Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

1 
 
 
 
 
 
 
 
Cariologia Aplicada a Odontopediatria 
 
I – INTRODUÇÃO 
 A Cárie Dental é uma das doenças mais antigas e de maior prevalência nos seres 
humanos, com relatos de ocorrência de lesões cariosas há mais de um milhão de anos 
em múmias descobertas em tumbas no antigo Egito. 
 É fundamental entender a cárie dentária como um processo anormal. É anormal 
porque um indivíduo que vivia em condições naturais, isto é, o homem primitivo, a 
maioria não desenvolvia uma lesão no esmalte que pudesse ser considerada cárie 
dentária, por estar inserido em uma biodiversidade comandada pela natureza, em um 
equilíbrio físico-químico -- POUCA EXPRESSÃO DA DOENÇA. 
 Apesar de todos os elementos necessários para desenvolver a cárie estarem presentes, 
havia uma condição de desequilíbrio e reequilíbrio, representados pelo fenômeno da 
desmineralização e remineralização, mediadas pela saliva, que mantinha a estrutura do 
esmalte dentário intacta. 
 Essa biodiversidade determinada pela presença de todos os elementos que 
influenciavam a fisiologia da cavidade bucal em condições naturais, como alimentação, 
microrganismos e secreção salivar, mantinha o equilíbrio homeostático da cavidade oral. 
 Há milênios, o homem deixou de viver exclusivamente da natureza, quando 
modificou, de alguma maneira, a forma natural dos alimentos. Gerou-se um 
Clínica Odontopediátrica I 
Resumo Teórico 
Assunto: Cariologia Aplicada a Odontopediatria 
Porf. Dr. Paulo Bisi Junior 
 
 
2 
 
desequilíbrio da biodiversidade bucal que, a partir desse momento, foi responsável pelo 
processo de desmineralização e remineralização fora das condições naturais, 
possibilitando o desenvolvimento de lesões na estrutura dentária chamadas de cárie 
dentária. 
 Atualmente, não é mais possível reproduzir a biodiversidade do homem primitivo. 
No entanto, tem-se a convicção de que quanto mais próximo chegar-se dela, melhor para 
o ser humano. Todas as estratégias para prevenir a cárie deverão ter, como princípio, 
produzir o equilíbrio e não gerar qualquer desequilíbrio. 
 
 
 
 
II – FASES DO DESENVOLVIMENTO DA DOENÇA 
Para compreender a doença é necessário o entendimento de 3 eventos em particular 
1º) Metabolização dos Carboidratos 
2º) Cinética de Produção de Ácidos 
3º) Curva de Acidogênese (Flutuação de pH) 
a) Metabolismo dos Carboidratos 
 Para que a placa bacteriana dentária exerça seu potencial cariogênico, através do 
metabolismo microbiano, precisará utilizar carboidratos fermentáveis com uma 
determinada frequência, produzindo ácido durante um determinado tempo, capaz de 
causar uma lesão de cárie. 
 As reações químicas que ocorrem na intimidade da placa dental cariogênica estão 
muito ligadas ao metabolismo microbiano dos carboidratos, que se transformam nas 
substâncias básicas para o fornecimento de energia e massa de bactérias, além de 
originarem a produção de ácidos e adesivos – patogenicidade da placa. 
 Os fenômenos, que a seguir serão descritos, ocorrem com base na ingestão de 
farináceos e sacarose (açúcar comum); os alimentos mais utilizados na dieta humana, 
que envolvem a presença de carboidratos. Para fins didáticos, estes fenômenos 
metabólicos podem ser classificados em dois tipos: os extracelulares e os intracelulares. 
 As reações bioquímicas relacionadas à placa dental, que ocorrem ainda no plano 
extracelular dizem respeito a formação de polissacarídeos extracelulares pelas bactérias 
com as ações de adesão, aglutinação e colonização bacterianas. Já as reações no plano 
intracelular dizem respeito a formação de polissacarídeos intracelures com as funções 
de reserva, ATP e ácido. 
As lesões se mantiveram com uma baixa incidência até o século XIX, mas 
com a revolução industrial aconteceu um grande aumento na prevalência 
da doença. 
 
