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268	 Para	entender	nOssO	temPO:	O	séculO	XiX
como na segunda metade do século XIX, ameaçando 
a ordem vigente, emergiram vários confrontos arma-
dos entre facções uruguaias e atuações argentinas e 
gaúchas, motivando a primeira intervenção significa-
tiva do Brasil na região, de 1851 a 1852. Interferindo na 
política interna desses países em busca de objetivos 
estratégicos e comerciais importantes para o Império, 
dom Pedro II ordenou a ocupação de Montevidéu e 
Buenos Aires, depondo os governantes Oribe e Rosas 
e substituindo-os por Rivera, no Uruguai, e Urquiza, 
na Argentina.
As contínuas disputas entre os partidos Blanco 
e Colorado no Uruguai e a interferência frequente 
de pecuaristas gaúchos na política platina, contudo, 
agravaram mais uma vez a situação no Prata, a partir 
de 1863. O Uruguai, nessa época, era governado pelo 
blanco Aguirre, com o apoio do governante paraguaio 
Solano López, criador de uma respeitável marinha 
fluvial e de um poderoso exército em seu país.
Contando com o apoio do líder colorado Venân-
cio Flores e sob o pretexto da recusa do presidente 
Aguirre em indenizar os fazendeiros gaúchos pelos 
prejuízos causados com os ataques de uruguaios às 
suas fazendas, as tropas imperiais brasileiras derru-
baram Aguirre e empossaram Flores, em 1864. Em 
resposta a essa intervenção no Uruguai, o governo 
paraguaio rompeu relações com o Império brasileiro.
A Guerra do paraguai (1864-1870)
As razões dessa guerra, também chamada pe-
los argentinos e uruguaios de Guerra da Tríplice 
Aliança e pelos paraguaios de Guerra Grande, são 
bastante diversas. O Paraguai no século XIX era um 
país que destoava do conjunto latino-americano por 
ter alcançado certo progresso econômico, a partir 
da independência em 1811. Durante os longos go-
vernos de José Francía (1811-1840) e Carlos López 
(1840-1862), erradicara-se o analfabetismo no país e 
haviam surgido fábricas – inclusive de armas e pól-
vora –, indústrias siderúrgicas, estradas de ferro e 
um eficiente sistema de telégrafo. As “estâncias da 
pátria” (unidades econômicas formadas por terras e 
instrumentos de trabalho distribuídos pelo Estado 
aos camponeses, desde o governo Francía) abaste-
ciam o consumo nacional de produtos agrícolas e 
garantiam à população emprego e bom padrão ali-
mentar. Contudo, como aponta o historiador Fran-
cisco Doratioto, “é equivocada a apresentação do 
Paraguai como um Estado onde haveria igualdade 
social e educação avançada. A realidade era outra e 
havia uma promíscua relação entre os interesses do 
Estado e os da família López, a qual soube se tor-
nar a maior proprietária ‘privada’ do país enquanto 
esteve no poder.”3 Doratioto também destaca que “é 
fantasiosa a imagem construída por certo revisionis-
mo histórico de que o Paraguai pré-1865 promoveu 
sua industrialização a partir de ‘dentro’, com seus 
próprios recursos, sem depender dos centros capi-
talistas, a ponto de supostamente tornar-se ameaça 
aos interesses da Inglaterra no Prata. Os projetos de 
infraestrutura guarani foram atendidos por bens de 
capital ingleses e a maioria dos especialistas estran-
geiros que os implementaram era britânica.”4
Nesse quadro de relativo sucesso socioeconô-
mico e de alguma autonomia internacional, Solano 
López, cujo governo iniciou-se em 1862, teria enfati-
zado a política militar expansionista, a fim de ampliar 
o território paraguaio. Segundo essa versão, divulgada 
pela ótica dos vencedores, Solano pretendia criar o 
“Paraguai Maior”, anexando, para isso, regiões da Ar-
gentina, do Uruguai e do Brasil (como Rio Grande do 
Sul e Mato Grosso). Obteria, dessa forma, acesso ao 
Atlântico, tido como imprescindível para a continua-
ção do progresso econômico do país. Enfim, a guerra 
teria como motivo a agressão paraguaia, obrigando o 
Império a reagir. Porém, certamente foi a política ex-
terna brasileira no Prata, marcada pelo intervencio-
nismo, que colaborou para criar uma situação poten-
cialmente explosiva.
