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Processo do Pensamento Lógico-Matemático Responsável pelo Conteúdo: Prof.ª Esp. Marcia Maria Ferrari Ortiz Revisão Textual: Prof. Me. Luciano Vieira Francisco O Conhecimento Lógico-Matemático O Conhecimento Lógico-Matemático • Compreender os conceitos básicos do pensamento lógico-matemático; • Relacionar aspectos afetivos e cognitivos na construção do conhecimento lógico-matemático; • Conhecer o pensamento complexo de Morin; • Investigar o material didático blocos lógicos; • Explorar os jogos Jenga e Mancala; • Ampliar o conhecimento sobre números e o sistema de numeração decimal; • Conhecer a teoria dos campos conceituais. OBJETIVOS DE APRENDIZADO • Introdução; • O Conhecimento Lógico-Matemático; • A Construção do Conhecimento Lógico-Matemático em Seus Aspectos Afetivos e Cognitivos; • O Pensamento Complexo de Morin e a Matemática; • Material Didático; • Jogos; • Fechamento. UNIDADE O Conhecimento Lógico-Matemático Introdução Nesta Unidade trataremos da articulação entre pensamento e desenvolvimento lógico na infância, adolescência, idade adulta e velhice. Abordaremos também a compreensão dos processos básicos do pensamento lógico-matemático. Relacionaremos os aspectos afetivos e cognitivos na construção do conhecimento lógico-matemático. Conheceremos o pensamento complexo de Morin e suas implicações na aprendizagem da Matemática. Investigaremos o uso de materiais didáticos, em especial, os blocos lógicos como instrumentos de avaliação e intervenção psicopedagógica no campo da Matemática. Exploraremos os jogos de regra Jenga e Mancala como recursos para a aprendizagem. Iniciaremos o nosso estudo acrescentando informações ao seu conhecimento sobre a im- portância da Matemática, por meio do vídeo disponível em: https://youtu.be/YAN2lDSjprE Após assistir a este vídeo, amplie o seu aprendizado sobre o desenvolvimento do racio- cínio lógico segundo Piaget. Figura 1 Fonte: novaescola.org.br 8 9 O Conhecimento Lógico-Matemático Para programarmos uma boa intervenção psicopedagógica é imprescindível sabermos o nível de desenvolvimento cognitivo da criança, do jovem ou adulto. Piaget concebeu a inteligência como tendo dois aspectos: o cognitivo (conhecimento) e o afetivo (sentimento). No aspecto cognitivo, Piaget identificou três tipos de conhecimento, denominando-os conhecimentos físico, lógico-matemático e social. O conhecimento social é o saber sobre coisas geradas pelas civilizações. A sua ori- gem fundamental corresponde às convenções criadas pelas pessoas. A característica principal do conhecimento social é a de que possui uma natureza amplamente arbitrária. As palavras grande, pequeno, azul, verde, um, dois são alguns exemplos desse tipo de conhecimento, de modo que cada povo dá um nome segundo a sua cultura. Exem- plificando, uma mesma ideia pode ser expressa de uma forma na língua portuguesa e de outra diferente na língua inglesa: grande = big; pequeno = small; azul = blue; verde = green; um = one; dois = two. Em sua pesquisa sobre o desenvolvimento da inteligência, Piaget observou o cresci- mento de seus filhos e de outras crianças, e a partir disso identificou outra espécie de conhecimento, o qual nativo do mundo físico, das propriedades dos objetos e derivado das ações sobre os objetos (descoberta). É o conhecimento das propriedades físicas dos objetos e eventos: cor, tamanho, forma, textura, cheiro, peso e outras características. Uma criança adquire conhecimento físico sobre um objeto manuseando-o (agindo sobre ele) com os seus cinco sentidos: visão, audição, tato, olfato e paladar. O terceiro tipo de conhecimento identificado por Piaget é o lógico-matemático, construído a partir do pensar sobre as experiências com objetos e eventos (invenção). A manipulação física e mental da criança sobre os objetos propicia o desenvolver desse conhecimento, assim como acontece com o conhecimento físico. Mas são distintas as relativas funções das ações e dos objetos na construção do conhecimento lógico- -matemático. A criança cria (inventa) o conhecimento lógico-matemático; ele não é próprio do objeto, como é o caso do conhecimento físico, mas ele é construído a par- tir das ações da criança sobre