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UFRGSMUNDI • 1 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • ORGANIZADORES Ana Paula de Melo Pelegrinotti Clara Rodrigues Brundo Gabriel Tabbal Mallet Gerson Carlos Soares da Silva Filho Isabela Marcon Ciceri PORTO ALEGRE, V.9, SET. 2021 UFRGSMUNDI Porto Alegre v.9 p.1-244 2021 GUIA DE ESTUDOS 2021 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO SUL REITOR Carlos André Bulhões Mendes FACULDADE DE CIÊNCIAS ECONÔMICAS DIRETORA Prof. Maria de Lurdes Furno CURSO DE RELAÇÕES INTERNACIONAIS COORDENADOR Prof. Érico Esteves Duarte EDITORA-CHEFE Prof.ª Pâmela Marconatto Marques CONSELHO CONSULTIVO Prof.ª Analúcia Danilevicz Pereira (UFRGS); Prof. André da Silva Reis (UFRGS); Prof. Érico Esteves Duarte (UFRGS); Prof. Henrique de Castro (UFRGS); Prof.ª Jacqueline Haff ner (UFRGS); Prof. José Miguel Quedi Martins (UFRGS); Prof. Luiz Augusto Faria (UFRGS); Prof. Marco Aurélio Cepik (UFRGS); Prof.ª Silvia Ferabolli (UFRGS); Prof.ª Verônica Kerber Gonçalves (UFRGS) CONSELHO EDITORIAL Ana Paula Fraga (UFRGS, Brasil); Bruna Toso de Alcântara (UFRGS, Brasil); Bruno Ferreira (UFBA, Brasil); Eduardo Tomankievicz Secchi (UFRGS, Brasil); Elena de Oliveira Schuck (UFRGS, Brasil); Erik Herejk Ribeiro (UFRGS, Brasil); Fabian Scholze Domingues (UFRGS, Brasil); Luíza Buzzacaro Barcellos (Unisinos, Brasil); Luíza Gimenez Cerioli (Universidade de Marburg, Alemanha); Pedro Henrique Feliciano Dias Sampaio (UFRGS, Brasil); Rafaela Pinto Serpa (UFRGS, Brasil); Veridiana Dalla Vecchia (UFRGS, Brasil) CONSELHO EXECUTIVO Ana Paula de Melo Pelegrinotti; Clara Rodrigues Brundo; Gabriel Tabbal Mallet; Gerson Carlos Soares da Silva Filho; Isabela Marcon Ciceri EDITORAÇÃO Clara Rodrigues Brundo CAPA E PROJETO GRÁFICO Isabela Marcon Ciceri APOIO Pró-Reitoria de Extensão; Faculdade de Ciências Econômicas; Centro Estudantil de Relações Internacionais; Atlântica; Praxi; UFRGSMUN; Relações Internacionais para Educadores (RIPE); UFRGSMUN Back In School (BIS) Os materiais publicados no guia de estudos UFRGSMUNDI são de exclusiva responsabilidade dos autores. É permitida a reprodução parcial e total dos trabalhos, desde que citada a fonte. Os artigos assinalados refl etem o ponto de vista de seus autores e não necessariamente a opinião dos editores desse periódico. UFRGSMUNDI Faculdade de Ciências Econômicas (FCE/UFRGS) Av. João Pessoa, 52, Campus Centro, CEP 90040-000, Porto Alegre, RS - Brasil. Email: ufrgsmundi@gmail.com http://www.ufrgs.br/ufrgsmundi Dados Internacionais de Catalagoção na Publicação (CIP) UFRGSMUNDI Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Ciências Econômicas, Curso de Relações Internacionais, Centro Estudantil de Relações Internacionais - Ano 9, n. 9 (2021). – Porto Alegre: UFRGS/FCE, 2013 Anual. ISSN 2318-6003. 1. Ciência Política. 2. Relações internacionais. 3. Política internacional. 4. Diplomacia. CDU 327 Responsável: Biblioteca Gládis Wiebbelling do Amaral, Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • SUMÁRIO 04 EDITORIAL 06 GUIA DE REGRAS 16 AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Cobertura Jornalística do Evento Fernanda Andricopulo Noschang, Gabriela Benites Ferreira, Leonardo Bonetto Caberlon, Nicole Biancardi Goulart e Valentina Ruivo Bressan 32 ASSEMBLEIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS Segurança e Soberania no Ciberespaço Camila Heineck Schwertner, Esther Krüger Silveira, Giovana Tarquinio Demarco, Maria Vitória Paiva dos Santos, Nataly de Oliveira Lemos e Tiago Carvalho Rodrigues 55 ASSEMBLEIA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE Proteção de Florestas Tropicais Arthur Dexheimer Trein, Bibiana de Castro Muller, Felipe Casanova, Gabriel Gomes Constantino e Thaís Lysakowski Ness 79 BANCO MUNDIAL Financiamento de Projetos de Desenvolvimento Urbano Alecsander Hennig, João Pedro Lisbôa Silva, Julia Gomes Stoff els, Mariane Di Domenico e Sérgio Honorina Silva 99 CÂMARA DOS DEPUTADOS Taxação de Grandes Fortunas Ariadne Garcia, Isabella Carpentieri, Luana de Meneses Borba e Magnus Kenji Hernandes Hübler Hiraiwa 113 CONSELHO DE DIREITOS HUMANOS DAS NAÇÕES UNIDAS Promoção dos Direitos Sexuais e Reprodutivos Ana Vitória Mendez, Bruna Queiroz Carvalho, Júlia Käfer Migot, Paula Monique Kunzler Schneider e Paulo Cesar Ribas de Oliveira Filho 134 CONFERÊNCIA SOBRE MEDIDAS DE INTERAÇÃO E CONSTRUÇÃO DE CONFIANÇA NA ÁSIA A Situação da Caxemira Ana Luiza Loh, Daniel da Rosa Ludwig, Julia Marin de Oliveira, Matheus Chiot Teixeira e Thauane Medeiros da Silva 154 CONSELHO DE SEGURANÇA DAS NAÇÕES UNIDAS O Confl ito em Nagorno-Karabakh (1993) Arthur Schneider Gregório, Cláudio Albino Sotero Faes, Fernanda Boldrin de Paiva, Giuseppe Pitana Morrone e Júlia Bergamo de Carvalho 168 COMITÊ ESPECIALIZADO EM DEFESA, PROTEÇÃO E SEGURANÇA DA UNIÃO AFRICANA A Situação na República Democrática do Congo Felipe Guedes Moreira Vieira, Floriane Abreu da Silva, Lucca Medeiros da Silva, Mariana Carneiro Lima e Pietro Gomes Verdum 187 LIGA DOS ESTADOS ÁRABES A Guerra do Golfo (1990) Fernanda Schorn Ebling, Leonardo Beheregaray Seben, Marcos Henrique Silva Alves, Nathália Luize Farias e Thagy Amanay do Amaral 202 ORGANIZAÇÃO DOS ESTADOS AMERICANOS As Crises Democráticas no Continente Americano André Lucas Silva Pereira, Francielle Mazocco, Juliana Ribeiro Lobato, Kauany da Silva Garcia e Pedro Henrique de Almeida Longo 223 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA Medidas de Preservação da Herança Cultural Bruna Biscaia Menezes, Francisca Marques Falcetta, Gianluca Palavro Hoff mann, Raquel Abifadel Fernandes e Tayssa do Rosário Zucchetto UFRGSMUNDI • 4 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • EDITORIAL No Editorial feito ao Guia de Estudos da primeira edição do UFRGSMUNDI — Simulação das Nações Unidas para Secundaristas do Rio Grande do Sul — seu coordenador naquele ano, Professor Paulo Fagundes Visentini, situou a origem do Projeto na “ação de um grupo de estudantes da UFRGS que desejavam democratizar a tradicional simulação em inglês UFRGSMUN, voltada para universitários.” Os resultados obtidos naquela primeira experiência já anunciavam grande mobilização e envolvimento: uma equipe com mais de 40 graduandas1 envolvidas na organização do evento; uma estimativa de 150 jovens de escolas públicas, em sua maioria, inscritas para discutir “desde a erradicação da pobreza até a liberdade de expressão na Internet”, organizadas em cinco comitês. Como legado daquela primeira edição, Visentini pontua que “a política internacional deixa, desta forma, de ser domínio de um grupo de experts, para se popularizar.” O ano era 2011. Nesse prefácio, que se ergue em comemoração à 10ª Edição do UFRGSMUNDI, gostaria de propor dois movimentos: o primeiro, de conexão com a memória daquele momento inaugural, destacando pontos que merecem ser salvaguardados por terem constituído a base de um movimento; o segundo, de aceno ao presente-futuro, aos horizontes que já se projetam nessa nova edição, fi lha de tempos sombrios, testemunha de catástrofes que nos interpelam a todos e todas, exigindo respostas à altura. Recorro, para isso, a um ditado popular aymará, forjado pela sabedoria dos povos indígenas que habitam o altiplano boliviano, que diz uipnayra uñtasis sarnaqapxañani e que pode ser traduzido como “mirando atrás e à frente, ao futuro-passado, podemos caminhar no futuro-presente”. A imagem que acompanha esse aforisma é a de alguém que traça o caminho de volta a seu lugar de origem ao completar um ciclo, encarando de frente o seu passado e carregando o futuro nas costas. Sim: na sabedoria aymará é o passado que vai à frente, com seus legados, suas memórias, seus aprendizados constitutivos. O futuro vem às costas,resultado do movimento de quem caminha, mas nunca totalmente previsível, sempre portador de surpresa. O passado que me parece imprescindível ter à frente nesse ano de 10º aniversário do UFRGSMUNDI emerge daqueles trechos selecionados de seu Primeiro Editorial, que conectam sua gênese a ímpetos de popularização, de democratização, de abertura e de conexão. É preciso lembrar de particularidades daquele momento histórico no que diz respeito especifi camente ao ensino superior: inauguravam-se dezenas de novas Universidades Federais, expandiam-se já consolidadas, ações afi rmativas eram implementadas em todo o Brasil. A própria UFRGS, que em 2008 havia implementado sua política de ações afi rmativas, vinha sendo vigorosamente impactada por esse movimento. É nesse fl uxo que se territorializa e ganha sentido a proposta de popularizar, de expandir um certo modelo, de insurgir-se contra elitismos excludentes, reprodutores de opressões, de segmentações, de privilégios. As estudantes que dão início ao UFRGSMUNDI, em 2011, são fi lhas daquele momento, respondem às suas urgências, às suas demandas, às suas precariedades e conquistas. Olham para as simulações internacionais como eventos que devem ser repactuados, transformados, povoados por outros corpos, outras intensidades, mais públicas, mais democráticas. Olham para as escolas, para estudantes secundaristas e suas professoras, como parceiras estratégicas nesse projeto que também é o de expandir horizontes de futuro. Promovem, assim, proximidades ético-políticas cheias de aposta, de promessa, de possibilidades, entre ensino médio e universitário. Por sua vez, a 10ª edição do MUNDI chega a esse ano marcante com um lema que funciona como convite, mas também como chamada: “Transforme o futuro, lute por novas possibilidades”. Isso não se dá por acaso. Essa edição se levanta em meio a um cenário convulsionado, em que a Pandemia do novo Coronavírus soma-se a outras crises, exigindo respostas multilaterais concertadas, forjadas sobre novas alianças, à altura das demandas civilizatórias que se impõem. A Universidade pública encontra- se sob forte ameaça, sofrendo investidas de desmonte de suas iniciativas de pesquisa e extensão e de deslegitimação do conhecimento aqui produzido. O ENEM sofre revezes. Os processos de seleção para ingresso no ensino superior são suspensos, remarcados, adaptados. Imperam incertezas. No entanto, o presente-futuro que se vai tecendo por essas estudantes - aquelas que organizam o 1 A autora desse prefácio adotará o plural feminino como padrão de escrita mobilizado como decisão conectada às políticas de redução de inequidades de gênero. ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 UFRGSMUNDI • 5 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • evento, universitárias, e aquelas que nele se inscrevem, secundaristas - consegue projetar-se para além da consternação. O MUNDI também se transformou para resistir. Depois de uma reunião decisiva, em que concordamos que a resposta ética e responsável implicava adaptá-lo inteiramente para o formato online, a equipe organizadora passou a trabalhar, com inventividade e imaginação, para responder à necessidade de gerar proximidades, promover integração, nessa modalidade de interação tão marcada pelas distâncias que permite cultivar. Decidiram também realizar um Ciclo de Palestras que funcionou como evento a um só tempo preparatório e autônomo. O evento contou com palestrantes e temas que personifi cam as lutas travadas desde a primeira edição e teve mais de duzentos inscritos, provenientes de 22 diferentes estados brasileiros. Chegamos, portanto, a 2021, com uma estrutura expandida. A resposta do MUNDI à Pandemia foi desdobrar-se, ganhar outros territórios, e não encolher. Mais de 80 estudantes universitárias estão engajadas na organização do evento, que ganha forma em seus 12 comitês (mais do que o dobro daqueles da primeira edição)! Nessa simulação temos a Agência de Comunicação (AC), responsável pela cobertura do evento; a Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU), discutindo Segurança e Soberania no Ciberespaço; a Conferência sobre Medidas de Interação e Construção de Confi ança na Ásia (CICA), discutindo a situação da Caxemira; o Banco Mundial (BM) debatendo o Financiamento de Projetos de Desenvolvimento Urbano; a Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (ANUMA), discutindo a Preservação de Florestas Tropicais; o Conselho de Direitos Humanos (CDH), engajado na Promoção de Direitos Sexuais e Reprodutivos; o Comitê Especializado em Defesa, Proteção e Segurança da União Africana (DPS-UA), dedicado à Situação na República Democrática do Congo (RDC); o Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), concentrado no Confl ito Nagorno- Karabakh (1993); a Liga dos Estados Árabes (LEA), dedicada à Guerra do Golfo (1990); a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), pensando em Medidas de Preservação da Herança Cultural; a Organização dos Estados Americanos (OEA), debruçada sobre as Crises Democráticas no Continente Americano; e a Câmara dos Deputados (CD) reunida em torno da Taxação de Grandes Fortunas. Respondendo aos despojos e às ruínas que se anunciam, mas também evidenciando uma impressionante capacidade de resistir, de imaginar, de (re)criar e de comprometer-se com horizontes de futuro, a 10ª Edição do UFRGSMUNDI anuncia, a partir dos temas escolhidos para seus comitês, as urgências e emergências do tempo que lhe coube, anunciando agendas incontornáveis às Relações Internacionais. Essa edição, com ainda mais ênfase do que as anteriores, desvia dos clichês e contribui com determinação e coragem para a afi rmação de temas até então entendidos como domésticos ou locais como pauta multilateral, capaz de impactar futuros coletivos. Legado dessas estudantes que aqui se encontram nesse momento, que fazem a universidade pública do agora, graças a um passado-presente que não perdemos de vista enquanto caminhamos, a 10ª Edição do UFRGSMUNDI vai-se levantando, plena de convite, de ímpeto e de aposta. Vamos? Profa. Pâmela Marconatto Marques Coord. acadêmica do UFRGSMUNDI UFRGSMUNDI • 6 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • GUIA DE REGRAS REGRAS GERAIS 1 ESCOPO As regras listadas a seguir devem ser aplicadas a todos os comitês simulados no UFRGSMUNDI 2021, à exceção dos comitês com Regras Especiais de procedimento, as quais possuem precedência sobre as Regras Gerais. As Regras Gerais de Procedimento devem ser consideradas já antes das sessões e nenhuma outra regra de procedimento deve ser aplicada. 2 IDIOMA O idioma ofi cial da conferência é o português. Os delegados não terão permissão de se pronunciar à Mesa, aos organizadores ou aos demais delegados em outra língua. 3 DEVERES GERAIS DOS(AS) DELEGADOS(AS) Delegados(as) possuem o dever de respeitar as decisões da Mesa, obter a palavra antes de se pronunciarem, defender os interesses de seu país e atuar de acordo com a política externa de seu país — com decoro diplomático a todo o momento. 4 DEVERES GERAIS DA ORGANIZAÇÃO Cabe ao Secretariado a supervisão do bom funcionamento do evento. As Equipes Acadêmica e Administrativa também são responsáveis pela organização do evento. Qualquer problema ocorrido durante o UFRGSMUNDI poderá ser levado a esses responsáveis pelos(as) delegados(as). 5 DEVERES GERAIS DA MESA Cada comitê será presidido por uma Mesa, composta de um a seis Diretores(as) e Diretores(as)- Assistentes. Além de exercer os poderes que lhe são designados ao longo dessas regras, a Mesa deve declarar a abertura e o encerramento das sessões, conferir o direito de fala e fazer anúncios. O reconhecimento de pontos e de moções também está a cargo da Mesa moderadora, bem como a determinação do tempo limite dos discursos, o controle e a responsabilidade sobre os procedimentos no comitê. A Mesa também pode sugerir moções que considere benéfi cas à fl uidez do debate. A Mesa deve tratar os(as) delegados(as)com cortesia em todos os momentos. 6 DECISÕES DA MESA As decisões da Mesa do comitê são fi nais e não são sujeitas à discussão. Os membros da Mesa possuem poder para substituir e interpretar as regras como quiserem, a fi m de garantir a evolução dos trabalhos do comitê. 7 PLÁGIO O plágio é entendido no escopo dessas regras como o uso não reconhecido das palavras ou ideias de outro indivíduo. Quando escreverem ou discursarem toda a sua participação na conferência, os(as) delegados(as) não têm permissão de usar fragmentos de documentos já existentes sem a referência adequada. Um(a) participante fl agrado(a) plagiando algum documento ou discurso será tratado(a) de acordo com a gravidade da ação. A punição pode incluir a negação dos direitos de fala e/ou voto e possível exclusão da conferência. As medidas legais aplicáveis podem ser tomadas a critério da organização. ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 UFRGSMUNDI • 7 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 8 RESPEITO À DIVERSIDADE Ações de desrespeito à diversidade não serão toleradas. Delegados(as) que promoverem atitudes de preconceito e/ou discrimação de cor, classe, gênero, região e/ou orientação sexual serão convidados(as) a se retirar da conferência. REGRAS DE DEBATE Em todas as regras, uma maioria dos votos será necessária quando houver algum procedimento de votação. Essa maioria é uma “maioria simples”, calculada como sendo a metade da maioria possível de votos mais um, arredondando para baixo. Por exemplo, a maioria simples de 5 é 3. 9 QUÓRUM A presença de uma maioria simples de delegados(as) será necessária para que qualquer votação seja feita. A Mesa irá proceder com a chamada ao início de cada sessão, de modo a reconhecer a presença dos(as) delegados(as). A Mesa irá informar aos(às) delegados(as) o quórum sempre que necessário. 10 DISCURSOS Nenhum(a) delegado(a) poderá se dirigir ao comitê sem previamente obter permissão da Mesa. O tempo de fala deverá ser estipulado anteriormente pela Mesa, ainda que o comitê possa ser consultado antes de chegar a uma decisão sobre o assunto. Quando restar ao(à) delegado(a) dez segundos do seu tempo de fala, a Mesa sinalizará discretamente, por meio do canal de mensagens do Zoom. Quando o tempo total estipulado expirar, a Mesa irá chamar o(a) delegado(a) para encerrar. 11 DOCUMENTO DE TRABALHO Documentos de Trabalho são documentos informais que servem para auxiliar o comitê na discussão do tópico. Os(As) delegados(as) podem propor Documentos de Trabalho para consideração do comitê durante qualquer momento da Conferência. Esses documentos não precisam ser escritos em um formato específi co, mas devem ser aprovados pela Mesa para serem compartilhados com o comitê. Não há a necessidade de signatários no Documento de Trabalho. Observadores podem apresentar Documentos de Trabalho, mas suas assinaturas não contarão para os fi ns de introdução de um Rascunho de Resolução ou Emendas. 12 PONTO DE ORDEM O Ponto de Ordem é a ferramenta pela qual os(as) delegados(as) podem se dirigir diretamente à Mesa e serve para expressar difi culdades que estejam sendo enfrentadas pelos(as) delegados(as). Alguns exemplos de situações em que o Ponto de Ordem pode ser levantado são as seguintes: difi culdade de compreensão da fala de outro(a) delegado(a); problemas técnicos ou com a plataforma Zoom; e dúvidas em relação às regras e ao fl uxo do debate. 13 DEBATE Existem três formas de discussão pelas quais as sessões podem ser conduzidas. Os(As) delegados(as) podem requisitar a última a qualquer momento do debate, enquanto a primeira é obrigatória e exclusiva para a primeira sessão. 13.1 DINÂMICA DA 1ª SESSÃO: DEBATE FORMAL-FORMAL A primeira sessão de debate, por ser o momento de abertura das discussões, possui um procedimento diferente das demais sessões. Em um primeiro momento, ocorrerá uma Rodada de UFRGSMUNDI • 8 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • Discursos Iniciais, na qual cada delegação, em ordem alfabética, terá direito a uma fala para expor sua posição e suas principais ideias sobre o tópico por um período de tempo pré-determinado pela Mesa. Terminadas todas as falas, o debate iniciará em seu fl uxo normal. 13.2 FLUXO NORMAL DE DEBATE: DEBATE FORMAL-INFORMAL O fl uxo normal de debate é a forma pela qual será conduzido o debate ao longo das sessões, é chamado também de debate formal-informal e corresponde a um debate moderado pela Mesa. Delegados(as) que desejam se pronunciar durante o debate não moderado podem usar a ferramenta de “Levantar a Mão” do Zoom e serão reconhecidos pela Mesa a seu critério. 13.3 MOÇÃO PARA DEBATE NÃO MODERADO As Moções são a ferramenta pela qual os(as) delegados(as) podem sugerir a alteração do fl uxo normal de debate. Um debate não moderado leva a Mesa a suspender o debate formal-informal para que os(as) delegados(as) possam debater sem interferência, relaxando a estrutura do debate imposto pelos procedimentos gerais. Delegados(as) podem pedir um debate não moderado sempre que a palavra estiver disponível. Levantada a Moção, o(a) delegado(a) deverá informar por quanto tempo deseja manter o debate não moderado. A Mesa então irá perguntar aos delegados do comitê se há oposição a essa Moção. Não havendo nenhuma oposição, o comitê entra automaticamente em debate não moderado. Havendo oposição, a Mesa irá proceder com a votação, que requer uma maioria simples para ser aprovada. O debate não moderado tem limite de 45 minutos por sessão. 14 MOÇÃO PARA ADIAMENTO DA SESSÃO Quando a Mesa anunciar que a Moção para Adiamento da Sessão está em ordem, os(as) delegados(as) poderão pedi-la. Essa moção não será discutida, sendo submetida à votação no caso de não existir Ponto de Ordem, o qual possui precedência. Uma vez solicitado, a Mesa perguntará se alguma delegação se opõe. Caso não haja consenso sobre o adiamento da sessão, a Mesa conduzirá uma votação, sendo uma maioria simples necessária para sua aprovação. Após o adiamento da sessão, o comitê irá se reunir novamente no próximo horário marcado para a sessão. Assim como em todas as Moções, a Mesa pode defi nir a Moção para Adiamento da Sessão como fora de contexto. ELABORAÇÃO, INTRODUÇÃO E VOTAÇÃO DE RESOLUÇÕES 15 RASCUNHO DE RESOLUÇÃO O Rascunho de Resolução é a versão da resolução que os delegados elaboram e apresentam ao comitê antes de votarem se a aceitam ou não. O Rascunho deve conter todos os aspectos presentes em uma resolução fi nal, mas pode ser alterado antes de aprovado, ou dividido, caso os(as) delegados(as) desejem votar partes separadamente (ver seção 19). Os(As) delegados(as) podem elaborar quantos Rascunhos de Resolução forem necessários, até que algum seja aprovado — mas uma vez introduzido, cada Rascunho é discutido, alterado e votado individualmente. Antes de serem introduzidos ao debate, todos os Rascunhos de Resolução devem ser submetidos à Mesa para verifi cação. Uma vez verifi cado e aprovado pela Mesa, o Rascunho será apresentado para debate. Nesse momento, a Mesa dará o direito de fala a delegações que se voluntariem a ler o Rascunho em voz alta a todos(as) os(as) demais delegados(as), levando o tempo que for necessário para tal. Depois de lido o Rascunho, a Mesa perguntará por dúvidas, que devem ser limitadas a questões de gramática ou assuntos técnicos no documento, não devendo remeter ao conteúdo do Rascunho de Resolução. A partir deste momento, o debate volta a seu fl uxo normal e passam a estar disponíveis para solicitação as Moções para Debate Não Moderado, para Introdução de Emenda, para Divisão da Questão e para Votação por Chamada. ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 UFRGSMUNDI • 9 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 16 DELEGAÇÕES E VOTO Cada representação deve ter um voto. Votações devem ser feitas por meio do recurso da ferramenta de “Levantar a Mão” do Zoom, exceto em ocasiões em que o procedimento de Votação por Chamada for requisitado. Cada delegado(a) poderávotar a favor, contra ou se abster de votar. Quando, porém, os(as) delegados(as) julgarem que há consenso com relação a alguma questão, não haverá necessidade de votação. 17 APROVAÇÃO POR CONSENSO Após a leitura do Rascunho de Resolução, a Mesa perguntará se a Resolução passa por consenso, ou seja, se todas as delegações estão de acordo com o texto proposto. Se todas as delegações responderem afi rmativamente, a Resolução é aprovada por consenso. Caso contrário, volta-se ao fl uxo normal do debate e outras Moções passam a estar em ordem. 18 MOÇÃO PARA INTRODUÇÃO DE EMENDA Delegados(as) podem emendar qualquer Rascunho de Resolução que esteja em discussão, ou seja, adicionar, subtrair ou modifi car partes de um Rascunho de Resolução. A Moção para Introdução de Emenda poderá ser levantada após a introdução do Rascunho de Resolução, e não precisa de votação para passar, devendo apenas ser aprovada pela Mesa. Essa moção tem precedência sobre as moções para Divisão da Questão e Votação por Chamada. Uma vez aprovada a moção para Introdução de Emenda, o fl uxo de debate será automaticamente alterado para a forma de debate não moderado, por tempo indeterminado ou até que todas as propostas de Emenda tenham sido debatidas. Neste momento, delegados(as) com propostas de Emenda devem apresentá-las aos demais, e a ordem em que as Emendas serão discutidas deve ser decidida pelos(as) próprios(as) delegados(as) durante o debate não moderado. A cada Emenda apresentada, as delegações devem, com a supervisão da Mesa, verifi car se há consenso para que seja aplicada. Caso haja consenso, a Emenda passa automaticamente em forma de Emenda Amigável e é incorporada diretamente ao Rascunho de Resolução em discussão. Se não houver consenso quanto à Emenda, a Mesa conduzirá a votação para Aprovação de Emenda, que requer uma maioria simples para ser aprovada. Caso rejeitada, os(as) delegados(as) devem debater as próximas emendas por meio do mesmo procedimento, até que não haja mais novas propostas. Quando não houver mais propostas de introdução de Emenda, o debate seguirá o fl uxo normal até que alguém introduza a Divisão da Questão, a Votação do Rascunho de Resolução ou o Adiamento da Sessão. 19 MOÇÃO PARA DIVISÃO DA QUESTÃO A Divisão da Questão poderá ser solicitada por qualquer delegação e serve para dividir o Rascunho de Resolução em duas ou mais partes, para votá-las separadamente. Essa Moção estará disponível a partir do momento em que o Rascunho de Resolução for introduzido e tem precedência sobre a moção para Votação por Chamada. Uma vez solicitada, a Mesa perguntará se alguma delegação se opõe. Se não houver oposição, a moção automaticamente passa. Se, contudo, não houver consenso, é necessária uma maioria simples para passar. É importante frisar que as Cláusulas Preambulatórias da Resolução não podem ser divididas. Se for aprovada, o debate automaticamente assumirá a forma de debate não moderado, durante o tempo que for necessário ou que a Mesa julgar adequado. Durante esse tempo, os(as) delegados(as) poderão discutir, elaborar e apresentar diferentes propostas de Divisão de Questão e organizar a ordem em que serão votadas, da mais severa (mais divisões) para a menos severa (menos divisões). Se duas propostas forem igualmente severas, recomenda-se que se inicie pela primeira proposta apresentada. Uma vez organizadas as propostas, a Mesa encerrará o debate não moderado e conduzirá as votações de cada proposta, que precisarão de maioria simples para aprovação. Se nenhuma proposta de Divisão da Questão for aprovada por maioria simples, o Rascunho de Resolução será votado como um todo. Se alguma proposta de Divisão da Questão for aceita, o Rascunho UFRGSMUNDI • 10 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • de Resolução será automaticamente dividido para votação da forma aceita pelos delegados, e haverá uma votação separada para cada parte dividida. Uma maioria simples é necessária para aprovação de cada parte dividida, e abstenções são permitidas. Uma vez votadas todas as partes, as Cláusulas que permaneceram no Rascunho de Resolução deverão ser votadas como uma Resolução inteira. Se todas as Cláusulas forem rejeitadas durante a Divisão da Questão, o Rascunho de Resolução será considerado como tendo falhado como um todo. 20 MOÇÃO PARA VOTAÇÃO POR CHAMADA A Votação por Chamada pode ser solicitada para qualquer votação relacionada à Resolução. A Moção para Votação por Chamada é automaticamente aprovada e não precisa ser votada para passar. Durante a Votação por Chamada, a Mesa reconhecerá, em ordem alfabética, cada delegado(a) votante, o qual deverá informar seu voto. Delegados(as) podem votar a favor, contra, ou se abster. Durante o procedimento, delegados(as) podem escolher “passar sua vez”. Nesse caso, a Mesa deverá refazer a chamada após ter chamado todas as delegações uma primeira vez, para que os(as) delegados(as) que passaram a vez possam dar seu voto defi nitivo. Contudo, após passarem sua vez, os(as) delegados(as) não poderão se abster quando forem chamados(as) de novo, devendo defi nir seu voto como “a favor” ou “contra”. Delegados(as) só podem passar uma vez. TABELA COM REGRA/VOTOS/COMENTÁRIOS REGRA VOTOS COMENTÁRIO Ponto de Ordem Não se aplica Pode ser pedido a qualquer momento, para tirar dúvidas com relação às regras ou para informar desconforto ou difi culdade por algum(a) delegado(a) Moção para Adiamento da Sessão Maioria Simples Usada para adiar a reunião até a próxima sessão do Comitê Moção para Debate Não Moderado Maioria Simples Tem como objetivo facilitar o debate. O tempo limite é proposto pelo(a) delegado(a) e aceito pela Mesa, não podendo ultrapassar 45 minutos por sessão Moção para Introdução de Emenda Aprovada pela Mesa, não precisa ser votada Uma vez aprovada pela Mesa, transforma o debate em informal- informal Votação de Emenda Maioria Simples Emendas passam por consenso se aceitas por todos(as) os(as) delegados(as) durante o debate não moderado; caso contrário, a Mesa conduz uma votação. Nesse caso, é necessária maioria simples para aprovação Moção para Divisão da Questão Maioria Simples Moção para que a resolução seja votada em artigos individuais ao invés de como um documento único. Se aceita, transforma o debate em informal-informal automaticamente ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 UFRGSMUNDI • 11 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • Moção para Votação por Chamada Aprovada pela Mesa, não precisa ser votada Realizada por chamada em ordem alfabética. Delegados(as) podem votar a favor, contra, se abster ou passar a vez. No caso de o(a) delegado(a) passar a vez, ele(a) será chamado(a) ao fi nal da votação e não poderá se abster novamente 21 ESCREVENDO RASCUNHOS DE RESOLUÇÃO Para comitês que simulam órgãos das Nações Unidas, não se aprovam “leis”, e sim Resoluções. A Resolução pode ser um meio de expressar uma opinião do comitê sobre algum assunto importante, recomendar ações a serem tomadas pelos países ou mesmo pressioná-los a tomá-las. Rascunhos de Resolução não devem ser elaborados por uma única delegação — para que possam ser introduzidos no debate, recomenda-se que tenham circulado entre o maior número possível de delegações, para que possam incorporar diversas perspectivas. Delegados(as) não podem trazer Rascunhos de Resolução prontos para a conferência, visto que isso aliena as outras delegações presentes no comitê. O processo de escrever Resoluções no comitê com outros(as) delegados(as) tem por objetivo ensiná-los(as) formas de negociação e concessão. Quando escrevendo e apoiando uma Resolução, tenha em mente que as palavras irão infl uenciar fortemente seu apelo. A Resolução, portanto, deve ser clara, concisa e específi ca. O assunto deve ser bem pesquisado e debatido, e deve refl etir o caráter e o interesse das nações apoiadoras. 22 ELABORANDO UMA RESOLUÇÃO Resoluções da ONU seguem um formato comum. Uma resoluçãoé uma longa sentença, com vírgulas e ponto-e-vírgulas usados para separar ideias, e um ponto no fi nal do documento. Elas devem ter apenas um espaço simples entre elas, com cada linha numerada na margem esquerda. Resoluções consistem em três partes principais: (i) Cabeçalho; (ii) Cláusulas Preambulatórias; e (iii) Cláusulas Operativas. 22.1 CABEÇALHO O Cabeçalho do Rascunho de Resolução deve ser como segue: COMITÊ: o nome do órgão em que foi introduzido; ASSUNTO: o tópico da resolução; ELABORADO POR: lista de nações que auxiliaram em sua elaboração. Um número será dado ao documento como parte do cabeçalho e ele será referido por este número para a simulação. 