesus. A interpretação das profecias pelos mestres da Lei evidencia a dificuldade em se perceber em Jesus o verdadeiro Messias. Nos Atos dos Apóstolos, na Sagrada Escritura, encontramos o relato da Igreja Primitiva nascente e os conflitos que surgiram com o nascimento do cristianismo como religião universal. Os primeiros apóstolos e os padres da Igreja se depararam com o desafio de conciliar o evangelho com os matizes culturais dos povos a quem chegava o evangelho. Em 49 ocorreu o Concílio de Jerusalém, no qual se evidenciou a tensão entre Paulo e os outros apóstolos na evangelização dos gentios (DUTRA e HEBECHE, 2008). Já vimos, anteriormente, os apologistas gregos e, agora, veremos os latinos. Os padres da Igreja latina também se defrontaram com o gnosticismo. Os debates são travados em língua latina. Diferentemente do ataque de Celso, temos embates no mundo latino com cristãos gnósticos que acreditavam dispor da correta interpretação sobre a fé cristã. A sistematização do cristianismo Os padres da Igreja muito contribuíram para a definição dos dogmas de fé, procurando sempre manter a ortodoxia emanada dessa mesma fé. Apresentamos um quadro adaptado, a partir de Hamman (1995, p.89), dos principais concílios ecumênicos da Antiguidade: Quadro 2.1 | Concílios ecumênicos da Antiguidade NOME DO CONCÍLIO DATA PROPOSIÇÕES Nicéia 325 Trata-se de uma reação ao arianismo, que afirmava que Cristo teria sido criado. O referido concílio vai defender que Cristo é da mesma natureza que o Pai – homoousios – Deus nascido de Deus. Constantinopla 381 Também tenta pôr fim no arianismo e defende a divindade de Cris-to e a do Espírito Santo. que havia sido questionada por Eunômio. Éfeso 431 Em 433, a profissão: “Nós confessamos, portanto, nosso Senhor Jesus Cristo, Filho único de Deus, Deus perfeito e homem perfei- to, composto de uma alma racional, de um corpo, gerado do Pai antes dos séculos, segundo a divindade, nascido nesses últimos dias da Virgem Maria”. Calcedônia 451 Trata-se de um concílio que reage contra o entendimento do monifismo (uma só natureza em Cristo) e defende professando “ um só e mesmo Filho, nosso Senhor Jesus Cristo, perfeito em sua divindade, perfeito em sua humanidade, verdadeiro Deus, verdadeiro homem”. II de Constantinopla 453 Concílio condenou os erros de Orígenes, Teodoro de Mopsuétia, Teodoreto de Ciro e Ibas. Visava ao nestorianismo. Fonte: adaptado de Hamman (1995, p. 89). 70 A figura do apóstolo Paulo é emblemática no período inicial da siste- matização da fé. Em seus escritos, destaca-se a defesa de Jesus Crucificado, loucura para os gregos, tendo em vista o escândalo da cruz. A Idade Média representou decisivamente a possibilidade de o cristianismo expandir-se e transformar-se em cultura. O pensamento do cristianismo valeu-se das contribuições do estoicismo; nesse sentido, a participação das ideias do estoicismo foi tão significativa que se chegou a cogitar até mesmo uma possível troca de correspondência entre Sêneca e Paulo (HIRSCHBERGER, 1966). A filosofia patrística não repre- senta apenas uma filosofia, mas a exposição da doutrina cristã que paulati- namente se cristalizou. No processo de sistematização da fé encontramos uma reflexão acerca da criação, do “logos”, do ser humano, da alma e da moral (HIRSCHBERGER, 1966). O problema da criação está presente na reflexão grega da Patrística. A criação procede de uma reflexão judaica que concebe o tempo de forma linear. Outro elemento muito discutido pelos filósofos gregos é a ideia de logos. Os filósofos patrísticos tendem a unir o conceito de logos dos gregos com a ideia de logos como manifestação suprema da sabedoria divina. Com relação ao conceito de ser humano, tanto Gregório Nisseno como Nemésio entendem o homem como ser régio, superior a todos os outros seres no contexto em que são observados no livro do Gênesis: “o homem completa o mundo visível, porque resume tudo o que lhe é inferior e assim constitui um microcosmo” (HIRSCHBERGER, 1966, p.24). A alma é outro conceito central na busca pela sistematização da fé cristã. Talvez por influência da fé cristã, embasada em alguns pontosdo platonismo, desvalorizou-se o corpo, que cedeu primazia à alma. Nesse contexto, “Gregório Nisseno prova já a imaterialidade da alma, fundado na capacidade de pensar e raciocinar, que são atividades espirituais, conducentes, portanto, à conclusão de que a sede dessas atividades, o nous, deve ser imaterial” (HIRSCHEBERGER, 1966, p.26). Moreschini (2008) sugere a nuance de se interpretar a chamada heleni- zação da religião cristã. Ele entende que a helenização do cristianismo, por si só, não é um elemento negativo a ser combatido. A religião cristã, por natureza, é uma religião com índole universal que, para se estabelecer enquanto tal, sentiu a necessidade de dialogar com as mais diversas culturas e a teologia da patrística, ao assimilar os conceitos como pessoa, hipóstase; mostrou a inteligência dos padres da Igreja ao assimilar as possíveis contri- buições da filosofia grega para aprimorar a sistematização da fé cristã. O conceito de providência também é valorizado pela patrística (MORESCHINI, 2008). Trata-se de entender que a ideia de providência 71 remete ao Antigo Testamento e aponta para o entendimento de que Deus não apenas criou o mundo, mas que o mantém por sua sapientíssima provi- dência. A ideia de providência remete também ao fato de que Deus conhece o futuro em um ato conexo à questão de que Deus não conhece tempo e está em um constante presente, eterno. Na próxima temática, estudaremos alguns dos relevantes padres latinos da Igreja. Os pais da Igreja mais relevantes É importante ressaltar que os padres latinos, circunscritos às regiões ocidentais do Mediterrâneo em sua tarefa apologética da fé cristã, mantinham “os mesmos motivos culturais, filosóficos, religiosos que anteriormente encon- tramos ao considerarmos a apologética grega” (MORESCHINI, 2008, p.191). Vejamos alguns dos principais padres da Igreja latinos. Tertuliano: nascido em Cartago, aproximadamente no ano 160 e falecido em 235; nascido de família romana pagã. Com meia idade, converte-se ao cristianismo. Dedica sua vida à proclamação da palavra do evangelho, mas acaba sua vida aderindo à heresia do montanhismo, que rejeitava o Antigo Testamento (entre outros elementos de afastamento da doutrina ortodoxa). Tem em sua formação o estoicismo e, durante o período em que esteve ligado à reta fé, deixou-nos o legado de textos apologéticos contra judeus, pagãos e cristãos gnósticos (DUTRA e HEBECHE, 2008). Trata-se de um africano, estudou direito e retórica, converteu-se após uma juventude tempestuosa (HAMMAN, 1995, p.71). Em uma de suas principais obras, Carne de Cristo, dedica-se a combater aqueles que negam a ressurreição de Cristo; defende que a reaparição de Cristo após a ressurreição é em carne e não um simulacro; nosso Salvador teve carne igual à nossa; o escândalo da cruz não pode ser negado, Jesus foi verdadeiro homem e sofreu realmente (DUTRA e HEBECHE, 2008). Tertuliano acredita que, para ter acesso a Deus, basta uma alma simples; a cultura e conhecimento filosófico podem até atrapalhar o acesso a Deus (REALE e ANTISERI, volume 2, 2019, p.73). Exemplificando Tertuliano, no plano eclesiológico, foi o primeiro a utilizar o título “Mãe Igreja” à Igreja, como os termos “Senhora Mãe Igreja”. Destacou-se como o primeiro a descrever a prática penitencial da Igreja Primi- tiva. O batismo seria a primeira evidência da remissão dos pecados, 72 mas existiria uma segunda possibilidade de perdão, a que exigia uma confissão pública do pecado seguida de uma absolvição do bispo. Entre outras obras, temos O apologista, uma obra em confronto com a autoridade romana no contexto de martírio na África (HAMMAN, 1995). Boehner e Gilson (2012) apresentam que Tertuliano entende a filosofia grega como inimiga da ortodoxia, sua sedução contribui para o surgimento das heresias; os filósofos seriam os patriarcas dos heréticos. Assim, a filosofia, na visão de Tertuliano, é supérflua e representa um verdadeiro perigo entre a fé e a verdadeira doutrina. No plano da teodiceia, Tertuliano defende a corporei- dade divina, porque acredita que tudo aquilo que não é corpóreo não existe. Tertuliano condena toda filosofia que considera que podemos chegar a Deus utilizando apenas a filosofia, prescindindo da teologia (MORESCHINI, 2008). Uma das explicações para se compreender essa hostilidade de Tertuliano em relação à filosofia é que ele a interpretava tendo como aliado o politeísmo. A posição de Tertuliano talvez possa parecer um retrocesso, tendo em vista a possível harmonia entre filosofia e fé, que pretenderam defender os apologistas gregos (MORESCHINI, 2008). Contrário ao entendimento gnóstico, cujo pilar central é o conhecimento, Tertuliano entende que o conhecimento e a razão podem contribuir para o conhecimento de Deus, mas não se pode deixar de ter em mente que, para o conhecimento de Deus, precisamos de recursos sobrena- turais, quais sejam: a Revelação e a Escritura. Segundo Moreschini (2008), Tertuliano, antes de Hilário de Poitiers, é o maior teólogo conhecido, sendo superado apenas por Agostinho, que estuda- remos a seguir. Com relação a Deus, Tertuliano utiliza-se de expressões negativas como, por exemplo, incriado, não-nascido; no entanto, essas expressões negativas tinham como objetivo expressar elementos de uma teologia positiva. No Tratado Contra Práxeas, Tertuliano busca avançar na compreensão da Santíssima Trindade. Deve-se a Tertuliano a fórmula: “uma Substância em três Pessoas” (MORESCHINI, 2008). Teólogos como Hilário de Poitiers e Agostinho, partindo de Tertuliano, aprofundarão as investigações teoló- gicas sobre a Trindade. Tertuliano insiste em utilizar o predicativo “unitas” para designar um entendimento que se aproxima de “trinitas”. Há todo um processo de procurar demonstrar que, embora sejam três pessoas, trata-se de uma substância única. Reflita Conforme Manzanares (1995), Tertualiano contribuiu significativamente com a teologia trinitária. É o precursor do uso do termo “Trinitas” para 73 designar três pessoas e uma só substância. Defendeu ainda Tertualiano que o Filho era da mesma substância que o Pai. Foi precursor, portanto, do que seria definido no Concílio de Niceia. Segundo indagação de Manazares: a Igreja tem, pela catequese, orientado adequadamente as pessoas em relação a uma catequese trinitária de acordo com a fé ortodoxa? Será possível identificar alguma heresia vigente no seio da Igreja nos dias atuais? Enfim, em seus escritos, Tertuliano deixa transparecer a preferência por defender a paciência como virtude central na vida dos cristãos, embora reconheça que a paciência seja uma virtude mais pagã e estoica que cristã. Mas ele vê a paciência como próxima e inseparável da fé e da esperança; a paciência seria propedêutica da caridade, que é central para o apóstolo Paulo. Cristo é exemplo central da vivência da fé cristã, que vivenciou a paciência como virtude até as últimas consequências. Minúcio Félix: advogado romano, entre outros textos, escreveu Otávio, em forma de diálogo. De modo geral, os latinos anteriores a Agostinho foram pouco atraídos pela filosofia e mais estritamente teológicos. Na obra Otávio o autor ataca os filósofos gregos, considera Sócrates o palhaço de Atenas, entende que os filósofos são mestres da corrupção (REALE; ANTISERI, 2019, p.72). Ambrósio: bispo de Milão de 374 a 397, foi um homem de ação, vigilante epíscopo, mas sem grande originalidade (REALE; ANTISERI, 2019, p.74). Foi aclamado bispo de Milão, recebendo a ordenação episcopal em 7 de dezembro de 374. Morreu em Milão, em 4 de abril de 397. Trata-se de um padre da Igreja contemplativo, ativo e intelectual (HAMMAN, 1995, p.134). Suas obras podem ser divididas em escritos exegéticos, que se referem ao método de escrita da Bíblia, e relacio- nam-se com suas homilias; obras morais; escritos dogmáticos e obras variadas: hinos, discursos e cartas. Dedicou sua vida ao conhecimento das Sagradas Escrituras. Destacamos do seu legadoas exposições sobre a catequese batismal. Na concepção de Ambrósio, a filosofia parece restringir-se ao entendi- mento de que os filósofos chegaram a inumeráveis equívocos ao se limitarem a utilizar da razão para buscar verdades que dependem também da revelação divina (MORESCHINI, 2008). Fontes seguras indicam que Ambrósio teria tido contato com o neoplatonismo e que isso teria influenciado sua teologia, muito embora Ambrósio também seja um crítico da filosofia. Ambrósio denuncia que “os arianos abandonaram o apóstolo para seguir Aristóteles” (MORESCHINI, 2008, p. 437). 74 Na obra O sacramento da regeneração, Ambrósio ironiza a pretensão de platônicos de que a fonte das teorias e práxis cristã fosse Platão; na realidade, encontra dificuldade para entender a contribuição da filosofia em relação à teologia, porque compreende a superioridade da fé cristã diante da filosofia, que se apoia apenas na razão limitada do ser humano. Manzanares (1995) destaca que a obra de Ambrósio teve um conteúdo mais pastoral que especula- tivo, sendo assim, um tributário a utilizar em sua teologia os padres anteriores. Spanneut (2013) registra que Ambrósio distribuía sua riqueza aos pobres. Deixa como legado clássico o Sermão contra Auxêncio sobre a cessão das basílicas. Defendeu uma teologia fundamentada na trilogia: a fé, o Espírito Santo e a Encarnação, e sua perspectiva de pregações ancora-se na Bíblia e na defesa dos dogmas consolidados no Concílio de Niceia. O entendimento bíblico de Ambrósio centra-se na compreensão do Antigo Testamento como prefiguração do Novo Testamento. No Novo Testamento, dedica-se ao estudo do evangelho de Lucas. No plano moral, deixa registrada uma exortação aos clérigos, intitulada: Sobre os deveres dos clérigos, em que destaca as virtudes que deve possuir aquele que é ordenado. Jerônimo: nascido em 340, falecido em aproximadamente 410, é considerado o mais conhecedor dos padres da Igreja. Conhecia as línguas latina, grega e hebraica. Autor da tradução “Vulgata”, da Bíblia, em 406; seus trabalhos podem ser divididos em obras exegéticas, de caráter dogmático e homilias (REALE; ANTISERI, p. 74). Moreschini (2008) defende que Jerônimo, no plano teológico, limitou-se a repetir as declarações nicenas, não apresentando definições que pudessem contribuir para o aprofundamento teológico. Mas é na exegese bíblica que Jerônimo demonstra a profundidade de sua capacidade reflexiva. Com relação ao conhecimento da filosofia pagã, limita-se a demonstrar que conhece a Cícero mais profundamente e apresenta em seus textos teológicos elementos que o aproximam do estoicismo (MORESCHINI, 2008). Como exegeta, Jerônimo se interessa pela aritmologia e entende que em toda a Sagrada Escritura o número ímpar é muito ressaltado por Deus. Nisso é relevante dizer que, mesmo para os judeus, os números eram significativos metaforicamente e uma leitura meramente literal compromete uma interpre- tação mais fidedigna da Palavra de Deus. Jerônimo é o típico representante “da cultura do ocidente latino” (MORESCHINI, 2008). Rufino: falecido em 410, traduziu para o latim os padres gregos, como, por exemplo, Orígenes e, também, História Eclesiástica, de Eusébio de Cesareia. Manzanares (1995) afirma que somos devedores de Rufino por seu empenho para que as obras de Orígenes chegassem até nós. Rufino também contribuiu para a história do monacato. 75 Hilário de Poitiers: caracteriza-se como pensador que manteve uma condenação aos sistemas filosóficos que colocavam em dúvida a autentici- dade da fé cristã. Hilário viveu em tempos difíceis de luta contra o arianismo e a perseguição de Constâncio II (MORESCHINI, 2008). Embasado na cultura ocidental, entende a Deus como grandeza suprema (Summum Magnum), não podendo, assim, crer na existência de mais que um único Deus. Nesse sentido, um predicativo mais exaltado por Hilário de Poitiers é a infinitude de Deus, tendo como respaldo a leitura do livro de Êxodo 3.14 que exprime: “Eu sou aquele que sou”. Assim, “incompreensível e inexprimível é a infini- dade de grandeza e de extensão no tempo” (MORESCHINI, 2008, p.351). Seguindo a uma tradição que remonta a Lactâncio e a Tertuliano Hilário de Poitiers, descreve a natureza de Deus como incorpórea. Outro atributo de Deus, destacado por Hilário de Poitiers, é a impassi- bilis, impassibilidade. Isso significa que Deus mantém sua substância e seria impossível que se realizasse a tese da geração da segunda pessoa da trindade, como afirmavam os arianos. Para Hilário de Poitiers, Deus é inefável e incom- preensível e disso decorre que é inexprimível. Deus, assim, não pode ser expresso com palavras humanas, e qualquer esforço da razão humana para compreender a Deus é limitado e vão. Isso parece demonstrar uma influ- ência de Lactâncio sobre o pensamento de Hilário. Esse esforço teológico vem ao encontro do combate ao entendimento de que a filosofia poderia, por si mesma, chegar ao conhecimento de Deus. Sem medo de errar Você foi convidado para uma série de palestras numa determinada instituição de Ensino Superior sobre “Fé e Razão”. Ao ser convidado, o primeiro tema proposto foi a aposta sobre a existência de Deus em Blaise Pascal. O diálogo com os argumentos de Pascal provocou os acadêmicos a que pensassem sobre a questão das relações entre fé e razão. E acadêmicos levantaram o questionamento se teria existido um outro período histórico em que fé e razão foram pensados numa busca pela harmonia entre ambos. Você como palestrante falou sobre a Idade Medieval e, em especial, sobre o período da Patrística. Como foi aberto um fórum no ambiente EAD da insti- tuição, uma outra aluna comentou no fórum sobre a palestra de Blaise Pascal e afirmou que, segundo suas convicções, que não se deveria buscar provar a existência de Deus pela razão porque Deus deve ser compreendido pela fé, e não necessitamos provar a existência de Deus porque cremos nele. No final da palestra foi apontado sobre os Padres da Igreja, e a aluna também perguntou no fórum, gerando uma questão-problema a ser apresentada numa palestra: “Quais são os principais Padres da Igreja grega e latina e quais contribuições 76 possibilitaram a sistematização da fé cristã? Os Padres da Igreja aceitavam que a razão era importante no processo de estudo sobre a fé cristã ou eram fideístas e defendiam que apenas a fé deve iluminar a vida do cristão? Considerando que você é o palestrante, passamos a expor informações e argumentos para que tenha condições de responder à acadêmica e responder à situação-problema. Respondendo ao questionamento, informamos que os principais padres da Igreja que evidenciamos foram: Tertuliano; Minúcio Félix; Ambrósio; Rufino; Hilário de Poitiers, entre outros. Tertuliano é um dos maiores teólogos conhecidos da Antiguidade. No plano filosófico, aceita a filosofia como uma contribuição para se entender melhor a fé. Um crítico do gnosticismo que acreditava que pelo conheci- mento os homens poderiam se redimir. É de fundamental importância para Tertuliano a gratuidade da Revelação e da Mensagem da Palavra de Deus. Como já mencionamos, é dele a expressão que ficará consagrada na história da teologia chamada: Uma Substância em três Pessoas. Tertuliano também se esforça por defender uma fé cristã que considera a importância de não se desvalorizar qualquer pessoa da Santíssima Trindade. O filho de Deus é de igual natureza do Pai. Destacamos também Ambrósio, que se tornará bispo de Milão. Trata-se de um padre da Igreja contemplativo, ativo e intelectual. Seus textos dividem-se em textos exegéticos e textos dogmáticos. Há indícios de que Ambrósio tenha tido contato com a filosofia dos neoplatônicos e tal relacionamento teria influenciado sua teologia. Mas na obra O sacramento da regeneração, Ambrósio ataca os platônicos que sustentavam a tese de que as teorias cristãs tivessem como fonte Platão. Jerônimo é outro grande padre da Igreja que contribuiu principalmente comseu conhecimento linguístico na tradução da Sagrada Escritura e, por ser conhecedor das línguas em que foram escritas as Sagradas Escrituras, legou-nos grandes contribuições no plano exegético. Enfim, os padres da Igreja, em tempos difíceis souberam oferecer sua contribuição para a sistematização da fé cristã. Se até 313 os cristãos eram perseguidos pelo império, a partir de 313, os problemas teológicos povoaram os embates que os diversos padres da Igreja tiveram que enfrentar. O Concílio Vaticano II reafirmou que o Espírito Santo conduzia a Igreja e acreditamos nesta máxima porque justamente a Igreja, com sua reta doutrina, passou por tantas dificuldades sendo difícil postular que apenas com o esforço humano os padres da Igreja lograssem distinguir a reta doutrina das heresias. No contexto de uma filosofia cristã, é importante destacar que a filosofia é uma 77 grande aliada à sistematização da fé cristã; outrossim, os padres da Igreja manifestaram reservas quanto a uma filosofia que não aceitava a gratuidade da revelação ou limitava a ação salvífica de Deus para alguns. Faça valer a pena 1. “Tertuliano é apresentado comumente como o exemplo típico da atitude hostil do cristianismo em relação à filosofia, mas a essa sua imagem de inimigo da sapientia saecularis e da vanitas da filosofia contribui ele próprio ao longo de todos os anos de sua vida. Já a apologética grega havia tecido críticas à filosofia, tanto no plano geral como no plano de cada uma das teorias filosóficas [...] Tertuliano, porém, apresenta-se a seus correligionários e aos pagãos com uma indubitável ruptura (MORESCHINI, 2008, p.192). Conforme o enunciado e seus conhecimentos sobre Tertuliano, conside- rando esta aversão de Tertuliano pela filosofia, é correto afirmar que: a. Tertuliano condena toda filosofia que pretenda chegar à verdade sem a graça de Deus; assim, ele entende que o conhecimento, por si só, não é redentor do homem. b. Tertuliano era um neoplatônico convicto e usou a filosofia platônica para sistematizar a fé cristã. c. Tertuliano não fez nenhuma objeção à filosofia, sendo grande admirador dos filósofos. d. Tertualino contribuiu para o desenvolvimento da filosofia estoica, que transparece em seus escritos. e. São inexistentes fontes seguras sobre o padre da Igreja Tertuliano, portanto é inviável tecer afirmações a seu respeito e sobre sua relação com a filosofia. 2. “A obra de Ambrósio foi mais do tipo pastoral que teológico-especu- lativa e isso explica sua escassa abordagem nesse último terreno. É preciso lembrar também que sua eleição para bispo privou de realizar estudos teológicos sistematizados e, embora alguns testemunhos, como o de Santo Agostinho de Hipona, indiquem que ele tentou superar tal obstáculo, não parece ter conseguido. E é por isso que Ambrósio é tributário dos padres anteriores, aos quais ele recorre praticamente na totalidade das ocasiões” (MANZANARES, 1995, p.24). Considerando as informações apresentadas, analise as afirmativas a seguir: 78 I. Apesar de não ter se dedicado a aprofundar conhecimentos teoló- gicos, Ambrósio de Milão dedica-se ao estudo do Antigo Testamento como prefiguração do Novo Testamento e tem um apreço especial pelo estudo do Evangelho de Lucas. II. Ambrósio de Milão viveu no monastério e por isso produziu muitos escritos teológicos de grande profundidade, tendo em vista o tempo exclusivo de que dispunha para estudar. III. Ambrósio de Milão não pode ser considerado padre da Igreja porque foi um herético. Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em: a. I, apenas. b. I e II, apenas. c. II, apenas. d. III, apenas. e. II e III, apenas. 3. “Jerônimo (nascido entre 340 e 350 e falecido entre 410 e 420) foi, sem dúvida, o mais douto dos padres da Igreja latina, bastando citar seu perfeito conhecimento do latim, do grego e do hebraico. Por tais competências, o papa Dâmaso conferiu-lhe o encargo de rever as várias traduções latinas da Bíblia que circulavam então e que mostravam algumas discordâncias” (REALE e ANTISERI, volume 2, 2019, p. 74). Acerca de Jerônimo, julgue as afirmativas a seguir em (V) verdadeiras ou (F) falsas. ( ) Jerônimo é autor da tradução da Bíblia intitulada “Vulgata. ( ) Jerônimo era grande conhecedor das línguas em que foram escritas as Sagradas Escrituras. ( ) Jerônimo apresentou afirmações de fé que podem ser consideradas heréticas. ( ) Jerônimo só conhecia o grego, por isso não foi possível realizar a tradução da Sagrada Escritura, conforme lhe solicitara o Papa Dâmaso. 79 ( ) Jerônimo é considerado padre da Igreja, porque contribuiu para a siste- matização da fé cristã, um grande tradutor e exegeta. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA. a. V – V – F – F – V. b. V – V – V – F – F. c. V – V – V – F – V. d. F – F – F – F – V. e. F – F – V – V – F. 80 Seção 3 Santo Agostinho e o apogeu da Patrística Diálogo aberto Prezado acadêmico, considere que você foi convidado a ministrar uma série de palestras em uma instituição de ensino superior, a fim de discutir a temática “Fé e Razão”. A primeira palestra centrou-se em Blaise Pascal e a defesa da existência de Deus segundo esse mesmo pensador. Diante de um provável questionamento dos acadêmicos em relação a outro período da história da filosofia em que se tenha buscado harmonizar as relações entre fé e razão, você, palestrante, responderá afirmativamente, esclarecendo que tal fase ocorreu na Idade Média, com ênfase no período denominado Patrística. Você explicará que a Patrística foi um período em que os chamados padres da Igreja buscaram de todas as formas responder aos questionamentos reali- zados pela filosofia, procurando justificar a fé cristã. No decorrer da palestra, alguns acadêmicos mostraram-se fideístas, ao afirmar que a existência de Deus prescindiria da demonstração pela razão, como fazia Blaise Pascal, porque, para eles, a crença seria suficiente. Na verdade, os fideístas acredi- tavam que bastaria ter fé, sendo a razão totalmente desnecessária no processo de amadurecimento da fé cristã. Em um fórum, os alunos tiveram a oportunidade de interagir com você no ambiente virtual da instituição. Nessa unidade, foram apresentadas duas situações-problema em sessões anteriores que derivaram das postagens dos acadêmicos no fórum. Uma terceira, que foi escolhida, apresentava os seguintes questionamentos que constituem a situação-problema desta seção: (dirigindo-se ao palestrante, você, o acadêmico diz:), “Mas, você, professor, acredita que Agostinho de Hipona seja o ápice da Patrística? Eu li que era um maniqueu e que durante a sua juventude levou uma vida devassa. Como se caracteriza o ápice da patrística com Agostinho de Hipona (supondo que ele seja o ápice da patrística) e quais as contribuições que esse pensador ofereceu para o desenvolvimento da teologia? ” Como estava prevista uma palestra específica sobre Agostino de Hipona, passamos a sintetizar algumas informações basilares para que você possa responder aos questionamentos desse acadêmico que deve ser também a dúvida de muitos outros acadêmicos dessa instituição de ensino superior. Vamos lá! Acompanhe as informações que seguem que irão muni-lo de argumentos para o ensino da Patrística para esses acadêmicos, procurando evidenciar os motivos pelos quais Agostinho de Hipona é considerado um referencial. 