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Sumário 
 
ORIGEM E HISTÓRIA .............................................................................................................. 3 
INFLUÊNCIAS FILOSÓFICAS .............................................................................................. 15 
HOLISMO E VISÃO SISTÊMICA .......................................................................................... 21 
CONCEITO DE SAÚDE EM GESTALT-TERAPIA .............................................................. 27 
Conceitos Estruturantes ............................................................................................................. 33 
AQUI E AGORA ...................................................................................................................... 37 
A RELAÇÃO FIGURA-FUNDO ............................................................................................. 40 
VIVÊNCIAS ANTERIORES ................................................................................................... 42 
SITUAÇÕES INACABADAS .................................................................................................. 43 
TEORIA DE CAMPO .............................................................................................................. 45 
AWARENESS E TEORIA PARADOXAL DA MUDANÇA .................................................. 48 
TEORIA ORGANÍSMICA ....................................................................................................... 51 
FRONTEIRAS DE CONTATO ................................................................................................ 54 
FUNÇÕES DE CONTATO ...................................................................................................... 58 
CICLO DE CONTATO ............................................................................................................ 62 
RESISTÊNCIA E DISFUNÇÕES DE CONTATO .................................................................. 68 
O EU-NEURÓTICO ................................................................................................................. 72 
RELAÇÃO EU-TU ................................................................................................................... 74 
TRABALHANDO COM SITUAÇÕES INACABADAS......................................................... 79 
O CORPO ................................................................................................................................. 83 
EXPERIMENTOS .................................................................................................................... 85 
REFERÊNCIAS ....................................................................................................................... 96 
 
 
 
3 
 
ORIGEM E HISTÓRIA 
 
Raízes e Precursores 
 
Gestalt-terapia é uma abordagem psicológica que teve sua origem na Alemanha. 
Seu nascimento oficial ocorreu com a publicação do livro “Gestalt-Teraphy”, em 1951, 
escrito por Fritz Perls, Hefferline e Goodman. A escolha do nome desta nova proposta 
de trabalho psicológico foi um processo difícil e controverso. 
Laura Perls sugeriu Psicanálise Existencial, porém em razão das críticas 
sobre o pessimismo da obra de Sartre, esta ideia foi descartada pelos demais. Já 
Hefferline propunha o título Terapia Integrativa, mas também não foi aceito. O nome 
Terapia Experimental foi levantado pelo grupo, mas logo recusado. 
Inicialmente, Perls batizara este método de “Teoria da Concentração”, uma clara 
oposição ao método psicanalítico da livre associação. Realmente, esta teoria sugeria ao 
cliente que este se concentrasse na experiência do aqui-agora, que houvesse uma 
consciência de seu estado físico e corporal, além de utilizar os recursos de 
relaxamento e respiração. Porém, este título não refletiria a sua nova teoria em todos 
os seus aspectos. Essa sugestão estaria enfocando apenas pontos menores em seu 
arcabouço prático e teórico. 
Seria necessário encontrar um nome mais global para o método sugerido. Foi 
então que Perls sugeriu “Gestalt-terapia”, o que não agradou a todos, principalmente 
a Laura Perls, que naquela ocasião fazia doutorado em Psicologia da Gestalt, e 
achava que o novo método proposto não tinha relação com esta teoria, a qual conhecia 
melhor que Perls. Goodman achava o termo estrangeiro e esotérico demais, só que 
era exatamente isto que agradava Perls, seu caráter provocativo e comercial 
(“marqueteiro”). 
A palavra Gestalt é amplamente adotada em todo o mundo e em todas as 
línguas, na sua forma original, uma vez que não apresenta uma tradução equivalente 
em nenhum país. Em dicionários comuns, Gestalt apresenta o sentido de “figura, forma, 
feição”. Gestalten, que é o seu plural, significa “dar forma, dar uma estrutura 
significante, moldar, arrumar”. E ainda buscando algo que apresente um sentido de 
mais ação e processo, encontramos a palavra Gestaltung que pode ser traduzida como 
“formação, conformação, criação e organização”. 
Quando falamos em Gestalt estamos falando de uma teoria que veio de uma 
 
4 
 
escola de pensamento que é a psicologia da Gestalt. Tal escola estuda como os seres 
percebem as coisas e como o campo perceptivo se organiza espontaneamente por 
meio das “boas formas” ou “gestalten fortes e plenas”. 
Esta psicologia considera que os fenômenos psicológicos, físicos, biológicos e 
simbólicos constituem um conjunto autônomo, indivisível e articulado na sua 
configuração, organização e lei interna. Quando nos deparamos com um estímulo 
físico, tentamos compreendê-lo por meio de uma organização perceptual. Esta 
organização pode ocorrer de diversas maneiras, mas apenas uma organização 
aparecerá de cada vez. Caso você queira reorganizar sua percepção conscientemente, 
alterando o foco de percepção, isso poderá ser feito, mas sempre uma em cada 
momento. 
Por exemplo: quando vemos a Figura qual é a organização predominante? Uma 
taça ou o perfil de duas pessoas, uma de frente para outra? Esta organização é 
individual e ocorrerá de cada vez, embora possa ser percebida alternadamente; uma vez 
se percebe os rostos, outra vez o vaso. 
 
 
Uma taça ou dois rostos? Só a Gestalt explica... 
 
A percepção ocorre por uma totalidade e não por “pontos isolados”. Podemos 
destacar que a partir deste princípio estrutura-se uma máxima que servirá de conceito 
precursor da abordagem da Gestalt-terapia: “O todo é maior que a soma de suas partes”. 
Este movimento conhecido como Psicologia da Gestalt, também pode ser 
chamado de Psicologia da forma, Gestaltismo ou simplesmente Gestalt. Foi criado pelos 
psicólogos alemães Max Wertheimer (1880-1943), Wolfgang Köhler (1887-1967) e Kurt 
Koffka (1886-1940), nos princípios do século XX. 
É importante ressaltar que muitos dos princípios estudados na psicologia da 
 
5 
 
Gestalt são aplicados na prática clínica e teórica da própria Gestalt-terapia. Porém, 
este conceito foi primeiramente apresentado pelo filósofo austríaco Christian Von 
Ehrenfels. Seus estudos apontam para a existência de “objetos perceptivos”, como as 
formas espaciais e as estruturas rítmicas, que se apresentam como “formas” ou 
relações estruturais e não se reduzem à soma de sensações precisas. Estas ideias estão 
apresentadas no livro "Sobre as qualidades formais" (1890). 
Desde a sua origem, a Gestalt-terapia, se apropriou e se nutriu, de forma 
consciente ou não, de várias correntes filosóficas e terapêuticas, não só da 
Psicologia da Gestalt, mas também da fenomenologia, do existencialismo, do 
psicodrama, da psicanálise, das terapias corporais e também de filosofias orientais, 
como o budismo e o taoísmo. Daí, se tira sua principal crítica, uma vez que alguns 
autores não a consideram uma abordagem autêntica, mas sim, uma “colcha de retalhose técnicas”. 
Utilizando seu próprio princípio, de que é necessário olhar o todo e não a 
soma de suas partes, podemos esclarecer que esta nova organização teórica constitui 
algo novo e muito autêntico. A própria genialidade de Fritz Perls (seu criador) e de 
seus principais colaboradores, Laura Perls e Paul Goodman, foi elaborar esta síntese 
coerente, rica, única e dinâmica. 
A teoria da aprendizagem da Gestalt também contribui para a Gestalt-terapia 
com os conceitos de situação inacabada e figura-fundo. A situação inacabada 
impede a pessoa de seguir adiante e lhe trazer satisfação. O conceito de figura-
fundo permite que o observador organize suas percepções em uma unidade mais forte. 
Este movimento pode levá-lo ao ritmo de awareness (consciência organísmica, ou 
processo de dar-se conta) e unawareness. 
Alfred Adler, psicólogo austríaco, foi médico psiquiatra e psicanalista. Traz a 
visão de que o homem é o criador consciente de sua vida. O estilo de vida e o eu 
criativo sustentam ao sujeito uma participação única e ativa. Em consonância com o 
pensamento de Adler, a Gestalt- terapia também acredita que o homem cria a si mesmo, 
sendo que sua maior energia advém do processo de estar em aware e da aceitação de si 
mesmo. 
Otto Rank, psicanalista, discípulo de Freud por vinte anos, muda a visão da 
resistência para uma perspectiva mais construtiva e inclui o seu papel na resolução 
das partes separadas de si mesmo. “A resistência construtiva a essas alternativas 
assustadoras leva a uma nova integração criativa dessas forças classicamente opostas” 
 
6 
 
(POLSTER, 2001, p. 315). 
Junto dessa influência, a Gestalt-terapia reconhece o poder da resistência 
criativa e não tenta extirpá-la a todo custo, e sim, mobilizá-la para uma nova 
composição pessoal, considerando sua força e fazendo com que esta fique integrada ao 
indivíduo. 
Wihelm Reich, discípulo dissidente de Freud, desperta o interesse de Perls 
sobre o caráter do homem, que é o jeito de ser da pessoa. Reich elabora o conceito de 
couraça corporal, como uma forma de tensão muscular diante de uma repressão 
habitual, ou seja, a mesma repressão do nível mental está ocorrendo no corpo. Outro 
aspecto importante foi o fato de que Reich ao olhar para as ações simples de um 
modo simples permite que a fenomenologia se firme de forma mais ativa. Ele traz 
para o setting terapêutico o comportamento cotidiano, enfatizando as características 
linguísticas, posturais, musculares e gestuais. 
Moreno, por meio do psicodrama, reconhece o poder atemporal da arte da 
dramatização como meio para o processo de mudança. Este caminho abre as 
possibilidades criativas inerentes na arte e defende a potencialidade das descobertas 
quando a pessoa participa de uma experiência, muito mais ativamente do que apenas 
falar sobre ela. 
A Gestalt-terapia utiliza muito o psicodrama para seus trabalhos vivenciais 
junto ao cliente, e também em situações específicas por meio de trabalhos com sonhos. 
A dramatização vai acontecendo juntando os diversos elementos do sonho ou da cena. 
O cliente vai entrando em cada papel e se identificando. É necessário sentir no 
corpo e nas emoções o impacto das imagens. Com relação ao sonho, cada parte é 
considerada como uma expressão parcial do próprio sonhador. Esta concepção 
teórica advém da visão de Jung de que os sonhos e seus simbolismos representam 
expressões criativas do eu e projeções de si mesmo. Esta ideia também é 
compartilhada pela Gestalt-terapia. 
Jung também influencia a Gestalt-terapia com o conceito de sombra que tem 
uma relação direta com a visão gestáltica de polaridades, em que a presença de um 
pólo só faz sentido na presença do outro, ou seja, os aspectos polares são 
complementares. 
Na Gestalt-terapia quanto maior é a polarização em uma das extremidades, 
mais neurótico o cliente se torna. Por exemplo, uma pessoa que se considera muito forte 
será incapaz de lidar com sua fraqueza em uma determinada situação. O trabalho da 
 
7 
 
Gestalt-terapia será integrar as polaridades (por exemplo: força e fraqueza), e fazer com 
o cliente possa se perceber hora forte, hora fraco, e assim, transitar naturalmente por 
estas polaridades. 
Kurt Goldstein, neurologista e psiquiatra alemão foi um pioneiro da 
neuropsicologia moderna. A Gestalt-terapia foi bastante influenciada por sua teoria 
holística do organismo. A partir do seu trabalho com os soldados da Primeira Guerra 
Mundial que retornavam com lesões cerebrais e, também, da ideia de totalidade de 
Jan Smuts, ele desenvolveu sua teoria das relações cérebro-mente. Dentro de sua 
visão há uma severa crítica à forma como a medicina lida com a sintomatologia dos 
pacientes. Seu livro mais importante, em alemão, Der Aufbau des Organismus 
(1934) foi publicado novamente em inglês com o nome The Organism (1995). 
Tanto para Goldstein, quanto para a Gestalt-terapia, o sintoma passa a ter uma 
função de busca de equilíbrio do organismo. Exatamente por fazer parte desta 
totalidade, o sintoma sofre a influência do organismo com um todo. O organismo tem 
uma tendência inata de autorregulação e, muitas vezes, o sintoma é a melhor saída 
que este organismo teve para se organizar em um determinado momento diante de 
uma nova situação. Esta ideia traz uma nova concepção de saúde, que é justamente a 
capacidade de recuperação do equilíbrio do organismo, e não mais a ideia de 
ausência de doença. Isto também influencia a percepção da neurose que passa a ser 
entendida como um processo de ajustamento criativo. 
Kurt Lewin foi um psicólogo alemão que transitou muito entre os campos 
sociais e a necessidade de pesquisa. Sua contribuição deu-se por seus trabalhos com 
dinâmicas de grupo, fortalecendo o olhar da psicologia social como ciência, e 
desenvolvendo o conceito de pesquisa- ação. Dedicando-se a áreas de processos sociais, 
motivação e personalidade. 
Para a Gestalt-terapia, sua enorme influência parte do conceito denominado de 
Teoria de Campo. Para ele, é necessário entender a personalidade como um campo, 
onde as variações individuais do comportamento humano são estabelecidas pela tensão 
entre as percepções que o indivíduo tem de si mesmo e pelo ambiente psicológico em 
que está inserido (espaço vital). 
Não podemos falar dos pressupostos e da origem da Gestalt-terapia sem 
falar da necessidade de usar a criatividade dentro do setting terapêutico. Somente 
quando há ligação clara entre o cliente e o terapeuta é que se consegue a 
transformação e a mudança do cliente. Mas este contato só vai se tornar um ato 
 
8 
 
criativo se tiver fluência e um sentimento mútuo de transformação. 
Zinker (2007, p. 17) afirma que “a terapia criativa é um encontro, um 
processo de crescimento, em evento para a solução de problemas, uma forma especial 
de aprendizagem e uma exploração de toda a diversidade de nossas aspirações de 
metamorfose e ascendência.” 
Para a Gestalt-terapeutas o profissional é o maior bem que o cliente poderá 
usufruir como canal, ferramenta e troca. Para isso, o próprio terapeuta precisará 
buscar a ousadia e a criatividade em sua prática diária, por meio dos experimentos, 
mas sempre baseados em sua concepção teórica. 
“A Gestalt-terapia é, na realidade, uma permissão para ser criativo” (ZINKER, 
2007, p. 30). O método escolhido reforça esta ideia, que é o experimento. Permitir 
que se abram diante do terapeuta todas as possibilidades de trabalho, permitir tornar-
se exuberante, provocando a vida em suas diversas facetas, são posturas essenciais 
de um Gestalt-terapeuta, buscando sempre ousar ao inusitado, e estimular a 
criatividade. 
 
FREDERICK PERLS E SUCESSORES 
 
Como foi visto no item 1 do módulo, a Gestalt-terapia é uma abordagem 
psicológica que sofreu influências de vários teóricos e ideologias diferentes. Perls, seu 
fundador, utilizou-se de um vasto arcabouço teórico, métodos, técnicas, porém, 
reformulando estas ideias emum estilo pessoal. Tanto Perls como seus sucessores 
sempre atribuíram grande atenção e valor ao estilo e à criatividade de cada terapêutico. 
Sua forma de construir e apresentar esta nova abordagem psicológica reforça 
esta ideia. Esta síntese específica e coerente que foi costurada em cima da máxima de 
que “o todo é bem diferente da soma de suas partes”, é uma criação baseada nas 
intuições geniais e nas crises pessoais de seu principal fundador, Fritz Perls (um 
“enfant terrible”). 
A vida de Frederick Perls costuma ser um misto de ousadia, arrogância, 
impulsividade e autenticidade. É muito comum que seus discípulos e profissionais da 
Gestalt-terapia tenham, ao mesmo tempo, os sentimentos antagônicos de orgulho e 
vergonha de seu “mentor”. 
Sua vida extremamente controversa não esconde seu caráter egoísta, 
narcisista e avarento, mas seu poder de sedução e seu exibicionismo encantavam e 
 
9 
 
mantinham as pessoas ao seu redor. Seus papéis familiares de filho, marido e pai foram 
exercidos de forma egocêntrica e indigna. Fritz costuma repetir com orgulho a 
definição que sua mulher tinha dele, “uma mistura de profeta e coitado”, achando-a 
perfeita e exata. Teve vários vícios em sua vida, como os três maços de Camel, LSD 
e outras drogas psicodélicas. Por toda a sua vida, Friz manteve um fascínio por 
grupos marginalizados. 
A Gestalt-terapia foi marcada por uma hostilidade contra os interesses e a 
ordem burguesa. Por muitos anos, a quebra de padrões sociais, choques de valores e 
rebeldia (incluindo o uso de drogas e prazeres efêmeros) conduziram os atos tanto 
do homem Fritz quanto do pensador e articulador da abordagem da Gestalt-terapia. 
Não foi à toa que aos 75 anos de idade foi considerado o “rei dos hippies”. 
Friedrich Salomon Perls, nasceu em 8 de Julho de 1893 em um gueto 
judeu no subúrbio de Berlim. Seu pai, Nathan, era um comerciante charmoso e sedutor 
que viajava muito e era muito infiel. De seu pai Fritz herda seu temperamento 
irritadiço, violento e orgulhoso. Sua mãe, Amália, era uma judia devota que respeitava 
as tradições. A partir da paixão de sua mãe pelo teatro e pela ópera, Fritz descobre 
esses encantos que carrega por toda a sua vida. O casal viveu em constantes brigas, 
muitas vezes violentas, em um clima quase que de ódio. 
Fritz tinha muito ciúmes de sua irmã mais velha, Else, que era protegida pela 
mãe por ser quase cega. Diz-se que ele não chorou uma lágrima quando sua mãe e 
Else morreram em um campo de concentração. Já de sua irmã Grete, ele era bastante 
próximo, inclusive morou com ele em Nova York. Durante dez anos de convivência, 
Grete serviu como empregada para Fritz e sua esposa. Do pai, Fritz, foi desenvolvendo 
uma raiva cada vez maior, cortando laços em definitivo e não indo ao seu enterro. Fritz 
passou a vida toda duvidando de sua paternidade. 
Durante sua infância ele foi um menino muito levado e apanhava 
constantemente. Chegou a ser expulso da escola por mal-comportamento. Aos treze 
anos começou a trabalhar como aprendiz em uma loja, abandonando no ano seguinte, 
quando voltou a estudar em uma escola liberal, onde desenvolveu seu gosto pelo 
teatro. Quando adolescente, fez vários cursos de artes dramáticas, mas não se 
considerava um bom ator. Sua influência maior foi do diretor expressionista Max 
Reinhardt que acreditava no envolvimento total do ator em seu papel. 
Nos primeiros quarenta anos de vida, Perls transitou por cidades na 
Alemanha e Áustria. Formou-se como psiquiatra e participou da Primeira Guerra 
 
10 
 
Mundial, experiência que lhe conferiu graves sequelas dos traumas vividos, 
chegando a manifestar sinais de despersonalização e indiferença total pelo meio. 
Após a guerra, obteve doutorado em medicina, tornando-se um neuropsiquiatra. 
Ainda interessava-se por teatro, frequentando cafés esquerdistas de Berlim, onde se 
envolveu com artistas anarquistas da contracultura. Neste momento, ele se encontra 
com S. Friedlaender, autor de “A indiferença criadora” que era um ensaio que visava 
a superar o dualismo kantiano desenvolvendo o conceito de “vazio” ou “vazio fértil”. 
Aos 32 anos, Fritz ainda era um homem dependente e inseguro, morava com a 
mãe e era desprezado pelo pai. Quando conhece Lucy, sua vida sofre uma grande 
mudança e passa a buscar experiências mais ousadas e transgredir todos os tabus. Ela 
mostra-lhe uma série de práticas eróticas, como: sexo a dois, três, quatro, 
exibicionismo, voyerismo, homossexualidade, etc. 
Após três processos psicanalíticos consecutivos vividos como paciente, com 
Karen Horney, Clara Happel e Eugen Harnick, Fritz decide “trocar o divã psicanalítico 
pelo leito conjugal”, casando-se com Lore Postner, com quem teve dois filhos. Durante 
esta transição, ele sai de Berlim e instala-se em Frankfurt. Começa a trabalhar com 
Kurt Goldstein, utilizando a psicologia da Gestalt para sua pesquisa com distúrbios 
perceptivos em pessoas com problemas cerebrais. Lá conhece Lore Postner, ficando 
conhecida mais tarde como Laura Perls. 
Inicia o último processo terapêutico com Wilhelm Reich, quando foi 
notadamente inspirado por suas ideias sobre as couraças de caráter e a forma 
terapêutica ativa de tocar o corpo dos seus pacientes. Nesse período, estabeleceu-se 
como psicanalista. 
Após superar o medo de ser estéril, em 1931, nasce Renate, a primeira filha de 
Perls. Sua relação com ela era muito íntima e amorosa até nascer Steve, seu segundo 
filho, depois de quatro anos. Mais tarde, sua ligação com os dois filhos vai se 
desligando e a negligência a ambos vai imperar. 
Aos quarenta anos foge da Alemanha nazista, por ser judeu, e vai para 
Amsterdã. De 1934 até 1946 instala-se como psiquiatra na África do Sul, levando 
uma vida burguesa, rica, luxuosa e mundana. Fundou o Instituto Sul-africano de 
Psicanálise e tanto ele, quanto Lore tinham muitos clientes. Ainda usava as normas 
rígidas da psicanálise, cinco sessões por semana de cinquenta minutos, sem contato 
físico, visual ou social. 
No Congresso Internacional de Psicanálise em Praga (1936), sofre várias 
 
11 
 
decepções que o marcam pelo resto de sua vida. Primeiro, Freud, em seu encontro, 
quando foi apresentar seu trabalho e suas ideias, não demonstrou interesse e não teve a 
acolhida esperada. Segundo, durante o congresso, Reich quase não o reconhece, mesmo 
após mais de dois anos em sessões diárias como analisando, e também, não se 
interessa por nada que ele expõe. Terceiro, foi o pouco interesse e aceitação geral 
dos seus colegas psicanalistas quando aborda a importância da oralidade e das 
modalidades de ingestão do bebê. 
Em 1942, ele publica o livro: “Ego, fome e agressão”. Ao escrever este livro, ele 
passa a desenvolver suas teses, o que seria um esboço de várias noções futuras da 
Gestalt-terapia, tais como: importância do momento presente, do corpo, contato direto e 
autêntico entre paciente e terapeuta, uma abordagem “holística” do organismo, e as 
ideias de uma “terapia da concentração”, compreendendo técnicas de visualização de 
utilização da primeira pessoa do singular, responsabilidade dos sentimentos, 
concentração do corpo e das sensações e observações das hesitações. 
Suas ideias, que ficam cada vez mais fortes a partir deste primeiro livro, 
sofreram uma grande influência de Smuts, o principal responsável por sua ida para a 
África do Sul. Ele foi o fundador do holismo, que é uma teoria elaborada a partir 
das ideias de Darwin, Gergson e Einstein. Sua conceituação a respeito de holismo 
considera não só o próprio organismo como um todo coerente, mas um todo em 
interdependência estreita com seu meio e com o universo. 
Nos dez anos seguintes, de 1953 a 1963, Fritz fixa residência em Nova York 
e faz viagens por todos os Estados Unidos. Cada vez mais ele se interessava pela terapia 
em grupo, e na sua vida pessoal, continuava envolvendo-se com anarquistas e 
revoltados que alardeavam uma grande liberdadede costumes e praticavam abertamente 
a bissexualidade e o sexo grupal. Em 1950, é constituído o grupo dos sete: Isadore 
Fromm, Paul Goodman, Paul Weisz, 
Elliot Shapiro, Sylvester Eastman, Fritz e Laura Perls, mais tarde Halph 
Hefferlin, que poderia avalizar o grupo, por ser professor universitário, e facilitaria a 
publicação das suas teses. 
Em 1951, surge a obra coletiva “Gestalt Therapy”, e marca o início oficial 
da nova prática. Nesta época, encontra-se com Goodman, que se torna um dos 
pensadores da nova escola, a Gestalt-terapia. Outro encontro importante ocorreu com 
Isadore Fromm, estudante de Fenomenologia, que foi um dos pilares do célebre 
Instituto de Gestalt de Cleveland. 
 