os objetos. Estes servem apenas como um instrumento para permitir que a construção ocorra. Quando notamos a diferença entre as cores do céu azul e das nuvens brancas, ou entre as formas de um prato circular e uma tra- vessa retangular, tais diferenças são exemplos de conhecimento lógico-matemático. A diferença é uma relação criada mentalmente que relaciona os dois objetos. O desenvolvimento afetivo (valores, sentimentos e interesses) e o desenvolvimento cognitivo ocorrem de formas similares, isto é, as estruturas afetivas são construídas do mesmo modo que as estruturas cognitivas. O aspecto afetivo é responsável pelo movi- mento da atividade mental e pela triagem dos objetos ou eventos sobre os quais agir. Segundo Piaget, o desenvolvimento cognitivo passa por uma sequência de quatro estágios, etapas ou períodos, independentemente da cultura de cada povo. Esse proces- so é gradual e é no decorrer de anos que as crianças evoluem de um estágio para outro. Vejamos, então, os períodos de desenvolvimento e suas implicações para o pensamento lógico-matemático. 9 UNIDADE O Conhecimento Lógico-Matemático Estágio da Inteligência Sensório-Motora (Aproximadamente de 0 a 2 Anos de Idade) Durante este estágio, o comportamento é essencialmente motor. A criança ainda não representa eventos internamente e não “pensa” conceitualmente; apesar disso, o desenvolvimento “cognitivo” é constatado à medida que os esquemas (estruturas mentais) são construídos. O conhecimento físico predomina sobre o conhecimento lógico-matemático e no final do período a criança já tem desenvolvida as noções de causalidade (outros objetos, que não ela própria, podem causar eventos), de espaço e de tempo. O conceito de objeto (sabe que os objetos são permanentes e que continuam a existir mesmo quando não estão visíveis) é alcançado também nesta ocasião. Ao terminar o desenvolvimento sen- sório-motor, a criança já deve ter alcan- çado um desenvolvimento conceitual necessário ao da linguagem falada e de outras habilidades cognitivas e sociais, principais aspectos do nível seguinte de desenvolvimento: o do pensamento pré-operacional. Operação é uma ação mental, é uma ação que pode ser internalizada. O pensamento pré-operatório é o pen- samento preso aos sentidos. Estágio do Pensamento Pré-Operacional (Aproximadamente de 2 a 7 Anos de Idade) Este estágio é caracterizado pelo desenvolvimento da linguagem e outras formas de repre- sentação e pelo rápido desenvolvimento conceitual. O raciocínio, neste estágio, é pré-lógico ou semilógico. O comportamento cognitivo é ainda influenciado pelas atividades percep- tivas. As ações podem ser internalizadas por meio das funções representacionais, mas o pensamento é ainda preso à percepção (PIAGET; INHELDER, 1969). Os atributos do pensamento pré-lógico são obstáculos ao pensamento lógico como a centração, o egocentrismo, as transformações e a reversibilidade. A centração é a tendência da criança diante de um estímulo visual a centrar ou fixar sua atenção sobre um número limitado de aspectos perceptuais do estímulo. Como resultado, quando centrada tende a assimilar apenas aspectos limitados de um evento, nas partes e não no todo. Pode-se observar este fato colocando uma certa quan- tidade de tampinhas alinhadas e pedir ao aprendiz arranjar uma fileira com a mesma quantidade de tampinhas. Espaçar as próprias tampinhas horizontalmente e perguntar se, com esse movimento, mudou a quantidade de tampinhas da primeira fileira. Figura 2 Fonte: Getty Images 10 11 A criança costuma afirmar que agora a fileira ficou com mais tampinhas do que a fileira dela, pois consegue perceber apenas o aumento no comprimento da fileira e não considera o aumento dos espaços entre as tampas – esta atividadeé baseada na prova das fichas idealizada por Piaget. O pensamento e comportamento egocêntrico impedem à criança assumir o papel ou o ponto de vista do outro, de modo que sem consciência disso, a criança sempre se acha certa, e caso ocorra uma contradição, a criança egocêntrica conclui que a evidência deve estar errada. É por este motivo que a criança teima em dizer que a primeira fileira tem mais objetos do que a segunda fileira, mesmo após ver as tampas serem reunidas e