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1 RELACIONAMENTO INTERPESSOAL SUMÁRIO 1 AS RELAÇÕES HUMANAS E SUA DINÂMICA A SOCIEDADE ..................................... 3 1.1 As Relações Humanas e as Épocas: Breve Relato Sobre as Eras Históricas ...... 5 1.2 Relações Humanas: Conceitos e Teorias ............................................................ 9 1.3 Os Padrões de Relação ..................................................................................... 12 1.4 Processos Obstrutivos das Relações Humanas: O Conflito ............................... 15 2 RELAÇÕES HUMANAS E OS GRUPOS ...................................................................... 16 2.1 Relações Familiares .......................................................................................... 36 2.2 Relações de Trabalho ........................................................................................ 38 2.3 A Dinâmica de Viver em Equipe e Processos Grupais Básicos: Percepção e Comunicação ....................................................................................................................... 42 3 LIDERANÇA E RELAÇÃO ENTRE LÍDER E LIDERADOS ........................................... 47 3.1 Liderança e Relação entre Líder e Liderados .................................................... 48 3.2 Motivação .......................................................................................................... 51 3.3 A Ética nas Relações Humanas......................................................................... 53 3.4 Lideranças na Saúde Coletiva e Individual ........................................................ 56 4 ANÁLISE DE SITUAÇÕES REAIS DE GRUPO POR MEIO DAS PESQUISAS, JOGOS, TÉCNICAS E VIVÊNCIAS ................................................................................................... 50 4.1 Conhecimento Pessoal: Gráfico da Vida ............................................................ 55 4.2 Desenvolvimento da Consciência Crítica e das Habilidades Interpessoais Através das Atividades Coletivas ...................................................................................................... 58 4.3 Inteligência Emocional ....................................................................................... 60 4.4 Resiliência ......................................................................................................... 64 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................................................. 71 1 AS RELAÇÕES HUMANAS E SUA DINÂMICA A SOCIEDADE Há um olhar que sabe discernir o certo do errado e o errado do certo. Há um olhar que enxerga quando a obediência significa desrespeito e desobediência representa respeito. Há um olhar que reconhece os curtos caminhos longos e os longos caminhos curtos. Há um olhar que desnuda, que não hesita em afirmar que existem fidelidades perversas e traições de grande lealdade. Este olhar é o da alma. NiltonBonder Por relações humanas compreendem-se, também, relações interpessoais, ou seja, relações que se estabelecem entre as pessoas. Quando se refere às relações humanas e sua dinâmica na sociedade, pode-se acrescentar que acontecem de um modo especial, vivo, dinâmico, com movimento e fluidez, e inseparável do social e seu contexto histórico. Por relações humanas compreendem-se, também, relações interpessoais, ou seja, relações que se estabelecem entre as pessoas. Quando se refere às relações humanas e sua dinâmica na sociedade, pode-se acrescentar que acontecem de um modo especial, vivo, dinâmico, com movimento e fluidez, e inseparável do social e seu contexto histórico. O indivíduo é um ser social, que, pela sua própria natureza humana, é colocado em um contexto relacional para que seu desenvolvimento ocorra, garantindo sua sobrevivência. A palavra dinâmica, segundo Ferreira (2005, p. 319), aponta para: “[...] parte da mecânica que estuda os movimentos dos corpos, relacionando-os as forças que os produzem”. De acordo com esta definição do termo, pode-se pensar que ao falar sobre relações humanas e sua dinâmica na sociedade, está se falando de um processo de mútua relação, em movimento de constantes interações de forças que se afetam. As relações humanas têm sido alvo de vários estudos do comportamento, vêm sendo estudadas como uma ciência, a ciência do comportamento humano (MINICUCCI, 2012). As relações humanas estão presentes em diversos contexto e épocas humanas. Elas estão na base da constituição dos vínculos familiares, de trabalho, de lazer e outros. Dentro destes contextos relacionais vários problemas podem surgir em decorrência da própria dinâmica estabelecida na relação humana, a partir daí surgem os conflitos, que podem acontecer nas relações interpessoais (entre as pessoas), entre os grupos (nações, religiosos e outros) ou entre o ser humano com ele mesmo (relação intrapessoal). As próximas unidades serão um convite para a aproximação com o tema, devido a sua importância, pois se imagina que um profissional de saúde saiba cuidar da saúde de seus pacientes, assim como um professor saiba ensinar, mas para que isto ocorra, deve-se lembrar de que tais tarefas também se desenvolvem dentro de um contexto relacional, e que se faz necessário uma compreensão e capacidade para lidar com o ser humano, percebê-lo, relacionar-se bem com o outro, assim como, ter capacidade empática, e compreensão de suas próprias emoções (MINICUCCI, 2012). Os pacientes apresentam melhoras, em seu quadro clínico, e atribuem algumas vezes, tal fato a capacidade do profissional de saúde em acolhê-los na hora da dor. As relações humanas exigem disponibilidade para o encontro humano, nem sempre este processo se torna fácil, mas se pode minimamente considerar que é possível um preparo, na medida em que o ser possui uma abertura para tal encontro. É importante lembrar que todo desenvolvimento das sociedades humanas depende do desenvolvimento e amadurecimento das relações humanas, assim como o futuro do planeta. encurtador.com.br/drIXY 1.1 As Relações Humanas e as Épocas: Breve Relato Sobre as Eras Históricas A dinâmica das relações humanas vem mudando com o tempo. Inicialmente, os seres humanos agrupavam-se e se relacionavam em decorrência da própria sobrevivência. Desde o berço da humanidade, o homem percebeu as vantagens para sua sobrevivência ao permanecer no bando. A vivência em bando trouxe a proteção da espécie, e, consequentemente, as relações começaram a ser estabelecidas, marcando o início do processo civilizatório. A forma de comunicação utilizada, no período da Pré-História, era basicamente manifesta através de gestos e símbolos. Neste período, o homem passa a se diferenciar dos animais por viver em grupos, ou bandos com grande número de integrantes, assim como pela criação de arma para caça. A criação de armas para caça marca o início do poderio bélico como vantagem para sobrevivência. encurtador.com.br/evGIR Historicamente, os conflitos começam a surgir a partir deste momento, sejam eles pela dominação, do mais forte do bando sobre os outros integrantes, ou entre os diferentes bandos. O início do desenvolvimento das relações humanas, na Pré- História, fica assim marcado, desde os primórdios da humanidade, pela necessidade de sobrevivência, pelo exercício da comunicação, pelo conflito e pelo surgimento do líder, sendo que este último nasce da dominação do mais forte sobre o mais fraco, portanto, naturalmente, o líder era o mais forte do grupo fisicamente. Na Idade Antiga, surge o início da escrita e, com isso, o ser humano passa a comunicar-se de forma mais elaborada e sistematizada. Período que se inicia aproximadamente,por volta do ano de 4000 a.C., neste momento o homem passa a criar leis e regras para garantir a organização e a vida das pessoas na sociedade. O papel do líder assume outra conotação neste período histórico, através da criação do Estado, de leis e regras para serem aplicadas na sociedade, com a ideia de oferecer organização e estabilidade para os seres humanos, cabe ao mesmo governar o Estado e garantir que as leis possam ser cumpridas. Neste período da civilização, surgem também, as primeiras grandes religiões, o Judaísmo, o Cristianismo, o Islamismo e o Budismo, marcando assim, grandes grupos, aonde os integrantes se relacionavam entre si, através da relação com o Divino. O Divino e as leis vão surgir como Fenômenos Intermediários das relações humanas. Os Fenômenos Intermediários, neste caso, são compreendidos à luz da teoria Psicanalítica, expressa na figura de Winnicott. Tal conceito traz em si a ideia de espaço potencialmente criativo, lugar onde o interno do ser humano manifestasse para o externo, local da cultura e criatividade, área intermediária, na qual o subjetivo do ser manifesta-se e encontra-se com a realidade externa (ABRAM, 2000). Este período, também é marcado pelo desenvolvimento da filosofia grega, e seus avanços teóricos. Pode-se pensar em um avanço evolutivo do ser humano na sociedade, a barbárie aos poucos vai sendo abandonada como forma de relação e o pensamento racional começa a criar espaço na civilização (ARIÈS; DUBY, 1989). A Idade Média, também conhecida como a Idade das Trevas, tem seu início no século V, e dura por volta de mil anos. Período em que o Império Romano tem sua ascensão e queda. Como aponta Ariès e Duby (1989. V.I p. 401) a seguir: Três séculos se passaram. Clóvis foi batizado em 499 e recebeu as insígnias de cônsul de Roma (quer dizer, de Bizâncio, capital do Império Romano amputado em suas províncias ocidentais, que os bárbaros ocuparam). Aboliuse o mundo grego - romano no Ocidente, onde começam os nossos tempos [...] Barbarização do Ocidente, porém menos sob os golpes dos germanos, admiradores da grandeza romana, que em consequência de sua tomada do poder político; humilhada por não mais deter o comando, a velha aristocracia dos notáveis, ao mesmo tempo pais das cidades e nobreza funcional no aparelho romano, já não encontra sentido em nada, cruza os braços e perde o que fazia do mundo romano uma sociedade “civilizada”: uma vontade inconsciente de autoestilização; apenas a igreja, para seus próprios objetivos, mantém um pouco dessa vontade. As relações humanas são pautadas e manifestas pela violência, medo e por movimentos repressores na política e na religião. A Igreja Católica neste período, entre outros aspectos, destaca-se pela relação com seus fiéis, ou infiéis, e pela grande Cruzada empreendida no Oriente Médio para combater os mulçumanos. As relações neste período também são marcadas pelo exercício de poder absoluto de alguns sobre a vida de outros. Sob o domínio do medo, os seres humanos que se encontravam em uma posição inferior ao líder, vivenciavam submissão absoluta (ARIÈS; DUBY, 1989). encurtador.com.br/egsLM As relações familiares em sua constituição eram inicialmente formadas por interesses econômicos e de conveniência, os casamentos eram arranjados pelas famílias sem o consentimento dos filhos. Estas relações humanas que se estabeleciam não tinham como preceito para a união o sentimento ou a paixão amorosa. Passamos agora para a Idade Moderna, historicamente, período que se inicia no século XV, marcado por profundas mudanças na vida e nas concepções de mundo do Continente Europeu. As relações humanas passam por transformações neste momento. Este período também é chamado de Renascimento, pois neste momento ocorre a retomada de alguns valores desenvolvidos pelos antigos gregos na Idade Antiga. A Idade Moderna foi um período marcado por grandes navegações e a tomada de consciência de um mundo ainda por ser descoberto e explorado pelo homem, diferentemente do mundo preconizado pela religião, totalmente construído e terminado por Deus. Inicia-se nova relação do ser humano com o mundo. O conhecimento científico passa a ser uma meta em progressão, em detrimento do conhecimento religioso (ARIÈS; DUBY, 1989). O conhecimento passa a ser centrado no exercício da razão pura, ou seja, o que se inicia é um período em que os sentimentos ou os sentidos não devem ter interferência em tal exercício. Neste período, o Iluminismo apresenta a Razão como meta a ser desenvolvida e alcançada no avanço das civilizações e do conhecimento, tal movimento serve de apoio para a Revolução Francesa. Nasce a noção de progresso e reivindicação de lugares melhores na sociedade, através do trabalho e do conhecimento. Todo este movimento marca o início de grupos que se estabeleciam e se relacionavam através das reivindicações por direitos de uma parte da sociedade marginalizada e esquecida. Os grupos criam força para que as mudanças sociais ocorram; as relações humanas dentro destes grupos apresentam caráter progressista (OSÓRIO, 2004). encurtador.com.br/uKPYZ A Revolução Industrial, outro marco importante, traz profundas transformações nas relações familiares. A invenção da máquina a vapor iniciou uma revolução tecnológica e, como consequência, trouxe transformações nos hábitos, valores humanos e costumes. Com a possibilidade de ascensão financeira, as famílias passam a ser constituídas pelo amor, embora na Idade Média as uniões pudessem se constituir através dos sentimentos amorosos, isto não era considerado fator decisivo para que as pessoas se unissem através do casamento (FERRY, 2012). Pode-se pensar que, deste ponto de vista, ocorre um enfraquecimento nas relações familiares no modelo antigo, que consistia no matrimônio dos filhos decidido pelos pais. Finalizando este breve relato, adentramos no contemporâneo, ou como alguns historiadores apontam, no período Pós-Moderno. Neste período, o grande avanço científico tem como base o amadurecimento do Iluminismo, surgem novos conhecimentos para a compreensão do homem e sua relação com o mundo (ARIÈS; DUBY, 1989). A Idade Contemporânea é marcada por grandes conflitos e eventos que abalaram o mundo, a Primeira e a Segunda Guerra Mundial, por exemplo, mas também a Guerra Fria e a criação da bomba atômica. Por outro lado, surgem movimentos nos quais a solidariedade e o afeto são razões para as pessoas se agruparem. A forte tendência, embora a passos pequenos, do ser humano, de não mais morrer pela religião ou pela revolução, mas tentar preservar o planeta para as futuras gerações ou escolher constituir uma família através do amor, marcam uma nova forma do humano se relacionar consigo e com o mundo. Ainda que desajeitadamente, como nos comprova a história, o ser humano vem seguindo um caminho evolutivo de mudança (FERRY, 2012). Neste contexto, os próximos capítulos serão um convite para conhecermos alguns conceitos sobre as dinâmicas das relações humanas e liderança. Como nos aponta a história, tais conceitos seguem em paralelo com a evolução do ser humano no campo social e individual. 