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uma era de revoluções11 CaPítUlO 147 p representação da invasão da as- sembleia pelos parisienses, em gravura francesa do século XiX. N o rt h W in d P ic tu re A rc h iv e s /A lb u m /a k g -i m a g e s /L a ti n s to ck Processos revolucionários O século XVIII assistiu a muitas mudanças na economia, na polí- tica e no cotidiano. A Inglaterra, um pouco antes, passara por um ciclo revolucionário que abriu caminho para o desenvolvimento econômico e tecnológico que caracterizou a Revolução Industrial. Na França, a persistência do absolutismo continuava gerando ten- sões entre a burguesia e o Estado aristocrático. Os entraves ao desenvol- vimento econômico e outros fatores também colocam os setores mais pobres em uma situação no mínimo incômoda. A Revolução Francesa foi feita em nome de alguns princípios como os da liberdade, da igualdade e da fraternidade, além do direito à proprie- dade. Porém, ela foi feita por diversos sujeitos sociais, desde os miseráveis até os mais ricos comerciantes e industriais. Para os diferentes segmentos sociais da França revolucionária, os princípios de liberdade, igualdade e fraternidade signifi cavam coisas diferentes. Para alguns, por exemplo, a propriedade era condição para a liberdade, e para outros a propriedade tornava impossível a liberdade e a fraternidade. Você saberia apontar exemplos na atualidade em que atuações eco- nômicas e políticas teriam signifi cados diferentes para segmentos sociais distintos? PARA PeNsAR HisToRiCAMeNTe HGB_v2_PNLD2015_140a165_u2c11.indd 147 3/21/13 3:35 PM 148 Para entenDer nosso teMPo: o sécuLo XiX Revolução inglesa, Revolução industRial No marco implantado pela historiografia como passagem da Idade Moderna para a Idade Contempo- rânea, Portugal e Espanha já não eram protagonistas. Pioneiros na conquista e colonização da América, construíram impérios territoriais ao redor de todo o mundo, mas ficaram cada vez mais dependentes de suas colônias. Sua riqueza, obtida da exploração co- lonial, aos poucos foi transferida para outros países, como pagamento do grande volume de importações necessárias para atender a suas necessidades, uma vez que tinham poucas manufaturas. Dessa forma, o capital acumulado em moeda ou metais preciosos se esvaiu em pouco tempo. E, perdendo o poder econô- mico, perderam também a supremacia e a força, dei- xando de ocupar o centro de decisões e de influência. O processo de desenvolvimento capitalista, in- tensificado pela dinamização comercial dos séculos XVI e XVII, estava ligado de modo intenso à circula- ção de mercadorias. A partir da segunda metade do século XVIII, entretanto, a produção, em larga escala, via mecanização industrial, iniciada na Inglaterra, passou a ser o principal motor desse processo. A perspectiva de lucros motivou o desenvolvi- mento técnico da produção, e com o aumento dos lu- cros, por sua vez, ampliava-se o capital investido nas novas tecnologias, gerando um ciclo ascendente. Isso implicou grandes mudanças, tanto de ordem econô- mica quanto social, que possibilitaram o desapareci- mento de relações e práticas feudais ainda existentes e o definitivo predomínio de valores da economia e sociedade capitalistas. O início do processo industrial na Inglaterra de- ve-se em parte a seu acúmulo de capital durante os séculos XVII e XVIII. Nesses séculos, a Inglaterra, gra- ças a seu poderio naval e comercial, conseguiu formar uma extensa rede comercial mundial. O impulso ini- cial decorreu da vitória inglesa contra a Invencível Ar- mada espanhola em 1588, quando a marinha espa- nhola reagiu às investidas inglesas em suas colônias. Importante papel exerceram também os Atos de Na- vegação, leis decretadas na Inglaterra em 1651 por Oliver Cromwell, que protegiam os comerciantes in- gleses e atingiram especialmente os Países Baixos, seu maior rival no comércio e nos mares. Além disso, o Tratado de Methuen, de 