ocuparem o mesmo espaço ao do início do desafio. Figura 3 Fonte: Getty Images A criança não focaliza o processo de transformação de um estado original a um estado final, indo de um evento perceptivo particular a outro evento perceptivo particular, mas não conseguindo integrar uma série de eventos em termos de relações início-fim, de modo que as imagens mentais se assemelham mais à fotografia do que aos filmes. Se pedirmos a uma criança um desenho do movimento feito por um lápis partindo da posição vertical (em pé) caindo sobre uma superfície horizontal, o resultado será o lápis em pé ou o lápis deitado, pois ela ainda não consegue relacionar as duas dimensões ao mesmo tempo. O pensamento não é nem indutivo (do particular para o geral), nem dedutivo (do geral para o particular); ele é transdutivo (do particular para o particular). A criança pré-operatória não consegue fazer generalizações. O raciocínio indutivo passa do específico ao geral. Fazemos muitas observações, discer- nimos um padrão, fazemos uma generalização e inferimos uma explicação ou uma teoria. Já o raciocínio dedutivo começa com uma hipótese geral ou fato conhecido e cria uma conclusão específica dessa generalização. 11 UNIDADE O Conhecimento Lógico-Matemático A reversibilidade do pensamento é a possibilidade de o pensamento seguir a linha de raciocínio de volta ao ponto de partida. É pensar em separar e unir partes ao mesmo tempo. Logo, o pensamento da criança pré-operacional não é reversível, ele é pré-lógico. O pensamento lógico é reversível. Os conceitos de Piaget sobre centração, egocentrismo, transformação e rever- sibilidade estão estreitamente relacionados. No início, o pensamento pré-operacional é dominado pela presença ou ausência de cada um deles. À medida que o desenvolvi- mento cognitivo ocorre, tais características gradualmente se integram. A passagem de um estágio ou nível de pensamento para um superior é processual. O pensamento pré-operatório não é conservativo, dado que a conservação se re- fere ao conceito de que a quantidade de uma matéria permanece a mesma indepen- dentemente de quaisquer mudanças em uma dimensão irrelevante. Se dividirmos um pote grande de pipoca em dois menores a criança tende a pensar que a quantidade de pipoca aumentou. Assim também acontece com as transformações feitas com massinhas de modelar, de modo que uma mesma quantidade pode ficar fina ou grossa, em formato de bolinhas ou bolonas, em um grande pedaço ou em vários pedacinhos – para a criança pré-operatória a quantidade sempre se altera. A conservação é uma medida ou um sinal do tipo de estrutura lógico-matemática já desenvolvida pela criança. É exatamente por este motivo que em uma avaliação psicopedagógica aplica-se as provas operatórias criadas por Piaget e a sua equipe. Apoiando-se nessas evidências pode-se planejar as intervenções psicopedagógicas mais afinadas para a pessoa. Este pensamento pré-operatório é impeditivo para a construção do conceito de número, que requer o pensamento conservativo – nesta oportunidade estudaremos como se dá a construção do conceito de número. Estágio das Operações Concretas (de 7 a 11 Anos de Idade) O estágio das operações concretas é um período de passagem entre o pensamento pré-operacional e o pensamento formal. A criança alcança o uso das operações comple- tamente lógicas pela primeira vez neste estágio, de modo que o pensamento deixa de ser dominado pelas percepções e a criança torna-se capaz de resolver problemas que existem ou existiram (são concretos) em sua experiência. A criança operacional concreta não é egocêntrica em pensamento como são as crian- ças pré-operacionais. Neste período, ela pode assumir o ponto de vista dos outros e sua linguagem é comunicativa e social. Tais crianças podem descentrar a percepção, atentando-se às transformações. No caso da prova com tampinhas, a criança vai percebendo gradativamente que as mudanças aplicadas não alteram a quantidade das tampinhas; consegue, então, resolver problemas de conservação apresentando argumentos corretos para as suas respostas, ou seja, justi- ficando o porquê de as quantidades de tampinhas não se alterarem. A reversibilidade do pensamento é desenvolvida, de modo que podem