81 Durante toda a fase da Patrística, percebemos uma tensão e uma busca de conciliação entre fé e razão. É com Agostinho de Hipona que se chega ao ápice e ao casamento perfeito entre fé e razão. Se alguns padres da Igreja não se dedicaram a questões teológicas porque estavam comprometidos com o múnus pastoral de ser sacerdote ou epíscopo, em Agostinho a atividade episcopal contribui para que ele se dedique às questões teológicas. De herege a adepto do maniqueísmo, Agostinho, em fase posterior, será um grande defensor da fé cristã por sua ortodoxia. É um períodonão mais de perseguições externas, mas de grande tensão interna na Igreja em razão das heresias. Nesse contexto, colocamos a situação-problema desta seção com os seguintes termos: Como se caracteriza o ápice da patrística com Agostinho de Hipona e quais as contribui- ções que esse pensador ofereceu para o desenvolvimento da teologia? Agostinho foi discípulo dos maniqueus. O maniqueísmo renegava o Antigo Testamento, acreditando na existência de dois princípios supremos: um do bem e outro das trevas. Bem e mal estariam em uma constante luta pelo domínio do universo. Agostinho, como relata nas “Confissões”, terá uma juventude devassa, buscando os prazeres da carne, mas alimentava a sede de se realizar, que não logrou saciar com os prazeres que encontrou em sua vida mundana. Um belo dia, tudo mudaria. Em Milão, deixou-se encantar pelas palavras de Santo Ambrósio; inicialmente foi atraído apenas pela capacidade retórica de Ambrósio; posteriormente, sentiu-se atraído pelo conteúdo da oratória do Padre da Igreja. Há registros de que ouviu de Ambrósio uma expli- cação sobre Gênesis 1.26: “Façamos o homem a nossa imagem e semelhança” e uma homilia, em que Ambrósio argumentava que a origem do mal teria princípio no uso inadequado de nossa liberdade (SARANYANA, 2006). Daí em diante, Agostinho vivenciaria uma verdadeira metanoia. Iluminado pela razão, percebe o quanto era equivocada a tese dos maniqueístas. É difícil identificar em Agostinho se ele seria um filósofo ou teólogo, porque, em sua obra, encontramos um enlace entre fé e razão, talvez jamais vista na história do pensamento (SARANYANA, 2006). No contexto filosó- fico “baseado sobretudo no neoplatonismo de Plotino, proclamava a supre- macia do espírito humano sobre a natureza, e de Deus sobre o espírito humano” (SARANYANA, 2006, p.71). Agostinho, após a conversão, percebeu que a razão exercia o papel de conduzir o ser humano à fé e, depois, o crente, para aprofundar-se nos caminhos da revelação divina (SARANYANA, 2006). A busca da verdade marcou do começo ao fim a filosofia de Agostinho e, se alguns padres da Igreja ainda se debatiam entre fé e razão, Agostinho era movido pela clareza de que a fé orientava a razão e ambas caminhavam juntas na trajetória rumo à verdade. Agostinho argumentava: “se tenho certeza de que penso algo, isto 82 é, se é verdade que penso, sou um ser pensante: eu penso” (SARANYANA, 2006, p.75). E, a partir dessa argumentação, a certeza de que existia, já que pensava e, se existia, tinha condições de examinar o conteúdo do seu pensa- mento e assim encontrar verdades. A verdade suprema seria que Deus viria ao seu encontro iluminar seu pensamento, porque esse mesmo Deus, sendo infinito, não poderia ser conhecido plenamente sem as luzes da graça divina. Se em Confissões Agostinho expõe sua trajetória de conversão e de encontro com o Senhor, em A Cidade de Deus Agostinho evidenciará a tensão existente entre a cidade dos homens e a cidade de Deus (Jerusalém Celeste). A Igreja celeste só se realizaria plenamente quando ocorresse a parusia, que seria a glória definitiva daqueles que haviam persistido na reta fé e perma- necido fiéis na prática do bem. Aqueles que vivessem segundo os desígnios de Deus viveriam de modo diferente, porque seu olhar vislumbraria a eterni- dade e não apenas as coisas deste mundo. Esperamos que, com essas informações preliminares, você tenha condi- ções de responder ao questionamento do aluno no fórum. Aprofundaremos nesta seção nosso conhecimento sobre o grande Agostinho de Hipona. Não pode faltar Vida e obra de Agostinho Nascido no ano 354, em Tagaste (atual Souk Ahras), parte setentrional da África, atualmente pertencente à Argélia, era filho de pai pagão, mas sua mãe, Mônica, era cristã e dedicou a vida a orar pela conversão do filho que viveu uma vida devassa em parte de sua juventude, mas que, ainda nessa mesma fase da vida, teve contato com uma obra de Cícero que moveu seu interesse pela filosofia (HIRSCHBERGER, 1966). Agostinho também foi ouvinte do maniqueísmo e a mãe lutou tenazmente para que o filho abando- nasse tal heresia. Após terminar seus estudos, residiu em Tagaste e, poste- riormente, mudou-se para Cartago. Na sequência, fixou-se em Milão e, no contato com o bispo Ambrósio, rendeu-se ao cristianismo, vindo a batizar-se em 387. Em 391, foi ordenado sacerdote; em 395, tornou-se bispo de Hipona (HIRSCHBERGER, 1966). Na obra Confissões, Agostinho revela as tensões que o moviam na vida espiritual em sua trajetória até o encontro com Deus. Agostinho não buscava fora de si mesmo respostas para suas angústias; era em si mesmo, na sua intimidade, que se encontraria com Deus. Foi preciso distan- ciar-se dos apelos da carne para buscar as evidências espirituais (DUTRA e HEBECHE, 2008). 83 Cidade de Deus, uma das principais obras de Agostinho, é uma espécie de advertência aos gentios. Talvez por ser extensa, não tenha atraído tantos leitores. Trata da tensão entre a cidade mundana e a cidade de Deus, a Jerusalém Celeste. Apesar de haver ocorrências boas neste mundo, mas que é tão marcado pelo pecado, os cristãos eram chamados a viver como não se fossem deste mundo e, sim, como herdeiros da Jerusalém Celeste (DUTRA e HEBECHE, 2008). Com Cidade de Deus, a história que, para os gregos, era cíclica, assumiu um significado diferente, porque passou a ter um princípio com o ato criador e um final com o fim do mundo (REALE e ANTISERE, volume 2, 2019). Assim, se para os gnósticos o homem bom era aquele que conhecia, para Agostinho o homem bom era aquele que amava: “Ama e faze o que quiseres” – diz Agostinho. Exemplificando A primeira influência religiosa recebida por Agostinho veio de sua mãe, mulher simples, mas possuidora de grande fé; perseverante na oração e nas orientações, Mônica conseguiu a conversão do filho. Uma segunda influência recebida foi o contato com a obra “Ortensio”, de Cícero. Trata-se do encontro que possibilitou a conversão de Agostinho à Filosofia (REALE; ANTISERI, 2019). Em Milão, Agostinho teve encontros que marcariam a sua existência; podemos citar: o encontro com o epíscopo Ambrósio (a respeito de quem dissertamos em seção anterior) que ensinou Agostinho a amar e a conhecer as Sagradas Escrituras; o encontro com os livros dos neoplatônicos, com os quais concordou sobre a realidade imaterial e sobre a inexistência ontológica do mal; o encontro com os escritos de Paulo, com o que aprendeu a entender que a salvação se efetivaria pela graça divina (REALE; ANTISERI, vol.2, 2019). Os últimos anos de Agostinho foram caracterizados pela luta contra os heréticos. Até 404, Agostinho empenhou-se na luta para dizimar com os maniqueístas; posteriormente, dedicou-se a enfrentar os donatistas. A grande contenda contra os donatistas ocorria por estilo de exclusão daqueles que, em razão das perseguições, haviam abandonado a fé cristã. Donato também insistia em duvidar da eficácia do sacramento ministrado por um clérigo em estado de pecado. Em 412, Agostinho confrontou-se com o pelagianismo, que considerava desnecessária a graça para a salvação. Para os partidários dessa doutrina, bastaria a prática de boas obras (REALE; ANTISERI, 2019). Baseamo-nos em Reale e Antiseri (2019) para construir o quadro que apresenta as principais obras de Agostinho de Hipona: 84 Quadro 2.2 | Principais obras de Agostinho de Hipona Período Obras Cassiciaco Contra os acadêmicos; A vida feliz; A ordem; Os solilóquios, A imortalidade da alma; A quantidade da alma; O mestre e a música. Obra-prima dogmático- filosoficoteológica A Trindade Obra-prima apologética Cidade de Deus Escritos Exegéticos A doutrina cristã; Comentários literais ao Gênesis; Comentá-rios a João; Comentários aos salmos Obras contra os maniqueístas Sobre os costumes da Igreja Católica e os costumes dos ma- niqueus; Sobre o livre-arbítrio, A verdadeira religião; Sobre o Gênesis contra os maniqueus Obras contra os donatistas Contra a carta deParmeniano; Sobre o batismo contra os donatistas; Contra Gaudêncio, bispo dos donatistas Escritos polêmicos antipelagianos O espírito e a letra; Sobre a gesta de Pelágio; A graça de Cristo e o pecado original Obras que inauguraram gêneros literários novos Confissões e as Retratações Fonte: adaptado de Reale e Antiseri (2019, p.84-85). Agostinho não era um fideísta. Para o bispo de Hipona, a fé não suprime a razão e a inteligência; a inteligência, por sua vez, clarifica a fé. Se com os padres gregos houve um ensaio de se unir a fé e a razão, agora, com Agostinho, há um casamento perfeito entre fé e razão. Trata-se do ápice da Patrística. Diferentemente dos pré-socráticos, que valorizavam o cosmos e o elemento primordial, Agostinho, com a Patrística, valoriza a interioridade do homem e, nesse sentido, As confissões é a obra central para se entender essa intros- pecção de Agostinho (REALE; ANTISERI, 2019). Prova da amizade entre fé e razão está na assertiva: “o homem é uma alma que se serve de um corpo”; porém, à luz da mensagem cristã, Agostinho profetiza que “o homem interior é a imagem de Deus e da Trindade” (REALE; ANTISERI, 2019). Reflita Você já pensou como na atualidade se valoriza a razão acima de todas as coisas e a fé passa a não ser valorizada? Ao contrário de Agostinho, Augusto Comte foi um pensador que defendeu que a humanidade teria passado por três estados: o teológico, o metafísico e o positivo. Infelizmente, o pensamento de Augusto Comte influenciou a ciência atual e muitos acreditam que valorizar a fé é algo ultrapassado e retró- grado. Você também concorda com isso? Já pensou em escrever um 85 artigo justificando suas razões para acreditar em Deus mesmo num período pós-positivismo? Embora grande parte da obra de Agostinho seja dedicada ao combate das heresias, em perspectiva menos embativa encontramos Do ensinamento cristão, que se constitui uma obra de riquíssima catequese sobre a cultura cristã. Por outro lado, a obra de Agostinho é particularmente exegética; o que se evidencia em suas Explicações dos Salmos, que se alongam por quase duas mil páginas. No centro da produção teológica de Agostinho está Cristo, não apenas como um ser histórico, mas que caminha sempre vivo com a Igreja (SPANNEUT, 2002). Realizadas essas primeiras considerações, passamos a expor as bases filosóficas do seu pensamento. Base do pensamento filosófico No pensamento de Agostinho encontramos a formulação de alguns conceitos que passamos a expor na sequência. Verdade: no caminho reflexivo sobre a verdade, Agostinho, ainda por influência do maniqueísmo, parte da dúvida para atingir a verdade. Posteriormente, Agostinho passa a considerar a verdade não como a filosofia antiga a concebeu (partindo dos transcendentais), mas ancoran- do-a em fatos de evidência imediata, aproximando-se do que posteriormente Descartes adotaria ao propor o cogito e a dúvida como centro da filosofia (HIRSCHBERGER, 1966). O conceito de verdade assumido por Agostinho, para ser entendido como verdade, deveria ser necessário e eterno. As fontes da verdade repre- sentavam a experiência sensível, o Espírito e a teoria da iluminação. Embora reconhecesse a contribuição da experiência do sensível, Agostinho consi- derava insuficiente tal condição para chegar à verdade. Para o bispo de Hipona, no interior do homem se encontraria a verdade. Agostinho propôs a teoria da iluminação. Remontou o termo iluminação à Sagrada Escritura, que previa que Deus iluminava os caminhos do ser humano. O fundamento último da verdade eterna eram as verdades eternas presentes na mente divina (HIRSCHBERGER, 1996). Existência de Deus: é com as próprias limitações humanas que nos deparamos com a possibilidade de chegar até o transcendente, que é Deus. Deus é o ser perfeito sem o qual não existiria o imperfeito. Agostinho foi influen- ciado pelo neoplatonismo no que diz respeito à ascensão ao inteligível. Assim 86 como na teoria platônica, podemos nos afastar do mundo sensível e caminhar rumo ao mundo inteligível; no caminho da santidade nos afastamos daquilo que é mundano e caminhamos rumo àquilo que é divino (HISCHBERGER, 1966). Em Confissões, o bispo retratou bem o seu caminho de conversão e o encontro íntimo com Deus, quando apresentou seu encontro com o sagrado: “Tarde te amei, ó beleza, ó velha e nova beleza, tarde te amei; e vê, tu estavas em meu íntimo e eu fora a procurar por ti“ (X, 27,38). Um dos entendimentos de Agostinho para a verdade é a da verdade suprema que coincide com Deus. Assim, todo aquele que busca a verdade, mesmo sem saber, está buscando a Deus. Seguindo a lógica desse raciocínio, quando conse- guimos demonstrar a existência da verdade também conseguimos explicitar a existência de Deus. Nesse sentido, Reale e Antiseri (2019) nos orientam: Ser, Verdade, Bem (e Amor) são os atributos essenciais de Deus para Agostinho. Sobre o primeiro, Agostinho se exprime com clareza, unindo a ontologia grega com a revelação bíblica. Os gregos tinham dito que Deus é o ser supremo (a substância primeira), na Bíblia Deus diz de si mesmo: “Eu sou aquele que é”. Justamente enquanto ser, Deus, criando as coisas, participa com eles o ser, mas não o Ser sumo, como ele é, e sim um ser com diferentes graus em escala hierár- quica. (REALE; ANTISERI, 2019, p. 93) Alma: Agostinho dedica parte de sua teologia a dissertar sobre o conheci- mento da alma. Percebe no ser humano uma integralidade entre corpo e alma; mas considera que é a alma que deve governar o corpo (HIRSCHBERGER, 1966). Para ele, a alma possui uma natureza incorpórea e é imortal. Acredita Agostinho que a alma deve ser criada, corrigindo Orígenes que teria defen- dido uma preexistência da alma. Assimile Marías (2004) discorre acerca da centralidade no conceito de alma na filosofia agostiniana. A alma pode receber uma iluminação sobrenatural do Ser Supremo e, assim, dirigir-se e inclinar-se para esse mesmo Ser, Deus. Sobre o modo de criação da alma, Agostinho titubeia na resposta, assim como todos os padres da Igreja. No interior de cada um de nós existe uma lei moral que orienta nosso agir moral, cuja fonte é Deus. Agostinho de Hipona valoriza a interioridade humana como caminho para o encontro com Deus. Uma das grandes contribuições de Agostinho foi a de cristianizar a ética e colocar, como centro de sua ética, o amor. 87 O amor que se vivencia nas relações com os demais humanos e com a criação, cuja fonte principal é Deus (DALL’AGNOL, 2008). Felicidade: a felicidade última do ser humano decorre da prática do amor, assim, “a felicidade já não é o pensamento do pensamento, mas a plenitude do amor na identificação da vontade como seu fim” (HIRSCHBERGER, 1966, p.57). É preciso, para Agostinho, inclinar-se para o supremo Bem, que é Deus, para atingir a eudaimonia (felicidade). Agostinho refletiu e escreveu com relação ao assunto felicidade durante toda a sua vida. Na obra Contra os acadêmicos (Livro I), já tematiza a relação entre verdade e felicidade. Há também um pequeno tratado em que Agostinho dedica-se ao tema da felici- dade, qual seja: De beata vita (A vida feliz). Encontramos no Livro X, das Confissões, uma compreensão agostiniana de que realmente sabe o que é ser feliz quem vivencia a felicidade em sua vida (MATTHEUS, 2007). Fé, filosofia e vida no pensamento de Santo Agostinho Uma das máximas de Agostinho apresenta um contexto de sua filosofia: “crer, mesmo que absurdo” (Credo quia absurdum). A motivação para essa máxima é atribuída à tradição do apóstolo Paulo, que apregoava a cruz como loucura para os gregos e absurdo para os gentios. A fé exerce primado sobre o conhecimento apenas racional, o que não quer dizer que se devam negar os auxílios da razão (DUTRA e HEBECHE, 2008, p.114). Agostinho interessou-se pelo maniqueísmo por nove anos. O manique- ísmo era uma versão diferenciada do gnosticismo. Os que professavam tal doutrina consideravam-se os “eleitos”. Os maniqueístas, além denegarem o Antigo Testamento, acreditavam na existência de dois princípios basilares: o bem e o mal. Do ponto de vista cristológico, valorizava mais o sofrimento de Cristo do que a ressurreição. Apesar dessa fase maniqueísta, Agostinho continuou a ler as obras de Cícero, e o filósofo, enquanto permaneceu em Milão, teve contato com os neoplatônicos, que influenciaram seu pensamento. Depois, no contato com o bispo Ambrósio, Agostinho modificou os rumos de sua existência. Ambrósio era conhecedor do neoplatonismo e, no plano cristão, era versado nas cartas paulinas. Agostinho dedicou grande parte do seu episcopado a combater o donatismo. De adepto do maniqueísmo, Agostinho tornou-se inimigo dessa heresia, como também do donatismo. Agostinho não esmoreceu em sua luta, enquanto não viu esfacelar a doutrina donatista (DUTRA e HERBECHE, 88 2008). Em 400, Agostinho escreve Do batismo, obra na qual renega a tese donatista que apregoava que o sacerdote que não estivesse em estado de graça não batizaria validamente; o bispo de Hipona ressaltava que, em última instância, era Cristo quem batizava, na pessoa do sacerdote, independente- mente da santidade de quem ministrasse o sacramento. Outra heresia que ocupava o pensamento de Agostinho era o pelagia- nismo. O pelagianismo apresentava-se como uma das heresias a que Agostinho de Hipona se dedicou a combater. Acreditava o pelagianismo que o ato de poder do ser humano em aperfeiçoar-se seria sinal de que o ser humano poderia ser perfeito. Pelágio não aceitava que pecadores parti- cipassem da Igreja, seria necessário separar os eleitos dos impuros. Pelágio questionava o pecado original e “sem o fundo do pecado original, a teologia pelagiana atribuía ao cristão a responsabilidade de ser ou não ser perfeito” (DUTRA e HEBECHE, 2008, p.137). A tese de Pelágio, da não existência do pecado original, acabou por colocar um questionamento sobre a neces- sidade e eficácia do batismo. Como o donatismo, o pelagianismo defendia a não universalidade da Igreja e a redução a um grupo de escolhidos. O pelagianismo também defendia em sua doutrina o pressuposto de uma autorredenção humana; cada um diante de Deus seria seu próprio redentor (DUTRA e HEBECHE, 2008). O mal em si, para Agostinho, não existia. O mal não seria uma substância. Mal seria uma degeneração do bem. Deus não havia criado o mal, havia dotado o ser humano de liberdade, o ser humano corrompeu-se e permitiu que o mal entrasse no mundo. Enfim, Agostinho inaugurou um período em que, apesar de terem cessado as perseguições externas, a Igreja viveria um clima de tensão interna pela presença dos hereges. As Confissões de Agostinho demons- tram muito bem como ele não separou em sua vida a teoria e a prática. Agostinho entendia a prática do amor como cerne da moralidade cristã e, assim, a filosofia e a vida não se separavam; pelo contrário, ele teve uma percepção completa da filosofia e da teologia que era por ele assumida e vivenciada (BOEHNER e GILSON, 2012). Sem medo de errar Retomando a questão-problema, você foi convidado a pronunciar uma série de palestras sobre fé e razão numa determinada instituição de ensino superior. Ocorre que a primeira palestra foi sobre Blaise Pascal, grande pensador, na qual você argumentou sobre a existência de Deus. Vale ressaltar que, para Blaise Pascal, era mais inteligente acreditar que Deus existia porque, acreditando em tal existência, ganharia tudo; ao contrário, ao apostar em uma não existência de Deus, perderia tudo. 89 Assim, ao final da palestra, os presentes fizeram vários questionamentos sobre outro período da história da filosofia quando a existência de Deus teria sido questionada. Você (palestrante) explicou que a Idade Média foi marcada como um período em que se buscou conciliar razão e fé. Também foi aberto um fórum no ambiente virtual da instituição no qual se partilharam percep- ções acerca da palestra sobre Blaise Pascal. Já apresentamos duas situações- -problema, nas quais evidenciamos questionamentos dos acadêmicos em relação à Patrística. Um terceiro acadêmico questionou sobre Agostinho de Hipona nos seguintes termos: Mas, você, professor, acredita que Agostinho de Hipona foi o ápice da patrística? Eu li que era um maniqueu e que durante a sua juventude levou uma vida devassa. Como se caracterizaria o ápice da patrística com Agostinho de Hipona (supondo que ele tenha se destacado para elevar a Patrística ao ápice) e quais as contribuições que esse pensador ofereceu para o desenvolvimento da teologia? Como você responderia? Passamos a auxiliá-lo na elaboração de uma resposta para esse acadêmico. Algo muito importante na mensagem do cristianismo: é o perdão. Jesus nos ensina que devemos perdoar não apenas sete vezes, mas setenta vezes sete. Assim, o perdão universal é uma das grandes vantagens do anúncio do evangelho. Nesse sentido, sempre é possível converter-se, passar por uma metanoia (conversão). E isso foi justamente o que ocorreu com Agostinho de Hipona. A Igreja entendeu que tudo ocorreu em razão do zelo de Mônica pelo filho, em orientá-lo a seguir a fé cristã e pela constante oração pela conversão do filho. É inegável que Agostinho realmente tenha sido um maniqueu e tenha tido uma juventude pecaminosa; mas converteu-se, foi batizado, seu pecado perdoado e viria a tornar-se um dos maiores bispos que a história da Igreja conheceu. Assim, a primeira parte do questionamento foi solucionada, tendo em vista a própria mensagem da fé cristã, que é uma mensagem de convite à conversão e à mudança de vida, e Agostinho mostra na obra Confissões a sua trajetória de conversão e de mudança até se encontrar com o Senhor. Quanto às contribuições de Agostinho de Hipona, ele foi ao mesmo tempo um grande filósofo e um grande teólogo. Do ponto de vista da filosofia, sua compreensão da verdade entende Deus como a verdade por excelência e garantia da existência da verdade. Como teólogo, destacou-se por atuar como exímio conhecedor das Sagradas Escrituras e ferrenho defensor no ataque da Igreja contra as heresias. As heresias principais que combateu foram contra os donatistas e contra o pelagianismo. Se as perseguições aos cristãos haviam cessado no período histórico de Agostinho, não tinham cessado, por outro lado, as perseguições internas da Igreja em razão das heresias. Hipona nunca mais será a mesma depois da presença de Agostinho, que é considerado o ápice da Patrística, porque, se com os outros padres da Igreja houve um 90 esforço para consolidar a união entre fé e razão, com Agostinho ocorreu uma convergência entre fé e razão, e ele buscou eliminar qualquer possível contra- dição nesse diálogo. Faça valer a pena 1. Considere o texto base: “Aurélio Agostinho nasceu em 354, em Tagaste, na África romana. Seu pai, Patrício, era pagão; sua mãe, Mônica, cristã, e ela exerceu sobre o filho uma profunda influência. Passou a sua meninice e a adolescência entre Tagaste e Cartago. De temperamento ardente, rebelde a todos os freios, levou nesse período uma vida desordenada e dispersa de que se acusou asperamente nas Confissões” (ABBAGNANO, 1976, p.123). Considerando seus conhecimentos sobre a trajetória de Agostinho, é correto afirmar: a. Agostinho foi ouvinte dos maniqueístas e, depois da conversão, tornou-se um defensor da reta fé cristã, tendo defendido o cristia- nismo de diversas heresias, entre elas o donatismo e o pelagianismo. b. Agostinho foi um bispo pouco interessado em questões teológicas, cumpriu apenas com seu múnus pastoral. c. Agostinho, no final da vida, acabou como herege, professando o pelagianismo. d. Agostinho sempre viveu como bom cristão, não tendo tido contato com falsas doutrinas, e isso fez dele um grande teólogo. e. Na obra Cidade de Deus, Agostinho apresenta suas confissões e sua autobiografia demonstrando seu caminho de conversão a Deus. 2. “Agostinho (354-430) é o mais importante dentre os padres da Igreja. Seu itinerário espiritual e filosóficofoi muito articulado: a mãe, Mônica, pela firme e tenaz fé, e o bispo Ambrósio, que lhe ensinou o método da exegese alegórico-filosófica da Bíblia, tiveram papel decisivo na sua conversão ao cristianismo. Sua formação cultural foi, sobretudo, de língua e de inspi- ração latina, marcada quando muito pela retórica, disciplina que Agostinho ensinou na África e em Milão” (REALE; ANTISERI, 2019, p.82). Considerando o enunciado e seu conhecimento sobre Agostinho de Hipona, analise as afirmativas a seguir: I. Agostinho de Hipona teve como influência em sua vida cristã Mônica, sua mãe, e Ambrósio, bispo de Milão. 91 II. Agostinho, mesmo depois de convertido, continuou profes- sando o maniqueísmo. III. Agostinho não apreciava a retórica, dizia que o conhecimento da retórica era defendido pelos maus para manobrar a massa da população. IV. Agostinho vivenciou a doutrina teológica que professou, assim, há uma íntima conexão entre sua teoria e sua vida. V. Tanto Agostinho como Mônica, sua mãe, foram declarados santos pela Igreja, tendo em vista a vida exemplar como cristãos, e Mônica, principalmente por seu esforço como mãe no processo de conversão de Agostinho. Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em: a. I, apenas. b. II e III, apenas. c. I, IV e V, apenas. d. IV e V, apenas. e. V apenas. 3. “A força vital do pensamento agostiniano surgiu da sua experiência vital. Nasceu na cidade africana de Tagaste, no ano 354, de pai pagão e mãe cristã (Santa Mônica). Recebeu ali sua primeira instrução escolar e conheceu a doutrina cristã, embora não fosse batizado, segundo um costume então muito difundido. Em 370, começou seus estudos de retórica em Cartago e, três anos depois, caiu em suas mãos uma obra que influiria profundamente em sua maneira de pensar, o Horten- sius de Cícero, hoje perdido. A partir desse instante, nasceu nele a paixão por alcançar a verdade, que não o abandonaria até sua morte” (SARANYANA, 2006). A respeito de Agostinho de Hipona, julgue as afirmativas a seguir em (V) verdadeiras ou (F) falsas. ( ) Na obra Confissões, Agostinho revela as tensões que o moviam na vida espiritual em sua trajetória até o encontro com Deus. ( ) A obra Cidade de Deus apresenta as tensões entre a cidade mundana e a cidade de Deus. 92 ( ) A primeira influência recebida na formação cristã de Agostinho veio de seu pai, que era um cristão devoto e que orou a vida toda pela conversão do filho. ( ) Agostinho não é um fideísta. Para ele, a fé não suprime a razão e a inteli- gência; a inteligência, por sua vez, clarifica a fé. ( ) Agostinho foi indiferente às heresias do seu tempo; levava sua vida de bispo como se não houvesse heresias em sua época. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a. V – F – V – V – F. b. V – V – F – V – F. c. V - V - V – F – V. d. V – F – V - F – F. e. F - V - V - V – F. Referências ABBAGNANO, N. História da Filosofia. Barcarena (Portugal): Editorial Presença, 1976. BOEHNER, P.; GILSON, E. História da Filosofia Cristã. 13ª ed. Petrópolis: Vozes, 2012. BOGAZ, A. 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Os Padres da Igreja: São Paulo: Loyola, 2002., Unidade 3 Patrícia Graziela Gonçalves A gênese da escolástica Convite ao estudo Chegamos à terceira unidade de nosso percurso pela história da filosofia medieval, e o tema aqui é a gênese da escolástica. E sim, a palavra gênese significa nascimento. Mas, de que, exatamente? Num primeiro momento, de um método de estudo, dentro das escolas medievais, que objetivava a formação clássica, entendida como formação essencial para a compre- ensão das Sagradas Escrituras e que, mais tarde, designou a própria filosofia medieval dos últimos séculos. Até aqui, você estudou como o surgimento e o desenvolvimento do cristianismo mudaram a maneira de pensar e de fazer filosofia no Ocidente. Os primeiros pensadores cristãos procuraram se afastar completamente do mundo pagão, mas não puderam se isentar da influência das filosofias daquele mundo. Daí surgiu o pensamento patrístico, que representa o aspecto cristão do pensamento antigo. O pensamento da escolástica, por outro lado, repre- senta toda a era medieval. Neste momento, a ênfase é dada nas escolas monacais, episcopais e palatinas. Isto porque, após a queda do Império Romano do Ocidente, a Igreja tornou-se a principal força agregadora da Europa. O poder dela se estendeu da política à moral, e a coroação de Carlos Magno pelo Papa Leão III é o sinal mais evidente dessa força política. No campo moral, a necessidade de justi- ficar a fé e interpretar os acontecimentos do cristianismo sob novo prisma é o impulso para as investidas em direção a um pensamento mais racionalmente elaborado. A filosofia, neste período, se torna a serva da teologia. Na segunda seção, o objetivo é discutir a questão dos universais, apoian- do-se nas construções teóricas de Anselmo de Aosta e Pedro Abelardo. Ela pode ser entendida por duas questões básicas: 1. Os universais são reais?; 2. O universal é apenas um conteúdo da nossa mente? O universal, aqui, deve ser entendido como a ideia, o conceito. Anselmo de Aosta afirma que os universais são reais e integram o grupo dos realistas, ao passo que alguns, como Roscelino, apontam que os universais estão somente na nossa mente e são chamados de nominalistas. Pedro Abelardo será uma figura singular neste debate, pois, se com algumas restrições ele pode ser colocado entre os nominalistas, sua posição intermediária indica que ele defende o conceptualismo. A terceira seção é dedicada à Escola de Chartres, que ganhou destaque por seus estudos das leis da natureza. Ela, apesar de manter a tradição dos programas de estudo, apresenta uma inovação ao estudar o reino da natureza. A utilização de Platão e de outros autores antigos também estará presentes nos estudos dessa escola. O estudo das origens da escolástica deve ser visto de maneira desafiadora, pois implica compreender uma época de mudanças e as motivações portrás das construções teóricas. Se o estudo é desafiador, deve ser visto também como prazeroso, pois descortinar as bases de um sistema de pensamento é sempre uma realização fantástica. Então, vamos juntos encarar esse desafio! 