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Pessoa foi responsável pelo espírito derrotista, em que Portugal estava mergulhado no final do século XIX. d Os heterônimos de Pessoa, tais como Álvaro de Campos e Ricardo Reis, podem ser vistos como pseu- dônimos, utilizados pelo poeta para burlar a censura. E A criação de heterônimos é uma prática comum aos poetas colaboradores da revista Orpheu. Instrução: Marque V (verdadeiro) ou F (falso). 8 UFPE 2013 Fernando Pessoa, considerado o maior poeta do Modernismo português, produziu uma obra literária esteticamente variada. No Brasil, na mesma década em que morre Pessoa, Carlos Drummond de Andrade avulta como uma das principais expressões literárias nacionais. A produção de ambos apresen- ta um forte questionamento existencial do homem diante do mundo, como se percebe nos dois textos a seguir. Leia-os e analise as afirmativas apresentadas. Texto I Não sei quem sou, que alma tenho. Não sei quem sou, que alma tenho. Quando falo com sinceridade não sei com que since- ridade falo. Sou variamente outro do que um eu que não sei se existe (se é esses outros). Sinto crenças que não tenho. Enlevam-me ânsias que repudio. A minha perpétua atenção sobre mim perpetua- mente me aponta traições de alma a um carácter que talvez eu não tenha, nem ela julga que eu tenho. Sinto-me múltiplo. Sou como um quarto com inúme- ros espelhos fantásticos que torcem para reflexões falsas uma única anterior realidade que não está em nenhuma e está em todas. Como o panteísta se sente árvore [?] e até a flor, eu sinto-me vários seres. Sinto-me viver vidas alheias, em mim, incompletamente, como se o meu ser participasse de todos os homens, incompletamente de cada [?], por uma suma de não-eus sintetizados num eu postiço. PESSOA, Fernando. Texto II Verbo Ser Que vai ser quando crescer? Vivem perguntando em redor. Que é ser? É ter um corpo, um jeito, um nome? Tenho os três. E sou? Tenho de mudar quando crescer? Usar outro nome, corpo e jeito? Ou a gente só principia a ser quando cresce? É terrível, ser? Dói? É bom? É triste? Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R. Que vou ser quando crescer? Sou obrigado a? Posso escolher? Não dá para entender. Não vou ser. Vou crescer assim mesmo. Sem ser Esquecer. ANDRADE, Carlos Drummond de. J 0-0 O texto de Fernando Pessoa reflete sobre as várias formas que um “eu” pode assumir, ge- rando diversas identidades. Com ele, podemos compreender melhor o projeto poético do autor português. J 1-1 No poema de Drummond, o sujeito poético questiona a própria identidade, através de uma reflexão sobre o verbo “ser”, anunciado já no tí- tulo. Os versos “Ser; pronunciado tão depressa, e cabe tantas coisas? Repito: Ser, Ser, Ser. Er. R.” demonstram a impossibilidade de se definir a própria identidade de forma absoluta. J 2-2 Em Pessoa, o sujeito do discurso, após vários questionamentos, chega à conclusão de que os “não-eus” são criações imaginárias de um “eu” verdadeiro. Contrariamente, o poema de Drummond nos faz ver que o “eu” se multiplica em diversos “eus”. J 3-3 Tanto Pessoa quanto Drummond criaram heterô- nimos, cujas produções poéticas tinham temas e estilos bem distintos. Os dois textos em questão são, respectivamente, uma espécie de explica- ção dos vários heterônimos por eles inventados. J 4-4 Os dois poetas refletiram, cada qual a seu modo, sobre a impossibilidade de o homem se definir, com palavras, de forma única e absoluta. A linguagem não consegue ter o alcance do sujeito em sua complexidade. 9 UFRGS 2017 Leia o poema abaixo, de Fernando Pessoa. Pobre velha música! Pobre velha música! Não sei porque agrado, Enche-se de lágrimas Meu olhar parado. Recordo outro ouvir-te. Não sei se te ouvi Nessa minha infância Que me lembra em ti. Com que ânsia tão raiva Quero aquele outrora! E eu era feliz? Não sei: Fui-o outrora agora. Considere as seguintes armações sobre o poema. I. O sujeito-lírico elege a “pobre velha música” para expressar o desejo de recuperar a infância. II. O verso final indica que a felicidade passada pode ser uma memória vivida no presente. III. A musicalidade do poema, de métrica tradicional, traduz uma luta contra a poesia moderna, através da nostalgia presente em outros heterônimos. Quais estão corretas? A Apenas I. b Apenas III. Apenas I e II. d Apenas II e III. E I, II e III. F R E N T E 2 349 Instrução: Marque V (verdadeiro) ou F (falso). 