pensar simul- taneamente em juntar e separar partes de um todo. 12 13 Além da conservação, outras duas operações intelectuais importantes se desenvolvem: seriação e classificação, as quais formam a base para o conceito de número. Seriação : é a capacidade de organizar mentalmente um conjunto de elementos em ordem crescente ou decrescente de tamanho, peso ou volume. Classificação : é a capacidade de agrupar mentalmente um conjunto de objetos de acordo com as suas semelhanças. Figura 4 Fonte: Getty Images No decorrer deste nível pode ser observado um paralelismo entre os desenvolvimentos cognitivo e afetivo. Estágio das Operações Formais (de 11 a 15 Anos de Idade ou Mais) A próxima etapa é denominada por Piaget como estágio das operações formais, cons- truindo-se sobre o desenvolvimento das operações concretas, unificando-as e as ampliando. Por volta dos doze anos de idade a nova etapa é iniciada e se finaliza aos dezesseis ou mais. Essa construção nem sempre é totalmente completa. Depende de condições or- gânicas, cognitivas, emocionais e ambientais. Tendo isto em vista, o acompanhamento psicopedagógico abrange pessoas de todas as faixas etárias, desde a infância até a velhice. O pensamento operacional concreto é lógico, porém, restrito ao mundo concreto. Unicamente após o desenvolvimento das operações formais o raciocínio torna-se “independente do conteúdo” ou “independente do concreto”. O raciocínio formal pode lidar com o possível tão bem quanto com o real. O jovem pode raciocinar sobre o passado, presente e futuro. O pensamento operacional concreto é reversível. As duas formas de reversibilidade, a inversão e reciprocidade, coordenam-se no pensamento formal. Exemplificando: • Inversão: ao despejar um líquido em um recipiente mais alto e mais fino e devolvê-lo ao recipiente original, a quantidade não se altera; • Reciprocidade: ao despejar um líquido em um recipiente mais alto e mais fino a quan- tidade não se altera em virtude de o aumento na altura compensar a diminuição da largura do recipiente. 13 UNIDADE O Conhecimento Lógico-Matemático Figura 5 Fonte: Getty Images Várias estruturas emergem durante a construção das operações formais: o raciocínio hipotético transcende a percepção, memória e lida com objetos dos quais não temos conhecimento direto, ou seja, objetos hipotéticos. Outro tipo de raciocínio é o dedutivo, aquele que vai das premissas à conclusão ou do geral para o específico. Por exemplo: todo mamífero possui pulmões. As baleias são mamíferos; logo, as baleias pos- suem pulmões. A ideia básica do raciocínio dedutivo é que se algo é verdadeiro em uma classe de coisas em geral, essa verdade se aplica a todos os membros dessa classe. O raciocínio hipotético-dedutivo é a capacidade de pensar sobre o real, bem como deduzir conclusões a partir de premissas hipotéticas, sendo também desenvolvido nessa fase. Assim como o pensamento científico-indutivo, é o tipo de raciocínio que vai dos fatos específicos às conclusões gerais; é ele o principal processo de raciocínio empregado pelos cientistas para chegar a generalizações ou leis científicas. Aqueles que desenvolveram o raciocínio formal podem explorar todas as relações pos- síveis presentes nos problemas concretos ou hipotéticos. Nemtodos os adultos constroem este tipo de pensamento durante o seu desenvolvimento, de modo que a construção do pen- samento lógico depende das condições orgânicas, emocionais e sociais de cada indivíduo. O mecanismo básico do conhecimento lógico-matemático é a abstração reflexiva, que consiste na abstração do conhecimento novo a partir do conhecimento existente, ganho pela reflexão ou pelo pensamento indo sempre além do observável. Os dois prin- cipais conteúdos cognitivos que se desenvolvem durante o estágio das operações formais são: as operações proposicionais ou combinatórias e os esquemas operacionais formais como a proporção e a probabilidade. Na operação proposicional ou combinatória uma variável ou um fator é alterado de cada vez enquanto os outros permanecem constantes, de modo que todas as possi- bilidades são exploradas. Sobre o desenvolvimento do raciocínio matemático e os estágios de desenvolvimento, segundo Piaget, assista aos vídeos disponíveis