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educacional 
gente criando o futuro 
Presidente do Conselho de Admin istração Janguiê Diniz 
Diretor-presidente Jânyo Diniz 
Diretoria Executiva de Ensino Adriano Azevedo 
Diretoria Executiva de Serviços Corporativos Joaldo Diniz 
Diretoria de Ensino a Distância Enzo Moreira 
Autoria Andréia de Farias 
Tatiana Cristina Ferreira Ara min i 
Projeto Gráfico e Capa DP Content 
DADOS DO FORNECEDOR 
Análise de Qualidade, Ed ição de Texto, Design lnstrucional, 
Ed ição de Arte, Diagramação, Design Gráfico e Revisão. 
© Ser Educacional 2021 
Rua Treze de Maio, nº 254, Santo Amaro 
Recife-PE - CEP 50100-1 60 
*Todos os gráficos, tabelas e esquemas são cred itados à autoria, salvo quando ind icada a referência. 
Info rmamos que é de inteira responsabilidade da autoria a emissão de conceitos. 
Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida por qualquer meio 
ou forma sem autorização. 
A violação dos direi tos autorais é crime estabelecido pela Lei n.º 9.610/98 e pun ido pelo artigo 184 do 
Código Penal. 
Imagens de ícones/capa:© Shutterstock 
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ASSISTA 
Indicação de filmes, vídeos ou similares que trazem informações comple-
mentares ou aprofundadas sobre o conteúdo estudado. 
CITANDO 
Dados essenciais e pertinentes sobre a vida de uma determinada pessoa 
relevante para o estudo do conteúdo abordado. 
CONTEXTUALIZANDO 
Dados que retratam onde e quando aconteceu determinado fato; 
demonstra-se a situação histórica do assunto. 
CURIOSIDADE 
Informação que revela algo desconhecido e interessante sobre o assunto 
tratado. 
DICA 
Um detalhe específico da informação, um breve conselho, um alerta, uma 
informação privilegiada sobre o conteúdo trabalhado. 
EXEMPLIFICANDO 
Informação que retrata de forma objetiva determinado assunto. 
EXPLICANDO 
Explicação, elucidação sobre uma palavra ou expressão específica da 
área de conhecimento trabalhada. 
Unidade 1 - Histórico da Psicofarmacologia 
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 13 
Histórico da Psicofarmacol og ia ........................................................................................ 14 
A Psicofarmacologia na Antiguidade .......................................................................... 14 
A psicofarmacologia e seus avanços na contemporaneidade ............................... 18 
Introdução ao estudo da Psicofarmacologia .................................................................. 20 
A origem das substâncias psicoativas e suas terminologias científicas .............. 21 
As principais substâncias psicoativas naturais ......................................................... 23 
As principais substâncias psicoativas sintéticas ...................................................... 24 
Classificação dos psicotrópicos ....................................................................................... 25 
Barbitúricos, benzodiazepínicos, opiáceos e opioides ............................................. 27 
Anfetaminas, perturbadores, alucinógenos e anticolinérgicos .............................. 29 
Sintetizando ........................................................................................................................... 32 
Referências bibliográficas ................................................................................................. 34 
Unidade 2 - Síntese, liberação e funções dos neurotransmissores e suas implicações 
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 36 
O cérebro e os neurotransmissores: divisão do SN ...................................................... 37 
Sinapse química ........................................................................... .............. ..................... 38 
Como ocorre a liberação de um neurotransmissor? ................................................. 40 
Entendendo a síntese e as funções dos diversos neurotransmissores ................. 44 
Patologias associadas às disfunções dos neurotransmissores ............................. 48 
Ação e efeito dos fármacos sobre o SNC ........................................................................ 49 
Fármacos depressores do SNC .................................................................................... 50 
Fármacos estimulantes do SNC .................................................................................... 51 
Influência dos fármacos sobre as emoções e no comportamento humano .............. 52 
Fármacos que podem alterar o comportamento humano ........................................ 53 
Fármacos e o risco de suicídio ................................ .................. ................................... 55 
A dependência e a abstinência ......................................................................................... 56 
A dependência física e psicológica ............................................................................. 56 
Mecanismos de tolerância ............................................................................................ 57 
Síndrome de abstinência ............................................................................................... 59 
Prescrição de medicamentos psicotrópicos no Brasil. ............................................ 61 
Sintetizando ........................................................................................................................... 62 
Referências bibliográficas ................................................................................................. 63 
Unidade 3 - Drogas utilizadas nos transtornos mentais 
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 66 
Benzodiazepínicos ............................................................................................................... 67 
O neurotransmissor GABA ........................................................... .................................. 69 
Mecanismo de ação ... .................................................................................................... 71 
Reações adversas ........................................................................................................... 75 
Dependência .................. .................................................................................................. 76 
Neurolépticos ........................................................................................................................ 76 
O neurotransmissor dopa mina ...................................................................................... 78 
Neurolépticos de 1ª geração ......................................................................................... 81 
Neurolépticos de 2ª geração ......................................................................................... 84 
Neurolépticos de 3ª geração ......................... .............. .................................................. 86 
Antidepressivos tricíclicos e inibidores da MAO .......................................................... 87 
Antidepressivos da classe dos inibidores da MAO ................................................... 88 
Antidepressivos da classe dos tricíclicos .................. ............................... .. ................ 89 
Lítio e outras drogas antimania ......................................................................................... 92 
Carbonato de lítio ............................................................................................................ 93 
Outras drogas usadas para tratar o transtorno bipolar. ........................................... 94 
Sintetizando ........................................................................................................................... 96Referências bibliográficas ................................................................................................. 97 
Unidade 4 - Caracterização neuroquímica dos transtornos mentais e os tratamen-
tos farmacológicos 
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 99 
Depressão: caracterização, bases neuroquímicas e tratamento ............................. 100 
Depressão maior: bases neuroquímicas ................................................................... 101 
Antidepressivos de 1ª geração ................................................................................... 105 
Antidepressivos de 2ª geração ................................................................................... 108 
Antidepressivos de 3 ª geração .................................................................................. 110 
Outros antidepressivos atípicos ................................................................................. 111 
Ansiedade e tratamento .................................................................................................... 112 
Transtornos de ansiedade: bases neuroquímicas ................................................... 113 
Estratégia gabaérgica: benzodiazepínicos ............................................................... 114 
Estratégia serotonérgica: buspirona .......................................................................... 117 
Estratégia adrenérgica: beta bloqueadores .............................................................. 118 
Outros fármacos com potencial ansiolítico .............................................................. 119 
Mania: caracterização e tratamento .............................................................................. 119 
Estabilizadores do humor ............................................................................................. 120 
Psicose: caracterização e tratamento da esquizofrenia ............................................ 121 
Esquizofrenia: caracterização neuroquímica ........................................................... 122 
Neurolépticos típicos: 1ª geração .............................................................................. 124 
Neurolépticos atípicos: 2ª e 3ª geração .................................................................... 126 
Sintetizando ......................................................................................................................... 128 
Referências bibliográficas ............................................................................................... 129 
O estudo da Psicofarmacologia é imprescindível àqueles que se interessam 
pelo comportamento humano e pelas patologias que acometem a saúde men-
tal, pois é por meio desse estudo que se compreende a ação de determinadas 
substâncias no organismo humano. Levando em consideração que as substân-
cias psicotrópicas possuem um caráter ambíguo quanto aos malefícios e aos 
benefícios para o organismo, o estudo apresentado se embasa na constatação 
de seu malefício com o uso excessivo e abusivo de algumas substâncias. 
Nesse contexto, o uso de substâncias psicoativas é datado desde a Anti-
guidade, com muitas delas consideradas inofensivas por povos antecessores. 
Contudo, com o avanço das civilizações, da medicina e das tecnologias, o uso 
dessas substâncias passa a se adequar ao intuito de identificar e diferenciar 
benefícios e malefícios, de modo a favorecer e coadjuvar os tratamentos psi-
quiátricos no Brasil e no mundo. 
Diante da relevância da atuação dos profissionais que se dedicam ao estudo 
da saúde mental, o estudo concomitante das substâncias que agem no sistema 
nervoso central (SNC), nos neurotransmissores, nas células, nos sistemas de 
captação e recaptação de sinais, bem como na condução das informações neu-
roquímicas é algo primordial para o estabelecimento de uma linha de trabalho 
favorável entre a equipe multidisciplinar no tratamento de patologias psíquicas 
e mentais. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
A professora Andréia de Farias é venções em Psicanálise, do Instituto 
psicóloga graduada pelo Centro Uni- de Psicologia da Universidade de São 
versitário Fundação Santo André - Paulo - USP (2021). Psicóloga clínica 
CUFSA (2017). Atualmente, trabalha de abordagem psicanalítica, com pas-
com crianças, adolescentes e adultos sagens pela monitoria da disciplina de 
em consultório e estuda a psicanálise Gerontologia Social pela CUFSA (2016), 
de modo permanente. Participante pela Psicologia Social em instituições 
ativa em cursos, palestras, seminá- públicas, como o Centro de Atendi-
rios, fóru ns e capacitações na área de mento Psicossocial - CAPS (2016) e a 
atuação desde 2013, sendo a última Defensoria Púb lica do Estado de São 
atualização profissional por meio do Paulo - DPESP (2016 e 2017), além da 
curso de extensão "Por uma psicaná- Psicologia Domici liar (2019). 
lise pertinente à situação brasileira: 
um percurso (crítico) introdutório" Currículo Lattes: 
pelo Laboratório de Pesquisas e Inter- http://lattes.cnpq.br/5768098714053476 
Dedico este trabalho àqueles que sofrem com transtornos mentais e 
àqueles que se dedicam a estudar as funções cerebrais com o objetivo de 
colaborar e auxiliar os que sofrem das patologias mentais. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
A professora Tatiana Cristina Ferrei-
ra Aramini é mestre em farmacologia 
com ênfase em psicofarmacologia pela 
UNIFESP - Universidade Federal de São 
Paulo (2012), especialista em docência 
no ensino superior pela UNINOVE- Cen-
tro Universitário Nove de Julho (2018) e 
graduada em farmácia e bioquímica 
pela mesma instituição (2008). Tem ex-
periência com atenção farmacêutica e 
orientação de pacientes quanto ao uso 
de medicamentos, é professora univer-
sitária em cursos de graduação desde 
2014 ministrando disciplinas de farma-
cologia, psicofarmacologia, assistência 
farmacêutica, farmácia clínica, farmácia 
hospitalar, fisiologia e patologia. 
Currículo Lattes: 
http://lattes.cnpq.br/7131860992583794 
Dedico este trabalho, primeiramente, a Deus e ao meu esposo Leandro, 
por todo apoio e parceria e a minha querida família, e em especial à 
minha mãe e ao meu falecido pai, que sempre me apoiam e se orgulham 
da minha trajetória acadêmica. Dedico também aos meus alunos, meus 
grandes motivadores. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
UNIDADE 
r 
educacional 
Obietivos da unidade 
Contribuir para a assimilação dos princípios de estudos referentes ao 
funcionamento do psiquismo e do comportamento humano, quando 
submetidos à interferência de substâncias psicotrópicas e medicamentosas que 
alteram o funcionamento cerebral; 
Elencar as concepções originárias, históricas e contemporâneas da 
Psicofarmacologia, abrangendo as contribuições para o avanço teórico e 
técnico no tratamento das patologias psiquiátricas, bem como na remissão dos 
principais sintomas das patologias. 
Tópicos de estudo 
Histórico da Psicofarmacologia 
A Psicofarmacologia na 
Antiguidade 
A Psicofarmacologia e seus 
avanços na contemporaneidade 
Introdução ao estudo da 
Psicof a rmacologia 
A origem das substâncias 
psicoativas e suas terminologias 
científicas 
As principais substâncias 
psicoativas naturais 
As principais substâncias 
psicoativas sintéticas 
Classificação dos psicotrópicos 
Barbitúricos, benzodiazepínicos, 
opiáceos e opioides 
Anfetaminas, perturbadores, 
alucinógenos e anticolinérgicos 
PSICOFARMACOLOGIA • 
• 
Histórico da Psicofarmacologia 
Na pré-história, o uso de substâncias psicoativas não era sinônimo de amea-
ça à sociedade, porém, devido aos efeitos sociais e subjetivos relacionados aos 
contextos sociais, o controle passou a ser adotado conforme as circunstâncias 
envolvidas em cada contexto. No entanto, assim como as leis e os costumes 
ao longo do tempo, as drogas assumiram significados distintos em diferentes 
contextose ocasiões. 
A ciência acredita que os humanos, assim como outras espécies, desde a 
Antiguidade, recorrem ao poder de algumas substâncias para alterar o meta-
bolismo e a consciência. Também na Antiguidade, as culturas elabora-
vam suas próprias regras para o consumo de determinadas 
substâncias e o cumprimento dessas regras era atribuído 
aos controles sociais formais, sob a forma de leis e, dos 
controles sociais informais, atribuído à família, aos sacer-
dotes, ou, ainda, aos empregadores e demais autoridades. 
•• 
A Psicofarmacologia na Antiguidade 
Com a cristianização do Império Romano, no século IV, o uso de determina-
das substâncias, prática até então comum às antigas nações pagãs, passou a 
ser vinculado a cultos mágicos e religiosos, com seus efeitos terapêuticos ques-
tionados pela Igreja pois, para o Cristianismo daquela época, a dor e a morti-
ficação da carne eram idealizadas como formas de aproximação com Deus e, 
desse modo, o alívio da dor por meio de substâncias "mágicas" não era bem 
visto. Desde então, o uso de substâncias psicoativas, medicamentosas ou não, 
passou à conotação política e econômica, o que contribuiu para estigmatizá-
-las, assim como o sujeito que faz uso delas. 
CONTEXTUALIZANDO 
Na Idade Média, por volta do século X, a Igreja Católica passou a consi-
derar o uso de substâncias que até então não contavam com o reconheci-
mento médico, como um ato impuro, classificando-o inclusive como bru-
xaria. Logo, o uso dessas substâncias passou a ser passível de punições 
como tortura e até morte. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
No Brasil, algumas instituições públicas e privadas dedicam-se às pesqui-
sas sobre as substâncias psicotrópicas. Uma delas é o Centro Brasileiro de 
Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), instituição sem fins lucrati-
vos, mantida pelo Departamento de Medicina Preventiva da UNIFESP (Univer-
sidade Federal de São Paulo), cujo compromisso primordial é o de contribuir 
com a comunidade, no que diz respeito ao tema das drogas, por meio de 
pesquisas científicas sobre o comportamento dos brasileiros. 
A expressão droga se origina da palavra droog (holandês antigo), refe-
rente à folha seca, posto que a maior parte dos medicamentos era produzi-
da à base de vegetais. No entanto, na contemporaneidade, os profissionais 
do exercício médico usam a palavra droga como um sinônimo para medica-
mento, ao mesmo tempo em que consideram o termo para identificar toda 
substância capaz de alterar o funcionamento do organismo, ou seja, subs-
tâncias capazes de originar mudanças fisiológicas e psicológicas, alterando 
o funcionamento das células cerebrais (neurônios) e promovendo oscilações 
no comportamento humano. 
Figura 1. Folhas secas, antiga matéria-prima para a produção de fármacos. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021. 
Complementando o significado do termo droga, a medicina atual conside-
ra droga qualquer substância capaz de alterar a função dos organismos vi-
vos, bem como a capacidade que tais substâncias apresentam para promover 
transmutações fisiológicas, como a contração/dilatação de vasos sanguíneos 
PSICOFARMACOLOGIA • 
ou o aumento/diminuição da pressão arterial, provocando, inclusive, modifi-
cações psicológicas, algo que ocorre quando as substâncias são capazes de 
influenciar as células cerebrais (neurônios) e promover oscilações no compor-
tamento humano. 
O ópio é um grande exemplo de substância usada como medicamento e 
como droga de abuso, já que a história evidencia seu uso pelos povos sumérios 
(Mesopotâmia) no ano 3500 a.e. Considerado maligno até o século XIX, mais tar-
de, o ópio passou a ser empregado no alívio da dor em seres humanos, como a 
morfina, substrato do ópio, descoberto em 1805 pelo químico alemão Friedrich 
Sertürner, e a heroína, outro substrato, desenvolvido na Inglaterra em 1874 e 
produzido para o tratamento da tosse pelo laboratório Bayer em 1898. 
A cocaína é uma substância cujo princípio ativo foi isolado no século XIX pelo 
químico alemão Albert Niemann. Sigmund Freud, criador da psicanálise, lançou 
mão da cocaína pela primeira vez em 1884, tendo a utilizado para tratar um ami-
go viciado em morfina. Ainda no século XIX, as qualidades medicinais da cocaína 
eram enaltecidas e a sua comercialização era praticada também pelo laboratório 
Bayer. Nessa época, seu uso era voltado à área da saúde, cujo Manual MERCK 
trazia em sua primeira edição, no final do mesmo século, a indicação da dose 
recomendada de cocaína para tratar os casos de cansaço e desânimo. 
Figura 2. Sigmund Freud, teórico criador da Psicanálise. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
O clorofórmio, substância psicotrópica descoberta em 1831, era utilizado 
em substituição ao álcool. A partir do século XIX, a ciência isolou os princípios 
ativos de algumas substâncias psicoativas, como a morfina, a cocaína, a he-
roína, a mescalina, as anfetaminas dentre outras, dando início à produção de 
fármacos puros, de utilização faci litada, possibilitando uma maior exatidão nas 
dosagens. Já no início do século XX, a ciência fez o mesmo com os barbitúricos, 
o éter, o clorofórmio e o óxido nitroso. 
No mesmo período, os pesquisadores descobriram os efeitos medicinais da 
ergotamina (substância ativa do ácido lisérgico). Dessa forma, a partir do sé-
culo XXI, o consumo de medicamentos se tornou acentuado, algo que os espe-
cialistas denominaram de "mania ocidental por pílulas", incluindo anfetaminas 
(anorexígenos), LSD e Ecstasy. Por sua vez, o LSD-25, sintetizado pelo químico 
suíço Albert Hoffmann em 1938, dois anos mais tarde, era ofertado pelo gover-
no japonês a seus soldados e pilotos, com a intenção de mantê-los atentos e 
dispostos durante a guerra. Contudo, naquele mesmo ano, os estudos sobre 
o LSD indicaram que a droga poderia provocar surtos psicóticos em pessoas 
saudáveis. Já em 1947, com o intuito de transformá-la numa possível arma de 
inteligência americana, a CIA rea lizou estudos com a substância. 
Outras drogas sintéticas evidenciadas pela Europa no século XX foram os 
barbitúricos e o MDMA (ecstasy). Este último, descoberto em 1912 e patenteado 
em 1914 na Alemanha pelo laboratório 
MERCK, tinha o intuito de desenvolver 
um medicamento anorexígeno, po-
rém, os estudos naquela época foram 
abortados e retomados apenas no fi-
nal da década de 70, quando a util ida-
de clínica dessas substâncias como um 
possível coadjuvante nos processos 
terapêuticos voltou a ser discutida. Al-
guns psiquiatras e psicólogos daquela 
época, cuja intenção era a de auxiliar 
no vínculo terapêutico, acreditavam 
no poder do MDMA para a promoção 
de bem estar no paciente. 
Figura 3. Tipos de substâncias sintéticas. Fonte: Shutterstock. 
Acesso em: 13/0712021. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
•• 
A psicofarmacologia e seus avanços na contemporaneidade 
A psicofarmacologia é um método que se baseia no desenvolvimento da 
substância terapêutica até o seu uso final como um medicamento coadju-
vante nos tratamentos farmacoterápicos e psicofarmacoterápicos. O uso de 
tais substâncias, cuja finalidade é a de propiciar sua segurança e eficiência, 
deve ser realizado com cautela e com supervisão médica. A segurança e a 
eficiência dos psicofármacos se dão pela sua capacidade de ação terapêuti-
ca, ou seja, nas interações possíveis com os neurotransmissores no sistema 
nervoso central (SNC). 
A estrutura do sistema nervoso cerebral é discutida há séculos, porém, 
apenas com Santiago Ramon y Cajal, advém a descoberta de que os neurô-
nios são separados por pequenos espaços, denominados na contemporanei-
dade como sinapses. As sinapses são compostas por substâncias químicas li -
beradas pelos neurônios durante as comunicações entre si, levando a ciência 
a descobrir a existência dos neurotransmissores e das sinapses elétricas, 
comprovando que as neurotransmissões químicas são mais comuns que as 
elétricas. A produção de neurotransmissorespelo sistema nervoso central 
(SNC} é de fundamental relevância para que a liberação e a atuação se reali-
zem em alguns grupos de receptores específicos. 
Figura 4. Ilustração das sinapses cerebrais. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
A partir da década de 1940, foi iniciado o uso de fármacos no tratamento 
dos transtornos psiquiátricos. Em 1949, o primeiro fármaco empregado como 
recurso terapêutico para o tratamento da mania foi o lítio, seguido em 1952 
da clorpromazina, cujos efeitos antipsicóticos se revelaram nesse mesmo pe-
ríodo. Outra substância relevante fo i o meprobamato, que teve seus efeitos 
ansiolíticos descobertos em 1954 e, em 1957, o clordiazepóxido. A partir de 
então, foram sequenciadas uma série de outras drogas terapêuticas, inclusive 
os benzodiazepínicos. 
É possível afirmar que a psicofarmacologia, no decorrer da sua história, se 
deu por meio da experiência, ou seja, por meio da observação do modus ope-
randi de algumas substâncias e a sua eficácia em relação a determinadas pato-
logias, como a iproniazida, que era utilizada para tratar a tuberculose e teve 
descoberta a sua capacidade para produzir euforia e elevar o humor, passando 
a ser aplicada com eficácia no tratamento da depressão, dando origem aos 
antidepressivos inibidores da monoaminoxidase (IMAO), tendo seu uso minis-
trado em pacientes diagnosticados com depressão e hospitalizados a partir 
de 1956.Já em 1958, foi descoberta a imipramina, anti-histamínico e primeiro 
antidepressivo tricíclico com eficácia reconhecida . 
No final da década de 1950, se contava com cinco classes de drogas capa-
zes de estimular impactos clínicos significativos no tratamento de transtornos 
mentais: os antipsicóticos, os antidepressivos tricíclicos, os antidepressi-
vos IMAO, os ansiol íticos e os antimania. Desde então, a admissão dos psi-
cofármacos se deu de modo tão re levante quanto a sua propagação, o que fez 
diminuir a quantidade e a frequência das internações hospitalares motivadas 
por patologias psiquiátricas, gerando uma expressiva queda no número de pa-
cientes psicóticos internados nos EUA, dado que o número era de 554.000 em 
1954 e reduziu para 77.000 em 1993. 
De lá para cá, foram observados o aperfeiçoamento das substâncias psico-
terapêuticas já descritas, incluindo as suas capacidades para o t ratamento das 
patologias mentais, e o surgimento de novas substâncias psicotrópicas. No en-
tanto, as novas drogas pouco contribuíram com as já existentes, 
porém, há características específicas que merecem atenção por-
menorizada, como a capacidade de seleção, a razoabilidade e o 
reconhecimento dos seus efeitos na contemporaneidade. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
• 
Introdução ao estudo da Psicofarmacologia 
Levando em consideração que o uso de substâncias psicoativas não era 
considerado um fator consternador na antiguidade, é necessária uma cons-
tante efetivação de técnicas e estudos científicos na atualidade no que se 
refere a tais substâncias, tendo como intuito o ensejo de aprimorá-las. Não 
obstante, o ser humano conviveu por séculos com o hábito de usar subs-
tâncias psicoativas, incluindo as alucinógenas, sem a evidência de problemas 
advindos desse hábito. Dessa forma, para melhor compreensão das diretri-
zes sobre a psicofarmacologia, é necessário investigar aspectos históricos, 
origens, avanços, classificações, trajeto até a contemporaneidade, benefícios 
e ambiguidades de atuação. 
Na atualidade, que pode ser chamada também de pós-modernidade, são 
observados avanços tecnológicos em diversos segmentos da humanidade, in-
cluindo o da indústria farmacêutica. Desde meados do século XX, os avanços 
crescentes da indústria farmacêutica possibilitam a médicos e pacientes uma 
escolha medicamentosa cada vez mais precisa e eficiente para o tratamento e/ 
ou supressão dos sintomas psiquiátricos. 
A partir da introdução do uso da fluoxetina com o objetivo de tratar os sin-
tomas da depressão, a humanidade foi guiada para uma era das "pílulas da 
felicidade", que se atualiza a cada geração. Ao levar em conta que a propaganda 
é uma ferramenta dos fabricantes de fármacos, a cada geração se alcança um 
número crescente de adeptos da farmacologia, já que a angústia e o sofrimen-
to vêm perdendo cada vez mais o significado na vida das pessoas que preferem 
medicá-lo em vez de interpretá-lo, elaborá-lo e entendê-lo. 
A psicofarmacologia e as leis que a regulamentam 
A partir do século XX, no Brasil e no mundo, a questão do uso das substân-
cias psicoativas passou a ser motivo de inquietude, causada por razões políti-
cas que motivaram legislações específicas. O uso de substâncias psicoativas 
na contemporaneidade está ligado a doenças e à criminalidade. Dependendo 
da forma e do contexto em que esse uso se apresenta, as leis de controle 
formal (governo, médicos, hospitais, etc.) e de controle informal (líderes po-
lít icos ou religiosos, familiares, empregadores, vizinhos, médicos, membros de 
órgãos de repressão, etc.) atuam como controles sociais desse uso. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Quando o uso de substâncias psicoativas se dá por meio de indicação 
médica, por exemplo, elas devem ser prescritas com controle da recei-
ta. Desse modo, o uso de substâncias psicoativas e/ou psicotrópicas se 
ajusta às peculiaridades de cada contexto, com seu próprio sistema de 
valores e regras que, por sua vez, reproduzem os diferentes modos e 
finalidades de uso. 
•• 
A origem das substâncias psicoativas e suas terminologias 
científicas 
As substâncias psicoativas são, na maioria, originadas da natureza 
e, posteriormente, sintetizadas em laboratório. Dessa forma, podemos 
classificá-las em substâncias psicotrópicas naturais e substâncias psico-
trópicas sintéticas. As substâncias psicoativas originadas da natureza são 
aquelas provenientes de plantas, animais ou vegetais, como, por exem-
plo, a cafeína, o ópio, a nicotina, o THC (maconha) etc. As substâncias 
psicoativas naturais, principalmente as plantas de efeitos alucinógenos, 
são utilizadas há séculos por culturas indígenas, em rituais religiosos em 
, . , 
vartos pa,ses. 
Já as substâncias psicoativas sintéticas, são aquelas cujo princípio ati-
vo é isolado e sua produção se dá por meio de processos laboratoriais. 
Um exemplo dessas substâncias é a cocaína e seus derivados que, quan-
do sintetizados em laboratório, dão origem a diversos fármacos de uso 
médico e hospitalar. A nomenclatura das substâncias psicoativas pode 
ser exemplificada em três termos: tóxico, narcótico e psicotrópico, de 
acordo com o Quadro 1. 
Tóxico 
Narcótico 
Psicotrópico 
QUADRO 1. TERMINOLOGIAS 
Refere-se à toxicidade da substância psicoativa nas formas de 
medicamento e droga de abuso, cujo parâmetro de diferenciação, nesse 
caso, é a quantidade utilizada da substância. 
De origem inglesa, refere-se às substâncias psicoativas utilizadas tanto 
como medicamento quanto como drogas de abuso. 
Mais utilizado para referenciar as substâncias que agem no sistema 
nervoso central (SNC), ou seja, no cérebro. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Complementando o significado do 
termo psicotrópico pela divisão da 
própria palavra - psico é termo grego 
que significa psiquismo (sentimentos, 
pensamentos etc.) e trópico, significa 
tropismo ("atração por") -, se conclui 
que psicotrópico é o mesmo que "atra-
ção pelo psiquismo", logo, o conceito 
do termo define-se por substâncias que agem no sistema nervoso central 
(SNC), metamorfoseando, de certa forma, o psiquismo do indivíduo. 
