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Diretor-presidente Jânyo Diniz
Diretoria Executiva de Ensino Adriano Azevedo
Diretoria Executiva de Serviços Corporativos Joaldo Diniz
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Autoria Andréia de Farias
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ASSISTA
Indicação de filmes, vídeos ou similares que trazem informações comple-
mentares ou aprofundadas sobre o conteúdo estudado.
CITANDO
Dados essenciais e pertinentes sobre a vida de uma determinada pessoa
relevante para o estudo do conteúdo abordado.
CONTEXTUALIZANDO
Dados que retratam onde e quando aconteceu determinado fato;
demonstra-se a situação histórica do assunto.
CURIOSIDADE
Informação que revela algo desconhecido e interessante sobre o assunto
tratado.
DICA
Um detalhe específico da informação, um breve conselho, um alerta, uma
informação privilegiada sobre o conteúdo trabalhado.
EXEMPLIFICANDO
Informação que retrata de forma objetiva determinado assunto.
EXPLICANDO
Explicação, elucidação sobre uma palavra ou expressão específica da
área de conhecimento trabalhada.
Unidade 1 - Histórico da Psicofarmacologia
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 13
Histórico da Psicofarmacol og ia ........................................................................................ 14
A Psicofarmacologia na Antiguidade .......................................................................... 14
A psicofarmacologia e seus avanços na contemporaneidade ............................... 18
Introdução ao estudo da Psicofarmacologia .................................................................. 20
A origem das substâncias psicoativas e suas terminologias científicas .............. 21
As principais substâncias psicoativas naturais ......................................................... 23
As principais substâncias psicoativas sintéticas ...................................................... 24
Classificação dos psicotrópicos ....................................................................................... 25
Barbitúricos, benzodiazepínicos, opiáceos e opioides ............................................. 27
Anfetaminas, perturbadores, alucinógenos e anticolinérgicos .............................. 29
Sintetizando ........................................................................................................................... 32
Referências bibliográficas ................................................................................................. 34
Unidade 2 - Síntese, liberação e funções dos neurotransmissores e suas implicações
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 36
O cérebro e os neurotransmissores: divisão do SN ...................................................... 37
Sinapse química ........................................................................... .............. ..................... 38
Como ocorre a liberação de um neurotransmissor? ................................................. 40
Entendendo a síntese e as funções dos diversos neurotransmissores ................. 44
Patologias associadas às disfunções dos neurotransmissores ............................. 48
Ação e efeito dos fármacos sobre o SNC ........................................................................ 49
Fármacos depressores do SNC .................................................................................... 50
Fármacos estimulantes do SNC .................................................................................... 51
Influência dos fármacos sobre as emoções e no comportamento humano .............. 52
Fármacos que podem alterar o comportamento humano ........................................ 53
Fármacos e o risco de suicídio ................................ .................. ................................... 55
A dependência e a abstinência ......................................................................................... 56
A dependência física e psicológica ............................................................................. 56
Mecanismos de tolerância ............................................................................................ 57
Síndrome de abstinência ............................................................................................... 59
Prescrição de medicamentos psicotrópicos no Brasil. ............................................ 61
Sintetizando ........................................................................................................................... 62
Referências bibliográficas ................................................................................................. 63
Unidade 3 - Drogas utilizadas nos transtornos mentais
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 66
Benzodiazepínicos ............................................................................................................... 67
O neurotransmissor GABA ........................................................... .................................. 69
Mecanismo de ação ... .................................................................................................... 71
Reações adversas ........................................................................................................... 75
Dependência .................. .................................................................................................. 76
Neurolépticos ........................................................................................................................ 76
O neurotransmissor dopa mina ...................................................................................... 78
Neurolépticos de 1ª geração ......................................................................................... 81
Neurolépticos de 2ª geração ......................................................................................... 84
Neurolépticos de 3ª geração ......................... .............. .................................................. 86
Antidepressivos tricíclicos e inibidores da MAO .......................................................... 87
Antidepressivos da classe dos inibidores da MAO ................................................... 88
Antidepressivos da classe dos tricíclicos .................. ............................... .. ................ 89
Lítio e outras drogas antimania ......................................................................................... 92
Carbonato de lítio ............................................................................................................ 93
Outras drogas usadas para tratar o transtorno bipolar. ........................................... 94
Sintetizando ........................................................................................................................... 96Referências bibliográficas ................................................................................................. 97
Unidade 4 - Caracterização neuroquímica dos transtornos mentais e os tratamen-
tos farmacológicos
Objetivos da unidade ........................................................................................................... 99
Depressão: caracterização, bases neuroquímicas e tratamento ............................. 100
Depressão maior: bases neuroquímicas ................................................................... 101
Antidepressivos de 1ª geração ................................................................................... 105
Antidepressivos de 2ª geração ................................................................................... 108
Antidepressivos de 3 ª geração .................................................................................. 110
Outros antidepressivos atípicos ................................................................................. 111
Ansiedade e tratamento .................................................................................................... 112
Transtornos de ansiedade: bases neuroquímicas ................................................... 113
Estratégia gabaérgica: benzodiazepínicos ............................................................... 114
Estratégia serotonérgica: buspirona .......................................................................... 117
Estratégia adrenérgica: beta bloqueadores .............................................................. 118
Outros fármacos com potencial ansiolítico .............................................................. 119
Mania: caracterização e tratamento .............................................................................. 119
Estabilizadores do humor ............................................................................................. 120
Psicose: caracterização e tratamento da esquizofrenia ............................................ 121
Esquizofrenia: caracterização neuroquímica ........................................................... 122
Neurolépticos típicos: 1ª geração .............................................................................. 124
Neurolépticos atípicos: 2ª e 3ª geração .................................................................... 126
Sintetizando ......................................................................................................................... 128
Referências bibliográficas ............................................................................................... 129
O estudo da Psicofarmacologia é imprescindível àqueles que se interessam
pelo comportamento humano e pelas patologias que acometem a saúde men-
tal, pois é por meio desse estudo que se compreende a ação de determinadas
substâncias no organismo humano. Levando em consideração que as substân-
cias psicotrópicas possuem um caráter ambíguo quanto aos malefícios e aos
benefícios para o organismo, o estudo apresentado se embasa na constatação
de seu malefício com o uso excessivo e abusivo de algumas substâncias.
Nesse contexto, o uso de substâncias psicoativas é datado desde a Anti-
guidade, com muitas delas consideradas inofensivas por povos antecessores.
Contudo, com o avanço das civilizações, da medicina e das tecnologias, o uso
dessas substâncias passa a se adequar ao intuito de identificar e diferenciar
benefícios e malefícios, de modo a favorecer e coadjuvar os tratamentos psi-
quiátricos no Brasil e no mundo.
Diante da relevância da atuação dos profissionais que se dedicam ao estudo
da saúde mental, o estudo concomitante das substâncias que agem no sistema
nervoso central (SNC), nos neurotransmissores, nas células, nos sistemas de
captação e recaptação de sinais, bem como na condução das informações neu-
roquímicas é algo primordial para o estabelecimento de uma linha de trabalho
favorável entre a equipe multidisciplinar no tratamento de patologias psíquicas
e mentais.
PSICOFARMACOLOGIA •
A professora Andréia de Farias é venções em Psicanálise, do Instituto
psicóloga graduada pelo Centro Uni- de Psicologia da Universidade de São
versitário Fundação Santo André - Paulo - USP (2021). Psicóloga clínica
CUFSA (2017). Atualmente, trabalha de abordagem psicanalítica, com pas-
com crianças, adolescentes e adultos sagens pela monitoria da disciplina de
em consultório e estuda a psicanálise Gerontologia Social pela CUFSA (2016),
de modo permanente. Participante pela Psicologia Social em instituições
ativa em cursos, palestras, seminá- públicas, como o Centro de Atendi-
rios, fóru ns e capacitações na área de mento Psicossocial - CAPS (2016) e a
atuação desde 2013, sendo a última Defensoria Púb lica do Estado de São
atualização profissional por meio do Paulo - DPESP (2016 e 2017), além da
curso de extensão "Por uma psicaná- Psicologia Domici liar (2019).
lise pertinente à situação brasileira:
um percurso (crítico) introdutório" Currículo Lattes:
pelo Laboratório de Pesquisas e Inter- http://lattes.cnpq.br/5768098714053476
Dedico este trabalho àqueles que sofrem com transtornos mentais e
àqueles que se dedicam a estudar as funções cerebrais com o objetivo de
colaborar e auxiliar os que sofrem das patologias mentais.
PSICOFARMACOLOGIA •
A professora Tatiana Cristina Ferrei-
ra Aramini é mestre em farmacologia
com ênfase em psicofarmacologia pela
UNIFESP - Universidade Federal de São
Paulo (2012), especialista em docência
no ensino superior pela UNINOVE- Cen-
tro Universitário Nove de Julho (2018) e
graduada em farmácia e bioquímica
pela mesma instituição (2008). Tem ex-
periência com atenção farmacêutica e
orientação de pacientes quanto ao uso
de medicamentos, é professora univer-
sitária em cursos de graduação desde
2014 ministrando disciplinas de farma-
cologia, psicofarmacologia, assistência
farmacêutica, farmácia clínica, farmácia
hospitalar, fisiologia e patologia.
Currículo Lattes:
http://lattes.cnpq.br/7131860992583794
Dedico este trabalho, primeiramente, a Deus e ao meu esposo Leandro,
por todo apoio e parceria e a minha querida família, e em especial à
minha mãe e ao meu falecido pai, que sempre me apoiam e se orgulham
da minha trajetória acadêmica. Dedico também aos meus alunos, meus
grandes motivadores.
PSICOFARMACOLOGIA •
UNIDADE
r
educacional
Obietivos da unidade
Contribuir para a assimilação dos princípios de estudos referentes ao
funcionamento do psiquismo e do comportamento humano, quando
submetidos à interferência de substâncias psicotrópicas e medicamentosas que
alteram o funcionamento cerebral;
Elencar as concepções originárias, históricas e contemporâneas da
Psicofarmacologia, abrangendo as contribuições para o avanço teórico e
técnico no tratamento das patologias psiquiátricas, bem como na remissão dos
principais sintomas das patologias.
Tópicos de estudo
Histórico da Psicofarmacologia
A Psicofarmacologia na
Antiguidade
A Psicofarmacologia e seus
avanços na contemporaneidade
Introdução ao estudo da
Psicof a rmacologia
A origem das substâncias
psicoativas e suas terminologias
científicas
As principais substâncias
psicoativas naturais
As principais substâncias
psicoativas sintéticas
Classificação dos psicotrópicos
Barbitúricos, benzodiazepínicos,
opiáceos e opioides
Anfetaminas, perturbadores,
alucinógenos e anticolinérgicos
PSICOFARMACOLOGIA •
•
Histórico da Psicofarmacologia
Na pré-história, o uso de substâncias psicoativas não era sinônimo de amea-
ça à sociedade, porém, devido aos efeitos sociais e subjetivos relacionados aos
contextos sociais, o controle passou a ser adotado conforme as circunstâncias
envolvidas em cada contexto. No entanto, assim como as leis e os costumes
ao longo do tempo, as drogas assumiram significados distintos em diferentes
contextose ocasiões.
A ciência acredita que os humanos, assim como outras espécies, desde a
Antiguidade, recorrem ao poder de algumas substâncias para alterar o meta-
bolismo e a consciência. Também na Antiguidade, as culturas elabora-
vam suas próprias regras para o consumo de determinadas
substâncias e o cumprimento dessas regras era atribuído
aos controles sociais formais, sob a forma de leis e, dos
controles sociais informais, atribuído à família, aos sacer-
dotes, ou, ainda, aos empregadores e demais autoridades.
••
A Psicofarmacologia na Antiguidade
Com a cristianização do Império Romano, no século IV, o uso de determina-
das substâncias, prática até então comum às antigas nações pagãs, passou a
ser vinculado a cultos mágicos e religiosos, com seus efeitos terapêuticos ques-
tionados pela Igreja pois, para o Cristianismo daquela época, a dor e a morti-
ficação da carne eram idealizadas como formas de aproximação com Deus e,
desse modo, o alívio da dor por meio de substâncias "mágicas" não era bem
visto. Desde então, o uso de substâncias psicoativas, medicamentosas ou não,
passou à conotação política e econômica, o que contribuiu para estigmatizá-
-las, assim como o sujeito que faz uso delas.
CONTEXTUALIZANDO
Na Idade Média, por volta do século X, a Igreja Católica passou a consi-
derar o uso de substâncias que até então não contavam com o reconheci-
mento médico, como um ato impuro, classificando-o inclusive como bru-
xaria. Logo, o uso dessas substâncias passou a ser passível de punições
como tortura e até morte.
PSICOFARMACOLOGIA •
No Brasil, algumas instituições públicas e privadas dedicam-se às pesqui-
sas sobre as substâncias psicotrópicas. Uma delas é o Centro Brasileiro de
Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), instituição sem fins lucrati-
vos, mantida pelo Departamento de Medicina Preventiva da UNIFESP (Univer-
sidade Federal de São Paulo), cujo compromisso primordial é o de contribuir
com a comunidade, no que diz respeito ao tema das drogas, por meio de
pesquisas científicas sobre o comportamento dos brasileiros.
A expressão droga se origina da palavra droog (holandês antigo), refe-
rente à folha seca, posto que a maior parte dos medicamentos era produzi-
da à base de vegetais. No entanto, na contemporaneidade, os profissionais
do exercício médico usam a palavra droga como um sinônimo para medica-
mento, ao mesmo tempo em que consideram o termo para identificar toda
substância capaz de alterar o funcionamento do organismo, ou seja, subs-
tâncias capazes de originar mudanças fisiológicas e psicológicas, alterando
o funcionamento das células cerebrais (neurônios) e promovendo oscilações
no comportamento humano.
Figura 1. Folhas secas, antiga matéria-prima para a produção de fármacos. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021.
Complementando o significado do termo droga, a medicina atual conside-
ra droga qualquer substância capaz de alterar a função dos organismos vi-
vos, bem como a capacidade que tais substâncias apresentam para promover
transmutações fisiológicas, como a contração/dilatação de vasos sanguíneos
PSICOFARMACOLOGIA •
ou o aumento/diminuição da pressão arterial, provocando, inclusive, modifi-
cações psicológicas, algo que ocorre quando as substâncias são capazes de
influenciar as células cerebrais (neurônios) e promover oscilações no compor-
tamento humano.
O ópio é um grande exemplo de substância usada como medicamento e
como droga de abuso, já que a história evidencia seu uso pelos povos sumérios
(Mesopotâmia) no ano 3500 a.e. Considerado maligno até o século XIX, mais tar-
de, o ópio passou a ser empregado no alívio da dor em seres humanos, como a
morfina, substrato do ópio, descoberto em 1805 pelo químico alemão Friedrich
Sertürner, e a heroína, outro substrato, desenvolvido na Inglaterra em 1874 e
produzido para o tratamento da tosse pelo laboratório Bayer em 1898.
A cocaína é uma substância cujo princípio ativo foi isolado no século XIX pelo
químico alemão Albert Niemann. Sigmund Freud, criador da psicanálise, lançou
mão da cocaína pela primeira vez em 1884, tendo a utilizado para tratar um ami-
go viciado em morfina. Ainda no século XIX, as qualidades medicinais da cocaína
eram enaltecidas e a sua comercialização era praticada também pelo laboratório
Bayer. Nessa época, seu uso era voltado à área da saúde, cujo Manual MERCK
trazia em sua primeira edição, no final do mesmo século, a indicação da dose
recomendada de cocaína para tratar os casos de cansaço e desânimo.
Figura 2. Sigmund Freud, teórico criador da Psicanálise. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021.
PSICOFARMACOLOGIA •
O clorofórmio, substância psicotrópica descoberta em 1831, era utilizado
em substituição ao álcool. A partir do século XIX, a ciência isolou os princípios
ativos de algumas substâncias psicoativas, como a morfina, a cocaína, a he-
roína, a mescalina, as anfetaminas dentre outras, dando início à produção de
fármacos puros, de utilização faci litada, possibilitando uma maior exatidão nas
dosagens. Já no início do século XX, a ciência fez o mesmo com os barbitúricos,
o éter, o clorofórmio e o óxido nitroso.
No mesmo período, os pesquisadores descobriram os efeitos medicinais da
ergotamina (substância ativa do ácido lisérgico). Dessa forma, a partir do sé-
culo XXI, o consumo de medicamentos se tornou acentuado, algo que os espe-
cialistas denominaram de "mania ocidental por pílulas", incluindo anfetaminas
(anorexígenos), LSD e Ecstasy. Por sua vez, o LSD-25, sintetizado pelo químico
suíço Albert Hoffmann em 1938, dois anos mais tarde, era ofertado pelo gover-
no japonês a seus soldados e pilotos, com a intenção de mantê-los atentos e
dispostos durante a guerra. Contudo, naquele mesmo ano, os estudos sobre
o LSD indicaram que a droga poderia provocar surtos psicóticos em pessoas
saudáveis. Já em 1947, com o intuito de transformá-la numa possível arma de
inteligência americana, a CIA rea lizou estudos com a substância.
Outras drogas sintéticas evidenciadas pela Europa no século XX foram os
barbitúricos e o MDMA (ecstasy). Este último, descoberto em 1912 e patenteado
em 1914 na Alemanha pelo laboratório
MERCK, tinha o intuito de desenvolver
um medicamento anorexígeno, po-
rém, os estudos naquela época foram
abortados e retomados apenas no fi-
nal da década de 70, quando a util ida-
de clínica dessas substâncias como um
possível coadjuvante nos processos
terapêuticos voltou a ser discutida. Al-
guns psiquiatras e psicólogos daquela
época, cuja intenção era a de auxiliar
no vínculo terapêutico, acreditavam
no poder do MDMA para a promoção
de bem estar no paciente.
Figura 3. Tipos de substâncias sintéticas. Fonte: Shutterstock.
Acesso em: 13/0712021.
PSICOFARMACOLOGIA •
••
A psicofarmacologia e seus avanços na contemporaneidade
A psicofarmacologia é um método que se baseia no desenvolvimento da
substância terapêutica até o seu uso final como um medicamento coadju-
vante nos tratamentos farmacoterápicos e psicofarmacoterápicos. O uso de
tais substâncias, cuja finalidade é a de propiciar sua segurança e eficiência,
deve ser realizado com cautela e com supervisão médica. A segurança e a
eficiência dos psicofármacos se dão pela sua capacidade de ação terapêuti-
ca, ou seja, nas interações possíveis com os neurotransmissores no sistema
nervoso central (SNC).
A estrutura do sistema nervoso cerebral é discutida há séculos, porém,
apenas com Santiago Ramon y Cajal, advém a descoberta de que os neurô-
nios são separados por pequenos espaços, denominados na contemporanei-
dade como sinapses. As sinapses são compostas por substâncias químicas li -
beradas pelos neurônios durante as comunicações entre si, levando a ciência
a descobrir a existência dos neurotransmissores e das sinapses elétricas,
comprovando que as neurotransmissões químicas são mais comuns que as
elétricas. A produção de neurotransmissorespelo sistema nervoso central
(SNC} é de fundamental relevância para que a liberação e a atuação se reali-
zem em alguns grupos de receptores específicos.
Figura 4. Ilustração das sinapses cerebrais. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021.
PSICOFARMACOLOGIA •
A partir da década de 1940, foi iniciado o uso de fármacos no tratamento
dos transtornos psiquiátricos. Em 1949, o primeiro fármaco empregado como
recurso terapêutico para o tratamento da mania foi o lítio, seguido em 1952
da clorpromazina, cujos efeitos antipsicóticos se revelaram nesse mesmo pe-
ríodo. Outra substância relevante fo i o meprobamato, que teve seus efeitos
ansiolíticos descobertos em 1954 e, em 1957, o clordiazepóxido. A partir de
então, foram sequenciadas uma série de outras drogas terapêuticas, inclusive
os benzodiazepínicos.
É possível afirmar que a psicofarmacologia, no decorrer da sua história, se
deu por meio da experiência, ou seja, por meio da observação do modus ope-
randi de algumas substâncias e a sua eficácia em relação a determinadas pato-
logias, como a iproniazida, que era utilizada para tratar a tuberculose e teve
descoberta a sua capacidade para produzir euforia e elevar o humor, passando
a ser aplicada com eficácia no tratamento da depressão, dando origem aos
antidepressivos inibidores da monoaminoxidase (IMAO), tendo seu uso minis-
trado em pacientes diagnosticados com depressão e hospitalizados a partir
de 1956.Já em 1958, foi descoberta a imipramina, anti-histamínico e primeiro
antidepressivo tricíclico com eficácia reconhecida .
No final da década de 1950, se contava com cinco classes de drogas capa-
zes de estimular impactos clínicos significativos no tratamento de transtornos
mentais: os antipsicóticos, os antidepressivos tricíclicos, os antidepressi-
vos IMAO, os ansiol íticos e os antimania. Desde então, a admissão dos psi-
cofármacos se deu de modo tão re levante quanto a sua propagação, o que fez
diminuir a quantidade e a frequência das internações hospitalares motivadas
por patologias psiquiátricas, gerando uma expressiva queda no número de pa-
cientes psicóticos internados nos EUA, dado que o número era de 554.000 em
1954 e reduziu para 77.000 em 1993.
De lá para cá, foram observados o aperfeiçoamento das substâncias psico-
terapêuticas já descritas, incluindo as suas capacidades para o t ratamento das
patologias mentais, e o surgimento de novas substâncias psicotrópicas. No en-
tanto, as novas drogas pouco contribuíram com as já existentes,
porém, há características específicas que merecem atenção por-
menorizada, como a capacidade de seleção, a razoabilidade e o
reconhecimento dos seus efeitos na contemporaneidade.
PSICOFARMACOLOGIA •
•
Introdução ao estudo da Psicofarmacologia
Levando em consideração que o uso de substâncias psicoativas não era
considerado um fator consternador na antiguidade, é necessária uma cons-
tante efetivação de técnicas e estudos científicos na atualidade no que se
refere a tais substâncias, tendo como intuito o ensejo de aprimorá-las. Não
obstante, o ser humano conviveu por séculos com o hábito de usar subs-
tâncias psicoativas, incluindo as alucinógenas, sem a evidência de problemas
advindos desse hábito. Dessa forma, para melhor compreensão das diretri-
zes sobre a psicofarmacologia, é necessário investigar aspectos históricos,
origens, avanços, classificações, trajeto até a contemporaneidade, benefícios
e ambiguidades de atuação.
Na atualidade, que pode ser chamada também de pós-modernidade, são
observados avanços tecnológicos em diversos segmentos da humanidade, in-
cluindo o da indústria farmacêutica. Desde meados do século XX, os avanços
crescentes da indústria farmacêutica possibilitam a médicos e pacientes uma
escolha medicamentosa cada vez mais precisa e eficiente para o tratamento e/
ou supressão dos sintomas psiquiátricos.
A partir da introdução do uso da fluoxetina com o objetivo de tratar os sin-
tomas da depressão, a humanidade foi guiada para uma era das "pílulas da
felicidade", que se atualiza a cada geração. Ao levar em conta que a propaganda
é uma ferramenta dos fabricantes de fármacos, a cada geração se alcança um
número crescente de adeptos da farmacologia, já que a angústia e o sofrimen-
to vêm perdendo cada vez mais o significado na vida das pessoas que preferem
medicá-lo em vez de interpretá-lo, elaborá-lo e entendê-lo.
A psicofarmacologia e as leis que a regulamentam
A partir do século XX, no Brasil e no mundo, a questão do uso das substân-
cias psicoativas passou a ser motivo de inquietude, causada por razões políti-
cas que motivaram legislações específicas. O uso de substâncias psicoativas
na contemporaneidade está ligado a doenças e à criminalidade. Dependendo
da forma e do contexto em que esse uso se apresenta, as leis de controle
formal (governo, médicos, hospitais, etc.) e de controle informal (líderes po-
lít icos ou religiosos, familiares, empregadores, vizinhos, médicos, membros de
órgãos de repressão, etc.) atuam como controles sociais desse uso.
PSICOFARMACOLOGIA •
Quando o uso de substâncias psicoativas se dá por meio de indicação
médica, por exemplo, elas devem ser prescritas com controle da recei-
ta. Desse modo, o uso de substâncias psicoativas e/ou psicotrópicas se
ajusta às peculiaridades de cada contexto, com seu próprio sistema de
valores e regras que, por sua vez, reproduzem os diferentes modos e
finalidades de uso.
••
A origem das substâncias psicoativas e suas terminologias
científicas
As substâncias psicoativas são, na maioria, originadas da natureza
e, posteriormente, sintetizadas em laboratório. Dessa forma, podemos
classificá-las em substâncias psicotrópicas naturais e substâncias psico-
trópicas sintéticas. As substâncias psicoativas originadas da natureza são
aquelas provenientes de plantas, animais ou vegetais, como, por exem-
plo, a cafeína, o ópio, a nicotina, o THC (maconha) etc. As substâncias
psicoativas naturais, principalmente as plantas de efeitos alucinógenos,
são utilizadas há séculos por culturas indígenas, em rituais religiosos em
, . ,
vartos pa,ses.
Já as substâncias psicoativas sintéticas, são aquelas cujo princípio ati-
vo é isolado e sua produção se dá por meio de processos laboratoriais.
Um exemplo dessas substâncias é a cocaína e seus derivados que, quan-
do sintetizados em laboratório, dão origem a diversos fármacos de uso
médico e hospitalar. A nomenclatura das substâncias psicoativas pode
ser exemplificada em três termos: tóxico, narcótico e psicotrópico, de
acordo com o Quadro 1.
Tóxico
Narcótico
Psicotrópico
QUADRO 1. TERMINOLOGIAS
Refere-se à toxicidade da substância psicoativa nas formas de
medicamento e droga de abuso, cujo parâmetro de diferenciação, nesse
caso, é a quantidade utilizada da substância.
De origem inglesa, refere-se às substâncias psicoativas utilizadas tanto
como medicamento quanto como drogas de abuso.
Mais utilizado para referenciar as substâncias que agem no sistema
nervoso central (SNC), ou seja, no cérebro.
PSICOFARMACOLOGIA •
Complementando o significado do
termo psicotrópico pela divisão da
própria palavra - psico é termo grego
que significa psiquismo (sentimentos,
pensamentos etc.) e trópico, significa
tropismo ("atração por") -, se conclui
que psicotrópico é o mesmo que "atra-
ção pelo psiquismo", logo, o conceito
do termo define-se por substâncias que agem no sistema nervoso central
(SNC), metamorfoseando, de certa forma, o psiquismo do indivíduo.
EXPLICANDO
Outros termos para definir as substâncias psicoativas são psicoticomimé-
tico e psicodélico (em grego, psíco = mente e de/os= expansão), usados
por alguns pesquisadores para denominar as referidas substâncias de
acordo com a capacidade delas de reproduzir sintomas psicóticos consi-
derados como perturbações do inconsciente nos humanos, como alucina-
ções (percepção sem objeto) e/ou delírios.O uso dessas denominações leva em conta a similaridade dos sintomas cau-
sados pela administração dessas substâncias com a sintomatologia de algu-
mas doenças mentais, como a esquizofrenia.