97 Seção 1 O surgimento das universidades Diálogo aberto O estudo da gênese da escolástica passa, necessariamente, pela compre- ensão das finalidades da educação no Ocidente medieval, verificadas a partir da análise da reelaboração dos programas de ensino das escolas palacianas, episcopais e monacais – estas últimas, centros de preservação da cultura antiga devido ao papel fundamental dos monges copistas na reprodução de diversas obras –, projeto iniciado por Carlos Magno e que influenciou o posterior surgimento das universidades e o desenvolvimento da filosofia escolástica. Faremos isso por meio de uma situação-problema, que servirá de base para nossas reflexões. O renomado pesquisador Igor Aranha foi convidado para palestrar no “Ciclo de palestras: origens escolásticas da filosofia contemporânea” e resolveu focar em algumas questões importantes. Logo no início da sua fala, apresentou a trama presente na obra O nome da Rosa, publicada em 1980 pelo italiano Umberto Eco. O romance se passa no ano de 1327 e tem como pano de fundo a designação do frei Guilherme de Baskerville para investigar as heresias que estavam acontecendo em um mosteiro beneditino. O caso fica mais dramático quando sete monges morrem em sete dias, durante a estadia do frei no mosteiro. O desenrolar do romance leva diretamente a uma biblio- teca secreta que havia no mosteiro com livros que tinham sido proibidos de circular. Na sequência, Igor Aranha afirma que o romance contém um ambiente fantástico para discussão: um mosteiro com uma biblioteca e livros proibidos. Nesse sentido, faz algumas perguntas para a plateia: até que ponto o caráter religioso das reformas educacionais iniciadas por Carlos Magno impossibi- litou a leitura de livros considerados pagãos? Apesar de seguir uma orien- tação moral religiosa, qual foi o impacto dessas reformas educacionais para a Europa do medievo? Como se dava a instrução desse período e qual doutrina era seguida? Qual é a importância de compreendermos a escolástica hoje? Você está na plateia e precisa responder a essas perguntas ao final da palestra. E agora? É hora de se enveredar pelos fascinantes meandros da gênese da escolástica, compreendendo os impactos das reformas educacio- nais que levaram à criação das universidade e como isso pode ser percebido como o nascimento da filosofia escolástica. 98 Não pode faltar As escolas monacais, episcopais e palatinas e o nascimento da escolástica Antes de adentrarmos nas particularidades das escolas medievais e no consequente surgimento de uma das instituições mais longevas da história humana – a universidade –, será necessário fazer uma breve retrospectiva histórica para compreendermos os processos que levaram à constituição desse fenômeno. Começaremos com o contexto pós-queda do Império Romano do Ocidente (Roma), por volta do século VI, quando se observam aconte- cimentos políticos significativos que contribuíram para a configuração da Europa como a conhecemos. Neste momento histórico, os reinos bárbaros já estavam firmemente implantados, e as únicas autoridades políticas romanas eram a Igreja e o Papado. Importa observar que não foi por acaso que a sede da Igreja se estabe- leceu em Roma. Isto porque ela foi, pouco a pouco, ocupando o vazio de poder deixado pelo Império Romano do Ocidente. Aos poucos, o poder do antigo império foi substituído pelo poder religioso, e foi a Igreja quem, por muitos séculos, ditou as leis e regras para a sociedade. Entretanto, o Império do Oriente – Constantinopla – conservou a sua unidade e força, o que lhe permitiu tentar reconquistar o Ocidente. Constantinopla só caiu muito mais tarde, no século XV. Em relação à escola, tanto na Grécia como em Roma, “os meninos não estudavam para se tornarem bons cidadãos ou para praticar um ofício, estudavam para adornar o espírito, para se instruir nas belas letras” (VEYNE, 1989, p. 33). Para Veyne (1989), é um erro imaginar que a função da escola era a de formar o indivíduo, ou torná-lo apto para as regras sociais. Como diz o autor, “em Roma não se ensinava matérias formadoras nem utilitárias e sim prestigiosas e, acima de tudo, retórica (1989, p. 33). Sobretudo, a educação vai confiar a criança ao espaço social, e não à escola. Em outras palavras, a importância da educação como a conhecemos hoje é um produto da modernidade, ou seja, só aparecerá nesse formato após século XV. Nunca, em toda a história, a instrução teve o papel de formar o homem para o exercício de uma profissão, mesmo que a escola sempre tenha existido. E para que servia a instituição escola nas sociedades preté- ritas, tais como Grécia, Roma, Alexandria ou Síria? Era para profissionalizar o homem? Certamente, não, e é exatamente isso que mudará radicalmente com o advento da modernidade: os objetivos e fins da educação. 99 Esta mudança se deveu a vários fatores, dentre eles, o declínio do feuda- lismo, o início do capitalismo e a ascensão da burguesia. Foi esta quem ressignificou o sentido da escola e conferiu valor à formação. A partir daí a instrução formal ganhou importância e passou a ser fator de status e de diferenciação social (CAMBI, 1999). Como apontou o autor, é necessário ter claro que o povo, durante a Idade Média e a Idade Moderna, era analfabeto. Todo o conhecimento que ele tinha dizia respeito às suas crenças, às tradi- ções e ao senso comum. O monopólio da educação em praticamente toda a Idade Média pertencia à Igreja e, ainda que a cultura do povo fosse limitada, “a centralidade atribuída a fé cristã e a visão de mundo, chega a ele por muitas vias alternativas à escrita: sobretudo através da palavra oral e da imagem” (CAMBI, 1999, p. 179). Isto posto, voltemos à escola no medievo. Com a derrocada de Roma, gradualmente, as escolas estatais romanas foram desaparecendo e cedendo lugar à escola cristã, sobretudo, à escola episcopal nas cidades (clero secular) e às escolas cenobíticas (clero regular) no campo. Todavia, o nível cultural reinante era muito baixo, tanto entre os bárbaros como entre os homens da Igreja e os representantes do império. Muitos bispos foram funcionários romanos dos reis bárbaros (MANACORDA, 1992). O clero secular que habitava as cidades por muito tempo ainda conservou a cultura clássica. Já o clero regular, residente nos mosteiros, rejeitou essa cultura, substituindo, gradativamente, a cultura literária pela religiosa. Nas escolas monásticas, portanto, o que predominou foi a cultura ascética ligada aos estudos dos textos sagrados e aos saltérios, destinados à formação espiritual do homem medieval (CAMBI, 1999). Da mesma forma, as escolas episcopais que foram se constituindo nas cidades, no entorno da jurisdição de um bispo, tinham como objetivo, unicamente, fornecer formação ao clero secular e aos leigos ligados à Igreja. Destaca-se, em primeiro lugar, que o objetivo dessa educação era a formação do monge. Os meninos começavam por volta dos 6 ou 7 anos e, entre os mosteiros, os da ordem beneditina alcançaram máximo desenvol- vimento até se converterem no eixo da educação monástica do Ocidente. Os principais mosteiros foram os de Monte Cassino, na Itália; de York (ou Iorque), na Inglaterra; de Fulda, na Alemanha; de São Gall, na Suíça; e de Tours, na França. Evidentemente, outras ordens foram, aos poucos, progre- dindo e colaborando para a educação do medievo, tais como os cluniacenses, cistercienses, franciscanos e dominicanos (LUZURIAGA, 1975). 100 Assimile Os mosteiros não eram fundados com a finalidade de propagar a educação, mas de oferecer uma intensificação da vida comunitária para aqueles que queriam se afastar da vida mundana. No entanto, a uma certa altura, não era possível pressupor que os novos irmãos chagassemao mosteiro sabendo ler e escrever. Assim, o próprio mosteiro deveria assumir a tarefa do ensino para seus novos membros. A leitura era um elemento fundamental da vida monástica, uma vez que os monges devem meditar as Sagradas Escrituras em todos os momentos de sua vida. Os mosteiros assumiram um papel decisivo como lócus da ciência e reduto da cultura. Nos monastérios, as primeiras bibliotecas deste novo período foram fundadas. Os monges copiavam e multiplicavam os textos clássicos, resguardavam e traduziam obras da cultura greco- -latina para o latim, “alguns mosteiros tornam-se centro de ensino e transmissão de cultura clássica cristã” (GILES, 1987 p. 69). Na época de Carlos Magno (768-814) e de Alfredo, o Grande da Inglaterra (849-901), foi dado grande impulso na criação de escolas, para além das abadias, dos mosteiros e dos conventos (LUZURIAGA, 1975). Elas ficaram conhecidas como escolas palatinas, por funcionarem nas dependências do palácio, e passaram a ser o exemplo de escola a ser seguido, principalmente, na França. Entretanto, é fundamental que se diga que o ensino ministrado nesse momento histórico em muito se parecia com os modelos da antigui- dade greco-romana, destinados ao homem livre, que empregavam as sete artes liberais ao adotarem o trivium (englobava gramática, retórica e dialé- tica) e o quadrivium (aritmética, geometria, astronomia e música). Pode-se dizer que o trivium dizia respeito aos “instrumentos analíticos da palavra e da mente, com as leis do pensar, com a expressão do pensamento e suas regras, enquanto o quadrivium se referia ao conhecimento das coisas do mundo” (VEIGA, 2007, p. 20). No entanto, de modo geral e pelos interesses da Igreja, não se abordaram os conhecimentos de forma integrada e sistemática. Do mesmo modo que não se abordou o quadrivium, restringindo-se aos estudos do trivium, visto que, naquele momento, as disciplinas que compunham o quadrivium não condiziam com as características que a Igreja queria imprimir à formação. O ensino era oral e tinha como fundamento de aprendizado o exercício da memória, para isso, o uso da Bíblia e de textos sagrados foi recorrente. Também, foi prática comum utilizar “o recurso de cantar e gritar o ensina- mento em intervalos regulares (ensino cantado) ou ainda sob a forma de catequética (diálogo preestabelecido e decorado entre mestre e aluno)” (VEIGA, 2007, p. 24). 101 Outro detalhe importante é que o ensino era ministrado por um eclesi- ástico (scholasticus ou didascalus) – denominação dada aos clérigos vincu- lados ao ensino – subordinado a um bispo ou a um abade. Vem daí a palavra escolástica, ou seja, relativa à doutrina e à prática desse ensino. Os escolás- ticos se utilizaram, por um bom tempo, do método de conduta de retirar dos textos da Antiguidade Clássica somente excertos nos quais se evidenciavam ou o aspecto formal da língua, ou a estrutura do discurso, como matéria para reflexão e ensinamentos, o que redundou em vários conflitos vivenciados pelo cristianismo (VEIGA, 2007). Além disso, como nos informa Luzuriaga (1975), a escolástica, assim como o nascimento das universidades, que veremos adiante, foi o apogeu alcançado pelo desenvolvimento intelectual e institucional do cristianismo, ainda que o nível intelectual eclesiástico não tenha alcançado conhecimentos superiores. As escolas catedrais – ficaram assim conhecidas porque funcionavam dentro das catedrais ou no seu entorno – e monacais – desenvolvidas a partir do século XI – se diferenciavam entre si unicamente pelo local a que se filiavam: igrejas, catedrais e mosteiros urbanos. Nesse sentido, para manter o controle e monopólio da doutrinação, os membros da Igreja passaram a reunir os alunos num mesmo espaço físico, diferentemente da prática anterior, que era a de ir à casa do mestre para receber lições. As principais escolas catedrais foram as de Latrão, Lion, Reims e Liège (LUZURIAGA, 1975). Chama-se a atenção novamente para o fato de que a instrução formal, organizada e sistemática, não fazia parte da vida das pessoas e tampouco tinha alguma utilidade. Observa-se que, no caso dos nobres, estes dificil- mente frequentaram uma escola, pois recebiam instrução da própria família ou de algum mestre contratado para este fim; inclusive, sabe-se que muitos membros de nobreza foram analfabetos. Como já se disse, os objetivos e os fins da educação eram outros. O surgimento das universidades A maneira como se aprendia uma profissão na Idade Média era se filiar a uma corporação de ofício (universitates) – associação de pessoas que desenvolviam uma mesma profissão. Importante observar que essas corpo- rações surgiram em função da necessidade de se prover vários “serviços especializados”, organizar as profissões e, consequentemente, regulamentar o processo produtivo artesanal dos núcleos urbanos, resultantes da reurbani- zação europeia ocorrida a partir dos séculos X a XI. Essas instituições eram juridicamente reconhecidas (universi), “organi- zadas de forma sistemática, congregavam pessoas de um mesmo ofício que 102 se submetiam a estatutos regimentais e tinhas seus serviços legitimados por meio da corporação” (VEIGA, 2007, p. 17). Aqui, é importante acentuar que os estatutos das corporações tinham também a função de regular as relações externas destas, tanto no que diz respeito ao poder do município quanto ao mercado (definição de preço, matéria-prima, monopólio, etc.). Como afirma Verge (1990, p. 27), nesse período, “a cidade era, em primeiro lugar, a divisão do trabalho, o surgimento dos ofícios, comerciais ou artesanais; a vinculação profissional tornava-se um dos dados essenciais da consciência de si mesmo”. Foi a partir do século XII que começou a surgir uma corporação bastante original: a universitas studdii, a nossa universidade. Esta foi uma associação de mestres e alunos que tinha como objetivo “a transmissão e aprendizagens de conhecimentos ‘desinteressados’, ou seja, sem aplicabilidade imediata” (VEIGA, 2007, p. 18). Talvez, essa, junto às fortes ligações com a Igreja, tenha sido a mais contundente diferença em relação às outras corporações de ofício. Como já se disse, a Igreja foi a detentora do monopólio da educação durante toda a Idade Média, somente na Itália subsistiram escolas leigas (VERGE, 1990) e, de certa maneira, foi para se libertar deste julgo que mestres e alunos criaram sua própria corporação, com estatutos regimentais, mas, curiosa- mente, pediram a proteção da Santa Sé. Reflita As corporações de ofício eram marcadas pela existência do mestre, do oficial e do aprendiz. O aprendiz só deixava essa condição após apresentar uma obra para uma “banca” de mestres e estes o aprovassem. As universidades surgiram como um tipo de corporação. Você consegue perceber algumas semelhanças entre as corporações de ofícios, as universidade medievais e as universidades contemporâneas? Por outras palavras, o que se queria era autonomia em relação ao clero, pois, ainda que fosse uma liberdade relativa e tutelada, era vantajosa para a nascente corporação. Todavia, como disse Veiga (2007, p. 21), “os papas foram bastante astuciosos para acolher as corporações universitárias, na medida em que nelas identificaram o papel da cristandade: o doutor de uma universidade, deveria ser também um doutor da Igreja”. As primeiras universidades do Ocidente apareceram em Paris (França) e em Bolonha (Itália) no século XI. As duas instituições foram “espontâneas”, um dos três tipos de universidades medievais. Os outros dois tipos foram universidades nascidas por meio de migração e as “criadas”, geralmente, pelo papa ou imperador. As universidades espontâneas, como as de Paris e de Bolonha, foram oriundas de escolas pré-existentes, do mesmo modo que 103 as de Oxford (Inglaterra, 1214) e Montpelier (França, 1220), entre outras. Quanto às universidades formadas por migração, elas recebiam dissidentes de outras corporações universitárias, por exemplo, a universidadeem Pádua (Itália, 1222), que surgiu com a dissidência da universidade em Bolonha, e a em Cambridge (Inglaterra, 1318), que surgiu pela dissidência de Oxford. Exemplificando A Universidade de Paris possuía três etapas distintas para que alguém pudesse se tornar mestre e ganhar o direito de ensinar em qualquer lugar do mundo. A primeira etapa continha seis anos de estudos, que terminavam debate; após, a pessoa passava a ser considerada bacharel. Na segunda etapa, o bacharel deveria cumprir dois anos de magistério e, em seguida, continuar os estudos sob a orientação de um mestre. Na terceira etapa, sendo admitido por um mestre, passava por mais um período de magistério e lhe era dada a oportunidade de mostrar sua competência, ministrando uma aula inaugural com a presença de alguns mestres. Sendo aprovada, a pessoa era admitida na corporação e recebia as insígnias, um chapéu e um livro, que lhe davam o direito de ensinar em qualquer lugar do mundo. Esse modelo da Universidade de Paris foi adotado por outras universidade e continua a ser adotado, com algumas adaptações, até os dias de hoje. Para se tornar mestre ou doutor, é preciso apresentar uma obra a vários mestres e doutores, para que se possa ser admitido como um deles. As universidades criadas, por sua vez, nascem do desejo de papas e imperadores e “recebiam desde a sua origem uma bula ou uma carta de fundação que definia a priori seus estatutos e seus privilégios” (VERGE, 1990, p. 43). Essas universidades obtiveram resultados medíocres diante daqueles apresentados pelas universidades “espontâneas”, e somente nos séculos XIV e XV que algumas delas conseguirão reconhecimento, tais como as de Nápoles (Itália), Toulouse (França), Salamanca e Valladolid (Espanha) (VERGE, 1990). Em relação aos alunos, estes, de modo geral, eram jovens, de diferentes idades, homens, vindos de diversos lugares, que acorriam às localidades urbanas para buscar um mestre, a fim de serem orientados. Para isso, era necessário que eles tivessem algum lugar onde se alojar. Os mais abonados procuravam as estalagens e as casas particulares. Já os demais procuravam as hospitia de caridade (collegiuns), geralmente, anexas às casas religiosas. Para pagar por sua hospedagem, os alunos faziam “serviços domésticos, pediam esmolas ou recebiam a ajuda da Igreja, na forma de bolsa, para se manter” 104 (VEIGA, 2007, p. 30). Não é nosso objetivo falar sobre o desenvolvimento do colégio como instituição educativa, mas, em rápidas pinceladas, dizer que este, junto à universidade, será uma das mais importantes instituições educativas criadas na Idade Média, tornando-se, ao longo do tempo, propedêutico para os estudos superiores e substituindo gradativamente as faculdades de artes. As corporações universitárias tinham membros que eram leigos e outros que eram clérigos, “com exceção dos estudos da teologia, já os estudos de direito civil e das faculdades de artes (em relação as sete artes liberais) eram proibidos para membros do clero” (VEIGA, 2007, p. 27). Aspecto notável, como apontou a autora citada, “o celibato era uma exigência geral – abolida para os integrantes das faculdades de medicina e direito somente em meados do século XV” (VEIGA, 2007, p. 27). Frisa-se que “cursar uma faculdade” e se graduar na Idade Média nada mais era que “frequentar um professor da corporação e praticar os atos prescritos para se tornar um mestre (faculdade de artes) ou um doutor (medicina, teologia, direito)” (VEIGA, 2007, p. 24). Em relação às faculdades de artes, despendiam-se, ao menos, seis anos para se graduar, e o curso mais longo era o de teologia, cuja duração poderia ser de incríveis 15 anos. Outro dado importante é que por bastante tempo os livros eram muito limitados, não se tinha acesso a um impresso com facilidade. Observa-se que, apesar de se dizer “faculdade de artes”, o que sugere serem estudos oriundos das sete artes liberais (trivium e quadrivium), os professores não tinham todos os conhecimentos das disciplinas que as compunham e, por isso, na maior parte do tempo, o ensino ministrado se resumiu ao conhecimento de latim e da língua sagrada. Na aurora do século XVI, os artesões representaram outra cultura cientí- fica, a qual, em breve espaço de tempo, passou a polemizar com as corpora- ções universitárias. Nessa mesma época, destacam-se os trabalhadores que não têm filiação com as corporações, parteiras, curandeiros e aqueles que habitam a zona rural, diga-se, todos de grande importância para o funciona- mento da sociedade (VEIGA, 2007, p. 28). A escolástica Para Reale e Antiseri (2003), duas foram as consequências mais notáveis do surgimento das universidades: a formação de uma classe de intelectuais amparada nos poderes tradicionais monárquico e clerical (regnum e sacerdotium) e no poder dos intelectuais (studim); e a abertura da universidade, ao menos em seu início, para mestres e estudantes de qualquer camada social – incluindo estudantes pobres, filhos de camponeses e artesãos, os quais tinham alguns privi- légios, como redução de taxas, bolsas de estudo e alojamento gratuito. 105 Com as escolas (scholae) e, depois, com as universidades (universitas), houve o florescimento da cultura medieval. A escolástica foi elaborada justa- mente nesses centros de estudo, primeiramente, de forma inorgânica e, poste- riormente, de forma sistemática, e era dedicada a ensinar homens com grande capacidade crítica e agudeza lógica. Com o binômio fé e razão, o programa de pesquisa enfatizava o uso acrítico da razão e a consequente aceitação da doutrina cristã como argumento de autoridade (REALE; ANTISERI, 2003). A escolástica buscava sistematizar a doutrina cristã. No contexto de seu desenvolvimento, o momento não era de criar os dogmas, mas de buscar consolidá-los, apoiando-se cada vez mais na razão. Não sendo mais possível impor os dogmas da Igreja em um período de ascensão da racionalidade, tornou-se necessária a argumentação lógica para exposição e sustentação dos pontos de vistas, mesmo os religiosos. Para tanto, a filosofia torna-se estudo obrigatório neste período, não pelo que ela é, mas para a utilização da lógica nos debates. Nesse período, ela é entendida com a serva da teologia. Para a escolástica, a utilização da razão não é para, primeiramente, encontrar a verdade, pois esta já está revelada pela economia da salvação. A escolástica é, antes de tudo, a justificação e interpretação da verdade por meio do pensamento racional; é uma confrontação dialética de argumentos a favor e contra determinada tese. O embasamento da argumentação era a lógica aristotélica, e o pensamento dedutivo representava um recurso impor- tante para a argumentação. O método dedutivo partia das proposições gerais para chegar a conclusões particulares. Cabe frisar que, mais do que filosofia ou teologia, o termo escolástica designa o método de ensino teológico e filosófico que foi desenvolvido nas escolas urbanas e nas universidades medievais, entre os séculos IX e XVII. O método consistia no debate de questões e opinião com fundamento na razão, numa tentativa de conciliação dos ensinamentos sagrados cristãos com a filosofia grega, principalmente aristotélica. Portanto, escolástica designa o “método de produção de conhecimento fundado na disputa, no confronto de perspectivas visando respostas sustentadas na razão” (CULLETON, 2010, p. 5). O método escolástico conciliou inovação e tradição, autoridade e razão, consistindo num constante pensar repensando. Ele se configurou, em primeiro lugar, como a generalização de um antigo procedimento, empregado notadamente em relação à Bíblia, das questiones et responsiones (questões e respostas) (LE GOFF, 2005). 106 Esse método pode ser resumido nas seguintes etapas : 1. Uma questão (a questio) era levantada após a leitura (lectio) de textos específicos – somente os mestres tinham a palavra e liam algum trecho do ordinário ou das sentenças de autores conhecidos.2. Numa livre discussão (disputatio) entre mestre e estudante, argumentos contrários e favoráveis à questão eram apresentados – as chamadas leis da autoridades, com recurso às fontes cristãs e do pensamento filosófico clássico para fundamentar as ideias defendidas. 3. Após a argumentação, havia sempre uma solução à questão, a decisão sobre a solução cabia a uma autoridade, uma conclusão (conclusio) dada pelo mestre. Essa conclusão poderia servir para as leituras seguintes. Por vezes, tal conclusão poderia “sofrer com limitações pessoais daquele que a pronunciava, e como os mestres universitá- rios tendiam a colocar-se eles próprios como autoridades, a conclusão podia ser fonte de uma tirania intelectual” (LE GOFF, 2005, p. 346). Cabe destacar, ainda, que na universidade o trabalho do mestre era super- visionado, e desvios não eram tolerados. Os textos utilizados na escolástica constituíam um corpo fechado, com interdição de outros – tais como os de filosofia natural de Aristóteles. Desse modo, o lado corporativo da escolás- tica, assim como da universidade, é uma de suas características, mas reconhe- cia-se a existência de saberes além de seus muros (CULLETON, 2010). Sem medo de errar Vamos retomar a nossa situação-problema? Você se encontrava na seguinte situação: em uma palestra do ilustre pesquisador Igor Aranha, no “Ciclo de palestras: origens escolásticas da filosofia contemporânea”, alguns questionamentos foram levantados a partir da trama da obra O nome da Rosa, de Umberto Eco, e propostos para resolução. Você deveria associar as reformas educacionais iniciadas por Carlos Magno, com forte influência da Igreja Cristã em todo o processo, com a impossibilidade ou não de leitura de livros considerados pagãos. Além disso, você foi desafiado a associar essas reformas com o posterior surgimento das universidades e da filosofia escolástica e com a importância de compreendê-la no tempo atual. Você deve começar entendendo que a Alta Idade Média trouxe mudanças substanciais no que tange às finalidades da educação. As reformas propostas por Carlos Magno tinham por objetivo a formação da identidade de um 107 novo povo, que seria considerado o povo de Deus. Nesse sentido, focava-se na formação clássica como essencial para a compreensão das Sagradas Escrituras. Todas as reformas levaram à reelaboração dos programas de estudo das escolas que já existiam e à criação de novas escolas. Alcuíno elaborou um programa em que o trivium e o quadrivium eram os elementos essenciais. Mas, mesmo com essa elaboração, muitas obras de autores pagãos continuavam a ser lidas nas escolas. Na sequência, você precisa compreender que as universidades medievais eram corporações de mestres e estudantes para se dedicarem aos estudos. Esses centros de formação logo começaram a ser lócus de várias controvérsias, pois possibilitaram, ao menos em seu início, que alunos de diversas camadas sociais fossem admitidos em seus quadros, além de possibilitar que o ensino fosse feito também por pessoas que não pertenciam ao clero. A resolução das controvérsias suscitadas pelos debates estava na autoridade. Assim, sempre algum eclesiástico encerrava o debate de maneira conciliatória ou escolhendo argumentos que não ferissem a fé, no entanto, é importante ressaltar que, se o debate estava encerrado formalmente, não havia como restringir que os argumentos levantados permeassem a ideia de diversos alunos. Ainda, é importante que você perceba que os debates dentro das univer- sidades estavam dentro daquilo que se pode chamar de método escolástico, que partia da leitura do ordinário e/ou de uma suma. A suma era uma litera- tura confeccionada após os debates, em que se mostra como os argumentos foram colocados e qual proposição saiu vencedora, assim, ela era o resultado de debates. A leitura da suma de autores consagrados também era o ponto de partida para se levantarem as questões e, a partir delas, se iniciavam as discussões, as quais se davam pela exposição de argumentos sobre a tese lida por meio do pensamento dedutivo (partir do geral para o particular). Por fim, entenda que a escolástica foi uma tentativa de justificar e inter- pretar elementos da fé se aproximando da racionalidade filosófica, e isso provocou a transformação da educação e da mentalidade. A escolástica era uma resposta a uma época complexa, na qual novas necessidades se colocavam, portanto, a questão não era criar um corpo doutrinário para religião, mas justificá-lo. Perceber isso nos leva a compreender que a ideia de idade das trevas ou de um período estéril da humanidade possa ser rejeitado, pois esse período produziu uma determinada forma de saber e instituições que se mantêm até os dias de hoje. 108 Faça valer a pena 1. A difusão e a elaboração da cultura até o século Xlll – tempo em que se formaram as Universidades – estava confiada as Escolas monacais (em geral anexas a urna abadia), episco- pais (anexas a urna catedral) e palatinas (anexas a corte). Entre essas escolas assumiu grande importância, a partir do fim do século VIII, a Escola palatina desejada por Carlos Magno, com a intensão de fazer surgir na terra dos Francos uma nova Atenas. Instituída e dirigida por Alcuíno de York, esta escola teve no início caráter erudito e eclético; somente a partir da segunda geração assumiu conotações originais e criativas. (REALE; ANTISERI, 2003, p. 121). No que concerne às relações entre as escolas monacais, episcopais e palatinas, analise as afirmativas a seguir: I. Nas escolas monásticas, predominou a cultura ascética ligada aos estudos dos textos sagrados e aos saltérios, destinada à formação espiritual do homem medieval. II. Nas escolas episcopais, o objetivo era unicamente fornecer formação ao clero secular e aos leigos ligados à Igreja. III. Nas escolas palatinas, o ensino era ministrado por um eclesiástico subordinado a um bispo ou a um abade e se restringia exclusiva- mente ao quadrivium. Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma em: a. I, apenas. b. II, apenas. c. III, apenas. d. I e II, apenas. e. II e III, apenas. 