EXPLICANDO 
Outros termos para definir as substâncias psicoativas são psicoticomimé-
tico e psicodélico (em grego, psíco = mente e de/os= expansão), usados 
por alguns pesquisadores para denominar as referidas substâncias de 
acordo com a capacidade delas de reproduzir sintomas psicóticos consi-
derados como perturbações do inconsciente nos humanos, como alucina-
ções (percepção sem objeto) e/ou delírios.O uso dessas denominações leva em conta a similaridade dos sintomas cau-
sados pela administração dessas substâncias com a sintomatologia de algu-
mas doenças mentais, como a esquizofrenia. 
QUADRO 2. PRINCIPAIS SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS 
~ 
Naturais Sintéticas 
Cafeína Cocaína 
Ópio LSD-25 
Nicotina Ecstasy 
Maconha Anticolinérgicas e plantas alucinógenas 
Cogumelos Anabolizantes e esteroides 
Jurema 
Mescal (peyote) 
Caapi e Chacrona 
PSICOFARMACOLOGIA • 
•• 
As principais substâncias psicoativas naturais 
Figura 5. Folhas de maconha e produtos com canabidiol. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021. 
• Maconha: pesquisas contemporâneas mostram que algumas substâncias 
extraídas dessa planta, como o canabidiol, um dos princípios ativos da planta, são 
aprovadas para uso medicamentoso com prescrição médica para tratamento dos 
sintomas de alguns tipos de cânceres e da epilepsia. O canabidiol é eficaz também 
como anticonvulsionante para o tratamento de doenças refratárias (doenças que 
não respondem aos medicamentos). No entanto, mesmo com as características 
de uso seguro, o Conselho Federal de Medicina (CFM) discorda em discutir sua nor-
matização para tratar a esquizofrenia que, segundo a Universidade de São Paulo 
(USP), é uma das ações terapêuticas do canabidiol. Em paralelo, um manifesto 
da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) é contra a maconha, afirmando que 
a planta gera prejuízo em todos os membros e órgãos do corpo. A ABP menciona 
ainda um estudo de 2012, administrado pelo psiquiatra Ronaldo Laranjeira, que in-
dica que a maconha multiplica por três vezes e meia a chance de um indivíduo vir a 
desenvolver a esquizofrenia e multiplica por cinco vezes a possibilidade de desen-
cadear transtornos de ansiedade em seus usuários, conforme os dados da ABP 
relatados por Oliveira, na página 134 da dissertação "O medicamento proibido: 
como um derivado da maconha foi regulamentado no Brasil", defendida em 2016; 
• Cogumelos: essas substâncias concebem os efeitos alucinógenos, tam-
bém conhecidos como psicoticomiméticos (sintomas das psicoses) ou psico-
délicos (alucinações e delírios), assim como outras plantas alucinógenas como 
a Jurema, a Mescal (peyote), a Caapi e a Chacrona (Ayahuasca); 
PSICOFARMACOLOGIA • 
• Jurema: de denominação científica Mimosa hostilis, é uma árvore de onde 
se extrai o DMT, substância alucinógena conhecida comercialmente como dime-
tiltriptamina, e cujas raízes são utilizadas na preparação de uma bebida aluci-
nógena batizada de "o Vinho da Jurema". É uma bebida comum no Nordeste do 
país, onde é ingerida em cerimônias religiosas indígenas; 
• Mescal (peyote): com nome científico Lophophora Wil/iamsii, trata-se de um cac-
to, também conhecido como peyote, do qual se extrai a mescalina, potente subs-
tância alucinógena que se apresenta sob a forma de um pó branco, consumido por 
via oral ou injetável. A mescalina possui ainda propriedades antibióticas e anal-
gésicas, além de provocar alterações da consciência e da percepção, em especial 
da visão. Um exemplo dessa substância é o nitrato de amyl, cuja ação psicodélica 
provoca relaxamento dos músculos lisos e vasodi latação; 
• Caapi e chacrona: de nome científico Banisteriopsis caapi, a planta é util izada 
como matéria-prima da ayahuasca, proveniente do cozimento do mariri e da cha-
crona (plantas alucinógenas nativas da Amazônia), sendo considerada uma bebida 
sagrada e aplicada por religiões sincretistas em seus rituais religiosos. Os adeptos 
dessas religiões não classificam a ayahuasca como substância alucinógena e, nesse 
contexto, seu uso é considerado um meio de entrar em contato com o mundo espiri-
tual. Por essa razão, seus preferem denominá-la como uma substância enteógena . 
• 
As principais substâncias psicoativas sintéticas 
Drogas sintéticas são substâncias 
modificadas e produzidas em labora-
tório cujos efeitos podem provocam 
alucinações visuais ou auditivas (per-
cepções sem objeto). 
• LSD-25: possui ação alucinógena 
e psicodélica; 
• Ecstasy: é uma substância alu-
cinógena da família das fenilaminas. 
Possui ação perturbadora, alucinó-
gena (psicodél ica) e estimulante, e 
seu uso costuma ser recreativo; 
Figura 6. Drogas sintéticas produzidas em laboratório. 
Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
• Anticolinérgicos e plantas alucinógenas: dizem respeito a determinadas 
plantas que, quando consumidas na forma de chá, contêm substâncias per-
turbadoras; 
• Anabolizantes e esteroides: os esteroides anabolizantes não são consi-
derados drogas psicotrópicas pela Organização das Nações Unidas (ONU) por 
não provocarem dependência, porém, são usados de forma abusiva. Tratam-
-se de substâncias sintéticas, representadas pela testosterona (hormônio 
masculino), que promovem o crescimento da musculatura corporal (efeito 
anabólico) e o desenvolvimento das características sexuais masculinas (efeito 
andrógeno). Devido a esses efeitos, os esteroides recebem também a deno-
minação de androgênicos. Seu uso é bastante comum entre atle-
tas que desejam ampliar o desempenho físico e também entre 
aqueles que desejam melhorar a aparência física, porém, o 
uso para fins estéticos e para complementar a capacidade fí-
sica é considerado ilegal, devido aos 
possíveis prejuízos para o organismo. 
Os anabolizantes são comercializa-
dos na forma de comprimidos ou de 
injeções e a maioria dessas substân-
cias é adquirida de forma ilícita em 
academias e/ou farmácias. Alguns 
produtos veterinários à base de es-
teroides, como sais de testosterona 
e boldenona, são utilizados, contudo, 
não apresentam eficácia cientifica 
comprovada, sendo passíveis de cau-
sar riscos acentuados à saúde. 
Figura 7. Embalagem de substância anabolizante sintética. 
Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021. 
•• 
Classificação dos psicotrópicos 
Os cientistas franceses relacionam as drogas sintéticas em três classifica-
ções: depressoras, estimulantes e perturbadoras do sistema nervoso cen-
tral (SNC). No Quadro 3, aparecem a classificação dos psicotrópicos, com algu-
mas das suas terminologias científicas e efeitos do seu uso. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
QUADRO 3. CLASSIFICAÇÃO DOS PSICOTRÓPICOS 
Depressores Estimulantes Perturbadores 
Psicolépticos Psicoanalépticos, Psicodislépticos 
Noanalépticos Psicoticomiméticos 
Timolépticos, etc. Psicodélicos 
1 
Alucinógenos 
Psicometamórficos, etc. 
• Psicotrópicos depressores: os psicotrópicos classificados como depres-
sores são aqueles que diminuem a atividade do sistema nervoso central (SNC), 
ou seja, deprimem o seu funcionamento, dentre os quais encontram-se tanto 
substâncias lícitas quanto ilícitas. O álcool, os solventes e os inalantes, os ben-
zodiazepínicos, os barbitúricos e os derivados do ópio (opiáceos e os opioides) 
são exemplos de drogas depressoras; 
• Psicotrópicos estimulantes: as substâncias estimulantes aceleram e in-
tensificam a atividade cerebral, causando excitação, insônia e agitação. São 
exemplos de droga estimulantes o tabaco, a cocaína e suas derivações, bem 
como as anfetaminas (anorexígenos); 
• Psicotrópicos perturbador-alucinógenos: as substâncias perturbadoras 
são aquelas que alteram a atividade do sistema nervoso central (SNC), distor-
cendo suas funções, desfigurando suas percepções e causando perturbações 
ao indivíduo. As drogas perturbadoras, como maconha, cogumelos, ecstasy e 
LSD, se subdividem entre naturais e sintéticas, sendo essas últimas classifica-
das também como drogas alucinógenas ou anticolinérgicas. 
QUADRO 4. TIPOS DE PSICOTRÓPICOS 
Tipo Classificação 
Barbitúricos Depressores do SNC 
Benzodiazepínicos Depressores do SNC 
Opiáceos Depressores do SNC 
Opioides Depressores do SNC 
Anfetaminas Estimulantes do SNC 
Alucinógenos Perturbadores do SNC 
Anticolinérgicos Perturbadores do SNC 
PSICOFARMACOLOGIA • 
•• 
Barbitúricos, benzodiazepínicos, opiáceos e opioides• Barbitúricos: são denominados também de calmantes ou sedativos, de-
vido à capacidade de reduzir a atividade cerebral, minimizar os estados de ex-
citação e promover sensação de calma e relaxamento. Sua ação principal induz 
ao sono e, por essa razão, recebem também os cognomes de hipnóticos, so-
níferos ou sedativo-hipnóticos. Algumas dessas medicações atuam também 
como analgésicas e antiepiléticas, sendo vendidas com a retenção da receita 
médica para posterior controle do Ministério da Saúde. A ação dos barbitúricos 
atinge diferentes áreas do cérebro ao mesmo tempo e, ainda que em doses 
terapêuticas, tem a capacidade de acometer a atenção e as atividades psico-
motoras, além de alterar a capacidade de raciocínio e a concentração. Seu 
uso também pode ser indicado para o tratamento de cefaleias, úlceras pépticas 
e hipertensão, porém, essas substâncias têm como possíveis efeitos colaterais 
depressão na medula e no centro do hipotálamo, vertigem, redução da urina, 
espasmo da laringe e crises de soluço. Algumas medicações, como Aspirina e 
Cibalena, continham os barbitúricos butabarbital ou secobarbital que, utili-
zados de maneira imprudente, fizeram os laboratórios farmacêuticos retirarem 
esse princípio ativo destes fármacos. Na atualidade, os barbitúricos deixaram 
de ser a principal opção para o tratamento da ansiedade e da insônia, sendo 
substitu ídos pelos benzodiazepín icos. No entanto, o Gardenal (fenobarbital) 
continua sendo utilizado no Brasil e no mundo em razão dos bons resultados 
para tratar a epilepsia; 
• Benzodiazepínicos: medicamentos denominados também como tranqui-
lizantes ou ansiolíticos, devido às suas capacidades de acalmar e atenuar a 
ansiedade e o nervosismo, assim como induzir ao sono, promover o relaxa-
mento muscular e reduzir o estado de alerta. Diferente dos barbitúricos, estes 
medicamentos não apresentam propriedades capazes de afetar as funções psi-
comotoras de modo relevante, todavia, costumam inibi-las de forma parcial, po-
dendo afetar a memória, obstar o processo de aprendizagem e acometer a ação 
de dirigir e de operar máquinas. São substâncias controladas pelo Ministério da 
Saúde e, devido as suas funções hipnóticas, são usadas também no tratamento 
de crises convulsivas. Os benzodiazepínicos se sobrepõem ao meprobamato 
como componente ansiolítico, sendo os medicamentos mais utilizados no mun-
PSICOFARMACOLOGIA • 
do todo, inclusive no Brasil. Há mais de cem medicamentos intitulados como 
benzodiazepínicos, cuja identificação pode ser feita por meio da escrita do sufi-
xo - AM no nome, como por exemplo: diazep-am, clorazep-am, lorazep-am, etc., 
remédios cujas denominações comerciais são Valium, Lexotan, Lorax, Somalium, 
entre outros; 
• Ópio, opiáceos e opioides: o ópio é uma substância natural extraída da sei-
va da papoula, planta originária da Ásia Menor e da Europa, cujo nome científico 
é Papaver Somniferum (Papoula do Oriente). A palavra ópio, traduzida do grego, 
significa "suco" e nomina a substância extraída por meio de cortes verticais na 
cápsula da papoula, se apresentando na forma de um suco leitoso que, ao secar, 
resulta no pó de ópio, uma substância rica em quantidades farmacológicas. 
Os opiáceos e opioides são substâncias naturais derivadas do ópio, como 
a codeína e a morfina (opiáceos) que, quando modificadas, se transformam 
na heroína (substância semissintética ou seminatural) ou nos opioides (subs-
tâncias isoladas e produzidas em laboratório). Tais substâncias têm o efeito 
de entorpecer as faculdades intelectuais, alterar as funções motoras e sensiti-
vas, além de elevar a sensação de prazer, tanto que a palavra morfina significa 
Morfeu, deus dos sonhos na mitologia grega. A morfina (morfa) apresenta-se 
sob a forma de pó, líquido, barra ou comprimidos e sua forma de consumo se 
dá por via oral ou injetável. 
A codeína é um opiáceo bastante utilizado como princípio ativo para xaropes 
contra a tosse como o Setux, o Eritós, o Pambenyl, entre outros, além de substân-
cias aquosas como o Belacodid e as Gotas Bineli. No Brasil, a codeína é usada na 
formulação do xarope Codein, cuja função é de analgesia. A codeína também é 
capaz de reduzir os batimentos cardíacos, a pressão arterial e a respiração, bem 
como provocar dilatação das pupilas, prisão de ventre e dificuldade na digestão. 
Os opiáceos são empregados como princípio ativo de medicamentos antidiar-
reicos e recebem também a denominação de narcóticos ou drogas hipnoanal-
gésicas, cujo efeito analgésico se dá pelo manejo de pequenas doses de morfina 
ou de heroína. Porém, quando o uso da codeína ou de meperidina se destina à 
mesma finalidade, são necessárias doses cinco ou dez vezes maiores, pois a me-
repidina é modificada em laboratório e comercializada na forma de comprimidos, 
ampolas ou adesivos, assim como outras substâncias sintéticas derivadas do ópio 
(opioides), como a oxicodona, o propoxifeno, o fentanil e a metadona. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Figura 8. Papoula, matéria-prima do ópio. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/0712021. 
o 
\ 
CURIOSIDADE 
De acordo com o artigo de Maria Carolina D'Arcadia Novo, publicado na re-
vista Vox Forensis em 2010, o ópio era considerado maligno até o século XIX, 
contudo, é utilizado para proporcionar alívio de dor há mais de cinco mil anos. 
, 
Com o início da colonização na América e na Asia, o ópio passou a servir como 
tintura (láudano) na Europa, onde era usada tanto por reis, quanto por plebeus, 
incluindo soldados e altos titulares da Igreja. Essa prática se deu por mais de 
dois séculos, sem objeções ou querelas. A substância também era usada sob a 
forma de fumo pelos portugueses durante a expedição marítima para o Oriente . 
Anfetaminas, perturbadores, alucinógenos e 
anticolinérgicos 
• 
• Anfetaminas: utilizadas para a obtenção de quadros eufóricos, sub-
tração do sono e diminuição do apetite, também podem ser usadas como 
medicamento em casos de déficit de atenção ou de patologias neurológi-
cas. Quando apresentadas em seu estado puro, têm a aparência de cristais 
amarelados de sabor amargo, embora também se apresentem sob a forma 
de cápsulas, comprimidos, pó (branco, amarelo ou rosa), tabletes ou líqui-
do. Suas denominações comerciais mais conhecidas são: Benzedrine, Bife-
tamina, Dexedrine, Dexamil, Methedrine, Dexoxyn, Desbutal, Oberin, Am-
phaplex, Dualid, lnibex, Hipofagin, Desobesi, Fagolipo, Moderine, Absten, 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Pervitin, Ritalina, dentre outras. A ação estimulante das anfetaminas no 
sistema nervoso central (SNC) acelera seu ritmo, por isso, algumas pessoas 
costumam usá-los sem prescrição médica sob a denominação de rebite ou 
bola, de modo a obter estímulo extra para incentivar o trabalho, estudo ou 
mesmo, para dirigir ou emagrecer. A capacidade que a substância apresenta 
para a redução da massa corpórea (anorexígeno) costuma ser utilizada sem 
acompanhamento médico adequado; 
• Perturbadores: em sua maioria, 
são substâncias sintéticas que provo-
cam alucinações visuais ou auditivas 
(percepções sem objeto). Um exem-
plo dessas substâncias é o LSD-25, 
cuja ação é alucinógena e psicodéli-
ca, sendo considerado o perturbador 
alucinógeno mais pujante, já que uma 
pequena dosagem (microgramas) é 
capaz de produzir alucinações. Outro 
exemplo desse tipo de substância é 
o ecstasy, substância denominada 
também como MDMA (3,4-metile-
nodioximetanfetamina). Da família 
das fenilaminas e derivada da anfe-
tamina (estimulante), sua composi-
ção costuma conter uma variação de 
MDMA, MOA, MDEA, metanfetamina, 
anfetamina, cafeína, efedrina e LSD, 
assemelhando-se à composição da 
mescalina. Sua ação, além de pertur-
badora, é alucinógena (psicodélica) 
• 
I • . .} 
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Á • 
e estimulante, elevando a produção e a diminuição da reabsorção de sero-
tonina, dopamina e noradrenalina. O MDMA subdivide-se pelo organismo 
logo após sua ingestão, sendo metabolizadopelo fígado e seguindo seu curso 
até chegar ao cérebro. Sua eliminação se dá de forma total, por meio da urina, 
em um período aproximado de dois dias. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
• Anticolinérgicos e plantas alucinógenas: plantas que, quando consu-
midas na forma de chá, contêm substâncias perturbadoras, como a Datura, 
o Lírio, a Trombeta, a Trombeteira, o Cartucho, a Saia-Branca, a Zabumba, 
assim como alguns medicamentos sintetizados com estes princípios ativos, 
como o caso do Artane, do Akineton e do Bentyl, cujo uso provoca 
efeitos anticolinérgicos reconhecidos pela capacidade de pro-
duzir efeitos periféricos e influenciar nas fu nções psí-
qu icas. Nos casos da planta Datura e da Artane, os 
efeitos alucinógenos são secundários, e seu uso 
médico é comum no tratamento de doenças como 
Parkinson e diarreia. 
Figura 9. Flor de Datura. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
UNIDADE 
r 
educacional 
Obietivos da unidade 
Mostrar a constituição do Sistema Nervoso Central e o funcionamento dos 
neurônios; 
Compreender a sinapse química e as funções dos diferentes 
neurotransmissores; 
Entender como os fármacos afetam o comportamento e como ocorre a 
psicodependência. 
Tópicos de estudo 
O cérebro e os 
neurotransmissores: divisão do SN 
Sinapse química 
Como ocorre a liberação de um 
neurotransmissor? 
Entendendo a síntese e as funções 
dos diversos neurotransmissores 
Patologias associadas às 
disfunções dos neurotransmissores 
Ação e efeito dos fármacos 
sobre o SNC 
Fármacos depressores do SNC 
Fármacos estimulantes do SNC 
Influência dos fármacos sobre 
as emoções e no comportamento 
humano 
Fármacos que podem alterar o 
comportamento humano 
Fármacos e o risco de suicídio 
A dependência e a abstinência 
A dependência física e psicológica 
Mecanismos de tolerância 
Síndrome de abstinência 
Prescrição de medicamentos 
psicotrópicos no Brasil 
PSICOFARMACOLOGIA • 
• 
O cérebro e os neurotransmissores: divisão do SN 
O sistema nervoso é dividido em duas partes: SNC (sistema nervoso cen-
tral), constituído por encéfalo e medula espinal, e SNP (sistema nervoso pe-
riférico), que compreende os nervos que fazem a comunicação entre o SNC 
e os músculos, assim como glândulas e órgãos sensoriais. O encéfalo é com-
posto por cérebro, tronco encefálico (localizado abaixo do cérebro) e cerebelo 
(localizado atrás do tronco encefálico). O cérebro, por sua vez, é formado por 
telencéfalo (hemisférios cerebrais direito e esquerdo) e diencéfalo (tálamo e 
hipotálamo). Na Figura 1, é possível observar o encéfalo e a medula espinal, 
estrutura responsável pela comunicação do cérebro com o restante do corpo. 
Tálamo 
Hipotálamo 
Cerebelo 
Posterior ◄ 
-1---Medula 
espinal 
► Anterior 
Cérebro 
Glândula 
hipófise 
Figura 1. Esquema do encéfalo humano. Fonte: Adobe Stock. Acesso em: 05/10/2021. 
o 
\ 
CURIOSIDADE 
Tudo o que se pensa, sente, como amor, ódio, preocupação, medo, memó-
rias, enfim, toda a história humana é fruto do funcionamento do cérebro 
humano, posto que ele é responsável pelo processamento das informa-
ções e de todas as funções do organismo. Essas informações são proces-
sadas graças a trilhões de sinapses que ocorrem através dos neurônios. 
Um estudo brasileiro publicado em 2012 estima que o cérebro humano 
contém cerca de 86 bilhões de neurônios, em vez dos 100 bilhões supostos 
antes (LENT et ai., 2012). 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Há diversos neurotransmissores com funções específicas no organismo e o 
desequilíbrio em um ou mais neurotransmissores resulta em patologias como 
depressão, ansiedade, esquizofrenia, entre outras. Portanto, é essencial que os 
neurotransmissores tenham a sua produção normalizada, bem como a comu-
nicação entre os neurônios nos diversos circuitos cerebrais, de forma a garantir 
a homeostasia do organismo. Entender as funções dos neurotransmissores é 
essencial para que o psicólogo compreenda as doenças ocasionadas pela dis-
função dessas substâncias químicas, além de ampliar o conhecimento sobre as 
terapias medicamentosas que podem ajudar o paciente, desde que avaliadas e 
prescritas pelo médico. 
• 
Sinapse química 
Os neurônios são células nervosas capazes de receber e conduzir impulsos 
nervosos. A comunicação se dá por sinapses químicas, ou seja, ocorre através 
de mediadores químicos, denominados neurotransmissores. Para compreen-
der as diferentes funções dos neurotransmissores do SNC, é preciso analisar a 
anatomia do neurônio, célula produtora dos neurotransmissores. O neurônio é 
constituído pelos dendritos (local em que há a recepção de um novo sinal), cor-
po celular ou soma (local de produção dos neurotransmissores e que contém 
as organelas da célula), axôn io (local em que o sinal elétrico é propagado até 
alcançar o terminal axonal) e o terminal axonal (local das vesículas sinápticas 
que contêm neurotransmissores sintetizados). 
Entre um neurônio e outro existe um espaço microscópico, designado como 
fenda sináptica, local no qual um neurotransmissor é liberado pelo neurônio 
pré-sináptico e, então, esse neurotransmissor é percebido pela 
membrana dos dendritos de um neurônio pós-sináptico. Essa 
recepção de sinais acontece porque existem inú-
meros receptores na membrana dos dendritos. 
Os receptores recebem o sinal por meio da li-
gação do neurotransmissor num receptor e, 
dessa forma, um impulso nervoso se sucede, 
a depender da substância química liberada na 
fenda sináptica. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Alguns neurotransmissores têm características excitatórias, enquanto ou-
tros têm aspectos inibitórios ou funcionam como moduladores. Tudo varia 
conforme as funções dos neurotransmissores e dos receptores ativados. Tais 
substâncias químicas podem ser comparadas com uma "chave" e os recepto-
res com uma "fechadura". Logo, cada neurotransmissor só se encaixa num re-
ceptor específico, desencadeando os efeitos fisiológicos. Assim, cada chave só 
abre sua respectiva fechadura. Em outras palavras, isto significa que o neuro-
transmissor acetilcolina só estimula receptores colinérgicos (a fechadura corre-
ta da chave/neurotransmissor), enquanto a noradrenalina não pode estimular 
os mesmos receptores. 
Sinapse 
úcleo Axônio Dendr· Núcleo Axônio Dendritos Sinapse 
Dendritos -- - ..... ~ 
Soma \ 1 •S elétric ' Soma llii ,;. , elétrico 
" ' ' --------------,,--------------' '--------------,,--------------' . ' 
Neurônio Neurônio 
Figura 2. Anatomia do neurônio. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 05/10/2021. 
Na Figura 2, é observada a anatomia do 
neurônio e a sinapse, local em que os neu-
rotransmissores são liberados. Nos den-
dritos, se localizam os receptores e, quan-
do um neurotransmissor é liberado pelo 
neurônio pré-sináptico na fenda sináptica, 
há o estímulo do neurônio pós-sináptico. Se 
esse estímulo é excitatório, como acontece com 
um neurotransmissor chamado de glutamato, o 
neurônio pós-sináptico sofre um potencial de 
ação (o que também pode ser denominado de 
impulso nervoso). 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Mitocôndria 
e 
Vesículas 
Recaptação 
de impulso 
Neurotransmissor 
' 
• • 
• ••• •••••• ...... 
• 
• 
Axônio 
o 
Receptor 
Figura 3. Sinapse química. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 05/10/2021. 
Na Figura 3, é possível ver a fenda sináptica (1) (que libera o neurotrans-
missor), as vesículas sinápticas (2), nas quais os neurotransmissores são 
armazenados, além dos receptores presentes na membrana do neurôn io 
pós-sináptico (3). Entre os neurotransmissores mais conhecidos, estão acetil-
colina, norepinefrina (também chamada de noradrenalina), histamina, ácido 
gama-aminobutírico (GABA), serotonina e glutamato. 
•• 
Como ocorre a liberação de um neurotransmissor? 
A liberação dos neurotransmissores depende da ocorrência de um poten-
cial de ação. Para entender como acontece o potencial de ação, é preciso com-
preender como é a membrana do neurônio em repouso, isto é, polarizada.A 
membrana externa e interna do neurônio é comparável a uma "pilha" com po-
los diferentes entre o meio externo e o meio interno. Quando a membrana do 
neurônio está polarizada (em repouso) o meio extracelular tem predominância 
positiva, enquanto o meio intracelular tem predominância negativa, algo que 
se dá por conta do funcionamento da bomba sódio/potássio/ATPase, um trans-
portador que funciona com gasto de energia. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Esse transportador "bombeia" 3 íons Na+ (sódio) para fora da célula (meio 
extracelular) e 2 íons K+ (potássio) para dentro da célula (meio intracelular). 
Dada a diferença de concentração (mais cargas positivas fora da célula do que 
dentro da célula, na proporção 3:2), o meio extracelular é mais positivo que o 
meio intracelular. Além disso, outros íons de carga negativa estão aprisionados 
dentro da célula, deixando a membrana interna negativa. Na Figura 4, se obser-
va o exemplo de uma membrana do neurônio polarizada (em repouso). 
• ATP 
Espaço •• / 
extracelular ~ 
Citosol 
Bomba sódio-potássio 
ADP; 
p 
• •• 
ADP 
p 
\T 
Figura 4. Bomba sódio-potássio Fonte: Shutterstock. Acesso em: 05/10/2021. 
Alto {Na') 
Baixo {K') 
p 
Alto {Na·) 
Baixo {K') 
Na Figura 4, é notada a alta concentração de sódio (Na+) e a baixa con-
centração de potássio (K+) no meio extracelular. Já no meio intracelular, há 
uma alta concentração de potássio (K+) e uma baixa concentração de sódio 
(Na+). Quando o neurônio recebe um estímulo (através de um neurotransmis-
sor que ativa os receptores), ocorre uma alteração da disposição de cargas 
elétricas, de modo que se abrem canais de Na+ e mais Na+ entra na célula, 
despolarizando-a. 
Este processo é denominado de potencial de ação ou impulso nervoso e 
ocorre ao longo do neurônio, começando no corpo celular e se propagando 
ao longo de todo o axônio. À medida que o Na+ entra na célula, canais de K+ se 
abrem e o K+ sai da célula (ou seja, as cargas se invertem). Na Figura 5, é descrita 
a sequência de eventos que caracterizam essa alteração de polaridade. 
