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93 Texto de referência Explorando a Geometria da orientação e do deslocamento5 Cristiano A. Muniz Sabemos que, infelizmente, muitos de nós tivemos poucas oportunidades de uma apren- dizagem de qualidade no campo da Geometria, de forma que o professor deve, inicial- mente, perguntar a si mesmo: tenho buscado no dia-a-dia explorar com meus alunos os conceitos geométricos? Não tenho evitado tratar deste assunto com eles, ficando quase todo o tempo tratando apenas dos números e das suas operações? Tenho insegurança quanto aos conceitos geométricos e receio propor trabalhos implicando construções geométricas? O meu ensino de Geometria tem sido quase que exclusivamente uma memorização de terminologia das figuras e entes geométricos? Busco ver a Geometria fora das formas e figuras? Discutir a aprendizagem e o ensino da Geometria impõe uma série de desafios, em especial porque a nossa formação geométrica, ao longo da nossa escolaridade, deixou muito a desejar, fazendo com que muitos de nós tenhamos uma representação negativa da Geometria. Ao longo dos nossos estudos, muitos de nós acabamos por desenvol- ver uma representação desta importante área de conhecimento como sendo de difícil aprendizagem, com conceitos excessivamente complexos, definições desarticuladas de contextos significativos e representações formais distantes das construções dos alunos. Enfim, para muitos de nós, professores, formados nas últimas décadas, a Geometria aparece como um permanente desafio e motivo de perda de sono. Mas será que tem que ser assim? Não seria a Geometria um campo de conheci- mento altamente prático, ligado à nossa vida cotidiana e presente na natureza? Que tal assistirmos o desenho animado do Walt Disney, no qual o Pato Donald visita o mundo da Matemática (“Pato Donald no País da Matemágica”)? Nele vemos de que forma a Matemática aparece no nosso mundo por meio da sua presença obrigatória na natureza e na produção da cultura humana. Nesta perspectiva, o presente pretende resignificar as concepções acerca do co- nhecimento geométrico, procurando novas concepções dos conceitos, o processo de sua aprendizagem e o seu valor social e de desenvolvimento humano. Conseqüente- mente, é importante que o professor repense a sua práxis pedagógica acerca do papel da Geometria no currículo das séries iniciais. Infelizmente, são as visões erradas, frutos de experiências escolares negativas, que muitos dos professores trazem para a sala de aula. É necessário buscar uma nova forma de conceber o “fazer Geometria” no espaço escolar, sendo este um dos grandes objetivos da Educação Matemática hoje. 5. Adaptação do texto Espaço e Forma do Professor Cristiano Muniz –FE/UnB.2004. TP6_mat_20-jan-2008.indd 93 1/8/2008 16:33:43 94 Matemática nas migrações e em fenômenos cotidianos A atual desvalorização do ensino da Matemática na Escola Básica no Brasil (Pa- vanello, 1989) está bastante associada à formação geométrica do professor. Assim, não cabe a ninguém culpar o professor pelos problemas existentes, mas sim investir na formação inicial e continuada deste profissional, procurando resgatar o significado cultural da Geometria, bem como a sua importância no desenvolvimento humano, na produção da cultura e na constituição das ciências. A História da Matemática associada à própria História da Geometria: o sentido etimológico de “geo-metria” A origem da Matemática nos leva ao encontro da construção filogenética do conhecimento da Geometria. Desde os primórdios da civilização humana, quando o homem passou à condição de sedentário – fixando sua residência, iniciando sua produção agrícola, con- finando animais e produzindo instrumentos e utensílios, inicia-se a produção de novas ferramentas mentais e de representação utilizadas para agir sobre a natureza e representá- la, no sentido tanto da sobrevivência humana quanto da sua transcendência. Segundo a História da Matemática, podemos constatar