Prévia do material em texto
Emoções-Book UM GUIA DE COMO SE RELACIONAR COM SUAS EMOÇÕES CAMILA SCOMAZZON BONA ISADORA SILVEIRA LIGÓRIO LAURA CARDONA ANTUNES LAURA NICHELE FOSCHIERA RAÍSSA TELESCA A . CORDEIRO RODRIGO MACHADO RODRIGUES Psicóloga (CRP 07/32493) Formada pela PUCRS Especializanda em Terapias Cognitivo-Comportamentais (Wainer Psicologia Cognitiva) Formação no Modelo Neurocognitivo de Mindfulness em andamento LAURA CARDONA ANTUNES QUEM SOMOS NÓS? 02 Psicóloga (CRP 07/29960) Formada pela UFRGS Especialista em Terapias Cognitivo-Comportamentais (Wainer Psicologia Cognitiva) Mestranda em Psicologia Clínica (PUCRS) ISADORA SILVEIRA LIGÓRIO Psicóloga (CRP 07/29946) Formada pela PUCRS Especializanda em Terapias Cognitivo Comportamentais (Wainer Psicologia Cognitiva) CAMILA SCOMAZZON BONA QUEM SOMOS NÓS? Psicólogo (CRP 07/29947) Formado pela PUCRS Especializando em Terapias Cognitivo-Comportamentais (Wainer Psicologia Cognitiva) RODRIGO MACHADO RODRIGUES Psicóloga (CRP 07/30123) Formada pela PUCRS Especializanda em Terapias Cognitivo-Comportamentais (Wainer Psicologia Cognitiva) Formação em Terapia do Esquema em andamento (Wainer Psicologia Cognitiva) RAISSA TELESCA A. CORDEIRO 03 Psicóloga (CRP 07/30058) Formada pela PUCRS Mestranda em Psicologia Clínica (PUCRS) LAURA NICHELE FOSCHIERA SUMÁRIO COMO POSSO ACEITÁ-LAS? PORQUE NOSSA SAÚDE MENTAL É IMPORTANTE? PARA QUE SERVEM AS EMOÇÕES? O QUE SÃO EMOÇÕES? QUAIS SÃO ELAS? 05 ALEGRIA RAIVA TRISTEZA MEDO NOJO IMPACTOS DA PANDEMIA NAS EMOÇÕES CONSIDERAÇÕES FINAIS REFERÊNCIAS 08 11 14 15 18 21 25 29 33 38 41 42 O IMPACTO DA PANDEMIA NAS EMOÇÕES No final de 2019, em uma cidade chinesa chamada Wuhan, começou a ser revelada a recorrência de um quadro clínico que acabou sendo identificado como uma nova versão do conhecido coronavírus - SARS. Essa doença viria a ser classificada pela Organização Mundial da Saúde como COVID-19, também conhecido como SARS-CoV-2. Seu quadro clínico varia de infecções assintomáticas a manifestações respiratórios graves. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS, 2020), cerca de 80% dos casos podem ser assintomáticos e 20% podem requerer atendimento hospitalar por apresentarem dificuldade respiratória. Dos casos com dificuldade respiratória, uma margem de 5% pode necessitar tratamento de suporte ventilatório, devido a insuficiência respiratória. No dia 30 de janeiro de 2020, a Organização Mundial Saúde (OMS, 2020) anunciou que o surto da doença causada pelo novo coronavírus (COVID-19) constituía uma Emergência de Saúde Pública de Importância Internacional. Este é o nível mais alto de alerta da Organização, conforme previsto no Regulamento Sa- 05 nitário Internacional. Em 11 de março de 2020, a COVID- 19 foi caracterizada pela OMS como uma pandemia. O COVID-19 é uma doença que se espalha facilmente entre as pessoas que estão em contato próximo por um período prolongado. O contato com superfícies ou objetos também pode ser foco de contaminação. Por conta disso, medidas de distanciamento social foram tomadas para evitar e limitar as possibilidades de disseminação da doença. Para manter o distanciamento social, são importantes os comportamentos de: • Ficar, pelo menos, a um metro e oitenta centímetros de distância de outras pessoas; • Não se reunir em grupos; • Ficar longe de lugares lotados. Essas limitações nos ensinaram a viver de uma forma diferente. Hoje, quando saímos de casa, temos cuidado redobrado e, por vezes, ficamos hiperalertas com as medidas de proteção individual - cuidando para não tocar em superfícies, não levar as mãos perto do nariz e boca e mantendo sempre distância de outras pessoas. Aos poucos, fomos digerindo a ideia de viver em um mundo diferente, em que várias coisas, antes inimagináveis, tornaram-se realidade: passamos a viver um novo estado de normalidade. 06 Com a pandemia, também aumentou a instabilidade econômica, política e social. “Como vai ser daqui pra frente?”