PSICOFARMACOLOGIA 
Potencial de ação 
+ + + - - - + + + + + + 
u w w ww_, 
~ ---~- w 1 ~ w 
w 
~ ~ 
~ 
~ 
- - - + + + - - - - - -
Potencial de repouso Despolarização Repolarização De volta ao potencial de repouso 
Figura 5. O potencial de ação. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 05/10/2021. 
No primeiro quadrante da figura, é visualizado o potencial de repouso, ou 
seja, mais Na+ no meio ext racelular e mais K+ no meio intracelular. No segundo 
quadrante, se observa o processo de despolarização, com a abertura de canais 
de Na+ e a consequente entrada (influxo) de Na+ para o meio intracelular. No 
terceiro quadrante, há a repolarização, em razão da abertura de canais de K+ e 
a saída (efluxo) do K+ do meio intracelular para o meio extracelular. No quarto 
quadrante, se vê a restauração do potencial de repouso, graças às ações da 
bomba sódio potássio ATPase (um transportador que funciona com gasto de 
energia), ou seja, tudo retorna à polaridade de repouso (mais Na+ no meio ex-
tracelular e mais K+ no meio intracelular). A fim de liberar neurotransmissores 
para a comunicação entre um neurônio e outro, esse processo é cíclico, ou seja, 
o potencial de ação acontece o tempo todo. 
ASSISTA 
O potencial de ação é uma corrente elétrica que acontece 
ao longo do neurônio graças ao movimento de íons decor-
rentes de canais localizados na membrana plasmática do 
neurônio. No vídeo Potencial de Ação: Animação, é possí-
vel assistir à animação sobre o potencial de ação. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
O esquema de eventos que ocorrem a nível sináptico é descrito a seguir: 
• O potencial de ação é propagado ao longo do axônio do neurônio pré-sináptico, 
de forma a alcançar o botão axonal; 
• A despolarização resulta na abertura de canais de cálcio (Ca2+) com voltagem 
dependente, ou seja, canais de Ca2+ se abrem e fazem com o que o íon Ca2+ entre na 
célula, estimulando o processo de exocitose das vesículas pré-sinápticas e liberando 
o neurotransmissor dentro da vesícula na fenda sináptica; 
• O neurotransmissor se difunde pela fenda sináptica e atinge a membrana pós-
-sináptica, que tem afinidade química com os receptores do neurônio pós-sináptico; 
• A interação do neurotransmissor com os receptores pós-sinápticos provoca 
uma alteração da permeabilidade na membrana do neurônio pós-sináptico; 
• Quando a alteração de permeabilidade acontece no neurônio pós-sináptico, 
um estímulo é estabelecido e pode resultar num novo potencial de ação; 
• O estímulo só gera um potencial de ação se o neurotransmissor envolvido é 
excitatório, ou seja, se ele estimula a despolarização da membrana pós-sináptica (a 
entrada de cargas positivas dentro da célula). Alguns neurotransmissores possuem 
características inibitórias. 
Nessa segunda situação, um neurônio inibitório produz a hiperpolarização da 
célula (a entrada de cargas negativas dentro da célula) e o neurônio é impedido de 
sofrer potencial de ação. Portanto, se um neurotransmissor é excitatório, ele produz 
despolarização (carga positiva), também chamada de PEPS (Potencial Excitatório 
Pós-Sináptico). Quando um neurotransmissor é inibitório, ele produz hiperpolariza-
ção (carga negativa), também denominada de PIPS (Potencial Inibitório Pós-Sináp-
tico). Como visto no processo, a exocitose das vesículas pré-sinápticas ocorre pela 
entrada do íon cálcio (Ca2+), o que resulta na liberação do neurotransmissor na fenda 
sináptica. 
EXPLICANDO 
A exocitose é um processo mediado pelo íon (cálcio) Ca2+. O íon Ca2+ está 
bastante relacionado com processos fisiológicos de contratilidade (promove 
contração). Neste caso, após a entrada de Ca2+, as vesículas pré-sinápticas 
que contêm os neurotransmissores irão se locomover até se difundirem com 
membrana do neurônio. É neste momento que vesícula libera o neurotrans-
missor na fenda sináptica. Uma vez liberado na fenda sináptica, o neurotrans-
missor poderá interagir por afinidade química com os receptores pós-sinápti-
cos (localizados no neurônio pós-sináptico), e desencadear uma resposta. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Entendendo a síntese e as funções dos diversos 
neurotransmissores 
•• 
O neurotransmissor é um mensageiro químico que leva uma mensagem do 
neurônio pré-sináptico para o neurônio pós-sináptico. Para que a liberação do 
mensageiro aconteça, o neurônio é estimulado e inicia o processo de despolariza-
ção, desencadeando a propagação do impulso nervoso. Quando o estímulo alcan-
ça o terminal axonal do neurônio, há a entrada de Ca2+, o que garante a exocitose, 
e, por fim, a liberação do neurotransmissor na fenda sináptica. Logo, é importante 
compreender como os neurotransmissores são produzidos e quais suas funções 
fisiológicas. 
Os neurotransmissores são produzidos pelos neurônios. Os primeiros neuro-
transmissores descritos, a noradrenalina e acetilcolina, estão presentes também 
no SNP (sistema nervoso periférico), respectivamente, no sistema simpático e pa-
rassimpático. Um neurotransmissor é uma molécula simples, que pode ser um 
aminoácido, uma monoamina ou um polipeptídio. A diferença entre esses dois 
últimos é que uma monoamina é sintetizada a partir de um aminoácido e um po-
lipeptídio, por sua vez, é constituído de uma cadeia de três ou mais aminoácidos. 
Cada neurônio especializado produz um neurotransmissor específico, isto é, 
um neurônio serotonérgico produz serotonina e um neurônio noradrenérgico pro-
duz noradrenalina. Cada neurônio tem um conjunto de enzimas necessárias para 
a síntese do seu respectivo neurotransmissor, e cada neurotransmissor é produzi-
do a partir de um precursor específico, conforme o Quadro 1. Depois que um neu-
rotransmissor é sintetizado no corpo celular do neurônio, ele é transportado até 
as vesículas do terminal axonal, local em que ficam armazenados até o momento 
da liberação do neurotransmissor na fenda sináptica. 
QUADRO 1. PRINCIPAIS NEUROTRANSMISSORES,SEUS PRECURSORES 
E ÁREAS DE PREVALÊNCIA 
Neurotransmissor Precursor 
Acetilcolina Colina 
Serotonina (5-HTI Triptofano 
Área de maior frequência 
SNC e SNP 
SNC, células cromafins do trato 
digestivo, células entéricas. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
1 
' 
Ácido gama-
aminobutírico (GABA) 
Glutamato 
Dopamina 
Noradrenalina 
Aspartato 
Glicina 
Histamina 
Fonte: MARTINS; DILSON, 2005, p. 22. 
Glutamato 
Glutamina 
Tirosina 
Tirosina SNC e SNP 
Aspartato 
Glicina Medula espinal 
Histidina Hipotálamo 
' 
Cada neurônio é especializado na síntese de um determinado neurotransmis-
sor. Na Figura 6, se observa a síntese da acetilcolina. 
Terminal pré-sináptico 
Acetil Co-A 
+ 
---....,------➔ Colina 
e ACh e l e 
Colina ACh 
R R 
Figura 6. Síntese da acetilcolina Fonte: MARTINS; DILSON, 2005, p. 23. 
ACh 
ACh 
/ 
PSICOFARMACOLOGIA • 
A acetilcolina (ACh) é sintetizada, a partir de acetil-coenzima A e colina, pela 
enzima colina acetiltransferase. Após a síntese, a ACh é armazenada nas vesículas 
sinápticas e, apenas após a ocorrência de um potencial de ação, a acetilcolina é 
liberada na fenda sináptica. A acetilcolina pode ativar os receptores pós-sinápticos, 
representados na figura por "R", e ainda pode ser degradada pela enzima acetil-
colinesterase, representada na figura por "AChE". A enzima acetilcolinesterase é 
responsável pela degradação da acetilcolina em colina + acetato, sendo a colina 
reaproveitada pela célula pré-sináptica para uma nova síntese de acetilcolina. Na 
Figura 7, se observa a síntese da dopamina e da noradrenalina. 
Plasma 
l 
Tenninal pré-sináptico 
DOPA 
Metabólitos 
desaminados Plasma 
!------+t DOPAdl5Cll'boxilme 
0 
0 ieee DA 
AC .... h ___ __,/ 
í l l 
~ ? r R 1 r::;=1--Membrana __ :::::::::.__ ___ ..._1_:__ .,.__l _ _._ ..,.. _ __,~-..,..11_ •
1
pós-sin~ 
Tenninal pré-sináptico 
TIROSINA 
!-+-----+1 lirosina hidroxilme 
DOPA 
Metabólitos ____ ,., 
!--.-----+t DOPAdlSCl~lllliase 
DA 
desaminados 
Metabólito.s 
o-meti lados 
.j, 
~--NA----'/ 
Figura 7. Síntese da dopamina (a) e da noradrenalina (b). Fonte: MARTINS; DILSON, 2005, p. 24. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Os neurotransmissores dopamina e noradrenalina têm o mesmo precursor 
em comum, pois são sintetizados a partir do aminoácido tirosina. Cada neurô-
nio especializado produz as enzimas necessárias para a síntese de seu mediador 
químico. No quadrante a da Figura 7, referente à síntese de dopamina, a tirosina 
sofre ação da enzima tirosina hidroxilase, sendo transformada em um interme-
diário chamado DOPA. Depois, a enzima dopa descarboxilase transforma DOPA 
em dopamina, que é armazenada nas vesículas sinápticas. Num processo similar 
ao descrito para a acetilcolina, a dopamina estimula os receptores "R" e pode ser 
degradada pela enzima MAO (monoaminooxidase). 
No quadrante b da Figura 7, a síntese de noradrenalina é muito semelhante à 
da dopamina que, por seu turno, é formada e sofre ação de mais uma enzima da 
via chamada de dopamina beta-hidroxilase, transformando a dopamina em nora-
drenalina. No entanto, a noradrenalina é degradada pela enzima MAO (monoami-
nooxidase) ou pela enzima COMT (catecol-o-metil-transferase). Após a produção, 
os neurotransmissores podem ser liberados na fenda sináptica para estimular o 
receptor pós-sináptico, no entanto, ele não é o único destino do neurotransmis-
sor. Por questões fisiológicas regulatórias, há enzimas responsáveis por finalizar 
as ações dos neurotransmissores. 
Desta forma, a AchE (acetilcolinesterase) degrada a acetilcolina e 
a MAO, a dopamina e a noradrenalina. Quando as concentrações 
de um neurotransmissor estão elevadas na fenda 
sináptica, essas enzimas se encarregam de fazer a 
degradação do neurotransmissor que não pode 
mais gerar estímulos nos receptores pós-sináp-
tico. Além disso, os neurotransmissores são re-
captados por transportadores especializados, 
chamados também de bomba de recaptação. 
EXPLICANDO 
Bombas de recaptação, ou apenas transportadores de recaptação, são 
proteínas que captam o neurotransmissor da fenda sináptica e trazem de 
volta para o neurônio pré-sináptico, impedindo que o neurotransmissor 
ative os receptores. Assim sendo, quando o neurotransmissor tem alta 
concentração na fenda sináptica, as enzimas e as bombas de recaptação 
contribuem para a redução das ações dos neurotransmissores. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
, 
E importante conhecer as enzimas que degradam os neurotransmissores e o 
funcionamento das bombas de recaptação, pois é a base para compreender o me-
canismo de ação de alguns psicofármacos. Os neurotransmissores têm funções 
diversas no organismo, a depender do circuito neuronal envolvido, logo, é quase 
impossível atribuir uma única função a um determinado neurotransmissor. No 
Quadro 2, são citadas funções importantes de cada neurotransmissor. 
' 
' 
QUADRO 2. NEUROTRANSMISSORES E FUNÇÕES RELACIONADAS 
Neurotransmissor 
Acetilcolina 
Dopamina 
Noradrenalina 
Serotonina 
Ácido gama-
aminobutírico (GABA) 
Glutamato 
Histamina 
~ 
Funções relacionadas 
Função motora, cognição. 
Função motora, afeto, motivação, prazer, vício, humor, funções 
endócrinas (hormônio Prolactina). 
Humor, alerta, concentração, fome/saciedade, dor. 
Humor, medo, preocupação, ansiedade, fome/saciedade, dor. 
Inibição geral (principal neurotransmissor inibitório do SNC). 
Excitação geral (principal neurotransmissor excitatório do SNC). 
Vigília, alerta, concentração, fome/saciedade. 
• 
Patologias associadas às disfunções dos neurotransmissores 
Diversas patologias ocorrem em razão de uma disfunção dos neurotransmis-
sores. Um paciente com depressão, por exemplo, tem menor concentração e 
ação dos neurotransmissores serotonina, dopamina e noradrenalina. Em algum 
grau, todas essas substâncias estão envolvidas com o humor e a ausência ou 
diminuição dos neurotransmissores pode desencadear sintomas da depressão. 
Os antidepressivos, portanto, são medicamentos que aumentam estes neu-
rotransmissores no sistema nervoso central, a fim de melhorar sintomas depres-
sivos. Em outro exemplo, o transtorno de ansiedade generalizada (TAG) se dá 
por excesso das ações do neurotransmissor serotonina em circuitos cerebrais 
associados com o medo e a preocupação, em áreas do cérebro denominadas de 
amígdalas. As amígdalas cerebrais são parte de circuitos fundamentais para o 
processamento de medo, preocupação e afetos. 
PSIC0FARMAC0L0GIA • 
Conhecer as funções de cada neurotransmissor, assim como os respectivos cir-
cuitos neuronais, é fundamental para compreender as patologias associadas ao 
comportamento humano. Dessa forma, o profissional formado em psicologia pode 
orientar o paciente e compreender a necessidade de intervenção farmacológica para 
tratar disfunções.Junto à estratégia farmacológica instituída pelo médico, o paciente 
conta com o apoio do profissional de psicologia nas estratégias não farmacológicas . 
• 
Ação e efeito dos fármacos sobre o SNC 
Os psicotrópicos, também denominados psicofármacos, têm efeito no SNC 
(sistema nervoso central) através das interações com os neurônios e/ou neuro-
transmissores. Cada psicofármaco atua num receptor específico (modelo "cha-
ve-fechadura") e produz um determinado efeito farmacológico. Por exemplo, 
quando a doença do paciente está relacionada a uma menor concentração da 
serotonina, como na depressão, o objetivo do medicamento psicofármaco é 
aumentar as ações desse neurotransmissor. Quando a doença do paciente se 
associa a um aumento de um determinado neurotransmissor, como na esqui-
zofrenia (que se relaciona com o aumento do neurotransmissor dopamina), o 
fármaco deve bloquear os receptores e impedir que a dopamina os ative. Ou 
seja, a farmacologia tem como base a fisiopatologia. 
Em suma, é possível afirmar que os psicofármacos imitam ou aumentam 
uma substância endógena em falta, da mesma forma que eles podem bloquear 
as ações de uma substânciaendógena em excesso. Tudo isso é pensado pela 
indústria farmacêutica no desenvolvimento do medicamento, visto que, para 
obter as ações farmacológicas desejadas, as interações com o organismo de-
vem acontecer de forma correta. 
o 
\ 
CURIOSIDADE 
Em média, leva de 12 a 15 anos para que um novo medicamento chegue 
ao mercado. Quando a indústria tem uma proposta de pesquisa, demora 
muitos anos para testar possíveis candidatos a princípios ativos/drogas. A 
pesquisa e desenvolvimento de um medicamento envolve a pesquisa bá-
sica realizada em animais, com testes de toxicidade e, logo depois, para a 
avaliação de eficácia, em humanos. Por essa razão, medicamentos novos 
chegam às farmácias a um preço mais alto, pois o laboratório se vale da 
patente para recuperar os investimentos financeiros da pesquisa. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Fazendo uma analogia para ilustrar o processo interação do ligante endó-
geno ao receptor, em especial quando o objetivo de um medicamento é imitar 
ou mimetizar uma substância endógena, tais medicamentos funcionam como 
"chaves", ativando um receptor específico, isto é, "uma fechadura". A chave re-
presenta um medicamento que precisa ativar um receptor específico e cada 
medicamento só ativa sua fechadura específica (o receptor específico). 
A indústria farmacêutica avalia essas interações nos estudos pré-clínicos e 
o mesmo acontece com as substâncias endógenas: a Ach (acetilcolina) só ativa 
os receptores específicos denominados de colinérgicos e não consegue ativar, 
por exemplo, os receptores dopaminérgicos da dopamina. Dessa maneira, o 
organismo é perfeito e as interações se dão com total maestria. 
•• 
Fármacos depressores do SNC 
Substâncias classificadas como depressoras do SNC (sistema nervoso cen-
tral), produzem hiperpolarização dos neurônios e impedem a ocorrência de 
um potencial de ação. Para compreender esse processo, uma substância endó-
gena, o GABA {ácido gama-aminobutírico), principal neurotransmissor inibi-
tório do SNC, serve de exemplo. O GABA é um neurotransmissor que ativa os 
receptores gabaérgicos, embora haja outros receptores, o receptor do GABA 
mais importante para esse efeito é denominado de receptor GABA-A. 
Quando o neurotransmissor GABA ativa o seu receptor localizado na região 
dendrítica do neurônio, ocorre uma mudança de 
potencial de membrana. Voltando ao potencial 
de ação, é observada a relação do potencial 
de ação com a entrada do íon Na+. Pois bem, 
quando o GABA neurotransmissor ativa ore-
ceptor GABA-A, há a abertura de um canal iô-
nico presente no receptor, com a entrada do íon 
cloreto (CI-) de carga negativa. Com a entrada de 
CI- no meio intracelular do neurônio, ele fica hiper-
polarizado. Todo neurônio hiperpolarizado fica 
impedido, ao menos por um tempo, de produzir 
um potencial de ação. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Isso acontece com diversas substâncias inibitórias e, portanto, depressoras 
do SNC, caso dos fármacos da classe dos barbitúricos e dos benzodiazepínicos, 
utilizados para tratar, respectivamente, epilepsia e ansiedade. O mesmo acon-
tece com o álcool, que também é uma substância ansiolítica (reduz os sintomas 
de ansiedade) e, em geral, produz relaxamento e despreocupação. O uso exces-
sivo desses medicamentos depressores do SNC gera intoxicação no paciente, 
pois pode ocorrer a depressão do centro respiratório, o que induz ao óbito. 
Por essa razão, o uso de medicamentos com ação no sistema nervoso central é 
controlado por meio de receita médica, que deve ficar retida na farmácia . 
•• 
Fármacos estimulantes do SNC 
Substâncias classificadas como estimulantes do SNC (sistema nervoso cen-
tral) produzem a despolarização dos neurônios e geram um potencial de ação. 
Para compreender este processo, é possível exemplificar com uma substância 
endógena, o glutamato, o principal neurotransmissor excitatório do SNC. De 
forma semelhante, o glutamato ativa os seus receptores específicos da classe 
de receptores glutamatérgicos (a chave só entra na fechadura certa). 
Dessa forma, o glutamato pode ativar os receptores NMDA (N-Metil-D as-
partato), nome de um dos receptores 
do glutamato que também contém 
um canal iônico. Quando ativado pelo 
glutamato, se dá a abertura dos ca-
nais iônicos e a entrada de Na+ (sódio) 
e de Ca2+ (cálcio) para o meio intracelu-
lar. Como são íons de cargas positivas, 
a despolarização acontece. 
Nem todos os psicofármacos têm ações inibitórias ou estimulatórias, em-
bora esses mecanismos sejam importantes para uma grande variedade de me-
dicamentos. Certos produtos têm ações distintas, assim como as substâncias 
endógenas. Nem todo o neurotransmissor é inibitório ou estimulatório, como 
acontece com o GABA e o glutamato. Alguns neurotransmissores modulam 
processos diversos em muitos circuitos neuronais distintos e suas ações de-
pendem do circuito neuronal e do receptor a ser ativado. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Uma substância endógena pode ativar alguns receptores específicos. Fa-
zendo uma analogia, é como se a "chave" abrisse mais de uma "fechadura". A 
dopamina, por exemplo, é um neurotransmissor que ativa receptores inibitó-
rios e estimulatórios da dopamina, logo, as respostas da dopamina dependem 
de qual receptor é estimulado. Compreender tais processos de forma minucio-
sa envolve um estudo detalhado de neurofisiologia e os circuitos neurona is . 
Influência dos fármacos sobre as emoções e no 
comportamento humano 
• 
Muitos psicofármacos presentes na terapêutica são aproveitados para 
tratar transtornos de humor, como a depressão e o t ranstorno bipolar, sendo 
medicamentos que normalizam a concentração dos neurotransmissores e as 
suas respectivas ações no cérebro, uma vez que tais disfunções se relacionam 
com uma alteração neuroquímica na quantidade de neurotransmissores es-
pecíficos. No entanto, embora os psicofármacos objetivem melhorar o humor 
e o comportamento, eles também prejudicam o comportamento do paciente 
em determinado grau. 
De uma forma geral, todo o medicamento é produzido para uma deter-
minada eficácia terapêutica, ou seja, uma indicação clínica. Apesar disso, os 
medicamentos têm ações inespecíficas e interagem com outros receptores, 
enzimas ou transportadores que não são de interesse para aquela indicação, 
ou seja, o paciente apresenta uma reação adversa, um efeito nocivo (ruim) 
causado pelo uso de um medicamento, mesmo quando o paciente utiliza 
para a indicação terapêutica correta e na dose correta conforme recomen-
dação do médico e da bula do produto, durante o período correto. Em outras 
palavras, o paciente pode ter uma reação adversa ao medicamento (RAM) 
mesmo fazendo tudo certo. 
Isto não significa que o paciente apresenta todas as RAMs que estão na 
bula do medicamento. Na bula dos medicamentos, existe uma lista de rea-
ções adversas mais observadas nos estudos clínicos do medicamento, com 
suas respectivas incidências, isto é, se a reação adversa é comum ou rara. 
O paciente pode apresentar ainda uma reação adversa diferente das deter-
minadas em bula e, neste caso, é sempre interessante notificar a indústria 
PSICOFARMACOLOGIA • 
farmacêutica através de uma ligação ao SAC (Serviço de Atendimento ao Consumi-
dor). Tal processo abrange uma área muito importante da farmácia, que envolve 
a farmacovigilância. De acordo com o Guia de farmacovigilância para detentores de 
registros de medicamentos, editado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2010, p. 13): 
Entende-se como farmacovigilância as atividades relativas à detec-
ção, avaliação, compreensão e prevenção de efeitos adversos ou 
outros problemas relacionados a medicamentos 
, 
E de extrema importância que as reações adversas sejam relatadas e trata-
das pelo detentor do registro do produto (indústria farmacêutica fabricante do 
medicamento). Com base nas reações adversas, a indústria toma conhecimento 
das novas reações que os produtos têm na população, uma vez que, nos estudosclínicos, menos pacientes utilizam o medicamento e, após o registro do medica-
mento pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), um grande número 
de pessoas passa a usar o medicamento, sendo comum que novas reações sejam 
documentadas. 
A partir desse ponto, a segurança do medicamento é confirmada ou não, sem 
contar a possibilidade de, por exemplo, um medicamento aprovado pela ANVI-
SA apresentar reações graves na população, o que exige, dadas as reações, uma 
retirada do mercado brasileiro. Portanto, para garantir a segurança no uso dos 
medicamentos, é imprescindível informar sobre as reações adversas ao médico, 
farmacêutico ou até mesmo uma ligação para o serviço de atendimento da indús-
tria farmacêutica. 
•• 
Fármacos que podem alterar o comportamento humano 
Antes da descrição de como os fármacos atuam nas emoções e compor-
tamentos do indivíduo, é preciso contextual izar as emoções e comportamen-
tos. Ao se imaginar em uma situação de risco, por exemplo, há uma resposta 
do sistema nervoso periférico simpático, que prepara o organismo para "luta 
ou fuga". Nesse sentido, há um aumento da frequência cardíaca, os vasos se 
contraem e há pouco sangue nas extremidades (mãos e pés), pois o sangue é 
deslocado das extremidades e do sistema digestório para os grandes músculos 
das pernas e braços, preparando o corpo para a fuga. Mais sangue e mais gli-
cose precisam chegar aos grandes músculos, por isso, surge também a palidez. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
As pupilas se dilatam e o foco se centra em cada detalhe do ambiente. A boca 
fica seca e o sistema digestório funcionando menos, porque não é momento 
de fazer necessidades fisiológicas. Em resumo, a resposta autonômica acontece 
devido a estímulos do ambiente, que pode acontecer por todos os sentidos: algo 
que se vê, que ouve ou sente na pele, um cheiro ou algo que indica perigo. A 
partir de um estímulo, o sistema simpático é ativado, e essa resposta é involun-
tária, já que os circuitos emocionais do cérebro mapeiam o estado do corpo em 
relação ao ambiente. 
Quando ocorre uma alteração no corpo e/ou ambiente, o cérebro realiza al-
terações para ajudar na sobrevivência. É bem provável sentir medo na situação 
exemplificada e, nesse momento, os circuitos emocionais do seu corpo coor-
denam uma série de mudanças para programar uma ação, visto que emoções 
envolvem ações no sentido amplo da palavra. Talvez o comportamento seja de 
fuga ou talvez o corpo fique paralisado, contudo, essa orquestra de alterações 
do corpo leva segundos para acontecer. 
A emoção é um processo inconsciente e automático de coordenação de pro-
gramas de ação em todo o corpo, coordenado pelo sistema límbico do cérebro 
que, através do hipotálamo, comanda diversas outras glândulas do organismo. O 
equilíbrio biológico se altera e há uma alta produção de adrenalina e cortisol pela 
glândula suprarrenal, assim como uma descarga de noradrenalina pelos axônios 
dos nervos do sistema autônomo simpático. No auge de uma emoção, também é 
provável um comportamento automático, pois pode acontecer um "sequestro" 
do córtex pré-frontal (relacionado com as ações mais conscientes/pensadas) 
num processo emocional muito intenso e, dessa forma, o sistema límbico toma 
conta, dando margem a respostas inesperadas. 
Um outro exemplo é uma reação a um assalto. Quando se pensa nessa pos-
sibilidade, num momento de calma, se tende a pensar que, numa situação como 
esta, o correto é entregar os pertences sem reação, de forma a não colocar vidas 
em risco por um bem material. No entanto, um processo emocional muito inten-
so interfere na consciência de tomada de decisão e, por isso, certas pessoas têm 
respostas (comportamentos) mais inesperadas, como lutar com o ladrão arma-
do, ou acelerar o carro no farol vermelho sem pensar no risco de um acidente 
logo adiante. Muitas dessas pessoas se colocam em risco de forma inconsciente 
porque o sistema límbico toma conta de suas emoções e ações. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
De maneira simplificada, se entende por comportamento como um conjun-
to de reações e atitudes que o indivíduo demonstra, em resposta a estímulos 
que recebe do ambiente. Uma exteriorização de algo interno a uma pessoa. 
Se as emoções e comportamentos se relacionam com a exteriorização do que 
acontece no interior do indivíduo, não é difícil imaginar que o uso de medica-
mentos que alteram as funções fisiológicas também pode alterar as emoções 
e os comportamentos. 
Alguns medicamentos, como o salbutamol (utilizado para tratamento da 
asma), resultam em reação adversa, com aumento da frequência cardíaca. 
Quando o paciente percebe que está com taquicardia, ele tende a ter uma res-
posta mais ansiosa, porque a taquicardia é um sintoma autonômico da ansie-
dade. A cafeína é uma substância ansiogênica, ou seja, aumenta a ansiedade, já 
o álcool é ansiolítico, ou seja, reduz a ansiedade. Desta maneira, é possível citar 
diversas substâncias que alteram o comportamento. 
• 
Fármacos e o risco de suicídio 
Esse é um tema muito relevante, uma vez que há medicamentos que indu-
zem alterações que decorrem em pensamentos e comportamentos suicidas. Es-
tudos sugerem que determinados anticonvulsivantes podem manifestar ideação 
suicida em pacientes que tratam de epilepsia. Entre as drogas dessa classe tera-
pêutica, estão gabapentina, lamotrigina, oxcarbazepina e tagabina. 