12 
 
Em 1952, junto com Laura cria o primeiro instituto de Gestalt-terapia e 
começa a divulgar pelos Estados Unidos o seu novo método. Esta fase marca a troca 
de conhecimentos entre vários terapeutas, tais como: Charlotte Selver inspirando-se 
na tomada de consciência sensorial do corpo; Moreno com quem praticou o 
psicodrama, principalmente o monodrama; Hon Hubbard que o iniciou na dialética ou 
cientologia. 
De 63 até 67 anos, instala-se na Flórida e vive um período triste e 
deprimido. Fica doente, com problemas cardíacos, solitário, sem amigos, e começa 
a sonhar com a aposentadoria. Pela primeira vez na vida, renuncia às atividades 
sexuais com medo de uma crise cardíaca. 
Em 1957, apaixona-se por Marty From, retoma o gosto pela vida, e chega a 
declarar que a considera a mulher mais importante de sua vida, voltando a promover 
alguns seminários na Califórnia. 
Nesta época, vivia a procura de experiências sempre novas, entregando-se às 
drogas psicodélicas e acreditando que a droga dava-lhe a “consciência cósmica”. 
Sua paixão dura pouco, pois Marty não suporta suas crises psicóticas, seu ciúme 
doentio e, após suas cirurgias de hemorroidas e próstata, acaba deixando-o por um 
amante mais jovem. 
Nos quatro anos seguintes, de 1959 a 1963, consegue renunciar às drogas e 
passa a vagar por Califórnia, Nova York, Israel e Japão. Em Israel, vive em uma 
comunidade de beatniks, onde ficou fascinado com o modo de vida dos artistas. No 
Japão, tem uma experiência dentro de um mosteiro zen, onde se frustrou por precisar 
se prostrar diante de uma estátua de Buda, comparando o zen budismo com a 
psicanálise. 
Aos 71 anos, ele fixa residência numa propriedade em Big Sur, cheia de 
fontes de águas quentes e sulfurosas, a qual batiza de Esalen. Neste local, que 
seria idealizado por Michael Murphy, para ser um Centro de Desenvolvimento do 
Potencial Humano, parecia mais um grande albergue. Após a ida de Perls para Esalen, 
onde passou a promover seminários de demonstração e formação profissional em 
Gestalt-terapia, torna-se célebre. 
Aos 75 anos, sua foto é exibida na capa da revista Life, intitulando-o “rei dos 
hippies”. Finalmente chegara seu momento de glória e reconhecimento. Os grupos que 
eram pequenos até então, passaram a ter centenas de pessoas, e seu “circo”, como 
ele próprio chamava, passando a ser considerada como demonstrações espetaculares, 
 
13 
 
a maioria das vezes, envolvendo a técnica da “cadeira vazia”. 
Muitos especialistas passaram a frequentar e ir constantemente para Esalen, 
tais como, Gregory Bateson (“ecologia do espírito” e double blind), Alexandre 
Lowen (“bioenergética”), Eric Berne (análise transacional), John Lilly (caixa de 
isolamento sensorial), Alan Watts (orientalismo), Stanislas Grof (psicologia 
transpessoal), John Grinder e Richard Bandler (programação neurolinguística), entre 
outros. 
Em 1969, publica as obras “Gestalt-therapy verbatim” e “In and out the 
garbage pail”. Fritz sonhava, nesta época, em inaugurar um Gestalt-kibutz, ou seja, 
uma comunidade onde se pudesse viver a Gestalt 24 horas por dia e onde ele pudesse se 
sentir realmente em casa. 
Em junho de 1969, ele funda, junto com trinta discípulos, uma comunidade 
em um antigo hotel de pescadores à beira do lago Cowichan, na ilha de Vancouver. 
Todos participavam de sessões de terapia e/ou formação, trabalhos coletivos, mas 
deixava claro que o mestre era ele, Fritz Perls. Chegou a declarar que pela primeira 
vez na vida estava feliz e não precisava brigar com ninguém. 
Em 14 de março de 1970, aos 77 anos, morre de infarto no miocárdio, Fritz 
Perls, o principal criador e porta-voz da Gestalt-terapia, mesmo que não tenha sido 
um exímio teórico. Após a autópsia foi revelado que havia, também, um câncer de 
pâncreas. Sua morte foi tão controversa quanto sua vida, havendo, a partir daí, uma 
ruptura em duas posições, os que acreditavam, como Paulo Goodman, que Perls havia 
“traído a Gestalt” e os seus efetivos seguidores. 
Podemos dizer que há uma segunda geração de Gestalt-terapeutas, com os 
profissionais, Isadore From, Joseph Zinker, Ervin e Miriam polster, etc. 
Isadore From foi um psicólogo da primeira geração de Gestalt-terapeutas. 
Faleceu aos 75 anos, em Nova York. Foi considerado um clínico extremamente 
talentoso, homem brilhante, íntegro, preciso e muito espirituoso. Era meticuloso e 
lúcido, embora fosse perfeitamente capaz de navegar em uma expedição nova e 
intuitiva se a situação o tocasse a tal ponto. Como um bom pesquisador experimental, 
ele considerava seus palpites como hipóteses provisórias, abertas para serem 
confirmadas ou refutadas. Não deixou muita contribuição escrita de seus pensamentos e 
experiências. Temos apenas acesso a algumas transcrições de entrevistas. 
Desde a década de 1950, ele participava do seleto círculo que se reunia no 
apartamento de Fritz e Laura em Manhattan. Também foi analisado, primeiro por 
 
14 
 
Fritz Perls, depois por Laura. Seus primeiros estudos foram na área da filosofia, 
especificamente com a fenomenologia, o que contribuiu em muito para sua prática em 
Gestalt-terapia. Por mais de três décadas, ele praticou e ensinou a Gestalt-terapia em 
Nova York. Ele também viajou regularmente, tanto nos Estados Unidos quanto na 
Europa, especialmente na Alemanha e na Itália, para ações de formação e grupos de 
supervisão. 
Sua história seguiu no rumo de dar uma direção para a Gestalt-terapia. Ele 
acreditava que as mudanças eram feitas em pequenos passos, permitindo que os 
pacientes pudessem assimilá-las mais facilmente. Porém, essas pequenas mudanças 
podem fazer diferença significativa: quando você faz uma pequena mudança na 
configuração de uma Gestalt estabelecida, o resultado é uma nova configuração. A 
melhor fonte de suas inspirações, entretanto, foi em grande parte o que é imediatamente 
dado e, portanto, facilmente esquecido - o óbvio, por assim dizer. Quando ensinava ou 
fazia demonstrações, Isadore mostrava aos alunos como eles próprios deveriam fazer. 
Sempre com muita paciência demonstrava suas observações e conclusões, passo a 
passo, sem ter interesses em obscuridades ou mistificações. 
Isadore permaneceu purista sobre a Gestalt-terapia, e neste contexto, um 
conservador. Talvez, tenha se tornado demasiadamente inflexível quanto aos benefícios 
da Gestalt-terapia em aceitar novas ideias. Seu crescente alarme, no entanto, veio de 
tendências dentro de Gestalt- terapia em si: Ele estava perturbado que os ensinamentos 
passados por Perls e com a possibilidade de que estes fossem confundidos com 
experiências de conversão. 
O casal Miriam e Ervin Polster contribuiu com o clássico livro “Gestalt-
terapia Integrada” na década de 70, além de iniciarem um centro de treinamento em 
La Jolla. Ambos têm um papel ativo na Gestalt-terapia quase desde o início. 
Trabalharam diretamente com Perls e Laura e fizeram terapia com Isadore From. 
Tiveram uma ativa atuação no Instituto Gestalt de Cleveland por quase vinte anos. 
Depois se mudaram para Califórnia, onde se estabeleceu o Gestalt Training 
Center de San Diego. Também realizaram oficinas de formação e seminários para 
várias intuições em todo o país e fora dele. Erving tem um estilo efusivoe irreverente, 
além da capacidade de transmitir fascínio e entusiasmo. Apresenta uma habilidade em 
transformar ideias velhas em experiências inéditas. 
Miriam faleceu em 19 de dezembro de 2001 de câncer. Ela tinha um jeito 
delicado e envolvente muito evidente em seu contato humano, e se comunica de 
 
15 
 
forma clara e precisa. Juntos ou separados, o casal, sem dúvida, contribuiu muito para 
ampliar as fronteiras da Gestalt- terapia. 
Joseph Chaim Zinker é mestre em psicoterapia e cofundador do Instituto 
Gestalt, Wellfleet, Massachusetts. Ele treinou com Fritz durante a década de 1960 e 
tem mais de três décadas de experiência e desenvolvimento da Gestalt-terapia. 
Zinker publicou diversos livros, tais como: “Motivação e a escassez de Morrer”, 
“Processo Criativo em Gestalt-terapia”, “A busca da elegância em psicoterapia” e 
“Sketches: uma antologia de ensaios, Arte e Poesia”. Também contribuiu em várias 
revistas participando do conselho editorial, tais como: “Vozes”, “The Gestalt Journal”, 
“Gestalt Review” e “Jornal da terapia de casal”. Atualmente, participa de vários 
institutos internacionais de Gestalt-terapia em todo o mundo, incluindo o Gestalt 
International Study Center e o Centro para o Estudo de Sistemas de Sexo em 
Massachusetts. 
Um dos conceitos que Zinker aborda constantemente em seu trabalho é a 
criatividade. Para ele, criatividade é um atributo essencial e básico para a vida das 
pessoas, e também um fator de transformação para o processo psicoterapêutico. Para 
ele, criatividade engloba os níveis abstratos e concretos, quer dizer, não basta apenas 
criar intelectualmente algo, é necessário que se realize efetivamente esta experiência. É 
necessário com isso, que tal experiência criativa seja compartilhada com os 
semelhantes. Com esta visão, o consultório passa a ser um terreno experiencial, 
pois o cliente por meio da sua liberdade investiga sua natureza interior. Este 
contato cliente-terapeuta poderá abrir um canal criativo para ambos que trará uma 
profunda capacidade de transformação, crescimento e integração. 
 
INFLUÊNCIAS FILOSÓFICAS 
 
A Gestalt-terapia sofreu influência da filosofia por meio do existencialismo e 
da fenomenologia. Para entender um pouco esta diferença é necessário que se enxergue 
a fenomenologia como um método e o existencialismo como uma filosofia. Podemos 
dizer que a Gestalt-terapia é uma abordagem fenomenológica e existencialista. 
Embora Fritz pouco tenha desenvolvido e estabelecido as correlações das 
influências filosóficas sobre a Gestalt-terapia, atualmente, é quase uma “obrigação” 
de seus sucessores resgatarem esta importância que é ampla e inegável. Muito da 
 
16 
 
Gestalt-terapia de Fritz foi criada a partir de sua prática, agora é necessário que se 
retome criticamente as bases filosóficas da Gestalt-terapia. Para, então, dar uma nova 
e consistente consciência teórica a nossa prática e nossos projetos. 
Em relação à fenomenologia, é necessário que haja um predomínio da 
experiência imediata, do fenômeno, ou seja, de algo que emerge em um 
determinado momento. Esta vivência deverá se apresentar da forma como é percebida 
ou sentida corporalmente, dentro do aqui-agora. O que é essencial é a vivência 
imediata. Como método, é mais importante descrever do que explicar, ou seja, o como 
precede o porquê. Os sentidos atribuídos à percepção dos eventos do mundo são 
atribuídos aos fatores irracionais e são diferentes em cada um de nós. 
Dizer que a Gestalt-terapia é fenomenológica implica em um processo em 
que a pessoa experiência o fenômeno de forma particular e única. Junto a este conceito 
está o fato de que apenas no aqui-agora tal fato será possível, oferecendo a esses 
fenômenos pessoais o existencial imediato. A sensação confere o primeiro nível 
experiencial do aqui-agora, porém manter este contato sensorial nem sempre é uma 
tarefa fácil. Dentro da concepção temporal, podemos dizer que, para a Gestalt-
terapia, a realidade só existe no presente. Neste presente podemos incluir também as 
lembranças que são reencenadas, trazidas de volta para o presente e revividas 
concretamente. O espaço em que a pessoa vive a experiência fica limitado ao aqui, ou 
seja, o espaço que ocupa e pela amplitude dos sentidos. Podemos concluir que “o aqui-
agora representa uma experiência de caráter altamente pessoal, sensorialmente 
ancorada neste momento de tempo, no local em que me encontro” (ZINKER, 2007, p. 
101). 
Dentro deste contexto, a experiência precisa ser entendida como algo contínuo, 
fluído e dinâmico, sempre focalizando o processo em andamento que a pessoa está 
se colocando. Nunca será priorizada a interpretação do fenômeno, mas sim, um estudo 
da natureza processuale mutável da experiência humana. Analisando por este prisma, 
a pessoa passa a ser a única autora de suas próprias experiências, se 
responsabilizando por sua realidade, encarando-a como uma experiência solitária e 
única, ou seja, apenas a própria pessoa poderá dar conta e experienciar a sua vida 
interior. Assim como, a própria validade da experiência é também única e 
inquestionável. 
Edmund Husserl (1859 - 1938) é considerado o pai da fenomenologia. Ele foi 
matemático, filósofo austríaco e aluno de Franz Bretano, de quem sofreu grande 
 
17 
 
influência. Para respeitar a linha temporal da construção do conhecimento apresentarei 
as ideias de Bretano e depois de Husserl, em seguida, Scheler que pode ser considerado 
um filósofo fenomenologista e por último Merleau-Ponty. 
Bretano (1838 - 1917) foi precursor da fenomenologia. Diferente do empirismo 
inglês que observava vários fatos generalizando o que havia em comum, Bretano 
acreditava em um empirismo que buscava ver o que há de essencial em um “único 
caso”. Isto levará para a ideia da essência do fenômeno. Ele propõe uma psicologia 
descritiva, enfatizando o como e não o por quê. Esta ideia é bastante forte na Gestalt-
terapia até hoje. Este pensamento ressalta a necessidade de se valorizar o processo 
associado à psicologia do ato, em oposição ao estruturalismo que evidenciava a 
psicologia dos conteúdos. A psicologia deveria estudar os processos mentais ou 
psíquicos da pessoa e não os conteúdos ou objetos físicos. Bretano trata da 
intencionalidade dos fenômenos psíquicos, num prenúncio da fenomenologia, 
desenvolvida por Husserl. A consciência não é um recipiente, mas um farol. 
Husserl vivia em um mundo onde a filosofia se volta para as ciências positivas 
(matemática, física, etc.) e a psicologia tentava ser uma ciência exata adotando o 
mesmo método das ciências naturais e abandonando a subjetividade e a intuição. 
Husserl não acreditava no movimento empirista de que todo o conhecimento 
advém da prática. Esta máxima fugia ao imediatismo da situação presente e entra no 
campo da abstração, uma vez que é impossível inferir cada conhecimento e sua 
prática originária. Também, não concordava com o psicologismo do final do século 
XIX, onde se reduzia tudo o que se conhecia a um fenômeno natural. Não se 
explicava o próprio conceito das coisas, apenas o ato de se conhecer os objetos por 
meio dos mecanismos fisiológicos. 
Partindo dessas oposições e do pressuposto de que o objeto de estudo da 
psicologia é diferente das outras ciências, uma vez que a vida psíquica apresenta um 
dado imediato que podemos ter acesso por meio da descrição, ele propõe que a 
Fenomenologia reúna os dados da experiência em sua totalidade (fenômeno) e o 
pensamento racional (logos). 
Ele faz da fenomenologia um método que busca a verdade partindo do 
questionamento: “como podemos perceber a verdade?” Quando tentou responder a 
esta pergunta, ele percebeu que antes de perceber a verdade, ele se deparou com a 
capacidade de perceber algo, ou seja, o ato mais originário é o ato de perceber algo que 
é percebido. Se o ato de perceber depende do percebido, o ato de pensar depende do 
 
18 
 
pensando. Então, ele concluiuque a consciência é sempre “de alguma coisa”, sendo 
necessário um objeto e um foco. Quando percebe que esta consciência tem em vista 
algo, ele define que há uma intencionalidade de algo ou uma consciência intencional. 
O fato de que na Gestalt-terapia não há uma atitude interpretativa vem da 
compreensão fenomenológica de que os fenômenos são dados pelos nossos sentidos, 
e que estes são dotados por um sentido ou essência, uma espécie de “retorno às coisas 
mesmas”. É importante entender a necessidade de uma intuição originária que poderá 
ser revelada na busca do sentido do fenômeno pelo próprio cliente, por meio da 
identificação e integração das partes alienadas. 
Um dos fortes conceitos da Gestalt-terapia é que o aqui-agora estabelece suas 
raízes no método fenomenológico, afinal esta estrutura de “perceber o percebido” 
acontece impreterivelmente no presente, no aqui-agora. O fenômeno só acontece no 
agora. 
Outra influência grande na Gestalt-terapia de seus conceitos teóricos é a 
relação cliente-terapeuta. Baseado no fato de que a mesma estrutura perceber/percebido 
não é divisível, podemos entender que o observador/observado também não é, ou seja, 
tanto o terapeuta que “observa” quanto o cliente que é “observado” faz parte de uma 
mesma unidade. Caminhando mais um pouco dentro desta relação dialógica, 
percebemos que as duas partes (observador/observado) interagem e interferem neste 
campo. Quando paramos para descrever o observado, na verdade, descrevemos a 
nossa relação com o observado, enfim, descrevemos parte de nós mesmos. 
Em relação à visão de mundo, para a Gestalt-terapia as pessoas se constituem 
nas relações que criam em suas vidas. A fenomenologia, por sua vez, também 
compartilha a ideia de que o sentido das coisas não está em si, mas sobressai em cada 
relação observador/observado. É preciso entender como cada indivíduo vê o mundo. 
Afinal, o “eu inteiro” influencio e sou influenciado pelo contexto como um todo. 
Max Scheler (1874 - 1928) foi um filósofo alemão que ficou conhecido por seu 
trabalho sobre fenomenologia, ética e antropologia filosófica. Scheler desenvolveu o 
método fenomenológico de Husserl, chegou a conhecê-lo na Universidade de Viena, 
mas não foi seu aluno. Scheler acreditava que a fenomenologia não era o nome de uma 
nova ciência, nem uma palavra de substituição para filosofia, mas uma postura 
espiritual. 
O centro do pensamento de Scheler era a sua teoria do valor. De acordo com 
Scheler, o ser-valor de um objeto precede a percepção. Os valores e seus 
 
19 
 
correspondentes opostos existem em uma ordem objetiva. Sua obra mais importante 
foi publicada em 1923, e intitulou-se “Essência e Forma da Simpatia”. Desenvolve o 
conceito referente a uma fenomenologia da afetividade na qual é a intuição emocional 
e a simpatia que permitem o contato profundo. 
Ao longo de sua vida, Scheler apresentou diversas posturas e ideias 
contrárias, até adotar uma doutrina claramente modernista e gnóstica no final de sua 
vida. A relação do homem com o divino sofre uma reviravolta: o ser primeiro 
interioriza-se no homem no mesmo ato em que o homem se interioriza nele. O lugar, 
portanto, da autorrealização do ser, ou seja, da unidade de impulso e espírito vem a 
ser o homem, o eu, o coração do homem. Homem e Deus são correlativos: o 
homem não pode realizar o seu destino sem participar dos dois atributos do ente 
supremo e sem ser imanente a ele. Em 1954, Karol Wojtyla, posteriormente Papa João 
Paulo II, defendeu sua tese sobre "Uma avaliação da possibilidade de construir uma 
Ética Cristã baseada do sistema de Max Scheler". 
Maurice Merleau-Ponty (1908 - 1961), um psicólogo, antropólogo e filósofo 
francês, tem como tema fundamental de seu trabalho a relação entre o homem e o 
mundo. Afirma que a consciência é sempre um eu consagrado ao mundo. Vê o 
mundo e o homem como sempre ‘abertos’, ‘inacabados’ em seu significado, dotados 
de ambiguidade e reenviando sempre para além de suas manifestações determinadas. 
Valoriza a experiência vivida e a percepção corporal imediata. Busca eliminar a 
interpretação causal da relação entre corpo e alma. Publicou, em 1945, a obra 
“Fenomenologia da Percepção”. 
O existencialismo proporcionou maior concretude à metodologia 
fenomenológica por meio de sua aplicação às questões da existência humana. Do 
existencialismo, a Gestalt-terapia herdou a valorização das questões comuns e 
cotidianas da vida dentro de uma nova perspectiva terapêutica, envolvendo aspectos 
como: nascimento, morte, violência, etc. 
Esta visão enfatiza a vivência concreta do indivíduo em prol dos princípios 
abstratos, ou seja, a forma como o homem experimenta sua existência, a assume, a 
orienta e a dirige. É necessário que haja uma autocompreensão do processo de viver, 
de existir, sem se prender a questões filosóficas ou teóricas. 
O existencialismo definiu novas visões de autoridade, confiança, experiência 
participante e responsabilidade. Todas essas concepções mudam o foco da psicoterapia 
para o crescimento pessoal e não apenas para o lado patológico do cliente. Tudo isso, 
 
20 
 
em função da valorização da singularidade de cada existência humana e da 
necessidade da originalidade irredutível da experiência individual, objetiva ou 
subjetiva. 
Outro ponto importante dentro do existencialismo e muito utilizado na prática da 
Gestalt-terapia, é a noção da responsabilidade. Cada pessoa deverá se responsabilizar 
por suas escolhas e participar ativamente da construção de sua própria vida. Estas 
ações podem ser unidas numa visão referente ao projeto existencial de cada indivíduo. 
Este projeto deverá conferir um sentido próprio e único a tudo que acontece no 
aspecto interno deste sujeito e também no mundo que o rodeia, criando, 
impreterivelmente, a cada dia, sua relativa liberdade. 
O primeiro autor que se destacou como um precursor do existencialismo foi o 
filósofo cristão, dinamarquês, Soren Kierkegard (1813 - 1855). Muitos o consideram 
como o “pai do existencialismo”. Kierkegard desenvolveu suas ideias a partir de sua 
existência pessoal, atribuindo grande valor à subjetividade e à contradição e 
rejeitando qualquer sistematização e superenfatizando a existência pessoal. “Quanto 
mais eu penso, menos sou, e quanto menos eu penso, mais eu sou”. Isto se revela na 
Gestalt-terapia em sua negligência à objetividade, à existência coletiva e à 
necessidade de teorização sistemática. 
Martin Buber (1878 - 1965) foi um filósofo judeu que desenvolveu a 
categoria do diálogo. Ele pregava a necessidade de um encontro autêntico, a relação 
direta e fraterna como uma atitude integradora entre a vivência e a reflexão. A 
atitude Eu-Tu é caracterizada pelo envolvimento, reciprocidade, mediatismo, presença 
e responsabilidade; a atitude Eu-Isso é caracterizada pela separação, ou distanciamento, 
necessários para a produção teórico-científica. 
A Gestalt-terapia como uma psicoterapia baseada no encontro existencial seria 
dotada de dois movimentos: relação (Eu-Tu) e distanciamento (Eu-Isso), sem os 
quais não se caracteriza como tal, uma vivência da teoria e uma teorização da 
vivência. Em 1923, Buber publicou o livro: “Eu e Tu”. 
Martin Heidegger (1889 - 1976), filósofo alemão, desenvolveu a concepção da 
análise existencial do “ser aí” ou “dasein”. Sem dúvida, foi um dos maiores 
pensadores do século XX, quer pela visão do “ser”, quer pela refundação da ontologia. 
Heidegger influenciou muitos outros filósofos, tal como, Sartre, e foi muito 
influenciado por Husserl. Foi assistente de Husserl em Freiburg e depois professor na 
Universidade de Marburg. 
 
21 
 
Em 1927, Heidegger publicou o seu mais famoso trabalho “Ser e Tempo”. Ele 
considerava seu método fenomenológico e hermenêutico, porém, Husserl não 
concordava e acabaram rompendo laços. 
O trabalho hermenêutico tem como objetivo interpretar o que se mostra pondo à 
luz, o que se manifesta,mas que, no início e na maioria das vezes, não se deixa ver. 
Heidegger afirma que esta metodologia corresponde a um modelo kantiano, ou 
coperniciano da colocação ou projeção da perspectiva. 
Até o final da década de 1930, a leitura da filosofia de Heidegger estrutura-se 
sobre conceitos como Dasein (o ser-aí ou o ser-no-mundo), morte ou finitude do ser, 
valorização da angústia ou decisão por meio da dúvida existencial. Suas categorias 
básicas seriam o entendimento, pouco valorizado pela Gestalt-terapia; o sentimento 
(enfatizado pela mesma) e a linguagem (destacada por Fritz, mas pouco enfatizada pela 
Gestalt-terapia). 
Jean Paul Sartre (1905 - 1980) foi um grande nome do existencialismo, mas foi 
pouco referenciado por Fritz. Dentro da Gestalt-terapia, poderíamos nos referir a sua 
noção de “projeto” (o homem como próprio construtor de sua essência) e de 
“responsabilidade” (habilidade de resposta), ou seja, responsabilidade pela escolha de 
seu próprio projeto, de sua parte da liberdade. 
 
HOLISMO E VISÃO SISTÊMICA 
 
Holismo foi um termo adotado por Jan Smuts no seu livro “Holism and 
Evolution” de 1926. Ele definiu esta ideia como "A tendência da Natureza a 
formar, através de evolução criativa, ‘todos’ que são maiores do que a soma de suas 
partes". Desde Aristóteles, podemos ver as raízes desta ideia, quando em sua 
metafísica ele afirma: “o inteiro é mais do que a simples soma de suas partes”. 
Embora antiga essa concepção só tomou força a partir da década de 1980 
quando passou a ser empregada para tentar explicar um novo paradigma que deveria ser 
utilizado com o objetivo de minimizar os diversos distúrbios causados pelo homem 
na natureza. Por isso, o holismo é frequentemente associado a discursos 
ambientalistas. 
Este conceito traz uma visão de mundo integrado, como um organismo. Esta 
nova visão baseia-se na inter-relação e interdependência entre todos os fenômenos, 
 
22 
 
sejam eles físicos, biológicos, psicológicos, sociais ou culturais. Esta proposta prevê 
uma formulação gradual de uma rede de conceitos e modelos interligados, além de 
se contrapor ao modelo mecanicista e reducionista ainda dominante na biologia e na 
medicina. 
Desde o século XVII, principalmente com as ideias de Descartes e Newton, o 
homem vem sendo comparado a uma máquina, concentrando nas propriedades 
mecânicas da matéria viva e negligenciando o estudo sistêmico da natureza do 
organismo. A descrição reducionista foi vantajosa para desenvolver um caráter 
evolutivo, e ainda é, em alguns casos, útil e necessária, porém torna-se perigosa 
quando é interpretada como uma explicação completa. 
Atualmente, a biologia traz um paradigma chamado “biologia de sistemas”, o 
qual vê o organismo como um sistema vivo e não como uma máquina. Os 
sistemas são totalidades integradas, cujas propriedades não podem ser reduzidas às de 
unidades menores. A abordagem sistêmica enfatiza os princípios básicos de 
organização. 
O pensamento sistêmico é um pensamento de processo. Na ciência sistêmica, 
toda estrutura é vista como a manifestação de processos subjacentes. Esta visão 
carrega a primeira grande diferença entre o homem e a máquina. Afinal, máquinas são 
construídas e os organismos se desenvolvem. 
Outra ideia que podemos trazer é o alto grau de flexibilidade e plasticidade 
encontradas nos organismos. Os organismos variam sua estrutura dentro de um 
limite. Este fenômeno de automanutenção é chamado de flutuação ou homeostase, que é 
um estado de equilíbrio dinâmico, transacional. Não há, portanto, dois organismos que 
sejam rigorosamente idênticos, muito diferentes das máquinas que funcionam de 
acordo com cadeias lineares de causa e efeito. O funcionamento do organismo é 
guiado por modelos cíclicos de fluxo de informação, conhecidos por laços de 
realimentação. Quando um sistema é afetado, esta é usualmente causada por 
múltiplos fatores. 
Todas estas comparações entre organismos e máquinas originaram, mais 
tarde, as principais realizações da cibernética, que tinha como intenção, desde o início, 
criar uma ciência exata da mente. A cibernética sofreu influência da biologia 
organísmica e da teoria geral dos sistemas, mas logo se tornou independente, 
configurando um poderoso movimento intelectual. Nunca esquecendo a interação entre 
a biologia, matemática e engenharia. 
 
23 
 
Uma das grandes diferenças entre as máquinas de Descartes e a cibernética, é 
que esta última prevê o conceito de realimentação em seu funcionamento, que passou a 
significar o transporte de informações presentes nas proximidades do resultado de 
qualquer processo, depois, de volta até sua fonte. Um padrão lógico subjacente à 
concepção de alimentação é a ideia de causalidade circular. Por outro lado, o 
entusiasmo entre os cientistas e o público em geral, pelo computador como uma 
metáfora para o cérebro humano tem um paralelo interessante no entusiasmo de 
Descartes e de seus contemporâneos pelo relógio como uma metáfora para o corpo. 
Um organismo vivo é um sistema auto-organizador, o que significa dizer que 
tem certo grau de autonomia. Sua ordem e estrutura são determinadas pelo próprio 
sistema, e não pelo meio. Porém, não significa dizer que os sistemas estejam isolados 
do seu meio. Os sistemas interagem continuamente com o meio, mas estes não 
determinam sua organização. Os sistemas vivos são sistemas abertos, o que significa 
que é preciso manter uma contínua troca de energia e matéria com o meio ambiente, a 
fim de permanecerem vivos. Os sistemas auto-organizadores têm um alto grau de 
estabilidade, porém, é uma estabilidade dinâmica, diferente da ideia de equilíbrio, 
pois é necessário manter uma estrutura global apesar de mudanças e substituições de 
suas partes. 
Os dois principais fenômenos dinâmicos da auto-organização são: a 
autorrenovação e a autotranscendência. O primeiro, fala da capacidade dos sistemas 
vivos de renovar e reciclar continuamente seus componentes. Diferente das máquinas 
que são construídas para produzir um produto específico ou executar uma tarefa, o 
organismo se renova o tempo todo. 
O segundo, da capacidade de se dirigir criativamente para além das fronteiras 
físicas e mentais nos processos de aprendizagem, desenvolvimento e evolução. Os 
organismos 
apresentam uma complementaridade no seu funcionamento com tendências 
autoafirmativas e integrativas. 
Além disso, temos uma tendência fantástica dos organismos de se superarem. 
Essa superação criativa em busca da novidade leva a um desdobramento ordenado de 
complexidade e pode ser visto como uma propriedade fundamental da vida. 
Associando esta realidade com o processo terapêutico, podemos dizer que só 
poderemos ajudar o nosso cliente em seu processo de mudança, quando conseguirmos 
inserir a novidade e o interesse em sua terapia. 
 