109 2. Mais profundamente, o método escolástico não coloca a fé em causa. Ele provém, ao contrário, do desejo de melhor iluminar, discernir e compreender tal fé. Era o desenvolvi- mento da célebre frase de Santo Anselmo: Fides quaerens intellectum (a fé em busca de sua própria compreensão). (LE GOFF, 2005, p. 345-6) Acerca do método escolástico, relacione a primeira coluna (etapa) com a segunda (descrição da etapa): Coluna A Coluna B I. Lectio e questio. A. Uma questão é levantada após a leitura de textos específicos. II. Disputatio. B. O teólogo apresenta a sua explicação e explica por que as au- toridades citadas, mesmo contrárias entre si, não se opõem a ela, chegando à conclusão. III. Conclusio. C. Autoridades da Igreja que a respondem são referidas, e posições contrárias são apresentadas à discussão. Assinale a alternativa que apresenta a associação correta entre as colunas: a. I-C; II-B; III-A. b. I-A; II-C; III-B. c. I-B; II-C; III-A. d. I-A; II-B; III-C. e. I-C; II-A; III-B. 3. A Escolástica é a expressão pedagógica do saber adquirido e completo. Ainda se dialoga, mas entre mestre e discípulo, ou entre concorrentes e adversários. Sua forma perfeita é o tratado, ou a suma, em que tudo se explica a partir de princípios firmes. O diálogo, que está sempre aberto a perguntas, que não fecha a continuidade do pensamento, e está numa relação de insegurança permanente perante o saber, passa para segundo plano, mas não desaparece. (LUPI, 2013, p. 175) 110 Sobre a escolástica, analise as afirmativas que se seguem: I. A escolástica era um método de aprendizagem e pensamento desen- volvido durantes a Baixa Idade Média, que assumiu preponderância nas universidades medievais entre os séculos XI a XV. II. São características do pensamento escolástico a tentativa de harmo- nização da filosofia eda lógica dos antigos filósofos gregos, em parti- cular, Aristóteles, com o pensamento dos autores cristãos. III. O método principal da escolástica consistia na retórica, ou seja, um conjunto de regras que constituem a arte do bem dizer, a arte da eloquência. Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma em: a. I, apenas. b. II, apenas. c. III, apenas. d. I e II, apenas. e. II e III, apenas. 111 Seção 2 A controvérsia dos universais Diálogo aberto A Idade Média foi palco de uma discussão de grandes proporções sobre a natureza dos conceitos chamados de universais, ou seja, conceitos que utili- zamos para designar uma multiplicidade de seres, pertencentes à mesma espécie ou gênero. Essa discussão ficou conhecida como “controvérsia dos universais”, e é sobre ela que nos debruçaremos neste momento. Iniciaremos nossas reflexões a partir da seguinte situação-problema: Eveline Cristina resolveu participar de um curso de Cinema e Filosofia, promovido por uma renomada universidade de sua cidade. Um dos filmes elencados para o curso é O enigma de Kaspar Hauser (1974), dirigido pelo alemão Werner Herzog. Na semana anterior à sua exibição, ela recebeu um roteiro contendo uma sinopse do filme e algumas perguntas que serviriam de base para reflexão e discussão após a exibição do filme. O filme conta a história de Kasper Hauser, um personagem real e enigmático que foi encontrado numa praça em Nuremberg, na Alemanha, em 1928, com cerca de 15 anos de idade. Trazia uma carta endereçada ao capitão da cavalaria local com a informação de que foi criado em um porão, sem contato com outras pessoas, e com o pedido de que fosse transformado em um cavaleiro, tal como o seu pai. Kasper Hauser não sabia falar e nem se comportar de acordo com os costumes da época, causando, ao mesmo tempo, espanto e interesse nas pessoas da cidade. Após ser acolhido na casa de um professor, o processo de socialização do garoto teve início: aprendeu a falar, a ler e a se comportar, mas conti- nuava resistente a muitas das ideias que tentavam lhe impor. Por exemplo, em determinado trecho do filme, o professor apresenta um problema de lógica clássico. Sem resposta imediata, mostra a solução, a qual considera única. Entretanto, Kasper Hauser oferece outra resposta, muito simples, mas com plausibilidade; essa resposta não é aceita pelo professor, já que não estava fundamentada nos conceitos de lógica. Após a sinopse, Eveline Cristina se deparou com as seguintes perguntas: esse filme nos permite pensar na relação entre as palavras e as coisas? Ainda que não tenha sido socializado antes dos 15 anos, Kasper Hauser era capaz de associar as palavras às coisas reais, por exemplo, a palavra cavalo com o animal cavalo? As palavras que utilizamos para nos referirmos a uma multiplicidade de coisas singulares têm existência metafísica exterior ao pensamento? 112 São essas as questões que nortearão nosso estudo neste momento. Ao final, você será capaz de respondê-las e relacionar o conteúdo do filme com a filosofia escolástica da Idade Média. Não pode faltar As origens da controvérsia dos universais A partir do século XI, uma problemática agitou as escolas medievais, envolveu personalidades importantes da escolástica (em gênese) e foi fruto da análise dialética das traduções de algumas obras de Aristóteles para o latim feitas nos séculos V e VI. Trata-se da chamada controvérsia dos univer- sais, que girou em torno da verdadeira natureza dos chamados universais – categorias lógicas do pensamento que se aplicam a todos os indivíduos de uma mesma espécie ou gênero. Entre os séculos IX e XII, os estudos gramaticais foram significativa- mente desenvolvidos, o que permitiu o ingresso dos pensadores no mundo dos sinais linguísticos e levou à lenta passagem da “autoridade” (os padres e a Bíblia) para a “razão”. Essa passagem não foi isenta de acirradas discussões e críticas por parte dos pensadores mais tradicionais, os quais enxergam na “autoridade” uma norma de vida a ser meditada, e não profanada ou laicizada por meio do uso dos instrumentos gramaticais (REALE; ANTISERI, 2003). No bojo dos estudos gramaticais e de seu desenvolvimento posterior, a dialética – que faz parte do método escolástico – promoveu a valorização da razão. Por sua vez, ela foi identificada com a lógica, ou seja, a razão em exercício, que impõe maior rigor na investigação e se consolida no exame dos termos do discurso. Isso levou ao exame crítico do processo de imposição da linguagem (voces), ou seja, dos termos e conceitos, à realidade (res). Aí surgiu uma grande questão, relacionada com o que a linguagem desempenha na estrutura e no contexto do discurso (REALE; ANTISERI, 2003). Portanto, a relação entre linguagem e realidade estava no centro dos estudos gramaticais e da dialética. Esse foi o ponto central da questão dos universais “vivamente debatida no século XII por suas implicações linguís- ticas, gnosiológicas e teológicas” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 168). O grande problema era determinar o fundamento e o valor dos conceitos e termos universais, que são aplicáveis a um grande número de indivíduos. Mais do que isso, era determinar a relação entre as coisas e as palavras (res e voces), entre aquilo que existe no mundo físico e a sua correspondência, ou não, com algo que é metafísico. 113 A origem da controvérsia dos universais na Idade Média está nos comen- tários feitos por Severino Boécio, filósofo romano dos séculos V e VI, à obra Isagoge – tradução latina feita por ele da obra Introductio in Praedicamenta, do filósofo grego neoplatônico Porfírio, do século III, que contempla as obras Categorias e De Intepretação, de Aristóteles. Assimile O corpus filosófico grego na Idade Média Na Idade Média Ocidental, o conhecimento da totalidade do conjunto de obras de Aristóteles sobre a lógica aconteceu tardiamente. Esse conjunto recebe o nome de Órganon e compreende as seguintes obras: Categorias; Da Interpretação; Primeiros Analíticos; Segundos Analí- ticos, Tópicos; Refutações Sofísticas. Até os anos 1160, eram conhecidas apenas Categorias e De Intepretação, completadas pela Isagoge, de Porfírio. No final do século XII e início do XIII, as obras Primeiros Analí- ticos, Tópicos e Refutações sofísticas, traduzidas por Severino de Boécio, entraram em circulação, da mesma forma que a obra Segundos Analí- ticos, na tradução de Jacques de Veneza (LIBERA, 1990). Por sua vez, as obras de Platão foram quase ignoradas, com exceção do fragmento de Timeu, traduzido e comentado no século IV pelo cristão e neoplatônico Calcídio. As traduções feitas pelo italiano Henrique Aristio no século XII das obras Ménon e Fédon tiveram influência marginal entre os pensadores medievais. E a tradução latina do comentário do filósofo grego neoplatônico Proclo (século V), da obra Parmênides, feita por Guilherme Moerbeke no século XIII, só começou a ser utilizada a partir do século XV (LIBERA, 1990). As raízes dessa controvérsia filosófica, no entanto, remontam à antigui- dade grega. Em Platão, a teoria das ideias ou das formas era a concepção daquilo que permaneceria imutável em todas as coisas, mesmo com as variações do mundo físico e com o passar do tempo. A divisão do mundo em sensível – apreendido pelos sentidos – e inteligível – apreendido pelo intelecto – foi o recurso encontrado por Platão para resolver o problema dos universais. Aristóteles foi um grande crítico da teoria das ideias, pois entendia que a realidade seria composta de seres singulares, mas com carac- terísticas (atributos) correspondentes à sua espécie ou gênero e que não se modificavam com o passar do tempo (CRUZ; SILVA, 2014). 114 Exemplificando A teoria de Platão foi constituída como resposta a alguns problemas da sua época, relacionados com a ontologia (natureza, realidade e existência do ser), a epistemologia (fundamentos lógicos de uma ciência) e a lógica (regras ou métodos do pensamento). Para ele,não seria possível pensar e falar de algo que não fosse determinado; pensa- mento e discurso (portanto, o conhecimento) seriam elaborados sobre seres unos e idênticos a si mesmos. Mas, como explicar as diferenças nos seres apreendidas pelos sentidos? Platão buscou a resposta nas “realidades inteligíveis”, que garantiriam identidade na diferença, ou seja, unidade na multiplicidade (SOUZA, 2005). Os sentidos captariam formas, ou seja, imitações imperfeitas de uma ideia correspondente, presente no mundo inteligível (perfeito e imutável). Por exemplo, a ideia de cachorro no mundo inteligível é perfeita e nunca muda, seja ele um labrador, um poodle, um puggle, um pastor alemão ou um vira-lata. Aristóteles não acreditava em um mundo de ideias à parte, com as formas ideais das coisas, tampouco que o que se via no mundo sensível fosse cópia imperfeita de um mundo das ideias. Ao contrário de Platão, entendia que a ideia de cachorro foi criada pelo homem após observar um bom número de cachorros, não antes. Ele compreendia que a ideia das coisas estava dentro delas mesmas, não apartada em um mundo inteligível. Entretanto, foi com Porfírio, no século III, que essa controvérsia ganhou destaque. Na tentativa de interpretar as Categorias, de Aristóteles, procurou convergir as explicações de Platão com as teses de Aristóteles. Porfírio havia se questionado se os gêneros e as espécies existem na realidade ou apenas no pensamento. Mas, para discutir as categorias no campo lógico e não ontoló- gico, seria necessário muito estudo, e ele acabou por abandonar o problema por considerá-lo irrelevante em um contexto lógico. No entanto, contribuiu para destacar o problema dos universais e instigar investigações futuras, como a de Boécio, que foi o primeiro a se debruçar sobre a problemática a partir da tradução da Isagoge para o latim e dos comentários elaborados sobre a obra. Boécio, porém, também não assumiu uma posição definitiva. A solução encontrada por ele pode ser resumida na ideia de que os gêneros e as espécies são pensados universalmente, mas só existem enquanto tal nos indivíduos (CRUZ; SILVA, 2014; SANTOS, 2003). No século XI, quando se iniciou a controvérsia dos universais, a tradução e os comentários de Boécio do texto de Porfírio encontravam-se no cerne dos debates. O grande problema consistia em estabelecer qual seria o estatuto ontológico dos universais: se são ideias transcendentais, como pensamentos 115 de Deus; se são apenas conceitos mentais; apenas palavras insignificantes; ou se existe uma solução que perpassa as várias posições. As soluções dos pensadores do século XII podem ser agrupadas em três grandes percepções: nominalismo, realismo e conceitualismo. Passemos à análise de cada uma delas a partir de agora. Reflita Você já parou para pensar no nome que damos às coisas? Desde seres animados até os inanimados, além dos conceitos abstratos? Esses nomes são convenções sociais ou são parte de uma natureza eterna e imutável das coisas? Pelos sentidos, captamos as coisas singulares, mas por que as expressamos por meio de conceitos universais? Existe alguma relação entre as coisas singulares e os conceitos universais que utilizamos para nos expressar? Esses conceitos universais têm existência própria ou existem apenas no pensamento? Nominalismo: o universal como flatus vocis Os nominalistas entendiam que o universal não era uma coisa (res) com existência metafísica exterior ao pensamento. Na verdade, ele seria uma abstração da inteligência, reduzida à materialidade das palavras. Em tal sentido, o conhecimento só poderia ter resultados céticos, já que não existiria ligação substancial entre as palavras/conceitos e as coisas. O grande repre- sentante dessa posição foi Roscelino de Compiègne (1150-1120), filósofo e teólogo francês, considerado o inaugurador do nominalismo. Roscelino de Compiègne estudou na província eclesiástica onde nasceu, e teve como mestre o sofista Jean, sobre quem nada se sabe. Ensinou na qualidade de cônego nas cidades francesas de Compiègne, Loches (onde foi professor de Pedro Abelardo), Besançon e Tours. Não é certo que ele tenha sido o primeiro nominalista medieval, pois as doutrinas podem ter sido antecipadas por vários mestres sobre os quais não se conhece muito ainda, tais como João de Athelney, Roberto de Paros, Arnulfo de Laon, Érico de Auxerre, Pseudo-Rabano, entre outros, mas ele é considerado o inaugurador dessa doutrina e seu maior repre- sentante. Os escritos de Roscelino que nos resta são raros, porém sabe-se sobre suas doutrinas a partir das refutações de seus adversários, principalmente, Pedro Abelardo e Santo Anselmo – apesar de não sabermos a distância entre o que de fato ele ensinou e o que os seus adversários o acusaram de tê-lo feito (MORA, 2001; REALE; ANTISERI, 2003). 116 A posição de Roscelino em relação ao universal era fundamental- mente cética, pois anulava alguns instrumentos do conhecimento humano, tornando a atividade simplesmente analítica de fatos reais e individuais, sem ascender a níveis de caráter mais geral (REALE; ANTISERI, 2003). Ele procu- rava separar os valores linguísticos da realidade. Dessa forma, o universal não seria uma entidade real, mas um flatus vocis, ou seja, uma emissão de voz puramente abstrata para designar o indivíduo particular, uma simples emissão de vocábulos. O universal não passaria de um nome constituído pelo sopro da voz e não teria existência fora dele. A única coisa real seria a indivi- dualidade, e nada existia fora dela. Perceba que Roscelino confundiu a ideia geral com a palavra pela qual é designada. Ou seja, se a ideia geral não é senão um nome, a verdadeira realidade se encontraria nos indivíduos que formam uma espécie. Se para um realista a humanidade era a realidade, para os nominalistas, os seres humanos seriam a única coisa real. Nesse sentido: Para ele, o termo homem não designa nenhuma realidade que seja, em qualquer grau, a da espécie humana. Como todos os outros universais, este corresponde apenas a duas realidades concretas, nenhuma das quais é a espécie. Por um lado, há a realidade física do próprio termo, isto é, a palavra homem tomada como flatus vocis, ou emissão de voz; por outro lado, há os indivíduos humanos que essa palavra tem a função de designar. E não há nada mais que se encontre por trás dos termos que utilizamos. (GILSON, 2001, p. 288) Roscelino fez uma célebre aplicação do nominalismo à teologia, com a interpretação triteísta acerca da Trindade. Ele considerou que Pai, Filho e Espírito Santo são como três seres independentes. Talvez, sua intenção não fosse a de sustentar a existência de três deuses, mas para ele, em Deus, os indivíduos é que são reais, como em qualquer outra espécie. Nesse sentido, Pai, Filho e Espírito Santo não podiam ser tomados como uma coisa singular. Portanto, a Trindade seria composta de três coisas singulares distintas, ainda que elas possuíssem um único poder e vontade. Realismo: o universal como res A solução nominalista de Roscelino para a questão dos universais foi fortemente criticada por Anselmo de Aosta – também conhecido como Anselmo de Cantuária ou Santo Anselmo. Ao tomar conhecimento de que 117 Roscelino “estaria transmitindo ideias equivocadas em relação à Santíssima Trindade” (VASCONCELLOS, 2003, p. 11), advertiu que as verdades cristãs não poderiam ser colocadas em dúvida, já que se encontravam em bases sólidas. Em seus escritos, Anselmo se debruçou sobre o problema metafísico de Deus. Portanto, a existência e a essência de Deus foram os objetos de seus estudos teológicos e filosóficos. Em seu primeiro tratado como monge do mosteiro de Bec, Monologion (1076), ele investigou a essência divina e sua criação, mais precisamente o que é Deus. Para tanto, formulou as quatro provas da existência de Deus, partindo do efeito para a causa: 1. Existem múltiplas coisas boas, mas apenas uma Bondade absoluta da qual aquelas derivam (Deus);2. A variedade de grandezas pressupõe uma suma grandeza (Deus), da qual as outras participam; 3. Tudo existe por causa de alguma coisa e é preciso, portanto, admitir um Ser supremo (Deus), em virtude do qual existem todas as coisas; 4. Os graus de perfeição remetem a uma perfeição suma (Deus) (REALE; ANTISERI, 2003). Ao finalizar a obra Monologion, Anselmo entendeu que as quatro provas eram demasiadamente complexas para serem compreendidas pelos leitores. Então, elaborou um argumento mais simples da existência a priori de Deus, o argumento ontológico, que apresentou na obra Proslogion: Deus é aquilo do qual nada de maior se pode pensar de mais perfeito. Até mesmo um ateu pensa na existência de Deus e, ao fazê-lo, o considera como realmente existente (REALE; ANTISERI, 2003). As provas elaboradas por Anselmo para provar a existência a posteriori de Deus deixam a entender a sua posição realista dos conceitos universais, ou seja, os conceitos universais seriam coisas (res), ideias universais existentes antes das coisas individuais (ante rem). Nesse sentido, assim como as ideias paradigmas seriam o modelo da realidade, o conhecimento delas seria indiretamente o conhecimento da realidade. Essas ideias universais estariam na mente de Deus, que as usou como modelos no modelo da criação. Para Anselmo, o conhecimento humano seria medido pelas coisas; a palavra humana seria algo puramente pensado, “mais ou menos verdadeira, depen- dendo do seu maior grau de semelhança com a coisa” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 151). E a única palavra verdadeira seria a divina – a medida das coisas – e, portanto, o modelo a ser seguido. Para além do pensamento de Anselmo, temos a posição de Guilherme de Champeaux (1070-1121) em relação ao problema dos universais. Em seu realismo exagerado, entendia que os termos universais são coisas (res), entidades existentes transcendentalmente e imutáveis – numa clara inspiração platônica – e que se encontrariam essencialmente idênticas nas 118 coisas. A distinção entre essas coisas se daria apenas pela multiplicidade dos acidentes, ou seja, características particulares que não alterariam a essência do ser. Em sua opinião, os conceitos universais e a realidade teriam perfeita adequação ou correspondência. Como consequência, “a gramática, a retórica e a lógica não tinham valor simplesmente linguístico-formal” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 168). Conceitualismo: o universal como sermo O realismo exagerado de Guilherme de Champeaux foi objeto de grandes objeções por parte de Pedro Abelardo, seu discípulo e destemido adversário de suas teses. Assumindo uma posição intermediária entre o realismo exage- rado de Guilherme de Champeaux e o nominalismo exagerado de Roscelino de Compiègne, Pedro Abelardo elaborou uma teoria que ficou conhecida como conceitualismo. É certo que ele defendia uma posição que tinha algo de realista, se tomarmos o realismo no seu sentido mais amplo – assim, defendia a existência de uma realidade exterior ao pensamento humano. Mas, não era no registro dessa realidade que se colocava o problema dos universais, cujo objetivo era discutir o valor semântico dos nomes universais (ROCHA, 1996). Em contraposição ao realismo exagerado de Guilherme de Champeaux, Pedro Abelardo afirmava que a ideia de que os universais seriam coisas (res) com existência metafísica e essencialmente idêntica nas coisas individuais era insustentável, pois “nega as oposições dos contrários, a diversidade e multipli- cidade das coisas” (ROCHA, 1996, p. 163). Essa refutação fez com o próprio Guilherme de Champeaux revisasse a sua teoria e passasse a apresentá-la da seguinte forma: os universais seriam coisas (res), mas não se apresentariam da mesma maneira em todos os indivíduos, sendo apenas indiferentemente idênticas. Ou seja: os homens individuais são essencialmente distintos, mas não diferem quanto à natureza de sua humanidade” (ROCHA, 1996). A revisão de Guilherme de Champeaux foi novamente criticada por Pedro Abelardo, que via nela o mesmo erro da formulação anterior. Como os homens não se diferem quanto à humanidade se todos os homens se diferenciam entre si quanto à forma e matéria? Coisas objetivas não podem ser predicados de outras, e é aqui que reside o conceito de universal: “ele é um conceito apto a ser predicado de outros” (ROCHA, 1996, p. 163). Aqui, percebemos que Pedro Abelardo se aproximou das ideias de Aristóteles sobre a composição dos seres (forma e matéria). Na obra Lógica para principiantes, Pedro Abelardo sustentou que os universais seriam apenas conceitos, ou seja, características de uma sentença que descrevem o objeto, sem existência metafísica. Esses conceitos estariam presentes em nossa 119 mente como resultado do processo cognoscitivo-abstrativo, em que os diversos elementos que subsistem unidos na realidade e nos seres singulares seriam distinguidos e separados. “Analisando e comparando os diversos seres singu- lares no processo cognoscitivo-abstrativo, a ratio está em condições de captar entre os indivíduos da mesma espécie um aspecto peculiar que eles comparti- lham.” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 169). Dessa forma, o universal não seria um modelo ideal, mas um conceito significativo obtido por abstração. Além de não atribuir a universalidade à res (coisas), Pedro Abelardo também não a atribui à voces (palavras). Se para Roscelino o universal era um flatus vocis, ou seja, uma emissão de voz, para Pedro Abelardo o universal era um sermo, ou seja, uma palavra (som com significado), um sentido dos nomes. O sermo seria o resultado da atividade da ratio, capaz de alcançar o verdadeiro conhecimento. Enquanto conceito, o universal se aplicaria aos indivíduos que participam de uma mesma espécie ou gênero, sendo, portanto, uma situação, e não algo em si, uma coisa. Para finalizar, essa controvérsia acerca dos universais não teve início na Idade Média e não se findou com ela. Na verdade, a questão dos universais se constitui como o grande problema da história da filosofia, e diversos pensa- dores têm se dedicado ao tema. Sem medo de errar Lembra-se da situação-problema da Eveline Cristina? Ela participa do curso de Cinema e Filosofia em uma renomada universidade de sua cidade e recebeu um roteiro com a sinopse do filme O enigma de Kasper Hauser (1974), com algumas perguntas que serviriam de base para as discussões após a exibição. O filme conta a história de um garoto que foi visto pela primeira vez na praça de uma cidade alemã no início do século XX e que não sabia falar e se comportar de acordo com os costumes da época. Soube-se depois que ele foi criado sem contato algum com humanos desde o nascimento. Após ser acolhido por um professor, seu processo de socialização teve início. A grande questão colocada refere-se à relação entre as palavras e as coisas. Será que Kasper Hauser seria capaz de fazer a associação entre os nomes e as coisas reais sem antes tê-las conhecido? Será que as palavras utilizadas para designar uma espécie ou gênero de qualquer coisa teria existência metafísica exterior ao pensamento ou seriam conceitos criados pelos humanos como convenções? Perceba que estamos nos referindo à uma grande problemática da história da filosofia, iniciada entre os gregos antigos, e que teve grande reper- cussão no período medieval: a controvérsia dos universais. Os universais 120 são as palavras que utilizamos justamente para designar uma multiplicidade de indivíduos pertencentes à uma espécie ou gênero. Por exemplo, quando falamos em humanidade, não nos referimos a um ser específico, mas à uma multiplicidade de seres com características singulares, mas que possuem algo que permite classificá-los enquanto tal. Seria a humanidade uma coisa (res) com existência exterior ao pensamento do indivíduo? Ou seria apenas uma emissão de voz, uma palavra resultante da abstração da mente humana, sem qualquer relação com as coisas? Ou, ainda, seria um conceito relativo às coisase expressa por uma palavra com significado? Essas foram posições assumidas por diversos filósofos e teólogos medievais que procuraram responder à questão dos universais. Podemos sintetizar a posição dos pensa- dores medievais em relação aos universais da seguinte forma: Nominalismo: posição defendida por Roscelino de Compiègne. O universal seria um flatus vocis, ou seja, uma emissão da voz, resultado da abstração da inteligência, reduzida à materialidade das palavras. Realismo: posição defendida por Anselmo de Aosta (em sua forma moderada) e por Guilherme de Champeaux (em sua forma exagerada). O universal seria uma coisa (res) com existência exterior ao pensamento humano e que serviria de modelo para a realidade. Conceitualismo: defendida por Pedro Aberlado, para quem o universal era um conceito (sermo), ou seja, uma palavra com significado que desig- naria aquilo que era característico de uma espécie ou gênero, fruto da ativi- dade da razão humana, que analisaria os indivíduos singulares a partir de uma atividade cognoscitiva e abstrativa. Mas, qual posição pode ser considerada a mais adequada para o problema dos universais? De certa forma, podemos afirmar que o conceitualismo fez uma mediação entre o realismo e o nominalismo e nos forneceu uma resposta mais compatível com o que entendemos hoje como conhecimento da realidade. No entanto, essa problemática não se findou na Idade Média e ainda permeia a história da filosofia. Faça valer a pena 1. “Trata-se da posição platônica levada às extremas consequências. Os universais seriam entes reais, subsistentes em si, ideias eternas e transcen- dentes que têm a função de arquétipo e paradigma em relação aos indiví- duos.” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 168). Essa citação se refere a qual posição em relação aos universais? 121 a. Nominalismo exagerado. b. Realismo moderado. c. Realismo exagerado. d. Nominalismo moderado. e. Conceitualismo exagerado. 2. Ficamos as vezes embaraçados para definir exatamente a posição filosófica que adotou, porque os textos que dele nos restam são raros e porque a distância entre o que ele ensinou e o que seus adversários o acusaram de ter ensinado é difícil de estabelecer. Todavia, um ponto não é duvidoso: Roscelino foi, para os seus contemporâneos e para a posteridade, o representante de um grupo de filósofos que confundiam, então, a idéia geral com a palavra pela qual é designada. (GILSON, 2001, p. 288) Sobre a posição de Roscelino acerca dos universais, analise as afirmativas que se seguem: I. O universal é um conceito utilizado para designar uma multiplici- dade de indivíduos pertencentes a uma espécie ou gênero. II. O universal seria flatus vocis, ou seja, emissão de voz, sem qualquer relação com a espécie ou o gênero. III. A Trindade seria composta de três coisas singulares distintas, ainda que elas possuíssem um único poder e vontade. Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma em: a. I, apenas. b. II, apenas. c. III, apenas. d. I e II, apenas. e. II e III, apenas. 122 3. Misto de poeta e lógico, de soldado e filósofo, personagem romanesca e mestre itinerante [...] figura na história da filosofia como argumentador temível, guerreiro dialético, protagonista da urbanização da vida acadêmica e prede- cessor de um gênero filosófico que faria fortuna nos séculos seguintes, a questão disputada. E decerto a imagem do filósofo beligerante não é gratuita ou infundada. (SILVA, 1996, p. 221) A citação se refere a um importante filósofo medieval que confrontou seu mestre na controvérsia dos universais. Quem é ele? a. Roscelino de Compiègne. b. Anselmo de Aosta. c. Guilherme de Champeaux. d. Arnulfo de Laon. e. Pedro Aberlardo. 