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SUMÁRIO GESTÃO DEMOCRÁTICA Autora: Prof. Sandra Maria P. Rodrigues 1 GESTÃO DEMOCRÁTICA UNIDADE DE ESTUDO 03 GESTÃO DEMOCRÁTICA E A LEGISLAÇÃO BRASILEIRA Professora Sandra Maria P. Rodrigues Quando se fala em gestão da educação, não está se falando em qualquer forma de gestão e sim sobre gestão democrática. A Constituição Federal de 1988 indica a gestão democrática do ensino público, na forma da lei, como um dos princípios básicos que devem nortear o ensino. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) também se encarrega de estabelecer alguns princípios para a gestão democrática. Dentre estes princípios, estão a participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola e a participação das comunidades escolares e locais em conselhos escolares ou equivalentes. Além disso, a LDB também sinaliza (no Art. 3o) que o ensino será ministrado com base em diversos princípios e, entre eles, encontra-se a “gestão democrática do ensino público, na forma desta Lei e da legislação dos sistemas de ensino”. Dessa forma, as discussões acerca dessas novas concepções educacionais obtiveram o amparo legal, por meio de uma vasta literatura jurídica que visa orientar, organizar, normatizar e estabelecer princípios pedagógicos inovadores condizentes com o modelo atual de sociedade. Os documentos constitucionais norteadores dos pressupostos teóricos sobre educação são: a Constituição Federal de 1988, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB 9.394/96), os Parâmetros Curriculares do Ensino Médio e Ensino Fundamental (1999), o Plano Nacional de Educação (Lei 10.172/2001) e o Plano Nacional do Livro Didático (PNLD - Decreto nº 91.542, de 19/8/85). Com o objetivo de melhor compreender a questão da gestão democrática no contexto escolar, é imprescindível conhecer alguns trechos dos principais documentos: a Constituição Brasileira (CF) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). 2 O texto constitucional estabelece a gestão democrática do ensino, ao mesmo tempo em que institui o direito e o dever de participação de todos os que atuam nos sistemas e nas escolas públicas. Art. 206. O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios: I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II – liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pensamento, a arte e o saber; III – pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas, e coexistência de instituições públicas e privadas de ensino; IV – gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; V – valorização dos profissionais de ensino, garantindo, na forma da lei, planos de carreira para o magistério público, com piso salarial profissional e ingresso, exclusivamente, por concurso público de provas e títulos, assegurado regime jurídico único para todas as instituições mantidas pela União; VI – gestão democrática do ensino público, na forma da lei; VII – garantia de padrão de qualidade (CF,1988). Os princípios constitucionais acabam por possibilitar às pessoas, independente de situação social e cultural, intervirem na construção de políticas e na gestão das instituições educacionais. Lück confirma: Segundo o princípio da democratização, a gestão escolar promove, na comunidade escolar, a redistribuição e compartilhamento das responsabilidades que objetivam intensificar a legitimidade do sistema escolar, pelo cumprimento mais efetivo dos objetivos educacionais (LÜCK et al., 2008, p.16). O princípio da gestão democrática de ensino público, estabelecido pela Constituição Brasileira, também foi regulamentado pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei n°9.394/96): Art. 14 Os sistemas de ensino definirão as normas da gestão democrática do ensino público na educação básica, de acordo com as suas peculiaridades e conforme os seguintes princípios: I – participação dos profissionais da educação na elaboração do projeto pedagógico da escola; II – participação das comunidades escolar e local em conselhos escolares ou equivalentes (LDB, 1996). 3 Consequentemente, mecanismos de participação da comunidade escolar e da comunidade de pais tomaram a iniciativa de participar da gestão escolar, a partir de eleições, para a escolha de diretores e da constituição de conselhos escolares, comunitários e até dos conselhos municipais de educação. Ainda segundo a LDB: Art. 15 Os sistemas de ensino assegurarão às unidades escolares públicas de educação básica que os integram progressivos graus de autonomia pedagógica e administrativa e financeira, observadas as normas gerais de direito financeiro (LDB,1996). Ainda, com o objetivo de conhecer os já referidos documentos norteadores dos pressupostos teóricos sobre educação, resumem-se algumas informações a respeito deles: O Plano Nacional de Educação (PNE) posto em vigência em 2001 estabelecia uma série de objetivos e metas para a melhoria da educação brasileira, que deveriam ter sido cumpridas no prazo de dez anos. Depois de muitas discussões, no Congresso Nacional e na sociedade civil, chegou-se