 
3 
 
 Qualquer alimento sólido, quando ingerido, passa previamente pelos processos de 
mastigação e insalivação na cavidade bucal, antes de ser deglutido. Após a ingestão de 
farináceos, normalmente permanecem resíduos desses alimentos, que são ricos em 
amido que por ação da amilase salivar são degradados em moléculas de glicose e frutose, 
que podem se difundir pela placa e ser utilizada pelos MO. 
b) Cinética de Produção de Ácidos 
 PEC (Polissacarídeos Extracelulares) → Os fenômenos ocorrem com sacarose 
disponível na placa 
• Glicosil Transferase (GT): age sobre a sacarose separando as moléculas de frutose 
(F) e glicose (G) 
• A GT: reúne as moléculas de (G) gerando um grande polímero chamado glicanos 
vão formar gel adesivo de dextrano e mutano 
• A Frutosil Transferase (FT): age na (F) livre gerando frutano que é um gel adesivo 
 
 PIC (Polissacarídeos Intracelulares) → As monoses (moléculas disponíveis de F e G) 
por um sistema enzimático específico são conduzidos para o interior do citoplasma do 
MO gerando os PIC, onde parte deles são reservados em vacúolos e outra parte vai 
percorrer a cadeia glicolítica para gerar ATP (crescer e reproduzir) onde o produto final 
são os ácidos (como produto final do ciclo metabólico), diminuindo o pH da placa. 
c) Curva de Acidogênese da Placa 
 Mostra um padrão cíclico de eventos de RE x DES, que apresentam 3 fases básicas 
1ª Fase: Queda rápida de pH 
2ª Fase: Permanência do pH abaixo do crítico 
3ª Fase: Recuperação do pH 
 
 Características de cada Fase: 
 
Queda rápida de pH 
• Queda do pH para 5.0 em apenas 2 a 3 min após contato com o açúcar 
• Açúcar rápido e intensamente metabolizado formando grandes quantidades de 
ácidos neutralizando ação salivar 
• A placa acidogênica produz ácido lático e glucano ao longo do dia inteiro 
• O principal fator diferencial dos cárie-ativos é o elevado número de bactérias 
especiais – acidogênicas e acidúricas 
Permanência do pH abaixo do crítico 
• Fase de risco que dura 1 hora, caracterizada pelo processo de desmineralização 
• Seleção bacteriana – nem todas as bactérias que produzem ácidos sobrevivem em 
meio ácido 
• Tampão dental – reprecipitação de íons cálcio e fosfato na área desmineralizada 
evitando um pH de 3.0 que inviabiliza O processo de remineralização 
• Pacientes com cárie de mamadeira apresentam um predomínio dessa 
microbiota 
 
 
4 
 
Recuperação do pH 
• Mecanismo natural para reverter a situação de cariogenicidade onde os ácidos 
são consumidos por outras bactérias, saliva e tampão dental 
• Momentos de remineralização quando pH atinge níveis mais elevados que 5.5 
• Hidroxiapatita remineralizada é mais resistente, necessitando de desafios 
ácidos maiores 
 
Explique o processo DES x RE iniciando pela metabolização dos carboidratos? 
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
__________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________ 
 
III – DEFINIÇÕES 
 
Prof. GUEDES-PINTO (2002): Doença infecto-contagiosa, endôgena, multifatorial e 
comportamental. 
Infecto-contagiosa: ______________________________________________________ 
_________________________________________________________________________ 
Endógena: ______________________________________________________________ 
_________________________________________________________________________ 
Multifatorial: _____________________________________________________________ 
_________________________________________________________________________ 
Comportamental: _________________________________________________________ 
_________________________________________________________________________ 
 
Prof. SERGIO WEYNE (2002): Doença infecto-contagiosa com perda localizada de 
minerais do esmalte dental causada por ácidos orgânicos provenientes da fermentação 
 
5 
 
microbiana, de caráter multifatorial, sendo usualmente crônica, estando na dependência 
de 3 fatores: hospedeiro, microbiota e dieta. 
 