10 UFPE 2013 Em O ano da morte de Ricardo Reis, Saramago retoma trechos de poemas de Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, indo mais além do próprio Fernando Pessoa. A partir da leitura dos fragmentos do romance de Saramago, analise as proposições a seguir. Fragmento I Aos deuses peço só que me concedam o nada lhes pedir [...]. Fragmento II [...] este Tejo que não corre pela minha aldeia, o Tejo que corre pela minha aldeia chama-se Douro, por isso, por não ter o mesmo nome, é que o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia. Fragmento III [...] não esquecer que todas as cartas de amor são ridículas [...]. Fragmento IV [...] eu tenho sido cómico às criadas de hotel. Fragmento V [...] sempre valeu a pena, seja a alma grande ou pe- quena, como mais ou menos disse o outro [...]. Saramago, José. O ano da morte de Ricardo Reis. J 0-0 No primeiro fragmento, Saramago resgata um poema do heterônimo de Fernando Pessoa, protagonista do romance em foco, no qual há uma boa dosagem de fantástico, pois é o relato dos encontros de Fernando Pessoa, já morto, com Ricardo Reis, único dos heterôni- mos que não tem a biografia concluída por seu criador. J 1-1 “Todas as cartas de amor são ridículas” é um verso de Álvaro de Campos; sendo ele um poe- ta clássico, epicurista, o sentimento amoroso sempre vai lhe parecer inoportuno e ridículo. J 2-2 No fragmento II, José Saramago retoma, atra- vés de um jogo de palavras, um poema de Alberto Caeiro, o qual exalta o rio de sua al- deia, reconhecendo que o Rio Tejo é bonito, mas não mais do que aquele que corre pela sua aldeia. J 3-3 No fragmento IV, as irreverências do heterôni- mo Álvaro de Campos, engenheiro nauta que cultua a era da mecânica, refletem também o tédio profundo resultante da inadaptação à sociedade contemporânea. J 4-4 O quinto fragmento resgata o poema “Mar Português”. Nele, Pessoa questiona se valeu a pena o sacrifício da nação portuguesa, para conquistar os mares. 11 Unifesp 2015 Leia o poema de Ricardo Reis, heterôni- mo de Fernando Pessoa. Coroai-me de rosas, Coroai-me em verdade De rosas – Rosas que se apagam Em fronte a apagar-se Tão cedo! Coroai-me de rosas E de folhas breves. E basta. As múltiplas faces de Fernando Pessoa, 1995. O tema tratado no poema é a fugacidade do tempo, remetendo à ideia de brevi- dade da vida. b busca pela simplicidade da vida, representada pela natureza. c rapidez com que as relações verdadeiras come- çam e terminam. d necessidade de se buscar a verdadeira razão para uma vida plena. brevidade com que o verdadeiro amor perpassa a vida das pessoas. 12 Fuvest Entre os seguintes versos de Alberto Caeiro, aqueles que, tomados em si mesmos, expressam ponto de vista frontalmente contrário à orientação dominante que se manifesta em A rosa do povo, de Carlos Drummond de Andrade, são os que estão em: “Se o que escrevo tem valor, não sou eu que o te- nho:/O valor está ali, nos meus versos.” b “Eu nunca daria um passo para alterar/Aquilo a que chamam a injustiça do mundo.” c “Como o campo é grande e o amor pequeno!/Olho, e esqueço, como o mundo enterra e as árvores se despem.” d “Quando a erva crescer em cima da minha sepultu- ra,/seja esse o sinal para me esquecerem de todo.” “Quem me dera que eu fosse o pó da estrada/E que os pés dos pobres me estivessem pisando...” 13 Unesp 2017 Leia o poema “Sonetilho do falso Fernando Pessoa”, de Carlos Drummond de Andrade (1902-1987), que integra o livro Claro enigma, publicado em 1951. Onde nasci, morri. Onde morri, existo. E das peles que visto muitas há que não vi. Sem mim como semti posso durar. Desisto de tudo quanto é misto e que odiei ou senti. LÍNGU PORTUGUS Capítulo 11 Modernismo em Portugal: o começo350 Nem Fausto1 nem Mefisto2, à deusa que se ri deste nosso oaristo3 , eis-me a dizer: assisto além, nenhum, aqui, mas não sou eu, nem isto. (Claro enigma, 2012.) 