QUADRO 2. PRINCIPAIS SUBSTÂNCIAS PSICOATIVAS
~
Naturais Sintéticas
Cafeína Cocaína
Ópio LSD-25
Nicotina Ecstasy
Maconha Anticolinérgicas e plantas alucinógenas
Cogumelos Anabolizantes e esteroides
Jurema
Mescal (peyote)
Caapi e Chacrona
PSICOFARMACOLOGIA •
••
As principais substâncias psicoativas naturais
Figura 5. Folhas de maconha e produtos com canabidiol. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021.
• Maconha: pesquisas contemporâneas mostram que algumas substâncias
extraídas dessa planta, como o canabidiol, um dos princípios ativos da planta, são
aprovadas para uso medicamentoso com prescrição médica para tratamento dos
sintomas de alguns tipos de cânceres e da epilepsia. O canabidiol é eficaz também
como anticonvulsionante para o tratamento de doenças refratárias (doenças que
não respondem aos medicamentos). No entanto, mesmo com as características
de uso seguro, o Conselho Federal de Medicina (CFM) discorda em discutir sua nor-
matização para tratar a esquizofrenia que, segundo a Universidade de São Paulo
(USP), é uma das ações terapêuticas do canabidiol. Em paralelo, um manifesto
da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) é contra a maconha, afirmando que
a planta gera prejuízo em todos os membros e órgãos do corpo. A ABP menciona
ainda um estudo de 2012, administrado pelo psiquiatra Ronaldo Laranjeira, que in-
dica que a maconha multiplica por três vezes e meia a chance de um indivíduo vir a
desenvolver a esquizofrenia e multiplica por cinco vezes a possibilidade de desen-
cadear transtornos de ansiedade em seus usuários, conforme os dados da ABP
relatados por Oliveira, na página 134 da dissertação "O medicamento proibido:
como um derivado da maconha foi regulamentado no Brasil", defendida em 2016;
• Cogumelos: essas substâncias concebem os efeitos alucinógenos, tam-
bém conhecidos como psicoticomiméticos (sintomas das psicoses) ou psico-
délicos (alucinações e delírios), assim como outras plantas alucinógenas como
a Jurema, a Mescal (peyote), a Caapi e a Chacrona (Ayahuasca);
PSICOFARMACOLOGIA •
• Jurema: de denominação científica Mimosa hostilis, é uma árvore de onde
se extrai o DMT, substância alucinógena conhecida comercialmente como dime-
tiltriptamina, e cujas raízes são utilizadas na preparação de uma bebida aluci-
nógena batizada de "o Vinho da Jurema". É uma bebida comum no Nordeste do
país, onde é ingerida em cerimônias religiosas indígenas;
• Mescal (peyote): com nome científico Lophophora Wil/iamsii, trata-se de um cac-
to, também conhecido como peyote, do qual se extrai a mescalina, potente subs-
tância alucinógena que se apresenta sob a forma de um pó branco, consumido por
via oral ou injetável. A mescalina possui ainda propriedades antibióticas e anal-
gésicas, além de provocar alterações da consciência e da percepção, em especial
da visão. Um exemplo dessa substância é o nitrato de amyl, cuja ação psicodélica
provoca relaxamento dos músculos lisos e vasodi latação;
• Caapi e chacrona: de nome científico Banisteriopsis caapi, a planta é util izada
como matéria-prima da ayahuasca, proveniente do cozimento do mariri e da cha-
crona (plantas alucinógenas nativas da Amazônia), sendo considerada uma bebida
sagrada e aplicada por religiões sincretistas em seus rituais religiosos. Os adeptos
dessas religiões não classificam a ayahuasca como substância alucinógena e, nesse
contexto, seu uso é considerado um meio de entrar em contato com o mundo espiri-
tual. Por essa razão, seus preferem denominá-la como uma substância enteógena .
•
As principais substâncias psicoativas sintéticas
Drogas sintéticas são substâncias
modificadas e produzidas em labora-
tório cujos efeitos podem provocam
alucinações visuais ou auditivas (per-
cepções sem objeto).
• LSD-25: possui ação alucinógena
e psicodélica;
• Ecstasy: é uma substância alu-
cinógena da família das fenilaminas.
Possui ação perturbadora, alucinó-
gena (psicodél ica) e estimulante, e
seu uso costuma ser recreativo;
Figura 6. Drogas sintéticas produzidas em laboratório.
Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021.
PSICOFARMACOLOGIA •
• Anticolinérgicos e plantas alucinógenas: dizem respeito a determinadas
plantas que, quando consumidas na forma de chá, contêm substâncias per-
turbadoras;
• Anabolizantes e esteroides: os esteroides anabolizantes não são consi-
derados drogas psicotrópicas pela Organização das Nações Unidas (ONU) por
não provocarem dependência, porém, são usados de forma abusiva. Tratam-
-se de substâncias sintéticas, representadas pela testosterona (hormônio
masculino), que promovem o crescimento da musculatura corporal (efeito
anabólico) e o desenvolvimento das características sexuais masculinas (efeito
andrógeno). Devido a esses efeitos, os esteroides recebem também a deno-
minação de androgênicos. Seu uso é bastante comum entre atle-
tas que desejam ampliar o desempenho físico e também entre
aqueles que desejam melhorar a aparência física, porém, o
uso para fins estéticos e para complementar a capacidade fí-
sica é considerado ilegal, devido aos
possíveis prejuízos para o organismo.
Os anabolizantes são comercializa-
dos na forma de comprimidos ou de
injeções e a maioria dessas substân-
cias é adquirida de forma ilícita em
academias e/ou farmácias. Alguns
produtos veterinários à base de es-
teroides, como sais de testosterona
e boldenona, são utilizados, contudo,
não apresentam eficácia cientifica
comprovada, sendo passíveis de cau-
sar riscos acentuados à saúde.
Figura 7. Embalagem de substância anabolizante sintética.
Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021.
••
Classificação dos psicotrópicos
Os cientistas franceses relacionam as drogas sintéticas em três classifica-
ções: depressoras, estimulantes e perturbadoras do sistema nervoso cen-
tral (SNC). No Quadro 3, aparecem a classificação dos psicotrópicos, com algu-
mas das suas terminologias científicas e efeitos do seu uso.
PSICOFARMACOLOGIA •
QUADRO 3. CLASSIFICAÇÃO DOS PSICOTRÓPICOS
Depressores Estimulantes Perturbadores
Psicolépticos Psicoanalépticos, Psicodislépticos
Noanalépticos Psicoticomiméticos
Timolépticos, etc. Psicodélicos
1
Alucinógenos
Psicometamórficos, etc.
• Psicotrópicos depressores: os psicotrópicos classificados como depres-
sores são aqueles que diminuem a atividade do sistema nervoso central (SNC),
ou seja, deprimem o seu funcionamento, dentre os quais encontram-se tanto
substâncias lícitas quanto ilícitas. O álcool, os solventes e os inalantes, os ben-
zodiazepínicos, os barbitúricos e os derivados do ópio (opiáceos e os opioides)
são exemplos de drogas depressoras;
• Psicotrópicos estimulantes: as substâncias estimulantes aceleram e in-
tensificam a atividade cerebral, causando excitação, insônia e agitação. São
exemplos de droga estimulantes o tabaco, a cocaína e suas derivações, bem
como as anfetaminas (anorexígenos);
• Psicotrópicos perturbador-alucinógenos: as substâncias perturbadoras
são aquelas que alteram a atividade do sistema nervoso central (SNC), distor-
cendo suas funções, desfigurando suas percepções e causando perturbações
ao indivíduo. As drogas perturbadoras, como maconha, cogumelos, ecstasy e
LSD, se subdividem entre naturais e sintéticas, sendo essas últimas classifica-
das também como drogas alucinógenas ou anticolinérgicas.
QUADRO 4. TIPOS DE PSICOTRÓPICOS
Tipo Classificação
Barbitúricos Depressores do SNC
Benzodiazepínicos Depressores do SNC
Opiáceos Depressores do SNC
Opioides Depressores do SNC
Anfetaminas Estimulantes do SNC
Alucinógenos Perturbadores do SNC
Anticolinérgicos Perturbadores do SNC
PSICOFARMACOLOGIA •
••
Barbitúricos, benzodiazepínicos, opiáceos e opioides• Barbitúricos: são denominados também de calmantes ou sedativos, de-
vido à capacidade de reduzir a atividade cerebral, minimizar os estados de ex-
citação e promover sensação de calma e relaxamento. Sua ação principal induz
ao sono e, por essa razão, recebem também os cognomes de hipnóticos, so-
níferos ou sedativo-hipnóticos. Algumas dessas medicações atuam também
como analgésicas e antiepiléticas, sendo vendidas com a retenção da receita
médica para posterior controle do Ministério da Saúde. A ação dos barbitúricos
atinge diferentes áreas do cérebro ao mesmo tempo e, ainda que em doses
terapêuticas, tem a capacidade de acometer a atenção e as atividades psico-
motoras, além de alterar a capacidade de raciocínio e a concentração. Seu
uso também pode ser indicado para o tratamento de cefaleias, úlceras pépticas
e hipertensão, porém, essas substâncias têm como possíveis efeitos colaterais
depressão na medula e no centro do hipotálamo, vertigem, redução da urina,
espasmo da laringe e crises de soluço. Algumas medicações, como Aspirina e
Cibalena, continham os barbitúricos butabarbital ou secobarbital que, utili-
zados de maneira imprudente, fizeram os laboratórios farmacêuticos retirarem
esse princípio ativo destes fármacos. Na atualidade, os barbitúricos deixaram
de ser a principal opção para o tratamento da ansiedade e da insônia, sendo
substitu ídos pelos benzodiazepín icos. No entanto, o Gardenal (fenobarbital)
continua sendo utilizado no Brasil e no mundo em razão dos bons resultados
para tratar a epilepsia;
• Benzodiazepínicos: medicamentos denominados também como tranqui-
lizantes ou ansiolíticos, devido às suas capacidades de acalmar e atenuar a
ansiedade e o nervosismo, assim como induzir ao sono, promover o relaxa-
mento muscular e reduzir o estado de alerta. Diferente dos barbitúricos, estes
medicamentos não apresentam propriedades capazes de afetar as funções psi-
comotoras de modo relevante, todavia, costumam inibi-las de forma parcial, po-
dendo afetar a memória, obstar o processo de aprendizagem e acometer a ação
de dirigir e de operar máquinas. São substâncias controladas pelo Ministério da
Saúde e, devido as suas funções hipnóticas, são usadas também no tratamento
de crises convulsivas. Os benzodiazepínicos se sobrepõem ao meprobamato
como componente ansiolítico, sendo os medicamentos mais utilizados no mun-
PSICOFARMACOLOGIA •
do todo, inclusive no Brasil. Há mais de cem medicamentos intitulados como
benzodiazepínicos, cuja identificação pode ser feita por meio da escrita do sufi-
xo - AM no nome, como por exemplo: diazep-am, clorazep-am, lorazep-am, etc.,
remédios cujas denominações comerciais são Valium, Lexotan, Lorax, Somalium,
entre outros;
• Ópio, opiáceos e opioides: o ópio é uma substância natural extraída da sei-
va da papoula, planta originária da Ásia Menor e da Europa, cujo nome científico
é Papaver Somniferum (Papoula do Oriente). A palavra ópio, traduzida do grego,
significa "suco" e nomina a substância extraída por meio de cortes verticais na
cápsula da papoula, se apresentando na forma de um suco leitoso que, ao secar,
resulta no pó de ópio, uma substância rica em quantidades farmacológicas.
Os opiáceos e opioides são substâncias naturais derivadas do ópio, como
a codeína e a morfina (opiáceos) que, quando modificadas, se transformam
na heroína (substância semissintética ou seminatural) ou nos opioides (subs-
tâncias isoladas e produzidas em laboratório). Tais substâncias têm o efeito
de entorpecer as faculdades intelectuais, alterar as funções motoras e sensiti-
vas, além de elevar a sensação de prazer, tanto que a palavra morfina significa
Morfeu, deus dos sonhos na mitologia grega. A morfina (morfa) apresenta-se
sob a forma de pó, líquido, barra ou comprimidos e sua forma de consumo se
dá por via oral ou injetável.
A codeína é um opiáceo bastante utilizado como princípio ativo para xaropes
contra a tosse como o Setux, o Eritós, o Pambenyl, entre outros, além de substân-
cias aquosas como o Belacodid e as Gotas Bineli. No Brasil, a codeína é usada na
formulação do xarope Codein, cuja função é de analgesia. A codeína também é
capaz de reduzir os batimentos cardíacos, a pressão arterial e a respiração, bem
como provocar dilatação das pupilas, prisão de ventre e dificuldade na digestão.
Os opiáceos são empregados como princípio ativo de medicamentos antidiar-
reicos e recebem também a denominação de narcóticos ou drogas hipnoanal-
gésicas, cujo efeito analgésico se dá pelo manejo de pequenas doses de morfina
ou de heroína. Porém, quando o uso da codeína ou de meperidina se destina à
mesma finalidade, são necessárias doses cinco ou dez vezes maiores, pois a me-
repidina é modificada em laboratório e comercializada na forma de comprimidos,
ampolas ou adesivos, assim como outras substâncias sintéticas derivadas do ópio
(opioides), como a oxicodona, o propoxifeno, o fentanil e a metadona.
PSICOFARMACOLOGIA •
Figura 8. Papoula, matéria-prima do ópio. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/0712021.
o
\
CURIOSIDADE
De acordo com o artigo de Maria Carolina D'Arcadia Novo, publicado na re-
vista Vox Forensis em 2010, o ópio era considerado maligno até o século XIX,
contudo, é utilizado para proporcionar alívio de dor há mais de cinco mil anos.
,
Com o início da colonização na América e na Asia, o ópio passou a servir como
tintura (láudano) na Europa, onde era usada tanto por reis, quanto por plebeus,
incluindo soldados e altos titulares da Igreja. Essa prática se deu por mais de
dois séculos, sem objeções ou querelas. A substância também era usada sob a
forma de fumo pelos portugueses durante a expedição marítima para o Oriente .
Anfetaminas, perturbadores, alucinógenos e
anticolinérgicos
•
• Anfetaminas: utilizadas para a obtenção de quadros eufóricos, sub-
tração do sono e diminuição do apetite, também podem ser usadas como
medicamento em casos de déficit de atenção ou de patologias neurológi-
cas. Quando apresentadas em seu estado puro, têm a aparência de cristais
amarelados de sabor amargo, embora também se apresentem sob a forma
de cápsulas, comprimidos, pó (branco, amarelo ou rosa), tabletes ou líqui-
do. Suas denominações comerciais mais conhecidas são: Benzedrine, Bife-
tamina, Dexedrine, Dexamil, Methedrine, Dexoxyn, Desbutal, Oberin, Am-
phaplex, Dualid, lnibex, Hipofagin, Desobesi, Fagolipo, Moderine, Absten,
PSICOFARMACOLOGIA •
Pervitin, Ritalina, dentre outras. A ação estimulante das anfetaminas no
sistema nervoso central (SNC) acelera seu ritmo, por isso, algumas pessoas
costumam usá-los sem prescrição médica sob a denominação de rebite ou
bola, de modo a obter estímulo extra para incentivar o trabalho, estudo ou
mesmo, para dirigir ou emagrecer. A capacidade que a substância apresenta
para a redução da massa corpórea (anorexígeno) costuma ser utilizada sem
acompanhamento médico adequado;
• Perturbadores: em sua maioria,
são substâncias sintéticas que provo-
cam alucinações visuais ou auditivas
(percepções sem objeto). Um exem-
plo dessas substâncias é o LSD-25,
cuja ação é alucinógena e psicodéli-
ca, sendo considerado o perturbador
alucinógeno mais pujante, já que uma
pequena dosagem (microgramas) é
capaz de produzir alucinações. Outro
exemplo desse tipo de substância é
o ecstasy, substância denominada
também como MDMA (3,4-metile-
nodioximetanfetamina). Da família
das fenilaminas e derivada da anfe-
tamina (estimulante), sua composi-
ção costuma conter uma variação de
MDMA, MOA, MDEA, metanfetamina,
anfetamina, cafeína, efedrina e LSD,
assemelhando-se à composição da
mescalina. Sua ação, além de pertur-
badora, é alucinógena (psicodélica)
•
I • . .}
' .__ . .
Á •
e estimulante, elevando a produção e a diminuição da reabsorção de sero-
tonina, dopamina e noradrenalina. O MDMA subdivide-se pelo organismo
logo após sua ingestão, sendo metabolizadopelo fígado e seguindo seu curso
até chegar ao cérebro. Sua eliminação se dá de forma total, por meio da urina,
em um período aproximado de dois dias.
PSICOFARMACOLOGIA •
• Anticolinérgicos e plantas alucinógenas: plantas que, quando consu-
midas na forma de chá, contêm substâncias perturbadoras, como a Datura,
o Lírio, a Trombeta, a Trombeteira, o Cartucho, a Saia-Branca, a Zabumba,
assim como alguns medicamentos sintetizados com estes princípios ativos,
como o caso do Artane, do Akineton e do Bentyl, cujo uso provoca
efeitos anticolinérgicos reconhecidos pela capacidade de pro-
duzir efeitos periféricos e influenciar nas fu nções psí-
qu icas. Nos casos da planta Datura e da Artane, os
efeitos alucinógenos são secundários, e seu uso
médico é comum no tratamento de doenças como
Parkinson e diarreia.
Figura 9. Flor de Datura. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 13/07/2021.
PSICOFARMACOLOGIA •
UNIDADE
r
educacional
Obietivos da unidade
Mostrar a constituição do Sistema Nervoso Central e o funcionamento dos
neurônios;
Compreender a sinapse química e as funções dos diferentes
neurotransmissores;
Entender como os fármacos afetam o comportamento e como ocorre a
psicodependência.
Tópicos de estudo
O cérebro e os
neurotransmissores: divisão do SN
Sinapse química
Como ocorre a liberação de um
neurotransmissor?
Entendendo a síntese e as funções
dos diversos neurotransmissores
Patologias associadas às
disfunções dos neurotransmissores
Ação e efeito dos fármacos
sobre o SNC
Fármacos depressores do SNC
Fármacos estimulantes do SNC
Influência dos fármacos sobre
as emoções e no comportamento
humano
Fármacos que podem alterar o
comportamento humano
Fármacos e o risco de suicídio
A dependência e a abstinência
A dependência física e psicológica
Mecanismos de tolerância
Síndrome de abstinência
Prescrição de medicamentos
psicotrópicos no Brasil
PSICOFARMACOLOGIA •
•
O cérebro e os neurotransmissores: divisão do SN
O sistema nervoso é dividido em duas partes: SNC (sistema nervoso cen-
tral), constituído por encéfalo e medula espinal, e SNP (sistema nervoso pe-
riférico), que compreende os nervos que fazem a comunicação entre o SNC
e os músculos, assim como glândulas e órgãos sensoriais. O encéfalo é com-
posto por cérebro, tronco encefálico (localizado abaixo do cérebro) e cerebelo
(localizado atrás do tronco encefálico). O cérebro, por sua vez, é formado por
telencéfalo (hemisférios cerebrais direito e esquerdo) e diencéfalo (tálamo e
hipotálamo). Na Figura 1, é possível observar o encéfalo e a medula espinal,
estrutura responsável pela comunicação do cérebro com o restante do corpo.
Tálamo
Hipotálamo
Cerebelo
Posterior ◄
-1---Medula
espinal
► Anterior
Cérebro
Glândula
hipófise
Figura 1. Esquema do encéfalo humano. Fonte: Adobe Stock. Acesso em: 05/10/2021.
o
\
CURIOSIDADE
Tudo o que se pensa, sente, como amor, ódio, preocupação, medo, memó-
rias, enfim, toda a história humana é fruto do funcionamento do cérebro
humano, posto que ele é responsável pelo processamento das informa-
ções e de todas as funções do organismo. Essas informações são proces-
sadas graças a trilhões de sinapses que ocorrem através dos neurônios.
Um estudo brasileiro publicado em 2012 estima que o cérebro humano
contém cerca de 86 bilhões de neurônios, em vez dos 100 bilhões supostos
antes (LENT et ai., 2012).
PSICOFARMACOLOGIA •
Há diversos neurotransmissores com funções específicas no organismo e o
desequilíbrio em um ou mais neurotransmissores resulta em patologias como
depressão, ansiedade, esquizofrenia, entre outras. Portanto, é essencial que os
neurotransmissores tenham a sua produção normalizada, bem como a comu-
nicação entre os neurônios nos diversos circuitos cerebrais, de forma a garantir
a homeostasia do organismo. Entender as funções dos neurotransmissores é
essencial para que o psicólogo compreenda as doenças ocasionadas pela dis-
função dessas substâncias químicas, além de ampliar o conhecimento sobre as
terapias medicamentosas que podem ajudar o paciente, desde que avaliadas e
prescritas pelo médico.
•
Sinapse química
Os neurônios são células nervosas capazes de receber e conduzir impulsos
nervosos. A comunicação se dá por sinapses químicas, ou seja, ocorre através
de mediadores químicos, denominados neurotransmissores. Para compreen-
der as diferentes funções dos neurotransmissores do SNC, é preciso analisar a
anatomia do neurônio, célula produtora dos neurotransmissores. O neurônio é
constituído pelos dendritos (local em que há a recepção de um novo sinal), cor-
po celular ou soma (local de produção dos neurotransmissores e que contém
as organelas da célula), axôn io (local em que o sinal elétrico é propagado até
alcançar o terminal axonal) e o terminal axonal (local das vesículas sinápticas
que contêm neurotransmissores sintetizados).
Entre um neurônio e outro existe um espaço microscópico, designado como
fenda sináptica, local no qual um neurotransmissor é liberado pelo neurônio
pré-sináptico e, então, esse neurotransmissor é percebido pela
membrana dos dendritos de um neurônio pós-sináptico. Essa
recepção de sinais acontece porque existem inú-
meros receptores na membrana dos dendritos.
Os receptores recebem o sinal por meio da li-
gação do neurotransmissor num receptor e,
dessa forma, um impulso nervoso se sucede,
a depender da substância química liberada na
fenda sináptica.
PSICOFARMACOLOGIA •
Alguns neurotransmissores têm características excitatórias, enquanto ou-
tros têm aspectos inibitórios ou funcionam como moduladores. Tudo varia
conforme as funções dos neurotransmissores e dos receptores ativados. Tais
substâncias químicas podem ser comparadas com uma "chave" e os recepto-
res com uma "fechadura". Logo, cada neurotransmissor só se encaixa num re-
ceptor específico, desencadeando os efeitos fisiológicos. Assim, cada chave só
abre sua respectiva fechadura. Em outras palavras, isto significa que o neuro-
transmissor acetilcolina só estimula receptores colinérgicos (a fechadura corre-
ta da chave/neurotransmissor), enquanto a noradrenalina não pode estimular
os mesmos receptores.
Sinapse
úcleo Axônio Dendr· Núcleo Axônio Dendritos Sinapse
Dendritos -- - ..... ~
Soma \ 1 •S elétric ' Soma llii ,;. , elétrico
" ' ' --------------,,--------------' '--------------,,--------------' . '
Neurônio Neurônio
Figura 2. Anatomia do neurônio. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 05/10/2021.
Na Figura 2, é observada a anatomia do
neurônio e a sinapse, local em que os neu-
rotransmissores são liberados. Nos den-
dritos, se localizam os receptores e, quan-
do um neurotransmissor é liberado pelo
neurônio pré-sináptico na fenda sináptica,
há o estímulo do neurônio pós-sináptico. Se
esse estímulo é excitatório, como acontece com
um neurotransmissor chamado de glutamato, o
neurônio pós-sináptico sofre um potencial de
ação (o que também pode ser denominado de
impulso nervoso).
PSICOFARMACOLOGIA •
Mitocôndria
e
Vesículas
Recaptação
de impulso
Neurotransmissor
'
• •
• ••• •••••• ......
•
•
Axônio
o
Receptor
Figura 3. Sinapse química. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 05/10/2021.
Na Figura 3, é possível ver a fenda sináptica (1) (que libera o neurotrans-
missor), as vesículas sinápticas (2), nas quais os neurotransmissores são
armazenados, além dos receptores presentes na membrana do neurôn io
pós-sináptico (3). Entre os neurotransmissores mais conhecidos, estão acetil-
colina, norepinefrina (também chamada de noradrenalina), histamina, ácido
gama-aminobutírico (GABA), serotonina e glutamato.
••
Como ocorre a liberação de um neurotransmissor?
A liberação dos neurotransmissores depende da ocorrência de um poten-
cial de ação. Para entender como acontece o potencial de ação, é preciso com-
preender como é a membrana do neurônio em repouso, isto é, polarizada.A
membrana externa e interna do neurônio é comparável a uma "pilha" com po-
los diferentes entre o meio externo e o meio interno. Quando a membrana do
neurônio está polarizada (em repouso) o meio extracelular tem predominância
positiva, enquanto o meio intracelular tem predominância negativa, algo que
se dá por conta do funcionamento da bomba sódio/potássio/ATPase, um trans-
portador que funciona com gasto de energia.
PSICOFARMACOLOGIA •
Esse transportador "bombeia" 3 íons Na+ (sódio) para fora da célula (meio
extracelular) e 2 íons K+ (potássio) para dentro da célula (meio intracelular).
Dada a diferença de concentração (mais cargas positivas fora da célula do que
dentro da célula, na proporção 3:2), o meio extracelular é mais positivo que o
meio intracelular. Além disso, outros íons de carga negativa estão aprisionados
dentro da célula, deixando a membrana interna negativa. Na Figura 4, se obser-
va o exemplo de uma membrana do neurônio polarizada (em repouso).
• ATP
Espaço •• /
extracelular ~
Citosol
Bomba sódio-potássio
ADP;
p
• ••
ADP
p
\T
Figura 4. Bomba sódio-potássio Fonte: Shutterstock. Acesso em: 05/10/2021.
Alto {Na')
Baixo {K')
p
Alto {Na·)
Baixo {K')
Na Figura 4, é notada a alta concentração de sódio (Na+) e a baixa con-
centração de potássio (K+) no meio extracelular. Já no meio intracelular, há
uma alta concentração de potássio (K+) e uma baixa concentração de sódio
(Na+). Quando o neurônio recebe um estímulo (através de um neurotransmis-
sor que ativa os receptores), ocorre uma alteração da disposição de cargas
elétricas, de modo que se abrem canais de Na+ e mais Na+ entra na célula,
despolarizando-a.
Este processo é denominado de potencial de ação ou impulso nervoso e
ocorre ao longo do neurônio, começando no corpo celular e se propagando
ao longo de todo o axônio. À medida que o Na+ entra na célula, canais de K+ se
abrem e o K+ sai da célula (ou seja, as cargas se invertem). Na Figura 5, é descrita
a sequência de eventos que caracterizam essa alteração de polaridade.
PSICOFARMACOLOGIA
Potencial de ação
+ + + - - - + + + + + +
u w w ww_,
~ ---~- w 1 ~ w
w
~ ~
~
~
- - - + + + - - - - - -
Potencial de repouso Despolarização Repolarização De volta ao potencial de repouso
Figura 5. O potencial de ação. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 05/10/2021.