24 
 
É bastante difícil definir precisamente as fronteiras entre o organismo e o meio. 
Existem organismos que só podem ser considerados vivos quando estão num certo 
ambiente, como é o caso dos vírus. Por outro lado, temos exemplos de organismos 
que se integram harmoniosamente em seu meio ambiente, convertendo-os em 
ecossistemas capazes de sustentar uma grande diversidade de animais e plantas, como é 
o caso dos corais. 
Os ecossistemas tendem a ter uma convivência em que combinam 
competição e dependência, este balanço propicia um crescimento exponencial de sua 
população. As relações entre os organismos vivos são essencialmente cooperativas, 
caracterizadas pela coexistência e a interdependência, e simbióticas em vários graus, a 
fim de manter o equilíbrio. Mesmo a relação predador-presa, embora seja destrutiva 
para a presa imediata, são geralmente benéficas para ambas as espécies. 
Há uma tendência dos sistemas vivos de se estruturarem por meio de múltiplos 
níveis, que diferem em sua complexidade. Isto pode ser visto como um princípio 
básico de auto- organização. Em cada nível de complexidadeencontramos sistemas 
integrados, todos auto- organizadores, que consistem em partes menores e atuam como 
partes de totalidades maiores. 
Em cada nível existe um equilíbrio dinâmico entre tendências 
autoafirmativas e integrativas. Podemos representar estes níveis por meio de uma 
“árvore sistêmica”. Estes sistemas estratificados evoluem muito mais rapidamente e 
têm uma probabilidade maior de sobrevivência do que os sistemas não 
estratificados. O aspecto importante da ordem estratificada na natureza não é a 
transferência de controle, mas a organização da complexidade. 
Outro ponto importante desta ordem é a questão da morte. A 
autorrenovação do sistema maior consiste no seu próprio ciclo de nascimento e morte, 
tornando-se aspectos importantes do próprio processo auto-organizador. Podemos 
dizer, que além da morte, outro ciclo importante para a evolução é o ciclo 
reprodutivo. Sem sexo não haveria diversidade, sem morte não haveria 
individualidade. 
Dentro deste conceito de sistemas estratificados, podemos concluir que o planeta, 
como um todo, pode ser considerado como um único organismo vivo. 
Considerar Gaia como um ser planetário vivo é uma ideia que transcende largamente 
o âmbito da ciência, e reflete uma profunda consciência ecológica, que é, em última 
instância, espiritual. 
 
25 
 
Na teoria neodarwiniana clássica, a evolução avança para um estado de 
equilíbrio, com os organismos adaptando-se cada vez mais perfeitamente ao seu 
ambiente. De acordo com a visão sistêmica, a evolução opera longe do equilíbrio e 
desenrola-se por meio de uma interação de adaptação e criação. 
Também considera que o meio é, em si mesmo, um sistema de adaptação e 
evolução. O que sobrevive é o “organismo em seu meio ambiente”. Um organismo que 
pense unicamente em termos de sua própria sobrevivência destruirá invariavelmente seu 
meio ambiente. 
A evolução precisa ser entendida de forma aberta e indeterminada. Quando um 
sistema se aproxima do ponto crítico, ele mesmo “decide” que caminho seguir, o que 
determinará sua evolução. Na visão sistêmica, o processo evolutivo não é 
determinado pelo “acaso cego”, mas representa um desdobramento de ordem e 
complexidade que pode ser visto como um processo de aprendizagem, envolvendo 
autonomia e liberdade de escolha. 
Podemos dizer que duas etapas na evolução da vida aceleram o processo 
evolutivo. A primeira foi a reprodução sexual, com toda a sua variedade genética; e a 
segunda foi o surgimento da consciência. Este processo tornou possível substituir os 
mecanismos genéticos da evolução por mecanismos sociais, mais eficientes, baseados 
nos pensamentos conceituais e na linguagem simbólica. 
Quando entendemos que a mente e a matéria se aproximam, nos 
distanciamos da dicotomia cartesiana e podemos considerar que representam 
aspectos diferentes do mesmo processo universal. 
O cérebro humano é um sistema vivo por excelência e amolda-se em 
resposta às mudanças que surgem. A mente humana é capaz de criar um mundo 
interior que espelha a realidade exterior. Este domínio psicológico envolve certos 
números de fenômenos característicos da natureza humana que incluem a 
autoconsciência, a experiência consciente, o pensamento conceitual, a linguagem 
simbólica, os sonhos, a arte, a criação de cultura, senso de valores, interesse no passado 
remoto e preocupação com o futuro distante. 
Os mundos, interior e exterior, estão sempre interligados no funcionamento 
de um organismo humano. Os modelos de matéria espelham modelos da mente, 
coloridos por sentimentos e valores subjetivos. Nossas respostas ao meio ambiente 
são determinadas pelos estímulos externos, pelo sistema biológico, e também por 
nossas experiências passadas, expectativas, propósitos e a interpretação simbólica 
 
26 
 
individual de nossa experiência perceptiva. 
Moldamos nosso meio ambiente com muita eficácia porque somos capazes de 
representar o mundo exterior simbolicamente, pensar conceitualmente e comunicar 
nossos símbolos, conceitos e ideias, utilizando a linguagem abstrata, a pintura, a 
música, e outras formas de arte. 
Ao pensarmos e nos comunicarmos, tanto lidamos com o presente, como nos 
referimos ao passado e antevemos o futuro, o que nos dá um grau de autonomia muito 
superior às outras espécies. Os seres humanos possuem consciência, e estamos 
conscientes de nossas sensações tanto quanto de nós próprios como indivíduos 
pensantes e experientes. 
A concepção sistêmica da mente estende sua concepção para os sistemas 
sociais e ecológicos. Então, podemos dizer que grupos de pessoas, sociedade e culturas 
têm uma mente coletiva, unificando a concepção científica e mística. Considera que 
a matéria primária e a consciência são propriedades de complexos modelos materiais 
que surgem num certo estágio da evolução biológica. 
Para entender a natureza humana, precisamos estudar as manifestações 
sociais e culturais, além das físicas e psicológicas. A fim de se adaptar às mudanças 
da vida, a espécie humana usou a consciência, o pensamento conceitual e a 
linguagem simbólica de que dispõe para transferir-se da evolução genética para a 
evolução social, esta mais acelerada do que a primeira. 
A grande relação entre a teoria sistêmica e a Gestalt-terapia é a concepção de 
que o todo é maior do que a soma de suas partes. Quando analisamos os elementos de 
forma isolada, as propriedades sistêmicas do fenômeno são destruídas, embora seja 
possível discernir as partes individuais em qualquer sistema, a natureza do todo é 
sempre diferente da mera soma de suas partes. As propriedades das partes não são 
propriedades intrínsecas, mas só podem ser entendidas dentro do contexto do todo 
mais amplo. O pensamento sistêmico se apresenta de forma contextual. É importante 
analisarmos que o conceito parte todo fica muito relacionado com as concepções, 
reducionista e sistêmica, respectivamente. Porém, é mais importante entendermos que 
estas concepções deverão ser utilizadas para a compreensão mais aprofundada da 
vida. Reducionismo e holismo, análise e síntese devem ser vistos como enfoques 
complementares. Assim, fica claro que tanto a parte influencia o todo, quanto o todo às 
suas partes. 
A evolução da consciência no homem criou a potencialidade desta espécie de 
 
27 
 
viver pacificamente e em harmonia com o mundo natural. A evolução continua a 
oferecer esta possibilidade de escolha ao homem, caberá a ele decidir qual caminho 
ele deverá seguir. Podemos deliberadamente alterar nosso comportamento mudando 
nossas atitudes e nossos valores, a fim de readquirirmos a espiritualidade e a 
consciência ecológica que perdemos. 
 
 
CONCEITO DE SAÚDE EM GESTALT-TERAPIA 
 
Kurt Goldstein foi um teórico que muito influenciou a Gestalt-terapia e seus 
estudos sobre os efeitos secundários das lesões cerebrais estabeleceram a base para o 
seu ponto de vista organísmico. Não temos como falar de saúde na Gestalt-terapia 
sem explicar a visão do sintoma para esta abordagem. Goldstein foi o primeiro teórico 
que passou a ver o sintoma como uma forma adaptativa, portanto saudável, diferente do 
que se pensava, até então, que seria “um sinal” de que algo estaria errado e que deveria 
ser eliminado. 
Não podemos falar da organização primária do organismo de Goldstein sem 
entender que esta faz parte do processo de figura/fundo. Ou seja, figura é qualquer 
processo que emerge, que tem fronteira definida e destaca-se de um fundo a partir de 
uma necessidade do próprio organismo. O fundo é contínuo e se estende por trás da 
figura. Depois, novas figuras emergem como tarefas da mudança do organismo. 
Goldstein também salientou que existem três tipos de comportamento: os 
desempenhos, que são atividades voluntárias; as atitudes, organização emocional mais 
ampla incluindo os valores, os sentimentos, os estados de ânimo, etc.; e os processos, 
que são funções corporais quesó podem ser experienciadas indiretamente. 
Ele também aborda a diferença entre o comportamento concreto e o 
comportamento abstrato. No primeiro, reagi-se a um estímulo de maneira automática 
ou direta, já no segundo, pensa-se antes de agir. Estes dois dependem de atitudes 
contrastantes em relação ao mundo. 
Os principais conceitos apresentados por Goldstein são: o processo de 
equalização, no qual aparece como a base para o conceito de ciclo de autorregulação; a 
autorrealização é o que dá sustentação ao potencial humano e o “chegar a um 
acordo” com o ambiente (ou mundo), afinal este ambiente se impõe ao organismo 
 
28 
 
estabelecendo uma interação entre ambiente e organismo, necessária para que este lhe 
proporcione meios pelos quais a autorrealização possa ser obtida. 
O processo de equalização consiste em fazer com que o organismo volte 
para um estado “médio” de tensão depois que um estímulo muda o equilíbrio 
originário. Portanto, podemos dizer que a meta de uma pessoa normal não é 
simplesmente descarregar a tensão, mas equalizá-la, redistribuindo toda a energia 
necessária. 
A autorrealização traduz, na verdade, o único motivo que o organismo possui 
que é realizar-se, e representa a tendência criativa da natureza humana. A maneira como 
cada pessoa busca esta autorrealização varia muito conforme as potencialidades inatas 
de cada um. Estas potencialidades ou preferências dão forma aos fins e dirigem o 
desenvolvimento e o crescimento individuais. Este princípio orgânico torna o organismo 
mais desenvolvido e mais complexo. 
Com relação à interação organismo/ambiente podemos dizer que o ambiente 
perturba o organismo por meio de estímulos e, este, busca no próprio ambiente aquilo 
que necessita para equalizar o seu funcionamento normal. 
Porém, se a discrepância entre as metas do organismo e as realidades do 
ambiente for muito grande, o organismo entra em colapso, ou desiste de algumas 
metas e tenta realizar-se em um nível inferior de existência. 
Em conformidade com as ideias de Goldstein, Perls traz a concepção de que 
nenhum organismo é autossuficiente, e que necessita do mundo para satisfazer suas 
necessidades. Há uma interdependência do organismo e seu ambiente, dentro de uma 
realidade objetiva e uma realidade subjetiva. É a partir do mundo objetivo que o 
indivíduo cria seu mundo subjetivo. 
Partes do mundo objetivo são selecionadas de acordo com nossos interesses, 
limitadas apenas pelos instrumentos de percepções e por inibições sociais e 
neuróticas. A realidade que importa é a realidade dos interesses – a realidade 
interna e não a realidade externa. 
Relacionando estas ideias com o conceito de figura/fundo, podemos concluir 
que não percebemos a totalidade de nosso ambiente, mas ao mesmo tempo 
selecionamos objetos de acordo com nossos interesses, e estes objetos aparecem como 
figuras proeminentes contra um fundo “escuro”. 
O organismo e o mundo apresentam uma relação tão integrada que não 
podemos definir quem serve a quem; ou seja, as ações e reações que ocorrem no mundo 
 
29 
 
e no organismo estão entrelaçadas, sem que haja uma relação de causalidade, ou uma 
simples resposta para uma pergunta. 
Em toda e qualquer investigação biológica, psicológica ou sociológica temos de 
partir da interação entre o organismo e seu ambiente. Podemos ir, além disso, quando 
percebemos que na verdade não apenas selecionamos nosso mundo, como podemos 
ser selecionados por outras pessoas como objetos de seus interesses. 
Toda esta realidade sugere uma organização maior, uma realidade coletiva, por 
meio de leis, compromissos, convenções, etc. Não podemos nos esquecer também 
da realidade imaginária, em que o homem cria um mundo adicional, cheio de 
projeções. Desse modo, em qualquer estudo de ciências do homem, incluindo a 
psicoterapia, temos de falar de um campo no qual interagem pelo menos fatores 
socioculturais, animais e físicos. 
Tudo isto comprova e denota uma interdependência muito forte e dinâmica que 
ocorre entre o organismo e o ambiente. Ampliando este conceito, podemos dizer que a 
própria psicologia estuda a operação da fronteira de contato no campo 
organismo/ambiente. Esta relação pode ser bem representada por meio do ciclo de 
contato sugerido por Perls, em que há uma compreensão de um dos fenômenos mais 
importantes, a autorregulação organísmica, muito diferente da regulação de instintos 
por princípios morais ou autocontrole. O princípio que governa nossas relações com o 
mundo externo é o mesmo princípio intraorgânico de busca de equilíbrio, que é a 
autorregulação. 
Entender a abordagem holística dentro da saúde também é um novo 
movimento de quebra de paradigmas, afinal nem todas as culturas tradicionais 
abordaram a saúde desta forma. Por meio dos tempos, as culturas têm oscilado entre 
o reducionismo e o holismo em suas práticas médicas. Enquanto o foco da medicina 
científica ocidental incide sobre os mecanismos biológicos e os processos fisiológicos 
que produzem a evidência da enfermidade, a principal preocupação do xamanismo 
está relacionada com o contexto sociocultural em que a enfermidade ocorre, 
obedecendo a um enfoque psicossomático e trabalhando com o inconsciente 
coletivo e social, compartilhado por toda a comunidade. 
No âmago da medicina hipocrática, a medicina devia ser exercida como uma 
disciplina científica. As doenças não são causadas por demônios ou forças 
sobrenaturais, mas são fenômenos naturais que podem ser estudados e influenciados 
por procedimentos terapêuticos e pela conduta de vida do indivíduo, incluindo a 
 
30 
 
influência dos fatores ambientais (ar, água, alimentos, etc.). 
A tradição hipocrática, com sua ênfase na inter-relação fundamental de corpo, 
mente e meio ambiente, representa um ponto alto da filosofia médica ocidental. Estes 
princípios foram desenvolvidos na China antiga, muito influenciado pelo xamanismo, 
taoísmo e confucionismo. 
Para a medicina Chinesa, o universo inteiro, natural e social, encontra-se em 
estado de equilíbrio dinâmico, e o organismo humano é um microcosmo do universo. 
A doença é o resultado de um conjunto de causas que culminam em desarmonia e 
desequilíbrio. A finalidade da medicina chinesa é, antes, realizar a melhor adaptação 
possível do indivíduo ao meio ambiente como um todo. O paciente, para isso, 
desempenha um papel importante e ativo e é responsável pela manutenção da sua 
própria saúde. Embora o sistema chinês apresente esta concepção holística da saúde, 
ainda sim negligenciou o holismo no que se refere aos aspectos psicológicos e sociais 
da doença. 
Para entender esta complexidade holística que envolve a saúde, é necessária 
compreender o conceito de saúde. Saúde é um estado de bem-estar que se estabelece 
quando o organismo funciona de certa maneira, e que reflete uma teia de relações 
entre múltiplos aspectos do fenômeno da vida. A saúde é um fenômeno 
multidimensional, que envolve aspectos físicos, psicológicos e sociais, todos 
interdependentes. 
Podemos então dizer que a saúde é uma experiência subjetiva. Baseado no 
novo paradigma da visão sistêmica a saúde é encarada como um processo contínuo, 
refletindo a resposta criativa do organismo aos desafios ambientais. 
Saúde, também pode ser entendida como um equilíbrio dinâmico que 
envolve os aspectos físicos, psicológicos e sociais do organismo, assim como suas 
interações com o meio ambiente natural e social. Este conceito de saúde é compatível 
com a concepção sistêmica de vida, com a tradição hipocrática e a tradição da medicina 
do leste asiático. 
A doença é, portanto, uma consequência de desequilíbrio e harmonia, e por outro 
lado, ser saudável significa estar em sintonia consigo mesmo – física e mentalmente – e 
com o mundo circundante. 
Como indivíduos, temos o poder e a responsabilidade de manter nosso 
organismo em equilíbrio, respeitando algumas regras de qualidade de sono, 
alimentação,exercícios e medicamentos. Atualmente, entendemos que a natureza 
 
31 
 
psicossomática da doença subentende a possibilidade de autocura psicossomática. 
Como exemplo, podemos citar o fenômeno do biofeedback (vasta gama de 
processos físicos é influenciada pelos esforços mentais de uma pessoa). Algumas 
enfermidades graves exigirão um enfoque terapêutico que inclua além dos aspectos 
físicos e psicológicos, o estilo de vida e a visão de mundo do paciente. Tudo isso como 
parte integrante do processo de cura. 
Acredita-se que o estresse excessivo contribua para a origem e o 
desenvolvimento da maioria das doenças, manifestando-se no desequilíbrio inicial do 
organismo. 
O pensamento sistêmico é um pensamento ambientalista, ou melhor, a 
percepção ecológica profunda traz o novo paradigma da visão de mundo holística e 
reconhece a interdependência fundamental de todos os fenômenos, enquanto 
indivíduos e sociedade, e a interligação dos processos cíclicos da natureza. A nova 
ciência da ecologia enriqueceu a maneira sistêmica de pensar introduzindo duas novas 
concepções – comunidade e rede. 
Comunidade ecológica é um conjunto de organismos aglutinados em um todo 
funcional por meio das suas relações mútuas. A concepção de sistemas vivos como 
redes fornece uma nova perspectiva sobre as camadas hierárquicas da natureza. 
Devemos considerar que os sistemas vivos são redes, interagindo à maneira de 
rede com outros sistemas. A teia da vida consiste em redes dentro de redes. Para esta 
proposta não há separação entre seres humanos e meio ambiente natural, concebendo 
os seres humanos apenas como um fio particular na teia da vida, baseados nos valores 
ecocêntricos (centralizados na Terra). 
Podemos concluir que esta percepção ecológica profunda é uma percepção 
espiritual ou religiosa, fortalecida pelas sensações de pertinência, de conexidade com o 
cosmos como um todo. Esta mudança de paradigma exige uma expansão nas nossas 
percepções, maneiras de pensar, e, principalmente, nos valores. Para isso, é necessário 
que as tendências autoafirmativas e integrativas funcionem de forma equilibrada. 
A partir da visão sistêmica teremos que ter em mente que um grande desafio do 
nosso tempo é a criação de comunidades sustentáveis, ou seja, ambientes sociais e 
culturais que podem satisfazer as necessidades e aspirações sem diminuir as chances 
das gerações futuras. 
Em contrapartida, temos muitos trabalhos de corpo que podem ajudar a 
manter o equilíbrio. A terapia de trabalho de corpo baseia-se na crença de que todas 
 
32 
 
as nossas atividades, pensamentos e sentimentos refletem-se no organismo físico, 
manifestando-se em nossa postura e movimentos, nas tensões e nos sinais 
corporais. Outro recurso é trabalhar padrões de respirações que refletem a dinâmica de 
todo o sistema corpo/mente. 
A Gestalt-terapia se destina a “curar” as patologias “comuns”, decorrentes da 
frustração de necessidades de nível inferior, além das metadoenças de nossa 
sociedade, os sofrimentos do espírito e das mais altas potencialidades humanas. É 
importante inspirar os clientes, propondo um modelo humano de amplo espectro, 
capaz de instigá-lo a almejar metas que antes não tinham compreendido e cogitado 
alcançar. 
A autorregulação organísmica é a consciência espontânea da necessidade 
dominante e sua organização das funções de contato. Numa situação de perigo, quando a 
tensão se inicia a partir de fora, a cautela e a deliberação são similarmente espontâneas. 
A ação autorreguladora é mais vívida, mais intensa e mais sagaz, o que 
parece espontaneamente importante de fato organiza realmente a maior parte da 
energia do comportamento. 
Porém, a experiência neurótica é também autorreguladora e se caracteriza por 
excesso de deliberação, fixação da atenção e músculos preparados para uma resposta 
específica. O self fica impossibilitado de passar de uma energia para outra, a energia 
fica presa a uma tarefa que não pode ser completada. O neurótico tem uma sensibilidade 
ao perigo extremamente aguçada, ou seja, ele é cauteloso quando poderia relaxar com 
segurança. O que ocorre em situações de emergência é que fica clara a hierarquia 
subjacente e, assim, descobre- se “o que um homem é”. Podemos concluir que a 
autorregulação ocupa uma posição ética privilegiada, porque só ela guia a 
consciência organísmica e a força mais vigorosa. Qualquer outro tipo de avaliação 
tem de atuar com energia reduzida. 
O problema da psicoterapia é arregimentar o poder de ajustamento criativo do 
paciente sem forçá-lo a encaixar-se no estereótipo da concepção científica do 
terapeuta. É obviamente desejável ter uma terapia que estabeleça o menos possível 
uma norma, e tente retirar o máximo possível da estrutura da situação concreta, aqui 
-agora, pois assim, podemos ter melhores esperanças de dissolver os elementos 
neuróticos. 
O sintoma é tanto uma expressão de vitalidade quanto uma “defesa” contra a 
vitalidade, além de representar a expressão da singularidade de um homem. O impulso 
 
33 
 
neurótico não é unicamente negativo, ele exerceu um efeito modelador sobre o 
paciente, e não se pode explicar um efeito positivo por uma causa negativa. 
Portanto, é uma estrutura intrínseca de elementos vitais e embotadores, e que o 
melhor self do paciente está investido nela. 
Quando simplesmente se dissolve as resistências, corre-se o risco do paciente 
tornar- se menos do que era. Dentro deste contexto, o terapeuta deve usar o método de 
empregar cada parte que funciona como sendo funcional, e não abstrair qualquer parte 
que funcione na situação concreta, incluindo o contexto do paciente e encontrando um 
experimento que ativará todas as partes como um todo do tipo exigido. 
As partes que funcionam são: a autorregulação do paciente, o conhecimento do 
terapeuta, a ansiedade liberada, a coragem e o poder criativo e formativo em cada 
pessoa. 
 
 
PSICOLOGIA DA GESTALT 
 
 
 
Conceitos Estruturantes 
 
 
A Psicologia da forma, Psicologia da Gestalt, Gestaltismo ou simplesmente 
Gestalt é uma teoria da psicologia que considera os fenômenos psicológicos como um 
conjunto autônomo, indivisível e articulado na sua configuração, organização e lei 
interna. 
A teoria foi criada pelos psicólogos alemães Max Wertheimer (1880-1943), 
Wolfgang Köhler (1887-1967) e Kurt Koffka (1886-1940), nos princípios do século 
XX, mais precisamente em 1912. Estes trabalhos foram uma continuação dos 
trabalhos de Christian Von Ehrenfels (1859-1932), psicólogo austríaco, precursor 
desta escola do pensamento. 
Ehrenfels lançou, em 1890, as bases da Psicologia da Gestalt. Sua primeira 
constatação foi a divisão de duas espécies de “qualidades da forma”: as sensíveis, 
próprias do objeto, e as formais, próprias da nossa concepção. São as primeiras 
 
34 
 
agrupadas de acordo com as últimas que formam o conjunto e possibilitam a percepção. 
A partir destas ideias e da oposição à concepção de Wilhelm Wundt (1832-
1920), considerado o fundador da psicologia moderna e experimental, Wertheimer, 
Köhler e Koffka começaram um trabalho dentro da Universidade de Frankfurt. 
A Psicologia da Gestalt é um movimento que atua na área da teoria da 
forma. Ela propõe que o cérebro humano tende automaticamente a desmembrar a 
imagem em diferentes partes, organizá-las de acordo com semelhanças de forma, 
tamanho, cor, textura, etc., que por sua vez serão reagrupadas de novo em um 
conjunto gráfico que possibilita a compreensão do significado exposto. O princípio 
básico da teoria gestaltista é que o inteiro é interpretado de maneira diferente que 
a soma de suas partes. Esta premissa levou ao descobrimento de diferentes 
fenômenos que ocorrem durante o processo da percepção. 
 
 
 
A mesa é um objeto distinto da soma de suas partes. 
 
Wertheimer pôde provar, experimentalmente, que diferentes formas de 
organização perceptiva são percebidas de forma organizada ecom significado 
distinto por cada pessoa. Basearam nisso a ideia de que o conhecimento do mundo se 
obtém por meio de elementos que por si só constituem formas organizadas. Por 
exemplo: uma cadeira é mais do que quatro pernas, um assento e um encosto. Uma 
cadeira é tudo isso, mas é mais que isso: está presente na nossa mente como um 
símbolo de algo distinto de seus elementos. 
Um importante movimento estudado e denominado por ele foi o “fenômeno 
phi”. Quando a representação de determinada frequência não é transposta, se tem a 
 
35 
 
impressão de continuidade e movimento. O cinema e/ou os desenhos animados foram 
construídos baseado nessa ilusão de movimento. 
Os gestaltistas, por meio de experiências em laboratórios, resolveram estudar a 
personalidade como um todo. Eles começaram pelos mecanismos fisiológicos e 
psicológicos, mas depois estenderam suas pesquisas à memória, inteligência e 
expressão, sempre baseadas na percepção e nas relações do organismo com o meio. 
No processo de percepção há fatores objetivos e subjetivos, cuja importância 
relative irá variar. Para representar esta relação entre o organismo e o meio, a pessoa 
tende a isolar as “boas formas”. O mesmo acontece entre as relações de figura-fundo. 
Todo o campo perceptivo se diferencia em um fundo e em uma forma ou figura. Estes 
dois elementos estão intimamente ligados e não existem independentemente. Estes 
conceitos representam um foco importante dentro da teoria da Gestalt-terapia. 
Por meio das confirmações dos Gestaltistas, pode-se provar que há uma 
relação dialética entre o sujeito e o objeto, ao contrário do que até então se pretendia 
comprovar por intermédio da pretensa “objetividade científica”. Eles acreditavam e 
provaram que o aspecto do objeto depende das necessidades do sujeito e vice-versa. 
O design, a arquitetura, a arte, a moda e a própria Gestalt-terapia utilizam as 
leis da Gestalt o tempo todo, muitas vezes, até de forma inconsciente. Este 
pensamento ajuda as pessoas a assimilarem informações e entenderem as mensagens 
que são passadas. 
Esta teoria descobriu certas leis que regem a percepção humana das formas, 
facilitando a compreensão das imagens e ideias. Essas leis são nada menos que 
conclusões sobre o comportamento natural do cérebro, quando age no processo de 
percepção. 
Os elementos constitutivos são agrupados de acordo com as características que 
possuem entre si, como semelhança, proximidade e outras que veremos a seguir. O 
fato de o cérebro agir em concordância com os princípios Gestálticos já poderia ser 
considerado a evidência fundamental de que a Lei da Pregnância é verdadeira. 
 
Segue abaixo um resumo sobre as Leis da Gestalt: 
Lei da Semelhança ou Lei da Similaridade: possivelmente a lei mais 
óbvia, que define que os objetos similares tendem a se agrupar. A similaridade pode 
acontecer na cor dos objetos, na textura e na sensação de massa dos elementos. Estas 
características podem ser exploradas quando desejamos criar relações ou agrupar 
 
36 
 
elementos na composição de uma figura. Por outro lado, o mau uso da similaridade 
pode dificultar a percepção visual como, por exemplo, o uso de texturas semelhantes 
em elementos do "fundo" e em elementos do primeiro plano. 
 