1.2 Relações Humanas: Conceitos e Teorias O homem está em constante atividade transformadora, em sua relação pessoal, com o outro e com o seu mundo, relações que têm seu princípio na necessidade (RIVIÈRI, 2000). À luz da psicologia, ciência que se propõe a estudar o comportamento das espécies, humana e animal; da psicanálise, método psicodinâmico, de observação e análise do comportamento humano criado por Freud; e da sociologia, que se propõe a estudar as relações entre as pessoas que vivem em um determinadogrupo social ou as relações existentes entre os distintos grupos sociais, o conceito sobre relações humanas, vem sendo construídos após a revolução industrial. As Relações Humanas podem ser: intrapessoais, ou seja, relação de comunicação, consciente ou inconsciente (Freud, 2000), estabelecida por um indivíduo com ele mesmo, ou interpessoal, que diz respeito à relação humana estabelecida entre as pessoas (MINICUCCI, 2012). A nomenclatura Relações Humanas pode ser entendida, usualmente, como relações interpessoais, que ocorrem entre as pessoas, membros de um grupo e entre os grupos dentro de uma instituição, ou organização (MINICUCCI, 2012). Podemos pensar também que essas relações interpessoais podem ter seu início desde a gestação de um bebê, na medida em que a mãe passa a imaginar como seria a criança, ou ter respostas do seu bebê, ainda em sua barriga, quando está o acaricia. Pesquisas sobre psiquismo do bebê, na vida intrauterina, tem apontado para respostas interessantes no sentido da constituição de uma relação humana já nos primórdios da vida (SOUZADIAS, 1999). Portanto, as Relações Humanas podem ser estudas e observadas desde os primórdios da vida de um ser. O conceito, de Relações Humanas também pode ser entendido, como a interação que ocorre entre duas pessoas, no mínimo. Esta interação pode se manifestar através da forma física, mímica e verbal (SAMPAIO, 2000). As teorias sobre as Relações Humanas surgem de áreas próximas, mas, não iguais, portanto, cabem aqui algumas distinções. A Teoria das Relações Humanas surgida no campo da Sociologia das Organizações difere, por exemplo, das teorias que têm em sua base os conceitos psicanalíticos, a primeira, vale a pena lembrar, trata do homem e suas relações com os grupos sociais, enquanto que a segunda revela a relação do homem com ele mesmo, seus aspetos subjetivos, e com o grupo, mas podemos pensar que embora tais teorias tenham visões sobre o homem diferentes, ambas podem auxiliar na compreensão desta complexidade que é o ser humano. O movimento das Relações Humanas surge como reação crítica, contra a Organização Científica do Trabalho. Esta última trata-se de uma teoria administrativa, que teve seu início por volta do ano de 1903, cujo mentor, foi o engenheiro americano Frederik W. Taylor. Com ênfase nas tarefas, nos métodos de trabalho e enfoque na racionalização no nível operacional para o alcance da eficiência, tal teoria trouxe a tecnologia como fator de influência no pensamento da época, em detrimento do ser humano (CHIAVENATO, 2005). A seguir será apresentado um gráfico com as principais características do modelo da Organização científica do trabalho. FONSECA, 2013. Esta teoria trouxe à tona conceitos rígidos e mecanicistas, tratando o ser humano como uma máquina, sendo necessário a sua reformulação em decorrência do próprio desenvolvimento humano. Neste sentido, surge a Teoria das Relações Humanas, pode-se dizer que ela se dedica à compreensão e aos estudos das condições humanas do trabalho. Tem como seu mentor o cientista social Elton Mayo (1880-1949), dentre os seus trabalhos o que mais se destaca é a Experiência de Hawthorne. Psicólogo industrial australiano que preconizava que a monotonia conduzia a fadiga e que os aborrecimentos levavam a pensamentos depressivos, assim como acreditava que o conflito era uma ferida social, e a cooperação e a ajuda mútua trariam o bem-estar social (DAVEL; VERGANA, 2012). A experiência de Hawthorne nasceu da necessidade de humanizar e democratizar a gestão, estava sintonizada com os avanços da psicologia e da sociologia da época, e acabou por demonstrar a inadequação dos princípios da Teoria Clássica de gestão de pessoas. Tal experiência trata-se de uma pesquisa realizada entre 1927 e 1932, sob a coordenação de Elton Mayo em indústrias americanas, com grupos de trabalhadores (DAVEL; VERGANA, 2012). Através de entrevistas e observações, tais estudos evidenciaram a importância da coexistência de uma organização formal, dentro de uma lógica de custos e eficiência, com a informalidade da lógica de sentimentos e afetos. A conduta dos trabalhadores, não poderia ser compreendida, caso fosse ignorado a constituição informal dos grupos, as relações humanas e os vínculos existentes entre os participantes do mesmo, assim como, as relações dos grupos entre si e com a empresa como um todo. Dentro deste contexto podemos observar novamente a evolução da compreensão das Relações Humanas em consonância com o desenvolvimento sócio e histórico. A seguir será apresentado um quadro com os principais tópicos da Teoria das Relações Humanas. FONSECA, 2013. Os sentimentos e afetos passam a ser considerados na constituição das relações humanas no ambiente de trabalho. No item anterior deste capítulo, foram levantadas as mudanças nas constituições das relações familiares, as quais, também, após a revolução industrial, passam a considerar os sentimentos na construção dos vínculos, lembrando que isto poderia acontecer, mas não era necessário. Hoje podemos afirmar que para a constituição das relações humanas os sentimentos são fundantes e necessários. No próximo item serão levantados, alguns dos padrões de relação comuns a toda a espécie humana. 1.3 Os Padrões de Relação Ao falarmos sobre relações humanas, estamos nos aproximando de algo que diz respeito a todos enquanto espécie humana, embora todos sejamos portadores de singularidade, podemos também perceber aquilo que nos torna próximos uns aos outros, criando, assim, uma identificação. De acordo com Ferreira (2005, p.602 - 694), entendemos o sentido das palavras padrão e relação como: Padrão [...] 1. Modelo oficial de pesos e medidas. 2 Aquilo que serve de base ou norma para avaliação; medida. 3. Aquilo que serve de modelo à feitura de outro. [...] 5. Modelo, exemplo, protótipo. E quanto ao conceito de relação: Relação [...] 1. Ato de relatar; relato. [...] 3. Vinculação, ligação. 4. Comparação entre duas quantidades mensuráveis. 5. Ligação, contato; comunicação ou interação entre pessoas, grupos ou países. 6. Relacionamento (3). [...] Alguns estudos apontam para padrões de que se estabelecem dentro de um contexto relacional humano. Por exemplo, temos a noção de vínculo formulada por Riviere (2000), que é compreendida como uma organização, complexa, que inclui dois seres humanos e sua mútua inter-relação com os processos de comunicação e aprendizagem. Estas relações intersubjetivas acontecem em decorrência das necessidades, que podem ser primitivas, como as de sobrevivência, mais amadurecidas como as de afetos, ou ainda, as de ordem mais operacional, como as relações que se estabelecem em função de uma determinada tarefa, e outras. Na prática, as necessidades aqui descritas podem se misturarem e se agregarem. Estas necessidades são a base da motivação para que as relações humanas aconteçam e os vínculos se constituam. Dentro do processo de constituição vincular das relações do sujeito estão presentes as fantasias inconscientes ou conscientes, as vivências infantis e adultas, sejam elas também conscientes ou inconscientes. Os conteúdos inconscientes tratam de marcas mnêmicas ou construções de representações psíquicas, sejam elas de ideias ou afetos, subjacentes ao consciente, ou seja, uma parte da qual o sujeito não tem acesso consciente, a não ser através dos conteúdos psíquicos manifestos que surgem dentro de um contexto relacional com outra pessoa, ou através dos sonhos, na relação do sujeito consigo mesmo. Não podemos esquecer que, em uma relação entre duas pessoas, também está presente a relação do sujeito com ele próprio. Quanto melhor a pessoase conhecer, melhor será sua compreensão para com os outros (MINICUCCI, 2012). A seguir será descrito um recorte clínico de um caso para esclarecer e exemplificar alguns padrões de relação que podem surgir em um contexto relacional, sobre a importância da comunicação e da relação humana estabelecida entre uma equipe de saúde, para o auxílio da construção de uma relação humana, entre uma jovem mãe e seu bebê. O caso se passou em uma enfermaria dentro de um hospital geral, o psicólogo havia sido solicitado para fazer uma avaliação psicológica da mãe, que, apesar de ter leite, se recusava a tirá-lo para alimentar seu bebê, assim como recusava tocá-lo. Por ser prematuro, o bebê havia ficado no hospital para receber alguns cuidados, enquanto a mãe já estava de alta. O medo de todos osintegrantes de equipe, inclusive do psicólogo, era com respeito à possibilidade de a mãe abandonar o bebê no hospital e desaparecer, ou ainda, a saúde do bebê ser afetada pela falta do estabelecimento de vínculo com a mãe. Toda a equipe já estava preparada para tais fatos, inclusive para uma possível adoção, caso ocorresse o abandono, por exemplo, pois, frente ao bebê e seu desamparo, um dos padrões de comportamento que surge é o de cuidar, para que ele sobreviva. Vale lembrar que isto é verdade desde a Pré-história, as pessoas se relacionavam e andavam em bandos para sobreviver. O problema é que, hoje, um bebê necessita para sobreviver, além dos cuidados físicos, de afeto, e isto só pode ocorrer no processo do estabelecimento de um vínculo, e este, a princípio, poderia ser construído através da relação da mãe com o seu bebê. A mãe não conseguia conversar com ninguém. Todos os membros da equipe suspeitavam que fosse de um depressão pós-parto que estava guiando o comportamento da mesma, tal fato não se confirmou através de uma avaliação psicológica realizada. Com muito cuidado e delicadeza, uma das enfermeiras conseguiu estabelecer um vínculo com a mãe. Esta profissional abriu mão de qualquer julgamento moral e a acolheu, dando atenção para suas histórias. Aos poucos, a mãe foi relatando sobre sua história de infância: havia sido abandonada em um hospital pela mãe biológica e adotada por uma enfermeira, que falecera há pouco tempo. A mãe encontrava- se em plena vivência do luto pela perda da mãe adotiva. O medo desta mãe era o de se vincular ao bebê e este morrer por ser prematuro. Novamente, é importante recordar que o medo da morte ou da perda é algo comum a todos os seres humanos. Através deste relato, a mãe, após chorar muito, se aproxima do bebê e consegue cuidar dele, até sua alta. Com relação à enfermeira, esta, por possuir uma habilidade no que diz respeito à empatia, conseguiu sensibilizar-se o suficiente para se aproximar da mãe e relatar o ocorrido em reunião de equipe, e esta por sua vez, ampliou o acolhimento para com a paciente. Todos os dias alguém da equipe se aproximava da mãe para escutá-la sobre seus medos e perdas. A mãe, naturalmente, estava revivendo, através do nascimento de seu filho, suas próprias experiências infantis. Não havia percebido o quanto tal fato a estava afetando e a impedindo de cuidar do seu bebê. Através do acolhimento oferecido pela enfermeira, a mãe pôde perceber o medo fantasioso que a estava paralisando. Neste sentido, embora o tratamento psicológico possa ser uma ferramenta importante, o que se pode pensar, além disso, é que a própria relação humana pode ser altamente terapêutica, independentemente da profissão exercida pelo membro de uma equipe de saúde, o importante é a disponibilidade para o encontro humano. A seguir, vamos observar no próximo item o que pode obstruir este tão importante processo que é o estabelecimento das relações humanas. 1.4 Processos Obstrutivos das Relações Humanas: O Conflito Neste processo em construção, muitos desvios podem acontecer, alguns podem surgir da própria dificuldade de codificação da mensagem, em decorrência de vivências subjetivas, ou seja, o processo de comunicação pode falhar, seja do lado de quem comunica ou do lado de quem recebe a mensagem. Muitos processos obstrutivos podem surgir, gerando, assim, conflitos dentro de um contexto relacional. Por conflito, entendem-se, mecanismos em ação simultânea, de impulsos antagônicos, frente aos quais o indivíduo necessita fazer uma escolha, sendo que, sem a possibilidade de fazer tal escolha, isto acarretará em frustração, (CABRAL; NICK, 1989). O conflito pode surgir na relação intrapessoal, ou seja, na relação do sujeito com ele mesmo, nas relações interpessoais entre as pessoas ou, ainda, nas relações entre os grupos. Nas relações interpessoais, os conflitos podem surgir através da busca pelo poder, de personalidades que funcionam de modo primitivo, aonde a solidariedade ainda não foi instalada como característica, e que trazem em si o germe da opressão. As situações novas, também, entre outros fatores, podem gerar conflitos entre as relações humanas. O ser humano apresenta, naturalmente, tendência à acomodação. Frente ao novo se depara com a necessidade de uma adaptação, este movimento em si gera conflito interno, entre sua tendência a permanecer na repetição e o desconforto do estresse gerado pelo novo que as situações desconhecidas, por serem novas, apresentam (ARANTES; VIEIRA, 2010). O medo da perda e o do ataque, pertinentes ao ser humano desde a sua origem, quando em desequilíbrio, geram conflitos intrapessoais e interpessoais. Estes medos surgem frequentemente frente a situações novas e se manifestam, muitas vezes, através de comportamentos ansiosos ou defensivos. No contexto das relações humanas não se pode esquecem que todos os seres carregam uma história, que se inicia na gestação humana, mas também muito antes dela, pois todos os seres fazem parte de um contexto relacional antes de nascerem, através da história de seus familiares. São histórias pessoais que estão no inconsciente, de geração em geração, desde os primórdios da espécie, e, embora o ser tenha evoluído muito, com avanços das ciências de modo geral, a alma humana ainda hoje tem muito a ser desvendada, e muitos conflitos a serem compreendidos e resolvidos. Conflitos estes que obstruem o processo do desenvolvimento das relações humanas e que podem estar vinculados a experiências traumáticas armazenadas no inconsciente, que podem, também, estar sendo passadas de geração a geração, assim como podem vir a se manifestar nas relações intrapessoais e interpessoais (CORREA, O.B.R. (ORG.), 2001). 2 RELAÇÕES HUMANAS E OS GRUPOS Para falar sobre relações humanas e grupos, faz-se necessário relembrar aqui que os grupos são constituídos por seres humanos que carregam consigo sua subjetividade e trazem em si a singularidade própria de cada um. Todos os seres humanos, desde a Pré-História, vivenciaram a experiência grupal, como exemplo disso tem-se a experiência dentro dos bandos para a sobrevivência da espécie, além de outros grupos que foram surgindo com a evolução da espécie humana, como as famílias, os grupos escolares, os grupos de trabalho, os grupos de recreação e outros, os quais a criatividade humana pôde fazer emergir espontaneamente. Pode-se concluir, naturalmente, que um grupo é constituído por seres humanos, que fazem parte dele e se afetam mutuamente, a exemplo disto, pode-se pensar em uma orquestra, onde todos os músicos, com seus instrumentos, estão interligados em mútua afetação para produzir o som de uma sinfonia. Do que se trata um grupo, afinal?Esta é uma excelente pergunta. Ao definir o que é um grupo, tem-se que trazer à luz a diferença de agrupamento de pessoas e grupo. Em um grupo, ou sistema humano, como alguns autores apontam (OSÓRIO, 2003), existe uma ação interativa das quais seus integrantes, trazendo consigo sua potência, reconhecem sua própria singularidade e objetivos compartilhados por todo o grupo. Um bom exemplo disso é uma equipe de saúde, que tem como objetivo cuidar de uma enfermaria neonatal, todos tem em comum a meta de dar assistência aos bebes, mas este mesmo grupo tem também, reunião clínica semanal e após ela tomam café juntos. Durante todos estes encontros, uns acolhem os outros através das experiências compartilhadas, tanto nas reuniões clínicas como no café, tal atitude permitiu que este grupo desenvolvesse uma relação afetiva e afetuosa, facilitando, assim, a tão difícil tarefa de trabalhar em uma enfermaria pública com bebê de alto risco. Para que um grupo seja formado, vale lembrar, se faz necessária a interação entre os membros, e, naturalmente, os papéis passam a ser desempenhados, surgem, assim, líderes ou liderados, pacificadores ou agitadores. Ao esclarecer o conceito de agrupamento, vale à pena pensar em uma fila de supermercado, na qual existe um grupo de seres reunidos para pagar por suas compras, mas eles não interagem e sua singularidade não é reconhecida pelos integrantes da fila. No máximo, haverá uma interação entre o membro da fila e o funcionário do caixa. Os grupos podem ser naturais, como a família, ou espontâneos, como os que se constituem em um ambiente de trabalho. Todas as vezes que estes grupos se comportarem, segundo a própria definição de grupo e não agrupamento, pode-se dizer, por exemplo, que a família ou o grupo de trabalho realmente é um grupo ou sistema humano, do qual o ser pertence. Fica impossível separar os seres humanos dos grupos e da sociedade, os quais estão situados dentro de um contexto sócio histórico de uma época, e isto se faz verdade desde sempre. Dentro do processo relacional que ocorre nos grupos, vários fenômenos podem ocorrer, nos próximos itens desta unidade será abordado, através da teoria e prática, alguns destes fenômenos relacionais que ocorrem em alguns grupos os quais o ser faz parte, como a família e o trabalho. 