. Essa é uma resposta que nenhum estudioso soube dar ainda e que, provavelmente, só o tempo poderá nos dar. Frente a esse cenário de instabilidade e incertezas, nossa saúde mental pode ficar prejudicada. Alguns sintomas têm surgido diante desse contexto: preocupações, inquietação, ansiedade, tristeza, sentimentos de desconexão, desmotivação, irritação, entre outros. Ainda, podemos sentir que nossas emoções ficaram mais intensas nesse período. Além de ser um momento que facilita essas reações, estratégias que antes utilizávamos para lidar com nossas emoções, podem não ser mais possíveis (ex. ir para a academia, dar uma volta no parque com amigos, etc), o que dificulta a maneira como nos relacionamos com as nossas emoções. Como mencionado acima, a pandemia tem impactos que vão além da saúde física e financeira, afetando também nossa saúde mental. Pensando no impacto do momento atual nas nossas emoções, que tal descobrirmos juntos esse universo? 07 Para compreender as nossas emoções, é necessário levantar algumas questões. Primeiramente, as emoções são influenciadas pela nossa biologia. Ou seja, frente a determinadas situações, as emoções disparam certas reações fisiológicas (corporais). Do ponto de vista evolutivo, as emoções são entendidas como ferramentas importantes que permitem avaliar o perigo ou outras condições, acionar comportamentos e comunicar seu estado emocional para os outros. Nesse sentido, elas são fundamentais, porque nos lembram das nossas necessidades mais importantes. O QUE SÃO EMOÇÕES? 08 Aqui, entra o segundo ponto: a experiência da emoção, geralmente, é seguida pela interpretação (o que pensamos) do que estamos sentindo. Por exemplo: se você está se sentindo mais ansioso, em algum momento você pode se perguntar “Será que isso vai durar para sempre?” ou “Como eu posso controlar esse sentimento?”. Portanto, não só a experiência da emoção é importante, como nosso entendimento e o que acreditamos que pode acontecer a partir do que sentimos. Ao longo do tempo, nossa relação com as emoções foi se modificando e hoje vemos muitas pessoas se sentindo “erradas” ao ter emoções mais difíceis, principalmente porque exigem habilidades e ferramentas para lidar com elas. Muitas pessoas tendem a ver suas respostas emocionais como negativas e acreditam que o sentimento pode ter uma longa duração, o que resulta em consequências prejudiciais. Isso acontece porque as emoções também são processos sociais, que vão desde a nossa experiência com a família, até as avaliações feitas por outras pessoas e pela sociedade onde estamos inseridos. 09 Diante de situações que são mais difíceis e estressantes, como o período de pandemia que estamos vivendo, essas emoções podem se intensificar. À medida em que as emoções se intensificam, nós tendemos a buscar comportamentos imediatos para reduzir a intensidade das emoções. Algumas estratégias adotadas podem reduzir temporariamente a sensação de desconforto gerado por determinadas emoções. Contudo, podem prejudicar formas mais saudáveis de lidar com as sensações emocionais e estas soluções podem se tornar um problema. 10 PARA QUE SERVEM AS EMOÇÕES? Eventualmente, queremos nos livrar do desconforto associado à experiência das emoções e até gostaríamos de ter o poder de desligar nosso “painel de controle”. Porém, sem as emoções, a vida provavelmente seria tediosa, menos interessante e mais perigosa. Por que isso aconteceria? Porque as emoções são uma ferramenta que nos envia pistas importantes e, como já vimos anteriormente, elas são compreendidas como um mecanismo que emite sinais para o indivíduo ativar comportamentos e promover mudanças necessárias na situação em questão. 11 Vamos falar da emoção VERGONHA, por exemplo. Ela é considerada desconfortávelpela maioria das pessoas, porém, você já pensou como a vergonha pode ser um elemento importante nas interações sociais, na medida em que nos faz considerar nossos comportamentos frente ao grupo social? Imagine que é um dia muito quente de verão e você está jantando com amigos em um restaurante. Ocorre uma queda de luz e o ar condicionado para de funcionar. Você começa a sentir muito calor e imagina como seria bom poder tirar a camisa, mas sente vergonha e identifica que seria embaraçoso tomar essa atitude naquele ambiente. Pensando que nós seres humanos somos seres sociais, ou seja, necessitamos o convívio com o outro, a habilidade de ser aceito pelo “bando” é bastante importante. Nesse sentido, no exemplo anterior, a emoção vergonha teria ajudado na sua adaptação ao ambiente de um jantar com amigos. Portanto, as emoções são um elemento que promoveu e segue promovendo a adaptação e evolução da espécie humana, mas de que forma essa perspectiva se aplica ao momento atual? 