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28 R.I. (Revisão Intercalada) 9. (Ufba) Textos I. Sob as apreensões de uma crise social iminente, infalí- vel, que a todos há de custar direta ou indiretamente onerosos sacrifícios, o povo brasileiro, e particular- mente os lavradores, esperam ansiosos, entre receios por certo justificáveis e clamores que se explicam sem desar, o pronunciamento legal e decisivo da solução do problema da emancipação dos escravos. [...] Ninguém se iluda, ninguém se deixe iludir. Não há combinação de interesses, não há partido político, não há governo, por mais forte que se presuma, que possa impedir o proceloso acontecimento. [...] A voz de Deus, o brado do século da liberdade, a opinião do mundo, o pronunciamento dos governos, o espírito e a matéria, a ideia e a força querem, exigem, e em caso extremo hão de impor a emancipação dos escravos. MACEDO, Joaquim Manuel de. As vítimas algozes: quadros da escravidão. 4. ed. São Paulo: Zouk, 2005. p. 7 e 8. II. Mané galinha: [...] Você é uma criança! Menino: — Que criança? Eu fumo, cheiro, já matei, já roubei [...] Eu sou sujeito homem. Cidade de Deus (2002). Direção: Fernando Meirelles. Intérpretes: Matheus Nachtergaele e um grupo de atores, em sua maioria, amadores, moradores da comunidade retratada no filme. Roteiro: Bráulio Mantovani. Os fragmentos transcritos dizem respeito à visão fic- cional da existência de afrodescendentes no Brasil, em momentos históricos distintos. Teça um comentário sobre as representações do negro brasileiro de ontem e de hoje, focalizadas nas duas obras e identificadas por I e II. 10. (Unb) I-Juca Pirama Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi: Sou filho das selvas, Nas selvas cresci; Guerreiros, descendo Da tribo Tupi. Da tribo pujante, Que agora anda errante Por fado inconstante, Guerreiros, nasci; Sou bravo, sou forte, Sou filho do Norte; Meu canto de morte, Guerreiros, ouvi. Aos golpes do imigo, Meu último amigo, Sem lar, sem abrigo Caiu junto a mi! Com plácido rosto, Sereno e composto, O acerbo desgosto Comigo sofri. Meu pai a meu lado Já cego e quebrado, De penas ralado, Firmava-se em mi: Nós ambos, mesquinhos, Por ínvios caminhos, Cobertos d’espinhos Chegamos aqui! Eu era o seu guia Na noite sombria, A só alegria 29 R.I. (Revisão Intercalada) Que Deus lhe deixou: Em mim se apoiava, Em mim se firmava, Em mim descansava, Que filho lhe sou. Ao velho coitado De penas ralado, Já cego e quebrado, Que resta? — Morrer. Enquanto descreve O giro tão breve Da vida que teve, Deixai-me viver! Não vil, não ignavo, Mas forte, mas bravo, Serei vosso escravo: Aqui virei ter. Guerreiros, não coro Do pranto que choro: Se a vida deploro, Também sei morrer. Gonçalves Dias A partir do trecho apresentado, extraído do clássico poema do indianismo brasileiro I-Juca Pirama, julgue os itens a seguir. a) No contexto da literatura brasileira do século XIX, era incomum o recurso a protagonistas ameríndios em poemas épicos e romances. Especialmente os autores que se filiavam ao romantismo tenderam a dar desta- que, nos seus textos, a heróis de proveniência euro- peia, como forma de rejeitar o projeto de uma iden- tidade brasileira, bem como de restaurar os laços com a cultura europeia, que haviam sido cortados desde a independência. b) O refrão do poema — “Meu canto de morte,/ Guerrei- ros, ouvi” — remete ao passado do personagem épico I-Juca Pirama, como indica o emprego da forma verbal “ouvi”, flexionada no pretérito do indicativo. c) Ao utilizar como recurso de composição a narrativa em primeira pessoa do singular, o autor potencializa o apelo romântico do texto, fazendo que o drama do per- sonagem Tupi seja sublinhado pela perspectiva íntima, a partir da qual os fatos são