como o homem começa a utilizar bem cedo figuras geométricas para representar os astros, o raio, os animais, as plantas e os seus deuses. Veja, professor, que até hoje ainda observamos, primordialmente, as regularidades geométricas nas tecelagens de cestos, na construção de peças de argila, etc. Assim, a Geometria aparece inicialmente atrelada às necessidades de resolução de problemas para demarcar a terra, prever o estoque de água e construir instrumentos de trabalho. Em suma, os conceitos geométricos surgem como ferramentas para que o homem aja racionalmente no processo de transformação do seu mundo. Do grego, geo-metria, que significa terra-medida – a medida da terra – pois, em situações de delineamento da terra tanto pelos egípcios como pelos mesopotâmeos, o homem inicia a construção do conhecimento nesta área. Bem mais tarde, por volta do século V a.C., os gregos buscaram estudar esses conceitos, transformando-os em objetos mais abstratos, em ferramenta de construção do conhecimento lógico-formal. A história conta que Pitágoras esteve viajando na Ásia, investigando a utilização de ferramentas geométricas pelos egípcios. O conhecimento produzido pela abstração desta Geometria mais pragmática forneceu grande contribuição para o desenvolvimento da Matemática. Acontece que no currículo escolar observa-se uma forte priorização da Geome- tria formal, com significativo abandono da Geometria como ferramenta de resolução de problemas da vida concreta. Na escola, com a excessiva valorização dos aspectos formais da Geometria, constata-se um distanciamento entre o seu ensino e as situações de vida que dão origem e sentido aos conceitos e procedimentos geométricos. Portanto, na formação do professor, é necessário resgatar uma Geometria mais significativa, im- pregnada de motivação sócio-cultural. Isto implica, por parte dos professores, durante seu processo formativo, a descoberta de outros aspectos epistemológicos desta área de conhecimento, para o desenvolvimento de uma postura diferente em relação a ela. Assim, será possível que estes profissionais, a partir de um novo paradigma, concebam novas e diferentes formas de mediação pedagógica da Geometria na sala de aula, nas séries iniciais do Ensino Fundamental. TP6_mat_20-jan-2008.indd 94 1/8/2008 16:33:43 95 Na verdade, há uma grande diferença entre aprender Álgebra ou Análise e apren- der Geometria. Teóricos da epistemologia das ciências matemáticas, tal como Poincaré (1968), francês do início do século XX, apoiados em Kant (apud Piaget, 1947), já diziam que enquanto a aprendizagem da Álgebra se sustenta em um “olhar para dentro”, a apren- dizagem de conceitos geométricos apóia-se em um “olhar para fora”. É importante refletir sobre tal afirmação e suas implicações de ordem tanto psicológica quanto didática. Enquanto a fonte da produção dos conhecimentos algébricos sustenta-se na lógica, na reflexão, na abstração de conceitos formais, ao contrário, a fonte primária e primeira da construção do conhecimento geométrico pelo homem é a observação do seu meio ambiente e a ação efetiva na conservação e na transformação da natureza na busca da própria preservação, proliferação, sobrevivência, desenvolvimento e transcendência da vida humana. Observar a natureza, os produtos culturais e agir sobre eles, produzi-los, repro- duzi-los, transformá-los e representá-los mentalmente, criar projetos mentais e buscar concretizá-los deve, nesta perspectiva teórica, ser a fonte geradora de saber geométrico, que insere grande importância para a didática de sala de aula: aprende-se Geometria pela observação e pela ação efetiva sobre o mundo real. Ninguém pode construir con- ceitos geométricos pela simples contemplação inerte do mundo. É sendo agente ativo sobre o mundo que podemos construir, nas séries iniciais, os conceitos fundamentais da Geometria. Assim, é necessário discutir como trazer para a práxis pedagógica esta perspectiva que concebe que o aluno deva agir sobre o