Em 2018, o FDA emite um alerta sobre o risco aumentado de 1.8 vezes o risco 
de suicídio entre os usuários de drogas antiepilépticas. Além disso, a epilepsia 
se relaciona com transtornos psiquiátricos, como alteração de humor unipolar 
(depressão) ou bipolar (transtorno bipolar), o que potencializa ainda mais os ris-
cos. Diversas outras alterações comportamentais ocorrem em pacientes com 
epilepsia, variando entre quadros depressivos e ansiosos até mesmo quadros 
psicóticos graves. 
A carbamazepina e o ácido valpróico/valproato de sódio são empregados 
como moduladores do humor para a profilaxia do transtorno afetivo bipolar. Os 
mecanismos exatos que justificam o aumento do risco de suicídio não estão es-
clarecidos, no entanto, é recomendado que pacientes sejam monitorados quan-
to a ideação e comportamento suicida, considerando o tratamento adequado. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
• 
A dependência e a abstinência 
A dependência se estabelece quando há um investimento desproporcional 
do indivíduo para uma substância específica, de tal forma a prejudicar a partici-
pação do indivíduo em outras esferas da vida. Em resumo, quando o indivíduo 
se torna dependente, ele tem dificuldade de deixar de usar essa substância 
e renuncia a outras atividades rotineiras para conseguir o objetivo de usar a 
substância outra vez. 
Quando se pensa em dependência, a tendência é lembrar de substâncias 
como cocaína, crack, anfetaminas, etc. No entanto, muitos medicamentos se-
guros também possuem potencial para psicodependência, exercendo o mes-
mo ciclo de busca pela substância exposto na dependência por drogas ilícitas. 
Na ausência das ações do medicamento, o indivíduo apresenta sinais e sin-
tomas que reforçam a falta da substância e que é característico da crise de 
abstinência. A dependência física, a dependência psicológica e a tolerância 
contribuem para o estado geral de dependência, no qual o uso da droga se 
torna cada vez mais compulsivo. 
•• 
A dependência física e psicológica 
A dependência física se relaciona ao funcionamento no corpo, no qual o 
indivíduo precisa da droga para manter o seu organismo em homeostase, ou 
seja, em equilíbrio. Se o paciente fica sem o medicamento, ele desenvolve sin-
tomas específicos, de acordo com a droga envolvida e, portanto, passa mal. Na 
ausência da substância, uma resposta alerta sobre a falta da substância e estes 
sintomas caracterizam a síndrome de abstinência. 
A dependência psicológica está relacionada à substância e é causada pelos 
efeitos psicológicos pretendidosdas substâncias viciantes, acontecendo quando 
a substância promove euforia e bem-estar. Os mecanismos relaciona-
dos a essa busca constante são explicados pelas ações que 
acontecem numa área no cérebro denominada de área de 
recompensa, composta por neurônios dopaminérgicos 
(produtores de dopamina) que se projetam da área tegu-
mentar ventral para o nuc/eus accumbens. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Esses neurônios são de fundamental importância para o desenvolvimen-
to da recompensa, pois muitos estudos demonstram que a secção dessa via, 
ou o uso de drogas bloqueadoras dos receptores dopaminérgicos, resulta em 
redução dos efeitos de recompensa no cérebro. Em resumo, o uso de substân-
cias que promovem essa euforia se associa ao aumento da liberação do neuro-
transmissor dopamina no nuc/eus accumbens. Quando o indivíduo fica sem a 
substância, há redução dos níveis de dopamina e o indivíduo sente depressão. 
Por isso, o ciclo se reinicia com a busca constante pela substância. 
• 
Mecanismos de tolerância 
Antes de detalhar como se dão os mecanismos de tolerância, se faz neces-
sário compreender o que é tolerância, que acontece quando a administração 
repetida de uma droga não produz 
mais o mesmo efeito, exigindo doses 
superiores para produção do mesmo 
efeito farmacológico. A via de tolerân-
cia mais comum é denominada de to-
lerância farmacodinâmica, pela qual 
ocorrem alterações na expressão dos 
receptores pós-sinápticos. Vale lem-
brar que toda droga, para fazer efeito, 
interage com os receptores pós-sináp-
ticos, ou seja, o modelo "chave-fecha-
du ra" para desencadear um efeito. Nesse sentido, quando uma droga não ativa 
o receptor, ela não exerce o efeito esperado. 
Quando uma droga/fármaco é agonista em um determinado receptor, o es-
tímulo crônico do receptor pode levar a uma menor produção down regulation 
no número de receptores pós-sináptico. Neste momento, se inclui o conceito 
de agonista: quando uma droga tem afinidade por um receptor e tem também 
eficácia, ou seja, é capaz de desencadear uma resposta fisiológica. Em outras 
palavras, quando um fármaco é um agonista crônico e capaz de desencadear 
a tolerância, o organismo produz uma quantidade menor de receptores pós-
-sinápticos. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Sendo assim, quando uma nova dose da droga atinge os neurônios para 
produzir um efeito terapêutico, a ausência de receptores resulta na ausência 
de efeitos. Isso não quer dizer que todo e qualquer agonista administrado de 
forma crônica pode induzir tolerância porque, na verdade, isso pode aconte-
cer com alguns receptores específicos. Um exemplo disso são os receptores 
miopiódes, que quando estimulados de maneira crônica pela morfina, sofrem 
adaptação, de modo que os receptores são internalizados na membrana do 
neurônio e não estão mais disponíveis para a ação da morfina. 
Dessa forma, sem a interação morfina-receptor opioide, que também se 
enquadra na analogia "chave-fechadura", o mecanismo de ação da morfina no 
bloqueio da interpretação da dor não acontece de maneira correta. Portanto, é 
comum que pacientes em condições dolorosas crônicas e graves, como na on-
cologia, apresentem menor efeito farmacológico ao uso da morfina, o que difi-
culta o tratamento, uma vez que a escala de dor de um paciente oncológico tem 
impacto direto na qualidade de vida e na motivação de continuar o tratamento. 
Quando é administrado um antagonista crônico, a resposta adaptativa dos 
receptores pós-sinápticos consiste em maior síntese dos receptores, processo 
denominado de up-regulation. Mais uma vez, se inclui um novo conceito, o de 
antagonista, que é quando uma droga tem afinidade por um receptor, mas 
não tem eficácia, ou seja, não promove um efeito fisiológico e ainda impede 
que uma substância endógena ative este receptor. Como exemplo para ilustrar 
o processo de up-regulation, ele pode ser induzido por uma droga/fármaco cha-
mada haloperidol, um antagonista de recepto-
res dopaminérgicos, que reduz as ações da 
dopamina no SNC. 
Pacientes com diagnóstico de esqui-
zofrenia têm maiores concentrações do 
neurotransmissor dopamina estimulando 
os receptores dopaminérgicos na via meso-
límbica, o que resulta em sintomas caracterís-
ticos da esquizofrenia como os delírios e as aluci-
nações. O fato é que a administração crônica do 
haloperidol, um antagonista resulta em maior 
expressão dos receptores dopaminérgicos. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Dessa forma, uma mesma dose de haloperidol passa a não bloquear todos 
os receptores dopaminérgicos e, devido a uma maior concentração de recep-
tores dopaminérgicos, a dopamina volta a exercer efeitos nestes receptores. 
Nesse caso, o paciente volta a ter surtos psicóticos. Mais uma vez, o desenvol-
vimento de tolerância se dá quando, numa mesma dose, o medicamento não 
produz a mesma eficácia, sendo necessário aumentar as doses para a obten-
ção do mesmo efeito farmacológico. Tanto pelo mecanismo de down-regulation 
induzido por um agonista crônico quanto pelo mecanismo de up-regu/ation in-
duzido pelo antagonista crônico, as medicações têm efeito reduzido e, portan-
to, se delimita a tolerância. 
Não obstante, a tolerância se estabelece não apenas por esses mecanis-
mos farmacodinâmicos, pois ela pode ser explicada também por mecanismos 
farmacocinéticos, como alterações no metabolismo de drogas/fármacos em 
que o uso de alguns medicamentos induz o metabolismo a trabalhar de modo 
mais rápido e, quando uma droga é metabolizada de forma mais rápida, isso 
significa dizer que a excreção da droga também é mais rápida, portanto, as 
concentrações plasmáticas da droga reduzem no plasma, assim como os efei-
tos farmacológicos. 
A importância da tolerância para a dependência tem resposta simples, vis-
to que, caso o paciente desenvolva dependência e as ações da droga estejam 
reduzidas por mecanismos de tolerância, o paciente utiliza uma maior dose da 
droga para obter o mesmo efeito. Como as drogas que causam dependência, 
elas têm um potencial para toxicidade e aumentar as doses pode não 
ser uma alternativa muito segura, pelo menos até um certo limite. 
O uso de morfina em altas doses, por exemplo, resulta em 
intoxicação, pois essa droga se associa com a depressão 
do centro respiratório do SNC, induzindo à parada respi-
ratória e morte. 
Síndrome de abstinência 
•• 
Os sintomas específicos da síndrome de abstinência dependem da subs-
tância envolvida na dependência física. No Quadro 3, são exemplificados os 
sintomas de abstinência. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
QUADRO 3. SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA 
Classe Exemplo de Efeitos esperados Efeitos esperados na do medicamento 
terapêutica droga (farmacodinâmica) crise de abstinência 
Analgesia 
Constipação Algesia 
Opioides Morfina Sedação 
Diarreia 
Euforia Estado de alerta 
Depressão respiratória Disforia 
(altas doses) 
Depressão do SNC 
Efeito anticonvulsivante Estimulação do SNC 
Benzodiazepínicos Diazepam 
Efeito ansiolítico Precipita crise convulsiva 
Efeito hipnótico (indução Efeito ansiogênico 
do sono - tratamento da Insônia 
insônia) 
Na crise de abstinência o paciente vivencia efeitos opostos aos das ações 
farmacológicas do medicamento. Se a morfina produz analgesia, a sua retira-
da produz algesia (dor), constipação ou diarreia e, assim, de maneira suces-
siva, conforme o Quadro 3. Para minimizar os efeitos da possível abstinência 
na retirada abrupta de uma medicação, é necessário que o médico programe 
a retirada do medicamento por meio do processo de desmame. 
O desmame é a retirada gradual do medicamento, algo que implica na 
redução das doses diárias da quantidade administrada numa única dose e 
também na soma administrada por dia. Se o paciente faz uso de um compri-
mido de um dado medicamento, o médico pode solicitar um comprimido a 
cada dois dias, ou meio comprimido ao dia por alguns dias, até a retirada total 
do medicamento. 
Quando o desmame é feito de forma graduale segura, a chan-
ce de abstinência é menor ou, caso ocorra, os sintomas são 
menos acentuados. A síndrome de abstinência se 
aplica a outras substâncias com ação no sistema 
nervoso central. A interrupção do uso de álcool, 
por exemplo, em razão dos efeitos ansiolíticos 
e sedativos, resulta em ansiedade, estado de 
alerta, convulsões, tremores, dores de cabeça, 
entre outros sintomas. 
PSIC0FARMAC0L0GIA • 
•• 
Prescrição de medicamentos psicotrópicos no Brasil 
No Brasil, a dispensação de psicotrópicos é definida na Portaria 344/98 da 
Agência Nacional de Vigilância Sanitária -ANVISA. Os profissionais prescritores 
realizam o correto preenchimento da receita médica de acordo com o tipo de 
receita (receita branca, azul, amarela). Somente os profissionais prescritores 
têm acesso a essas receitas, como o médico psiquiatra e o médico veterinário, 
por exemplo. Tais prescrições são realizadas em duas vias, sendo uma do pa-
ciente e outra da farmácia. O farmacêutico é o profissional responsável pela 
conferência da receita médica, retenção de uma via da receita e dispensação 
do medicamento, assim como a orientação do paciente quanto ao uso correto 
do medicamento. 
O profissional psicólogo não prescreve nenhum tipo de medicamento, no 
entanto, para melhor compreensão de possíveis reações adversas e alterações 
de comportamento que os pacientes possam relatar no momento de uma con-
sulta, é importante conhecer a farmacologia e as interações dos psicofárma-
cos no sistema nervoso central. Dessa forma, é imprescindível que o psicólogo 
compreenda as principais ações dos psicofármacos, de modo a auxiliar o pa-
ciente com suas dúvidas e angústias relacionadas a terapia tanto medicamen-
tosa como não medicamentosa. 
Caso necessário, o profissional deve encaminhar o paciente ao médico 
prescritor para revisão da farmacoterapia e avaliação da necessidade de mu-
dança de medicamento ou doses do produto. Quando um paciente ainda não 
é usuário de um medicamento psicotrópico, mas faz acompanhamento com o 
psicólogo, é possível que o profissional identifique os sintomas de uma doença 
psiquiátrica. Neste caso, a partir de uma HD (hipótese diagnóstica), ele deve 
encaminhar o paciente para o médico especializado. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Sintetizando • 
O sistema nervoso é responsável por todo o processamento do organismo hu-
mano, sendo o cérebro um órgão com trilhões de sinapses entre neurônios a cada 
segundo. Mais do que o cérebro, as sinapses se propagam pela periferia do corpo, 
algo garantido pela integração entre o SNC e o SNP. Tudo o que se faz, de forma 
voluntária ou involuntária, é processado pelo SNC. 
Para que as sinapses químicas aconteçam, tudo se inicia por uma alteração 
de voltagem, mediada por concentrações de íons entre os meios intracelular e 
extracelular de um neurônio. Após a despolarização da membrana, como resul-
tado, há a liberação de um mediador químico na fenda sináptica, conhecido por 
neurotransmissor. 
Os medicamentos psicofármacos têm ação estimulatórias ou inibitórias nos 
neurônios e tudo depende das alterações de voltagem produzidas na membrana 
celular dos neurônios. Certos medicamentos produzem hiperpolarização (predo-
minância de carga negativa no meio intracelular), portanto, são depressores do 
SNC, ao passo que outros medicamentos produzem a despolarização dos neurô-
nios (predominância de cargas positivas no meio intracelular), sendo estimulan-
tes do SNC. Outros psicofármacos, no entanto, funcionam como moduladores 
e ativam ou bloqueiam as ações dos neurotransmissores, interferindo na ligação 
direta com os receptores de membrana dos neurônios. 
Os psicofármacos interferem nas emoções e no comportamento humano e, 
por essa razão, é importante conhecer as ações farmacológicas e entender que 
tipo de alteração o paciente pode apresentar. Antes de concluir, é válido recordar 
que medicamentos psicofármacos podem desencadear, ainda, dependência física 
e psicológica, tema de muita relevância e um alerta para evitar o uso indiscrimina-
do dessas medicações. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Referências bibliográficas •• 
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comportamentais das drogas antiepilépticas e sua ação como moduladores de 
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PSICOFARMACOLOGIA • 
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STAHL, S. M. Psicofarmacologia - bases neurocientíficas e aplicações práti-
cas. 4. ed. Rio de Janeiro: GEN, 2014. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Sintetizando • 
Nesta unidade, foi possível constatar que as substâncias psicoativas, tam-
bém denominadas de drogas, são comuns desde a pré-história, quando eram 
usadas para guerrear, confraternizar, rezar e socializar. Na Antiguidade, o uso 
das substâncias que alteravam a consciência era controlado pelas leis e pelos 
costumes das próprias culturas, porém, na atualidade, o mesmo hábito adqui-
re conotações variadas devido à ilegalidade de algumas das substâncias ou ain-
da pelo potencial agravante à saúde de algumas dessas substâncias. 
Entretanto, é possível afirmar que o controle dessas substâncias se dá ain-
da da mesma forma, ou seja, pela formalidade, na forma das leis que as regu-
lamentam, ou pela informalidade, por meio dos costumes de cada contexto 
social. É possível constatar também que o uso de substâncias psicoativas na 
contemporaneidade, assim como na Antiguidade, fomenta a comercialização 
lícita de medicamentos, por meio de emissão e retenção das prescrições mé-
dicas no tratamento de doenças do organismo e das doenças da mente. Estas 
mesmas substâncias também são comercializadas de forma ilícita, gerando 
violência e consideráveis desigualdades sociais. 
O uso de substâncias psicoativas foi estigmatizado desde a Antiguidade, 
quando a Igreja passou a questionar seus efeitos considerados como mágicos 
e a classificar seus usuários como impuros, punindo-os com tortura ou morte, 
fato que acabou por levar a questão do uso dessas substâncias para o contextopol ítico e econômico que, com o passar dos anos, contribuiu para estigmatiza-
ção dessas substâncias. A ciência já provou que as consequências psíquicas do 
uso de substâncias psicoativas são relevantes e, por essa razão, se faz necessá-
rio um acompanhamento médico, psicológico e psiquiátrico. 
No Brasil, com o intuito de verificar a melhor forma de fazer uso dessas substân-
cias para o tratamento das patologias do corpo e da mente, há instituições sérias 
estudando origem, efeitos, composições e combinações possíveis. Através destes 
estudos, se verifica que a maioria das substâncias que compõem os medicamentos 
sintetizados em laboratório e vendidos na atualidade provém da natureza, e essas 
mesmas substâncias são ambíguas, ou seja, possuem características benéficas e 
características maléficas à saúde. Essa tênue diferença depende muito da dosagem 
e da combinação entre os agentes naturais e sintetizados de cada substância. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Em razão disso, tanto a fabricação quanto o controle do uso dessas subs-
tâncias deve ser realizado por especialistas. Por isso, a prescrição de psico-
trópicos realizada por médicos especialistas é uma aliada no tratamento de 
psicopatologias, pois tais prescrições devem ser acompanhadas pelo médico 
e/ou pela sua equipe multidisciplinar de forma contínua e de modo perdurável 
durante todo o tratamento, incluindo a sua suspensão que, para evitar efeitos 
colaterais, deve ser feita de modo gradativo. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Referências bibliográficas •• 
BRASIL. Ministério da Justiça. Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas. 
Prevenção dos problemas relacionados ao uso de drogas: capacitação para 
conselheiros e lideranças comunitárias. 6 ed. Brasília, 2014. 
BRASIL. Ministério da Justiça. Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas. 
Sistema para detecção do uso abusivo e dependência de substâncias psi-
coativas: encaminhamento, intervenção breve, reinserção social e acompa-
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CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas. Livreto 
informativo sobre drogas psicotrópicas. São Paulo: CLR Balieiro Editores, 2010. 
GORENSTEI N, C.; SCAVONE, C. Avanços em psicofarmacologia - mecanismos 
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v. 21, n. 1, p. mar 1999. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/rbp/a/jb7DHph-
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NOVO, M. C. D. Drogas - fora da lei e dentro do usuário. Vox Forensis, Espírito 
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OLIVEIRA, M. B. O medicamento proibido: como um derivado da maconha fo i 
regulamentado no Brasil. 2016. 313 p. Dissertação (Mestrado em Divulgação 
Científica e Cultural) - Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Esta-
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un icamp.br/hand le/REPOSIP/32091 O>. Acesso em: 13 jul. 2021. 
REIS FILHO, E. Psicanálise e psicofármacos: considerações sobre a resistência 
dos psicanalistas à psicanalise. Pulsional Revista de Psicanálise, São Paulo, v. 
18, n. 183, p. 105-111, set. 2005. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
UNIDADE 
r 
educacional 
Obietivos da unidade 
Apresentar as classes terapêuticas para o tratamento de transtornos mentais; 
Compreender o mecanismo de ação e as reações adversas dos benzodiazepínicos; 
Compreender o mecanismo de ação e as reações adversas dos neurolépticos; 
Compreender o mecanismo de ação e as reações adversas dos antidepressivos; 
Compreender o mecanismo de ação e as reações adversas dos estabilizadores 
de humor; 
Compreender o potencial risco de dependência de alguns fármacos. 
Tópicos de estudo 
Benzod iazepín icos 
O neurotransmissor GABA 
Mecanismo de ação 
Reações adversas 
Dependência 
Neurolépticos 
O neurotransmissor dopamina 
Neurolépticos de 1 ª geração 
Neurolépticos de 2ª geração 
Neurolépticos de 3ª geração 
Antidepressivos tricíclicos e 
inibidores da MAO 
Antidepressivos da classe dos 
inibidores da MAO 
Antidepressivos da classe dos 
tricíclicos 
Lítio e outras drogas antimania 
Carbonato de lítio 
Outras drogas usadas para 
tratar o transtorno bipolar 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Benzodiazepínicos 
Um transtorno mental acontece 
quando ocorre uma disfunção da 
atividade cerebral, que pode afetar 
o raciocínio, o humor, o comporta-
mento, o aprendizado ou as relações 
sociais de um indivíduo. Podemos 
exemplificar como transtornos men-
tais: a ansiedade, a depressão, o 
transtorno bipolar, o TDAH (transtor-
no de déficit de atenção e hiperati-
vidade), a demência, a esquizofrenia, 
entre outros. Os benzodiazepínicos 
são drogas utilizadas no tratamen-
to de transtornos de ansiedade, são 
usadas como drogas hipnóticas (que 
induzem o sono) e podem ser úteis 
para o tratamento da insônia. 
• 
Os benzodiazepínicos (BZD) são drogas depressoras no sistema ner-
voso central (SNC), efeito é decorrente da hiperpolarização produzida nos 
neurônios sobre a ação destas drogas. Quando um neurônio está hiper-
polarizado (contém predominância de cargas iônicas negativas no meio in-
tracelular), ele está impedido, ao menos momentaneamente, de sofrer um 
potencial de ação. 
Quando um neurônio não sofre um potencial de ação, ele não é capaz 
de produzir um impulso nervoso. Sabemos que os neurônios se comunicam, 
predominantemente, por sinapse química (Figura 1), no qual um neurotrans-
missor é produzido e liberado na fenda sináptica pelo neurônio pré-sináptico, 
de modo que este mensageiro químico poderá estimular o receptor presente 
na membrana de um outro neurônio (denominado pós-sináptico). Dessa for-
ma, o neurônio pós-sináptico recebe a mensagem do neurônio pré-sináptico, 
gerando uma alteração do potencial de membrana, o que poderá resultar na 
propagação do impulso nervoso através deste segundo neurônio. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
• 
Neurônio 
~ pré-sináptico 
• ----- Canais de Ca2·/ 
• - Neurônio pós-sináptic1 
• 
/ Neurotransmissor- • 
· : • · . · . Fenda sináptica - • 
Receptor---• 
Figura 1. Sinapse química. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 09/10/2021. (Adaptado). 
Na sinapse química (Figura 1), o neurônio pré-sináptico (1) produz e li-
bera o mensageiro químico, denominado neurotransmissor (2). Este neuro-
transmissor está armazenado nas vesículas pré-sinápticas (3) e só é liberado 
quando o neurônio pré-sináptico sofre um potencial de ação (uma alteração na 
voltagem mediada pela alteração nas concentrações de íons, entre os meios in-
tra e extracelular). Quando o potencial de ação alcança o botão terminal, ocorre 
a abertura dos canais de Ca2• (4) e a liberação no neurotransmissor por exocito-
se. O neurotransmissor atinge a fenda sináptica (5), que é um pequeno espaço 
que separa os neurônios pré e pós-sináptico. Na sequência, o neurotransmissor 
estimula o receptor (6) presente na membrana do neurônio pós-sináptico (7). 
O primeiro BZD a ser introduzido foi o clordiazepóxido, que representou o 
primeiro ansiolítico verdadeiro sem produzir sedação excessiva. O clordiazepó-
xido apresenta baixa incidência de tolerância, uma síndrome de retirada me-
nos grave que a observada com os barbitúricos (como o fenobarbital, que no 
passado, já foi utilizado para tratamento da ansiedade, entretanto, atualmente 
é utilizado somente para epilepsia). Os BZDs também possuem um índice t era-
pêutico mais seguro quando comparados aos barbitúricos. O índice terapêuti-
co está relacionado com a segurança dos medicamentos: quanto maior o índice 
terapêut ico, maior a segurança de uma droga. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
•• 
O neurotransmissor GABA 
Os benzodiazepínicos são drogas que m imetizam o neurotransmissor GABA 
(ácido gama-aminobutírico) e suas ações depressoras nos neurônios.Na Figu-
ra 2, podemos observar a síntese deste neurotransmissor nos neurônios ga-
baérgicos (neurônios produtores de GABA): 
O Glutamln• O 
NH,~0-
NH, 
1 
Glutam1nase 
(G,s,) 
◄ Gli.rtamln~ 
► 
?\ 
AOP + Pi NH••+ ATP 
2 
Gfutamic Acid O -◊xala~artate 
NHi 
H,O 
Glutamate Oxalacetate 
◄ Transm1nase ► 
◄ Gluu,mate ► HO 
?\ 
NAO" NH4 • + NAOH 
Glut,lmi( ACid 3 
Decarbo,cylase 
(GAD) 
CO, 
o o 
OH 
O a -Ketogtutarate 
Figura 2. Síntese do GABA. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 11/10/2021. 
A síntese do GABA ocorre através de um aminoácido denominado glutami-
na, primeiramente sob as ações da enzima glutaminase (Gase) (1) formando 
o ácido glutâmico (2). Os sais do ácido glutâmico são conhecidos como gluta-
mato, o principal neurotransmissor excitatório do SNC. Posteriormente, sob 
as ações da enzima descarboxilase do ácidoglutâmico (GAD) (3), ocorre a 
formação do GABA, o principal neurotransmissor inibitório do SNC. Podemos 
afirmar, então, que a síntese do GABA ocorre a partir do glutamato, embora as 
funções destes neurotransmissores sejam opostas. 
Os BZDs têm sítios de ligação ao receptor GABA-A e potencializam os efeitos 
inibitórios do GABA. Os BZDs funcionam como moduladores alostéricos po-
sitivos, ou seja, quando um BZDs se liga no receptor GABA-A, ocorrem altera-
ções neste receptor que aumentam a afinidade do GABA (neurotransmissor) ao 
PSICOFARMACOLOGIA • 
receptor GABA-A. Uma vez que esse receptor é ativado por GABA, ocorre um 
aumento na frequência de abertura de canal de cloreto, o que resulta em uma 
hiperpolarização. Na ausência de GABA, no entanto, os BZDs não têm efeito na 
abertura do canal de CI- (cloreto). 
Aparentemente a presença de BZD altera o estado físico dos receptores, e 
então o GABA abre os canais mais facilmente os canais de cloreto. 
A Figura 3 ilustra o receptor do GABA com suas várias subunidades. O prin-
cipal receptor do GABA é o receptor GABA-A, que contém cinco subunidades 
(que são estruturas proteicas, e cada substância endógena ou exógena ativa 
uma subunidade específica). Este receptor está fixado à membrana plasmática 
dos neurôn ios e no centro contém um canal iôn ico. Ao abrir o canal, ocor re a 
passagem do íon cloreto do meio extracelular para o meio intracelular, hiper-
polarizando os neurônios. Por conter canal iônico, o receptor GABA-A é classi-
ficado na família de receptores denominados inotrópicos. 
Receptor GABA 
Subunidade alpha 
Subunidade beta 
Subunidade ga m ma ~----...~ -
J, 
lon de CI· 
Figura 3. Receptor do GABA Fonte: Shutterstock. Acesso em: 11/10/2021. 
Subunidade alpha 
Subunidade beta 
Membrana 
plasmática 
De uma forma geral, cada receptor faz parte de uma família específica 
de receptores, e os efeitos mediados na célula dependem da resposta a este 
receptor que é estimu lado. Os receptores inotrópicos são receptores que me-
deiam a passagem de íons, cuja resposta se dá em milissegundos. 
PSICOFARMACOLOGIA 
EXPLICANDO 
Os receptores do organismo humano são classificados em famílias, a saber: 
1. lonotrópicos: receptores que contêm cinco subunidades proteicas e no 
centro contêm um canal iônico; 
2. Metabotrópicos: são receptores que estão acoplados à uma proteína, deno-
minada proteína G, responsáve l pela produção de segundos mensageiros; 
3. Enzimáticos: são receptores que estão acoplados à uma enzima denominada 
tirosina-quinase e seus efeitos dependem de fosforilação de proteínas; 
4. Nucleares: são receptores que medeiam respostas no núcleo da célula 
interferindo na síntese de proteínas. 