O estopim para o conflito foi a intervenção bra-
sileira no Uruguai e a reação de Solano López que, 
contando com um exército bem mais numeroso que 
o brasileiro, tomou a ofensiva ao ordenar o aprisio-
namento do navio brasileiro Marquês de Olinda, no 
Rio Paraguai, retendo, entre seus passageiros e tri-
pulantes, o presidente da província do Mato Grosso, 
Carneiro de Campos. A resposta brasileira foi o ime-
diato rompimento de relações diplomáticas com o 
Paraguai, seguida do revide paraguaio e declaração 
de guerra.
Mantendo-se na ofensiva, o Paraguai invadiu o 
Mato Grosso e o norte da Argentina, e os governos do 
Brasil, Argentina e Uruguai criaram a Tríplice Aliança 
contra Solano López.
3 DORATIOTO, Francisco Fernando Monteoliva. Maldita guerra: nova história da Guerra do Paraguai. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. p. 30.
4 Idem.
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Apesar de as primeiras vitórias da guerra terem 
sido paraguaias, o país possuía uma população muito 
menor que os países da Tríplice Aliança e não con-
seguiu resistir a uma guerra prolongada. Além disso, 
Brasil, Argentina e Uruguai puderam contar com o 
apoio inglês, recebendo empréstimos para equipar e 
manter poderosos exércitos.
A vitória brasileira do almirante Barroso na Ba-
talha do Riachuelo, já em 1865, levou à destruição 
da frota paraguaia. A partir daí, as forças da Tríplice 
Aliança passaram a ter a iniciativa na guerra, contro-
lando os rios, principais meios de comunicação da 
Bacia Platina, até a vitória definitiva, em 1870.
Apesar de todas as dificuldades, o Paraguai resis-
tiu perto de cinco anos de guerra, mostrando o grau 
relativamente alto de desenvolvimento e autossufi- 
ciência que havia obtido, além do engajamento de sua 
população em defesa do país.
O maior contingente das tropas da Aliança foi 
fornecido pelo exército brasileiro, que até então pra-
ticamente inexistia. Como já vimos, a Guarda Nacio-
nal cumpria, ainda que mal, as funções normalmente 
destinadas ao exército. Já em janeiro de 1865, por de-
creto imperial, foram criados os corpos dos Voluntá-
rios da Pátria, com vantagens de soldo e gratificações 
para cidadãos entre 18 e 50 anos que se alistassem. 
Enquanto boa parte da elite – representada pela 
Guarda Nacional – resistia em ir para a guerra, popu-
lares engrossaram com entusiasmo as convocações, 
chegando rapidamente a 10 mil voluntários, total pro-
gramado pelo governo. 
Para ampliar o contingente de soldados, em no-
vembro de 1866 foi decretado que os escravos que vo-
luntariamente se apresentassem para lutar na guerra 
obteriam a liberdade. Muitos se alistaram dessa ma-
neira, mas outros foram obrigados a fazê-lo no lugar 
dos filhos de seus senhores que haviam sido recruta-
dos. Esses soldados, recrutados à força, receberam, 
depois, o apelido de “voluntários a pau e corda”. Junto 
a eles, outro grupo destacou-se em meio aos confron-
tos: os indígenas.
p	 a	guerra	do	Paraguai	(1864-1870)	deu	início	a	grandes	mudanças	políticas	no	império.	acima,	representação	da	Batalha	do	
avaí.	Pintura	de	Pedro	américo	(1872-1877).