2.1 Relações Familiares O bebê, ao nascer, forma com sua mãe, ou alguém similar (aquele que vai cuidar do bebê e constituir o vínculo humano), um primeiro grupo que vai ser fonte da primeira experiência de relação humana e que acontece através desta interação, a partir desta relação, ou ao mesmo tempo, os outros membros da família vão sendo inseridos neste contexto interativo com o bebê e vão desenvolvendo o reconhecimento frente às singularidades do novo membro do grupo, a saber, o bebê. Assim, pode-se afirmar que a família, independentemente do número de seres que façam parte dela (mãe e pai; mãe e avó; pai e avó; tia e mãe e outras formações), faz parte da primeira experiência de relação humana, e que a partir destas relações familiares outras construções vão acontecer durante o desenvolvimento do ser, assim, mais tarde, a criança passa a fazer parte de outros grupos, desenvolvendo- se em um contexto relacional desde criança até a idade adulta. Este desenvolvimento fica marcado pela experiência do ser que se manifesta dentro de um contexto grupal, no qual os membros integrantes dos grupos trazem consigo seus valores, suas experiências, memórias que podem ser inconscientes ou conscientes, interagindo em mútua relação uns com os outros. Estas memórias ficam armazenadas e, mais tarde, podem se tornar padrões de comportamento, que vão surgir através do comportamento do ser e a manifestação da sua subjetividade. Pode-se pensar que, atualmente, as famílias são constituídas pelo afeto amoroso, e que tudo tem um início, ou seja, antes do bebê vem o casal que o gerou. Vale lembrar que cada integrante do casal carrega consigo suas memórias inconscientes ou conscientes de padrões de comportamento. Apresentam diferenças com relação a aspectos biológicos, psíquicos, sociais e culturais, entre outros. Tais diferenças podem ser fonte de conflitos. Os pontos mais marcantes no desenvolvimento de um ser e dos grupos dizem respeito a estas diferenças e de como elas podem ser manifestadas, vividas, mas também esclarecidas (RIVIÈRI, 2000). As diferenças surgem e provocam mudanças no contexto grupal familiar, por exemplo, o nascimento de um bebê em uma família altera completamente os papéis desempenhados pelos membros deste grupo. A mãe, que antes era somente esposa e filha, assume o papel de mãe devido à própria singularidade do bebê, que convida para que alguém interaja com ele, ou ele pode adoecer. Esta singularidade é biológica, mas também psíquica, pois, como nos capítulos anteriores foi descrito, o bebê tem necessidade de desenvolver um vínculo humano, isto quer dizer que não são somente os cuidados físicos que garantem a sua saúde. O próprio bebê torna-se uma influência para a mudança e o desenvolvimento de novos papéis na família. Dentro desta visão, pode-se pensar que o grupo familiar, quando está formado ou melhor estruturado, existe a influência entre os membros e um reconhecimento das singularidades de cada um. Mais adiante, o bebê vai reconhecendo, através dos vínculos constituídos, quem desempenha o papel de mãe, pai e se reconhece no papel de filho. Estes papéis podem sofrer inversões de acordo com a subjetividade de cada um, por exemplo, pode ocorrer que o pai, pela própria imaturidade psíquica, permaneça no papel filial, esperando receber cuidados maternos da sua parceira, esta, por sua vez, pode também funcionar de modo regredido psiquicamente e esperar do marido os mesmos cuidados filiais, neste sentido, o caos está instalado, pois o bebê não pode ocupar o papel que, pela sua própria condição, se faz necessário. Tal dinâmica, muitas vezes, instaura- se no grupo familiar, trazendo conflitos e prejuízos para o desenvolvimento de todos os membros. A dinâmica familiar funcional é aquela que consegue reconhecer as diferenças individuais dos membros e está intimamente ligada ao desenvolvimento dos papéis de mãe, pai e filho, ou a possibilidade de que alguém exerça tais funções. Os papéis familiares de mãe e pai, assim como o de filho, podem ser ocupados por outros membros do grupo, não necessariamente pelos pais biológicos, por exemplo. A família também muda com a época, se por um lado, no contemporâneo, as famílias são constituídas pelo amor, também vale lembrar que o ser humano vai se atrapalhar um bocado até que tal sentimento seja levado a sério. Alguns grupos familiares ainda funcionam como simples agrupamentos humanos sem interagir entre si e sem o reconhecimento de suas singularidades. 2.2 Relações de Trabalho O homem, em sua condição humana, apresenta várias necessidades, como já foram mencionadas anteriormente, tais necessidades tornam-se fontes de motivação para as ações e vivências em grupo e com relação ao trabalho. O ser humano, frente ao trabalho, segundo Minicucci (2012), apresenta necessidades egoísticas, físicas e sociais. Por necessidades egoísticas se entende as necessidades do homem de ser útil, de ter autonomia para realizar tarefas que considera importante, as quais têm valor para ele e que trazem satisfação. As necessidades físicas ou de segurança existem desde a PréHistória, embora elas possam ter evoluído com o tempo, ainda dizem respeito à necessidade de moradia, comida, água e, mais recentemente dentro da nossa cultura,manter um padrão de vida que propicie a satisfação material compatível com as exigências de nossa sociedade. Com relação às necessidades sociais, é importante lembrar que o homem é um ser social pela sua própria natureza humana e que, quando ele se isola, pode ser indício de algum sofrimento relacionado a tal conduta, como acontece em algumas patologias psíquicas que apresentam seus primeiros sinais através do isolamento social, por exemplo, no caso das depressões. O ser humano, naturalmente, enquanto ser social, procura interagir com outros seres, ter reconhecimento de sua singularidade e fazer parte de algum grupo, sendo tal interação fonte de alegria e satisfação, ou não, estas são as necessidades sociais. Embora as necessidades do ser humano com relação ao trabalho possam ser descritas, elas não podem ser limitadas a tais descrições, pois o ser traz em si sua espontaneidade e criatividade, tornado esse processo dinâmico, mutável e interligado. Para finalizar, é importante ressaltar que as necessidades também podem ser inconscientes e tão importantes quanto àquelas que são perceptíveis e conscientes ao trabalhador. Alguns tipos de organização de trabalho trazem uma sobrecarga psíquica para o trabalhador, em decorrência da própria insatisfação gerada pela organização do trabalho associada ao estresse da tarefa. Muitas vezes, essa insatisfação se dá no nível do inconsciente, mas os efeitos são visíveis na saúde do trabalhador, gerando doenças físicas e emocionais. Quadro das necessidades com relação ao trabalho FONSECA, 2013. Para exemplificar, pode-se voltar ao caso clínico anteriormente descrito e imaginar que a enfermeira, a qual acolhera a mãe, estivesse hipoteticamente em seu segundo plantão sem folga, por conta da necessidade de sustentar sua família, mas, mesmo assim, estava motivada para acolher a mãe e o bebê. Tal motivação decorria de sua necessidade inconsciente de cuidar dos pacientes, para com pensar sua ausência frente à própria família. Caso fosse ignorada e não validada em sua percepção sobre a mãe do bebê, ou até mesmo impedida de relatar sua observação, por uma questão hierárquica, aonde seu saber é desconsiderado frente o saber de outros membros da equipe de saúde, qual seria o desfecho para a dupla mãe-bebê e qual seria o resultado final na enfermeira? Como nos aponta Dejours (1988), a relação entre o homem e o trabalho é histórica e contínua, e traz consequências tanto benéficas quanto maléficas para a vida do ser humano. Como resultado de um organização do trabalho baseada no modelo Taylorista (Organização Cientifica do Trabalho, OCT), o indivíduo tende a vivenciar o trabalho como um causador de sofrimento mental, podendo evoluir para o adoecimento psíquico e físico. O trabalho, neste sentido, não traz satisfação, tampouco espaço para a sublimação das necessidades criativas do homem, tornando-se maçante e repetitivo, sem possibilidade de crescimento. Dentro dessa abordagem, o trabalhador praticamente vê-se inutilizado em sua capacidade de pensar, pois, somente sua atividade corporal é solicitada. A atividade do pensar fica privilegiada a apenas algumas categorias, neste modelo a hierarquia de cargos é fortemente marcada (DEJOURS, 1988). O modelo de Organização do trabalho (OCT), ainda vigente em nossos dias apesar de todo avanço humano, influencia diretamente o ser humano no que diz respeito a sua relação com o trabalho e a felicidade. Os estudos de Dejours (1994) sobre a psicodinâmica do trabalho compreendem que o trabalhador não é uma máquina para ser padronizada ou ajustada, mas um ser humano, singular, que traz sua história e sua estrutura de personalidade. Tem suas próprias necessidades psíquicas, no que diz respeito ao trabalho e satisfação pessoal, e estas vivências se manifestarão na relação do homem com o seu trabalho. O ser humano passa uma boa parte de seu tempo exercendo sua atividade profissional e relacionando-se com outras pessoas dentro deste contexto e, embora o trabalho seja ainda hoje fonte de sofrimento para o homem, podem se observar também alternativas ao modelo de gestão baseado na Organização Científica do Trabalho que permitem uma relação saudável com o trabalho. Estes modelos privilegiam as relações humanas, permitindo uma troca horizontalizada de saberes, sem a prevalência de um modelo teórico sobre o outro. A divisão dos saberes, até então compartimentada através das disciplinas, precisou ser revista neste aspecto, para maior compreensão dos fenômenos pesquisados (OSÓRIO, 2003). Por exemplo, como restabelecer a saúde de um paciente sem considerá-lo um ser biopsicossocial e espiritual? Para responder tal questão, vale lembrar o caso clínico apresentado anteriormente. A saúde do bebê estava ligada intimamente à relação com sua mãe, sendo que a história infantil da própria mãe a estava impedindo de cuidar de seu bebê. Foi necessário considerar este aspecto humano do sofrimento da mãe para estabelecer o vínculo entre ambos, mas também foi necessário ocorrer a troca de saberes entre os profissionais que compunham a equipe de saúde. Esta necessidade de inter-relação entre os profissionais de várias disciplinas trouxe avanço para diversas áreas e a necessidade do desenvolvimento de novas práticas entre os grupos de trabalho, estabelecendo novas formas de relacionamento entre os trabalhadores e o trabalho. Estas novas formas de organização do trabalho não invalidam a necessidade de realização do ser no que diz respeito aos aspectos físicos, por exemplo, a questão do salário, que também afeta as relações humanas dentro de um contexto profissional, muitas vezes, trazendo sentimento de injustiça e falta de motivação para a realização da tarefa. Surgem conceitos de multidisciplinaridade, interdisciplinaridade e transdisciplinaridade. Para a compreensão de tais conceitos, vale à pena lembrar o conceito de grupo, no qual ocorre afetação entre os membros que estão unidos por um propósito, como vimos nas unidades anteriores. Ao recordar; pode-se pensar que para ocorrer uma troca humana entre os saberes compartimentalizados surge o conceito de multidisciplinaridade, ou seja, a interação entre as diferentes disciplinas, cada uma com sua contribuição, mas, ainda neste conceito, não ocorrem mudanças no corpo teórico das mesmas (GALHEIGO, 1999). Na sequência de tal conceito nasce a interdisciplinaridade, observando que apenas juntar profissionais de diferentes disciplinas não significaria que haveria real interação entre os trabalhadores. Então, surgiu uma mudança no corpo teórico, combatendo, assim, uma prática fragmentada resultante das especialidades. A interdisciplinaridade traz a possibilidade de interação real entre as disciplinas no sentido de uma afetação da qual pode surgir trocas des-herarquizadas, possibilitando, através da aprendizagem e feedbacks, mudanças em suas conceituações teóricas (OSÓRIO, 2000). Na transdisciplinaridade, conceito que complementa os anteriores, surge a possibilidade de algo muito novo, como algo que, através da inter-relação e da troca de saberes de uma equipe multiprofissional, transcenda a epistemologia singular de cada disciplina envolvida neste processo, trazendo algo que possa ser compartilhado por todas as disciplinas (OSÓRIO, 2000). Ao apresentar as formas como o ser humano se relaciona com o trabalho, assim como as mudanças ocorridas nas formas em que os grupos de trabalho vêm se organizando, se faz necessárias algumas considerações sobre a dinâmica de equipe, este processo vivo e fluído do viver em grupo. Tais considerações serão apresentadas no próximo item destaunidade, assim como os processos que ocorrem dentro delas, como a percepção e a comunicação. 