1 Fausto: personagem alemão que fez um pacto com o diabo. 2 Mesto: personagem alemão considerado a personi- cação do diabo. 3 oaristo: conversa carinhosa e familiar. Carlos Drummond de Andrade intitulou seu poema de “Sonetilho do falso Fernando Pessoa”. Por que razão o poeta refere-se a seu poema como “sonetilho”? Transcreva um verso em que a referência aos hete- rônimos do escritor português Fernando Pessoa se mostra evidente. Justique sua resposta. 14 PUC-SP Leia o poema a seguir, de Alberto Caeiro, e indique a alternativa que estabelece conexão entre o poeta e o texto. Eu não tenho filosofia: tenho sentidos... Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é, Mas porque a amo, e amo-a por isso, Porque quem ama nunca sabe o que ama Nem sabe por que ama, nem o que é amar... Amar é a eterna inocência, E a única inocência não pensar... A Médico e estudioso da cultura clássica, desenvolve em seus poemas temas mitológicos, em composi- ções denominadas odes. b Poeta bucólico, vive em contato direto com a natu- reza; daí sua lógica ser a mesma da ordem natural. Como engenheiro do século XX e poeta futurista, os temas de sua obra estão voltados para as fábri- cas, a energia elétrica, as máquinas e a velocidade. d Apresenta um conceito direto das coisas, um ob- jetivismo absoluto, apesar de a sensação não se manifestar em seus poemas. E Cultor do paganismo, foi mestre apenas de Fernando Pessoa e manteve-se distanciado dos demais heterônimos. 15 Unicamp O poema a seguir pertence a O Guardador de Rebanhos, de Alberto Caeiro: Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver no Universo... Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer Porque eu sou do tamanho do que vejo E não do tamanho da minha altura... Nas cidades a vida é mais pequena Que aqui na minha casa no cimo deste outeiro. Na cidade as grandes casas fecham a vista à chave, Escondem o horizonte, empurram o nosso olhar para longe de todo o céu, Tornam-nos pequenos porque nos tiram o que os nos- sos olhos nos podem dar, E tornam-nos pobres porque a nossa única riqueza é ver. PESSOA, Fernando. Obra Poética. Rio de Janeiro: Editora Nova Aguilar, 1983, p. 142. a) Explique a oposição estabelecida entre a aldeia e a cidade. ) De que maneira o uso do verso livre reforça essa oposição? Texto para a questão 16. Mar Português Ó mar salgado, quanto do teu sal São lágrimas de Portugal! Por te cruzarmos, quantas mães choraram, Quantos filhos em vão rezaram! Quantas noivas ficaram por casar Para que fosses nosso, ó mar! Valeu a pena? Tudo vale a pena Se a alma não é pequena. Quem quer passar além do Bojador Tem que passar além da dor. Deus ao mar o perigo e o abismo deu, Mas nele é que espelhou o céu. Fernando Pessoa 16 Mackenzie 2017 Assinale a alternativa INORRETA so- bre Fernando Pessoa e sua obra. A Dos três heterônimos, Álvaro de Campos é o mais afinado com a tendência modernista, particular- mente com o Futurismo. (William Roberto Cereja e Thereza Cochar Magalhães) b [...] já iniciou comungando com a estética do mo- vimento: desde o princípio buscou a perfeição formal. Tinha a preocupação de escrever versos alexandrinos e concluir com “chave de ouro”. (José de Nicola) O poeta finge-se outros para sentir, descrever ou interpretar o mundo de diversas maneiras, que se revelam no plano da expressão e no plano do con- teúdo. (Mariella Augusta Pereira) d As características predominantes de sua obra são o nacionalismo místico, presente principalmente em Mensagem, as sondagens sobre o ser, a busca incessante pelo (auto)conhecimento e a tentativa de compreensão sobre o fazer poético. (Rogério de Almeida) E [...] em sua obra, a heteronímia é apresentada de uma maneira tão particular, de tal forma unida à dita ortônima, que hoje é impossível falar de uma sem a outra. (Lisa Carvalho Vasconcellos) F R E N T E 2 351