22.2 CLÁUSULAS PREAMBULATÓRIAS No preâmbulo de uma Resolução não serão encontradas cláusulas propondo ações nem declarações substantivas. As cláusulas preambulatórias explicam o propósito da Resolução e declaram as principais razões para as sugestões que seguem. É no preâmbulo que resoluções passadas da ONU (ou da organização simulada) são referenciadas e precedentes relevantes do direito internacional são citados. O preâmbulo também pode incluir apelos altruísticos ao senso comum ou aos instintos humanitários dos Estados-membros com referência à Carta das Nações Unidas, à Declaração Universal dos Direitos Humanos, entre outros. Cada cláusula começa com uma partícula em itálico e contém uma vírgula ao fi nal da sentença. UFRGSMUNDI • 12 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • As palavras a seguir são sugestões de introduções apropriadas para resoluções: Acolhendo Percebendo Acreditando Procurando Acreditando completamente em Profundamente convencido Afi rmando Profundamente perturbado Alarmado por Profundamente preocupado Aprovando Reafi rmando Ciente de Reconhecendo Confi dente Recordando Convencido Tendo adotado Cumprindo Tendo analisado Declarando Tendo considerado Deplorando Tendo debatido Desejando Tendo em mente Enfatizando Tendo escutado Esperando Tendo estudado Guiado por Tendo examinado Lamentando profundamente Tendo recebido Levando em consideração Totalmente alarmado Notando com aprovação/lamento/satisfação Totalmente ciente de Observando Vendo com apreensão 22.3 CLÁUSULAS OPERATIVAS As cláusulas operativas listam as recomendações para ação ou declaram uma opinião favorável ou desfavorável em relação a uma situação existente. Essas cláusulas podem requisitar ação dos Estados- membros, do Secretariado ou de qualquer agência ou corpo da ONU. Essas ações podem ser vagas, como a denúncia de certa situação ou um convite a negociações, ou específi cas, como um convite a um cessar-fogo ou um comprometimento monetário para um projeto particular. Lembre-se de que apenas as Resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas são vinculantes aos Estados-membros; outros órgãos podem apenas fazer recomendações. Cláusulas operativas começam com um verbo ativo no tempo presente e são seguidas de ponto-e-vírgulas no fi nal da sentença. A primeira palavra de cada cláusula operativa é escrita em itálico. Cláusulas operativas são numeradas, começando com “1”. As palavras a seguir são sugestões de termos apropriados para iniciar cláusulas operativas: Aceita Convida Decide Expressa Relembra Afi rma Comanda Declara Lamenta Requer Apoia Condena Demana Proclama Resolve Aprova Condena fortemente Designa Reafi rma Toma nota de Autoriza Congratula Encoraja Recomenda Transmite ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 UFRGSMUNDI • 13 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • Chama a atenção Confi rma Endossa Recomenda fortemente Urge Clama Considera Enfatiza Reitera - 23 EXEMPLO DE RASCUNHO DE RESOLUÇÃO RASCUNHO DE RESOLUÇÃO Nº 1 Conselho de Segurança das Nações Unidas; Problemas referentes à paz relativos a atos terroristas; Elaborado por: Reino Unido, Togo, Marrocos, Guatemala e Rússia. O Conselho de Segurança das Nações Unidas, Reafi rmando as resoluções 1269 (1999) de 19 de outubro de 1999 e 1368 (2001) de 12 de setembro de 2001, Reafi rmando também a condenação inequívoca dos ataques terroristas ocorridos em Nova York, Washington, D.C. e Pensilvânia, em 11 de setembro de 2001, e expressando a determinação de prevenir esses atos, Reafi rmando ademais que tais atos, como quaisquer outros atos de terrorismo internacional, constituem uma ameaça à paz e à segurança internacional, Reafi rmando o direito inerente de legítima defesa individual ou coletiva tal como reconhecido pela Carta das Nações Unidas e reiterado na resolução 1368 (2001), Relembrando a necessidade de combater por todos os meios, em conformidade com a Carta das Nações Unidas, ameaças à paz e à segurança internacionais causadas por atos terroristas, Profundamente preocupado com o aumento, em várias regiões do mundo, de atos de terrorismo motivados pela intolerância ou o extremismo, Instando os Estados a trabalharem urgentemente em conjunto para prevenir e reprimir atos terroristas, inclusive por meio de maior cooperação e de implementação integral das convenções internacionais específi cos sobre terrorismo, Reafi rmando o princípio estabelecido pela Assembleia Geral na declaração de outubro de 1970 (resolução 2625 (XXV)) e reiterado pelo Conselho de Segurança na resolução de 1189 (1998) de 13 de agosto de 1998, qual seja o de que todo Estado tem a obrigação de abster-se de organizar, instigar, auxiliar ou participar de atos terroristas em outro Estado ou permitir, em seu território, atividades organizadas com o intuito de promover o cometimento desses atos, Atuando ao abrigo do Capítulo VII da Carta das Nações Unidas, 1. Decide que todos os Estados devem: a. Prevenir e reprimir o fi nanciamento de atos terroristas; b. Criminalizar o fornecimento ou captação deliberados de fundos por seus nacionais ou em seus territórios, por quaisquer meios, diretos ou indiretos, com a intenção de serem usados ou com o conhecimento de que serão usados para praticar atos terroristas; c. Congelar, sem demora, fundos e outros ativos fi nanceiros ou recursos UFRGSMUNDI • 14 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • econômicos que perpetram, ou intentam perpetrar, atos terroristas, ou participam em ou facilitam o cometimento desses atos. Devem também ser congelados os ativos de entidades pertencentes ou controladas, direta ou indiretamente, por essas pessoas, bem como os ativos de pessoas ou entidades atuando em seu nome ou sob seu comando, inclusive fundos advindos ou gerados por bens pertencentes ou controlados, direta ou indiretamente, por tais pessoas e por seus sócios e entidades; d. Proibir seus nacionais ou quaisquer pessoas e entidades em seus territórios de disponibilizar quaisquer fundos, ativos fi nanceiros ou recursos econômicos ou fi nanceiros ou outros serviços fi nanceiros correlatos, direta ou indiretamente, em benefício de pessoas que perpetram, ou intentam perpetrar, facilitam ou participam da execução desses atos; em benefício de entidades pertencentes ou controladas, direta ou indiretamente, por tais pessoas; em benefício de pessoas e entidades atuando em seu nome ou sob seu comando; 2. Decide também que todos os Estados devem: a. Abster-se de prover qualquer forma de apoio, ativo ou passivo, a entidades ou pessoas envolvidas em atos terroristas, inclusive suprimindo o recrutamento de membros de grupos terroristas e eliminando o fornecimento de armas aos terroristas; b. Tomar as medidas necessárias para prevenir o cometimento de atos terroristas, inclusive advertindo tempestivamente outros Estados mediante intercâmbio de informações; c. Recusar-se a dar refúgio aqueles que fi nanciam, planejam, apoiam ou perpetram atos terroristas, bem como aqueles que dão refúgio a essas pessoas; d. Impedir a utilização de seus respectivos territórios por aqueles que fi nanciam, planejam, facilitam ou perpetram atos terroristas contra outros Estados; e. Assegurar que qualquer pessoa que participe do fi nanciamento, planejamento,preparo ou perpetração de atos terroristas ou atue em apoio destes seja levado a julgamento; assegurar que, além de quaisquer outras medidas contr o terrorismo, esses atos terroristas sejam considerados graves delitos criminais pelas legislações e códigos nacionais e que a punição seja adequada à gravidade desses atos; f. Auxiliar-se mutuamente, da melhor forma possível, em matéria de investigação criminal ou processos criminais relativos ao fi nanciamento ou apoio a atos terroristas, inclusive na cooperação para o fornecimento de provas que detenha necessárias ao processo; g. Impedir a movimentação de terroristas ou grupos terroristas mediante o efetivo controle de fronteiras e o controle da emissão de documentos de identidade e de viagem, bem como por medidas para evitar a adulteração, a fraude ou o uso fraudulento de documentos de identidade e de viagem; 3. Exorta todos os Estados a: a. Encontrar meios de intensifi car e acelerar o intercâmbio de informações operacionais, especialmente com relação às ações ou movimentações de terroristas e de suas redes; com relação à fraude ou falsifi cação de documentos de viagem; com relação ao tráfi co de armas, explosivos ou materiais sensíveis; com relação ao uso de tecnologias de comunicação por grupos terroristas; e com relação à ameaça causada pela posse de armas de destruição em massa por ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 UFRGSMUNDI • 15 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • grupos terroristas; b. Intercambiar informações em conformidade com as leis nacionais e o direito internacional e cooperar em assuntos administrativos e judiciários para evitar o cometimento de atos terroristas; c. Cooperar, particularmente por intermédio de arranjos e acordos bilaterais e multilaterais, para prevenir e reprimir o cometimento de ataques terroristas, bem como adotar medidas contra os perpetradores desses atos; d. Tornar-se parte, tão logo quanto possível, das convenções e protocolos internacionais específi cos sobre terrorismo, inclusive a Convenção Internacional para a Supressão do Financiamento do Terrorismo de 9 de dezembro de 1999; e. Incrementar a cooperação e implementar integralmente as convenções e protocolos internacionais específi cos sobre terrorismo, bem como as resoluções 1269 (1999) e 1368 (2001) do Conselho de Segurança; f. Tomar as medidas apropriadas em conformidade com as disposições das legislações nacionais e do direito internacional, inclusive de acordo com os padrões internacionais de direitos humanos, antes de conceder o status de refugiado, de modo a assegurar que o mesmo não seja concedido a solicitante que tenha planejado, facilitado ou participado da execução de atos terroristas; g. Assegurar, em conformidade com o direito internacional, que o instituto do refúgio não seja indevidamente utilizado por perpetradores, organizadores ou cúmplices de atos terroristas, e que a alegação de motivação política do crime não seja reconhecida como fundamento para denegar a extradição de acusados de terrorismo; 4. Ressalta com preocupação a estreita ligação entre o terrorismo internacional e o crime organizado transnacional, o narcotráfi co, a lavagem de dinheiro, o contrabando de materiais nucleares, químicos, biológicos e outros materiais potencialmente mortíferos, e, nesse sentido, enfatiza a necessidade de incrementar a coordenação de esforços nos níveis nacional, sub-regional, regional e internacional de modo a fortalecer uma reação global a essa séria ameaça e desafi o à segurança internacional; 5. Declara que atos, métodos e práticas de terrorismo são contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas, e que o fi nanciamento, planejamento e incitamento deliberado de atos terroristas são igualmente contrários aos propósitos e princípios das Nações Unidas; 6. Decide estabelecer, nos termos da regra 28 das Regras Provisórias de Procedimento, um Comitê do Conselho de Segurança, constituído por todos os membros do Conselho, com o objetivo de monitorar, com a assistência de peritos, a implementação desta resolução; e exorta todos os Estados a informar àquele Comitê as medidas adotadas para implementar esta resolução no prazo de 90 dias, a contar da data de sua aprovação, e subsequentemente de acordo com cronograma a ser proposto por aquele Comitê; 7. Expressa sua determinação de tomar todas as medidas necessárias a fi m de assegurar a implementação integral desta resolução, de acordo com as responsabilidades que lhe confere a Carta; 8. Decide manter essa questão sob sua consideração. UFRGSMUNDI • 16 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO Cobertura Jornalística do Evento Fernanda Andricopulo Noschang, Gabriela Benites Ferreira, Leonardo Bonetto Caberlon, Nicole Biancardi Goulart e Valentina Ruivo Bressan1 1 Graduandas e graduando dos cursos de Jornalismo e Relações Públicas na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO • 17 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • QUESTÕES NORTEADORAS (1) Qual você acredita que é a função do jornalismo? (2) Como você vê as organizações internacionais nos meios de comunicação que você acompanha? APRESENTAÇÃO Os Modelos das Nações Unidas reúnem estudantes para serem diplomatas de um determinado país, defendendo sua política externa em um comitê da Organização das Nações Unidas (ONU) ou em outras organizações. A Agência de Comunicação (AC) tem como função realizar a cobertura jornalística desse evento, desempenhando um importante papel na divulgação dos acontecimentos de maneira ágil e comprometida com a veracidade dos fatos. O guia a seguir explica como é feito o trabalho da AC no evento UFRGSMUNDI. Assim, é de suma importância que os estudantes entendam como os jornalistas devem se comportar nas simulações e como deve ser estruturada uma notícia. Além disso, nesse guia ainda explicaremos como o jornalismo tem atuado durante a pandemia, seja em relação ao combate às fake news ligadas à COVID-19, ou à cobertura de pautas com temáticas relacionadas à saúde e à economia. Em síntese, apresentaremos os aspectos que aproximam a rotina da Agência de Comunicação da realidade da imprensa internacional, bem como a importância dos veículos de comunicação para as relações internacionais e para a sociedade. Diante disso, o objetivo deste guia é auxiliar na elaboração dos materiais textuais e audiovisuais que serão postados nas redes sociais ao longo dos dias de simulação. 1 TEORIA E PRÁTICA Aqui apresentaremos o que se entende por jornalismo, qual a sua função enquanto instituição social e os processos pertinentes à construção da notícia, o principal produto jornalístico. Desse modo, este tópico está subdividido em três partes: a função do jornalismo, a notícia e os critérios de noticiabilidade e o processo de elaboração da notícia. 1.1 A FUNÇÃO DO JORNALISMO O jornalismo é um campo profi ssional responsável por difundir informações que auxiliem na formação da opinião pública (GOMES, 2004). O jornalismo é entendido como um condutor de comunicação que serve “para equipar os cidadãos com instrumentos vitais para o exercício dos seus direitos e a expressão de suas preocupações’’ (BRUN, 2011). Os veículos jornalísticos também podem ser considerados como uma espécie de “cão de guarda”, ou seja, que atua na denúncia e na investigação de escândalos públicos. O jornalismo, portanto, se torna extremamente necessário para a efetividade de uma democracia, já que averigua outros poderes, como o que acontece no âmbito político, por exemplo, e divulga essas informações para a sociedade, de maneira que o público tome conhecimento do que acontece no país e no mundo e possa tomar as próprias decisões no dia a dia de forma empoderada – não é à toa que a imprensa é considerada um “quarto poder” (TRAQUINA, 2005b). Nesse sentido, o jornalismo pode cumprir doispapéis: 1) com a liberdade “negativa”, vigiar o poder político e proteger os cidadãos dos eventuais abusos dos governantes; 2) com a liberdade “positiva”, fornecer aos cidadãos as informações necessárias para o desempenho das suas responsabilidades cívicas, tornando central o conceito de serviço público como parte da identidade jornalística (TRAQUINA, 2005a, p. 50). Para cumprir com o papel de guardião da democracia, é preciso que o jornalista tenha em mente dois conceitos centrais: a objetividade e a imparcialidade. Essas duas normas profi ssionais pretendem pôr em prática um jornalismo que seja livre de opiniões e ideologias, garantindo que as pessoas tenham acesso a notícias que sejam comprometidas com a realidade dos fatos. UFRGSMUNDI • 18 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • A objetividade pode ser entendida enquanto um compromisso ético, do jornalista, ou como uma série “de técnicas aplicáveis aos modos de obter, trabalhar e narrar a informação” (LOPES, 2010, p. 881- 882). Considerando que a busca pela verdade é um princípio do jornalismo, a objetividade se trata dos métodos empregados pela imprensa para se aproximar ao máximo dos fatos, verifi cando as informações de forma rigorosa ao longo da apuração e da redação das notícias e reportagens (KOVACH; ROSENSTIEL, 2001). É a partir da objetividade que o jornalista apresenta os acontecimentos “de modo claro, conciso, veraz, apresentando provas, equilibrando vozes das fontes envolvidas, evitando adjetivações e juízos de valor, mostrando independência em relação a interesses” (LOPES, 2010, p. 881-882). No mesmo caminho que a objetividade, a imparcialidade lembra que o jornalista não deve colocar seus julgamentos pessoais e suas próprias opiniões nas notícias. A função do jornalismo é interpretar, analisar e apurar a veracidade das informações, de forma objetiva, garantindo que os indivíduos tenham os elementos necessários para entender o que ocorre no mundo contemporâneo. Nesse sentido, a imparcialidade deve ser utilizada como uma técnica que garanta que o jornalista seja justo em relação aos fatos e ao entendimento do público sobre eles (KOVACH; ROSENSTIEL, 2001). Assim, “esclarecer o cidadão e apresentar a pluralidade da sociedade” (REGINATO, 2016, p. 218) é um dos objetivos da prática jornalística. 1.2 NOTÍCIA E CRITÉRIOS DE NOTICIABILIDADE A notícia é um dos principais produtos do jornalismo: é nela que se exprimem as informações sobre um fato. Ela pode estar presente em diferentes canais: jornal impresso, sites de notícias online, televisão, rádio, entre outros. Mas é importante pontuar que não são todos os fatos cotidianos que viram notícia – é necessário seguir alguns critérios. Os critérios de noticiabilidade, ou valores-notícia — como são conhecidos —, variam de acordo com o veículo, mas existem alguns que são recorrentes em todos eles. Eles são divididos em dois grupos: os valores-notícia de seleção, que são aqueles que os jornalistas usam para escolher qual acontecimento se tornará notícia (subdivididos em substantivos e contextuais); e os valores notícia de construção, que são acionados na construção do texto, com o objetivo de simplifi car e ampliar o entendimento do acontecimento (TRAQUINA, 2008). Os substantivos “dizem respeito à avaliação direta do acontecimento em termos da sua importância ou interesse como notícia” e são eles: a morte, a notoriedade da pessoa envolvida, a proximidade geográfi ca e cultural, a relevância do assunto, o tempo — como em aniversários de grandes acontecimentos, a infração, entre outros. (TRAQUINA, 2008, p. 78) Para a cobertura da Agência de Comunicação do UFRGSMUNDI, o critério de notoriedade é usado para dar destaque aos posicionamentos dos delegados representantes das nações e aos pronunciamentos das autoridades dos comitês. O critério de proximidade também se faz presente através da cobertura dos países geografi camente ou culturalmente próximos ao país de origem do jornal selecionado para cobrir o comitê. Em último, o valor de novidade será usado com frequência durante a simulação por ser a essência da notícia: o que é novo dentro das discussões dos comitês será noticiado. Os critérios contextuais tratam exatamente do contexto da cobertura jornalística no dia-a-dia e são elencados como: a disponibilidade do jornalista em cobrir o assunto e o equilíbrio em relação a quantidade de vezes que o fato já foi noticiado. Outros valores de contexto são a concorrência, o dia noticioso e o apelo visual do assunto (TRAQUINA, 2008). O segundo grupo são valores de construção e são compostos pela simplifi cação do texto, pela amplifi cação do acontecimento, pela personalização, dentre outros fatores. Esses critérios destacam alguns elementos dentro do acontecimento que merecem ser incluídos no texto da notícia. (TRAQUINA, 2008). Para além desses critérios, a política editorial de um veículo comunicacional também infl uencia na construção da notícia. A separação em editorias — como economia, política, cidade, saúde — e revistas especializadas em determinados assuntos, contribuem para a maior ou menor cobertura de um assunto. A direção dos donos dos veículos também pode infl uenciar no peso dos valores-notícia, dando prioridade a um tema no lugar de outro (TRAQUINA, 2008). Essa característica guia a cobertura da simulação pelos jornais selecionados para cada comitê, que serão melhor abordados posteriormente. A defi nição de notícia e sua construção através dos critérios de noticiabilidade são elementos que contribuem para a função informativa do jornalismo. Além dos critérios de noticiabilidade, existem outros processos profi ssionais que envolvem a produção de uma notícia. Após defi nir qual fato vai virar ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO • 19 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • notícia ou não é preciso elaborar uma pauta e, em seguida, fazer a apuração do acontecimento: são essas técnicas que explicaremos a seguir. 1.3 PROCESSO DE ELABORAÇÃO DA NOTÍCIA Elaborar uma notícia vai além de defi nir qual acontecimento será veiculado: o processo passa pela defi nição da pauta, pela apuração (com entrevistas e checagens), pela redação e pela edição. No entanto, essas etapas não são todas desempenhadas por um jornalista apenas. A etapa da edição, por exemplo, é feita pelo editor do jornal, cujo trabalho consiste em revisar a matéria já construída, fazendo as adequações necessárias no texto, seja em relação à linguagem ou estrutura, para que a notícia se enquadre na editoria em que foi proposta. Por serem duas técnicas fundamentais no trabalho de um jornalista, explicaremos, a seguir, como funcionam os processos de elaboração da pauta e da apuração de uma notícia. 1.3.1 PAUTA A pauta é o pontapé inicial para a formulação da notícia. É o momento de planejar quais temas serão abordados na próxima edição, ou seja, é ela quem guia todo o trabalho do jornalista. Em uma redação, as pautas podem ser sugeridas tanto pelos repórteres quanto pelos editores, ao selecionar os acontecimentos mais recentes e relevantes que devem ser noticiados, além de temas gerais que contemplem o interesse público. Então, estar sempre bem informado e atento ao que está acontecendo é essencial para ser um bom jornalista (LAGE, 2001). Do ponto de vista prático, a pauta deve servir de roteiro para o repórter e, portanto, deve incluir em sua sistematização: o tema geral e os tópicos relacionados que devem ser apurados; perguntas sobre o tema, cujas respostas o repórter deve buscar ao longo da reportagem; nomes e contatos de possíveis fontes para a matéria; e recursos técnicos e fi nanceiros necessários, considerando, em uma matéria audiovisual, por exemplo, o uso de câmeras e os deslocamentos necessários para as gravações (LAGE, 2001). Em relação ao tipo de pauta, ela pode ser factual ou não. As pautas factuais são conhecidas como “quentes”, ou seja, estão ligadas aos fatos que estão acontecendono agora, no presente, ou que aconteceram em um passado breve, mas que, por alguns fatores, ainda estão repercutindo no cotidiano da sociedade. Exemplos dessa categoria podem ser o aumento do dólar e o pronunciamento de um presidente. Já as pautas não-factuais, ou “frias”, são aquelas que não estão obrigatoriamente relacionadas com acontecimentos atuais, sendo mais utilizadas em reportagens. Assim, podemos exemplifi car com temas direcionados ao comportamento, como o crescente número de usuários nas redes sociais ou os pontos turísticos de uma cidade. Além disso, em casos em que o assunto perde seu valor noticioso ou algum fato mais urgente acontece, os jornalistas podem desistir da pauta, prática conhecida como o jargão “a pauta caiu”. Para exemplifi car, podemos citar a pauta que ia para o jornal sobre a reestruturação do centro histórico da cidade que precisou ser retirada da edição para dar espaço à cobertura de uma catástrofe (LAGE, 2001). 1.3.2 APURAÇÃO A apuração é a etapa em que os jornalistas partem para a ação. Aqui, é necessário pensar quais fontes precisam ser consultadas para apurar da melhor maneira o fato. Nesse contexto, é importante seguir a Lei das Três Fontes, prática que consiste em entrar em contato com, no mínimo, três fontes e cruzar as informações obtidas para encontrar a versão verdadeira do acontecimento. O repórter não pode bancar uma informação sem antes consultar outras referências e a pressa não pode ser um motivo para uma apuração mal feita (PEREIRA JUNIOR, 2006). É fundamental que um jornalista tenha certeza da veracidade das informações que está veiculando e é nesse sentido que a apuração entra: tudo precisa estar devidamente checado, seja com uma fonte (pessoa) ou com um banco de dados público, por exemplo. Assim, as fontes são classifi cadas como: “ofi ciais”, instituições relacionadas ao governo; “ofi ciosas”, as que não estão autorizadas a falar em nome de uma organização ou personalidade, e “independentes”, as organizações não governamentais (LAGE, 2001). Para exemplifi car, podemos citar o presidente do Banco do Brasil como fonte ofi cial, um agente administrativo da Companhia de Energia UFRGSMUNDI • 20 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • Elétrica do Estado como ofi ciosa, e uma dona de casa como independente. A qualidade das fontes de acordo com cada fato é o que irá ditar a relevância das matérias produzidas. Nesse sentido, torna-se importante a hierarquização das fontes de informação (FOLHA DE SÃO PAULO, 2010). Essa prática ajuda a entender melhor a pluralidade das fontes e opiniões, dando maior qualifi cação para a produção da notícia. Dentro desse contexto, o jornalista deve sempre prezar pela imparcialidade ao apurar os acontecimentos. Logo, a apuração serve também para facilitar a objetividade e o entendimento do público sobre o assunto. “O jornal e o leitor não querem nem saber quais são as difi culdades que o repórter está encontrando — querem o fato bem contado” (KOTSCHO, 1995, p. 26). Dessa forma, uma apuração jornalística de qualidade é feita a partir do contato do jornalista com o maior número de fontes confi áveis possíveis. Assim, a habilidade do profi ssional em extrair e reproduzir as informações de forma clara para o público é o que ditará o apreço dos leitores pelo jornal. Logo, a boa apuração, unida à objetividade e à clareza, potencializam o alcance e relevância do trabalho jornalístico. 2 JORNALISMO DE TEXTO Os textos jornalísticos são vinculados a jornais, revistas, televisão, rádio ou qualquer meio que tenha como fi nalidade levar informação para o leitor de maneira simples e objetiva. A estrutura da notícia escrita, seja para um jornal, site ou revista, inicia pelo título, que em poucas palavras destaca o elemento principal da narrativa que vem a seguir. Para atrair e instigar o leitor, utiliza-se a ordem direta (sujeito, verbo e complemento) e o verbo na voz ativa e no presente, que garantem impacto, sem apresentar ponto fi nal, ponto de interrogação, ponto de exclamação, reticências ou parênteses. Em seguida do título, vem o subtítulo, que complementa de maneira sucinta as informações básicas que o leitor vai encontrar na notícia, sem repetir as palavras do título (COMASSETTO, 2001). O primeiro parágrafo da narrativa é composto pelo lide, que provém da palavra em inglês lead e signifi ca “guiar”, “conduzir”. O lide funciona como uma pirâmide, colocando as informações mais relevantes no início do texto e deixando as menos relevantes para o fi nal. Ele precisa ser coerente com o título, dando efi ciência ao resto do texto e a sua intenção é responder as perguntas: quem, quando, onde, como, por que e para que. Portanto, ele deve ser constituído de maneira resumida, dando destaque aos acontecimentos principais de maneira atrativa ao leitor (LAGE, 2005). Em seguida, o texto é composto por um segundo parágrafo com as informações que não vieram no lide, até chegar aos detalhes do texto. A estrutura do texto também pode ser dividida por intertítulos para sintetizar e dividir o conteúdo que se apresenta na notícia, assim a leitura fi ca mais dinâmica e de fácil compreensão. Outro aspecto importante para o texto jornalístico é evitar o uso de adjetivos, priorizando utilizar substantivos e verbos. Enquanto no título é preferível apresentar os verbos no tempo presente, no texto eles devem ser apresentados no passado (BENASSI, 2009). O último passo antes da publicação é a revisão do texto, na qual é feita a correção para evitar erros e adicionar informações faltantes. Além disso, a correção é importante para afi rmar que os temas mais importantes estão expressos no texto e hierarquizar a informação levando em consideração o que seria atrativo para o leitor (FOLHA DE SÃO PAULO, 2018). 3 JORNALISMO AUDIOVISUAL E FOTOGRÁFICO Considerando o contexto atual da mídia, em que os conteúdos transitam por diversas plataformas de mídia constantemente, ao longo do UFRGSMUNDI os delegados serão incentivados a produzir fotografi as e boletins em vídeo para acompanhar a cobertura jornalística em texto. Os materiais audiovisuais e fotográfi cos podem ser utilizados de forma autônoma, ou seja, vídeos e fotos podem ser a própria notícia quando consideramos a veiculação na televisão, por exemplo. Contudo, na cobertura do UFRGSMUNDI, esses conteúdos servirão de apoio na divulgação das notícias em texto nos canais de comunicação do evento. É conhecido o ditado popular que afi rma que “uma imagem vale mais que mil palavras”. De fato, as imagens e os vídeos ocupam hoje uma posição central enquanto materiais informativos. Assim ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO • 21 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • como acontece com o texto jornalístico, a imagem tem a capacidade de transformar acontecimentos da realidade em notícias e informações (TAVARES; VAZ, 2005). Desde os primórdios da técnica fotográfi ca, as ideias de credibilidade e o status de documento são associados à fotografi a (BUITONI; PRADO, 2011). Além disso, com o fotojornalismo, é possível gerar uma conexão potente entre público e acontecimento, permitindo que os leitores consigam imaginar de forma mais concreta o cenário que envolve o fato retratado (TAVARES; VAZ, 2005). O poder de comunicação das imagens é inegável, mas, geralmente, elas também precisam de complementos. Nesse sentido, as legendas divulgadas junto às fotografi as são elementos importantes para a contextualização das imagens, já que a mesma foto, sem a contextualização necessária, pode acabar gerando diferentes interpretações por parte do público. Entretanto, vale destacar que assim como ocorre com o jornalismo de texto, “as fotografi as jornalísticas não são inocentes” (TAVARES; VAZ, 2005, p. 132). A fotografi a e outros formatos audiovisuais sempre carregarão os vestígios de quem os produziu. Desde a seleção da cena e do enquadramento até a edição, o trabalho do fotojornalismoenvolve diversas escolhas e intenções. Essa seleção não é apenas baseada em critérios técnicos, mas envolve um olhar fotográfi co que é construído e infl uenciado por fatores socioculturais, econômicos e políticos. Por isso, é importante para o jornalista refl etir sobre as narrativas que são construídas com as imagens que produz, além de fi car atento a quais signifi cados está buscando comunicar (BUITONI; PRADO, 2011). Assim como as notícias que circulam nos jornais impressos, as notícias audiovisuais respeitam determinados critérios de noticiabilidade. Mas, como são materiais jornalísticos produzidos para plataformas diferentes, as preocupações do repórter audiovisual devem estar alinhados às noções técnicas de fotografi a e fi lmagem, para além dos critérios de noticiabilidade clássicos que apresentamos na primeira seção do guia (TAVARES; VAZ, 2005). O fotojornalismo é a atividade que produz imagens “informativas, interpretativas, documentais ou ‘ilustrativas’ para a imprensa ou outros projetos editoriais ligados à produção de informação de atualidade” (SOUSA, 1998, p. 5). Dentre as possibilidades do fotojornalismo, estão as fotos noticiosas e as fotorreportagens (BUITONI; PRADO, 2011). No UFRGSMUNDI, o formato mais utilizado será a foto notícia, que possui um alto teor informativo. (BUITONI; PRADO, 2011, p. 94). Esse tipo de fotografi a, mesmo quando não é acompanhada de título e legenda, consegue retratar o fato em si, comunicar o acontecimento central e mostrar a informação. O processo de construção de uma notícia, apresentado no início deste guia, também é válido para a área do audiovisual. O jornalista também possui uma pauta, a partir da qual planeja fotografi as ou gravações com o objetivo de contextualizar os fatos, já estudando questões técnicas como luz e possíveis enquadramentos. Assim como na apuração para o jornalismo impresso, a pauta pode ter de ser modifi cada, e o repórter audiovisual precisa manter um olhar atento para os acontecimentos à sua volta que podem se tornar notícias (BUITONI; PRADO, 2011). Um fotojornalista deve ter em mente que as técnicas de fotografi a são essenciais para produzir imagens de qualidade. Há estratégias que podem ser usadas até mesmo a partir das câmeras dos celulares para qualifi car as fotografi as. A primeira delas é o enquadramento: é preciso prestar atenção em toda a cena que se fotografa, buscando equilibrar proporções, cores e todos os elementos presentes na imagem. Outro ponto técnico é a composição: a seleção e o arranjo dos elementos dentro do enquadramento. Em alguns casos, é possível rearranjar os objetos que fotografamos, mudando suas posições até alcançarmos o resultado desejado, mas como no fotojornalismo isso nem sempre é possível ou recomendado, a solução é ajustar o ângulo da câmera, o que pode ser feito movendo nosso corpo e a posição da câmera em relação ao objeto retratado (PALACIN, 2008). A regra dos terços é outra conhecida orientação técnica para produzir fotografi as de qualidade. Essa regra prevê que a imagem espelhada no visor do celular ou da câmera seja visualizada como se fosse cortada por linhas que se cruzam e que formam nove retângulos. Há uma maior valorização e harmonização da composição da foto quando o objeto ou pessoa a que se quer dar destaque ocupa os pontos de cruzamento dessas linhas, como mostra a Figura 1 (PALACIN, 2008). UFRGSMUNDI • 22 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • Figura 1: Exemplo da Regra dos Terços Fonte: Gay, 2018 No fotojornalismo, a pós produção envolve a seleção das melhores fotografi as, a edição e a elaboração da legenda. As palavras, neste caso, as legendas, devem ser pensadas de forma a complementar as fotografi as (SOUSA, 1998). As legendas não devem ser redundantes à foto, tampouco podem trazer informações desconexas da imagem. Uma boa legenda deve ser um “gatilho mental”, ou seja, deve complementar a imagem trazendo informações relacionadas, mas não contidas ou não evidentes na fotografi a, gerando curiosidade e levando o leitor a explorar ainda mais a obra (GURAN apud LUSVARGHI; ZARATTINI, 2012). Em outras produções audiovisuais, como as desenvolvidas em vídeos, a noção de credibilidade passada pelas imagens permanece, e é intensifi cada com o telejornalismo (EMERIM, 2010). Combinando elementos do cinema e do rádio, o jornalismo televisivo estabelece uma maneira própria de comunicar e transmitir informações e se consolida como um dos meios de comunicação com maior abrangência e credibilidade no Brasil e no mundo (PORCELLO, 2006). A combinação das imagens em movimento e do som dá a impressão de que o que está sendo transmitido é a própria realidade, já que o telespectador consegue se inserir e acompanhar as notícias de maneira mais próxima (EMERIM, 2010). Existem vários tipos de programas na televisão, desde os mais focados no entretenimento até os mais noticiosos, e para os propósitos do UFRGSMUNDI, iremos focar nos programas de reportagem e notícias. Os telejornais geralmente são estruturados em torno de três tipos de vídeo: 1) ao vivo, em que se transmite o acontecimento no momento em que ele ocorre, a partir do local ou do estúdio da emissora; 2) o boletim, que consiste no resumo de um fato, narrado por um repórter presente no local do acontecimento; e 3) o off , que é a gravação de texto da reportagem que irá cobrir as imagens gravadas relativas à notícia (PATERNOSTRO, 2006). Ao buscar comunicar pela combinação de imagens e narração, o jornalista televisivo precisa ter atenção à linguagem utilizada, e “deve ‘contar’ os acontecimentos do cotidiano de uma maneira que toda a sociedade entenda, como se estivesse conversando com uma pessoa” (PATERNOSTRO, 2006, p. 84). Isso não signifi ca que o jornalista utilizará uma linguagem completamente informal, mas um tom coloquial, usando palavras simples e de fácil entendimento para todos os públicos. Para produzir um telejornal, o jornalista deve escrever o texto que será lido no boletim ou no ao vivo, reunindo as informações e redigindo a matéria. Uma dica para o repórter é ler o texto produzido em voz alta várias vezes antes de partir para a gravação. Nesse sentido, frases curtas auxiliam na compreensão e a ordem frasal direta (sujeito, verbo e predicado) é mais facilmente entendida na pronúncia (PATERNOSTRO, 2006). Em geral, uma matéria televisiva deve ter aproximadamente 1 minuto e 30 segundos de duração, podendo ser diminuída ou estendida de acordo com o assunto e o espaço do noticiário (PORCELLO, 2006). No UFRGSMUNDI, trabalharemos principalmente com boletins, nos quais os jornalistas da simulação deverão produzir vídeos, como repórteres, com o resumo dos acontecimentos dos comitês. Além dos boletins, podem ser feitos vídeos mais rápidos e dinâmicos para redes sociais, utilizando ferramentas como os stories do Instagram ou o TikTok. Independentemente da plataforma, o jornalista da AC deve manter a postura adequada ao evento, considerando seu papel no contexto da simulação e das relações internacionais. ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO • 23 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 4 A IMPORTÂNCIA DO JORNALISMO NAS RELAÇÕES INTERNACIONAIS No século XIX, a Revolução Industrial e suas inovações tecnológicas (nos transportes e nas comunicações) iniciaram um processo de globalização. A comunicação tornou-se mais rápida e, assim, alterou a forma com que a notícia era produzida e distribuída. Nesse mesmo século, aconteceram dois marcos fundamentais para o jornalismo internacional: o primeiro registro de um correspondente para cobrir uma guerra, diretamente do campo de batalha — na Guerra da Criméia (1854-1856)1 — e também a criação das primeiras agências de notícias do mundo, como a Havas-Reuters2 e a Associated Press (CASTRO, 2006). A evolução tecnológica contribuiu para a aceleração, facilitação e modifi cação das formas de circulação das notícias dos outros lugares do mundo eisso se deu de diversas formas. No que tange a cobertura jornalística internacional, existem várias formas de atuação para o repórter. Como Agnez (2015, p. 315-316) sintetiza, essas são algumas delas: • Correspondentes internacionais: fi guras mais tradicionais, defi nidos pela presença de jornalistas residindo e fazendo a cobertura regular de fatos em outra cidade ou país que não o da sede do veículo; • Enviados especiais: profi ssionais deslocados para outra cidade ou país para a cobertura pontual de um acontecimento; • Agências internacionais: produtoras tradicionais de conteúdo informativo com as quais veículos de todo mundo trabalham em parceria, assinando o serviço; • Compra de produções jornalísticas locais: veículos podem comprar e distribuir conteúdos específi cos produzidos pela mídia de determinadas localidades; • “Assinatura” de veículos internacionais: jornais brasileiros, por exemplo, podem ter o direito de publicar regularmente conteúdos de veículos internacionais, mediante contrato. Dessa maneira, reforça-se a importância do papel duplo do jornalismo (TRAQUINA, 2005b), de investigar os três poderes e de divulgar informações que possibilitam a manutenção da democracia, constituindo-se como um “quarto poder”. Logo, o jornalismo internacional também existe com esse papel, visto que os agentes internacionais também precisam ser vigiados e a comunidade internacional também deve ter essas informações para que consigam desempenhar seus deveres cívicos, principalmente no mundo globalizado que se vive hoje. 5 JORNALISMO EM TEMPOS DE PANDEMIA A partir do que foi abordado anteriormente no guia, entende-se que notícia é a apreensão dos fatos através de critérios pré-estabelecidos pelos veículos de comunicação. Entretanto, ela vai além disso e se torna uma fonte de conhecimento sobre realidade. A notícia tem uma extensão que circula na sociedade e interfere nas nossas vidas, desde a nossa sociabilidade ao repassar uma notícia até a nossa decisão de sair ou não com o guarda-chuva (PARK, 2008). No momento de pandemia em que vivemos, a informação é uma forma de prevenção. Desde o início da epidemia de Covid-19, a mídia divulga o uso de máscaras, o distanciamento e isolamento social, o número de casos e mortes, as pesquisas, dentre outros fatos sobre a doença. Através da informação correta, a população é capaz de tomar suas decisões de maneira consciente. Entretanto, vivemos também outra crise: a infodemia. A Organização Mundial da Saúde criou esse termo para se referir a grande quantidade de informações que recebemos todos os dias, mas sem conseguir diferenciar o que é verdadeiro do que é falso (ORGANIZAÇÃO PAN-AMERICANA DE SAÚDE, 2020). As notícias falsas, ou fake news, são entendidas como “todos os conteúdos falsos que atingem a divulgação pública, intencionalmente fabricados por várias razões” (SALAVERRÍA et al., 2020, p. 4, tradução nossa). 1 A Guerra da Criméia aconteceu entre 1854 e 1856, na qual estiveram de um lado, a França, a Grã-Bretanha e o Império Otomano e, do outro lado, a Rússia czarista. Foi um con� ito na península da Criméia, no Mar Negro, que tinha como objetivo a expansão territorial (TOREZANI, 2014). 2 Hoje em dia, Agência Reuters e Agence France Press (antiga Havas). UFRGSMUNDI • 24 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • O compartilhamento desse tipo de conteúdo ocorre por causa das bolhas na internet. Nesse cenário, os usuários acessam apenas as informações que concordam com suas opiniões e preferências, literalmente criando uma bolha que não permite a entrada de postagens que mostram algo diferente. Assim, o usuário não vê a necessidade em checar se os conteúdos são verdadeiros ou não. (D’ANCONA, 2018). Nesse sentido, o jornalismo, com seu espaço e papel social, tem a responsabilidade de combater as informações que circulam e que não correspondem com a realidade dos fatos. No cenário da pandemia de Covid-19, por exemplo, Maluly (2020) questiona a decisão dos jornalistas de dar espaço para políticos ao invés de cientistas, além de pouco discutirem exemplos de êxito como a Nova Zelândia e a China. Por outro lado, existem iniciativas jornalísticas que fazem checagem de fatos, mostrando o que é falso e o que é verdadeiro nas notícias que circulam. Alguns exemplos são a Agência Lupa, Aos Fatos, Projeto Comprova, G1 Fato ou Fake, entre outros. Essas conclusões reafi rmam o entendimento sobre a notícia como forma de conhecimento no dia-a-dia e sua extensão nas relações sociais na medida que circulação da informação estimula as pessoas a agirem conforme seus próprios pensamentos (PARK, 2008). Esse aspecto da informação reforça a relevância de quem a transmite, ou seja, dos jornalistas. A responsabilidade desse profi ssional é pautada pela divulgação correta, devidamente apurada, como foi visto na seção 1.3.2 deste guia, e pela consciência de seu alcance e impacto. Nesse momento de pandemia, esses valores fi cam ainda mais explícitos e são por eles que devem se guiar os participantes da Agência de Comunicação dentro do UFRGSMUNDI. 