12 Imagine que, frente ao cenário da pandemia, você não sentisse nada - estivesse com suas emoções anestesiadas ou mesmo nem tivesse emoções. Provavelmente, sem o alerta das emoções medo e ansiedade, você não adotaria os comportamentos de distanciamento social de sair de casa apenas para o essencial, de tomar os cuidados de higiene ou mesmo de reorganizar suas finanças para o momento de crise econômica, ou seja, as emoções têm nos atentado para questões essenciais e aumentam a chance de passarmos por esse período com o menor prejuízo possível. Agora que entendemos que não seria possível e nem desejável nos livrarmos das emoções, vamos entendê-las melhor? 13 A partir daqui iremos falar sobre as cinco emoções básicas: alegria, tristeza, raiva, medo e nojo. Elas são consideradas básicas pois são emoções universais, ou seja, aparecem em diferentes culturas e dão origem a todas as outras emoções que também sentimos. QUAIS SÃO ELAS? 14 Como diria Gonzaguinha, na música “O que é, o que é?” não devemos ter vergonha se nos sentirmos felizes, afinal de contas, a alegria é uma emoção prazerosa e que gostamos de experienciar. Quem não gosta de se sentir assim? No entanto, assim como toda emoção, ela também cumpre um papel importante na nossa vida que vai além do prazer. O QUE É E QUAL SUA FUNÇÃO? A alegria é uma emoção que surge como uma reação a acontecimentos favoráveis que nos afetam de forma direta ou indireta. Além disso, gera algo positivo em quem a experimenta, já que libera substâncias químicas como dopamina e noradrenalina, induzindo um estado de bem-estar e sensações boas. "Viver E não ter a vergonha De ser feliz" ... Gonzaguinha ALEGRIA 15 Por este motivo, ela é capaz de nos dar sinais valiosos sobre aquilo que nos faz bem e é um importante sinalizador de realizações pessoais, além de promover conexão social. Felicidade, satisfação, otimismo, contentamento e prazer, frequentemente surgem como sinônimos de alegria. QUAIS SITUAÇÕES DESENCADEIAM? Podemos sentir alegria em diferentes momentos. Exemplos comuns de eventos que desencadeiam alegria são: a realidade superar expectativas, conseguir algo que quer, alcançar algum resultado, receber amor, realizar tarefas que proporcionam sensações agradáveis, entre outras. 16 COMO SE MANIFESTA? (INTERPRETAÇÕES/ PENSAMENTOS, COMPORTAMENTOS, REAÇÕES FISIOLÓGICAS) Ao nos sentirmos alegres, somos capazes de interpretar os eventos prazerosos como são, em que nossos pensamentos estão de acordo com a situação. Quando estamos dessa forma, nos sentimos empolgados, fisicamente ativos, abertos à experiência e sorridentes. Podemos também ter comportamentos como abraçar pessoas, ficar mais comunicativos, amigáveis e dizer e fazer coisas positivas para e pelos outros. Além disso, temos vontade de continuar fazendo aquilo que está associado à alegria. No momento atual, podemos ter dificuldade em sentir alegria e está tudo bem, pois as coisas andam confusas mesmo. Apesar disso, ainda é possível sentirmos ou cultivarmos essa emoção. Podemos sentir alegria quando temos alguma notícia boa sobre a situação, quando conversamos com alguém que gostamos, ou quando conseguimos fazer alguma atividade que nos dá prazer e satisfação pessoal. "Mas pra fazer um samba com beleza É preciso um bocado de tristeza É preciso um bocado de tristeza Senão, não se faz um samba não …. Vinicius de Moraes TRISTEZA Quem nunca se sentiu triste? No trecho da música Samba da Bênção, Vinicius de Moraes enfatiza a importância do sentimento da tristeza na composição do samba. Mais que isso, se pararmos para analisar, a maioria das músicas da história cita sentimentos relacionados à decepção e à desilusão. 05 18 O QUE É E QUAL SUA FUNÇÃO? Podemos perceber que a tristeza é, como todas as outras emoções, uma emoção natural dos seres humanos e tem a tarefa de nos fazer refletir sobre a maneira como estamos nos comportando e conduzindo as nossas vidas. A partir da introspecção, podemos realizar escolhas mais saudáveis. QUAIS SITUAÇÕES DESENCADEIAM? A razão pela qual podemos sentir tristeza são as mais variadas. Normalmente, ela aparece em situações nas quais nos sentimos perdendo algo, sendo desprestigiados, desvalorizados, frustrados, culpados, desmotivados, desamparados, abandonados, angustiados, pressionados, desesperados ou não aceitos pelas pessoas. Esses não são sentimentos agradáveis de experienciar, no entanto, possibilitam a conexão entre os indivíduos. 