à conclusão de que os aproximadamente 4,5% do Produto Interno Bruto (PIB), que atualmente são investidos na educação, são absolutamente insuficientes para a abrangência e amplitude da ação educacional. O que houve é que tal Plano não se efetivou. Em consequência, foi realizada a Conferência Nacional de Educação (CONAE) em Brasília, de 28 de março a 1º de abril de 2010. Seu objetivo foi oportunizar um espaço de discussão sobre os rumos que o país deveria tomar em todos os níveis de ensino. Dessa conferência, saíram as diretrizes que deram origem ao Plano Nacional de Educação (PNE) de 2011, documento que organiza prioridades e propõe metas a serem alcançadas nos dez anos seguintes. O problema é que, para a versão anterior do PNE, em vigor de 2001 a 2011, a maioria dos municípios e estados não aprovou uma legislação que garantisse recursos para atingir as metas propostas, assim como não propôs nenhuma punição para quem descumprisse as ações previstas por ele. Para a nova versão do plano (2011 a 2021), as entidades ligadas à Educação defendem que haja a determinação clara da origem dos recursos e da área em que devem ser investidos. Se isso ocorrer, o Plano pode colaborar para a luta por uma Educação pública de qualidade. Caso contrário, mais uma vez, não sairá do papel, como ocorreu em 2001. 4 A elaboração e consequente prática do Projeto Político Pedagógico ocorreu com a promulgação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), em 1996, ou seja, toda escola precisa ter um Projeto Político Pedagógico, conhecido por PPP, ou simplesmente Projeto Pedagógico. Esse documento deve explicitar as características que gestores, professores, funcionários, pais e alunos pretendem construir na instituição e qual formação querem para quem ali estuda. O Projeto Político-Pedagógico mostra a visão macro do que a instituição escolar pretende ou idealiza fazer, seus objetivos, metas e estratégias permanentes, tanto no que se refere às suas atividades pedagógicas, como às funções administrativas. Portanto, o Projeto Político-Pedagógico faz parte do planejamento e da gestão escolar. A questão principal do planejamento é expressar a capacidade de se transferir o planejado para a ação. Assim sendo, compete ao Projeto Político-Pedagógico a operacionalização do planejamento escolar em um movimento constante de reflexão ação-reflexão. O projeto é chamado de político, porque reflete as opções e escolhas de caminhos e prioridades na formação do cidadão, como membro ativo e transformador da sociedade em que vive. É chamado de pedagógico porque expressa as atividades pedagógicas e didáticas que levam a escola a alcançar os seus objetivos educacionais. Éimportante que o Projeto Político Pedagógico seja entendido na sua globalidade, isto é, naquilo que diretamente contribui para os objetivos prioritários da escola, que são as atividades educacionais, e naquilo cuja contribuição é indireta, ou seja, as ações administrativas. Para a elaboração do projeto pedagógico de qualquer escola, é preciso que todos conheçam bem a realidade da comunidade em que se inserem para, em seguida, estabelecer o plano de intenções, o qual divide-se em três focos: A proposta curricular: Que visa estabelecer o que e como se ensina, as formas de avaliação da aprendizagem, a organização do tempo e o uso do espaço na escola, entre outros pontos. A formação dos professores: Busca estipulara maneira como a equipe vai se organizar para cumprir as necessidades originadas pelas intenções educativas. A gestão administrativa: Tem como função principal viabilizar o que for necessário para que os demais pontos funcionem dentro da construção da escola que se quer. 5 Finalmente, deve-se esclarecer que o PPP deve ser revisto anualmente ou mesmo antes desse período, se a comunidade escolar sentir tal necessidade, pois é importante fazer uma avaliação periódica das metas e dos prazos para ajustá-los conforme o resultado obtido pelos estudantes, que pode ficar além ou aquém do previsto. O Conselho Escolar tem papel decisivo na gestão democrática da escola, se for utilizado como instrumento comprometido com a construção de uma escola cidadã. Deve constituir-se como um órgão colegiado que representa a comunidade escolar e local, atuando em sintonia com a administração da escola e definindo caminhos para tomar decisões administrativas, financeiras e político-pedagógicas condizentes com as necessidades e potencialidades da escola. Sendo assim, a gestão deixa de ser prerrogativa de uma só pessoa e passa a ser um trabalho coletivo, dividindo-se o poder e as responsabilidades. A composição, funções, responsabilidades e funcionamento dos Conselhos Escolares devem ser estabelecidos pela própria escola, a partir de sua realidade, garantindo a natureza essencialmente político-educativa do Conselho Escolar, que deve ter como foco a aprendizagem do aluno. Sua atuação deve se voltar para o planejamento, a aplicação e a avaliação das ações da escola. Os Parâmetros Curriculares Nacionais - PCNs - são referências para os Ensinos Fundamental