seu mundo para aprender Geometria. Como conceber uma proposta pedagógicada ação, da representação e da reflexão, permitindo que os conceitos geométricos sejam produtos mentais produzidos pelos próprios alunos, em sua efetiva ação sobre o seu mundo? O debate acerca da aprendizagem da Geometria ainda apresenta um grande desafio tanto para os professores quanto para os pesquisado- res, e, por isso, temos o ensino da Geometria como um campo fértil de pesquisa e de debate, impulsionando pesquisadores da psicologia cognitiva e educadores matemáticos à investigação científica deste campo. Níveis da aprendizagem geométrica: da percepção (nível sensorial), da representação mental (nível simbólico) e da concepção (nível conceitual) e a relação dialógica entre eles A conceitualização geométrica se realiza em três níveis: da percepção (nível sensorial), da representação mental (nível simbólico) e da concepção (nível conceitual). Seguindo a lógica do “olhar o mundo e agir sobre ele” como fonte primária da cons- trução do conhecimento geométrico, vamos discutir sobre o desenvolvimento de conceitos geométricos, o que é vital para o conhecimento do professor. O conceito geométrico aparece em um primeiro estágio atrelado às experiências físicas e sensoriais (tatos, movimentos, olhares) realizadas no mundo físico que nos cerca. Este primeiro estágio é concebido como o nível perceptivo, quando os conceitos geo- métricos surgem e são dependentes dos sistemas sensoriais. Desde bem cedo, a criança, agindo sobre contextos reais e próximos a ela, realiza experiências, levanta hipóteses, TP6_mat_20-jan-2008.indd 95 1/8/2008 16:33:43 96 Matemática nas migrações e em fenômenos cotidianos planeja ações, avalia resultados e revê posições consideradas importantes na construção dos primeiros conceitos geométricos. O ato de se “dar à luz”, no momento do nascimento da criança, tem um forte signi- ficado geométrico, pois é a real possibilidade de o jovem bebê receber e tratar de novas informações do seu meio, tais como formas, cores, profundidade, proporções. Entretanto, é errado pensar que o conceito em nível sensorial somente está presente no início da in- fância, pois mesmo no adulto, professor ou não, em situações espaciais, o sistema nervoso central apela inicialmente às estruturas sensoriais. É assim que ao vermos: • uma pessoa que vem de longe, ao olharmos, em um primeiro momento, a perce- bemos como pequena em relação ao nosso tamanho; • uma linha de trem, em uma grande reta, temos a impressão que ela se encontra em um ponto bem distante. Tais noções, mesmo sendo frutos da percepção e podendo nos levar a falsos julgamentos acerca da realidade, não são e não podem ser negadas no processo da construção do conhecimento geométrico. Mesmo nas ciências, vemos como tais con- ceitos são fundamentais, quando dizemos que “duas retas paralelas se encontram no infinito”, quando da utilização do ponto de fuga para desenhos em perspectiva. Com isso, queremos dizer (e que fique bem claro) que o conceito geométrico, em nível perceptivo, tem fundamental importância no processo da construção do conhecimento matemático e, por conseqüência, deve ser valorizado e respeitado no processo da aprendizagem escolar da Geometria mediada pelo educador. Lembre-se de que, ao atravessarmos uma avenida movimentada, não fazemos cálculos, nem traçamos retas paralelas e/ou perpendiculares, e nem utilizamos instru- mentos de medidas antes de atravessá-la. No dia-a-dia, para estabelecer estratégias e tomar decisões, a intuição tem papel preponderante, pois, nas ações geométricas corriqueiras, apelamos muito mais aos nossos conceitos perceptivos que aos formais. Assim, a escola deve partir desses conceitos, valorizá-los, colocá-los em xeque, sempre com um ensino sustentado nas experiências sobre o espaço. Associadas às experiências temos as representações mentais: o que o sujeito constrói mentalmente a partir das ações bem ou mal sucedidas. Tais representações