6 CONDUTA JORNALÍSTICA E REGRAS GERAIS Ao visar fornecer informações à sociedade, o exercício da profi ssão jornalística é fundamentalmente social, e dessa forma, a refl exão quanto à conduta profi ssional deve permear o dia a dia na imprensa. A seguir, apresentaremos as condutas éticas e as atitudes que esperamos que os participantes do UFRGSMUNDI tenham ao realizar a cobertura do evento, bem como questões mais técnicas e práticas que devem orientar a produção de notícias pela Agência de Comunicação. 6.1 CONDUTA Como vimos nas seções anteriores, a neutralidade absoluta é inatingível, afi nal, a subjetividade do jornalista está presente em todo o processo de produção de notícias, desde a escolha da pauta até as palavras usadas em uma matéria. No entanto, não se deve perder de vista as funções primordiais do jornalismo. O repórter deve ter como objetivo uma comunicação que busque a verdade, a transparência e a melhor apuração possível na construção das notícias. O jornalismo de qualidade depende da atuação responsável e ética dos profi ssionais da imprensa (PORCELLO, 2006). No UFRGSMUNDI, a AC será responsável pela cobertura dos acontecimentos dos comitês, em que os jornalistas participarão das sessões, produzindo materiais para divulgação. Antes da simulação, serão divulgados os comitês em que cada jornalista fi cará alocado, além de suas representações. Da mesma forma como os delegados de cada comitê representam, individualmente, países ou organizações, os jornalistas da AC representarão diferentes veículos de comunicação, de acordo com o comitê em que forem alocados. Para que uma boa cobertura seja feita, o jornalista deve se preparar, lendo, além do guia da Agência de Comunicação, o guia de estudos de seu respectivo comitê, e pesquisando mais sobre o assunto caso ache necessário (GIUSSANI et al., 2019). Durante as sessões, os jornalistas devem respeitar as regras do comitê, assistindo à simulação em silêncio, sem interferir no fl uxo dos debates e devem prestar atenção aos acontecimentos para que possam reunir as informações nas matérias da AC. Outro ponto importante é o trabalho em grupo: não há jornalismo sem trabalho coletivo, portanto, todo jornalista deve colaborar com seus colegas e respeitá-los. 6.2 RESPEITO AOS DIREITOS HUMANOS Alinhado às diretrizes das Nações Unidas, o UFRGSMUNDI considera o respeito aos direitos humanos, à justiça social e à inclusão princípios fundamentais do projeto. Comportamentos ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO • 25 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • e manifestações racistas, LGBTfóbicos, machistas, que reforcem preconceitos de gênero, ou discriminatórios de qualquer tipo não serão tolerados e poderão implicar no desligamento imediato do participante. O Código de Ética do Jornalista no Brasil postula que é dever “combater a prática de perseguiçãoou discriminação por motivos sociais, econômicos, políticos, religiosos, de gênero, raciais, de orientação sexual, condição física ou mental, ou de qualquer outra natureza” (FEDERAÇÃO NACIONAL DOS JORNALISTAS, 2007, p.2). Portanto, o jornalista deve estar sempre atento aos sentidos que podem ser gerados pelas suas matérias, evitando representações estereotipadas e prejudiciais a qualquer pessoa. O olhar crítico deve acompanhar todo o exercício da imprensa, que deve ter um compromisso com a representatividade plural naquilo que veicula. 6.3 COBERTURA JORNALÍSTICA NO UFRGSMUNDI No UFRGSMUNDI, a maior parte do tempo dos jornalistas da Agência de Comunicação será passada nos comitês, acompanhando a simulação. Assim como os demais comitês, a AC possui uma sala-sede própria, chamada de Central de Notícias. Nesse ambiente, os jornalistas podem redigir suas matérias e preparar materiais para divulgação. É também na Central de Notícias em que os Editores- Chefe estarão disponíveis para tirar dúvidas e auxiliar os jornalistas ao longo do evento (GIUSSANI et al., 2019). No caso de simulações online, devido ao contexto de pandemia, cada comitê possuirá sua sala- sede em plataformas de videochamadas, e o mesmo acontecerá com a Central de Notícias. A cobertura jornalística no UFRGSMUNDI terá como objetivo produzir materiais para diversas plataformas de comunicação: textos para publicação online, fotografi as e vídeos para divulgação nas redes sociais como Instagram e Twitter e conteúdo para postagem no Twitter. Em seus textos, o jornalista da AC deve sempre utilizar a linguagem formal e seguir as regras gramaticais, seja na redação de notícias, legendas para fotografi as, entrevistas ou outros materiais. A exceção para esta orientação ocorre no Twitter, onde se pode utilizar uma linguagem coloquial, fazendo uso de memes, emojis e de vocabulário informal. Ao publicar tweets, deve-se usar hashtags para situar o leitor: uma com a sigla do comitê ao que o jornalista se refere e uma com o nome do veículo que cobre este comitê. Ou seja, tweets relativos ao Conselho de Segurança das Nações Unidas deverão ser encerrados com as hashtags #CSNU e #NYT. Cabe destacar que a redação para internet intensifi ca a necessidade do uso de palavras curtas e precisas, como forma de comunicar sem excessos, exigindo a economia de palavras (FRANCO, 2008). Por fi m, no que diz respeito tanto ao audiovisual quanto à cobertura em texto, o jornalista deve manter uma postura respeitosa em relação às pessoas retratadas, sendo proibida a divulgação de textos e imagens que coloquem qualquer participante do UFRGSMUNDI em posição prejudicial ou que incentive julgamentos de valor. Uma das práticas que será recorrente na cobertura jornalística do evento serão as coletivas de imprensa, momento em que os jornalistas da AC poderão buscar informações complementares para o desenvolvimento das notícias. A seguir, explicaremos como funciona a dinâmica das coletivas de imprensa. 6.4 COLETIVAS DE IMPRENSA As coletivas de imprensa são entrevistas concedidas por uma fonte que responde em conjunto às perguntas de repórteres de vários veículos jornalísticos diferentes (RABAÇA; BARBOSA, 2001). Esse tipo de entrevista está presente na cobertura cotidiana da imprensa, como nos casos em que um político convoca a imprensa para esclarecer medidas que serão implementadas ou quando empresas e artistas procuram os jornalistas para anunciar lançamentos. No UFRGSMUNDI, coletivas de imprensa podem ser organizadas por iniciativa dos jornalistas ou dos Editores-Chefe. Em ambos os casos, os jornalistas da AC devem selecionar de 2 a 6 delegados de um determinado comitê para responder às perguntas da imprensa, e os Editores-Chefe devem ser avisados com antecedência. É recomendado que os jornalistas preparem as perguntas previamente tendo em vista a pauta já pré-estabelecida, mas novos questionamentos podem surgir ao longo da fala da fonte. No início da coletiva, os delegados selecionados serão convocados e, a partir deste momento, as perguntas devem ser feitas uma por vez. O delegado entrevistado tem o direito de resposta, réplica e tréplica. A duração estimada de uma coletiva no UFRGSMUNDI é de 15 minutos e, após o término das UFRGSMUNDI • 26 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • perguntas e respostas, os jornalistas devem agradecer aos delegados e encerrar a entrevista. Jornalistas alocados em outros comitês também podem assistir às coletivas e deve ser organizada uma cobertura audiovisual ao longo da entrevista. Por fi m, os jornalistas responsáveis pela cobertura do comitê devem produzir material sobre a coletiva de imprensa podendo ser textual, audiovisual, fotográfi co ou conteúdo para as redes sociais do evento. 7 LINHAS EDITORIAIS NO UFRGSMUNDI Como dito na seção anterior, a cobertura jornalística do UFRGSMUNDI possui a importante designação de acompanhar e informar os participantes do que está acontecendo no evento. O jornalista da AC deverá seguir os princípios editoriais do veículo de comunicação que representará, de acordo com o comitê em que realizará a cobertura. Tendo isso em vista, abaixo serão apresentados os comitês e os respectivos veículos de comunicação que irão noticiar o UFRGSMUNDI 2021. 7.1 AGNU A Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) é um dos principais órgãos da ONU, sendo composta por todos os 193 Estados-membros. Nesse comitê, cada país tem um voto e são discutidas questões como recomendações sobre paz e segurança, eleições nos conselhos de Segurança e Econômico e Social e assuntos orçamentários (UNITED NATIONS, 2021). Em 2021, o assunto a ser tratado no comitê do UFRGSMUNDI será “Segurança e Soberania no Ciberespaço”. O meio de comunicação escolhido para fazer a cobertura da AGNU é o The Guardian. O jornal tem tiragem diária e foi fundado na Inglaterra, em 1821, como The Manchester Guardian, mudando de nome em 1959. A versão digital existe desde 1999 e é um dos portais mais acessados na internet. O jornal faz cobertura de múltiplos tópicos nacionais e internacionais com sua linha editorial considerada independente (THE GUARDIAN, 2021). 7.2 ANUMA A Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (ANUMA) é o órgão da ONU responsável pelas discussões e decisões mundiais sobre o meio ambiente. Assim como na AGNU, nesse comitê, todos os 193 países-membros participam ativamente na busca de soluções (UNITED NATIONS ENVIRONMENT ASSEMBLY, 2021). Em 2021, o tema a ser discutido no UFRGSMUNDI é “A Preservação de Florestas Tropicais”. O assunto exige interdisciplinaridade dos participantes e, por essa razão, o veículo de comunicação selecionado para a cobertura desse comitê é o Nexo, um jornal digital e independente fundado em 2015 no Brasil. Conhecido por seu conteúdo explicativo com dados e estatísticas, o Nexo preza em sua linha editorial pelo equilíbrio, pela clareza e pela transparência, além da pluralidade na abordagem (NEXO JORNAL, 2021a; 2021b). 7.3 BM O Banco Mundial (BM) é uma instituição fi nanceira que ajuda países em desenvolvimento por meio de fi nanciamentos, assessoria política e assistência técnica com a intenção de diminuir a pobreza no mundo e aumentar a renda das famílias. O Banco Mundial é formado pelo Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD) e pela Associação Internacional de Desenvolvimento (AID). As três instituições fazem parte do Grupo do Banco Mundial, composto por 189 países-membros (WORLD BANK, 2021). No UFRGSMUNDI de 2021, o assunto a ser tratado por esse comitê é o “Financiamento de Projetos de Desenvolvimento Urbano”. O veículo escolhido para fazer a cobertura é o Valor Econômico, um jornal brasileiro fundado em maio de 2000 pela Folha de S. Paulo em parceria com o Grupo Globo que trata de economia, fi nanças, investimentos e negócios no Brasil e no mundo. Desde 2016, o jornal pertence somente ao Grupo Globo e segue sua linha editorial que destaca a isenção, acorreção e a agilidade da informação de qualidade (VALOR ECONÔMICO, 2021). ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO • 27 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 7.4 CD A Câmara dos Deputados (CD) do Brasil foi fundada em 25 de março de 1824, pela Constituição brasileira do mesmo ano. Sua sede está localizada na praça dos Três Poderes, no Distrito Federal, e ela, junto ao Senado Federal, integra o Poder Legislativo da União. Sua composição se dá por 513 deputados, de todos os estados da federação, que são eleitos com mandatos de quatro anos. Seu funcionamento acontece através da Mesa da Câmara dos Deputados do Brasil, pelo Colégio de Líderes e por comissões3. No UFRGSMUNDI 2021, o debate no comitê da Câmara dos Deputados será “A Taxação de Grandes Fortunas”. O veículo escolhido para acompanhar as discussões na CD é o jornal Folha de São Paulo. A Folha é o periódico de maior circulação no Brasil e possui grande notoriedade nacional. Editado em São Paulo, a premissa de sua linha editorial é a “busca por um jornalismo crítico, apartidário e pluralista” (FOLHA DE SÃO PAULO, 2020). 7.5 CDH O Conselho de Direitos Humanos (CDH) é parte do corpo de apoio da AGNU, sendo composto por 47 nações eleitas por 3 anos e com sede em Genebra. A missão do CDH é promover os direitos humanos em todo o planeta, e o UFRGSMUNDI 2021 trouxe para este comitê “A Promoção de Direitos Sexuais e Reprodutivos” como tema para debate, tendo em vista que este assunto é de suma importância na luta pelos direitos humanos. Para tratar deste tópico, a cobertura será feita pela British Broadcasting Corporation (BBC) — em português, Corporação Britânica de Transmissão. Sendo um veículo de informação através do rádio e da televisão, a BBC teve origem no Reino Unido e é reconhecida internacionalmente por sempre estar à procura de notícias de qualidade e exclusivas (BBC NEWS BRASIL, 2021). 7.6 CICA Proposta em 1992, a Conferência sobre Interação e Medidas de Construção da Confi ança na Ásia (CICA) é pautada na discussão dos países asiáticos para promover a cooperação e segurança para todo o continente ocidental. O comitê se baseia nos princípios da Carta da ONU, prezando pela igualdade, solução de confl itos pela paz e respeito à soberania e integridade territorial dos países. No total, são 27 Estados que participam dos debates e tomadas de decisão. Em 2021, a Xinhua será a mídia responsável por cobrir esse comitê, que irá tratar sobre “A Situação da Caxemira”. Fundada em 1931, a Xinhua é a agência estatal de comunicação da China. É a principal empresa comunicacional do país e conta com 31 canais locais, além de cobrir outras línguas como o inglês, espanhol e português. A média diária de visualizações do site ultrapassa os 120 milhões e sua cobertura alcança mais de 300 milhões de pessoas. Assim, é a mídia mais infl uente para os chineses. A empresa se declara justa e objetiva, porém muitos críticos a consideram propagandista do governo. As publicações da agência são multimídia e cobrem assuntos como economia, cultura, tecnologia e sociedade. Para a cobertura internacional, a Xinhua está presente em 117 países, sendo um deles o Brasil. (XINHUANET, 2021; XINHUA NEWS AGENCY, 2021a; 2021b). 7.7 CSNU O Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU) foi fundado em 1945, junto da própria criação da ONU. A responsabilidade primária do Conselho é a manutenção internacional da paz e da segurança e, diferentemente de outros órgãos da ONU, as decisões tomadas pelos seus 15 membros são mandatórias, ou seja, devem ser seguidas por todos os membros signatários da Carta das Nações Unidas. Cinco dos membros que compõem o Conselho são permanentes — China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia — e os dez demais são rotativos (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2021). Nesta edição do UFRGSMUNDI, os delegados debaterão “O Confl ito Nagorno-Karabakh”, em uma discussão histórica que se passará em 1993. Para realizar a cobertura do Conselho de Segurança, foi selecionado o jornal diário estadunidense 3 Essas comissões podem ser permanentes, de inquérito, temporárias ou especiais. UFRGSMUNDI • 28 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • The New York Times (NYT). Com a terceira maior circulação nos Estados Unidos, o jornal realiza uma cobertura vasta de diversos temas, e possui reconhecimento internacional (TURVILL, 2020). Fundado em 1851, o NYT defi ne como sua missão a busca pela verdade, com a realização da cobertura mais imparcial possível das notícias (THE NEW YORK TIMES, 2019) e com o objetivo de trazer um melhor entendimento acerca do mundo (NYT, 2021a). Hoje, o veículo de comunicação se apresenta como independente de fi liações partidárias, mas possui um histórico de apoio ao Partido Republicano e, posteriormente, ao Partido Democrata dos Estados Unidos (VIANA; LIMA, 2011). De modo geral, a linha editorial guia a produção noticiosa a partir de princípios liberais, e coloca como seu propósito fundamental a proteção da imparcialidade e neutralidade do jornal, com a manutenção da integridade de sua atividade informativa (NYT, 2021b). 7.8 DPS - UA Criado em 2003, o Comitê Especializado em Defesa, Proteção e Segurança da União Africana (DPS-UA) tem como objetivo promover a paz, a segurança e a estabilidade no continente africano. Além disso, trabalha na prevenção de confl itos entre os países da África e atua em situações de catástrofes e ações humanitárias. Em 2021, o All Africa será a mídia que irá cobrir esse comitê que tem como discussão “A Situação na República Democrática do Congo”. O All Africa é uma plataforma online que produz e compartilha informações e conteúdos sobre o continente africano. Com produção média de 800 publicações por dia, disponibiliza suas matérias em inglês e francês. Além dos seus próprios repórteres, o site conta com a colaboração de mais de 140 organizações e 500 instituições de notícias espalhadas pela África. Além disso, o meio de comunicação tem sedes em Cape Town, Dakar, Lagos, Monrovia, Nairobi e Washington D.C. O portal é considerado independente e tem como objetivo diminuir os estereótipos a respeito da África. Com uma produção multimídia, são tratados tópicos como política, entretenimento, sociedade, negócios, saúde, meio ambiente, esportes e viagens (ALL AFRICA, 2021). 7.9 LEA A Liga dos Estados Árabes (LEA) é uma organização regional fundada em 1945 no Egito. O objetivo fundador da Liga era o fortalecimento conjunto dos programas políticos, culturais, econômicos e sociais dos países integrantes. Atualmente, a organização conta com 22 Estados-membros e seis países observadores (ENCYCLOPAEDIA BRITTANICA, 2020). A questão a ser abordada pelos delegados da LEA é “A Guerra do Golfo (1990)”, sendo um comitê histórico. O veículo de comunicação escolhido para realizar a cobertura do comitê é a CNN. A CNN é um canal privado de televisão norte-americano, parte do conglomerado de mídia WarnerMedia, que possui fi liais em diversos países e relevância global. Fundada em 1980, a CNN foi o primeiro canal de televisão a ofertar uma programação unicamente noticiosa 24h por dia (CNN, 2021). Segundo a rede de notícias, sua missão é realizar uma cobertura internacional completa e explicativa dos acontecimentos. A linha editorial tende a um posicionamento liberal, embora existam diferenças editoriais de acordo com a fi lial da rede. Durante a Guerra do Golfo, a CNN teve destaque como a única rede de notícias por satélite global a realizar uma cobertura contínua no Iraque (CNN, 2020; FORMANEK, 2016). 7.10 OEA A Organização dos Estados Americanos (OEA) foi criada em 1948, em Bogotá, na Colômbia, com a assinatura da Carta da OEA, que entrou em vigor em dezembro de 1951. A organização é considerada o mais antigo organismo regional do mundo. Ela tem como objetivo principal estimular entre os Estados americanos uma ordem de paz e de justiça, para promover sua solidariedade, intensifi carsua colaboração e defender sua soberania, sua integridade territorial e sua independência. Suas principais bases são a democracia, os direitos humanos, a segurança e o desenvolvimento (OEA, 2021). Atualmente são membros da OEA os 35 Estados independentes da América, e obtiveram o estatuto de observador permanente 69 Estados e a União Europeia. Neste ano, o comitê da OEA no UFRGSMUNDI discutirá “As Crises Democráticas no Continente Americano”. O jornal selecionado para cobrir os debates na OEA é o jornal Clarín, da Argentina. Fundado ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 AGÊNCIA DE COMUNICAÇÃO • 29 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • em 1945, sendo o jornal de maior circulação da Argentina, o de maior tiragem da América Latina e o segundo em língua espanhola do mundo. Ele faz parte do grupo conglomerado de mídia Grupo Clarín e atinge praticamente todos os segmentos da população argentina em termos de poder aquisitivo, localização geográfi ca e faixa etária (REPOLL, 2010). 7.11 UNESCO A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) é a agência das Nações Unidas que busca promover a paz no planeta através da educação, cultura e ciência (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA, 2021). No UFRGSMUNDI 2021, o comitê irá debater “As Medidas de Preservação da Herança Cultural”. O tópico em questão está presente na luta diária da agência, que defende o patrimônio histórico e a memória coletiva, tendo em vista que são modos de acesso à cultura e consequentemente a informação e democracia. Para tratar deste tópico, a cobertura será através do jornal El País. Fundado na Espanha, o jornal tem a maior tiragem do país e reproduz notícias do âmbito cultural, internacional, político e econômico (EL PAÍS, 2021). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AGNEZ, Luciane Fassarella. O jornalismo internacional entre mudanças e permanências. Estudos em Jornalismo e Mídia, Florianópolis, v. 12, n. 2, p. 314-328, jul-dez. 2015. Disponível em: https:// periodicos.ufsc.br/index.php/jornalismo/article/view/1984-6924.2015v12n2p314. Acesso em: 25 mar. 2021. ALL AFRICA. Who we are. 2021. Disponível em: https://allafrica.com/misc/info/about/. Acesso em: 01 abr. 2021. BBC NEWS BRASIL. BBC Brasil nasceu em 1938 com notícia sobre Hitler. 2021. Disponível em: https://www. bbc.com/portuguese/institutional/090120_expediente_tc2 . Acesso em: 04 abr. 2021. BENASSI, Maria Virginia Brevilheri. O gênero “notícia”: uma proposta de análise e intervenção. In: CELLI – COLÓQUIO DE ESTUDOS LINGUÍSTICOS E LITERÁRIOS, 3., 2007, Maringá. Anais... Maringá: 2009, p. 1791-1799. 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UFRGSMUNDI • 32 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • ASSEMBLEIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS Segurança e Soberania no Ciberespaço Camila Heineck Schwertner, Esther Krüger Silveira, Giovana Tarquinio Demarco, Maria Vitória Paiva dos Santos, Nataly de Oliveira Lemos e Tiago Carvalho Rodrigues1 1 Graduandas e graduando dos cursos de Relações Internacionais e Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ASSEMBLEIA GERAL • 33 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • QUESTÕES NORTEADORAS (1) Você já ouviu falar sobre ciberespaço ou sobre Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs)? Como você sente que esses fenômenos estão presentes no seu cotidiano? (2) A constante evolução nas tecnologias está bastante vinculada ao que conhecemos como a Era Digital. De que formas você acha que essa nova realidade impactou — e ainda impacta — as relações entre os países, seja para cooperação ou para confl ito? APRESENTAÇÃO A Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) é o maior órgão da Organização das Nações Unidas (ONU), além do único no qual todos os membros da organização estão representados e podem votar de maneira igualitária. Entre algumas de suas principais funções, estão: admitir novos membros à ONU; supervisionar outros órgãos; e eleger o Secretário-Geral. A atribuição mais importante, todavia, é agir tendo em vista os princípios de manutenção da paz, da segurança internacional e da cooperação entre as nações segundo o escopo da Carta da ONU. Assim, os 193 Estados-membros se reúnem uma vez ao ano — a não ser quando são convocadas sessões especiais — para discutir diversos temas relevantes na pauta internacional. O documento fi nal produzido pela AGNU é uma resolução que, quando aprovada, possui caráter recomendativo1. Compreendida a importância da AGNU, cabe aos delegados discutir de que forma a organização pode abordar um dos principais temas da agenda internacionalcontemporânea: a segurança e a soberania no ciberespaço (UNITED NATIONS GENERAL ASSEMBLY, 2021). As últimas quatro décadas acompanharam o surgimento e a difusão global das novas Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs), as quais revolucionaram a vida humana ao encurtar distâncias, facilitar a pesquisa científi ca e o acesso ao conhecimento, aprimorar o comércio internacional e, em suma, introduzir o período da Era Digital2. O conceito de TICs pode ser compreendido a partir da relação de complementaridade entre comunicação e informação, facilitada pela tecnologia — nisso, se encaixam os hardwares e soft wares de computadores, as telecomunicações e a própria Internet (NAVARRO, 2009). Para que se possa compreender o impacto dessas mudanças, basta avaliar que aproximadamente metade da população mundial já se encontra online, e esse número vem crescendo rapidamente (GLOBAL COMMISSION ON THE STABILITY OF CYBERSPACE, 2019). Outro ponto basilar da Revolução Digital é o ciberespaço, que pode ser entendido como “um espaço virtual que permite que usuários de redes do mundo inteiro se comuniquem ou acessem informações para qualquer fi nalidade” (GCSC, 2019, p. 10, tradução nossa). Ressalta-se que a Internet não é sinônimo de ciberespaço, e sim que, na realidade, é uma das partes que o compõem. Esse novo ambiente permeia todo o tecido social, econômico, político e militar da vida na Era Digital, dado que os indivíduos, os Estados e as empresas estão cada vez mais conectados e dependentes da rede para suas atividades cotidianas e essenciais (ABAIMOV; MARTERLLINI, 2017). O ciberespaço traz inúmeros benefícios ao desenvolvimento dos países e à cooperação entre os Estados, mas também apresenta muitos desafi os, dado que pode ser utilizado tanto para fi ns positivos, quanto maliciosos. O presente guia de estudos pretende desenvolver essa questão, abordando alguns debates centrais sobre ciberespaço na pauta internacional. Em um primeiro momento, retoma-se historicamente a evolução das TICs e do ciberespaço, para, em seguida, apresentar e avaliar a ascensão de operações cibernéticas como uma arena política de confl ito. Posteriormente, o guia se debruça sobre os pontos principais da discussão: as formas como o ciberespaço desafi a as noções tradicionais de soberania; as ameaças de militarização e os riscos à segurança internacional; e, por fi m, as possibilidades de regulação desse novo espaço. Para concluir, são apresentadas as ações internacionais prévias e os posicionamentos dos países. 1 Isso signi� ca que as decisões desse comitê não possuem caráter vinculante, ou seja, não são de cumprimento obrigatório. Não obstante, o fato de ser uma decisão da totalidade dos países da ONU torna as resoluções da Assembleia moralmente vinculantes, posto que aqueles países que não as cumprem podem vir a ser considerados violadores das regras estabelecidas pela maioria (UNGA, 2021). 2 A Era Digital tem início no � m do século XX, a partir da década de 1980. Dentre suas principais características, estão a capacidade de armazenamento e compartilhamento de informações, a integração mundial — especialmente via Internet —, e todos os avanços no meio técnico-cientí� co informacional (SILVA; FELIX, 2016). UFRGSMUNDI • 34 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 1 HISTÓRICO Nesta primeira seção, será explorado como se deu a formação do ciberespaço. A exposição tem início com o surgimento das TICs, que auxiliaram na formação desse novo ambiente das relações internacionais. Em segundo lugar, apresenta-se quais são os atores que estão envolvidos na dinâmica da segurança e da soberania no ciberespaço. Em seguida, é apresentado como as TICs passaram a ser usadas não somente para a conexão global, mas também para a condução de ataques e iniciativas militares por meio do ciberespaço. Por fi m, são apresentados alguns conceitos e exemplos para melhor compreender esse espaço técnico. 1.1 O SURGIMENTO DAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TICS) E DO CIBERESPAÇO O surgimento das Tecnologias de Informação e Comunicação foi marcado pelo objetivo do desenvolvimento de uma plataforma democrática e responsável pela difusão de conhecimento. No entanto, tem se consolidado como um mecanismo descentralizado, e de certa forma obscuro, em que é possível navegar de maneira livre sem a interferência governamental. Tal questão pode ser expandida para o plano internacional através da pluralidade de atores que atuam no ciberespaço, o que coloca em perspectiva a atuação tradicional do Estado3 (PARISER, 2012). O ciberespaço teve origem na pós-modernidade4, a fi m de servir como um local de conhecimento e comunicação em uma sociedade que se desenvolvia junto à tecnologia, o que resultou em mudanças nas formas de socialização, bem como na forma do ser humano se enxergar no mundo e dialogar com a realidade ao seu redor. Para isso, caracteriza-se o conceito como um espaço das redes digitais de interconexão mundial de novos confl itos e novas fronteiras — econômicas e culturais (LÉVY, 1998). Cabe ressaltar também que o ciberespaço é uma construção humana a fi m de suprir as necessidades da era globalizada, e como tal a humanidade se apropria desse espaço, age dentro dele e o transforma. Apesar disso, a atuação nesse mecanismo constrói relações ambíguas e contraditórias no mundo físico, como, por exemplo, os limites do público e do privado, as dimensões do tempo e espaço, assim como contrasta as noções tradicionais de soberania e fronteira (SILVA; TEIXEIRA; FREITAS, 2015). Atualmente, a agenda acerca da governança do ciberespaço possui forte presença no âmbito das relações internacionais, a fi m de compreender os impactos dessa nova era que busca a soberania no ciberespaço. Esse lugar difícil de ser precisamente gerenciado coloca inúmeros desafi os aos Estados — principalmente aos países em desenvolvimento —, como a erosão de fronteiras geográfi cas e o crescimento do papel de atores não-estatais. Segundo a defi nição de soberania, aplicada às redes, as atividades de informação dentro de território soberano podem ser controladas pelo Estado sem interferências externas (SCHMITT, 2013). No entanto, é importante se atentar que essa estrutura potencializa as disparidades entre os países, colocando os desenvolvidos como responsáveis pelo fornecimento de serviço e gerenciadores do mercado, enquanto aqueles em desenvolvimento são vistos como consumidores. Dessa forma, hoje o ciberespaço mostra “como a hegemonia pode estender a soberania de um único país no espaço global” (SHEN, 2016, p. 87). A igualdade soberana é um ponto crucial para o estabelecimento da governança no ciberespaço. Contudo, para isso ser desenvolvido são necessários acordos e reformas no sistema vigente, bem como paciência, pois é extremamente difícil mudar as regras e os princípios que até então eram responsáveis por manter o status quo de um único país, que tem por base a sua atuação na projeção internacional (CANABARRO, 2014). 1.2 OS ATORES ENVOLVIDOS NO CAMPO LEGAL DO CIBERESPAÇO Neste guia, considera-se que existem quatro grupos básicos de atores capazes de operar no ciberespaço como um todo. Esses infl uenciam o processo de regulamentação e exercem pressões 3 O Estado-nação, como é conhecido atualmente, é responsável pela organização política nacional, pelo monopólio administrativo e pelo monopólio do uso da força. Além disso, também cabe ao Estado monitorar os aspectos da reprodução dos sistemas sociais sob seus domínios territoriais (FERREIRA, 2013). 4 Na pós-modernidade há o predomínio do instantâneo, da perda de fronteiras e da ideia de que o mundo está cada vez menor através do avanço da tecnologia. É um conceito que tem sido discutido com muito fervor nos últimos anos e que possui a capacidade de abarcar vários fenômenos em um movimento (LÉVY, 1998). ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ASSEMBLEIA GERAL • 35 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • que defi nem onível de segurança e de respeito à soberania nesse meio. São eles: os Estados-nação; as Organizações e Regimes Internacionais (OIs); as Organizações Não-Governamentais (ONGs); e a Indústria Cibernética (empresas) (SHEN, 2016). Juntos ou individualmente, esses agentes podem mudar as “regras do jogo” do ciberespaço de acordo com os seus interesses e as suas capacidades (BARNETT; FINNEMORE, 2004; SHEN, 2016). Os Estados-nação são protegidos por princípios do direito internacional como o do direito à soberania. Assim, esses atores possuem capacidades de efetivamente controlar o seu território e os agentes dentro dele (BARNETT; FINNEMORE, 2004). Além disso, os Estados usam o seu poder para construir conjuntamente leis em fóruns como a AGNU, tentando garantir seus interesses em diversas esferas do plano internacional, incluindo o ciberespaço. Dessa forma, são atores com grande poder individual nos debates referentes à regulamentação do ciberespaço. Com isso em mente, esse guia dá maior foco às ações dos Estados, por considerar que eles dispõem de mais recursos e relevância nas dinâmicas cibernéticas (SHEN, 2016). Organizações e Regimes Internacionais (OIs) são agentes criados por esses diálogos internacionais na intenção de mediar alguma questão específi ca, como a da segurança e soberania no ciberespaço (BARNETT; FINNEMORE, 2004). Um exemplo de OI é a própria AGNU, a qual funciona como um fórum dentro da ONU para discutir questões gerais da pauta global. OIs são originadas de Tratados Internacionais assinados pelos Estados, e suas normas e Medidas de Construção de Confi ança (MCCs) formam regimes internacionais a serem seguidos pelos participantes (BARNETT; FINNEMORE, 2004; RUHL et al., 2020). Enquanto as Organizações Não-Governamentais não possuem fi ns lucrativos e geralmente surgem de uma necessidade técnica do ciberespaço (controle de domínios, IPs ou servidores), a Indústria Cibernética é movimentada pelo lucro produzido por meio das inovações tecnológicas (RUHL et al., 2020). Ambas são obedientes ao direito internacional e à legislação dos países em que estão inseridas, mas não são necessariamente vinculadas a um Estado. A Indústria é formada por várias empresas que assumem o papel de Provedoras de Serviços de Internet (PSIs) (PUYVELDE; BRANTLY, 2019). Apesar de existirem episódios onde indivíduos impactaram fortemente o ciberespaço e a política internacional, considera-se que quase sempre eles estão relacionados a algum “ciberator” (BARNETT; FINNEMORE, 2004). É o caso de Julian Assange, fundador da organização Wikileaks5. Apesar de ser um jornalista sem meios para infl uenciar o ciberespaço individualmente, Assange conseguiu criar uma organização capaz de expor milhões de dados chocantes de grandes empresas de todo o mundo (WIKILEAKS, 2015). Outro exemplo é o do ex-integrante da Agência Central de Inteligência (CIA, sigla em inglês), Edward Snowden, que conseguiu expor o governo dos Estados Unidos ao vazar cerca de 1,5 milhão de dados da Agência de Segurança Nacional (NSA)6 em junho de 2013. Snowden expôs suas denúncias por meio de jornais7 como o The Guardian, que divulgaram a rede de vigilância global dos EUA (Estados Unidos da América) sobre a sua população e inúmeros países (SZOLDRA, 2016). 1.3 O DESENVOLVIMENTO E A UTILIZAÇÃO DE CIBERATAQUES Desde a década de 1990, à medida que o ciberespaço se tornou o novo palco para as relações humanas, pesquisadores em segurança começaram a cogitar a possibilidade de uma transformação no caráter convencional da guerra com os recursos cibernéticos. Ao mesmo tempo, grande parte da infraestrutura e logística das organizações se tornou dependente de computadores e do acesso à Internet. Por isso, os ciberataques podem servir como arma para atingir fi ns políticos, até mesmo como instrumento principal ou complementar da guerra (SHAKARIAN, P.; SHAKARIAN, J.; RUEF, 2013). Fundamentalmente, os ciberataques são ações ofensivas articuladas no meio digital que objetivam afetar a disponibilidade, a integridade e a confi dencialidade de uma rede de informações, 5 O Wikileaks é uma ONG sem � ns lucrativos internacional responsável por publicar mídias e dados secretos doados anonimamente. A organização foi fundada em 2006 pelo periódico em que Assange participou, a Sunshine Press, na Islândia. Como seu próprio nome diz, “Wiki” remete a uma biblioteca compartilhada de documentos que são “leaks” (do inglês vazamentos), ou seja, divulgados para denunciar crimes contra o bem-estar social no mundo (WIKILEAKS, 2015). 6 A National Security Agency, ou Agência de Segurança Nacional, é um órgão do governo dos Estados Unidos responsável por monitorar e estrategizar a segurança em todos os campos desse país (NSA, 2021). 7 Os primeiros contatos de Edward Snowden foram Glenn Greenwald e Laura Poitras, fundadores do jornal internacional � e Intercept. Esse periódico se destaca no campo de divulgação de dados vazados para denunciar maus tratos aos direitos humanos (WIKILEAKS, 2015; THE INTERCEPT, 2021). UFRGSMUNDI • 36 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • resultando em dano físico a um sistema, uma empresa ou um indivíduo (SINGER; FRIEDMAN, 2014). Com isso, essa seção busca demonstrar o desenvolvimento e a utilização de ciberataques — desde vírus, malwares8, aos Distributed Denial of Service (DDoS) — através de casos emblemáticos que exemplifi cam cada um, com enfoque nas ameaças contra Estados. 