1703, assinado com Portugal, abriu os mercados portugueses e de suas colônias aos manufaturados ingleses. Acrescente-se também a existência de grandes jazidas de carvão mineral e mi- nério de ferro no solo britânico. Havia, além disso, uma grande população desempregada – portanto, mão de obra barata – expulsa do campo pelos proces- sos de cercamento. Londres, por exemplo, de 1700 a 1800 era a cidade mais populosa da Europa. Com a escassez de emprego, essa volumosa mão de obra de baixíssimo preço atendia aos anseios dos industriais: já que o custo da força de trabalho era muito pequeno, eles podiam aplicar grandes somas de capital em no- vas instalações. p as grandes cidades britânicas, nos anos 1800 (veja mapa), tiveram intenso impulso populacional com a industrialização. no campo, além das mudanças socioeconômicas, as transformações técnicas afe- taram a tradicional paisagem rural, como mostra a pintura ao lado, de 1777, de William Williams. as chaminés, por todo o país, eram muito mais que simples marcas da paisagem: eram símbolos de uma ampla revolução produtiva e social. Mar do Norte 5º O 55º N a k g -i m a g e s /I p re s s /M u s e u d e A rt e , S h re w s b u ry , In g la te rr a . A ll m a p s /A rq u iv o d a e d it o ra Cidades do Reino Unido Adaptado de: SIMIELLI, Maria Elena. Geoatlas. São Paulo: Ática, 2000. p. 43. HGB_v2_PNLD2015_140a165_u2c11.indd 148 3/21/13 3:35 PM uMa era De reVoLuções 149 O cenário que propiciou a industrialização da Inglaterra era favorável também no âmbito interna- cional. Seu principal concorrente na Europa, a França, fora superado na Guerra dos Sete Anos (1756-1763). Passo a passo, a política internacional inglesa foi con- solidando sua supremacia mundial, contando com uma frota mercante cada vez maior, à frente de toda a Europa. Até o início do século XX, a Inglaterra se des- tacou como a maior potência econômica. Politicamente, a Inglaterra sepultara o absolutis- mo após a Revolução Gloriosa, em 1688, quando ficou estabelecida a supremacia do Parlamento e inaugurou- -se o Estado liberal inglês. Como você já estudou, o governo, controlado pelo Parlamento, estava compro- metido com o enriquecimento da burguesia – pré-re- quisito para a plenitude capitalista burguesa que se ins- talaria com as maquinofaturas. A própria aristocracia inglesa, por não dispor de pensões como acontecia na França, acabou vendo com simpatia as atividades co- merciais e industriais, e muitas vezes dedicou-se a elas. Os avanços tecnológicos Após as revoluções agrícola e pastoril, no Neolí- tico, a humanidade teve relativamente poucos avan- ços tecnológicos de grande impacto mundial. Um deles foi a Revolução Industrial, salto produtivo que mudou a face do mundo e colocou definitivamente a Europa em seu centro. A industrialização da segunda metade do sécu- lo XVIII iniciou-se com a mecanização do setor têxtil, cuja produção tinha amplos mercados nas colônias, inglesas ou não. Entre as principais invenções mecânicas do pe- ríodo, destacam-se a máquina de fiar, de James Har- greaves, o tear hidráulico, de Richard Arkwright, e o tear mecânico, de Edmund Cartwright. Todos esses teares tinham em comum, além de serem invenções do último terço do século XVIII, o fato de aumenta- rem muito a produção e diminuírem drasticamente a necessidade de mão de obra. Esses inventos ganharam maior capacidade quando passaram a ser acoplados à máquina a vapor, inventada por Newcomen (1712) e aperfeiçoada por James Watt (1765). Com a sofisticação das máquinas, houve aumento ainda maior da produção e de geração de capitais, que por sua vez eram reaplicados em no- vas máquinas. A mecanização alcançou o setor meta- lúrgico, e impulsionou a produção em série. A descoberta do uso do vapor como força motriz também beneficiou os transportes. Em 1805, o norte- -americano Robert Fulton revolucionou anavegação marítima criando o barco a vapor e, em 1814, George Stephenson idealizou a locomotiva