 
 
Lei da Proximidade: os elementos são agrupados de acordo com a distância a 
que se encontram uns dos outros. Quanto mais perto uns dos outros, mais são 
percebidos como um grupo. Quanto mais longe, menos são associados a uma mesma 
unidade ou grupo. 
 
 
 
Lei da Continuidade: está relacionada à coincidência de direções, ou 
alinhamento, das formas dispostas. Se vários elementos de um quadro apontam para 
o mesmo canto, por exemplo, o resultado final "fluirá" mais naturalmente. Isso 
logicamente facilita a compreensão. Os elementos harmônicos produzem um conjunto 
harmônico. O conceito de boa continuidade está ligado ao alinhamento. Em vez de 
ver linhas e ângulos separados, elas são vistas como uma só, pois dois elementos 
alinhados passam a impressão de estarem relacionados. 
 
 
 
 
Lei da Pregnância ou Lei da Simplicidade: esta lei é a que mais influencia a 
Gestalt- terapia e, também, a mais importante de todas, possivelmente, ou pelo menos 
 
37 
 
a mais sintética. Diz que todas as formas tendem a ser percebidas em seu caráter 
mais simples, por isso “simplicidade”: uma espada e um escudo podem tornar-se uma 
reta e um círculo, e um homem pode ser um aglomerado de formas geométricas. É o 
princípio da simplificação natural da percepção. Quanto mais simples, mais 
facilmente é assimilada: desta forma, a parte mais facilmente compreendida em um 
desenho é a mais regular, que requer menos simplificação. 
Assim, a pregnância da imagem diz respeito ao caminho natural que ela 
segue em direção à boa forma, que é, idealmente, a mais simples de todas. E essa 
simplicidade é formada justamente por equilíbrio, homogeneidade, regularidade e 
simetria. 
O equilíbrio final da forma, entretanto, é próprio também dos elementos que a 
compõem. A forma é equilibrada quando suas partes também estabelecem 
correlações equilibradas, pois, para a Gestalt, o todo é um elemento próprio, mas 
refere-se sempre às correlações entre suas partes. 
 
 
 
Lei do Fechamento ou Lei da Clausura: elementos são agrupados se eles 
parecem se completar. Nossa mente vê um objeto completo mesmo quando não há 
um, ou seja, é o princípio de que a boa forma se completa, se fecha sobre si 
mesma, formando uma figura delimitada. O conceito de clausura relaciona-se ao 
fechamento visual, como se completássemos visualmente um objeto incompleto. 
 
 
 
AQUI E AGORA 
 
Prestem atenção naquilo que se encontra presente, aqui e agora para vocês, 
 
38 
 
neste momento. Do que você está consciente? Do texto que está lendo? De um 
barulho que está do lado de fora? De um toque do telefone? De uma campainha? De 
alguma dor presente em você? 
A ideia de que ‘apenas o presente existe agora’ está no cerne do 
entendimento de homem e de mundo na abordagem gestáltica, e, consequentemente no 
olhar que lança sobre a relação terapêutica. 
Durante muitos anos, os psicoterapeutas trabalharam com a ideia de um 
presente ‘como se’: o sentimento presente na relação terapêutica era compreendido 
como se fosse uma reedição de um sentimento do passado; uma atitude na relação 
terapêutica era como se fosse uma revivência de uma relação não resolvida no 
passado. Todas estas visões estão impregnadas das ideias psicanalíticas, que, não 
podemos negar, ampliou muito a concepção das forças que estavam em jogo na relação 
terapêutica. Porém, todo o presente é visto como uma projeção do passado. Pensemos 
em um exemplo: 
Em determinado momento de uma sessão de terapia, o cliente mostra-se 
visivelmente bravo com o terapeuta (o visivelmente também é possível, a partir do 
momento em que podemos perceber o cliente no aqui e agora, em sua totalidade, 
isto é, embora este possa não dizer verbalmente que está bravo ou com raiva, seu 
corpo, sua postura, sua voz ou sua fisionomia o fazem. Para que eu assim o perceba 
preciso contatá-lo para além do discurso). 
Após esta percepção do terapeuta, temos alguns caminhos a seguir: posso 
negligenciar esta percepção e continuar agarrado ao discurso; posso apontar a minha 
percepção por meio de uma interpretação (o como se); ou posso explorar 
fenomenologicamente o momento presente, explorando como se sente desta forma, o 
que acontece com seu organismo quando se sente assim, o que está fazendo com isso, 
o que quer fazer com isso agora. Se você for um Gestalt-terapeuta, certamente 
escolherá o terceiro caminho. 
A ênfase no momento presente, ou no aqui e agora, não exclui de forma 
alguma as experiências passadas ou planejamentos futuros. Devemos ter cuidado, 
pois em nossa sociedade, na maior parte das vezes, priorizar uma posição significa 
excluir outras. Isto não é verdade, pelo menosneste contexto do qual estamos 
falando. As experiências passadas têm enorme importância para o nosso entendimento 
do presente. 
Pensemos no momento em que estamos vivendo no que se refere às 
 
39 
 
alterações climáticas no mundo. Ao fazermos uma exploração fenomenológica de 
como estas alterações acontecem, os efeitos que têm no presente, como se encontra a 
camada de ozônio, como ela se ‘comporta’, estaremos no momento presente deste 
fenômeno. Mas, para que possamos ter uma maior compreensão do fato presente, até 
mesmo em termos de planejamento futuro, precisamos contatar o passado; este sem 
dúvida proporcionará mais sentido ao presente. Mas vejamos um pouco mais 
aprofundada esta questão. 
As dimensões de passado e futuro constituem contornos psicológicos para a 
experiência presente, formando um contexto psicológico, da qual a figura emergente no 
presente se destaca. No entanto, não podemos confundir a importância do passado e 
do futuro com a forma de vida ‘como se’, isto é, viver o presente como se estivesse 
no passado ou no futuro, como muitas pessoas o fazem. Estar no presente, lembrando 
o quanto bom era o passado ou o quanto melhor será o futuro, compromete as 
possibilidades vitais da existência. Ouvir de um cliente o quanto sofrido e traumático 
foi sua infância de abuso sexual e moral, e tratar o fato apenas como acontecimento 
passado, embora no aqui e agora estejam aparecendo suas emoções e reações a estas 
lembranças, faz com que o cliente esteja minimamente presente. 
De que forma então poderíamos ajudar o cliente a contatar-se efetivamente 
com o presente? Polster e Polster nos respondem: Se ele tomasse consciência de sua 
tensão, sua experiência presente seria bastante intensificada. Então, se pudesse 
permitir ainda mais que sua tensão estagnada crescesse até um sistema vivo de 
tensão, bem poderia contar a sua história com raiva (...). A tensão tem seu próprio 
poder de direção e – lembrança ou não – se move para o presente ao expressar-se na 
eloquência verbal, no choro, no grito, no soco, na repreensão ou em outras ações 
expressivas. O que anteriormente havia ficado sufocado, engessado no passado, 
revive agora por meio das realidades motoras e sensoriais atualmente disponíveis 
(POLSTER e POLSTER, 2001, p. 26). 
Outro aspecto importante que compromete o contato com o presente é o que 
chamamos de ‘falar sobre’. Imagine-se contando uma experiência que teve numa 
viagem. Ao falar sobre a viagem, é bem provável que seus interlocutores ouçam o 
que está sendo dito e, após alguns dias, nem lembrem mais dos detalhes da 
experiência narrada. Experimente, pois, levar os interlocutores a contatarem a sua 
própria experiência de viagem naquela região. Suponhamos que você esteve em 
Bariloche e pela primeira vez viu neve. Optando por não ficar exclusivamente ‘falando 
 
40 
 
sobre’ a viagem, mas explorar a experiência também dos interlocutores (por exemplo, 
se eles já viram neve, como foi a experiência, como acham que é, qual expectativa, o que 
teriam vontade de fazer, etc.), após alguns dias é bem provável que todos se lembrem 
para onde você viajou, qual foi a sua sensação, os lugares que você visitou. 
O que estamos querendo mostrar é que quando a fala é somente narrativa 
sem envolvimento emocional e sem interesse pela experiência do interlocutor é bem 
possível que esta não represente nada além de um desabafo, ou seja, tem um valor, 
mas está aquém dos ganhos que podemos ter com uma descrição fenomenológica da 
experiência. 
O quanto você aprende com as palestras ouvidas em um congresso? Relembre-
se de algum que você tenha ido. O que ainda é acessível a você em sua memória? 
Compare esta experiência com outra em que você estava verdadeiramente envolvido 
com o conhecimento em questão. Em qual das duas experiências você estava ‘mais 
presente’? Qual está mais consciente para você? 
Diante disso, na Gestalt-terapia, o ‘aqui e agora’ é incorporado como uma 
estratégia de enfoque, ou seja, ‘todo o trabalho terapêutico está centrado no que o 
cliente traz, naquilo que neste momento ele vive (...) e não descartando qualquer 
tipo de informação que seja (...) relevante para o processo terapêutico’ (ELÍDIO, 
2000, p. 60). 
 
A RELAÇÃO FIGURA-FUNDO 
 
Antes de nos debruçarmos teoricamente sobre os aspectos relevantes da 
relação figura-fundo, observemos as figuras abaixo. O que conseguem ver? Qual 
figura emerge e qual fundo permanece? Seria possível a emergência desta figura sem 
este fundo ‘delineado’? Conseguem perceber o dinamismo entre figura que ora emerge, 
ora vai para o fundo? 
 
 
41 
 
 
 
Este é apenas um exercício para que possamos perceber os fenômenos presentes 
em nossa percepção. Na primeira figura conseguiram ver uma velha e uma moça? E 
na segunda, conseguiram perceber um saxofonista e um rosto de mulher? É bem 
possível que aquilo que você percebeu primeiro esteja relacionado com as suas 
experiências, necessidades ou familiaridade. Esta ideia está ligada à teoria da 
Psicologia da Gestalt de que a pessoa que percebe não é meramente um alvo passivo 
para o bombardeamento sensorial originário do meio; ela estrutura e impõe uma ordem 
às suas próprias percepções. 
Trazendo esta noção para nossa vida cotidiana, tomemos um exemplo para 
ilustrarmos o dinamismo da relação figura-fundo: 
Lembre-se de um momento em que você estava com muita fome, caminhando 
na rua de sua cidade. Nos quarteirões pelos quais passou, você passou por 
drogarias, boutiques, livrarias e cinemas. Possivelmente você ‘olhou, mas não viu’ 
estes estabelecimentos, ou os viu como não restaurante, limitando o objeto àquilo que 
você espera dele (esperaria que fosse um restaurante, como é um ‘não restaurante’, não 
me detenho a sua ‘existência’ propriamente dita). Provavelmente o que você percebeu 
foram os restaurantes e lanchonetes, o que reforça a ideia de que nossas necessidades 
prioritárias guiam nossa percepção. 
No caso acima a ‘figura’ emergente no seu campo perceptivo é a fome. 
Mesmo que você tenha que comprar um remédio ou um livro, naquele momento o 
seu organismo está orientado a satisfazer àquela necessidade prioritária. Após a sua 
satisfação ou o fechamento da figura, em que esta se torna fundo, é bem provável 
que você possa entrar na drogaria ou na livraria, caso estivesse precisando de algo 
neste contexto. 
O fundo é compreendido na Gestalt-terapia como o contexto de onde a figura 
 
42 
 
emerge. No exemplo acima, a figura ‘fome-restaurante’ emerge do fundo ‘rua’. Da 
mesma forma que a pessoa faminta percebe a comida, mesmo na sua ausência (olha 
para uma almofada redonda e vê um hambúrguer), no caso da figura não ser fechada 
e poder ir para o fundo, uma pessoa insatisfeita pode continuar a elaborar em suas 
atividades atuais as questões inacabadas do passado. 
Para Polster e Polster (2001) todas as experiências da vida de uma pessoa 
compõem o fundo para o momento presente e identificam três elementos que compõem 
o fundo na vida de uma pessoa. 
 
VIVÊNCIAS ANTERIORES 
 
O fundo é construído com base nas experiências que vamos acumulando ao 
longo da vida e nos valores a elas associados. Quanto mais diversificadas são nossas 
experiências desde o início da vida, mais rico será o nosso fundo e mais 
possibilidades de figuras podem ser produzidas e podem emergir. Ao mesmo tempo, 
a fluidez na relação figura-fundo será maior, quanto mais flexível forem os valores 
aprendidos. A criança que desde pequena é ‘protegida’ pelos pais de viver o 
machucar, o cair, o andar, o subir, etc., terá menos chances de ter um fundo muito 
rico, ou com maior acessibilidade e, consequentemente, uma vida menos 
diversificada, talvez até mais repetitiva em seus aspectos negativos e positivos. 
Se o fundo de uma pessoa contém carinho, gentileza será mais fácil que se 
torne ‘figural’ para esta pessoa, expressões de simpatia, parceria ou amizade,já que isto 
lhe é familiar, logo é mais facilmente percebido contra um fundo que contém outras 
informações não emergentes. 
Em contrapartida, se outra pessoa possui desejos homossexuais e seus valores 
levam em consideração a proibição do choro no homem ou da dureza de uma 
mulher, qualquer emergência destas ‘demonstrações’ terá menos probabilidade de vir 
à tona, mantendo a figura em aberto (a necessidade de relacionamento homossexual), 
havendo, pois, um ocultamento de partes do fundo. Desta forma, o fundo não está 
livremente disponível como uma fonte de novas figuras. 
Para Polster e Polster (2001, p. 50): (...) à medida que o fundo de sua 
experiência se torna mais diversificado, ele também se torna potencialmente mais 
harmonioso com todo um contínuo de acontecimentos. A diversidade resultante tem 
maior probabilidade de assegurar um fundo relevante para qualquer coisa que possa 
 
43 
 
estar acontecendo no presente. 
 
SITUAÇÕES INACABADAS 
 
Podemos considerar situações inacabadas como aquelas em que a energia 
presente na não satisfação de uma necessidade continua em atividade comprometendo as 
experiências posteriores. Inevitavelmente, nossas figuras ‘clamam por clausura’, têm 
uma tendência natural a se realizar e ‘desocupar’ o status de necessidade (está ligada 
à eliminação do excesso ou da reparação da falta), cedendo lugar a novas figuras. 
Se você não discute com seu chefe, embora quisesse muito fazê-lo, e chega a 
casa e descarrega sobre seus filhos, é mais provável que isto não funcione, sendo 
somente uma tentativa parcial de terminar algo que ficou inacabado. 
Se eu tenho um imenso talento para a área artística, mas minha família quer 
que eu seja médica, caso me torne médica, é esperado que eu vivencie um enorme 
desconforto por não ter seguido o fluxo de minha figura. Se tiver coragem de abrir mão 
da minha carreira de médica e seguir o meu talento, é possível que esteja mais 
satisfeita e possa viver genuinamente as minhas experiências atuais. 
É claro que nem sempre podemos realizar todas as nossas necessidades. A 
maioria das pessoas tem uma grande capacidade de tolerar situações inacabadas, afinal 
durante nossa vida estamos destinados a ter muitas delas. 
Apesar de nossa tolerância, realmente estas situações procuram a ‘inteireza’ e 
estas direções incompletas quando obtém poder suficiente, a partir de um grande 
acúmulo de energia, o indivíduo reage com preocupações, ruminações, compulsões, 
ansiedades, temores, etc. 
Sempre que as questões inacabadas formam o centro da existência de uma 
pessoa a efervescência mental dela fica impedida. Quando, pelo contrário, somos 
livres e sem impedimentos (‘inacabamentos’), podemos nos envolver em qualquer 
coisa que desperte nosso interesse e permanecer com isso vivo até que diminua e algo 
diferente atraia a nossa atenção; este é um processo natural e uma pessoa que viva 
neste ritmo experiência a si mesma como flexível, clara e efetiva. 
Segundo Polster e Polster (2001) existem dois obstáculos que podem interferir 
neste processo natural. O primeiro seria uma necessidade rígida de completar a 
situação antiga e inacabada que podemos classificar de compulsão ou obsessão, 
levando a uma rigidez na relação figura-fundo. O segundo e oposto obstáculo seria a 
 
44 
 
labilidade da mente, sendo a pessoa incapaz de focar no presente e concluir a 
experiência, impedindo o fechamento. 
Pessoas com estas características demonstram dificuldade para explorar a 
formação de uma figura, interrompendo a todo o momento este processo, existindo 
pouca possibilidade dentro delas para que o desenvolvimento de qualquer figura atinja 
a totalidade; não conseguem permanecer ativas o suficiente para sentir uma sensação de 
inteireza. Esta característica de forma exacerbada aponta para um quadro maníaco: não 
são capazes de identificar o limite entre a sensação de início e de final. 
 
O FLUXO DA EXPERIÊNCIA PRESENTE 
 
No entanto, mesmo que estejamos imersos num constante movimento entre 
figuras e fundo e este fluxo aconteça aqui e agora, não é possível, ou melhor, é 
importante que a própria escolha da figura leve um tempo para se solidificar. Isto é, 
precisamos ‘depurar’ aquela necessidade emergente a tal ponto que ela esteja pronta 
para ser satisfeita. 
Em alguns momentos, por outro lado, certas imposições do meio, ou 
impossibilidades por ele colocadas impedem que a figura roube a cena e aí precisamos 
estar conscientes deste processo que temporariamente, 
‘em suspenso’ ou ‘entre parênteses’. Esta, porém é uma técnica arriscada, pois pode 
significar a supressão de si mesmo ou a repressão de desejos e necessidades. A 
distinção é que no processo de colocar-se entre parênteses há uma ‘eleição’ de 
prioridade, conforme falamos anteriormente; existe um processo consciente de escolha 
por uma ‘suspensão’ no momento em que julgamos adequado. 
Vivemos muito esta suspensão em nossos relacionamentos afetivos. Se em 
muitos momentos de um relacionamento há uma coincidência de necessidades, em 
tantos outros nos é exigido que abramos mão de uma necessidade, naquele 
momento, em prol de um melhor processo comunicativo, ou entendimento. 
Quantas vezes já fomos a reuniões familiares estando com outra necessidade 
em aberto, para conseguirmos uma maior harmonia com o meio? Mais uma vez, é 
importante ressaltar que o funcional dessas escolhas é poder colocar-se 
temporariamente entre parênteses até que seja possível o fechamento da figura, mais a 
frente. 
A repetição desta técnica a leva à categoria de padrão rígido de comportamento, 
 
45 
 
o que certamente terá consequências desastrosas. O ‘colocar-se entre parênteses’ deve 
ser uma técnica que nos ajude na nossa relação com o mundo e não que nos paralise 
frente a ele. 
 
TEORIA DE CAMPO 
 
Para entender o método chamado de Teoria de Campo Fenomenológica é 
preciso entender a concepção do fenômeno. Primeiramente, todo fenômeno deve ser 
considerado legítimo e pode ser investigado. Segundo, experienciar um evento 
significa clarificar os sentimentos, apontar os aspectos subjetivos e os objetivos da 
experiência, e dar-se conta dos aspectos inibidos e negligenciados, sempre buscando o 
processo de aware do cliente (falaremos sobre a awareness mais adiante). 
Estes pressupostos só poderão tornar-se viáveis quando a abordagem enfatiza o 
“agora”. Esta ênfase no presente é uma influência direta da Psicologia da Gestalt. A 
abordagem fenomenológica de campo utiliza a experimentação sistemática para 
encontrar uma descrição que seja verdadeira para o estudo do fenômeno. Esta 
experimentação capacita a pessoa a perceber o que é adequado ou verdadeiro para si 
mesmo. 
A teoria de campo está muito ligada ao processo cognitivo, ou seja, ela 
indica o processo pelo qual pensamos. Ela nos orienta em relação aos mecanismos de 
avaliação, assimilação de ideias e metodologias e um referencial de comunicação. 
Para entendermos o processo de conscientização da awareness é necessário que 
haja uma interação entre a maneira de pensar e a de estar inserido no mundo. A Teoria 
de Campo se contrapõe às ideias mecanicistas newtonianas, contrariando também os 
pensamentos reducionistas ou dualistas. Ela traz o conceito de holismo para dentro do 
seu escopo teórico e abrange uma perspectiva que fornece uma integração do 
corpo, da mente, das interações sociais, além dos aspectos espirituais e transpessoais. 
Esta troca é tão intensa e dinâmica que o campo indivíduo/ambiente influencia o resto 
do campo, e o resto do campo influencia o indivíduo. 
A Teoria de Campo capacita a Gestalt-terapia a manter o foco na pessoa como 
agente ativo. Neste ponto, podemos descrever a relação entre o conceito de self e a 
Teoria de Campo. Se self fosse entendido fora do contexto da Teoria de Campo, este 
poderia ser entendido como um existente concreto, retirando o caráter ativo da pessoa, 
 
46 
 
ou seja,haveria um “centro” que faz coisas, mas o “Eu” deixaria de ser este centro do 
agente ativo. 
A Teoria de Campo também ajuda a manter em mente as complexidades das 
relações de campo no presente e das mudanças que, inevitavelmente, ocorrem com o 
passar do tempo e os diferentes contextos e maneiras pelas quais as pessoas constroem 
os seus selfs. 
O self é a fronteira de contato em funcionamento. Sua atividade é formar figuras 
e fundos. O self é a interação contínua no campo organismo/ambiente, e que faz parte do 
campo. 
“Campo” é um instrumento básico na abordagem da Teoria de Campo e traz uma 
visão holística e interativa das forças presentes nele. Para a Gestalt-terapia, o 
relacionamento é inerente à existência. Ou melhor, tudo que existe consiste de uma teia 
de relacionamentos que é determinada por uma multiplicidade de variáveis. O 
contato/relacionamento constitui a primeira realidade para a pessoa, e o organismo não 
tem significado separado do seu ambiente. 
Outro ponto importante é que os relacionamentos se constituem dentro de uma 
organização dinâmica e sistêmica inerente ao todo. A proposta do campo é fazer 
com que a pessoa perceba de forma dinâmica e energética que existem possibilidades 
para o movimento e a interação global do mundo. Podemos então dizer que tudo pode 
ser definido em termos de um campo todo. Cada evento é único, ordenado, e pode ser 
estudado, independente do número de repetições para classificá-lo. 
O campo psicológico não existe independente das pessoas; as pessoas não 
existem sem esse campo. O indivíduo é definido, num dado momento, apenas pelo 
campo do qual faz parte, ou seja, os fatores contextuais são considerados inerentes e 
necessários para a compreensão da pessoa, inclusive, pois o comportamento também é 
uma função do campo. O campo organismo/ambiente determina a pessoa. A seguir 
alguns outros conceitos nos ajudarão a compreender a Teoria de Campo formulada por 
Kurt Lewin. 
Devemos perceber que o comportamento é regulado pelo meio, mas não um 
meio geográfico (onde se está), e sim um meio comportamental (onde se pensa que 
está). O meio comportamental é uma ligação, um meio termo, entre o meio geográfico 
e o comportamento. O interessante é que a partir do meio comportamental podemos, 
em terapia, conhecer melhor o fenômeno trazido pelo cliente, e colocando-o dentro 
do seu campo, compreender como o todo funciona. 
 
47 
 
É o próprio conceito de campo que nos conduz a uma totalidade em que se 
unem os conceitos de meio geográfico e meio comportamental num único campo, o 
psicofísico, que é o lócus do comportamento. Portanto, é a pessoa sendo vista como um 
todo na sua relação dentro- fora com o ambiente. 
A teoria de campo de Lewin influenciou fortemente a Gestalt-terapia (GT), e 
apresenta uma grande influência dos constructos da física. Atualmente esta teoria 
também é aplicada no trabalho com grupos e na psicologia social. 
As principais características de sua teoria são: o comportamento é uma 
função do campo que existe no momento em que ocorre o comportamento; a análise 
começa com a situação como um todo, a partir do qual as partes componentes são 
diferenciadas; a pessoa concreta em uma situação concreta pode ser representada 
matematicamente, ou seja, a pessoa é sempre vista dentro de um espaço maior que ela. 
Um campo é definido como a totalidade de fatos coexistentes que são concebidos 
como mutuamente interdependentes, e traz em si uma noção dinâmica e não estática. 
O comportamento deixa de ser entendido apenas como resultado da realidade 
interna da pessoa e passa a ser analisado em função do campo que existe no 
momento em que ocorre. A situação comportamental é vista como um todo, da qual 
decorrem partes diferenciadas (PONCIANO, 1985, p. 95) 
O espaço de vida, proposto por Lewin, composto pela pessoa + ambiente 
psicológico, é o universo do psicólogo, é o todo da realidade psicológica, e contém a 
totalidade dos fatos possíveis capazes de determinar o comportamento de um 
indivíduo; é onde o comportamento ocorre. Fora do espaço de vida, temos o meio não 
psicológico que é considerado o meio físico (podendo incluir alguns fatos sociais). 
O espaço de vida consiste em uma rede de sistemas interconectados, com 
fatos empíricos e fenomenais e fatos hipotéticos ou dinâmicos. As formas como as 
áreas interconectadas irão se comunicar determinam o que ele chama de dimensões. 
A dimensão proximidade-distância diz que duas regiões são acessíveis aos 
fatos de outra região; a dimensão firmeza-fragilidade determina a resistência de uma 
fronteira, ou sua permeabilidade, e é representada pela largura da linha da fronteira; a 
dimensão fluidez-rigidez é a mais importante delas, e determina a qualidade de sua 
superfície, facilitando a criatividade. Um meio fluido é aquele que responde 
rapidamente a qualquer influência agindo sobre ele, é flexível e maleável. Um meio 
rígido resiste à mudança, é duro e inelástico. 
Os principais fatos da região intrapessoal são chamados de necessidades, 
 
48 
 
enquanto os fatos do ambiente psicológico são chamados de valências. Cada 
necessidade ocupa uma célula separada na região intrapessoal e cada valência ocupa 
uma região separada no ambiente psicológico. 
O aumento de tensão ou a liberação de energia em uma região intrapessoal é 
causado pelo surgimento de uma necessidade. Lewin conectou a necessidade à ação, 
por meio da ação motora. Ele ligou a necessidade a certas propriedades do ambiente 
que então determinam o tipo de locomoção que vai ocorrer. Essa é uma maneira muito 
interessante de conectar a motivação ao comportamento. 
Por valência, entende-se o valor daquela região para a pessoa, que pode ser: 
positivo e negativo. Uma região de valor positivo é aquela que contém um objeto-
meta que reduzirá a tensão quando a pessoa entrar na região, ao contrário da negativa, 
que vai aumentar a tensão. 
Uma valência é uma força, afinal ela dirige a pessoa por meio de seu 
ambiente psicológico, mas não proporciona a força motivadora para a locomoção. As 
propriedades conceituais da força são: direção, potência e ponto de aplicação. 
A direção para a qual esse vetor aponta representa a direção da força, o 
comprimento do vetor representa a potência da força, e o lugar onde a ponta da flecha 
se insere na fronteira externa da pessoa representa o ponto de aplicação. A mudança 
do cliente se dá quando estes três conceitos ficam claros para ele. Ele sabe que quer ir, 
em que direção, sente-se com energia e para onde ir. As ações que ocorrem dentro do 
campo são momentâneas em função da inter- relação entre as forças e da 
interdependência entre elas. 
Conhecer todos esses conceitos, principalmente esta forma fenomenológica de 
lidar com as situações, nos leva a um ponto muito interessante que é perceber a Gestalt-
terapia como uma abordagem em que se referencia a filosofia do óbvio. O óbvio não é 
tão nítido como parece, pois está repleto de preconceitos, crenças, etc. Porém, o maior 
desafio do óbvio é conseguir ser agarrado. 
 