1.3.1 DISTRIBUTED DENIAL OF SERVICE (DDOS): O CASO DA ESTÔNIA Os Distributed Denial of Service (DDoS) (ou Negação de Serviço Distribuída) são ataques coordenados entre múltiplos servidores que se baseiam em sobrecarregar um sistema-alvo com uma quantidade exagerada de acessos simultâneos. Com isso, é possível inutilizar para os demais usuários o site, o servidor ou até mesmo a infraestrutura atingida (SHAKARIAN, P.; SHAKARIAN, J.; RUEF, 2013). O primeiro caso que suscitou a ideia mundialmente da capacidade política de ciberataques ocorreu na Estônia, em 2007. A motivação dos ciberataques ocorreu devido à realocação de uma estátua simbólica da Segunda Guerra Mundial, em Tallinn, capital da Estônia. Isso resultou em uma onda de protestos políticos entre grupos estonianos de etnia russa e o governo estoniano, que eram respectivamente contrários e a favor da realocação do monumento (SILVA; LEÃO, 2018). Simultaneamente, através de ataques DDoS, hackers russos se infi ltraram na infraestrutura de computadores do governo da Estônia, conseguindo sobrecarregar e colapsar sites dos ministérios, servidores de bancos e de telecomunicação (MESQUITA, 2019). Somado a isso, conseguiram até mesmo desativar por 12 horas o e-mail dos parlamentares da Estônia (SHAKARIAN, P.; SHAKARIAN, J.; RUEF, 2013). Mesmo não sendo possível provar com certeza a autoria dos ciberataques, as autoridades da Estônia solicitaram medidas de apoio à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) com a convicção de que o Kremlin9 foi responsável. No entanto, devido à difi culdade de atribuição dos ataques e à inexperiência da organização sobre medidas de resposta a casos do tipo, a OTAN não reagiu (SPRINGER, 2017). 1.3.2 O VÍRUS STUXNET No dia 17 de junho de 2010, o mundo experienciou um acontecimento que revolucionou a noção de uso de armas cibernéticas e as relações internacionais no plano virtual: a fi rma de antivírus bielorrussa VirusBlockAda identifi cou o malware Stuxnet (SHAKARIAN, 2011). O Stuxnet foi o primeiro vírus de computador destinado a danifi car um sistema de controle industrial, que envolve desde a produção à distribuição industrial (de gás natural ou petróleo, por exemplo). No caso do Stuxnet, o mais afetado foi o Sistema de Controle e Aquisição de Dados (SCADA, sigla em inglês), responsável por possibilitar o monitoramento de dados de algum programa específi co e a manipulação de comandos a partir dele (SPRINGER, 2017). Assim, o Stuxnet buscou alterar as funções operacionais desse sistema,especialmente o funcionamento das centrífugas usadas no enriquecimento de urânio de Natanz, um dos centros do programa nuclear do Irã (SPRINGER, 2017). Os ataques foram atribuídos a uma ação conjunta entre a Agência de Segurança dos EUA e uma unidade cibernética governamental de Israel (LITWAK; KING, 2015). Entender o Stuxnet é compreender a dimensão do poder potencial na utilização de armas cibernéticas e as implicações disso para as relações militares. Primeiro, o ciberataque foi bem-sucedido, com a estimativa de ter atrasado por 2 anos o programa nuclear iraniano (SHAKARIAN, 2011). Segundo, tinha um alvo extremamente específi co — o SCADA — e manteve a contaminação de computadores pelo vírus restrita a esse alvo, evitando a danifi cação generalizada dos sistemas industriais (SINGER; FRIEDMAN, 2014). Pela efi ciência desse aspecto, o código do Stuxnet se aproximou muito do código original do sistema. Essa capacidade de discriminação tornou difícil identifi car o vírus e descontaminar os computadores dele (SINGER; FRIEDMAN, 2014). Por fi m, o Stuxnet utilizou as chamadas “zero days” (dias zero), vulnerabilidades dentro dos sistemas operacionais do Windows que eram previamente desconhecidas (SPRINGER, 2017). Dessa forma, o vírus Stuxnet ganhou muito destaque por ser considerado o primeiro caso de ciberataque à infraestrutura crítica de outro país que trouxe danos físicos. Com isso, abriu precedentes para as discussões sobre ética dentro do ciberespaço e intensifi cou 8 Malware é um termo referente a um “código malicioso” (ou so� ware malicioso) de computador. O Stuxnet é considerado um “worm” (verme), um malware que se propaga para outros computadores através da auto replicação (CENTRO DE ESTUDOS, RESPOSTA E TRATAMENTO DE INCIDENTES DE SEGURANÇA NO BRASIL, 2017). 9 No sentido literal, Kremlin é a fortaleza onde reside o presidente da Rússia, situada no centro de Moscou próximo à Praça Vermelha. No entanto, utiliza-se comumente o termo para referir-se ao próprio governo russo. ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ASSEMBLEIA GERAL • 37 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • o sentimento de insegurança entre Estados na utilização de ciberataques (SHAKARIAN, 2011). 2 APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA Nos próximos pontos desta seção são feitas refl exões sobre os problemas que hoje são uma ameaça para a soberania e a segurança no ciberespaço. Primeiramente, discute-se o controle de informações e o conceito de soberania para o meio cibernético. Em segundo lugar, explora-se a fundo como o ciberespaço é utilizado como um espaço de guerra e, sobretudo, por que ele se apresenta como um campo inseguro nas relações internacionais. Por último, analisamos quais são e como funcionam os processos de cooperação internacional para criar normas e leis capazes de tornar o ciberespaço mais seguro e estável. Conclui-se refl etindo sobre qual é o papel da AGNU e dos seus participantes na resolução desses problemas. 2.1 O CONTROLE DE INFORMAÇÕES E A SOBERANIA NO CIBERESPAÇO Em 1648, a assinatura dos tratados de Münster e Osnabruck, que constituíram então a Paz de Westfália, deu fi m à Guerra dos Trinta Anos (1618-1648) e instaurou o sistema internacional como é conhecido hoje, estabelecendo princípios importantes para as relações entre as nações, como: soberania estatal, territorialidade e não-intervenção (JUBILUT, 2010). Até a fundação da Organização das Nações Unidas (ONU) em 1945, os debates e teorias sobre soberania eram majoritariamente europeus, porém a discussão se expandiu com a criação da ONU. A Carta da ONU (1945), no primeiro capítulo, artigo 2°, estabelece que “todos os membros devem abster-se, em suas relações internacionais, de ameaças ou uso da força contra a integridade territorial ou independência política de qualquer estado [...]” (UNITED NATIONS, 1945, p. 3). Assim, a soberania é a concepção de que os assuntos e as instituições dentro de um determinado território são de preocupação apenas do governo daquele território (POMERLEAU, 2019). Entretanto, a Internet acabou por desafi ar essa noção tradicional de soberania, tornando a questão mais complicada, já que não há linhas físicas às quais se ater. Destacando-se especialmente duas vertentes teóricas: o excepcionalismo cibernético e a governança da Internet com múltiplos atores. O excepcionalismo cibernético foi bastante popular na década de 1990 e argumenta que o mundo digital é diferente do mundo analógico. Portanto, é necessário que ele não seja tratado da mesma forma que as invenções tecnológicas prévias. A partir dos anos 2000, a governança da Internet com múltiplos atores, ou governança de múltiplas partes interessadas na Internet, ganhou espaço, defendendo que o foco deveria ser como aqueles que são afetados pela Internet deveriam administrá-la. De acordo com essa corrente teórica, o que ocorreria seria uma governança de várias partes interessadas cuja base seria a de abertura, inclusão, colaboração de baixo para cima e tomada de decisão consensual (FIFTH DOMAIN, 2019; POHLE; THIEL, 2020; POMERLEAU, 2019). A ideia de uma governança digital conjunta acabou se enfraquecendo se for levado em conta a quantidade de confl itos internos que ocorrem por causa de problemas de coordenação, pois muitas vezes há diversos processos de governança paralelos, e também por causa da mudança temática de questões originalmente tecnológicas para questões políticas ou sociais. Além disso, cada vez mais ocorre tentativas de nações de regionalizar mais intensamente o desenvolvimento de redes digitais, o que vai de encontro aos princípios previamente estabelecidos na governança de múltiplas partes interessadas na Internet. Sendo assim, não parece possível retornar à ideia inicial da proposta (POHLE; THIEL, 2020). Esse tipo de acontecimento fez ressurgir o conceito de soberania como princípio na formulação de políticas digitais, mas a questão é que o debate sobre o mundo digital é tão novo na comunidade internacional que ainda não há consenso sobre defi nições e curso de ação. É possível dizer que a ideia que a maioria das pessoas possui sobre as comunicações digitais estarem em confronto com a soberania estatal não desapareceu, assim como os desafi os de se colocar essa soberania em prática no mundo digital. Assim, vários atores passaram a afi rmar a necessidade do estabelecimento da soberania no mundo digital, pautados normalmente em duas justifi cativas: o poder crescente dos atores corporativos que enriquecem na esfera comercializável da Internet e que possuem poder material e imaterial de reter estruturas sociais vitais. Outro argumento é o perigo de vigilância e manipulação estrangeira, que UFRGSMUNDI • 38 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • surgiu logo após a repercussão do caso Edward Snowden (FIFTH DOMAIN, 2019; POHLE; THIEL, 2020; POMERLEAU, 2019). A partir da Conferência da ONU sobre Sociedade da Informação e Desenvolvimento (1996) e da Conferência Ministerial sobre Terrorismo (1999), fi cou estabelecido que a disseminação das Tecnologias de Informação e Comunicação estava diretamente ligada aos interesses da comunidade internacional como um todo e, por isso, um tema sobre o desenvolvimento da informação e da comunicação no contexto da segurança internacional deveria ser incluído na agenda da Assembleia Geral. A ONU relatou sua preocupação quanto aos riscos de que as novas tecnologias fossem usadas para fi ns que afetassem negativamente a segurança dos Estados e incentivou que todos os membros apresentassem relatórios sobre suas defi nições particulares de conceitos básicos de segurança da informação e se os princípios internacionais deveriam ser instituídos para tornar os sistemas globais de informação e comunicação mais seguros (FANG, 2018). O conceito tradicional de soberania foi largamente difundido como uma lei executável que tem seu respaldo em arranjos estruturais claros, como, por exemplo, o monopólio estatal da força. Os instrumentosde poder soberano criados no sistema westfaliano parecem simples, mas a constante inovação tecnológica fez com que a situação fi casse complicada. Em 2018, o procurador-geral britânico proclamou que operações cibernéticas de qualquer tipo não caracteriza violação da soberania, enquanto que, em 2019, os franceses alegaram que qualquer operação cibernética que cause efeito constitui uma violação da soberania. Ao longo de vinte anos de debate a respeito do tema, a Assembleia Geral salienta a necessidade da utilização da Carta das Nações Unidas e do princípio de soberania no ciberespaço para que haja melhora na segurança do uso das tecnologias de informação e comunicação. A ONU ainda enfatiza também que é de imensa relevância para todos que o mundo digital seja aberto, seguro, estável, livre de obstáculos e pacífi co, e que a construção disso necessita da cooperação dos Estados em prol da paz e segurança internacionais (FANG, 2018; FIFTH DOMAIN, 2019; POHLE; THIEL, 2020; POMERLEAU, 2019). 2.2 A DIMENSÃO MILITAR DO CIBERESPAÇO E AS IMPLICAÇÕES PARA A SEGURANÇA INTERNACIONAL Quando se trata das atividades no ciberespaço, um dos principais pontos de debate diz respeito à sua dimensão militar e aos impactos dos confl itos cibernéticos nas dinâmicas de poder a nível global. Com isso em mente, a presente seção busca desenvolver a relação entre cibersegurança e política internacional, tratando de questões securitárias10 pertinentes ao tema, como o avanço de uma corrida armamentista cibernética, a classifi cação dos países mais poderosos no meio digital, a utilização em massa da espionagem eletrônica e, em suma, os riscos associados à militarização do ciberespaço. Conforme visto, o ciberespaço é uma das maiores invenções humanas, um conjunto gigantesco de redes e conexões que revolucionou o tecido social, econômico e político da contemporaneidade, tanto a nível doméstico e individual, quanto nas relações interestatais em meio à comunidade internacional. Como uma dimensão importante da atuação do Estado, o setor militar também foi profundamente impactado pelas novas tecnologias, particularmente quando se considera o contexto em que os processos decisórios e a infraestrutura crítica dos países estão cada vez mais vinculados à rede (GCSC, 2019; GHERNAOUTI, 2013). O ciberespaço, assim, tornou-se um ambiente com a capacidade de hospedar confl itos e operações militares, podendo operar como uma ferramenta útil a fi ns maliciosos. Segundo o Center for Strategic and International Studies (CSIS), um centro de especialistas sediado nos Estados Unidos, é possível contabilizar mais de 680 ciberataques signifi cativos11 desde 2006 até março de 2021 (CENTER FOR STRATEGIC AND INTERNATIONAL STUDIES, 2021). Para compreender por que um país opta por lançar ciberataques, é importante delinear algumas comparações entre armas cibernéticas — entendidas como ferramentas, especialmente malwares, 10 Aqui, o adjetivo “securitário” faz alusão à ideia geral de segurança internacional. De modo geral, o conceito de segurança internacional envolve as diversas medidas tomadas por organizações e Estados, a nível global, para salvaguardar a sobrevivência e proteger-se contra ameaças à estabilidade. Isso envolve ações militares, mas também diplomáticas, tais como tratados e convenções (OSISANYA, 2021). 11 A metodologia do CSIS entende um ciberataque signi� cativo como aquele que atinge agências estatais, setores de defesa e empresas de alta tecnologia, ou caso tenham ocorrido crimes econômicos com perdas de mais de um milhão de dólares (CSIS, 2021). Se fôssemos contabilizar ciberataques de maneira mais geral (considerando, por exemplo, o cibercrime de pequena escala, realizado por atores não- estatais e com vistas à extorsão � nanceira e ao roubo de dados pessoais), o número diário de ocorrências chegaria à casa dos milhares. Durante o ano de 2018, por exemplo, foram mais de 30 milhões (PURPLESEC, 2021). ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ASSEMBLEIA GERAL • 39 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • capazes de executar ataques disruptivos no ciberespaço — e sistemas tradicionais, como armas de fogo e dispositivos explosivos. De início, pode-se pontuar que as armas cibernéticas têm um efeito indireto e geralmente complementar a outras atividades, ao passo que o impacto dos armamentos convencionais é direto e palpável. Ainda que sejam necessários gastos em pesquisa e desenvolvimento em ambos os casos, a aquisição de armas cibernéticas é comparativamente mais barata e simples, dado que os recursos essenciais12 a sua construção são bastante acessíveis, além da manutenção dessas capacidades também custar menos. Por fi m, conclui-se que a proliferação dessas armas pelo ciberespaço é substancialmente mais fácil que o transporte e a estocagem de sistemas tradicionais no mundo físico, o que levanta preocupações acerca da possibilidade de uma corrida armamentista cibernética entre os países (PUYVELDE; BRANTLY, 2019). Conforme apontado por Abaimov e Martellini (2017, p. 6, tradução nossa), existem várias possíveis motivações por detrás de um ciberataque, como, por exemplo, “[...] obter informação estratégica, impactar o Sistema de Comando e Controle13 de um inimigo, danifi car a infraestrutura crítica, e interromper o aparelho de alerta precoce e demais funções vitais”. Esses interesses são ainda mais potencializados por outras vantagens militares oferecidas por ataques cibernéticos, especialmente a capacidade de realizar operações furtivas e anônimas, sem que a origem possa ser facilmente descoberta. Ao mesmo tempo que os países se preocupam em proteger seus pontos vulneráveis contra ataques, portanto, eles também buscam formas de explorar as vulnerabilidades alheias, criando um cenário em que os Estados estão investindo em inovações tecnológicas e desenvolvendo armas cibernéticas cada vez mais sofi sticadas e perigosas (ABAIMOV; MARTELLINI, 2017). A situação descrita acima, em que dois ou mais países estão aumentando o número e a força de suas armas, é o que confi gura uma corrida armamentista. Geralmente, a competição se baseia no objetivo de fi car à frente dos outros, seja por desejo de ser o mais forte e dissuadir os demais, seja por medo de ser superado e estar em uma posição de insegurança. Esse tipo de disputa interestatal é um refl exo da crescente militarização do ciberespaço, embora seja difícil medir a real dimensão desse processo — comparativamente aos armamentos tradicionais, a natureza virtual das armas cibernéticas faz com que elas possam passar mais despercebidas, de modo que os próprios países não tenham noção efetiva das capacidades de seus adversários. Essa situação de competitividade interestatal é propulsionada pela ausência de consenso em torno de uma estratégia conjunta e de regulamentos internacionais para o ciberespaço, questão que será melhor desenvolvida na próxima seção (ABAIMOV; MARTELLINI, 2017; PUYVELDE; BRANTLY, 2019). Com essas considerações em mente, levanta-se a discussão de como determinar o poder e a posição de um país no ciberespaço. Para isso, é importante defi nir o conceito de poder cibernético, que pode ser entendido como “a habilidade de usar o ciberespaço para criar vantagens e infl uenciar eventos em todos os ambientes operacionais e instrumentos de poder, visando alcançar os objetivos políticos da nação” (SHELDON, 2011, p. 95, tradução nossa). Esse processo é complexo e envolve muitos componentes, como estratégias governamentais, recursos fi nanceiros, participação do setor privado e liderança em inovações tecnológicas. Para que um Estado seja considerado uma potência cibernética, portanto, é necessário que ele desenvolva capacidades14 e efetivamente as utilize para defender e projetar seus diferentes interesses nacionais no ciberespaço (PUYVELDE; BRANTLY, 2019; VOO et al., 2020). Em 2020, o Centro Belfer de Ciência e Assuntos Internacionais publicou um estudo que classifi ca os países de acordo com seu poder cibernético.Para isso, os cientistas defi niram sete principais objetivos que costumam interessar aos Estados no ciberespaço (VOO et al., 2020). São os seguintes: 1. A vigilância e o monitoramento das populações; 2. O controle e a manipulação da informação; 3. O fortalecimento das capacidades defensivas; 12 Como habilidades de programação, hardwares e so� wares. Em contrapartida, a construção de sistemas tradicionais depende de materiais mais rebuscados, de modo que a riqueza do país se torna um fator importante (PUYVELDE; BRANTLY, 2019). 13 Um Sistema de Comando e Controle, conceito geralmente associado ao meio militar, diz respeito ao “conjunto de instalações, equipamentos, sistemas de informação, comunicações, doutrinas, procedimentos e pessoal essenciais para o decisor planejar, dirigir e controlar as ações da sua organização” (BRASIL, 2019, p. 14). Trata-se, portanto, de uma cadeia de comando, responsável pela gestão de todas as forças em operação. 14 Aqui, capacidades cibernéticas são compreendidas como o conjunto de ferramentas e recursos disponíveis a um Estado para que ele possa se proteger ou projetar in� uência no ciberespaço. Pode-se pensar, por exemplo, em quantidade e so� sticação de so� wares e armas cibernéticas, mas também em número de trabalhadores quali� cados, de patentes registradas e de centros de pesquisa e desenvolvimento sobre o assunto (PUYVELDE; BRANTLY, 2019; VOO et al., 2020). UFRGSMUNDI • 40 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 4. O desenvolvimento das capacidades ofensivas; 5. A coleta de informação e inteligência estratégicas; 6. O crescimento do comércio e da indústria doméstica; 7. A defi nição de normas cibernéticas e padrões técnicos internacionais. Dado que os países possuem recursos, interesses e prioridades diferentes, eles atingiram pontuações distintas em cada objetivo. Analisando o desempenho médio geral, ao longo dos sete temas propostos, foi possível estabelecer a classifi cação das dez principais potências no ciberespaço, quais sejam: Estados Unidos da América, China, Reino Unido, Rússia, Países Baixos, França, Alemanha, Canadá, Japão e Austrália (VOO et al., 2020). Na análise, foram consideradas duas variáveis importantes: intenção e capacidades. De modo geral, a primeira defi ne o nível de disposição do Estado para utilizar os meios cibernéticos em busca dos objetivos nacionais, enquanto as capacidades delimitam a real viabilidade desse processo, a partir dos recursos efetivamente disponíveis ao país. Um governo, portanto, pode possuir as capacidades necessárias para atingir determinado objetivo através do ciberespaço, mas pode não ter a intenção de fazê-lo. Em contrapartida, outro governo pode apresentar essa intenção, porém não os recursos fundamentais para concretizá-la. O gráfi co abaixo (gráfi co 1) demonstra como diferentes países se posicionam dentro das dinâmicas possíveis entre essas duas variáveis (VOO et al., 2020). Gráfi co 1: Classifi cação dos países a partir de capacidades e intenção Fonte: VOO et al., 2020. Ainda tratando do debate sobre as implicações do ciberespaço para a segurança internacional, é importante destacar outra forma de rivalidade interestatal: a espionagem militar e a vigilância eletrônica em massa. A ciberespionagem é utilizada com frequência, e pode ser entendida como uma forma de conseguir acesso não-autorizado a redes e sistemas de outro país, de modo a obter dados e informações confi denciais. Quando aplicada ao âmbito militar, a espionagem comumente se refere, também, ao roubo de propriedade intelectual e de projetos ainda em desenvolvimento, dando ao país invasor uma vantagem estratégica (PUYVELDE; BRANTLY, 2019). Um exemplo pertinente de ciberespionagem é o caso conhecido como Titan Rain, cujo principal alvo foi o Departamento de Defesa dos Estados Unidos — especialmente o setor de inteligência militar —, além dos Ministérios da Defesa e de Relações Exteriores do Reino Unido. Os ataques ocorreram ao longo do período de 2002 até 2007, e quantidade considerável de informação foi roubada. Os Estados Unidos atribuem a autoria da operação à China, embora isso não seja comprovado (SHAKARIAN, P.; SHAKARIAN, J.; RUEF, 2013). O ciberespaço, portanto, vem progressivamente se tornando um ambiente em que países perseguem e defendem seus interesses nacionais, confi gurando-se, por conseguinte, como um local de disputa política. Nesse cenário de incerteza, os Estados constroem cada vez mais capacidades cibernéticas, ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ASSEMBLEIA GERAL • 41 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • para defesa e para ataque, o que demonstra os riscos da militarização do ciberespaço e do desenrolar de uma corrida armamentista. Para diversos especialistas, a resposta se encontra em estabelecer normas e acordos internacionais, defi nidos em conjunto, que possibilitem a estabilidade do ciberespaço e o comportamento estatal responsável nesse domínio, limitando a proliferação de armas cibernéticas e incentivando a cooperação entre os países (ABAIMOV; MARTELLINI, 2017; GCSC, 2019). 2.3 O DEBATE ACERCA DA REGULAMENTAÇÃO DO CIBERESPAÇO Nas seções passadas, foi explorado como a natureza rápida, variada e em constante mudança do ciberespaço pode representar ao mesmo tempo grandes avanços e profundos perigos para o mundo. A partir disso, nesta próxima seção, refl etir-se-á sobre como os atores do mundo cibernético cooperam entre si para transformar esse ambiente em um espaço mais seguro. Busca-se entender quais são os benefícios e as difi culdades de regulamentar o ciberespaço. Depois, são elencadas as estratégias utilizadas pelos agentes e que interesses estão por trás das suas ações. Ao fi nal, conclui-se debatendo sobre o papel da AGNU nessa tarefa. 2.3.1 QUAIS SÃO OS BENEFÍCIOS E AS DIFICULDADES DE REGULAMENTAR O CIBERESPAÇO? Como vimos na seção anterior, os avanços tecnológicos que compõem o ciberespaço atualmente impactam o sistema internacional trazendo diversos benefícios e riscos. Instrumentos como as TICs são capazes de conectar boa parte do planeta, acelerando operações econômicas, facilitando a comunicação interestatal e contribuindo para o desenvolvimento mundial (RUHL et al., 2020). Ao mesmo tempo, essa alta conexão também abre brechas para o uso agressivo do ciberespaço. Cibercrimes e ciberataques podem ser conduzidos sem a necessidade de estruturas muito avançadas e, mesmo assim, causar enormes prejuízos por meio de vazamentos de dados ou até mesmo desestabilização de estruturas vitais de um Estado (AUSTIN, 2017; INTERNATIONAL INSTITUTE FOR STRATEGIC STUDIES, 2021). A regulamentação do ciberespaço é uma tentativa de diminuir esses riscos por meio da cooperação internacional. Nesse sentido, os atores cibernéticos buscam construir regras e normas para transformar o ciberespaço em um ambiente mais seguro e conectado (SLACK, 2016). Acordos e tratados internacionais são negociados pelos atores com a intenção de atingir interesses comuns dentro do ciberespaço, como a garantia da soberania para os Estados, a transparência em operações cibernéticas e o compartilhamento de conhecimento técnico nesse campo. Todas essas regras podem ser chamadas de Medidas de Construção de Confi ança (MCCs), pois elas operam para diminuir as tensões políticas no meio cibernético internacional (RUHL et al., 2020; SLACK, 2016). 2.3.2 AS ABORDAGENS DE POLÍTICA EXTERNA PARA O CIBERESPAÇO: MULTILATERALISMO, SISTEMA ABERTO E ACORDOS NÃO- GOVERNAMENTAIS Levando todos esses perigos em consideração, os agentes do ciberespaço desenvolveram estratégias distintas para a regulamentação, considerando os seus interesses externos. Podemos classifi cá-las em três tipos básicos: o Multilateralismo; o Sistema Aberto; e os Acordos Não- Governamentais15 (SHEN, 2016; SLACK, 2016). Essas envolvem a construção de MCCs, tanto em tratados internacionais ofi ciais, quanto em normas acordadas informalmente. Além disso, elas compartilhamdos mesmos objetivos de garantir a soberania, preservar a segurança no ciberespaço e atingir um consenso entre os interesses dos atores participantes (RUHL et al., 2020). No quadro abaixo (Quadro 1), encontra-se um resumo, seguido pela explicação: 15 Essa classi� cação está presente nas obras acadêmicas “Cyber Sovereignty and the Governance of Global Cyberspace” de Yi Shen (2016) e “Wired Yet Disconnected” de Chelsey Slack (2016), ambas utilizadas como bibliogra� a de referência para a produção deste material. Uma explicação mais especí� ca está presente no Glossário. UFRGSMUNDI • 42 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • Quadro 1: Estratégias e Polarizações dos Regimes de Regulamentação do Ciberespaço Regimes de Regulamentação UN GGE OEWG Comissão Global ICANN Carta de Confi ança Estratégia Multilateral Multilateral Sistema Aberto Não-estatal (ONG) Não-estatal (Indústria) Polarização EUA + OTAN Rússia e Outros* França, Singapura, Índia, Think Tanks e Empresas EUA + OTAN Não existente Fonte: IISS, 2021; FANG, 2018; RUHL et al., 2020; SLACK, 2016. No ponto da polarização da Open Ended Working Group (OEWG), destacam-se “Outros” como países não alinhados com os EUA e as demais democracias liberais, mas que também buscam exercer sua soberania e expandir a sua infl uência no ciberespaço. É o caso do Irã, da Turquia, da Índia e do Vietnã, dentre outros países em desenvolvimento (SHEN, 2016). 2.3.3 OS REGIMES DE INTEGRAÇÃO JÁ EXISTENTES: UN GGE, OEWG, COMISSÃO GLOBAL, ICANN E CARTA DE CONFIANÇA A estratégia do Multilateralismo se trata de regimes de regulamentação que são quase exclusivamente focados nos Estados-nação, desconsiderando os demais grupos de atores. Esse é o caso do Grupo de Especialistas em Governança das Nações Unidas (UN GGE, na sigla em inglês), que reúne cerca de 25 Estados-nação e trata da desmilitarização do ciberespaço, da construção de MCCs e da aplicabilidade do direito internacional para o meio cibernético. Esse órgão produz recomendações a partir do consenso de todos os especialistas dos países membros, os quais são rotacionados de três em três anos (RUHL et al., 2020; UNITED NATIONS OFFICE FOR DISARMAMENT AFFAIRS, 2021a). Apesar de reunir grandes potências como Rússia e China, o GGE é fortemente patrocinado e utilizado pelos Estados Unidos como um meio de estabelecer os seus interesses na agenda internacional para o ciberespaço. Esse grupo de especialistas faz conexão com todos os países da Organização do Tratado do Atlântico-Norte (OTAN)16, os quais são, via de regra, aliados dos Estados Unidos (SLACK, 2016). Sua infl uência sobre o mundo se torna clara a partir da adoção de normas criadas pelo GGE em blocos como a União Europeia (UE) e a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN, sigla em inglês) em 2015. Devido ao consenso necessário, os adversários dos Estados Unidos, como China, Rússia, Cuba e, por vezes, Índia, podem gerar difi culdades na produção de MCCs e restringir discussões sobre, por exemplo, espionagem de dados e privacidade digital (RUHL et al., 2020; PUYVELDE; BRANTLY, 2019). Outro exemplo de integração multilateral na ONU é o do Grupo de Trabalho Aberto (OEWG, na sigla em inglês). Essa iniciativa foi patrocinada e criada pela Rússia, contrapondo a GGE de 2017, que resultou em grande falta de consenso e abandono das medidas acordadas pelos países. A criação do OEWG foi aceita pela Assembleia Geral da ONU ao mesmo tempo da renovação da GGE em 2019, gerando atritos entre Rússia e Estados Unidos (UNODA, 2021b). Surge então uma polarização clara que pode atrasar a construção de MCCs e a regulamentação do ciberespaço. De um lado, está o GGE, apoiado pelos Estados Unidos e pelos membros da OTAN. Em oposição, está o OEWG, patrocinado pela Rússia e integrado por todos os países da ONU. As resoluções de ambos os órgãos, por vezes, se contradizem (RUHL et al., 2020). Contrapondo as estratégias multilaterais, a Comissão Global para a Estabilidade no Ciberespaço traz o exemplo de um Sistema Aberto de regulamentação. Esse tipo de integração inclui todos os quatro grupos de atores do ciberespaço para produzir normas e regras, gerando um espaço rico e diverso para 16 A Organização do Tratado do Atlântico-Norte foi criada durante a Guerra Fria, consolidando o bloco capitalista e ocidental comandado pelos Estados Unidos em regra internacional (NORTH ATLANTIC TREATY ORGANIZATION, 2017). ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ASSEMBLEIA GERAL • 43 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • a construção de MCCs (SLACK, 2016). A Comissão foi fundada a partir da iniciativa da França, dos Países Baixos e de Singapura. Além disso, reúne Think Tanks17 da Holanda e da Índia, diversas empresas privadas e outros Estados (GCSC, 2019). Assim como a maioria dos regimes, a Comissão também se baseia nos princípios da GGE. No entanto, diferente do Grupo de Especialistas em Governança, a Comissão não possui a autoridade da ONU para conferir legitimidade equivalente às suas ações. Representa um esforço interessante para estabelecer normas e regras mais informais, isto é, não obrigatórias em tratado. Além disso, sua grande variedade de membros propõe um panorama técnico completo e necessário para produzir avanços na regulamentação do ciberespaço (GCSC, 2019; RUHL et al., 2020). Por último, a estratégia dos Acordos Não-Governamentais pode ser exemplifi cada pela Corporação da Internet para o Apontamento de Nomes e Números (ICANN). Essa estratégia não é controlada por Estados-nação ou OIs, mas também não exclui esses agentes do processo de integração. A ICANN foi fundada em 1988 como uma ONG sediada no estado da Califórnia e associada diretamente ao governo dos Estados Unidos. Desde então, ela proveu a organização dos domínios e operou18 garantindo a estabilização e unidade da Internet em escala global (PUYVELDE; BRANTLY, 2019). Em 2016, a ONG fi nalmente se tornou completamente independente dos Estados Unidos, depois de seguidas pressões internacionais para a quebra desse monopólio. No entanto, a ICANN permanece sediada na Califórnia e, de certa forma, ainda está sob a infl uência do país norte-americano. A ICANN foi por muito tempo um instrumento utilizado pelos EUA para expandir a sua hegemonia no ciberespaço internacional. Nesse sentido, ainda existe uma certa insegurança quanto à sua parcialidade (PUYVELDE; BRANTLY, 2019; SHEN, 2016). Outro exemplo de Acordo Não-Governamental é o da Carta de Confi ança das corporações no ciberespaço. Essa iniciativa reuniu grandes empresas e Provedoras de Serviços de Internet (PSIs) alemãs e estadunidenses como Allianz, Dell Technologies, Cisco e Airbus para o compromisso de proteger os dados de clientes, empresas e infraestruturas e criar um espaço seguro para a evolução tecnológica ciberespacial. Apesar de se tratar do âmbito da AGNU, onde somente os Estados-nação possuem voz efetiva, os esforços desses atores são também extremamente signifi cativos e não podem ser esquecidos (PUYVELDE; BRANTLY, 2019; RUHL et al., 2020; SLACK, 2016). 2.3.4 PAPEL DA ASSEMBLEIA GERAL DAS NAÇÕES UNIDAS NA GARANTIA DA SOBERANIA UNIFORME NO CIBERESPAÇO GLOBAL O papel da AGNU termina por ser naturalmente focado em uma estratégia mais multilateral. Sobretudo quanto a questões de soberania e segurança no ciberespaço, a AGNU deve servir como um fórum representativo para todas as nações estarem incluídas neste debate (UNGA, 2021). Nas discussões para o ciberespaço, deve-se prezar pelo direito global ao acesso ao meio cibernético para que o direito igualitário à soberania seja preservado. Além disso, a AGNU deve buscar produzir consensos relacionados a essa grande problemática que envolve interesses políticos de centenas de nações, empresas, ONGs e outros regimes internacionais (GOLD, 2021; PUYVELDE; BRANTLY, 2019; UNGA, 2021). 3 AÇÕES INTERNACIONAIS PRÉVIAS Esta seção aborda esforços já realizados, fi nalizados ou não, referentes à segurança internacionalno ciberespaço, visando a reafi rmar a soberania no meio virtual. Além disso, revisa-se aqui processos- chave de integração internacional mencionados ao longo da seção anterior. 17 � ink Tanks são órgãos que geralmente estão associados a centros de pesquisas ou universidades. A sua função é produzir conhecimento cientí� co para ajudar a re� etir e tratar diversas temáticas, como é o caso do ciberespaço (LEXICO, 2021). 18 Um domínio de Internet é uma etiqueta textual criada para identi� car e armazenar dados de usuários, sites e serviços da rede global. Os domínios fazem parte do Sistema de Nomes de Domínios (DNS, sigla em inglês), o qual é capaz de diferenciar os milhares de endereços existentes na Internet de forma que cada link esteja direcionado para o seu respectivo site, e-mail ou servidor. Dessa forma, o DNS e os domínios são justamente o que organizam as identidades da Internet em escala global, preservando a dinâmica utilizada atualmente no meio cibernético (SERBIAN NATIONAL INTERNET DOMAIN REGISTRY, 2021). UFRGSMUNDI • 44 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 3.1 ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS - GRUPO DE ESPECIALISTAS EM GOVERNANÇA (UN GGE) O Grupo de Especialistas em Governança das Nações Unidas (UN GGE) é uma iniciativa da ONU com objetivo de estudar possíveis aplicações do Direito Internacional ao espaço digital, principalmente no que se refere à esfera estatal. Em outras palavras, o GGE busca adaptar, principalmente, as leis de confl itos armados ao meio virtual. Esforços semelhantes já foram feitos, como o Manual Tallinn, em 2013. Porém, visto que o espaço virtual é altamente fl uido, é necessário adaptar a legislação existente. Alguns pontos do escopo estudado pelo GGE são os princípios da humanidade, da distinção entre combatentes e não-combatentes e da proibição de causar males supérfl uos e sofrimento desnecessário (TALPAI; BRANCO, 2020). 3.2 MANUAL TALLINN O Manual Tallinn é um documento elaborado em 2013 por especialistas de diversos países em Direito Internacional e tecnologia, inclusive representantes dos países-membros da OTAN. Sua elaboração se deu na Estônia, país que sofreu graves ataques cibernéticos, incentivando-o a adotar medidas urgentes de proteção no meio digital (MESQUITA, 2019). O objetivo do manual é estabelecer diretrizes para ataques cibernéticos por meio da aplicação do Direito Internacional, defi nindo quais procedimentos seriam adotados no caso de ataques do tipo (BUSTELO, 2017). Em 2017, foi lançado o Manual Tallinn 2.0, uma extensão do documento e que busca complementar o manual original, agora analisando crimes cibernéticos em período de paz (TALPAI; BRANCO, 2020). 3.3 RESOLUÇÃO 56/121 A Resolução 56/121 é uma das resoluções mais importantes da ONU em relação ao cibercrime (APARÍCIO, 2017). No documento, a Assembleia Geral defi ne o que pode ser considerado como cibercrime, com objetivo de encontrar formas de combatê-lo na esfera internacional (UNGA, 2002). 