No primeiro quadrante da figura, é visualizado o potencial de repouso, ou
seja, mais Na+ no meio ext racelular e mais K+ no meio intracelular. No segundo
quadrante, se observa o processo de despolarização, com a abertura de canais
de Na+ e a consequente entrada (influxo) de Na+ para o meio intracelular. No
terceiro quadrante, há a repolarização, em razão da abertura de canais de K+ e
a saída (efluxo) do K+ do meio intracelular para o meio extracelular. No quarto
quadrante, se vê a restauração do potencial de repouso, graças às ações da
bomba sódio potássio ATPase (um transportador que funciona com gasto de
energia), ou seja, tudo retorna à polaridade de repouso (mais Na+ no meio ex-
tracelular e mais K+ no meio intracelular). A fim de liberar neurotransmissores
para a comunicação entre um neurônio e outro, esse processo é cíclico, ou seja,
o potencial de ação acontece o tempo todo.
ASSISTA
O potencial de ação é uma corrente elétrica que acontece
ao longo do neurônio graças ao movimento de íons decor-
rentes de canais localizados na membrana plasmática do
neurônio. No vídeo Potencial de Ação: Animação, é possí-
vel assistir à animação sobre o potencial de ação.
PSICOFARMACOLOGIA •
O esquema de eventos que ocorrem a nível sináptico é descrito a seguir:
• O potencial de ação é propagado ao longo do axônio do neurônio pré-sináptico,
de forma a alcançar o botão axonal;
• A despolarização resulta na abertura de canais de cálcio (Ca2+) com voltagem
dependente, ou seja, canais de Ca2+ se abrem e fazem com o que o íon Ca2+ entre na
célula, estimulando o processo de exocitose das vesículas pré-sinápticas e liberando
o neurotransmissor dentro da vesícula na fenda sináptica;
• O neurotransmissor se difunde pela fenda sináptica e atinge a membrana pós-
-sináptica, que tem afinidade química com os receptores do neurônio pós-sináptico;
• A interação do neurotransmissor com os receptores pós-sinápticos provoca
uma alteração da permeabilidade na membrana do neurônio pós-sináptico;
• Quando a alteração de permeabilidade acontece no neurônio pós-sináptico,
um estímulo é estabelecido e pode resultar num novo potencial de ação;
• O estímulo só gera um potencial de ação se o neurotransmissor envolvido é
excitatório, ou seja, se ele estimula a despolarização da membrana pós-sináptica (a
entrada de cargas positivas dentro da célula). Alguns neurotransmissores possuem
características inibitórias.
Nessa segunda situação, um neurônio inibitório produz a hiperpolarização da
célula (a entrada de cargas negativas dentro da célula) e o neurônio é impedido de
sofrer potencial de ação. Portanto, se um neurotransmissor é excitatório, ele produz
despolarização (carga positiva), também chamada de PEPS (Potencial Excitatório
Pós-Sináptico). Quando um neurotransmissor é inibitório, ele produz hiperpolariza-
ção (carga negativa), também denominada de PIPS (Potencial Inibitório Pós-Sináp-
tico). Como visto no processo, a exocitose das vesículas pré-sinápticas ocorre pela
entrada do íon cálcio (Ca2+), o que resulta na liberação do neurotransmissor na fenda
sináptica.
EXPLICANDO
A exocitose é um processo mediado pelo íon (cálcio) Ca2+. O íon Ca2+ está
bastante relacionado com processos fisiológicos de contratilidade (promove
contração). Neste caso, após a entrada de Ca2+, as vesículas pré-sinápticas
que contêm os neurotransmissores irão se locomover até se difundirem com
membrana do neurônio. É neste momento que vesícula libera o neurotrans-
missor na fenda sináptica. Uma vez liberado na fenda sináptica, o neurotrans-
missor poderá interagir por afinidade química com os receptores pós-sinápti-
cos (localizados no neurônio pós-sináptico), e desencadear uma resposta.
PSICOFARMACOLOGIA •
Entendendo a síntese e as funções dos diversos
neurotransmissores
••
O neurotransmissor é um mensageiro químico que leva uma mensagem do
neurônio pré-sináptico para o neurônio pós-sináptico. Para que a liberação do
mensageiro aconteça, o neurônio é estimulado e inicia o processo de despolariza-
ção, desencadeando a propagação do impulso nervoso. Quando o estímulo alcan-
ça o terminal axonal do neurônio, há a entrada de Ca2+, o que garante a exocitose,
e, por fim, a liberação do neurotransmissor na fenda sináptica. Logo, é importante
compreender como os neurotransmissores são produzidos e quais suas funções
fisiológicas.
Os neurotransmissores são produzidos pelos neurônios. Os primeiros neuro-
transmissores descritos, a noradrenalina e acetilcolina, estão presentes também
no SNP (sistema nervoso periférico), respectivamente, no sistema simpático e pa-
rassimpático. Um neurotransmissor é uma molécula simples, que pode ser um
aminoácido, uma monoamina ou um polipeptídio. A diferença entre esses dois
últimos é que uma monoamina é sintetizada a partir de um aminoácido e um po-
lipeptídio, por sua vez, é constituído de uma cadeia de três ou mais aminoácidos.
Cada neurônio especializado produz um neurotransmissor específico, isto é,
um neurônio serotonérgico produz serotonina e um neurônio noradrenérgico pro-
duz noradrenalina. Cada neurônio tem um conjunto de enzimas necessárias para
a síntese do seu respectivo neurotransmissor, e cada neurotransmissor é produzi-
do a partir de um precursor específico, conforme o Quadro 1. Depois que um neu-
rotransmissor é sintetizado no corpo celular do neurônio, ele é transportado até
as vesículas do terminal axonal, local em que ficam armazenados até o momento
da liberação do neurotransmissor na fenda sináptica.
QUADRO 1. PRINCIPAIS NEUROTRANSMISSORES,SEUS PRECURSORES
E ÁREAS DE PREVALÊNCIA
Neurotransmissor Precursor
Acetilcolina Colina
Serotonina (5-HTI Triptofano
Área de maior frequência
SNC e SNP
SNC, células cromafins do trato
digestivo, células entéricas.
PSICOFARMACOLOGIA •
1
'
Ácido gama-
aminobutírico (GABA)
Glutamato
Dopamina
Noradrenalina
Aspartato
Glicina
Histamina
Fonte: MARTINS; DILSON, 2005, p. 22.
Glutamato
Glutamina
Tirosina
Tirosina SNC e SNP
Aspartato
Glicina Medula espinal
Histidina Hipotálamo
'
Cada neurônio é especializado na síntese de um determinado neurotransmis-
sor. Na Figura 6, se observa a síntese da acetilcolina.
Terminal pré-sináptico
Acetil Co-A
+
---....,------➔ Colina
e ACh e l e
Colina ACh
R R
Figura 6. Síntese da acetilcolina Fonte: MARTINS; DILSON, 2005, p. 23.
ACh
ACh
/
PSICOFARMACOLOGIA •
A acetilcolina (ACh) é sintetizada, a partir de acetil-coenzima A e colina, pela
enzima colina acetiltransferase. Após a síntese, a ACh é armazenada nas vesículas
sinápticas e, apenas após a ocorrência de um potencial de ação, a acetilcolina é
liberada na fenda sináptica. A acetilcolina pode ativar os receptores pós-sinápticos,
representados na figura por "R", e ainda pode ser degradada pela enzima acetil-
colinesterase, representada na figura por "AChE". A enzima acetilcolinesterase é
responsável pela degradação da acetilcolina em colina + acetato, sendo a colina
reaproveitada pela célula pré-sináptica para uma nova síntese de acetilcolina. Na
Figura 7, se observa a síntese da dopamina e da noradrenalina.
Plasma
l
Tenninal pré-sináptico
DOPA
Metabólitos
desaminados Plasma
!------+t DOPAdl5Cll'boxilme
0
0 ieee DA
AC .... h ___ __,/
í l l
~ ? r R 1 r::;=1--Membrana __ :::::::::.__ ___ ..._1_:__ .,.__l _ _._ ..,.. _ __,~-..,..11_ •
1
pós-sin~
Tenninal pré-sináptico
TIROSINA
!-+-----+1 lirosina hidroxilme
DOPA
Metabólitos ____ ,.,
!--.-----+t DOPAdlSCl~lllliase
DA
desaminados
Metabólito.s
o-meti lados
.j,
~--NA----'/
Figura 7. Síntese da dopamina (a) e da noradrenalina (b). Fonte: MARTINS; DILSON, 2005, p. 24.
PSICOFARMACOLOGIA •
Os neurotransmissores dopamina e noradrenalina têm o mesmo precursor
em comum, pois são sintetizados a partir do aminoácido tirosina. Cada neurô-
nio especializado produz as enzimas necessárias para a síntese de seu mediador
químico. No quadrante a da Figura 7, referente à síntese de dopamina, a tirosina
sofre ação da enzima tirosina hidroxilase, sendo transformada em um interme-
diário chamado DOPA. Depois, a enzima dopa descarboxilase transforma DOPA
em dopamina, que é armazenada nas vesículas sinápticas. Num processo similar
ao descrito para a acetilcolina, a dopamina estimula os receptores "R" e pode ser
degradada pela enzima MAO (monoaminooxidase).
No quadrante b da Figura 7, a síntese de noradrenalina é muito semelhante à
da dopamina que, por seu turno, é formada e sofre ação de mais uma enzima da
via chamada de dopamina beta-hidroxilase, transformando a dopamina em nora-
drenalina. No entanto, a noradrenalina é degradada pela enzima MAO (monoami-
nooxidase) ou pela enzima COMT (catecol-o-metil-transferase). Após a produção,
os neurotransmissores podem ser liberados na fenda sináptica para estimular o
receptor pós-sináptico, no entanto, ele não é o único destino do neurotransmis-
sor. Por questões fisiológicas regulatórias, há enzimas responsáveis por finalizar
as ações dos neurotransmissores.
Desta forma, a AchE (acetilcolinesterase) degrada a acetilcolina e
a MAO, a dopamina e a noradrenalina. Quando as concentrações
de um neurotransmissor estão elevadas na fenda
sináptica, essas enzimas se encarregam de fazer a
degradação do neurotransmissor que não pode
mais gerar estímulos nos receptores pós-sináp-
tico. Além disso, os neurotransmissores são re-
captados por transportadores especializados,
chamados também de bomba de recaptação.
EXPLICANDO
Bombas de recaptação, ou apenas transportadores de recaptação, são
proteínas que captam o neurotransmissor da fenda sináptica e trazem de
volta para o neurônio pré-sináptico, impedindo que o neurotransmissor
ative os receptores. Assim sendo, quando o neurotransmissor tem alta
concentração na fenda sináptica, as enzimas e as bombas de recaptação
contribuem para a redução das ações dos neurotransmissores.
PSICOFARMACOLOGIA •
,
E importante conhecer as enzimas que degradam os neurotransmissores e o
funcionamento das bombas de recaptação, pois é a base para compreender o me-
canismo de ação de alguns psicofármacos. Os neurotransmissores têm funções
diversas no organismo, a depender do circuito neuronal envolvido, logo, é quase
impossível atribuir uma única função a um determinado neurotransmissor. No
Quadro 2, são citadas funções importantes de cada neurotransmissor.
'
'
QUADRO 2. NEUROTRANSMISSORES E FUNÇÕES RELACIONADAS
Neurotransmissor
Acetilcolina
Dopamina
Noradrenalina
Serotonina
Ácido gama-
aminobutírico (GABA)
Glutamato
Histamina
~
Funções relacionadas
Função motora, cognição.
Função motora, afeto, motivação, prazer, vício, humor, funções
endócrinas (hormônio Prolactina).
Humor, alerta, concentração, fome/saciedade, dor.
Humor, medo, preocupação, ansiedade, fome/saciedade, dor.
Inibição geral (principal neurotransmissor inibitório do SNC).
Excitação geral (principal neurotransmissor excitatório do SNC).
Vigília, alerta, concentração, fome/saciedade.
•
Patologias associadas às disfunções dos neurotransmissores
Diversas patologias ocorrem em razão de uma disfunção dos neurotransmis-
sores. Um paciente com depressão, por exemplo, tem menor concentração e
ação dos neurotransmissores serotonina, dopamina e noradrenalina. Em algum
grau, todas essas substâncias estão envolvidas com o humor e a ausência ou
diminuição dos neurotransmissores pode desencadear sintomas da depressão.
Os antidepressivos, portanto, são medicamentos que aumentam estes neu-
rotransmissores no sistema nervoso central, a fim de melhorar sintomas depres-
sivos. Em outro exemplo, o transtorno de ansiedade generalizada (TAG) se dá
por excesso das ações do neurotransmissor serotonina em circuitos cerebrais
associados com o medo e a preocupação, em áreas do cérebro denominadas de
amígdalas. As amígdalas cerebrais são parte de circuitos fundamentais para o
processamento de medo, preocupação e afetos.
PSIC0FARMAC0L0GIA •
Conhecer as funções de cada neurotransmissor, assim como os respectivos cir-
cuitos neuronais, é fundamental para compreender as patologias associadas ao
comportamento humano. Dessa forma, o profissional formado em psicologia pode
orientar o paciente e compreender a necessidade de intervenção farmacológica para
tratar disfunções.Junto à estratégia farmacológica instituída pelo médico, o paciente
conta com o apoio do profissional de psicologia nas estratégias não farmacológicas .
•
Ação e efeito dos fármacos sobre o SNC
Os psicotrópicos, também denominados psicofármacos, têm efeito no SNC
(sistema nervoso central) através das interações com os neurônios e/ou neuro-
transmissores. Cada psicofármaco atua num receptor específico (modelo "cha-
ve-fechadura") e produz um determinado efeito farmacológico. Por exemplo,
quando a doença do paciente está relacionada a uma menor concentração da
serotonina, como na depressão, o objetivo do medicamento psicofármaco é
aumentar as ações desse neurotransmissor. Quando a doença do paciente se
associa a um aumento de um determinado neurotransmissor, como na esqui-
zofrenia (que se relaciona com o aumento do neurotransmissor dopamina), o
fármaco deve bloquear os receptores e impedir que a dopamina os ative. Ou
seja, a farmacologia tem como base a fisiopatologia.
Em suma, é possível afirmar que os psicofármacos imitam ou aumentam
uma substância endógena em falta, da mesma forma que eles podem bloquear
as ações de uma substânciaendógena em excesso. Tudo isso é pensado pela
indústria farmacêutica no desenvolvimento do medicamento, visto que, para
obter as ações farmacológicas desejadas, as interações com o organismo de-
vem acontecer de forma correta.
o
\
CURIOSIDADE
Em média, leva de 12 a 15 anos para que um novo medicamento chegue
ao mercado. Quando a indústria tem uma proposta de pesquisa, demora
muitos anos para testar possíveis candidatos a princípios ativos/drogas. A
pesquisa e desenvolvimento de um medicamento envolve a pesquisa bá-
sica realizada em animais, com testes de toxicidade e, logo depois, para a
avaliação de eficácia, em humanos. Por essa razão, medicamentos novos
chegam às farmácias a um preço mais alto, pois o laboratório se vale da
patente para recuperar os investimentos financeiros da pesquisa.
PSICOFARMACOLOGIA •
Fazendo uma analogia para ilustrar o processo interação do ligante endó-
geno ao receptor, em especial quando o objetivo de um medicamento é imitar
ou mimetizar uma substância endógena, tais medicamentos funcionam como
"chaves", ativando um receptor específico, isto é, "uma fechadura". A chave re-
presenta um medicamento que precisa ativar um receptor específico e cada
medicamento só ativa sua fechadura específica (o receptor específico).
A indústria farmacêutica avalia essas interações nos estudos pré-clínicos e
o mesmo acontece com as substâncias endógenas: a Ach (acetilcolina) só ativa
os receptores específicos denominados de colinérgicos e não consegue ativar,
por exemplo, os receptores dopaminérgicos da dopamina. Dessa maneira, o
organismo é perfeito e as interações se dão com total maestria.
••
Fármacos depressores do SNC
Substâncias classificadas como depressoras do SNC (sistema nervoso cen-
tral), produzem hiperpolarização dos neurônios e impedem a ocorrência de
um potencial de ação. Para compreender esse processo, uma substância endó-
gena, o GABA {ácido gama-aminobutírico), principal neurotransmissor inibi-
tório do SNC, serve de exemplo. O GABA é um neurotransmissor que ativa os
receptores gabaérgicos, embora haja outros receptores, o receptor do GABA
mais importante para esse efeito é denominado de receptor GABA-A.
Quando o neurotransmissor GABA ativa o seu receptor localizado na região
dendrítica do neurônio, ocorre uma mudança de
potencial de membrana. Voltando ao potencial
de ação, é observada a relação do potencial
de ação com a entrada do íon Na+. Pois bem,
quando o GABA neurotransmissor ativa ore-
ceptor GABA-A, há a abertura de um canal iô-
nico presente no receptor, com a entrada do íon
cloreto (CI-) de carga negativa. Com a entrada de
CI- no meio intracelular do neurônio, ele fica hiper-
polarizado. Todo neurônio hiperpolarizado fica
impedido, ao menos por um tempo, de produzir
um potencial de ação.
PSICOFARMACOLOGIA •
Isso acontece com diversas substâncias inibitórias e, portanto, depressoras
do SNC, caso dos fármacos da classe dos barbitúricos e dos benzodiazepínicos,
utilizados para tratar, respectivamente, epilepsia e ansiedade. O mesmo acon-
tece com o álcool, que também é uma substância ansiolítica (reduz os sintomas
de ansiedade) e, em geral, produz relaxamento e despreocupação. O uso exces-
sivo desses medicamentos depressores do SNC gera intoxicação no paciente,
pois pode ocorrer a depressão do centro respiratório, o que induz ao óbito.
Por essa razão, o uso de medicamentos com ação no sistema nervoso central é
controlado por meio de receita médica, que deve ficar retida na farmácia .
••
Fármacos estimulantes do SNC
Substâncias classificadas como estimulantes do SNC (sistema nervoso cen-
tral) produzem a despolarização dos neurônios e geram um potencial de ação.
Para compreender este processo, é possível exemplificar com uma substância
endógena, o glutamato, o principal neurotransmissor excitatório do SNC. De
forma semelhante, o glutamato ativa os seus receptores específicos da classe
de receptores glutamatérgicos (a chave só entra na fechadura certa).
Dessa forma, o glutamato pode ativar os receptores NMDA (N-Metil-D as-
partato), nome de um dos receptores
do glutamato que também contém
um canal iônico. Quando ativado pelo
glutamato, se dá a abertura dos ca-
nais iônicos e a entrada de Na+ (sódio)
e de Ca2+ (cálcio) para o meio intracelu-
lar. Como são íons de cargas positivas,
a despolarização acontece.
Nem todos os psicofármacos têm ações inibitórias ou estimulatórias, em-
bora esses mecanismos sejam importantes para uma grande variedade de me-
dicamentos. Certos produtos têm ações distintas, assim como as substâncias
endógenas. Nem todo o neurotransmissor é inibitório ou estimulatório, como
acontece com o GABA e o glutamato. Alguns neurotransmissores modulam
processos diversos em muitos circuitos neuronais distintos e suas ações de-
pendem do circuito neuronal e do receptor a ser ativado.
PSICOFARMACOLOGIA •
Uma substância endógena pode ativar alguns receptores específicos. Fa-
zendo uma analogia, é como se a "chave" abrisse mais de uma "fechadura". A
dopamina, por exemplo, é um neurotransmissor que ativa receptores inibitó-
rios e estimulatórios da dopamina, logo, as respostas da dopamina dependem
de qual receptor é estimulado. Compreender tais processos de forma minucio-
sa envolve um estudo detalhado de neurofisiologia e os circuitos neurona is .
Influência dos fármacos sobre as emoções e no
comportamento humano
•
Muitos psicofármacos presentes na terapêutica são aproveitados para
tratar transtornos de humor, como a depressão e o t ranstorno bipolar, sendo
medicamentos que normalizam a concentração dos neurotransmissores e as
suas respectivas ações no cérebro, uma vez que tais disfunções se relacionam
com uma alteração neuroquímica na quantidade de neurotransmissores es-
pecíficos. No entanto, embora os psicofármacos objetivem melhorar o humor
e o comportamento, eles também prejudicam o comportamento do paciente
em determinado grau.
De uma forma geral, todo o medicamento é produzido para uma deter-
minada eficácia terapêutica, ou seja, uma indicação clínica. Apesar disso, os
medicamentos têm ações inespecíficas e interagem com outros receptores,
enzimas ou transportadores que não são de interesse para aquela indicação,
ou seja, o paciente apresenta uma reação adversa, um efeito nocivo (ruim)
causado pelo uso de um medicamento, mesmo quando o paciente utiliza
para a indicação terapêutica correta e na dose correta conforme recomen-
dação do médico e da bula do produto, durante o período correto. Em outras
palavras, o paciente pode ter uma reação adversa ao medicamento (RAM)
mesmo fazendo tudo certo.
Isto não significa que o paciente apresenta todas as RAMs que estão na
bula do medicamento. Na bula dos medicamentos, existe uma lista de rea-
ções adversas mais observadas nos estudos clínicos do medicamento, com
suas respectivas incidências, isto é, se a reação adversa é comum ou rara.
O paciente pode apresentar ainda uma reação adversa diferente das deter-
minadas em bula e, neste caso, é sempre interessante notificar a indústria
PSICOFARMACOLOGIA •
farmacêutica através de uma ligação ao SAC (Serviço de Atendimento ao Consumi-
dor). Tal processo abrange uma área muito importante da farmácia, que envolve
a farmacovigilância. De acordo com o Guia de farmacovigilância para detentores de
registros de medicamentos, editado pelo Ministério da Saúde (BRASIL, 2010, p. 13):
Entende-se como farmacovigilância as atividades relativas à detec-
ção, avaliação, compreensão e prevenção de efeitos adversos ou
outros problemas relacionados a medicamentos
,
E de extrema importância que as reações adversas sejam relatadas e trata-
das pelo detentor do registro do produto (indústria farmacêutica fabricante do
medicamento). Com base nas reações adversas, a indústria toma conhecimento
das novas reações que os produtos têm na população, uma vez que, nos estudosclínicos, menos pacientes utilizam o medicamento e, após o registro do medica-
mento pela ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), um grande número
de pessoas passa a usar o medicamento, sendo comum que novas reações sejam
documentadas.
A partir desse ponto, a segurança do medicamento é confirmada ou não, sem
contar a possibilidade de, por exemplo, um medicamento aprovado pela ANVI-
SA apresentar reações graves na população, o que exige, dadas as reações, uma
retirada do mercado brasileiro. Portanto, para garantir a segurança no uso dos
medicamentos, é imprescindível informar sobre as reações adversas ao médico,
farmacêutico ou até mesmo uma ligação para o serviço de atendimento da indús-
tria farmacêutica.
••
Fármacos que podem alterar o comportamento humano
Antes da descrição de como os fármacos atuam nas emoções e compor-
tamentos do indivíduo, é preciso contextual izar as emoções e comportamen-
tos. Ao se imaginar em uma situação de risco, por exemplo, há uma resposta
do sistema nervoso periférico simpático, que prepara o organismo para "luta
ou fuga". Nesse sentido, há um aumento da frequência cardíaca, os vasos se
contraem e há pouco sangue nas extremidades (mãos e pés), pois o sangue é
deslocado das extremidades e do sistema digestório para os grandes músculos
das pernas e braços, preparando o corpo para a fuga. Mais sangue e mais gli-
cose precisam chegar aos grandes músculos, por isso, surge também a palidez.
PSICOFARMACOLOGIA •
As pupilas se dilatam e o foco se centra em cada detalhe do ambiente. A boca
fica seca e o sistema digestório funcionando menos, porque não é momento
de fazer necessidades fisiológicas. Em resumo, a resposta autonômica acontece
devido a estímulos do ambiente, que pode acontecer por todos os sentidos: algo
que se vê, que ouve ou sente na pele, um cheiro ou algo que indica perigo. A
partir de um estímulo, o sistema simpático é ativado, e essa resposta é involun-
tária, já que os circuitos emocionais do cérebro mapeiam o estado do corpo em
relação ao ambiente.
Quando ocorre uma alteração no corpo e/ou ambiente, o cérebro realiza al-
terações para ajudar na sobrevivência. É bem provável sentir medo na situação
exemplificada e, nesse momento, os circuitos emocionais do seu corpo coor-
denam uma série de mudanças para programar uma ação, visto que emoções
envolvem ações no sentido amplo da palavra. Talvez o comportamento seja de
fuga ou talvez o corpo fique paralisado, contudo, essa orquestra de alterações
do corpo leva segundos para acontecer.
A emoção é um processo inconsciente e automático de coordenação de pro-
gramas de ação em todo o corpo, coordenado pelo sistema límbico do cérebro
que, através do hipotálamo, comanda diversas outras glândulas do organismo. O
equilíbrio biológico se altera e há uma alta produção de adrenalina e cortisol pela
glândula suprarrenal, assim como uma descarga de noradrenalina pelos axônios
dos nervos do sistema autônomo simpático. No auge de uma emoção, também é
provável um comportamento automático, pois pode acontecer um "sequestro"
do córtex pré-frontal (relacionado com as ações mais conscientes/pensadas)
num processo emocional muito intenso e, dessa forma, o sistema límbico toma
conta, dando margem a respostas inesperadas.
Um outro exemplo é uma reação a um assalto. Quando se pensa nessa pos-
sibilidade, num momento de calma, se tende a pensar que, numa situação como
esta, o correto é entregar os pertences sem reação, de forma a não colocar vidas
em risco por um bem material. No entanto, um processo emocional muito inten-
so interfere na consciência de tomada de decisão e, por isso, certas pessoas têm
respostas (comportamentos) mais inesperadas, como lutar com o ladrão arma-
do, ou acelerar o carro no farol vermelho sem pensar no risco de um acidente
logo adiante. Muitas dessas pessoas se colocam em risco de forma inconsciente
porque o sistema límbico toma conta de suas emoções e ações.
PSICOFARMACOLOGIA •
De maneira simplificada, se entende por comportamento como um conjun-
to de reações e atitudes que o indivíduo demonstra, em resposta a estímulos
que recebe do ambiente. Uma exteriorização de algo interno a uma pessoa.
Se as emoções e comportamentos se relacionam com a exteriorização do que
acontece no interior do indivíduo, não é difícil imaginar que o uso de medica-
mentos que alteram as funções fisiológicas também pode alterar as emoções
e os comportamentos.
Alguns medicamentos, como o salbutamol (utilizado para tratamento da
asma), resultam em reação adversa, com aumento da frequência cardíaca.
Quando o paciente percebe que está com taquicardia, ele tende a ter uma res-
posta mais ansiosa, porque a taquicardia é um sintoma autonômico da ansie-
dade. A cafeína é uma substância ansiogênica, ou seja, aumenta a ansiedade, já
o álcool é ansiolítico, ou seja, reduz a ansiedade. Desta maneira, é possível citar
diversas substâncias que alteram o comportamento.
•
Fármacos e o risco de suicídio
Esse é um tema muito relevante, uma vez que há medicamentos que indu-
zem alterações que decorrem em pensamentos e comportamentos suicidas. Es-
tudos sugerem que determinados anticonvulsivantes podem manifestar ideação
suicida em pacientes que tratam de epilepsia. Entre as drogas dessa classe tera-
pêutica, estão gabapentina, lamotrigina, oxcarbazepina e tagabina.
Em 2018, o FDA emite um alerta sobre o risco aumentado de 1.8 vezes o risco
de suicídio entre os usuários de drogas antiepilépticas. Além disso, a epilepsia
se relaciona com transtornos psiquiátricos, como alteração de humor unipolar
(depressão) ou bipolar (transtorno bipolar), o que potencializa ainda mais os ris-
cos. Diversas outras alterações comportamentais ocorrem em pacientes com
epilepsia, variando entre quadros depressivos e ansiosos até mesmo quadros
psicóticos graves.