em: • Jean Peaget – Fases do Desenvolvimento: https://youtu.be/EnRlAQDN2go • Piaget – Construtivismo na Escola: https://youtu.be/z-FfrQLVyN8 14 15 A Construção do Conhecimento Lógico-Matemático em Seus Aspectos Afetivos e Cognitivos Reveja e aprofunde os seus conhecimentos sobre o que foi estudado até o momento por meio do artigo: A construção do Conhecimento Lógico-Matemático: Aspectos Afetivos e Cognitivos acerca da construção do pensamento lógico-matemático com foco nos aspectos da afetividade. Disponível em: https://bityl.co/6sfF A partir do estudado, podemos confirmar como o ambiente físico, social, familiar, a ma- turação, as condições estruturais orgânicas, a hereditariedade e até mesmo emocional são fatores que acarretamo favorecimento ou desfavorecimento da aprendizagem da criança, poisatuam simultaneamenteno desenvolvimento intelectual. O nosso próximo assunto é a teoria mais conhecida de um dos principais pensadores contemporâneos ainda vivos, Edgar Morin, com a teoria da complexidade. O Pensamento Complexo de Morin e a Matemática Edgar Morin, pseudônimo de Edgar Nahoum (Paris, 1921), formado em Direito, Geografia e História, estudou Filosofia, Sociologia e Epistemologia. Figura 6 Fonte: Wikimedia Commons 15 UNIDADE O Conhecimento Lógico-Matemático A teoria da complexidade, abalizada em seus fundamentos e conceitos é muito apli- cada na área da Educação, tendo como alicerce as formulações surgidas no campo das Ciências Exatas e Naturais, tais como as teorias da informação e dos sistemas. Dessa forma, enfatizam a importância de não existir uma separação entre as disciplinas. Morin espera que os professores de Ensino Fundamental acabem com as barreiras do conhecimento, por lidarem com experiências generalistas e porque nessa fase as crianças possuem um modo de pensar que ainda não foi influenciado pela separação das disciplinas. Da mesma forma, podemos incluir os psicopedagogos que lidam com pessoas com difi- culdades de aprendizagem – em grande parte produtos deste sistema compartimentalizado. Um mundo de especialistas em objetos de estudo cada vez menores. Esta realidade é mo- tivo de reflexão do pensador francês Edgar Morin (1921). Criador de uma teoria do conhe- cimento que busca se adequar às exigências do mundo contemporâneo, a produção de Morin aponta para a importância de reconectar os saberes, fazendo com que os estudantes sejam capazes de ter acesso aos conhecimentos específicos, mas sem perder de vista o todo. Assista ao vídeo disponível em: https://youtu.be/WXm029AiSqU O pensamento complexo de Morin em relação à Educação sugere um ensino em rede, oposto do atual, dividido em disciplinas, distribuídas cronologicamente nos anos escolares. Em especial, a disciplina Matemática é fatiada, dificultando possíveis conexões com a vida do dia a dia, tornando-se um conhecimento sem sentido para a maioria dos estudantes. Não é à toa que ela é a disciplina considerada a “mais” assustadora pelos aprendizes e a “maior” produtora de alunos com dificuldades. O sistema escolar vigente acredita que seja possível juntar estas “fatias” de conhecimento e produzir um pensamento lógico-matemático completo e coerente – que ilusão! Um caminho possível a ser percorrido nos atendimentos psicopedagógicos seria con- siderar a pessoa com dificuldade em Matemática ou em outra área como um ser huma- no único e que possui organismo, corpo, inteligência e desejos particulares, de acordo com o pensamento de Alicia Fernández. Alicia Fernández (1946-2015) nasceu em Buenos Aires, Argentina. Formou-se em Psicopedagogia e Psicologia pela Universidade de El Salvador em Buenos Aires. Internacionalmente conhecida, é uma referência fundamental para a Psicopedagogia, pois analisou questões importantes que envolvem as dificul- dades de aprendizagem. Complementando com a ideia do pensamento complexo de Morin, trata-se de enxergar a pessoa com dificuldade sendo maior do que a soma de suas partes, ou seja, uma pessoa inteira única e completa. Assim, abordar a Matemática como uma área do conhecimento dentro de um universo de relações entre diversas áreas é uma boa opção para minimizar as dificuldades e dar significado à aprendizagem dos conceitos matemáticos. [...] queremos