04 19 COMO SE MANIFESTA ? (INTERPRETAÇÕES/PENSAMENTOS, COMPORTAMENTOS, REAÇÕES FISIOLÓGICAS) A experiência da tristeza pode envolver sensação de vazio, esgotamento, apatia, desinteresse, aumento ou falta de apetite. A tristeza também pode se manifestar em sinais no corpo como: canto da boca ligeiramente para baixo, costas curvadas, tom de voz mais baixo e fala trêmula. Pensamentos associados a tristeza podem ser: “não consigo fazer nada direito”, “sou um perdedor”, “não sou interessante para os outros”. Alguns comportamentos comuns são ruminação (ficar preso a esses pensamentos), isolar-se e diminuir as atividades do dia a dia. Além disso, quando experienciamos essa emoção, temos a tendência de lembrar com mais facilidade dos momentos tristes da nossa vida e interpretar os novos acontecimentos a partir do filtro da tristeza. Devido à situação do COVID-19, é importante estarmos atentos, pois podemos notar sentimentos de tristeza mais presentes do que costumávamos. Isso pode ocorrer por inúmeros motivos como, por exemplo, a imprevisibilidade das consequências políticas, sociais, econômicas do país, notícias de óbitos por conta da doença ou diminuição no contato social com amigos e parentes queridos. 04 20 “Guardar a raiva é como segurar um carvão em brasa com a intenção de atirá-lo em alguém; é você que se queima.” Buda A raiva não é bem vista perante aos olhos dos outros. Esta emoção pode nos levar a uma série de comportamentos que prejudicam as nossas relações, bem-estar e como nos vemos, porém ela também possui uma funcionalidade de extrema importância para nossa sobrevivência. 06 RAIVA 21 O QUE É E QUAL SUA FUNÇÃO? A raiva é uma emoção natural do nosso corpo e está ligada aos nossos instintos de sobrevivência. Além disso, tem um papel muito importante nas interações sociais, já que tem tem como objetivo comunicar insatisfações e/ou injustiças, colocando limites em nossas relações. Por sermos seres sociais, o convívio com outras pessoas é importante para nós. Dentro das nossas relações, podemos nos sentir ameaçados quando nos atacam verbalmente, violam nossos direitos, nos difamam ou nos desrespeitam. Podemos pensar que existem dois tipos de raiva: a raiva produtiva e improdutiva. A raiva produtiva é aquela que nos impulsiona para a luta dos nossosdireitos e/ou valores. Esse tipo de raiva está conectado com pensamentos flexíveis em relação à expectativa do outro e, também, a uma abertura para entender o seu ponto de vista, avaliando sempre de maneira realista e dentro dos limites. Os comportamentos ligados a esse tipo de raiva são: estar aberto a diálogos que possam fazer repensar as interpretações iniciais, como por exemplo, tentar resolver o mal entendido, pedir para que o comportamento não se repita e entre outros. 22 Já a raiva improdutiva, caracteriza-se por sensações de fúria/ódio, que nos levam a comportamentos impulsivos e de caráter agressivo e violento. Normalmente, esse tipo de raiva está ligada a pensamentos inflexíveis de como os outros deveriam se comportar e sem considerar as observações dos outros. Por consequência, adotamos comportamentos impulsivos como, por exemplo, ataques verbais e físicos, comportamento passivo-agressivo, quebrar objetos, entre outros comportamentos prejudiciais. QUAIS SITUAÇÕES DESENCADEIAM? A raiva pode a parecer em variadas situações, como: ter um objetivo impedido, você ou alguém querido ser atacado, perder poder, ser desrespeitado ou as coisas não saírem como o planejado. COMO SE MANIFESTA? (INTERPRETAÇÕES/PENSAMENTOS, COMPORTAMENTOS, REAÇÕES FISIOLÓGICAS) Quando passamos pelas situações listadas acima, é comum termos padrões de interpretação que nos ativam raiva. Alguns deles são: sensação de injustiça, culpa, acreditar que objetivos importantes estão sendo bloqueadas, ruminação sobre o evento que desencadeou raiva, julgar que a situação é errada. 