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soldAdos IndíGenAs nA GuerrA do pArAGuAI
Não foram só as forças armadas do Império que deram ao 
Brasil a vitória no maior conflito bélico jamais ocorrido na América 
do Sul. Pesquisas já mostraram que gente do povo, mulheres, es-
cravos e ex-escravos também tiveram atuação marcante na Guerra 
do Paraguai. De todas essas minorias combatentes, a participação 
dos índios era menos conhecida. Hoje se sabe que eles atuaram no 
conflito como verdadeiros soldados, e foram considerados “bravos 
auxiliares” por oficiais do nosso exército. Existem muitos relatos 
sobre gestos heroicos de soldados indígenasque fazem jus aos 
elogios, como, por exemplo, o de grupos avançando de peito nu, 
numa demonstração de extrema coragem, para desalojar soldados 
paraguaios escondidos nas matas que eles tão bem conheciam. Ou 
de pelotões indígenas realizando com êxito a missão de observar os 
movimentos do inimigo ou de trazerem de volta ao seus destaca-
mentos soldados desertores e escravos fugidos.
Nessas ações, não eram movidos propriamente por patrio-
tismo ou sentimento semelhante, mas sobretudo pelos interesses 
dos grupos a que pertenciam. Os índios que habitavam as terras 
da Província de Mato Grosso, ao se tornarem soldados, queriam, 
antes de mais nada, ver pelas costas, fora de seu território e longe 
de sua vista, o soldado inimigo, que traria para o seu povo morte e 
destruição. Ao defenderem o exército imperial, acreditavam estar 
defendendo também sua gente e resguardando o seu espaço. Por 
isso os paraguaios eram considerados inimigos comuns [...].
ALMEIDA, Rosely Batista Miranda de. Bravos Guerreiros. Revista de História da 
Biblioteca Nacional. 23 abr. 2008. Disponível em: <www.revistadehistoria.com.br/
secao/artigos/bravos-guerreiros>. Acesso em: 3 nov. 2012.
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Em 1868, o Brasil alcançou expressiva vitória 
na Batalha de Tuiuti. Luís Alves de Lima e Silva, o 
barão de Caxias, assumiu o comando das forças mi-
litares imperiais, vencendo rapidamente importantes 
batalhas que foram chamadas de “dezembradas”, por 
terem acontecido no mês de dezembro de 1868. Essas 
batalhas abriram caminho para a invasão de Assun-
ção, capital paraguaia, tomada em janeiro de 1869. 
O conde D’Eu, genro do imperador, liderou a última 
fase da guerra, conhecida como Campanha da Cor-
dilheira, completada com a morte de Solano López 
em 1870.
A guerra devastou o território paraguaio, deses-
truturando sua economia e causando a morte de mais 
de 300 mil pessoas, número que nas Américas só foi 
inferior às perdas humanas da Guerra de Secessão, 
nos Estados Unidos. Acredita-se que a Guerra do Pa-
raguai tenha sido responsável pela morte de mais de 
90% da população masculina paraguaia com mais de 
20 anos, sobrevivendo a população formada predomi-
nantemente por velhos, crianças e mulheres.
Além das mortes em combate, foram devasta-
doras as epidemias, principalmente a de cólera, que 
atingiram os homens de ambos os lados da guer-
ra. Acrescente-se ainda que os governos da Tríplice 
Aliança adotaram uma política genocida contra a po-
pulação paraguaia.
Para o Brasil, além da morte de aproximadamente 
40 mil homens (sobretudo negros e mestiços), a guerra 
trouxe forte endividamento com os ingleses. Tida 
como principal beneficiária do conflito, a Inglaterra 
forneceu armas e empréstimos, ampliando seus 
negócios na região e acabando com a experiência 
peculiar da economia paraguaia.
O Brasil conseguiu a manutenção da situação na 
Bacia do Prata, embora a um preço exorbitantemente 
alto, dadas as grandes perdas geradas pela guerra. Mas 
a principal consequência da Guerra do Paraguai foi 
o fortalecimento e a institucionalização do exército, 
com o surgimento de um grande e disciplinado corpo 
de oficiais experientes, pronto a defender os interesses 
da instituição. Além disso, seu poder bélico tornava-o 
uma organização capaz de impor suas ideias à força, 
caso necessário – o que acrescentou uma dose de 
instabilidade ao regime imperial.