resgatar a complexidade. A palavra complexus significa, origi- nalmente, “aquilo que é tecido junto”. Não se trata de negar a lógica formal 16 17 ou de negar a separabilidade, mas de resgatar o tecido dinâmico constituído e constituinte de certezas com incertezas, de identidades com contradições, apreendidas através do raciocínio lógico formal integrado a outras formas de se processar conhecimento. Nos movimentos desse tecido, a Matemática e o pensamento lógico encontram novos espaços, novos parceiros, novas perspectivas para se reintegrarem na dança eterna da Vida. (ANITA, 2002) Para avançar nas reflexões sobre as implicações do pensamento pós-moderno no resgate das habilidades socioemocionais e no processo de ensino-aprendizagem da Matemática, leia o Material Complementar desta Unidade. Após a reflexão sobre como a Psicopedagogia e a concepção pós-moderna de pensa- mento complexoressignificam o ensino da Matemática, ampliaremos os nossos conheci- mentos relativos aos recursos concretos disponíveis para a educação matemática. Material Didático M aterial didático (MD) é qualquer instrumento útil ao processo de ensi- no-aprendizagem. Portanto, MD pode ser um giz, uma calculadora, um filme, um livro, um quebra-cabeça, um jogo, uma embalagem, uma trans- parência, entre outros. (LORENZATO, 2006, p. 18) Entre os vários materiais didáticos encontram-se os estruturados manipuláveis. As con- tribuições dos materiais manipuláveis na educação matemática são muitas, acontecendo através da interação dos alunos com esse recurso, que incentiva por meio da observa- ção, do pensamento, questionamento, diálogo, erro, das ideias e tentativas o desenvol- vimento dos conceitos teóricos pela manipulação desses objetos. Alguns materiais didáticos manipuláveis são os conhecidos materiais estruturados, muito utilizados na Matemática, tais como os blocos lógicos, o material dourado, o ábaco, a escala Cuisenaire, o geoplano, o tangram e outros – nesta oportunidade exploraremos os blocos lógicos. Figura 7 – Blocos lógicos Fonte: Wikimedia Commons 17 UNIDADE O Conhecimento Lógico-Matemático O material é constituído de 48 peças que combinam quatro atributos em cada uma: tamanho (grande e pequeno), cor (amarelo, azul, vermelho), forma (círculo, retângulo, quadrado, triângulo) e espessura (grosso e fino). Por meio dos blocos lógicos é possível propor diferentes jogos de construção e es- tratégicos, os quais contribuem para a assimilação de conceitos básicos de cor, forma e tamanho, além de realizar atividades mentais de seleção, comparação, classificação e ordenação. Os blocos lógicos são utilizados na elaboração do raciocínio, uma vez que se passa gradativamente do concreto para o abstrato, de modo que com o auxílio dessematerial a criança pode organizar o seu pensamento. Os blocos lógicos foram criados por Zoltan Paul Dienes (1916-2014), educador hún- garo, na década de 1950. Esse matemático obteve o título de doutor em Matemática e Psicologia pela Universidade de Londres, em 1939. Trabalhou como professor em várias universidades, todas na Inglaterra. Tornou-se pesquisador na Universidade de Harvard (1960-1961) e professor adjunto em Psicologia na Universidade de Adelaide (Austrália), no período de 1961 a 1964. Foi nomeado diretor do Centro de Investigação em Psicomatemática, em Sherbrooke, Quebec, Canadá em 1964 e, após o fechamento do Centro em 1975, por motivos políticos, dedicou os seus estudos à educação indíge- na, como professor na Universidade de Brandon, no Canadá, até 1978. Um programa psicopedagógico com blocos lógicos pode ser iniciado com crianças a partir de 4 anos de idade. As atividades iniciais envolvem jogos, trabalhos corporais, confecção e preenchimento de desenhos. Piaget e Inhelder (1975) definem diferentes níveis da estrutura lógica de classificação; à medida que a criança avança nesses níveis, torna-se capaz de fazer classificações, inclusões de classe e intersecções. Essas relações desenvolvem habilidades necessárias à construção do número, considerado por Piaget como a síntese das relações de ordem e inclusão hierárquica. As atividades propostas, a seguir, estão de acordo com a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) para