2.3 A Dinâmica de Viver em Equipe e Processos Grupais Básicos: Percepção e Comunicação No contemporâneo como foi exposto anteriormente frente aos avanços, no que diz respeito à organização do trabalho, o viver em equipe merece atenção especial para aprimoramento humano, profissional e exercício da solidariedade. Todos estes aspectos podem ser oferecidos através de uma experiência do viver em uma equipe salutar. Por equipe pode-se entender um grupo de pessoas o qual está reunido em torno de uma tarefa, em um esforço coletivo, dentro de um contexto interacional que possibilita troca de vivências, compartilhamento de saberes, amparo das experiências vividas e realização da tarefa. Para que uma equipe possa funcionar de modo saudável, dinâmico, e enriquecedor frente ao coletivo, faz-se necessário considerar alguns aspectos importantes que serão ressaltados nesta sessão do livro. A disponibilidade para o encontro humano, a consideração das singularidades de cada membro, a atenção e cuidado com os movimentos humanos psíquicos e comportamentais que ocorrem antes, durante e depois do processo de realização da tarefa são aspectos importantes a serem considerados na dinâmica de uma equipe profissional. Por movimentos psíquicos se compreendem aqueles que são perceptíveis e comunicáveis, mas também, os que não são perceptíveis e que são comunicados de alguma forma. Uma boa percepção pessoal colabora na dinâmica da equipe, ou seja, quanto melhor o ser se conhecer, melhor também será sua percepção do outro, mas vale lembrar que todos carregam conteúdos e afetos inconscientes em suas mentes e que tal fato pode afetar nossa percepção com relação a nós e os outros. A percepção, segundo o dicionário técnico de psicologia (CABRAL; NICK, 2005 p. 269), diz respeito ao: “processo pelo o qual o indivíduo se torna consciente dos objetos e relações no mundo circundante, na medida em que essa consciência depende de processos sensoriais”. Os processos sensoriais são ativados frente aos estímulos e são percebidos através da percepção sensorial. Os encontros humanos que acontecem dentro de uma equipe são naturalmente fonte de estímulos, sejam eles agradáveis ou não. A percepção sensorial aparece descrita no dicionário técnico de psicologia (CABRAL; NICK, 2005, p. 269) como: “É o produto final de uma série definida de eventos físicos, fisiológicos e psicológicos que se desenvolvem em sequência imutável e que tem por polos um estímulo e uma reação (ou resposta)”. Outra percepção importante a ser esclarecida é a percepção social, a qual se trata, em linhas gerais, da percepção de um ser com relação a outros seres humanos, seus comportamentos, sentimentos, suas ações e manifestações humanas (MINICUCCI, 2012). O viver em grupo, assim como o trabalho em equipe, traz a necessidade de uma maior atenção à percepção de si mesmo e do outro para que o ambiente interacional da equipe possa ser harmonioso. O uso da empatia, capacidade de compreender o que o outro sente, de colocar-se no lugar do outro enquanto vivência subjetiva, traz maior flexibilidade de ação nas relações humanas, e amplia na percepção do outro (MINICUCCI, 2012). A empatia denota uma sensibilidade social, tal fenômeno é muito importante para que uma equipe funcione de modo harmônico, auxiliando, assim, no desenvolvimento da tarefa. Quanto maior o número de pessoas empáticas, maior o exercício da solidariedade e do amor. Para exemplificar, será relatado um caso clínico que ocorreu em uma equipe de saúde mental que atuava em um CAPS (Centro de Reabilitação Psicossocial). Dentre os vários pacientes que eram atendidos e permaneciam na ambiência (conceito que diz respeito ao espaço físico e humano no qual os usuários do serviço circulam), um apresentou um episódio de crise com comportamento violento, tal conduta havia desestabilizado todo o ambiente e evocado vários sentimentos na equipe, inclusive os sentimentos de impotência e raiva, mas, dentro desta mesma equipe, o técnico de enfermagem percebeu que seus membros estavam ofendidos com o paciente, pois, apesar de todos os esforços e investimentos que foram realizados para sua melhora, não apresentava mudanças em seu quadro clínico e agredia a todos que se aproximavam dele. O técnico em uma atitude empática com a equipe e com o paciente conseguiu relatar o que percebeu, sem julgar seus colegas, e acrescentou que, possivelmente, o usuário do serviço também nutria sentimento de impotência e raiva, pois recentemente sua referência técnica (conceito que diz respeito ao profissional que vai desenvolver uma relação humana com o usuário, construir seu projeto terapêutico com sua família e se encarregar de ser o guardião e o elo de comunicação entre o usuário e o serviço), havia saído do serviço, e esta era a única pessoa que conseguira estabelecer um vínculo de confiança com o usuário. Este exemplo clínico, além de demonstrar o conceito de empatia através da prática do viver em uma equipe de saúde mental, também aponta para outro conceito que diz respeito ao fenômeno da comunicação. Frente à comunicação da percepção social do técnico de um modo empático, a equipe conseguiu sensibilizar-se com o usuário e sair da sensação de impotência e do sentimento de raiva que o quadro evocava. Conseguiram perceber o que o usuário estava vivendo a partir da perda do único vínculo humano que estabelecera dentro da instituição, e, diante de tal percepção, a equipe assumiu outra postura frente à dor do paciente. Por meio do comportamento violento, o paciente estava tentando comunicar algo que, em decorrência da sua fragilidade mental, não conseguia verbalizar. A comunicação, como aponta este exemplo, vai auxiliar no processo de inter-relação humana, que, quando real, surge entre duas ou mais pessoas através um contato psicológico (MINICUCCI, 2012). Nos estudos sobre psicologia grupal, Osório (2003) ressalta as observações de Lewin sobre a comunicação. Lewin afirma que quando um grupo fica impossibilitado de evoluir, isto se deve a bloqueios entre os integrantes em sua comunicação. Comunicar, em sua essência, inclui o outro, seja outra pessoa do lado de fora, ou guardado com vivência relacional entre ambos, dentro da memória de quem comunica, por exemplo, o usuário do CAPS que, com a saída da técnica, piora seu quadro clínico e que, pela sua própria condição psíquica fragilizada, ficou impossibilitado de estabelecer uma comunicação com o que havia vivido no contexto interacional entre a técnica e ele. Apesar disso, lhe possibilitou uma experiência de relação humana nova, tranquila e sem agressões. Esta memória relacional não pôde ser resgatada pelo próprio paciente no momento em que a técnica foi embora, e nem comunicada a ele. Da experiência vivida restou somente a separação e o abandono, e frente a estes eventos ele recorreu a suas relações anteriores e permeadas por vínculos humanos agressivos e ambivalentes. O processo de comunicação inclui, necessariamente, a noção de vínculo, como nos mostra Rivière (2012), é sempre um vínculo social, acontece dentro de um contexto relacional, mesmo sendo com uma única pessoa, através da relação pessoal se reproduz uma trajetória histórica de vínculos determinados e experienciados. Por esta razão, o vínculo se relaciona posteriormente no decorrer do desenvolvimento humano com a noção de papéis, de status e de comunicação. O paciente, neste caso, estava comunicando seus sentimentos e revivendo o papel que provavelmente ocupava frente à suafamília, o de doente psiquiátrico agressivo. A aprendizagem de um novo papel ainda não havia se consolidada, apesar do olhar novo sobre ele oferecido por meio do tratamento e de novas constituições vinculares. Ele estava apenas repetindo o que já conhecia, impossibilitando uma nova aprendizagem. O processo de comunicação traz a possibilidade de aprendizagem, tanto quanto as experiências emocionais novas. Nos dois casos, pode ocorrer um efeito reparador e, muitas vezes, salutar para o ser através da vivência emocional nova. Segundo Rivière (2012), as dificuldades ou as resistências que os pacientes apresentam para melhorar seu quadro clínico estão ligadas às perturbações frente ao processo de aprendizagem e dificuldades com o novo. Diante do medo do novo, podem surgir repetições de comportamentos padronizados e estereotipados. O emissor de uma comunicação espera ser compreendido e, no geral, toda comunicação diz algo além do que é verbalizado, portanto, não é verbal, além de ser inédito. Para que uma comunicação ocorra é necessário que exista um emissor da mensagem e um receptor. Osório (2003) aponta que o psicólogo Lewin, considerado um dos pioneiros nas pesquisas sobre dinâmica de grupo, denota que a integração de um grupo se dá através da autenticidade das comunicações e que tal autenticidade pode ser aprendida através do grupo. A comunicação, quando se manifesta de forma autêntica e clara, sem ruídos e sem bloqueios, permite maior sensibilização nas relações interpessoais e favorece o trabalho em equipe. O próprio Lewin, ainda segundo Osório (2003), em seu grupo de trabalho, observou que as pesquisas não avançavam em decorrência de bloqueios que existiam na comunicação entre sua equipe. A comunicação é um processo dinâmico no qual as partes interagem para um resultado final, como mostra a figura do funil a seguir: Processo de comunicação FONSECA, 2013 É importante observar o que não é dito e o que não é escutado em uma comunicação, como aponta Fernandes (2003), pois, usualmente, o que não é dito, ou o que é escutado, pode estar ligado com determinantes não considerados. No mundo interno, ou subjetivo, o ser humano pode filtrar e alterar as informações de acordo com suas vivências passadas e seus estados da mente ou ainda de acordo com o contexto grupal o qual está inserido no momento da transmissão da comunicação. A percepção da comunicação pode acontecer de modos muito diferentes, dependendo de quem recebe a mensagem, não correspondendo necessariamente ao que o emissor está transmitindo. As percepções das mensagens verbais, por exemplo, podem estar ligadas ao sentido que o indivíduo vai dar às palavras, pois, para cada ser, as palavras têm um significado específico ligado às próprias experiências vivenciais com palavras determinadas. Pelo exemplo, é possível pensar em um dos problemas que podem distorcer a comunicação, a saber, os problemas relacionados à semântica, ou seja, o sentido que é dado às palavras. Às vezes, os conflitos surgem por diferentes interpretações das mesmas palavras, quando as pessoas que estão em interação, desconsideram as diferenças individuais, ou agem através de seus preconceitos. Para melhorar o processo da comunicação, Minicucci (2012) aponta para a possibilidade de aprendizagem e aperfeiçoamento sobre a transmissão da mensagem que se envia para a outra pessoa, assim como com relação à percepção frente às mensagens que são recebidas dentro de um processo da comunicação humana. A criatividade se faz importante ferramenta para este processo vivo e fluído que é a comunicação. A seguir será abordado o conceito de liderança, intimamente ligado aos conceitos anteriores, e, como já se apontou na primeira unidade deste livro, inerente ao desenvolvimento humano. 3 LIDERANÇA E RELAÇÃO ENTRE LÍDER E LIDERADOS 3.1 Liderança e Relação entre Líder e Liderados Atualmente, os conceitos liderança, líder e liderados vêm sendo muito ressaltados em decorrência da própria globalização. As pessoas vêm atribuindo, arbitrariamente, sentidos para a compreensão destas palavras produzidos pelo senso comum. Esta unidade pretende ressaltar alguns autores que se preocuparam em estudar os conceitos descritos no parágrafo anterior, para possibilitar ao leitor uma maior reflexão e compreensão sobre tais conceitos. A liderança não é um fenômeno restrito a pessoas que ocupam um cargo de gestão ou poder, embora isso também ocorra, é uma oportunidade que todos os seres podem ter de influenciar de modo maduro e solidário outros seres humanos seguindo em constante evolução. Segundo Minicucci (2012), o conceito de liderança está intimamente ligado ao de influência interpessoal, como já foi dito em unidades anteriores, interpessoal diz respeito à relação entre as pessoas, então, pode-se dizer que a liderança é um processo de influência exercida em um contexto relacional entre as pessoas aonde ocorre uma afetação subjetiva. A liderança é um processo dinâmico que ocorre dentro de uma equipe de trabalho ou de outras formações grupais e pode-se alterar o papel do líder. Nos dois exemplos clínicos apontados neste livro, a liderança da equipe multiprofissional frente à tarefa, ficou localizada nas figuras da enfermeira e do técnico de enfermagem. Esses profissionais exerceram forte influência na equipe como um todo, através da comunicação, todavia, este papel de líder, poderia ser exercido por outros profissionais em outra situação. É importante ressaltar a diferença entre liderança e poder, Minicucci (2012) aponta para tal aspecto ao demonstrar que o indivíduo pode ter poder, mas não ser reconhecido por outras pessoas como líder, exercendo pressão social, uso da força, coerção moral, entre outros, mas não ter nenhuma influência interpessoal e sim poder situacional. O poder pode ser entendido como o alcance dos objetivos de um líder mediante o exercício da força sobre o grupo ou uma pessoa. Segundo Cabral e Nick (1989), o teórico Adler aponta que as pessoas podem ser dominadas pelo complexo de poder, manifestação psicológica, que se trata de uma necessidade imperiosa de ampliação do eu ou ego, para que este último sinta-se estável e poderoso, através do domínio sobre outras pessoas ou do meio ambiente, mas também o meio intrapsíquico, ou seja, a pessoa na relação com ela mesma. Este comportamento do homem adulto trata-se de um reflexo dos sentimentos de inferioridade do período infantil não superado, portanto, passível de tratamento ou análise. O processo de liderança está intimamente ligado à relação estabelecida entre os líderes, os liderados e a situação. Liderança pode ser considerada, o exercício da comunicação, através da qual, ocorre o processo da influência interpessoal frente a uma situação e diante de um objetivo a ser atingido, segundo Minicucci (2012). Frente às diferentes movimentações que ocorrem dentro de um grupo, seja ele de trabalho ou não, o líder tem necessidade de ser flexível diante das mudanças, para poder se adaptar melhor à situação e, assim, resolvê-las. A comunicação faz parte dos recursos utilizados por um líder para exercer influência interpessoal, retomando a unidade anterior. A comunicação é um processo que inclui o outro e, quando eficaz, pode produzir um líder eficaz no que diz respeito a exercer a influência e não o poder. Ao exercer a influência frente à determinada situação, o líder, naturalmente, atinge seu objetivo ou meta através da comunicação e não do exercício da força. Processo de Liderança FONSECA, 2013 Os conceitos demonstrados na figura estãointerligados e produzem resultados frente às metas. O desempenho eficaz de um bom líder está relacionado à sua sensibilidade e flexibilidade, assim como um bom desempenho de gestão situacional (MINICUCCI, 2012). Ao retomar o estudioso da psicologia, Kurtin Lewin (in pg.25, Osório, C. L. 2003), nota-se que através dos estudos de dinâmica de grupo e comunicação, naturalmente, ele se aproximou do fenômeno da liderança. Diante de suas pesquisas, conclui-se que a integração em um grupo se deve, em partes, à possibilidade do exercício da autenticidade das comunicações em um contexto interacional. Seguindo em seus avanços científicos, também observa os fenômenos da autoridade e dos estilos de liderança que surgem em seus grupos de estudo. O autor citado descreve três estilos prioritários de liderar, o líder autocrático, o Laissez-faire e o democrático. A seguir, no quadro, veremos os três estilos de liderança descritos por Lewin: Estilos de liderança Adaptado de OSÓRIO, 2003 Na teoria apresentada, dependendo do estilo de liderança, as relações entre líderes e liderados adquirirão diferentes formatos e diferentes ênfases serão dadas aos papéis assumidos pelas pessoas no contexto grupal. Vale a pena lembrar que Chiavenato (2005), aponta para as diferentes ênfases que são dadas nos diferentes estilos de liderança. No estilo autocrático a ênfase é dada ao papel do líder, no estilo democrático a ênfase é dada ao papel do líder e aos liderados ou subordinados, já no estilo liberal a ênfase é dada totalmente ao papel do liderados ou subordinados. Além da teoria sobre os estilos de liderança, existem, também, outras abordagens teóricas sobre o mesmo conceito, dentre elas destacam-se as teorias de liderança que dizem respeito aos traços de personalidade de um líder, ou seja, as características marcantes de sua personalidade e as teorias situacionais de liderança, que dizem respeito às adequações dos comportamentos de um líder frente às diferentes circunstâncias das situações e dos liderados (CHIAVENATO, 2005). As teorias sobre os traços de personalidade de um líder dizem respeito a quem o líder é, enquanto ser humano. Os traços de personalidade dizem respeito a certos padrões de comportamentos persistentes de uma pessoa que aparecem em situações diversas e as suas características pessoais como, por exemplo, seus traços físicos e psicológicos. Na teoria situacional de liderança, diante das diferentes situações, um líder pode alternar seu estilo de liderança para melhor se adaptar e realizar a tarefa, este movimento vai depender das características de sua personalidade. Vale à pena lembrar, como exemplo, que quando o líder funciona psiquicamente de acordo com o conceito de complexo de poder, suas atitudes serão controladoras, inflexíveis e autoritárias. As teorias sobre liderança situacional revelam que o líder eos liderados possuem necessidades a serem satisfeitas e que estas são importantes ingredientes no contexto interacional de um grupo (MARQUIS; HUSTON, 2005). As relações humanas estabelecidas entre líderes e liderados influenciarão diretamente as necessidades e motivações de um grupo. 