A carbamazepina e o ácido valpróico/valproato de sódio são empregados
como moduladores do humor para a profilaxia do transtorno afetivo bipolar. Os
mecanismos exatos que justificam o aumento do risco de suicídio não estão es-
clarecidos, no entanto, é recomendado que pacientes sejam monitorados quan-
to a ideação e comportamento suicida, considerando o tratamento adequado.
PSICOFARMACOLOGIA •
•
A dependência e a abstinência
A dependência se estabelece quando há um investimento desproporcional
do indivíduo para uma substância específica, de tal forma a prejudicar a partici-
pação do indivíduo em outras esferas da vida. Em resumo, quando o indivíduo
se torna dependente, ele tem dificuldade de deixar de usar essa substância
e renuncia a outras atividades rotineiras para conseguir o objetivo de usar a
substância outra vez.
Quando se pensa em dependência, a tendência é lembrar de substâncias
como cocaína, crack, anfetaminas, etc. No entanto, muitos medicamentos se-
guros também possuem potencial para psicodependência, exercendo o mes-
mo ciclo de busca pela substância exposto na dependência por drogas ilícitas.
Na ausência das ações do medicamento, o indivíduo apresenta sinais e sin-
tomas que reforçam a falta da substância e que é característico da crise de
abstinência. A dependência física, a dependência psicológica e a tolerância
contribuem para o estado geral de dependência, no qual o uso da droga se
torna cada vez mais compulsivo.
••
A dependência física e psicológica
A dependência física se relaciona ao funcionamento no corpo, no qual o
indivíduo precisa da droga para manter o seu organismo em homeostase, ou
seja, em equilíbrio. Se o paciente fica sem o medicamento, ele desenvolve sin-
tomas específicos, de acordo com a droga envolvida e, portanto, passa mal. Na
ausência da substância, uma resposta alerta sobre a falta da substância e estes
sintomas caracterizam a síndrome de abstinência.
A dependência psicológica está relacionada à substância e é causada pelos
efeitos psicológicos pretendidosdas substâncias viciantes, acontecendo quando
a substância promove euforia e bem-estar. Os mecanismos relaciona-
dos a essa busca constante são explicados pelas ações que
acontecem numa área no cérebro denominada de área de
recompensa, composta por neurônios dopaminérgicos
(produtores de dopamina) que se projetam da área tegu-
mentar ventral para o nuc/eus accumbens.
PSICOFARMACOLOGIA •
Esses neurônios são de fundamental importância para o desenvolvimen-
to da recompensa, pois muitos estudos demonstram que a secção dessa via,
ou o uso de drogas bloqueadoras dos receptores dopaminérgicos, resulta em
redução dos efeitos de recompensa no cérebro. Em resumo, o uso de substân-
cias que promovem essa euforia se associa ao aumento da liberação do neuro-
transmissor dopamina no nuc/eus accumbens. Quando o indivíduo fica sem a
substância, há redução dos níveis de dopamina e o indivíduo sente depressão.
Por isso, o ciclo se reinicia com a busca constante pela substância.
•
Mecanismos de tolerância
Antes de detalhar como se dão os mecanismos de tolerância, se faz neces-
sário compreender o que é tolerância, que acontece quando a administração
repetida de uma droga não produz
mais o mesmo efeito, exigindo doses
superiores para produção do mesmo
efeito farmacológico. A via de tolerân-
cia mais comum é denominada de to-
lerância farmacodinâmica, pela qual
ocorrem alterações na expressão dos
receptores pós-sinápticos. Vale lem-
brar que toda droga, para fazer efeito,
interage com os receptores pós-sináp-
ticos, ou seja, o modelo "chave-fecha-
du ra" para desencadear um efeito. Nesse sentido, quando uma droga não ativa
o receptor, ela não exerce o efeito esperado.
Quando uma droga/fármaco é agonista em um determinado receptor, o es-
tímulo crônico do receptor pode levar a uma menor produção down regulation
no número de receptores pós-sináptico. Neste momento, se inclui o conceito
de agonista: quando uma droga tem afinidade por um receptor e tem também
eficácia, ou seja, é capaz de desencadear uma resposta fisiológica. Em outras
palavras, quando um fármaco é um agonista crônico e capaz de desencadear
a tolerância, o organismo produz uma quantidade menor de receptores pós-
-sinápticos.
PSICOFARMACOLOGIA •
Sendo assim, quando uma nova dose da droga atinge os neurônios para
produzir um efeito terapêutico, a ausência de receptores resulta na ausência
de efeitos. Isso não quer dizer que todo e qualquer agonista administrado de
forma crônica pode induzir tolerância porque, na verdade, isso pode aconte-
cer com alguns receptores específicos. Um exemplo disso são os receptores
miopiódes, que quando estimulados de maneira crônica pela morfina, sofrem
adaptação, de modo que os receptores são internalizados na membrana do
neurônio e não estão mais disponíveis para a ação da morfina.
Dessa forma, sem a interação morfina-receptor opioide, que também se
enquadra na analogia "chave-fechadura", o mecanismo de ação da morfina no
bloqueio da interpretação da dor não acontece de maneira correta. Portanto, é
comum que pacientes em condições dolorosas crônicas e graves, como na on-
cologia, apresentem menor efeito farmacológico ao uso da morfina, o que difi-
culta o tratamento, uma vez que a escala de dor de um paciente oncológico tem
impacto direto na qualidade de vida e na motivação de continuar o tratamento.
Quando é administrado um antagonista crônico, a resposta adaptativa dos
receptores pós-sinápticos consiste em maior síntese dos receptores, processo
denominado de up-regulation. Mais uma vez, se inclui um novo conceito, o de
antagonista, que é quando uma droga tem afinidade por um receptor, mas
não tem eficácia, ou seja, não promove um efeito fisiológico e ainda impede
que uma substância endógena ative este receptor. Como exemplo para ilustrar
o processo de up-regulation, ele pode ser induzido por uma droga/fármaco cha-
mada haloperidol, um antagonista de recepto-
res dopaminérgicos, que reduz as ações da
dopamina no SNC.
Pacientes com diagnóstico de esqui-
zofrenia têm maiores concentrações do
neurotransmissor dopamina estimulando
os receptores dopaminérgicos na via meso-
límbica, o que resulta em sintomas caracterís-
ticos da esquizofrenia como os delírios e as aluci-
nações. O fato é que a administração crônica do
haloperidol, um antagonista resulta em maior
expressão dos receptores dopaminérgicos.
PSICOFARMACOLOGIA •
Dessa forma, uma mesma dose de haloperidol passa a não bloquear todos
os receptores dopaminérgicos e, devido a uma maior concentração de recep-
tores dopaminérgicos, a dopamina volta a exercer efeitos nestes receptores.
Nesse caso, o paciente volta a ter surtos psicóticos. Mais uma vez, o desenvol-
vimento de tolerância se dá quando, numa mesma dose, o medicamento não
produz a mesma eficácia, sendo necessário aumentar as doses para a obten-
ção do mesmo efeito farmacológico. Tanto pelo mecanismo de down-regulation
induzido por um agonista crônico quanto pelo mecanismo de up-regu/ation in-
duzido pelo antagonista crônico, as medicações têm efeito reduzido e, portan-
to, se delimita a tolerância.
Não obstante, a tolerância se estabelece não apenas por esses mecanis-
mos farmacodinâmicos, pois ela pode ser explicada também por mecanismos
farmacocinéticos, como alterações no metabolismo de drogas/fármacos em
que o uso de alguns medicamentos induz o metabolismo a trabalhar de modo
mais rápido e, quando uma droga é metabolizada de forma mais rápida, isso
significa dizer que a excreção da droga também é mais rápida, portanto, as
concentrações plasmáticas da droga reduzem no plasma, assim como os efei-
tos farmacológicos.
A importância da tolerância para a dependência tem resposta simples, vis-
to que, caso o paciente desenvolva dependência e as ações da droga estejam
reduzidas por mecanismos de tolerância, o paciente utiliza uma maior dose da
droga para obter o mesmo efeito. Como as drogas que causam dependência,
elas têm um potencial para toxicidade e aumentar as doses pode não
ser uma alternativa muito segura, pelo menos até um certo limite.
O uso de morfina em altas doses, por exemplo, resulta em
intoxicação, pois essa droga se associa com a depressão
do centro respiratório do SNC, induzindo à parada respi-
ratória e morte.
Síndrome de abstinência
••
Os sintomas específicos da síndrome de abstinência dependem da subs-
tância envolvida na dependência física. No Quadro 3, são exemplificados os
sintomas de abstinência.
PSICOFARMACOLOGIA •
QUADRO 3. SÍNDROME DE ABSTINÊNCIA
Classe Exemplo de Efeitos esperados Efeitos esperados na do medicamento
terapêutica droga (farmacodinâmica) crise de abstinência
Analgesia
Constipação Algesia
Opioides Morfina Sedação
Diarreia
Euforia Estado de alerta
Depressão respiratória Disforia
(altas doses)
Depressão do SNC
Efeito anticonvulsivante Estimulação do SNC
Benzodiazepínicos Diazepam
Efeito ansiolítico Precipita crise convulsiva
Efeito hipnótico (indução Efeito ansiogênico
do sono - tratamento da Insônia
insônia)
Na crise de abstinência o paciente vivencia efeitos opostos aos das ações
farmacológicas do medicamento. Se a morfina produz analgesia, a sua retira-
da produz algesia (dor), constipação ou diarreia e, assim, de maneira suces-
siva, conforme o Quadro 3. Para minimizar os efeitos da possível abstinência
na retirada abrupta de uma medicação, é necessário que o médico programe
a retirada do medicamento por meio do processo de desmame.
O desmame é a retirada gradual do medicamento, algo que implica na
redução das doses diárias da quantidade administrada numa única dose e
também na soma administrada por dia. Se o paciente faz uso de um compri-
mido de um dado medicamento, o médico pode solicitar um comprimido a
cada dois dias, ou meio comprimido ao dia por alguns dias, até a retirada total
do medicamento.
Quando o desmame é feito de forma graduale segura, a chan-
ce de abstinência é menor ou, caso ocorra, os sintomas são
menos acentuados. A síndrome de abstinência se
aplica a outras substâncias com ação no sistema
nervoso central. A interrupção do uso de álcool,
por exemplo, em razão dos efeitos ansiolíticos
e sedativos, resulta em ansiedade, estado de
alerta, convulsões, tremores, dores de cabeça,
entre outros sintomas.
PSIC0FARMAC0L0GIA •
••
Prescrição de medicamentos psicotrópicos no Brasil
No Brasil, a dispensação de psicotrópicos é definida na Portaria 344/98 da
Agência Nacional de Vigilância Sanitária -ANVISA. Os profissionais prescritores
realizam o correto preenchimento da receita médica de acordo com o tipo de
receita (receita branca, azul, amarela). Somente os profissionais prescritores
têm acesso a essas receitas, como o médico psiquiatra e o médico veterinário,
por exemplo. Tais prescrições são realizadas em duas vias, sendo uma do pa-
ciente e outra da farmácia. O farmacêutico é o profissional responsável pela
conferência da receita médica, retenção de uma via da receita e dispensação
do medicamento, assim como a orientação do paciente quanto ao uso correto
do medicamento.
O profissional psicólogo não prescreve nenhum tipo de medicamento, no
entanto, para melhor compreensão de possíveis reações adversas e alterações
de comportamento que os pacientes possam relatar no momento de uma con-
sulta, é importante conhecer a farmacologia e as interações dos psicofárma-
cos no sistema nervoso central. Dessa forma, é imprescindível que o psicólogo
compreenda as principais ações dos psicofármacos, de modo a auxiliar o pa-
ciente com suas dúvidas e angústias relacionadas a terapia tanto medicamen-
tosa como não medicamentosa.
Caso necessário, o profissional deve encaminhar o paciente ao médico
prescritor para revisão da farmacoterapia e avaliação da necessidade de mu-
dança de medicamento ou doses do produto. Quando um paciente ainda não
é usuário de um medicamento psicotrópico, mas faz acompanhamento com o
psicólogo, é possível que o profissional identifique os sintomas de uma doença
psiquiátrica. Neste caso, a partir de uma HD (hipótese diagnóstica), ele deve
encaminhar o paciente para o médico especializado.
PSICOFARMACOLOGIA •
Sintetizando •
O sistema nervoso é responsável por todo o processamento do organismo hu-
mano, sendo o cérebro um órgão com trilhões de sinapses entre neurônios a cada
segundo. Mais do que o cérebro, as sinapses se propagam pela periferia do corpo,
algo garantido pela integração entre o SNC e o SNP. Tudo o que se faz, de forma
voluntária ou involuntária, é processado pelo SNC.
Para que as sinapses químicas aconteçam, tudo se inicia por uma alteração
de voltagem, mediada por concentrações de íons entre os meios intracelular e
extracelular de um neurônio. Após a despolarização da membrana, como resul-
tado, há a liberação de um mediador químico na fenda sináptica, conhecido por
neurotransmissor.
Os medicamentos psicofármacos têm ação estimulatórias ou inibitórias nos
neurônios e tudo depende das alterações de voltagem produzidas na membrana
celular dos neurônios. Certos medicamentos produzem hiperpolarização (predo-
minância de carga negativa no meio intracelular), portanto, são depressores do
SNC, ao passo que outros medicamentos produzem a despolarização dos neurô-
nios (predominância de cargas positivas no meio intracelular), sendo estimulan-
tes do SNC. Outros psicofármacos, no entanto, funcionam como moduladores
e ativam ou bloqueiam as ações dos neurotransmissores, interferindo na ligação
direta com os receptores de membrana dos neurônios.
Os psicofármacos interferem nas emoções e no comportamento humano e,
por essa razão, é importante conhecer as ações farmacológicas e entender que
tipo de alteração o paciente pode apresentar. Antes de concluir, é válido recordar
que medicamentos psicofármacos podem desencadear, ainda, dependência física
e psicológica, tema de muita relevância e um alerta para evitar o uso indiscrimina-
do dessas medicações.
PSICOFARMACOLOGIA •
Referências bibliográficas ••
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comportamentais das drogas antiepilépticas e sua ação como moduladores de
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PSICOFARMACOLOGIA •
Sintetizando •
Nesta unidade, foi possível constatar que as substâncias psicoativas, tam-
bém denominadas de drogas, são comuns desde a pré-história, quando eram
usadas para guerrear, confraternizar, rezar e socializar. Na Antiguidade, o uso
das substâncias que alteravam a consciência era controlado pelas leis e pelos
costumes das próprias culturas, porém, na atualidade, o mesmo hábito adqui-
re conotações variadas devido à ilegalidade de algumas das substâncias ou ain-
da pelo potencial agravante à saúde de algumas dessas substâncias.
Entretanto, é possível afirmar que o controle dessas substâncias se dá ain-
da da mesma forma, ou seja, pela formalidade, na forma das leis que as regu-
lamentam, ou pela informalidade, por meio dos costumes de cada contexto
social. É possível constatar também que o uso de substâncias psicoativas na
contemporaneidade, assim como na Antiguidade, fomenta a comercialização
lícita de medicamentos, por meio de emissão e retenção das prescrições mé-
dicas no tratamento de doenças do organismo e das doenças da mente. Estas
mesmas substâncias também são comercializadas de forma ilícita, gerando
violência e consideráveis desigualdades sociais.
O uso de substâncias psicoativas foi estigmatizado desde a Antiguidade,
quando a Igreja passou a questionar seus efeitos considerados como mágicos
e a classificar seus usuários como impuros, punindo-os com tortura ou morte,
fato que acabou por levar a questão do uso dessas substâncias para o contextopol ítico e econômico que, com o passar dos anos, contribuiu para estigmatiza-
ção dessas substâncias. A ciência já provou que as consequências psíquicas do
uso de substâncias psicoativas são relevantes e, por essa razão, se faz necessá-
rio um acompanhamento médico, psicológico e psiquiátrico.
No Brasil, com o intuito de verificar a melhor forma de fazer uso dessas substân-
cias para o tratamento das patologias do corpo e da mente, há instituições sérias
estudando origem, efeitos, composições e combinações possíveis. Através destes
estudos, se verifica que a maioria das substâncias que compõem os medicamentos
sintetizados em laboratório e vendidos na atualidade provém da natureza, e essas
mesmas substâncias são ambíguas, ou seja, possuem características benéficas e
características maléficas à saúde. Essa tênue diferença depende muito da dosagem
e da combinação entre os agentes naturais e sintetizados de cada substância.
PSICOFARMACOLOGIA •
Em razão disso, tanto a fabricação quanto o controle do uso dessas subs-
tâncias deve ser realizado por especialistas. Por isso, a prescrição de psico-
trópicos realizada por médicos especialistas é uma aliada no tratamento de
psicopatologias, pois tais prescrições devem ser acompanhadas pelo médico
e/ou pela sua equipe multidisciplinar de forma contínua e de modo perdurável
durante todo o tratamento, incluindo a sua suspensão que, para evitar efeitos
colaterais, deve ser feita de modo gradativo.
PSICOFARMACOLOGIA •
Referências bibliográficas ••
BRASIL. Ministério da Justiça. Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas.
Prevenção dos problemas relacionados ao uso de drogas: capacitação para
conselheiros e lideranças comunitárias. 6 ed. Brasília, 2014.
BRASIL. Ministério da Justiça. Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas.
Sistema para detecção do uso abusivo e dependência de substâncias psi-
coativas: encaminhamento, intervenção breve, reinserção social e acompa-
nhamento. 7 ed. Brasília, 2014.
CEBRID - Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas. Livreto
informativo sobre drogas psicotrópicas. São Paulo: CLR Balieiro Editores, 2010.
GORENSTEI N, C.; SCAVONE, C. Avanços em psicofarmacologia - mecanismos
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v. 21, n. 1, p. mar 1999. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/rbp/a/jb7DHph-
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NOVO, M. C. D. Drogas - fora da lei e dentro do usuário. Vox Forensis, Espírito
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OLIVEIRA, M. B. O medicamento proibido: como um derivado da maconha fo i
regulamentado no Brasil. 2016. 313 p. Dissertação (Mestrado em Divulgação
Científica e Cultural) - Instituto de Estudos da Linguagem, Universidade Esta-
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REIS FILHO, E. Psicanálise e psicofármacos: considerações sobre a resistência
dos psicanalistas à psicanalise. Pulsional Revista de Psicanálise, São Paulo, v.
18, n. 183, p. 105-111, set. 2005.
PSICOFARMACOLOGIA •
UNIDADE
r
educacional
Obietivos da unidade
Apresentar as classes terapêuticas para o tratamento de transtornos mentais;
Compreender o mecanismo de ação e as reações adversas dos benzodiazepínicos;
Compreender o mecanismo de ação e as reações adversas dos neurolépticos;
Compreender o mecanismo de ação e as reações adversas dos antidepressivos;
Compreender o mecanismo de ação e as reações adversas dos estabilizadores
de humor;
Compreender o potencial risco de dependência de alguns fármacos.
Tópicos de estudo
Benzod iazepín icos
O neurotransmissor GABA
Mecanismo de ação
Reações adversas
Dependência
Neurolépticos
O neurotransmissor dopamina
Neurolépticos de 1 ª geração
Neurolépticos de 2ª geração
Neurolépticos de 3ª geração
Antidepressivos tricíclicos e
inibidores da MAO
Antidepressivos da classe dos
inibidores da MAO
Antidepressivos da classe dos
tricíclicos
Lítio e outras drogas antimania
Carbonato de lítio
Outras drogas usadas para
tratar o transtorno bipolar
PSICOFARMACOLOGIA •
Benzodiazepínicos
Um transtorno mental acontece
quando ocorre uma disfunção da
atividade cerebral, que pode afetar
o raciocínio, o humor, o comporta-
mento, o aprendizado ou as relações
sociais de um indivíduo. Podemos
exemplificar como transtornos men-
tais: a ansiedade, a depressão, o
transtorno bipolar, o TDAH (transtor-
no de déficit de atenção e hiperati-
vidade), a demência, a esquizofrenia,
entre outros. Os benzodiazepínicos
são drogas utilizadas no tratamen-
to de transtornos de ansiedade, são
usadas como drogas hipnóticas (que
induzem o sono) e podem ser úteis
para o tratamento da insônia.
•
Os benzodiazepínicos (BZD) são drogas depressoras no sistema ner-
voso central (SNC), efeito é decorrente da hiperpolarização produzida nos
neurônios sobre a ação destas drogas. Quando um neurônio está hiper-
polarizado (contém predominância de cargas iônicas negativas no meio in-
tracelular), ele está impedido, ao menos momentaneamente, de sofrer um
potencial de ação.
Quando um neurônio não sofre um potencial de ação, ele não é capaz
de produzir um impulso nervoso. Sabemos que os neurônios se comunicam,
predominantemente, por sinapse química (Figura 1), no qual um neurotrans-
missor é produzido e liberado na fenda sináptica pelo neurônio pré-sináptico,
de modo que este mensageiro químico poderá estimular o receptor presente
na membrana de um outro neurônio (denominado pós-sináptico). Dessa for-
ma, o neurônio pós-sináptico recebe a mensagem do neurônio pré-sináptico,
gerando uma alteração do potencial de membrana, o que poderá resultar na
propagação do impulso nervoso através deste segundo neurônio.
PSICOFARMACOLOGIA •
•
Neurônio
~ pré-sináptico
• ----- Canais de Ca2·/
• - Neurônio pós-sináptic1
•
/ Neurotransmissor- •
· : • · . · . Fenda sináptica - •
Receptor---•
Figura 1. Sinapse química. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 09/10/2021. (Adaptado).
Na sinapse química (Figura 1), o neurônio pré-sináptico (1) produz e li-
bera o mensageiro químico, denominado neurotransmissor (2). Este neuro-
transmissor está armazenado nas vesículas pré-sinápticas (3) e só é liberado
quando o neurônio pré-sináptico sofre um potencial de ação (uma alteração na
voltagem mediada pela alteração nas concentrações de íons, entre os meios in-
tra e extracelular). Quando o potencial de ação alcança o botão terminal, ocorre
a abertura dos canais de Ca2• (4) e a liberação no neurotransmissor por exocito-
se. O neurotransmissor atinge a fenda sináptica (5), que é um pequeno espaço
que separa os neurônios pré e pós-sináptico. Na sequência, o neurotransmissor
estimula o receptor (6) presente na membrana do neurônio pós-sináptico (7).
O primeiro BZD a ser introduzido foi o clordiazepóxido, que representou o
primeiro ansiolítico verdadeiro sem produzir sedação excessiva. O clordiazepó-
xido apresenta baixa incidência de tolerância, uma síndrome de retirada me-
nos grave que a observada com os barbitúricos (como o fenobarbital, que no
passado, já foi utilizado para tratamento da ansiedade, entretanto, atualmente
é utilizado somente para epilepsia). Os BZDs também possuem um índice t era-
pêutico mais seguro quando comparados aos barbitúricos. O índice terapêuti-
co está relacionado com a segurança dos medicamentos: quanto maior o índice
terapêut ico, maior a segurança de uma droga.
PSICOFARMACOLOGIA •
••
O neurotransmissor GABA
Os benzodiazepínicos são drogas que m imetizam o neurotransmissor GABA
(ácido gama-aminobutírico) e suas ações depressoras nos neurônios.Na Figu-
ra 2, podemos observar a síntese deste neurotransmissor nos neurônios ga-
baérgicos (neurônios produtores de GABA):
O Glutamln• O
NH,~0-
NH,
1
Glutam1nase
(G,s,)
◄ Gli.rtamln~
►
?\
AOP + Pi NH••+ ATP
2
Gfutamic Acid O -◊xala~artate
NHi
H,O
Glutamate Oxalacetate
◄ Transm1nase ►
◄ Gluu,mate ► HO
?\
NAO" NH4 • + NAOH
Glut,lmi( ACid 3
Decarbo,cylase
(GAD)
CO,
o o
OH
O a -Ketogtutarate
Figura 2. Síntese do GABA. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 11/10/2021.
A síntese do GABA ocorre através de um aminoácido denominado glutami-
na, primeiramente sob as ações da enzima glutaminase (Gase) (1) formando
o ácido glutâmico (2). Os sais do ácido glutâmico são conhecidos como gluta-
mato, o principal neurotransmissor excitatório do SNC. Posteriormente, sob
as ações da enzima descarboxilase do ácidoglutâmico (GAD) (3), ocorre a
formação do GABA, o principal neurotransmissor inibitório do SNC. Podemos
afirmar, então, que a síntese do GABA ocorre a partir do glutamato, embora as
funções destes neurotransmissores sejam opostas.
Os BZDs têm sítios de ligação ao receptor GABA-A e potencializam os efeitos
inibitórios do GABA. Os BZDs funcionam como moduladores alostéricos po-
sitivos, ou seja, quando um BZDs se liga no receptor GABA-A, ocorrem altera-
ções neste receptor que aumentam a afinidade do GABA (neurotransmissor) ao
PSICOFARMACOLOGIA •
receptor GABA-A. Uma vez que esse receptor é ativado por GABA, ocorre um
aumento na frequência de abertura de canal de cloreto, o que resulta em uma
hiperpolarização. Na ausência de GABA, no entanto, os BZDs não têm efeito na
abertura do canal de CI- (cloreto).
Aparentemente a presença de BZD altera o estado físico dos receptores, e
então o GABA abre os canais mais facilmente os canais de cloreto.
A Figura 3 ilustra o receptor do GABA com suas várias subunidades. O prin-
cipal receptor do GABA é o receptor GABA-A, que contém cinco subunidades
(que são estruturas proteicas, e cada substância endógena ou exógena ativa
uma subunidade específica). Este receptor está fixado à membrana plasmática
dos neurôn ios e no centro contém um canal iôn ico. Ao abrir o canal, ocor re a
passagem do íon cloreto do meio extracelular para o meio intracelular, hiper-
polarizando os neurônios. Por conter canal iônico, o receptor GABA-A é classi-
ficado na família de receptores denominados inotrópicos.
Receptor GABA
Subunidade alpha
Subunidade beta
Subunidade ga m ma ~----...~ -
J,
lon de CI·
Figura 3. Receptor do GABA Fonte: Shutterstock. Acesso em: 11/10/2021.
Subunidade alpha
Subunidade beta
Membrana
plasmática
De uma forma geral, cada receptor faz parte de uma família específica
de receptores, e os efeitos mediados na célula dependem da resposta a este
receptor que é estimu lado. Os receptores inotrópicos são receptores que me-
deiam a passagem de íons, cuja resposta se dá em milissegundos.
PSICOFARMACOLOGIA
EXPLICANDO
Os receptores do organismo humano são classificados em famílias, a saber:
1. lonotrópicos: receptores que contêm cinco subunidades proteicas e no
centro contêm um canal iônico;
2. Metabotrópicos: são receptores que estão acoplados à uma proteína, deno-
minada proteína G, responsáve l pela produção de segundos mensageiros;
3. Enzimáticos: são receptores que estão acoplados à uma enzima denominada
tirosina-quinase e seus efeitos dependem de fosforilação de proteínas;
4. Nucleares: são receptores que medeiam respostas no núcleo da célula
interferindo na síntese de proteínas.