123 Seção 3 A gênese da escolástica: a Escola de Chartres Diálogo aberto Neste momento, o tema de nossos estudos é a Escola de Chartres. Analisaremos a sua contribuição para o desenvolvimento da fé cristã, amparada na razão e nas ideias dos antigos, e nos situaremos acerca das formas como eram abordadas as ciências do trivium e quadrivium. Esses conteúdos são importantíssimos para a compreensão do momento em que se iniciou o processo de dessacralização da natureza e a crítica aos simbolismos religiosos, que culminou no desenvolvimento do humanismo e das ciências e na transição da Idade Média para a Idade Moderna. Nosso estudo terá como base a seguinte situação-problema: Priscila do Carmo faz parte de um grupo de pesquisas na área da filosofia, em uma instituição de ensino superior, e resolveu investigar as concepções filosóficas europeias ocidentais acerca da criação do mundo e/ou das coisas nele existentes. Inicialmente, achou que seria uma tarefa tranquila. Começou pelo estudo acerca do pensamento mitológico grego e de como ele explicava a criação do mundo a partir de narrativas fantasiosas e sem pretensão de cientificidade, mas que eram aceitas sem questionamentos pela sociedade grega até o surgi- mento da filosofia, no século VII a.C. Depois, passou a sua análise para os primeiros filósofos que se dedicaram ao estudo da natureza das coisas, da physis e de seu movimento. Com Sócrates, teve início o período clássico da filosofia e o deslocamento dos estudos da natureza para o homem. Em Platão, temos a obra Timeu, que é uma especulação sobre a natureza do mundo físico e os seres humanos, pautando-se na sua teoria das formas ou das ideias. Aristóteles, no estudo do ser enquanto ser geral (metafísica), elaborou a teoria das quatro causas; a teoria da substância, da forma e matéria, do ato e potência; e a teoria do motor-primeiro imóvel. Na sequência, compreendeu que, com o surgimento do cristianismo, filosofia e religião paulatinamente se aproximaram e se influenciaram mutua- mente. A explicação para a origem do mundo e de todas as coisas no período medieval foi pautada em Gênesis, livro bíblico que contém a narrativa da criação. Aliás, as ideias bíblicas influenciaram todo o pensamento ocidental e até hoje se encontram presentes no imaginário ocidental. No estudo do período medieval, Priscila do Carmo se surpreendeu com as leituras que indicavam uma análise do Gênesis a partir da obra o Timeu, de Platão. Estudando mais a fundo, descobriu que os filósofos que se 124 dedicaram a esse estudo faziam parte da chamada Escola de Chartres. Então, ela começou a se questionar: afinal, o que foi a Escola de Chartres? Qual é a sua importância na história da filosofia medieval? Como os filósofos dessa escola fizeram a associação entre o Timeu, de Platão, e o Gênesis? Esses questionamentos de Priscila serão também os nossos. Vamos nos debruçar agora sobre o estudo da fascinante Escola de Chartres e descobrir seus mistérios! Não pode faltar A Escola de Chartres, ou Escola da Catedral de Chartres, é conside- rada a mais vigorosa expressão do espírito progressista do século XII. Esse importante centro de cultura foi marcado, sobretudo, pela valorização das ciências naturais, pela aproximação com as leituras clássicas grega e árabe, por um humanismo delicado e por uma fusão singular de ideias platô- nicas com tendências nominalistas ou conceitualistas acerca dos universais (BOEHNER; GILSON, 1991). Para compreender esse espírito, é importante ressaltar que, no decurso do século XI e, notadamente, no princípio do século XII, o acesso aos tesouros da ciência grega e árabe foi facilitado por crescentes traduções e compilações, acompanhadas de observações originais e independentes dos respectivos autores. Eis, aqui, alguns pioneiros dessas traduções e compila- ções: 1. Gerberto de Aurillac (o futuro Papa Silvestre lI), que foi educado nas escolas francesas e espanholas, manifestou grande interesse pelas ciências naturais e matemáticas, atraindo a influência árabe; 2. Constantino, o africano (primeira metade do século XII), divulgou aos seus contemporâ- neos as fontes da medicina árabe e grega; 3. Adelardo de Bath fez o mesmo no tocante à matemática e às ciênciasnaturais, sem deixar de enriquecê-las com sua contribuição pessoal (BOEHNER; GILSON, 1991). A fundação da escola é comumente atribuída a Fulberto de Chartres (morto em 1092), que constituiu o elo entre a Escola de Chartres e as ciências árabes. Fulberto nasceu nos arredores de Roma, foi amigo e discípulo de Gerberto de Aurillac, em Reims, estudou na cidade de Chartres e foi nomeado bispo dela. De seus sermões, poemas e cartas, pode-se concluir que ele manteve orientações platônicas e neoplatônicas dentro da fé cristã. Acreditava que a razão poderia conhecer as essências ou ideias eternas, mas estava subordinada à fé, que conhece somente mediante a revelação (MORA, 2001). Uma característica da escola é o fato de os seus representantes mais ilustres terem sido, ao mesmo tempo, bispos ou chanceleres, o que não deixou de contribuir para o êxito da instituição. O chanceler dirigia a escola 125 sob a fiscalização do bispo, o qual, por sua vez, costumava ser eleito dentre o corpo docente, após ter exercido o cargo de chanceler. A Escola de Chartres alcançou seu florescimento máximo no século XIl e, em particular, no tempo de Bernardo de Chartres (falecido entre 1124 e 1130), de quem não possu- ímos nenhum escrito, mas que deu origem a toda uma linhagem de discí- pulos eminentes (BOEHNER; GILSON, 1991). Bernardo de Chartres foi o primeiro dos mestres da Escola de Chartres e Chanceler de Chartres de 1119 a 1124. Ele se inclinou decididamente ao platonismo, mas não apenas como uma revivescência das doutrinas de Platão. Assim, as ideias de Bernardo procediam, com efeito, de fontes muito diversas (o Timeu, Sêneca, Santo Agostinho, inclusive, correntes pitagori- zantes), tendo sido harmonizadas, além disso, com tendências humanistas clássicas. Estas últimas não foram tomadas por Bernardo unicamente no sentido de uma instrução literário-gramatical, mas também e especialmente como matéria da reflexão lógico-gramatical e lógico-ontológica (MORA, 2000). O realismo platônico de Bernardo de Chartres, modificado pela inter- pretação cristã das ideias como pensamentos divinos, devia-se tanto a um estudo de diversas tradições de fundo platônico como às consequências que o levaram às suas análises de cunho lógico linguístico. Nesse âmbito, Bernardo desenvolveu – a julgar pelo que João de Salisbury nos apresenta de suas ideias – uma ontologia hierárquica formada por Deus, pelas ideias eternas (embora subordinadas a Deus), pelas chamadas ideias ou formas nativas, que são cópias das ideias eternas e modelos das coisas, e pela matéria, criada do nada e unida às citadas ideias nativas para dar origem às coisas singulares (MORA, 2000). A doutrina de Bernardo de Chartres é conhecida, especialmente, pelos fragmentos referentes a ela, que se encontram no Metalogicon e no Policratius, de João de Salisbury. O escrito De mundi universitate sive Megacosmus et Microcosmus, que se atribuía antes a Bernardo de Chartres, deve-se a Bernardo Silvestre. Bernardo de Chartres foi chanceler da escola, e sua preocupação maior parece ter sido a de cultivar a inteligência e desenvolver o gosto dos alunos, sem sobrecarregá-los com erudição inútil. Entre os discípulos dele, desta- cou-se Gilberto de la Porrée, a quem sucedeu como chanceler da escola, e Thierry de Chartres (irmão de Bernardo), que lecionou em Paris e teve como aluno João de Salisbury (GILSON, 2001; MORA, 2000). Depois de Bernardo, o posto de chanceler foi ocupado por Gilberto de la Porrée (1076- 1154), um mestre exigente e até mesmo severo. Não hesitava em fazer chicotear copiosamente um aluno por uma falta de sintaxe. Quando 126 considerava um aluno incapaz para o estudo, aconselhava com uma ironia: “Fazei-vos antes padeiros” (JEANUEAU, 1986, p. 47). Em 1142, foi promo- vido a Bispo de Poitiers, onde outros combates o esperavam. Foi denun- ciado ao papa pelas suas opiniões relativas à Trindade e teve que se defender num sínodo reunido em Reims, em 1148, no qual enfrentou São Bernardo e escapou da condenação. Escreveu comentários sobre os Salmos, as Epístolas de São Paulo e os Opúsculos Teológicos de Boécio. E é, sobretudo, nesses últimos comentários, que devemos procurar os elementos do seu pensa- mento filosófico. Gilberto de la Porrée não foi apenas um teólogo mas também um metafí- sico profundo e original. O seu pensamento sutil, que confundia já os contemporâneos, confunde a nós com maior razão. Entretanto, seu pensa- mento não é daqueles que se deixam facilmente resumir. O fato é que suas teses eram bem diferentes daquelas defendidas por Thierry de Chartres, de quem se falará adiante. Tradição e inovação Foi a orientação científica que determinou o espírito chartriano, o “espírito de curiosidade, de observação, de investigação que, alimentado pela ciência grego-árabe, vai brilhar” (LE GOFF, 2003, p. 74). Evidentemente, essa curiosidade científica causou indignação nas figuras mais tradicionalistas. Absalon de Saint-Victor – cânone e mestre em Saint-Victor de Paris, antes de tomar, em 1193, o chefe da abadia dos cânones regulares de Springiersbach, na Alemanha –, por exemplo, se escandalizou com o interesse que se estabe- leceu entre esses intelectuais pelas coisas naturais, conformação do globo, natureza dos elementos, estrelas, animais, vinda das plantas e das raízes, enfim, temas que perigosamente poderiam enveredar para explicar o homem e o mundo em perspectiva científica e não divina. Era quase uma heresia. Também escandalizado, Guillaume de Saint-Thierry – por vezes chamado de São Guilherme, teólogo e abade em Saint-Thierry, França – escreveu a São Bernardo “para denunciar ao amigo a existência de pessoas que explicam a criação do primeiro homem, não a partir de Deus, mas da natureza, dos espíritos e das estrelas” (LE GOFF, 2003, p. 75). Todavia, foi pela força dos estudos intelectuais de Chartres que grandes figuras da antiguidade foram revisitadas, popularizadas, cristianizadas e se tornaram símbolo do saber e mentores dos chartrianos, e foi com este espírito que eles comentaram o Gênesis, mas não só. Salomão, por exemplo, foi consi- derado pelos chartrianos o grande mestre da ciência oriental e hebraica, “não o sábio do antigo testamento, mas o grande representante da ciência hermética” (LE GOFF, 2003, p. 75). Do mesmo modo, Alexandre, o Grande, 127 foi considerado um filosofo nato, visto ele ter sido iniciado por Aristóteles. Acredita-se que Aristóteles imprimiu em Alexandre o gosto pela investigação e a curiosidade pela ciência. Públio Virgílio (70 a.C.-19 a.C.), poeta romano clássico, foi outra figura da antiguidade evocada por Bernardo de Chartres, por meio do estudo da Eneida. Bernardo comenta os seis primeiros livros do poema, como se fosse uma obra científica, da mesma forma como comenta o Gênesis. Os textos nos quais os chartrianos se baseavam demonstram facilmente quem informava seus pensamentos. Uma das obras estudadas era de Marciano Capella (século IV), As núpcias de Mercúrio e da Filologia, justamente a obra que celebra a relação entre as letras e as ciências. Também, estudava-se o Planisfério, o Canon e as Tábuas de Ptolomeu, que dizem respeitoà aritmé- tica, à geometria e à astronomia (REALE; ANTISERI, 2003). Além desses, os Tratados de Donato e de Prisciano constituíam a base do ensino de gramática. Cícero e Marciano Capella eram utilizados para a retórica, e Boécio e quase todo o Organon, de Aristóteles, para a dialética. Observe-se que “Boécio, Isidoro de Sevilha, Coumela, Gilberto Higino e Ptolomeu figuram ao menos por fragmentos, na base da aritmética, da geometria, da astronomia e da música” (GILSON, 2001, p. 327). Pode-se afirmar que Chartres formou, principalmente, pioneiros. Na Paris pós-Abelardo, espíritos moderados da Igreja dedicaram-se a incorporar inovações ao ensino tradicional, cuidando para que não houvesse escândalo quanto ao material dos inovadores. Observe-se, todavia, que, no século XII, houve maior valorizaçãoda gramática em relação à lógica, o que resultou na decadência da cultura clássica das escolas francesas no século seguinte, sobretudo, na Universidade de Paris, “em vez de fazer às belas letras servirem a formação do gosto e do caráter, reduzir-se-á seu estudo ao da gramática, considerada como um ramo da lógica” (GILSON, 2001, p. 316). As artes do trivium em perspectiva religiosa Na Escola de Chartres, o estudo das artes do trivium – gramática, retórica e lógica – tinha particular importância, sobretudo, a gramática, já que ela estava ligada a uma concepção platônica realista acerca dos universais, bem como exprimia certa capacidade de compreensão do mundo. Isto porque, se o nome exprime as ideias e elas são modelos das coisas, o estudo das relações entre os nomes exprime em alguma medida a relação entre as coisas. No entanto, o estudo das artes do trivium não resulta em abrir mão das artes do quadrivium – aritmética, geometria e música –, em especial, do estudo das ciências naturais, que teve grande destaque entre os pensadores dessa escola catedrática. 128 Foi João de Salisbury, falando sobre as aulas de Bernardo de Chartres, em sua obra Metalogicon, quem registrou o culto ao trivium e a sua aplicação prática na atividade escolar e em termos religiosos, para a exaltação da fé e da moral. Das matérias do trivium, a gramática era a que mais apontava para a interpretação realista feita de Platão, “segundo o qual o nome expressa a natureza mesma da coisa designada” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 179). Assimile João de Salisbury (1115-1180) foi discípulo de Thierry de Chartres e desempenhou relevantes cargos dentro da Igreja, como secretário do Arcebispo de Cantuária e Bispo de Chartres (1176-1180). Escreveu a História Pontificada, uma obra que contempla os anos que passou em Roma, bem como divulgou uma coleção de correspondência de Thomas Becket (1118-1170) após a morte do santo. João de Salisbury contribuiu, no campo filosófico, para o Renascimento do século XII, sendo a primeira figura de destaque a escrever à luz da obra aristotélica sobre a lógica. As obras Policratus, uma análise do Estado, e Metalogicon, uma defesa do estudo da lógica e da metafísica, são os mais famosos exemplares de sua erudição, ambos escritos em 1159. Suas cartas revelam que ele era um eminente defensor do humanismo do século XII e um dos mais elegantes latinistas de seu tempo (LOYN, 1997). Assim, era possível fazer analogia entre os nomes e as coisas porque ambos derivavam do mundo das ideias. Desse modo, as “diferentes formu- lações gramaticais expressam, com as flexões dos casos, dos gêneros etc., o grau diverso de participação das coisas mencionadas na perfeição originaria” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 179). Exemplificando Bernardo de Chartres, ao interpretar a passagem do substantivo abstrato “brancura” para o verbo “branquear” e para o adjetivo “branco”, via a ideia se transmitir até se corromper nesse adjetivo e, à medida que desce em direção ao sensível, a ideia empobrece e obscurece. E “esta é uma perspectiva gramatical e retórica de tipo realista, na qual eram relidos alguns momentos propriamente metafísicos de Platão” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 179). 129 O Timeu, de Platão, interpretado à luz do Gênesis No século XII, havia um clima de fervor platônico, que não era uma prerro- gativa exclusiva da Escola de Chartres, mas que era uma de suas características mais notórias. É certo que, na Idade Média, existiu o polimorfismo da influência platônica. O próprio Platão não estava em lugar algum, mas o platonismo estava em todo lugar. Assim, digamos que existiam platonismos em todos os lugares. As fontes usadas da época para comentar sobre Platão eram apenas indiretas: Augustin, Macrobe, Chalcidius, Boethius e Martianus Capella. No entanto, elas foram suficientes para estabelecer correspondências entre a filosofia grega e o cristianismo. A fonte do Timeu utilizada nesse período foi oriunda da tradução para o latim, feita pelo filósofo Chalcidius, no século IV. Certamente, Chalcidius poderia ter carregado com seus comentários o Timeu com elementos estranhos ao platonismo, mas o fato é que Platão estava presente e que seu Timeu exercia considerável influência sobre certas áreas do pensamento medieval. A influência da obra foi naturalmente exercida, primeiro, sobre os clérigos, os quais, como sabemos, escreviam latim (JEANUEAU, 1973). Figura 3.1 | Manuscrito de Timeu, tradução para latim de Chalcidius Fonte: wikimedia commons. O pensamento de Platão sobre a filosofia da natureza de seu Timeu é o mais próximo que se pode chegar da revelação cristã. Portanto, Platão se apresentava como um autor de envergadura para ser utilizado na interpre- tação do Gênesis. Pode-se dizer que essa foi a “primeira tentativa de relacionar a física com a teologia, encaminhando o desenvolvimento das ciências do quadrivium” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 180). O Timeu, de Platão, é uma obra de uma filosofia da natureza que, na perspectiva dos chartrianos, foi elaborada pelo filósofo mais próximo da revelação cristã e, portanto, seria um auxílio válido para a melhor compreensão 130 do Gênesis, a narrativa bíblica da criação do mundo. (REALE; ANTISERI, 2003). Entretanto, emprestar à Platão uma doutrina da criação da matéria por Deus era cristianizar sua cosmogonia para podê-la utilizar mais facilmente. Para os chartrianos, se Deus criou a natureza, com certeza, respeitava as leis que deu a ela, “sua onipotência não é contrária ao determinismo” (LE GOFF, 2003, p. 77), assim, o milagre age no interior da ordem natural. A esse respeito, Guillaume de Conches (apud LE GOFF, 2003, p. 77-78) escreveu que: O que importa não é que Deus tenha podido fazer isso, mas examinar isso, explicá-lo racionalmente, mostrar-lhe a finali- dade e a utilidade. Sem dúvida, Deus pode fazer tudo, mas o importante é que ele tenha feito tal ou qual coisa. Sem dúvida Deus pode de um tronco de árvores fazer um bezerro, como dizem os rudes da roça, mas alguma vez ele o fez? Guillaume de Conches (1090-1154) foi discípulo de Bernardo de Chartres e um dos mais destacados membros da escola. Com uma curiosidade quase universal e uma personalidade forte, os trabalhos a ele dedicados são tão numerosos que não se pode questioná-los aqui. Sabe-se que ele escreveu as obras Philosophia e Dragmaticon, bem como fez glosas sobre Platão, Boécio, Prisciano e Macróbio, as quais são muito reveladoras das ideias e tendências específicas do ambiente de Chartres (JEANUEAU, 1973). Figura 3.2 | Representação da obra Dragmaticon, de Guillaume de Conches Fonte: wikimedia commons. 131 Guillaume de Conches desenvolveu a filosofia natural platonizante e a física corpuscular. Nesta última, reduziu a quatro os elementos corpúsculos homogêneos que formavam, por combinação, os distintos corpos. Quanto à filosofia platônica, presente no Timeu, tentou explicar a criação do mundo por meio de ideias que Deus teria tomado como modelo na formação do universo, ao modo de um artesão criador e ordenador. Dessa forma, pretendeu conciliar o Timeu com a doutrina cristã da criação, ainda que, para isso, precisasse recorrer à função ordenadora do criador (MORA, 2001). No entanto, Guillaume de Conches tendia a tratar certas páginas das Escrituras Sagradas como ele tratava as histórias da mitologia, e isso causou certas controvérsias. Por exemplo, a controvérsia com Bernardo Silvestre – que não é a mesma pessoa de Bernardo de Chartres e sobre o qual se sabe muito pouco – em relação às águas acima do firmamento é significativa. Faz-nos entender bem o que, na atitude de Guillaume, mais chocou certos espíritos e lhes parecia perigoso para a fé. Foi que, encontrando ou acredi- tando encontrar uma contradição entre as Escrituras e as leis da física, o filósofo de Conches sacrificou de bom grado a letra das Escrituras à física (JEANUEAU, 1973). Outro exemplo dessa atitude é a exegese dos versículos de Gênesis,onde é contada a criação da primeira mulher. Guillaume, em Philosophia, se recusou a levar esses versos à letra: ele não pode admitir que Deus extraiu de fato e materialmente uma costela de Adão para formar o corpo de Eva. Sob ataques, ele cedeu e repudiou em seu Dragmaticon o que havia escrito em sua Philosophia (JEANUEAU, 1973). Thierry de Chartres (1110-1150), por sua vez, deu prosseguimento às tendências eclético-platônicas e platônico-cristãs inauguradas por Bernardo de Chartres num sentido enciclopédico e erudito. Muito inclinado à matemá- tica e à interpretação simbólica pitagorizante, Thierry procurou harmonizar o texto bíblico com o comentário de Chalcidius ao Timeu, com base numa metafisica que acolheu, por um lado, o realismo platônico e, por outro, várias ideias pitagóricas sobre a unidade e o predomínio do número. Nesse quadro, Thierry examinou certas ideias de filosofia natural que, como a do ímpeto, tiveram, mais tarde, um considerável desenvolvimento (MORA, 2000). Na obra Eptatheucon, que ficou conhecida como “a bíblia das artes liberais”, Thierry de Chartres exprimiu a sua teoria acerca do saber e o papel das artes liberais no processo de conhecimento humano. O título da obra fazia uma analogia entre as sete artes liberais que compunham o trivium e o quadrivium e os sete primeiros livros da Bíblia. No prólogo da obra, o autor afirmou que a reflexão e a expressão adequada eram os dois instrumentos 132 básicos do filosofar: o primeiro seria proporcionado pelo quadrivium, e o segundo, pelo trivium (JEANUEAU, 1973). A obra Hexaemeron, de Thierry de Chartres, é um pequeno tratado, mas de grande interesse para a história do pensamento filosófico. Por um lado, contém uma cosmologia original e, por outro lado, uma apresentação nervosa, com um sabor nitidamente pitagórico, da Unidade e da Trindade. O principal mecanismo da cosmologia de Thierry não parece ser essencial- mente diferente daquele que controla a física de Guillaume de Conches. Aqui é uma questão de escapar de um caos primitivo absoluto, do qual apenas uma intervenção milagrosa de Deus poderia atrair um mundo organizado (JEANUEAU, 1973). Para Thierry de Chartres, a sabedoria consistia em compreender perfei- tamente as coisas que existem e que são imutáveis. Para ele, as quatro vias de acesso a essa sabedoria compunham as disciplinas do quadrivium (aritmé- tica, geometria, astronomia, música), que eram herdeiras das quatro ciências privilegiadas de que fala Platão no livro VII, da República. Todavia, Thierry recorria à aritmética – não exatamente a que conhecemos, mas a ciência do número combinada com considerações metafísicas que gregos tinham concedido e que Boécio transmitira aos latinos – para demonstrar que Deus é a Unidade, e a Unidade é Deus (JEANUEAU, 1986). Assimile Aplicando a aritmética pitagórica, Thierry deduziu que os números se geram por multiplicação e que existem dois tipos dela: a multipli- cação do mesmo pelo mesmo e a multiplicação de números diferentes, um pelo outro. Esses dois tipos de multiplicação convêm à unidade. Pela multiplicação do segundo tipo, a unidade gera até o infinito a série dos números inteiros, que traduz, em linguagem matemática, o poder infinito do criador, visto que criar os números é criar as coisas. Quanto ao primeiro tipo de multiplicação, permite-nos, se o aplicarmos à Unidade, compreender melhor o mistério da Trindade. A Unidade não gera outra coisa que não seja a Unidade. A Unidade gerada não é inferior à Unidade geradora. Como a Unidade geradora, a Unidade gerada é eterna, mas não podem existir duas unidades eternas. Assim, a Unidade e a Igualdade não são mais do que uma. Além disso, a Unidade tende a manter-se o que é, aspira a continuar igual a si mesma; por outras palavras, aspira à Igualdade da Unidade. E a Igualdade, para se manter o que ela é, deseja, necessariamente, a Unidade. Existe, pois, entre a Unidade geradora e a Igualdade que ela gera, um amor ou uma conexão. Esse terceiro termo, que deriva dos dois primeiros, não quebra a unidade, ao contrário, funde-a e consagra-a. No entanto, gerar, ser 133 gerado e desempenhar o papel de conexão não se confundem. Deste modo, as matemáticas fazem-nos descobrir uma Trindade no seio da unidade, uma Trindade que é Unidade (JEANUEAU, 1986). Thierry de Chartres queria dar, a partir da gênese das coisas, uma expli- cação rigorosamente racional. Isso pressupunha atentar-se não para a onipo- tência de Deus, mas apenas para as leis da física. Para atingir esse objetivo, Thierry sugeriu o que poderíamos chamar de uma teoria cinética dos corpos. Os quatro elementos – terra, água, ar, fogo – não são compostos de partículas diferentes, porque pode ser explicada mais, então, a transmutação de um elemento em outra. É a compressão mais ou menos das mesmas partículas que produz fogo, ar, água, terra (JEANUEAU, 1973). Nos elementos pesados (terra e água), as partículas são compactas, bem compactadas contra os outros. Nos elementos leves (ar e fogo), as mesmas partículas são dissociadas umas das outras e dotadas de uma agitação perpétua. E se os elementos pesados são tais, é que os elementos leves, por sua agitação perpétua, os atormentam e os cercam por todos os lados. Existe, portanto, uma reciprocidade entre o estado dos elementos pesados “sólidos” e dos elementos leves de estado “móveis”. A mobilidade de alguns supõe a fixidez de outros, porque qualquer movimento requer um ponto de apoio estacionário. Por outro lado, a “solidez” de elementos pesados é o resultado de assédio de elementos leves (JEANUEAU, 1973). Ao fundir a essência do Gênesis e do Timeu, Thierry de Chartres confirmou que ambos são os princípios das coisas: “Deus, princípio da unidade, e a matéria, princípio da multiplicidade” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 180). Thierry tinha a convicção de que Platão não compreendeu a matéria como um princípio coexistente a Deus, mas, “ao modo pitagórico, pôs a matéria como derivada ou descida da unidade. Trata-se de uma aproximação que parecia mais adequada para uma cautelosa tentativa de cristianização do neoplatonismo” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 180). Reflita Observe que começou, naquele momento, a dessacralização da natureza e o surgimento da crítica do simbolismo, assim como a introdução necessária ao estabelecimento de qualquer ciência, que o cristianismo tornou possível a partir da sua difusão. O cristianismo foi deixando de considerar a natureza, os astros e os fenômenos como deuses, como fazia a ciência da antiguidade, e passa a considerar a criação como obra de apenas um Deus. De acordo com Le Goff (2003), não há dúvida de que o século XII contém muitos símbolos, mas seus intelectuais fizeram 134 a balança se inclinar para o lado da ciência racional. Agora, você pode refletir sobre a seguinte questão: como a Igreja reagiu a todo esse processo? Ela perdeu forças a partir do momento em que a natureza passa a ser dessacralizada e os simbolismo são criticados? Por fim, cabe ressaltar que o espírito chartriano desse momento é humanista, não porque buscou inspiração na cultura antiga para edificar sua obra, mas porque colocou o homem no coração da sua ciência, da filosofia e, por um triz, não o colocou também no centro da teologia. O homem, “os chartrianos o veem em primeiro lugar como um ser racional. Era nele que se operava essa união ativa da razão e da fé que é um dos ensinamentos funda- mentais dos intelectuais do século XII” (LE GOFF, 2003, p. 79). Importa observar que se trata de um humanismo feito de gramática e retórica, assim como de um humanismo imbuído da convicção de que “para filosofar o intelecto precisa ser iluminado pelo quadrivium e possuir os instrumentos de interpretação constituídos pelo trivium” (REALE; ANTISERI, 2003, p. 178), ou seja, precisa da ciência e das letras concomitantemente. Sem medo de errar O que foi a Escola de Chartres? Qual é a sua importância na história da filosofia medieval? Como osfilósofos dessa escola fizeram a associação entre o Timeu, de Platão, e o Gênesis? Esses foram os questionamentos de Priscila do Carmo ao se deparar com o século XII em seu estudo acerca das concep- ções sobre a criação do mundo e/ou de todas as coisas nele existentes, que estava vinculado ao seu grupo de pesquisas em filosofia de uma instituição de ensino superior. Para ela compreender todas essas questões, é necessário, primeiramente, saber que, no século XII, a Europa Ocidental passava por importantes trans- formações sociais, políticas e econômicas, e que a escola urbana se desen- volvia em sentido diferente do que a escola monástica. É nesse contexto que se desenvolveu a Escola de Chartres, que estava ligada à Catedral de Chartres, na França. Essa escola se destacou por seu espírito progressista no século XII, que era investigativo, curioso e científico, e teve como base grandes figuras do passado, tais como Salomão, Alexandre e Virgílio. Na sequência, Priscila precisa entender que foi com o espírito investi- gativo e com base na onipotência da natureza que os chartrianos comen- taram o Gênesis, explicando-o a partir das leis naturais, tendo como base o Timeu, de Platão. E aqui é importante entender que, no século XII, havia um clima de fervor platônico que não era uma prerrogativa exclusiva da Escola 135 de Chartres, mas que era uma de suas características mais notórias. E o Timeu foi elaborado a partir da teoria das formas ou das ideias de Platão, que procurou distinguir o mundo físico do mundo eterno e foi entendido pelos chartrianos como um auxílio válido para a melhor compreensão do Gênesis, a narrativa bíblica da criação do mundo. Priscila deve chegar à conclusão que, dentre os filósofos que analisaram o Gênesis à luz do Timeu, destacaram-se Guillaume de Conches e Thierry de Chartres. Guillaume de Conches escreveu a obra Philosophia e desen- volveu a filosofia natural platonizante e a física corpuscular. Na primeira, tentou explicar a criação do mundo por meio de ideias que Deus teria tomado como modelo na formação do universo, ao modo de um artesão criador e ordenador. Na segunda, reduziu a quatro os elementos corpúsculos homogêneos que formavam, por combinação, os distintos corpos. Já Thierry de Chartres procurou harmonizar o texto bíblico com o Timeu, com base numa metafisica que acolheu, por um lado, o realismo platônico e, por outro, as várias ideias pitagóricas sobre a unidade e o predomínio do número. Ao pretender dar ao Gênesis uma explicação rigorosamente racional, atentou-se não para a onipotência de Deus, mas apenas para as leis da física. Para atingir esse objetivo, Thierry sugeriu o que poderíamos chamar de uma teoria cinética dos corpos. Por fim, Priscila deve apreender que, naquele momento, a Escola de Chartres iniciou um processo de dessacralização da natureza e de crítica do simbolismo que possibilitou o desenvolvimento do humanismo e das ciências do período moderno, pautadas na racionalidade humana enquanto pressuposto para a produção de conhecimento. Faça valer a pena 1. Chartres é o grande centro científico do século [XII]. Não se desdenhavam lá as artes do trivium – gramática, retórica e lógica –, como se viu no ensinamento de Bernardo de Chartres. Mas a esse estudo das voces, das palavras, Chartres preferia os estudos das coisas, das res, que eram objeto do quadrivium: aritmética, geometria, música e astronomia. (LE GOFF, 2003, p. 74) Acerca do espírito chartriano, analise as afirmativas a seguir: 136 I. Prevaleceu o espírito da curiosidade, da observação e da investi- gação, que teve como base as grandes figuras do passado, tais como Salomão, Alexandre e Virgílio. II. Foi com o espírito investigativo e com base na onipotência da natureza que os chartrianos comentaram o Gênesis, explicando-o a partir das leis naturais. III. Os chartrianos iniciaram um processo de dessacralização da natureza e de crítica ao simbolismo, enfocando no caráter racional da criação. Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma em: a. I, apenas. b. II, apenas. c. I e II, apenas. d. II e III, apenas. e. I, II e III. 2. Foi um gramático culto, platonizante em filosofia e adver- sário dos cornificianos. Em suma, um perfeito chartrense. Devemos-lhe uma Philosophia miundi, enciclopédia filosó- fica e científica; o Dragmaticon Philosophiae, ou diálogo sobre as substâncias naturais; um Moralium dogma philo- sophorum, glosas sobre o Timeu de Platão e sobre a Conso- latio philosophiae de Boécio. (GILSON, 2001, p. 333) Após a leitura do texto-base, assinale a alternativa que apresenta correta- mente o nome do filósofo nela descrito: a. Bernardo de Chatres. b. Guillaume de Conches. c. João Salisbury. d. Thierry de Chartres. e. Fulberto de Chartres. 137 3. Ao falar da escola de Chartres, falamos do principal centro cultural do século XII, com mestres de grande prestígio e com um núcleo doutrinal unitário e, em muitos aspectos, inovador. A fama dessa escola já remontava aos tempos do bispo Fulberto, que morreu em 1028. Posteriormente, no século XII, os mestres mais conhecidos, que deram brilho a escola catedral de Chartres, foram os irmãos Bernardo e Teodorico [Thierry] de Chartres e Guilherme de Conches, que se destacaram pela leitura direta dos clássicos, pela predileção pelos autores antigos, particularmente por Platão, e, portanto, pela importância que davam as humanae litterae. (REALE; ANTISERI, 2003, p. 177) Acerca dos escritos de Bernardo de Chartres, Thierry de Chartres e Guilherme de Conches, analise as afirmativas a seguir: I. Bernardo de Chartres modificou o realismo platônico, interpretando as ideias como sendo pensamentos divinos. II. Thierry de Chartres desenvolveu uma filosofia natural platonizante e a física corpuscular, na qual reduziu a quatro os elementos corpúsculos homogêneos que formavam, por combinação, os distintos corpos. III. Guillaume de Conches era muito inclinado à matemática e à inter- pretação simbólica pigagorizante no estudo da Trindade e da criação descrita no Gênesis. Considerando o contexto apresentado, está correto o que se afirma em: a. I, apenas. b. II, apenas. c. I e II, apenas. d. II e III, apenas. e. I, II e III. Referências ALESSIO, F. Verbete “Escolástica”. In: LE GOFF, J.; SCHMITT, J. (Orgs). Dicionário temático do Ocidente Medieval. Bauru, SP: Edusc, 2006. BOEHNER, P.; GILSON, E. História da filosofia cristã. 5. ed. Trad. Raimundo Vier. Petrópolis, RJ: Vozes, 1991. CAMBI, F. História da Pedagogia. São Paulo: Editora da Unesp, 1999. CRUZ, M. B.; SILVA, C. L. O nominalismo de roscelino de compiègne: os universais como “flatus vocis”. Cadernos do PET Filosofia, v. 5, n. 9, p. 48-55 jan.-jul. 2014. CULLETON, A. O que é a escolástica e a Escola de Salamanca. IHU ON-LINE – Revista do Instituto Unisinos, São Leopoldo, ed. 342, dez. 2010. 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Menos ligado ao mundo das ideias, Aristóteles é mais objetivo e pondera suas consi- derações sem apelar ao mundo ideal. Mas o Aristóteles que será apresentado à Idade Média será um Aristóteles sob as lentes de Avicena, Averróis e Tomás de Aquino. Cada um desses pensadores procurará aprofundar-se no pensamento de Aristóteles sob uma determinada perspectiva; procurando compreender suas inquietações filosóficas a partir de Aristóteles. Primeiramente veremos o aristotelismo de Avicena, o de Averróis e a filosofia hebraica. De Avicena veremos que o referido filósofo escreveu uma obra própria fundamentada na obra de Aristóteles, possuindo uma formação em humanidades, alcorão, matemática, filosofia e conhecimento na área de medicina. O mundo é, para Avicena, produto eterno de Deus. O mundo emana de Deus. Avicena, apesar de ser um intérprete de Aristóteles, também não deixou de ter influências do neoplatonismo. Por outro lado, em uma outra perspectiva, temos Averróis, que não foi tão bem aceito pelos cristãos porque acreditava que, em caso de divergência entre a fé e a razão, deve-se dar mais crédito à razão. Averróis afirma a eternidade do mundo e nega que a alma individual seja imortal. Assim, a única alma imortal é Deus. Veremos ainda as contribuições da filosofia hebraica com os pensadores Avicebron e Moisés Maimônides. Em seguida, procuraremos aprofundar nossos conhecimentos sobre o doutor angélico Tomás de Aquino, que em muito contribuiu para se falar de Deus como grande exercício para se adaptar a teoria aristotélica para o ideário cristão. Tomás de Aquino vai se deter sobretudo a apresentar a demonstração da existência de Deus e a interpretação racional dos dogmas. Ele apresenta as 5 vias da demonstração da existência de Deus que remontam a uma adaptação da demonstração aristotélica da existência de um primeiro motor imóvel. Porém, diferente do Deus mecânico de Aristóteles, o Deus de Tomás de Aquino é um Deus pessoal capaz de relacionar-se de maneira pessoal com as criaturas. Por fim, vemos uma crise na escolástica no sentido de uma orientação diferenciada no trato entre filosofia e religião. Os filósofos deste período vão entender que os problemas entre teólogos e filósofos é compreendido no âmbito de um equívoco, porque entenderam que se trata de campos diversos do saber e que não podem ser equiparados como quiseram, por exemplo, Tomás de Aquino e Agostinho de Hipona. Escoto, diferente de Agostinho e Tomás de Aquino, entende que a filosofia e a teologia têm campos de atuação diversos e querer equacioná-los é um reducionismo. Guilherme de Ockham, por sua vez, defende que o âmbito da revelação é incognoscível e as verdades da fé não podem ser compreendidas pela razão. Ockham também entende que são infrutíferas as tentativas de equacionar as especulações filosóficas e as especulações teológicas. Enfim, nesta seção somos convidados a viajar para o interior da escolástica e conhecer seus pensadores. Muito mais do que concordar ou discordar do pensamento destes teóricos somos convidados a procurar entender o contexto em que exercitaram seu pensamento e darmos nossa contribuição no sentido de termos mais condições de fundamentar nosso conhecimento sobre Deus. 143 Seção 1 As filosofias árabe e hebraica e a penetração de Aristóteles no Ocidente Diálogo aberto Neste momento, prezado acadêmico, estudaremos a redescoberta de Aristóteles para a Idade Média e como essa descoberta impactou esse período. Até o momento em nossos estudos temos percebido a presença da contribuição da filosofia dos neoplatônicos na constituição do saber filosófico e teológico. A percepção de Aristóteles considera mais o real em detrimento da valorização do mundo das ideias platônico. Outrossim, os dois pensadores, Averróis e Avicena, procuram construir uma obra própria paralela de Aristóteles, mas sem deixar de ser dois grandes comentadores de Aristóteles. Veremos também como a filosofia hebraica impactou a compreensão sobre Deus no medievo. Suponhamos que você é coordenador de um curso de bacharelado em Teologia, e na última reunião do colegiado ficou estabelecido que a Semana de Teologia terá como tema “Escolástica no século XIII a XV”. Inovando na metodologia, o colegiado do curso de teologia decidiu que algumas perguntas serão feitas previamente para a coordenação organizar as questões e passar para o palestrante. O objetivo é que durante a palestra sejam respondidos os questionamentos. A semana de teologia terá palestras em três dias da semana, ficando assim divididas as palestras: 1º dia – As filosofias árabe e hebraica e a penetração de Aristóteles no Ocidente; 2º dia – Tomás de Aquino e a síntese Escolástica; 3º dia – A crise da Escolástica e os últimos pensadores medievais. Como coordenador de curso, você selecionou algumas questões que devem ser respondidas pelos palestrantes. Seguem as questões divididas por dia conforme a temática. Consideraremos as questões referentes ao primeiro dia as que são objeto de estudo desta seção: Sobre a filosofia árabe e hebraica, você, como coordenador, escolheu a seguinte questão para o palestrante do dia responder: “As filosofiasárabes e hebraicas limitaram-se a comentar Aristóteles ou procuraram construir uma filosofia própria a partir de Aristóteles?” Um questionamento feito a partir desta questão-problema foi a questão seguinte: “Avicena e Averróis deram quais orientações para a união entre fé e razão? E os filósofos judaicos, em que contribuíram para o desenvolvimento da teologia escolástica?” Assim, procuraremos aprofundar o conhecimento sobre Avicena e Averróis. Antecipamos que Averróis terá maior dificuldade de aceitação 144 entre os cristãos porque ele privilegia a filosofia quando houver discordância entre fé e razão. Mas ambos os pensadores deram uma grande contribuição ao medievo com sua teoria filosófica e teológica, resgatando o pensamento de Aristóteles. Não menos importante foram as contribuições dos filósofos hebraicos que estudaremos também, procurando perceber as contribuições do seu pensamento para todo o medievo. Vamos aos estudos! Desejamos um prazeroso estudo sobre esses nossos filósofos medievais para que você, se fosse o coordenador do curso ou o palestrante do dia, soubesse responder os questionamentos dos acadêmicos deste suposto curso de Teologia. Não pode faltar A escolástica dos séculos XIII a XV O aristotelismo de Avicena Aristóteles foi um personagem fundamental na formação do ocidente. A filosofia de Aristóteles serviu como contraponto, por exemplo, para a filosofia que foi acentuadamente influenciada pelo neoplatonismo. Em alguns aspectos, a filosofia de Aristóteles transita muito próxima do cristianismo vigente na Idade Média. A obra Ética à Nicômaco, por exemplo, orienta que o fim último da existência é a busca pela felicidade. E a felicidade conquista-se praticando o bem. E a orientação para a prática do bem é evitar exageros e buscar a mediania (DE BONI, 2010). Na segunda metade do século XIII vivenciou-se uma redescoberta da filosofia. A filosofia ganha autonomia em si mesma sem a necessidade de estar subordinada a teologia. Estabelece-se a razão como tribunal superior para julgar a atividade humana (DE BONI, 2010). Aristóteles foi conhecido no Ocidente, no contexto da Idade Média, por Averróis e Avicena (REALE; ANTISERI, 2019). Reflita Ao longo dos nossos estudos, você pôde perceber o quanto a Idade Média é rica em significados e possuiu uma filosofia própria. Nesse sentido, podemos nos questionar e refletir se realmente a Idade Média foi o período de trevas? Parece-nos um tanto anacrônico julgar a Idade Média como Idade das trevas se justamente neste período houve tantos pensadores e pensamentos próprios e comentadores de grandes filósofos. Fica o questionamento que pode ser ampliado com pesquisas pessoais: de que a Idade Média não foi tão negativa assim como muitas vezes é veiculado. 145 Avicena (980–1037), autor de origem persa, considerado um dos maiores pensadores do Islã Ocidental (DE BONI, 2010), de maneira original, em vez de escrever uma obra completa de comentários a respeito da Metafísica de Aristóteles, escreveu uma obra própria fundamentada na obra de Aristóteles. Avicena foi considerado o faylasul da filosofia mulçumana oriental, no sentido de ser um grande conhecedor da filosofia. Sua formação engloba humanidades, o alcorão, a matemática, filosofia e conhecimentos na área da medicina. Viajou bastante e morreu aos 58 anos com saúde frágil. Ganhou notoriedade com seu Compêndio de Metafísica, que em árabe recebeu título A salvação. Reza a tradição que ele leu A metafísica de Aristóteles por 40 vezes até que a compreendeu (SARANYANA, 2006). O mundo para Avicena é produto eterno de Deus eterno. O mundo emana de Deus. Emanam também espíritos das esferas que cuidam provi- dencialmente de todos os seres porque Deus não tem condições de se preocupar com o bem de cada indivíduo (HIRSCHEBERGER, 1966). Na teoria de Avicena, Deus é o único necessário e o mundo pertence à esfera do possível. Deus não é necessário porque é a causa própria de si mesmo e o mundo é possível porque Deus poderia não o criar. Avicena foi respon- sável por apresentar Aristóteles ao Medievo. Nasceu em 980 na região da Pérsia, consagrando-se como um pródigo escritor de obras que tiveram uma leitura ampliada no século XII. Escreveu esse persa aproximadamente 250 obras, englobando áreas como doutrinas esotéricas, lógica e física. Seguindo a metodologia apontada por Reale e Antiseri (2019), vamos nos deter ao chamado grupo de obras intitulado “Avicenismo latino”. No plano da divisão das áreas de saber da filosofia, Avicena constituiu como centro da filosofia a metafísica como estudo do ser. Saranyana (2006) destaca como ponto de partida de sua filosofia: “Dizemos que o ser (ens), a coisa (res) e o ser necessário (necesse) são tais que imediatamente se imprimem na alma com a primeira impressão, a qual não se adquire por meio de outras noções. ” (SARANYANA, 2006, p. 233). Avicena discorre sobre a noção de ser e de ente. O ente seria a instituição da qual tudo procede, mas temos dificuldade em dissertar sobre a temática. No plano da argumentação da existência de Deus, ele tece alegações que posteriormente serão retomadas por Duns Scoto. Em Avicena encontramos a distinção entre ente (concreto) e a essência (abstrata). Com relação à condição do ser humano, por exemplo, o João (pessoa) é o ente de natureza concreta e a humanidade é a essência de João com natureza abstrata. Com relação às influências recebidas por Avicena, assim Reale e Antiseri (2019) se pronunciam: 146 A filosofia de Avicena é profundamente permeada de neoplatonismo e de elementos extraídos da religião islâmica que completaram suas perspectivas aristotélicas (sobretudo no que se refere à teologia e à cosmologia), o que permitiu entusiástica acolhida por muitos pensadores cristãos. (REALE; ANTISERI, 2019, p. 192) O que contribuiu para que Avicena fosse bem aceito no medievo foi sua relação com o neoplatonismo. Como estudamos anteriormente, diversos padres da Igreja entraram em diálogo como o neoplatonismo, que em se tratando de doutrina filosófica, não era desconhecida dos latinos. Podemos problematizar a filosofia de Avicena com a seguinte questão: O mundo seria necessário e Deus teria criado o mundo livremente? Circunspecto, Avicena responde que o mundo é em certo modo contin- gente e em certo modo necessário. Ele entende uma certa necessidade de Deus criar o mundo, mas, por outro lado, como Deus poderia não criar, este mundo é contingente e necessita em certo grau de Deus para que seja mantido (REALE; ANTISERI, 2019). Avicena postula que um conjunto de seres possíveis e contingentes neces- sita de uma causa que não seja contingente. Essa causa é Deus, que não é um ser possível, porém, é existente por si mesmo (SARANYANA, 2006). Assim, “o ser necessário, por si, que é único por essência, não pode de modo algum depender de um princípio diferente de si mesmo, em razão de que queira agora e depois não queira” (SARANYANA, 2006, p. 230). Avicena entende que Deus é a primeira inteligência de onde toda a inteligência humana procede. Deus produz uma inteligência a partir de si mesmo. A filosofia de Avicena relaciona-se com sua profissão de fé islâmica que defende que Alá é o único ser necessário. Assim, “as noções de necessidade e possibilidade são correlativas, não somente na ordem lógica, mas também na ordem real” (SARANYANA, 2006, p. 231). O filósofo Avicena influenciará em muito o medievo, inclusive filósofos como Tomás de Aquino, por exemplo, na concepção de ser e essência. Consta que Tomás de Aquino o teria citado aproximadamente 300 vezes. Não de menor importância foi sua contribuição a Duns Scoto (SARANYANA, 2006). E o que mais marca a contribuição de Avicena está em procurar como Agostinho harmonizar fé e religião. Se Agostinho busca conciliar a razão com a fé cristã, Avicena busca conciliar a razão com a fé islâmica. 147 O aristotelismo de Averróis Averróis (1126–1198) escreveu obras particulares, mas também se dedicou,de maneira exemplar, a ser um comentador de Aristóteles. Nascido em Córdoba, dedicou-se a comentar Aristóteles, com ênfase de uma preocu- pação metafísica. Teve três tipos de comentários: os menores cujo, conteúdo é uma espécie de resumo da obra; os comentários médios, cujo escopo é a exposição em paráfrases do pensamento de Aristóteles; e os comentários maiores, em que o texto de Aristóteles é dividido em segmentos e estudado de forma pormenorizada, a exemplo da exegese cristã (DE BONI, 2010). Entre os medievais cunhou-se a expressão “averrorismo” para caracterizar o modo próprio de empreender a filosofia (DE BONI, 2010). Partindo de sua cosmovisão de mundo islã, Averróis foi um exímio comentador de Aristóteles. Nos seus posicionamentos norteia-se como crítico de Avicena. Longe de ser um fideísta, Averróis entende que a razão tem primazia perante a fé em caso de divergência entre ambas (REALE; ANTISERI, 2019). Averróis não foi tão bem aceito pelos cristãos, sobretudo por sua posição de dar mais crédito à razão do que a fé em caso de diver- gência entre ambas. Sua obra Tratado decisivo sobre a concordância entre filosofia e religião permaneceu na obscuridade durante o medievo. Baseado em Aristóteles, Averróis afirma a eternidade do mundo e nega que a alma individual seja imortal. Assim, a única alma imortal é Deus. Averróis presumiu que durante sua vida esteve a estudar uma filosofia que fosse a filosofia perfeita. Assim, ele defende que a filosofia de Aristóteles seria não apenas uma filosofia, mas a verdade suprema. Acredita que se tanto a religião como filosofia buscam a verdade, então deveriam convergir para as mesmas verdades, e, se não convergem, deve-se dar primazia à razão. Chega a proclamar que a verdade que existe é a verdade da razão (REALE; ANTISERI, 2019). Assimile Conforme Costa (1994, p.16) Averróis […] é a transliteração latina do árabe Ibn Ruchd: ‘descendente ou filho dos Ruchd’. Pertencia à família dos Banu Ruchd, cuja importância e tradição começaram com o avô Abul-Walid Muhammad Ibn Ruchd, um conhecido jurista maliki, nascido em 1059. Foi juiz de Córdoba, cargo posteriormente exercido por seu filho, pelo neto (Averróis) e por um bisneto. 148 Era uma função de grande prestígio, por força de seu caráter tríplice: civil, religioso e jurídico. [...] Averróis nasceu em Córdoba em 1126. De início, recebeu a educação corâmica tradicional, seguida pela jurídica e, finalmente, pela médica. A atuação de Averróis como jurista e médico foi importante devido aos cargos que ocupou e exerceu, mas sua fama no Ocidente cristão se deveu sobretudo à produção filosófica como comentador de Aristóteles. Com relação à inteligência, Averróis entende que não existe uma inteli- gência individual em cada corpo e sim a única inteligência ativa, que seria a de Deus, sendo que a nossa inteligência humana é acidental. Assim Reale e Antiseri (2019) afirmam sobre o conhecimento em Averróis: Desse modo, o ato de conhecer é do homem individual, uma vez que está ligado à fantasia ou imaginação sensível, mas ao mesmo tempo é supraindividual, visto que o universal em ato não pode ser contido pelo indivíduo em particular, por sua natureza, supraindividual do universal. (REALE; ANTISERI, 2019, p. 196) A tese de Averróis que mais encontrou resistência entre os medievais foi a da unicidade do intelecto possível, que nega a imortalidade da alma e caminha para uma visão materialista. De um lado, está para Averróis a teoria do intelecto agente que é Deus, e de outro, está o intelecto possível que segundo Reale e Antiseri (2019, p. 199) é: […] único, separado, supraindividual; recebe na fantasia os conceitos inteligíveis atualizados pelo intelecto agente; é o saber coletivo da humanidade que se incrementa com a evolução da consciência; quando todo o intelecto possível for atualizado, ele se identificará com o intelecto divino em ato. Averróis inovou no âmbito mulçumano porque não utilizou dos conhe- cimentos de Avicena; escolheu beber da fonte aristotélica sendo um fiel comentador (SARANYANA, 2006). Averróis entende que é a filosofia que consegue expressar verdadeiramente a verdade. A teologia também consegue expressar a verdade alegoricamente. Assim, Averróis defende uma 149 interpretação alegórica quando se trata de interpretar o texto sagrado do alcorão (SARANYANA, 2006). Assim em Averróis, “a religião revelada cede seu posto à filosofia” (SARANYANA, 2006, p. 239), competindo ao filósofo verificar quais verdades do alcorão devem ser interpretadas alegoricamente. Averróis não é apenas comentador de Aristóteles, mas alguém com vasto conhecimento da ciência e da filosofia grega e da cultura islã (COSTA, 1994). Costa (1994) indica que como conhecimento, “a filosofia não depende da ajuda da revelação divina” (COSTA, 1994, p. 29). Averróis entende a impor- tância da metafísica não como abstrata, mas universal, por se ocupar de todos os objetos na sua dimensão de ser. Assim, acredita Averróis que o ponto inicial da metafísica deve ser o concreto. Segundo Averróis, “os universais devem sua existência aos indivíduos, e estes, por sua vez, devem sua inteli- gibilidade aos universais” (COSTA, 1994, p. 35). No âmbito antropológico, embora Averróis tenha convicções próprias, o plano de fundo permanece sendo Aristóteles. O ser humano está em uma relação direta com o mundo: o ser humano seria um microcosmo que influi no mundo e é influenciado por ele. Como é composto o ser humano? É composto em três níveis diferentes: vegetativo, sensitivo e intelectivo. O intelectivo é o que é propriamente humano e nos distingue dos demais animais. A filosofia hebraica Não foram apenas os árabes que influenciaram o pensamento ocidental. Houve também judeus que contribuíram no contexto da filosofia medieval. Os judeus foram firmes e perseverantes na sua defesa da criação a partir do “nada” e do monoteísmo. Os primeiros germens da filosofia judaica são regis- trados no helenismo alexandrino, tendo como expoente Fílon de Alexandria. Registra-se também que filósofos judeus tiveram influência na expansão do gnosticismo (SANAYANA, 2006). Os judeus viram sua influência filosófica decair consideravelmente nos primeiros anos da era cristã, que culminou com a destruição de Jersualém. Hirscheberger (1966) apresenta que a filosofia arábico-judaica influiu na Idade Média não no sentido de ofertar uma filosofia originalmente islã ou judaica, mas no sentido de contribuir para o renascimento de Aristóteles. A filosofia judaica conhece seu maior desenvolvimento nos séculos XI e XII (MARÍAS, 2004). Exemplificando A filosofia árabe e a filosofia hebraica anteciparam Tomás de Aquino, ao tornar religiosas as posições de Aristóteles. Tomás de Aquino fará inclu- sive objeções ao pensamento dos árabes e da filosofia hebraica, mas 150 vale registrar a antecipação desses filósofos em trazer para o debate teológico a contribuição de Aristóteles. Avicebron – Ibn Gabirol: a obra de destaque desse autor foi Fons Vitae, cujo conteúdo busca sintetizar, de modo harmônico, as verdades racionais com as verdades provenientes da fé judaica. Reale e Antiseri (2019) exempli- ficam o conteúdo da filosofia de Avicebron demonstrando como os seres espirituais são compostos de matéria e forma. É o criador que infunde em nosso íntimo uma força que une matéria e forma. Avicebron foi autor de uma gramática hebraica em verso. Indica com sua filosofia um panteísmo emanatista. De Deus tudo emana, Ele é a fonte de toda vida. De “Deus emana o espírito do mundo, composto de matéria e forma, dois princípios caracte- rísticos do ser em todos os estádios.” (HIRSCHBERGER, 1966, p. 113). Sua tese mais conhecida é de que a alma, embora não seja corporal, é composta de matéria e forma (MARÍAS, 2004). Avicebron foi autor de uma gramática hebraica em verso, além da obra já citada Fons Vitae. Vale ressaltar que tal obra foi escrita em árabe, e a versão que ficou conhecida no mundo ocidentalfoi a tradução de Juan Hispano e Domingo Gundisalvo (SARANYANA, 2006). Essa obra, Fons Vitae, é escrita de maneira a explicitar um diálogo entre um mestre e seu discípulo. O livro apresenta os fundamentos neoplatônicos com a presença de teses aristotélicas. Moisés Maimônides (1135-1204): de grande influência no medievo e profundamente conhecedor de Aristóteles. Por causa de perseguições migrou por diversos países, ficou conhecido profissionalmente como médico, filósofo e teólogo (REALE; ANTISERI, 2019). Trata-se de um bom conhecedor de Aristóteles, apreciado por Santo Tomás que o segue frequentemente na sua doutrina da criação e nas suas provas de Deus. (HIRSCHBERGER, 1966, p. 133) Para Maimônides, o valor supremo da filosofia e da teologia é o conheci- mento de Deus. Maimônides é um autor com certo grau de proximidade com Averróis, e sua teologia é negativa: “pode-se dizer de Deus o que não é, mas não o que Ele é” (MARÍAS, 2004, p. 168). Problematizando o clima tenso entre o debate entre fé e razão escreve a obra Guia dos perplexos em que exerce um esforço para tentar demonstrar que, embora aparentemente grandes as oposições entre fé e razão, a filosofia e a Bíblia são conciliáveis (REALE; ANTISERI, 2019). Maimônides expõe 151 que Deus existe e é uno e incorpóreo. O mundo é contingente, Deus é o único necessário. Registra-se que as teses de Maimônides foram influentes no período medieval, e o próprio Tomás de Aquino tomou conhecimento da obra desse filósofo judeu (REALE; ANTISERI, 2019). Maimônides, também citado por Tomás de Aquino como “Rabino Moisés”, tem como principal obra a já citada obra Guia dos perplexos. Recebeu influ- ências ecléticas: de um lado, Filon de Alexandria (escritor judeu), de outro, de rabinos, profundos conhecedores da Torah, e ainda recebe influência da filosofia árabe. De Aristóteles foi discípulo fiel, comentando em sua obra os diversos axiomas do autor clássico. Rejeitou, contudo, por razões de fé, a tese da necessidade do mundo, defendida pelo filósofo estagirita. Em seara da existência de Deus, seguiu a Aristóteles evocando Deus como primeiro motor, necessário em face da contingência humana. Maimônides causou polêmicas no mundo judaico. A primeira teve seu ápice com a publicação de Carta de Conversão escrita em Fez, em 1163, e prescreve que em situação de perseguição, seria legítimo aos judeus que fingissem serem convertidos ao islamismo. Enfim, Marías (2004) apresenta que é grande a importância da filosofia árabe e judaica e de grande influência no medievo, cujo problema central coloca a questão da religião no seu centro. Foi o conhecimento de Aristóteles que contribuiu em muito para a relevância da filosofia árabe e judaica. Sem medo de errar Vamos supor que você seja o coordenador de um bacharelado de Teologia, cuja semana teológica terá como tema “A escolástica dos séculos XIII a XV”, e no primeiro dia o assunto a ser tratado é “A filosofia árabe e hebraica e a penetração de Aristóteles no Ocidente.” Na reunião de colegiado foi conversado que de forma inovadora os acadêmicos apresentassem previa- mente questões sobre o tema a ser exposto, a fim de que o palestrante tivesse condições de responder as dúvidas prévias dos acadêmicos. Apareceram muitos questionamentos, mas sobre a filosofia árabe e hebraica você, como coordenador, escolheu a seguinte questão para o palestrante do dia responder: “As filosofias árabes e hebraicas limitaram-se a comentar Aristóteles ou procuraram construir uma filosofia própria a partir de Aristóteles?”