3.4 POLÍTICAS DE SEGURANÇA DA UNIÃO EUROPEIA (UE) A União Europeia possui algumas estratégias de cibersegurança. Em 2005, foi estabelecida a European Network and Information Security Agency (ENISA, sigla em inglês), órgão cuja função é proteger a informação da UE, apoiando os Estados-membros e as instituições europeias contra ciberataques (PEREIRA, 2013). Atualmente, a UE tem buscado novas maneiras de assegurar a proteção no espaço digital. A Comissão Europeia, órgão que funciona como parlamento europeu, e o Serviço Europeu para Ação Externa (SEAE), equivalente ao Ministério das Relações Exteriores para a Europa, apresentaram, em dezembro de 2020, uma nova estratégia de cibersegurança para a UE. Focada em reforçar as barreiras europeias contra as ciberameaças, a estratégia vem aliada a propostas legislativas para enfrentar riscos de ataques virtuais: uma delas versa sobre diretrizes para melhor proteger os sistemas de informação e a outra se refere à resiliência das entidades responsáveis (COUNCIL OF EUROPE, 2021). 4 BLOCOS DE POSICIONAMENTO A Estratégia de Cibersegurança da República Federal da Alemanha consolida uma política civil-militar cibernética sob quatro principais eixos. Eles abrangem a necessidade de um ambiente digital seguro e auto-determinado, priorizam a ação conjunta entre indústria e governo, incentivam a arquitetura de uma cibersegurança sustentável e efetiva e um posicionamento ativo da Alemanha nos fóruns europeus e internacionais de cibersegurança (dentro do UN GGE e da OTAN) e nos debates sobre regulamentação do ciberespaço (SCHALLBRUCH; SKIERKA, 2018). A organização do Reino da Arábia Saudita sobre a temática de segurança e soberania do ciberespaço é um pouco diferente dos demais países apresentados, principalmente em relação aos países ocidentais. Por ser uma monarquia absolutista, esse posicionamento político refl ete na atuação e na organização da segurança cibernética do país. Sendo comandado pelo rei, tem como ênfase a ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ASSEMBLEIA GERAL • 45 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • segurança informacional, a proteção de suas empresas, bem como a redução das ameaças cibernéticas no reino (CYBER SECURITY INTELLIGENCE, 2021). A República Argentina lançou a sua Estratégia Nacional de Cibersegurança em 2019, trazendo como alguns pontos principais a proteção de sua infraestrutura crítica contra ciberataques, e a necessidade de uma estrutura reguladora para as atividades no ciberespaço. O país defende que uma das principais prioridades internacionais deve ser a diminuição das desigualdades digitais entre países desenvolvidos e em desenvolvimento (UNITED NATIONS INSTITUTE FOR DISARMAMENT RESEARCH, 2021a). A Comunidade da Austrália defende que os princípios do Direito Internacional são aplicáveis às ações dos Estados no ciberespaço, também acreditando na importância de Medidas de Construção de Confi ança para possibilitar a cooperação entre os diferentes atores. Além disso, o país reconhece a importância do desenvolvimento cibernético para o crescimento econômico, e considera indispensável o fortalecimento de parcerias com o setor privado (FANG, 2018). A República Federativa do Brasil é um dos principais defensores da privacidade, da soberania no ciberespaço e da proteção de dados, defendendo que medidas devem ser tomadas para evitar a espionagem. O país também se opõe veementemente à utilização das TICs para fi ns militares, e acredita que é necessária a existência de uma estrutura legal que restrinja a crescente militarização do ciberespaço (FANG, 2018). O Canadá é membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN); organização que iniciou seu programa cibernético em 2002 e que possui um funcionamento extremamente rico e organizado, atuando em inúmeras frentes no campo do ciberespaço, como: ambiente e segurança; defesa; serviços de informações; etc. A atuação do Canadá nesse projeto é promissora, de maneira que atua como agente regulador das operações assim como dispõe de infraestrutura e mão de obra qualifi cada. É importante ressaltar que a inter-relação Canadá-OTAN permite um desenvolvimento da soberania do ciberespaço de forma mútua e regulamentada (APARÍCIO, 2017). A República do Chile é um dos poucos países latino-americanos que fazem parte da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE); organização essa que busca soluções comuns para seus membros, principalmente na área de ataques informáticos em empresas e seus impactos econômicos das Tecnologias de Informação e Comunicação (TICs). Segundo a Organização dos Estados Americanos (ORGANIZACIÓN DE LOS ESTADOS AMERICANOS, 2013), o conhecimento sobre a conjuntura das ameaças cibernéticas e as respostas emitidas pelos respectivos governos latino- americanos ainda é incompleta, isso ocorre devido às infraestruturas e falhas de segurança dos sistemas desses países, o que acaba por difi cultar a atuação e o controle dos atores reguladores (MARTIN,2015). A República Popular da China é um ator fundamental na atual dinâmica de segurança e soberania do ciberespaço, sendo membro da atual UN GGE e da OEWG. Desde 2015, a China possui uma Lei de Segurança Nacional que também compreende o ciberespaço, ressaltando a posição de defesa do exercício da soberania dos Estados no meio cibernético (FANG, 2018; PUYVELDE; BRANTLY, 2019). Sendo assim, a China adota uma política defensiva para o ciberespaço e defende a cooperação multilateral para a regulamentação do mesmo. Essa estratégia evita a interferência de agentes privados e organizações contrárias aos interesses chineses para o ciberespaço (SHEN, 2016; SLACK, 2016). O governo da Singapura criou, em 2020, a CSA lançou o Safer Cyberspace Masterplan 2020 (Programa Mestre para o Aumento da Segurança no Ciberespaço 2020, tradução nossa), com o objetivo de melhorar a segurança cibernética no país. O Programa conta com três pontos principais: (i) proteger a infraestrutura digital central; (ii) proteger as atividades no ciberespaço; e (iii) capacitar a população cibernética (CYBER SECURITY AGENCY OF SINGAPORE, 2020b, 2021). A República da Colômbia, apesar de ter feito investimentos em estudos a respeito da análise da regulação normativa do ciberespaço, falhou em observar o nível de autonomia das forças militares em relação à segurança nesse meio e, de fato, evoluir nesse aspecto (VILLAMIL et al., 2020). Assim, o país carece de uma regulamentação atualizada e sólida para o meio digital, além de meios fi nanceiros e técnicos para combater novas ameaças que vêm surgindo com o avanço tecnológico (BURTON, 2015). A República Popular Democrática da Coreia (RPDC) é considerada um dos atores mais relevantes no ciberespaço, embora não divulgue abertamente as suas estratégias e a dimensão de suas capacidades. O país entende o meio cibernético como um espaço útil para alcançar seus objetivos e garantir a segurança nacional, de modo que investe muito no desenvolvimento de armas cibernéticas, tanto para defesa quanto para ataque (RASKA, 2020). Para a República da Coreia, o ciberespaço é importante para o desenvolvimento social e UFRGSMUNDI • 46 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • econômico e para a prosperidade global, mas a abertura e o anonimato geram ameaças que constituem desafi os complexos à segurança internacional, sendo necessário chegar a um acordo sobre um conjunto de normas internacionais e Medidas de Construção de Confi ança. O país também atua em fóruns regionais e internacionais sobre a questão, como o GGE (FANG, 2018). A República Árabe do Egito, ao longo da última década, vem tentando aprimorar suas estratégias de segurança cibernética. O país possui, desde 2015, uma instituição própria para garantir a efi cácia da cibersegurança do país, o Conselho Supremo para Cibersegurança (AMAZOUZ, 2019). Assim, busca defi nir quais ameaças afetam o ambiente virtual egípcio e as medidas que devem ser adotadas para a proteção do país (GOVERNMENT OF EGYPT, 2018). Os Emirados Árabes Unidos possuem uma forte Estratégia de Segurança Cibernética nacional, com objetivo principal de prevenção de riscos e de segurança no ciberespaço. Para o desenvolvimento dessa operação o país tem buscado conhecimento tecnológico e profi ssionais qualifi cados (TELECOMMUNICATIONS REGULATORY AUTHORITY, 2019). Em 2020, com o acordo de paz entre os Emirados Árabes Unidos e Israel, os países se uniram aos EUA para estabelecer uma Agenda Estratégica para o Oriente Médio, com foco em diplomacia, economia, cooperação e segurança cibernética (CERIONI; ARANHA; TUON, 2020). O Reino de Espanha possui políticas de cibersegurança intrinsecamente relacionadas a organizações internacionais que promovem a cibersegurança (CHAMORRO; VILLALBA, 2010). Exemplo disso é a participação espanhola no Centro de Excelência de Ciberdefesa da OTAN e na ENISA, órgão europeu responsável pela cibersegurança na União Europeia. Apesar disso, possui iniciativas próprias, como a Estratégia Nacional de Cibersegurança (REINO DE ESPAÑA, 2019). A República da Estônia, que foi protagonista do emblemático caso de ciberataque em 2007, assumiu uma posição de liderança na construção da regulamentação internacional sobre cibersegurança e soberania no ciberespaço. Desde 2008 o país é pioneiro nos avanços da pauta de cibersegurança, defendendo a cooperação multilateral à promoção de uma sociedade digital sustentável e a inovação em cibersegurança. Assim, a participação dela no âmbito do CSNU e da OTAN tem forte ligação a esse debate (REPUBLIC OF ESTONIA, 2020). Os Estados Unidos da América são um dos países mais poderosos no ciberespaço, possuindo capacidades cibernéticas bem desenvolvidas, tanto defensivas quanto ofensivas. O país defende que o Direito Internacional é aplicável às dinâmicas no ciberespaço, particularmente o direito à legítima defesa no caso de ataques sofridos. Além disso, os Estados Unidos também apoiam o estabelecimento de normas voluntárias e não-vinculativas, além de Medidas de Construção de Confi ança, para incentivar o comportamento estatal responsável (FANG, 2018; UNIDIR, 2021c). Tradicionalmente, os EUA defendem uma estratégia de cooperação com todos os atores do ciberespaço, dado que isso permite uma maior expansão da sua soberania nesse âmbito (SHEN, 2016; SLACK, 2016). A República Francesa possui um sistema de cibersegurança e defesa centralizado na Agência Nacional de Segurança de Sistemas de Informação (ANSSI), órgão sob autoridade do Primeiro Ministro (VITEL; BLIDDAL, 2015). A estratégia francesa compreende a necessidade de defender a infraestrutura cibernética do país, aumentar a vigilância de dados pessoais, incentivar a especialização da estrutura de cibersegurança e liderar a regulamentação das relações internacionais no ciberespaço, especialmente dentro da Europa e da OTAN (RÉPUBLIQUE FRANÇAISE, 2015). Para a República da Índia, é necessário haver um entendimento comum da conduta nacional no ciberespaço e tomar ações para medidas de construção de confi ança e capacitação. Com participação ampla em fóruns internacionais, busca tornar o ciberespaço mais seguro, focando na construção de capacidades, no desenvolvimento de habilidades e nas parcerias público-privadas, assim como se atentando à importância das mídias sociais e à consolidação internacional do debate de segurança no ciberespaço (FANG, 2018). A República Islâmica do Irã defende que o Direito Internacional existente deve ser ajustado de modo a se tornar aplicável ao ciberespaço, porém enfatiza que qualquer norma estabelecida não pode ferir a soberania de cada Estado. O país se opõe ao uso das TICs para fi ns maliciosos e, também, advoga a favor do estabelecimento de Medidas de Construção de Confi ança para estimular o comportamento estatal responsável no ciberespaço (UNIDIR, 2021b). O Estado de Israel defende a importância de desenvolver capacidades cibernéticas para garantir a segurança nacional e a proteção da infraestrutura crítica, o que envolve tanto mecanismos de defesa quanto de ataque. Por conta de sua posição geoestratégica, o país tem a cibersegurança como um de seus principais objetivos nacionais, e considera que os princípios fundamentais do ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ASSEMBLEIA GERAL • 47 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • direito internacional humanitário também são aplicáveis ao ciberespaço (HOUSEN-COURIEL, 2017; MIMRAN; SHANY, 2020). O Japão destaca cinco princípios essenciais em relação ao ciberespaço: livre fl uxo de informações; estado de direito; abertura; autonomia; e participação múltipla. Seus esforços em relação à cooperação internacional estão ligados ao estado de direito no ciberespaço, isto é, à promoção do entendimento comum das leis internacionais aplicadas ao ciberespaço e ao desenvolvimento de normas voluntárias de conduta nacional. O país também preza pela consolidação de estruturas de confi ança bilaterais e multilaterais, comoos fóruns regionais da ASEAN (FANG, 2018). Por estar vulnerável geográfi ca e conjunturalmente, o Reino Haxemita da Jordânia busca fortalecer as suas defesas cibernéticas, recebendo apoio da OTAN, que apoiou em julho de 2017 a inauguração da Equipe de Resposta a Emergências Computacionais (CERT). Essa cooperação é fortemente promissora para a região, bem como para a segurança e soberania do ciberespaço, uma vez que aprimorou a mão de obra local, o desenvolvimento tecnológico e operacional. Por fi m, é importante ressaltar a posição que a OTAN ocupa na Jordânia, de maneira que sua cooperação não se limita à defesa cibernética (NATO, 2017). Como a maioria dos países da região do báltico19, a República da Lituânia depende da OTAN para defi nir a sua agenda de segurança e, portanto, de cibersegurança, uma vez que possui, historicamente, relações tensas com a Rússia, a qual ainda apresenta interesses estratégicos sobre o seu território (IISS, 2021). A Estratégia de Segurança Nacional da Lituânia envolve, portanto, uma participação ativa nas operações da UE e da OTAN e a construção de iniciativas como a nova lei de Mobilização e Suporte a Nações Sede de guerras e de proteção às tecnologias de comunicação no ciberespaço (DEFENSE PRICING AND CONTRACTING, 2014; IISS, 2021). Em 2020, o governo da Malásia anunciou a Estratégia de Segurança Cibernética da Malásia (MCSS, sigla em inglês) 2020-2024, que conta com pilares estratégicos para melhorar a segurança cibernética no país, como por exemplo: melhorar a governança da gestão da segurança cibernética do país e construir um ciberespaço de inovação e tecnologia mundial, pesquisa e desenvolvimento locais. Além disso, considera participar de mais ações bilaterais e multilaterais (YUNUS, 2020). O Reino de Marrocos tem observado a necessidade crescente de adotar estratégias para reforçar a gestão e a segurança da informação pública. Além de dispositivos relativos à segurança de sistemas de informação, o país implementou, ainda em 2012, a Estratégia Nacional de Cibersegurança, com o objetivo de analisar riscos relativos à informação estatal e métodos para desenvolver a cibersegurança no país (ROYAUME DU MAROC, 2012). Apesar de não ser membro da União Europeia, o Reino da Noruega participa ativamente da cooperação para segurança deste continente, especialmente na região escandinava. Nesse sentido, desde 2006 o país ratifi cou um acordo com a Agência Europeia de Defesa (IISS, 2021). Sua agenda para a segurança e soberania no ciberespaço está alinhada com a dos membros da OTAN, visto que a Noruega também está inserida no Grupo de Especialistas em Governança (UN GGE) até 2021 (UNODA, 2021a). Sendo um Estado pequeno, a Nova Zelândia se apoia em cooperações com outros países para sua cibersegurança, sem ter estruturas próprias efi cientes para combater ciberataques, o que afeta a segurança nacional (BURTON, 2013). O órgão responsável pela segurança nacional, o Sistema de Inteligência em Segurança da Nova Zelândia (NZSIS, sigla em inglês), prioriza, desde 2018, a neutralização de ciberataques internacionais (NEW ZEALAND, 2020). Com uma alta conectividade da população à Internet (95%), e sendo pioneiros na Europa quanto à pauta, os Países Baixos possuem um dos cinco melhores índices mundiais em infraestrutura digital (CISCO, 2020). Sua ampla estrutura em cibersegurança, formada por um plano estratégico, um centro nacional e diversas agências especializadas, está conforme os princípios da UN GGE e da OEWG, além de se alinhar ao Manual Tallinn 2.0 no que diz respeito ao direito internacional no ciberespaço (KASKA, 2015). A República Islâmica do Paquistão, até a criação do Centro Nacional de Segurança Cibernética (NCCS), não contava com uma estratégia de cibersegurança defi nida para orientar as instituições governamentais sobre como combater essa nova ameaça. A NCCS foi estabelecida em junho de 2018, e seu propósito é construir capacidades nacionais em segurança cibernética para formar profi ssionais locais no campo, o que tem sido a maior difi culdade do país nos últimos anos (NABEEL, 2018; NATIONAL CENTRE FOR CYBER SECURITY, 2021). 19 A região báltica é aquela que está rodeada pelo Mar Báltico. Este é uma extensão do Oceano Atlântico que beira países como a Suécia, a Alemanha, a Polônia e a Rússia. Essa área se localiza na região Centro-Norte da Europa (MUTTON, 2021). UFRGSMUNDI • 48 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • A República da Polônia defende o diálogo com todos os atores do ciberespaço para produzir normas favoráveis à segurança e à soberania, alinhando-se com as iniciativas dos países da OTAN e da UE (FANG, 2018). Além disso, o país compõe um esforço regional chamado Plataforma da Escola Internacional de Negócios da China-Europa (CEIBS, sigla em inglês) para cibersegurança, produzindo e compartilhando conhecimentos com seus vizinhos (IISS, 2021). A República Portuguesa se alinha à UE e à OTAN, assim como com os princípios da UN GGE e das democracias liberais em geral (UNODA, 2021a). A nação ibérica é também responsável por sediar a Academia de Cibersegurança da OTAN, sendo um ponto fundamental para a segurança do ciberespaço dessa região (FANG, 2018; IISS, 2021). Com sua saída da União Europeia em 2020, o Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte pretende se estabelecer como uma nação líder, independente e soberana em questões internacionais de cibersegurança (GOVERNMENT OF THE UNITED KINGDOM, 2020). Com a pandemia do COVID-19, visando atender o aumento da dependência do ambiente virtual e das ameaças cibernéticas, a Estratégia Nacional de Cibersegurança do Reino Unido 2016-2021 foi atualizada para reafi rmar os objetivos estratégicos de detectar, investigar e responsabilizar agressões no ciberespaço ao Reino Unido. O objetivo foi aumentar as capacidades cibernéticas ofensiva e defensiva da nação, além de desenvolver pesquisa em cibersegurança (GOVERNMENT OF THE UNITED KINGDOM, 2016). Em 2011, a República Tcheca implementou um Centro Nacional para Cibersegurança, responsável principalmente por monitorar as atividades do CERT nacional, prevenir ameaças e crises cibernéticas, incentivar educação e pesquisa acerca da cibersegurança e representar o país nas resoluções de cooperação com OTAN e UE (NATIONAL CYBER AND INFORMATION SECURITY AGENCY, 2020). Possui também um fórum interministerial, o Conselho de Cibersegurança, e um Centro Nacional de Ciberforças, que desenvolve a capacidade cibernética defensiva do país (MINÁRIK, 2016). A Federação Russa é atualmente um dos principais Estados envolvidos no debate da segurança e soberania do ciberespaço. O país está presente nos fóruns mais importantes de discussão do meio cibernético global, como o UN GGE e o OEWG e, assim como a China, adota uma estratégia multilateral para garantir sua participação no ciberespaço (RUHL et al., 2020; UNODA, 2021b). A liderança assumida na OEWG cria confl itos diretos com as resoluções da GGE no âmbito da ONU, visto que esse último grupo é fortemente infl uenciado pelos EUA e demais países da OTAN (DIGWATCH, 2021; FANG, 2018). Em geral, Moscou adota uma postura defensiva em relação à não-intervenção nos assuntos internos de nenhum país por meio do uso de ciberataques, mas também é conhecida por conduzir os mesmos de acordo com seus interesses nacionais (IISS, 2021). A República do Senegal tem progredido muito no que se refere à tecnologia nos últimos anos, lançando iniciativas que têm como objetivo acelerar o desenvolvimento até 2035. No entanto, reconhece que ainda precisa defi nir políticas mais concretas relacionadas à cibersegurança e tem buscado reforçar leis referentes ao ciberespaço para que possa continuar crescendo (REPUBLIC OF SENEGAL, 2017). O Reino da Suécia tem como objetivo principal o desenvolvimento da sua estratégia nacional geral de cibersegurança. De acordo com a Comissão de Defesa da Suécia, o país objetiva levar isso a frente por meiodo estabelecimento de relações bilaterais e do aproveitamento da sua inserção em órgãos como a OTAN, a Organização para Segurança e Cooperação da Europa (OSCE, sigla em inglês) e a UE (DIGWATCH, 2021; FANG, 2018). Estocolmo é historicamente a favor da inclusão no ciberespaço, participando ativamente de eventos como o Fórum de Internet de Estocolmo e a “Aliança da Liberdade Online” (IISS, 2021; FREEDOM ALLIANCE, 2020). Em virtude dos 325.000 ataques cibernéticos nos últimos três anos, em 2020, a República da Turquia desenvolveu um plano de segurança cibernética a fi m de proteger os dados e os serviços de seus cidadãos. Para isso, o país tem desenvolvido suas próprias tecnologias nacionais de segurança cibernética, bem como treinado profi ssionais e aprimorado sua infraestrutura, de forma a conquistar também a soberania no ciberespaço (TRT WORLD, 2020). A Ucrânia preza pela cooperação multilateral com a OTAN e a UE em assuntos de cibersegurança. Devido a vários ataques à infraestrutura energética e a sistemas governamentais, o país precisou desenvolver um sistema de segurança a partir de uma base legal para a classifi cação de cibercrimes e ataques. Esse sistema envolve a integração de atores nacionais de cibersegurança e defesa, órgãos de inteligência e policiamento cibernéticos, e de atores privados ligados à telecomunicação e à infraestrutura crítica (STRELTSOV, 2017). A República Socialista do Vietnã vem enfrentando diversos desafi os relacionados à segurança cibernética. Muitos ataques são direcionados a infraestruturas nacionais, como aeroportos e sistema ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ASSEMBLEIA GERAL • 49 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • bancário, em formas avançadas de roubo de informações. Em junho de 2018, para lidar com essas ameaças, o governo vietnamita aprovou a Lei de Cibersegurança, cujas principais disposições contam com localização de dados, controle governamental sobre o conteúdo online e instalação de escritórios locais (DHARMARAJ, 2019). 5 QUESTÕES PARA DISCUSSÃO (1) De que forma o ciberespaço desafi a aspectos tradicionais das Relações Internacionais, como fronteiras e soberania? (2) Quais são as possibilidades de uso do ciberespaço, tanto benéfi cas quanto maliciosas? Como o ciberespaço e suas potencialidades podem impactar na forma como são conduzidos os confl itos internacionais, e também as formas de cooperação? (3) Quais os riscos de uma crescente militarização do ciberespaço? O que a AGNU pode fazer para evitar que isso se concretize? (4) Como tornar o ciberespaço um lugar mais seguro e confi ável para os seus atores? Apenas medidas de construção de confi ança (MCCs) são sufi cientes, ou são necessários acordos e tratados ofi ciais segundo o direito internacional? É possível regular o ciberespaço mesmo com todos os diferentes interesses dos seus atores (Estados, ONGs, OIs e Empresas)? (5) Qual é o papel da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) na construção de um ciberespaço seguro, democrático e acessível em termos de soberania? REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABAIMOV, Stanislav; MARTELLINI, Maurizio. Cyber Arms: Security in Cyberspace. Boca Raton/London/New York: CRC Press, 2017. AMAZOUZ, Souhila. International cyber security diplomatic negotiations: Role of Africa in inter-regional cooperation for a global approach on the security and stability of cyberspace. 2019. 152f. Dissertação (Mestrado) — Contemporary Diplomacy, Specialization in Internet Governance, Faculty of Arts, University of Malta, Malta, 2019. 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UFRGSMUNDI • 55 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • ASSEMBLEIA DAS NAÇÕES UNIDAS PARA O MEIO AMBIENTE Proteção de Florestas Tropicais Arthur Dexheimer Trein, Bibiana de Castro Muller, Felipe Casanova, Gabriel Gomes Constantino e Thaís Lysakowski Ness1 1 Graduandos e graduandas dos cursos de Geogra� a, Letras e Relações Internacionais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ANUMA • 56 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • QUESTÕES NORTEADORAS (1) Atente para as notícias sobre desmatamento das fl orestas tropicais que você viu nas mídias recentemente. Quais são as razões para que essa ação ocorra? (2) Qual deve ser a posição da Agência das Nações Unidas para promover a proteção dessas fl orestas? (3) Que medidas de proteção às fl orestas tropicais você já viu serem adotadas? Quais ações podem ser feitas pelos países para protegê-las? APRESENTAÇÃO A Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente (ANUMA) é o órgão gerenciador de políticas ambientais da Organização das Nações Unidas (ONU), criado em 2012, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (RIO +20). Sendo assim, a ANUMA é composta pelos 193 países membros da ONU, contando também com a participação de organizações não- governamentais (ONGs), movimentos sociais e agentes do setor privado. O maior objetivo desse espaço é a promoção do desenvolvimento sustentável, a proteção do meio ambiente e o bem estar social, proporcionado pelo equilíbrio da natureza (UNITED NATIONS ENVIRONMENTAL PROGRAMME, 2021). Durante este encontro da Assembleia das Nações Unidas para o Meio Ambiente será discutida a “Proteção das Florestas Tropicais”, com objetivo de que os delegados busquem soluções visando à preservação dessas fl orestas, que são ricas em recursos naturais e em biodiversidade. Este guia trata sobre as fl orestas tropicais no contexto das mudanças climáticas e como o desmatamento e a exploração dos seus recursos naturais de forma desenfreada impactam o meio ambiente. Também será abordada a discussão sobre as possíveis intervenções internacionais, sendo exploradas mais a fundo nas Ações Internacionais Prévias. Por fi m, na última seção, traremos o posicionamento dos países dentro do debate sobre o tópico. 1 HISTÓRICO Nesta seção, traremos uma breve contextualização histórica acerca de como as fl orestas tropicais foram utilizadas e vistas desde os tempos coloniais até os dias contemporâneos. Iremos abordar os ciclos econômicos aos quais as fl orestas tropicais foram submetidas, assim como os impactos desses ciclos para a preservação dos seus recursos de fauna e fl ora. 1.1 COLONIZAÇÃO Recursos naturais frequentemente são considerados possibilidades de ganhos econômicos por parte dos países detentores (SILVA et al., 2016). No período colonial, esta visão era dominante entre as potências coloniais. Esta subseção irá analisar brevemente os ciclos econômicos aos quais as regiões de fl orestas tropicais passaram durante a história: o ciclo da colonização e do extrativismo, o ciclo da borracha e o ciclo de diversifi cação das atividades econômicas com a industrialização da economia, no período contemporâneo (CANTO et al., 2020). 1.1.1 CICLO DA COLONIZAÇÃO Com o processo de expansão marítima dos países europeus, no século XVI, ocorreu a colonização de territórios principalmente localizados na América, na África e na Ásia, aos quais os países colonialistas buscaram estabelecer uma relação de dominância para obter metais preciosos e recursos naturais, como madeira e especiarias (PORTO-GONÇALVES, 2017). Nesse sentido, o primeiro ciclo econômico ao qual os países com fl orestas tropicais passaram foi o do extrativismo, que consistia na extração dos recursos naturais demandados pelos mercados internos dos países colonialistas (SILVA et al., 2016). UFRGSMUNDI • 57 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • A região da fl oresta amazônica brasileira foi ocupada pelos portugueses na primeira metade do século XVII, principalmente para garantir a posse do território. Porém, havia também o interesse em dois recursos que a região tinha a oferecer: matéria prima e mão-de-obra barata. A exploração teve início com o ciclo das drogas do sertão — baunilha, caju, cravo e canela —, produtos muito valorizados no exterior, os quais geraram grandes lucros para a coroa portuguesa (LUI; MOLINA, 2009). Ao fi nal do século XVII, iniciou-se a extração do cacau nativo, que se tornou uma das principais exportações da Amazônia no período colonial1. O cacau nativo crescia em abundância na região e sua extração era mais rentável do que investir na plantação do produto (GOMES, 2018). Além do meio ambiente sofrer com a exploração, a população indígena da Amazônia também era vista como uma mercadoria pelos portugueses. As pessoas eram caçadas, capturadas e escravizadas, e eram obrigadas a ajudar no reconhecimento da região para a busca de matérias-primas. Há, além disso, indícios de que indígenas eram vendidos para as capitanias litorâneas de produção de açúcar. Quando a mão-de-obra começou a diminuir, expedições foram feitas para procurar nativos livres, adentrando ainda mais na Amazônia e aproveitando também as campanhas de procura das drogas do sertão para este fi m (OLIVEIRA, 2001). A partir da exploração do trabalho indígena, dos confl itos entre nativos e colonos e das epidemias de doenças trazidas pelos europeus, grande parte da população da região amazônica foi dizimada. Assim, enquanto a estimativa de nativos vivendo ao longo do Rio Amazonas no século XVI, anterior à colonização, era deaproximadamente 2 milhões, no século XVIII esses nativos já haviam quase desaparecido (MADALENO, 2011). A região tropical africana também enfrentou o colonialismo. No caso da África, o Estado Livre do Congo — hoje República Democrática do Congo — foi criado na Conferência de Berlim2, em 1885, tornando-se posse do Rei Leopoldo II da Bélgica. Nessa época, a Europa passava pela Segunda Revolução Industrial, o que gerou uma busca incessante por colônias que possuíam recursos naturais e mão-de- obra barata a serem explorados. A região do Congo tinha ambos, o que despertou a cobiça do monarca belga (BELLUCCI; LAMY, 2015). Logo após a instituição do Estado Livre do Congo, o marfi m passou a ser um recurso muito procurado, devido à demanda da burguesia europeia, que desejava ornamentos feitos desse material. Em razão disso, elefantes eram caçados para que suas presas fossem arrancadas. Assim como ocorrido no Brasil séculos antes, a população nativa do Congo sofreu com o período colonial. O Rei Leopoldo II, apesar de adotar o discurso colonialista de que agia em prol da “civilização” do povo congolês, o escravizou e o torturou (TRAUMANN; MENDES, 2015). Há estimativa de que aproximadamente dez milhões de vidas foram perdidas devido à exploração, à fome e aos assassinatos causados pelos belgas. Essa submissão se perpetuou no pós-colonialismo, visto que a economia do país continuou a sobreviver da venda de recursos naturais (MACEDO, 2016). Outra importante região tropical que possui cicatrizes da colonização é a Indonésia. Os holandeses chegaram às suas ilhas no século XVII, com a Companhia Holandesa das Índias Orientais3, com o intuito não de colonizar, mas sim de monopolizar o comércio com as índias orientais. Porém, surgiu o interesse de produzir açúcar nas terras indonésias, que seguiu como monopólio holandês até o século XIX (TILLEY, 2020). Como era típico do sistema colonial, não apenas os solos das ilhas indonésias foram muito explorados com as plantações, mas também a população nativa, vista como mão-de-obra barata. Logo no momento da chegada dos holandeses ao país, a Companhia Holandesa das Índias Orientais fez o uso da força ao implantar o monopólio do comércio de especiarias, devastando a população local, que passou a viver em condições precárias, resultando em milhares de mortes. Ao longo dos séculos XIX e XX, a força militar era usada para diminuir os grupos de oposição e fazer a população mais obediente (LUTTIKHUIS; MOSES, 2012). O trabalho para os nativos era obrigatório, em regime de corveia4, com o argumento de que apenas a coerção poderia mostrar o valor do esforço e do trabalho, já que a população era vista como preguiçosa. Todo nativo era livre para entrar no trabalho de produção, mas 1 O período colonial compreendeu o período entre 1530 e 1822. Ele se iniciou com uma expedição feita no litoral brasileiro, a � m de estabelecer vilas para o cultivo da cana-de-açúcar (ALVES, 2020). 2 Encontro ocorrido em Berlim, na Alemanha, em 1885, que reuniu líderes europeus para tratar sobre a partilha da África. O objetivo era dividir o continente entre os países colonizadores, o que foi feito sem levar em conta questões sociais, políticas ou econômicas das sociedades africanas (FISCHER; SAMPAIO, 2015). 3 Criada em 1602 por um grupo de comerciantes para exploração do comércio. Devido ao sucesso, torna-se um órgão do governo holandês, com autoridade militar e poder de administrar mares e terras conquistadas (COMPANHIA DAS ÍNDIAS ORIENTAIS, 2021). 4 Deriva do francês ������, que signi� ca trabalho gratuito. Era o trabalho prestado pelos camponeses ao seu senhor ou ao Estado (CORVEIA, 2021). ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ANUMA • 58 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • fi cava preso ao seu chefe devido a dívidas, não podendo sair dessa situação. Alguns trabalhadores não eram pagos nem recebiam alimento, e eram punidos com açoites, prisão ou morte quando infringiam os contratos de trabalho. Nas plantações de tabaco, por exemplo, as condições de saúde, higiene e alimentação eram precárias, gerando altas taxas de mortalidade e, além disso, com salários abaixo do nível de subsistência (LI, 2017). 1.1.2 CICLO DA BORRACHA O segundo ciclo econômico que as regiões de fl orestas tropicais passaram foi o da borracha. Com o desenvolvimento da indústria automobilística na Europa e na América do Norte, a demanda por látex5 aumentou enormemente, de modo que num primeiro momento, os países amazônicos sul- americanos, principalmente o Brasil, tornaram-se os maiores exportadores desse insumo (FURTADO, 2003). A fl oresta amazônica foi explorada de forma descontrolada para que houvesse uma grande extração de látex, causando prejuízos ao meio ambiente e à preservação da fl oresta tropical existente na região amazônica (ARAGÓN, 2014). Com o objetivo de reduzir o custo dessa commodity6, empresários europeus investiram no plantio de seringais no sudeste asiático, região que se tornou ao longo do tempo uma líder na produção e na venda de borracha para o resto do mundo, ocasionando o declínio das exportações sul-americanas e, consequentemente, encerrando o ciclo da borracha nesta região (ARAGÓN, 2014; FURTADO, 2003). Assim como na fl oresta amazônica, a fl oresta do Congo também passou por esse ciclo. A população congolesa sofreu muito nesse período, visto que, como outras regiões do globo também conheciam o processo de extração de látex, houve grande competição entre essas regiões, ocasionando a intensifi cação da exploração em solo congolês, com o objetivo de obter maiores níveis de extração e, consequentemente, maiores lucros (LUNARDELLI, 2018). Da mesma forma, a borracha se tornou, no século XX, um produto lucrativo para os colonizadores da Indonésia (LI, 2017). 1.2 AS FLORESTAS TROPICAIS ENTRE OS SÉCULOS XIX E XX Entre o século XIX e XX, em que os países detentores de fl orestas tropicais estavam inseridos num contexto histórico de independência, tornando-se plenamente soberanos7 no plano nacional e internacional. Os países passaram a possuir autonomia em decidir se perpetuavam a visão extrativista colonial ou interrompiam tais atividades econômicas de extração desenfreada dos recursos naturais (SILVA et al., 2016). Entre o fi nal do século XX e o início do século XXI, ocorreu a diversifi cação das atividades econômicas desenvolvidas nas regiões de fl orestas tropicais, mas o extrativismo vegetal e mineral continuaram acontecendo (SILVA et al., 2016) de forma legal ou ilegal. A extração de madeira e de metais preciosos, por exemplo, ocorrem frequentemente de maneira ilegal e desenfreada (NOBRE, 2014), tendo como consequência a poluição dos rios e a destruição da mata ciliar, necessária para a proteção dos leitos desses cursos d’água (CASTRO et al., 2017). A industrialização das regiões de fl orestas tropicais foi incentivada pelos países detentores desses espaços, como é o exemplo da iniciativa brasileira, na década de 1960, de desenvolver a região amazônica, com o estabelecimento da Zona Franca de Manaus, que atualmente é responsável pela produção de bens duráveis e com maior emprego de tecnologia (BECKER, 2005). Porém, apesar dos esforços para a industrialização das regiões de fl orestas tropicais com o intuito de diminuir a exploração desses biomas, percebe-se a continuidade do emprego de atividades econômicas como o extrativismo e a mineração, contribuindo para o desmatamento (SILVA et al., 2016; YEUNG, 2021). Nesse sentido, no ciclo econômico da diversifi cação das atividades produtivas, são desenvolvidas tentativas de promover um desenvolvimento sustentável nas regiões de fl orestas tropicais, aliando a preservação do meio ambiente ao desenvolvimento econômico, através de novas iniciativas de exploração. A exploração madeireira de baixo impacto é uma forma de reduzir os impactos do extrativismo 5 Látex é a secreção da árvore seringueira, utilizada para a produção de borracha (LÁTEX, 2021). 