têm a ver com a forma como o sujeito concebe mentalmente as suas experiências; com o modo como se dá a interiorização do espaço nas estruturas mentais. Isso nos leva aos objetos geométricos construídos mentalmente que servem como instrumento para as representações mentais do espaço circundante. As formas geométricas são exemplos disso; aparecem como forma de representação do mundo e dos objetos a ele pertencentes. Uma vez concebidos no sistema nervoso central, os objetos geo- métricos são por ele utilizados para assimilação e representação do espaço. Círculo, quadrado, retângulo, esferas e pirâmides passam a servir para um novo olhar sobre a natureza. Utilizamo-nos das formas geométricas para representar o mundo à nossa volta e, por meio de sua representação, expressar nossos pensamentos e sentimentos. Essas representações servem, também, a partir de certo nível de desenvolvimento, como instrumento de nosso pensamento matemático. O processo presente, via desenho, nas representações das crianças, evolui da garatuja (traços circulares, disformes, sem significados fixos, mesmo para aquele que os produz) às figuras esquemáticas, passando pela mandala – célula-mãe da repre- sentação (sol, corpo humano, cabeça, olhos, membros, etc.). TP6_mat_20-jan-2008.indd 96 1/8/2008 16:33:44 97 A escola deve levar em conta o desenvolvimento infantil, uma vez que sendo a representação via desenho uma das dimensões da Geometria, a competência da criança em mobilizar tal representação depende, dentre outros fatores, do desenvolvimento da sua representação por meio de desenhos. Terminada a experiência, o que fica de mais significativo em termos de aprendizagem são os conceitos construídos na experiência – aquilo que a experiência permite ao aluno conceber em termos geométricos. A ação internalizada passa a fazer parte da estrutura conceitual, constituindo-se nas ferramentas utilizadas pelo sujeito para resolver problemas. Veja, professor: o que o sujeito concebe das experiências é parte essencial da aprendiza- gem. Portanto, a aprendizagem geométrica é alicerçada por esta tríade construída a partir da ação do sujeito no seu mundo: o que percebe, o que representa e o que concebe da experiência. A pedagogia deve levar em conta a tríade na ação educativa. Os conceitos geométricos e o papel da ação sobre o meio A nossa discussão acaba por canalizar toda a argumentação acerca da aprendizagem e do ensino da Geometria para a importância da ação efetiva do sujeito para que haja a construção de conceitos: é na ação efetiva, refletindo e representando-a, que construímos os nossos conceitos geométricos. Isso traz duas conseqüências importantes: uma de ordem psicológica e outra de ordem pedagógica, ambas vitais para a formação do professor. A dimensão psicológica deste aspecto da ação na construção de conceito geomé- trico vai ao encontro da perspectiva teórica de Vygotsky (1987) sobre o papel da ação do sujeito no desenvolvimento conceitual (processo da conceitualização), assim como reforça a idéia do conceito como ferramenta para a ação transformadora do meio pelo sujeito. Outra forma de expor essa idéia seria dizer que, em um primeiro momento, a ação sobre o meio permite ao sujeito a construção de conceitos, e, em um momento posterior, o conceito construído será ferramenta cognitiva essencial para futuras intervenções do sujeito TP6_mat_20-jan-2008.indd 97 1/8/2008 16:33:44 98 Matemática nas migrações e em fenômenos cotidianos em seu meio. Entre esses dois momentos, segundo o referido teórico, existe um complexo processo de estruturação mental, via funções superiores do sistema nervoso, que constitui o processo de conceitualização. Esse conhecimento é importante para o professor, uma vez que ele deve ter em mente que não é na ação imediata, nem em curto período de tempo e tampouco por meio de atividades restritas ao contexto didático em sala de aula ou via livro didático que a criança constrói seus conceitos geométricos. Podemos