. Um questionamento feito a partir desta questão-problema foi a seguinte: “Avicena e Averróis deram quais orientações para a união entre fé e razão? E os filósofos judaicos, em que contribuíram com o desenvolvimento da teologia escolástica?” Como o palestrante poderia responder aos questionamentos? Ofertamos algumas orientações sobre esses filósofos, de forma a munir o palestrante de informações que contribuam para que ele consiga responder aos acadêmicos. 152 Embora Averróis e Avicena tenham sido grandes comentadores de Aristóteles, ambos buscaram aprofundar seus conhecimentos e construir uma obra baseada neste autor, mas indo além do que fora proposto pelo filósofo estagirita. Importante destacar que ambos possuíam uma cultura ampla. Por exemplo, Avicena tinha uma formação que engloba humanidades, o alcorão, a matemática, filosofia e conhecimento na área de medicina. No entendimento de Avicena, o mundo emana de Deus. Deus é o único necessário para Avicena. Ele é o grande responsável por apresentar Aristóteles ao medievo. Mas Avicena não apenas teve como fonte de seu pensamento Aristóteles; também teve influ- ência do neoplatonismo. Assim, a filosofia de Avicena não é um aristotelismo puro, mas é uma filosofia de Aristóteles a partir da leitura de Avicena. Averróis, por sua vez, é mais polêmico, como em sua afirmação de que a única alma imortal é de Deus, caminhando para um materialismo. Mais racionalista, Averróis entende que filosofia é a arte do pensamento que consegue expressar a verdade. Desse modo, quando há uma divergência entre fé e razão, o que deve prevalecer é a posição da filosofia, uma vez que a teologia pode ser considerada alegoricamente. De modo semelhante a Avicena, Averróis não é apenas um comentador de Aristóteles, mas alguém que deu uma contribuição original ao pensamento de Aristóteles. Os filósofos hebreus foram grandes defensores do monoteísmo e da criação a partir do “nada”. Como destaque, mencionamos Avicebron e Moisés Maimônides. O primeiro acreditava que os seres espirituais também são compostos de matéria e forma, e o segundo, cuja obra principal é Guia dos perplexos, foi discípulo fiel de Aristóteles, negando por questões de fé a tese da necessidade do mundo. Com referência à existência de Deus, seguiu evocan- do-o como primeiro motor antecipando, por assim dizer, uma das demonstra- ções da existência de Deus que serão evocadas por Tomás de Aquino. Enfim, dentro do contexto do medievo, esses filósofos medievais tiveram importância sobretudo porque possibilitaram uma redescoberta do pensa- mento de Aristóteles cuja contribuição atingirá o ápice com Tomás de Aquino. Faça valer a pena 1. Considere o trecho a seguir: A primeira forma sistemática pela qual o aristotelismo se apresentou ao pensadores medievais foi mediada pelo filósofo persa Avicena, de cultura enciclopédica, que cultivou preferencialmente a medicina e a filosofia. Nascido 153 em 980 nas proximidades de Bukara, na Pérsia, e morto nas proximidades de Hamadan em 1037, ele escreveu muitas obras, que foram traduzidas e divulgadas na segunda metade do século XII. (REALE; ANTISERI, 2019, p. 191) Considerando este enunciando e o que estudamos sobre Avicena, é correto afirmar: a. Avicena foi um mero comentador de Aristóteles, não tendo uma cultura que possibilitasse escrever uma filosofia própria. b. O mundo é para Avicena produto eterno de Deus eterno; o mundo emana de Deus. Emanam também espíritos das esferas que cuidam providencialmente de todos os seres, porque Deus não tem condições de se preocupar com o bem de cada indivíduo. c. Totalmente avesso ao neoplatonismo; repudiava qualquer forma de diálogo com o neoplatonismo. d. Não foi tão bem aceito pelos cristãos sobretudo por sua posição de dar mais crédito à razão do que à fé, em caso de divergência entre filosofia e religião. e. Foi um grande comentador de Platão e procurou defender a diferença entre filosofia e religião. 2. O fato de ser conhecido como o maior e mais importante comentador de Aristóteles criou uma falsa imagem de Averróis, deixando totalmente esquecida, ou na penumbra, sua importância e originalidade como pensador. Averróis demonstra perfeito domínio de toda a tradição científica, filosófica e literária do Islam. Ao mesmo tempo, o conhe- cimento da ciência e da filosofia gregas, particularmente, Platão e Aristóteles, Galeno, permitiu-lhe um posicio- namento críticoe pessoal em relação a uma série de problemas cuja complexidade era agravada por questões de interpretação. (COSTA, 1994, p. 28) Considerando as informações apresentadas, analise as afirmativas a seguir: I. Nascido em Córdoba, dedicou-se a comentar Aristóteles, com ênfase em uma preocupação metafísica. 154 II. O que contribuiu para que Averróis fosse bem aceito no medievo fora sua relação com o neoplatonismo. III. Averróis presumiu que durante sua vida esteve a estudar uma filosofia que fosse a filosofia perfeita. IV. A tese de Averróis que mais encontrou a resistência entre os medie- vais foi a tese da unicidade do intelecto possível, que nega a imortali- dade da alma e caminha para uma visão materialista. V. Averróis não é apenas comentador de Aristóteles, mas alguém com vasto conhecimento da ciência e da filosofia grega e da cultura islã. Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em: a. I e III, apenas. b. I, III, IV e V, apenas. c. I, II, IV e V, apenas. d. III, IV e V, apenas. e. II e V, apenas. 3. Considere: Os primeiros passos da filosofia judaica remontam aos tempos do helenismo alexandrino, durante o reinado de Ptolomeu Filomentor, sendo uma figura principal Filon de Alexandria. Aparentemente, aquelas primeiras manifestações filosóficas eram devidas à rivalidade entre os judeus os filósofos gregos, que desprezavam a Revelação vétero-testamentária. A influ- ência exercida pelos filósofos-judeus alexandrinos na gênese do neoplatonismo e na expansão do gnosticismo está fora de qualquer dúvida. (SARANYANA, 2006, p. 246) Dado o exposto, julgue as afirmativas a seguir em (V) Verdadeiras ou (F) Falsas. ( ) Os filósofos judeus foram perseverantes na sua defesa da criação e do monoteísmo. ( ) A obra principal de Avicebron é Fons Vitae. ( ) Para Maimônides, o valor supremo da filosofia e da teologia é o conhe- cimento racional. 155 ( ) Maimônides, também citado por Tomás de Aquino como “Rabino Moisés”, tem como principal obra Guia dos Perplexos. ( ) Os filósofos judeus colocam a questão da importância da racionalidade acima de qualquer afirmação teológica. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta. a. V – V – F – V – F. b. V – V – F – F – V. c. F – V – F – V – F. d. V – F – V – F – F. e. V – V – V – V – F. 156 Seção 2 Tomás de Aquino e a síntese escolástica Diálogo aberto Cordiais saudações, prezado aluno. Temos a oportunidade de estudar, neste momento, um dos maiores teólogos de todos os tempos, a saber, Tomás de Aquino, o chamado doutor angélico. Vamos procurar aprofundar nossos conhecimentos sobre este grande teólogo que tem uma maneira muito própria de escrever. Estamos acostumados com exposições objetivas, e este teólogo, por sua vez, apresenta questões que ele mesmo debate apresentando argumentos e contra-argu- mentos até chegar a uma conclusão e tomada de posicionamento. Suponhamos que você é coordenador de um curso de bacharelado em teologia e na última reunião do colegiado ficou estabelecido que a Semana de Teologia terá como tema “Escolástica no século XIII a XV”. Inovando na metodologia, o colegiado do curso de teologia decidiu que algumas perguntas serão feitas previamente para a coordenação organizar as questões e passar para o palestrante. O objetivo é que, durante a palestra, sejam respondidos os questionamentos. A semana de teologia terá palestras em três dias da semana, ficando assim divididas as palestras: 1º dia – As filosofias árabe e hebraica e a penetração de Aristóteles no Ocidente; 2º dia – Tomás de Aquino e a síntese Escolástica; 3º dia – A crise da Escolástica e os últimos pensadores medievais. Como coordenador de curso, você selecionou algumas questões que devem ser respondidas pelos palestrantes. Seguem as questões divididas por dia conforme a temática. Consideraremos as questões referentes ao segundo dia, que são objeto de estudo desta seção. Sobre a filosofia de Tomás de Aquino e a síntese Escolástica, você, como coordenador, escolheu a seguinte questão para o palestrante do dia responder: “Em que medida a filosofia de Tomás de Aquino consistiu no ápice da Escolástica na defesa da união entre fé e razão?”. Um questionamento feito a partir desta pergunta foi a seguinte: “Tomás de Aquino concedeu uma contribuição para a recepção de Aristóteles pela filosofia medieval de maneira inédita?” Desejamos bons estudos e um excelente aprofundamento na investi- gação sobre Tomás de Aquino, um grande teólogo que busca, por caminhos diferentes de Agostinho de Hipona, o mesmo resultado, qual seja o de conci- liar fé e razão. Veremos em Tomás de Aquino um esforço para demonstrar a existência de Deus racionalmente, e o exemplo disso são as cinco vias da 157 demonstração da existência de Deus. Tomás de Aquino marca o medievo com sua teologia, a qual pressupõe que a graça supõe a natureza e a aperfeiçoa. Desejamos um ótimo aprofundamento na questão-problema procurando perceber por que Tomás de Aquino constitui-se enquanto ápice da filosofia medieval e a investigação sobre a contribuição que foi realizada pelo teólogo na apropriação da filosofia de Aristóteles. Não pode faltar Tomás de Aquino e a síntese Escolástica A vida e as obras de Tomás Marías (2004) nos apresenta que Tomás de Aquino nasceu em 1225 em Roccasecca. Nos seus estudos, passou pelo monastério de Monte Cassino, em Nápoles, e estudou as artes liberais. Na Universidade de Nápoles, estuda artes. Recebe o hábito em 1244, da Ordem de São Domingos. Seus irmãos o raptam, conduzindo-o para Roccasecca. Não temos informações exatas sobre o que teria motivado esse rapto e qual o impacto na vida de Tomás desse episódio. Mas o certo é que, na sequência, Tomás de Aquino retoma o seu caminho e vai para Paris, onde tem contato com Alberto Magno. Em 1252, em Paris, torna-se mestre em teologia. Tem passagem como professor por diversas cidades. Em 1274, foi convocado por Gregório X para ser assistente do Concílio de Lyon (segundo). Porém, falece no caminho, em 7 de março de 1274. Tomás de Aquino é intitulado príncipe da escolástica. Ele distingue-se não só pela origi- nalidade de seu pensamento, mas também pelo vigor e coesão da construção de sua argumentação teológica (HIRSCHBERGER, 1966). Santo Tomás tem o mérito de adaptar a teoria aristotélica para o ideário cristão. Baseia-se também nos Padres da Igreja. Em lógica, em suas linhas gerais de física e metafísica há uma identificação do pensamento tomista com o aristotélico (MARÍAS, 2004). Todavia, os problemas filosóficos de Aristóteles são diferentes dos de Tomás de Aquino. Este vai se deter sobre- tudo a apresentar a demonstração da existência de Deus e a interpretação racional dos dogmas (MARÍAS, 2004). Podemos perceber que Tomás de Aquino busca, em sua filosofia, dar explicações racionais para os dados da fé e mencionar que inclusive a existência de Deus pode ser demons- trada racionalmente. Os elogios à atividade de teólogo e filósofo vieram cedo na vida de Tomás de Aquino e procedem de três contemporâneos seus, conhecedores profundos das respectivas áreas: Alberto Magno, Siger de Brabante e Roger Bacon. Tomás de Aquino mal sabia que se tornaria uma referência no pensamento 158 teológico e, principalmente, que a obra Suma Teológica seria uma referência para aprofundamento de questões teológicas (SARANYANA, 2006). Em suas obras percebemos um teocentrismo, e o objetivo é falar de Deus como vemos na abertura da Summa contra gentiles, em que cita Hilário de Poitiers, remetendo a afirmação que em tudo Tomás de Aquino deseja falar de Deus (REALE; ANTISERI, 2019). Nesse sentido, a filosofia tem um grande valor, mas para se falar de Deus, precisamos da teologia que recorre à revelação. Tomás de Aquino entende que ao apresentar a fé aos gentios é necessário fundamentar-se na razão, porque no diálogo com os gentios, outros pressupostos são descabidos. Assim, “o saber teológico não suplanta o saber filosófico,nem a fé substitui a razão, até porque, e este é o último motivo, a fonte da verdade é única” (REALE; ANTISERI, 2019, p.214). Reflita Na condição pós-moderna, em que não há mais lugar para verdades supremas, será que o pensamento de Tomás de Aquino pode ser atual? Será que o vazio que muitas pessoas vivem não é fruto da própria ausência de Deus na modernidade – conforme Nietzsche, que diagnos- ticou a morte de Deus por essa mesma modernidade? Percebemos então a riqueza da Idade Média. Será que ela realmente foi o período das trevas, sem relevância científica e teológica alguma? A ontologia No seu entendimento filosófico e ontológico, Tomás de Aquino entende que a origem da filosofia é o assombro (MARÍAS, 2004). Mas o verdadeiro conhecimento, mais pleno, é o conhecimento da verdade sublime que é Deus. No plano metafísico, entende Tomás de Aquino que o ser é o conhecimento mais universal que se pode atingir. Existência e essência nos seres humanos são conceitos diferentes, mas em Deus ambos os conceitos se mesclam, porque Deus é um ser que não depende de outros seres (MARÍAS, 2004). Além de Aristóteles, Tomás de Aquino recebeu contribuições de diversas fontes que confluíram na Antiguidade e Idade Média: platonismo, aristote- lismo; helenismo e arabinismo; filosofia judaica. É importante ressaltar que sua principal fonte foi Aristóteles, mas ele soube ser singular, sintetizando diversos pensamentos em um único confluente de ideias (SARANYANA, 2006). Na sua estada na Universidade de Nápoles, Tomás de Aquino já começou a se familiarizar com Aristóteles. Depois, o contato com Santo Alberto também muito contribuiu para aprofundar seus conhecimentos na filosofia do estagirita (SARANYANA, 2006). Com relação a Agostinho, 159 Tomás de Aquino concorda com ele mais em questões teológicas do que em questões filosóficas (SARANYANA, 2006). A síntese tomista pode ser considerada em três aspectos: em relação aos conteúdos – é uma filosofia do ser; outra quanto à finalidade – nesse aspecto, refere-se a uma filosofia que busca a verdade. Outra perspectiva refere-se ao agir, no que concerne a uma filosofia que avalia o ser humano buscando o bem (SARANYANA, 2006). Santo Tomás entende como inteligência o “princípio imediato do conhe- cimento humano” (SARANYANA, 2006), abandonando, assim, o conceito de iluminação divina de Agostinho. Desse modo, “se querer maior precisão será preciso dizer, com o Doutor Angélico, que o intelecto é uma participação da luz divina em nós, no sentido de que a nossa inteligência participa da capacidade de conhecer do que Deus tem por essência.” (SARANYANA, 2006, p. 319). Em Tomás de Aquino encontramos uma diferenciação entre ente e essência. O ente, por sua vez, pode ser lógico (conceitual) e real (extramental). Nem todo ente lógico corresponde a algo real, por exemplo: escuridão é um ente lógico, mas não real, porque a escuridão é a ausência da luz. A essência é o que faz que uma coisa seja o que ela é. Em Deus, essência e existência coincidem (REALE; ANTISERI, 2019). Deus é o único ser necessário; todos os demais seres são contingentes. Pensar nos entes lógicos nos remete ao fato de que nem tudo o que nós pensamos é real. Precisamos dos entes lógicos por uma questão de linguagem. Assim, para Tomás de Aquino, não existe a escuridão (por exemplo); ela é apenas a ausência de luz, que não indica a existência de um ser, mas sim a não existência de outrem. Com relação aos universais, Tomás de Aquino, com seu realismo moderado, acredita que ele não existe na realidade, apenas na mente humana por abstração. A humanidade só existe como conceito na mente, e na realidade existe o ser individual, como João, Pedro, Maria etc. A metafísica de Tomás de Aquino define-se enquanto metafísica do ser (REALE; ANTISERI, 2019). Conhecemos os entes concretos na sua forma existente, mas o que dá a existência a esse ente permanece no âmbito do indizível. Todo ser, para Tomás de Aquino, é unum, bonum e phulcrum. Ou seja, uno, bom e verdadeiro. Uno: o ser possui uma unidade que faz com que ele seja o que ele é e não outra coisa. Já dizer que todo ente é verdadeiro remete ao fato de que aquele ente é expressão do pensamento de um criador, de um arquiteto supremo. Nesse contexto, Deus é a verdade por excelência e nós participamos dessa verdade parcialmente. E falar que o ente é bom, é porque é obra de um criador e cada ente no universo possui um grau de bondade e perfeição. Entre Deus e as criaturas não há uma identificação 160 plena, mas também não há uma diferença absoluta. Entre criador e criatura há uma relação de semelhança e dissemelhança. A teologia Embora transite pela filosofia e teologia, Tomás de Aquino tem uma percepção de distinguir bem filosofia e teologia. O fundamento da teologia é a revelação divina, enquanto a filosofia é a busca da verdade pela razão humana (MARÍAS, 2004). Mas quando há contradição entre a verdade e a razão, é aconselhável ficar com a teologia: quando isso ocorre é sinal de que a razão se desviou do caminho. Nascimento (2011) considera que Tomás de Aquino pode ser conside- rado um “arquiteto das ideias” e que a Suma Teológica como uma catedral gótica. Voltando-nos para as obras de Tomás de Aquino, temos como centro a Suma Teológica. Tomás indica que a obra dos ensinamentos cristãos e o tema central é Deus. A Suma está dividida em três partes, e em cada uma delas observamos questões que, por sua vez, são subdivididas em outras questões. Cada questão inicia com uma pergunta, seguida de uma resposta e argumentos; depois vem argumento em sentido contrário e a resposta dada por Tomás de Aquino e, finalmente, Tomás responde aos argumentos iniciais. Percebemos, assim, um modo de expor suas ideias que difere do modo expositivo que estamos acostumados a ler em teologia; Tomás de Aquino expõe ideias e ao mesmo tempo expõe contra-argumentos, a fim de chegar em uma síntese no final do texto. (NASCIMENTO, 2011). A vivência da moral, segundo Tomás de Aquino, é “um movimento da criatura racional na direção de Deus” (MARÍAS, 2004). A eudaimonia aristotélica é ressignificada, colocando como critério último para a felicidade humana o encontro com Deus. É perceptível a contribuição de Aristóteles no pensamento de Tomás de Aquino pelo valor dado à luz natural da razão. Remete-nos à máxima aristotélica de que todo homem naturalmente deseja saber. Mas, diferente do filósofo estagirita, Tomás de Aquino aponta para uma luz sobrenatural que provém de Deus e que ilumina a mente humana no processo de conhecer aquilo que é inspirado por Deus (HIRSCHBERGER, 1966). No plano ético, Tomás de Aquino considera que a ação humana deve ser permeada pela moral, com o objetivo de que o ser humano busque como fim último de suas ações a prática do bem (SARANYANA, 2006). As cinco vias para demonstrar a existência de Deus ocupam grande centra- lidade no pensamento de Tomás de Aquino. Apresentamo-las resumidamente: 161 • Primeira via: trata-se da via do movimento. Tudo que se move é movido por algo/alguém, e observamos que há uma relação entre os seres contingentes em serem movidos por algo e ser movente de algo. Tomás de Aquino considera que a ação de ser movido não pode remeter a uma origem infinita, logo deve existir algo que move, mas não é movido, e este alguém é Deus. • Segunda via: trata-se da via da causalidade. Pois bem, observamos que existe entre os seres contingentes uma relação recíproca de causa- -efeito. Uma coisa é causada por outra e por sua vez, é causa de outra. Mas não podemos admitir que o ciclo de causa-efeito tenha uma origem infinita; assim, é necessário que exista uma causa que não seja causada; esta causa incausada é Deus, o ente por excelência. Ele não necessita de nenhuma causa, existe per se e a se desde a eternidade e não é causado, mas é a causa de todo o cosmo. • Terceira via: trata-se da via da contingência. Observemos que as criaturas – inclusive o ser humano – são seresque poderiam ou não existir, sendo, portanto, contingentes. Mas se todos os seres fossem contingentes talvez exista o nada. Daí a necessidade de algum ser cujo ser não dependa de outrem e assim seja um ser necessário e não contingente. Pois esse ser é Deus: não é contingente, é necessário e basta a si mesmo, fundamento da existência do mundo. • Quarta via: trata-se da via dos graus de perfeição. No mundo obser- vamos que existe uma graduação entre as coisas na medida de serem perfeitas. Umas coisas são mais perfeitas que as outras, mas deve existir uma coisa que seja “a perfeita”. Esse ser perfeitíssimo cuja perfeição chega ao ápice é Deus, que é a perfeição. • Quinta via: trata-se da via da inteligência ordenadora. Pensemos, pois, que um cozinheiro, para fazer um bolo, necessita de uma receita e de um modo procedimental de como agir para conseguir realizar a atividade, não bastando colocar os ingredientes todos de forma misturada e sem utilizar-se da inteligência para organizar os ingre- dientes. Assim, imaginemos a harmonia que existe no universo: ela supõe que uma inteligência ordenadora tenha criado esse universo; um ser inteligentíssimo que tenha ordenado esse mundo para que ele tivesse harmonia. Esse alguém é Deus. Exemplificando As demonstrações da existência de Deus têm fundamento último em Aristóteles; por exemplo, a primeira via remonta ao motor imóvel de 162 Aristóteles. Aristóteles afirma que não pode existir uma série infinita de motores que se movam, faz-se necessário um motor que mova sem ser movido. Daí a necessidade de um motor imóvel. Santo Tomás de Aquino cristianiza Aristóteles e entende que esse motor imóvel é Deus, que é movente do universo sem ser movido. Na teologia de Tomás de Aquino encontramos a tese de que “Deus é o ser supremo e perfeito, o ser verdadeiro; todo o resto é fruto de seu ato criativo, livre e consciente” (REALE; ANTISERI, 2019, p. 231). Diferentemente do deus de Aristóteles, um deus frio que não se envolve com a criação, o deus de Tomás de Aquino é um Deus amor. Ele não apenas criou o universo, mas o sustenta com sua providência. O doutor angélico dedicou boa parte de sua obra para estudos sobre o ser humano. Segundo Rampazzo e Nahur (2015), no ser humano há uma união substancial entre alma e corpo. No plano antropológico, Tomás de Aquino é bastante positivo, acreditando que o ser humano é bom por natureza. A liberdade é um dom divino e ela deve ser utilizada fazendo uso da reta razão. A teoria do direito Se em Aristóteles a finalidade última da vida é entendida como “eudai- monia”, em Tomás de Aquino encontramos o termo “beatitude” ou “felicitas” (DUTRA; HEBECHE, 2008, p. 166). A felicidade perfeita é o encontro com Deus, mas já nessa vida podemos atingir uma verdade, mesmo que seja incompleta. No caminho da beatitude é de fundamental importância a questão da prática das virtudes. É a prática das virtudes que nos aproximam de Deus, e com isso temos a oportunidade de vivenciar a “felicitas” já aqui na vida terrena. Encontramos como pressuposto da teoria do direito de Tomás de Aquino o livre arbítrio. Não podemos ver diretamente a Deus; se o víssemos seríamos atraídos a Ele. Temos dentro de nós uma faculdade que permite o reconheci- mento de ações boas. Outrossim, temos em nós também o livre-arbítrio, mas podemos inclinar-nos para o mal, caindo no âmbito do pecado. Tomás de Aquino reconhece quatro tipos de lei: a lex eterna, a lex naturalis, a lex humana, a lex divina. A lex aeterna trata-se do plano racional de Deus, a ordem do universo (REALE; ANTISERI, 2019, p. 227). Esse plano racional é em parte reconhecido pelo homem e se expressa na máxima: “faze o bem e evite o mal”, mas em parte é desconhecida porque os desígnios de Deus são incognoscíveis para o conhecimento limitado do ser humano. Como já mencionamos, existe a lex humana, que trata da lei jurídica, “a lei feita pelo 163 homem”. Hipoteticamente, a lex humana seria promulgada pela coletivi- dade por quem representa a população e tende a buscar o bem comum. A lei natural, por sua vez, é a lei que está inscrita no ser humano e na natureza. A lei humana deve respeitar a lei natural e, em caso contrário, não é lei. Assim, “para Tomás a lei humana é moralmente válida quando deriva da lei natural” (REALE; ANTISERI, 2019, p. 229). Para dar suporte às demais leis existe a lei divina, que é a lei revelada encontrada nos evangelhos. Assimile Conforme Boehner e Gilson (2012, p. 448) nos ensinam: Foi a Tomás de Aquino que coube a empresa histórica de retificar, num sentido cristão, este aristotelismo malsão que corria ao lado da teologia, sem correlação orgânica com ela, e de superá-lo de tal modo que, depois de apurado e organicamente integrado no edifício teológico, ele passasse a servir de fundamento seguro para a mesma teologia. O que deparamos em Santo Tomás não é, pois, um aristotelismo genuíno. Rampazzo e Nahur (2015) apresentam que a justiça é considerada a virtude que colabora no convívio social, pois permite uma regulamentação das interações pessoais. Por “direito”, Tomás de Aquino entende as aplicações da justiça. Ao retomar os Padres da Igreja em suas reflexões sobre a justiça e o direito, Tomás de Aquino cita Isidoro de Sevilha, que considera a lei como “espécie de direito”. E sobre as contribuições fundamentais de Tomás de Aquino na área do direito podemos mencionar: Pode-se dizer que ele demarcou, na questão, esses aspectos fundamentais: a intrínseca relação entre ética e direito, pois este é considerado objeto da justiça; e o desfazimento do recorrente equívoco de muitos, até hoje, em circuns- crever, confinar e confundir direito e lei, uma vez que ‘o direito apoia-se no pressuposto de que o homem comum, que nunca leu uma lei sequer, tem plena consciência da justiça ou injustiça de seu comportamento, graças à natural aptidão para aprendê-la intuitivamente. (MENDONÇA, 2006, p. 349 apud RAMPAZZO; NAHUR, 2015, p. 37) 164 Nas concepções sobre o direito em Tomás de Aquino percebe-se a antropologia tomasiana: a graça aperfeiçoa a natureza, não a anula. Tomás de Aquino, outrossim, em relação ao direito natural e ao direito positivo, entende que para uma sã convivência as pessoas necessitam de normas de convivência. Assim, faz-se necessário que normas sejam criadas pelo direito positivo de modo a garantir a observância do direito natural (RAMPAZZO; NAHUR, 2015). Essas considerações tomasianas partem de um pressuposto de pessoas livres e bem-ordenadas para praticar o bem e discernir qual o comportamento mais correto segundo o direito natural. Vale ressaltar que Tomás de Aquino busca a todo custo defender a possibi- lidade de harmonia entre fé e razão. Tomás de Aquino marca o pensamento cristão com seu modo sistemático de organizar as verdades da fé cristã de modo a apresentá-las em harmonia com a racionalidade humana. Não cremos no absurdo, mas naquilo que pode ser verificado pela razão humana. Nesta perspectiva, as cinco vias da demonstração da existência de Deus exemplificam o pensamento de Tomás de Aquino, no sentido de evidenciar que racionalmente podemos constatar a existência de Deus. Sem medo de errar Você é o coordenador de um bacharelado de teologia, e na última reunião do colegiado foi proposta como temática para a Semana de Teologia da sua instituição o seguinte tema: “Escolástica no século XIII a XV”. Inovando na metodologia, o colegiado do curso de teologia decidiu que algumas perguntas serão feitas previamente para a coordenação organizar as questões e passar para o palestrante. A dinâmica pressupõe que o palestrante, durante seu discurso, responda os questionamentos. Trata-se de uma forma de parti- cipação mais ativa por parte dos acadêmicos. A semana de teologia terá palestras em três dias da semana, ficando assim divididas as palestras: 1º dia – As filosofias árabe e hebraica e a penetração de Aristóteles no Ocidente; 2º dia – Tomás de Aquino e a síntese Escolástica;3º dia – A crise da Escolástica e os últimos pensadores medievais. Houve diversas participações por parte dos acadêmicos, e para o segundo dia você selecionou questionamentos que apontam para a seguinte questão-problema: “Em que medida a filosofia de Tomás de Aquino consistiu no ápice da Escolástica na defesa da união entre fé e razão?” Um desdobramento que surgiu a partir desta questão-problema foi o seguinte: “Tomás de Aquino concedeu uma contribuição para a recepção de Aristóteles pela filosofia medieval de maneira inédita? ” 165 Queremos oferecer subsídios para que você, coordenador do curso, e o palestrante tenham condições de responder aos questionamentos dos acadê- micos. Vimos que Tomás de Aquino, embora tendo problemas teológicos diferentes dos de Aristóteles, em muito se baseia neste para compor sua filosofia. Mas não apenas em Aristóteles; também os Padres da Igreja são sua base de pesquisa e fundamentação teológica. Ele busca a todo custo defender a união entre fé e razão. Parte de Aristóteles, que parte do princípio de que todos os homens aspiram ao conhecimento. Tomás de Aquino tem como centro de sua teologia falar de Deus, expressando assim seu teocentrismo. Filosofia e teologia têm uma missão em comum: desvelar a verdade, embora o fundamento da teologia seja a revelação divina, e da filosofia seja a busca da verdade pela razão humana. Todavia, em caso de contradição entre filosofia e teologia, o ideal é ficar com as verdades reveladas pela teologia. Podemos dizer que essa perspectiva teológica de conciliação entre filosofia e teologia encontra seu ponto máximo com as cinco vias da demonstração da existência de Deus. Tomás de Aquino não quer apenas teorizar, mas demonstrar racio- nalmente que a existência de Deus pode ser demonstrada pelo uso da razão. Isso evidencia que mesmo a existência de Deus – um artigo de fé, não um absurdo – é algo que pode ser comprovado pelo reto uso da razão. Cabe ainda salientar que é de certa forma inédita a apropriação de Tomás de Aquino de Aristóteles, porque ele não foi apenas um comen- tador de Aristóteles, mas alguém que se apropriou do pensamento do estagirita para construir uma teologia. Com relação a Deus, embora as provas da existência de Deus em Tomás de Aquino tenham como pano de fundo Aristóteles, o deus de Aristóteles é muito mais frio e impessoal que o de Tomás de Aquino. Enfim, Tomás de Aquino marca o medievo com sua contribuição original no sentido de dar aos cristãos instrumentos para apresentarem suas crenças de modo racional e demonstrar, de maneira argumentativa, que a fé cristã não é um absurdo. Faça valer a pena 1. Três coordenadas definem a síntese tomista: uma quanto aos seus conteúdos (é uma filosofia do ser); outra quanto, à finalidade (é uma filosofia que busca a verdade); e por último, outra relativa ao agir (é uma filosofia que analisa o esforço do homem por alcançar o bem). (SARANYANA, 2006, p. 304) 166 Com relação ao pensamento teológico de Tomás de Aquino é correto afirmar: a. Tomás de Aquino tem o mérito de adaptar a teoria aristotélica para o ideário cristão, baseando-se também nos Padres da Igreja. b. Tomás de Aquino era um fideísta, acreditava que não precisamos da razão para justificar nossas crenças. c. Tomás de Aquino fundamentou-se apenas nos Padres da Igreja, não aceitando contribuição de nenhuma filosofia. d. Tomás de Aquino defendeu que não podemos demonstrar racional- mente a existência de Deus porque a razão não consegue entender as questões de fé. e. Tomás de Aquino entende que filosofia e teologia são inconciliáveis. 