a vapor. Na déca- da de 1830, começaram a circular os primeiros trens. Além disso, a impressão de jornais, revistas e livros com o uso do vapor desenvolveu as comunicações e favoreceu a difusão cultural, que, por sua vez, permiti- ram o surgimento de novas técnicas e invenções. A Revolução Industrial logo alcançou o conti- nente e o resto do mundo, chegando à Bélgica, à Fran- ça e posteriormente à Itália, à Alemanha, à Rússia, aos Estados Unidos e ao Japão. Ao contrário da Inglaterra, esses países não adotaram o liberalismo econômico de modo tão pleno, assumindo atuações protecio- nistas que serviram para consolidar suas indústrias nacionais. A expansão industrial estimulou o impe- rialismo do século XIX, uma grande corrida colonial por novos mercados, indispensáveis para garantir que a produção fosse vendida e realimentasse os lucros e reinvestimentos. Gerava-se desse modo o contínuo crescimento de capital que caracteriza o sistema ca- pitalista. Como você estudará mais adiante, essa cor- rida por mercados envolveu conflitos de interesses, que culminaram com a Primeira Guerra Mundial. p Máquina de fiar (spinning Jenny), de James hargreaves. p Locomotiva a vapor, 1770. B e tt m a n n /C o rb is /L a ti n s to ck R e p ro d u ç ã o /C o n s e rv a tó ri o N a c io n a l d e A rt e s e O fí c io s , P a ri s , F ra n ç a . HGB_v2_PNLD2015_140a165_u2c11.indd 149 3/21/13 3:35 PM 150 Para entenDer nosso teMPo: o sécuLo XiX Para aumentar os lucros, elevou-se a especializa- ção do trabalho. Isso representou a alienação do traba- lhador em relação a sua atividade. Enquanto na Antigui- dade ou na Idade Média o artesão conhecia o processo de produção inteiro, realizando ele mesmo todas as eta- pas, o operário moderno perdeu o controle do conjunto da produção. Passou a ser responsável por apenas uma parte do ciclo produtivo de uma mercadoria, ignoran- do os procedimentos técnicos envolvidos. Além disso, recebendo um salário em troca da atividade mecânica realizada, o ope- rário alienava o seu trabalho aos capitalistas, transformando- -o em merca- doria sujeita ao mercado. Novas formas de trabalho A industrialização gerou significativas transfor- mações em quase todos os setores da vida humana. Na estrutura socioeconômica, deu-se a separação de- finitiva entre o capital, representado pelos donos dos meios de produção, e o trabalho, representado pelos assalariados. Na maior parte dos casos, eliminou-se a antiga organização corporativa da produção utilizada pelos artesãos. Os trabalhadores já não eram os donos das fer- ramentas e máquinas, passando a viver da única coisa que lhes pertencia: sua força de trabalho, transformada em mercadoria e explorada ao máximo. Para enfrentar o quadro social da nova ordem industrial, associaram- -se em organizações como as trade unions (sindicatos). p Laminadores de ferro, de a. Von Mozel, 1875. esta pintura do final do século XiX retrata o pesado trabalho numa lamina- ção de ferro, com o ambiente hostil, sujo e quente de uma siderúrgica. alienação: conceito aplicado por Karl Marx em seus escritos, segundo o qual o trabalho especializado que carac- terizou a industrialização “alienou” o operário, ou seja, separou-o do produto de seu trabalho. o trabalhador, desse modo, em vez de realizar-se pelo tra- balho, se desumanizava, exercendo suas tarefas mecanicamente. p a atividade artesanal medieval e a indústria do século XiX representam estruturas produtivas bem diferentes. em cima, iluminura de 1390 mostrando artesãos: pequena pro- dução, trabalhadores donos dos meios de produção e dos frutos de seu trabalho, habilidade criativa e produtiva. na foto inferior, de 1881, trabalho industrial nos estados uni- dos: operários, grande produção, assalariados, sujeição à máquina e alienação. A industrialização estabeleceu a supremacia burguesa na ordem econômica, isto é, toda a estrutu- ra produtiva estava voltada para atender aos interes- ses de lucro da