•
Mecanismo de ação
Na Figura 4, observa-se o mecanismo de ação dos benzodiazepínicos:
o
o
Receptor vazio
(sem agonistas)
Receptor ligado
com GABA
Receptor ligado
com GABA e
benzodiazepínico
Receptor vazio
(sem agonistas) + a
~b
~
++
l'rmYiit.
~
Benzodiazepínico
+++
~b
,-A-en-tr-ad-a -de-CI-· h-ip-er-po-lar-iza_a_c-élu-la-, t-or-na-nd-o-ma---,is ~M
difícil sua despolarização e, por isso, .....__ - ~- -
reduz a excitabilidade neuronal. --,, (I·
CI·
~ ª-....... ~+
y ~ ~ O receptor vazio é inativo, e o canal WWM ....__., de cloreto acoplado está fechado.
GABA
1
~
I· GABA
A ligação do GABA causa abertura
do canal de coreto, levando à
hiperpolarização da célula.
A ligação do GABA é potenciada
pelo benzodiazepínico, resultando
em maior entrada de íons cloreto.
Figura 4. Mecanismo de ação dos benzodiazepínicos. Fonte: WHALEN; FINKEL; PANAVELIL, 2016, p. 122.
Na Figura 4, subdividido em quatro quadrantes, podemos observar o me-
canismo de ação dos benzodiazepínicos. Informações complementares dopas-
so a passo descrito na imagem (nos quadrantes denominados A, B e C), serão
destacadas na sequência abaixo:
• Sem a ação de GABA, representado em A, os canais de cloreto (CI-) estão
fechados;
PSICOFARMACOLOGIA
• Quando o neurotransmissor GABA ativa o receptor GABA-A (representa-
do em B), ocorre a abertura destes canais, como se fosse um portão. A aber-
tura deste portão permite a entrada dos íons cloreto {CI·). Desta forma, o
neurônio está hiperpolarizado;
• No entanto, quando observamos a representação em C, sob a ação
dos benzodiazepínicos, ocorre uma alteração conformacional do receptor
(não observado na Figura 4, pois dependeria de uma animação em 3D).
De fato, quando o benzodiazepínico ativa a sua subunidade específica no
receptor GABA-A, ocorre uma maior exposição do sítio de ligação do GABA
neurotransmissor ao receptor GABA-A. Por isso, dizemos que os BZDs são
moduladores alostéricos positivos, ou seja, sob o seu efeito, o GABA neu-
rotransmissor tem maior afinidade pelo receptor GABA-A, ampliando as
ações do GABA.
Os efeitos dos BZDs, portanto, dependem das ações do neurotrans-
missor GABA. Ao mesmo tempo, observamos que tanto o BZD, quanto o
neurotransmissor GABA estão ativando o receptor GABA-A (cada qual em
uma subunidade diferente). Observa-se também que sob a ação do BZDs
a hiperpolarização do neurônio é maior quando comparada ao GABA sozi-
,
nho (representado em B, na Figura 4) . E justamente isso que os BZD fazem:
potencializam as ações do GABA neurotransmissor, e, portanto, poten-
cializam a hiperpolarização. Lembre-se que um neurônio hiperpolarizado
está impedido de sofrer um potencial de ação e é por esta razão que os
BZDs são depressores no SNC.
Todos os BZDs têm estrutura molecular e mecanismos de ação similares. A
escolha de um BZD específico para uma situação terapêutica depende prima-
riamente da velocidade de início e duração da ação da droga.
A duração de ação é determinada por (1) diferenças em seus méto-
dos de biotransformação e (2) a extensão da red istribuição a depó-
sitos inativos, como músculo esquelét ico e gordura. Os BZD de lon-
ga duração passam por diversos passos metabólicos para produzir
múltiplos metabólitos ativos que podem ter meias-vidas de 40 horas
ou mais. Isto pode ser problemático para indivíduos idosos, que po-
dem acumular rapidamente estas drogas no corpo devido à redução
na capacidade metabólica (ARAMIN I; RASTELLI , s. d .).
PSICOFARMACOLOGIA •
O tempo de meia-vida de um medicamento é quando as concentrações
plasmáticas máximas se reduzem à metade. Por exemplo, se a concentração
plasmática de um medicamento máxima é de 200mcg/ml (microgramas por
mililitro no plasma) e, após 12 horas, esta concentração se reduz a 100mcg/
ml, graças às ações do metabolismo e excreção. Isso significa que o tempo de
meia-vida desta droga é de 12 horas.
O tempo de meia-vida é um parâmetro farmacocinético muito impor-
tante, pois é o que define o esquema posológico de um medicamento. Drogas
com tempo de meia-vida de 12 horas, conforme o exemplo citado, devem ser
administradas duas vezes ao dia (a cada 12 horas), se a meia-vida for de oito ho-
ras, aproximadamente, esta droga terá em bula a orientação de administração
três vezes ao dia (um comprimido a cada oito horas).
Perceba que isto é importantenos tratamentos crônicos, nos quais o pa-
ciente necessita de concentrações plasmáticas da droga 24 horas do dia (e a
promoção do efeito terapêutico). Quando o paciente não segue a posologia
correta, ficará desprovido da ação da droga. É nesse momento que um pacien-
te hipertenso, por exemplo, sofre de uma crise hipertensiva. Se as concentra-
ções da droga se reduzem a zero no plasma devido à não administração de
uma nova dose, a patologia do paciente se manifesta em sinais e sintomas.
Especialmente em idosos, o uso de drogas depressoras do SNC com tempo
de meia-vida muito alto pode ser perigoso. Isso ocorre porque fármacos de-
pressores causam sono, além disso, o diazepam, por exemplo, é um potente
relaxante muscular. Isto pode prejudicar ainda mais a ambulação do idoso e
especialmente quando somado a outras dificuldades prévias, como o mal de
Parkinson ou a doença de Alzheimer, em que já há um comprometimento da
coordenação motora do paciente.
O uso destes medicamentos pode potencializar o risco de queda. Quando um
idoso sofre uma queda, poderá ocorrer uma fratura grave e subsequentemente
a exposição do idoso a outros eventos ainda mais graves, como uma internação,
necessidade de intervenção cirúrgica, risco de infecção hospitalar, dentre outras.
No Quadro 1, verificamos as diferenças entre os diversos BZDs disponíveis
na terapêutica com relação ao tempo de meia-vida . Os benzodiazepínicos po-
dem ser divididos em grupos de curta, média e longa ação e isto determina
também os principais usos terapêuticos dos BZDs:
PSICOFARMACOLOGIA •
Fármaco BZD
Midazolam
Lorazepam,
Oxazepam
Alprazolam
Clonazepam
Diazepam
Triazolam
Flurazepam
QUADRO 1. FARMACOCINÉTICA DOS BZD
~
Usos terapêuticos
Pré-anestésico e indução
de anestésico geral*.
Ansiolítico e hipnótico.
Ansiolítico e estado de
mal epiléptico**.
Ansiolítico, distúrbios
convulsivos e tratamento
da mania aguda.
Ansiolítico, estado de
mal epiléptico, relaxante
muscular e medicação
pré-anestésica.
Insônia.
Insônia.
Tempo de meia-vida
Curta: 3 a 6 horas.
Intermediário: 12 a 18
horas.
Intermediário: 12 a 18
horas.
Longa: 24 a 48 horas.
Longa: 24 a 48 horas.
Curta: 3 a 6 horas.
Longa: 1 a 3 dias.
Observação
Muito usual em
procedimentos curtos
como a endoscopia.
O tratamento
preconizado é de
curto prazo.
O tratamento
preconizado é de
curto prazo.
*A depender das doses, alguns BZDs são medicações pré-anestésicas (induzem o sono do
paciente antes da administração do anestésico para a cirurgia) ou até mesmo produzem a
indução da anestesia geral do paciente.
**O estado de mal epiléptico é quando o paciente sofre uma crise convulsiva (denominada
tônico-clônica) e ele mal se recupera e já se inicia uma nova crise. Nesta situação
potencialmente fatal, o paciente receberá medicações de uso EV - endovenoso (efeito rápido
para emergência, uso hospitalar).
Os BZDs têm usos diversos de acordo com a apresentação farmacêuti-
ca (EV- endovenoso, IM - intramuscu lar e oral) e o seu respectivo tempo de
meia-vida. O diazepam é bastante usual na emergência hospitalar (uso EV)
para reversão do estado de mal epiléptico. Também é uma classe usual para
tratamento da insônia, especialmente algumas drogas mencionadas no Qua-
dro 1. Entretanto recomenda-se que o tratamento da insônia ocorra em pra-
zos curtos de sete a dez dias, eventualmente, até no máximo quatro semanas.
O ideal é que o paciente trate as causas da insônia e não se torne dependente
destas medicações para dormir.
PSIC0FARMAC0L0GIA •
••
Reações adversas
Os BZDs, quando em superdosagem aguda, são consideravelmente menos
perigosos do que outros agentes depressores do SNC. Os BZDs causam sono
prolongado, sem depressão grave da respiração ou da função cardiovascular.
Comparado à classe dos barbitúricos como o fenobarbital (que já foi utilizado
para tratar a ansiedade), os BZDs são mais seguros. Entretanto na presença de
outros depressores do SNC, part icularmente o álcool, os BZDs podem causar
depressão respiratória grave e até mesmo o óbito do paciente.
Os principais efeitos colaterais dos BZDs consistem em sonolência, confusão,
amnésia anterógrada e comprometimento da coordenação (ataxia), que afeta
consideravelmente as habilidades manuais, como o desempenho de um moto-
rista. Pode ocorrer comprometimento cognitivo, e não é incomum que pacientes
relatem dificuldade de memorização e retenção de novos conhecimentos.
o
\
CURIOSIDADE
Esta classe de medicamentos é utilizada no golpe conhecido como "boa
noite cinderela", devido à reação adversa de amnésia anterógrada, no
qual o uso de BZD é ofertado com álcool, sem que a vítima conheça o
conteúdo da bebida. No pico de ação da droga, embora o paciente esteja
responsivo, ele não será capaz de se recordar de toda a sequência de
eventos, de forma que os acontecimentos se apresentam em espécies de
flashes. Por esta razão, a vítima pode ser conduzida ao caixa eletrônico,
lojas, entre outros, sofrendo um desfalque financeiro.
Quando um paciente administra, por exemplo, o midazolam para realiza-
ção do procedimento de endoscopia, é comum que ele não compreenda como
chegou na sala de recuperação do exame, não se recorde de quando saiu da
sala de exame ou, até mesmo, só retome a total consciência em casa, sem se re-
cordar com detalhes do tempo de recuperação, da ida até o carro etc. Por essa
razão, é obrigatório a presença de um acompanhante para realização deste
procedimento. De fato, o paciente poderá ficar bastante confuso, justamente
pelo efeito de amnésia anterógrada.
Em eventuais casos de intoxicação, quando o paciente administra quantida-
de excessiva de BZD, é possível que no ambiente hospitalar se administre um
antagonista específico dos BZDs através da via EV (endovenosa). O nome do
PSICOFARMACOLOGIA •
princípio ativo é flumazenil. Isso significa que o efeito de uma superdosagem
aguda pode ser neutralizada, o que não é possível com a maioria dos depresso-
res do SNC. Isto confere uma vantagem a essa classe de fármacos, que possui
um antagonista específico.
•
Dependência
Os BZDs podem causar dependência física e psicológica, especialmente
quando administrados por longos períodos. Todos os BZDs são medicamentos
controlados por uma portaria da ANVISA (Agência Nacional de Vigilância Sani-
tária), a nº 344 de 1998. Esta classe de medicamentos só pode ser dispensada
com a notificação de receita 81 (que é um documento na cor azul), que fica re-
tido na farmácia. Esse modelo de notificação caracteriza o potencial risco para
dependência. Este cuidado se dá justamente pelos riscos associados ao uso in-
discriminado desta classe terapêutica.
A retirada abrupta dos BZDs pode
causar sintomas de abstinência, in-
cluindo agitação, ansiedade, irritabi-
lidade, insônia, confusão mental, e,
mais raramente, convulsões.
Caso o médico faça a opção de alta
desta medicação, esta deverá ser rea-
lizada de forma gradual e constante,
num processo conhecido como des-
mame. Dessa forma, os sintomas de
uma possível síndrome de abstinência são menores.
Neurolépticos
•
Os neurolépticos, também conhecidos como drogas anti-esquizofrêni-
cas, antipsicóticas ou tranquilizantes maiores, compreendem um grupo
de fármacos que apresentam propriedades terapêuticas e farmacológicas
comuns das quais se destacam a eficácia desejada de tratar as psicoses (em
especial a esquizofrenia).
PSICOFARMACOLOGIA •
Na década de 1950, o primeiro neuroléptico testado foi a clorpromazi-
na - na época sob a denominação RP 4560 - usado em casos de mania, um
estado que geralmente é associado a hipertermia. O mais surpreendente
foi o fato de que a clorpromazina não apenas melhorou a sintomatologia
dos pacientes maníacos como também produziu uma inesperada influência
benéfica em diferentes manifestações psicóticas. Esses resultados foram
rapidamente confirmadospor psiquiatras de todo o mundo. Pouco tempo
depois, a molécula de clorpromazina foi alterada, dando origem a outras
fenotiazinas (um grupo químico): a mepazina, em 1954; a perfenazina, em
1957; e a trifluoperazina, em 1958.
Surpreendentemente, também foi a descoberta do haloperidol, que
ocorreu entre 1957 e 1958 por Paul Jassen e colaboradores, que estuda-
vam a possibilidade de desenvolver novos compostos opioides (medica-
mentos analgésicos). Dentre as substâncias sintetizadas, algumas reve-
laram potentes efeitos neurolépticos e a droga haloperidol foi descrita
como um neuroléptico muito potente, específico e de longa duração. O
uso de neurolépticos foi um marco importante na terapêutica psiquiátrica,
pois antes do tratamento medicamentoso, os pacientes com esquizofre-
nia - na época conhecidos como loucos - eram isolados da sociedade nos
. . - . antigos man1com1os.
o
\
CURIOSIDADE
O primeiro manicômio do Brasil foi criado em 1852, e tratava-se do Hospí-
cio Dom Pedro 11, e ficava na cidade do Rio de Janeiro. O doente mental,
na época, não era capaz de se autoafirmar e se defender. A degradação
física e mental resultava na perda da própria identidade e da dignidade
do indivíduo. Considerando os primórdios da psiquiatria, ainda não havia
drogas disponíveis para tratar os que, naquela época, foram denominados
loucos. Dessa forma, os primeiros hospitais psiquiátricos eram apenas um
depósito de pessoas, conhecido como "a casa dos loucos".
Os neurolépticos são classificados em gerações, de forma que a indústria
farmacêutica foi identificando, ao longo dos anos, as reações adversas em
potenciais e promovendo melhorias da estrutura química dos fármacos, com
consequentes melhorias que potencializavam os efeitos farmacológicos e re-
duziam as possíveis reações adversas.
PSICOFARMACOLOGIA •
Para compreender o mecanismo de ação dos neurolépticos, precisamos
entender que a psicose está relacionada com o excesso de dopamina em
uma das vias dopaminérgicas no sistema nervoso central, conhecida com
via mesolímbica.
•
O neurotransmissor dopamina
A eficácia terapêutica dos neurolépticos é atribuída ao antagonismo de
receptores dopaminérgicos D2 localizados nas estruturas límbicas. Mas por
qual razão as drogas objetivam bloquear tais receptores? Para respondermos
a esta questão, é importante conhecer os principais circuitos neuronais da
dopamina. Dessa forma, ficará clara a compreensão do mecanismo de ação
destas drogas, assim como a compreensão das reações adversas produzidas
por estas substâncias.
A dopamina é um neurotransmis-
sor classificado como uma monoami-
na, ou seja, sua síntese ocorre através
de um aminoácido. O aminoácido
precursor da dopamina é a tirosina.
Em termos de funções fis io lógicas, a
dopamina está envolvida no humor,
euforia, bem-estar, concentração, de-
pendência psicológica/vício e com a
função motora. Alterações da dopa mi-
na podem, portanto, alterar o humor
do paciente, produzir euforia e de-
pendência (quando a dopamina está
em excesso) ou resultar em doenças
relacionadas com o movimento, como
no mal de Parkinson, no qual a mor-
te de neurônios dopaminérgicos na
substância nigra (ou negra) resulta em
disfunção motora. Dessa forma, o paciente apresenta tremores característicos
desta doença. Na Figura 5, observam-se as funções da dopamina:
PSICOFARMACOLOGIA •
Figura 5. Vias da dopa mina no cérebro e funções da dopamina. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 11/10/2021.
Conforme observado na Figura 5, imagem a dopamina está re lacionada
com o sistema de recompensa, motivação, prazer, função motora, perseveran-
ça e compulsão. No centro da Figura 5, podemos observar também os circuitos
dopaminérgicos, ou seja, as diferentes projeções de neurônios em áreas espe-
cíficas no cérebro que determinam as funções da dopamina.
Para compreensão das ações dos neurolépticos, é importante descrever as
quatro principais vias dopaminérgicas, conforme o Quadro 2.
PSICOFARMACOLOGIA
QUADRO 2. VIAS DOPAMINÉRGICAS NO SISTEMA NERVOSO CENTRAL
Resposta Sistema
Endócrina Túbero-infundibular
Motora Nigro-estriatal
Mesolímbica
Psíquica
Mesocortical
~
Corpo celular
Hipotálamo
Substância negra
AVTM (área ventral
do tegmento
mesencefálico)
AVTM
Inervação
Hipófise
Estriado
Sistema límbico
Córtex frontal
As descrições das vias dopaminérgicas representadas no Quadro 2 são:
• Na via endócrina túbero-infundibular, a dopamina funciona como um
inibidor natural da síntese do hormônio prolactina, que é um hormônio fisio-
logicamente produzido quando necessário, como ocorre com as mulheres em
período gestacional. Este hormônio possibilitará o crescimento das mamas e a
lactogênese (formação do leite materno);
• Na via motora nigro-estriatal, a dopamina regula a função motora.
Neurônios localizados em uma região denominada substância nigra (ou subs-
tância negra) e que se projetam para o estriado regulam os movimentos em
conjunto com o neurotransmissor acetilcolina;
• Duas vias psíquicas dopaminérgicas são importantes: a via mesolímbica e a
via mesocortical. A doença esquizofrenia é caracterizada por sintomas positivos,
que são os delírios e alucinações. Este quadro de sintomas ocorre porque o pa-
ciente apresenta um excesso de dopamina na via mesolímbica. Já os sintomas
negativos da doença incluem sintomas que se assemelham a depressão, como a
apatia e a anedonia (ausência de prazer). Este quadro de sintomas ocorre porque o
paciente apresenta uma redução dos níveis de dopamina na via mesocortical.
EXPLICANDO
Nas doenças em que a psicose está presente, como acontece com a
esquizofrenia, o paciente vive fora da realidade. O delírio ou transtorno
delirante acontece quando o paciente tem uma crença ou realidade
alterada, mesmo com evidências que contrariem o delírio do paciente. Já
as alucinações incluem todas as alterações com os sentidos, como uma
alucinação visual (o paciente visualiza alguém que não existe), auditivas
(escuta vozes de comando), sendo estas as mais comuns. Vale ressaltar
que também existem as alucinações gustativas, olfativas e táteis.
PSICOFARMACOLOGIA •
••
Neurolépticos de 1ª geração
Os neurolépticos de 1 ª geração são os mais antigos neurolépticos disponí-
veis na prática clínica psiquiátrica, também conhecidos como neurolépticos tí-
picos. Estes neurolépticos são muito usados para tratamento da esquizofrenia,
mas não exclusivamente. Como são antipsicóticos podem ser uteis em outras
condições que envolvam sintomas psicóticos, como no Alzheimer, por exemplo.
Por mais de 30 anos, o tratamento da esquizofrenia baseou-se no uso de
neurolépticos típicos. Esses fármacos são antagonistas potentes e específicos
de receptores dopaminérgicos centrais do tipo D
2
. Embora estas drogas se-
jam muito eficazes contra os sintomas positivos da doença esquizofrenia, não
são igualmente eficazes para tratar os sintomas negativos da doença, além de
estarem associadas a importantes efeitos adversos.
Mecanismo de ação dos neurolépticos de 1ª geração: bloqueio persistente
por antagonismo nos receptores D
2
-, o que justifica a sua eficácia nos sintomas
positivos da doença. São drogas pouco seletivas, ou seja, além do bloqueio dos
receptores da dopamina, bloqueiam outros receptores que não são interessan-
tes para tratar a esquizofrenia, mas que justificam apenas as reações adversas.
O bloqueio dos receptores alfa-1 nos vasos pode resultar em vasodilatação com
consequente hipotensão (queda de pressão arterial), bloqueando também os
receptores colinérgicos da acetilcolina, efeito conhecido como "anticolinérgi-
co", o que pode resultar em: constipação, boca seca (xerostomia) e visão turva,
além do bloqueio dos receptores da histamina, o que resulta nas reações de
sonolência e ganho de peso.
No entanto o principal efeito negativo associado ao uso de drogas de 1 ª
geração são os denominadosde efeitos extrapiramidais, e esta reação está
relacionada com as vias dopaminérgicas e não devido ao bloqueio imposto a
outros receptores não dopaminérgicos, como nas reações citadas acima.
Para compreensão dos efeitos extrapiramidais e das outras reações adver-
sas relacionadas com as vias dopaminérgicas, vale lembrar que existem quatro
importantes vias dopaminérgicas, conforme descrito no Quadro 2. Devido
ao bloqueio imposto pelos neurolépticos, de todos os receptores D2, ampla-
mente distribuídos no cérebro, ocorre o bloqueio das ações da dopamina nas
quatro vias dopaminérgicas, e é este fato que explica as reações adversas.
PSICOFARMACOLOGIA •
Afinal, apenas duas das vias dopaminérgicas estão alteradas no paciente com
esquizofrenia (via psíquica mesolímbica e mesocortical), já as vias endócrinas
e motoras, antes do tratamento farmacológico, estão dentro da normalidade.
Quando o paciente utiliza um neuroléptico, é interessante que ocorra o blo-
queio dos receptores D2 da dopamina apenas na via mesolímbica, uma vez
que é o excesso de dopamina apenas nesta via o responsável pelos sintomas
positivos da doença, como os delírios e alucinações. Já os sintomas negativos
da doença são justificados pela falta de dopa mina na via mesocortical. Por esse
motivo, as drogas de 1 ª geração não tratam bem os sintomas negativos. O blo-
queio dos receptores de dopamina em uma via que a dopamina já está baixa
poderá, em tese, até prejudicar os sintomas negativos da esquizofrenia.
Na via endócrina, a dopamina funciona como um freio para a produção do
hormônio prolactina. O paciente poderá observar, com o uso dessa classe te-
rapêutica, um quadro de hiperprolactinemia (aumento da síntese e liberação do
hormônio prolactina), sintoma que não é exclusivo de mulheres. Devido à hiper-
prolactinemia, o paciente do sexo masculino também poderá desenvolver gine-
comastia (aumento das mamas) ou até mesmo lactogênese (produção de leite).
Já no bloqueio de dopamina na via nigro-estriatal, aquela relacionada com
a função motora, o paciente poderá apresentar os efeitos extrapiramidais. Os
efeitos extrapiramidais são reações motoras, como o parkinsonismo iatro-
gênico (induzido por uma droga) e a discinesia tardia. O parkinsonismo iatrogê-
nico é caracterizado por um falso Parkinson, no qual o paciente não apresenta
Parkinson como doença de base, mas ele apresentará todos os sintomas, como
o tremor dos braços/mãos, dificuldade para andar, inclinação do corpo para a
frente, rigidez muscular etc.
Este Parkinson é induzido por drogas, ou seja, na retirada da medicação ou
redução de doses, possivelmente este sintoma será amenizado. Já a discinesia
tardia é um movimento involuntário buco-linguo-maxilar. Nesta reação o
paciente apresenta movimentos de mastigação. O problema é que esta mastiga-
ção persiste ao longo do dia e o paciente só consegue parar de fazer o movimen-
to quando está dormindo. Esta reação é extremamente incapacitante e afeta a
qualidade de vida dos pacientes. O nome tardia significa que esta reação poderá
se desenvolver anos após o uso de drogas de 1ª geração, e o mais preocupante é
que para aproximadamente 30% dos pacientes essa reação pode ser irreversível.
PSICOFARMACOLOGIA •
Drogas de 1ª geração:
• Clorpromazina;
• Tioridazina;
• Sulpirida;
• Flufenazina;
• Levomepromazina;
• Haloperidol.
No Quadro 3, resumem-se as reações adversas das drogas de 1ª geração e
a justificativa de sua ocorrência:
Resposta
Endócrina
Motora
Psíquica
QUADRO 3. REAÇÕES ADVERSAS DAS DROGAS DE 1ª GERAÇÃO -
RELACIONADO COM AS VIAS DOPAMINÉRGICAS
~
Sistema Reação adversa Justificativa
O bloqueio persistente dos
Aumento receptores D2, anulam o "freio" da
da síntese e
dopamina para a síntese e liberação
Túberoinfundibular
liberação de
de prolactina pela glândula hipófise.
Desta forma o paciente irá produzir
prolactina. mais prolactina (tanto homens
como mulheres).
O bloqueio persistente dos
Parkinsonismo
receptores D2 na via motora,
induzido (também resulta em aumento do
neurotransmissor acetilcolina no denominado de
Nigroestriatal estriado e este desequilíbrio em
parkinsonismo ambos os neurotransmissores
iatrogênico) e
(falta de dopamina e excesso de discinesia tardia.
acetilcolina) é responsável por
alterações motoras.
Não há. Esta
O bloqueio persistente dos
via relaciona-se receptores D2 nesta via é
Mesolímbica com os efeitos responsável por tratar os sintomas
farmacológicos. positivos da doença, reduzindo os
delírios e as alucinações.
O bloqueio persistente dos
Anedonia
receptores D2 nesta via é
Mesocortical (ausência de responsável pela possível piora
dos sintomas negativos da doença,
prazer). uma vez que na esquizofrenia, a
dopamina já está baixa nesta via.
PSICOFARMACOLOGIA •
Devido à incidência de reações adversas, os antipsicóticos de 1 ª geração são
obsoletos em alguns países pelo mundo. No entanto, no Brasil, especialmente
devido ao baixo custo e disponibilidade pelo SUS, ainda são amplamente uti-
lizadas apesar das possíveis reações adversas motoras. O haloperidol é uma
droga disponível em várias apresentações, como em comprimidos e injetável
intra-muscular (IM). O tratamento injetável intramuscular é interessante para
pacientes psicóticos, pois facilita a adesão ao tratamento e garante que não
ocorram novos surtos psicóticos.
•
Neurolépticos de 2ª geração
Devido às reações adversas produzidas pelos neurolépticos de 1ª geração,
a indústria farmacêutica lançou, a partir da década de 1970, uma nova classe
terapêutica, denominada 2ª geração ou neurolépticos atípicos.
Mecanismo de ação dos neurolépticos de 2ª geração: possuem um me-
canismo de ação misto, promovendo um bloqueio dos receptores dopami-
nérgicos D
2
por dissociação rápida e bloqueio dos receptores serotonérgicos
5-HT2A. Esta dissociação rápida está descrita em literatura como um tipo de
bloqueio diferenciado (quando comparado às drogas de 1ª geração). Significa
dizer que as drogas de 1ª geração têm um efeito persistente no bloqueio
dos receptores D
2
, impossibilitando qualquer ação de dopamina nestes re-
ceptores. Já na dissociação rápida, significa que o fármaco bloqueia os re-
ceptores D
2
de maneira não persistente, ou seja, eventualmente o fármaco
desliga do receptor e permite um pouco das ações da dopamina em todas as
vias dopaminérgicas. Desta forma, as ações da dopamina não ficam anuladas
nas vias dopaminérgicas normais do paciente com esquizofrenia, e o fato de
dopamina continuar exercendo o seu papel nestas vias é o que garante menos
reações adversas endócrinas e motoras.