6 Produto de extraçãovegetal ou agropecuário (soja, cereais, café), vendido sem ter passado por nenhum processo de transformação. Venda voltada ao mercado internacional (COMMODITY, 2021). 7 O conceito de soberania consiste no princípio de não subordinação dos Estados a qualquer autoridade, não reconhecendo, portanto, nenhum poder maior que o seu próprio (REZEK, 2014). UFRGSMUNDI • 59 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • mineral e vegetal, por meio de novas formas de extração. Nesse caso, mesmo que os madeireiros possuam uma grande extensão de terras, é permitido desmatar somente parte daquela área, com o intuito de diminuir os impactos ao ecossistema ali existente Essa medida é adotada porque o desmatamento aumenta as chances de ocorrer incêndios fl orestais, que causam a destruição da biodiversidade e do habitat de espécies de fl ora e fauna (FEARNSIDE, 2006). A fi scalização da extração de carvão vegetal é uma forma de promover a preservação ambiental, visto que o desmatamento causa prejuízos às fl orestas tropicais, assim como impactos sociais. Em locais com esse tipo de atividade, já houve registros de escândalos de trabalho escravo, violando direitos humanos e aumentando as desigualdades sociais (FEARNSIDE, 2006). Outra medida adotada é a silvicultura, que corresponde à recuperação das fl orestas através do plantio de mudas de espécies regionais, para preservar os biomas locais, proteger os recursos hídricos e a biodiversidade existente naquele ecossistema (FEARNSIDE, 2006). Essa medida é muito efetiva num contexto em que a exploração de madeira se expandiu pelo mundo, principalmente nas regiões com grande presença de fl orestas tropicais, como a Indonésia, o Congo, os países amazônicos e a Índia (HENRIQUES, 2010), tendo em vista que os países asiáticos não são mais capazes de ofertar grandes quantidades de madeira como exige o mercado global, devido ao grande desmatamento causado nessa região e o esgotamento desse recurso (FEARNSIDE, 2006). 2 APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA Neste tópico, será primeiramente apresentada a questão ambiental envolvendo as fl orestas tropicais. A seguir, será explicitada a questão da governança global desses espaços, assim como a intervenção internacional nos países com fl orestas tropicais. 2.1 AS FLORESTAS TROPICAIS NO CONTEXTO DAS MUDANÇAS CLIMÁTICAS O Antropoceno (ou Quinário) é o nome dado ao período geológico no qual a Terra se encontra. Ainda não existe uma data específi ca para o início do Antropoceno, mas o que marca esse período é o fato de que as práticas humanas conseguiram superar os processos geológicos, biogeoquímicos8 e geomorfológicos9 naturais do planeta (CHRISTOPHERSON, 2012). Desse modo, cientistas têm discutido que os microplásticos (pedaços de plástico inferiores a 5mm) são um potencial marcador geológico do Antropoceno. Outros exemplos de práticas humanas que superam esses processos são as alterações em canais fl uviais, o uso inadequado do solo na agricultura, o uso de agrotóxicos, o desmatamento e a emissão de gases intensifi cadores do efeito estufa (OLIVATTO et al., 2018). Uma característica marcante do Antropoceno são as mudanças climáticas naturais intensifi cadas por ações humanas, já superando os processos naturais do planeta Terra (CHRISTOPHERSON, 2012). Já é consenso na comunidade científi ca que a liberação de gases fósseis, através da queima de carvão e petróleo, de gases armazenados em fl orestas, liberados por meio do desmatamento e da degradação ambiental, e a queima de biomassa contribuem para aumentar a concentração de gases de efeito estufa e, consequentemente, na elevação da temperatura global. O desmatamento também reduz a capacidade do solo de absorver o metano (CH4) atmosférico, um dos principais gases do efeito estufa. A agricultura possui um papel de destaque nas emissões de gases causadores do efeito estufa: pesquisas indicam que as atividades agrícolas são responsáveis por grande parte dessas emissões (PRIMAVESI; ARZABE; PEDREIRA, 2007). Segundo relatório conjunto da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e do Programa das Nações Unidas pelo Meio Ambiente (PNUMA), as taxas anuais de desmatamento global têm diminuído nos últimos anos. Ainda assim, estima-se que foram perdidos por volta de 420 milhões de hectares de fl orestas desde 1990, a maior parte em zonas tropicais. As taxas de desmatamento em fl orestas por ano, durante a década de 1990, era de 16 milhões de hectares; de 2015 a 2020 esse número baixou para 10 milhões de hectares por ano, uma queda signifi cativa, mas ainda 8 Processos biogeoquímicos são aqueles que envolvem tanto os seres vivos quanto os sistemas da natureza, como o ciclo do carbono e o ciclo do hidrogênio (CHRISTOPHERSON, 2012). 9 Processos geomorfológicos são todos aqueles que dizem respeito à dinâmica natural do relevo (CHRISTOPHERSON, 2012). ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ANUMA • 60 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • insufi ciente para reduzir os prováveis danos das mudanças climáticas. É importante ressaltar que a maior parte desse desmatamento foi na América do Sul e na África, continentes com maior área de fl orestas tropicais. Conforme o mesmo relatório, cerca de 40% do desmatamento em fl orestas tropicais foi motivado, exclusivamente, pela expansão agrícola para plantios de larga escala — para commodities, como, por exemplo, a palma, a soja e o milho (FOOD AND AGRICULTURE ORGANIZATION; UNEP, 2020). De acordo com a FAO e o PNUMA, entre os principais causadores da redução das fl orestas tropicais estão a expansão da fronteira agrícola, a mineração e o aumento da urbanização. Todos esses processos ocorrem através do desmatamento e da degradação fl orestal. Nesta seção, vamos dar atenção a três maneiras de desmatamento: extração ilegal de madeira, incêndios fl orestais e introdução de espécies exóticas (FAO; UNEP, 2020). A extração legal de madeira em fl orestas tropicais acontece em limites determinados por leis federais, com determinadas condições e um mínimo cuidado com a biodiversidade. Isso acontece através da indústria madeireira ou para atender à indústria de carvão vegetal. A extração ilegal, por outro lado, acontece de maneira proibida e sem cuidado com a biodiversidade, muitas vezes abastecendo o tráfi co internacional de madeira. De acordo com Laporte et al. (2007), somente na República Democrática do Congo, cerca de 30% de toda a cobertura fl orestal estava, durante os anos 2000, sob licença para indústrias madeireiras estrangeiras; isso signifi ca uma redução de mais de 30% da cobertura fl orestal na região na década de 2000-2010, que ocorreu de maneira legal, ou seja, nem todo desmatamento ocorre de maneira ilegal. É importante ressaltar que a presença de indústrias madeireiras em fl orestas acarreta na alteração do ecossistema, na perda de biodiversidade e abre espaço para a caça ilegal de animais selvagens (LAPORTE et al., 2007). No Brasil, somente no estado do Pará, durante os anos de 2015 e 2016, estima-se que cerca de 46.149 hectares de fl orestas tropicais sofreram com a extração ilegal de madeira (BRANCALION et al., 2018) — número que pode estar sendo subestimado devido à difi culdade de monitoramento. Outra problemática bastante discutida é que a abertura de estradas para a exploração madeireira tem como consequência a ocupação urbana e rural na região, que acaba por gerar uma maior degradação fl orestal. É importante diferenciar degradação de desmatamento: o desmatamento é o processo de conversão da fl oresta para outros usos da terra; já a degradação é o empobrecimento da fl oresta devido ao corte seletivo que ocorre de maneira legal e ilegal, e acaba deixando a fl oresta vulnerável e a biodiversidade abalada. De acordo com Roman (2019), de 2004 a 2008, as taxas de degradação fl orestal em terras indígenas da Amazônia brasileira — que deveriam ser protegidas pelo Estado — eram quase o dobro das taxas de desmatamento. Emrelação aos incêndios fl orestais, esses são fenômenos naturais das fl orestas tropicais sazonais, como no Cerrado ou nas savanas africanas, onde existe um clima tropical sazonal, com uma estação seca e uma úmida. Porém, esses fenômenos não são naturais em fl orestas tropicais equatoriais, onde o clima é predominantemente quente e úmido durante todo o ano, região nas quais os incêndios tropicais são mais preocupantes. Embora os incêndios fl orestais possam começar por fatores naturais, suas causas são majoritariamente por ação humana, relacionadas à expansão da fronteira agrícola e à expansão da pecuária, principalmente no Brasil, que está entre os maiores exportadores de carne bovina do mundo. Extração ilegal de madeira, mineração, expansão urbana e construção de rodovias também aparecem entre os fatores causadores de incêndios em fl orestas tropicais (JUÁREZ-OROZCO; SIEBE; FERNANDÉZ, 2017). A introdução de espécies exóticas nas fl orestas tropicais é um problema que, há décadas, rende discussão entre cientistas. Os eucaliptos exóticos, por exemplo, estão presentes nas regiões tropicais. De acordo com Brancalion et al. (2020), estima-se que as plantações de eucalipto cubram, globalmente, cerca de 20 milhões de hectares, com consequências que variam dependendo de fatores geográfi cos e técnicas de plantagem. Na América do Sul, os eucaliptos são bastante populares e, somente no Brasil, representam 71% das plantações agrofl orestais10; suas plantações impedem a regeneração natural de espécies nativas e resultam no chamado “deserto verde” , assim chamado pois se torna um local com baixíssima biodiversidade e solo empobrecido (BREMER; FARLEY, 2010). No continente africano e no Sudeste Asiático, o desmatamento da mata nativa para o extensivo plantio de palma, para extração de óleo, também é um problema. Cabe ressaltar que, dentre as 25 espécies de primatas que estão em extinção, 12 se situam nas fl orestas tropicais africanas, habitat que vem sendo constantemente ameaçado pela indústria da palma e indústria madeireira (BLACH-OVERGAARD et al., 2015). 10 Plantações agro� orestais são aquelas que reúnem as culturas de importância agroeconômica junto de uma � oresta (EMBRAPA, 2021). UFRGSMUNDI • 61 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • Portanto, os efeitos desses desmatamentos são diversos: erosão dos solos e assoreamento dos corpos hídricos; perda da biodiversidade e extinção de espécies animais ou vegetais; mudanças no ciclo hidrológico11, mudanças no ciclo do carbono, consequentes mudanças nos microclimas locais entre outras, além de que todos esses fatores são propulsores do aquecimento global (CHRISTOPHERSON, 2012). Os impactos da degradação e do desmatamento da fl oresta, assim como uso indevido dos recursos fl orestais, não se limitam ao aspecto físico das fl orestas tropicais: as populações locais também sofrem diversos impactos. Toda e qualquer alteração na vegetação resulta em um abalo na vida da fl oresta. Assim, projetos de mineração e exploração mineral, queimadas, extração ilegal de madeira, construção de rodovias, desmatamento e megaprojetos de hidrelétricas nas fl orestas tropicais afetam direta e indiretamente a vida de centenas de populações indígenas e quilombolas (ROMAN, 2019). A degradação fl orestal em boa parte dos territórios indígenas no Brasil é tão grande que chega a comprometer a totalidade desses territórios. Um exemplo é a Terra Indígena Awá, no Maranhão, onde apenas 8% da fl oresta remanescente está preservada. Essa devastação nas terras indígenas e nas fl orestas afetam os indígenas de diversas maneiras, como com a falta de animais para caça, de alimentos, de materiais para construção de ferramentas e artefatos em geral e de água, além de aumentar as possibilidades de confl itos com invasores, que geralmente acarretam na morte de indígenas (ROMAN, 2019). 2.2 A QUESTÃO DA GOVERNANÇA INTERNACIONAL EM FLORESTAS TROPICAIS O debate entre soberania e governança internacional das fl orestas abrange diversas variáveis. Neste subtópico abordaremos o contexto para que fosse pensado na proteção das fl orestas no âmbito internacional. Para entender a questão da transferência de certas pautas do âmbito nacional para o internacional, é preciso analisar o contexto posterior à Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Nesse momento houve um direcionamento para o enfrentamento das questões internacionais de forma conjunta e a criação de instituições internacionais, como a Organização das Nações Unidas simboliza esse cenário (ABDALA, 2007; SCHITZ; ROCHA, 2017). Nesse contexto, a proteção ambiental ocupou os espaços de discussão nos ambientes internacionais, como em 1972, com a Conferência das Nações Unidas Sobre o Meio Ambiente Humano, e em 1992, com a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Rio-92), que resultou em diversos mecanismos de proteção, como a Agenda 2112 (SECRETARIA DO ESTADO DO MEIO AMBIENTE, 1997). A Rio-92 foi responsável pela elaboração de diversos documentos sobre a questão ambiental. Essa contou com a participação de 179 países e tinha, entre os principais objetivos, a busca pela aproximação da legislação ambiental em âmbito internacional e a criação de estratégias globais de ação. A Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável e a Declaração de Princípios sobre as Florestas são exemplos das resoluções dessa conferência (PATRIARCHA-GRACIOLLI, 2015). O segundo princípio da Declaração do Rio de Janeiro sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável foi afi rmar que os países possuem o direito soberano de exploração em seus territórios, desde que adotando as medidas necessárias para com o meio ambiente (DECLARAÇÃO, 1992). No entanto, observamos que muitas vezes a exploração ocorre também por meio de Estados estrangeiros ou de projetos que, em tese, existem para proteger determinado espaço, porém atuam como agentes promotores da degradação ambiental. Diante disso, é válido considerar que há argumentos contrários e argumentos favoráveis à uma governança global para adoção de medidas mais efetivas em diversas áreas. De modo geral, norteava essas discussões a preocupação com o uso dos recursos naturais e as consequências para o meio ambiente por parte dos países desenvolvidos, propondo então medidas de conservação com abrangência internacional. Em contrapartida, países subdesenvolvidos ou em desenvolvimento argumentavam que o enfrentamento de questões econômicas e sociais, como a miséria, ainda era uma prioridade e para que isso fosse possível a dependência dos recursos naturais era iminente (SECRETARIA DO ESTADO DO MEIO AMBIENTE, 1997). Assim, cria-se uma tensão 11 Dependendo do tipo de cobertura vegetal, os índices de evapotranspiração são diferentes e muitas espécies de plantas com raízes profundas são extremamente importantes para o abastecimento do lençol freático (CHRISTOPHERSON, 2012). 12 A Agenda 21 é considerada o primeiro plano de ação sistematizado para a transição para um desenvolvimento sustentável (SECRETARIA DO ESTADO DO MEIO AMBIENTE, 1997). ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ANUMA • 62 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • entre os países possuidores desses recursos fi nanceiros, ou seja, os países desenvolvidos e os países que possuem os recursos atrelados ao seus territórios, como é o casos dos países possuidores das fl orestas tropicais (BECKER, 2005). Apesar do debate ambiental já possuir conotações internacionais, a questão do buraco na camada de ozônio, na Antártida, em 1993, foi o marco para o entendimento da degradação ambiental como um problema transnacional. Nesse contexto, o aquecimento global passa a ser compreendido como resultado do padrão de produção e consumo da sociedade (SILVA, 2011). A partir da década de 1990, tanto organizações internacionais como outros agentes internacionais passaram a atuar mais fortemente em direção à proteção das fl orestas tropicais. Recursosestrangeiros, sejam eles fi nanceiros, tecnológicos ou humanos, integraram a realidade das políticas envolvendo esses espaços (ABDALA, 2007). A década de 1990 também foi marcante para o início dos debates sobre governança global. A Comissão sobre Governança Global, de 1996, defi niu o termo como, entre outras coisas, a ação de atores estatais e não estatais (como ONGs e movimentos civis) na busca pela solução dos problemas de forma conjunta, materializados de diversas formas, como em conferências, fóruns e debates. Deste modo, os problemas ambientais, tais como conservação e manejo sustentável dos recursos naturais, preservação da biodiversidade, desmatamento, demarcação de terras indígenas e muitos outros, envolveriam não somente o Estado que possui aquele território, mas sim a comunidade internacional13 (ABDALA, 2007). A governança global do clima, no entanto, é complexa e engloba outras dimensões, como a economia e a segurança. No âmbito da pauta ambiental, existem três categorias que defi nem as potências climáticas e que são um fator fundamental para o debate sobre a governança global do clima. São elas: as superpotências, compostas pelos Estados Unidos, China e União Europeia; as grandes potências, grupo composto por Brasil, Coreia do Sul, Índia, Japão e Rússia; e as potências médias, grupo que integra os demais países. O primeiro grupo é formado pelos países/blocos indispensáveis para que os acordos globais tenham legitimidade. No caso do Brasil, que faz parte do segundo grupo, este pode atuar com alguma relevância, agilizando ou difi cultando o processo, mas não possui capacidade de veto (VIOLA; FRANCHINI, 2013). Internamente, muitos países com territórios com fl orestas tropicais também preocuparam-se com a proteção desses espaços. Não há consenso, no entanto, sobre a postura política, pois alguns Estados optaram por defender a soberania e outros optaram pelos mecanismos internacionais de proteção. No caso do Brasil, a partir da constituição de 1988, surgiram as bases para o direito ambiental. Durante o Protocolo de Quioto, em 1997, quando surgiu o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, o Brasil, mesmo sendo favorável ao mecanismo, manteve a ressalva de que as fl orestas não entrassem no processo de comercialização de carbono. Em 2009, após a Cúpula de Copenhague (COP 15), os países com territórios na Floresta Amazônica formaram o Fórum da Amazônia e solicitaram que o Brasil modifi casse sua postura para favorável à inclusão das fl orestas no MDL, como forma de diminuir o desmatamento (VIOLA; FRANCHINI, 2013). Já na República Democrática do Congo, o Código Florestal do Congo, de 2002, determinou que as fl orestas são propriedade do Estado. No entanto, houve abertura, desde o início de sua formalização, para concessões, tanto para a população como para a iniciativa privada. Além disso, o código fl orestal previu a incorporação de convenções internacionais sobre o clima (CRUZ et al., 2016). Podemos concluir, portanto, que, apesar da existência de mecanismos desenvolvidos internamente pelos Estados para proteção de suas fl orestas, o debate está fundamentalmente internacionalizado e caminha em direção a respostas coletivas. 2.3 A INTERVENÇÃO INTERNACIONAL EM FLORESTAS TROPICAIS A intervenção internacional em fl orestas tropicais ocorre desde o período da colonização, como já abordado anteriormente. No entanto, nos dias atuais, novas formas de intervenção surgiram, seja através da ONU, de setores governamentais de Estados estrangeiros, de movimentos sociais, de empresas privadas e de diversos outros. Neste subtópico, abordaremos, de forma crítica, alguns exemplos de intervenções estrangeiras nas três áreas de fl oresta tropical. Inicialmente, é válido considerar que esses movimentos intervencionistas não foram motivados 13 Estão envolvidos na comunidade internacional movimentos sociais, organismos internacionais de cooperação e � nanciamento, empresas nacionais e estrangeiras, bem como a ação de estados estrangeiros (ABDALA, 2007). UFRGSMUNDI • 63 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • por ideais altruístas. Ao contrário, foram baseados nas descobertas científi cas que demonstraram que a destruição das fl orestas tropicais impactaria não somente o Sul Global, mas também as economias desenvolvidas do Norte14 (SILVA, 2011). Cabe destacar que as populações que vivem nas fl orestas e seus arredores são as que dependem dela mais diretamente, no entanto, atualmente, quase todos os indivíduos têm alguma relação com a biodiversidade que existe nesses espaços ou usufruem de algum modo de seus benefícios (FAO; UNEP, 2020). O Protocolo de Quioto foi um grande marco para a governança global ambiental. Contando com cerca de 120 países, o protocolo tinha por objetivo reduzir as emissões de gases de efeito estufa, através do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, dando origem ao mercado de carbono no qual os países poderiam comercializar créditos de carbono (FARIAS et.al., 2013). Assim, uma das soluções discutidas foi a redução das emissões de desfl orestação e degradação de fl orestas, o que poderia ser realizado por meio de projetos de Redução de Emissões de Desmatamento e Degradação Florestal (REDD) (LANG, 2009). Nas três regiões fl orestais aqui abordadas, esse projeto teve ação; entretanto, os críticos do REDD apontam para o fato de que o mecanismo pode ter contribuído para que poucas mudanças nas estruturas produtivas, modo de produção de energia e transporte tenham ocorrido ao redor do mundo. Além disso, este pode ser interpretado também como uma forma dos países do Sul Global de monetizar a conservação das fl orestas. Há, ademais, uma preocupação por parte do Movimento Mundial pelas Florestas Tropicais em relação às populações locais, pois o projeto REDD facilita a apropriação de terra, bem como a concentração das transações fi nanceiras em direção às grandes empresas. Assim, ocorre a perda, muitas vezes, de suas condições de subsistência e a falsa acusação de serem responsáveis pela depredação ambiental em suas regiões (WORLD RAINFOREST MOVEMENT, 2010b). Mesmo com relevantes questões a serem discutidas, o projeto foi visto, tanto pelos países do Norte Global como pelas Nações Unidas no âmbito da Convenção sobre Mudança do Clima (UNFCCC), como uma alternativa importante para que houvesse a diminuição das emissões de carbono (KILL, 2016). Para Becker (2005), o que ocorre atualmente é um processo de mercantilização da natureza, ou seja, são estruturas que em tese não estão à venda, mas estão sendo vendidas. A autora afi rma que existem três regiões em que o interesse internacional está potencializado: a Antártida, os Fundos Marinhos e a Amazônia. A Amazônia era vista como uma reserva ecológica, por isso mereceria uma posição privilegiada nas políticas de proteção internacional (SILVA, 2011). O Programa Piloto para Proteção das Florestas do Brasil, PPG-7 é um exemplo da mobilização internacional pela Amazônia brasileira e da relevância desta para o debate de governança global das fl orestas. A parceria entre o Brasil e os integrantes do G715 tinha por objetivo estimular a preservação da biodiversidade e frear o desfl orestamento, para se tornar um exemplo de cooperação internacional (ABDALA, 2007). Paradoxalmente a essa preocupação dos países do G7 com a Floresta Amazônica, seus territórios não poderiam ser considerados exemplos de boa gestão ambiental. A Alemanha, país responsável por cerca de dois terços dos recursos destinados ao PPG-7, estava sofrendo um processo de perda de suas próprias fl orestas (SILVA, 2011). Na região também vigorou projetos de REDD e, mesmo com a escalada na destruição ambiental, percebida a partir de 2019, diversos estados brasileiros seguem recebendo recursos via REDD. Recentemente, o país recebeu uma quantia em torno de 100 milhões de dólares do Fundo Verde, através do governo da Alemanha para o programa no Acre (OVERBEEK, 2020). O FundoAmazônia, que é também uma iniciativa ligada ao REDD, foi proposto pelo Brasil em 2007. O projeto internacional busca captar recursos de doações para a preservação do território amazônico. O principal doador do fundo é a Noruega, agregando cerca de 93% dos recursos e dados de 2019 apontam que o fundo já conseguiu angariar cerca de 3,4 bilhões de reais em doações (FUNDO AMAZÔNIA, 2019). Na região da Floresta do Congo, a segunda maior fl oresta tropical do mundo e extremamente rica em biodiversidade, também ocorre um movimento internacional para sua preservação. Apesar disso, esse espaço vem enfrentando a exploração ilegal de seus recursos, principalmente da madeira. Durante muitos anos, os recursos da fl oresta forneceram alimento e materiais de construção para grande parte da população da República Democrática do Congo (RDC). No entanto, atualmente companhias estrangeiras, principalmente europeias, estão buscando fornecedores na região. Para alguns pesquisadores, a região da RDC é uma das mais importantes zonas para o futuro do planeta, 14 Sul e Norte Global são de� nições que não referem-se propriamente a delimitações geográ� cas do Sul e do Norte do globo, mas sim a determinantes de desenvolvimento. Assim, países do Norte Global apresentam índices altos de desenvolvimento, enquanto países do Sul Global apresentam índices médios e baixos (FONSECA, 2016). 15 Grupo formado pelos sete países mais industrializados na década de 1970: Estados Unidos, Canadá, Reino Unido, França, Itália, Japão e Alemanha (ABDALA, 2007). ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ANUMA • 64 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • necessitando, então, do manejo sustentável para que se mantenha preservada (UNEP, 2019a). A exploração de madeira também ameaça a Floresta da Indonésia. Essa extração ocorre principalmente para atender às demandas por celulose de grandes empresas e gerou estragos consideráveis (LANG, 2009). Em 2010, foi realizada uma parceria entre o governo da Indonésia e o governo da Austrália, por meio do programa de Iniciativa Internacional do Carbono Florestal, articulado pelo REDD. O projeto, em tese, tinha a fi nalidade de impedir o desmatamento que estava ocorrendo na região das fl orestas de Jambi. No entanto, foi acusado tanto por ONGs australianas como indonésias de ser apenas uma prerrogativa para que o governo australiano comprasse emissões de carbono, atingindo sua meta de redução de emissões, e seguisse sem atenções ambientais em seu próprio território (WORLD RAINFOREST MOVEMENT, 2010b). Outro mecanismo importante internacionalmente que será atuante futuramente é o Fundo de Capital Semente de Restauração. O projeto, muito defendido pelas Nações Unidas, visa angariar fundos da iniciativa privada para a proteção e a restauração de fl orestas, para a conservação da biodiversidade, combate às mudanças climáticas e promoção de meios de subsistência sustentáveis. O projeto, ainda em fases iniciais, foi lançado pelo PNUMA, pela Escola de Finanças e Gestão de Frankfurt e pelos governos da Alemanha e de Luxemburgo e busca viabilizar que o investimento privado apoie essas medidas de conservação, principalmente nos países em desenvolvimento (UNEP, 2020). 3 AÇÕES INTERNACIONAIS PRÉVIAS Com o avanço das pautas ambientalistas nas últimas décadas, debates sobre a gestão, preservação e monitoramento de recursos naturais adentraram as discussões de importantes acordos internacionais e de conferências da ONU. As questões referentes ao manejo de fl orestas, dessa forma, também se tornaram objeto de consideração de importantes medidas locais e internacionais. Chegar a um acordo internacional juridicamente vinculante16 focado na problemática do gerenciamento de fl orestas, entretanto, provou-se uma árdua tarefa para órgãos internacionais, cujos esforços direcionados a tal sentido foram difi cultados pela polarização das opiniões de diferentes Estados sobre o direito de uso de regiões fl orestais (MCDERMOTT et al., 2010; SOTIROV et al., 2020). Apesar de importantes tratados vinculantes trabalharem, mesmo que indiretamente, a questão das fl orestas como parte de seu escopo mais abrangente de direcionamentos de atuação, esses acordos, bem como outros programas similares que incorporam em si a questão fl orestal, há a necessidade de se ter uma “abordagem mais efetiva quanto à coordenação” (RAYNER et al., 2010, p.16, tradução nossa) se tais tratados visam à melhora da condição fl orestal (RAYNER et al., 2010). Assim sendo, ainda faz-se importante prosseguir o trabalho direcionado à governança internacional para a conservação fl orestal (RAYNER et al., 2010). Deste modo, trazemos nesta seção uma breve descrição das principais medidas internacionais relacionadas à questão debatida, na esperança de que uma análise de seus históricos possa oferecer um panorama da atuação internacional, elucidando, assim, suas conquistas e méritos, falhas e limitações, e proporcionando uma visão mais situada da questão fl orestal no cenário internacional. 3.1 PROGRAMA PILOTO PARA PROTEÇÃO DAS FLORESTAS TROPICAIS DO BRASIL (PPG-7) Lançado na reunião do G7 em 1990, o Programa Piloto para Proteção das Florestas Tropicais do Brasil foi uma iniciativa dos países do grupo para abordar a questão da preservação das fl orestas tropicais brasileiras, nascendo em um contexto político propício ao desenvolvimento de similar acordo, com a abertura do Brasil ao mercado internacional e também com a vontade de países desenvolvidos de se envolverem com as pautas ambientais. Nesse contexto, o programa foi imaginado como uma forma de oferecer suporte à preservação e ao manejo de áreas fl orestais e à redução da emissão de gás carbônico (ABDALA, 2007; ANTONI, 2010). Com o desenvolvimento do programa, o Banco Mundial assumiu a posição de administração do Fundo Fiduciário de Florestas Tropicais (RTF), fundo de investimento pelo qual recursos fi nanceiros doados por países envolvidos eram captados e direcionados à aplicação local. Com o desenrolar das atividades do PPG-7, entretanto, operou-se o desengajamento dos países 16 Em que há responsabilidade jurídica para os signatários (PIMENTA, 2018). UFRGSMUNDI • 65 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • apoiadores, resultando na retirada de suporte e no desamparo do projeto, que agora só “se tornava possível graças à liderança da Alemanha apoiada pela Comissão Europeia” (ANTONI, 2010, p. 304). Outras difi culdades se impuseram, ademais, com o despreparo do Brasil para receber um programa de tal aporte e com o descompasso presente na organização de projetos, fazendo com que o programa fosse considerado “mais um mosaico de subprogramas do que, a rigor, um programa convencional.” (ABDALA, 2007, p. 204-205). O programa acabou por encontrar grandes desafi os até chegar ao seu fi m em 2009 — mas sem estar ausente de benefícios, como os de natureza técnica e tecnológica e a internalização regional de um mais amplo movimento ambientalista (ABDALA, 2007; ANTONI, 2010). 3.2 DECLARAÇÃO DE PRINCÍPIOS SOBRE FLORESTAS, AGENDA 21 E INSTRUMENTO DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE FLORESTAS Após uma década de crescente consciência acerca da pauta fl orestal e de suas relações com outras pautas ambientalistas e comerciais, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (CNUMAD), que ocorreu em 1992, foi o palco para uma discussão global das problemáticas relacionadas à gestão fl orestal. Embora tenha sido a vontade de um grupo de países desenvolvidos, não foi possível, entretanto, a elaboração de um documento juridicamente vinculante que abordasse o uso e preservação de fl orestas. O acordo encontrou uma oposição formada pela coalizão de países em desenvolvimento — a China e o G7717 —, que encontravam motivos para sua oposição, por exemplo, no interesse de países desenvolvidos em uma “convenção como meio de infl uenciar a gestão de fl orestas tropicais, enquanto se recusavam a reconhecer problemasem suas próprias fl orestas” (RAYNER et al., 2010, p. 10, tradução nossa; SOTIROV et al., 2020). Os países em desenvolvimento trouxeram à tona, ademais, seu “direito soberano de converter fl orestas em uso mais economicamente produtivo, assim como países então desenvolvidos fi zeram no passado [...]” (MCDERMOTT et al., 2010, p. 22, tradução nossa), argumentando, ainda, que deveriam ser compensados caso abdicassem de tal uso. É importante acrescentar, também, que “países-chave, incluindo o Brasil e outros membros da Organização do Tratado de Cooperação Amazônica (ACTO)18 e os Estados Unidos permaneceram céticos quanto aos benefícios de uma convenção” (RAYNER et al., 2010, p. 10, tradução nossa). Foi a partir da Conferência-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (CQNUMC), produto da CNUMAD, que foram adotados dois importantes documentos: a Declaração de Princípios sobre as Florestas, para um consenso global quanto à gestão, à conservação e ao desenvolvimento sustentável de fl orestas de todos os tipos e o 11º capítulo da Agenda 21, intitulado “Combate ao Desfl orestamento”. Segundo Rayner et al. (2010, p. 9-10, tradução nossa), “esses documentos representam o primeiro consenso global sobre os múltiplos benefícios provenientes das fl orestas, as políticas nacionais necessárias para mantê-los para atuais e futuras gerações, e a cooperação necessária para auxiliar esforços nacionais”. Nos anos seguintes, a Comissão de Desenvolvimento Sustentável, criada também a partir da CQNUMC, prosseguiu à criação do Painel Intergovernamental sobre Florestas e seu sucessor, o Foro Intergovernamental sobre Florestas, tendo os dois, juntos, mais de 280 propostas para a problemática fl orestal (RAYNER et al., 2010). Já no ano de 2000, foi criado o Fórum das Nações Unidas sobre Florestas, que visava a facilitar a gestão de fl orestas e a partir de qual seria lançado, em 2007, o Instrumento das Nações Unidas sobre Florestas (UNFA, na sigla em inglês) em 2015 (RAYNER et al., 2010; SOTIROV et al., 2020). O UNFA tem como propósitos o fortalecimento do compromisso e da ação política para o manejo sustentável de fl orestas, aumentar as contribuições fl orestais aos objetivos de acordos com a Agenda 2030 e fornecer um guia para ação nacional e cooperação internacional; valendo-se, para tal, de objetivos globais como a reversão de perdas fl orestais com o uso de práticas de manejo fl orestal sustentável, o aumento dos benefícios econômicos, sociais e ambientais das fl orestas, o aumento das áreas de preservação fl orestal e a reversão do declínio de ações ofi ciais de assistência fl orestal (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 2016). É importante frisar, contudo, que esse documento possui caráter jurídico não-vinculante: ou seja, não há responsabilidade jurídica dos países para com os objetivos do instrumento. 17 Organização intergovernamental de países em desenvolvimento, fundada em 1964, atualmente com 134 membros (THE GROUP OF 77, 2021). 18 Sigla em inglês para a Organização do Tratado de Cooperação Amazônica. ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ANUMA • 66 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 3.3 REDD+ O instrumento REDD+ constitui-se numa arquitetura internacional para políticas e incentivos a países em desenvolvimento para a redução das emissões de gases de efeito estufa provenientes do desmatamento e da degradação fl orestal e o papel da conservação fl orestal, do manejo sustentável de fl orestas e do aumento dos estoques de carbono fl orestal (BRASIL, 2016, p. 1). Com um sistema de recompensas fi nanceiras para resultados “mensurados, relatados e verifi cados no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima” (BRASIL, 2019, online), o REDD+ é uma maneira de conduzir os esforços dos participantes em direção à Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável adotada em 2015 (UN-REDD PROGRAMME, 2016). Elaborado a partir da CQNUMC, o instrumento tem pagamentos “realizados por resultados de mitigação, medidos em toneladas de CO2 equivalente, em relação a um nível de referência aprovado em avaliação conduzida no âmbito da UNFCCC” (BRASIL, 2016, p. 1). O fi nanciamento dos pagamentos pode vir de variadas “fontes, públicas e privadas, bilaterais e multilaterais, incluindo fontes alternativas” (UNITED NATIONS FRAMEWORK CONVENTION ON CLIMATE CHANGE, 2021, online), podendo países desenvolvidos usar os pagamentos de resultados REDD+ “como parte de seus compromissos de fi nanciamento relacionado à mudança do clima para países em desenvolvimento perante a UNFCCC” (BRASIL, 2019, online). Para ilustração de pagamentos de resultados REDD+, pode-se considerar os acordos mantidos pelo Brasil com a Noruega e Alemanha, em que os países se comprometeram à transferência de 600 milhões de dólares americanos e 100 milhões de dólares americanos, respectivamente, ao Fundo Amazônia, programa de doações para práticas anti- desmatamento no Brasil (BRASIL, 2019; FUNDO AMAZÔNIA, 2021). Para que um país receba pagamentos de resultados de REDD+, ele deve ter um plano de ação nacional, um nível de referência de emissões fl orestais, um sistema de monitoramento de fl orestas e um sistema de informações de salvaguardas de REDD+ (BRASIL, 2017; UN-REDD PROGRAMME, 2016). Entre outras entidades apoiadoras, o suporte para a implementação das ações do REDD+ é fornecido pelo Programa Colaborativo das Nações Unidas sobre Redução das Emissões por Desmatamento e Degradação Florestal em Países em Desenvolvimento (UN-REDD, na sigla em inglês), um organismo multilateral fruto colaboração entre a FAO, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) e o PNUMA (UN-REDD PROGRAMME, 2016). O fi nanciamento do programa é dependente de fundos voluntários, tendo já contribuído países como Noruega, Dinamarca, Japão, Luxemburgo, Espanha, Suíça e a Comissão Europeia (UN-REDD PROGRAMME, 2017). 