burguesia. Ao mesmo tempo, acelerou o êxodo rural, o crescimento urbano e a formação da classe operária – ou proletariado. Inaugurava-se uma nova época, na qual a política, a ideologia e a cultura gravitariam entre dois polos: a burguesia industrial e o proletariado. Estavam fixadas as bases do progresso tecno- lógico e científico, visando à invenção e ao aperfei- çoamento constantes de novos produtos e técnicas para o maior e melhor desempenho industrial. Defi- niam-se também as condições para o imperialismo colonialista e o confronto entre burguesia e proleta- riado, que iriam definir as décadas seguintes da his- tória europeia e mundial e ajudar a formar as bases do mundo con- temporâneo. R e p ro d u ç ã o /B il d a rc h iv P re u s s ic h e r K u lt u rb e s it z, B e rl im , A le m a n h a . R e p ro d u ç ã o /M u s e u B ri tâ n ic o , L o n d re s , In g la te rr a . B e tt m a n n /C o rb is /L a ti n s to ck HGB_v2_PNLD2015_140a165_u2c11.indd 150 3/21/13 3:35 PM Uma era de revolUções 151 a) De acordo com Dickens, o que caracteriza a cidade industrial? b) Repare que nesse trecho Charles Dickens abusa do uso de algumas palavras. Identifique as palavras que são recorrentes no texto e explique por que o autor optou por empregá-las tantas vezes num mes- mo trecho. c) Como, no texto de Dickens, a cidade mimetiza a fábrica e reflete o ritmo da produção fabril? 2 Leitura de textos e produção de síntese Os textos abaixo foram redigidos, respectivamente, em 1747, 1934 e 1973, e descrevem diferentes aspectos da vida e do trabalho do proletariado industrial. Baseando-se nos textos, faça uma dissertação com o tema “O trabalho na era industrial”. Na sua dissertação, procure abordar as seguintes questões: • Qual o tipo de qualificação necessária para o trabalhador industrial? • Na sociedade industrial, qual é a relação que se estabelece entre o trabalho intelectual e o trabalho braçal? • Que mudanças e/ou permanências podem ser identificadas no trabalho industrial entre a primeira Re- volução Industrial, no século XVIII, e os dias de hoje? Texto 1 (1747) É fato notório [...] que a penúria até certo grau estimula a indústria; e que o operário que pode prover às suas necessidades trabalhando só três dias ficará ocioso e bêbado o resto da semana [...]. Os pobres, nos condados onde há manufaturas, jamais trabalharão mais horas do que é preciso para custear a alimentação e suas orgias semanais [...] sem temor podemos dizer que uma redução dos salários das manufaturas laníferas seria uma bênção e uma vantagem para a nação e não seria um prejuízo real para os pobres. Com esse recurso, poderíamos preservar nosso comércio, manter nossas rendas e, além de tudo, corrigir as pessoas. SMITH, J. Memoirs of Wool, 1747. In: GORZ, André. Crítica da divisão do trabalho. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1989. p. 65. 1 Leitura e interpretação de texto literário O trecho a seguir foi extraído do livro Hard times (“Tempos difíceis”), do escritor inglês Charles Dickens (1812-1870). Nele, Dickens descreve a cidade de Coketown (Preston). Leia-o com atenção e, a seguir, faça o que é pedido adiante. ExErcícios dE história [Era] uma cidade de tijolos vermelhos, ou que seriam vermelhos se a fumaça e as cinzas o permitissem; tal como era, porém, a cidade tinha tonalidades artificiais de vermelho e preto que lembravam os rostos pintados dos selvagens. [...] Continha algumas ruas grandes, todas muito parecidas, e muitas ruas pequenas, ainda mais parecidas, habitadas por pessoas igualmente parecidas, que chegavam e saíam todas nas mesmas horas, fazendo o mesmo som nas mesmas calçadas, para fazer o mesmo trabalho, e para quem todos os dias eram iguais à vésperae ao dia seguinte, e todos eram a imagem do ano anterior e do subsequente. Apud WILLIAMS, Raymons. O campo e a cidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. p. 214. HGB_v2_PNLD2015_140a165_u2c11.indd 151 25/03/2013 15:27