apresentados. d) Para conferir dramaticidade ao momento de tensão em que o índio Tupi se apresenta à tribo que o aprisionou, o poeta utiliza esquema métrico e rítmico ágil, desta- cando-se a redondilha maior e as rimas cruzadas. e) O índio, nesse poema de Gonçalves Dias e nas demais obras do indianismo romântico brasileiro, é represen- tado segundo técnica literária realista, por meio da qual se pretende revelar o índio como legítimo dono das terras e da identidade cultural do país. f) Verifica-se, nas últimas estrofes apresentadas, que o grande temor do personagem narrador é a morte, ape- sar de a desdita que a vida reservou a ele e a seu pai ser apresentada em forma de lamento. g) O movimento romântico brasileiro, do qual o poema I-Juca Pirama é produção exemplar, procurou estabelecer as bases literárias da identidade cultural brasileira, objetivando a superação do cosmopolitismo expresso pela estética neoclássica, característica do Arcadismo. h) Autores do modernismo brasileiro retomaram o tema do índio moralmente forte como símbolo da nação, como se pode verificar na obra Macunaíma, de Mário de Andrade. 11. (Uerj) Daí à pedreira restavam apenas uns cinquenta passos e o chão era já todo coberto por uma farinha de pedra moída que sujava como a cal. Aqui, ali, por toda a parte, encontravam-se trabalha- dores, uns ao sol, outros debaixo de pequenas barracas feitas de lona ou de folhas de palmeira. De um lado cunhavam pedra cantando; de outro a quebravam a picareta; de outro afeiçoavam lajedos1 a ponta de picão2; mais adiante faziam paralelepípedos a escopro2 e macete2. E todo aquele retintim de ferramentas, e o martelar da forja, e o coro dos que lá em cima brocavam a rocha para lançar-lhe fogo, e a surda zoada ao longe, que vinha do cortiço, como de uma aldeia alarmada; tudo dava a ideia de uma atividade feroz, de uma luta de vingança e de ódio. Aqueles homens gotejantes de suor, bêbedos de calor, desvairados de insolação, a que- brarem, a espicaçarem, a torturarem a pedra, pareciam um punhado de demônios revoltados na sua impotência contra o impassível gigante que os contemplava com desprezo, imperturbável a todos os golpes e a todos os tiros que lhe desfechavam no dorso, deixando sem um gemido que lhe abrissem as entranhas de granito. O membrudo cavouqueiro3 havia chegado à fralda4 do orgulhoso monstro de pedra; tinha-o cara a cara, mediu-o de alto a baixo, arrogante, num desafio surdo. A pedreira mostrava nesse ponto de vista o seu lado mais imponente. Descomposta, com o escalavrado5 flanco exposto ao sol, erguia-se altaneira e desas- sombrada, afrontando o céu, muito íngreme, lisa, escaldante e cheia de cordas que mesquinhamente lhe escorriam pela ciclópica6 nudez com um efeito de teias de aranha. Em certos lugares, muito alto do chão, lhe 30 R.I. (Revisão Intercalada) haviam espetado alfinetes de ferro, amparando, sobre um precipício, miseráveis tábuas que, vistas cá de baixo, pareciam palitos, mas em cima das quais uns atrevidos pigmeus de forma humana equilibravam-se, desfechando golpes de picareta contra o gigante. O cavouqueiro meneou a cabeça com ar de lástima. O seu gesto desaprovava todo aquele serviço. – Veja lá! disse ele, apontando para certo ponto da rocha. Olhe para aquilo! Sua gente tem ido às cegas no trabalho desta pedreira. Deviam atacá-la justamente por aquele outro lado, para não contrariar os veios da pedra. Esta parte aqui é toda granito, é a melhor! Pois olhe só o que eles têm tirado de lá – umas lascas, uns calhaus7 que não servem para nada! É uma dor de cora- ção ver estragar assim uma peça tão boa! Agora o que hão de fazer dessa cascalhada que aí está senão maca- cos8? E brada aos céus, creia! ter pedra desta ordem para empregá-la em macacos! O