AWARENESS E TEORIA PARADOXAL DA MUDANÇA 
 
Awareness é um conceito fundamental na Gestalt-terapia. Supõe-se que quanto 
mais awareness uma pessoa está, mais próxima de si e mais saúde ela conseguirá 
alcançar. 
 
49 
 
No entanto, não é tarefa muito fácil alcançar este nível de awareness, 
principalmente se levarmos em conta o ritmo de vida que temos ultimamente – 
apressado e, muitas vezes, implacável com aqueles que ‘perdem tempo’. 
Aware significa consciência; awareness, conscientização. Quanto mais 
estamos conscientes de quem nós somos, de como fazemos e para quê fazemos; 
quanto mais estamos conscientes de nossas sensações corporais, de nossa relação 
figura-fundo, do nosso campo psicológico e até mesmo geográfico, mais poderemos 
assumir a responsabilidade pelas nossas escolhas e maiores chances de estarmos vivos 
pelo que somos e não pelo que deveríamosser, ou pelo que os outros esperam que 
sejamos. Enfim, temos mais chances de viver a autenticidade de nossa existência, 
‘com as dores e delícias de sermos quem somos’, parafraseando o compositor 
Caetano Veloso. As funções de contato, no entanto, precisam se desenvolver bem 
para que possamos estar realmente awareness. Discutiremos exclusivamente estas 
funções no módulo seguinte. 
Yontef (1998) define awareness como: (...) uma forma de experienciar. É o 
processo de estar em contato atento como evento mais importante do campo 
indivíduo/ambiente como apoio energético, cognitivo, emocional e sensório-motor 
totais. Um continuum constante e ininterrupto de awareness leva a (...) uma percepção 
imediata da unidade óbvia entre elementos díspares no campo. Novas totalidades 
significativas são criadas por contato aware (YONTEF, 1998, p. 236). 
Algumas proposições este autor nos apresenta a respeito deste conceito: 
• A awareness é eficaz somente quando baseada na energia (necessidade) 
dominante atual do organismo, isto é, só estaremos de fato conscientes do que se 
passa conosco se formos realmente capazes de nos colocarmos em contato direto com 
o que está acontecendo aqui e agora. 
• A awareness não se completa sem o conhecimento direto da realidade da 
situação (novamente o contato aqui e agora) e de como se está na situação. É 
fundamental 
que este processo seja sucedido pela aceitação de si e a assunção da escolha e 
responsabilidades posteriores. 
• A awareness está sempre mudando evoluindo e se transcendendo. 
 
Existem duas maneiras de o indivíduo se autorregular (veremos no próximo 
item): por hábito, isto é, pois estamos acostumados a fazer de uma determinada forma, 
 
50 
 
sem necessariamente estarmos conscientes da necessidade emergente (figura) naquele 
momento; ou por escolha consciente, onde estaremos awareness de nossas necessidades 
e responsáveis pelas escolhas em questão. 
Para que possamos alcançar a mudança em nossa forma de se autorregular, 
passando de uma autorregulação por hábito para uma autorregulação aware, é 
primeiramente necessário aceitarmos quem somos. 
Para isso, precisamos conhecer a nós mesmos: quem somos; o quê fazemos; 
para quê fazemos; como fazemos. Quanto mais consciente somos de nós mesmos, mais 
será possível termos controle sobre o ambiente e sobre as mudanças que buscamos 
realizar em nós e no mundo que nos cerca. É bem provável que menos sofrimento 
vivenciemos. 
No entanto, boa parte das pessoas leva a vida tentando ser o que não é, ou o 
que acha que deveria ser. Quando nos autorregulamos, mais em função das 
expectativas do mundo sobre quem deveríamos ser do que em função de nossas 
próprias necessidades, mais nos distanciamos de quem somos e maior o estado de 
tensão produzido em nosso organismo: ele necessita de uma coisa, mas buscamos 
outra para satisfazer às exigências do mundo e não a nossa. 
Passamos a funcionar deste jeito e seguindo um caminho bastante perigoso, 
pois em algum momento este organismo precisará aliviar a sua tensão. Podemos ser 
surpreendidos por um sintoma físico e até uma patologia orgânica, como também 
podemos externalizar via transtornos mentais. 
A grande parte dos clientes chega para o tratamento esperando que alguém 
saiba sobre ele mais do que ele mesmo e lhe dê as respostas que busca a respeito de 
um comportamento não adaptado, por exemplo. 
Muitas abordagens aceitam este lugar do terapeuta de quem tudo sabe e o 
cliente, então, seguirá as orientações deste para a tão esperada mudança; aqui há 
claramente um pacto de que minha mudança está nas mãos de outrem, reforçando 
assim sua falta de awareness e funcionando, muitas vezes, baseado mais em como o 
terapeuta acha que o cliente deve ser do 
que naquilo que o cliente acha que é. O cliente acaba agindo mais em 
razão dos hábitos caracteriológicos rígidos do que pela necessidade atual, e o 
terapeuta fica com o papel de agente de mudança. 
Beisser apud Yontef (1998, p. 219) propõe outra maneira de se enxergar a 
mudança, a partir de sua Teoria Paradoxal da Mudança: (...) esta mudança ocorre 
 
51 
 
quando a pessoa se torna o que ela é, e não quando ela tenta se tornar o que não é. A 
mudança não ocorre por meio de uma tentativa coercitiva do indivíduo ou de 
qualquer outra pessoa em mudá-lo, mas acontece se a pessoa faz o esforço, e leva o 
tempo necessário, para ser o que é – estando integralmente de posse de suas posições 
atuais. Pela rejeição do papel de agente de mudança, a tornamos mudança ordenada e 
significativamente possível. 
Logo, a Gestalt-terapia rejeita o papel de agente transformador, pois, como 
já dito anteriormente, para que possamos dar um passo à frente, primeiro temos que 
ter os pés bem firmes no chão. Esta firmeza, este suporte será alcançado quanto mais 
aware estivermos de nós mesmos, já que é muito difícil dar um passo sem esta base 
firme de sustentação de apoio. 
 
TEORIA ORGANÍSMICA 
 
O mais importante precursor médico do conceito organísmico foi Hughlings, 
eminente neurologista inglês. Jan Smuts, soldado e grande estadista inglês da África 
do Sul, é reconhecido como o precursor filosófico da Teoria Organísmica. Smuts 
construiu a palavra holismo da raiz grega holos, todo, completo, inteiro. Outras fontes 
de onde a Teoria Organísmica bebeu foi Aristóteles, Goetche, Spinoza e William James. 
O movimento gestaltista também se utilizou das ideias organísmicas para pautar 
suas observações. Este movimento defendia uma nova espécie de análise da experiência 
consciente. No entanto, os gestaltistas e a Psicologia da Gestalt basearam seus 
estudos nas dimensões perceptivas e no fenômeno da consciência, dispensando poucos 
estudos sobre o organismo ou a personalidade como um todo. A Teoria Organísmica 
tomou por empréstimos muitos conceitos da Psicologia da Gestalt; a Psicologia 
organísmica pode ser considerada uma extensão dos princípios da Psicologia da 
Gestalt ao organismo como um todo. 
Kurt Goldstein, neuropsiquiatra, é considerado um expoente da Teoria 
Organísmica. Em grande parte como resultado de suas observações sobre as lesões 
cerebrais dos soldados durante a Primeira Guerra Mundial e de seus estudos sobre a 
linguagem, Goldstein conclui que um determinado sintoma não pode ser 
compreendido somente a partir de certa lesão orgânica, mas do organismo como um 
todo. O organismo se comporta como um todo unificado e não como um conjunto de 
 
52 
 
partes (noção muito semelhante ao da Psicologia da Gestalt, mas aplicado ao organismo 
total e não só à percepção). 
Hall e Lindzey (1973, p. 330) afirmam que “o corpo e a mente não são 
entidades separadas, e nem mesmo a mente é constituída por faculdades ou elementos 
independentes. O organismo é uma só unidade; o que ocorre em uma parte, afeta o 
todo”. 
As principais características da teoria organísmica são: 
 
• A teoria organísmica destaca a unidade, a integração, a consistência e a 
coerência da pessoa normal. O organismo tende a estar organizado; é um estado 
natural do organismo. A desorganização, por sua vez, pode ser considerada patológica 
e, frequentemente, é consequência do impacto do meio ambiente. 
 
• Entende o organismo como um todo organizado, no qual suas partes, para 
serem compreendidas, precisam estar em relação ao todo; nunca isoladas, como 
frequentemente fazem atualmente os especialistas em medicina (olham a parte, o 
órgão, o sintoma e esquecem o todo, o holos). Os teóricos organísmicos creem ser 
impossível compreender o todo estudando as partes de forma isolada. 
• Acredita que o organismo age motivado por um impulso dominante, o 
de autorrealização, e não por vários impulsos. Isto quer dizer que o homem luta 
continuamente para realizar suas potencialidades inerentes (mesmo que, muitas 
vezes, possamos boicotar esta autorrealização, o que veremos mais à frente ao 
abordarmos o eu neurótico). 
• Tende a diminuir as influênciasdo meio externo ao organismo rumo à sua 
autorrealização, embora não o considere como um sistema fechado. O indivíduo 
seleciona aspectos do meio aos quais vai reagir e, salvo em circunstâncias especiais, 
o meio não pode obrigar o organismo a se comportar de forma estranha à sua 
natureza. Crê que as potencialidades do indivíduo lhe permitem desenvolver-se de 
forma ordenada, em um meio apropriado. Nada é naturalmente mau no organismo, 
faz-se mau por interferência de um meio ambiente inadequado, lembrando as ideias de 
Jacques Rousseau, de que todo homem é naturalmente bom, mas pode ser corrompido 
por um meio que lhe negue oportunidade de atuar conforme sua natureza. 
• Acredita que o estudo sobre as percepções e a aprendizagem do 
 
53 
 
organismo constitui a base para a compreensão do organismo total. 
• Afirma que pode aprender mais com o estudo compreensivo da pessoa do 
que em uma investigação extensiva de uma função psicológica específica e isolada 
do indivíduo (em clara oposição à psicologia experimental). 
 
Embora outros teóricos tenham se debruçado sobre os estudos da teoria 
organísmica e realizado modificações em suas versões, nos deteremos aqui à 
exploração da teoria tal qual formulada por Kurt Goldstein. 
A organização inicial do funcionamento organísmico é o da relação figura-
fundo. A figura é qualquer processo que emerge de um fundo; a figura é a principal 
atividade do organismo. A figura tem um limite definido, um contorno que a 
encerra, enquanto o fundo é contínuo; não só circunda a figura como se estende atrás 
dela. 
Goldstein faz uma distinção entre figuras naturais e não naturais. Afirma que a 
figura é natural quando representa uma preferência da pessoa e quando o 
comportamento é ordenado, flexível e apropriado para a situação. E é não natural 
quando representa uma tarefa imposta à pessoa e resulta em um comportamento rígido 
e mecânico (uma criança que canta a letra de uma música sem saber o significado, no 
momento em que canta está em contato com uma figura não natural). 
 
A DINÂMICA DO ORGANISMO 
 
Goldstein apresenta três conceitos dinâmicos a respeito do funcionamento do 
organismo: 
 
• O processo de equalização 
 
Goldstein acredita que há uma tendência organísmica de manter uma 
distribuição equilibrada de energia pelo corpo; esta é constante e tende a distribuir-se 
uniformemente por todo o organismo. O objetivo, pois, de uma pessoa em estado de 
tensão (como, por exemplo, o provocado pelo desequilíbrio causado pela falta de água) 
é distribuir a energia pelo organismo e não descarregá-la. Enquanto não satisfaz esta 
figura emergente há uma reorganização de energia, ou pelo menos uma busca de, para 
 
54 
 
manter o organismo equalizado. Quando bebe água a energia pode ser mais bem 
distribuída e o equilíbrio é retomado. 
 
• Autorrealização 
 
Representa para Goldstein o único motivo que possui o organismo. O sexo, a 
fome, o desejo de poder, a curiosidade são formas de manifestar o propósito soberano 
da vida que é a autorrealização. Esta é vista como uma tendência criativa da natureza 
humana. O organismo humano se desenvolve pela autorrealização, a partir da 
satisfação de necessidades ou superação de estados deficitários organísmicos. Mas, o 
que determina a ‘escolha’ destas necessidades ou a das potencialidades inerentes? 
Goldstein propõe investigar as preferências da pessoa e o que ela realiza melhor. 
Suas preferências corresponderiam às suas potencialidades. 
 
• ‘Pôr-se em acordo’ com o meio ambiente 
 
Consiste fundamentalmente em dominar o meio; e o indivíduo que não o 
consegue tem que aceitar as dificuldades e se ajustar da melhor maneira à realidade 
externa. Se as discrepâncias entre as aspirações do organismo e a realidade do meio 
são muito grandes, o organismo fracassa ou tem que limitar suas ambições, 
realizando-se em um nível inferior da existência. 
Goldstein pouco aprofundou seus estudos a respeito de uma psicologia 
organísmica do desenvolvimento. Um pequeno trecho, no entanto, poderá brevemente 
nos esclarecer sobre o seu posicionamento sobre o desenvolvimento: (...) uma criança 
exposta a situações que possa enfrentar se desenvolverá normalmente, por meio da 
maturidade e do treino. À medida que surgem novos problemas ela constrói novos 
padrões para solucioná-los. (...) Contudo, se as condições do meio são muito difíceis 
para a capacidade da criança, ela desenvolverá reações impróprias para o princípio da 
autorrealização. (...) o processo tende a se isolar dos padrões de vida do indivíduo. O 
isolamento de um processo é a condição primária para o desenvolvimento de estados 
patológicos (HALL e LINDZEY, 1973, p. 341). 
 
FRONTEIRAS DE CONTATO 
 
55 
 
 
Contato e Resistência 
 
No útero tínhamos tudo pronto. Tudo que tínhamos que fazer era nadar no 
ambiente benevolente. A armadilha além de certo limite punha um fim ao 
arrendamento; tínhamos de sair e, querendo ou não, aprender a abrir nosso próprio 
caminho num mundo menos solícito (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 111). 
Até o corte do nosso cordão umbilical, vivíamos fusionados. Não havia 
separação entre o corpo do bebê e o da mãe. Com o nascimento, nos tornamos seres 
separados, buscando a união do que é diferente de nós. Não voltaremos mais a este 
ambiente simbiótico, sem discriminação eu-mundo. Passamos a viver em busca da 
união com outros organismos, pessoas. No entanto, esta união pressupõe uma 
separação a posteriori. Unirmo-nos e nos separarmos parece ser o paradoxo de nossa 
existência: como estar junto e separado? 
A noção de contato pressupõe a união e a separação. Contatar-se significa, ao 
mesmo tempo, estar consciente de si como um ser separado e delimitado e, em união 
com o outro que é diferente e separado de mim. Precisamos do contato com o outro, 
mas também tememos este contato como a invasão de nossa fronteira. É importante 
que tenhamos muito claro as nossas fronteiras de conato, para que possamos ser 
nossos próprios ‘senhores’, onde o outro pode ser convidado a entrar, ou não. 
Porém, se lutarmos ferozmente pelo nosso ‘território’ podemos desperdiçar contatos 
vigorosos e nutritivos para o nosso organismo. 
É a partir do contato que atingimos o crescimento ou que nos movimentamos 
em sua direção; é a partir do contato que nos transformamos e transformamos as 
experiências que vivenciamos. 
Segundo Polster e Polster (2001), a mudança é a consequência inevitável do 
contato, já que assimilar o que é assimilável nas experiências de troca com o mundo 
ou rejeitar aquilo que é inassimilável levará à mudança, inevitavelmente. Em qualquer 
experiência que tenhamos, nos modificamos e realizamos novas configurações de nós 
mesmos, uma vez que o contato é 
incompatível com permanecer o mesmo. Não é necessário querer mudar a partir 
do contato; ele simplesmente acontece. 
Polster e Polster (2001, p. 114) afirmam que “o que distingue o contato da 
intimidade ou união é que o contato acontece numa fronteira em que é mantido um 
 
56 
 
senso de separação para que a união não ameace sobrecarregar a pessoa”. 
A fronteira se encontra exatamente no espaço entre o eu e o não-eu. É aí que o 
ego começa a existir, a partir da noção de discriminação. É importante, no entanto, 
que compreendamos que embora o contato sugira uma relação com o diferente, 
também temos a capacidade de contatarmos a nós mesmos. Inclusive, é em função 
de um contato genuíno conosco que conseguimos obter um contato mais autêntico com 
o outro. 
Por outro lado, a fronteira também nos protege e nos possibilita a delimitação de 
nosso espaço: geográfico, corporal, moral, expressivo, etc. Quanto mais diversificadas 
as nossas experiências, mais nossas fronteiras permitirão novas experiências. Portanto, 
somos capazes de permitir determinadas ampliações de limites de acordo com as 
experiências que temos em nossa relação com o mundo. 
Se alguém está acostumado alidar com situações adversas, uma humilhação, 
provavelmente provocará desconforto, porém algo que não afetará suas fronteiras se 
comparado a uma humilhação que tivesse ocorrido com alguém na qual esta 
experiência fosse insuportável, ou totalmente nova. Esta pessoa poderia reagir com 
bloqueios psicológicos ou, lapsos de memória, nas situações mais críticas. 
A seletividade no contato, determinada pela fronteira do eu do indivíduo, 
governará a vida do indivíduo, orientando a escolha dos amigos, do trabalho, da 
fantasia, do sexo e todas as experiências que poderiam ser consideradas relevantes em 
sua existência. 
A rigidez na delimitação das fronteiras, ou seja, o que o indivíduo suporta 
experienciar, está relacionada com o temor que ele tenha em expandir as próprias 
fronteiras e as consequências disso para si; o indivíduo pode vivenciar isto como risco 
de sobrecarga. 
Para Polster e Polster (2001, p. 123) “o paradoxo surge porque a ameaça às 
fronteiras do eu do indivíduo ativa as reações de emergência que têm o objetivo de 
preservar a fronteira”. É muito difícil conhecer aquilo que podemos entrar em contato e 
em quais circunstâncias, tornando o desenvolvimento das fronteiras bastante 
imprevisível. As pessoas precisam desenvolver certa habilidade em avaliar as 
possibilidades daquilo que desejam e necessitam dos outros. 
A experiência da fronteira do eu pode ser descrita a partir de distintas 
perspectivas: fronteiras corporais; fronteiras de valores; fronteiras de familiaridade; 
fronteiras expressivas e fronteiras de exposição. A seguir, vejamos brevemente o que 
 
57 
 
significam. 
→ Fronteiras do corpo: Muitas pessoas não integram 
determinadas partes do corpo em suas fronteiras do eu. Estas pessoas 
permanecem fora de contato com partes importantes de si mesmas. É 
importante que, como terapeutas, possamos expandir estas fronteiras 
e integrando aquelas partes alienadas, em busca de uma expansão de 
certas fronteiras corporais. 
→ Fronteiras de valor: Muitas vezes, estamos tão apegados a 
determinados valores que impedimos novas experiências de contato. 
Mantemo-nos com determinados valores, evitando a confrontação, 
pois acreditamos que este confronto possa neutralizar quem somos. 
No entanto, estas fronteiras muito rígidas, embora possam nos 
proteger de uma ‘desintegração’ nos impedem de viver experiências 
que estejam em consonância com nossas necessidades. Buscar a 
ampliação – mas não a confrontação – destas fronteiras ajuda para que 
a pessoa se ‘lance’ em novas e transformadoras experiências. 
→ Fronteiras de familiaridade: Tendemos a contatar somente 
aquilo que nos é familiar; o medo do desconhecido e do imprevisível 
estabelece nossa fronteira de familiaridade. É claro que existem 
limites impostos pelas oportunidades que podem impedir a ampliação 
de nossas fronteiras familiares, mas havendo oportunidade e não 
explorá-la pode significar uma rigidez na fronteira de familiaridade 
por medo do desconhecido. “(...) A fronteira que estabelecemos como 
linha de demarcação entre nós e o desconhecido, que nos recusamos 
a contatar, mesmo que haja oportunidade, é um limite que colocamos 
em nós mesmos” (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 131). 
→ Fronteiras expressivas: Desde cedo aprendemos a conter 
nossas expressões mais naturais e observamos isso com as consignas: 
não toque, não incomode, não se masturbe, não chore, não urine e 
assim são delimitadas nossas fronteiras de expressão. Embora, as 
cenas infantis não existam mais, as fronteiras permanecem e somente 
os detalhes mudam. 
 
 
58 
 
É assustador empurrar as fronteiras que estabelecemos para nós mesmos. A 
ameaça é perder nossa identidade, e em certo sentido isso é verdadeiro, pois 
inevitavelmente perdemos a identidade que costumávamos ter. Precisamos descobrir a 
identidade em evolução. O self não é uma estrutura, é um processo. No ato de 
derrubar as velhas fronteiras expressivas é possível expandir-se para um senso 
expandido de self (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 134). 
 
→ Fronteiras de exposição: Expor-se é um ato que requer 
coragem para se expandir. Dependendo dos inputs que recebemos do 
meio desde que nascemos estas fronteiras podem ser mais 
expandidas ou retraídas. É comum, entretanto, que nos resguardemos 
para evitarmos um desprazer, uma humilhação. Porém, é importante 
que no início da caminhada para a expansão destas fronteiras, o 
terapeuta saiba reconhecer os pequenos passos iniciados pelo cliente 
rumo a uma maior exposição e, consequentemente, a uma maior 
possibilidade de vivenciar as experiências de contato. Reconhecer que 
o caminho para uma exposição autêntica requer pequenos passos, 
leva o terapeuta a respeitar os degraus de cada um, incentivando e 
comemorando cada centímetro da ampliação na fronteira de contato. 
 
 
FUNÇÕES DE CONTATO 
 
O que vocês experienciam quando leem a palavra contato? É provável que 
relacionemos ao toque; à experiência física. Não podemos, no entanto, deixar de 
considerar que olhar, cheirar, degustar, falar, escutar também é ser tocado: pela luz, 
pelo gosto ou cheiro de produtos químicos, pelas ondas sonoras, etc. 
Pouco tempo, entretanto, temos despendido para de fato contatar. Contatamos 
com o que nos é interessante em determinado momento, o que podemos chamar de 
contato evidencial. A partir do contato evidencial, tornamos a vida prática: olhamos 
para quê ou por quê. Embora possamos estar bem equipados para o contato 
evidencial, estamos cegos ao contato por si mesmo, isto é, em ver por ver, já que em 
nossa sociedade não há espaço para este contato sem um propósito específico. Não há 
 
59 
 
tempo para isso. Porém, a falta de contato por si mesmo pode interferir no contato 
evidencial. 
Todas as funções precisam existir por si mesmas, além de servir a 
propósitos meramente práticos. Assim, aqueles que sentem prazer em ver têm maior 
probabilidade de ser mais alertas e sensíveis também quando se trata de ver 
evidencialmente (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 144). 
Polster e Polster (2001) assinalam, por outro lado, que nem sempre ver é 
fonte de prazer puro. Muitas vezes, os sentimentos que acompanham o ver, por 
exemplo, podem ser insuportáveis, caso a pessoa não possa assimilar aquilo que ela está 
vendo. É exatamente neste momento que podem aparecer as disfunções de contato: 
olho, mas não vejo; escuto, mas não ouço; falo e não percebo, entre outros. 
Podemos, pois, elencar sete principais funções de contato: olhar, escutar, 
cheirar, degustar, tocar, falar e movimentar-se. 
Muitas pessoas estão cristalizadas em suas formas de contatar. Entendemos 
que o contato ‘descongela’ na medida em que estamos aware da função envolvida 
naquele contato com o mundo. 
Um cliente que polariza entre um olhar fixo ou uma ‘fuga’ do olhar, precisa 
recuperar a sua capacidade de contatar. Uma das formas que pode ser sugerida seria 
pedir ao cliente que se torne consciente de sua visão, de seus olhos. Podemos solicitar 
que o cliente olhe de um lado para o outro, sem mover a cabeça. Uma das formas de 
cegueira de contato é o que Polster e Polster chamaram de ‘visão de túnel’, na qual 
conseguimos ver somente aquilo que está diretamente a nossa frente. 
Aqui podemos lembrar a relação figura-fundo: olhar ao redor (fundo) é 
fundamental para a compreensão daquilo que está à frente (figura). Polster e Polster 
(2001, p. 147) nos dizem que “o contexto dá dimensão e ressonância à experiência, 
expandindo-a para aquilo que aconteceu antes e o que pode se seguir à cena presente”. 
Podemos solicitar também que o cliente arregale os olhos e em seguida 
feche-os firmemente; os olhos relaxaram, o que poderia ser suficiente para ativá-
los. Estamos estimulando-o a contatar consigo, a partir do seu processo de olhar. 
Utilizar a situação terapêutica para exercitar o contato visual, constitui potente 
instrumento para o cliente provar as suas possibilidades visuais.A escuta também constitui uma função de contato extremamente importante, 
mas da mesma forma extremamente interrompida. Percebemos a tamanha 
indisponibilidade das pessoas nos dias de hoje para a escuta. Parecem escutar, mas não 
 
60 
 
em contato com os processos envolvidos na questão, mas aguardando a sua vez de 
falar. Neste ponto, o contato já não existe mais, ou pelo menos fica sobremaneira 
limitado. Precisamos reativar estas funções, pois fará com que provemos o mundo de 
outra forma. 
O ouvinte que faz contato está atento ao que está sendo dito, mas também 
penetra em si mesmo; assim ouve mais do que apenas palavras. Ele ouve o que 
significa algo para si é afetado por aquilo que ouve. Quando o ouvinte ouve, ele sabe 
que está num bom contato, e quando a pessoa que fala sabe que está sendo ouvida, seu 
contato também é avivado (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 152). 
A forma mais conhecida e óbvia de fazer contato é pelo toque. Desde cedo as 
crianças aprendem o que devem e o que não devem tocar; os pais costumam ser 
cautelosos quanto a esta exploração de mundo feita pelas crianças. 
Em diferentes culturas temos também fronteiras ao toque mais permissivas ou 
não. Há lugares onde encostar, tocar ao cumprimentar alguém não é admissível, já 
entre outras culturas o toque faz parte das formas de comunicação daquele povo. 
De outro lado, está o tocar como um artifício e não como algo amadurecido; o 
tocar exibicionista. Neste caso, pode haver constrangimento por parte daquele que é 
tocado por julgar não estar pronto para ser tocado por aquela pessoa. 
Precisamos, pois, treinar, experienciar o tocar e ser tocado com 
sensibilidade, em busca de um contato autêntico; do bom contato e não em virtude de 
uma nova ordem estabelecida. 
No processo terapêutico, a restauração do toque pode ser uma poderosa 
ferramenta para completar situações inacabadas. Em grupo, principalmente, pode-se 
experimentar in locu esta restauração, solicitando, por exemplo, a uma cliente que 
percebeu nunca ter se sentido próxima a um homem, que pudesse tocar os homens 
presentes no grupo e perceber o que acontece com ela neste momento. O toque, no 
entanto, não é o resultado inevitável de um contato afetivo. Mas, se há intenso temor 
da pessoa quanto a isso, as experiências catastróficas surtirão seu efeito de amortecer o 
contato autêntico. 
Quando alguém diz não ao toque e significa não ao toque, isto não é um 
problema neurótico, embora isso possa certamente provocar atritos nas relações 
pessoais. Mas, quando uma pessoa deseja estar perto de outra, mas tem medo, pois 
isto poderia levar ao toque, ela está criando uma separação entre o que ela é e o que ela 
poderia ser (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 154-155) 
 
61 
 
Como função de contato, podemos identificar duas dimensões no falar: a 
voz e a linguagem. A voz pode ampliar ou limitar nosso contato com o mundo. Ela 
pode ter um tom inexpressivo, monótono, o que influirá bastante sobre as formas de 
contato estabelecidas entre o eu e o mundo. É bem provável que o mundo reaja com 
falta de atenção, de afeto a uma voz monótona ou sem vida. É provável também que 
aquele que a expressa não esteja aware de como faz. Mais uma vez, o trabalho é no 
sentido de torná-lo consciente do que faz e do como faz. A partir daí, as chances para 
experimentar uma voz eloquente e viva aumentam. 
A linguagem verbal é a forma de comunicação mais utilizada em nossa cultura. 
Com a linguagem, podemos mostrar um contato imenso com o mundo, ou pelo 
contrário, podemos utilizá-la para fugir do contato, ‘enchendo linguiça’. Discursos 
extremamente elaborados que gastam o tempo de uma sessão, com a nítida função de 
não entrar em contato com. 
Muitos pacientes evitando o desconforto de se dar conta de algum sentimento, 
passam a explicar, a se enrolar na busca de evitar o inevitável: a consciência de si, 
e sentimentos subjacentes a tal consciência como vergonha, raiva, medo, etc. 
Outros podem ter tanta necessidade de estarem certos, terem sempre uma 
resposta para tudo e, no momento de uma pergunta que possa não ser respondida de 
imediato, eles busquem incessantemente uma explicação, embora o que precisassem era 
estar disponível para manter um contato inacabado. 
Dizer o que queremos é ao mesmo tempo tão simples e tão complicado; dizer o 
que se quer dizer, segundo Polster e Polster, é um magnífico ato de criação. Jargões, 
chavões, repetições, circunlóquios, superexplicações, perguntar ao invés de afirmar são 
formas de evitação de contato. 
Outra importante função de contato é o movimento. Ao observarmos uma 
pessoa, podemos identificar sua postura, maneira de andar e sentar, onde ela se apoia, 
onde há mais flexibilidade e mais rigidez, como é a flexibilidade das partes móveis 
(pescoço, ombros, pulsos, cotovelos, queixos, olhos). Esta observação nos dará 
preciosas informações a respeito desta função de contato: se ela está desenvolvida ou 
‘atrofiada’. 
O trabalho do terapeuta pode ser guiado por três princípios: 
 
• Levar o cliente a experienciar os seus movimentos na forma que eles têm 
presentemente, já que colocar o foco naquilo que está acontecendo constitui uma base 
 
62 
 
para a mudança. 
• Guiar a consciência e as ações do indivíduo por meio da sucessão de 
bloqueios a um pleno exercício de movimento que estamos focalizando. 
 