IV – HISTOPATOGENIA DA CÁRIE DENTÁRIA 
Progressão de lesão de cárie em esmalte 
Progressão de lesão de cárie em dentina 
 
a) Progressão de lesão de cárie em esmalte 
 
 Inicia pela destruição pela periferia dos cristais de apatita, ocasionando redução de 
tamanho e consequente alargamento dos espaços intercristalinos proporcionando uma 
via mais ampla para difusão de ácidos e posterior preenchimento desses espaços por 
material amorfo e água. 
 Quando esse aumento é considerável, nas regiões com porosidade do esmalte, este 
adquire uma aparência mais esbranquiçada pela diferença do índice de refração entre a 
água e a hidroxiapatita. 
 Podendo-se então, ser observada microscopicamente à luz polarizada o aparecimento 
de 4 zonas bem definidas: zona transluzente, zona escura, zona do corpo da lesão e zona 
superficial – Característica Microscópica da Lesão 
 
• Zona Superficial: aparentemente sadia em decorrência da deposição de 
minerais provenientes da dissolução do esmalte do corpo da lesão ou da saliva 
(fósforo/cálcio); 
• Zona do Corpo da Lesão: entre as zonas escura e superficial, ocupa a maior parte 
da lesão cariosa incipiente apresentando muitos poros; 
• Zona Escura: localizada lateralmente e superficialmente a zona 
transluzente; 
• Zona Transluzente: zona mais profunda e avançada da lesão, área de perda de 
magnésio e/ou cálcio. 
 
 Com a progressão da lesão, ocorre o aparecimento Mancha Branca – Estágio inicial 
das alterações Macroscópicas da Lesão, caracterizada como uma área branca de 
descalcificação com aspecto de giz, sendo mais frequentes em áreas gengivais das 
superfícies vestibular/proximal. Nesta fase a lesão apresenta características de 
reversibilidade ou também possibilidade de ser paralisada. 
 
 
6 
 
b) Progressão de lesão de cárie em dentina 
 
A lesão propaga-se lateralmente ao longo da junção amelo-dentinária formando um cone 
com base na junção amelo-dentinária e ápice voltado para a polpa dentária. 
Quando a lesão de cárie progride na dentina 3 camadas podem ser observadas: Dentina 
Infectada, Dentina Afetada e Dentina Normal. 
1ª Camada – Dentina Infectada: 
Características clínicas 
• Contorno irregular 
• Cor marrom pálida clara 
• Textura amolecida 
• Facilmente removida e insensível a instrumentação 
 
Características histológicas 
• Altamente infectada por bactérias 
• Grande perda do conteúdo mineral 
• Túbulos dentinários com diâmetros alterados 
• Fibras colágenas degeneradas, com ligações irreversíveis quebradas 
 
2ª Camada – Dentina Afetada: 
Características clínicas 
• Dentina mais firme, embora amolecida 
• Coloração acastanhada e/ou amarelada 
• Retirada em forma de lascas ou escamas, as vezes dolorosas 
Características histológicas 
• Pouco infectada por bactérias 
• Maior conteúdo de cálcio 
• Prolongamentos odontoblásticos presentes 
• Rede de colágeno mantida 
 
3ª Camada – Dentina Normal: 
• Características da dentina sadia 
 ________________________________________________________________________ 
 ________________________________________________________________________ 
 ________________________________________________________________________ 
 ________________________________________________________________________ 
 ________________________________________________________________________ 
 ________________________________________________________________________ 
 
V – ETIOLOGIA DA CÁRIE DENTÁRIA 
 Está associada a Triade de Keyes, que representa a interação dinâmica dos 3 
fatores primários ou determinantes – MOs Específicos – Substrato Cariogênico – 
Hospedeiro suscetível, interrelacionando-se com os fatores secundários ou 
 
7 
 
moduladores como Quantidade e Qualidade da saliva, Virulência dos 
microrganismos, Composição da dieta, Uso do flúor, Higiene Bucal do indivíduo, 
Conhecimento e comportamento frente a doença 
 