• 
Mecanismo de ação 
Na Figura 4, observa-se o mecanismo de ação dos benzodiazepínicos: 
o 
o 
Receptor vazio 
(sem agonistas) 
Receptor ligado 
com GABA 
Receptor ligado 
com GABA e 
benzodiazepínico 
Receptor vazio 
(sem agonistas) + a 
~b 
~ 
++ 
l'rmYiit. 
~ 
Benzodiazepínico 
+++ 
~b 
,-A-en-tr-ad-a -de-CI-· h-ip-er-po-lar-iza_a_c-élu-la-, t-or-na-nd-o-ma---,is ~M 
difícil sua despolarização e, por isso, .....__ - ~- -
reduz a excitabilidade neuronal. --,, (I· 
CI· 
~ ª-....... ~+ 
y ~ ~ O receptor vazio é inativo, e o canal WWM ....__., de cloreto acoplado está fechado. 
GABA 
1 
~ 
I· GABA 
A ligação do GABA causa abertura 
do canal de coreto, levando à 
hiperpolarização da célula. 
A ligação do GABA é potenciada 
pelo benzodiazepínico, resultando 
em maior entrada de íons cloreto. 
Figura 4. Mecanismo de ação dos benzodiazepínicos. Fonte: WHALEN; FINKEL; PANAVELIL, 2016, p. 122. 
Na Figura 4, subdividido em quatro quadrantes, podemos observar o me-
canismo de ação dos benzodiazepínicos. Informações complementares dopas-
so a passo descrito na imagem (nos quadrantes denominados A, B e C), serão 
destacadas na sequência abaixo: 
• Sem a ação de GABA, representado em A, os canais de cloreto (CI-) estão 
fechados; 
PSICOFARMACOLOGIA 
• Quando o neurotransmissor GABA ativa o receptor GABA-A (representa-
do em B), ocorre a abertura destes canais, como se fosse um portão. A aber-
tura deste portão permite a entrada dos íons cloreto {CI·). Desta forma, o 
neurônio está hiperpolarizado; 
• No entanto, quando observamos a representação em C, sob a ação 
dos benzodiazepínicos, ocorre uma alteração conformacional do receptor 
(não observado na Figura 4, pois dependeria de uma animação em 3D). 
De fato, quando o benzodiazepínico ativa a sua subunidade específica no 
receptor GABA-A, ocorre uma maior exposição do sítio de ligação do GABA 
neurotransmissor ao receptor GABA-A. Por isso, dizemos que os BZDs são 
moduladores alostéricos positivos, ou seja, sob o seu efeito, o GABA neu-
rotransmissor tem maior afinidade pelo receptor GABA-A, ampliando as 
ações do GABA. 
Os efeitos dos BZDs, portanto, dependem das ações do neurotrans-
missor GABA. Ao mesmo tempo, observamos que tanto o BZD, quanto o 
neurotransmissor GABA estão ativando o receptor GABA-A (cada qual em 
uma subunidade diferente). Observa-se também que sob a ação do BZDs 
a hiperpolarização do neurônio é maior quando comparada ao GABA sozi-
, 
nho (representado em B, na Figura 4) . E justamente isso que os BZD fazem: 
potencializam as ações do GABA neurotransmissor, e, portanto, poten-
cializam a hiperpolarização. Lembre-se que um neurônio hiperpolarizado 
está impedido de sofrer um potencial de ação e é por esta razão que os 
BZDs são depressores no SNC. 
Todos os BZDs têm estrutura molecular e mecanismos de ação similares. A 
escolha de um BZD específico para uma situação terapêutica depende prima-
riamente da velocidade de início e duração da ação da droga. 
A duração de ação é determinada por (1) diferenças em seus méto-
dos de biotransformação e (2) a extensão da red istribuição a depó-
sitos inativos, como músculo esquelét ico e gordura. Os BZD de lon-
ga duração passam por diversos passos metabólicos para produzir 
múltiplos metabólitos ativos que podem ter meias-vidas de 40 horas 
ou mais. Isto pode ser problemático para indivíduos idosos, que po-
dem acumular rapidamente estas drogas no corpo devido à redução 
na capacidade metabólica (ARAMIN I; RASTELLI , s. d .). 
PSICOFARMACOLOGIA • 
O tempo de meia-vida de um medicamento é quando as concentrações 
plasmáticas máximas se reduzem à metade. Por exemplo, se a concentração 
plasmática de um medicamento máxima é de 200mcg/ml (microgramas por 
mililitro no plasma) e, após 12 horas, esta concentração se reduz a 100mcg/ 
ml, graças às ações do metabolismo e excreção. Isso significa que o tempo de 
meia-vida desta droga é de 12 horas. 
O tempo de meia-vida é um parâmetro farmacocinético muito impor-
tante, pois é o que define o esquema posológico de um medicamento. Drogas 
com tempo de meia-vida de 12 horas, conforme o exemplo citado, devem ser 
administradas duas vezes ao dia (a cada 12 horas), se a meia-vida for de oito ho-
ras, aproximadamente, esta droga terá em bula a orientação de administração 
três vezes ao dia (um comprimido a cada oito horas). 
Perceba que isto é importantenos tratamentos crônicos, nos quais o pa-
ciente necessita de concentrações plasmáticas da droga 24 horas do dia (e a 
promoção do efeito terapêutico). Quando o paciente não segue a posologia 
correta, ficará desprovido da ação da droga. É nesse momento que um pacien-
te hipertenso, por exemplo, sofre de uma crise hipertensiva. Se as concentra-
ções da droga se reduzem a zero no plasma devido à não administração de 
uma nova dose, a patologia do paciente se manifesta em sinais e sintomas. 
Especialmente em idosos, o uso de drogas depressoras do SNC com tempo 
de meia-vida muito alto pode ser perigoso. Isso ocorre porque fármacos de-
pressores causam sono, além disso, o diazepam, por exemplo, é um potente 
relaxante muscular. Isto pode prejudicar ainda mais a ambulação do idoso e 
especialmente quando somado a outras dificuldades prévias, como o mal de 
Parkinson ou a doença de Alzheimer, em que já há um comprometimento da 
coordenação motora do paciente. 
O uso destes medicamentos pode potencializar o risco de queda. Quando um 
idoso sofre uma queda, poderá ocorrer uma fratura grave e subsequentemente 
a exposição do idoso a outros eventos ainda mais graves, como uma internação, 
necessidade de intervenção cirúrgica, risco de infecção hospitalar, dentre outras. 
No Quadro 1, verificamos as diferenças entre os diversos BZDs disponíveis 
na terapêutica com relação ao tempo de meia-vida . Os benzodiazepínicos po-
dem ser divididos em grupos de curta, média e longa ação e isto determina 
também os principais usos terapêuticos dos BZDs: 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Fármaco BZD 
Midazolam 
Lorazepam, 
Oxazepam 
Alprazolam 
Clonazepam 
Diazepam 
Triazolam 
Flurazepam 
QUADRO 1. FARMACOCINÉTICA DOS BZD 
~ 
Usos terapêuticos 
Pré-anestésico e indução 
de anestésico geral*. 
Ansiolítico e hipnótico. 
Ansiolítico e estado de 
mal epiléptico**. 
Ansiolítico, distúrbios 
convulsivos e tratamento 
da mania aguda. 
Ansiolítico, estado de 
mal epiléptico, relaxante 
muscular e medicação 
pré-anestésica. 
Insônia. 
Insônia. 
Tempo de meia-vida 
Curta: 3 a 6 horas. 
Intermediário: 12 a 18 
horas. 
Intermediário: 12 a 18 
horas. 
Longa: 24 a 48 horas. 
Longa: 24 a 48 horas. 
Curta: 3 a 6 horas. 
Longa: 1 a 3 dias. 
Observação 
Muito usual em 
procedimentos curtos 
como a endoscopia. 
O tratamento 
preconizado é de 
curto prazo. 
O tratamento 
preconizado é de 
curto prazo. 
*A depender das doses, alguns BZDs são medicações pré-anestésicas (induzem o sono do 
paciente antes da administração do anestésico para a cirurgia) ou até mesmo produzem a 
indução da anestesia geral do paciente. 
**O estado de mal epiléptico é quando o paciente sofre uma crise convulsiva (denominada 
tônico-clônica) e ele mal se recupera e já se inicia uma nova crise. Nesta situação 
potencialmente fatal, o paciente receberá medicações de uso EV - endovenoso (efeito rápido 
para emergência, uso hospitalar). 
Os BZDs têm usos diversos de acordo com a apresentação farmacêuti-
ca (EV- endovenoso, IM - intramuscu lar e oral) e o seu respectivo tempo de 
meia-vida. O diazepam é bastante usual na emergência hospitalar (uso EV) 
para reversão do estado de mal epiléptico. Também é uma classe usual para 
tratamento da insônia, especialmente algumas drogas mencionadas no Qua-
dro 1. Entretanto recomenda-se que o tratamento da insônia ocorra em pra-
zos curtos de sete a dez dias, eventualmente, até no máximo quatro semanas. 
O ideal é que o paciente trate as causas da insônia e não se torne dependente 
destas medicações para dormir. 
PSIC0FARMAC0L0GIA • 
•• 
Reações adversas 
Os BZDs, quando em superdosagem aguda, são consideravelmente menos 
perigosos do que outros agentes depressores do SNC. Os BZDs causam sono 
prolongado, sem depressão grave da respiração ou da função cardiovascular. 
Comparado à classe dos barbitúricos como o fenobarbital (que já foi utilizado 
para tratar a ansiedade), os BZDs são mais seguros. Entretanto na presença de 
outros depressores do SNC, part icularmente o álcool, os BZDs podem causar 
depressão respiratória grave e até mesmo o óbito do paciente. 
Os principais efeitos colaterais dos BZDs consistem em sonolência, confusão, 
amnésia anterógrada e comprometimento da coordenação (ataxia), que afeta 
consideravelmente as habilidades manuais, como o desempenho de um moto-
rista. Pode ocorrer comprometimento cognitivo, e não é incomum que pacientes 
relatem dificuldade de memorização e retenção de novos conhecimentos. 
o 
\ 
CURIOSIDADE 
Esta classe de medicamentos é utilizada no golpe conhecido como "boa 
noite cinderela", devido à reação adversa de amnésia anterógrada, no 
qual o uso de BZD é ofertado com álcool, sem que a vítima conheça o 
conteúdo da bebida. No pico de ação da droga, embora o paciente esteja 
responsivo, ele não será capaz de se recordar de toda a sequência de 
eventos, de forma que os acontecimentos se apresentam em espécies de 
flashes. Por esta razão, a vítima pode ser conduzida ao caixa eletrônico, 
lojas, entre outros, sofrendo um desfalque financeiro. 
Quando um paciente administra, por exemplo, o midazolam para realiza-
ção do procedimento de endoscopia, é comum que ele não compreenda como 
chegou na sala de recuperação do exame, não se recorde de quando saiu da 
sala de exame ou, até mesmo, só retome a total consciência em casa, sem se re-
cordar com detalhes do tempo de recuperação, da ida até o carro etc. Por essa 
razão, é obrigatório a presença de um acompanhante para realização deste 
procedimento. De fato, o paciente poderá ficar bastante confuso, justamente 
pelo efeito de amnésia anterógrada. 
Em eventuais casos de intoxicação, quando o paciente administra quantida-
de excessiva de BZD, é possível que no ambiente hospitalar se administre um 
antagonista específico dos BZDs através da via EV (endovenosa). O nome do 
PSICOFARMACOLOGIA • 
princípio ativo é flumazenil. Isso significa que o efeito de uma superdosagem 
aguda pode ser neutralizada, o que não é possível com a maioria dos depresso-
res do SNC. Isto confere uma vantagem a essa classe de fármacos, que possui 
um antagonista específico. 
• 
Dependência 
Os BZDs podem causar dependência física e psicológica, especialmente 
quando administrados por longos períodos. Todos os BZDs são medicamentos 
controlados por uma portaria da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sani-
tária), a nº 344 de 1998. Esta classe de medicamentos só pode ser dispensada 
com a notificação de receita 81 (que é um documento na cor azul), que fica re-
tido na farmácia. Esse modelo de notificação caracteriza o potencial risco para 
dependência. Este cuidado se dá justamente pelos riscos associados ao uso in-
discriminado desta classe terapêutica. 
A retirada abrupta dos BZDs pode 
causar sintomas de abstinência, in-
cluindo agitação, ansiedade, irritabi-
lidade, insônia, confusão mental, e, 
mais raramente, convulsões. 
Caso o médico faça a opção de alta 
desta medicação, esta deverá ser rea-
lizada de forma gradual e constante, 
num processo conhecido como des-
mame. Dessa forma, os sintomas de 
uma possível síndrome de abstinência são menores. 
Neurolépticos 
• 
Os neurolépticos, também conhecidos como drogas anti-esquizofrêni-
cas, antipsicóticas ou tranquilizantes maiores, compreendem um grupo 
de fármacos que apresentam propriedades terapêuticas e farmacológicas 
comuns das quais se destacam a eficácia desejada de tratar as psicoses (em 
especial a esquizofrenia). 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Na década de 1950, o primeiro neuroléptico testado foi a clorpromazi-
na - na época sob a denominação RP 4560 - usado em casos de mania, um 
estado que geralmente é associado a hipertermia. O mais surpreendente 
foi o fato de que a clorpromazina não apenas melhorou a sintomatologia 
dos pacientes maníacos como também produziu uma inesperada influência 
benéfica em diferentes manifestações psicóticas. Esses resultados foram 
rapidamente confirmadospor psiquiatras de todo o mundo. Pouco tempo 
depois, a molécula de clorpromazina foi alterada, dando origem a outras 
fenotiazinas (um grupo químico): a mepazina, em 1954; a perfenazina, em 
1957; e a trifluoperazina, em 1958. 
Surpreendentemente, também foi a descoberta do haloperidol, que 
ocorreu entre 1957 e 1958 por Paul Jassen e colaboradores, que estuda-
vam a possibilidade de desenvolver novos compostos opioides (medica-
mentos analgésicos). Dentre as substâncias sintetizadas, algumas reve-
laram potentes efeitos neurolépticos e a droga haloperidol foi descrita 
como um neuroléptico muito potente, específico e de longa duração. O 
uso de neurolépticos foi um marco importante na terapêutica psiquiátrica, 
pois antes do tratamento medicamentoso, os pacientes com esquizofre-
nia - na época conhecidos como loucos - eram isolados da sociedade nos 
. . - . antigos man1com1os. 
o 
\ 
CURIOSIDADE 
O primeiro manicômio do Brasil foi criado em 1852, e tratava-se do Hospí-
cio Dom Pedro 11, e ficava na cidade do Rio de Janeiro. O doente mental, 
na época, não era capaz de se autoafirmar e se defender. A degradação 
física e mental resultava na perda da própria identidade e da dignidade 
do indivíduo. Considerando os primórdios da psiquiatria, ainda não havia 
drogas disponíveis para tratar os que, naquela época, foram denominados 
loucos. Dessa forma, os primeiros hospitais psiquiátricos eram apenas um 
depósito de pessoas, conhecido como "a casa dos loucos". 
Os neurolépticos são classificados em gerações, de forma que a indústria 
farmacêutica foi identificando, ao longo dos anos, as reações adversas em 
potenciais e promovendo melhorias da estrutura química dos fármacos, com 
consequentes melhorias que potencializavam os efeitos farmacológicos e re-
duziam as possíveis reações adversas. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Para compreender o mecanismo de ação dos neurolépticos, precisamos 
entender que a psicose está relacionada com o excesso de dopamina em 
uma das vias dopaminérgicas no sistema nervoso central, conhecida com 
via mesolímbica. 
• 
O neurotransmissor dopamina 
A eficácia terapêutica dos neurolépticos é atribuída ao antagonismo de 
receptores dopaminérgicos D2 localizados nas estruturas límbicas. Mas por 
qual razão as drogas objetivam bloquear tais receptores? Para respondermos 
a esta questão, é importante conhecer os principais circuitos neuronais da 
dopamina. Dessa forma, ficará clara a compreensão do mecanismo de ação 
destas drogas, assim como a compreensão das reações adversas produzidas 
por estas substâncias. 
A dopamina é um neurotransmis-
sor classificado como uma monoami-
na, ou seja, sua síntese ocorre através 
de um aminoácido. O aminoácido 
precursor da dopamina é a tirosina. 
Em termos de funções fis io lógicas, a 
dopamina está envolvida no humor, 
euforia, bem-estar, concentração, de-
pendência psicológica/vício e com a 
função motora. Alterações da dopa mi-
na podem, portanto, alterar o humor 
do paciente, produzir euforia e de-
pendência (quando a dopamina está 
em excesso) ou resultar em doenças 
relacionadas com o movimento, como 
no mal de Parkinson, no qual a mor-
te de neurônios dopaminérgicos na 
substância nigra (ou negra) resulta em 
disfunção motora. Dessa forma, o paciente apresenta tremores característicos 
desta doença. Na Figura 5, observam-se as funções da dopamina: 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Figura 5. Vias da dopa mina no cérebro e funções da dopamina. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 11/10/2021. 
Conforme observado na Figura 5, imagem a dopamina está re lacionada 
com o sistema de recompensa, motivação, prazer, função motora, perseveran-
ça e compulsão. No centro da Figura 5, podemos observar também os circuitos 
dopaminérgicos, ou seja, as diferentes projeções de neurônios em áreas espe-
cíficas no cérebro que determinam as funções da dopamina. 
Para compreensão das ações dos neurolépticos, é importante descrever as 
quatro principais vias dopaminérgicas, conforme o Quadro 2. 
PSICOFARMACOLOGIA 
QUADRO 2. VIAS DOPAMINÉRGICAS NO SISTEMA NERVOSO CENTRAL 
Resposta Sistema 
Endócrina Túbero-infundibular 
Motora Nigro-estriatal 
Mesolímbica 
Psíquica 
Mesocortical 
~ 
Corpo celular 
Hipotálamo 
Substância negra 
AVTM (área ventral 
do tegmento 
mesencefálico) 
AVTM 
Inervação 
Hipófise 
Estriado 
Sistema límbico 
Córtex frontal 
As descrições das vias dopaminérgicas representadas no Quadro 2 são: 
• Na via endócrina túbero-infundibular, a dopamina funciona como um 
inibidor natural da síntese do hormônio prolactina, que é um hormônio fisio-
logicamente produzido quando necessário, como ocorre com as mulheres em 
período gestacional. Este hormônio possibilitará o crescimento das mamas e a 
lactogênese (formação do leite materno); 
• Na via motora nigro-estriatal, a dopamina regula a função motora. 
Neurônios localizados em uma região denominada substância nigra (ou subs-
tância negra) e que se projetam para o estriado regulam os movimentos em 
conjunto com o neurotransmissor acetilcolina; 
• Duas vias psíquicas dopaminérgicas são importantes: a via mesolímbica e a 
via mesocortical. A doença esquizofrenia é caracterizada por sintomas positivos, 
que são os delírios e alucinações. Este quadro de sintomas ocorre porque o pa-
ciente apresenta um excesso de dopamina na via mesolímbica. Já os sintomas 
negativos da doença incluem sintomas que se assemelham a depressão, como a 
apatia e a anedonia (ausência de prazer). Este quadro de sintomas ocorre porque o 
paciente apresenta uma redução dos níveis de dopamina na via mesocortical. 
EXPLICANDO 
Nas doenças em que a psicose está presente, como acontece com a 
esquizofrenia, o paciente vive fora da realidade. O delírio ou transtorno 
delirante acontece quando o paciente tem uma crença ou realidade 
alterada, mesmo com evidências que contrariem o delírio do paciente. Já 
as alucinações incluem todas as alterações com os sentidos, como uma 
alucinação visual (o paciente visualiza alguém que não existe), auditivas 
(escuta vozes de comando), sendo estas as mais comuns. Vale ressaltar 
que também existem as alucinações gustativas, olfativas e táteis. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
•• 
Neurolépticos de 1ª geração 
Os neurolépticos de 1 ª geração são os mais antigos neurolépticos disponí-
veis na prática clínica psiquiátrica, também conhecidos como neurolépticos tí-
picos. Estes neurolépticos são muito usados para tratamento da esquizofrenia, 
mas não exclusivamente. Como são antipsicóticos podem ser uteis em outras 
condições que envolvam sintomas psicóticos, como no Alzheimer, por exemplo. 
Por mais de 30 anos, o tratamento da esquizofrenia baseou-se no uso de 
neurolépticos típicos. Esses fármacos são antagonistas potentes e específicos 
de receptores dopaminérgicos centrais do tipo D
2
. Embora estas drogas se-
jam muito eficazes contra os sintomas positivos da doença esquizofrenia, não 
são igualmente eficazes para tratar os sintomas negativos da doença, além de 
estarem associadas a importantes efeitos adversos. 
Mecanismo de ação dos neurolépticos de 1ª geração: bloqueio persistente 
por antagonismo nos receptores D
2
-, o que justifica a sua eficácia nos sintomas 
positivos da doença. São drogas pouco seletivas, ou seja, além do bloqueio dos 
receptores da dopamina, bloqueiam outros receptores que não são interessan-
tes para tratar a esquizofrenia, mas que justificam apenas as reações adversas. 
O bloqueio dos receptores alfa-1 nos vasos pode resultar em vasodilatação com 
consequente hipotensão (queda de pressão arterial), bloqueando também os 
receptores colinérgicos da acetilcolina, efeito conhecido como "anticolinérgi-
co", o que pode resultar em: constipação, boca seca (xerostomia) e visão turva, 
além do bloqueio dos receptores da histamina, o que resulta nas reações de 
sonolência e ganho de peso. 
No entanto o principal efeito negativo associado ao uso de drogas de 1 ª 
geração são os denominadosde efeitos extrapiramidais, e esta reação está 
relacionada com as vias dopaminérgicas e não devido ao bloqueio imposto a 
outros receptores não dopaminérgicos, como nas reações citadas acima. 
Para compreensão dos efeitos extrapiramidais e das outras reações adver-
sas relacionadas com as vias dopaminérgicas, vale lembrar que existem quatro 
importantes vias dopaminérgicas, conforme descrito no Quadro 2. Devido 
ao bloqueio imposto pelos neurolépticos, de todos os receptores D2, ampla-
mente distribuídos no cérebro, ocorre o bloqueio das ações da dopamina nas 
quatro vias dopaminérgicas, e é este fato que explica as reações adversas. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Afinal, apenas duas das vias dopaminérgicas estão alteradas no paciente com 
esquizofrenia (via psíquica mesolímbica e mesocortical), já as vias endócrinas 
e motoras, antes do tratamento farmacológico, estão dentro da normalidade. 
Quando o paciente utiliza um neuroléptico, é interessante que ocorra o blo-
queio dos receptores D2 da dopamina apenas na via mesolímbica, uma vez 
que é o excesso de dopamina apenas nesta via o responsável pelos sintomas 
positivos da doença, como os delírios e alucinações. Já os sintomas negativos 
da doença são justificados pela falta de dopa mina na via mesocortical. Por esse 
motivo, as drogas de 1 ª geração não tratam bem os sintomas negativos. O blo-
queio dos receptores de dopamina em uma via que a dopamina já está baixa 
poderá, em tese, até prejudicar os sintomas negativos da esquizofrenia. 
Na via endócrina, a dopamina funciona como um freio para a produção do 
hormônio prolactina. O paciente poderá observar, com o uso dessa classe te-
rapêutica, um quadro de hiperprolactinemia (aumento da síntese e liberação do 
hormônio prolactina), sintoma que não é exclusivo de mulheres. Devido à hiper-
prolactinemia, o paciente do sexo masculino também poderá desenvolver gine-
comastia (aumento das mamas) ou até mesmo lactogênese (produção de leite). 
Já no bloqueio de dopamina na via nigro-estriatal, aquela relacionada com 
a função motora, o paciente poderá apresentar os efeitos extrapiramidais. Os 
efeitos extrapiramidais são reações motoras, como o parkinsonismo iatro-
gênico (induzido por uma droga) e a discinesia tardia. O parkinsonismo iatrogê-
nico é caracterizado por um falso Parkinson, no qual o paciente não apresenta 
Parkinson como doença de base, mas ele apresentará todos os sintomas, como 
o tremor dos braços/mãos, dificuldade para andar, inclinação do corpo para a 
frente, rigidez muscular etc. 
Este Parkinson é induzido por drogas, ou seja, na retirada da medicação ou 
redução de doses, possivelmente este sintoma será amenizado. Já a discinesia 
tardia é um movimento involuntário buco-linguo-maxilar. Nesta reação o 
paciente apresenta movimentos de mastigação. O problema é que esta mastiga-
ção persiste ao longo do dia e o paciente só consegue parar de fazer o movimen-
to quando está dormindo. Esta reação é extremamente incapacitante e afeta a 
qualidade de vida dos pacientes. O nome tardia significa que esta reação poderá 
se desenvolver anos após o uso de drogas de 1ª geração, e o mais preocupante é 
que para aproximadamente 30% dos pacientes essa reação pode ser irreversível. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Drogas de 1ª geração: 
• Clorpromazina; 
• Tioridazina; 
• Sulpirida; 
• Flufenazina; 
• Levomepromazina; 
• Haloperidol. 
No Quadro 3, resumem-se as reações adversas das drogas de 1ª geração e 
a justificativa de sua ocorrência: 
Resposta 
Endócrina 
Motora 
Psíquica 
QUADRO 3. REAÇÕES ADVERSAS DAS DROGAS DE 1ª GERAÇÃO -
RELACIONADO COM AS VIAS DOPAMINÉRGICAS 
~ 
Sistema Reação adversa Justificativa 
O bloqueio persistente dos 
Aumento receptores D2, anulam o "freio" da 
da síntese e 
dopamina para a síntese e liberação 
Túberoinfundibular 
liberação de 
de prolactina pela glândula hipófise. 
Desta forma o paciente irá produzir 
prolactina. mais prolactina (tanto homens 
como mulheres). 
O bloqueio persistente dos 
Parkinsonismo 
receptores D2 na via motora, 
induzido (também resulta em aumento do 
neurotransmissor acetilcolina no denominado de 
Nigroestriatal estriado e este desequilíbrio em 
parkinsonismo ambos os neurotransmissores 
iatrogênico) e 
(falta de dopamina e excesso de discinesia tardia. 
acetilcolina) é responsável por 
alterações motoras. 
Não há. Esta 
O bloqueio persistente dos 
via relaciona-se receptores D2 nesta via é 
Mesolímbica com os efeitos responsável por tratar os sintomas 
farmacológicos. positivos da doença, reduzindo os 
delírios e as alucinações. 
O bloqueio persistente dos 
Anedonia 
receptores D2 nesta via é 
Mesocortical (ausência de responsável pela possível piora 
dos sintomas negativos da doença, 
prazer). uma vez que na esquizofrenia, a 
dopamina já está baixa nesta via. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Devido à incidência de reações adversas, os antipsicóticos de 1 ª geração são 
obsoletos em alguns países pelo mundo. No entanto, no Brasil, especialmente 
devido ao baixo custo e disponibilidade pelo SUS, ainda são amplamente uti-
lizadas apesar das possíveis reações adversas motoras. O haloperidol é uma 
droga disponível em várias apresentações, como em comprimidos e injetável 
intra-muscular (IM). O tratamento injetável intramuscular é interessante para 
pacientes psicóticos, pois facilita a adesão ao tratamento e garante que não 
ocorram novos surtos psicóticos. 
• 
Neurolépticos de 2ª geração 
Devido às reações adversas produzidas pelos neurolépticos de 1ª geração, 
a indústria farmacêutica lançou, a partir da década de 1970, uma nova classe 
terapêutica, denominada 2ª geração ou neurolépticos atípicos. 