dizer, ainda com base em Vygotsky, que não é meramente memorizando terminologiasque se desenvolverá o processo de conceitualização geométrica. A dimensão pedagógica desta discussão nos leva à necessária constituição de um currículo sustentado na ação, reflexão e representação multimediatizada. Não é, por- tanto, fazendo com que o aluno fique sentado na carteira, permanecendo entre quatro paredes e lendo o livro didático que o educador participará eficazmente do processo de conceitualização geométrica. Ao contrário, um contexto que favoreça tal processo deve privilegiar, dentre outros, aspectos como: • extrapolar o espaço da sala de aula; • resgatar o corpo como o elemento vital na orientação e no deslocamento espa- cial; • delimitar, demarcar, comparar, medir e representar, via desenho, diversos espaços de significado sócio-cultural para o aluno (moradia, esporte, escola, etc.); • desmontar, projetar e construir embalagens; • trabalhar com jogos tipo quebra-cabeças, explorando a noção de superfície e sua conservação; • explorar as noções de espaço presentes nos esportes; • desenvolver jogos por meio dos quais as noções de espaço sejam centrais, tais como finca, bolinha de gude, queimada, pipa (inclusive a confecção delas); • trabalhar com croquis, plantas, mapas; • valorizar o papel do desenho no processo de representação de espaços. Essas são apenas algumas idéias de conseqüências pedagógicas da valorização da ação efetiva do aluno sobre seu espaço na construção de conceitos geométricos. Mais do que “reproduzir” tais idéias, cabe ao professor observar os interesses e as situações que envolvem o espaço e a sua representação para, então, propor atividades mais significativas para o aluno. Concepção ampliada da Geometria e do seu ensino: mais amplo que a aprendizagem de formas geométricas Na década de 80 do século passado, as pesquisas coordenadas pela Professora Nilza Bertoni, no Departamento de Matemática da Universidade de Brasília (Bertoni, 1987), já apontavam para a necessidade de uma revisão das concepções da Geometria na Escola Básica. Bertoni e sua equipe de pesquisadores levantavam a necessidade da ampliação das categorias do conhecimento geométrico, revelando que uma Geometria restrita às formas geométricas é insuficiente diante da amplitude do conhecimento que a Geometria suscita. Naquela época, os relatórios de pesquisas indicavam a forte presença de uma Geome- tria Euclidiana no currículo, na forma de teoria lógico-dedutiva. A partir da consideração TP6_mat_20-jan-2008.indd 98 1/8/2008 16:33:44 99 das necessidades do indivíduo e do seu contexto sócio-cultural contemporâneo, o referido grupo de pesquisa propôs três categorias para o estudo da Geometria no currículo, de forma a ampliar a visão desta, permitindo assim tratar de conceitos geométricos até então desconsiderados pela escola. A primeira é a Geometria das Formas e das Propriedades de Construção, onde seu principal objetivo é o conhecimento das formas presentes no mundo real: como elas são realmente, como nós as vemos e como nós as representamos. Esta categoria engloba tópicos como exploração do espaço, perspectiva, sombra, ângulo de visão, etc. A segunda categoria é a da Geometria das Medidas e Proporções, que engloba, entre outros aspectos, tópicos como decomposição e equivalência de figuras, comprimentos, áreas e volumes, semelhanças, escalas e mapa. A terceira categoria foi denominada como Geometria da Orientação. Ela visa suprir as necessidades cada vez mais crescentes do homem do mundo atual, tais como a de saber se orientar em cidades, estradas, regiões, países; e a de saber decodificar mapas, etc. Ela abrange ainda tópicos relacionados à Geografia: o conhecimento dos movimentos dos astros e sua incorporação ao cotidiano e ao calendário anual.” (Bertoni, 1987, p. 1-2). Fomos buscar as propostas desta pesquisa por considerar que elas se mostram cada vez mais vigorosas e atuais. Levar em conta tais categorias implica