 
 
 
 
 
 
 
VI – DIETA X CÁRIE 
Estudos Clássicos 
Estudo de VIPEHOLM 
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________ 
Estudo de HOPEWOOD HAUSE 
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________ 
Estudo de TURKU 
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________ 
Estudo de INTOLERÂNCIA A FRUTOSE 
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
 
MO HO 
SUB 
Primários 
Secundários 
Flúor Saliva 
Higiene 
 
8 
 
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________ 
 
 Alimentos ideais seguem a sigla CDC (cru, duro e colorido), concluindo-se 
que a dieta interfere mais com a etiologia da cárie do que a nutrição. 
 Alimentos com Atividade anticariogênica: Semente de cacau, Café (cafeína), Chá 
(flúor), Leite (Caseína - anticariogênica) e Ácidos graxos (produz barreira de gordura 
- ação anticariogênica). 
 Características Importantes dos alimentos: Conteúdo de água (dilui o carboidrato), 
fator anticarboidrato (controla microbiota), qualidade detergente (dieta dura e fibrosa), 
propriedade Sialogênica (limpeza e  de pH). 
 
 Consumo Inteligente do Açúcar: 
• Limitar a exposição a sacarose 3 vezes/dia 
• Intervalo de no mínimo 3 horas as exposições• Combate ao uso vicioso do açúcar 
• Substituição por alimentos atraentes: pipoca 
• Uso racional dos fluoretos 
 
VII – MICROBIOTA CARIOGÊNICA 
a) Cárie como Infecção Endógena: 
 Microrganismos fazem parte da flora normal da cavidade oral (MO 
INDÌGENA). 
 Características da infecção: Confere baixa imunidade clínica (teve a doença 
pode ter novamente), Microorganismo de baixa virulência ( número), 
geralmente não comunicante (multifatoriedade). 
 
b) Placa Bacteriana cariogênica: 
 Constituída principalmente por bactérias acidogênicas e acidúricas, capazes 
respectivamente de produzir ácido e viver em meio ácido, são produtoras de 
PEC. 
 
c) Microrganismos 
 Lactobacilos e Estreptococos mutans 
Lactobacilos: 
• 1º Microorganismo associado a cárie (1934) 
• São acidogênicos e acidúricos 
 
9 
 
• Estão relacionados a progressão da lesão porque necessitam de áreas de 
retenção e não são produtores de polissacarídeos extracelulares 
• Não estão relacionados ao início da lesão, quanto mais cárie, mais 
lactobacilo 
S. mutans 
• Descoberto por CLARK (1924) 
• S. mutans, S. sobrinus, S. ratos, S. ferus (com diferentes antígenos) 
• São bactérias pequenas de várias formas 
• Fator Comum: Fonte de aderência e Metabolização de sorbitol e manitol 
• Produção de PEC 
 Características do S. mutans que lhe conferem alta cariogenicidade: 
• Produção de polissacarídeos intracelulares de reserva (vesícula de 
açúcar) 
• Produção de polissacarídeos extracelulares e extracelulares de reserva 
• Produz cárie em qualquer superfície e em qualquer animal 
• São encontrados em lesões de mancha branca e cárie de mamadeira (60% 
de colonização) 
 
 
 
 
 
 
 
d) Transmissibilidade dos MO 
 
Quanto mais cedo a criança é colonizada, mais cárie dentária. Criança sem cárie na 
primeira janela (19 – 31 meses) provavelmente dentição decídua toda sem cárie. 
 
Aprofundem o estudo sobre transmissibilidade de cárie dentária na infância – aspectos 
relevantes. Utilizem pelo menos 3 artigos científicos para se fundamentarem 
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
_____________________________________________________________________________
____________________________________________________________________________ 
S. mutans 
Pacientes de alto risco – 1 milhão/ml/saliva 
Pacientes de baixo risco – 100 mil/ml/saliva 
 
 
 
10

Mais conteúdos dessa disciplina