4 BLOCOS DE POSICIONAMENTO Não possuindo fl orestas tropicais em seu território, a República da África do Sul tem 7% de sua área coberta com fl orestas (FAO, 2016b) e 0,5% de área coberta com fl orestas naturais (SOUTH AFRICAN GOVERNMENT, 2021). As atividades econômicas relacionadas a tais, entretanto, são um grande contribuidor para a economia nacional, tendo o setor fl orestal somado 1,3% do PIB do país em 2002 (FAO, 2016b). Embora signatário do Acordo de Paris, o plano inicial de recuperação do país para o cenário pós-COVID parece não considerar um sistema de retomada sustentável da economia, intensamente afetada pela crise sanitária (CLIMATE ACTION TRACKER, 2020). Embora não possua fl orestas tropicais em seu território, a República Federal da Alemanha é uma grande contribuidora para a pauta ambientalista. Historicamente, o país foi um notável apoiador do PPG-7, sendo sua liderança uma importante base para a manutenção do Programa em determinado momento (ANTONI, 2010). Em 2015, juntamente com o Reino Unido e a Noruega, a Alemanha anunciou a doação de 1 bilhão de dólares por ano até 2020 para iniciativas do programa REDD+, compromisso reiterado em declaração conjunta pelos três países em 2019. A Alemanha contribui, ademais, com o Fundo Amazônia, tendo o país europeu já doado mais de 68 milhões de dólares para o Fundo (FUNDO AMAZÔNIA, 2021). Outras práticas de apoio ao país latino-americano, entretanto, foram postas em cheque com a advento de dúvidas sobre o comprometimento do Brasil para com a redução do desmatamento, tendo a Alemanha anunciado a retirada de 39,5 milhões de dólares de doações para UFRGSMUNDI • 67 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • fundos ambientais à luz do avanço do desmatamento no país (MENDES, 2019). A Comunidade da Austrália apresenta 3,6 milhões de hectares de fl oresta tropical, somando 2,7% do total de fl orestas nativas do país (AUSTRÁLIA, 2019a). O país, após a adoção de políticas públicas para conservação das fl orestas, atingiu em 2013 a marca de 17% de extensão de fl orestas nativasprotegidas em reservas de conservação (AUSTRÁLIA, 2019b). Tais medidas de proteção, entretanto, contrastam com alarmantes dados de desmatamento no país: a Austrália é o único país desenvolvido citado entre as principais frentes de desmatamento, sendo a criação de pasto a principal razão do desmatamento no país (PACHECO et al., 2021; WORLD WIDE FUND FOR NATURE, 2017). O Estado Plurinacional da Bolívia é um país amplamente marcado pela presença de fl orestas tropicais primárias, que constituem aproximadamente metade do território do país (FAO, 2016a). A nação é caracterizada, entretanto, por um cenário notável de desmatamento, cujas taxas cresceram na década de 1990 (MONGABAY, 2006b) e apontam para um futuro crescimento, também, em regiões específi cas (PACHECO et al., 2021) — sendo a causa principal do desmatamento no país a expansão da fronteira agrícola (ANDERSEN, 2013). Quanto à sua parcela da Amazônia, que corresponde a 44% do país, a Bolívia já perdeu 8% de sua extensão de fl orestas (COSTA, 2020). Recentemente, o atual presidente Luis Arce chamou atenção para a necessidade de uma solução do sul global à crise ambiental em contrapartida às proposições dos países ricos (EL, 2021). A República Federativa do Brasil é território para cerca de um terço das fl orestas tropicais primárias restantes no mundo. Por isso, é um país de grande importância na discussão ambiental. Em 2009, o país lançou a Política Nacional sobre Mudança do Clima, visando à redução do desmatamento da Amazônia em 80% (SILVA JUNIOR et al., 2020). No entanto, em direção contrária à planejada, o país teve aumento no total de km² desmatados desde 2009, com 10.851 km² desmatados na Amazônia em 2020 (TERRABRASILIS, 2021). Tal desfl orestamento tem levantado preocupações de importantes agentes internacionais. Em 2019, após a Amazônia ser alvo de queimadas, 230 fundos de investimentos internacionais publicaram um manifesto pedindo por mais esforços contra o desmatamento na região (JUCÁ, 2019). Um país majoritariamente agrícola, o Reino do Butão tem cerca de 70% de seu território fl orestado, sendo um dos dois únicos países negativos em carbono (GYELTSHEN, 2020). O país asiático conta, ainda, com legislação garantindo perpetuamente que 60% de seu território seja mantido fl orestado e proibindo a exportação de madeira pura (GYELTSHEN, 2020; MONGABAY, 2006a). Em 2018, com a criação do programa Bhutan for Life, uma parceria da WWF, do governo do país, doadores e apoiadores internacionais, foi mobilizado um fundo de 43 milhões de dólares para fi nanciar a proteção de rede de áreas protegidas do país, valor que é somado, ademais, por 75 milhões de dólares de investimento do Reino (WWF, 2021). Apesar de tal cenário, a pandemia de COVID-19 afetou negativamente o país, estando este a considerar um aumento na produção madeireira como resposta à situação (GYELTSHEN, 2020). A República de Camarões enfrenta atualmente um processo de desertifi cação que impacta suas áreas fl orestais, localizadas na região central do país. Apesar de possuir algumas causas naturais, a exploração madeireira, que representa 42% do PIB do país, é a principal responsável. O país acredita que a cooperação internacional, principalmente a articulada pela ONU, é imprescindível para a superação dos problemas ambientais uma vez que esses são uma ameaça global à segurança mundial (CAMARÕES, 2020). O Canadá anunciou em 2020 um novo plano para tornar-se mais comprometido com a proteção ambiental, eliminando gradativamente, por exemplo, o uso de plásticos em diversos objetos (POPPI, 2020). Apesar de proteger o meio ambiente internamente, empresas canadenses são acusadas de depredação ambiental em regiões de fl oresta tropical. Um exemplo disso é o caso da mineradora canadese, a Belo Sun, que estava em 2020, iniciando projetos em busca de ouro em reservas indígenas na Amazônia brasileira, mesmo com sua autorização suspensa (ANGELO, 2020). A República Popular da China vem apresentando altas taxas de crescimento econômico. No entanto, esse crescimento tem impactado signifi cativamente o meio ambiente, tanto nacional como internacionalmente. Entre os pontos levantados estão a questão das emissões de carbono e o fato de seus investimentos em infraestrutura em diversos países estarem acompanhados de impactos ambientais e sociais para com as populações locais (CHINA, 2014). Para o enfrentamento dessas questões, o país defende as ações de cooperação multilaterais e a atuação da ONU e do direito internacional (CHINA…,2020). A República da Colômbia, em 2017, foi o país com território amazônico mais desmatado. Essa alta nas taxas de desmatamento foi apontada por autoridades como resultado dos acordos de ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ANUMA • 68 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • paz entre o governo e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC). Isso porque as FARC ocupavam muitos espaços na fl oresta amazônica, agindo como autoridades e impedindo certas atitudes prejudiciais ao meio ambiente, como desmatamento. Em resposta a isso, o governo colombiano criou, no ano seguinte, o Conselho Nacional de Luta contra o Desmatamento (COSTA, 2020). O país acredita que a cooperação internacional é um meio para que a Colômbia atinja seus objetivos nacionais. Assim, sua postura é de conciliação entre os interesses internacionais e o interesse nacional (COLÔMBIA…, 2020). Em 2019, a República da Costa Rica recebeu o prêmio Campeões da Terra, da ONU. Esse prêmio foi motivado por seu papel internamente em relação à proteção ambiental e sua articulação política em prol de combater as mudanças climáticas. O país possui um plano de diminuir suas taxas de emissões de carbono através de modifi cações em suas estruturas de transporte, energia, resíduos e uso da terra (UNEP, 2019b). Além disso, é o primeiro país tropical a não só frear o desmatamento, como reverter essa problemática (JÚNIOR, 2016). O Reino da Espanha apresenta ação positiva em relação ao meio ambiente, como o uso da energia eólica e a instauração de um Ministério Público especializado em crimes contra o meio ambiente. No entanto, entre os países europeus, o país apresenta um relativo atraso (SEDE, 2019). Apesar disso, o país está procurando posicionar-se como líder em medidas de proteção ambiental, sendo um exemplo mundial (UOL, 2021). Os Estados Unidos da América (EUA) é um dos países que mais emite gases intensifi cadores do efeito estufa do mundo, contribuindo com cerca de 20 a 21% das emissões mundiais. Mesmo tendo essa grande quantidade de emissões, pouco é feito em ações efetivas de combate às mudanças climáticas e de proteção às fl orestas situadas em regiões tropicais (MOREIRA, 2014). É importante salientar que os EUA, através da Agência de Desenvolvimento dos Estados Unidos (USAID, sigla em inglês) junto do Banco Mundial, vêm estimulando e fi nanciando projetos privados de titulação de terras em todo o mundo — e muitas dessas terras se encontram em áreas de preservação ambiental em regiões tropicais — o que pode piorar ainda mais os níveis de desfl orestamento mundial, uma vez que essas áreas são privatizadas e seus recursos naturais são explorados (MOUSSEAU, 2020). A República Francesa fi nancia o Fundo Francês para o Meio Ambiente Mundial (FFEM), que oferece 20 milhões de euros anualmente para subsidiar cerca de vinte projetos por ano voltados à preservação do meio ambiente, onde 75% desses recursos são para projetos que envolvem clima e biodiversidade (assuntos diretamente relacionados com as fl orestas tropicais) em países africanos, asiáticos e latino-americanos. Na mesma linha, a Agência Francesa de Desenvolvimento (AFD) ofereceu mais de 15 milhões de euros desde 2019 para combater o desfl orestamento nos países onde a Floresta Amazônica se concentra. Em contrapartida, o governo francês vem promovendo a mineração na Guiana Francesa, que muito prejudica as fl orestas tropicais locais (WRM, 2017). A República daGuiné Equatorial é um país localizado em uma região tropical, na África Central. De acordo com estudos, é o país com a menor área percentual de fl orestas preservadas dos países da África Central (GRANTHAM et al., 2020). Neste país, a economia é baseada na extração de petróleo e de outros recursos minerais. Desde a época colonial, a agricultura está baseada em monoculturas de café, cacau e dendê. No entanto, devido à falta de estrutura rodoviária, não são atividades econômicas tão desenvolvidas. Entretanto, nos últimos anos, o país tem chamado atenção de países europeus e americanos para especulação em relação ao desenvolvimento rodoviário e posterior desenvolvimento agropecuário na região, uma vez que o país possui um alto potencial agrícola (WRM, 2010a). Os Países Baixos (Holanda) são um país situado no noroeste da Europa. Desta forma, não possui fl orestas tropicais em seu território, mas é bastante conhecido por apoiar a preservação do meio ambiente. Por exemplo, o país foi contrário ao acordo do Mercosul com a União Europeia no ano de 2020 por conta das altas taxas de desmatamento na Floresta Amazônica (GODOY, 2020). Entretanto, também é um dos países que possuem empresas que compram madeira advinda de desmatamento e extração ilegal da Amazônia (NIRANJAN, 2019) e apoia megaprojetos voltados ao transporte da soja na fl oresta amazônica que podem ser prejudiciais ao meio ambiente (KUIJPERS, 2018). Ainda que a maioria das fl orestas tropicais indianas tenham sofrido com uma exploração extensiva de mineradoras, segundo estudos, a República da Índia tem apresentado uma transição fl orestal nos últimos vinte a trinta anos. Houve um aumento líquido na cobertura fl orestal do país graças às políticas de regeneração fl orestal, fruto do planejamento deliberado que envolve todos os níveis de governo, com atuação ativa das agências fl orestais nacionais (CHAZDON, 2012). Além disso, a Índia cooperou internacionalmente para o lançamento de um satélite brasileiro, que irá monitorar o UFRGSMUNDI • 69 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • desmatamento da Amazônia e contribuir com a preservação das fl orestas tropicais (ROCHE, 2021). A República da Indonésia é um arquipélago localizado inteiramente em zona tropical com abundantes recursos fl orestais e que há décadas sofre com a degradação fl orestal e o desmatamento. Em 2004, o Ministério das Florestas da Indonésia criou as Concessões para Restauração de Ecossistemas (CRE), cujo principal objetivo era transformar áreas de preservação em áreas de preservação produtivas. Essas áreas eram concedidas à ONGS e empresas privadas para que ocorresse, primeiramente, uma preservação e, posteriormente, retomar a extração de madeira. O que aconteceu é que o desmatamento aumentou ainda mais na Indonésia, principalmente por conta da mineração e da expansão agrícola das commodities de óleo de palma (HIGGINS, 2009) e as CREs viraram o que vem sendo chamado de “REDD indonésio”, ou seja: uma indústria de vendas de créditos de carbono. A presença de indústrias europeias nas CREs é signifi cante, uma vez que a Indonésia possui minerais estratégicos para que a União Europeia consiga fazer sua transição para a “energia verde” (OVEERBEEK, 2020a). O Estado do Japão é um país insular que não possui fl orestas tropicais em seu território, devido ao seu clima temperado, porém atua internacionalmente cooperando em prol de iniciativas contra o desmatamento dessas áreas de fl orestas tropicais (KOBAYASHI, 2011). Além disso, para suprir sua demanda energética, o Japão está importando carvão vegetal, uma vez que desativou todas as usinas nucleares devido ao risco de acidentes por causa dos tsunamis e terremotos (JAPÃO, 2013). A República de Madagascar possui grande percentual de fl orestas tropicais em seu território, que estão diminuindo conforme o passar dos anos, devido à ação humana e à exploração desenfreada (TENNENHOUSE, 2020) . As fl orestas tropicais de Atsinanana, em Madagascar, estão na Lista da UNESCO de Patrimônios Mundiais em Perigo por causa da extração ilegal de madeira e da caça de animais, de modo que foi recomendado ao governo de Madagascar que atuasse de forma mais extensiva na proteção do meio ambiente (UNIC RIO, 2010). A República da Malásia é um país asiático que possui grandes áreas de fl orestas tropicais, que estão sendo fortemente exploradas pela indústria madeireira e pela agricultura, cooperando internacionalmente para aumentar a fi scalização no comércio internacional para barrar a compra de madeira extraída de forma ilegal (YONG, 2006). Além disso, o governo malaio está aumentando a legislação ambiental, com o objetivo de reduzir a exploração ilegal e o desmatamento desenfreado das suas áreas fl orestais (KEETON-OLSEN, 2021). O Reino da Noruega é um dos maiores fi nanciadores globais contra o desmatamento de fl orestas tropicais, provendo 40% de todas as doações realizadas pela comunidade internacional. Assim, é um dos maiores apoiadores dos fundos internacionais em prol da preservação do meio ambiente e do desenvolvimento sustentável (PARKER et al., 2018). A Noruega não possui fl orestas tropicais, mas fi nanciou o mapeamento de fl orestas tropicais, através de dados de satélites, fortalecendo a luta contra o desmatamento e a degradação do meio ambiente (AMOS, 2020). A República do Panamá possui áreas de fl orestas tropicais em seu território, que são ameaçadas pela exploração desenfreada, visto que a maioria da população vive em zonas rurais e faz usos de práticas convencionais na agricultura para terem sua subsistência, tal como o corte e a queimada das fl orestas. Desde os anos 2000, o desmatamento vem diminuindo no território panamenho, sendo esse um resultado dos esforços governamentais empregados, assim como da cooperação internacional desenvolvida, com o objetivo de elaborar e aprimorar as estratégias nacionais de adaptação e mitigação das mudanças climáticas relacionadas à depredação das suas fl orestas tropicais (FORESTS OF THE WORLD, 2021). A República do Peru possui extensas áreas de fl oresta amazônica, de modo que representa 60% do seu território, contendo muita diversidade de fauna e fl ora (WRM, 2014) O governo peruano vem atuando na preservação das suas fl orestas, através da criação de um fundo para proteger 17 milhões de hectares de fl orestas, como também fortalecer a participação das populações locais e indígenas na manutenção da fauna e da fl ora local, visto que o país sofre com o desmatamento e exploração ilegal dessas áreas (AFP, 2019). Além disso, o país está cooperando internacionalmente através do recebimento de investimentos externos para reduzir o desmatamento nas suas fl orestas tropicais até 2025 (GOV. UK, 2021). O Reino Unido da Grã-Bretanha e da Irlanda do Norte tem se mostrado engajado na proteção de fl orestas tropicais, criando uma força tarefa a fi m de combater a mudança climática e preservar os recursos naturais. No fi nal de 2020, o país criou uma lei ambiental que tem por objetivo diminuir o desmatamento ilegal nas fl orestas tropicais. A lei prevê a proibição de compra de commodities — como soja, cacau, óleo de palma e carnes — que provenham do desmatamento ilegal dessas fl orestas, ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 ANUMA • 70 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • abrangendo estabelecimentos como restaurantes, supermercados e demais empresas (REINO, 2020). Também, criou o Diálogo sobre Floresta, Agricultura e Comércio de Commodities, uma iniciativa para desenvolver um comércio de commodities mais sustentável, unindo países exportadores e compradores dos produtos para que juntos possam criar soluções que ajudem o meio ambiente, bem como o desenvolvimento econômico (MACHADO, 2021). A República Centro Africana, situada na parte central da África, faz parte da Bacia do Congo e tem 36% de sua extensão coberta por fl oresta tropical. Porém, grande parte dessa fl oresta foi desmatada devidoà exploração de madeira (BUTLER, 2006). Essa exploração não afeta somente o meio ambiente, mas também a população local, visto que há milícias envolvidas no comércio madeireiro, causando opressão e mortes. Os países europeus são os principais compradores da madeira centro- africana (PETIÇÃO, 2018). Para tentar diminuir o problema, o país conta com um Código Florestal, mas existem difi culdades para sua efetiva implementação, como os confl itos internos e a instabilidade governamental aos quais o país está sujeito (FOREST LEGALITY INICIATIVE, 2013). Sendo possuidora de quase metade da fl oresta tropical da África, a República Democrática do Congo tem aumentado seus níveis de desmatamento nos últimos anos. Isso se deve principalmente à exploração de madeira, à agricultura e à produção de carvão vegetal (JONG, 2018). A maior parte da extração de madeira do país é ilegal. Uma tentativa de amenizar as perdas é por meio da REDD, além de possuir uma rede de áreas protegidas, como por exemplo o Parque Nacional de Virunga, primeiro parque nacional da África. Porém, por vezes esses esforços se voltam contra a comunidade, entendo que a população local é a principal destruidora da fl oresta (RAINFOREST FOUNDATION UK, 2021). Mas estudos realizados por pesquisadores de universidades congolesas mostram que a agricultura de subsistência não é a principal causa do desmatamento, mas sim a agricultura rentável, ou seja, plantações voltadas ao comércio dos produtos (ERICKSON-DAVIS, 2016). País com a segunda maior cobertura de fl oresta tropical do continente africano, a República do Congo possui um parque nacional — denominado Nouabalé-Ndoki — sendo uma área de proteção ambiental que abriga uma diversidade de fauna. Não apenas esse parque, mas cerca de 16% do país está sob algum tipo de proteção ambiental (BUTLER, 2020). Os recursos naturais do país são propriedade do Estado, que concede direito à exploração a empresas privadas. Para maior efetividade da proteção fl orestal, a República do Congo aderiu ao Plano de Ação para a Aplicação da Legislação Florestal, Governança e Comércio da União Europeia (FLEGT, sigla em inglês) — inciativa da União Europeia para combater a exploração ilegal de madeira — e também está engajado no programa nacional de REDD+ (FOREST LEGALITY INITIATIVE, 2014). A Federação Russa (Rússia), apesar de não possuir fl orestas tropicais, possui fl orestas boreais. O país afi rma que é necessária ajuda externa para que consiga fi nanciar um manejo fl orestal mais sustentável (DAVYDOVA, 2015). Essas fl orestas sofrem principalmente com a extração de madeira, por vezes ilegal, mas também com queimadas e extração mineral. Na tentativa de diminuir os impactos da exploração, foram criados reservas naturais, parques nacionais e reservas de vida selvagem, além de contar com a ajuda da organização não-governamental WWF, para a criação do conceito de Florestas de Alto Valor de Conservação (HCVF, sigla em inglês), que impõe restrições na exploração madeireira (WWF, 2018). A República Bolivariana da Venezuela possui em seu território parte da Floresta Amazônica, que tem sofrido nos últimos anos com o garimpo, que exige extração da fl ora para acessar o ouro no subsolo. A atividade mineradora, além de causar o desmatamento, contamina rios e povos indígenas devido ao uso de mercúrio. Essa atividade cresceu muito desde 2014, devido à crise do petróleo vivida pelo país (COSTA, 2020). Por outro lado, a Venezuela possui o Parque Nacional de Canaima, que é Patrimônio Mundial da UNESCO, e vem sendo preservada há anos para proteger a fl oresta principalmente das queimadas, que são muito recorrentes na região. Para isso, há participação de indígenas que vivem na região, que encontraram um jeito de tornar o fogo seu aliado e assim diminuir os prejuízos ambientais. Por isso, especialistas ambientais e indígenas trabalham juntos para manter a proteção do Parque (IBARRA, 2020). Dessa forma, o país defende sua soberania na proteção da fl oresta, valorizando os conhecimentos da população local (PAÍSES, 2020). UFRGSMUNDI • 71 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 5 QUESTÕES PARA DISCUSSÃO (1) As ações desenvolvidas para a proteção das fl orestas tropicais levam em consideração a opinião das populações tradicionais? (2) O que os países podem fazer para que o desmatamento e a exploração ilegal das fl orestas tropicais acabem? (3) De que forma as ações desenvolvidas para o combate ao desmatamento das fl orestas tropicais em nível internacional foram efetivas? (4) Como os países podem cooperar para a preservação das fl orestas tropicais sem afetar a soberania dos países detentores? REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABDALA, Fábio de Andrade. Governança Global Sobre Florestas: O caso do programa piloto para proteção das fl orestas tropicais do Brasil - PPG7 (1992-2006). Orientador: Eduardo José Viola. 2007. 250 f. Tese (Doutorado) - Programa de Pós-Graduação em Relações Internacionais, Universidade de Brasília, Brasília, 2007. Disponível em: https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/1381/1/Tese_2007_FabioAbdala.pdf. Acesso em: 9 mar. 2021. AFP. Peru quer reforçar proteção de sua fl oresta amazônica. Estado de Minas, Online, 11 jun. 2019. Disponível em: https://www.em.com.br/app/noticia/internacional/2019/06/11/interna_internacional,1061061/peru-quer- reforcar-protecao-de-sua-fl oresta-amazonica.shtml. Acesso em: 26 mar. 2021. ALVES, Jéssica. Brasil Colônia. Educa mais Brasil, 2020. 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APRESENTAÇÃO O Banco Mundial (BM) é uma organização fi nanceira internacional que realiza operações de empréstimos, fi nanciamento e doações para países em desenvolvimento. Atualmente, o Banco é formado por cinco instituições1 e é composto por 189 Estados-membros (WORLD BANK, 2021l). A princípio, a instituição foi criada com o intuito de auxiliar os Estados envolvidos nos confl itos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945) na reconstrução de suas economias e infraestruturas. Alguns anos depois, com o início do processo de restabelecimento econômico desses países, o foco das ações do BM foi direcionado para operações nos países em desenvolvimento (WB, 2021c, 2021l). Nesse sentido, a instituição atua principalmente tendo em vista a eliminação da pobreza por meio da construção de infraestrutura e realização de projetos em diferentes setores2 (WB, 2021c, 2021l). O Banco busca realizar parcerias com governos locais, organizações da sociedade civil, setor privado e bancos regionais. Em conjunto, essas organizações trabalham na realização dos projetos — discutidos e elaborados no âmbito do Banco Mundial pelos representantes das esferas de organização mencionadas — que visam ao enfrentamento e à superação de desafi os em diferentes áreas de desenvolvimento, tais como saúde, educação, agricultura e urbanização (WB, 2021e, 2021l). Como um dos principais focos do BM, o desenvolvimento urbano apresenta uma área de atuação bastante extensa para a elaboração e implementação de projetos. Desse modo, o objetivo do Banco é oferecer “soluções integradas para melhorar as condições de vida em áreas urbanas por meio de planejamento, infraestrutura, desenvolvimento, reabilitação, fi nanças, habitação e prestação de serviços”3 (WB, 2016b, p. 73). Essas atividades se mostram ainda mais importantes devido às dimensões e à importância dos espaços urbanos na sociedade contemporânea. Atualmente, mais de quatro bilhões de pessoas residem em áreas urbanas em todo o mundo e são nesses ambientes que mais de 80% do PIB (Produto Interno Bruto) mundial é produzido (WB, 2020c, 2021e). O espaço urbano caracteriza o local no qual são concentradas e desempenhadas atividades administrativas, políticas e econômicas de uma região (ROLNIK, 1995). Os projetos de desenvolvimento dessas áreas dependem de diversos fatores, tais como a região geográfi ca, fatores econômicos, políticos e culturais de cada sociedade e lugar; contudo, algumas características do processo de urbanização são comuns, tais como: estratégias para a moradia, o transporte e o acesso a serviços básicos pela população residente (WB, 2020c). O crescimento acelerado das cidades nas últimas décadas foi acompanhado de questões relacionadas ao planejamento de espaços urbanizados que atendessem às necessidades e aos direitos humanos (CARRION, 1996; WB, 2021e). Além disso, apresentam-se vários desafi os para a promoção do crescimento e do desenvolvimento sustentável das cidades e a superação de problemas sociais, econômicos e de infraestrutura (MARTINS et al., 2020; WB, 2021e). Dessa forma, este guia de estudos busca apresentar questões que envolvem o desenvolvimento urbano. A seção que segue esta introdução aponta os principais acontecimentos e características que marcaram a formação das cidades. Em seguida, serão explorados alguns dos principais problemas que o desenvolvimento urbano contemporâneo enfrenta,como: a poluição do ar; a organização do espaço 1 As instituições que formam o Banco Mundial são: o Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (IBRD, na sigla em inglês); a Associação Internacional de Desenvolvimento (IDA, na sigla em inglês); a Corporação Financeira Internacional (IFC, na sigla em inglês); a Agência Multilateral de Garantia de Investimentos (MIGA, na sigla em inglês); e o Centro Internacional para Resolução de Disputas sobre Investimentos (ICSID, na sigla em inglês). Cada uma dessas instituições é focada em uma área e desempenha suas funções de forma autônoma, porém relacionada (WB, 2021l). 2 O Banco Mundial divide seus eixos de atuação nos seguintes setores: agricultura, educação, energia, setor � nanceiro, saúde, indústria e comércio, informação e comunicação, administração pública, proteção social, transporte e água, saneamento e gestão de resíduos (WB, 2021l). 3 Entre as atividades é possível destacar: infraestrutura e serviços urbanos; serviços e habitação para os pobres; transporte público urbano; planejamento urbano; � nanças municipais; água e saneamento urbano; gerenciamento de resíduos sólidos urbanos; sistemas de gestão urbana; terrenos urbanos e mercados de terras; regeneração urbana; segurança urbana, entre outros (WB, 2016b). UFRGSMUNDI • 81 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • urbano; e o acesso a tecnologias de informação e comunicação. Na quarta seção, serão abordadas as ações internacionais prévias referentes ao assunto no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) e do Banco Mundial. Por fi m, serão apresentados os posicionamentos dos países que participarão da reunião do Banco. 1 HISTÓRICO O planejamento urbano é um processo técnico e político do desenvolvimento urbano focado no delineamento do ambiente das cidades, e inclui pautas como ar, água, saneamento básico, poluição, energia e a infraestrutura que gira em torno da população, como transportes (SANTOS, 2006). No momento ainda não há uma defi nição universal para o que signifi ca “urbano”, assim, as Organizações Internacionais se baseiam nas defi nições nacionais de cada país para a conceituação do espaço urbano (RITCHIE; ROSER, 2019). Nesta seção, busca-se apresentar alguns dos fatores que promoveram o crescimento urbano, especialmente no Ocidente, e as transformações que ocorreram nas confi gurações das cidades e do planejamento urbano. O desenvolvimento urbano acontece de maneira orgânica desde a pré-história, como durante o período neolítico,4 no qual o homem começa a organizar o espaço em que habita, cultivando plantas e domesticando animais, por exemplo (ABIKO; ALMEIDA; BARREIROS, 1995). Pode-se observar como o planejamento urbano sofreu mudanças ao longo da história através de exemplos basilares como a ágora de Atenas do século XIV a.C. e o fórum romano do século VII a.C. — centros políticos, comerciais e administrativos das cidades —, assim como pelas cidades muradas da Europa, construídas na Idade Média com o objetivo de proteger seus habitantes, ou cidades como Washington D.C., desenhada pelos franceses e a Cidade do México, construída no topo do antigo lago Texcoco (ABIKO; ALMEIDA; BARREIROS, 1995). O crescimento urbano aconteceu de forma lenta e gradual na maior parte da história. Até o século XVI, a população urbana representava cerca de 5% da população mundial (RITCHIE; ROSER, 2019). Foi a partir da Primeira Revolução Industrial, entre 1760 e 1840, que a urbanização começou a ocorrer de forma mais intensa, com 21% da população europeia vivendo em áreas urbanas em 1800 (RITCHIE; ROSER, 2019). A grande urbanização do período ocorreu em razão do grande êxodo rural, movimento migratório decorrente principalmente da “Lei de Cercamentos” na Inglaterra. A Lei previa a privatização de terras que antes eram de uso comum dos camponeses, forçando a população que antes se sustentava por meio dessas terras procurarem novas oportunidades de trabalho nas indústrias que estavam sendo criadas nas cidades inglesas, formando a “nova” classe operária (FERRARO JUNIOR; BURSZTYN, 2010). Com o surgimento de grandes cidades industriais no continente europeu no século XVIII se tornou possível observar a nova dinâmica capitalista da produtividade, na qual o comércio baseado na produção em larga escala surgiu junto à classe capitalista e à classe proletária, e que teve a urbanização como uma das principais consequências. Fatores como o aumento exponencial da população urbana e a rápida taxa de desemprego que surge devido ao excedente de camponeses que migra às cidades por perder sua antiga fonte de subsistência, criou cidades barulhentas, superlotadas e com péssimas condições sanitárias. Apesar das constantes tentativas de reformas sociais ao longo dos anos, a velocidade da agravação dessas condições fez com que qualquer tentativa de melhoria se tornasse insufi ciente, já que logo que executada, não atendia mais o número populacional (NOBRE; RAMOS, 2011). “Surge então a necessidade de uma ação pública, ordenando e propondo soluções que até o momento eram implementadas apenas [...] com objetivos individuais, de curto prazo e em escala reduzida” (ABIKO; ALMEIDA; BARREIROS, 1995, p. 40). Neste período são criadas diversas propostas para o desenvolvimento urbano com intenção de criar condições adequadas para o controle de epidemias recorrentes no século XIX, como a da cólera5. Um exemplo dessas propostas foi a criação da primeira 4 Período que compreendeu de 8000 a.C. até 5000 a.C., também chamado de Idade da Pedra Polida é o período onde podemos observar a domesticação animal e a produção de agricultura. A estabilidade obtida por essas novas técnicas de domínio da natureza e dos animais também possibilitou a formação de grandes aglomerados populacionais (ABIKO; ALMEIDA; BARREIROS, 1995). 5 Durante a epidemia da cólera, que ocorreu na Inglaterra durante 1831, a taxa bruta de mortalidade nas áreas pobres, onde vivia a classe operária, excedeu a nacional (23 por 1000 habitantes) durante o período de 7 anos (FEE; BROWN, 2005). ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 BANCO MUNDIAL • 82 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • lei sanitária, a Public Health Act6 de 1848 (FEE; BROWN, 2005). 1.1 SÉCULO XX Durante o século XIX até o início do século XX, aconteceram as Exposições Universais em alguns dos maiores centros econômicos do período, tais como Londres, Chicago e Rio de Janeiro (PEREIRA, 2010). Estas exposições exibiram seus ambiciosos projetos de avanços tecnológicos proporcionados pela industrialização e visavam proporcionar um “retrato do mundo moderno” em todos os campos de conhecimento, e este incluía cidades que representavam o homem cosmopolita transnacional. Esta cidade ideal continha avenidas pavimentadas, estruturas públicas, postes de iluminação e jardins adequados para o mundo moderno (BARBUY, 1996, p. 211). A partir das novas propostas de planejamento urbano divulgadas nas Exposições Universais, ocorreu a transição de um foco sanitário para um foco estético, no qual “os antigos cenários urbanos se dissolviam, abrindo caminho para a percepção do ambiente edifi cado como um artefato cultural” (RUFINONI, 2012, p. 08). Essa mudança pode ser observada no caso francês, quando o barão Haussman7 criou, em Paris, uma nova rede de avenidas, com edifi cações de caráter monumental, sendo o Arco do Triunfo e a Avenida Champs-Elysées os principais exemplos (ABIKO; ALMEIDA; BARREIROS, 1995). A segunda metade do século XX é marcada por uma nova transição, quando há mais um êxodo rural populacional, em busca de melhores condições de vida e mais oportunidades. Esse movimento migratório teve como uma das principais causas a industrialização agrícola, que substituiu a agricultura familiar, de subsistência, por um modelo industrializado e mecanizado de agricultura, com menor variedade produtiva e reduzida quantidade de trabalho por unidade produzida (AGRICULTURE..., 2021). Ao fi nal da SegundaGuerra Mundial, é criado o Banco Mundial e desenvolvido o Plano Marshall (1948-1952), com a missão inicial de fi nanciar a reconstrução dos países devastados no continente europeu pela guerra, que dispara uma expansão acelerada das cidades. No caso europeu, como apontado por Simon (2010), durante a execução do Plano Marshall, cerca de 18 bilhões de dólares foram entregues aos países aderentes ao Plano por meio de doações e empréstimos para o fi nanciamento da reconstrução desses países. Nos anos seguintes, os países envolvidos no confl ito foram marcados pela reconstrução da malha urbana, pelo baby boom8 e por uma notável expansão econômica dos países ocidentais que durou desde o fi nal da Segunda Guerra até a recessão da década de 1970, causada generalizadamente pela crise do petróleo9 e pelo fi m do padrão-ouro10 (MARGLIN; SCHOR, 1992). Esses fatores geraram uma urbanização descontrolada, na qual as cidades acabaram sendo urbanizadas sem planejamento, favorecendo o desenvolvimento de problemas socioeconômicos que permanecem até os dias de hoje, tanto nas áreas de periferia quanto nos centros das cidades, como a favelização,11 a hipertrofi a do setor terciário,12 a falta de infraestrutura, a poluição das águas, do ar e dos solos e a falta de uma rede de transportes que atenda a população (GOITIA, 1977). Para Goitia (1977, p. 21, tradução nossa), “os organismos ofi ciais, planifi cadores e urbanistas são lentos nas previsões e ainda mais nas realizações.” Nesse sentido, argumenta que o crescimento das cidades foge do controle técnico e tampouco é pausado ou organizado pela via natural (GOITIA, 1977). 6 Legislação sobre as condições sanitárias da Inglaterra, estabeleceu um conselho de Saúde Geral para lidar com o abastecimento de água, sistema de esgoto, qualidade de alimentos, remoção de lixo e outras medidas sanitárias. Um marco na história da saúde pública e o “início de um compromisso de uma saúde pública proativa, em vez de reativa” (FEE; BROWN, 2005, p. 867). 7 Prefeito do antigo departamento do Sena (que incluía os atuais departamentos de Paris, Hauts-de-Seine, Seine-Saint-Denis e Val-de- Marne) entre 1853 e 1870 (ABIKO; ALMEIDA; BARREIROS, 1995). 8 Expressão utilizada para descrever a explosão demográ� ca devido ao aumento global na taxa de natalidade que ocorreu entre 1946 e 1964 (BOTELHO et al., 2018). 9 Crise que se iniciou na década de 1970, devido a descoberta de que o petróleo seria um recurso não renovável e devido a diversos con� itos regionais, marcada por altas variações no preço do produto (MELO, 2008). 