Existem diferentes visões sobre as causas da guerra entre 
o Paraguai e a Tríplice Aliança:
•	 a	versão	oficial	da	época,	sustentando	que	o	Paraguai	defendia	
a livre navegação nos rios e que a ocupação do Uruguai pelo 
Império Brasileiro impunha riscos para o equilíbrio do Prata;
•	 os	interesses	econômicos	da	Inglaterra,	que	pretendia	sub-
meter o modelo econômico autossustentável do Paraguai e 
conseguir sua abertura aos produtos ingleses;
•	 a	agressão	militar	por	parte	do	Paraguai	(Mato	Grosso	e	Cor-
rientes); o despotismo e as ambições políticas de López;
•	 a	 versão	 dos	 historiadores	 contemporâneos,	 que	 incluem	
vários elementos, como persistência do problema da inde-
finição das fronteiras, imperícia da diplomacia paraguaia, 
imposição da hegemonia regional de Brasil e Argentina, etc.5
Mas nem a visão detratora do Paraguai nem a vitimizadora 
resistiram à crítica histórica mais cuidadosa.
A ideia tão difundida de que a Grã-Bretanha tinha interes-
se na guerra, dela participou indiretamente e com ela lucrou de 
maneira expressiva parece carecer de provas concretas, con-
forme sugere o historiador inglês Leslie Bethell no importante 
ensaio	“O	imperialismo	britânico	e	a	Guerra	do	Paraguai”.6
As cAusAs dA GuerrA: uM TeMA polêMIco
5 Paraguay, Ñane retã. Estudos sociales para el 3.º Ciclo de la Educación Escolar Básica (livro didático paraguaio). Assunção: Fundación em Alianza, 1998. p. 131. Texto adaptado.
6 VAINFAS, Ronaldo (Dir.). Dicionário do Brasil imperial (1822-1889). Rio de Janeiro: Objetiva, 2002. p. 323.
o fim do império
A política neutralizadora adotada por dom Pe-
dro II, conciliando os grupos oligárquicos, não impe-
diu que os conflitos de interesses emergissem nova-
mente, em meio às grandes transformações socioeco-
nômicas do período. As divergências na elite imperial 
acabaram por enfraquecer a monarquia.
Um exemplo foi o clima de discórdia que cercou 
o fim da escravidão, quando a economia cafeeira 
se fortalecia no Centro-Sul e a economia nordestina 
perdia força. Como vimos, depois da Bill Aberdeen, 
tornou-se mais intenso o tráfico interprovincial de 
cativos para a cafeicultura, com o deslocamento de 
escravos para as fazendas de café. Os cafeicultores 
precisavam da mão de obra, e só aceitavam a abolição 
se recebessem indenizações por suas perdas. No qua-
dro internacional antiescravista, o Brasil era o único 
país independente da América que ainda não abolira 
a escravidão.
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O envolvimento governa-
mental na efervescência das cam-
panhas abolicionistas e a posição 
conservadora dos cafeicultores 
chegaram ao ápice em 1871, quan-
do foi aprovada a Lei do Ventre 
Livre, mesmo com os votos con-
trários das províncias de São Pau-
lo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, 
Espírito Santo e Rio Grande do Sul. 
Pela lei, os filhos de escravas nas-
cidos a partir daquela data seriam 
considerados livres. Vale registrar 
que a votação dessa lei, reunin-
do a oposição ao abolicionismo, 
acentuou preocupações entre as 
autoridades do Império de inten-
sificação dos conflitos entre essas 
províncias e as demais. Lembra-
vam do recente caso norte-ameri-
cano da Guerra de Secessão, entre 
sulistas e nortistas, o que motiva-
va buscar medidas para conter o 
tráfico intraprovincial de escravos e estimular mais 
intensamente a vinda de imigrantes europeus.