e Médio de todo o país. O objetivo dos PCNs é garantir a todas as crianças e jovens brasileiros, mesmo em locais com condições socioeconômicas desfavoráveis, o direito de usufruir do conjunto de conhecimentos reconhecidos como necessários para o exercício da cidadania. Não possuem caráter de obrigatoriedade e, portanto, pressupõe-se que serão adaptados às peculiaridades locais, tendo em vista que constituem-se em uma referência para a própria escola adequá-los à transformação de objetivos, conteúdos e didática do ensino. O Programa Nacional do Livro Didático (PNLD) tem como principal objetivo subsidiar o trabalho pedagógico dos professores por meio da distribuição de coleções de livros didáticos, acervos de obras literárias, obras complementares e dicionários aos alunos da educação básica. O Programa é executado em ciclos trienais alternados. Assim, a cada ano o FNDE adquire e distribui livros para todos os alunos de determinada etapa de ensino e repõe e complementa os livros reutilizáveis para outras 6 etapas. Um edital especifica todos os critérios para inscrição das obras. Os títulos inscritos pelas editoras são avaliados pelo MEC, que elabora o Guia do Livro Didático, composto das resenhas de cada obra aprovada, que é disponibilizado às escolas participantes pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Cada escola escolhe democraticamente, dentre os livros constantes no referido Guia, aqueles que deseja utilizar, levando em consideração seu planejamento pedagógico, importante ressaltar que, para garantir o atendimento a todos os alunos, são distribuídas também versões acessíveis (áudio, Braille e MecDaisy1) dos livros aprovados e escolhidos no âmbito do PNLD. Não é necessário aprofundar-se em pesquisas para constatar que o Estado brasileiro não vem cumprindo sua tarefa de oferecer educação em quantidade e qualidade para a nação brasileira. Como consequência, uma parcela significativa dos brasileiros não possui as condições básicas para serem cidadãos participantes de uma sociedade letrada e democrática. Esta parece ser uma forma de exclusão social, cuja base é a exclusão escolar. O portal do Ministério da Educação e Cultura – MEC – destaca que: são muitas as ações que precisam ser desenvolvidas para garantir uma educação básica democrática e de qualidade, no entanto, quatro parecem ser as principais frentes de políticas que precisam ser estabelecidas pelo poder público: políticas de financiamento; políticas de universalização da educação básica, com qualidade social; políticas de valorização e formação dos profissionais da educação; e políticas de gestão democrática. A primeira dará as condições concretas sobre as quais se sustentarão as demais políticas. A segunda oportunizará acesso, permanência e sucesso escolar. A terceira propiciará salários, plano de carreira e formação inicial e continuada para todos os educadores (docentes e não docentes). E a quarta delimitará o caminho pelo qual o processo de democratização da educação poderá ser alcançado (GRACINDO, 2007, p.26). A gestão democrática é um objetivo e um percurso. É um objetivo, porque trata-se de uma meta a ser sempre aprimorada e é um percurso, porque se revela como um processo que, a cada dia, se avalia e se reorganiza. Assim, se o princípio da 1 MecDaisy: ferramenta tecnológica que permite a produção de livros em formato digital acessível. Possibilita geração de livros digitais falados e sua reprodução em áudio, gravado ou sintetizado. 7 gestão democrática fez-se presente no texto constitucional, sendo mantido pela atual Lei de Diretrizes e Bases - n.º 9394/96, do ponto de vista da democratização da escola, é no âmbito da gestão escolar que ele pode ou não vir a consolidar-se como prática escolar. Portanto, torna-se cada vez mais necessário enfatizar os limites e as possibilidades que a lei oferece, menos como expressão de normas jurídicas e genéricas e mais como instrumento indutor de modificações de práticas sociais concretas, neste caso, das práticas escolares. REFERÊNCIAS BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil-1988, Brasília, DF, 1988. ______. Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei Nº 9.394/1996. ______. Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Introdução. Ensino Fundamental. Brasília: MEC/SEF, 1998. ______. Plano Nacional de Educação. 2001. Disponível em <http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/pne.pdf>. Acesso: 05 mar. 2016. GRACINDO, Regina Vinhaes. Gestão democrática nos sistemas e na escola. Brasília: Universidade de Brasília, 2007.Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/11gesdem.pdf>. Acesso: 16 mar. 2016. LÜCK, Heloisa; FREITAS, Kátia Siqueira de; GIRLING, Robert; KEITH, Sherry. A escola participativa: o trabalho do gestor escolar. 5.ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2008. 8 http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/pne.pdf http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/11gesdem.pdf UNIDADE DE ESTUDO 03 gestão democrática e a legislação brasileira