O termo atipicalidade tem sido utilizado para se referir a diversas proprie-
dades comuns a certos medicamentos antipsicóticos, como:
1. Baixa ou nenhuma propensão a desenvolver efeitos colaterais extrapira-
midais e endócrinos (hiperprolactinemia);
2. Tratamento efetivo tanto dos sintomas positivos quanto dos sintomas
negativos da esquizofrenia;
PSICOFARMACOLOGIA •
3. Maior seletividade por receptores dopaminérgicos do sistema mesolímbico;
4. Alta afinidade tanto por receptores serotonérgicos 5HT2A quanto porre-
ceptores dopaminérgicos D2;
5. Dissociação rápida de receptores dopaminérgicos D2•
A ziprasidona é um dos principais representantes da classe de neurolépti-
cos de 2ª geração, sendo diferenciada quimicamente de outros agentes antip-
sicóticos por apresentar uma única combinação de atividades farmacológicas.
Essa droga tem alta afinidade pelo bloqueio de diversos receptores serotonér-
gicos (5-HT2A' 5-HT2c, 5-HT1A e 5-HT18I10), assim como por receptores dopami-
nérgicos D2• A ziprasidona é conhecida por apresentar uma eficácia clínica au-
mentada e um favorecimento do perfil de tolerabilidade, quando comparada a
outros agentes antipsicóticos no tratamento da esquizofrenia.
Assim, a ziprasidona é eficaz tanto no tratamento dos sintomaspositivos
quanto negativos da esquizofrenia. Comparando cada uma das drogas de 2ª
geração, é possível observar que pode haver uma pequena diferença entre o
perfil de afinidade para antagonismo dos diversos receptores serotonérgicos.
Porém todas estas drogas apresentam uma característica comum: uma con-
siderável redução da possibilidade de efeitos adversos. Por esta razão, são as
drogas mais utilizadas na atualidade.
Os neurolépticos de 2ª geração estão associados a uma substancial e signifi-
cante melhora de sintomas depressivos em pacientes com um nível clinicamen-
te relevante de depressão (sintomas negativos da doença esquizofrenia) e me-
nor propensão para o desenvolvimento de efeitos colaterais extrapiramidais.
Este fato é atribuído especialmente à ação de bloqueio dos receptores
SHT 2A. De acordo com essa hipótese, o antagonismo de receptores SHT 2A
promovido por drogas de ação mista, como as drogas de 2ª geração, le-
varia à desinibição da neurotransmissão dopaminérgica (normalmente
inibida por neurônios serotonérgicos provenientes de núcleos da rafe),
promovendo o aumento da liberação de dopamina nos diversos sistemas
dopaminérgicos. O aumento da liberação de dopamina poderia, por sua
vez, impedir o desenvolvimento da hiperprolactinemia ou disfunção moto-
ra, nas vias endócrinas e motoras, respectivamente, além de possibilitar as
ações da dopamina na via mesocortical, melhorando os sintomas positivos
da esquizofrenia.
PSICOFARMACOLOGIA •
No entanto o bloqueio D2 na via mesolímbica, ainda que por dissociação
rápida, garante que o paciente não irá apresentar os sintomas positivos como
os delírios e alucinações. Costuma-se dizer que o bloqueio D2 das drogas de 2ª
geração é suficiente para tratar os sintomas positivos da doença e insuficiente
para promoção das reações adversas, fazendo com que esta classe terapêutica
tenha maior relevância clínica.
Algumas drogas de 2ª geração, a exemplo da risperidona, estão disponíveis
no SUS nas doses de 1 mg, 2 mg e 3 mg para tratamento da esquizofrenia. No
entanto esta medicação pertence ao componente especializado de assistência
farmacêutica, no qual a sua dispensação está vinculada a um PCDT (protocolo
clínico e diretriz terapêutica), havendo normas específicas para a sua prescri-
ção e dispensação.
Drogas de 2ª geração:
• Clozapina;
• Olanzapina;
• Quetiapina;
• Risperidona;
• Ziprasidona;
• Sertindol.
•
Neurolépticos de 3ª geração
Mais recentemente, surgiu a possibilidade da utilização de um novo fár-
maco, o aripiprazol, que assim como muitos neurolépticos de 2º geração tem
atividade em receptores serotonérgicos (antagonista em receptores SHT 2A).
Não obstante, sua afinidade pelos receptores dopaminérgicos D2 é maior do
que sua afinidade pelos receptores serotonérgicos. Além disso, o aripiprazol
atua também como agonista parcial em receptores dopaminérgicos D2, agindo
como um estabilizador da transmissão dopaminérgica.
Dessa forma, o aripiprazol pode atuar como um antagonista de recepto-
res D2 na presença/excesso de dopamina, e pode aumentar a transmissão
dopaminérgica na ausência de dopamina. Tal fato levou diversos autores a
preconizá-lo como o primeiro fármaco de 3° geração de antipsicóticos. Essa
propriedade de agonista parcial de receptores dopaminérgicos somada às
PSICOFARMACOLOGIA •
atividades serotonérgicas conferem também uma parcial atividade antide-
pressiva a esse medicamento.
Em conjunto, o mecanismo de ação diferenciado do aripiprazol propicia o
tratamento eficaz de sintomas positivos e negativos da esquizofrenia, com mí-
nimas possibilidades de desenvolvimento de efeitos colaterais extrapiramidais
e endócrinos. Entretanto, principalmente em países de terceiro mundo, e devi-
do ao alto custo de agentes atípicos de 3ª geração, estas drogas são utilizadas
em menor frequência. Embora outras moléculas já estejam aprovadas para uso
nos EUA, no Brasil, só temos a opção do aripiprazol como droga de 3ª geração.
Drogas de 3ª geração: aripiprazol.
Conclui-se que as drogas de 2ª e 3ª geração têm menor propensão de de-
senvolvimento de reações endócrinas e sintomas extrapiramidais. No entanto
estas drogas possuem reações adversas, sendo a principal delas:
ganho de peso com posterior desenvolvimento de problemas
cardiovasculares (em decorrência do ganho de peso). Quando
comparamos o aripriprazol às drogas de 2ª geração, há uma
menor incidência de ganho de peso.
Antidepressivos tricíclicos e inibidores da MAO
•
Os antidepressivos tricíclicos são utilizados no tratamento da depressão,
que é um transtorno de humor caracterizado pela falta de três neurotrans-
missores: serotonina, dopamina e noradrenalina. Dessa forma, o objetivo de
qualquer antidepressivo é produzir o aumento de um ou mais destes neuro-
transmissores do SNC.
Os inibidores da MAO já foram amplamente utilizados na terapêutica, mas
atualmente se tornaram obsoletos devido às reações adversas apresentadas
por estes medicamentos e à disponibilidade de medicamentos mais modernos
e com menor propensão de reações adversas.
Os neurotransmissores serotonina, dopamina e noradrenalina
A setoronina, a dopamina e noradrenalina são monaminas, ou seja, são
neurotransmissores produzidos a partir de aminoácidos precursores. Sendo
o triptofano o aminoácido precursor da serotonina, e a tirosina, o aminoácido
precursor da noradrenalina e da dopamina.
PSICOFARMACOLOGIA •
••
Antidepressivos da classe dos inibidores da MAO
São uma classe terapêutica descoberta por acaso em 1957, durante a in-
vestigação de agentes para tratamento da tuberculose, sendo que o primeiro
fármaco usado para tratamento da depressão foi a iproniazida. O médico ame-
ricano Nathan Kline relatou efeitos positivos em pacientes que haviam tentado
o suicídio. Durante o uso da iproniazida para tratamento da tuberculose, foi
observado que os pacientes estavam cheios de ânimo, sorridentes e menos
sensíveis à dor, e embora tenha sido concluído que a iproniazida não foi efetiva
para a condição pulmonar no qual estava sendo util izada até então, uma outra
indicação terapêutica psiquiátrica surgiu a partir do uso desta droga.
Iremos compreender agora por que os inibidores da MAO, que já foram mui-
to úteis na prática clínica, tornaram-se obsoletos. Primeiramente é preciso en-
tender que a MAO é uma enzima cujo nome químico é monoamino-oxidase, e
ela é responsável pela degradação das monoaminas. Logo, o seu uso consiste
em bloquear esta enzima e, portanto, aumentar a oferta das monoaminas nas
sinapses cerebrais.
Mecanismo de ação dos inibidores da MAO: bloqueio de duas isoformas
da MAO, denominadas MAO-A ou MAO-B. A MAO-A é responsável pela degra-
dação de setorotonina e noradrenalina, portanto o bloqueio desta isoforma
aumenta estes neurotransmissores. Já o bloqueio da MAO-B está relacionado
com a degradação de dopamina, portanto o bloqueio desta isoforma é capaz
de aumentar este neurotransmissor. Os inibidores da MAO são classificados
em inibidores clássicos (irreversíveis) e inibidores reversíveis da MAO-A.
Os inibidores clássicos {irreversíveis) não são seletivos, ou seja, inibem
MAO-A e MAO-B, no entanto este bloqueio ocorre a nível central (necessá-
rio para tratar a depressão aumentando os neurotransmissores) e também
perifericamente. Estas enzimas também estão presentes no TGI (trato gas-
trointestina l). O bloqueio da MAO-A periférica produz uma interação com
alimentos clinicamente sign ificativa (conhecida como reação do queijo). A
enzima MAO-A periférica que é responsável por degradar a t iramina (ami-
noácido presente em diversos alimentos como peixes defumados, vinhos
e queijos envelhecidos), este aminoácido deixa de ser metabo lizado com o
b loqueio da MAO-A periférica.
PSICOFARMACOLOGIA •
A tiramina possui característica simpatomimética, aumentando a liberação
de noradrenalina na fenda sináptica,o que resulta em aumento da pressão ar-
terial (crise hipertensiva). Por essa razão, fármacos desta categoria só podiam
ser utilizados com um rígido controle dietético. Quando o paciente recebia uma
prescrição de inibidor da MAO irreversível e fazia o alto consumo de tiramina
presente nos alimentos, poderia apresentar uma reação adversa grave, carac-
terizada por crise hipertensiva. Exemplos de fármacos irreversíveis são: tra-
nilcipromina, fenelzina e isocarboxazida. Vale ressaltar que estes fármacos
não são mais utilizados na prática clínica.
Para resolver esta problemática, a indústria farmacêutica desenvolveu
os inibidores reversíveis da MAO-A. Inibidores reversíveis da MAO-A blo-
queiam apenas a MAO-A e não tem efeitos significativos para aumento de
dopamina. Não apresenta reação do queijo, pois quando o paciente consome
alimentos ricos em tiramina, que necessita ser metabolizada perifericamen-
te, o fármaco se desloca da enzima periférica e a tiramina pode ser degrada
normalmente. Esta classe não causa crise hipertensiva. Exemplo de fármaco
reversível: moclobemida.
••
Antidepressivos da classe dos tricíclicos
Os antidepressivos tricíclicos, assim denominados em virtude do núcleo
característico com três anéis de carbono, vêm sendo utilizados clinicamente
desde a década de 1950. Na Figura 6, observa-se a estrutura comum dos fár-
macos antidepressivos tricíclicos:
Figura 6. Estrutura química do antidepressivo amitriptilina. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 11/10/2021.
PSICOFARMACOLOGIA •
Todos os antidepressivos da clas-
se dos tricíclicos possuem esse triplo
anel na estrutura química. A estrutura
química completa da Figura 6 refere-
-se apenas à amitriptilina.
A imipramina e a amitriptilina são
os protótipos (primeiros fármacos
desenvolvidos) desta classe. O meca-
nismo de ação consiste na inibição
mista das bombas de recaptação. Blo-
queiam a bomba de recaptação de
noradrenalina e serotonina, embo-
ra também exerçam vários outros efeitos. O bloqueio destes transportadores
presumivelmente permite uma maior permanência dos neurotransmissores
noradrenalina e serotonina no espaço sináptico.
Cada neurônio possui um transportador ativo nos neurotransmissores, de-
nominados também bomba de recaptação. A função deste transportador é
captar o neurotransmissor já liberado na fenda sináptica e trazê-lo de volta
para o neurônio pré-sináptico, sendo assim, no funcionamento da recaptação,
as concentrações dos neurotransmissores na fenda sináptica são menores.
Portanto o bloqueio destes transportadores são importantes para resultar no
aumento das concentrações nos neurotransmissores na fenda sináptica.
Os antidepressivos demoram, em média, de duas a quatro semanas para
exercer os efeitos farmacológicos. Isto ocorre porque na fisiopatologia da
depressão observam-se duas alterações: 1) menor concentração das mo-
noaminas e 2) aumento da expressão dos receptores pós-sinápticos. Por-
tanto os efeitos farmacológ icos dos tricíclicos e outras drogas antidepressi-
vas depende do aumento das monoaminas na fenda sináptica e da redução
dos receptores pós-sinápticos.
Embora o aumento das monoaminas comece a ocorrer de forma rápida,
logo no início do tratamento, especialmente a modulação dos neurotransmis-
sores demora algumas semanas, e somente quando ocorre um equilíbrio entre
a quantidade de neurotransmissores e receptores pós-sinápticos é que o pa-
ciente começa a observar melhoras nos sintomas depressivos.
PSICOFARMACOLOGIA •
Hipótese dos receptores de neurotransmissores para a ação dos antidepressivos
A - O antidepressivo bloqueia a bomba de recaptação,
levando a miores quantidades de NT na sinapse
►
B - O aumento do NT causa infrarregulação
dos receptores
Figura 7. Ações dos antidepressivos no bloqueio da bomba de recaptação e aumento dos neurotransmissores (A) e
redução dos receptores pós-sinápticos (8). Fonte: STAHL, 2014, p. 265.
Devido à falta de seletiv idade, a classe dos tricíc licos está relacionada com
importantes reações adversas. Esta classe é antagonista em diversos recep-
tores -não interessantes para o tratamento da depressão - o que resulta em
reações adversas, conforme demonstrado no Quadro 4:
QUADRO 4. REAÇÕES ADVERSAS DOS TRICÍCLICOS
Bloqueio do receptor
Muscarínicos
Histamínico
Alfa-1
Reação adversa decorrente
Constipação intestinal, xerostomia (boca seca), visão turva e
retenção urinária.
Sonolência e ganho de peso.
Tontura e hipotensão ortostática.
Os antidepressivos tricícl icos também bloqueiam fracamente os canais de
sódio sensíveis à voltagem no coração e no cérebro; em casos de intoxicação,
pode causar coma, convulsões, arritmias cardíacas, parada cardíaca e morte.
Vale ressaltar que estes efeitos são raros, e embora já haja, na prática clínica,
diversos outros antidepressivos, está classe ainda é muito usual, até mesmo
pelo baixo custo e disponibilidade no SUS.
PSICOFARMACOLOGIA •
Drogas antidepressivas da classe dos t ricíclicos:
• Clomipramina;
• lmipramina;
• Amitriptilina;
• Nortriptilina;
• Desipramina .
••
Lítio e outras drogas antimania
O humor considerado normal é denominado eutimia. No entanto algumas
pessoas, por um desequilíbrio na quantidade de neurotransmissores, podem
apresentar o humor alterado para baixo, passando pela distimia e indo até à
depressão (caracterizando a doença depressão maior ou unipolar). Quando o
humor está elevado, ele poderá ser classificado como um estado de hipomania
ou, quando acima disso, mania . No transtorno bipolar, o humor do paciente
oscila entre os dois polos mais extremos (mania e depressão) e por isso essa
nomenclatura de bipolar.
Observe, na Figura 8, o que acontece com o humor do paciente com trans-
torno bipolar:
Bipolar 1
Episódio maníaco ou misto +/- transtorno depressivo maior
.. ~ -----....
• • • • • • • • • Hipomania
Maníaco ~► ,.,. \...,>ri'"
----------- Distimia
- ---------·
Misto
Depressivo
(ap~s um
epi~dio
maníaco ou
misto) - -- • 1
Figura 8. Transtorno bipolar 1: definido como aquele com, pelo menos, um episódio maníaco ou misto (mania e depres-
são plenas, simultaneamente). Fonte: STAHL, 2014. p. 222.
PSICOFARMACOLOGIA •
A mania é um estado de humor extremamente elevado e excitável, que é
muito comum no transtorno bipolar, mas não exclusivamente. Em outros diag-
nósticos, é possível que o paciente tenha alguma frequência de mania .
•
Carbonato de lítio
A droga carbonato de lítio vem sendo utilizada para tratamento do transtor-
no bipolar há mais de 50 anos. O lítio é um íon cujo mecanismo de ação ainda
não está estabelecido com certeza. Sabe-se que ao longo dos anos está droga
tem sido eficaz como um estabilizador de humor.
Mais recentemente, o conceito de estabilizador do humor foi defini-
do de maneira abrangente, desde "uma substância capaz de atuar
como o lít io", passando por "um anticonvulsivante usado para o tra-
tamento do transtorno bipolar", até "o antipsicót ico atípico ut ilizado
no tratamento do t ranstorno bipolar" (STAHL, 2014, p. 342).
Embora o mecanismo não esteja completamente elucidado, o carbonato
de lítio é capaz de reduzir os episódios maníacos e produzir a manutenção das
remissões, especialmente dos episódios maníacos e em menor grau nos episó-
dios depressivos.
Alguns mecanismos propostos para o carbonato de lítio incluem o fato do
íon lítio Li+ ser utilizado no lugar no Na+ para a despolarização dos neurônios,
mas essa despolarização não ocorre de maneira eficaz até a liberação no neu-
rotransmissor na fenda sináptica.
Outras possíveis ações sugerem mecanismos intracelulares envolvendo o
bloqueio de enzimas e redução da síntese de segundos mensageiros,
como a enzima inositol monofosfatase. O fato que é que um estabi-
lizador do humor deve reduzir a liberação de neurotransmissores
quando o paciente está em um episódio de mania
e aumentar aliberação de neurotransmissores
quando o paciente está no episódio de depres-
são, uma vez que a justificativa dos episódios é
um excesso de despolarização no episódio de
mania e a falta de ações de neurotransmissores
no episódio de depressão.
PSICOFARMACOLOGIA •
Reações adversas do lítio
Sintomas gastrointestinais sao os mais
frequentes, como a dispepsia, náuseas,
vômitos e diarreia, mas ele também pode
produzir aumento de peso, acne, tremo-
res, sedação e prejuízos tanto na cogn ição
quanto na coordenação motora. O lítio é uma
droga de baixo índice terapêutico, portanto
o seu uso requer monitoramento das concentra-
ções do lítio plasmáticas.
O índice terapêutico (IT) define a segurança de
uma droga. A indústria farmacêutica calcula o IT de uma
droga nos estudos pré-clínicos (em animais). Desta forma
é defin ida a DE50% (dose efetiva em 50% da população) e a
DL50% (dose letal em 50% da população). De modo que o cál-
culo é estabelecido sendo: DL/DE. Quanto maior o resultado, mais seguro é o
medicamento. Quanto menor o resultado, menos seguro. Por exemplo, se um
medicamento é eficaz na dose de 500 mg e é letal na dose de 2000 mg, signifi-
ca que (DL/DE) 2000 mg/500 mg = 4. Em outras palavras, na administração de
apenas quatro comprimidos poderá ocorrer o óbito do paciente. Obviamente
que quando a dose letal envolver a administração de 100 ou 200 comprimidos,
este medicamento é muito mais seguro.
O lítio é uma droga de baixo IT, sendo uma desvantagem para esta droga.
Pacientes com problemas hepáticos (e, portanto, no metabolismo) ou renais (e,
portanto, na excreção) devem ser rigorosamente monitorados, pois a chance
de alcançar efeitos tóxicos/letais são maiores.
•
Outras drogas usadas para tratar o transtorno bipolar
Além do lítio, outras drogas são utilizadas para o tratamento do transtorno
bipolar. Especialmente alguns anticonvulsivantes, que tratam bem o episódio
de mania e em menor grau os episódios de depressão, e os neurolépticos de 2ª
geração, que demonstram efetividade para estabilizar tanto a mania quanto a
depressão. No Quadro 5, observe as drogas que são utilizadas.
PSICOFARMACOLOGIA •
QUADRO 5. OUTRAS DROGAS USADAS PARA O TRANSTORNO BIPOLAR
Classe terapêutica
Anticonvulsivantes
Neurolépticos/antipsicóticos
de 2ª geração
~
Droga/fármaco
Valproato de sódio
Carbamazepina
Lamotrigina
Oxcarbazepina
Topiramato
Gabapentina
Quetiapina
Risperidona
Olanzapina
Observações
Previne tanto a mania quanto a
depressão.
Mais efetivo na fase de mania.
Previne tanto a mania quanto a
depressão.
Mais efetivo na fase de mania.
Previne tanto a mania quanto a
depressão.
Mais efetivo na fase de mania.
Previne tanto a mania quanto a
depressão.
Os antipsicóticos de segunda geração, especialmente quetiapina, risperido-
na e olanzapina, já constam em bula na indicação para tratamento do transtor-
no bipolar. Diversos estudos já foram realizados e concluíram a eficácia destas
drogas tanto de maneira isolada, quanto associadas ao carbonato de lítio. O
médico deverá avaliar a necessidade de monoterapia ou associações de acordo
com a classificação do transtorno bipolar do paciente. Vale ressaltar que alguns
pacientes com transtorno bipolar predominam no estado de mania, enquanto
outros predominam no estado de depressão, gerando complexidade na esco-
lha do tratamento ideal.
PSICOFARMACOLOGIA •
Sintetizando •
O tratamento farmacológico dos transtornos mentais deve ser avaliado
pelo médico psiquiátrica. Sabe-se que estes transtornos ocorrem devido a uma
alteração neuroquímica, na qual ocorre um desequilíbrio dos neurotransmis-
sores. Portanto tratar esta condição é uma necessidade e não ocorre a melhora
destes sintomas simplesmente pela vontade do paciente.
Infelizmente, ainda existe muito preconceito em torno dos transtornos
mentais e muitos pacientes têm medo de procurar o médico e receber um diag-
nóstico que envolva o uso de psicotrópicos. Cabe aos profissionais de saúde
alertar os pacientes quanto a necessidade de um diagnóstico precoce e início
do tratamento para melhora dos sintomas.
Vimos que o tratamento da ansiedade e da insônia pode ser realizado com o
uso de benzodiazepínicos, que embora sejam drogas úteis para esta finalidade,
são depressores do SNC e o seu uso requer cautela.
No tratamento da esquizofrenia, as drogas 1 ª geração ainda são muito
usuais no Brasil devido ao baixo custo e disponibilidade no SUS. São drogas
que possuem muitos efeitos adversos associados, como é o caso do haloperi-
dol, uma droga de 1 ª geração que pode causar disfunção endócrina e sintomas
extrapiramidais que são bastante incapacitantes aos pacientes. Já as drogas de
2ª e 3ª geração, como risperidona e aripiprazol, respectivamente, são interes-
santes por tratarem os sintomas positivos e negativos da esquizofrenia, sem
promover os efeitos adversos endócrinos e motores.
O tratamento dos transtornos de humor como a depressão e o transtorno
bipolar são de suma importância, o uso de antidepressivos tricíclicos como a
amitriptilina são muito usuais na prática clínica, embora sejam drogas mais an-
tigas e associadas a reações adversas devido a menor seletividade desta classe
terapêutica. O carbonato de lítio é o principal estabi lizador de humor usado na
prática clínica, muito eficaz no tratamento dos episódios de mania e de depres-
são, no entanto o uso requer cautela devido ao baixo índice terapêutico.
PSICOFARMACOLOGIA •
Referências bibliográficas ••
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Artmed, 2016.
PSICOFARMACOLOGIA •
UNIDADE
r
educacional
Obietivos da unidade
Apresentar as bases biológicas dos transtornos mentais: depressão maior,
ansiedade, transtorno bipolar e esquizofrenia;
Compreender os tratamentos para dos diversos transtornos, incluindo o
mecanismo de ação dos fármacos e as reações adversas mais comuns.
Tópicos de estudo
Depressão: caracterização,bases
neuroquímicas e tratamento
Depressão maior: bases
, .
neuroqu1m1cas
Antidepressivos de 1 ª geração
Antidepressivos de 2ª geração
Antidepressivos de 3 ª geração
Outros antidepressivos atípicos
Ansiedade e tratamento
Transtornos de ansiedade:
bases neuroquímicas
Estratégia gabaérgica:
benzodiazepínicos
Estratégia serotonérgica:
buspirona
Estratégia adrenérgica:
beta bloqueadores
Outros fármacos com potencial
ansiolítico
Mania: caracterização e
tratamento
Estabilizadores do humor
Psicose: caracterização e
tratamento da esquizofrenia
Esquizofrenia: caracterização
, .
neuroqu1m1ca
Neurolépticos típicos: 1 ª geração
Neurolépticos atípicos: 2ª e 3ª
geração
PSICOFARMACOLOGIA •
Depressão: caracterização, bases neuroquímicas e
tratamento
•
A depressão, ou depressão maior, é um grave problema de saúde pública
e afeta milhares de pessoas no mundo todo. Segundo dados de 2020 da OMS
(Organização Mundial da Saúde), o Brasil é o segundo país com maior número de
casos depressivos nas Américas, com 5,8% da população, perdendo apenas para
os Estados Unidos, com 5,9%. A doença afeta 4,4% da população mundial. Ainda
segundo a OMS, o número de pessoas com transtornos mentais mais comuns,
como a depressão e a ansiedade, cresce exponencialmente em países de renda
baixa, sendo atribuído também a maiores taxas de envelhecimento da popula-
ção. No entanto, nos últimos anos, o número de drogas para tratar a depressão
também cresceu, possibilitando um tratamento adequado aos pacientes.
A depressão é a principal causa de incapacidade em todo o mundo, com
fatores genéticos e ambientais contribuindo para o seu desenvolvimento. A
hereditariedade explica cerca da metade dos casos depressivos, sendo mais
comum entre parentes de 1° grau de pacientes deprimidos e a concordância
entre gêmeos idênticos é alta. Os fatores genéticos podem influenciar nas res-
postas depressivas diante dos eventos adversos que uma pessoa vivencia.
Dentre os sintomas, é possível destacar: tristeza, pesar, desespero, falta de
apetite e perda de peso (ou excesso de apetite e ganho de peso), excesso de
sono ou insônia, perda do desejo sexual, anedonia (ausência de prazer), falta
de interesse, dificuldade de relacionamentos interpessoais, dificuldade de con-
centração, fadiga, e, em casos mais graves, ideação suicida.
O médico deve fazer o diagnóstico baseado na clínica, incluindo a intensida-
de e a duração dos sintomas. Muitas vezes, é difícil para as pessoas separar o
que é uma tristeza normal da depressão. A tristeza é um tipo de humor presen-
te na vida de qualquer pessoa, visto que alguns acontecimentos favorecem o
seu aparecimento. Por exemplo, quando a pessoa perde o emprego, briga com
o namorado ou tira uma nota baixa em uma avaliação importante. O problema
é a intensidade e a duração dos sintomas.
