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Geográfico
Mítico
Metafísico
Diferentemente do sertão nordestino, mais conhecido pelo público em geral, o sertão mineiro é caracterizado pelos campos gerais, que têm
espaços férteis para pastagens e rios. As veredas são calmos caminhos de água, cercados por buritis e outras plantas. No romance de Guimarães
Rosa, há uma mistura entre a topografia real e a imaginária.
E seguimos o corgo que tira da Lagoa Suçuarana, e que recebe o do Jenipapo e a Vereda do Vitorino, e que verte no
Rio Pandeiros esse tem cachoeiras que cantam, e é d’água tão tinto, que papagaio voa por cima e gritam, sem acordo:
 É verde! É azul! É verde! É verde! E longe pedra velha remeleja, vi Santas águas, de vizinhas E era bonito, no correr
do baixo campo, as flores do capitão da sala todas vermelhas e alaranjadas, rebrilhando estremecidas, de reflexo.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. In: ROSA, João Guimarães; COUTINHO, Eduardo (Org.). Ficção completa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 2009. p. 37-8. v. 2.
Os jagunços são tratados como cavaleiros andantes, ao estilo das aventuras romanescas ou das novelas de cavalaria, e, muitas vezes comparados
com heróis, recebem funções de salvação.
Duma banda, então, o Fafafa recruzou, seus cavaleiros: que estavam muito juntos, embolados, do modo por que
um bando de cavaleiros ou cavalos dá ar de ser muito maior do que no real é. Todos cavalos ruços ou baios – cor clara
também aumenta muito a visão do tamanho deles.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. In: ROSA, João Guimarães; COUTINHO, Eduardo (Org.). Ficção completa. 2. ed. Rio de Janeiro: Nova
Aguilar, 2009. p. 63. v. 2.
Os homens do sertão são avaliados o tempo todo por Deus ou pelo diabo. Trata-se da arena de embate entre forças puras do bem e do mal.
Como não ter Deus?! Com Deus existindo, tudo dá esperança: sempre um milagre é possível, o mundo se resolve
Mas, se não tem Deus, há-de a gente perdidos no vaivém, e a vida é burra É o aberto perigo das grandes e pequenas
horas, não se podendo facilitar é todos contra os acasos Tendo Deus, é menos grave se descuidar um pouquinho, pois
no fim dá certo Mas, se não tem Deus, então, a gente não tem licença de coisa nenhuma! Porque existe dor E a vida do
homem está presa encantoada erra rumo, dá em aleijões como esses, dos meninos sem pernas e braços
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. In: ROSA, João Guimarães; COUTINHO, Eduardo (Org.). Ficção completa. 2. ed.
Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2009. p. 40-1. v. 2.
até o limite da página e depois a reconstruí numa nova ordem:
já não era a palavra formiga, e sim um signo inventado. Foi
então que pensei em grafar as palavras numa ordem outra e
que nos permitisse lê-las.
Em seguida, surgiu a ideia mais importante para a inven
ção do poema: constituir um núcleo, formado por uma série
de frases dispostas de tal modo que as letras de certas palavras
servissem para formar outras. Nasceu o núcleo do poema, a
metáfora gráfica de um formigueiro. Ele surgiu da conjugação
das seguintes frases: “A formiga trabalha na treva a terra cega
traça o mapa do ouro maldita urbe”
Construído esse núcleo, o poema nasceu dele, palavra
por palavra, sendo que cada palavra ocupava uma página
inteira e suas letras obedeciam à posição que ocupavam no
núcleo Desse modo, a forma das palavras nada tinha da escrita
comum. Não era arbitrária porque determinada pela posição
que cada letra ocupava no núcleo.
O formigueiro foi, na verdade, o primeiro livro-poema
que inventei, muito embora, ao fazê lo, não tivesse consciên
cia disso.
Chamaria de livro-poema um tipo de criação poética em
que a integração do poema no livro é de tal ordem que se
torna impossível dissociá los Nos livros-poemas posteriores,
essa integração é maior, porque as páginas são cortadas para
acentuar a expressão vocabular. O livro-poema é que me le-
vou a fazer os poemas espaciais, manuseáveis, e finalmente
o poema-enterrado, de que o leitor participa, corporalmente,
entrando no poema.
GULLAR, Ferreira. Folha de S.Paulo, São Paulo, 29 jan. 2012.
p. E10. Ilustrada.
55 UFG 2012 A que movimento literário o poeta se refere
ao dizer “Havíamos optado por trocar o discurso pela
sintaxe visual”? Explique como o autor caracteriza
esse movimento.
56 UFG 2012 Segundo Ferreira Gullar, o processo de criação
de suas palavras não foi arbitrário. Explique como surgiu
a motivação poética para a criação de O formigueiro.
57 UFG 2012 A disposição gráfica do Texto 1 remete à ar-
quitetura de um formigueiro, e, como tal, esse texto foi
elaborado a partir de um núcleo. Segundo a descrição
feita por Ferreira Gullar no Texto 2, qual é a base des-
se núcleo e como ele se constitui?