Mecanismo de ação dos neurolépticos de 2ª geração: possuem um me-
canismo de ação misto, promovendo um bloqueio dos receptores dopami-
nérgicos D
2 
por dissociação rápida e bloqueio dos receptores serotonérgicos 
5-HT2A. Esta dissociação rápida está descrita em literatura como um tipo de 
bloqueio diferenciado (quando comparado às drogas de 1ª geração). Significa 
dizer que as drogas de 1ª geração têm um efeito persistente no bloqueio 
dos receptores D
2
, impossibilitando qualquer ação de dopamina nestes re-
ceptores. Já na dissociação rápida, significa que o fármaco bloqueia os re-
ceptores D
2 
de maneira não persistente, ou seja, eventualmente o fármaco 
desliga do receptor e permite um pouco das ações da dopamina em todas as 
vias dopaminérgicas. Desta forma, as ações da dopamina não ficam anuladas 
nas vias dopaminérgicas normais do paciente com esquizofrenia, e o fato de 
dopamina continuar exercendo o seu papel nestas vias é o que garante menos 
reações adversas endócrinas e motoras. 
O termo atipicalidade tem sido utilizado para se referir a diversas proprie-
dades comuns a certos medicamentos antipsicóticos, como: 
1. Baixa ou nenhuma propensão a desenvolver efeitos colaterais extrapira-
midais e endócrinos (hiperprolactinemia); 
2. Tratamento efetivo tanto dos sintomas positivos quanto dos sintomas 
negativos da esquizofrenia; 
PSICOFARMACOLOGIA • 
3. Maior seletividade por receptores dopaminérgicos do sistema mesolímbico; 
4. Alta afinidade tanto por receptores serotonérgicos 5HT2A quanto porre-
ceptores dopaminérgicos D2; 
5. Dissociação rápida de receptores dopaminérgicos D2• 
A ziprasidona é um dos principais representantes da classe de neurolépti-
cos de 2ª geração, sendo diferenciada quimicamente de outros agentes antip-
sicóticos por apresentar uma única combinação de atividades farmacológicas. 
Essa droga tem alta afinidade pelo bloqueio de diversos receptores serotonér-
gicos (5-HT2A' 5-HT2c, 5-HT1A e 5-HT18I10), assim como por receptores dopami-
nérgicos D2• A ziprasidona é conhecida por apresentar uma eficácia clínica au-
mentada e um favorecimento do perfil de tolerabilidade, quando comparada a 
outros agentes antipsicóticos no tratamento da esquizofrenia. 
Assim, a ziprasidona é eficaz tanto no tratamento dos sintomaspositivos 
quanto negativos da esquizofrenia. Comparando cada uma das drogas de 2ª 
geração, é possível observar que pode haver uma pequena diferença entre o 
perfil de afinidade para antagonismo dos diversos receptores serotonérgicos. 
Porém todas estas drogas apresentam uma característica comum: uma con-
siderável redução da possibilidade de efeitos adversos. Por esta razão, são as 
drogas mais utilizadas na atualidade. 
Os neurolépticos de 2ª geração estão associados a uma substancial e signifi-
cante melhora de sintomas depressivos em pacientes com um nível clinicamen-
te relevante de depressão (sintomas negativos da doença esquizofrenia) e me-
nor propensão para o desenvolvimento de efeitos colaterais extrapiramidais. 
Este fato é atribuído especialmente à ação de bloqueio dos receptores 
SHT 2A. De acordo com essa hipótese, o antagonismo de receptores SHT 2A 
promovido por drogas de ação mista, como as drogas de 2ª geração, le-
varia à desinibição da neurotransmissão dopaminérgica (normalmente 
inibida por neurônios serotonérgicos provenientes de núcleos da rafe), 
promovendo o aumento da liberação de dopamina nos diversos sistemas 
dopaminérgicos. O aumento da liberação de dopamina poderia, por sua 
vez, impedir o desenvolvimento da hiperprolactinemia ou disfunção moto-
ra, nas vias endócrinas e motoras, respectivamente, além de possibilitar as 
ações da dopamina na via mesocortical, melhorando os sintomas positivos 
da esquizofrenia. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
No entanto o bloqueio D2 na via mesolímbica, ainda que por dissociação 
rápida, garante que o paciente não irá apresentar os sintomas positivos como 
os delírios e alucinações. Costuma-se dizer que o bloqueio D2 das drogas de 2ª 
geração é suficiente para tratar os sintomas positivos da doença e insuficiente 
para promoção das reações adversas, fazendo com que esta classe terapêutica 
tenha maior relevância clínica. 
Algumas drogas de 2ª geração, a exemplo da risperidona, estão disponíveis 
no SUS nas doses de 1 mg, 2 mg e 3 mg para tratamento da esquizofrenia. No 
entanto esta medicação pertence ao componente especializado de assistência 
farmacêutica, no qual a sua dispensação está vinculada a um PCDT (protocolo 
clínico e diretriz terapêutica), havendo normas específicas para a sua prescri-
ção e dispensação. 
Drogas de 2ª geração: 
• Clozapina; 
• Olanzapina; 
• Quetiapina; 
• Risperidona; 
• Ziprasidona; 
• Sertindol. 
• 
Neurolépticos de 3ª geração 
Mais recentemente, surgiu a possibilidade da utilização de um novo fár-
maco, o aripiprazol, que assim como muitos neurolépticos de 2º geração tem 
atividade em receptores serotonérgicos (antagonista em receptores SHT 2A). 
Não obstante, sua afinidade pelos receptores dopaminérgicos D2 é maior do 
que sua afinidade pelos receptores serotonérgicos. Além disso, o aripiprazol 
atua também como agonista parcial em receptores dopaminérgicos D2, agindo 
como um estabilizador da transmissão dopaminérgica. 
Dessa forma, o aripiprazol pode atuar como um antagonista de recepto-
res D2 na presença/excesso de dopamina, e pode aumentar a transmissão 
dopaminérgica na ausência de dopamina. Tal fato levou diversos autores a 
preconizá-lo como o primeiro fármaco de 3° geração de antipsicóticos. Essa 
propriedade de agonista parcial de receptores dopaminérgicos somada às 
PSICOFARMACOLOGIA • 
atividades serotonérgicas conferem também uma parcial atividade antide-
pressiva a esse medicamento. 
Em conjunto, o mecanismo de ação diferenciado do aripiprazol propicia o 
tratamento eficaz de sintomas positivos e negativos da esquizofrenia, com mí-
nimas possibilidades de desenvolvimento de efeitos colaterais extrapiramidais 
e endócrinos. Entretanto, principalmente em países de terceiro mundo, e devi-
do ao alto custo de agentes atípicos de 3ª geração, estas drogas são utilizadas 
em menor frequência. Embora outras moléculas já estejam aprovadas para uso 
nos EUA, no Brasil, só temos a opção do aripiprazol como droga de 3ª geração. 
Drogas de 3ª geração: aripiprazol. 
Conclui-se que as drogas de 2ª e 3ª geração têm menor propensão de de-
senvolvimento de reações endócrinas e sintomas extrapiramidais. No entanto 
estas drogas possuem reações adversas, sendo a principal delas: 
ganho de peso com posterior desenvolvimento de problemas 
cardiovasculares (em decorrência do ganho de peso). Quando 
comparamos o aripriprazol às drogas de 2ª geração, há uma 
menor incidência de ganho de peso. 
Antidepressivos tricíclicos e inibidores da MAO 
• 
Os antidepressivos tricíclicos são utilizados no tratamento da depressão, 
que é um transtorno de humor caracterizado pela falta de três neurotrans-
missores: serotonina, dopamina e noradrenalina. Dessa forma, o objetivo de 
qualquer antidepressivo é produzir o aumento de um ou mais destes neuro-
transmissores do SNC. 
Os inibidores da MAO já foram amplamente utilizados na terapêutica, mas 
atualmente se tornaram obsoletos devido às reações adversas apresentadas 
por estes medicamentos e à disponibilidade de medicamentos mais modernos 
e com menor propensão de reações adversas. 
Os neurotransmissores serotonina, dopamina e noradrenalina 
A setoronina, a dopamina e noradrenalina são monaminas, ou seja, são 
neurotransmissores produzidos a partir de aminoácidos precursores. Sendo 
o triptofano o aminoácido precursor da serotonina, e a tirosina, o aminoácido 
precursor da noradrenalina e da dopamina. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
•• 
Antidepressivos da classe dos inibidores da MAO 
São uma classe terapêutica descoberta por acaso em 1957, durante a in-
vestigação de agentes para tratamento da tuberculose, sendo que o primeiro 
fármaco usado para tratamento da depressão foi a iproniazida. O médico ame-
ricano Nathan Kline relatou efeitos positivos em pacientes que haviam tentado 
o suicídio. Durante o uso da iproniazida para tratamento da tuberculose, foi 
observado que os pacientes estavam cheios de ânimo, sorridentes e menos 
sensíveis à dor, e embora tenha sido concluído que a iproniazida não foi efetiva 
para a condição pulmonar no qual estava sendo util izada até então, uma outra 
indicação terapêutica psiquiátrica surgiu a partir do uso desta droga. 
Iremos compreender agora por que os inibidores da MAO, que já foram mui-
to úteis na prática clínica, tornaram-se obsoletos. Primeiramente é preciso en-
tender que a MAO é uma enzima cujo nome químico é monoamino-oxidase, e 
ela é responsável pela degradação das monoaminas. Logo, o seu uso consiste 
em bloquear esta enzima e, portanto, aumentar a oferta das monoaminas nas 
sinapses cerebrais. 
Mecanismo de ação dos inibidores da MAO: bloqueio de duas isoformas 
da MAO, denominadas MAO-A ou MAO-B. A MAO-A é responsável pela degra-
dação de setorotonina e noradrenalina, portanto o bloqueio desta isoforma 
aumenta estes neurotransmissores. Já o bloqueio da MAO-B está relacionado 
com a degradação de dopamina, portanto o bloqueio desta isoforma é capaz 
de aumentar este neurotransmissor. Os inibidores da MAO são classificados 
em inibidores clássicos (irreversíveis) e inibidores reversíveis da MAO-A. 
Os inibidores clássicos {irreversíveis) não são seletivos, ou seja, inibem 
MAO-A e MAO-B, no entanto este bloqueio ocorre a nível central (necessá-
rio para tratar a depressão aumentando os neurotransmissores) e também 
perifericamente. Estas enzimas também estão presentes no TGI (trato gas-
trointestina l). O bloqueio da MAO-A periférica produz uma interação com 
alimentos clinicamente sign ificativa (conhecida como reação do queijo). A 
enzima MAO-A periférica que é responsável por degradar a t iramina (ami-
noácido presente em diversos alimentos como peixes defumados, vinhos 
e queijos envelhecidos), este aminoácido deixa de ser metabo lizado com o 
b loqueio da MAO-A periférica. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
A tiramina possui característica simpatomimética, aumentando a liberação 
de noradrenalina na fenda sináptica,o que resulta em aumento da pressão ar-
terial (crise hipertensiva). Por essa razão, fármacos desta categoria só podiam 
ser utilizados com um rígido controle dietético. Quando o paciente recebia uma 
prescrição de inibidor da MAO irreversível e fazia o alto consumo de tiramina 
presente nos alimentos, poderia apresentar uma reação adversa grave, carac-
terizada por crise hipertensiva. Exemplos de fármacos irreversíveis são: tra-
nilcipromina, fenelzina e isocarboxazida. Vale ressaltar que estes fármacos 
não são mais utilizados na prática clínica. 
Para resolver esta problemática, a indústria farmacêutica desenvolveu 
os inibidores reversíveis da MAO-A. Inibidores reversíveis da MAO-A blo-
queiam apenas a MAO-A e não tem efeitos significativos para aumento de 
dopamina. Não apresenta reação do queijo, pois quando o paciente consome 
alimentos ricos em tiramina, que necessita ser metabolizada perifericamen-
te, o fármaco se desloca da enzima periférica e a tiramina pode ser degrada 
normalmente. Esta classe não causa crise hipertensiva. Exemplo de fármaco 
reversível: moclobemida. 
•• 
Antidepressivos da classe dos tricíclicos 
Os antidepressivos tricíclicos, assim denominados em virtude do núcleo 
característico com três anéis de carbono, vêm sendo utilizados clinicamente 
desde a década de 1950. Na Figura 6, observa-se a estrutura comum dos fár-
macos antidepressivos tricíclicos: 
Figura 6. Estrutura química do antidepressivo amitriptilina. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 11/10/2021. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Todos os antidepressivos da clas-
se dos tricíclicos possuem esse triplo 
anel na estrutura química. A estrutura 
química completa da Figura 6 refere-
-se apenas à amitriptilina. 
A imipramina e a amitriptilina são 
os protótipos (primeiros fármacos 
desenvolvidos) desta classe. O meca-
nismo de ação consiste na inibição 
mista das bombas de recaptação. Blo-
queiam a bomba de recaptação de 
noradrenalina e serotonina, embo-
ra também exerçam vários outros efeitos. O bloqueio destes transportadores 
presumivelmente permite uma maior permanência dos neurotransmissores 
noradrenalina e serotonina no espaço sináptico. 
Cada neurônio possui um transportador ativo nos neurotransmissores, de-
nominados também bomba de recaptação. A função deste transportador é 
captar o neurotransmissor já liberado na fenda sináptica e trazê-lo de volta 
para o neurônio pré-sináptico, sendo assim, no funcionamento da recaptação, 
as concentrações dos neurotransmissores na fenda sináptica são menores. 
Portanto o bloqueio destes transportadores são importantes para resultar no 
aumento das concentrações nos neurotransmissores na fenda sináptica. 
Os antidepressivos demoram, em média, de duas a quatro semanas para 
exercer os efeitos farmacológicos. Isto ocorre porque na fisiopatologia da 
depressão observam-se duas alterações: 1) menor concentração das mo-
noaminas e 2) aumento da expressão dos receptores pós-sinápticos. Por-
tanto os efeitos farmacológ icos dos tricíclicos e outras drogas antidepressi-
vas depende do aumento das monoaminas na fenda sináptica e da redução 
dos receptores pós-sinápticos. 
Embora o aumento das monoaminas comece a ocorrer de forma rápida, 
logo no início do tratamento, especialmente a modulação dos neurotransmis-
sores demora algumas semanas, e somente quando ocorre um equilíbrio entre 
a quantidade de neurotransmissores e receptores pós-sinápticos é que o pa-
ciente começa a observar melhoras nos sintomas depressivos. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Hipótese dos receptores de neurotransmissores para a ação dos antidepressivos 
A - O antidepressivo bloqueia a bomba de recaptação, 
levando a miores quantidades de NT na sinapse 
► 
B - O aumento do NT causa infrarregulação 
dos receptores 
Figura 7. Ações dos antidepressivos no bloqueio da bomba de recaptação e aumento dos neurotransmissores (A) e 
redução dos receptores pós-sinápticos (8). Fonte: STAHL, 2014, p. 265. 
Devido à falta de seletiv idade, a classe dos tricíc licos está relacionada com 
importantes reações adversas. Esta classe é antagonista em diversos recep-
tores -não interessantes para o tratamento da depressão - o que resulta em 
reações adversas, conforme demonstrado no Quadro 4: 
QUADRO 4. REAÇÕES ADVERSAS DOS TRICÍCLICOS 
Bloqueio do receptor 
Muscarínicos 
Histamínico 
Alfa-1 
Reação adversa decorrente 
Constipação intestinal, xerostomia (boca seca), visão turva e 
retenção urinária. 
Sonolência e ganho de peso. 
Tontura e hipotensão ortostática. 
Os antidepressivos tricícl icos também bloqueiam fracamente os canais de 
sódio sensíveis à voltagem no coração e no cérebro; em casos de intoxicação, 
pode causar coma, convulsões, arritmias cardíacas, parada cardíaca e morte. 
Vale ressaltar que estes efeitos são raros, e embora já haja, na prática clínica, 
diversos outros antidepressivos, está classe ainda é muito usual, até mesmo 
pelo baixo custo e disponibilidade no SUS. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Drogas antidepressivas da classe dos t ricíclicos: 
• Clomipramina; 
• lmipramina; 
• Amitriptilina; 
• Nortriptilina; 
• Desipramina . 
•• 
Lítio e outras drogas antimania 
O humor considerado normal é denominado eutimia. No entanto algumas 
pessoas, por um desequilíbrio na quantidade de neurotransmissores, podem 
apresentar o humor alterado para baixo, passando pela distimia e indo até à 
depressão (caracterizando a doença depressão maior ou unipolar). Quando o 
humor está elevado, ele poderá ser classificado como um estado de hipomania 
ou, quando acima disso, mania . No transtorno bipolar, o humor do paciente 
oscila entre os dois polos mais extremos (mania e depressão) e por isso essa 
nomenclatura de bipolar. 
Observe, na Figura 8, o que acontece com o humor do paciente com trans-
torno bipolar: 
Bipolar 1 
Episódio maníaco ou misto +/- transtorno depressivo maior 
.. ~ -----.... 
• • • • • • • • • Hipomania 
Maníaco ~► ,.,. \...,>ri'" 
----------- Distimia 
- ---------· 
Misto 
Depressivo 
(ap~s um 
epi~dio 
maníaco ou 
misto) - -- • 1 
Figura 8. Transtorno bipolar 1: definido como aquele com, pelo menos, um episódio maníaco ou misto (mania e depres-
são plenas, simultaneamente). Fonte: STAHL, 2014. p. 222. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
A mania é um estado de humor extremamente elevado e excitável, que é 
muito comum no transtorno bipolar, mas não exclusivamente. Em outros diag-
nósticos, é possível que o paciente tenha alguma frequência de mania . 
• 
Carbonato de lítio 
A droga carbonato de lítio vem sendo utilizada para tratamento do transtor-
no bipolar há mais de 50 anos. O lítio é um íon cujo mecanismo de ação ainda 
não está estabelecido com certeza. Sabe-se que ao longo dos anos está droga 
tem sido eficaz como um estabilizador de humor. 
Mais recentemente, o conceito de estabilizador do humor foi defini-
do de maneira abrangente, desde "uma substância capaz de atuar 
como o lít io", passando por "um anticonvulsivante usado para o tra-
tamento do transtorno bipolar", até "o antipsicót ico atípico ut ilizado 
no tratamento do t ranstorno bipolar" (STAHL, 2014, p. 342). 
Embora o mecanismo não esteja completamente elucidado, o carbonato 
de lítio é capaz de reduzir os episódios maníacos e produzir a manutenção das 
remissões, especialmente dos episódios maníacos e em menor grau nos episó-
dios depressivos. 
Alguns mecanismos propostos para o carbonato de lítio incluem o fato do 
íon lítio Li+ ser utilizado no lugar no Na+ para a despolarização dos neurônios, 
mas essa despolarização não ocorre de maneira eficaz até a liberação no neu-
rotransmissor na fenda sináptica. 
Outras possíveis ações sugerem mecanismos intracelulares envolvendo o 
bloqueio de enzimas e redução da síntese de segundos mensageiros, 
como a enzima inositol monofosfatase. O fato que é que um estabi-
lizador do humor deve reduzir a liberação de neurotransmissores 
quando o paciente está em um episódio de mania 
e aumentar aliberação de neurotransmissores 
quando o paciente está no episódio de depres-
são, uma vez que a justificativa dos episódios é 
um excesso de despolarização no episódio de 
mania e a falta de ações de neurotransmissores 
no episódio de depressão. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Reações adversas do lítio 
Sintomas gastrointestinais sao os mais 
frequentes, como a dispepsia, náuseas, 
vômitos e diarreia, mas ele também pode 
produzir aumento de peso, acne, tremo-
res, sedação e prejuízos tanto na cogn ição 
quanto na coordenação motora. O lítio é uma 
droga de baixo índice terapêutico, portanto 
o seu uso requer monitoramento das concentra-
ções do lítio plasmáticas. 
O índice terapêutico (IT) define a segurança de 
uma droga. A indústria farmacêutica calcula o IT de uma 
droga nos estudos pré-clínicos (em animais). Desta forma 
é defin ida a DE50% (dose efetiva em 50% da população) e a 
DL50% (dose letal em 50% da população). De modo que o cál-
culo é estabelecido sendo: DL/DE. Quanto maior o resultado, mais seguro é o 
medicamento. Quanto menor o resultado, menos seguro. Por exemplo, se um 
medicamento é eficaz na dose de 500 mg e é letal na dose de 2000 mg, signifi-
ca que (DL/DE) 2000 mg/500 mg = 4. Em outras palavras, na administração de 
apenas quatro comprimidos poderá ocorrer o óbito do paciente. Obviamente 
que quando a dose letal envolver a administração de 100 ou 200 comprimidos, 
este medicamento é muito mais seguro. 
O lítio é uma droga de baixo IT, sendo uma desvantagem para esta droga. 
Pacientes com problemas hepáticos (e, portanto, no metabolismo) ou renais (e, 
portanto, na excreção) devem ser rigorosamente monitorados, pois a chance 
de alcançar efeitos tóxicos/letais são maiores. 
• 
Outras drogas usadas para tratar o transtorno bipolar 
Além do lítio, outras drogas são utilizadas para o tratamento do transtorno 
bipolar. Especialmente alguns anticonvulsivantes, que tratam bem o episódio 
de mania e em menor grau os episódios de depressão, e os neurolépticos de 2ª 
geração, que demonstram efetividade para estabilizar tanto a mania quanto a 
depressão. No Quadro 5, observe as drogas que são utilizadas. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
QUADRO 5. OUTRAS DROGAS USADAS PARA O TRANSTORNO BIPOLAR 
Classe terapêutica 
Anticonvulsivantes 
Neurolépticos/antipsicóticos 
de 2ª geração 
~ 
Droga/fármaco 
Valproato de sódio 
Carbamazepina 
Lamotrigina 
Oxcarbazepina 
Topiramato 
Gabapentina 
Quetiapina 
Risperidona 
Olanzapina 
Observações 
Previne tanto a mania quanto a 
depressão. 
Mais efetivo na fase de mania. 
Previne tanto a mania quanto a 
depressão. 
Mais efetivo na fase de mania. 
Previne tanto a mania quanto a 
depressão. 
Mais efetivo na fase de mania. 
Previne tanto a mania quanto a 
depressão. 
Os antipsicóticos de segunda geração, especialmente quetiapina, risperido-
na e olanzapina, já constam em bula na indicação para tratamento do transtor-
no bipolar. Diversos estudos já foram realizados e concluíram a eficácia destas 
drogas tanto de maneira isolada, quanto associadas ao carbonato de lítio. O 
médico deverá avaliar a necessidade de monoterapia ou associações de acordo 
com a classificação do transtorno bipolar do paciente. Vale ressaltar que alguns 
pacientes com transtorno bipolar predominam no estado de mania, enquanto 
outros predominam no estado de depressão, gerando complexidade na esco-
lha do tratamento ideal. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Sintetizando • 
O tratamento farmacológico dos transtornos mentais deve ser avaliado 
pelo médico psiquiátrica. Sabe-se que estes transtornos ocorrem devido a uma 
alteração neuroquímica, na qual ocorre um desequilíbrio dos neurotransmis-
sores. Portanto tratar esta condição é uma necessidade e não ocorre a melhora 
destes sintomas simplesmente pela vontade do paciente. 
Infelizmente, ainda existe muito preconceito em torno dos transtornos 
mentais e muitos pacientes têm medo de procurar o médico e receber um diag-
nóstico que envolva o uso de psicotrópicos. Cabe aos profissionais de saúde 
alertar os pacientes quanto a necessidade de um diagnóstico precoce e início 
do tratamento para melhora dos sintomas. 
Vimos que o tratamento da ansiedade e da insônia pode ser realizado com o 
uso de benzodiazepínicos, que embora sejam drogas úteis para esta finalidade, 
são depressores do SNC e o seu uso requer cautela. 
No tratamento da esquizofrenia, as drogas 1 ª geração ainda são muito 
usuais no Brasil devido ao baixo custo e disponibilidade no SUS. São drogas 
que possuem muitos efeitos adversos associados, como é o caso do haloperi-
dol, uma droga de 1 ª geração que pode causar disfunção endócrina e sintomas 
extrapiramidais que são bastante incapacitantes aos pacientes. Já as drogas de 
2ª e 3ª geração, como risperidona e aripiprazol, respectivamente, são interes-
santes por tratarem os sintomas positivos e negativos da esquizofrenia, sem 
promover os efeitos adversos endócrinos e motores. 
O tratamento dos transtornos de humor como a depressão e o transtorno 
bipolar são de suma importância, o uso de antidepressivos tricíclicos como a 
amitriptilina são muito usuais na prática clínica, embora sejam drogas mais an-
tigas e associadas a reações adversas devido a menor seletividade desta classe 
terapêutica. O carbonato de lítio é o principal estabi lizador de humor usado na 
prática clínica, muito eficaz no tratamento dos episódios de mania e de depres-
são, no entanto o uso requer cautela devido ao baixo índice terapêutico. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Referências bibliográficas •• 
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Artmed, 2016. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
UNIDADE 
r 
educacional 
Obietivos da unidade 
Apresentar as bases biológicas dos transtornos mentais: depressão maior, 
ansiedade, transtorno bipolar e esquizofrenia; 
Compreender os tratamentos para dos diversos transtornos, incluindo o 
mecanismo de ação dos fármacos e as reações adversas mais comuns. 
Tópicos de estudo 
Depressão: caracterização,bases 
neuroquímicas e tratamento 
Depressão maior: bases 
, . 
neuroqu1m1cas 
Antidepressivos de 1 ª geração 
Antidepressivos de 2ª geração 
Antidepressivos de 3 ª geração 
Outros antidepressivos atípicos 
Ansiedade e tratamento 
Transtornos de ansiedade: 
bases neuroquímicas 
Estratégia gabaérgica: 
benzodiazepínicos 
Estratégia serotonérgica: 
buspirona 
Estratégia adrenérgica: 
beta bloqueadores 
Outros fármacos com potencial 
ansiolítico 
Mania: caracterização e 
tratamento 
Estabilizadores do humor 
Psicose: caracterização e 
tratamento da esquizofrenia 
Esquizofrenia: caracterização 
, . 
neuroqu1m1ca 
Neurolépticos típicos: 1 ª geração 
Neurolépticos atípicos: 2ª e 3ª 
geração 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Depressão: caracterização, bases neuroquímicas e 
tratamento 
• 
A depressão, ou depressão maior, é um grave problema de saúde pública 
e afeta milhares de pessoas no mundo todo. Segundo dados de 2020 da OMS 
(Organização Mundial da Saúde), o Brasil é o segundo país com maior número de 
casos depressivos nas Américas, com 5,8% da população, perdendo apenas para 
os Estados Unidos, com 5,9%. A doença afeta 4,4% da população mundial. Ainda 
segundo a OMS, o número de pessoas com transtornos mentais mais comuns, 
como a depressão e a ansiedade, cresce exponencialmente em países de renda 
baixa, sendo atribuído também a maiores taxas de envelhecimento da popula-
ção. No entanto, nos últimos anos, o número de drogas para tratar a depressão 
também cresceu, possibilitando um tratamento adequado aos pacientes. 
A depressão é a principal causa de incapacidade em todo o mundo, com 
fatores genéticos e ambientais contribuindo para o seu desenvolvimento. A 
hereditariedade explica cerca da metade dos casos depressivos, sendo mais 
comum entre parentes de 1° grau de pacientes deprimidos e a concordância 
entre gêmeos idênticos é alta. Os fatores genéticos podem influenciar nas res-
postas depressivas diante dos eventos adversos que uma pessoa vivencia. 
Dentre os sintomas, é possível destacar: tristeza, pesar, desespero, falta de 
apetite e perda de peso (ou excesso de apetite e ganho de peso), excesso de 
sono ou insônia, perda do desejo sexual, anedonia (ausência de prazer), falta 
de interesse, dificuldade de relacionamentos interpessoais, dificuldade de con-
centração, fadiga, e, em casos mais graves, ideação suicida. 