23 Como qualquer outra emoção, o estado emocional de raiva faz com que o nosso corpo apresente alterações. As mudanças físicas mais comuns são: tensão muscular, ranger os dentes, punhos cerrados, rosto afogueado, sentir como se fosse explodir e sentir-se incapaz de parar de chorar. Além disso, podemos apresentar comportamentos como: atacar fisicamente/verbalmente, quebrar objetos, realizar críticas excessivas, afastar-se de outros, franzir a testa e pensamentos ruminantes sobre a situação. Atualmente, vivemos em um cenário em que o nossos direitos de ir e vir foram limitados. É natural que, nesse momento de COVID-19, sintamos raiva por não vermos amigos e familiares, adiar planos futuros, entre outras situações que despertam essa emoção. Nessas situações, a raiva aponta para coisas importantes e que têm valor em nossas vidas. Você já parou para pensar em quais coisas são importantes para você neste período? 24 “Ganhamos força, coragem e confiança a cada experiência em que verdadeiramente paramos para enfrentar o medo.” Eleanor Roosevelt O medo é uma emoção desconfortável que gera tensão e outras sensações desagradáveis no corpo e na mente. Por esse motivo, muitos de nós não gostamos de senti-lo, mas você sabia que ele tem um papel super importante para a nossa sobrevivência? O QUE É E QUAL SUA FUNÇÃO? O medo surge em situações que nos sentimos ameaçados ou em perigo. Essa emoção tem a função de nos alertar e proteger de riscos em potencial, e em razão disso, é essencial para a nossa preservação e sobrevivência. MEDO 25 QUAIS SITUAÇÕES DESENCADEIAM? Podemos ter medo tanto em situações em que existe um perigo real (ex.:assalto), quanto em um perigo imaginado (ex.: pensar que os outros vão me rejeitar). Aqui, a grande armadilha é que nosso cérebro não sabe diferenciar o que é uma ameaça real de uma ameaça imaginada por nós mesmos . Sendo assim, podemos ativar respostas de medo nas duas situações. Frente a um perigo real, a resposta do medo é protetiva, porém, quando o perigo é criado pela nossa interpretação da situação e ela não estiver muito precisa (ex.: achar que os outros vão me rejeitar sem ter algo que comprove isso), o medo pode ser prejudicial e ainda mais estressante para nós. 26 Na presença de algo ameaçador para nós, nosso organismo liga o sistema de luta ou fuga. Esse sistema é o responsável por desencadear algumas reações no nosso corpo que nos preparam para lutar, fugir ou congelar com objetivo de nos proteger. Quando esse sistema é ativado, podemos ter algumas sensações corporais conhecidas por muitos de nós. Por exemplo, o coração acelerado serve para bombear mais sangue para nossos braços e pernas para lutar com o inimigo ou correr; a respiração fica mais rápida e curta, para ajudar o coração receber mais oxigênio; os pés e as mãos ficam gelados e com menos circulação para nos proteger da hemorragia de machucados; o suor serve para manter a temperatura corporal e nos deixar escorregadios, para escapar do inimigo; a dor de barriga, para evacuar deixaria mais leve para lutar ou fugir. COMO SE MANIFESTA? (INTERPRETAÇÕES/PENSAMENTOS, COMPORTAMENTOS, REAÇÕES FISIOLÓGICAS) 27 Além destas reações corporais, ao sentir medo, podemos ficar muito alertas e com a atenção voltada para possíveis ameaças, aumentando nosso medo. Podemos também perder nossa capacidade de concentração, nos sentir desorientados, ter lembranças de outras situações ameaçadoras, ficar preso a estes pensamentos e nos isolar. Atualmente, não é incomum sentirmos medo frente à situação que nos encontramos. O vírus (COVID-19) e a instabilidade em diferentes áreas podem servir como exemplos de situações ameaçadoras. Por este e outros motivos, é uma emoção esperada frente ao momento que vivemos. Nessas situações, o medo cumpre a sua função quando nos alerta de perigos em potencial e nos ajuda a adotar medidas de proteção que possam prevenir o contágio (ex.: higienizar mãos, alimentos, roupas) e minimizar a instabilidade (ex.: controlar gastos). No entanto, ele pode se tornar prejudicial quando é ativado de forma frequente, intensa e desproporcional aos perigos reais. 28 NOJO “Meu nojo vem daqueles que se acham superiores aos outros.” Marco Filho O QUE É E QUAL SUA FUNÇÃO? O nojo é uma emoção que está relacionada ao desagrado, repugnação e aversão. Ela ocorre porque o nosso corpo pode ser sensível e frágil a vírus e bactérias que podem nos deixar doentes ou até mesmo nos matar por infecções. O nojo é, portanto, uma forma de defesa e proteção do nosso organismo, pois tem como função a busca por sobrevivência. 