uma abertura do currículo de Geometria em uma perspectiva mais coerente com os desafios do mundo presente e futuro. Entretanto, requer dos professores em formação inicial e continuada a descoberta de novos aspectos da Geometria até então ausente no currículo. Neste texto, vamos priorizar as atividades relacionadas à Geometria da Orientação e do deslocamento, propondo algumas atividades que devem ter múltiplas funções – ati- vidade de formação, exercícios, atividade de ressignificação do conhecimento, fomento para reflexão epistemológica e metodológica, atividades em sala de aula, propostas a se- rem executadas junto aos alunos, etc. Enfim, como elemento transformador do currículo vigente, como promotor de novas experiências na práxis pedagógica a serem discutidas no corpo docente da escola, extrapolando o espaço da formação. Geometria da orientação e do deslocamento: o próprio corpo como referência Quantos de nós sentimos dificuldade para nos deslocarmos ou nos orientarmos em um shopping, para interpretarmos um mapa ou uma planta, para desenharmos uma trajetória ou para indicarmos um endereço a uma pessoa? Isso tem a ver diretamente com a nossa educação geométrica, na qual questões ligadas à orientação e ao deslocamento sempre foram renegadas pela escola. Conside- ramos que nossos alunos não podem ficar alijados desta tão importante formação geo- métrica, em especial, visando ao desenvolvimento de suas habilidades e competências no mundo atual. Toda atividade envolvendo esta categoria implica situarmos nosso próprio corpo em relação ao espaço vivido, representado ou imaginado. A visão do próprio corpo e noções de lateralidade, distância e proporcionalidade estarão presentes em atividades desta categoria. Muitos de nós não sabemos utilizar, com competência, um mapa, em função de não sabermos nos colocar corporalmente em relação ao mapa que representa o espaço vivido. Ainda podemos citar a mobilização de conceitos fundamentais, tais TP6_mat_20-jan-2008.indd 99 1/8/2008 16:33:44 100 Matemática nas migrações e em fenômenos cotidianos como para frente, para trás, ao lado, para cima, para baixo, pontos cardinais (Norte, Sul, Nordeste...), giros à direita, à esquerda, meia volta, medidas de ângulos como 90º, 45º, etc. Como fazer para sabermos o que é “para cima” ou “ para a esquerda” quando estamos com um mapa na mão? Na verdade, algumas habilidades são consideradas complexas e não podem ser desenvol- vidas em apenas algumas aulas, mas sim por meio de experiências de qualidade realizadas ao longo dos anos escolares, tendo as séries iniciais um importante papel nesta seara. Para tanto, daremos exemplos de algumas atividades a serem desenvolvidas na escola neste sentido: • brincar de pique-esconde; • brincar de caça ao tesouro a partir de um mapa; • explorar jogos envolvendo labirintos; • fazer a planta da escola; • fazer o croqui da sala de aula; • fazer o croqui do quarto de dormir; • desenhar o trajeto realizado para ir de casa à escola ou vice-versa; • desenhar trajetos para deslocamentos dentro da escola (como um plano de fuga em caso de incêndio); • realizar atividades a partir de plantas de croquis; • explorar croquis e plantas encontradas nos classificados e propagandas de imo- biliárias, traçando, na quadra de esporte, com giz, a planta baixa do imóvel em tamanho real; • realizar um trabalho integrado da Matemática com a Geografia; • explorar plantas presentes em guias de roteiros de viagem ou de turismo; • explorar mapas do seu bairro e cidade, identificando locais conhecidos; • fazer excursões a partir de mapas previamente traçados; • fazer mapas, representando trajetórias realizadas durante alguma excursão; • planejar a mudança de posição dos móveis a partir de simulações em desenhos; • realizar jogos de estratégia em plataforma envolvendo espaços representados e si- mulados; • explorar a organização de um supermercado e formas de deslocamento dentro dele ou de shoppings; • representar no papel