O médico deve fazer o diagnóstico baseado na clínica, incluindo a intensida-
de e a duração dos sintomas. Muitas vezes, é difícil para as pessoas separar o 
que é uma tristeza normal da depressão. A tristeza é um tipo de humor presen-
te na vida de qualquer pessoa, visto que alguns acontecimentos favorecem o 
seu aparecimento. Por exemplo, quando a pessoa perde o emprego, briga com 
o namorado ou tira uma nota baixa em uma avaliação importante. O problema 
é a intensidade e a duração dos sintomas. 
Quando a tristeza começa a atrapalhar as escolhas de vida do paciente e 
a afastá-lo de seus objetivos, talvez seja o caso de uma avaliação médica. É 
possível que algum fator desencadeie o processo de depressão, como um luto 
PSICOFARMACOLOGIA • 
pela perda de um ente querido que inicia um processo de tristeza profunda, 
algo que vem a desencadear o diagnóstico de depressão, porém isso não é 
uma regra. Eventualmente, pessoas bem-sucedidas no âmbito profissional e 
pessoal também podem ter os sintomas. Nem sempre há um gatilho, já que a 
depressão é uma alteração neuroquímica na quantidade de neurotransmisso-
res, portanto a melhora dos sintomas independe da força de vontade do pa-
ciente. Quando o médico achar necessário, em especial quando a classificação 
da depressão é moderada ou grave, é possível iniciar um tratamento medica-
mentoso com os antidepressivos. 
•• 
Depressão maior: bases neuroquímicas 
A depressão maior, também denominada de depressão unipolar, está rela-
cionada com o gráfico do humor, apresentado na Figura 1. Ela é o transtorno 
do humor mais comum e caracteriza-se pela ocorrência de, pelo menos, um 
único episódio depressivo maior, embora a maioria dos pacientes apresente 
episódios recorrentes. 
Depressão maior 
Episódio único ou recorrente 
- - - - - Hipomania - - - - -
- - Distimia - - - -
Episódio único Recorrente 
Figura 1. Depressão maior. Fonte: STAHL, 2014, p. 221. (Adaptado). 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Os transtornos do humor costumam ser denominados transtornos afe-
tivos, fato que ocorre porque o afeto é a expressão externa do humor, uma 
emoção vivenciada "por dentro". Na Figura 1, se observam os extremos do hu-
mor: a depressão e a mania, vistas como os extremos opostos de um espectro 
afetivo ou do humor. No centro, há o humor normal, denominado de eutimia 
e, logo abaixo, aparecem a distimia e a depressão enquanto, acima da eutimia, 
estão a hipomania e a mania. 
A mania e a depressão são "polos" opostos, o que leva ao uso dos termos 
depressão unipolar (quando o paciente só apresenta o polo para baixo ou de-
pressivo) e bipolar (quando o paciente oscila entre os polos de mania e de de-
pressão). Segundo Coryell (2020), a presença de 5 ou mais sintomas, ocorrendo 
quase todos os dias durante o período mínimo de 2 semanas, sendo um deles 
humor deprimido ou perda de interesse ou prazer, são critérios de diagnóstico 
da depressão maior: 
• Humor deprimido durante a maior parte do dia; 
• Diminuição acentuada do interesse ou prazer em todas ou quase todas 
as atividades na maior parte do dia; 
• Ganho ou perda ponderai significativo(> 5%) ou diminuição ou aumento 
do apetite; 
• Insônia (muitas vezes insônia de manutenção do sono) ou hipersonia; 
• Agitação ou atraso psicomotor observado por outros (não autorrelatado); 
• Fadiga ou perda de energia; 
• Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada; 
• Capacidade diminuída de pensar, concentrar-se ou indecisão; 
• Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio, tentativa de suicídio ou 
um plano específico para cometer suicídio. 
Base neuroquímica da depressão: 
1) Hipótese monoaminérgica: redução das monoaminas (neurotransmis-
sores produzidos a partir de aminoácidos), como serotonina, noradrenalina 
e dopamina; 
2) Aumento (up-regulation): aumento do número de receptores pós-
-sinápticos. 
A teoria mais aceita para a depressão é a ocorrência de um déficit na co-
municação dos neurotransmissores, também denominados de monoaminas: 
PSICOFARMACOLOGIA • 
serotonina, noradrenalina e dopamina. Como mecanismo de compensação, 
os neurônios pós-sinápticos expressam um maior número de receptores pós-
-sinápticos com o objetivo de aumentar a probabil idade de os poucos neuro-
transmissores ativarem os receptores e propagarem impulsos nervosos. 
Desse modo, trata-se de uma tentativa de melhorar a sinalização dos neu-
rotransmissores em déficit. Na doença depressão, observa-se a redução das 
monoaminas e o aumento dos receptores pós-sinápticos. Neste sentido, 
todos os antidepressivos têm como objetivo aumentar os neurotransmissores 
em falta, através do bloqueio de um ou mais transportadores descritos abaixo 
ou através da inibição da MAO: 
• DAT - transportador de dopamina; 
• SERT - transportador de serotonina; 
• NAT - transportador de noradrenalina; 
• MAO - Monoaminooxidase (MAO A - degrada noradrenalina e serotonina, 
MAO B - degrada dopamina). 
EXPLICANDO 
Os IMAOs (inibidores da MAO) são a primeira classe de fármacos antide-
pressivos utilizada na terapêutica. O fármaco iproniazida, a princípio utiliza-
do para tratamento da tuberculose, é descoberto como efetivo nos episó-
dios depressivos em 1956. No entanto, atualmente essa classe terapêutica 
está obsoleta em razão das reações adversas atribuídas a ela. O uso de 
IMAOs, em especial aqueles classificados como irreversíveis, causam crise 
hipertensiva nos pacientes devido à "reação do queijo", que ocorre quando 
o paciente consome alimentos ricos em tiramina. 
A eficácia farmacológica dos antidepressivos só é observada como aumen-
to dos neurotransmissores (monoaminas) e uma redução dos receptores (down 
regu/ation), conforme a Figura 2, que ilustra as ações dos antidepressivos no 
bloqueio da bomba de recaptação e aumento dos neurotransmissores (lado 
A) e redução dos receptores pós-sinápticos (lado 8). Em virtude da segunda 
alteração, que requer neuroadaptações que não são imediatas, a eficácia clí-
nica somente é vista pelo paciente e familiares após 3 a 4 semanas de utiliza-
, 
ção do(s) medicamento(s). E importante que o paciente receba esta orientação, 
pois tal fato implica na descontinuação do tratamento (não adesão), tendo em 
vista a ideia de que o tratamento não é efetivo. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Hipótese dos receptores de neurotransmissores para a ação dos antidepressivos 
A) o antidepressivo bloqueia a bomba de recaptação, 
levando a maiores quantidades de NT na sinapse 
Figura 2. Ações dos antidepressivos. Fonte: STAHL, 2014, p. 265. 
B) o aumento do NT causa infrarregulação 
dos receptores 
Conclui-se, portanto, que os antidepressivos, independente da classe tera-
pêutica, só fazem efeito quando ocorre o aumento das monoaminas e a redu-
ção dos receptores pós-sinápticos, conforme a Figura 3, que mostra os diferen-
tes intervalos de tempo para os efeitos dos antidepressivos - isto é, alterações 
clínicas, além do aumento nos neurotransmissores (NT) e redução dos recepto-
res. De modo mais específico, a quantidade de NT modifica-se de forma relati-
vamente rápida após a introdução de um antidepressivo. Entretanto, os efeitos 
clínicos são retardados, assim como a dessensibilização ou a infrarregulação 
dos receptores de neurotransmissores. 
Sensibilidade : 
dos receptores 
1 
1 
• Quantidade de NT 
Efeito clínico 
Introdução do antidepressivo 
Figura 3. Tempo para o aparecimento dos efeitos antidepressivos. Fonte: STAHL 2014, p. 265. (Adaptado). 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Dentre os fármacos mais antigos para tratamento da depressão, os IMAOs 
(inibidores da MAO), em especial os irreversíveis, não são mais utilizados na 
prática clín ica, sendo considerados obsoletos por conta da ocorrência de uma 
reação adversa importante, a crise hipertensiva. Quando o paciente utiliza 
um IMAO, deve seguir um rigoroso plano alimentar, pois, em caso de consu-
mo de alimentos ricos em tiramina, como vinhos e queijos, o paciente pode 
apresentar uma crise hipertensiva. A tiram ina em excesso no organismo (não 
metabolizada devido à presença do fármaco) é uti lizada para síntese de no-
radrenalina, substância que estimula os receptores adrenérgicos do sistema 
simpático, elevando a pressão arterial do paciente. No entanto, drogas de 1 ª 
geração, denominadas de tricíclicos e desenvolv idas entre as décadas de 1950 
e 1960, ainda são muito utilizadas na prática clínica. 
•• 
Antidepressivos de 1ª geração 
Tricíclicos 
Os antidepressivos tricíclicos são assim denominados devido a um núcleo 
característico com três anéis conforme a Figura 4. 
Figura 4. Estrutura química do antidepressivo imipramina. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 29/10/2021. 
Mecanismo de ação dos antidepressivos t r icíclicos: inibidores da recap-
tação da serotonina e da noradrenalina, ou seja, do SERT e do NAT, respectiva-
mente. O bloqueio desses transportadores permite uma maior permanência do 
neurotransmissor no espaço sináptico. Cada neurônio possui um transporta-
dor ativo nos neurotransmissores, denominado também de bomba de recap-
tação, cuja função é captar o neurotransmissor já liberado na fenda sináptica 
PSICOFARMACOLOGIA • 
e trazê- lo de volta ao neurônio pré-sináptico. Sendo assim, no funcionamento 
da recaptação, as concentrações dos neurotransmissores na fenda sináptica 
são menores. O bloqueio dos transportadores é importante para resultar no 
aumento das concentrações nos neurotransmissores na fenda sináptica. 
Na Figura 5, são mostradas as ações duplas dos tricíclicos . Tanto a parte 
inibidora da recaptação de serotonina (IRS) (painel da esquerda) quanto a parte 
inibidora de recaptação de noradrenalina (IRN) (pa inel da direita) estão inseri-
das em suas respectivas bombas de recaptação. Em consequência, ambas as 
bombas são bloqueadas e o fármaco intermedia o efeito antidepressivo pelo 
aumento da serotonina e noradrenalina, respectivamente. 
Figura 5. Mecanismo de ação dos tricíclicos. Fonte: STAHL, 2014, p. 278. 
Devido à falta de seletividade, a classe dos tricíclicos está relacionada a im-
portantes reações adversas. Essa classe é antagonista em diversos receptores 
- não interessantes para o tratamento da depressão - e resulta em reações 
adversas conforme o Quadro 1. 
QUADRO 1. REAÇÕES ADVERSAS DOS TRICÍCLICOS 
Bloqueio do receptor 
Muscarínicos 
Histamínico 
Alfa-1 
~ 
Reação adversa decorrente 
Constipação intestinal, xerostomia (boca seca), visão turva, 
retenção urinária. 
Sonolência e ganho de peso. 
Tontura e hipotensão ortostática. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
As reações descritas no Quadro 1 são as mais comuns dos antidepressivos 
tricíclicos, que também bloqueiam fracamente os canais de sódio sensíveis à 
voltagem no coração e no cérebro. Em casos de intoxicação, há risco de coma, 
convulsões, arritmias cardíacas, parada cardíaca e morte, efeitos tidos como 
raros. Apesar das diversas reações, os tricíclicos são drogas muito usuais devi-
do ao baixo custo e ao fato de algumas estarem disponíveis no SUS - Sistema 
Único de Saúde. 
QUADRO 2. DROGAS ANTIDEPRESSIVAS DA CLASSE DOS TRICÍCLICOS 
E SEUS USOS CLÍNICOS GERAIS 
Drogas 
Clomipramina 
tmipramina 
Amitriptilina 
Nortriptilina 
Desipramina 
~ 
~ 
Usos clínicos gerais 
Depressão e distúrbios do humor, síndrome obsessiva 
compulsivas, estado de pânico, fobias, dor crônica, ejaculação 
precoce e incontinência noturna em crianças. 
Todas as formas de depressão, incluindo as formas endógenas, 
orgânicas, psicogênicas e a depressão associada com distúrbios 
de personalidade ou de alcoolismo crônico, além de transtornos 
do pânico e condições dolorosas crônicas. 
Estados depressivos, inclusive quando acompanhado de ansiedade. 
Alívio dos sintomas da depressão. 
Todas as formas de depressão, incluindo as formas endógenas, 
orgânicas, psicogênicas e a depressão associada com distúrbios 
de personalidade ou alcoolismo. Outras indicações envolvem 
pânico, condições dolorosas crônicas, terror noturno e enurese 
noturna (apenas em pacientes acima de 5 anos de idade e 
somente se as causas orgânicas tiverem sido excluídas). 
Os antidepressivos tricíclicos têm algumas indicações além 
dos transtornos depressivos. São usados para enurese noturna 
(incontinência urinária), uma vez que promovem o relaxamento 
da musculatura da bexiga, causando retenção urinária, 
conforme o Quadro 1, sendo também usados para o 
tratamento de dor crônica, como a fibromialgia. Nestas 
condições, postula-se que mecanismos envolvidos na 
interpretação da dor no cérebro podem ser inibidos pelas 
ações dos neurotransmissores serotonina e noradrenalina. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
•• 
Antidepressivos de 2ª geração 
I.S.R.S. (inibidores seletivos da recaptura da serotonina) 
A pesquisa de moléculas com maior seletividade para o transportador da 
serotonina levou à introdução da Fluoxetina, da classe dos I.S.R.S. (inibidores 
seletivos da recaptura da serotonina). Uma vantagem dessa classe terapêutica 
é o fato de não ocorrer reações anticolinérgicas e anti-histamínicas, devido ao 
bloqueio de outros receptores, como ocorre com os tricíclicos. 
Drogas da classe dos I.S.R.S: 
• Paroxetina; 
• Fluvoxamina; 
• Sertralina; 
• Citalopram; 
• Escitalopram. 
Mecanismo de ação dos I.S.R.S. 
Bloqueio seletivo do transportador (bomba de recaptação) SERT, conforme 
a Figura 6. O fármaco bloqueia a recaptação de serotonina (IRS) da molécula do 
ISRS, que é vista inserida na bomba de recaptação de serotonina (o transporta-
dor de serotonina), cujo bloqueio causa o efeito antidepressivo. 
Açãodos ISRS 
Figura 6. Mecanismo de ação dos 1.5.R.S. Fonte: STAHL 2014, p. 267. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
O bloqueio da recaptação de serotonina produzido por estes fármacos re-
sulta no aumento da concentração e das ações da serotonina. Devido ao au-
mento de serotonina na fenda sináptica, alguns receptores em específico, 
quando são extremamente estimulados, resultam nos efeitos colaterais ex-
postos no Quadro 3. 
QUADRO 3. REAÇÕES ADVERSAS GERAIS DOS I.S.R.S. 
Estímulo excessivo 
dos receptores 
5HT2A e SHT2c 
na medula espinal 
SHT2A e SHT2c 
no cortex 
1 
~ 
~ 
Reação adversa decorrente 
Inibição dos reflexos do orgasmo (anorgasmia) e a dificuldade de 
ejaculação. 
Agitação, ansiedade e insônia, além de outros efeitos sobre o TGI (diarreia 
e cólicas), assim como efeitos no hipotálamo (náuseas e vômitos). 
Isso significa que os I.S.R.S não têm as mesmas reações que os tricíclicos, 
descritas no Quadro 1, contudo, podem desencadear outras reações adversas, 
descritas no Quadro 2, com ênfase na anorgasmia (dificuldade ou ausência do 
orgasmo) e na dificuldade de ejaculação, algo que contribui para a desistência do 
tratamento dos pacientes do sexo masculino que vêm a apresentar tais reações. 
Os medicamentos dessa classe também possuem indicações para ansieda-
de generalizada, crise do pânico e TOC (transtorno obsessivo compulsivo). Ape-
sar dos I.S.R.S compartilharem mecanismos em comum, eles se d iferenciam 
com relação às reações adversas. As reações gerais estão descritas no Quadro 
3. A seguir, são especificadas particularidades de alguns fármacos: 
• Fluoxetina: Para pacientes com agitação, insônia e ansiedade, a fluo-
xetina pode ser contraindicada. Estes pacientes podem apresentar ati-
vação indesejada e ataques de pânico. Também pode contribu ir para 
alterações da qualidade do sono, sendo menos indicada para idosos 
por essa razão; 
• Paroxetina: Muito usada para tratamento da ansiedade, é mais tranqui-
lizante e sedativa que a fluoxetina, pois inibe a enzima óxido nítrico sin-
tetase, contribuindo para a disfunção sexual, em especial nos homens. 
Portanto, a reação de disfunção sexual não se aplica a esse fármaco, que 
é indicado para tratamento da disfunção sexual; 
PSICOFARMACOLOGIA • 
• Citalopram: é um fármaco muito bem tolerado, em especial no trata-
mento da depressão em idosos. Pode ter leve atividade anti-histamínica, 
resultando em sonolência e maior cuidado no aumento de dose, em ra-
zão de eventuais alterações cardíacas; 
• Escitalopram: o fármaco mais novo dessa classe, desenvolvido para me-
lhorar as reações do citalopram, o escitalopram é o mais bem tolerado 
dessa classe terapêutica, com as menores taxas de reações e interações 
medicamentosas. Também é um fármaco bem tolerado para idosos . 
• 
Antidepressivos de 3 ª geração 
I.R.S.N. (inibidores da recaptura da serotonina e noradrenalina) 
Possuem uma ação dual (bloqueio da recaptação de duas monoaminas), 
tanto da serotonina como da noradrenalina, ou seja, bloqueio do SERT e o NAT. 
Apesar deste mecanismo ser parecido com os tricíclicos, não possuem as mes-
mas reações adversas dos tricíclicos. 
Drogas da classe dos I.R.S.N: 
• Venlafaxina; 
• Desvenlafaxina; 
• Duloxetina. 
A venlafaxina é usada para depressão isolada e para depressão com ansie-
dade associada. Tem uso na prevenção de recaída e recorrência da depressão 
e tratamento de ansiedade ou transtorno de ansiedade generalizada (TAG). No 
tocante às reações adversas, por conta do aumento noradrenérgico, pode ha-
ver aumento de pressão arterial, em especial quando administrado nas doses 
mais altas e em pacientes hipertensos. 
I.S.R.N. (inibidor seletivo da recaptura da noradrenalina) 
O bloqueio seletivo de NAT (bomba de recaptação de noradre-
nalina) pela reboxetina resulta no aumento específico de nora-
drenalina. Apresenta menor incidência de reações 
adversas e maior segurança em relação aos antide-
pressivos tricíclicos. As reações adversas incluem 
boca seca (xerostomia), constipação, insônia, redu-
ção do apetite e aumento da sudorese (transpiração). 
PSICOFARMACOLOGIA • 
I.R.N.D. (inibidor da recaptura da noradrenalina e dopamina) 
Possuem uma ação dual (bloqueio da recaptação de duas 
monoaminas), tanto da noradrenalina, como da dopamina, ou 
seja, bloqueio do NAT e do DAT. O único fármaco desta classe é 
a bupropiona, que tem eficácia comprovada no tratamen-
to da dependência de nicotina. Tal fato se deve ao au-
mento de dopamina na região do estriado e no nuc/eus 
accumbens de maneira suficiente para reduzir a fissura 
e, consequentemente, o consumo de cigarro. Dentre as 
reações adversas, estão insônia, boca seca (xerostomia) 
e distúrbios gastrointestinais como náuseas e vômitos. 
•• 
Outros antidepressivos atípicos 
A Mirtazapina e a Mianserina aumentam a transmissão noradrenérgica 
através do antagonismo de receptores alfa 2-pré-sinápticos no sistema ner-
voso central. Além disso, as drogas bloqueiam os receptores serotonérgicos 
(5-HT2A' 5-HT2c e 5-HT3). Os receptores alfa 2 pré-sináticos são inibitórios (um 
receptor da família dos metabotrópicos e acoplado a proteína Gi -inibitória), o 
que significa que ocorre menor síntese e liberação de noradrenalina quando o 
receptor é estimulado nos neurônios noradrenérgicos. A mirtazapina e a mian-
serina objetivam bloquear esse "freio" na liberação de noradrenalina, tendo 
como resultado o aumento da transmissão noradrenérgica. 
De forma secundária, estudos mais recentes demonstram que o aumento 
de noradrenalina contribui com o aumento de serotonina, pois o aumento de 
noradrenalina estimula receptores alfa-1 localizados em neurônios serotoné-
gicos e acoplados a proteína Gs, ou seja, são receptores excitatórias, o que 
resulta no estímulo na liberação de serotonina. O resultado é o 
aumento de noradrenalina e serotonina por um me-
, 
canismo diferenciado. E importante observar que as 
outras classes terapêuticas discutidas bloqueiam as 
bombas de recaptação, enquanto esse mecanismo 
atípico (diferenciado) está relacionado apenas com 
o bloqueio dos receptores alfa 2 inibitórios. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Essas drogas atípicas também bloqueiam os receptores de serotonina 5-HT 
2
A 
e 5-HT2c e, por esta razão, não causam os mesmos efeitos colaterais dos I.S.R.S: 
agitação e disfunção sexual. Tal ação confere um importante benefício para a 
classe dos antidepressivos atípicos. Quando o paciente apresenta disfunção se-
xual com a fluoxetina, por exemplo, o médico pode optar pela troca por mir-
tazapina. As reações adversas mais comuns da mirtazapina são aumento de 
apetite e de peso, sonolência, sedação, dor de cabeça e boca seca (xerostomia) . 
• 
Ansiedade e tratamento 
A ansiedade é uma emoção normal em situações de ameaça. Acredita-
-se que a ansiedade é uma reação evolutiva de "luta ou fuga". No entanto, 
é necessário refletir quando, de fato, a ansiedade se torna um distúrbio a 
ser medicado. 
A reação de "luta e fuga" é fundamental para a sobrevivência do indivíduo. 
O medo é uma resposta emocional, fisiológica e comportamental a uma amea-
ça externa definida (por exemplo, um intruso ou um veículo descontrolado). 
Esta ansiedade adaptativa frente a uma situação de perigo, é perfeitamente 
normal. No entanto, há circunstâncias nas quais a presença da ansiedade não 
é adaptativa e constitui um transtorno psiquiátrico. 
De acordo com Santos (2009), a capacidade de tolerar a ansiedade varia 
muito e, por isso, muitas vezes é difícil de determinar o que significa "ansiedade 
anormal". No entanto, quando ela ocorre em momentos inadequados ou é tão 
intensa e duradoura que chega a interferir nas atividades normais do indiví-
duo, pode ser considerada como um distúrbio a ser diagnosticado pelo médico 
psiquiatra. É possível citar como transtornos de ansiedade: agorafobia, ataque 
do pânico, fobia específica, fobia social, transtorno de estresse pós-traumático 
(TEPT), dentreoutros. Esses transtornos são prevalentes e associados com al-
tos níveis de morbidade e mortalidade. 
Assim, de acordo com Storino (2016), a ansiedade caracteriza-se por uma 
"sensação difusa", semelhante ao medo, mas em resposta a um perigo vago, 
não concreto, sendo a intensidade, duração ou frequência da ansiedade cla-
ramente desproporcionais ao estímulo (ameaça), causando sofrimento ao pa-
ciente e levando-o a apresentar prejuízo social e/ou ocupacional. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
•• 
Transtornos de ansiedade: bases neuroquímicas 
A amígdala é um núcleo cerebral com formato de amêndoa, localizado pró-
ximo ao hipocampo, que apresenta conexões anatômicas capazes de integrar 
as informações sensoriais e cognitivas, determinando a resposta ao medo, o 
que pode resultar em um estímulo no sistema nervoso autônomo simpático e, 
por essa razão, durante uma crise de ansiedade, o indivíduo apresenta taqui-
cardia, sudorese, insônia, boca seca, entre outros sintomas. 
Portanto, na ansiedade, ocorre uma hiperatividade, em especial na amíg-
dala. Essa região do cérebro exerce papel central nas vivências de ansiedade e 
medo, tendo conexões recíprocas com o córtex cingulado anterior (CCA) e cór-
tex orbitofrontal (COF). Ou seja, a ativação excessiva dessas estruturas cere-
brais é responsável pelo medo e ansiedade, como exposto na Figura 7. O excesso 
do neurotransmissor serotonina e a falta de GABA nesses circuitos cerebrais 
que justificam esta hiperativação. Os sentimentos de medo são regulados por 
conexões recíprocas entre a amígdala e o córtex cingulado anterior (CCA) e entre 
a amígdala e o córtex orbitofrontal (COF). Em um aspecto mais específico, pode 
ser que a hiperexcitação desses circuitos produza sentimentos de medo. 
Sentimento de medo 
■ Hiperexcitação 
Amígdala ~ 
Figura 7. Sentimento de medo. Fonte: STAHL, 2014, p. 363. (Adaptado). 
~ ., 
Medo 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Distúrbios de ansiedade também resultam em reações endócrinas, repre-
sentadas na Figura 8, que acompanham o medo, em parte, por causa das cone-
xões entre a amígdala e o hipotálamo, o que provoca alterações no eixo HHSR 
(hipotálamo-hipófise-suprarrenal) e resu lta no aumento dos níveis de cortisol. 
A resposta do medo se caracteriza, em parte, por efeitos endócrinos, como o 
aumento do cortisol, motivado em razão da excitação do eixo hipotálamo-hi-
pófise-suprarrenal (HHSR) pela amígdala. A excitação prolongada do eixo HHSR 
e a liberação de cortisol podem ter implicações significativas para a saúde, 
como aumento do risco de doença arterial coronária, diabetes tipo 2 e acidente 
vascular encefálico. 
Resposta endócrina ao medo 
■ Hiperexcitação 
Hipotálamo 
~posta de medo 
Endócrina 
Hipotálamo 
jCortisol 
j Doença arterial coronária 
j Diabetes tipo 2 
jAcidente vascular encefálico 
Figura 8. Resposta endócrina ao medo. Fonte: STAHL, 2014, p.363. (Adaptado). 
Estratégia gabaérgica: benzodiazepínicos 
• 
Medicamentos que potencial izam as ações do neurotransmissor GABA (áci-
do gama-aminobutírico) são muito utilizados na prática clínica para tratamento 
da ansiedade. Os benzodiazepínicos (BZD) são drogas depressoras no sistema 
nervoso central (SNC) que têm esse importante efeito sob o GABA, decorren-
PSICOFARMACOLOGIA • 
te da hiperpolarização produzida nos neurônios sobre a ação destas drogas. 
Os BZD têm sítios de ligação ao receptor GABA-A e potencializam os efeitos 
inibitórios do GABA. Seus efeitos são decorrentes da inibição de neurônios 
inicialmente hiperativos nos circuitos da ansiedade. 
Mecanismo de ação dos BZD: funcionam como moduladores alostéricos 
positivos, ou seja, quando um BZD se liga no receptor GABA-A, há alterações 
neste receptor que aumentam a afinidade do GABA (neurotransmissor) ao re-
ceptor GABA-A. Uma vez que o receptor é ativado por GABA, há um aumento 
na frequência de abertura de canal de cloreto o que resulta em hiperpolariza-
ção. No entanto, os BZD não têm efeito na abertura do canal de c1- (cloreto) na 
ausência de GABA. Aparentemente, a presença de BZD altera o estado físico 
dos receptores e o GABA abre os canais mais facilmente os canais de cloreto. 
Na Figura 9, observa-se o mecanismo de ação dos benzodiazepínicos. 
o 
Receptor vazio 
(sem agonistas) 
Receptor ligado 
com GABA 
Receptor vazio 
(sem agonistas) + a 
~li 
~~ 
S~ GABA 
++ r-~ mb 18™ 
~ im!® 
Receptor ligado ~ -
com GABA e Benzodiazepínico 
benzodiazepínico + + + , ') 
GABA 
b ¼~~mm! 
A entrada de (1- hiperpolariza a célula, tornando mais ~......... 
11 
1 
difícil sua despolarização e, por isso, ....._ - __ -
reduz a excitabilidade neuronal. --,. CI- CI· CI· 
A ligação do GABA causa abertura 
do canal de coreto, levando à 
hiperpolarização da célula. 
