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Natalia Quintino Dias Acesso intraósseo Acesso intraósseo é a inserção de uma agulha rígida e calibrosa no interior da medula óssea de ossos longos, com a finalidade de acessar o meio intravascular. A medula óssea é constituída por sinusoides que drenam para canais venosos no interior da medula e levam sangue ao sistema venoso. Essas veias, apoiadas na matriz óssea, não colabam em paciente em estado de choque ou hipovolemia, possibilitando a infusão de fluidos e medicamentos. Seu uso é reservado para situações de emergência, incluindo parada cardiorrespiratória, quando não é possível a obtenção de um acesso venoso periférico. Indicações - Situações de emergência (ex: PCR). - Situações em que há necessidade de acesso rápido ao sistema circulatório e o acesso venoso não pode ser obtido rapidamente ou não é possível de ser obtido após múltiplas tentativas, como choques, queimaduras extensas, politraumas, estados epilépticos prolongados e desidratação grave. - Pode ser utilizado para administração de grandes quantidades de fluidos como soluções cristaloides, soluções coloides, solução salina hipertônica, reposição de eletrólitos, bicarbonato e hemoderivados. Também permite infusão de uma ampla variedade de medicações, tais como: drogas vasoativas, anticonvulsivantes, sedativos, bloqueadores neuromusculares, analgésicos, antibióticos etc. Contraindicações A maioria das contraindicações é relativa e deve-se considerar o risco e o benefício do procedimento. Contraindicações absolutas - Osso fraturado: não deve ser puncionado, pois haverá extravasamento dos fluidos através da fratura. - Membros com lesão vascular: não devem ser puncionados, pois haverá extravasamento dos fluidos através do vaso. Contraindicações relativas Osteogênese imperfeita. Osteoporose. Infecções cutâneas, queimaduras ou osteomielite no local da punção. Shunt intracardíaco direito-esquerdo devido a maior risco de embolia gordurosa no território cerebral. Materiais necessários para o procedimento • Material para limpeza e antissepsia local: algodão ou gaze e solução alcoólica. • Luvas de procedimento. • Equipamentos de proteção individual: gorro, máscara e luvas estéreis. • Campo estéril fenestrado (opcional). • Agulha de punção intraóssea. • Seringas e conectores (tampinhas, torneirinhas e equipos de infusão). • Soluções salinas. • Esparadrapos ou fita microporosa. • Caixa para descarte de material perfurocortante. Diferentes dispositivos de acesso IO. (A) Trocarte manual (B) Dispositivo IO esternal (C) Pistola de injeção óssea (D) EZ IO drill. Técnica para o procedimento ● Preparação: identificação do paciente, explicação do procedimento ao paciente ou ao responsável legal e obtenção de consentimento. ● Reparos anatômicos, local de punção e posicionamento: -- Porção proximal da tíbia: é o local de primeira escolha de punção em adultos e crianças por ser uma área recoberta apenas por pele e pequena quantidade de tecido subcutâneo. A punção nesse sítio também é favorável em casos de parada cardiorrespiratória por não haver necessidade de interromper as manobras de ressuscitação para punção. A punção em crianças é realizada 2 cm distal à tuberosidade da tíbia e 1 cm medial do platô tibial; em adolescentes e adultos, em que não há mais cartilagem de crescimento, a punção é realizada 2 cm medial e 1 cm proximal à tuberosidade da tíbia. O membro deve ser mantido em extensão e com leve rotação externa; pode ser Natalia Quintino Dias colocado um coxim na região da fossa poplítea para melhor exposição do sítio de punção. -- Porção distal do fêmur: realizada na linha média, cerca de 1 a 2 cm acima da patela, com membro em extensão. -- Porção distal da tíbia ou fíbula: realizada cerca de 1 a 2 cm acima do maléolo medial ou maléolo lateral, sendo a primeira escolha o maléolo medial. Posicionar membro do paciente com leve rotação externa em caso de punção no maléolo medial e leve rotação interna no caso de punção no maléolo lateral. -- Porção proximal do úmero: realizada no tubérculo maior do úmero, cerca de 2 cm abaixo do acrômio. Posicionar membro do paciente em adução e rotação interna para melhor exposição do sítio de punção (antebraço apoiado sobre o abdome). -- Manúbrio: realizada no terço superior do esterno, necessita agulha específica para punção desse sítio. Tem como desvantagem a localização desfavorável, caso seja necessária a realização de manobras de ressuscitação cardiopulmonar. ● Técnica do procedimento: -- Posicionar o paciente de acordo com o sítio de punção escolhido. -- Lavar as mãos. -- Colocar paramentação para procedimento: gorro, máscara e luvas estéreis. -- Realizar limpeza do local a ser puncionado com solução alcoólica. -- Se possível, colocar campo estéril fenestrado, deixando exposta apenas a área a ser puncionada. -- Realizar punção de acordo com agulha disponível. A agulha deve ser inserida Natalia Quintino Dias perpendicularmente ao osso, exceto no caso de punção da porção proximal da tíbia em crianças, em que deve-se inclinar a agulha cerca de 15° no sentido distal com a finalidade de não atingir a cartilagem de crescimento. Escolher a agulha adequada para a faixa etária, para agulha pediátrica ajustar a profundidade de acordo com a idade (0 a 3 anos: 0,5 a 1 cm; 3 a 6 anos: 1 a 1,5 cm; e 6 a 12 anos: 1,5 cm). Dispositivos com motores: escolher a agulha adequada para o peso (rosa de 15 mm para 3 a 39 kg, azul de 25 mm para > 40 kg e tecido subcutâneo normal e amarela de 45 mm para > 40 kg e tecido subcutâneo em excesso). -- Retirar o mandril da agulha. -- Aspirar e observar refluxo de sangue. -- Realizar lavagem do acesso com solução salina (não deve haver resistência à infusão da solução, nem evidência de infusão no subcutâneo). -- Conectar o equipo ou torneirinha à agulha. -- Fixar a agulha e o equipo junto à pele com gaze e esparadrapos. -- Imobilizar o membro puncionado. -- Descartar materiais na caixa de perfurocortantes. -- Para pacientes acordados, administrar lidocaína sem vasopressor na dose de 0,5 mg/kg em 1-2 minutos seguida de um flush de 10 mL de SF. Caso necessário, repita a lidocaína na dose de 0,25 mg/kg em 1-2 minutos seguida de flush. Complicações É um procedimento seguro e apresenta uma taxa menor que 1% de complicações graves. Os principais problemas relatados são: • Extravasamento de fluidos: ocorre em casos de penetração incompleta da cortical, obstrução da agulha, fratura do osso puncionado, deslocamento da agulha ou quando o orifício do córtex é maior que o orifício da agulha. • Fratura de ossos longos (principalmente tíbia). • Síndrome compartimental. • Necrose de pele. • Osteomielite. • Infecções de partes moles e abscesso subcutâneo. • Os únicos relatos de complicações graves que levaram a óbito foram associados a punção esternal em crianças menores de 3 anos com técnica manual que resultou em mediastinite, hidrotórax e lesão cardíaca ou de grandes vasos. Cuidados pós-acesso intraósseo O acesso intraósseo é um acesso de emergência e assim que possível deve ser substituído por um acesso venoso. O acesso intraósseo pode ser mantido por no máximo 24 h. Após esse período há maiores taxas de complicações infecciosas como celulites, abscessos e osteomielites.