Quando a tristeza começa a atrapalhar as escolhas de vida do paciente e
a afastá-lo de seus objetivos, talvez seja o caso de uma avaliação médica. É
possível que algum fator desencadeie o processo de depressão, como um luto
PSICOFARMACOLOGIA •
pela perda de um ente querido que inicia um processo de tristeza profunda,
algo que vem a desencadear o diagnóstico de depressão, porém isso não é
uma regra. Eventualmente, pessoas bem-sucedidas no âmbito profissional e
pessoal também podem ter os sintomas. Nem sempre há um gatilho, já que a
depressão é uma alteração neuroquímica na quantidade de neurotransmisso-
res, portanto a melhora dos sintomas independe da força de vontade do pa-
ciente. Quando o médico achar necessário, em especial quando a classificação
da depressão é moderada ou grave, é possível iniciar um tratamento medica-
mentoso com os antidepressivos.
••
Depressão maior: bases neuroquímicas
A depressão maior, também denominada de depressão unipolar, está rela-
cionada com o gráfico do humor, apresentado na Figura 1. Ela é o transtorno
do humor mais comum e caracteriza-se pela ocorrência de, pelo menos, um
único episódio depressivo maior, embora a maioria dos pacientes apresente
episódios recorrentes.
Depressão maior
Episódio único ou recorrente
- - - - - Hipomania - - - - -
- - Distimia - - - -
Episódio único Recorrente
Figura 1. Depressão maior. Fonte: STAHL, 2014, p. 221. (Adaptado).
PSICOFARMACOLOGIA •
Os transtornos do humor costumam ser denominados transtornos afe-
tivos, fato que ocorre porque o afeto é a expressão externa do humor, uma
emoção vivenciada "por dentro". Na Figura 1, se observam os extremos do hu-
mor: a depressão e a mania, vistas como os extremos opostos de um espectro
afetivo ou do humor. No centro, há o humor normal, denominado de eutimia
e, logo abaixo, aparecem a distimia e a depressão enquanto, acima da eutimia,
estão a hipomania e a mania.
A mania e a depressão são "polos" opostos, o que leva ao uso dos termos
depressão unipolar (quando o paciente só apresenta o polo para baixo ou de-
pressivo) e bipolar (quando o paciente oscila entre os polos de mania e de de-
pressão). Segundo Coryell (2020), a presença de 5 ou mais sintomas, ocorrendo
quase todos os dias durante o período mínimo de 2 semanas, sendo um deles
humor deprimido ou perda de interesse ou prazer, são critérios de diagnóstico
da depressão maior:
• Humor deprimido durante a maior parte do dia;
• Diminuição acentuada do interesse ou prazer em todas ou quase todas
as atividades na maior parte do dia;
• Ganho ou perda ponderai significativo(> 5%) ou diminuição ou aumento
do apetite;
• Insônia (muitas vezes insônia de manutenção do sono) ou hipersonia;
• Agitação ou atraso psicomotor observado por outros (não autorrelatado);
• Fadiga ou perda de energia;
• Sentimentos de inutilidade ou culpa excessiva ou inapropriada;
• Capacidade diminuída de pensar, concentrar-se ou indecisão;
• Pensamentos recorrentes de morte ou suicídio, tentativa de suicídio ou
um plano específico para cometer suicídio.
Base neuroquímica da depressão:
1) Hipótese monoaminérgica: redução das monoaminas (neurotransmis-
sores produzidos a partir de aminoácidos), como serotonina, noradrenalina
e dopamina;
2) Aumento (up-regulation): aumento do número de receptores pós-
-sinápticos.
A teoria mais aceita para a depressão é a ocorrência de um déficit na co-
municação dos neurotransmissores, também denominados de monoaminas:
PSICOFARMACOLOGIA •
serotonina, noradrenalina e dopamina. Como mecanismo de compensação,
os neurônios pós-sinápticos expressam um maior número de receptores pós-
-sinápticos com o objetivo de aumentar a probabil idade de os poucos neuro-
transmissores ativarem os receptores e propagarem impulsos nervosos.
Desse modo, trata-se de uma tentativa de melhorar a sinalização dos neu-
rotransmissores em déficit. Na doença depressão, observa-se a redução das
monoaminas e o aumento dos receptores pós-sinápticos. Neste sentido,
todos os antidepressivos têm como objetivo aumentar os neurotransmissores
em falta, através do bloqueio de um ou mais transportadores descritos abaixo
ou através da inibição da MAO:
• DAT - transportador de dopamina;
• SERT - transportador de serotonina;
• NAT - transportador de noradrenalina;
• MAO - Monoaminooxidase (MAO A - degrada noradrenalina e serotonina,
MAO B - degrada dopamina).
EXPLICANDO
Os IMAOs (inibidores da MAO) são a primeira classe de fármacos antide-
pressivos utilizada na terapêutica. O fármaco iproniazida, a princípio utiliza-
do para tratamento da tuberculose, é descoberto como efetivo nos episó-
dios depressivos em 1956. No entanto, atualmente essa classe terapêutica
está obsoleta em razão das reações adversas atribuídas a ela. O uso de
IMAOs, em especial aqueles classificados como irreversíveis, causam crise
hipertensiva nos pacientes devido à "reação do queijo", que ocorre quando
o paciente consome alimentos ricos em tiramina.
A eficácia farmacológica dos antidepressivos só é observada como aumen-
to dos neurotransmissores (monoaminas) e uma redução dos receptores (down
regu/ation), conforme a Figura 2, que ilustra as ações dos antidepressivos no
bloqueio da bomba de recaptação e aumento dos neurotransmissores (lado
A) e redução dos receptores pós-sinápticos (lado 8). Em virtude da segunda
alteração, que requer neuroadaptações que não são imediatas, a eficácia clí-
nica somente é vista pelo paciente e familiares após 3 a 4 semanas de utiliza-
,
ção do(s) medicamento(s). E importante que o paciente receba esta orientação,
pois tal fato implica na descontinuação do tratamento (não adesão), tendo em
vista a ideia de que o tratamento não é efetivo.
PSICOFARMACOLOGIA •
Hipótese dos receptores de neurotransmissores para a ação dos antidepressivos
A) o antidepressivo bloqueia a bomba de recaptação,
levando a maiores quantidades de NT na sinapse
Figura 2. Ações dos antidepressivos. Fonte: STAHL, 2014, p. 265.
B) o aumento do NT causa infrarregulação
dos receptores
Conclui-se, portanto, que os antidepressivos, independente da classe tera-
pêutica, só fazem efeito quando ocorre o aumento das monoaminas e a redu-
ção dos receptores pós-sinápticos, conforme a Figura 3, que mostra os diferen-
tes intervalos de tempo para os efeitos dos antidepressivos - isto é, alterações
clínicas, além do aumento nos neurotransmissores (NT) e redução dos recepto-
res. De modo mais específico, a quantidade de NT modifica-se de forma relati-
vamente rápida após a introdução de um antidepressivo. Entretanto, os efeitos
clínicos são retardados, assim como a dessensibilização ou a infrarregulação
dos receptores de neurotransmissores.
Sensibilidade :
dos receptores
1
1
• Quantidade de NT
Efeito clínico
Introdução do antidepressivo
Figura 3. Tempo para o aparecimento dos efeitos antidepressivos. Fonte: STAHL 2014, p. 265. (Adaptado).
PSICOFARMACOLOGIA •
Dentre os fármacos mais antigos para tratamento da depressão, os IMAOs
(inibidores da MAO), em especial os irreversíveis, não são mais utilizados na
prática clín ica, sendo considerados obsoletos por conta da ocorrência de uma
reação adversa importante, a crise hipertensiva. Quando o paciente utiliza
um IMAO, deve seguir um rigoroso plano alimentar, pois, em caso de consu-
mo de alimentos ricos em tiramina, como vinhos e queijos, o paciente pode
apresentar uma crise hipertensiva. A tiram ina em excesso no organismo (não
metabolizada devido à presença do fármaco) é uti lizada para síntese de no-
radrenalina, substância que estimula os receptores adrenérgicos do sistema
simpático, elevando a pressão arterial do paciente. No entanto, drogas de 1 ª
geração, denominadas de tricíclicos e desenvolv idas entre as décadas de 1950
e 1960, ainda são muito utilizadas na prática clínica.
••
Antidepressivos de 1ª geração
Tricíclicos
Os antidepressivos tricíclicos são assim denominados devido a um núcleo
característico com três anéis conforme a Figura 4.
Figura 4. Estrutura química do antidepressivo imipramina. Fonte: Shutterstock. Acesso em: 29/10/2021.
Mecanismo de ação dos antidepressivos t r icíclicos: inibidores da recap-
tação da serotonina e da noradrenalina, ou seja, do SERT e do NAT, respectiva-
mente. O bloqueio desses transportadores permite uma maior permanência do
neurotransmissor no espaço sináptico. Cada neurônio possui um transporta-
dor ativo nos neurotransmissores, denominado também de bomba de recap-
tação, cuja função é captar o neurotransmissor já liberado na fenda sináptica
PSICOFARMACOLOGIA •
e trazê- lo de volta ao neurônio pré-sináptico. Sendo assim, no funcionamento
da recaptação, as concentrações dos neurotransmissores na fenda sináptica
são menores. O bloqueio dos transportadores é importante para resultar no
aumento das concentrações nos neurotransmissores na fenda sináptica.
Na Figura 5, são mostradas as ações duplas dos tricíclicos . Tanto a parte
inibidora da recaptação de serotonina (IRS) (painel da esquerda) quanto a parte
inibidora de recaptação de noradrenalina (IRN) (pa inel da direita) estão inseri-
das em suas respectivas bombas de recaptação. Em consequência, ambas as
bombas são bloqueadas e o fármaco intermedia o efeito antidepressivo pelo
aumento da serotonina e noradrenalina, respectivamente.
Figura 5. Mecanismo de ação dos tricíclicos. Fonte: STAHL, 2014, p. 278.
Devido à falta de seletividade, a classe dos tricíclicos está relacionada a im-
portantes reações adversas. Essa classe é antagonista em diversos receptores
- não interessantes para o tratamento da depressão - e resulta em reações
adversas conforme o Quadro 1.
QUADRO 1. REAÇÕES ADVERSAS DOS TRICÍCLICOS
Bloqueio do receptor
Muscarínicos
Histamínico
Alfa-1
~
Reação adversa decorrente
Constipação intestinal, xerostomia (boca seca), visão turva,
retenção urinária.
Sonolência e ganho de peso.
Tontura e hipotensão ortostática.
PSICOFARMACOLOGIA •
As reações descritas no Quadro 1 são as mais comuns dos antidepressivos
tricíclicos, que também bloqueiam fracamente os canais de sódio sensíveis à
voltagem no coração e no cérebro. Em casos de intoxicação, há risco de coma,
convulsões, arritmias cardíacas, parada cardíaca e morte, efeitos tidos como
raros. Apesar das diversas reações, os tricíclicos são drogas muito usuais devi-
do ao baixo custo e ao fato de algumas estarem disponíveis no SUS - Sistema
Único de Saúde.
QUADRO 2. DROGAS ANTIDEPRESSIVAS DA CLASSE DOS TRICÍCLICOS
E SEUS USOS CLÍNICOS GERAIS
Drogas
Clomipramina
tmipramina
Amitriptilina
Nortriptilina
Desipramina
~
~
Usos clínicos gerais
Depressão e distúrbios do humor, síndrome obsessiva
compulsivas, estado de pânico, fobias, dor crônica, ejaculação
precoce e incontinência noturna em crianças.
Todas as formas de depressão, incluindo as formas endógenas,
orgânicas, psicogênicas e a depressão associada com distúrbios
de personalidade ou de alcoolismo crônico, além de transtornos
do pânico e condições dolorosas crônicas.
Estados depressivos, inclusive quando acompanhado de ansiedade.
Alívio dos sintomas da depressão.
Todas as formas de depressão, incluindo as formas endógenas,
orgânicas, psicogênicas e a depressão associada com distúrbios
de personalidade ou alcoolismo. Outras indicações envolvem
pânico, condições dolorosas crônicas, terror noturno e enurese
noturna (apenas em pacientes acima de 5 anos de idade e
somente se as causas orgânicas tiverem sido excluídas).
Os antidepressivos tricíclicos têm algumas indicações além
dos transtornos depressivos. São usados para enurese noturna
(incontinência urinária), uma vez que promovem o relaxamento
da musculatura da bexiga, causando retenção urinária,
conforme o Quadro 1, sendo também usados para o
tratamento de dor crônica, como a fibromialgia. Nestas
condições, postula-se que mecanismos envolvidos na
interpretação da dor no cérebro podem ser inibidos pelas
ações dos neurotransmissores serotonina e noradrenalina.
PSICOFARMACOLOGIA •
••
Antidepressivos de 2ª geração
I.S.R.S. (inibidores seletivos da recaptura da serotonina)
A pesquisa de moléculas com maior seletividade para o transportador da
serotonina levou à introdução da Fluoxetina, da classe dos I.S.R.S. (inibidores
seletivos da recaptura da serotonina). Uma vantagem dessa classe terapêutica
é o fato de não ocorrer reações anticolinérgicas e anti-histamínicas, devido ao
bloqueio de outros receptores, como ocorre com os tricíclicos.
Drogas da classe dos I.S.R.S:
• Paroxetina;
• Fluvoxamina;
• Sertralina;
• Citalopram;
• Escitalopram.
Mecanismo de ação dos I.S.R.S.
Bloqueio seletivo do transportador (bomba de recaptação) SERT, conforme
a Figura 6. O fármaco bloqueia a recaptação de serotonina (IRS) da molécula do
ISRS, que é vista inserida na bomba de recaptação de serotonina (o transporta-
dor de serotonina), cujo bloqueio causa o efeito antidepressivo.
Açãodos ISRS
Figura 6. Mecanismo de ação dos 1.5.R.S. Fonte: STAHL 2014, p. 267.
PSICOFARMACOLOGIA •
O bloqueio da recaptação de serotonina produzido por estes fármacos re-
sulta no aumento da concentração e das ações da serotonina. Devido ao au-
mento de serotonina na fenda sináptica, alguns receptores em específico,
quando são extremamente estimulados, resultam nos efeitos colaterais ex-
postos no Quadro 3.
QUADRO 3. REAÇÕES ADVERSAS GERAIS DOS I.S.R.S.
Estímulo excessivo
dos receptores
5HT2A e SHT2c
na medula espinal
SHT2A e SHT2c
no cortex
1
~
~
Reação adversa decorrente
Inibição dos reflexos do orgasmo (anorgasmia) e a dificuldade de
ejaculação.
Agitação, ansiedade e insônia, além de outros efeitos sobre o TGI (diarreia
e cólicas), assim como efeitos no hipotálamo (náuseas e vômitos).
Isso significa que os I.S.R.S não têm as mesmas reações que os tricíclicos,
descritas no Quadro 1, contudo, podem desencadear outras reações adversas,
descritas no Quadro 2, com ênfase na anorgasmia (dificuldade ou ausência do
orgasmo) e na dificuldade de ejaculação, algo que contribui para a desistência do
tratamento dos pacientes do sexo masculino que vêm a apresentar tais reações.
Os medicamentos dessa classe também possuem indicações para ansieda-
de generalizada, crise do pânico e TOC (transtorno obsessivo compulsivo). Ape-
sar dos I.S.R.S compartilharem mecanismos em comum, eles se d iferenciam
com relação às reações adversas. As reações gerais estão descritas no Quadro
3. A seguir, são especificadas particularidades de alguns fármacos:
• Fluoxetina: Para pacientes com agitação, insônia e ansiedade, a fluo-
xetina pode ser contraindicada. Estes pacientes podem apresentar ati-
vação indesejada e ataques de pânico. Também pode contribu ir para
alterações da qualidade do sono, sendo menos indicada para idosos
por essa razão;
• Paroxetina: Muito usada para tratamento da ansiedade, é mais tranqui-
lizante e sedativa que a fluoxetina, pois inibe a enzima óxido nítrico sin-
tetase, contribuindo para a disfunção sexual, em especial nos homens.
Portanto, a reação de disfunção sexual não se aplica a esse fármaco, que
é indicado para tratamento da disfunção sexual;
PSICOFARMACOLOGIA •
• Citalopram: é um fármaco muito bem tolerado, em especial no trata-
mento da depressão em idosos. Pode ter leve atividade anti-histamínica,
resultando em sonolência e maior cuidado no aumento de dose, em ra-
zão de eventuais alterações cardíacas;
• Escitalopram: o fármaco mais novo dessa classe, desenvolvido para me-
lhorar as reações do citalopram, o escitalopram é o mais bem tolerado
dessa classe terapêutica, com as menores taxas de reações e interações
medicamentosas. Também é um fármaco bem tolerado para idosos .
•
Antidepressivos de 3 ª geração
I.R.S.N. (inibidores da recaptura da serotonina e noradrenalina)
Possuem uma ação dual (bloqueio da recaptação de duas monoaminas),
tanto da serotonina como da noradrenalina, ou seja, bloqueio do SERT e o NAT.
Apesar deste mecanismo ser parecido com os tricíclicos, não possuem as mes-
mas reações adversas dos tricíclicos.
Drogas da classe dos I.R.S.N:
• Venlafaxina;
• Desvenlafaxina;
• Duloxetina.
A venlafaxina é usada para depressão isolada e para depressão com ansie-
dade associada. Tem uso na prevenção de recaída e recorrência da depressão
e tratamento de ansiedade ou transtorno de ansiedade generalizada (TAG). No
tocante às reações adversas, por conta do aumento noradrenérgico, pode ha-
ver aumento de pressão arterial, em especial quando administrado nas doses
mais altas e em pacientes hipertensos.
I.S.R.N. (inibidor seletivo da recaptura da noradrenalina)
O bloqueio seletivo de NAT (bomba de recaptação de noradre-
nalina) pela reboxetina resulta no aumento específico de nora-
drenalina. Apresenta menor incidência de reações
adversas e maior segurança em relação aos antide-
pressivos tricíclicos. As reações adversas incluem
boca seca (xerostomia), constipação, insônia, redu-
ção do apetite e aumento da sudorese (transpiração).
PSICOFARMACOLOGIA •
I.R.N.D. (inibidor da recaptura da noradrenalina e dopamina)
Possuem uma ação dual (bloqueio da recaptação de duas
monoaminas), tanto da noradrenalina, como da dopamina, ou
seja, bloqueio do NAT e do DAT. O único fármaco desta classe é
a bupropiona, que tem eficácia comprovada no tratamen-
to da dependência de nicotina. Tal fato se deve ao au-
mento de dopamina na região do estriado e no nuc/eus
accumbens de maneira suficiente para reduzir a fissura
e, consequentemente, o consumo de cigarro. Dentre as
reações adversas, estão insônia, boca seca (xerostomia)
e distúrbios gastrointestinais como náuseas e vômitos.
••
Outros antidepressivos atípicos
A Mirtazapina e a Mianserina aumentam a transmissão noradrenérgica
através do antagonismo de receptores alfa 2-pré-sinápticos no sistema ner-
voso central. Além disso, as drogas bloqueiam os receptores serotonérgicos
(5-HT2A' 5-HT2c e 5-HT3). Os receptores alfa 2 pré-sináticos são inibitórios (um
receptor da família dos metabotrópicos e acoplado a proteína Gi -inibitória), o
que significa que ocorre menor síntese e liberação de noradrenalina quando o
receptor é estimulado nos neurônios noradrenérgicos. A mirtazapina e a mian-
serina objetivam bloquear esse "freio" na liberação de noradrenalina, tendo
como resultado o aumento da transmissão noradrenérgica.
De forma secundária, estudos mais recentes demonstram que o aumento
de noradrenalina contribui com o aumento de serotonina, pois o aumento de
noradrenalina estimula receptores alfa-1 localizados em neurônios serotoné-
gicos e acoplados a proteína Gs, ou seja, são receptores excitatórias, o que
resulta no estímulo na liberação de serotonina. O resultado é o
aumento de noradrenalina e serotonina por um me-
,
canismo diferenciado. E importante observar que as
outras classes terapêuticas discutidas bloqueiam as
bombas de recaptação, enquanto esse mecanismo
atípico (diferenciado) está relacionado apenas com
o bloqueio dos receptores alfa 2 inibitórios.
PSICOFARMACOLOGIA •
Essas drogas atípicas também bloqueiam os receptores de serotonina 5-HT
2
A
e 5-HT2c e, por esta razão, não causam os mesmos efeitos colaterais dos I.S.R.S:
agitação e disfunção sexual. Tal ação confere um importante benefício para a
classe dos antidepressivos atípicos. Quando o paciente apresenta disfunção se-
xual com a fluoxetina, por exemplo, o médico pode optar pela troca por mir-
tazapina. As reações adversas mais comuns da mirtazapina são aumento de
apetite e de peso, sonolência, sedação, dor de cabeça e boca seca (xerostomia) .
•
Ansiedade e tratamento
A ansiedade é uma emoção normal em situações de ameaça. Acredita-
-se que a ansiedade é uma reação evolutiva de "luta ou fuga". No entanto,
é necessário refletir quando, de fato, a ansiedade se torna um distúrbio a
ser medicado.
A reação de "luta e fuga" é fundamental para a sobrevivência do indivíduo.
O medo é uma resposta emocional, fisiológica e comportamental a uma amea-
ça externa definida (por exemplo, um intruso ou um veículo descontrolado).
Esta ansiedade adaptativa frente a uma situação de perigo, é perfeitamente
normal. No entanto, há circunstâncias nas quais a presença da ansiedade não
é adaptativa e constitui um transtorno psiquiátrico.
De acordo com Santos (2009), a capacidade de tolerar a ansiedade varia
muito e, por isso, muitas vezes é difícil de determinar o que significa "ansiedade
anormal". No entanto, quando ela ocorre em momentos inadequados ou é tão
intensa e duradoura que chega a interferir nas atividades normais do indiví-
duo, pode ser considerada como um distúrbio a ser diagnosticado pelo médico
psiquiatra. É possível citar como transtornos de ansiedade: agorafobia, ataque
do pânico, fobia específica, fobia social, transtorno de estresse pós-traumático
(TEPT), dentreoutros. Esses transtornos são prevalentes e associados com al-
tos níveis de morbidade e mortalidade.
Assim, de acordo com Storino (2016), a ansiedade caracteriza-se por uma
"sensação difusa", semelhante ao medo, mas em resposta a um perigo vago,
não concreto, sendo a intensidade, duração ou frequência da ansiedade cla-
ramente desproporcionais ao estímulo (ameaça), causando sofrimento ao pa-
ciente e levando-o a apresentar prejuízo social e/ou ocupacional.
PSICOFARMACOLOGIA •
••
Transtornos de ansiedade: bases neuroquímicas
A amígdala é um núcleo cerebral com formato de amêndoa, localizado pró-
ximo ao hipocampo, que apresenta conexões anatômicas capazes de integrar
as informações sensoriais e cognitivas, determinando a resposta ao medo, o
que pode resultar em um estímulo no sistema nervoso autônomo simpático e,
por essa razão, durante uma crise de ansiedade, o indivíduo apresenta taqui-
cardia, sudorese, insônia, boca seca, entre outros sintomas.
Portanto, na ansiedade, ocorre uma hiperatividade, em especial na amíg-
dala. Essa região do cérebro exerce papel central nas vivências de ansiedade e
medo, tendo conexões recíprocas com o córtex cingulado anterior (CCA) e cór-
tex orbitofrontal (COF). Ou seja, a ativação excessiva dessas estruturas cere-
brais é responsável pelo medo e ansiedade, como exposto na Figura 7. O excesso
do neurotransmissor serotonina e a falta de GABA nesses circuitos cerebrais
que justificam esta hiperativação. Os sentimentos de medo são regulados por
conexões recíprocas entre a amígdala e o córtex cingulado anterior (CCA) e entre
a amígdala e o córtex orbitofrontal (COF). Em um aspecto mais específico, pode
ser que a hiperexcitação desses circuitos produza sentimentos de medo.
Sentimento de medo
■ Hiperexcitação
Amígdala ~
Figura 7. Sentimento de medo. Fonte: STAHL, 2014, p. 363. (Adaptado).
~ .,
Medo
PSICOFARMACOLOGIA •
Distúrbios de ansiedade também resultam em reações endócrinas, repre-
sentadas na Figura 8, que acompanham o medo, em parte, por causa das cone-
xões entre a amígdala e o hipotálamo, o que provoca alterações no eixo HHSR
(hipotálamo-hipófise-suprarrenal) e resu lta no aumento dos níveis de cortisol.
A resposta do medo se caracteriza, em parte, por efeitos endócrinos, como o
aumento do cortisol, motivado em razão da excitação do eixo hipotálamo-hi-
pófise-suprarrenal (HHSR) pela amígdala. A excitação prolongada do eixo HHSR
e a liberação de cortisol podem ter implicações significativas para a saúde,
como aumento do risco de doença arterial coronária, diabetes tipo 2 e acidente
vascular encefálico.
Resposta endócrina ao medo
■ Hiperexcitação
Hipotálamo
~posta de medo
Endócrina
Hipotálamo
jCortisol
j Doença arterial coronária
j Diabetes tipo 2
jAcidente vascular encefálico
Figura 8. Resposta endócrina ao medo. Fonte: STAHL, 2014, p.363. (Adaptado).
Estratégia gabaérgica: benzodiazepínicos
•
Medicamentos que potencial izam as ações do neurotransmissor GABA (áci-
do gama-aminobutírico) são muito utilizados na prática clínica para tratamento
da ansiedade. Os benzodiazepínicos (BZD) são drogas depressoras no sistema
nervoso central (SNC) que têm esse importante efeito sob o GABA, decorren-
PSICOFARMACOLOGIA •
te da hiperpolarização produzida nos neurônios sobre a ação destas drogas.
Os BZD têm sítios de ligação ao receptor GABA-A e potencializam os efeitos
inibitórios do GABA. Seus efeitos são decorrentes da inibição de neurônios
inicialmente hiperativos nos circuitos da ansiedade.
Mecanismo de ação dos BZD: funcionam como moduladores alostéricos
positivos, ou seja, quando um BZD se liga no receptor GABA-A, há alterações
neste receptor que aumentam a afinidade do GABA (neurotransmissor) ao re-
ceptor GABA-A. Uma vez que o receptor é ativado por GABA, há um aumento
na frequência de abertura de canal de cloreto o que resulta em hiperpolariza-
ção. No entanto, os BZD não têm efeito na abertura do canal de c1- (cloreto) na
ausência de GABA. Aparentemente, a presença de BZD altera o estado físico
dos receptores e o GABA abre os canais mais facilmente os canais de cloreto.
Na Figura 9, observa-se o mecanismo de ação dos benzodiazepínicos.
o
Receptor vazio
(sem agonistas)
Receptor ligado
com GABA
Receptor vazio
(sem agonistas) + a
~li
~~
S~ GABA
++ r-~ mb 18™
~ im!®
Receptor ligado ~ -
com GABA e Benzodiazepínico
benzodiazepínico + + + , ')
GABA
b ¼~~mm!
A entrada de (1- hiperpolariza a célula, tornando mais ~.........
11
1
difícil sua despolarização e, por isso, ....._ - __ -
reduz a excitabilidade neuronal. --,. CI- CI· CI·
A ligação do GABA causa abertura
do canal de coreto, levando à
hiperpolarização da célula.