• Procurar pelas fontes de apoio que estão disponíveis no corpo do 
indivíduo. É importante notar onde e como o indivíduo se sustenta. Em algumas 
pessoas parece haver uma sustentação fraca com pobre apoio, ou sustentações rígidas 
que comprometem o movimento do corpo e o relacionar-se com a vida. As pessoas que 
são incapazes de desenvolverem fontes de sustentação confiáveis e nutridoras estão 
fadadas a uma condenação perpétua, em um mundo solitário. 
Para Polster e Polster (2001), a flexibilidade é fundamental para o contato, 
pois as coisas que são mantidas por muito tempo num foco direto e imutável, 
tornam-se mortas. As pessoas que não se movimentam permanecem fora de contato. 
O cheiro e o gosto parecem ter funções mais secundárias, extremamente 
reforçadas pelo modus operandi da nossa sociedade. Cada vez menos temos tempo de 
cheirar e degustar uma comida, por exemplo. Cada vez menos podemos exalar odores, 
cada vez mais nos distanciamos da nossa existência enquanto seres da natureza. 
Ao observarmos os animais, vemos o quanto o olfato é uma função das mais 
importantes de contato deles com o mundo. O odor dos outros animais, das comidas 
próprias para o consumo ou não, das plantas venenosas ou não, são informações 
imprescindíveis para a sobrevivência e para a sua relação com o mundo. 
Os seres humanos pouco têm tempo para degustar um alimento, sentir, a partir 
das papilas gustativas, as diferenças no paladar, sentir o cheiro das comidas, das flores, 
das pessoas! Recuperar estas funções de contato, certamente, tornará a vida mais 
viva, as cores mais fortes, as comidas mais saborosas e o cheiro mais peculiar! 
 
CICLO DE CONTATO 
 
O ciclo de contato também pode ser chamado de ciclo de autorregulação, 
ciclo de experiência, ciclo de satisfação das necessidades, ciclo de Gestalt, já que 
diferentes autores denominam e descrevem de forma distinta o processo de contato eu-
mundo. 
Na verdade, podemos considerar o ciclo de contato como a maneira que o 
 
63 
 
organismo tem de estabelecer trocas com o ambiente, visando à satisfação de alguma 
necessidade emergente, ou melhor, dizendo o fechamento de uma figura. Diante 
disso, foram identificadas algumas etapas no ciclo que se inicia com uma sensação e 
termina com o retraimento. 
Lembrando que embora existam diferentes leituras e etapas de acordo com o 
autor escolhido, aqui utilizaremos o modelo proposto por Zinker, o qual representa o 
ciclo de autorregulação da seguinte maneira: 
 
 
 
 
 
Compreende-se que o caminho que a energia presente na necessidade rumo à 
suarealização passa necessariamente por uma consciência de si, uma consciência 
do mundo, alcançando, então, a satisfação. 
No entanto, sabemos que as necessidades não são tão ‘obedientes’ ou lineares 
assim. Muitas vezes, temos várias figuras abertas e precisamos escolher aquelas 
que podem ser fechadas; nas quais iremos colocar energia prioritariamente e 
poderemos ajustar às possibilidades ou impossibilidades do meio. 
O acúmulo de figuras abertas, isto é de situações inacabadas, o que ocorre em 
razão das disfunções no contato (contato eu-eu e eu-mundo), nos impede de contatar 
genuinamente com o momento presente. Parte de nossa energia fica ‘fixada’ em 
determinadas figuras que clamam por fechamento, para que possam se juntar ao 
fundo. Mas, em virtude de exigências externas que internalizamos, adiamos ou 
suprimimos determinadas realizações de necessidades, em outros casos não 
conseguimos perceber nossas necessidades; estamos tão longe de nós mesmos que 
Ação 
Awareness 
Contato 
Sensação 
Retração 
Retração 
Mobilização de energia 
 
64 
 
sequer sabemos o que queremos! 
De qualquer maneira, o ciclo de autorregulação nos mostra que uma relação 
saudável com o mundo inicia-se com um ‘dar-se conta’ de uma necessidade do 
organismo, a partir de uma sensação ou sentimento. A partir da consciência (aware) da 
necessidade (ou figura) emergente, precisamos mobilizar energia visando à satisfação 
ou contato satisfatório daquela figura. 
Após este momento vamos para a ação para enfim obtermos satisfação e 
retornarmos ao estado de retração, no qual a energia se recolhe até o aparecimento de 
outras figuras. Uma figura aberta desequilibra o organismo e este tende a buscar a 
‘re-equilibração’. Precisamos estar muito aware para que possamos escolher dentre 
tantas figuras aquelas que merecem prioridade em determinada ocasião. Ilustremos 
com um exemplo: 
Uma cliente relata um estado de desconcentração, após uma discussão com a 
mãe. Ao pedir para que entre em contato com o que está sentindo ela descreve 
sensações corporais compatíveis com o sentimento de raiva. Solicitando que fique em 
contato com a raiva ela chega à mágoa por não ser compreendida ou ser criticada 
sempre pela mãe, embora nunca tenha exposto isto a ela. Ao avaliar a necessidade no 
momento, ela expõe que precisa colocar a raiva para fora e fazemos um exercício neste 
sentido. Após este momento, a figura emergente é de compartilhar com a mãe como se 
sente em relação aos seus comentários. Passa a mobilizar energia neste sentido, 
buscando o momento para conversar com a mãe. Após a ação (partilhar seus 
sentimentos com a mãe), a mãe surpreende-se com sua atitude, o que, com certeza, 
confere uma nova configuração a esta relação. A cliente sente que sua concentração 
retorna ao ‘normal’ (retraimento). 
Não temos garantias das consequências de uma nova atitude, mas o 
compromisso neste momento é seguir o fluxo do nosso organismo, com consciência 
do quê, do como e do para quê estamos fazendo. Ao estarmos aware deste processo, 
com certeza será mais fácil lidar com as surpresas do meio. 
É importante que assumamos aquilo que somos. Ao nos aceitarmos como somos, 
será mais fácil que o mundo nos respeite e estaremos mais perto de uma relação 
harmoniosa com ele. Muitas vezes, porém, a nossa existência parece estar subjugada 
à aceitação do outro. Tentamos ser para o outro e, neste momento, podem surgir o 
que chamamos de disfunções de contato. Estas disfunções estão relacionadas a 
determinadas interrupções no ciclo de autorregulação, conforme veremos a seguir. 
 
65 
 
Qualquer interrupção no ciclo de contato pode envolver psicopatologias, ou 
mesmo, mecanismos de defesa. A Gestalt-terapia interessa-se por desfazer estas 
interrupções no ciclo awareness-excitação-contato, embora nesta abordagem 
entendemos que os “sintomas” não são itens discretos, e sim estreitamentos de âmbito 
de determinado conjunto de funções. 
Todo contato é ajustamento criativo do organismo e ambiente. Um organismo 
vive em seu ambiente por meio da manutenção de sua diferença e da assimilação do 
ambiente à sua diferença. O que é selecionado e assimilado é sempre o novo. Por isso, 
todo contato é criativo e dinâmico. 
Segundo Zinker (2007), a psicologia ‘anormal’ é o estudo da interrupção, 
inibição ou outros acidentes no decorrer do ajustamento. 
 
• Interrupção entre a retração e a sensação 
 
Podemos dizer que a interrupção neste ponto do ciclo inclui pessoas que não 
parecem responder aos dados sensoriais que o corpo envia. Podendo não ouvir 
pessoas nem reagir a elas, incluindo os estados semicomatosos, transes hipnóticos 
ou um estado de dissociação. Romper esta interrupção é um processo demorado, mas 
o terapeuta deve se inserir na parte da experiência do indivíduo que continua viva e 
animada, ensinando-o a se ancorar no ambiente. 
A Gestalt-terapia integra as declarações verbais com a expressão muscular e a 
atividade. Ela penetra nos domínios da terapia comportamental, da análise reichiana e 
da bioenergética. Assim, ela convida a colocar em ato aquilo que está só 
parcialmente formulado com base em um entendimento histórico e em insights 
conceituais. 
 
• Interrupção entre sensação e awareness 
 
Pessoas com interrupções nesta etapa registram algumas sensações, mas não 
entendem o que querem dizer. Os sinais do corpo são estranhos e até assustadores. É 
possível entrar em contato com os sentimentos por meio de sensações musculares. 
Em uma situação de estresse, a hiperventilação e a taquicardia, por exemplo, 
podem ser interpretadas como um infarto; o cliente não faz conexão entre o que sinto 
 
66 
 
e a consciência sobre o que sinto, logicamente respeitando as circunstâncias do campo 
em que estão envolvidas estas sensações. Podemos ter uma awareness empobrecida, em 
função de alto grau de repressão na expressão de seus sentimentos, levando a 
interpretações errôneas do sentir, ou levando-nos a não entrar em contato com o que 
está, de fato, por trás daquela sensação. 
Como terapeutas, nossa tarefa está em focalizar estas sensações, fazendo com 
que o cliente contate-se consigo e possa integrar sensações organísmicas como o 
restante do corpo e do self. 
 
• Interrupção entre awareness e mobilização de energia 
 
Esta interrupção é comum em intelectuais e obsessivo-compulsivos. Eles 
podem ser cientes do que precisam fazer, mas não são capazes de desenvolver ímpeto 
suficiente para isso. É muito comum ser uma pessoa que retroflete, quer dizer, que 
em vez de se conectar com o mundo, se sabota e não expressa seus sentimentos de 
forma saudável. Suas recompensas são: a independência e a autoconfiança, a 
privacidade e o desenvolvimento de suas capacidades e talentos. 
Segundo Zinker (2007, p. 119), “na maioria das vezes a energia fica 
bloqueada por medo da excitação ou das emoções mais intensas que incluem 
sexualidade e raiva, assim como expressões de virtudes, valor pessoal, assertividade, 
ternura e amor”. 
Algumas pessoas não permitem a expressão destes sentimentos pela fantasia 
catastrófica de destruição do mundo; se deixando levar pela sexualidade podem se 
tornar perversos e maníacos; se demonstrarem amor e ternura invadirão a outra 
pessoa. O bloqueio fisiológico associado ao medo da excitação afeta a respiração. O 
autor faz uma relação com este tipo de comportamento e os deprimidos: Penso em toda 
a multidão de deprimidos que se queixam de fadiga, inquietação e desânimo. Muitas 
vezes, a pessoa deprimida retroflete suas manifestações, pois teme expressar aos que 
ama sua insatisfação ou raiva. Em vez disso, deixam que penetrem em seu ser críticas 
que os outros fazem e, então, padecem das insatisfações, reclamações e ódio deles. 
No lugar de se conectar com o mundo da energia, sabota a própria ‘seiva existencial’ 
(ZINKER, 2007, p. 120). 
 
 
67 
 
• Interrupção entre mobilização de energia e ação 
 
Neste caso,a pessoa não consegue usar a energia a serviço da atividade que 
lhe proporcionaria aquilo que quer, ou seja, é incapaz de agir com base nos impulsos, 
muitas vezes, por medo do fracasso, do ridículo, da decepção ou da desaprovação. 
O terapeuta deverá criar experimentos nos quais essas ações podem ser 
exploradas na relativa segurança do consultório. A tarefa do terapeuta está em levar 
o cliente, dentro de suas possibilidades e mesmo que de forma mínima, a expressar a 
energia que vivencia em seu interior. É bom lembrar que a pessoa tem bons motivos 
para se conter e esta expressão deve ocorrer em um nível confortável para o cliente. 
 
• Interrupção entre ação e contato 
 
Esta interrupção acontece com pessoas que são consideradas “histéricas”. Tem 
sentimentos difusos, fala muito e realiza diversas atividades, sem conseguir 
assimilar suas experiências. Não é capaz de agir pontualmente, deixando sua energia 
espalhar por todo o seu corpo, é distraída. Muitas vezes, experienciando esvaziamento 
e superficialidade com sua vida interior. Costuma tentar compensar sua sensação de 
vazio abusando de sexo, comida ou drogas. 
Para Zinker (2007, p. 126), o histérico precisa: (...) de ajuda para se tornar 
totalmente consciente de pequenas partes do comportamento e suas consequências. O 
objetivo do terapeuta consiste em ajudar esse cliente a localizar sua energia interior, 
prestar atenção nela e impedir que seja lançada prematuramente no ambiente. (...) pode-
se pedir a essa cliente que caminhe pela sala e se permita experienciar plenamente este 
ato, sem se apressar nem se distrair. 
 
Interrupções entre contato e retração, retração e sensação e perturbações 
do ritmo 
 
De uma forma geral, a pessoa aprende a prestar atenção em suas próprias 
necessidades, em como tentar satisfazê-las e depois, retrair-se e descansar. Há um ritmo 
entre contato e retração. Estar constantemente mobilizado também é uma espécie 
de doença. É preciso deixar que todo o processo siga em frente quando a experiência 
 
68 
 
alcança o auge ou o clímax, difícil para estes tipos de pessoas que se negam a sensação 
de fadiga e se agarram além do ponto ideal de retorno. Ele também tem dificuldade em 
dosar a intensidade do contato e não sabe o quanto dar ou receber – tende a não ouvir as 
mensagens dos outros. 
É muito importante trabalhar este tipo de interrupção, uma vez que um dos 
objetivos da terapia é tornar clara a variedade de ritmos que existem na vida. Ela nos 
expõe à riqueza do silêncio e à necessidade do descanso. 
 
RESISTÊNCIA E DISFUNÇÕES DE CONTATO 
 
A resistência na compreensão gestáltica, não pode ser considerada como uma 
barreira que impede o crescimento, estática, e que precisa ser removida. Precisamos ir 
além e compreendê-la como uma força criativa para administrar um mundo difícil. 
Podemos afirmar que todas as pessoas usam sua energia para obter um bom 
contato com o meio ambiente ou para evitar/resistir ao contato. Se sentirmos que o 
ambiente em que estamos, será capaz de satisfazer os nossos esforços em direção 
ao bom contato, iremos confrontar o ambiente com vontade, confiança e até alguma 
ousadia. Mas se nossos esforços na direção do contato satisfatório não forem 
recompensados, entramos num impasse com uma vasta lista de sentimentos 
perturbadores: raiva, confusão, futilidade, ressentimento, impotência, etc. 
Estes sentimentos geram uma energia que precisa ser redirecionada, embora 
com uma redução da interação plena com a realidade. Estamos falando da interação 
resistente com a realidade que pode ser compreendida como uma disfunção no contato. 
Uma criança aprende a conter seu próprio choro quando ele provoca uma 
reação antagônica de seus pais. Como sua área de ação está restrita ao ambiente em 
que ela pode se mover, aceita as condições conforme as encontra e faz o melhor com 
aquilo que tem. Mais tarde, ela se torna menos limitada, podendo se afastar de casa, 
desenvolvendo um novo senso de liberdade e poder. Então, se ela mantém a imagem 
da infância sobre as consequências impressionantes das lágrimas, sem dúvida está 
presa no passado e será necessária uma nova força para soltá-la (POLSTER e 
POLSTER, 2001, p. 68). 
Segundo Polster (2001), existem cinco formas de interação resistente ou 
disfunções de contator: 
 
69 
 
 
• Introjeção; 
• Retroflexão; 
• Projeção; 
• Deflexão; 
• Confluência. 
 
O introjetivo incorpora passivamente aquilo que o ambiente proporciona, sem 
‘degustar’ aquilo que é incorporado. Literalmente, engole e não mastiga. 
A criança tem fome. Inicialmente, alimenta-se pelo leite materno, aquilo que 
lhe é oferecido é por ela assimilado de forma a satisfazer suas necessidades. Ela 
confia no que aquele ambiente novo e desconhecido lhe oferece. 
Mais adiante seu organismo não mais se satisfaz com o leite e é necessária a 
introdução de papinhas, sucos, alimentos pastosos, frutas amassadas, etc. E ela continua 
engolindo aquilo que lhe é oferecido, mostrando a importância que o ambiente tem 
em seu desenvolvimento e satisfação de necessidades. Ainda não é capaz de mastigar 
e transformar aquilo que lhe é oferecido em uma substância mais adequada à 
assimilação do seu organismo. O meio ‘mastiga’ para ela. 
Quando ela pode mastigar, aprende a reestruturar aquilo que entra em seu 
sistema. Entretanto, antes disso, ela engole confiantemente o alimento que lhe é 
proporcionado – e de um modo similar, engole também as impressões da natureza de 
seu mundo (POLSTER e POLSTER, 2001, p. 86). 
Se o ambiente no qual a criança se desenvolve é confiável, isto é, mais 
confiável do que frustrador, o material que ela recebe será nutritivo e assimilável. 
Mas, a este material assimilável, se juntam os valores e normas de uma dada 
sociedade e da família. E, a partir da aquisição da linguagem, a criança, inicialmente 
é tolhida de suas necessidades, de seu pleno desenvolvimento, para atender às 
exigências do meio... 
 
Você não deve falar isso! É sujo e feio evacuar! 
Você não pode ‘soltar’ gazes! É falta de educação! 
Fique quieto que não vai doer nada! Esta criança não tem jeito! 
Você não deve falar alto! 
 
70 
 
 
A confiança da criança é esvaída pelos julgamentos e exigências externas que 
começam a impedi-la de satisfazer as suas necessidades. Dessa forma, a criança e, mais 
tarde o adulto, passa a ser orientado por este ‘corpo estranho’ que não corresponde de 
fato às suas exigências, mas às exigências do outro. 
Este ‘corpo’ carregado de valores assimilados sem a devida mastigação 
costuma orientar aquelas pessoas em que o mecanismo de contato com o mundo é 
realizado, ou melhor, muito pouco realizado em função das introjeções realizadas. 
Pessoas que utilizam este mecanismo em demasia continuam até os dias de hoje 
engolindo sem mastigar e sem poder cuspir e, possivelmente, sofrendo de uma 
tremenda indigestão! 
As introjeções na fase infantil caracterizam-se por uma relação com o meio de 
pouco contato, poucas trocas, mas de muita imposição e pouca possibilidade de 
diferenciação, embora a introjeção caracterize-se como uma forma genérica de 
aprendizagem. As pessoas que utilizam este mecanismo abriram mão de seu senso 
de escolha livre na relação com o mundo. As escolhas passam a ser orientadas não 
pelo que sou – pois pouco sei do que sou – mas pelo que me disseram de como eu 
DEVERIA ser. 
Polster e Polster (2001, p. 89) explicam que “a tarefa primária ao desfazer a 
introjeção é focar-se em estabelecer dentro do indivíduo um senso de escolhas 
disponíveis para ele, e estabelecer seu poder para diferenciar ‘eu’ e ‘eles’’’. 
No entanto, para desfazer a introjeção, muitas vezes, a rebelião é necessária, já 
que a pessoa passou uma boa parte da vida passivamente assimilando aquilo que o 
mundo lhe dá de forma mastigada e manipulando-o de forma a obter aquilo a que está 
acostumado a receber. 
A mudança, pois, pode ocorrer de forma pouco ordenada,mas enquanto 
mudança pressupõe uma reativação energética do próprio organismo para que ele possa 
voltar a ‘provar’ o mundo, degluti-lo ou vomitá-lo. Vomitar significa a descarga “dos 
indesejáveis corpos estranhos que precisam ser expelidos, mesmo que com o passar 
dos anos a pessoa sinta como se eles fossem próprios dela” (POLSTER, 2001, p. 92). 
Portanto, para que possamos contatar o mundo de forma plena e autêntica, o 
nosso primeiro passo é termos consciência do que está acontecendo conosco aqui e 
agora. Ao identificarmos obstáculos ao nosso crescimento, estamos, no mínimo, 
iniciando um caminho para retomá-lo! 
 
71 
 
Já o retroflexivo costuma voltar contra si a energia que gostaria de colocar no 
mundo; fazer a si aquilo que gostaria de fazer aos outros; ou ainda fazer a si aquilo que 
gostariam que os outros fizessem. É claro que um mínimo de retroflexão é necessário 
evitando uma expressão ‘selvagem’ das tendências agressivas ou de todos os desejos 
eróticos de uma pessoa; é conveniente, no entanto, que modere seus desejos e sua 
agressividade de acordo com o meio em que se encontra. 
A retroflexão crônica estará na origem, principalmente das somatizações 
diversas: gastrites, úlceras, problemas dermatológicos e até o câncer; resultado de 
emoções não expressadas no momento apropriado e acumuladas ao longo da existência. 
A terapia consistirá em amplificar estas emoções e expressá-las e, em último 
caso, promover uma catarse libertadora que na situação terapêutica poderia ser 
evidenciada na escolha de um ‘objeto transicional’ que represente aquela pessoa para 
a qual os sentimentos não foram expressos, levando o cliente a experienciar o 
compartilhar destes sentimentos. Vale ressaltar que muito dos comportamentos 
retroflexivos estão ligados à Culpa. 
Perls define a projeção como o inverso da introjeção, explicando que 
enquanto a introjeção atribui responsabilidade a si daquilo que cabe ao meio, na 
projeção atribui-se ao meio a responsabilidade por aquilo (sentimentos, crenças) que 
pertence a nós mesmos. “Enquanto que na introjeção o self é invadido pelo mundo 
exterior, na projeção é, pelo contrário, o self que transborda e invade o mundo exterior” 
(GINGER, 1995, p.135). 
Porém, também a projeção é necessária até como forma de facilitar o contato 
com o outro. Dificilmente conseguimos compreender o que se passa no outro se não 
formos capazes de nos colocarmos de certa forma em seu lugar, o que nos leva a crer 
que a empatia se alimenta da projeção. 
A projeção patológica é demonstrada ao atribuirmos, habitualmente, ao outro 
aquilo que acontece em nosso interior. É comum que isto se manifeste na relação 
terapêutica quando o cliente atribui ao terapeuta certas características que lhe são 
estranhas. 
Porém, aqui, diferente da neurose de transferência, este comportamento não é 
estimulado, mas assinalado, à medida que suas manifestações aparecem, confrontando a 
fantasia com a situação atual perceptível. 
Na confluência, o self não pode ser discriminado em função da ausência da 
fronteira de contato. 
 
72 
 
A criança está em confluência normal com sua mãe, assim como os namorados 
encontra-se em confluência. Porém, para que o contato aconteça é necessário este 
enlace e também o desenlace; aí podemos dizer que houve contato e não simbiose. Eu 
existo com você, mas existo também sem você. O confluente não existe sem o outro; 
ele é um prolongamento do outro. Quando esta separação se torna dificultada, então, 
podemos caracterizar este comportamento de patológico. 
Por outro lado, toda a ruptura brutal da confluência provoca uma intensa 
ansiedade que, em muitos casos, leva à culpa, quase insuportável, podendo até chegar 
à decomposição psicótica. 
Para Ginger (1995, p. 133): A atitude terapêutica consistirá especialmente em 
trabalhar nas fronteiras do self, no ‘território’ de cada um, com sua especificidade, com 
os limites temporais, com fluidez nas relações (...). Isso implicará um clima de 
confiança e de segurança suficiente, autorizando o ‘confluente’ a se emancipar sem o 
temor de se sentir abandonado ou ‘dissolvido’. 
Por fim, a deflexão constitui uma resistência caracterizada pela fuga, pela 
evitação do contato direto, com vistas à proteção do ego pelo contato com uma 
situação desagradável. Em alguns momentos, a deflexão pode ser um mecanismo de 
adaptação a uma situação nova e aparentemente ameaçadora, compatível com o 
mecanismo de negação proposto por Freud. Porém, a deflexão sistemática impede o 
contato verdadeiro e pode, em casos limites, evocar a psicose. 
 