3.2 Motivação A motivação é um fenômeno importante a ser considerado na dinâmica das relações humanas e da liderança a seguir serão apresentados alguns autores e suas abordagens teóricas que apontam considerações sobre o tema. Por motivação se compreende um conjunto de fatores complexos inconscientes e conscientes que determinam um comportamento que pode ser pessoal ou social, contínuo, persistente e dirigido para uma recompensa e com uma finalidade ou objetivo (CABRAL e NICK, 2005). Pode-se entender motivação como um aspecto originado de dentro do ser humano, ou seja, um aspecto subjetivo, e que tem correspondência com suas necessidades, sejam elas conscientes ou inconscientes, e que levam o ser a um comportamento ou ação. Segundo Rivière (2000), as motivações são forças que dirigem o ser humano para um comportamento e, através da análise das motivações, ocorre uma compreensão maior e abertura para a possibilidade de intervenções e ações sobre o indivíduo, ele ainda ressalta que as necessidades motivantes não se limitam às básicas de subsistência e seus efeitos são variados. A motivação para Rivière (2000, s/p.) é descrita como: ...atividade persistente do organismo que planeja, por meio da aprendizagem e da comunicação, o comportamento dirigido a satisfazer suas necessidades. Certas formas de motivação incluem também os estados internos que acompanham a emoção. As tensões que surgem da ira, do ódio e do medo levam o indivíduo a protagonizar condutas que lhe produzirão alivio. Os estados emocionais agem de modo entrelaçado, em conflitos ou sem eles, sendo que o resultado dessa inter-relação dialética é uma gama de condutas significativas e variáveis. Partindo do ponto de vista de Riviere (2000), as motivações também estão ligadas aos sentimentos. Pode-se pensar, então, a partir dessa conceituação, em alguns exemplos históricos de seres humanos altamente motivados pelo sentimento do amor e a grande contribuição que trouxeram para a humanidade, como Madre Teresa de Calcutá, Gandhi, Martin Luther King e outros que simplesmente eram motivados pelo amor e suas ações e estilos de liderança, tornaram-se provas vivas disto. Os comportamentos e ações do homem são sempre frutos de motivações e podem ser fontes de motivação para outros. Os seres humanos reagem aos estímulos, em consonância com sua constituição biológica, suas emoções, com as suas condutas anteriores apreendidas e o momento específico do aqui e agora de seus processos psicológicos internos, segundo Riviere (2000). Além das abordagens sobre motivação que levam em consideração as emoções, existem outras que advêm em decorrência das teorias das Relações Humanas, como sinaliza Chiavenato (2005), ele ressalta, através destas teorias, a existência de um ciclo motivacional inter-relacionado com as necessidades. Na compreensão de Chiavenato (2005), as necessidades estão ligadas a um ciclo de etapas motivacional. As necessidades surgem a partir de estímulos que podem ser intrínsecos ou extrínsecos ao ser, estas vão gerar um nível de tensão que buscará o alívio, para que o aparelho psíquico ou o corpo volte ao seu estado de homeostase ou equilíbrio anterior ao início da tensão. Para que haja a satisfação das necessidades e consequente alívio das tensões originadas pelas mesmas, o ser providenciará uma ação ou comportamento que trará o equilíbrio do organismo até que ocorra novo estímulo ou incentivo. O problema nessa cadeia de ciclo motivacional surge quando o ser vivencia o impedimento do alívio da tensão e, consequentemente, a vivencia de insatisfação frente às necessidades. A frustração das necessidades pode levar o homem a reações generalizadas, tanto as comportamentais como as psicológicas e podem, também, adoecer se a frustração tornar-se prolongada e associada a sentimentos de desesperança. Outro importante conceito associado às satisfações ou insatisfações das necessidades é o de moral. A moral aqui é compreendida como um conjunto de atitudes mentais ligadas ao grau de satisfação ou insatisfações das necessidades individuais, trata-se de um estado de espírito, um conceito abstrato, entretanto, perceptível. Os níveis de moral estão intimamente associados às atitudes que o homem pode manifestar frente ao grupo e a ele próprio (CHIAVENATO, 2005), por exemplo, um membro da equipe de saúde pode ter seu nível de moral extremante afetado, caso seja tratado com insistência frente às suas observações técnicas, comdescaso. Não tendo sua necessidade de reconhecimento atendida, tal situação pode levar a pessoa a ter atitudes agressivas diante de todos os outros membros da equipe, demonstrando o nível de moral baixo, decorrente da insatisfação de suas necessidades sociais, as quais foram descritas no capitulo dois desta obra. A seguir, no próximo item deste capitulo, outro importante conceito será abordado, conceito fundamental para se pensar sobre a posição que o ser humano ocupa frente aos outros seres humanos no contemporâneo, este conceito, a saber, é o da ética nas relações humanas. 3.3 A Ética nas Relações Humanas Ao falar sobre ética, naturalmente, remete-se ao ser humano, suas relações com outros seres humanos e com o meio o qual vive. Através do exercício da ética, as relações humanas tornam-se saudáveis, cria-se um ambiente solidário, construtivo, rico em aprendizagem e crescimento para todos. Esta temática é antiga, porém, extremamente contemporânea e trata de um recurso indispensável para a vida em sociedade. Tanto em um contexto familiar quanto de trabalho, a ética permeia ou não as relações, não se pode pensar que há o exercício da ética quando, por exemplo, na relação entre líder e liderados, existe assédio moral, ou quando em uma família ocorre a desvalorização de um dos membros através de escárnios ou gozações contínuas, ou, ainda, quando em uma equipe de saúde um de seus membros tem sua subjetividade ignorada através do não reconhecimento de suas percepções técnicas e humanas. Para que o conceito seja melhor compreendido e aplicado à prática do dia a dia, se faz necessária uma busca histórica desde a origem da palavra e seus sentidos até sua atual compreensão nos dias de hoje. Para esclarecer o significado da palavra “ethos”, em grego, Boff (1999, p. 195) apresenta no glossário de sua obra o que veremos a seguir: Ethos: em grego significa a toca do animal ou a casa humana; conjunto de princípios que regem, transculturalmente, o comportamento humano para que seja realmente humano no sentidode ser consciente, livre e responsável; o ethos constrói pessoalesocialmente o habitat humano; veja moral. No que se refere ao significado do termo moral, que tem sua origem no latim “mores”, Boff (1999, p. 197) mostra da seguinte forma: Moral: formas concretas pelas quais o ethos se historiza; as morais são diferentes por causa das culturas e dos tempos históricos diferentes. Mas todas as morais remetem ao ethos do humano fundamental que é um só. Nesta apresentação de Boff (1999), a palavra ethos e a palavra moral apresentam-se em íntima associação, um conceito contendo o outro, embora suas origens sejam diferentes, elas se encontram em seu significado. Pode-se pensar que este conjunto de comportamento humano, ethos, que basicamente diz respeito à consciência da necessidade de humanização do ser, está em ligação processual e dinâmica com a moral. Esta última constrói-se também, assim como ethos, com o tempo, e suas características estão intimamente ligadas à época de seu surgimento. Assim, cada época tem seuspreceitos morais distintos e cabe à ética poder exercer uma análise dos mesmos. Ao recorrer ao dicionário de Ferreira (2005, p.383 - 563), encontram-se os seguintes significados para as palavras ética e moral: “Ética [...] 1. Estudo dos juízos de apreciação referentes à conduta humana, do ponto de vista do bem e do mal. 2. Conjunto de normas e princípios que norteiam a boa conduta do ser humano”. E para o conceito de moral: “Moral [...] 1. Conjunto de regras ou hábitos julgados váli dos, quer universalmente, quer para um grupo ou pessoa determinada. [....]” Pode-se perceber, novamente, o entrelaçamento dos conceitos de ética e moral, desde sua origem etimológica até os significados referentes às palavras nos dias atuais. Também é importante ressaltar que estes conceitos são construídos desde sempre a partir das relações humanas que surgem em um coletivo em uma determinada sociedade. O termo moral e o termo ética, assim como o ser humano, vêm sofrendo algumas mudanças no sentido que lhes são dados de acordo com a época histórica, portanto, o sentido atribuído na Idade Antiga para os filósofos gregos era diferente do atribuído na Idade Média pela filosofia cristã, por se tratarem de coletivos que se constituíram com preceitos e valores distintos. A ética é um importante instrumento de análise da moral. A moral é entendida como um conjunto de normas e valores produzidos e estabelecidos de acordo com a época humana em uma determinada sociedade. A moral sem ética pode se tornar uma moral cuja opressão do ser humano seja um exercício constante. Cabem à ética a avaliação e o estudo crítico da moral de uma determinada sociedade para que o fator humano possa ser essencialmente contemplado. A história da ética é intimamente ligada à história da filosofia, ela é entendida como uma disciplina filosófica, enquanto as ideias morais da humanidade podem ser estudadas em um contexto mais amplo. Desde a Pré-história até os dias de hoje as sociedades sempre tiveram normas que regularam a conduta humana, este estudo não advém somente da filosofia, ou da história da filosofia, é também um ramo da antropologia e da sociologia, embora o objeto de estudos da própria ética, enquanto disciplina filosófica, sejam os sistemas morais, sua história praticamente se inicia com a história da filosofia grega, no que diz respeito ao Ocidente, não se pode dizer o mesmo para o Oriente (MORA, 2001). A ética traz, através do seu exercício, problemas a serem contemplados que também variam de acordo com a época, mas se assemelham no que diz respeito às questões levantadas a respeito dos valores e condutas morais vigentes e o que o ser humano deve fazer frente a eles. Os problemas, os quais os estudiosos da ética humana vêm se debruçando, dizem respeito às questões humanas, como as noções de felicidade, de caráter e de virtude. No contemporâneo alguns filósofos, como Boff (1999), vêm ressaltando a importância de uma nova ética fundada sob a ótica do cuidado, o qual diz respeito à essência do ser humano que necessita de atenção em tudo o que faz, pois se não houver, tudo pode se perder. Isso diz respeito a várias dimensões, por exemplo, o cuidado com o planeta, com seu nicho ecológico, a construção de uma sociedade sustentável, cuidado com o outro, com os pobres, oprimidos e excluídos, com o próprio corpo, na saúde e na doença, cuidado com a cura integral do ser humano, que diz respeito ao corpo, a alma e ao espírito, incluindo o momento da morte. Enfim, colocar a ética do cuidado em evidência remete ao ser vivo e suas relações interpessoais, ao meio em que habita, aos grupos dos quais faz parte, enfim, tudo o que vive precisa de cuidado para continuar a existir. A seguir será abordado o tema liderança na saúde coletiva e saúde individual, sem perder o ponto de vista da ética do cuidado, pois ao falar sobre liderança e saúde, naturalmente, se está falando de seres humanos que se relacionam entre si e necessitam de algum tipo de atenção. 3.4 Lideranças na Saúde Coletiva e Individual A temática sobre a liderança vem sendo estudada em vários contextos na atualidade no que diz respeito às organizações ou instituições privadas, sejam elas de saúde ou não, por se tratar de um conceito que evolui com as épocas, pode-se considerar que, a partir do advento do Sistema Único de Saúde (SUS), em 1988, este conceito se mostra, também, presente como importante ferramenta no processo de mudança nas organizações de saúde pública e aponta para a necessidade de ser estudadoe compreendida frente a esta realidade (MACHADO; LIMA, 2010). Neste item, o tema sobre a liderança na saúde coletiva e individual será abordado através das práticas na saúde pública, especificamente através de alguns dos princípios do SUS. No que diz respeito ao conceito de liderança, como descrito nas unidades anteriores, é importante recordar que ele está relacionado inicialmente ao contexto sócio-histórico, portanto, sujeito a alterações de acordo com a evolução humana. Este conceito diz também da capacidade de influenciar outras pessoas diante de uma determinada situação, assim, pode estar relacionado à figura de um gestor, mas isto não é uma regra. Outro membro de uma equipe de trabalho pode exercer maior influência sobre o grupo do que o gestor, e assumir o papel de liderança sem ocupar um cargo de poder. É importante retomar, também, o conceito sobre os estilos de lideranças que vão estar altamente ligados à aceitação do líder enquanto tal. Um gestor autoritário, por exemplo, pode não conseguir influenciar um grupo diante de uma determinada situação, e, assim, não atingir suas metas frente a uma determinada tarefa, ele pode exercer poder, mas não liderança real. Por saúde coletiva, compreende-se um campo de saber e de práticas, ligadas à compreensão da doença como um fenômeno social, que estão relacionadas com o coletivo e não somente com um indivíduo isolado, mas cabe ressaltar que os coletivos contêm o individual. Por saúde individual pode-se pensar em procedimentos clínicos voltados para o tratamento especifico de um ser, mas que têm uma relação dialética com a saúde coletiva e vice-versa, por exemplo, um paciente que se encontra com sintomas de asma recebe os procedimentos voltados para tal condição clínica e, naturalmente, restabelece o equilíbrio da sua saúde individual, mas ao ampliar a escuta, o médico resolve perguntar para o paciente se este relaciona sua doença com alguma situação de sua vida, ao ser indagado, o mesmo relata considerar o seu ambiente de trabalho estressante e agressivo, e acrescenta que outros trabalhadores estão sendo afetados e vêm adoecendo constantemente. A partir deste exemplo, o problema deixa de ser individual e torna- se coletivo, pois um mesmo ambiente de trabalho vem afetando a saúde de trabalhadores que o constituem. Na saúde coletiva o interesse é pelo público, tem como compreensão a noção de homem integrada, consideram-se as várias dimensões do ser, biopsicossocial, ambiental e histórica. A meta é atingir a saúde como um todo, e suas intervenções buscam atender ao coletivo, e não um indivíduo somente. Tem como campo de atuação a promoção, prevenção e tratamento das doenças (PAIVA, 2006). Com relação à saúde individual, Paiva (2006) aponta que ela pode ser exercida tanto em instituições públicas quanto privadas, trata-se de entender a doença