vendeiro escutava-o em silêncio, apertando os beiços, aborrecido com a ideia daquele prejuízo. Aluísio Azevedo O cortiço. São Paulo: Ática, 2009. Vocabulário: 1 lajedos - pedras 2 picão, escopro, macete - instrumentos de trabalho 3 cavouqueiro - aquele que trabalha em minas e pedreiras 4 fralda - parte inferior 5 escalavrado - golpeado, esfolado 6 ciclópica - colossal, gigantesca 7 calhaus - pedras soltas 8 macacos - paralelepípedosAqueles homens gotejantes de suor, bêbedos de calor, desvairados de insolação, (2º parágrafo) O enunciado acima apresenta uma sequência de sensações. Aponte o valor semântico dessa sequência e identi- fique no texto outro exemplo em que a disposição das palavras produza efeito similar. 12. (Unb) Na verdade, o mestre fitava-nos. Como era mais severo para o filho, 3buscava-o muitas vezes com os olhos, para trazê-lo mais aperreado. Mas nós também éramos finos, metemos o nariz no livro, e continuamos a ler. Afinal, cansou e tomou as folhas do dia, três ou quatro, que ele lia devagar, 1mastigando as ideias e as paixões. Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência, e que era grande a 8agitação pública. Policarpo tinha, decerto, algum partido, mas nunca pude averiguar esse ponto. O pior que ele podia ter, para nós, era a palmatória. E essa lá estava, pendurada no portal da janela, à direita, 2com os seus cinco olhos do diabo. Era só levantar a mão, despendurá-la e brandi-la, com a força do costume, que não era pouca. E daí, pode ser que, alguma vez, as paixões políticas domi- nassem nele a ponto de poupar nos uma ou outra correção. (...) Estendi-lhe a mão direita, depois a esquerda, e fui recebendo 7os bolos uns por cima dos outros, até completar doze, 4que me deixaram as palmas verme- lhas e inchadas. Acabou, pregou-nos outro sermão. Chamou-nos 5sem vergonhas, desaforados, e jurou que, se repetíssemos o negócio, apanharíamos 6tal castigo que nos havíamos de lembrar para todo o sempre. Machado de Assis. Contos de escola. São Paulo: Cosac & Naify, 2002, p. 13 e 24. Ainda considerando o texto, extraído de Contos de Escola, e os diversos temas por ele suscitados, julgue os itens a seguir. a) No trecho “Não esqueçam que estávamos então no fim da Regência”, o narrador dirige-se aos leitores, utilizando a linguagem em sua função conativa, como evidencia o emprego do modo imperativo no início do período. b) O narrador menciona a possibilidade de o mestre Poli- carpo ter algum partido. Considerando o período da história brasileira a que a narrativa se refere — “o fim da Regência” —, Policarpo poderia optar por regressis- tas ou por progressistas. c) Dentro do contexto histórico contemplado na narra- tiva, a Cabanagem, a Sabinada e a Balaiada podem compor o quadro da “agitação pública” (ref. 8) a que alude o narrador. d) Assim como a palmatória, mencionada no texto, ser- viu de instrumento de opressão aos alunos, a Guarda Nacional, criada pelo ministro da Justiça, o padre Feijó, serviu para reprimir as forças anárquicas contrárias às aristocracias locais. e) O trecho reproduzido acima é representativo da esté- tica realista de Machado de Assis, caracterizada pela observação crítica da sociedade e pelo tratamento não idealista das personagens. f) Os contos machadianos são conhecidos pela habilidade ficcional narrativa que frequentemente se une à alusão a fatos históricos do século XIX, como acontece nos Contos de Escola. g) A exemplo de Dom Casmurro, romance da segunda fase machadiana, a obra Contos de Escola extrai sua força ficcional do recurso narrativo do fluxo de consciência. h) A relação entre a política e o castigo empregado pelo “mestre” é sublinhada com fina ironia pelo narrador, como se pode perceber no último período do primeiro parágrafo.