29 QUAIS SITUAÇÕES DESENCADEIAM? Podemos sentir nojo, por exemplo, em situações as quais somos expostos a mau cheiros, como de urina e fezes, aparência de algo estragado, como comida, ou animais de aparência pegajosa, como baratas. Podemos sentir nojo também de comportamentos que julgamos inapropriados ou que ferem crenças pessoais gerando repulsa e antipatia. COMO SE MANIFESTA? (INTERPRETAÇÕES/PENSAMENTOS, COMPORTAMENTOS, REAÇÕES FISIOLÓGICAS) O nojo pode desencadear comportamentos fisiológicos como ânsia de vômito e náusea. Ele pode se manifestar através de pensamentos como: “tudo ao meu redor está sujo, posso pegar doenças”, “tocar em coisas que os outros tocaram me dá nojo”, “tenho nojo de muitas pessoas, principalmente de pessoas desconhecidas”. 30 05 Esses pensamentos podem se tornar prejudiciais, fazendo com que evitemos determinados ambientes, pessoas e cumprimentos. No entanto, não sentir nojo pode fazer com que descuidemos de nossa higiene pessoal. No momento atual, é fundamental que o nojo esteja presente para que possamos seguir as orientações recomendadas pelas organizações de saúde. É esperado que o nojo se manifeste através de comportamentos de limpeza como: lavar as mãos com maior frequência, higienizar objetos e diminuir contatos físicos. Pensamentos como: “posso pegar COVID-19”, “estou vulnerável” também podem estar presentes. Sabemos que essas sensações são desconfortáveis e aversivas, porém são necessárias e comuns a todos seres humanos. 31 DIÁRIO DAS EMOÇÕES Agora que já conhecemos todas as emoções básicas, que tal colocarmos em prática a sua identificação? O diário das emoções serve para monitorar a nossa experiênciaemocional e nos ajudar a torná-la mais consciente. Como no exemplo abaixo, marque diariamente as emoções que você sentiu ao longo do dia. Você também pode numerar de 0 a 10 de acordo com a intensidade da sua experiência emocional. Na última página do e-book, você encontrará uma versão do diário das emoções para impressão, possibilitando que você realize em casa! x x x 5 5 3 32 COMO PODEMOS ACEITAR NOSSAS EMOÇÕES? Como abordado anteriormente, o processo de compreensão das emoções e de suas funções passa por alguns conteúdos, como: o que podem estar comunicando, qual a sensação experienciada, onde estão aparecendo em seu corpo e qual seu impacto na avaliação, julgamento e interpretação. Frente a isso, várias são as estratégias possíveis para lidar com a experiência das emoções. O primeiro passo para um bom relacionamento com as nossas emoções é não lutarmos contra elas, ou seja, aceitarmos a sua presença. Ao pensarmos na função das emoções, é comum concordarmos sobre a importância em termos sinais para buscarmos conforto, segurança ou até mesmo sobrevivência, afinal, se o objetivo das emoções é o aprendizado e a avaliação de risco, poderíamos entendê- las como uma ferramenta útil em nosso dia a dia. Apesar disso, esses sinais podem carregar sensações desagradáveis, fazendo com que tenhamos mais dificuldade de avaliar sua utilidade, e frente a isso, nossa tendência pode ser evitar tais sensações, diminuindo nossa abertura a diferentes experiências. 33 A proposta é que possamos criar um novo tipo de relacionamento com nossas experiências emocionais, adotando uma postura receptiva e sem julgamentos da situação vivida. Adotar uma postura disposta é um processo a ser praticado aos poucos em nosso dia a dia, afinal, não é algo simples. Talvez você se pergunte qual a razão desta ser uma maneira de trabalharmos nossas emoções, então, vamos imaginar da seguinte forma: Imagine que é um dia quente, você está entrando no mar, e ao seguir entrando, você percebe que uma onda grande está vindo em sua direção. Essa não é a primeira vez que você entra no mar, mas aquela onda parece assustadora. Ao olhar para ela, pensa que deveria sair correndo, porém o repuxo lhe impede de fazer isso. Talvez venha em seu pensamento a ideia de que, ficando parado, possa conseguir sair ileso. Você pode pensar também: ‘‘Por que fui entrar no mar?”, ‘‘Não deveria ter entrado’’, ‘‘Só quero que passe logo’’. 