como algo que surge, individualmente, a parte do contexto sócio-histórico, e da própria história subjetiva do ser, a busca é por uma medicalização curativa da vida sem a devida compreensão dos fatores citados. Este é um modo de observar a saúde individual, mas como no exemplo, esta prática também pode ser exercida com uma escuta ampliada, considerando a dimensão subjetiva do ser, rumo a uma prática integradora, e isto vai depender da posição que o cuidador resolva assumir diante do ser que sofre. O Ministério de Saúde cria, através da política nacional de humanização (PNH), o Humaniza SUS. Tal programa naturalmente impõe mudanças humanas com respeito à gestão, e tais mudanças trazem importantes considerações a respeito do papel de liderança a ser exercido frente ao SUS e seu alcance na saúde coletiva. O Ministério da Saúde, através deste programa, preconiza a participação integrada dos gestores, trabalhadores e usuários na formação sólida do SUS, assim como os atendimentos com qualidade (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). A liderança na saúde coletiva que vem sendo exercida através da saúde pública tem por orientações centrar-se na valorização dos sujeitos que estão ligados ao processo saúde-doença, considerar as diferenças de cada um, assim como os valores e as necessidades que fazem parte de cada ser. Estas diferenças também dizem respeito aos saberes de cada disciplina, os saberes da prática, os saberes humanos e as diferentes subjetividades que também fazem parte deste processo. Os valores que estão subentendidos neste exercício de liderança ou gestão traduzem se em exercícios de humanização. Segundo a Cartilha de Clínica Ampliada do Ministério da Saúde (2004), tais valores dizem respeito à autonomia e ao protagonismo de todos os envolvidos no processo saúde-doença, a corresponsabilidade entre eles, o estabelecimento de vínculos solidários, a participação coletiva no processo de gestão por parte dos trabalhadores e usuários e a indissociabilidade entre atenção e gestão. Diante desta nova forma de gestão proposta, compete aos gestores um novo modo de desempenhar este papel frente a esta organização de trabalho, mas também compete a trabalhadores e usuários a participação ativa neste processo saúde-doença, e neste sentido o papel de liderança pode ser exercido por outros atores sociais e não somente pelo gestor. Um dos princípios fundantes do SUS diz respeito à democratização e a descentralização do poder para os municípios, e, para que isto pudesse ser efetivado, criaram-se os conselhos Nacionais Estaduais, Municipais e as Conferências de Saúde, oferecendo a possibilidade de maior participação e controle popular para todos os envolvidos, tanto trabalhadores como usuários e gestores (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004). Neste sentido, pensar em liderança na prática da saúde coletiva e individual, oferecida pela saúde pública, inclui pensar em uma liderança que busca uma prática integrativa através do exercício de uma clínica ampliada, pautada na ética do cuidado e da humanização, que possa ser solidária, democrática, que possa oferecer para as pessoas que estão envolvidas no processo saúde-doença um tratamento digno, respeitoso, com qualidade, com o exercício do acolhimento e a construção de vínculos afetivos, e isto diz respeito não só aos trabalhadores, mas também aos usuários. Para maior compreensão destes conceitos, pode-se retornar aos capítulos anteriores aonde a noção de vínculo humano foi explorada. Um gestor que não considera estes fatores pode estar fadado a se deparar com profissionais desmotivados e sem muito incentivo para desenvolver vínculo humano com os usuários, assim como pode também favorecer o surgimento de queixas constantes dos usuários na medida em que estes não se sentem acolhidos diante das manifestações de seus sofrimentos. Outro importante conceito para se pensar em liderança na saúde, diz respeito à Gestão Participativa, que inclui o processo de Cogestão. Por Cogestão, a Cartilha do Ministério de Saúde sobre Gestão Participativa e Cogestão (2004 p. 6), define: “Cogestão é um modo de administrar que inclui o pensar e o fazer coletivo, para que não haja excessos por parte dos diferentes corporativismos e também como uma forma de controlar o estado e o governo. É, por tanto, uma diretriz ética e política que visa motivar e educar trabalhadores” Este modelo proposto de gestão ressalta, especialmente, o trabalho em equipe, através do exercício de uma construção coletiva em que todos participam como atores sociais no planejamento, na análise e execução de ações. Este exercício é contemplado nos colegiados que têm como um de seus objetivos garantir estas construções coletivas. Através deste modelo de gestão, o papel de liderança podeser exercido de forma democrática por todos os membros de uma equipe de trabalho e não somente pelo gestor, mas cabe a este último auxiliar o grupo para que isto possa ocorrer. Frente a estas estratégias que fazem parte da política de Humanização do SUS, percebe-se o destaque dado para os aspectos humanos deste coletivo que compõe a saúde, do qual fazem parte as equipes de trabalho, os gestores, os usuários, etc. Naturalmente, estes coletivos são compostos de seres humanos com toda a sua subjetividade inerente a eles, e que estes conteúdos subjetivos vão se manifestar em contextos grupais. A próxima unidade abordará algumas estratégias que vão possibilitar a análise destes encontros intersubjetivos que ocorrem dentro de um grupo ou de atividades coletivas. 50 4 ANÁLISE DE SITUAÇÕES REAIS DE GRUPO POR MEIO DAS PESQUISAS, JOGOS, TÉCNICAS E VIVÊNCIAS Hoje se vive em uma sociedade em que muitas feridas na alma e no corpo são abertas. O que se tem de solução, embora o processo seja complexo, encontra-se na própria capacidade de um ser humano se oferecer a outro como um tutor de resiliência. Um líder na atualidade precisa ter em mente que vai se deparar com pessoas as quais, naturalmente, vão necessitar de um líder que possa se relacionar com o grupo, exercitando sua inteligência emocional, mas também que possa se oferecer como tutor em seu processo de resiliência e de seus liderados. Ao pensar nos profissionais de saúde, os quais se deparam com o trágico todos os dias, torna-se impossível não imaginar que, de algum modo, tais vivências não irão afetá-los. Nesse sentido, o papel do líder é extremamente importante para o processo de superação de tais vivências. As atividades coletivas auxiliam o desenvolvimento do ser humano em aspectos muito importantes, como será abordado nesta unidade. Este capítulo pretende fazer um recorte sobre algumas pesquisas e técnicas grupais que permitem observar, analisar, compreender e intervir em situações reais, nos contextos grupais. Para tanto, torna-se importante recordar que o ser humano é um ser social em sua essência, naturalmente, busca grupos dos quais possa fazer parte, pois nesses grupos outras pessoas estarão presentes, com seus aspectos subjetivos. Por aspectos subjetivos compreende-se, segundo Cabral e Nick (1989 p.370): “SUBJETIVO – O que somente existe em virtude de uma experiência psíquica ou mental da pesssoa ou sujeito. O que é intrinsicamente inacessível à observação de mais de uma pessoa e caracteriza, portanto, a experiência exclusiva de uma pessoa. Subjeitvo e sujeito são antônimos de objetivos e objeto”. As primeiras experiências subjetivas de um ser acontecem dentro do primeiro grupo que o ser faz parte, ou seja, a família. Desde as primeiras experiências grupais até as adquiridas na idade adulta, o ser está em constante processo de construções vinculares e aprendizagem, portanto, é através destes encontros intersubjetivos entre os seres que estes fenômenos acontecem (RIVIÈRE, 2012). 51 Muitas vezes, estes encontros intersubjetivos, que ocorrem nos grupos, podem ser salutares, outras vezes nem tanto, e apontam para uma imprescindível intervenção, neste caso, os estudos e pesquisas sobre grupos tornam-se uma necessidade, assim como as estratégias e técnicas para melhor análise e intervenções em situações reais e humanas que acontecem nos grupos. Os grupos que podem ser auxiliados com tais técnicas são, por exemplo, a família, os grupos de trabalho dentro de uma instituição ou organização, grupos de usuários dos serviços de saúde, os grupos dentro de uma determinada comunidade e outros. As técnicas vão variar de acordo com o objetivo a que se propõe. Os seres humanos estão em constante processo mudança, apesar das dificuldades que apresentam frente ao novo. Estas mudanças que acontecem através do processo de aprendizagem sofrem interferência dos medos básicos, que se referem ao medo da morte e do ataque, presentes desde a Pré-História, ora manifestados de forma consciente, ora inconsciente. Ao se pensar em análise de situações reais de grupos, não se podem esquecer esses padrões de funcionamento psíquico, tão bem descritos por Rivière (1998). Com relação à análise de situações reais de grupo por meio de pesquisa, o campo é bem vasto nas áreas da Política e do Marketing, que vêm usufruindo do método de pesquisa qualitativo para atingir seus eleitores e consumidores respectivamente. Felizmente, as pesquisas sobre análise de situações reais de um grupo não se limitam às áreas citadas, mas aparecem no campo das pesquisas na saúde coletiva, saúde do trabalhador, saúde mental, epidemiologia e outros. Dentre as pesquisas que analisam as situações reais de um grupo, está a da pesquisadora Menezes (2012), que constatou, por meio de um estudo de caso realizado com um grupo de trabalhadores em uma fábrica de manequim, a estreita relação entre a dinâmica psíquica dos trabalhadores e a precarização do trabalho. Aponta a precarização do trabalho que se manifesta através de um contexto relacional de servidão, como fonte de sofrimento psíquico, produção de sentimentos de desamparo e consequente adoecimento do trabalhador. Outra importante área de pesquisa a ser considerada para analisar situações reais de grupos encontra-se no campo da saúde mental, através de levantamentos sobre as doenças que mais incapacitam no mundo, os estudos apontam que, das dez mais incapacitantes, cinco se referem a problemas da saúde mental, a 52 depressão é responsável por 13%, o alcoolismo por 7,1%, a esquizofrenia por 4%, o transtorno bipolar por 3,3% e o transtorno obsessivo- compulsivo por 2,8%. Os transtornos mentais são responsáveis por 12% das incapacitações por doença, em geral, nos países desenvolvidos, este número sobe para 23% (MURRAY, LOPEZ, 1996). Como é possível observar, os transtornos mentais atingem uma boa parcela da população, isto não é coincidência, e sim um reflexo de uma série de eventos ligados a problemas individuais e coletivos. As doenças têm uma história e cada época tem suas doenças. São vivenciadas de modos diferentes em função da época em que ocorrem. Existem diferenças entre os flagelos do passado (flagelos coletivos) e as doenças (individuais) de hoje. Existe uma ligação muito forte entre o grau de desenvolvimento de uma sociedade e o estado geral de sua saúde. Os estudos sobre saúde mental, em nosso momento contemporâneo, têm muito que contar sobre os grupos humanos e as possibilidades de intervenções, pois apesar de todo o avanço da medicina e o uso desenfreado de medicamentos para curar a alma, ela continua insistentemente a apresentar sua rebeldia, através de seu sofrimento, o qual, muitas vezes, os remédios apresentam apenas uma eficácia simbólica e em um movimento refratário a alma é que insiste em não se render à medicalização da vida. As medicações com certeza têm sua eficácia e são necessárias para algumas situações, mas a questão aqui levantada diz respeito a seu uso exclusivo em detrimento das relações humanas, sendo que estas últimas apresentam alta potência curativa através do próprio encontro humano, como será levantado na próxima sessão desta unidade. Ao pensar em grupos humanos e análise de situações reais através de técnicas grupais e vivenciais, após a explanação sobre os transtornos mentais, algumas perguntas podem surgir. Quais os tipos de técnicas grupais e vivenciais que contemplam a análise e intervenção em situações reais de grupos? Sabe-se que as técnicas de grupo, neste momento da humanidade, são extremamente eficazes, nãosomente por atender um número maior de pessoas, mas pela eficácia que a própria vivência em grupo propicia, por meio do exercício da solidariedade e afetividade que, de um modo geral, os grupos também podem 53 oferecer para um sistema humano que tem adoecido por flagelos individuais, como as doenças psíquicas. As técnicas grupais e vivenciais são utilizadas em uma gama de situações que vão desde instituições públicas até as privadas na área da saúde, mas também na educacional e empresarial. Para iniciar o assunto é necessário fazer alguns apontamentos, toda técnica grupal propicia uma vivência, então, neste texto, as técnicas grupais serão compreendidas como vivências grupais. Podem-se dividir as técnicas grupais da seguinte forma: a dinâmica de grupo, os grupos operativos e os grupos terapêuticos. A dinâmica de grupo é um conjunto técnicas que dispõem de recursos, que podem ser utilizados em diferentes áreas e com finalidades diversas. Podem ser utilizadas na área organizacional com a finalidade de desenvolvimento pessoal, recrutamento e seleção, integração do grupo de trabalho, desligamento de funcionário, e outros. Na educação, pode ser utilizada como integração entre alunos e professores, como grupos de prevenção a situações de risco e outros. Na área terapêutica pode ser utilizada como instrumento de tratamento em abordagens diferentes, mas, particularmente na abordagem psicodramática, é um recurso fundamental através dos jogos psicodramáticos (FIGLIE; MELO; PAYA 2004). Este conjunto de técnicas, que dizem respeito às intervenções em dinâmica de grupo, é utilizado em diversos setores e sua flexibilidade no uso, se deve em parte a sua estratégia de criar situações focadas, por exemplo, brincadeiras, jogos, exercícios, dramatizações e outros com objetivos bem delineados a serem atingidos. As dinâmicas de grupo, embora tenham objetivos bem definidos, e estratégias focadas para a realização dos mesmos, são recursos que apresentam uma forma indireta de lidar com assuntos diversos e que, normalmente, dizem respeito a situações que envolvem relações interpessoais, intrapessoais, afetivas e outras (FIGLIE; MELO; PAYA, 2004). Por exemplo, um profissional da psicologia que supervisionava uma determinada equipe de saúde do Programa de Saúde da Família organizou alguns exercícios de dinâmica de grupo que tinham como objetivo melhorar as relações interpessoais dentro da equipe de profissionais do Programa de Saúde da Família, isto foi feito por meio de dinâmicas que despertavam a solidariedade e o afeto 54 entre os mesmos. Naturalmente, o assunto não fora tratado anteriormente de forma direta, mas, através do exercício de dinâmica de grupo, tais sentimentos puderam se manifestar e ser trabalhados para maior integração do grupo. Neste exemplo, as técnicas de dinâmica de grupo foram utilizadas por um profissional da psicologia, mas são técnicas que, por terem seus objetivos bem definidos e estratégias bem focadas, podem ser utilizadas por profissionais de outras áreas. O mais importante a ser destacado a respeito dos exercícios de dinâmica de grupo não é quem vai aplicá-los, mas o seu significado e sua finalidade, segundo Fritzen (1989). Portanto, existem exercícios que despertam a solidariedade, outros têm como objetivo despertar o potencial humano adormecido, outros ainda se propõem a auxiliar as pessoas a perceberem os