Em relação à natureza do romance Grande sertão: veredas, o sertão pode ser dividido em três planos, conforme explicação da crítica literária
Walnice Nogueira Galvão, descritos a seguir:
Texto complementar
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 15 Século XX: novas identidades literárias124
Neste capítulo, você viu...
Guimarães Rosa e a reinvenção do regionalismo
Aspectos gerais trabalhados pelo autor
y Plano metafísico.
y Embate entre as forças do bem e do mal.
y Mistério da morte e os enigmas da vida
y Perenidade da vida e de todas as coisas.
y Regionalismo e universalidade.
A linguagem roseana
y Neologismos, arcaísmos, latinismos, estrangeirismos e indianismos
y Estruturas sintáticas livres.
y Preferência às orações coordenadas, sem qualquer relação de dependência.
y Convivência entre o popular e o erudito.
y Estilo próprio, inédito e único.
y Jogo com as palavras
Relação com o leitor
y Desafio à compreensão do leitor.
y Convite ao olhar primitivo de descoberta.
y Expectativa do acaso: uma mudança sempre pode ocorrer
y Reflexão sobre o caráter fragmentário do homem
Conteúdo regional, nacional e universal
y Mistura entre a descrição histórico-geográfica real com a fantasia e
a imaginação.
y Saberes populares e cultos com a mesma força de atuação
y Transcendência e epifania: momentos de luz
y Perspectiva do autor: proximidade absoluta com a matéria narrada.
y Condensação entre realidade e ficção.
Clarice Lispector
y Literatura intensa e profunda a partir de temas aparentemente cor-
riqueiros
y Intenção de mostrar o que estava prestes a transbordar do terreno
oculto.
y Mundo caótico e tenso mesmo nos fatos mais simples do cotidiano.
y Temas que tocam nos sentimentos e instintos humanos, como desejos,
paixões etc.
Resumindo
Quer saber mais?
<https://tvcultura.com.br/videos/34735_literatura-fundamental-
42-grande-sertao-veredas-willi-bolle.html>. Acesso em: 8 fev. 2018.
y Entrevista com Clarice Lispector para a TV Cultura
Clarice pediu que a entrevista, apresentada no ano de 1977 pelo
jornalista Júlio Lerner, para a TV Cultura, fosse divulgada após a sua
morte, e assim se fez O programa foi ao ar dez meses depois de
seu falecimento Disponível em: <http://p.p4ed com/TCFIM>. Acesso
em: 8 fev. 2018.
Filmes
y A hora e vez de Augusto Matraga. Direção: Roberto Santos, 1966.
O longa-metragem é uma adaptação do conto homônimo de Gui-
marães Rosa
Livros
y MARTINS, Nilce Sant’Anna. O léxico de Guimarães Rosa São Paulo:
Edusp, 2001.
Uma vasta pesquisa reúne, em forma de dicionário, o palavrear de
Guimarães Rosa. É uma forma de conhecer um pouco mais sobre a
inventividade da linguagem desse grande autor.
Reportagens
y Professor Willi Bolle e Ederson Granetto sobre Grande sertão: veredas
Professor Willi Bolle, livre-docente da Faculdade de Filosofia e Ciên-
cias Humanas da USP, conversa com Ederson Granetto a respeito da
obra Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa Disponível em:
y Processo de alteridade e identidade a partir da diferença entre o eu
e o outro.
y Questão social presente de maneira intrínseca à questão existencial
y As posições sociais se projetam em questões psicológicas e existenciais.
João Cabral de Melo Neto
y Pertencimento à geração de 1945.
y Reconhecimento por seu rigor estético.
y Poemas construídos de forma inédita a partir de padrões formais.
y Objetividadecomo traço principal.
y Recusa de sentimentalismos.
y Poesia como objeto de trabalho construído, planejado e objetivado.
y Preocupação com a realidade social, especialmente a do Nordeste
brasileiro.
Poesia concreta
y Abolição do verso.
y Disposição das palavras na página a contribuir para a significação
y Visual e sonoro juntos na construção do sentido.
y Rejeição do lirismo
y Possibilidade de múltiplas leituras.
y Poema sem ser fruto de mera inspiração.
Neoconcretismo
y Leitor com importância fundamental na construção do poema, que se
cumpre na leitura.
y Interlocutores retirados da passividade contemplativa e convocados
a interagir com as obras.
y Destaque no movimento ao poeta Ferreira Gullar e aos artistas plásticos
Lygia Clark e Hélio Oiticica.
Poesia-práxis
y Poesia transformada pela manipulação do leitor.
y Retomada do verso.
y Valorização do sentido das palavras e suas relações em nível sintático,
semântico e pragmático.
Poesia-processo
y Concretude da linguagem.
y Valorização do visual em detrimento do verbal
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1 Enem 2014 O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim:
esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois
desinquieta O que ela quer da gente é coragem
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro:
Nova Fronteira, 1986.