O EU-NEURÓTICO 
 
A autorregulação organísmica é a consciência espontânea da necessidade 
dominante e sua organização das funções de contato. Numa situação de perigo, quando a 
tensão se inicia a partir de fora, a cautela e a deliberação são similarmente espontâneas. 
A ação autorreguladora é mais vívida, mais intensa e mais sagaz, o que parece 
espontaneamente importante de fato organiza realmente a maior parte da energia do 
comportamento. 
Já o neurótico não se permite ser aware de, não permite que suas 
necessidades verdadeiras organizem seu comportamento; em vez do entusiasmo ir total 
e criativamente para cada necessidade, ele se interrompe. 
Porém, a experiência neurótica é também autorreguladora e se caracteriza por 
 
73 
 
excesso de deliberação, fixação da atenção e músculos preparados para uma resposta 
específica. 
O self fica impossibilitado de passar de uma energia para outra, a energia fica 
presa a uma tarefa que não pode ser completada. Mas o neurótico tem uma 
sensibilidade ao perigo extremamente aguçada, ou seja, ele é cauteloso quando poderia 
relaxar com segurança. 
O que ocorre em situações de emergência é que fica clara a hierarquia 
subjacente e, assim, descobre-se “o que um homem é”. Podemos concluir que a 
autorregulação ocupa uma posição ética privilegiada, porque só ela guia a awareness 
mais vívida e a força mais vigorosa, qualquer outro tipo de avaliação tem de atuar com 
energia reduzida. 
Segundo Yontef (1998, p. 224), “o neurótico não consegue abraçar inteiramente 
o Eu- Tu, pois seu caráter é rígido, seu autossuporte reduzido e ele, normalmente 
acredita que é incapaz de superar o seu padrão de comportamento repetitivo e 
insatisfatório”. 
O neurótico encontra-se dividido e é autorrejeitador. Ele só consegue manter-se 
dividido em função de uma awareness reduzida. Se sua awareness pudesse ser ampliada, 
estas partes rejeitadas poderiam ser contatadas e, então, integradas. 
Essa autorrejeição e falta de awareness reduz o autossuporte. O neurótico 
acredita que não pode ser autorregulado e autossuportado, manipulando o mundo para 
que lhe dê o que quer, que lhe diga o que fazer, e é isso que acontece com a 
psicoterapia; o neurótico solicita que o terapeuta lhe diga o que ele deve fazer, como 
ele deve ser, já que o neurótico julga não ter o suporte necessário para realizar 
mudanças; o outro deve fazê-lo. 
O neurótico transforma a relação terapêutica na repetição de uma situação 
antiga: alguém lhe diz como ser e ele resiste ou concorda; se o terapeuta é seduzido por 
esta demanda temos um problema maior ainda. Não procuramos a adoção desta ou 
daquela forma de ser, mas a ampliação da awareness do comportamento do cliente 
pelo cliente, de modo que ele possa usar sua força para autossustentar-se e não para se 
interromper. 
O terapeuta precisa aceitar as verdadeiras necessidades do cliente e dar-lhe 
atenção autêntica e desprovida de exigência, mas também precisa frustrar a sutis 
manipulações neuróticas, forçando-o assim, “a direcionar todas as suas habilidades 
manipulativas na direção da satisfação das suas verdadeiras necessidades” (PERLS 
 
74 
 
apud YONTEF, 1998, p. 225). 
O principal papel do terapeuta, portanto, não é julgar o que é certo ou errado, 
como se existisse um eu-ideal onde se pretende chegar. O que temos a fazer é 
assumirmosa responsabilidade pelo que somos e sentimos, ensinando, pois, que esta 
também é a meta da terapia: o cliente precisa ter consciência daquilo que é, do que faz, 
de como faz, responsabilizar- se por isso de acordo com a disponibilidade de suporte 
que possui. 
Não custa lembrar que o funcionamento organísmico neurótico está 
sobremaneira influenciado pelas fronteiras de contato, pelo desenvolvimento de 
nossas funções de contato, pelo estilo que imprimimos no nosso ciclo de 
autorregulação, pelas resistências que construímos para nos proteger de um mundo 
pouco facilitador; por aquilo que engolimos sem mastigarmos, pois não tínhamos 
dentes, mas que ‘esquecemos’ de devolver ao mundo num momento posterior, aqueles 
que nos causaram mal-digestão! 
A função da terapia é ampliar a awareness e, consequentemente, as funções 
de contato, ‘flexibilizando’ as fronteiras de contato, principalmente aquelas muito 
rígidas. Estar mais cônscio de si produz menos ansiedade e maior autonomia. 
Os caminhos, as estradas e o ponto de chegada que percorreremos é 
imprevisível. Mas o objetivo desta viagem precisa estar bem claro desde o início, 
senão, para ambos os viajantes, pelo menos para o terapeuta, corremos o risco de 
naufrágio. 
 
RELAÇÃO EU-TU 
 
Gestalt na Prática 
 
Falar da relação Eu-Tu e da relação Eu-Isso é, inevitavelmente, navegar pela 
construção cognitiva de Martin Buber. Para a Gestalt-terapia estas duas relações 
representam o princípio dialógico em psicoterapia. 
Primeiro, vou apresentar rapidamente este filósofo religioso que nasceu em 
Viena (1878-1965). Embora tenha sofrido a influência de vários pensadores 
contemporâneos com tendências existencialistas, ele se orientou filosoficamente na 
temática da mística judaica. O tema da fé e suas formas era o assunto central que 
 
75 
 
norteava seus pensamentos. Associado a este primeiro está a forma como ele 
descreve a experiência e a vivência relacional do ser humano, ou seja, como ficam 
as bases para estas relações. Para ele, era importante discutir e apontar os diversos 
tipos de relações existentes entre homens-homens e entre homens-coisas. Ele entende 
por relacionamento o encontro entre dois seres que dialogam. 
A relação sujeito-sujeito constitui o mundo do “Tu”, e a relação sujeito-objeto 
constitui o mundo do “Isso”. O mundo do Tu pode estar exemplificado na relação 
Eu-Tu e é configurado com o ser inteiro, ao contrário da relação Eu-Isso. O Eu-Isso 
envolve a relação entre um ser e uma parte ou elemento do outro, enquanto o Eu-Tu 
consiste no relacionamento pleno entre os dois seres, englobando em sua amplitude os 
sentimentos e ideias de ambos. 
Para Buber, a autenticidade do homem reside em sua inserção na relação Eu-Tu e 
não na relação Eu-Isso. A vida verdadeira está no encontro direto e autêntico entre os 
sujeitos, afinal este encontro capacita-o a tornar-se inteiro. Nesta relação direta não 
pode se interpor nem pensamentos e nem ideias, mantendo assim a “pureza” entre 
estes sujeitos. Porém, não significa que seja fácil, pois, muitas vezes, nos relacionamos 
com o outro despersonalizando e retirando deste encontro o que pode acontecer de 
imprevisto e inusitado. 
No Eu-Isso embora haja uma relação, ou um relacionar-se, o outro é visto e 
vivenciado como um objeto de manipulação. É negada a ele a chance de ser abordado 
diretamente como pessoa. Não há permissão de se conectar com a mesma parte da outra 
pessoa e nem de buscar o aspecto pessoal e especialmente humano desta. O que ocorre 
é um contatar Eu-Isso congelado, que não flui, e nunca poderá caminhar para o Eu-Tu. 
Para entendermos melhor este assunto, vamos pensar nas nossas relações diárias 
e rotineiras. Uma pessoa trabalha num escritório e todo dia, no mesmo horário, vem 
uma pessoa da faxina que limpa o local e retira o lixo. Muitas vezes, a pessoa nem 
percebe este ritual e não há uma interação direta com a pessoa. O máximo que 
acontece é um bom-dia que ocorre de forma automática e mecânica. Não há contato 
visual, e muito menos uma intenção de troca nesta comunicação. Embora sejam 
duas pessoas teoricamente se relacionando, segundo os princípios de Buber, a relação 
que acaba de ocorrer é uma relação Eu-Isso. 
Por outro lado, se quando a moça da limpeza chega, há uma interrupção na sua 
tarefa, uma comunicação sincera e autêntica e até a percepção, por exemplo, de que a 
pessoa não está com a “cara muito boa”, a relação que se estabelece muda, e o que 
 
76 
 
ocorre é uma integração relacional baseada no mundo Eu-Tu. Este outro, 
representado na moça da limpeza deixa de ocupar um lugar de “objeto” e volta a 
ocupar o lugar do “sujeito”. 
O Eu está para o Tu, assim como o Tu para o Eu, pois é no olhar do Tu que o 
Eu se reconhece, e vice-versa. Fazendo um paralelo com a Gestalt-terapia, podemos 
dizer que estas são as bases da relação dialógica que se estabelece entre o terapeuta e 
o cliente, ampliando esta ideia, podemos afirmar que este tema é a base, o processo e o 
“objetivo” da terapia. 
Ainda segundo Buber, o homem sente necessidade de criar novos laços e 
personificar essas relações. Por meio do tu, o eu se encontra, e na expressão maior de 
sua identidade, sem a uniformidade, o eu encontra no tu a própria revelação e 
atualização, buscando seu lugar na sociedade. 
De fato, o ser humano é uma substância incompleta, e no outro encontra 
todas as prerrogativas de uma vivência equilibrada. Mas Buber não deixa o 
relacionamento Eu-Tu permanecer na linha horizontal, mas o envereda pela busca do 
Tu existencial e divino, que vai por sua vez mostrar ao Eu a sua verdadeira face, a de 
permanente ralação. As relações Isso são verticais e as relações Tu são horizontais. 
Muitos Gestalt-terapeutas utilizam os termos “Eu-Tu”, “relacionamento Eu-Tu”, 
“atitude Eu-Tu” como equivalência para a “atitude dialógica” ou “relacionamento 
dialógico”. Aqui, irei adotar a mesma medida para ficar claro que dentro da Gestalt-
terapia este conceito sustenta uma base tão importante que podemos afirmar que o 
diálogo existencial refere-se ao comportamento que compreende o relacionamento Eu-
Tu. 
O diálogo na Gestalt-terapia inclui o encontro real entre duas pessoas como 
pessoas, por meio não só das palavras, mas também dos gestos, sensações, contexto 
energético, expressão corporal e sons. É comum alguns casais ou amigos muito 
próximos conseguirem saber exatamente o que o outro está sentindo ou pensando 
apenas com um olhar. 
A relação Eu-Tu também funciona como elemento primordial para um contato 
autêntico entre duas pessoas. O contato humano é estabelecido por meio do 
relacionamento com a figura de interesse. Este processo de contato mútuo entre duas 
pessoas ocorre pelo processo de união e separação, considerando um ritmo e uma 
direção deste encontro. 
O relacionamento dialógico é uma forma especializada de esse contatar mútuo. 
 
77 
 
Quando há uma atitude de mutualidade, um fluxo livre de energia afetiva ocorre 
entre elas. Dentro da terapia, os Gestalt-terapeutas se relacionam com uma atitude Eu-
Tu e com a esperança de que o Tu mútuo e completo se desenvolva. 
Olhe que aspecto interessante pode ocorrer nestas relações! Uma pessoa pode 
estar com uma atitude Eu-Tu e encontrar-se com outra pessoa também por meio da 
atitude Eu-Tu e não tratá-la como um objeto (Eu-Isso) e, mesmo assim, o Eu-Tu não 
ser completado. Quando esta situação ocorre podemos analisar que mesmo quando 
as pessoas estão “dispostas a entregar-se” neste encontro o Tu mútuo pode ainda não 
ter sido desenvolvido. 
Tais aspectos passam por uma questão de confiança entre estas partes que ainda 
não é suficiente, ou então, um suporte inadequado que não permite que o Tu entre e não 
acontece a mutualidade. Esse encontro, então, passa a ser entendido como um Eu-Isso 
em que o Eu-Tu está latente. Dentro da terapia, quando isto ocorre é necessário 
reconhecer que é assim e aceitar o limite.Este processo faz parte da adesão ao que 
ocorre no “entre” da relação dialógica. 
Os terapeutas precisam tomar cuidado quando passam a acreditar que eles 
próprios detêm o conhecimento supremo e o domínio da sessão terapêutico mais do 
que os seus clientes. Como, por exemplo, quando sabem até que ponto emocional o 
cliente “precisa” ir, ou que técnica será “inevitável” para ele, assim por diante. 
Assim, quando os terapeutas vão ao encontro do cliente com a crença de 
saberem mais que eles, há uma negação do processo de autorregulação do cliente pelo 
terapeuta. Neste caso, a autorregulação fica subjugada ao conhecimento do terapeuta, o 
que é totalmente inaceitável para um Gestalt-terapeuta. Mais ainda, quando isto 
acontece, não está se tratando do outro, como pessoa e o que se estabelece é uma 
relação Eu-Isso e não uma relação Eu-Tu. 
Segundo Yontef (1993), há cinco características do contatar no relacionamento 
dialógico Eu-Tu da Gestalt-terapia: 
• Inclusão: é necessário incluir-se no mundo do cliente aceitando-o como 
ele é. Pela prática da inclusão, o terapeuta simultaneamente se relaciona com o 
cliente e reúne informações sobre ele. Para honrar o mundo fenomenológico do 
cliente e não desonrá-lo, há uma necessidade de que sejam colocadas de lado as 
perspectivas e as crenças do terapeuta. 
• Presença: quando o terapeuta torna-se realmente presente na relação 
dialógica, ele mostra o seu verdadeiro self. Mostrar sua atenção e respeito ocorre 
 
78 
 
mais pela via da honestidade do que por sua constante delicadeza. É permitido a um 
Gestalt-terapeuta mostrar suas dúvidas, expressar limites, raiva, aborrecimento, 
compartilhar percepções, checar hipóteses, etc. 
• Compromisso com o diálogo: é demandado a um Gestalt-terapeuta que 
este esteja verdadeiramente comprometido com o diálogo e permita que o que está 
“entre” controle o encontro. A inclusão e a presença é que permitem este diálogo. Isto 
significa que o terapeuta se permite ser afetado pelo cliente (inclusão) e, também, 
permite que o cliente seja afetado por quem o terapeuta é (presença). Cada um 
precisa expressar seu mundo interior, mas também estar receptivo ao resultado que 
ocorre no “entre” da relação, inclusive o seu controle. 
 
Para o psicoterapeuta aderir a um compromisso de objetivar o diálogo e o 
processo, exige uma fé no valor inerente de cada pessoa e em sua capacidade de se 
autorregular organismicamente. Entrar em contato sem superproteger, negligenciar ou 
controlar exige ter como valor ou acreditar em autodeterminação. 
Fundamentalmente, mostrar o seu self e permitir o que está entre, controlar, são 
formas de rendição baseadas inicialmente na fé, confiando que ela venha a ser 
reforçada por dados experienciais (YONTEF, 1993, p. 256). 
 
• Não exploração: a Gestalt-terapia é não exploratória em sua essência. O 
terapeuta considera cada pessoa como uma finalidade em si mesma. Algumas formas de 
exploração podem ser discutidas com a tentativa de eliminar uma relação manipulativa 
e horizontal que pode ocorrer. 
 
a) A pessoa pode ser tratada como meio para um fim. Por exemplo, a pessoa 
pode ser tratada como um objeto a ser salvo, transformando-se num meio para 
satisfazer o ego do terapeuta. A relação estabelecida é Eu-Isso. 
 
b) Desigualdade de linguagem (verticalidade). A relação Eu-Tu é horizontal e 
não abusiva, marcada pelo diálogo e pelo trabalho conjunto, como iguais. O encontro 
é que tem o poder de curar, e não o terapeuta. Por meio dele são compartilhados os 
selves interiores. O relacionamento horizontal estrutura-se na crença de que cada 
pessoa é responsável por si mesma. 
 
 
79 
 
c) O terapeuta não está realizando o seu trabalho de forma adequada. Segundo 
Yontef (1993, p. 260) a “boa psicoterapia exige competência técnica e bom 
relacionamento”. O terapeuta deverá incluir um clima propício ao diálogo, ser um 
guia para a experiência fenomenológica e obter uma visão holística do cliente. 
Além, é claro, de reconhecer a importância e aplicar na prática todos os pontos 
acima (inclusão, presença, compromisso com o diálogo, não ser explorador e viver o 
elacionamento). É importante lembrar que a terapia oferece um desafio dentro dos 
limites do relacionamento terapêutico. Quando falo em desafio estou colocando como 
um risco para o paciente que precisa estar em aware e para o terapeuta que assume a 
responsabilidade pelo trabalho de crescimento de outra pessoa. 
 
d) Desatenção com os limites apropriados. O diálogo e o trabalho de awareness 
exigem discrição por parte do terapeuta, para não se tornarem abusivas, em vez de 
criativa e libertadora. “O terapeuta é responsável pela manutenção de uma 
atmosfera condutora do Eu-Tu por ser especialista nas exigências técnicas do 
diálogo e do trabalho de awareness” (YONTEF, 1993, p. 263). 
 
• Bem-estar do consumidor: é importante que o terapeuta evite 
relacionamentos duplos com o cliente, assim como envolvimentos pessoais e/ou 
sexuais. Também é importante que sejam evitados relacionamentos em que possam 
diminuir o seu julgamento profissional ou aumentar o risco de exploração dos clientes. 
• Vivendo o relacionamento: ter contato e relacionar-se é vida e não falar 
sobre a vida. Por isso, os Gestalt-terapeutas concentram-se mais na experiência do 
que no conceito, mais na forma do que no conteúdo. Mais no como do que no por quê. 
Só se vive na relação e no agora. 
 
TRABALHANDO COM SITUAÇÕES INACABADAS 
 
Antes de falarmos propriamente sobre situações inacabadas, é importante 
criarmos o campo em que este conceito se desenvolveu. Quando a Gestalt-terapia ainda 
sofria influência da psicologia da Gestalt, uma de suas leis era a lei do fechamento. A 
percepção do indivíduo ocorre na direção do fechamento, da finalização, ou seja, há 
uma necessidade de fechar figuras que se apresentam de forma aberta. Em alguns casos, 
 
80 
 
há uma necessidade de compensar visualmente as falhas. Na figura abaixo nós 
enxergamos um círculo. 
 
 
 
Quando nos referimos à vida de um modo geral, podemos encarar este reflexo 
perceptual como um reflexo pessoal básico no qual, muitas vezes, há um 
impedimento pelos acontecimentos sociais da vida, ou seja, fica a impossibilidade de 
se fechar determinada situação. Há uma interrupção no processo de viver a vida e, 
ocorre, a insatisfação ou uma frustração diante de coisas que as pessoas gostariam de 
fazer. 
Perls percebeu que a maioria dos problemas humanos podia ser encarada 
como figuras incompletas ou necessidades do passado, interrompidas, intrometendo-
se no presente sempre de novo, numa tentativa de serem resolvidas ou completadas. 
As atividades não completadas tendem a ser lembradas com mais clareza e 
urgência do que as atividades completadas. Por outro lado, Polster também afirma 
que a maioria dos indivíduos tem uma grande capacidade para situações inacabadas 
– “felizmente, porque no curso da vida estamos condenados a ficar com muitas delas” 
(POLSTER, 1979, p. 49). 
Situações inacabadas também podem ser encontradas com a nomenclatura de 
gestalten incompletas ou gestalten abertas. Quando ocorrem tais eventos, elas ficam 
como formas fixas no presente, obstruindo o fluxo livre e criativo de percepção e 
resposta às situações novas. Essas ações que “recusando-se” a serem completadas 
são “forçadas” a ficar em um fundo, onde permanecem inacabadas e incômodas 
tomando a energia do indivíduo e distraindo- o do aqui-agora. 
Tentando organizar um pouco mais este conceito, podemos dizer que uma 
situação inacabada é toda experiência que fica suspensa até que a pessoa a conclua, ou 
seja, feche-a. 
Entretanto, estes movimentos que não são completados buscam naturalmente 
um complemento e, quando se tornam suficientemente poderosos, o indivíduo é 
envolvido por preocupações, comportamentos compulsivos, cuidados, energia 
 
81 
 
opressiva e muitas atividades autofrustrantes. 
Quantomais ocorrerem comportamentos derivados destas situações inacabadas 
mais haverá uma repetição automática, e a consequência é colocar o organismo em 
permanente estado de prontidão, obstruindo o fluxo de sentir e distorcendo o 
processo de awareness. Quando a awareness é distorcida, o organismo todo funciona de 
forma desregulada e irá responder a uma necessidade que não é genuína. 
Uma esposa, pela manhã, teve uma necessidade de discutir com o marido, mas 
não o fez. Pode ocorrer que durante o caminho para o trabalho, ela participe de uma 
confusão no trânsito. O que ocorreu foi uma tentativa do organismo de dissipar a 
raiva que está por trás da situação que ficou inacabada. Provavelmente, esta 
alternativa não irá funcionar, pois é uma tentativa fraca ou parcial de terminar algo 
que ainda está aberto ou inacabado. 
Algumas situações inacabadas podem atingir uma dimensão tão grande dentro da 
vida da pessoa que o indivíduo nunca estará satisfeito por mais que seja bem-
sucedido em outras direções, até que haja o fechamento. 
Quando uma situação inacabada forma o centro da existência da pessoa, o 
agitamento mental dela fica impedido e outros problemas aparecerão em decorrência 
desta Gestalt aberta. Para ocorrer o fechamento, e a volta da fluidez energética e 
mental, o fechamento precisa acontecer ou por um retorno à antiga questão, a questão 
original que gerou a situação inacabada ou as questões paralelas do presente que 
podem ser consideradas consequências desta primeira. 
O cliente que nos procura vem, muitas vezes, sentindo-se angustiado, ansioso, 
com uma sensação de vazio e falta de graça em sua vida, mas na maioria das 
vezes, não tem realmente contato com o que lhe faz sentir-se assim. Ou se tem, não 
consegue mobilizar-se para agir de forma a atender às suas necessidades. Por exemplo, 
a pessoa pode sentir-se solitária, mas não conseguir ir à busca de um contato humano 
que lhe seja acalentador. Quando isto acontece, a energia está provavelmente presa em 
situações inacabadas do passado. 
Outro ponto importante é entender que a situação inacabada é um evento que 
originalmente pode ter acontecido no passado, mas em razão de sua força ela ainda é 
presente e só pode ser completada se trabalhada dentro da contextualização no presente. 
Segundo Polster (1979, p. 53) “uma vez que o fechamento tenha sido 
alcançado e possa ser plenamente experimentado no presente, a preocupação com a 
antiga situação incompleta é resolvida, e a pessoa pode passar para as possibilidades 
 
82 
 
atuais”. 
Os neuróticos são incapazes de viver no presente, pois carregam cronicamente 
consigo situações inacabadas do passado. Sua atenção é, ao menos em parte, 
absorvida por essas situações e eles não têm nem consciência nem energia para 
lidar plenamente com o presente e sentem-se incapazes de viver com sucesso. À 
medida que estas situações aparecem, pede-se ao cliente que as represente e 
experimente de novo, a fim de completá-las e assimilá-las no presente. 
Podemos dizer que, grosso modo, o objetivo terapêutico da Gestalt-terapia 
seria a ampliação do processo de awareness, pela relação terapêutica (dialógica), 
liberando energias retidas em situações inacabadas, para a criação de novas 
configurações ou gestalten. 
É necessário trabalhar um continuum de conscientização para que as situações 
inacabadas mais importantes possam emergir para serem elaboradas e acabadas. Nós 
funcionaremos mal, ao carregar muitas situações inacabadas que sempre exigem 
complemento (fechamento/Gestalt). A conscientização por si só pode ser terapêutica. 
A terapia vem, então, para ajudar a expandir o fluxo de energia e awareness, 
liberar a energia retida em situações antigas e inacabadas, trazendo-a para o aqui-
agora, facilitando assim, por meio do suporte da relação terapêutica, a elaboração 
interna daquilo que antes não pôde ser bem-elaborado, novas experiências, e a 
compreensão e eventual transformação dos padrões de relacionamento do indivíduo 
com ele mesmo, com os outros e com o mundo. 
Quando a pessoa se relaciona de forma em que os impedimentos não ocorrem, 
ela fica livre para se envolver de forma espontânea, intensa e inteira com qualquer coisa 
de seu interesse. Este é o processo natural, que capacita a pessoa a ficar especialista em 
si mesma, ou seja, esse ritmo organísmico faz com que ela experiencie a si mesmo de 
forma flexível, clara e efetiva. 
Entender este processo é uma arte, afinal as situações ou nossas 
necessidades (físicas, emocionais, espirituais, etc.) não se configuram de forma clara. 
Muitas vezes, o contator da pessoa com sua interioridade, com os outros e com a 
situação presente é pobre. Outras vezes, a pessoa não sabe experimentar esta 
inteireza e, mesmo quando o fechamento já ocorreu, o indivíduo não consegue 
perceber. É sempre necessário que haja um movimento de atualização de 
comportamentos e de necessidades com o indivíduo. Assim, ele poderá viver a 
intensidade de cada situação e não correrá o risco de estar vivendo uma situação 
 
83 
 
cristalizada que atribui uma avaliação arcaica às situações atuais. 
 
O CORPO 
 
A Gestalt-terapia concede um lugar privilegiado para o corpo dentro do 
processo terapêutico. Quando falamos em corpo, estamos nos referindo a um corpo 
metafórico e real que estabelece um diálogo multidirecional entre o corpo e a palavra e 
entre a palavra e o corpo, tanto do cliente quanto do terapeuta. O corpo constitui uma 
poderosa alavanca terapêutica e, para um Gestalt-terapeuta, exige uma atenção grande e 
permanente. 
Na verdade, o corpo representa uma dimensão vital dentro das relações 
interpessoais. Ginger (1995, p. 161) afirma que “em Gestalt, o sintoma corporal é 
deliberadamente utilizado como ‘porta de entrada’ que permite um contato direto com o 
cliente”. 
O que vocês acham que é percebido no corpo, por um Gestalt-terapeuta? Na 
verdade, tudo. São observadas a respiração, seu ritmo e seus bloqueios, a disposição 
energética das partes do corpo do cliente e sua energia de forma geral, posturas e 
movimentos aparentes (que podem ser voluntários ou involuntários), gestos ou 
microgestos, “manias ou vícios corporais” (mexer o cabelo, balançar o pé, franzir 
a testa, levantar a sobrancelha, etc.), a voz (tom, intensidade, fluência), palidez ou 
ruboração, e assim por diante. 
Enfim, qualquer indício de que o corpo possa estar querendo se comunicar e que 
está difícil ou inacessível por meio das palavras. Ouvir o corpo e “dar-lhe a palavra” é 
uma forma de amplificar o que está sentindo ou mesmo, perceber mais claramente um 
sintoma. É dar a devida atenção ao fenômeno corporal que surge antes mesmo de lhe 
atribuir um significado. 
O corpo é uma linguagem profunda, rica e matizada que ajuda a fazer com 
que a mente entre na mesma ressonância dele. Os sentimentos evocados repercutem 
neste canal corporal ampliando um feedback mútuo. Por exemplo, se você está falando 
que está com raiva, sua respiração pode ficar alterada, seu rosto pode ficar energizado 
e suas veias sobressaltadas. Além disso, o corpo está sempre enraizado no aqui-
agora enquanto as palavras podem se extraviar e se perder nos “o quês” em 
detrimento dos “comos”. 
 