34 A grande questão é que, conforme você faz suposições, cálculos e pensa em como escapar, a percepção do tempo da onda vindo em sua direção parece ainda maior do que realmente é. A única certeza que existia nessa situação é de que a onda viria independentemente do seu desejo. Nessa situação, a conduta que seria eficaz é aceitar a presença da onda. Aceitar a situação presente não significa concordar ou se entregar à experiências desagradáveis e dolorosas. Na verdade, consiste em adotar uma postura sem julgamentos da realidade existente e mudar aquilo que é possível. Considerando o exemplo da onda, o comportamento de pensar o quanto gostaríamos que ela não estivesse ali ou o quanto gostaríamos de não ter entrado no mar, não são eficazes. Isso porque não há como voltar no tempo ou impedir que a onda venha ao seu encontro. Sendo assim, aceitar não significa que devemos deixar-se levar por todas as adversidades, mas admitir que a vida envolve sofrimento. Por outro lado, aceitar a presença da onda permitiria o desenvolvimento de estratégias para passar por ela com mais tranquilidade: dando um pulinho, dando um jacaré ou um pequeno mergulho, porém, esse processo só é possível depois que aceitamos a sua presença. 35 Muitas vezes, viveremos situações indispensáveis e inevitáveis que resultarão em sensações e experiências desagradáveis. Eventualmente, elas podem também gerar alguns comportamentos indesejáveis, de caráter impulsivo, trazendo prejuízos para a nossa vida, porém, o problema não são as emoções ou sensações em si, e sim como nos relacionamos com elas. É importante nos conectarmos quando sentimos essas emoções e pensarmos como agir diante delas. É comum que, em momentos de dor e desconforto, surja a pergunta: ‘‘tem como parar de sentir?’’. Como foi dito anteriormente, não há um botão para ligar e desligar nossas emoções, porém, podemos desenvolver um termômetro para medi-las e regulá- las. COMO TUDO ISSO SE APLICA AO MOMENTO ATUAL? Em momentos de crise, como o vivido atualmente devido ao COVID-19, é normal observarmos pensamentos como: “Vou me contaminar”, “Vou morrer”, “Meu dinheiro vai acabar”, “Vou ser demitido(a)”, “Nunca mais vou ver meus familiares”, “As coisas nunca mais vão ser como antes”. Diante 36 desses pensamentos, é esperado que sintamos raiva, tristeza e medo. No entanto, apesar da intensidade dessas emoções, isso não significa que os pensamentos sejam verdades absolutas - são apenas pensamentos. Podemos sentir raiva pela nossa impotência ou por termos que reorganizar nossos planos, tristeza por não vermos pessoas amadas e até mesmo pela perda de algum ente querido e medo, por termos que nos adequar a uma nova rotina e orientações para evitar a contaminação. Provavelmente, vamos sentir alguma dessas emoções, ou até mesmo todas, diante do cenário. Conforme vimos anteriormente, não é possível nem desejável nos livrarmos dessas emoções, já que elas nos informam coisas importantes. Todos experienciamos dificuldades na vida em algum momento. A situação que estamos enfrentando pode favorecer o aparecimento desses desconfortos. Dessa forma, é importante estarmos atentos às manifestações das nossas emoções para que, a partir disso, possamos oferecer cuidado a nós mesmos. Sendo assim, este pode ser um momento adequado para que sejamos mais transparentes sobre nossas emoções e possamos compartilhar nossas angústias. 37 POR QUE NOSSA SAÚDE MENTAL É IMPORTANTE? Com a leitura deste e-book, você aprendeu sobre a importância das emoções na nossa vida, e aprender a lidar com elas é um fator essencial para a nossa saúde mental. Falando em saúde mental, esse é um conceito que, cada vez mais, vem ganhando destaque e importância dentro do que conhecemos por saúde, já que está diretamente relacionado ao bem-estar e a qualidade de vida. De que forma podemos cuidar ou promover nossa saúde mental? Uma das formas de fazer isso é buscando profissionais que trabalham na área, como, por exemplo, psicólogos. O psicólogo tem um papel muito importante no tratamento de questões psicológicas e/ou emocionais e na promoção de saúde mental, podendo atuar com diferentes ferramentas para atingir esses objetivos. 