No romance Grande sertão: veredas, o protagonista
Riobaldo narra sua trajetória de jagunço A leitura do
trecho permite identicar que o desabafo de Riobaldo
se aproxima de um(a)
A diário, por trazer lembranças pessoais.
b fábula, por apresentar uma lição de moral.
c notícia, por informar sobre um acontecimento
d aforismo, por expor uma máxima em poucas palavras.
E crônica, por tratar de fatos do cotidiano.
2 PUC-Campinas 2013 Na ficção de Guimarães Rosa, cuja
primeira virtude é chamar o leitor para uma espécie de
gramática de uma nova língua, o cenário privilegiado é
o de um amplo sertão brasileiro, entendido ainda como
espaço simbólico E o autor teve olhos também para o
nascimento de Brasília, num conto de Primeiras estó-
rias. Entre o tempo arcaico e o tempo do futuro, entre “a
roça e o elevador”, para lembrar uma imagem de Carlos
Drummond de Andrade, Rosa escolheu a ambos: lingua-
gem de novíssima arquitetura, temas que remontam ao
regionalismo primitivo, povoado de coronéis e jagunços.
Valerim, Aristides. Inédito.
As disputas violentas entre bandos de jagunços for
necem ao romance Grande sertão: veredas uma linha
narrativa básica, pontuada pela presença intensa de
um amor culposo, de sofridas indagações acerca
do que é o bem e o que é o mal. Por conta disso,
nesse romance de Guimarães Rosa as tonalidades da
épica, da lírica e da reexão metafísica ou moral
A excluem-se reciprocamente, razão pela qual o ro-
mance apresenta-se dividido em três partes.
b integram-se de modo admirável, costuradas
pela linguagem nova e surpreendente criada
pelo artista.
c combatem-se a maior parte do tempo, saindo vi-
torioso o sentimento cristão que a tudo consegue
harmonizar
d alternam-se um tanto arbitrariamente, constituindo
isso a única fragilidade do romance.
E dão ao conjunto um aspecto nebuloso, entre farsa
e tragédia, que se oferece ao leitor como enigma
insolúvel.
3 Ufal 2013 Grande sertão: veredas, do escritor minei-
ro João Guimarães Rosa, é considerado um romance
que renova a narrativa brasileira, em especial, a nar
rativa de caráter regionalista que tinha como espaço
de suas ações o sertão. Leia atentamente o trecho
transcrito. Dadas, em seguida, as afirmações acerca
desse romance.
O senhor... Mire veja: o mais importante e bonito, do
mundo, é isto: que as pessoas não estão sempre iguais,
ainda não foram terminadas mas que elas vão sempre
mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que
a vida me ensinou. Isso que me alegra, montão.
ROSA, João Guimarães. Grande sertão: veredas. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1986. p 15
I. Em Grande sertão: veredas, a narrativa se pauta
na transformação, tudo está em contínua mudan-
ça, as personagens, a paisagem, as relações
pessoais e profissionais
II. Grande sertão: veredas é marcado, principalmen-
te, pela linguagem bastante inovadora, no que
concerne à sintaxe e à seleção vocabular, com
muitos arcaísmos e neologismos.
III. O romance de Guimarães Rosa tem como princi-
pal tema a seca, que assola o sertão, provocando
mudanças na paisagem e muitos sofrimentos para
as personagens centrais, os camponeses Riobal-
do e Diadorim
IV Este é o único romance da obra de Guimarães
Rosa, autor que escreveu principalmente contos,
reunidos, entre outros, nos livros Primeiras estó-
rias e Tutameia: terceiras estórias.
preservando o texto original e, assim, dando vida às personagens
do auto de Natal pernambucano. Lançado em 2010. Disponível em:
<https://youtu be/clKnAG2Ygyw> Acesso em: 8 fev 2018.
Site
y Site oficial do poeta Augusto de Campos
Na página, é possível conhecer a vida e obra do escritor, além de
interagir com seus poemas. Disponível em: <http://www.augustode
campos.com.br/home.htm>. Acesso em: 8 fev. 2018.
y A hora da estrela. Direção: Suzana Amaral, 1985.
O filme baseia-se no último livro lançado por Clarice Lispector em vida,
em 1977. Oito anos depois, sua história é levada ao cinema e se consa-
gra ao ser premiada nos importantes festivais de Berlim e de Brasília
Disponível em: <http://p.p4ed.com/TCFIQ>. Acesso em: 8 fev. 2018.
y Morte e vida Severina Produção: TV Escola/OZI/FUNDAJ Fundação
Joaquim Nabuco, 2009.
A adaptação para os quadrinhos da obra-prima de João Cabral
de Melo Neto, pelo cartunista Miguel Falcão, é retratada em 3D,
Exercícios complementares
LÍNGUA PORTUGUESA Capítulo 15 Século XX: novas identidades literárias126

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