A ligação do GABA é potenciada 
pelo benzodiazepínico, resultando 
em maior entrada de íons cloreto. 
Figura 9. Mecanismo de ação dos benzodiazepínicos. Fonte: WHALEN; FINKEL; PANAVELIL, 2016, p. 122. {Adaptado). 
Na Figura 9, subdividida em 4 quadrantes, nota-se o mecanismo de ação dos 
benzodiazepínicos. Informações complementares do passo a passo descrito na 
imagem (nos quadrantes denominados A, B e C), são destacadas logo a seguir: 
• Sem a ação de GABA, representado em A, os canais de cloreto (CI-) 
estão fechados; 
• Quando o neurotransmissor GABA ativa o receptor GABA-A (represen-
tado em B), ocorre a abertura dos canais, como um "portão", o que 
PSICOFARMACOLOGIA 
permite a entrada dos íons cloreto {CI·). Desta forma, o neurônio está 
hiperpolarizado; 
• No entanto, quando se observa a representação em C, sob a ação dos 
benzodiazepínicos, existe uma alteração conformacional do receptor 
(não observado na imagem, pois isso depende de uma animação em 3D). 
De fato, quando o benzodiazepínico ativa a sua subunidade específica no re-
ceptor GABA-A, ocorre uma maior exposição do sítio de ligação do GABA neu-
rotransmissor ao receptor GABA-A. Por isso, é possível dizer que os BZD são 
moduladores alostéricos positivos, ou seja, sob seu efeito, o GABA neurotrans-
missor tem maior afinidade pelo receptor GABA-A, ampliando as ações do GABA. 
Os efeitos dos BZD, portanto, dependem das ações do neurotransmissor GABA. 
Ao mesmo tempo, se observa que tanto o BZD como o neurotransmissor GABA 
ativam o receptor GABA-A, cada qual numa subunidade diferente. 
Observa-se também que, sob a ação do BZD, a hiperpolarização do neurô-
nio é maior quando comparada ao GABA sozinho (representado em B), pois é 
isso que os BZD fazem: potencializam as ações do GABA neurotransmissor 
e, portanto, potencializam a hiperpolarização. Vale lembrar que um neurônio 
hiperpolarizado está impedido de sofrer um potencial de ação e é por esta ra-
zão que os BZD são depressores no SNC. Todos os BZD têm estrutura molecular 
e mecanismos de ação similares, diferenciando-se apenas na farmacocinética 
{tempo de meia-vida). Dentre os BZD utilizados para tratamento da ansieda-
de, estão o Lorazepam, o Oxazepam, o Alprazolam, o Clonazepam e o Diazepam. 
EXPLICANDO 
O tempo de meia-vida é o tempo necessário para que metade da con-
centração plasmática máxima de uma droga se reduza à 50%, parâmetro 
farmacocinético que justifica o intervalo entre a administração dos me-
dicamentos. Alguns medicamentos, como o Diazepam, têm um tempo de 
meia vida muito alto, podendo alcançar até 30 horas. Por essa razão, o 
uso é contraindicado para idosos pois, por ser uma droga depressora do 
sistema nervoso central, pode causar sonolência e relaxamento muscular, 
o que potencializa o risco de queda. 
Reações adversas dos benzodiazepínicos 
Os principais efeitos colaterais dos BZD consistem em sonolência, confusão, 
amnésia anterógrada e comprometimento da coordenação (ataxia), algo que afeta 
PSICOFARMACOLOGIA • 
as habilidades manuais, como o desempenho de um motorista, de maneira consi-
derável. Pode ocorrer comprometimento cognitivo, sendo comum que pacientes 
relatem dificuldade de memorização e retençãode novos conhecimentos, além 
de desencadear dependência física e psicológica. Por essa razão, sua retirada deve 
ser gradual e contínua, em um processo conhecido como "desmame". 
•• 
Estratégia serotonérgica: buspirona 
Como a ansiedade ocorre em razão de uma hiperativação, mediada espe-
cialmente pela serotonina nos circuitos da ansiedade, essa estratégia consiste 
em reduzir as ações da serotonina na amígdala. 
Mecanismo de ação da buspirona: agonista parcial dos receptores 5HT1A' 
que é um receptor da família dos metabotrópicos, acoplado a proteína do tipo 
Gi (inibitória). As ações ansiolíticas potenciais da buspirona podem resultar de 
ações agonistas parciais de 5HT1A' tanto pré-sinápticas quanto pós-sinápticas. 
Quando o receptor é estimulado, o neurônico fica inibido de produzir e liberar 
serotonina na fenda sináptica. Os agonistas parciais de 5HT1A' como a buspiro-
na, reduzem a ansiedade por meio de ações nos autorreceptores somatoden-
dríticos pré-sinápticos (à esquerda) e nos receptores pós-sinápticos (direita). O 
início de ação da buspirona, como o dos antidepressivos, é demorado, o que 
sugere que os efeitos terapêuticos estão relacionados a alterações adaptativas 
distais e não com ações agudas sobre esses receptores. 
Ações de agonistas parciais de SHT,A na ansiedade 
Receptor SHT,A pré-sináptico 
~ 
Buspirona Receptor SHT,A pós-sináptico 
O) 
Buspirona 
a, 
O) Q 
Figura 10. Ações dos agonistas parciais de SHT1A na ansiedade. Fonte: STAHL, 2014, p. 375. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
, 
E importante salientar que são necessários dias ou semanas para que a bus-
pirona produza seus efeitos farmacológicos, sugerindo que mecanismos indire-
tos de adaptação de receptores podem estar envolvidos. A demora de 2 a 3 se-
manas para os efeitos ansiolíticos da buspirona configura uma desvantagem, no 
entanto, o fato de não ser um depressor do sistema nervoso central 
e não causar dependência é uma vantagem da buspirona. Sobre as 
reações adversas, são muito diferentes daquelas ob-
servados com os BZD, posto que a buspirona não cau-
sa perda de coordenação motora e não há relatos 
de efeitos de abstinência. As reações mais comuns 
consistem em náuseas, vômitos, vertigens e cefaleia. 
•• 
Estratégia adrenérgica: betabloqueadores 
A noradrenalina também é um neurotransmissor importante para a es-
timulação da amígdala, bem como o córtex pré-frontal e outros circuitos da 
ansiedade, com ênfase para a estimulação de noradrenalina numa região 
denominada de /ocus coeruleus, o que pode não apenas resultar em diver-
sas manifestações periféricas de estimulação autonômica excessiva como 
também desencadear sintomas de ansiedade e medo, como pesadelos, es-
tados de hiperexcitação e possíveis ataques do pânico. Desta forma, o uso 
de betabloqueadores é efetivo para tratar os sintomas da ansiedade. Nesse 
sentido, o betabloqueador propranolol tem sido utilizado para o tratamento 
dos sintomas autonômicos da ansiedade. 
Mecanismo de ação do propranolol: bloqueia os receptores 
adrenérgicos beta 1 e beta 2, portanto, é classificado como um 
betabloqueador não seletivo. Essa droga é utilizada para trata-
mento anti-hipertensivo, angina, prevenção de enxaqueca e 
controle da ansiedade. O bloqueio beta 1 no coração reduz 
a taquicardia e o possível aumento da pressão arterial, 
enquanto o bloqueio beta 2 na musculatura esquelética 
reduz os tremores (sintomas comuns durante a crise de 
ansiedade). As reações adversas incluem fadiga, bradicar-
dia, extremidades frias, distúrbios do sono e pesadelos. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
•• 
Outros fármacos com potencial ansiolítico 
A ansiedade é um tema muito amplo e há diversos transtornos de ansieda-
de que são diagnosticados pelo médico. Em geral, algumas drogas das classes 
dos antidepressivos também podem ter uso em alguns transtornos de ansie-
dade. Por exemplo, o tratamento de primeira linha para transtorno do pânico 
consiste no uso de: 
• Buspirona; 
• I.R.S.N - Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina; 
• Benzodiazepínicos; 
• 1.5.R.S - Inibidores seletivos da recaptação de serotonina. 
A possível explicação dos usos de antidepressivos na ansiedade é que, ape-
sar das drogas bloquearem as bombas de recaptação de serotonina e aumen-
tarem a oferta de serotonina na fenda sináptica, são as ações nos receptores 
5HT
1
A' ou seja, o efeito inibitório sobre parte de seus impulsos nos circuitos da 
ansiedade que justificam a sua utilização. 
• 
Mania: caracterização e tratamento 
A mania é uma exacerbação do humor, tratando-se de uma excitação ma-
nifestada por hiperatividade mental e física, além de desorganização do com-
portamento. Em geral, os episódios de mania estão presentes no transtorno 
bipolar, mas podem incidir também em outros distúrbios psiquiátricos. 
Transtorno bipolar: caracterização neuroquímica 
O transtorno bipolar é uma alteração de humor que oscila entre os es-
tados de depressão e de mania. Um desequilíbrio na quantidade de neuro-
transmissores pode resultar em alterações do humor. Conforme visto na Figura 
1, o humor pode estar alterado para baixo, passando pela distimia 
até a depressão (caracterizando a doença depressão maior - ou 
unipolar). Por outro lado, quando o humor está elevado, pode ser 
classificado como um estado de hipomania ou, acima disso, 
mania. No transtorno bipolar, o humor do paciente oscila 
entre dois polos mais extremos, ou seja, mania e depres-
são. É isso que justifica a nomenclatura de "bipolar". 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Na fase de mania, ocorre uma estimulação exacerbada por ação de neu-
rotransmissores excitatórios no SNC, ao passo que, na fase de depressão, 
ocorre um déficit das ações dos neurotransmissores, isto é, uma disfunção 
na liberação e ação dos neurotransmissores, o que justifica as oscilações de 
humor. Não obstante, alguns pacientes podem ter estados predominantes de 
mania, enquanto outros, de depressão. 
Estabilizadores do humor 
Carbonato de Lítio 
•• 
É o fármaco mais utilizado, sendo eficaz nas doses plasmáticas de 0,5 - 1 
mmol/L; Doses acima de 1,5 mmol/L implicam em toxicidade, portanto, é um 
fármaco de baixo índice terapêutico. O lítio é um cátion monovalente (Li+), 
que pode mimetizar o papel do Na+ em tecidos excitáveis, sendo capaz de 
permear os canais rápidos dependentes de voltagem para gerar o potencial 
de ação. Contudo, o lítio não é bombeado para fora da célula e não pode 
manter os potenciais da membrana. Embora seus mecanismos não estejam 
plenamente esclarecidos, postula-se que o lítio pode ter possíveis meca-
nismos de ação, como: 
• Inibição da liberação de noradrenalina e dopamina dependente de Ca 2+; 
• Bloqueio de enzimas e redução da síntese de segundos mensageiros, 
como a enzima inositol monofosfatase; 
• Aumento da liberação de serotonina no sistema límbico (sistema de re-
compensa); 
• Aumento da liberação de GABA e suas respectivas respostas inibitórias; 
Dada a potencial toxicidade por lítio, é necessário o acompanhamento dos 
níveis plasmáticos da droga, em especial quando utilizada com medicamentos 
que podem aumentar as concentrações de lítio, como os AINEs (p. ex. diclofe-
naco) e diuréticos (p. ex. furosemida). Assim como os antidepressivos, o início 
das ações terapêuticas demora algumas semanas (de 1 a 3 semanas). 
Em relação às reações adversas, os sintomas gastrointestinais são mais 
frequentes, como a dispepsia, náuseas, vômitos e diarreia, mas também 
pode haver aumento de peso, acne, tremores, sedação, assim como pre-
juízos na cognição e na coordenação motora. O lítio é uma droga de baixo 
PSICOFARMACOLOGIA • 
índice terapêutico (dose letal próxima da dose efetiva), portanto, o seu uso 
requer monitoramento. 
Outras drogas usadas para tratar o transtorno bipolar 
Além do lítio, outras drogas são utilizadas para o tratamento do transtorno 
bipolar, com ênfase para alguns anticonvulsivantes, que tratam bem o episódiode mania e, em menor grau, os episódios de depressão, como os antipsicóti-
cos de 2ª geração, que demonstram efetividade para estabilizar tanto a mania 
como a depressão. O Quadro 4 lista as drogas que são mais aplicadas. 
QUADRO 4. OUTRAS DROGAS USADAS PARA O TRANSTORNO BIPOLAR 
Classe terapêutica 
Anticonvulsivantes 
Neurolépticos / 
Antipsicóticos de 2ª 
geração 
~ 
1 
Droga / Fármaco 
Valproato de sódio 
Carbamazepina 
Lamotrigina 
Oxcarbazepina 
Topiramato 
Gabapentina 
Quetiapina 
Risperidona 
' Olanzapina 
Observações 
Previne tanto a mania como a depressão. 
Mais efetivo na fase de mania. 
Previne tanto a mania como a depressão. 
Mais efetivo na fase de mania. 
Previne tanto a mania como a depressão. 
Mais efetivo na fase de mania. 
Previne tanto a mania como a depressão. 
• 
Psicose: caracterização e tratamento da esquizofrenia 
A psicose é um transtorno mental que faz com que o indivíduo perceba ou 
intérprete as coisas de maneira diferente em relação às outras pessoas que o 
rodeiam. Trata-se de um distúrbio psiquiátrico grave, de origem funcional, cujo 
paciente apresenta alterações do comportamento, além de incapacidade de 
pensar de forma coerente e de compreender a realidade. 
Mesmo que seja explicado e comprovado para a pessoa com psicose a for-
ma correta de interpretar a realidade, o doente prevalece com os seus delírios 
e alucinações, acreditando somente em sua própria realidade. Em geral, essa 
alteração está presente no diagnóstico de esquizofrenia, embora se manifeste 
em outros transtornos mentais. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
•• 
Esquizofrenia: caracterização neuroquímica 
O termo esquizofrenia, proposto por Breuler em 1911, substitui a expres-
são demência. É um tipo de psicose caracterizada por distúrbios nos processos 
mentais, delírios e alucinações, bem como por extenso retraimento do inte-
resse do indivíduo em relação ao convívio social. A esquizofrenia está entre as 
doenças mentais mais severas e debilitantes. Atinge mais adultos jovens, que 
estão iniciando sua vida independente e produtiva. O diagnóstico da esquizo-
frenia é baseado nos sintomas clínicos apresentados pelo paciente por pelo 
menos um mês, classificados de acordo com os critérios ou sistemas do ICD-1 O 
(lnternational Classification of Diseases) ou DSM-IV. Os sintomas da esquizofrenia 
podem ser divididos em 4 categorias: 
1. Sintomas positivos (psicose), tais como delírios e alucinações; 
2. Sintomas negativos, tais como introversão, afastamento de contatos 
pessoais e embotamento afetivo; 
3. Déficits cognitivos (dificuldade de memorização, atenção, funciona-
mento executivo); 
4. Desregulação afetiva dando origem a sintomas depressivos e maníaco 
bipolar. 
Um grande passo para a compreensão da etiologia da esquizofrenia é a 
descoberta de que antagonistas dopaminérgicos controlam os delírios e alu-
cinações (sintomas positivos) de pacientes esquizofrênicos. Há 4 importantes 
vias dopaminérgicas no sistema nervoso central, sendo que apenas 2 destas 
vias estão alteradas no paciente com esquizofrenia. A via psíquica mesolímbi-
ca está hiperativada, devido a um excesso de dopamina. Essa hiperativação 
é a responsável pelos sintomas positivos da doença. Já a via psíquica meso-
cortical está hipoativada, devido à falta das ações da dopamina nesta via. É 
a hipoativação a responsável pelos sintomas negativos da doença. Todas as 
vias dopaminérgicas estão descritas no Quadro 5. 
A esquizofrenia se caracteriza pela perda do contato com a realidade. Apre-
valência mundial de 1 % e o início dos surtos psicóticos inicia-se em pessoas jo-
vens (em torno de 20 a 25 anos). Há um componente genético importante, pois, 
quanto mais próximo o grau de parentesco com uma pessoa com esquizofre-
nia, maior o risco de desenvolver a doença. No entanto, apenas a predisposição 
PSICOFARMACOLOGIA • 
genética não é suficiente para a manifestação da doença. Portanto, acredita-se 
que a esquizofrenia ocorra em razão de fatores genéticos e ambientais. 
O 1° surto psicótico (sintomas positivos), ocorre após algum tipo de "gati-
lho", ou seja, um fator ambiental. Podemos exemplificar como gatilhos: estres-
se, privação de sono e o uso de drogas de abuso, como a maconha, visto o 
surgimento de sintomas de esquizofrenia entre jovens usuários da erva. Como 
o uso de drogas também aumenta a dopamina na via mesolímbica, quando o 
indivíduo já possui uma maior quantidade de dopamina na via devido a fato-
res genéticos, é possível que os primeiros sintomas se apresentem. Conclui-se, 
portanto, que não é a maconha que causa esquizofrenia, já que ela é apenas 
um gatilho para pessoas que já possuem uma predisposição genética. 
Quando se fala em surto psicótico, está se aludindo aos delírios e às aluci-
nações. Delírios podem ser definidos como alterações do pensamento, nas 
quais o doente apresenta uma distorção da realidade. O mais comum é o delí-
rio paranoide, em que o doente acredita, por exemplo, que está sendo vigiado, 
que instalaram câmeras em sua casa, que alguém está tentando envenená-lo, 
que instalaram um chip em sua cabeça etc. O interessante é que nenhum argu-
mento influencia o paciente a acreditar que isso não está acontecendo. 
Por seu turno, as alucinações são alterações da percepção relacionadas 
aos sentidos humanos. A alucinação mais comum é a auditiva, na qual o 
paciente escuta vozes de comando, mas também há alucinações visuais (en-
xergar alguém/coisas que não existem), alucinações olfativas (sentir um chei-
ro que não está no ambiente, como gás), alucinações táteis (sentir formigas 
no seu corpo), alucinações gustativas (sentir um gosto de sangue ou de carne 
podre na boca). 
Os neurolépticos, chamados também de antipsicóticos, drogas anti-es-
quizofrênicas ou tranquilizantes maiores, compreendem um grupo de fár-
macos que apresentam propriedades terapêuticas e farmacológicas comuns, 
mas que se destacam pela eficácia desejada no tratamento das psicoses (em 
especial a esquizofrenia). Os neurolépticos são drogas classificadas em 1ª (tí-
pica), 2ª e 3ª gerações (atípicas) e o uso dessas drogas é um marco na terapia 
psiquiatria porque, antes da descoberta dos fármacos, os pacientes com esqui-
zofrenia eram excluídos da sociedade, mantidos em manicômios, locais consi-
derados verdadeiros depósitos de pessoas doentes. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
•• 
Neurolépticos típicos: 1ª geração 
Drogas de 1ª geração: 
• Clorpromazina; 
• Tioridazina; 
• Sulpirida; 
• Flufenazina; 
• Levomepromazina; 
• Haloperidol. 
Para compreensão das ações dos neurolépticos e reações adversas, o Qua-
dro 5 destaca as principais vias dopaminérgicas. 
QUADRO 5. VIAS DOPAMINÉRGICAS NO SISTEMA NERVOSO CENTRAL 
Resposta 
Endócrina 
Motora 
~ 
Sistema Corpo celular 
Túbero-infundibular Hipotálamo 
Nigro-Estriatal Substância Negra 
Mesolímbica 
Mesocortical 
AVTM: área ventral do tegmento mesencefálico 
Inervação 
Hipófise 
Estriado 
Sistema Límbico 
Córtex Frontal 
A seguir, são descritas as vias dopaminérgicas representadas no Quadro 5: 
• Na via endócrina túbero-infundibular, a dopamina funciona como um 
inibidor natural da síntese do hormônio prolactina, que é um hormô-
nio fisiologicamente produzido quando necessário, como ocorre com 
as mulheres em período gestacional. Este hormônio possibilita o cresci-
mento das mamas e a lactogênese (formação do leite materno); 
• Na via motora nigro-estriatal, a dopamina regula a função motora. 
Neurônios localizados numa região denominada de substância nigra (ou 
substância negra) e que se projetam para o estriado regulam os movi-
mentos em conjunto com o neurotransmissor acetilcolina; 
• Duas vias psíquicas dopaminérgicas são importantes: a via mesolím-
bica e a via mesocortical. A doença esquizofrenia é caracterizada por 
sintomas positivos, que são os delírios e alucinações, quadro de sin-
PSICOFARMACOLOGIA • 
tomas que só acontece porque o paciente apresentaum excesso de 
dopamina na via mesolímbica. Por sua vez, os sintomas negativos 
da doença incluem sintomas que se assemelham à depressão, como a 
apatia e a anedonia (ausência de prazer). Tal quadro de sintomas ocorre 
porque o paciente apresenta uma redução dos níveis de dopamina na 
via mesocortical. 
Mecanismo de ação dos neurolépticos de 1ª geração: Bloqueio persis-
tente por antagonismo nos receptores D
2 
- o que justifica sua eficácia nos 
sintomas positivos da doença. São drogas pouco seletivas, ou seja, além do 
bloqueio dos receptores da dopamina, bloqueiam outros receptores que não 
são interessantes para tratar a esquizofrenia. 
No concernente às reações adversas, as drogas de 1ª geração podem cau-
sar as seguintes reações: vasodilatação com consequente hipotensão devido 
ao bloqueio alfa-1 nos vasos, constipação (boca seca) e visão turva devido ao 
bloqueio dos receptores colinérgicos (efeito conhecido como anticolinérgico), 
além de sonolência e ganho de peso devido ao bloqueio do receptor H1 da 
Histamina. Devido ao bloqueio persistente dos receptores D
2 
em todas as vias 
dopaminérgicas, as drogas de 1 ª geração causam diversas reações re laciona-
das as vias dopaminérgicas: 
• Aumento da síntese de prolactina (devido ao bloqueio das ações da do-
pamina na via endócrina). Neste caso, o paciente apresenta hiperprolac-
tinemia e pode apresentar desenvolvimento das mamas e produção de 
leite (até mesmo pacientes do sexo masculino); 
• Já no bloqueio persistente dos receptores D2 na v ia motora nIgro-es-
triatal, o paciente pode apresentar um aumento do neurotransmissor 
acetilcolina no estriado e tal desequilíbrio em ambos os neurotransmis-
sores (falta de dopamina e excesso de aceti lcolina) é responsável por 
alterações motoras, denominado de sintomas extrapiramidais como 
o parkinsonismo iatrogênico e a discinesia tardia. Sobre esses sin-
tomas, o parkinsonismo iatrogênico pode ser revertido com a redução 
de dose do medicamento ou troca da medicação, enquanto a d iscinesia 
tardia, que pode surgir após anos de tratamento, pode ser um sintoma 
irreversível para cerca de 30% dos pacientes, sendo uma reação alta-
mente incapacitante; 
PSICOFARMACOLOGIA • 
• Já o bloqueio persistente dos receptores D2 na via mesocortical pode 
piorar os sintomas negativos da doença, uma vez que nos pacientes com 
esquizofrenia há falta de dopamina nesta via. 
EXPLICANDO 
Sintomas extrapiramidais estão relacionados à falta das ações da dopa-
mina na via motora nigro-estriatal. Desta forma, sem as ações da dopa-
mina, se dá um aumento do neurotransmissor acetilcolina, causando o 
parkinsonismo iatrogênico, alteração caracterizada por tremores e rigidez 
muscular semelhante à doença de Parkinson. Já a discinesia tardia, um 
outro sintoma extrapiramidal, caracteriza-se por movimentos involuntários 
buco-linguo-maxilar, movimentos mastigatórios que acontecem durante o 
dia e que reduzem a qualidade de vida do paciente. 
•• 
Neurolépticos atípicos: 2ª e 3ª gerações 
Mecanismo de ação dos neurolépticos de 2ª geração: possuem um meca-
nismo de ação misto, promovendo um bloqueio dos receptores dopaminérgi-
cos D
2 
por dissociação rápida e bloqueio dos receptores serotonérgicos 5-HT
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A. 
Esta dissociação rápida está descrita em literatura como um tipo de bloqueio 
diferenciado (quando comparado as drogas de 1ª geração). Isso quer dizer que as 
drogas de 1ª geração têm um efeito persistente no bloqueio dos receptores 
D2 impossibilitando qualquer ação de dopa mina nestes receptores. Já na disso-
ciação rápida, isso significa que o fármaco bloqueia os receptores D2 de ma-
neira não persistente, ou seja, eventualmente o fármaco se desliga do receptor 
e permite um pouco das ações da dopamina em todas as vias dopaminérgicas. 
Dessa forma, as ações da dopamina não ficam anuladas nas vias dopaminér-
gicas normais do paciente com esquizofrenia e o fato da dopamina continuar 
exercendo o seu papel nestas vias é o que garante menos reações adversas en-
dócrinas e motoras. Os neurolépticos de 2ª geração também produzem o anta-
gonismo dos receptores SHT 2A' bloqueio responsável pelo aumento da liberação 
de dopamina nos diversos sistemas dopaminérgicos, inclusive na via mesortical, 
o que atribui uma eficácia contra os sintomas negativos da doença. 
Drogas de 2ª geração: 
• Clozapina; 
• Olanzapina; 
PSICOFARMACOLOGIA • 
• Quetiapina; 
• Risperidona; 
• Ziprasidona; 
• Sertindol. 
Droga de 3ª geração: 
• Aripiprazol. 
Mecanismo de ação do aripiprazol: agonista parcial em receptores dopa-
minérgicos D2, agindo como um estabilizador da transmissão dopaminérgi-
ca e antagonista em receptores SHT 2A. Dessa forma, o aripiprazol atua como 
um antagonista de receptores D2 na presença/excesso de dopamina, o que 
pode aumentar a transmissão dopaminérgica na ausência de dopamina. Por 
isso, essa droga é considerada como 3ª geração por alguns autores. 
Drogas de 2ª e 3ª geração têm menor propensão de desenvolvimento de 
reações endócrinas e sintomas extrapiramidais. No entanto, essas drogas pos-
suem reações adversas, sendo a principal delas ganho de peso com posterior 
desenvolvimento de problemas cardiovasculares (em decorrência do ganho de 
peso). Quando se compara o aripriprazol às drogas de 2ª geração, há uma me-
nor incidência de ganho de peso. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
Sintetizando • 
A depressão maior ou unipolar é caracterizada pela falta das monoaminas se-
rotonina, noradrenalina e dopamina. O objetivo dos antidepressivos é aumentar 
estas monoaminas na fenda sináptica, melhorando suas ações e promovendo a 
remissão dos sintomas. A maioria dos antidepressivos atua através da inibição 
das bombas de recaptação denominadas de SERT, NAT ou DAT - respectiva-
mente, transportador de serotonina, transportador de noradrenalina e trans-
portador de dopamina. Dentre as diferentes classes de antidepressivos, alguns 
apresentam maior tolerabilidade, com menor incidência de reações adversas. 
Para o tratamento da ansiedade, caracterizado por uma hiperativação em 
alguns circuitos cerebrais, em especial numa área denominada amígdala, uti-
lizam-se drogas que potencializam o neurotransmissor GABA, como os BZD 
(benzodiazepínicos). Outra importante estratégia de tratamento é a buspirona, 
que tem a vantagem de não produzir dependência e abstinência. 
O tratamento do transtorno bipolar deve ocorrer com o uso de estabilizado-
res do humor, como o carbonato de lítio. Embora seja uma droga efetiva para 
remissão dos sintomas depressivos e maníacos, é uma droga de baixo índice 
terapêutico, portanto, deve haver monitoramento das concentrações plasmá-
ticas e acompanhamento do paciente. 
A esquizofrenia é uma doença multifatorial, envolvendo fatores genéticos 
e ambientais. Nesse sentido, muitos antipsicóticos/neurolépticos estão dispo-
níveis atualmente na terapêutica, sendo que as drogas típicas de 1 ª geração 
como o haloperidol estão associadas a mais reações adversas, especialmente 
endócrinas e motoras, e as drogas atípicas têm apresentado benefícios em re-
lação a menor incidência de reações adversas. 
PSICOFARMACOLOGIA • 
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