38 Tendo em vista o cenário atual e a importância da psicologia no enfrentamento aos impactos do COVID-19, nós, os/as autores/as deste E-book, nos unimos para a criação do “Somos Rede Psi”. Por meio de orientação psicológica breve, o projeto tem como objetivo promover saúde mental a partir da construção de ferramentas para lidar melhor com este momento. São disponibilizados três encontros de orientação com duração de 45 minutos cada, nas quais são desenvolvidas estratégias de manejo conforme a demanda de cada paciente. Como profissionais da saúde, entendemos que todo sofrimento merece atenção e cuidado. Além disso, a situação que estamos enfrentando pede cooperação e acolhimento e por isso, nossa proposta é manter o serviço de orientação psicológica funcionando enquanto estivermos em maior isolamento social. Se você ficou interessado, pode buscar maiores informações nas nossas redes sociais: INSTAGRAM: @SOMOSREDEPSI FACEBOOK: SOMOS REDE PSI 39 O Somos Rede Psi, além do e-book, pode auxiliar em algumas questões pontuais sobre saúde mental, entretanto, sabe-se que nem todas as questões de saúde mental podem ser amenizadas apenas com orientação psicológica. Por isso, caso sintanecessidade, você pode também buscar psicoterapia para tratar de assuntos mais complexos e profundos que podem estar lhe incomodando. Aqui, o importante é cuidar de você. 40 Neste e-book, conversamos sobre a importância de um olhar não julgador e de aceitação como fator primordial para o manejo de nossas emoções e sua melhor compreensão. Para além disso, ressaltamos que existem diversas outras técnicas que envolvem regulação emocional em diferentes âmbitos, seja em sua manifestação no corpo (sintomas físicos), na cognição (pensamentos) e nos comportamentos. Para entender qual técnica é melhor para você e qual a melhor forma de aplicá-la, pode ser importante que entre em contato com um profissional de saúde mental, se você sentir necessidade. Todos nós possuímos sonhos, objetivos e valores aos quais almejamos para nossas vidas. Uma vida valiosa e recompensadora envolve também pensarmos em como nos aproximar de coisas valorosas. Aceitar nossas emoções faz parte disso. CONSIDERAÇÕES FINAIS 41 REFERÊNCIAS 42 Arruda, M. J. F. C. (2014). O ABC DAS EMOÇÕES BÁSICAS - Implementação e avaliação de duas sessões de um programa para a promoção de competências emocionais. Um enfoque comunitário. Dissertação de mestrado. Universidade dos Açores. Ponta Delgada, Portugal. Branch, R., & Wilson, R. (2018). Terapia Cognitivo- Comportamental para leigos (2 ed.). Alta Books Caminha, R., & Caminha, M. G. (2018). Emocionário: dicionário das emoções. Sinopsys. Centers for Disease Control and Prevention. Social distancing - Keep Your Distance to Slow the Spread. https://www.cdc.gov/coronavirus/2019- ncov/prevent-getting-sick/social-distancing.html Ekman, P. (2007). Emotions revealed: Recognizing faces and feelings to improve communication and emotional life. Owl Books. REFERÊNCIAS 43 Leahy, R. L., Tirch, D., & Napolitano, L. A. (2013). Regulação emocional em psicoterapia: Um guia para o terapeuta cognitivo-comportamental. Artmed. Leahy, R. L. (2017). Terapia do esquema emocional: Manual para o terapeuta.Artmed. Linehan, M. M. (2017). Treinamento de habilidades em DBT: Manual de terapia comportamental dialética para o terapeuta. Artmed. Ministério da Saúde. Sobre a doença- Coronavírus. https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca Organização Mundial da Saúde. Folha informativa – COVID-19 (doença causada pelo novo coronavírus). https://www.paho.org/bra/index.php? Option=com_content&view=article&id=6101:covid1 9&Itemid=875. Projeto realizado em conjunto com a disciplina de Ação Empreendedora do 7º semestre do curso de Relações Públicas da PUCRS EMOÇÕES-BOOK: UM GUIA DE COMO SE RELACIONAR COM SUAS EMOÇÕES. ANO 2020 AUTORES Camila Scomazzon Bona Isadora Silveira Ligório Laura Cardona Antunes Laura Nichele Foschiera Raíssa Telesca A. Cordeiro Rodrigo Machado Rodrigues DIAGRAMAÇÃO E DESIGN VISUAL Gabriela Antonini Marina Salaberri Carbonell ILUSTRAÇÕES Chanut is Industries Creativepriyanka Fusion Books Iconfounder Milldesk Pablo Stanley IDENTIDADE VISUAL - SOMOS REDE PSI Muriel Zanatta Contato: murielrzanatta@gmail.com M arque, diariam en te, as em oções que você sen tiu ao lon go do dia. V ocê tam bém pode n um erar de 0 a 10 de acordo com a in ten sidade da sua experiên cia em ocion al. Emoções-Book UM GUIA DE COMO SE RELACIONAR COM SUAS EMOÇÕES CAMILA SCOMAZZON BONA ISADORA SILVEIRA LIGÓRIO LAURA CARDONA ANTUNES LAURA NICHELE FOSCHIERA RAÍSSA TELESCA A . CORDEIRO RODRIGO MACHADO RODRIGUES