movimentos do seu inconsciente, enfim, existe uma variedade grande de técnicas para contemplar as relações humanas interpessoais e intrapessoais. A seguir, dois quadros com exemplos adaptados para este texto de dinâmicas de grupo retiradas do livro de Fritzen (1989), que, segundo o autor, têm como objetivo propiciar um maior conhecimento de si e dos outros, assim como, melhorar as relações interpessoais, despertar os sentimentos de solidariedade de confiança e descobrimento entre as pessoas integrantes de um grupo. Modelo de Dinâmicas de Grupo Objetivo: diminuir o problema de estereótipos que sofrem as pessoas de um grupo e os preconceitos que por vezes estão associados a eles. Tamanho do grupo: Qualquer tamanho de grupo. Material utilizado: Uma lista com nomes masculinos e femininos, se o grupo for misto. Ambiente físico: Uma sala que possa acomodar o grupo. Processo: A pessoa que vai aplicar a dinâmica esclarece, que para haver maior espontaneidade num grupo formado por pessoas que ainda não se conhecem existe uma oportunidade valiosa para se livrarem das expectativas resultantes de suas identidades passadas, adotando novos nomes, concordando em não falar inicialmente, sobre seus antecedentes, ocupação, cidade onde nasceram, 55 etc. Em alguns momentos, certas profissões evocam certos comportamentos estereotipados, os quais despertam no grupo reações também estereotipadas. Ex: médico, enfermeiras, psicólogo e outros. Processo: Os integrantes do grupo antes de se conhecerem recebem novos nomes, e vão ser conhecidos apenas por este nome durante a dinâmica. A distribuição dos nomes pode ser ao acaso, por escolha dos integrantes do grupo em concordância com a pessoa que vai assumir o nome, ou ainda, cada integrante escolhe o nome que for mais significativo para ele. Pode acontecer de alguns participantes desejarem trocar os nomes durante a dinâmica, assim como alguns desejarem retornar aos seus próprios nomes revelando sua identidade e querendo conhecer a de outro membro do grupo. Objetivos: Oferecer a oportunidade aos integrantes da dinâmica de fazer um feedback da sua vida. Propiciar a expreessão de vivências e sentimentos ao grupo. Tamanho do grupo: Oito a dez pessoas. Tempo: 35 minutos. Material: Folhas de papel em branco, caneta ou lápiz. Ambiente: sala com carteira. Processo: A pessoa que vai aplicar a dinâmica inicia com a explicação dos objetivos da dinâmica, seguindo com a distribuição do material. É solicitado para cada participante traçar um linha com ângulos e curvas, os quais representem fatos de sua vida, nos últimos meses ou ano. O gráfico poderá expressar sentimentos e vivências. Após esta atividade cada membro do grupo irá fazer uma exposição do seu gráfico para o grupo ressaltando os aspectos importantes. Ao terminar esta troca, caminha-se para os depoimentos e comentários entre os membros do grupo. 4.1 Conhecimento Pessoal: Gráfico da Vida As dinâmicas de grupo podem também ser compreendidas como grupos operativos como será apresentado a seguir. Os Grupos operativos têm uma aplicação bem extensa, pode-se pensar que eles são uma espécie de recipiente dos outros tipos de grupos que se propõem a intervenções em situações reais. 56 Os grupos operativos foram descritos e criados por Pichon Rivière (1998), e tem como finalidade e objetivo a mobilização de estruturas estereotipadas, nas dificuldades de aprendizagem e comunicação, dificuldades ligadas às ansiedades básicas que são naturalmente despertadas frente às possibilidades de mudança, expressas pelo medo da perda e do ataque, que, em uma linguagem psicanalítica, dizem respeito às ansiedade depressiva e paranoide, respectivamente. Estas ansiedades emergem juntas e se alimentam entre si, segundo o autor em um processo natural do ser humano, como reação ao novo, mas são superadas através do processo aprendizagem que se faz pelo exercício da comunicação humana. Toda esta movimentação surge frente a uma tarefa proposta pelo grupo, que pode ser desde um grupo de aprendizagem até um grupo terapêutico, ambos se formam em torno de uma tarefa. No primeiro, a tarefa seria a aprendizagem emsi, no segundo, a tarefa proposta estaria ligada ao bem-estar dos integrantes, ou sua cura. Os papéis, inicialmente, são fixos, mas mudam naturalmente quando as lideranças funcionais surgem. Por lideranças funcionais o autor entende como operativas, que são altamente eficazes e se constroem no aqui e agora, de acordo com a necessidade do grupo, ou seja, qualquer integrante do grupo pode assumir o papel de liderança. Os grupos podem ser homogêneos, ou heterogêneos, verticais ou horizontais, primários ou secundários, mas à medida que aumenta a homogeneidade de tarefa, o grupo pode apresentar sua heterogeneidade adquirida através de uma diferenciação progressiva e acolhida dentro do contexto grupal (RIVIÈRI, 1998). Esta teoria sobre grupos operativos apresenta alguns conceitos interessantes já expressos: O conceito de vínculo que aponta para os personagens parentais, que podem surgir de forma inconsciente dentro de um contexto grupal, os integrantes podem repetir padrões de relacionamento adquiridos em suas relações familiares sem perceber que estão diante de relações novas, que demandam um novo modo de se relacionarem; o conceito de formação de papéis, que diz respeito aos lugares ocupados pelos integrantes, por exemplo, o do bode expiatório, o porta-voz, o sabotador, o líder, que pode variar em sua expressão; o conceito de modelo do cone invertido, que diz respeito aos movimentos grupais, por exemplo, aos processos de afiliação grupal, pertinência, comunicação, cooperação, aprendizagem e o contexto emocional do grupo; os conceitos de verticalidade, que diz respeito à 57 história de cada integrante do grupo contemplada, a ideia de horizontalidade que se expressa através do aqui e agora do grupo; o conceito de pré-tarefa, que diz dos movimentos grupais que surgem antes da realização da tarefa, e que podem impedir uma ação realmente nova, expressa na própria realização da tarefa; os conceitos de depositário, depositante e depositado das ansiedades básica, ou medos básicos (ZIMERMAN, 2000). Estes conceitos podem ser observados em movimentos de diferentes grupos, inclusive nas grupoterapias. O coordenador de grupos operativos tem como objetivo centrar na tarefa proposta, seja ela de aprendizagem ou terapêutica. Outro modelo de intervenção em situações reais de grupo são os grupos terapêuticos, que podem ser divididos em dois tipos, como identifica Zimerman (2000), os de autoajuda e os de psicoterapia. Os grupos de autoajuda comumente são grupos que se formam por pessoas que tem em comum algum tipo de sofrimento que é reconhecido por quem integra o grupo, ou melhor, por quem sofre pela mesma razão. Tem seu início marcado em 1935, com a formação dos alcoólicos anônimos, e é considerado uma das formas de intervenções grupais mais antigas para quem sofre de dependência de álcool (FIGLIE; MELO; PAYA, 2004). Nesses grupos alguns fatores parecem contribuir para seu sucesso evidente, os integrantes se reconhecem como alguém que sofre, recorrem sempre ao amparo grupal e iniciam através do grupo um processo interno de auto cura. Eles surgem, inicialmente, através dos alcoólicos anônimos, mas seu modelo de funcionamento vem sendo estendido para outros campos, por exemplo, grupos de diabéticos, grupos dos que amam demais e outros. E, por fim, os grupos psicoterápicos, estes podem se diferenciar, de acordo com suas abordagens teóricas. As abordagens podem ser de orientação psicanalítica, psicodramática, sistêmica, cognitivo comportamental e outras. De um modo geral, elas têm como objetivo, através de seus construtos teóricos e práticos, se aproximarem da cura dos problemas apresentados, sendo que a definição de cura também pode variar de acordo com a abordagem teórica. O que todas estas abordagens apresentam em comum é a possibilidades de analisar e intervir em situações reais de grupos, no auxílio dos que sofrem. Essa possibilidade é o que anima e mantém viva a chama da esperança que a solução 58 para o sofrimento humano está no próprio encontro humano, e, um dos lugares privilegiados para que isto possa ocorrer são os contextos grupais. 4.2 Desenvolvimento da Consciência Crítica e das Habilidades Interpessoais Através das Atividades Coletivas Ao iniciar esta unidade sobre o tema do desenvolvimento da consciência crítica humana e das habilidades interpessoais através das atividades coletivas, naturalmente, se remete a temática das relações do ser com ele mesmo e com outros seres humanos ou com mundo ao seu redor. O próprio desenvolvimento da consciência crítica é condicionado na dialética que se dá entre a reflexão do ser sobre ele mesmo, que propicia uma consciência de si, e a reflexão e atenção ao mundo externo e consciência do outro. Portanto, esta consciência se desenvolve dentro de um contexto de relação intrapessoal e interpessoal situados no mundo. As atividades coletivas são espaços privilegiados, para esta bonita valsa do encontro entre o ser e o outro, possibilitando conhecimento de si e do outro. Para maior compreensão sobre o conceito de consciência crítica se faz necessário compreender primeiramente o que é consciência. Normalmente, este termo está associado à capacidade do ser humano de apreender a realidade através da capacidade intelectual, mas o ser humano é capaz de apreender a realidade através de outras capacidades, por exemplo, dos sentidos, percepções conscientes e inconscientes, assim como através das emoções. A consciência crítica, então, se desenvolve junto com o desenvolvimento do ser em um constante processo de aprendizagem que acontece por meio de sua vivência interna e com outros seres. Essa atividade psíquica permite aos seres que estejam no mundo com algum conhecimento. Permite também a análise de si mesmo e dos outros, considerando as possíveis diferenças e semelhanças, os limites e os valores de uma pessoa ou sociedade, através de uma postura reflexiva, que pode facilitar a diferenciação do que é moral ou ético. Esta consciência crítica se desenvolve acompanhando o desenvolvimento individual do ser e da humanidade, pois acompanha os constantes movimentos evolutivos do ser e do mundo. À medida que o ser evolui, ela também e se altera. É 59 um processo intimamente ligado ao desenvolvimento do ser e do mundo. A consciência de si desenvolve-se através de um processo de atenção, concentração e reflexão dos estados internos e de suas manifestações, sejam elas intencionais ou não. A consciência do outro se desenvolve através do processo da concentração da consciência e atenção no exterior, no mundo externo e no outro (COTRIM, pág. 42 a 45,2008). Ambas as consciências desenvolvem-se também através das manifestações humanas, como no primeiro caso, o ato de falar, posicionar-se frente a algo, criar, afirmar, sofrer, inovar, ser feliz etc. No segundo, o processo se dá através do encontro humano, do escutar o outro, assimilar o que vem de fora, renovar, ou abrir para o novo. A consciência de si, também ocorre frente ao encontro humano, um exemplo claro disso é o processo de psicoterapia, no qual o ser, através de suas manifestações verbais ou não, acolhidas pelo analista, pode fazer uma interlocução entre questões pessoais e ele mesmo. Ainda no que diz respeito à consciência do outro, é importante ressaltar a dimensão da alteridade, que, enquanto processo, trata-se desta percepção do que é o outro, e surge através do contato com o outro. Na psicologia, o conceito de alteridade diz respeito à concepção que o ser tem sobre a diferença entre ele e o outro, entre o ego e o outro (Dicionário de psicologia, 1973).O mesmo conceito, oferecido pelo dicionário de filosofia (ABBAGNANO, 1998 p. 34-35), apresenta-se como a eminência do ser em ser o outro, colocar-se no lugar do outro, constituir-se como o outro. Para finalizar, alteridade trata da assimilação e compreensão do outro em toda sua dimensão humana incluindo suas diferenças. Quanto maior for a consideração a respeito da alteridade, menor a possibilidade de conflitos entre os seres e os grupos, e este exercício humano é possível frente a atividades coletivas, que vão desde as profissionais até as de lazer, entre outras. Para finalizar a temática sobre consciência crítica, é importante ressaltar a necessidade de um equilíbrio entre a consciência de si e a do outro, pois o indivíduo que se centra somente na consciência alheia pode agir sem reflexão sobre a autoconsciência e desenvolver comportamentos grupais contrários às suas concepções, assim como o ser que fica preso somente à consciência de si pode 60 desenvolver comportamentos narcisistas, submetendo outras pessoas a seus desejos sem respeito às diferenças. Outro conceito importante para ser descrito nesta unidade diz respeito ao conceito de inteligência emocional, o qual desembocará no conceito de inteligência relacional. 4.3 Inteligência Emocional Ao falar sobre relações humanas e liderança ocorre uma aproximação do conceito de inteligência emocional, pois os seres humanos, antes de tudo, são seres emocionais. No passado, o conceito de inteligência foi muito estudado e a inteligência, nestes estudos, era considerada como uma função mental, intimamente ligada a outras funções, tais como a percepção, o pensamento, a memória e o raciocínio lógico (OSÓRIO, 2003). No dicionário de psicologia, encontra-se a definição da seguinte forma (CABRAL; NICK, 1989 pg. 193): INTELIGÊNCIA- Segundo o ponto de vista básico adotado pelos vários autores que o definiram, em termos psicológicos, o conceito de inteligência pode abranger diferentes significados. (1) Binet: “Tendência para adotar e manter uma direção definida; capacidade de fazer adaptações com o intuito de alcançar uma determinada meta; poder e auto-crítica.” (2) Craparèd: “Nível mental, considerado globalmente.” (3) Burt: “Fator inato da atividades cognitivas” (4) J. Chaplin: “Capacidade de resolver problemas frente a novas situações. Capacidade de utilizar efetivamente conceitos abstratos.” Estas definições não devem ser consideradas independentemente umas das outras; elas apenas enfatizam diferentes aspectos do processo. Como se pôde observar trata-se de um processo global, que inclui várias funções psíquicas e não é somente uma questão de cognição ou memória ou rapidez, mas algo que auxilia o ser frente a situações novas, nem todas as pessoas que são rápidas em raciocínio, por exemplo, lidam bem frente a situações emocionais novas. Por um longo tempo, os aspectos que eram ressaltados nas avaliações de inteligência, basicamente diziam respeito às funções mentais de precisão e rapidez na realização de cálculos numéricos, de fluência e compreensão verbal, de velocidade da percepção ou da habilidade em rememorar e da capacidade de 61 raciocínio (OSÓRIO, 2003). Aparentemente, estes aspectos identificavam o grau de inteligência disponível na mente do ser. A partir deste ponto, nesta pequena introdução sobre o conceito de inteligência, se torna importante o início da ampliação do mesmo. Todas essas funções mentais descritas sempre estiveram intimamente relacionadas com as emoções, basta retomar as unidades anteriores desta obra, as quais apontam para o ser humano enquanto um ser essencialmente emocional e relacional. É fácil observar, por exemplo, que quando as pessoas estão deprimidas, uma das primeiras funções psíquicas a serem afetadas é a memória, assim como as pessoas que estão vivendo em ambientes com muitos conflitos interpessoais, muitas vezes, não conseguem ter agilidade perceptiva sobre o que está acontecendo, sendo necessário alguém de fora intervir, pois este último avalia a situação melhor por não estar