Os escravocratas protestaram, e os efeitos da 
Lei do Ventre Livre foram reduzidos. Estabeleceu-se 
que o escravo permaneceria sob a tutela do proprie-
tário da mãe até atingir 8 anos de idade, quando o 
senhor escolheria se preferia receber uma indeniza-
ção ou explorar gratuitamente o trabalho do escravo 
“livre” até que completasse 21 anos. Nos artigos da 
lei constavam várias outras medidas: a garantia do 
direito à alforria segundo indenização e, caso não se 
chegasse a um acordo do valor, caberia ao Estado o 
arbitramento; a libertação dos escravos pertencen-
tes ao Estado ou que serviam à Coroa; a criação de 
um Fundo de Emancipação constituído por meio de 
impostos e doações, para a compra de liberdade de 
escravos; e um recenseamento de todos os escravos 
do Império (medida que deixou valiosa documen-
tação sobre a escravidão). A aprovação da Lei do 
Ventre Livre firmou uma forte intervenção governa-
mental na questão escravista e serviu de incentivo à 
atuação abolicionista.Em 1885, foi aprovada a Lei dos Sexagenários, 
que libertava os escravos de mais de 60 anos de idade, 
sob indenização e a exigência da prestação de servi-
ços por mais alguns anos ao proprietário. A lei tam-
bém transformava em crime passível de prisão dar 
guarida a escravos fugidos. Não só um número muito 
reduzido de escravos foi benefi-
ciado pela lei, uma vez que poucos 
atingiam essa idade, como tam-
bém aqueles que o conseguiam 
quase sempre não estavam mais 
em condições de trabalhar, e sua 
libertação representava também a 
liberação dos custos de sua manu-
tenção para o proprietário. Apesar 
de prever a extinção da escravidão 
num prazo de 13 anos, a Lei dos 
Sexagenários acabou servindo de 
motivo para lutas mais aguerri-
das dos abolicionistas (escravos e 
os que apoiavam a abolição) e, em 
contrapartida, para a repressão 
a muitos dos seus ativistas, sem 
conseguir inibir e mesmo conter 
sua irradiação.
A legislação abolicionista cria-
da pelo governo imperial, mesmo 
sem grandes resultados na prática 
imediata, não conseguia aplacar 
o movimento abolicionista, particularmente forte na 
imprensa. Os números da população escrava ao longo 
do século XIX, mediante dinâmica social do Império, 
especialmente com as fugas e alforrias, mostram sua 
contínua queda:
Evolução da população Escrava no Brasil
data Total de escravos % da população
1817 1 930 000 50,5
1874 1 540 829 15,8
1887 723 419 5,0
MATOS, Hebe. In: VAINFAS, Ronaldo (Dir.). Dicionário do Brasil imperial (1822-1889). Rio de Janeiro: Objetiva, 
2002. p. 17-18.
Assim, a impossibilidade de controlar as cada 
vez mais frequentes fugas de escravos também acele-
rou o processo de abolição. Até o Exército brasileiro, 
fortalecido politicamente após a Guerra do Paraguai, 
tinha fortes tendências abolicionistas, não sendo ra-
ros os oficiais que desobedeciam às ordens de caça a 
escravos fugidos. Algumas províncias, como Ceará e 
Amazonas, anteciparam-se ao governo imperial, abo-
lindo a escravidão em seus territórios em 1884, sendo 
seguidas por algumas cidades do Rio Grande do Sul 
no ano seguinte.
O movimento abolicionista confundia-se com 
o crescente republicanismo, em suas críticas ao 
Império. Aumentava a agitação política pelo fim da 
p	 de	 imediato,	 de	 forma	 prática,	 a	 lei	
do	Ventre	livre	pouco	significou	para	
uma	 intensa	 e	 rápida	 libertação	 dos	
escravos.	 no	 entanto,	 impulsionou	
atuações	 abolicionistas,	 seja	 por	
seus	críticos,	que	exigiam	muito	mais	
pela	 abolição,	 seja	 por	 seus	 apoia-
dores.	charge	de	angelo	agostini	de	
1876	sobre	a	lei	do	Ventre	livre.