A ligação do GABA é potenciada
pelo benzodiazepínico, resultando
em maior entrada de íons cloreto.
Figura 9. Mecanismo de ação dos benzodiazepínicos. Fonte: WHALEN; FINKEL; PANAVELIL, 2016, p. 122. {Adaptado).
Na Figura 9, subdividida em 4 quadrantes, nota-se o mecanismo de ação dos
benzodiazepínicos. Informações complementares do passo a passo descrito na
imagem (nos quadrantes denominados A, B e C), são destacadas logo a seguir:
• Sem a ação de GABA, representado em A, os canais de cloreto (CI-)
estão fechados;
• Quando o neurotransmissor GABA ativa o receptor GABA-A (represen-
tado em B), ocorre a abertura dos canais, como um "portão", o que
PSICOFARMACOLOGIA
permite a entrada dos íons cloreto {CI·). Desta forma, o neurônio está
hiperpolarizado;
• No entanto, quando se observa a representação em C, sob a ação dos
benzodiazepínicos, existe uma alteração conformacional do receptor
(não observado na imagem, pois isso depende de uma animação em 3D).
De fato, quando o benzodiazepínico ativa a sua subunidade específica no re-
ceptor GABA-A, ocorre uma maior exposição do sítio de ligação do GABA neu-
rotransmissor ao receptor GABA-A. Por isso, é possível dizer que os BZD são
moduladores alostéricos positivos, ou seja, sob seu efeito, o GABA neurotrans-
missor tem maior afinidade pelo receptor GABA-A, ampliando as ações do GABA.
Os efeitos dos BZD, portanto, dependem das ações do neurotransmissor GABA.
Ao mesmo tempo, se observa que tanto o BZD como o neurotransmissor GABA
ativam o receptor GABA-A, cada qual numa subunidade diferente.
Observa-se também que, sob a ação do BZD, a hiperpolarização do neurô-
nio é maior quando comparada ao GABA sozinho (representado em B), pois é
isso que os BZD fazem: potencializam as ações do GABA neurotransmissor
e, portanto, potencializam a hiperpolarização. Vale lembrar que um neurônio
hiperpolarizado está impedido de sofrer um potencial de ação e é por esta ra-
zão que os BZD são depressores no SNC. Todos os BZD têm estrutura molecular
e mecanismos de ação similares, diferenciando-se apenas na farmacocinética
{tempo de meia-vida). Dentre os BZD utilizados para tratamento da ansieda-
de, estão o Lorazepam, o Oxazepam, o Alprazolam, o Clonazepam e o Diazepam.
EXPLICANDO
O tempo de meia-vida é o tempo necessário para que metade da con-
centração plasmática máxima de uma droga se reduza à 50%, parâmetro
farmacocinético que justifica o intervalo entre a administração dos me-
dicamentos. Alguns medicamentos, como o Diazepam, têm um tempo de
meia vida muito alto, podendo alcançar até 30 horas. Por essa razão, o
uso é contraindicado para idosos pois, por ser uma droga depressora do
sistema nervoso central, pode causar sonolência e relaxamento muscular,
o que potencializa o risco de queda.
Reações adversas dos benzodiazepínicos
Os principais efeitos colaterais dos BZD consistem em sonolência, confusão,
amnésia anterógrada e comprometimento da coordenação (ataxia), algo que afeta
PSICOFARMACOLOGIA •
as habilidades manuais, como o desempenho de um motorista, de maneira consi-
derável. Pode ocorrer comprometimento cognitivo, sendo comum que pacientes
relatem dificuldade de memorização e retençãode novos conhecimentos, além
de desencadear dependência física e psicológica. Por essa razão, sua retirada deve
ser gradual e contínua, em um processo conhecido como "desmame".
••
Estratégia serotonérgica: buspirona
Como a ansiedade ocorre em razão de uma hiperativação, mediada espe-
cialmente pela serotonina nos circuitos da ansiedade, essa estratégia consiste
em reduzir as ações da serotonina na amígdala.
Mecanismo de ação da buspirona: agonista parcial dos receptores 5HT1A'
que é um receptor da família dos metabotrópicos, acoplado a proteína do tipo
Gi (inibitória). As ações ansiolíticas potenciais da buspirona podem resultar de
ações agonistas parciais de 5HT1A' tanto pré-sinápticas quanto pós-sinápticas.
Quando o receptor é estimulado, o neurônico fica inibido de produzir e liberar
serotonina na fenda sináptica. Os agonistas parciais de 5HT1A' como a buspiro-
na, reduzem a ansiedade por meio de ações nos autorreceptores somatoden-
dríticos pré-sinápticos (à esquerda) e nos receptores pós-sinápticos (direita). O
início de ação da buspirona, como o dos antidepressivos, é demorado, o que
sugere que os efeitos terapêuticos estão relacionados a alterações adaptativas
distais e não com ações agudas sobre esses receptores.
Ações de agonistas parciais de SHT,A na ansiedade
Receptor SHT,A pré-sináptico
~
Buspirona Receptor SHT,A pós-sináptico
O)
Buspirona
a,
O) Q
Figura 10. Ações dos agonistas parciais de SHT1A na ansiedade. Fonte: STAHL, 2014, p. 375.
PSICOFARMACOLOGIA •
,
E importante salientar que são necessários dias ou semanas para que a bus-
pirona produza seus efeitos farmacológicos, sugerindo que mecanismos indire-
tos de adaptação de receptores podem estar envolvidos. A demora de 2 a 3 se-
manas para os efeitos ansiolíticos da buspirona configura uma desvantagem, no
entanto, o fato de não ser um depressor do sistema nervoso central
e não causar dependência é uma vantagem da buspirona. Sobre as
reações adversas, são muito diferentes daquelas ob-
servados com os BZD, posto que a buspirona não cau-
sa perda de coordenação motora e não há relatos
de efeitos de abstinência. As reações mais comuns
consistem em náuseas, vômitos, vertigens e cefaleia.
••
Estratégia adrenérgica: betabloqueadores
A noradrenalina também é um neurotransmissor importante para a es-
timulação da amígdala, bem como o córtex pré-frontal e outros circuitos da
ansiedade, com ênfase para a estimulação de noradrenalina numa região
denominada de /ocus coeruleus, o que pode não apenas resultar em diver-
sas manifestações periféricas de estimulação autonômica excessiva como
também desencadear sintomas de ansiedade e medo, como pesadelos, es-
tados de hiperexcitação e possíveis ataques do pânico. Desta forma, o uso
de betabloqueadores é efetivo para tratar os sintomas da ansiedade. Nesse
sentido, o betabloqueador propranolol tem sido utilizado para o tratamento
dos sintomas autonômicos da ansiedade.
Mecanismo de ação do propranolol: bloqueia os receptores
adrenérgicos beta 1 e beta 2, portanto, é classificado como um
betabloqueador não seletivo. Essa droga é utilizada para trata-
mento anti-hipertensivo, angina, prevenção de enxaqueca e
controle da ansiedade. O bloqueio beta 1 no coração reduz
a taquicardia e o possível aumento da pressão arterial,
enquanto o bloqueio beta 2 na musculatura esquelética
reduz os tremores (sintomas comuns durante a crise de
ansiedade). As reações adversas incluem fadiga, bradicar-
dia, extremidades frias, distúrbios do sono e pesadelos.
PSICOFARMACOLOGIA •
••
Outros fármacos com potencial ansiolítico
A ansiedade é um tema muito amplo e há diversos transtornos de ansieda-
de que são diagnosticados pelo médico. Em geral, algumas drogas das classes
dos antidepressivos também podem ter uso em alguns transtornos de ansie-
dade. Por exemplo, o tratamento de primeira linha para transtorno do pânico
consiste no uso de:
• Buspirona;
• I.R.S.N - Inibidores da recaptação de serotonina e noradrenalina;
• Benzodiazepínicos;
• 1.5.R.S - Inibidores seletivos da recaptação de serotonina.
A possível explicação dos usos de antidepressivos na ansiedade é que, ape-
sar das drogas bloquearem as bombas de recaptação de serotonina e aumen-
tarem a oferta de serotonina na fenda sináptica, são as ações nos receptores
5HT
1
A' ou seja, o efeito inibitório sobre parte de seus impulsos nos circuitos da
ansiedade que justificam a sua utilização.
•
Mania: caracterização e tratamento
A mania é uma exacerbação do humor, tratando-se de uma excitação ma-
nifestada por hiperatividade mental e física, além de desorganização do com-
portamento. Em geral, os episódios de mania estão presentes no transtorno
bipolar, mas podem incidir também em outros distúrbios psiquiátricos.
Transtorno bipolar: caracterização neuroquímica
O transtorno bipolar é uma alteração de humor que oscila entre os es-
tados de depressão e de mania. Um desequilíbrio na quantidade de neuro-
transmissores pode resultar em alterações do humor. Conforme visto na Figura
1, o humor pode estar alterado para baixo, passando pela distimia
até a depressão (caracterizando a doença depressão maior - ou
unipolar). Por outro lado, quando o humor está elevado, pode ser
classificado como um estado de hipomania ou, acima disso,
mania. No transtorno bipolar, o humor do paciente oscila
entre dois polos mais extremos, ou seja, mania e depres-
são. É isso que justifica a nomenclatura de "bipolar".
PSICOFARMACOLOGIA •
Na fase de mania, ocorre uma estimulação exacerbada por ação de neu-
rotransmissores excitatórios no SNC, ao passo que, na fase de depressão,
ocorre um déficit das ações dos neurotransmissores, isto é, uma disfunção
na liberação e ação dos neurotransmissores, o que justifica as oscilações de
humor. Não obstante, alguns pacientes podem ter estados predominantes de
mania, enquanto outros, de depressão.
Estabilizadores do humor
Carbonato de Lítio
••
É o fármaco mais utilizado, sendo eficaz nas doses plasmáticas de 0,5 - 1
mmol/L; Doses acima de 1,5 mmol/L implicam em toxicidade, portanto, é um
fármaco de baixo índice terapêutico. O lítio é um cátion monovalente (Li+),
que pode mimetizar o papel do Na+ em tecidos excitáveis, sendo capaz de
permear os canais rápidos dependentes de voltagem para gerar o potencial
de ação. Contudo, o lítio não é bombeado para fora da célula e não pode
manter os potenciais da membrana. Embora seus mecanismos não estejam
plenamente esclarecidos, postula-se que o lítio pode ter possíveis meca-
nismos de ação, como:
• Inibição da liberação de noradrenalina e dopamina dependente de Ca 2+;
• Bloqueio de enzimas e redução da síntese de segundos mensageiros,
como a enzima inositol monofosfatase;
• Aumento da liberação de serotonina no sistema límbico (sistema de re-
compensa);
• Aumento da liberação de GABA e suas respectivas respostas inibitórias;
Dada a potencial toxicidade por lítio, é necessário o acompanhamento dos
níveis plasmáticos da droga, em especial quando utilizada com medicamentos
que podem aumentar as concentrações de lítio, como os AINEs (p. ex. diclofe-
naco) e diuréticos (p. ex. furosemida). Assim como os antidepressivos, o início
das ações terapêuticas demora algumas semanas (de 1 a 3 semanas).
Em relação às reações adversas, os sintomas gastrointestinais são mais
frequentes, como a dispepsia, náuseas, vômitos e diarreia, mas também
pode haver aumento de peso, acne, tremores, sedação, assim como pre-
juízos na cognição e na coordenação motora. O lítio é uma droga de baixo
PSICOFARMACOLOGIA •
índice terapêutico (dose letal próxima da dose efetiva), portanto, o seu uso
requer monitoramento.
Outras drogas usadas para tratar o transtorno bipolar
Além do lítio, outras drogas são utilizadas para o tratamento do transtorno
bipolar, com ênfase para alguns anticonvulsivantes, que tratam bem o episódiode mania e, em menor grau, os episódios de depressão, como os antipsicóti-
cos de 2ª geração, que demonstram efetividade para estabilizar tanto a mania
como a depressão. O Quadro 4 lista as drogas que são mais aplicadas.
QUADRO 4. OUTRAS DROGAS USADAS PARA O TRANSTORNO BIPOLAR
Classe terapêutica
Anticonvulsivantes
Neurolépticos /
Antipsicóticos de 2ª
geração
~
1
Droga / Fármaco
Valproato de sódio
Carbamazepina
Lamotrigina
Oxcarbazepina
Topiramato
Gabapentina
Quetiapina
Risperidona
' Olanzapina
Observações
Previne tanto a mania como a depressão.
Mais efetivo na fase de mania.
Previne tanto a mania como a depressão.
Mais efetivo na fase de mania.
Previne tanto a mania como a depressão.
Mais efetivo na fase de mania.
Previne tanto a mania como a depressão.
•
Psicose: caracterização e tratamento da esquizofrenia
A psicose é um transtorno mental que faz com que o indivíduo perceba ou
intérprete as coisas de maneira diferente em relação às outras pessoas que o
rodeiam. Trata-se de um distúrbio psiquiátrico grave, de origem funcional, cujo
paciente apresenta alterações do comportamento, além de incapacidade de
pensar de forma coerente e de compreender a realidade.
Mesmo que seja explicado e comprovado para a pessoa com psicose a for-
ma correta de interpretar a realidade, o doente prevalece com os seus delírios
e alucinações, acreditando somente em sua própria realidade. Em geral, essa
alteração está presente no diagnóstico de esquizofrenia, embora se manifeste
em outros transtornos mentais.
PSICOFARMACOLOGIA •
••
Esquizofrenia: caracterização neuroquímica
O termo esquizofrenia, proposto por Breuler em 1911, substitui a expres-
são demência. É um tipo de psicose caracterizada por distúrbios nos processos
mentais, delírios e alucinações, bem como por extenso retraimento do inte-
resse do indivíduo em relação ao convívio social. A esquizofrenia está entre as
doenças mentais mais severas e debilitantes. Atinge mais adultos jovens, que
estão iniciando sua vida independente e produtiva. O diagnóstico da esquizo-
frenia é baseado nos sintomas clínicos apresentados pelo paciente por pelo
menos um mês, classificados de acordo com os critérios ou sistemas do ICD-1 O
(lnternational Classification of Diseases) ou DSM-IV. Os sintomas da esquizofrenia
podem ser divididos em 4 categorias:
1. Sintomas positivos (psicose), tais como delírios e alucinações;
2. Sintomas negativos, tais como introversão, afastamento de contatos
pessoais e embotamento afetivo;
3. Déficits cognitivos (dificuldade de memorização, atenção, funciona-
mento executivo);
4. Desregulação afetiva dando origem a sintomas depressivos e maníaco
bipolar.
Um grande passo para a compreensão da etiologia da esquizofrenia é a
descoberta de que antagonistas dopaminérgicos controlam os delírios e alu-
cinações (sintomas positivos) de pacientes esquizofrênicos. Há 4 importantes
vias dopaminérgicas no sistema nervoso central, sendo que apenas 2 destas
vias estão alteradas no paciente com esquizofrenia. A via psíquica mesolímbi-
ca está hiperativada, devido a um excesso de dopamina. Essa hiperativação
é a responsável pelos sintomas positivos da doença. Já a via psíquica meso-
cortical está hipoativada, devido à falta das ações da dopamina nesta via. É
a hipoativação a responsável pelos sintomas negativos da doença. Todas as
vias dopaminérgicas estão descritas no Quadro 5.
A esquizofrenia se caracteriza pela perda do contato com a realidade. Apre-
valência mundial de 1 % e o início dos surtos psicóticos inicia-se em pessoas jo-
vens (em torno de 20 a 25 anos). Há um componente genético importante, pois,
quanto mais próximo o grau de parentesco com uma pessoa com esquizofre-
nia, maior o risco de desenvolver a doença. No entanto, apenas a predisposição
PSICOFARMACOLOGIA •
genética não é suficiente para a manifestação da doença. Portanto, acredita-se
que a esquizofrenia ocorra em razão de fatores genéticos e ambientais.
O 1° surto psicótico (sintomas positivos), ocorre após algum tipo de "gati-
lho", ou seja, um fator ambiental. Podemos exemplificar como gatilhos: estres-
se, privação de sono e o uso de drogas de abuso, como a maconha, visto o
surgimento de sintomas de esquizofrenia entre jovens usuários da erva. Como
o uso de drogas também aumenta a dopamina na via mesolímbica, quando o
indivíduo já possui uma maior quantidade de dopamina na via devido a fato-
res genéticos, é possível que os primeiros sintomas se apresentem. Conclui-se,
portanto, que não é a maconha que causa esquizofrenia, já que ela é apenas
um gatilho para pessoas que já possuem uma predisposição genética.
Quando se fala em surto psicótico, está se aludindo aos delírios e às aluci-
nações. Delírios podem ser definidos como alterações do pensamento, nas
quais o doente apresenta uma distorção da realidade. O mais comum é o delí-
rio paranoide, em que o doente acredita, por exemplo, que está sendo vigiado,
que instalaram câmeras em sua casa, que alguém está tentando envenená-lo,
que instalaram um chip em sua cabeça etc. O interessante é que nenhum argu-
mento influencia o paciente a acreditar que isso não está acontecendo.
Por seu turno, as alucinações são alterações da percepção relacionadas
aos sentidos humanos. A alucinação mais comum é a auditiva, na qual o
paciente escuta vozes de comando, mas também há alucinações visuais (en-
xergar alguém/coisas que não existem), alucinações olfativas (sentir um chei-
ro que não está no ambiente, como gás), alucinações táteis (sentir formigas
no seu corpo), alucinações gustativas (sentir um gosto de sangue ou de carne
podre na boca).
Os neurolépticos, chamados também de antipsicóticos, drogas anti-es-
quizofrênicas ou tranquilizantes maiores, compreendem um grupo de fár-
macos que apresentam propriedades terapêuticas e farmacológicas comuns,
mas que se destacam pela eficácia desejada no tratamento das psicoses (em
especial a esquizofrenia). Os neurolépticos são drogas classificadas em 1ª (tí-
pica), 2ª e 3ª gerações (atípicas) e o uso dessas drogas é um marco na terapia
psiquiatria porque, antes da descoberta dos fármacos, os pacientes com esqui-
zofrenia eram excluídos da sociedade, mantidos em manicômios, locais consi-
derados verdadeiros depósitos de pessoas doentes.
PSICOFARMACOLOGIA •
••
Neurolépticos típicos: 1ª geração
Drogas de 1ª geração:
• Clorpromazina;
• Tioridazina;
• Sulpirida;
• Flufenazina;
• Levomepromazina;
• Haloperidol.
Para compreensão das ações dos neurolépticos e reações adversas, o Qua-
dro 5 destaca as principais vias dopaminérgicas.
QUADRO 5. VIAS DOPAMINÉRGICAS NO SISTEMA NERVOSO CENTRAL
Resposta
Endócrina
Motora
~
Sistema Corpo celular
Túbero-infundibular Hipotálamo
Nigro-Estriatal Substância Negra
Mesolímbica
Mesocortical
AVTM: área ventral do tegmento mesencefálico
Inervação
Hipófise
Estriado
Sistema Límbico
Córtex Frontal
A seguir, são descritas as vias dopaminérgicas representadas no Quadro 5:
• Na via endócrina túbero-infundibular, a dopamina funciona como um
inibidor natural da síntese do hormônio prolactina, que é um hormô-
nio fisiologicamente produzido quando necessário, como ocorre com
as mulheres em período gestacional. Este hormônio possibilita o cresci-
mento das mamas e a lactogênese (formação do leite materno);
• Na via motora nigro-estriatal, a dopamina regula a função motora.
Neurônios localizados numa região denominada de substância nigra (ou
substância negra) e que se projetam para o estriado regulam os movi-
mentos em conjunto com o neurotransmissor acetilcolina;
• Duas vias psíquicas dopaminérgicas são importantes: a via mesolím-
bica e a via mesocortical. A doença esquizofrenia é caracterizada por
sintomas positivos, que são os delírios e alucinações, quadro de sin-
PSICOFARMACOLOGIA •
tomas que só acontece porque o paciente apresentaum excesso de
dopamina na via mesolímbica. Por sua vez, os sintomas negativos
da doença incluem sintomas que se assemelham à depressão, como a
apatia e a anedonia (ausência de prazer). Tal quadro de sintomas ocorre
porque o paciente apresenta uma redução dos níveis de dopamina na
via mesocortical.
Mecanismo de ação dos neurolépticos de 1ª geração: Bloqueio persis-
tente por antagonismo nos receptores D
2
- o que justifica sua eficácia nos
sintomas positivos da doença. São drogas pouco seletivas, ou seja, além do
bloqueio dos receptores da dopamina, bloqueiam outros receptores que não
são interessantes para tratar a esquizofrenia.
No concernente às reações adversas, as drogas de 1ª geração podem cau-
sar as seguintes reações: vasodilatação com consequente hipotensão devido
ao bloqueio alfa-1 nos vasos, constipação (boca seca) e visão turva devido ao
bloqueio dos receptores colinérgicos (efeito conhecido como anticolinérgico),
além de sonolência e ganho de peso devido ao bloqueio do receptor H1 da
Histamina. Devido ao bloqueio persistente dos receptores D
2
em todas as vias
dopaminérgicas, as drogas de 1 ª geração causam diversas reações re laciona-
das as vias dopaminérgicas:
• Aumento da síntese de prolactina (devido ao bloqueio das ações da do-
pamina na via endócrina). Neste caso, o paciente apresenta hiperprolac-
tinemia e pode apresentar desenvolvimento das mamas e produção de
leite (até mesmo pacientes do sexo masculino);
• Já no bloqueio persistente dos receptores D2 na v ia motora nIgro-es-
triatal, o paciente pode apresentar um aumento do neurotransmissor
acetilcolina no estriado e tal desequilíbrio em ambos os neurotransmis-
sores (falta de dopamina e excesso de aceti lcolina) é responsável por
alterações motoras, denominado de sintomas extrapiramidais como
o parkinsonismo iatrogênico e a discinesia tardia. Sobre esses sin-
tomas, o parkinsonismo iatrogênico pode ser revertido com a redução
de dose do medicamento ou troca da medicação, enquanto a d iscinesia
tardia, que pode surgir após anos de tratamento, pode ser um sintoma
irreversível para cerca de 30% dos pacientes, sendo uma reação alta-
mente incapacitante;
PSICOFARMACOLOGIA •
• Já o bloqueio persistente dos receptores D2 na via mesocortical pode
piorar os sintomas negativos da doença, uma vez que nos pacientes com
esquizofrenia há falta de dopamina nesta via.
EXPLICANDO
Sintomas extrapiramidais estão relacionados à falta das ações da dopa-
mina na via motora nigro-estriatal. Desta forma, sem as ações da dopa-
mina, se dá um aumento do neurotransmissor acetilcolina, causando o
parkinsonismo iatrogênico, alteração caracterizada por tremores e rigidez
muscular semelhante à doença de Parkinson. Já a discinesia tardia, um
outro sintoma extrapiramidal, caracteriza-se por movimentos involuntários
buco-linguo-maxilar, movimentos mastigatórios que acontecem durante o
dia e que reduzem a qualidade de vida do paciente.
••
Neurolépticos atípicos: 2ª e 3ª gerações
Mecanismo de ação dos neurolépticos de 2ª geração: possuem um meca-
nismo de ação misto, promovendo um bloqueio dos receptores dopaminérgi-
cos D
2
por dissociação rápida e bloqueio dos receptores serotonérgicos 5-HT
2
A.
Esta dissociação rápida está descrita em literatura como um tipo de bloqueio
diferenciado (quando comparado as drogas de 1ª geração). Isso quer dizer que as
drogas de 1ª geração têm um efeito persistente no bloqueio dos receptores
D2 impossibilitando qualquer ação de dopa mina nestes receptores. Já na disso-
ciação rápida, isso significa que o fármaco bloqueia os receptores D2 de ma-
neira não persistente, ou seja, eventualmente o fármaco se desliga do receptor
e permite um pouco das ações da dopamina em todas as vias dopaminérgicas.
Dessa forma, as ações da dopamina não ficam anuladas nas vias dopaminér-
gicas normais do paciente com esquizofrenia e o fato da dopamina continuar
exercendo o seu papel nestas vias é o que garante menos reações adversas en-
dócrinas e motoras. Os neurolépticos de 2ª geração também produzem o anta-
gonismo dos receptores SHT 2A' bloqueio responsável pelo aumento da liberação
de dopamina nos diversos sistemas dopaminérgicos, inclusive na via mesortical,
o que atribui uma eficácia contra os sintomas negativos da doença.
Drogas de 2ª geração:
• Clozapina;
• Olanzapina;
PSICOFARMACOLOGIA •
• Quetiapina;
• Risperidona;
• Ziprasidona;
• Sertindol.
Droga de 3ª geração:
• Aripiprazol.
Mecanismo de ação do aripiprazol: agonista parcial em receptores dopa-
minérgicos D2, agindo como um estabilizador da transmissão dopaminérgi-
ca e antagonista em receptores SHT 2A. Dessa forma, o aripiprazol atua como
um antagonista de receptores D2 na presença/excesso de dopamina, o que
pode aumentar a transmissão dopaminérgica na ausência de dopamina. Por
isso, essa droga é considerada como 3ª geração por alguns autores.
Drogas de 2ª e 3ª geração têm menor propensão de desenvolvimento de
reações endócrinas e sintomas extrapiramidais. No entanto, essas drogas pos-
suem reações adversas, sendo a principal delas ganho de peso com posterior
desenvolvimento de problemas cardiovasculares (em decorrência do ganho de
peso). Quando se compara o aripriprazol às drogas de 2ª geração, há uma me-
nor incidência de ganho de peso.
PSICOFARMACOLOGIA •
Sintetizando •
A depressão maior ou unipolar é caracterizada pela falta das monoaminas se-
rotonina, noradrenalina e dopamina. O objetivo dos antidepressivos é aumentar
estas monoaminas na fenda sináptica, melhorando suas ações e promovendo a
remissão dos sintomas. A maioria dos antidepressivos atua através da inibição
das bombas de recaptação denominadas de SERT, NAT ou DAT - respectiva-
mente, transportador de serotonina, transportador de noradrenalina e trans-
portador de dopamina. Dentre as diferentes classes de antidepressivos, alguns
apresentam maior tolerabilidade, com menor incidência de reações adversas.
Para o tratamento da ansiedade, caracterizado por uma hiperativação em
alguns circuitos cerebrais, em especial numa área denominada amígdala, uti-
lizam-se drogas que potencializam o neurotransmissor GABA, como os BZD
(benzodiazepínicos). Outra importante estratégia de tratamento é a buspirona,
que tem a vantagem de não produzir dependência e abstinência.
O tratamento do transtorno bipolar deve ocorrer com o uso de estabilizado-
res do humor, como o carbonato de lítio. Embora seja uma droga efetiva para
remissão dos sintomas depressivos e maníacos, é uma droga de baixo índice
terapêutico, portanto, deve haver monitoramento das concentrações plasmá-
ticas e acompanhamento do paciente.
A esquizofrenia é uma doença multifatorial, envolvendo fatores genéticos
e ambientais. Nesse sentido, muitos antipsicóticos/neurolépticos estão dispo-
níveis atualmente na terapêutica, sendo que as drogas típicas de 1 ª geração
como o haloperidol estão associadas a mais reações adversas, especialmente
endócrinas e motoras, e as drogas atípicas têm apresentado benefícios em re-
lação a menor incidência de reações adversas.
PSICOFARMACOLOGIA •
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