84 
 
Nivelar as palavras ao corpo é, mesmo para os dias atuais, uma quebra de 
paradigma. Primeiro, porque em nossa cultura as expressões do corpo e das emoções 
são censuradas e estritamente filtradas. Muitos sentimentos foram negados, como 
sendo algo não “digno” de se ter. Raiva, inveja, ciúmes, expressões efusivas de 
alegria, tudo isso, foi proibido desde a infância. Segundo, porque o pensamento 
cartesiano corpo-mente ainda prevalece como modelo vigente entre estas partes. 
A Gestalt-terapia tenta quebrar esta dicotomia e esta barreira acessando os 
sentimentos por meio, também, do corpo e de suas expressões. É muito importante não 
tentar dominar as emoções, mas sim, reconhecê-las, conhecê-las,domá-las e 
integrá-las evitando tanto o transbordamento quanto o seu ressecamento. Isto vai 
garantir uma boa saúde emocional às pessoas. 
Minha experiência é que quando eu focalizo totalmente qualquer lugar de um 
corpo, meu pensamento para lá... Quando alguma dor ou tensão não desaparece com 
facilidade, eu sugiro: veja se consegue explorá-la – suavemente, sem força, como se 
tivesse fazendo amizade com ela – e veja se consegue descobrir o que está querendo 
acontecer ali e deixe acontecer. Veja se surge algum movimento da dor ou da tensão. 
Pode ser algum movimentozinho que você tenha no presente e que não é visível para 
mim. Pode ser um movimento grande, que eu possa ver. Deixe acontecer aquilo que está 
querendo acontecer (PERLS, 1977, p. 213-214). 
O trabalho corporal da Gestalt consiste em descontrolar o próprio corpo. O 
corpo atua inconvencionalmente, por algum tempo, até a pessoa se tornar o seu próprio 
corpo. As pessoas não precisam procurar, vasculhar um significado para o que está 
acontecendo, pois este significado aparecerá, fechando uma Gestalt aberta e significando 
uma situação geral. 
Um erro comum é buscar este significado enquanto o corpo ainda não está 
preparado para a integração total. Procurar este significado é um movimento da 
cognição, do pensamento que ocorre na mente, no intelecto, e lá não há esta resposta. O 
resultado desta busca incessante pode ser a frustração, o desânimo e a confusão, ou até 
se pegar a um significado falso apenas para satisfazer a razão. Quando os significados 
aparecem sozinhos não existe a procura, eles são simplesmente aceitos, sem confusão. 
A Gestalt-terapia, inspira-se no psicodrama para conseguir percorrer o 
percurso da palavra ao corpo. Para isso, ela utiliza-se das técnicas de dramatização. É 
bastante comum um Gestalt-terapeuta sugerir a dramatização corporal simbólica de um 
sentimento que tenha aparecido dentro da terapia. Técnicas de grupos como jogos ou 
 
85 
 
exercícios favorecem a utilização do corpo, e multiplicam as suas possibilidades de 
utilização. 
Outra possibilidade que não pode ser descartada é a utilização do corpo do 
próprio terapeuta como uma ótima possibilidade para desencadear emoções profundas. 
Mesmo sendo um forte recurso de mobilização de emoção, este contato ainda é pouco 
usado e envolve muitos tabus e várias discussões teóricas. Por exemplo, uma cliente 
que sempre teve uma relação pouco íntima com a mãe e nunca recebeu um colo 
aconchegante pode experienciar tal situação junto ao terapeuta. Ele dará um colo 
confortável e protetor e ela ampliará sua awareness dentro de uma relação de confiança 
e segurança. 
Todo corpo tem um limite de aproximação. Estas barreiras representam as 
“fronteiras da bolha” e existem para proteger, dar segurança e permitir um contato 
satisfatório. Estes fatores envolvem aspectos individuais, sociais e culturais para cada 
pessoa. 
É normal na cultura norte-americana amigos de sexo diferentes, quando têm 
muita intimidade, cumprimentarem-se com um “selinho” na boca. Já no Brasil, onde 
as pessoas são geralmente mais abertas para o toque, este comportamento, em 
especial, não é aceitável com naturalidade. Esta distância adequada é um elemento 
essencial para o ciclo completo do contato. 
Vivemos muito tempo na era da razão, da racionalidade, do pensamento lógico. 
Atualmente, o corpo tem conquistado o seu lugar, incluindo toda a dimensão de suas 
exigências e beleza (estou falando dos rígidos padrões de beleza da sociedade 
contemporânea). Podemos dizer que este corpo vive com um sinal e um reflexo desta 
complexa totalidade. Diante de tal cenário, o corpo não pode ser mais ignorado! Ele 
precisa fazer parte da busca pela emocionalidade de cada indivíduo por meio de uma 
linguagem mais clara, compondo todos os mistérios e as grandezas deste contexto. 
 
EXPERIMENTOS 
 
O experimento é o método que a Gestalt-terapia utiliza para alcançar o 
processo de awareness do paciente. A experimentação entra numa dimensão estética e 
ética (mais adiante irei retornar a este assunto). 
Neste contexto, “experimentação” não compartilha a concepção científica do 
 
86 
 
termo. Aqui, a experimentação passa a ser um recurso fenomenológico para emergir as 
circunstâncias existenciais presentes. Voltamos aos primórdios do sentido do termo, 
nos quais a experimentação, derivado do perire grego, significava arriscar, tentar... 
Ou seja, certa arte de perigar. Perigo, perigação, que também derivam do verbo 
perire. No seu sentido científico, a experimentação está ligada à reprodução 
controlada, frequentemente laboratorial, de uma dada realidade. 
Embora a Gestalt-terapia tenha se aproximado muito da Psicologia da Gestalt, 
neste ponto estas linhas de pensamento se distanciam. Perls, com sua atitude 
eminentemente visceral e experimental critica a dificuldade da Psicologia da Gestalt 
de se afastar do conceito da experimentação com o olhar científico. Lembramos que 
a Psicologia da Gestalt é experimental no sentido de ocorrerem experimentos em 
laboratórios com todo o rigor e a preocupação científica. 
Perls criticava a monotonia, a falta de interesse e falta de excitação dos 
experimentos laboratoriais. Para ele, o experimento só faz sentido se tiver sendo 
usado com o seu devido risco, como algo novo. Por este motivo, ele afiliava-se a 
uma concepção artística, estética, compreensiva, existencial, da experimentação. 
Perls define experimento como: (...) um ensaio ou observação especial feitos para 
provar ou descartar algo duvidoso, especialmente sobre condições determinadas pelo 
observador; um ato ou operação realizado a fim de descobrir algum princípio ou efeito 
desconhecidos, ou, para testar, estabelecer ou ilustrar alguma verdade conhecida ou 
sugerida; teste prático; prova (PERLS et al., 1951, p. 14). 
Fazendo um paralelo com as artes, podemos dizer que a Gestalt-terapia é o 
expressionismo em terapia. Esta frase vem da ideia de que a utilização da 
experimentação neste contexto não é nova. 
Os orientais já entendiam desta forma e, no ocidente, o próprio movimento 
artístico do Expressionismo também a compreendia assim. O Expressionismo era 
consonante com a observação de que a possibilidade é mais importante do que a 
realidade. Esta posição advinha de uma contraposição ao positivismo do real. 
É muito comum as pessoas criaram o hábito de “falar sobre” determinado 
assunto ou problema. Geralmente, o processo ocorre da seguinte forma: as pessoas 
conversam com os outros sobre o que as incomoda até chegarem a posição que se 
sintam confortáveis, chegam a uma solução. Caso não tenha passado o momento de 
agir, elas partem para ação. O problema ocorre, pois, na maioria das vezes, esta ação 
está ligada a uma forma já conhecida de funcionamento, a um padrão de 
 
87 
 
comportamento. 
Ao falar sobre, as pessoas não incluem nenhum elemento novo, sufocam a 
inovação e a improvisação indutiva. O grande risco destas intervenções baseadas no 
passado é de que tais atitudes tornem-se mecânicas e sem vida. Além disso, ao ficar 
preso ao passado, as ações tornam-se congeladas e o processo de mudança fica apenas 
na possibilidade. 
A Gestalt-terapia tenta recuperar a conexão entre o discurso (“falar sobre”) e a 
mudança (a ação propriamente dita), integrando estas partes por meio do experimento e 
libertando as pessoas das influências das ruminações empobrecedoras sobre os temas 
existenciais. 
Uma relação experimental entre terapeuta e cliente permite um privilégio da 
atualização da experiência do cliente, potencializando a vivência ativa pelo cliente dos 
elementos que constituem o presente desta pessoa, e não padrões desatualizados de 
ação. Vive-se o problema, sente-se o problema, para então, resolvê-lo. 
Por meio do experimento o cliente se mobiliza na direção da confrontação de 
suas emergências, dentro de uma segurança relativa propiciada na relação terapêutica. 
Essasegurança baseia-se em dois pontos importantes: primeiro, o suporte 
oferecido pela relação dialógica; depois, a possibilidade de se correr um risco 
“calculado” dentro de um ambiente seguro e privado. 
Por outro lado, o experimento não deve se transformar num paliativo ou num 
substituto para o envolvimento válido. Muito pelo contrário, ele tem a possibilidade 
de interligar a experiência do mundo (lá fora) com a sua experiência emocional 
interior, e por esta nova configuração, há uma descoberta, uma nova síntese que 
permite que surja algo novo e que pode ser devidamente aplicado em sua vida. O 
que não o impede de que ao chegar ao mundo exterior, ele também, possa fazer 
diferente do que experimentou na relação terapêutica. Isso depende de sua 
sensibilidade para entender e sentir o ritmo de seu próprio movimento existencial. 
Afinal, o experimento não é nem um ensaio, nem um ato póstumo. 
O objetivo do experimento sugerido dentro do processo terapêutico é para 
que o cliente descubra qual o mecanismo que está alienando parte dos processos de seu 
self, evitando o fluxo natural em direção a awareness. 
Segundo Yontef (1993, p. 79), em seu livro Processo, Diálogo e Awareness: (...) 
um experimento típico é pedir que os participantes formem uma série de sentenças 
começando com as palavras “aqui-e-agora eu estou consciente (aware) de...”. O 
 
88 
 
terapeuta continuamente devolve o relato daquilo que o paciente está percebendo 
(experienciando) e encoraja a continuação do experimento perguntando: “Onde você 
está agora?”, “O que você está experienciando agora?”. As questões do paciente são 
transformadas em: “agora você está consciente (aware) de imaginar...”. Quando o 
paciente começa a evitar a instruções, isto também é transformando num relato de 
awareness: “Agora estou consciente (aware) de querer parar”. 
A partir deste experimento básico, muitos outros podem ser criados. A 
necessidade que o terapeuta tem de criar e de ousar é uma premissa importante da 
Gestalt-terapia. Os experimentos podem ser arranjados em forma de séries graduais. 
Afinal, o desafio do cliente precisa ser alcançado segundo o seu tempo e ritmo. 
É importante lembrar que embora o terapeuta elabore e proponha o experimento, 
tudo pode acontecer. É sempre um resultado imprevisível e autêntico, inclusive para o 
cliente. Este resultado pode indicar direções para novos experimentos, e todo o 
controle sobre este processo também é dividido entre o terapeuta e o cliente, incluindo 
sua observação. 
Um experimento pode ser algo bem simples ou algo extremamente complexo. 
Para entender melhor, vou apresentar um exemplo desta forma mais simplificada de 
experimento. Podemos estar com um cliente que está falando sobre a constante 
sensação que tem tido em sua vida de estar sempre “correndo atrás do rabo”. Note que 
toda vez que o cliente já traz uma metáfora, uma imagem ou uma cena pronta, isso é 
material precioso que precisa ser trabalhado pelo terapeuta. Voltando ao caso, um 
experimento simples, porém bem apropriado para este contexto, seria o de pedir para 
o cliente levantar e representar com um gesto corporal o que seria para ele, 
literalmente, “correr atrás do rabo”. A partir daí, poderá ser explorada as sensações, os 
sentimentos, as ideias (introjeções, por exemplo), padrões de comportamento, o “para 
que” desta situação, etc. Isto é um experimento! Muitas vezes, o terapeuta acredita que 
o experimento é sempre algo muito complexo e elaborado e não é verdade. Um impacto 
emocional deste exemplo relatado é imprevisível e poderá ajudar muito o cliente na 
direção da ampliação do seu processo de awareness. 
A Gestalt-terapia apresenta quatro possibilidades ou formas de se sugerir um 
experimento: pela representação, pela fantasia, pelo comportamento dirigido ou por 
meio de lições de casa. 
A representação é uma dramatização de algum aspecto da existência do 
paciente dentro do ambiente terapêutico e demanda uma ação. Esta seria uma primeira 
 
89 
 
possibilidade de ação de um cliente, e talvez seja, naquele momento, a única via de 
expressão aberta. Uma pessoa que está representando ou atuando trabalha com o que 
gostaria de ser, e não o que realmente é. Mas, para isso, mantêm viva a necessidade 
de fazer coisas novas e muitas vezes, mostra um novo lado de si mesmo, abrindo novas 
direções. 
Segundo Polster, podemos representar quatro tipos de situações: uma situação 
inacabada do passado distante, uma situação inacabada do presente, uma 
característica ou mesmo uma polaridade. 
O comportamento dirigido, muitas vezes, é negado e quase um tabu em 
algumas abordagens psicológicas. Na Gestalt-terapia é usado, com propósitos 
exploratórios e de forma seletiva. Algumas vezes, o comportamento dirigido se 
confunde com a representação, o que tem de diferente é o fato de que é mais 
prático, mais limitado, em relação a comportamentos específicos e ter instruções 
mais diretas. 
A intenção não é a criação de um cenário dramático, mas de colocar um novo 
comportamento em ação. Uma aplicação clara e usual desta técnica ocorre quando o 
terapeuta quer mobilizar a autossustentação do cliente. 
Outra aplicação ocorre quando o terapeuta quer recuperar a sensação perdida 
pelo cliente. Às vezes, durante uma sessão, podemos pedir para o cliente parar sua 
narrativa e, simplesmente, contar tudo de novo, usando toda a emoção contida na cena 
e na situação vivida, como se ele próprio fosse um ator, e que precisasse colocar uma 
onda de paixão e envolvimento nos fatos. É comum os clientes se surpreenderem 
com a intensidade e com o poder de sua energia presa. 
A fantasia pode ser considerada a alavanca mestre do processo terapêutico. Por 
meio da fantasia as pessoas podem se relacionar expansivamente em suas vidas. Em 
várias sessões utilizando a fantasia (como, por exemplo, depois de uma viagem 
fantasia), a intensidade e a força da experiência chega a níveis tão elevados que 
podem ser mais significantes do que algumas situações da vida real. Em alguns 
momentos, a terapia pode tomar outro rumo e tornar- se mais produtiva, a partir de uma 
experiência com a fantasia. 
Segundo Polster (1979), há alguns propósitos principais a que se destina a 
fantasia: contato com um acontecimento, sentimento ou característica pessoal que 
encontra resistência; contato com uma pessoa não disponível ou com uma situação 
inacabada; exploração do desconhecido; exploração de aspectos novos ou não habituais 
 
90 
 
de si mesmos. 
Ainda segundo este autor (1979, p. 25), “embora a fantasia seja essencialmente 
não ação, ela pode ser acompanhada por ação ou é capaz de produzir ação que pode 
formar um núcleo dinâmico para a experiência”. 
O que Polster está colocando na frase acima é que quando o cliente fantasia uma 
situação, há uma liberação de energia que pode sustentar a ação, que, na maioria das 
vezes, só ocorre após uma reação real, mas que é possível ser acessada por meio da 
fantasia. 
Por outro lado, a fantasia permite o reconhecimento e o retorno dos sentimentos 
muito importantes para o processo de awareness do cliente. Esta assimilação de suas 
próprias emoções é importante independentemente de acontecer a resolução real da 
situação na vida. Ocorre, também, que muitas situações da vida real não estão mais 
disponíveis para serem vividas e a fantasia torna-se o único recurso possível. Nestes 
casos, a fantasia recria a situação angustiante, e de uma forma segura, permite a 
inserção de elementos novos e reestruturantes, indo além da fofoca ou da especulação 
ruminativa. 
Mas a fantasia demanda esforço. Não é suficiente apenas imitar a fantasia, a 
pessoa tem que se esforçar para descobrir suas próprias fontes de criatividade dentro da 
fantasia. A partir daí, direcionar estas fontes para as exigências básicas da tarefa. Neste 
caso, a espontaneidade é substituída pela dedicação necessária para o contato autêntico, 
respeitandoas exigências da vida. 
Os sonhos também são considerados experimentos básicos. Para a Gestalt-
terapia, é necessário que o sonho seja trazido para a experiência de vida do cliente e 
para o aqui-agora. 
Por este motivo, Perls solicitava que o sonhador recontasse seu sonho no 
presente, como se estivesse acontecendo naquele momento. Depois, o sonhador iria 
representar partes do seu sonho como aspectos de sua própria existência. Podemos 
considerar que a partir do sonho há um ponto de partida para uma experiência 
completamente nova. O sonho sempre representa uma projeção. 
Então, tudo que vier do sonho, todos os elementos, todos os personagens, todas 
as emoções, não importando o tamanho ou a intensidade, são representantes de quem 
está sonhando. Quando o sonhador representa todos os papéis ele está na direção da 
total identificação, e pode, gradativamente, rejeitar a alienação. 
 
91 
 
A Gestalt-terapia é uma abordagem que prevê em seu modelo prático, apenas 
uma sessão semanal (no geral, é claro, que há exceções e pedidos de emergência e 
sessões extras). 
A intensidade das experiências vividas é forte e exige um tempo para a sua 
absorção. Em contrapartida, algumas situações demandam uma necessidade de que o 
cliente fique mais tempo em contato com suas dificuldades ou necessidades. 
Quando o terapeuta percebe esta necessidade de continuar algum contato, para 
garantir um nível intenso de impacto, está na hora de incluir as “lições de casa” dentro 
do processo terapêutico. Neste ponto, há uma troca direta entre a vida e terapia, entre o 
real e o imaginário. Só quando há uma vivência da própria vida que novas 
possibilidades são reveladas na terapia. É um processo de retroalimentação entre terapia 
e sensação de realidade. 
As lições de casa precisam ser feitas em conformidade com a área de conflito do 
cliente e, esta, não pode mobilizar algo que ele ainda não possa dar conta. O 
envolvimento terapêutico é ampliado, porém ele mesmo explora e comanda suas 
próprias ações e awareness, aumenta seu autossuporte e sua autonomia, afinal ele fez 
“tudo” sozinho. Mas, ao mesmo tempo, sabe que está sob a supervisão de seu terapeuta, 
e por isso, “protegido”. Este cliente não só está trabalhando em direção de sua 
awareness, como vai rumando para a autoterapia. 
 
 
CASAIS, FAMÍLIAS, GRUPOS 
 
Quando se executa o trabalho de Gestalt-terapia com casais utilizam-se os 
mesmos princípios para o trabalho com famílias. Uma das diferenças, porém, é que o 
trabalho com famílias é mais complicado do que com casais, em razão da maior 
quantidade de informações e número de pessoas criando uma maior complexidade nos 
arranjos. Esta articulação com família demanda do terapeuta mais atenção à estrutura 
das intervenções, mais ação e agilidade de compreensão dos fatos. 
Quando se trabalha com casais ou família, o primeiro passo é fazer com que 
todos os participantes façam um contato inicial uns com outros. Muitas vezes, esse 
canal de comunicação precisa ser resgatado, outras, precisa ser criado. 
Neste momento, o terapeuta deve apenas prestar atenção a tudo que acontece, 
tudo que ouve, vê e experiencia. A partir de um dado momento, algo vira figura e 
 
92 
 
poderá ser pedido para a família conversar sobre o que foi observado, ou então, sugerir 
um experimento para expandir sua observação, ou até, ensiná-los um novo 
comportamento. 
No final, é preciso fechar o trabalho que foi feito no sentido de uma 
compreensão dos familiares/casal ou mesmo apontar algo que foi aprendido por um ou 
por todos. 
Existem alguns princípios orientadores que norteiam o trabalho de Gestalt-
terapia com casais e famílias. O primeiro princípio é: esclarecer ou ressaltar para as 
famílias/casais o que eles fazem bem. Descobrir como estão agindo dá um suporte 
importante para descobrir como estão, para aceitar melhor o processo terapêutico e 
fortalecer o potencial de mudança. 
É necessário entender que os limites de uma família são fluidos. O conceito de 
família variável dentro de cada estrutura, cada família tem sua própria configuração. 
O terapeuta deverá entender quem e o que constitui aquela família. Lembrando 
que os “agregados” têm um papel importante dentro desta organização. Uma estrutura 
familiar pode mudar conforme determinada situação ou evento ocorrido. Por exemplo, o 
filho que se casa e sai de casa, ou o filho que se casa e fica em casa com a esposa, etc. 
A capacidade de mudança é uma referência para a saúde da família. Porém, as 
mudanças não ocorrem na terapia, mas sim, na vida. Elas acontecem porque as situações 
também são novas, exigem novas soluções. Cada família tem ciclos distintos que 
representam o estágio de desenvolvimento de cada grupo ou até de cada componente 
familiar. 
Como as famílias lidam com cada fase também é uma articulação única e 
variável. É necessário que se inclua, também, os aspectos sociais, econômicos e 
culturais dentro das intervenções terapêuticas. É mais comum a família trazer para a 
terapia as influências culturais do que os casais. A família é uma transmissora de 
cultura, por este motivo, a importância de se conhecer os valores religiosos, crenças, 
preconceitos, valores sociais, etc. Segundo Zinker (2001, p. 230): Um bom terapeuta 
familiar, competente, é parte sociólogo, parte antropólogo, parte filósofo e, mais 
importante, um observador confiável que está verdadeiramente no modo como esta 
família funciona dentro de sua própria vizinhança e de seu meio social. 
Muitas vezes, o terapeuta é um mediador dos conflitos transgeracionais, 
principalmente relacionados com o choque cultural entre pais e filhos. Cada geração 
tem seus próprios comportamentos, jogos, linguagem, música, moda, arte e objetivos. 
 
93 
 
Uma alternativa para trabalhar os conflitos transgeracionais é a utilização da técnica do 
sonho (pode, inclusive, estar combinada com as técnicas sistêmicas de famílias). 
Tudo o que já foi dito deixa claro que o papel do terapeuta familiar é muito 
complexo. É preciso que a atenção esteja aguçada a todo o momento. Algumas atitudes 
ou reações são indícios de que algo está acontecendo com este terapeuta. Reagir 
rapidamente a um comentário ou opinião é um destes sinais. 
Sentimentos fortes como amor ou ódio por uma família, casal ou pessoa, 
também exige um foco especial. “Tomar partido” de um membro ou subsistema em 
detrimento de outro, demanda atenção. É saudável querer saber sobre as competências, 
dificuldades e a história passada de cada família. A maioria das famílias conhece mais 
seus defeitos e fracassos do que seus talentos e sucessos. 
Dentro das famílias há subsistemas dinâmicos e flexíveis. Quanto maior é o 
número de subsistemas mais saudável é esta família. Outra função do terapeuta é 
clarificar a estrutura e as qualidades dinâmicas desses subsistemas. Chamamos de 
subsistemas as identificações e as alianças que vão se entrelaçando conforme os 
conflitos e as situações difíceis vão se apresentando. 
Quando os subsistemas se apresentam como na forma de gestalten fixadas, ou 
seja, as pessoas se enrijecem numa posição e tem dificuldade de entrar e sair dos 
diversos subsistemas, então o terapeuta precisa ficar atento a estas triangulações. 
Um agrupamento muito comum é a aliança entre um dos pais e um filho, por 
exemplo, a mãe e o filho caçula. Isto pode ser disfuncional e impede que os adultos 
interajam entre si e, também, que o filho saia livremente. Caso isto aconteça, a mãe 
provavelmente terá um sentimento de traição deste filho. 
As relações pais e filhos denotam um capítulo extenso e à parte. Porém, uma 
coisa é evidente. O controle e o poder da família têm que estar nas mãos dos pais e 
quanto mais claro isso ficar, mais favorável será a dinâmica familiar. Famílias 
desorganizadas exigem que os terapeutas assumam mais poder e liderança até que 
possam assumir comportamentos mais adaptativos e coesos. 
As crianças não conseguemsustentar todo o medo (de crescer, de encarar o 
mundo, etc.) sem a segurança de pais responsáveis. Quanto menor é a criança mais 
proteção ela exigirá. Um bebê morrerá se não for alimentado. Só que à medida que as 
famílias crescem, os filhos precisam cada vez menos desta proteção. Proteger demais é 
tão prejudicial quanto proteger de menos. Isso não significa que as famílias não errem 
esta medida. Pais saudáveis e atentos estão sempre reavaliando estas posições 
 
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intermediárias na busca de uma construção mais correta. 
Em relação ao trabalho de Gestalt-terapia com grupos, encontramos alguns 
modelos propostos, tais como: John Brinley, Joen Fagan, Erving Polster, Irma 
Shepherd, etc. Perls em seus últimos anos de profissão criou um novo modelo. Irei me 
concentrar neste modelo em especial. 
Diante do grupo, Perls não tinha um tempo determinado para trabalhar. Podia 
trabalhar diretamente com um voluntário (nunca esta escolha é solicitada) por dez 
minutos ou por horas, dependendo da necessidade do paciente. O resto do grupo 
observa principalmente e se mantinha em silêncio. 
Entretanto, num determinado ponto, ele entra com o grupo em jogo de um modo 
original, “método do coro grego”. O “coro grego” sublima e consolida os esforços e 
realizações do paciente operante, de modo que combina o condicionamento com uma 
forma muito efetiva de integração grupal. Por exemplo, o paciente chegou num ponto 
que diz que não pode viver conforme as expectativas do outro. O terapeuta solicita que 
percorra todos os membros do grupo, reformulando esta frase e acrescentando algo 
pessoal. “Eu não estou aqui para responder às suas expectativas”. Os membros do grupo 
respondem brevemente conforme suas percepções e reações, por exemplo: “Sinto-me 
mais aliviado de ouvir isso, você tem toda a razão.” São permitidas as expressões de 
afeições e rejeição entre os participantes. 
Perls focava-se nas discrepâncias óbvias e sutis das expressões físicas e verbais. 
Desafia o paciente a entrar num diálogo representado (role-play) entre as facetas 
discrepantes da sua personalidade. Outra forma muito usada por ele era o pedido de 
representar um sonho e, depois, cada parte do sonho fala por si mesmo. 
Ficam proibidas as referências do tipo: se, mas, não posso, sinto-me culpada 
durante a sessão terapêutica. “Se” e “mas” tornam-se “e”, “não posso” é substituído por 
“não quero” e “sinto-me culpada” por “ressinto-me de”. Estas alternativas evidenciam o 
conflito emocional que há na pessoa. Fica mais claro o padrão de dominação existente e 
os “deverias” que foram introjetados durante a vida da pessoa. 
A habilidosa separação de conflito em sua dualidade e subsequência 
reencenação leva, após uma série de diálogos, a sentimentos de vacuidade, confusão, 
desamparo, etc. Essa experiência é o impasse: a expressão fundamental de duas formas 
puxando em direções opostas (FAGAN, 1971, p. 191) 
O grupo é apoiado por múltiplas projeções entre a cena ou o diálogo e eles 
próprios. Suas reações, associações e interpretações ajudam o paciente a ampliar e 
 
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aprofundar sua compreensão. Os membros de um coro grego parecem, de fato, 
experimentar os sentimentos das respostas do paciente dentro deles próprios. 
 
 
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REFERÊNCIAS 
 
_____. O ponto de Mutação. São Paulo: Cultrix, 1995. 
FAGAN, J. Teorias, técnicas e aplicações. São Paulo: Summus, 1973. 
FAGAN, J.; SHEPHERD, I. L. Gestalt-terapia: teoria, técnicas e aplicações. Rio 
de Janeiro: Zahar, 1971. 
GINGER, S.; GINGER, A. Gestalt - Uma Terapia de Contato. São Paulo: 
Summus, 1995. 
HALL, C. S.; LINDZEY, G. Teorias da Personalidade. São Paulo: EPU, 1973. 
HALL, C.; LINDSEY, G.; CAMPBELL, J. B. Teorias da Personalidade. Porto 
Alegre: Artmed, 2000. 
HYCNER, R. De pessoa a pessoa: psicoterapia dialógica. São Paulo: Summus, 
1985. 
PERLS, F. Ego, Fome e Agressão. São Paulo: Summus, 1985. 
POLSTER, E.; POLSTER M. Gestalt -terapia Integrada. São Paulo: Summus, 
1979. 
RODRIGUES, H. E. Introdução à Gestalt-terapia: conversando sobre os 
fundamentos da abordagem gestáltica. Petrópolis: Vozes, 2000. 
YONTEF, M. G. Processo, Diálogo e Awareness. São Paulo: Summus, 1993. 
ZINKER, J. A busca da Elegância em Psicoterapia. São Paulo: Summus, 
2001.107 
 
 
 
 
 
 
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