2. Em consonância com as melhores tradições cristãs, Santo Tomás estabelece uma distinção nítida entre filosofia e teologia; por outro lado, reclama a colaboração estreita entre uma e outra. Sua filosofia deve ser caracterizada como genuinamente cristã, sendo fácil verificar, na obra de Aquinate, as notas distintivas de uma filosofia cristã, tais como as apontamos. (BOEHNER; GILSON, 2012, p. 448) Dado o exposto, julgue as afirmativas a seguir em (V) Verdadeiras ou (F) Falsas. ( ) Tomás de Aquino considera que o fundamento da teologia é a revelação divina, enquanto a filosofia é a busca da verdade pela razão humana, sendo ambas conciliáveis. ( ) Tomás de Aquino entende que conhecemos os entes concretos na sua forma existente, mas o que dá a existência a esse ente permanece no âmbito do indizível. ( ) Tomás de Aquino entende que filosofia e teologia são inconciliáveis porque seus objetos de pesquisa são diversos. ( ) As cinco vias para demonstrar a existência de Deus ocupam grande centralidade no pensamento de Tomás de Aquino. ( ) Tomás de Aquino baseou sua teologia apenas nos Padres da Igreja e na tradição dos apóstolos porque a fé é muito superior à razão e não há como a filosofia contribuir para o pensamento teológico. 167 Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta. a. V – F – F – V – F. b. F – V – F – V – F. c. V – V – V – F – V. d. V – F – V – F – V. e. V – V – F – V – F. 3. Expoente máximo entre os escolásticos, verdadeiro gênio metafísico e um dos maiores pensadores de todos os tempos, Tomás de Aquino elaborou um sistema de saber admirável pela transparência lógica e pela conexão orgânica entre as partes, de índole mais aristotélica do que platônico-agostiniana. (REALE; ANTISERI, 2019, p. 211) Considerando as informações apresentadas, analise as afirmativas a seguir: I. Na abertura da Suma contra gentiles, Tomás de Aquino cita Hilário de Poitiers dizendo que o objetivo dessa suma é falar de Deus. II. A primeira via da demonstração da existência de Deus trata do movimento e remete ao primeiro motor imóvel de Aristóteles. III. Tomás de Aquino considera que filosofia e teologia são inconcili- áveis e por isso não fundamenta sua filosofia em nenhum filósofo. IV. A segunda vida da demonstração da existência de Deus trata da causalidade e afirma que Deus é a causa incausada. V. Tomás de Aquino, do mesmo modo que Agostinho, procurou adaptar a filosofia platônica e o neoplatonismo para a teologia cristã. Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em: a. I e V, apenas. b. I, II e IV, apenas. c. I, II e V, apenas. d. II, III e IV, apenas. e. I, II e III, apenas. 168 Seção 3 A crise da Escolástica e os últimos pensadores medievais Diálogo aberto Caro acadêmico, bem-vindo aos estudos! Será que toda a escolástica apregoou uma harmonia entre fé e religião? A filosofia e teologia foram consideras conciliáveis por todos os pensadores do medievo. No fim da Idade Média encontraremos pensadores que discordam da orientação dada, por exemplo, por Tomás de Aquino e Agostinho de Hipona, que entendiam uma harmonia entre fé e razão. Para os últimos filósofos dos pensadores da Escolástica, fé e razão são âmbitos cujo objeto de pesquisa divergem e não bastasse isso, João Wyclif, por exemplo, crítica a autoridade do Papa e do clero, nega a presença real de Cristo na Eucaristia, questiona a eficácia dos sacramentos. No nosso entendimento tudo caminha para o que viria ser a Reforma de Lutero. Talvez seja relativo chamar esse período de decadência da Escolástica só pelo motivo que divergiu do pensa- mento oficial, que afirmava que fé e razão são conciliáveis. Suponhamos que você é coordenador de um curso de um bacharelado em teologia, e na última reunião o colegiado decidiu que a temática do próximo evento anual – Semana de Teologia – será “Escolástica do século XIII a XV”. A proposta deste ano é que os palestrantes comecem suas palestras respon- dendo questionamentos dos acadêmicos sobre as temáticas. A semana de teologia terá palestras em três dias da semana, ficando assim divididas as palestras: 1º dia – As filosofias árabe e hebraica e a penetração de Aristóteles no Ocidente; 2º dia – Tomás de Aquino e a síntese Escolástica; 3º dia – A crise da Escolástica e os últimos pensadores medievais. Como coordenador de curso, você selecionoualgumas questões que devem ser respondidas pelos palestrantes. Seguem as questões do terceiro dia que se referem ao período da crise da Escolástica: Sobre a crise da Escolástica e os últimos pensadores medievais, você, como coordenador, escolheu a seguinte questão para o palestrante do dia responder: “De que modo foi caracteriza a crise da Escolástica, principal- mente com João Duns Escoto e Guilherme de Ockham?”. A partir desse questionamento central surgiu um questionamento complementar da seguinte forma: “Razão e fé deixam de ser considerados como harmônicos no período da crise da escolástica?” 169 Para auxiliar você e o palestrante a ter subsídios para fundamentar as respostas dessas questões, apresentaremos inicialmente João Duns Escoto, formado em dois renomados centros de estudos, Oxford e Paris; posterior- mente apresentaremos Guilherme de Ockham; na sequência, João Wyclif, João Huss e Mestre Eckhart. De forma geral, veremos que esses pensadores entendem que as querelas entre os medievais são desnecessárias, porque elas remetem a um falso entendimento da possibilidade de entendimento pleno entre filosofia e teologia, e isso, para esses pensadores do fim da escolástica, não existe. Filosofia e teologia são independentes campos do saber humano. Não pode faltar A crise da escolástica e os últimos pensadores medievais João Duns Escoto No último quarto do século XIII, a intensidade intelectual é notória com as contribuições nas traduções de Aristóteles e divulgação das obras de Avicena e Averróis (BOEHNER; GILSON, 2012). João Duns Escoto repre- senta um teólogo que soube unir as tradições da Universidade de Oxford com a de Paris. Uma de suas características é amor pela lógica e, assim sendo, tem toda uma riqueza em suas demonstrações filosófico-teológicas. Nasceu em 1266 em Duns, no condado de Berwik (Escócia). Foi francis- cano, ordenou-se sacerdote e faleceu com 42 anos de idade. Vale ressaltar que Escoto se formou em dois renomados centros de estudos: Oxford e Paris. Em Oxford, aprendeu a exercer um procedimento lógico-demonstrativo. Em Paris, buscou delimitar os limites da filosofia e da teologia, procurando delimitar os horizontes das respectivas áreas do saber. Quanto às obras, conforme Boehner e Gilson (2012, p. 488): Obras filosóficas: 1. Quaestiones super universaliza Porphyrii 2. Quaestiones super libros Aristotelis de Anima 3. Quaestiones subtilissimae in metaphysicam Aristotelis 4. Tractatus de primo principio Obras teológicas: 1. Theoremata 2. Opus Oxiniense ou Ordinatio 170 3. Reportata Parisiensia 4. Quodliberta 5. Collationes João Duns Escoto mostra-se, em sua obra, um apaixonado pela verdade, possuidor de uma inteligência penetrante. Escoto, no aspecto da relação entre teologia e filosofia, questiona se no estado atual temos necessidade da revelação para podermos produzir verdades sobre a fé, e a resposta é afirmativa. Escoto concluiu que é necessário um auxílio divino, porque temos dificuldade de conhecer com a luz natural da razão os ditames do conhecimento sobrenatural (BOEHNER; GILSON, 2012, p. 492). Duns Escoto destaca que, em relação à metafísica, o objeto supremo da filosofia, há divergências entre os filósofos. Para Avicena, o objeto supremo da metafísica é o ser; para Averróis, o objeto supremo da metafísica é Deus. Escoto opta pelo posicionamento de Avicena, porque entende que as discussões sobre a fé pertencem à teologia e não à metafísica. A teologia, para Escoto, é necessária porque existem diversas verdades como “a onipotência, a imensidade e onipresença”, que escapam do conhecimento humano e atinge outras dimensões nas quais é neces- sária a revelação (BOEHNER; GILSON, 2012). Diferentemente de Agostinho e Tomás de Aquino, Escoto entende que a filosofia e a teologia têm campos de atuação diversos, e querer equacioná-los é um reducionismo. Assim, seria importante delimitar o campo de atuação das respectivas áreas do saber e de seus campos de pensamento. Conforme Reale e Antiseri (2019, p. 278): “ a filosofia ocupa-se do ente enquanto tal e de tudo o que ele é, redutível ou dele dedutível. Já a teologia, ao contrário, trata dos articula fidei, ou objetos da fé.” Escoto parece apontar para dirimir as querelas entre teólogos e filósofos. Em outras palavras, não adianta querer colocar a filosofia como serva da teologia ou querer entender a teologia como inferior à filosofia, pelo contrário, ambas devem ser respeitadas nas suas respectivas áreas do saber. Reflita Talvez você não esperasse que surgiria, nesse contexto de Idade Média, um Duns Escoto que propusesse uma inversão no equilíbrio entre filosofia e teologia. Durante toda a Patrística houve um crescente no sentido do diálogo entre filosofia e teologia. Que argumentos poderí- amos elencar a favor do posicionamento de Escoto e quais contra o posicionamento deste filósofo e teólogo? 171 Sobre a existência de Deus, Duns Escoto questiona-se da seguinte maneira: “Há no domínio dos seres, um infinito realmente existente?” Escoto “demonstra primeiro que na ordem da causalidade eficiente, da causalidade final e da eminência há um ser primeiro que existe por si mesmo, e, portanto, é necessário” (BOEHNER; GILSON, 2012, p. 503). Assim, na teodiceia, a insuficiência do conceito de ente infinito que é atribuído a Deus provoca o pensamento de Escoto. Esse conceito de ente infinito não proporciona que conheçamos a riqueza misteriosa de Deus. Como já dissemos, para Escoto, as controvérsias entre teólogos e filósofos são desnecessárias e não levam a lugar nenhum; bastaria que se reconhecesse que são áreas de saber diversos e com métodos de pesquisa diversos. Assimile Escoto propõe buscar simplificar os conceitos teológicos e filosóficos argumentando que a complexidade causa confusões desnecessárias. Para ver claro os conceitos, faz-se necessário simplificá-los de modo a percebê-los com simplicidade e clareza (REALE; ANTISERI, 2019). Na filosofia de Escoto, encontramos a univocidade como um método filosófico em que ele pretende descomplicar os conceitos, reduzindo-os para a maior simplicidade possível. A analogia, por vezes, é fonte de erro porque iguala conceitos que não similares, conduzindo a equívocos. Entre esses conceitos simples, Escoto cita o conceito de ente, que é predi- cável de todos os seres (REALE; ANTISERI, 2019). Ele está convencido de que o que diferencia o homem dos outros seres é a inteligência, que expressa a transcendência no ser humano. De um lado, o conceito de ente consegue absorver a universalidade dos seres, mas, por outro lado, com sua máxima extensão, ele põe em relevo a pobreza do intelecto. No processo de abstração próprio da metafísica se enxuga diversos sentidos do real (REALE; ANTISERI, 2019). Guilherme de Ockham Contrariamente aos ensinamentos de Tomás de Aquino e Agostinho de Hipona, que são pensadores que defendem uma harmonia entre fé e razão, Ockham defende que o âmbito da revelação é incognoscível e as verdades da fé não podem ser compreendidas pela razão. Ele é conhecido como “príncipe dos nominalistas” (REALE; ANTISERI, 2019). Deixou um legado de contribuições lógicas, concepções físicas e a separação entre filosofia e teologia. 172 O autor nasceu em um condado a 20 milhas de Londres, em aproximada- mente 1280. Foi franciscano; estudou em Oxford e morreu em Munique da Baviera, em 1349, de cólera (REALE; ANTISERI, 2019). Ockham considera infrutíferas as tentativas de elaborações teóricas no sentido de tentar conciliar fé e razão. Considera que o plano do saber filosó- fico e do saber teológico são assimétricos. As verdades da fé não são autoe- videntes nem demonstráveis, e parecem falsas quando analisadas do ponto de vista racional. O espaço da filosofia não consiste em ser serva da teologia; a teologia não é mais considerada ciência e sim um campo de coesão de verdades pela fé (REALE; ANTISERI, 2019). O autor sustenta que o universal não é real; não existe a humanidade,o que existe são seres particulares, a realidade é individual. Resume os universais a formas verbais, em que por processo de abstração se formulam grupos que teriam semelhanças. Trata-se de uma reação do intelecto a coisas semelhantes (REALE; ANTISERI, 2019). Ockham formula, assim, a máxima “Não se deve multiplicar os entes se não for necessário” (REALE; ANTISERI, 2019). Com essa máxima, caem por terra a metafísica tradicional, principalmente a platônica. O conceito de substância também cai por terra, porque não conhecemos o que as coisas são metafisica- mente, conhecemos as realidades que são evidenciadas pela experiência. Ockham pretende ao mesmo tempo conservar o conceito aristotélico de ciência como “estudo do universal necessário” (SARANYANA, 2006, p. 453) e elaborar uma filosofia dos singulares em oposição ao universal que foi de forma ilusória tratado como real, mas que na realidade não passa de uma abstração nominal. Com relação a Deus, só o podemos conhecer com base em conceitos que sejam comuns aos homens, às coisas e a Deus. Mas, na realidade, Deus e os homens não têm nada em comum, assim “nossos conceitos de Deus apenas expressam que Deus não é como as criaturas; carecem, portanto, de conteúdo positivo” (SARANYANA, 2006, p. 454). Já no plano da ética, Ockham entende que Deus manda ser obedecido, mas não manda fazer o bem e evitar o mal. Ele radicaliza dizendo que não existem obras más em si mesmas e nem obras boas em si mesmas, assim, como já dizia Saranyana (2006), Deus poderia condenar os inocentes e salvar aqueles que são culpáveis. De acordo com o nominalismo de Ockham, existe na alma um sinal pelo qual designamos uma coisa. Rege contra a ideia de que os universais possam reproduzir o que as coisas são. Considerando que em Deus não há ideia universal, então segue disso que Deus é absolutamente livre, mas não pode fazer o absurdo. Concebe um poder de Deus absoluto (HIRSCHBERGER, 1966). 173 João Wyclif, João Huss e Mestre Eckhart João Wyclif João Wyclif (1320-1384), herdeiro da tradição filosófica de Escoto de Ockham, estudou em Oxford. Recebeu também influência de Tomás Bradwardine (REALE; ANTISERI, 2019). Tomás, por sua vez, entende que Deus é princípio absoluto de tudo o que ocorre, sendo também causa deter- minante das ações humanas. Wyclif, seguindo Tomás, professou um determi- nismo teológico. Wyclif foi mais longe e negou posicionamentos consagrados da doutrina católica, conforme nos apresenta Reale e Antiseri (2019, p. 325): “Wyclif opôs à autoridade do papa e do clero a autoridade da Bíblia; negou a presença real de Cristo na Eucaristia; negou a eficácia dos sacramentos; rejeitou os ritos, em favor da interioridade do ato de fé pessoal.” Wyclif nega a posição da Igreja como intermediária da graça divina; nega o poder papal e entende que o chefe da Igreja é Cristo e não o Papa; apresenta uma pesada crítica contra a Igreja institucionalizada que se deixou corromper tendo em vista os poderes temporais. As obras de Wyclif não determinam a salvação porque a salvação é graça de Deus. Wyclif ainda procurou disse- minar a leitura direta da Bíblia, sem intermediários. João Huss João Huss (1369-1415) é um importante teórico que encarnou em suas obras a luta da Boêmia contra o império e a Igreja, e foi também influenciado por João Wyclif (REALE; ANTISERI, 2019). No plano teológico, ele é crítico do luxo da Igreja, defendendo uma paridade entre leigos e clérigos (ou seja, ataca de frente a hierarquia). Sustenta que a verdadeira Igreja é o corpo místico de Cristo e não no que se tornou a Igreja: uma instituição corrompida pelo poder temporal. Mestre Eckhart Marías (2004) considera mestre Eckhart como um dos filósofos mais geniais da Idade Média, porém mal compreendido e mal estudado. Nasceu em 1260 em Gotha; foi dominicano, ensinou teologia em Paris, sendo contemporâneo de Duns Escoto; admirável na arte como pregador. Morreu em 1327, deixando obras como: Opus tripartitem; Quaestiones, Pregações e tratados. Ofereceu um legado de sermões em alemão e obras latinas. Entende que o caminho para o encontro com Deus é a própria alma. Conforme Marías (2004), seguidores de Eckhart configuram-se como importantes místicos do século XIV, com ênfase de representação na Alemanha e nos países baixos. São inspirados em uma chamada devotio moderna, e os expoentes principais são: João Tauler (1300-61), Henrique Suso (1300-65) e João Ruybroeck (1293-1381). 174 Reale e Antiseri (2019) apresentam que durante toda a Idade Média, além do aspecto especulativo da filosofia, esteve presente uma dinâmica mística buscando um encontro com Deus pela via da oração e do encontro pessoal com Deus. Mestre Eckhart vai demonstrar, com sua vida e com seus escritos, que o homem e o mundo sem Deus não são nada. Eckhart evoca sobre a importância de se considerar que Deus é caridade e é o ser, por excelência, e critica uma teologia fundada no intelecto e não no conhecimento íntimo de Deus. Com relação ao conhecimento de Deus, entende que Ele é inefável. Insiste no fato de que as criaturas e o mundo sem Deus não são nada. Boehner e Gilson (2012) apresentam que a filosofia de Eckhart guarda uma extrema relação com a filosofia escolástica, mais precisamente com Tomás de Aquino e Alberto Magno. Na teodiceia de Eckhart é evocada principal- mente a transcendência de Deus. Deus é superior a todas as criaturas e é um ser inefável. Quando buscamos alegrias fora de Deus só podemos ter como resultado a amargura, pois somente Deus pode realizar o coração humano (BOEHNER; GILSON, 2012). Exemplificando Como pudemos perceber, os pensadores da crise da Escolástica são intelectuais críticos do poder temporal da Igreja, e ao mesmo tempo que estão a criticar a unidade entre teologia e filosofia estão abrindo espaço para futuras contestações sobre o poder duplo da Igreja: poder temporal e poder espiritual. Urge ressaltar que esses pensadores do final da Escolástica colocaram em evidência uma crítica aos pensadores como Agostinho de Hipona e Tomás de Aquino, que tanto defenderam uma união entre fé e razão. Você, como futuro teólogo, pode também argumentar, depois de conhecer esses posicionamentos, sobre como entende a questão da relação entre filosofia e teologia. O papa João II promulgou uma encíclica denominada Fides et Ratio em que retifica a doutrina tomista de que fé e razão são duas grandes asas que permitem ao cristão sobrevoar sobre o terreno da verdade. Prezado acadêmico, encerramos nosso estudo sobre a decadência do período escolástico. Percebemos que o clima é de tensão. Longe de aperfei- çoar a doutrina de Agostinho e Tomás de Aquino, os últimos escolásticos levantaram críticas a esses teólogos e filósofos. Em alguns autores vimos que a própria autoridade do Papa foi questionada. Sendo assim, somos convidados a aprofundar nossos estudos sobre esses pensadores para não corrermos o risco de sermos anacrônicos e avaliá-los a partir dos nossos valores atuais. O 175 debate permanece aberto para nós, futuros teólogos, argumentarmos a favor ou contra a unidade entre filosofia e teologia. Sem medo de errar Será que toda a escolástica apregoou uma harmonia entre fé e religião? A filosofia e teologia foram consideras conciliáveis por todos os pensadores do medievo. No fim da Idade Média, encontraremos pensadores que discordam da orientação dada, por exemplo, por Tomás de Aquino e Agostinho de Hipona, que enfatizaram uma união entre fé e razão. Você é coordenador de um curso de teologia e o colegiado decidiu fazer uma semana de teologia sobre o fim da escolástica, com questões previa- mente apontadas pelos acadêmicos. As questões para esse terceiro dia que se referem ao conteúdo da unidade são: “De que modo foi caracterizada a crise da Escolástica principalmente com João Duns Escoto e Guilherme de Ockham?” A partir desse questionamento central surgiu um questionamento complementar da seguinte forma: “Razão e fé deixam de serconsiderados como harmônicos no período da crise da escolástica?” Considerando que o palestrante terá que responder esses questionamentos e você, como coordenador de curso, poderá auxiliá-lo, passamos a fazer consi- derações que podem ajudar nas possíveis respostas a esses questionamentos. A crise da escolástica é sobretudo uma crise que apresenta uma diver- gência em relação ao pensamento medieval da unidade entre fé e razão. João Duns Escoto, com seu amor pela lógica, entende que os campos de pesquisa entre filosofia e teologia são diversos e querer equipará-los é um grande erro metodológico. Assim, as controvérsias entre teólogos e filósofos seriam desnecessárias e não produziriam fruto algum, porque estão falando de âmbitos diferentes. Na Patrística estudamos que alguns Padres da Igreja já tinham ressalvas em relação à filosofia. Já Guilherme de Ockham vai mais longe e defende que o âmbito da revelação é incognoscível e, então, as verdades de fé não podem ser compreendidas pela razão. Assim, podemos afirmar que a crise da Escolástica é caracterizada, entre outros elementos, por apresentar um divórcio entre fé e razão, teologia e filosofia. A filosofia deixa de ser encarada como serva da teologia, como foi para alguns pensadores do medievo, e ganha o status de ramo do saber autônomo diverso da teologia. Com relação ao segundo questionamento, a resposta é afirmativa. Realmente fé e razão deixam de ser harmônicos e passam a ser considerados em sua individualidade com métodos de investigação da verdade próprios, não podendo ser igualados. Mestre Eckhart, por sua vez, em vez de valorizar 176 tantos questionamentos intelectuais, inclina-se para a mística como caminho do encontro com Deus por meio da contemplação. Assim, a mesma Idade Média que vivenciou uma grande defesa de fé e razão terá intelectuais que levantarão questionamentos sobre essa união de fé e razão. Faça valer a pena 1. A grande parte dos ásperos debates entre aristotélicos-to- mistas e platônicos-agostinianos depende, no parecer de João Duns Escoto (1266-1308), da delimitação não rigorosa dos âmbitos de pesquisa da filosofia e da teologia: uma trata do ente enquanto ente com procedimento demons- trativo, e a outra trata dos objetos de fé, com procedi- mento persuasivo; um aplica a lógica do natural, a outra a do sobrenatural. (REALE; ANTISERI, 2019, p. 277) Com base no enunciado e nos seus conhecimentos sobre Duns Escoto, assinale a alternativa correta: a. Para Escoto, a fé e razão são duas asas de um mesmo sobrevoo do conhecimento humano. b. Para Escoto, a filosofia é serva da teologia, e em caso de divergência entre ambas prevalece o senso da fé. c. Para Escoto, o que é interessa é a mística e não uma investigação sobre filosofia e teologia. d. Para Escoto, filosofia e teologia têm campos de atuação diversos e querer equacioná-los é um reducionismo. e. Escoto não investigou sobre as relações entre filosofia e teologia, ficando apenas no campo da lógica. 2. A maioria das teses de Eckhart têm sua origem em formu- lações tomistas mais ou menos radicalizadas, embora também não sejam alheias à síntese de Santo Alberto e às influências neoplatônicas. Para Eckhart, a alma é imaterial, forma simples do corpo, absolutamente indivisa e presente em todos os seus membros. A atividade mais elevada da 177 alma é o conhecimento ou razão. Existem três tipos de conhecimentos: sensível, racional e supra-racional. Só este último – que é extraordinário – possui a verdade completa. (SARANYANA, 2006, p. 424) Assinale com V (verdadeiro) ou F (falso) para as assertivas sobre Mestre Eckhart: ( ) Nasceu em 1260 em Gotha; foi dominicano, ensinou teologia em Paris, sendo contemporâneo de Duns Escoto. ( ) Deixou um legado de sermões em alemão e obras latinas. ( ) Critica um conhecimento de Deus fundado no intelecto e não no conhe- cimento íntimo de Deus. ( ) Teólogo que soube unir as tradições da Universidade de Oxford com as de Paris. ( ) Defende que o âmbito da revelação é incognoscível e as verdades da fé não podem ser compreendidas pela razão. Assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: a. F – F – F – V – V. b. V – F – V – F – V. c. F – F – V – F – V. d. V – V – V – F – F. e. V – F – V – F – F. 3. As verdades da fé não são evidentes por si mesmas, nem são demonstráveis e nem aparecem como prová- veis; isso significa que o âmbito das verdades reveladas é estranho ao reino dos conhecimentos racionais. Em lugar dos vínculos impostos pela metafísica, Ockham (1280-1349) põe o princípio da suprema onipotência de Deus. Consequentemente, a ligação entre os entes individuais singulares – aos quais de fato se reduz o mundo – brota de um puro ato de vontade divina, sem que nenhuma força metafísica seja necessária. (REALE; ANTISERI, p. 295) 178 Considerando as informações apresentadas, analise as afirmativas a seguir: I. Ockham defende que o âmbito da revelação é incognoscível e as verdades da fé não podem ser compreendidas pela razão. II. Ockham considera infrutíferas as tentativas de elaborações teóricas no sentido de tentar conciliar fé e razão. III. Ockham dá continuidade à filosofia tomista, que propõe uma unidade entre fé e razão, porque ambas buscam a verdade. IV. Ockham formula a máxima: “Não se deve multiplicar os entes se não for necessário”. V. Ockham é seguidor de Agostinho de Hipona no que se refere à união entre fé e razão. Considerando o contexto apresentado, é correto o que se afirma em: a. I, II e IV, apenas. b. I, II e V, apenas. c. III e V, apenas. d. I, II, III, apenas. e. III, IV e V, apenas. Referências BOEHNER, P.; GILSON, E. História da Filosofia cristã. Petrópolis: Vozes, 2012. CAVALCANTE, T. M.; OLIVEIRA, T. Intenção educacional da ética de Tomás de Aquino no contexto citadino no século XIII. Educação em Revista, Belo Horizonte, v. 28, n. 2, jun. 2012. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi.- d=S0102-46982012000200011&lang=pt. Acesso em: 20 fev. 2020. COSTA, J. S. Averróis: o aristotelismo radical. São Paulo: Moderna, 1994. DE BONI, L. A. A entrada de Aristóteles no Ocidente Medieval. Porto Alegre: EST Edições: Editora Ulysses, 2010. DUTRA, D. V.; HEBECHE, L. História da Filosofia II. Florianópolis: Filosofia/ EAD/ UFSC, 2008. HIRSCHEBERGER, J. História da Filosofia na Idade Média. São Paulo: Editora Herber, 1966. MAGALHÃES, A. P. T. 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