o Ensino Fundamental – Anos Iniciais: (EF01MA14) Identificar e nomear figuras planas (círculo, quadrado, retângulo e triângu- lo) em desenhos apresentados em diferentes disposições ou em contornos de faces de sólidos geométricos. Veja a seguir algumas sugestões de atividades: • Materiais para serem impressos, disponíveis em: https://bit.ly/35jvXvk • Atividades com blocos lógicos, disponíveis em: https://bityl.co/6sli Ademais, o livro Pensar é divertido (KOTHE, 1978) traz cerca de 70 jogos, em que a maioria pode ser adaptada para crianças cegas. Na adaptação de blocos lógicos pode- -se substituir o atributo cor por diferentes texturas, ou simplesmente não levar em conta esse atributo, ou ainda informar a criança cega sobre o colorido das peças. 18 19 Jogos Jogos são recursos preciosos na aprendizagem, em geral, de modo que é imprescindível, ao trabalharmos com jogos, termos um mínimo de prática com eles. Ao jogarmos, passamos por um processo individual de aprendizagem e ao refletirmos sobre este processo, podemos construir uma base de conhecimento sobre as habilidades necessárias, a fim de vencermos os desafios intrínsecos ao jogo e à nossa vida. U ma observação cuidadosa pode nos ajudar a inferir o período de desenvolvimento da inteligência do jogador. Este é mais um instrumento que podemos usar em uma avaliação psicopedagógica, tanto inicial como processual. É ainda um bom material para intervenções, independentemente da idade. Não deixe de assistir a videoaula que preparamos para você nessa unidade sobre os jogos Jenga e Mancala! Em Síntese E spero que você tenha gostado desta Unidade, assim como compreendido os proces- sos básicos do pensamento lógico-matemático e o relacionado aos aspectos afetivos e cognitivos na construção deste pensamento; e que tenha conhecido apropriadamente o pensamento complexo de Morin e as suas conexões com o ensino-aprendizagem da Matemática; além de ter reconhecido o material didático blocos lógicos e explorado os jogos Jenga e Mancala. 19 UNIDADE O Conhecimento Lógico-Matemático Material Complementar Indicações para saber mais sobre os assuntos abordados nesta Unidade: Sites LinkedIn – Luzia Faraco Ramos Perfil da autora de livros paradidáticos de Matemática, destinados ao Ensino Fundamental I e II. https://lkdin.io/3PWf Vídeos O Monstro da Matemática – Os Mistérios da Matemática Às vezes, é o desconhecido que nos assusta. Tememos a face daquilo que não entendemos, não dominamos, do que parece tão distante e estranho que preferimos nem conhecer. E ninguém pode gostar daquilo que não conhece. O que você pensa quando ouve a palavra Matemática? Mistério, maravilha, monstro ou talvez maldição? https://youtu.be/UhWQifpoqXU Desenvolvimento do raciocínio matemático https://youtu.be/eRSmeVqw8Qo Edgar Morin Um dos principais expoentes do pensamento mundial, Edgar Morin defende a desfragmen- tação do conhecimento e a união entre a Ciência e o humanismo. https://youtu.be/AOBIl0WbPo8 Leitura Formação do pensamento lógico-matemático https://bityl.co/6pI1 Raciocínio dedutivo https://bityl.co/6pIK A Matemática, o pensamento lógico e a Pós-Modernidade https://bit.ly/3hsvSN5 Sujeitos na escola: em debate, o desenvolvimento das competências socioemocionais https://bit.ly/3opePx7 Blocos lógicos como recursos para o desenvolvimento de relações lógicas nos anos iniciais do Ensino Fundamental https://bityl.co/6pJG Filmes A história da Matemática Documentário produzido pela BBC Londres. Veja o trailer. https://youtu.be/JAQmH_j1OQg 20 21 Referências LORENZATO, S. Laboratório de ensino de Matemática na formação de professores. Campinas, SP: Autores Associados, 2006. MORIN, E. Os meus filósofos. [S.l.]: Sulina, 2013. ______ __. Os sete saberes necessários à Educação do futuro. [S.l.]: Unesco; Cortez, 2008. PIAGET, J.; INHELDER, B. The psychology of the child. In: WADSWORTH. B. J. Inteligência e afetividade da criança na teoria de Piaget. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003. ______ __. Gênese das estruturas lógicas elementares. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1975. W ADSWORTH. B. J. Inteligência e afetividade da criança na teoria de Piaget. São Paulo: Pioneira Thomson Learning, 2003. 21