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escravidão, com atividades panfletárias e jornalísti-
cas nos grandes centros urbanos, especialmente no 
Rio de Janeiro. Em São Paulo ganhou destaque o gru-
po dos caifazes, que combatiam a escravidão com 
medidas práticas, infiltrando-se nos alojamentos dos 
escravos, planejando fugas em massa, criando rotas 
de fuga e áreas de concentração de cativos fugidos, 
muitas vezes dentro de grandes cidades.
No ano de 1888, a princesa Isabel, que governava 
interinamente o país, assinou a Lei Áurea, decretando 
a libertação de todos os escravos no Brasil. Esse docu-
mento selou o fim da decadência escravista, iniciada 
com a imigração europeia e a instituição do trabalho 
livre assalariado, bem como com o fim do tráfico em 
1850 e as fugas e resistências seculares dos escravos.
Outro fator de desgaste do governo imperial no 
final do século XIX foi o atrito com a Igreja católica, 
em virtude de conflitos derivados do regime do pa-
droado, ou seja, o poder do imperador de nomear os 
bispos, controlando a hierarquia eclesiástica e o con-
junto do clero. A bula papal que impedia membros 
da maçonaria de pertencer aos quadros da Igreja foi 
rejeitada pelo imperador – dom Pedro II, como o pai, 
era maçom –, que acumulara o direito de ratificar ou 
não o cumprimento das ordens do papa no país. A 
maior parte dos religiosos permaneceu fiel ao impera-
dor, porém os bispos de Olinda e de Belém preferiram 
acatar o papa e expulsaram de suas dioceses párocos 
ligados à maçonaria. O imperador decidiu punir os 
bispos “rebeldes”, processando-os e condenando-os à 
prisão com trabalhos forçados.
Embora os dois bispos tenham sido anistiados 
anos depois, o episódio levou vários membros da 
Igreja a opor-se à monarquia, que haviam considera-
do muito severa na punição aos bispos. A Igreja não 
chegou a conspirar contra o poder monárquico, mas 
ficou evidente que o clero não o apoiaria caso fosse 
ameaçado.
Paralelamente, no final do século XIX, membros 
do exército foram assumindo uma posição cada vez 
mais contrária ao governo imperial.
Após a Guerra do Paraguai, que transformara o 
exército, as forças armadas começaram a atrair cada 
vez mais jovens provenientes de classes menos abas-
tadas. Estavam interessados na carreira de oficial, 
que garantia a perspectiva da ascensão profissional 
(e, portanto, social) quase exclusivamente por méri-
tos próprios. As escolas militares passaram a ganhar 
importância, com destaque para a Escola Militar da 
Praia Vermelha, no Rio de Janeiro.
Em razão do controle que o poder civil exercia 
sobre os militares e do pouco interesse que o gover-
no imperial tinha no exército, destinando-lhe baixos 
soldos, lentas promoções e investimentos quase ine-
xistentes, surgiram atritos entre oficiais do exército e 
os “casacas”, como eram chamados pejorativamente 
os políticos civis.
Alguns oficiais do exército passaram a assumir 
posições radicalmente contrárias às da monarquia em 
todas as questões relevantes do final do Império, defen-
dendo a abolição e a instalação da República. Nas esco-
las militares crescia a mentalidade positivista, teoria 
criada por Auguste Comte em meados do século, que, 
além de sua postura científica diante dos fenômenos 
sociais e naturais, sustentava-se na ideia de ordem com 
base na “aliança” das classes sociais e de progresso.
p	 a	questão	religiosa	representou	um	sério	abalo	no	já	enfraquecido	império.	a	charge	de	angelo	agostini,	
publicada	em	cerca	de	1886	na	Revista Illustrada,	mostra	o	rompimento	entre	estado	e	igreja.
Reprodução/Coleção de Artes Visuais do Instituto de Estudos Brasileiros da USP, São Paulo, SP.
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