envolvido emocionalmente na mesma. Os fatores emocionais estão relacionados com os cognitivos desde sempre, na área da psicologia tem um ditado de autor desconhecido, que diz que, “criança feliz naturalmente vai bem na escola”. Nessa relação de interdependência entre os afetos e a cognição, existe mais um ingrediente importante, que diz respeito à consideração a ser feita sobre o ser humano, por ser ele um ser biopsicossocial se torna necessário ressaltar outros aspectos envolvidos no desenvolvimento da inteligência, não mais somente a capacidade cognitiva, mas também a emocional e relacional (OSÓRIO, 2003). O autor Goleman (1995), em seu livro sobre inteligência emocional, ressalta vários aspectos desta função psíquica a serem considerados em sua dimensão. Listou cinco principais domínios a serem observados no que diz respeito as capacidades da inteligência emocional, sendo que, três delas estão ligadas a relação do indivíduo com ele mesmo, ou seja, o seu relacionamento intrapessoal. Elas são o autoconhecimento emocional, o controle emocional e a automotivação. Essas habilidades dizem respeito à identificação das próprias emoções no momento em que surgem, o manejo adequado das mesmas e o uso das mesmas para situações determinadas, ou frente a objetivos ou ainda realizações pessoais. As outras duas dimensões também tratam de aspectos importantes ligados à relação com os outros ou relações interpessoais. Estes outros domínios são o reconhecimento de emoções em outras pessoas e as habilidades em 62 relacionamento interpessoal. O reconhecimento das emoções no outro se trata do exercício da empatia, da capacidade de reconhecer e compreender os sentimentos dos outros. As habilidades em relacionamento interpessoal dizem respeito à interação com outros seres humanos, através do uso de competências interpessoais, que nascem de uma disponibilidade para o encontro humano, mas também de um esforço prático e teórico realizado a partir das vivências grupais. Inteligência emocional - luz quântica nos tempos atuais encurtador.com.br/sJO01 / Por que pensar em um esforço, prático e teórico para desenvolver a competência interpessoal? Pelo simples fato de que não se desenvolve tal inteligência através do isolamento social, há estudos que podem ajudar acompreender melhor o ser humano e que podem ser levados para a prática através do exercício da vida em grupos. Os grandes teóricos da psicologia, da psicanálise e da filosofia iniciaram esta incrível jornada sobre o conhecimento do ser humano há muito tempo, e seus trabalhos estão disponíveis para todos que se interessarem em, também, iniciar esta jornada de encontro com o outro e consigo mesmo. Através de pesquisas realizadas sobre as interações precoces, muito se descobriu a respeito das disposições inatas do recém-nascido. Sabe-se que o bebê nasce com um equipamento de base, ou melhor, certa organização neurológica 63 e fisiológica sofisticada e com uma gama de funções perceptivas, dentre elas a percepção visual, a auditiva e a olfativa, que o tornam um parceiro singular em ação de iniciativa e pronto para interagir com a mãe em um contexto interpessoal. Esta organização sofisticada trata-se de um modo individual e particular de ritmos estabelecidos através do sono e de descargas motoras em interação com o ambiente. Estes ritmos e descargas são diferentes para cada bebê, apontam para a originalidade de cada um, por exemplo, a figura da mãe para um determinado bebê pode funcionar como estímulopacificador frente às descargas motoras provenientes do próprio organismo. Em outro bebê, o estado de alerta pode ser alterado quando se vê diante de estímulos nocivos, ele pode adormecer aos poucos, revelando deste modo a capacidade de subtrair-se do estímulo nocivo, ocorrendo uma atividade dinâmica de para- excitação (BRAZELTON, 1987). Este exemplo de uso do estado de vigília demonstra uma complexa capacidade de o bebê organizar-se diante de um estímulo, uma capacidade de se tranquilizar. Pode ocorrer também uma reação diferente desta citada, dependendo da originalidade do mesmo, ele pode se expor ainda mais ao estímulo, permanecendo acordado, como no caso das insônias precoces. Com relação às funções perceptivas, sabe-se que o bebê nasce preparado para receber os estímulos vindos do adulto, discriminá-los e a respondê-los de modo que a comunicação entre ambos se estabeleça. Deste modo, o bebê não é somente um reflexo do ambiente, ele vai, também, através da interação com sua mãe, provocá-la de modo ativo para o início de um processo de comunicação e aprendizagem entre ambos. Este recorte teórico feito sobre o funcionamento psíquico dos bebês aponta para uma potencialidade praticamente inata da inteligência emocional e relacional, neurologicamente, o ser nasce pronto para manifestar-se de modo espontâneo e habilitado para o encontro humano, tais potencialidades embrionárias ficam aguardando para serem despertadas em um primeiro momento, através do outro, mas, em um segundo momento, este mesmo bebê já crescido e adulto pode vir a ser um agente do despertar humano, para pessoas que em decorrência dos traumas da vida se veem encapsuladas em sua dor e impedidos de reabilitar sua competência emocional e relacional. 64 A próxima sessão desta unidade vai tratar sobre o conceito de resiliência, já introduzido levemente no parágrafo anterior. 4.4 Resiliência O termo Resiliência tem sua origem na disciplina da física, trata-se de uma capacidade de um determinado material que, após sofrer tensão, retorna a seu estado original, exemplos destas matérias são os utilizados pelos dentistas na fabricação de aparelhos ortodônticos. Estes materiais acumulam energia quando submetidos ao estresse sem se romperem, após o período de exposição à tensão. Esta terminologia, embora originalmente surgida na área de física, vem sendo utilizado e adaptado para outras áreas do conhecimento, como na psicologia, tornando-se um conceito psicológico aplicado aos indivíduos, às famílias, às organizações e nas áreas sociais. Por resiliência pode-se entender que são processos de superação que os indivíduos vivenciam após se depararem com crises e adversidades (YUNES, 2001). O conceito de resiliência compreendido desta forma aproxima-se da compreensão que é dada pelos pesquisados brasileiros e de língua latina, portanto, um pouco diferente dos pesquisadores ingleses e americanos, como será apontado a seguir. Embora o termo resiliência fosse familiar nas disciplinas da física e engenharia, o seu uso pelas ciências humanas é relativamente novo e adquire, com relação ao construto teórico sobre resiliência, significados diferentes em diferentes países nos quais vem sendo pesquisado, variando de acordo com a familiaridade com o termo e o tempo. Tal distinção torna-se importante na introdução desse tema para melhor compreensão. Os estudos norte-americanos e ingleses sobre resiliência, ligados à área da psicologia, surgiram, inicialmente, no final da década de setenta e no início dos anos oitenta, quando, neste período, ocorreram mudanças de enfoque nas pesquisas em psicologia, em consequência de demandas que surgiram ligadas às mudanças socioculturais. Até então, tais estudos eram ancorados na psicopatologia e se debruçavam nas questões referentes ao adoecimento do ser, havia pouco ou quase nada de material sobre aspectos ditos saudáveis. O enfoque 65 era o de avaliação de riscos, centrado na doença e em fatores que poderiam levar o ser humano a um prejuízo social ou biológico. Nos estudos iniciais sobre resiliência, acreditava- se que certos indivíduos eram invulneráveis às situações traumáticas ou de risco. Através de pesquisas com crianças foi observado que algumas delas, apesar de expostas a situações de risco para o desenvolvimento normal, não adoeciam, eram praticamente invulneráveis aos riscos (BRANDÃO; MAHFOUD; GIANORDOLI -NASCIMENTO, 2011). Estes estudos levaram à observação de que certas crianças possuíam algum grau de vulnerabilidade ou predisposição individual para não obterem sucesso no enfrentamento das situações de risco, assim como uma disposição para o desenvolvimento de doenças psíquicas ou físicas frente aos traumas, enquanto outras apresentavam algumas características que as auxiliavam na superação de situações de risco. Tais estudos passaram a levantar quais seriam estas características. Embora esses estudos iniciais praticamente descrevam inicialmente crianças invencíveis, poucos pesquisadores fixaram somente nesta ideia, pois a ideia de invencibilidade limitava as pesquisas. No que diz respeito a um dos conceitos de resiliência atuais utilizado na área da psicologia, a American Psychological Association (APA, 2010) aponta a resiliência como um processo no qual o ser consegue se adaptar a experiências muito complexas e difíceis com eficácia, através do exercício de seus recursos, como flexibilidade mental e emocional e manejo de demandas externas e psíquicas internas. Neste conceito sobre resiliência, observa-se que ocorre uma mudança, o ser não é exatamente invencível, mas é capaz de processualmente acionar recursos ou potências para superar uma situação traumática. A mudança de enfoque que surge a partir destas décadas de pesquisas em resiliência, trata-se de uma mudança de paradigma que levou os pesquisadores a mudarem do enfoque de riscos para o enfoque de resiliência. O enfoque na resiliência aponta que os fatores de risco irão encontrar pessoas que não estarão simplesmente paradas ou determinadas a danos permanentes, mas vão reagir, superar e voltar a viver, apesar do sofrer. Outro pesquisador sobre resiliência, Sabbag (2012) aponta que tal fenômeno humano diz respeito a certa competência dos seres ou de instituições que auxilia 66 no enfrentamento das adversidades, possibilitando inclusive, uma aprendizagem nova. Neste sentido, trata-se de um fenômeno humano que pode ser desenvolvido e melhorado, pois tal fenômeno se apresenta como um processo de tomada de consciência das atitudes e habilidades ativadas no enfrentamento do sofrimento e uma postura ativa frente à dor de resolutividade. Ainda nesta linha de pensamento de Job (2003), através de seus estudos sobre resiliência em instituições, conclui que tal competência denota também, uma postura ativa frente à situação geradora de tensão ou sofrimento em uma tentativa e desejo de resolver o problema. Até este momento, as definições sobre o conceito de resiliência baseiam-se nos estudos americanos e ingleses e dizem respeito a competências que um indivíduo ou uma organização para lidar com a adversidade. Estes estudos, embora alguns sejam atuais, seguem a linha de raciocínio cujo conceito de resiliência diz respeito a uma capacidade de resistir aos problemas sem ser afetado, são pessoas que resistem ao estresse sem adoecerem e são auxiliados neste processo através de características individuais, tais como: personalidades flexíveis, sociabilidade, criatividade na resolução dos problemas e senso de autonomia (YUNES, 2003). As pesquisas quantitativas nesta abordagem do fenômeno naturalizama resiliência como uma capacidade humana e como um indicativo de vida saudável. Em seu artigo sobre resiliência, Yunes (2003) aponta algumas características de famílias resilientes, como as famílias que conseguem atribuir sentido às adversidades, olhando as positivamente, com certa transcendência e espiritualidade. Apresentam também flexibilidade, coesão, recursos sociais e econômicos com relação aos padrões de organização. No que diz respeito à comunicação nestas famílias resilientes, ela é exercida com clareza, e as emoções são expressas abertamente, apresentam também comportamento colaborativo entre si frente às adversidades. Os pesquisadores brasileiros e de língua latina vão compreender o conceito de resiliência de forma ampliada, para eles, resiliência trata-se de uma possibilidade de recuperação, mas esta recuperação vai além de simplesmente recuperar-se de um dano, significa uma superação do que se era. As pesquisas que são realizadas a partir desta concepção do conceito se interessam por indivíduos fragilizados frente às adversidades, tem como meta recuperá-los, fortalecê-los para que ocorra a 67 superação do trauma (BRANDÃO; MAHFOUD; GIANORDOLI - NASCIMENTO, 2011). Esses pesquisadores não abandonaram completamente o conceito de resiliência relacionado aos fenômenos de resistência ao estresse, mas eles acrescentaram a este conceito a ideia de resiliência como um processo de superação e recuperação após situações traumáticas. Assim como muitas pesquisas americanas e inglesas, atualmente, se apoiam no conceito de resiliência tal como descrito. Pode-se pensar então que resiliência são processos a serem cuidadosamente avaliados que dizem respeito tanto a características individuais que uma pessoa possa ter e que a auxiliem a resistir as adversidades, ou ao estresse, quanto à condição ou possibilidade de superação e recuperação de pessoas que não resistiram às adversidades e adoeceram. Desta forma, o conceito torna-se mais realista e aplicável tanto em indivíduos como em organizações, e a partir desta visão pode-se pensar que todos, de alguma forma, podem auxiliar no processo de resiliência de pessoas que se encontram em adversidades através do simples exercício da solidariedade. Pois, com a ampliação do conceito e das pesquisas neste campo, outro termo importante surge que diz respeito aos tutores de resiliência. O psicanalista Cyrulnik (2004) trata do conceito como um processo, um conjunto de fenômenos sincronizados que dizem respeito à capacidade do ser de lutar frente à adversidade, mas também de uma abertura para receber uma mão estendida quando já se sucumbiu a dor, e esta pode vir do social através de uma professora, ou um técnico de enfermagem em um hospital, ou ainda através de um processo de psicoterapia, neste sentido todos podem ser tutores da resiliência, da recuperação de alguém que está em sofrimento. O processo de resiliência para este pesquisador inclui a fala, mas é necessária a espera do ser para que ele consiga falar, pois, ao falar sobre o trauma, ele o revive e a ferida é sentida, mas, desta vez, para que ela seja cicatrizada. O resiliente tem guardado dentro de si vivências infantis seguras que o auxiliam a receber a mão estendida, mas Cyrulnik (2004) afirma que mesmos os seres que foram privados de tais vivências podem obtê-las mais tarde, porém, lentamente, estas serão assimiladas. Esta construção é possível, contanto que o meio ofereça para os 68 feridos alguns tutores de resiliência. Pessoas dispostas a escutar e acolher o sofrimento do outro em um simples movimento de solidariedade. Antes de finalizar esta obra, vale ressaltar que os feridos estão em toda parte, nas famílias, nos grupos de trabalho, nas ruas e até mesmo nos grupos de lazer, assim como os tutores de resiliência em potencial, e, às vezes, como aponta Cyrulnik (2004), uma simples palavra ou expressão de um sorriso serve de instrumento de resiliência para quem foi ferido. Vale ressaltar também que pensar em relações humanas e liderança também é lembrar que a solução para o ser humano está no próprio humano e nesta incrível jornada que é este encontro. encurtador.com.br/aqET7 71 5 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABBRAGNANO, N. Dicionário de filosofia. 3ª edição. São Paulo: Martins Fontes, 1998. ABRAM, J. A linguagem de Winnicott. Dicionário das palavras e expressões utilizadas por Donald W. Winnicott. Rio de Janeiro. Editora Revinter, 2000. p. 253- 263. AMERICAN PSYCHOLOGICAL ASSOCIATION (APA). Dicionário de Psicologia da APA. Porto Alegre: Editora Artemed, 2010. ARANTES, M. A. A. C.; VIEIRA, M. J. F. 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