estratégias de jogos de quadra (como será o deslocamento de cada um). É necessárioque a sala de aula seja um espaço de reflexões acerca das produções geométricas de cada aluno, assim como um ambiente de trocas, fazendo com que cada aluno reflita sobre seus próprios procedimentos ao ver a produção do outro e ao de- senvolver um discurso argumentativo acerca das diferentes produções e representações geométricas. TP6_mat_20-jan-2008.indd 100 1/8/2008 16:33:44 101 Avaliação do processo de aprendizagem geométrica na escola Ao tecer algumas reflexões acerca do ensino da Geometria faz-se necessário, ainda, tecer alguns comentários a respeito da avaliação da aprendizagem geométrica em um contexto onde o ensino é fundamentado na ação efetiva do aluno sobre sua realidade. Descarta-se a perspectiva de uma avaliação estritamente pautada sobre as re- presentações geométricas escritas pelo aluno, afinal, advogamos o tempo todo um trabalho pedagógico em que a ação tem lugar privilegiado e deve ocorrer no contexto da avaliação do desenvolvimento geométrico dos alunos. A nosso ver, alguns aspectos devem ser considerados no processo de avaliação: • É na ação efetiva que encontramos o espaço legítimo de avaliação. • A ação, como espaço de avaliação, deve estar inserida no contexto de resolução de situação-problema sócio-culturalmente significativa para o aluno. • Não devemos avaliar o desenvolvimento geométrico do aluno somente pelo que representa graficamente no papel, mas também pela sua ação sobre os objetos, sua relação com o seu espaço presente ou distante, assim como a sua capacidade de argumentação lógica. • Ao invés de buscarmos centrar a avaliação em provas, devemos investir mais na observação das produções geométricas dos alunos na elaboração e na realização de projetos, com interesse especial em suas atitudes favoráveis às atividades geo- métricas propostas, observando a sua auto-estima e autoconfiança na produção do conhecimento geométrico. • Não devemos valorizar as terminologias descabidas e desprovidas de significado para os alunos, mas devemos sempre buscar acolher e respeitar as formas destes comunicarem as suas idéias geométricas, indo, pouco a pouco, inserindo na fala e nos textos as definições, de forma tal que a linguagem retrate um desenvolvimento próprio do conhecimento geométrico dos alunos. Essa mudança requer uma nova postura em relação ao “fazer Geometria” na es- cola bem diferente daquela pela qual fomos formados. Assim, mudar vai significar um investimento por parte do professor na realização de novas experiências pedagógicas que busquem colocar a ação como o centro da aprendizagem geométrica. Bibliografia BERTONI, N. E. (direção). Módulos/Apostila de Ensino do Projeto um Novo Currículo de Matemática do 1o grau. Departamento de Matemática-Unb, 1986. BERTONI, N. E. Um novo enfoque para o saber matemático do professor: In Jornada de reflexão e capacitação sobre a Matemática na Educação Básica de jovens e adultos. Brasília: Ministério da Educação, 1995. BRASIL, Ministério da Educação e do Desporto – MEC. Parâmetros Curriculares Nacionais, 1996. (http://www.paulofreire.org/proj/pec6par.htm). TP6_mat_20-jan-2008.indd 101 1/8/2008 16:33:44 102 Matemática nas migrações e em fenômenos cotidianos NEVES, R.S.P. A formação de conceitos geométricos no contexto dos projetos de trabalho mediada pelo Cabri Géométre. Dissertação de Mestrado em Educação pela Universidade de Brasília, 2002. PAIS, L. P. Transposição didática. In: MACHADO, S. (Org.). Educação matemática: uma introdução. São Paulo: PUC, 1999. PIAGET, J. La naissance de l’intelligence chez l’enfant. Lausanne, Delachaux et Niestlé, 1947 POINCARÉ, H. La science et l’hypothèse. Paris : Flammarion, 1968. POINCARÉ, H. La valeur de la science. Paris : Flammarion, 1970. VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1994. VYGOTSKY, L. S. Pensée et langage. Paris, Medissor : Ed. Sociales, 1995. TP6_mat_20-jan-2008.indd 102 1/8/2008 16:33:44