10 Sistema monetário em que o valor da moeda nacional é de� nido, legalmente, como uma quantidade � xa de ouro; ou moeda-ouro, como no caso do dólar-ouro (1944-1971) (PADRÃO-OURO..., 2021). 11 A favelização é o processo de surgimento e crescimento do número de favelas em uma dada cidade ou local (PEQUENO, 2008). 12 O setor terciário da economia é a área das atividades humanas pautada no oferecimento de serviços e na prática do comércio. A principal consequência da hipertro� a do setor terciário (termo utilizado para descrever o intenso crescimento do setor terciário) é o crescimento da atividade informal (sem vínculos registrados na carteira de trabalho ou documentação, assim, não sendo garantido benefícios como remuneração � xa e férias pagas) (SILVA, 2005). UFRGSMUNDI • 83 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 2 APRESENTAÇÃO DO PROBLEMA O desenvolvimento das cidades é um fenômeno de grande impacto social, ambiental e econômico. Geração de energia, transporte, gestão de resíduos, acessibilidade e segurança são algumas das questões envolvidas no planejamento do espaço urbano dada a necessidade de conciliar ambientes urbanos funcionais, sustentáveis e que atendam a população residente (WB, 2019b, 2020l). Nesta seção serão investigados alguns dos desafi os que acompanham os diferentes processos de crescimento e formação das cidades, tendo como foco a poluição do ar, a organização do espaço urbano e o acesso a tecnologias de informação e comunicação. 2.1 POLUIÇÃO DO AR O processo de urbanização é um fenômeno caracterizado pela modifi cação do meio ambiente pela ação humana. A formação das cidades é caracterizada pela exploração e pela transformação de recursos naturais para o benefício dos seres humanos (ROLNIK, 1995). Uma característica das atividades urbanas é a emissão de partículas poluentes no ar, principalmente por meio de atividade industriais e de transporte (AKIMOTO, 2003; MAYER, 1999; NEIRA, 2018). Esse fenômeno foi intensifi cado a partir da Revolução Industrial, que marcou o crescimento do uso de combustíveis, da eletricidade e da mineração, alguns dos principais responsáveis pela poluição atmosférica (FALCON-RODRIGUEZ et al., 2016). A poluição atmosférica é caracterizada por uma mistura de componentes tóxicos encontrados no ar, denominada material particulado (MP).13 Esses componentes podem ser gasosos, sólidos, orgânicos e biológicos. Entre os compostos do material particulado é possível destacar ozônio (O3), 14 dióxido de nitrogênio (NO2) 15 e dióxido de enxofre (SO2) 16 (COHEN et al., 2004; FALCON-RODRIGUEZ et al., 2016). Essas partículas poluentes podem ser emitidas por fontes naturais — erupções vulcânicas, poeira e alguns tipos de incêndios — ou pela ação do homem, tais como as mencionadas atividades industriais, geração de energia, veículos motores e sistemas de aquecimento de ambientes internos (FALCON-RODRIGUEZ et al., 2016; WORLD HEALTH ORGANIZATION, 2021b). Em 2018, mais de 90% da população mundial estava exposta a ar com alto nível de poluição (INSTITUTE FOR HEALTH METRICS AND EVALUATION, 2020). De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), a poluição do ar interno e externo é responsável pela morte de mais de quatro milhões de pessoas todos os anos (WHO, 2021a). A maior parte desses óbitos ocorre em países em desenvolvimento, nos quais a industrialização e o crescimento das cidades têm acontecido de forma acelerada, o que, muitas vezes, difi culta o planejamento urbano necessário (HENDERSON, 2002). Essas fatalidades decorrem dos efeitos da inalação das partículas poluentes no organismo humano. Entre as consequências, destacam-se as doenças pulmonares e cardíacas, nascimentos prematuros e outras doenças crônicas que atingem principalmente crianças, idosos e mulheres (CHRISCADEN; OSSEIRAN, 2016; IHME, 2018; MANNUCCI et al., 2015; PIRLEA; HUANG, 2019). Além das consequências para o organismo humano, a poluição atmosférica também afeta o clima, a geração de energia renovável, a produção de alimentos e o meio ambiente (AKIMOTO, 2003; MORAKINYO et al., 2016; SEDDON; CONTRERAS; ELLIOT, 2019; WHO, 2021b). As partículas poluentes possuem diferentes tamanhos e formas. Essas características podem afetar inclusive a intensidade da radiação solar na Terra, o que tem impactos diretos no ciclo de chuvas, na produção de alimentos e na geração de energia solar. Além disso, alguns dos poluentes que compõem o material particulado também são responsáveis pelas mudanças climáticas, tais como o ozônio, o metano e o carbono (SEDDON; CONTRERAS; ELLIOT, 2019). A poluição atmosférica não fi ca circunscrita ao ambiente próximo à fonte emissora, podendo viajar longas distâncias em poucos dias a depender da composição química das partículas e das 13 O material particulado não é visível a olho nu. Seu tamanho pode variar entre 10 micrômetros (MP10 - grossa) a 2,5 micrômetros (MP 2.5 - � na) e menores que 1 micrômetro (MP1.0 - ultra � na). Quanto menor a partícula, maior é a capacidade dessa entrar no organismo humano e causar danos à saúde (UNITED STATES ENVIRONMENTAL PROTECTION AGENCY, 2020; YIN; HARRISON, 2008). 14 Ozônio é um poluente secundário produzido pela oxidação de monóxido de carbono (CO), metano e outros compostos voláteis (WHO, 2021b). 15 O dióxido de nitrogênio é um composto químico emitido por fontes de geração de energia, indústrias e transporte(WHO, 2021b). 16 O dióxido de enxofre é um composto químico emitido na queima de combustíveis fósseis, como o carvão e o petróleo. Também é o principal componente das chuvas ácidas (WHO, 2021b). ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 BANCO MUNDIAL • 84 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • condições ambientais (AKIMOTO, 2003; WHO, 2021b). Isso permite com que as partículas poluentes produzidas em países com um elevado número de indústrias seja transportada para países e/ou lugares que com menos fontes poluentes. Essa característica faz com que a população de todo o globo fi que vulnerável a variáveis níveis de poluição atmosférica (AKIMOTO, 2003). É importante destacar que nos países industrializados, o processo de urbanização foi mais lento do que está sendo nos países em desenvolvimento hoje em dia. Isso possibilita a esses países o planejamento urbano em diferentes áreas e maiores condições e mecanismos para mitigar as consequências da poluição do ar. O processo acelerado de urbanização nos países em desenvolvimento faz com que o planejamento precise ser feito de forma mais rápida e efi ciente (HENDERSON, 2002). Além do desafi o do planejamento urbano, os países em desenvolvimento lidam com as maiores concentrações de MP2.5 e, consequentemente, com seus efeitos (WB, 2021i). Figura 1 - Poluição Atmosférica Mundial Fonte: WORLD AIR QUALITY INDEX, 2021. Tendo em vista as características da poluição do ar para a saúde humana e para o meio ambiente em diferentes regiões do globo, busca-se formas de mitigar as consequências desse fenômeno e formas alternativas às fontes emissoras desses poluentes (AKIMOTO, 2003; COHEN et al., 2004). As principais medidas que podem ser tomadas nos espaços urbanos dizem respeito ao incentivo da utilização de meios de transporte coletivo e a construção de ciclovias, substituição de fontes de geração de energias tradicionais por fontes de energia sustentáveis, habitação com efi ciência energética, uso de tecnologias limpas nas indústrias, melhor gestão de resíduos e incentivo às cidades verdes, sendo importante adaptar cada medida à realidade local das cidades (NEIRA, 2018; WHO, 2018). 2.2 ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO URBANO As cidades surgiram como uma nova forma de organizar os seres humanos e suas formas de produção e vivência. Levando tal tema para contemporaneidade, têm-se um espaço urbano nos moldes capitalistas de produção, criando-se assim uma forma geral de tal modelo organizacional, geralmente conforme padrões norte-americanos e europeus. Sendo assim, o espaço urbano se tornou uma das principais exemplifi cações do sistema atual, seja no contexto social, político ou econômico (NILSSON, 2015). O espaço urbano se tornou presente na vida da maioria da população global atualmente, já que em grande parte ele se faz necessário para a sobrevivência das comunidades. Dessa forma, esse espaço se desenvolveu adquirindo certas formas e organizações semelhantes pelo mundo todo, as quais serão apresentadas nesse segmento, junto com uma apresentação geral das problemáticas que as acompanham (WB, 2020p). Primeiramente, ao caracterizar a organização do espaço urbano, tem-se que ter em conta o seu núcleo e a periferia, sendo essas as características mais importantes na organização do espaço urbano. O núcleo/centro é caracterizado por abranger a parte principal da economia e da política do espaço, sendo assim um lugar onde as decisões são tomadas e defi nidor das relações da cidade e/ou estados como um todo. O centro é defi nido como sendo comumente um espaço de construções verticais, no qual o objetivo é unir o setor terciário, escritórios, espaços administrativos e órgãos governamentais, longe de construções UFRGSMUNDI • 85 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • horizontais, como casas ou pequenas indústrias. Em seguida, há a zona periférica do centro, que funciona como uma extensão do centro, ou seja, é onde funcionam atividades ligadas ao centro, como comércios, armazéns e zonas residenciais. Indo além desse centro, encontra-se a periferia, área que concentra em sua grande maioria habitações, assim como pequenos comércios (CORRÊA, 1989). Saindo então desse círculo central e indo em direção à periferia, tem-se que pontuar as áreas de habitação no espaço urbano, e nesse tópico a segregação social é destacada, expondo algumas problemáticas da organização espacial. Primeiramente tem-se os bairros, os quais se apresentam de forma organizada, onde a propriedade privada é bastante comum e organiza esses locais (CARLOS, 2007; CORRÊA, 1989). Continuando a análise desse espaço, chega-se de fato nas periferias, as quais vem desde 1980 tendo um aumento do seu uso pela população, já que com a intensifi cação de políticas neoliberais17 e o impulsionamento do mercado no espaço urbano, criou-se uma crise na organização urbana e na distribuição de renda e moradia, criando zonas de habitações irregulares. Com isso se intensifi cou o surgimento de favelas e zonas de habitação, com uma infraestrutura frágil, como esgotos a céu aberto, difícil acesso de transportes públicos ou organização precária de loteamentos e vias de acesso (GONÇALVES; ROTHFUSS; MORATO, 2012). Sendo assim, políticas que priorizem a geração de lucro e acumulação de capital, acabam por relegar as necessidades de uma moradia ou um espaço coletivo e estruturado para vivência dos indivíduos. Por isso, conclui-se que é impossível entender a organização do espaço urbano sem entender o sistema econômico no qual vive-se e suas políticas (CARLOS, 2015). Portanto, é importante defi nir quais são as forças que atuam e moldam o espaço urbano. Sendo assim, o espaço urbano se transforma em um meio ao desenvolvimento do capitalismo, como disse Ana Fani Alessandri Carlos (2015), cria-se uma ordem que torna a dominação do espaço urbano por aqueles que têm em mãos os recursos e meios para tal — dinheiro, propriedades, empresas, etc. — como algo naturalizado. Seguindo essa lógica, é observado que o espaço urbano se torna uma ferramenta para a acumulação (ou multiplicação) do capital, principalmente sua parte central. Dessa forma, acaba sendo criada uma hierarquia no espaço urbano que está diretamente ligada às classes sociais, o que acaba por explicar a segregação social exposta acima. Atenta-se, porém, ao fato de que nas últimas décadas foram desenvolvidas áreas de moradia para a classe média em longas distâncias além do centro, como o subúrbio, mas que não diminuem a concentração da periferia. Sendo assim, o espaço é dominado por aqueles que têm o capital, os quais o utilizam para dominar o espaço urbano. Consequentemente, isso deixa as camadas sociais mais vulneráveis nas periferias, o que acaba por gerar a organização que é vista deste último (CARLOS, 2015; GONÇALVES; ROTHFUSS; MORATO, 2012). Isto posto, é possível observar que o espaço urbano atualmente apresenta diversas problemáticas, a principal delas evidenciando a desigualdade social existente nos grandes centros. O Relatório Social Mundial de 2020 da ONU evidencia essa disparidade social existente no mundo e destaca como a urbanização ainda concentra em si altos níveis de desigualdade, infl uenciando na marginalização e exclusão de classes vulneráveis (UNITED NATIONS DEPARTMENT OF ECONOMIC AND SOCIAL AFFAIRS, 2018). É um espaço caracterizado pelas diferenças de habitação e infraestruturas, onde o desenvolvimento desenfreado ajuda a acentuá-las, são problemas que afetam serviços públicos essenciais, como transporte, segurança, educação, etc. (CARLOS, 2015; GONCALVES; ROTHFUSS; MORATO, 2012). O Banco Mundial tem diversos projetos que buscam remediar essas divergências sociais, tendo como um dos seus principais objetivos o de exterminar a pobreza e promover a prosperidade compartilhada, tendo como foco aumentar a inclusão dos 40% mais pobres do mundo. Com isso, fi ca claro que estas políticas do BM afetam o desenvolvimento do espaço urbano, como evidenciado pelos diversosprojetos promovidos por ele em diversas regiões do mundo, como os de construções habitacionais na Ásia, na África e em outras regiões18 (WB, 2021j). Por fi m, nota-se que existem diversos fatores que infl uenciam na organização do espaço urbano, as quais podem evidenciar as problemáticas em seu cerne, e para entendê-las e remediá-las é preciso levar em conta diversos fatores históricos, econômicos e/ou políticos (CARLOS, 2007). 17 Segundo a autora Cristina Pecequilo (2010), o neoliberalismo surge em meados da década de 1960, no contexto pós-Segunda Guerra Mundial, e tem como base a intervenção mínima do Estado no setor econômico. Desse modo, ele retoma antigas ideias liberais que defendem um mercado auto-regulador. Sendo assim, tais políticas visam o crescimento do mercado e o seu fortalecimento em relação ao Estado, tendo autonomia. 18 Só no Brasil o Banco Mundial atuou e ainda atua em diversos projetos, como o de criação de habitações na região metropolitana da cidade do Rio de Janeiro em 2005, o programa de transportes com foco na integração intermunicipal do Rio Grande do Sul em 2008, o de melhorar as condições de vida urbana para classes mais pobres no Amazonas em 2020 e diversos outros (WB, 2021j). ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 BANCO MUNDIAL • 86 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 2.3 ACESSO À ENERGIA E À TECNOLOGIA O crescimento contínuo da população urbana traz consigo demandas cada vez maiores do setor energético que abastece as cidades. Atualmente, o uso energético dos ambientes urbanos já soma mais de 75% da energia consumida no mundo, com expectativas de que esse número aumente cada vez mais, tendo em vista que toda a expansão populacional dos próximos anos deverá ser basicamente urbana (GRUBLER et al., 2012). Além do aumento do consumo energético, a alta densidade populacional das cidades também infl uencia negativamente para a maior marginalização das populações periféricas, que não conseguem usufruir das oportunidades e dos serviços que as cidades oferecem. Considerando esses dois pontos, serão debatidas as razões e os impactos dessa realidade, além de possíveis medidas para atenuar esses problemas (BOWORA; CHAZOVACHII, 2010). A energia utilizada em uma cidade não se limita apenas a energia elétrica, abrangendo também os combustíveis utilizados para a geração de energia, como subprodutos do petróleo, carvão ou madeira. Dentre as áreas que a energia é utilizada, destacam-se: o ambiente doméstico, principalmente em questões como aquecimento, preparo de alimentos e iluminação; a indústria, com a energia empregada na produção e transformação de matéria-prima em bens; e os meios de transporte motorizados, públicos ou privados. Em cada um desses ambientes o tipo de energia disponível é de extrema importância para determinar os impactos na qualidade de vida urbana. Nos lares, a falta de energia elétrica determina que sejam utilizadas alternativas menos seguras para a iluminação, como por exemplo velas ou lampiões. Na indústria, a qualidade da rede de distribuição infl uencia no desperdício energético. Nos transportes, a distância entre as regiões periféricas e os centros urbanos, zona de concentração de empregos, aliada à queima de combustíveis, é responsável por uma parcela signifi cativa da poluição atmosférica nas cidades (GRUBLER et al., 2012). Desse modo, evidencia-se que a energia, sua produção e o seu uso, é um fator que modifi ca a vida urbana e, portanto, se constitui como uma preocupação no planejamento urbano. Das formas de conseguir maior volume de energia útil para as cidades, a busca por uma produção própria se mostra incapaz de suprir o consumo, sendo necessário que essa energia seja importada de outras regiões. Assim sendo, as soluções devem partir do aumento da efi ciência da estrutura energética, promovendo ações como o reaproveitamento da energia através do calor gerado pelas máquinas nas indústrias ou um planejamento urbano que facilite o deslocamento das pessoas para as várias áreas da cidade (GRUBLER et al., 2012). Além das mudanças físicas nas cidades, o uso e o desenvolvimento de Tecnologias da Informação e Comunicação (TICs) podem contribuir para uma melhor utilização da energia disponível nas cidades, principalmente na questão dos transportes. Ademais, as TICs também servem para proporcionar melhores condições e oportunidades para os cidadãos de baixa renda, muitas vezes vivendo em regiões mais afastadas do núcleo urbano (BOWORA; CHAZOVACHII, 2010). Dentre as funcionalidades que as TICs podem assumir, as mais interessantes para o desenvolvimento urbano são as ligadas à criação de oportunidades para os indivíduos social e geografi camente excluídos, moradores da periferia e de baixa renda. Para estes, elas podem servir de instrumento de acesso a mercados, a serviços de saúde, a microcrédito,19 a serviços governamentais, oportunidades de emprego, à educação e possibilitam a propaganda de suas atividades no setor informal. Dessa maneira, as TICs se apresentam como uma interessante alternativa para uma maior coesão social nas cidades, desde que se consiga torná-las acessíveis e compreensíveis para as populações mais pobres (BOWORA; CHAZOVACHII, 2010). 3 AÇÕES INTERNACIONAIS PRÉVIAS O Banco Mundial tem um histórico extenso, desde sua criação na metade do século XX como uma agência autônoma do sistema da Organização das Nações Unidas, de fi nanciamento de projetos voltados ao desenvolvimento. Nesta seção será exposta uma amostra dos projetos prévios da instituição relacionados a tecnologia e infraestrutura urbana, com objetivo de auxiliar no entendimento do papel que ela exerce. 19 De� ne-se como: “Microcrédito é a concessão de empréstimos de baixo valor a pequenos empreendedores informais e microempresas sem acesso ao sistema � nanceiro tradicional, principalmente por não terem como oferecer garantias reais. É um crédito destinado à produção (capital de giro e investimento) e é concedido com o uso de metodologia especí� ca.” (BARONE et al., 2002, p. 11). UFRGSMUNDI • 87 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 3.1 OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DA ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS (ODS-ONU) Os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ODS-ONU) são 17 objetivos20 a serem alcançados a nível global até o ano de 2030. Conhecida como Agenda 2030, esses objetivos foram formulados comumente pelos membros da Assembleia Geral das Nações Unidas (AGNU) e pela comunidade civil global. Cada tópico se subdivide em outros objetivos subjacentes, totalizando 169 metas (ESTRATÉGIA ODS, 2021). Em particular, ao analisar a Agenda 2030 defi nida pela ONU, percebe-se que a temática do desenvolvimento urbano permeia diversos Objetivos. Isso ocorre não apenas de forma direta, como o objetivo das “cidades e comunidades sustentáveis”, mas também de forma indireta, como “redução de desigualdades e ação para mudança global do clima”, tendo em vista que os espaços urbanos concentram a maioria da população mundial e da produção industrial responsável pelos impactos ambientais negativos (RODRIGUES, 2019). O Banco Mundial opera de forma orientada com os ODS-ONU. Como destaca Bruno Rodrigues (2019), os bancos de desenvolvimento, como o BM, possuem capacidade de articulação junto aos setores público e privado, além de capacidade técnica e neutralidade, o que confere a essas instituições um papel-chave na articulação de projetos que efetuem os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável. Ou seja, a ação do Banco Mundial aumenta a viabilidade de concretização desses ODS. Em maio de 2019, o Banco Mundial lançou uma ação para captação de recursos para um fundo mundial direcionado para a concretização dos ODS, arrecadando 1,5 bilhão de euros (INTERNATIONAL INSTITUTE FOR SUSTAINABLE DEVELOPMENT, 2019). 3.2 CLEAN AIR INITIATIVE Dentre as ações do Banco Mundial orientadas com os ODS e o desenvolvimento sustentável urbano está a Clean AirInitiative (CAI, na sigla em inglês), um projeto focado na melhora da qualidade do ar nos grandes centros urbanos mundiais. A CAI possui cidades-membros na Ásia, na América Latina e na África Subsaariana, onde os “braços” da organização recebem fi nanciamento organizado pelo Banco Mundial advindo de diversos acionistas, para dessa forma concretizar ações, estudos e parcerias internacionais a fi m de melhorar a qualidade do ar (CLEAN AIR INITIATIVE, 2021). A Clean Air surgiu para lidar com a externalidade da crescente urbanização que essas regiões do globo têm experienciado nas últimas décadas (CAI, 2021). O Banco Mundial reconhece a poluição do ar como uma problemática de caráter social, ambiental e de saúde pública. Os principais objetivos da CAI são: aumentar a conscientização sobre os perigos da poluição do ar urbano e sua relação com os veículos e combustíveis; medir emissões de veículos de linha de base, qualidade do ar, exposição à poluição e efeitos da poluição; identifi car as medidas mais econômicas visando mudanças em veículos, combustíveis e gerenciamento de tráfego; projetar, implementar e monitorar os impactos dos Planos de Ação da Qualidade do Ar para reduzir a poluição, incluindo metas claras, mensuráveis e exequíveis para a redução de poluentes; e fortalecer os conhecimentos locais sobre poluição do ar e desempenho de veículos e combustíveis. A Clean Air Initiative foi moldada a partir da estratégia de desenvolvimento urbano do Banco Mundial e trabalha tanto com governos nacionais quanto locais para atingir seus objetivos. Isso faz com que a iniciativa represente uma forte possibilidade de fi nanciamento para projetos (CAI, 2021). 3.3 PROGRAMA II DE DESENVOLVIMENTO MUNICIPAL DE MAPUTO Dentre os projetos fi nanciados pelo Banco Mundial na área de desenvolvimento urbano, há o caso de Maputo, capital de Moçambique, que aprovou um suporte fi nanceiro de 105 milhões de dólares para a realização de um projeto amplo de desenvolvimento municipal. O programa de apoio fi nanceiro durou de 20 De acordo com a Organização das Nações Unidas, esses objetivos são: i) Erradicação da pobreza; ii) Fome zero e agricultura sustentável ii) Saúde e bem-estar; iv) Educação de qualidade,; v) Igualdade de gênero; vi) Água limpa e saneamento; vii) Energia limpa e acessível; viii) Trabalho decente e crescimento econômico; ix) Inovação infraestrutura; x) Redução das desigualdades; xi) Cidades e comunidades sustentáveis; xii) Consumo e produção responsáveis; xiii) Ação contra a mudança global do clima; xiv) Vida na água; xv) Vida terrestre; xvi) Paz, justiça e instituições e� cazes; e xvii) Parcerias e meios de implementação (Estratégia ODS, 2021). ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 BANCO MUNDIAL • 88 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 2011 até 2017 e foi direcionado para a ampliação da cobertura e da qualidade dos serviços municipais de Maputo proporcionados aos cidadãos. O plano de ação do programa focava na fortifi cação institucional e orçamentária, para melhorar o sistema administrativo da cidade, desenvolvimento da infraestrutura urbana com ênfase no sistema de transporte de Maputo e para prevenção de enchentes (WB, 2017b). O projeto foi dividido inicialmente em cinco pontos principais: (i) Desenvolvimento institucional a fi m de ampliar a cobertura de serviços municipais; (ii) Garantir a sustentabilidade fi nanceira do governo de Maputo, buscando aumentar as receitas do município e diminuir seus gastos; (iii) Desenvolvimento de planejamento urbano a fi m de garantir administração justa e sustentável da terra; (iv) Manutenção e investimento na infraestrutura urbana com ênfase no transporte público essencial; e (v) melhoramento dos serviços municipais no tocante ao processamento do esgoto sólido e transporte. Ao fi nal do projeto, a instituição registrou como satisfatório o desempenho do programa e seu risco geral como moderado (WB, 2017b). 3.4 EXPANSÃO DE APLICATIVOS MÓVEIS NA ÁSIA POR MEIO DE REDES SOCIAIS — VIETNà O projeto da expansão de aplicativos móveis no Vietnã é um exemplo de ação do Banco Mundial que busca o aumento do acesso à tecnologia em regiões periféricas do globo. Neste caso, a InfoDev, instituição subordinada ao Banco Mundial que incentiva o empreendedorismo e a inovação no mundo (INFODEV, 2021), realizou uma parceria com o governo do Vietnã e a empresa fi nlandesa Nokia a fi m de ampliar o acesso a aplicativos de celular na Ásia, em particular no Vietnã. O objetivo principal foi incentivar a formação de empreendedores locais na área de aplicativos móveis, através da experiência de ambas empresas na área de tecnologia da informação e comunicação. A parceria com o Banco Mundial e o governo vietnamita durou de 2011 até 2013 (WB, 2016a). O projeto consistia na organização de eventos voltados a tecnologia da informação localmente a fi m de atrair investidores e companhias da área. Ao total, o país obteve um fi nanciamento de 40 mil dólares para custear os eventos. Os relatórios do Banco não deixam claro o sucesso da empreitada (WB, 2016a). 4 BLOCOS DE POSICIONAMENTO A República da África do Sul tem apresentado avanços no setor da urbanização desde o fi nal do século XX. Atualmente, a taxa de urbanização está acima da média africana, beirando os 67% (PLECHER, 2020k). Porém, a partir da última década seu crescimento tem passado por difi culdades que afetam o desenvolvimento socioeconômico, como a alta taxa de desigualdade socioeconômica (WB, 2021k). A África do Sul busca dentro do BM, por meio de projetos e fi nanciamentos, garantir seu desenvolvimento em diversas áreas, com foco em infraestrutura, agricultura, energia e outros. Portanto, o país tem contado com a ajuda do Banco para superar tais problemas e garantir uma estabilização de sua política interna (WB, 2021k). Apesar de ter uma taxa de votos no Banco Mundial baixa de modo geral, ainda é elevada em relação às representações africanas, sendo de 0,76% no Banco Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento (IBRD, na sigla em inglês) (WB, 2021d). A República Federal da Alemanha, além de ser a quarta maior contribuinte ao Banco Mundial, tem como prioridade o desenvolvimento de políticas globais multilaterais e de práticas de desenvolvimento sustentável (WB, 2021b). Desse modo, o Estado demonstra se importar com o desenvolvimento urbano, vide a taxa de 77,38% de urbanização, além de fomentar políticas de desenvolvimento urbano internacional, como em países africanos, como na Namíbia e no Congo. Sendo assim, o país busca fomentar debates que busquem organizar o espaço urbano de forma mais sustentável, fazendo assim uso da sua porcentagem de 4,26% dos votos no IBRD (PLECHER, 2020d; WB, 2021d). O Reino da Arábia Saudita é um parceiro importante do Banco Mundial, tendo infl uência também na Associação Internacional do Desenvolvimento (IDA, na sigla em inglês). O país é bastante urbanizado e a energia utilizada no país é, majoritariamente, advinda da queima de combustíveis fósseis. A intensidade energética21 do país é extremamente elevada, o que o torna um grande emissor de gases poluentes, situação que pede medidas como novas fontes energéticas ou ações que freiem a urbanização 21 A intensidade energética de uma economia consiste na razão entre o consumo interno de energia e o seu Produto Interno Bruto (PIB). Historicamente, o crescimento económico implica um aumento do consumo de energia, elevando as pressões sobre o ambiente (PORTUGAL, 2019). UFRGSMUNDI • 89 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • (BELLOUMI; ALSHEHRY, 2016). O BM oferece assistência ao projeto saudita Saudi Vision 2030, sendo o foco deste projeto diminuir a dependência do país ao petróleo, aumentar os investimentos em energia limpa e a transformação das cidades em ambientes mais inclusivos e planejados (WB, 2019a). A República Argentina possui uma das maiores economias da América Latina, porém a inconstância dessa, alternando entre fases de crescimentoe de recessão, afeta negativamente a população urbana do país. A pobreza urbana alcança cerca de 40,9% dos cidadãos, enquanto 10,5% vivem em pobreza extrema. Quando analisadas apenas a situação das crianças, os índices apontam mais de 56% delas vivendo em condição de pobreza (WB, 2020a). O enfoque dado para os projetos desenvolvidos com o Banco Mundial é o de melhorar as condições sociais nas cidades, proporcionando moradias, acesso a serviços básicos e melhorias na infraestrutura urbana (WB, 2021g). A Comunidade da Austrália é um dos países mais urbanizados do mundo, com mais de 90% da sua população concentrada em cidades (WYETH, 2017). O país apresenta uma alta tendência de crescimento, que é acompanhada por desafi os relacionados ao acesso a moradia acessível, empregos e serviços (CRESSWELL; MURPHY, 2016; FROST; O’HANLON, 2009; MCGUIRK; ARGENT, 2011). A Austrália tem 1,36% do poder de votos no Banco e participa de projetos que envolvam soluções sustentáveis, tendo em vista a importância que o país dá a mecanismos que aliem o desenvolvimento à conservação da biodiversidade (CRESSWELL; MURPHY, 2016; WB, 2021d). A República Federativa do Brasil possui 87% da sua população vivendo em cidades, sendo essa a maior taxa de urbanização encontrada em países de dimensões continentais (WB, 2018c). Os projetos brasileiros em conjunto com o Banco Mundial buscam mitigar a pobreza urbana, a desigualdade e os danos causados por eventos climáticos. Para isso, há o fomento de cidades mais inclusivas, resilientes e sustentáveis. Assim, foram estabelecidas tanto parcerias diretas do BM com governos municipais brasileiros quanto ações mais gerais, como a linha de crédito do BM junto ao Banco Regional de Desenvolvimento do Extremo Sul (BRDE), para cidades que busquem um maior preparo contra as adversidades climáticas (WB, 2020b). O Reino da Bélgica é o país mais urbanizado da Europa, com 98% de sua população residindo em ambientes urbanos em 2019 (PLECHER, 2020a). O processo de urbanização foi marcado pela rápida transição rural-urbana acompanhada por desafi os que permanecem até hoje, tais como a construção de residências econômica e fi sicamente acessíveis, infraestrutura, e do desenvolvimento econômico (HAMDI et al., 2009; URBACT, 2021a). No processo de decisão acerca dos projetos desenvolvidos no Banco, o país apresenta 1,52% do poder do voto no Banco (WB, 2021d). Apesar de ser a segunda maior economia do mundo, a República Popular da China precisa do apoio do Banco Mundial para superar problemas estruturais e econômicos, como a organização do espaço urbano e sua aliança com a área rural, a qual demonstra a desigualdade ainda vigente no país (WB, 2021a). Desde a abertura econômica o país tem mostrado avanços, porém ainda enfrenta certos desafi os, como a taxa de urbanização relativamente baixa ao ser comparada com outras grandes potências (WB, 2021a; PLECHER, 2020b). Atualmente a China usufrui de um papel importante dentro do IBRD, com uma porcentagem de 5,07% dos votos do Banco. Sendo assim, o país usa de sua posição para novos avanços, e por meio de fi nanciamentos foca em projetos que busquem seu desenvolvimento econômico, como a diminuição da disparidade social por meio da criação de empregos (WB, 2021d). A República da Colômbia é um país com alto nível de urbanização (WB, 2018c). Questões como a pobreza, diminuída pela metade nos últimos 10 anos devido a uma gestão macroeconômica e fi scal efi cientes, (WB, 2020c) estão sendo resolvidas de maneira bastante satisfatória no país. Mesmo assim, ainda é necessário aprimorar a acessibilidade às cidades para grupos marginalizados, problemática que agrava a exclusão social, relega esses grupos à pobreza e à omissão das oportunidades presentes no centro urbano (HERNANDEZ; DÁVILA, 2016). O BM faz parceria com a Colômbia, através do programa Colombia Country Partnership Framework (CPF-FY16-21), incentivando o desenvolvimento territorial equilibrado e a inclusão social (WB, 2020c). Os Estados Unidos da América são o maior acionista do Banco Mundial, com 16,79% dos votos, sendo a sua colaboração de extrema importância para a elaboração dos projetos da entidade (WB, 2020q). O país atua como fi nanciador do Banco Mundial e não recebe empréstimos da instituição, concentrando-se em aumentar o alcance global do Banco e em favorecer a infl uência nas diretrizes do desenvolvimento global. Os EUA são responsáveis por diversos fundos de assistência e fi nanciamento, promovendo o desenvolvimento urbano organizado, a expansão da produção energética, a adoção de tecnologias limpas, o combate à pobreza e à corrupção, entre outros (WB, 2020q). No nível doméstico, os EUA vivenciaram ultimamente a eclosão dos protestos Black Lives Matter (MAGENTA; BARRUCHO, ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 BANCO MUNDIAL • 90 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • 2020), que surgiram como resposta à intensa desigualdade social e racial do país. Essa desigualdade refl ete também na esfera habitacional, uma vez que o número de pessoas em situação de rua cresce a níveis alarmantes, impulsionado pelo processo de aumento do custo de vida nos grandes centros urbanos e pela intensa gentrifi cação (AUMENTO..., 2018). A República Francesa tem uma posição privilegiada no debate de desenvolvimento sustentável, uma vez que tem 3,79% dos votos no IBRD e usa isso como forma de chamar atenção a seus interesses, formando coalizões multilaterais, incentivando políticas e tornando o assunto mais comentado (FRANCE DIPLOMACY, 2018; WB, 2020f, 2021d). O país tem uma alta taxa de urbanização, em 2019 chegando em 80,71%. Portanto, isso faz o país compreender o quão importante são as medidas sustentáveis, levando em conta o cenário global atual (PLECHER, 2020c). Atualmente o país enfrenta problemas relacionados com a migração e pessoas procurando asilo, sendo assim, o BM atua dentro do país como um agente de colaboração, procurando soluções e parcerias benéfi cas para a estabilização das crises atuais (WB, 2020f). Além disso, o país tem uma posição importante no Banco, tendo 3,79% dos votos no IBRD, o que ajuda em seus interesses e em formar coalizões multilaterais (WB, 2021d). A República da Índia tem a segunda maior população do mundo e como esperado acompanha problemas proporcionais, apesar de registrar a redução da pobreza desde o início do século (WB, 2020g). No que tange à questão de desenvolvimento urbano, sofre com grandes difi culdades, com uma baixa taxa de urbanização, sendo muito menor que de países com a mesma escala econômica (PLECHER, 2020e; WB, 2020g). No que diz respeito ao papel da Índia dentro do Banco Mundial, ela representa 2,96% dos votos do IBDR, na qual aplica em projetos que buscam o crescimento econômico, como o fi nanciamento de infraestruturas e o aumento da ligação entre as áreas rural e urbana (WB, 2018a, 2021d). A República da Indonésia atualmente é a maior economia do sudeste asiático, porém ainda apresenta problemas estruturais, como a desigualdade social e a instabilidade econômica, vista na falta de emprego, juntamente à baixa taxa de urbanização, de 56%, acaba por fomentar tais problemas (PLECHER, 2020f; WB, 2020h). No âmbito do Banco Mundial, tem desenvolvido parcerias que visam remediar tais problemas e impulsionar o crescimento em diversas áreas, como econômica e de infraestrutura, destacando-se o seu plano de parceria de cinco anos (2021-2025), que tem como objetivo acabar com a pobreza extrema e aumentar a igualdade social (WB, 2021f). Apesar de não ter um peso grande em relação aos votos, — somente 0,96% no IBDR — considera muito importante a participação no Banco Mundial, para construir políticas de desenvolvimento que visem o crescimento econômico e estabilização política (WB, 2021d). A República Italiana é caracterizada pelo conjunto de várias áreas metropolitanas marcadas pela diversidade, seja territorial, demográfi ca ou social (URBACT, 2021b). As cidades italianas concentram cerca de 70%da população nacional e ainda apresentam alguns desafi os relacionados ao acesso à moradia, a problemas de locomoção de meios de transporte e a desigualdade social (ACCETTURO et al., 2019; PLECHER, 2020g). Ademais, a Itália tem 2,55% dos votos no IBDR, sendo relativamente infl uente no processo de decisão de aprovação dos projetos. Nesse sentido, o país defende a promoção de soluções sustentáveis para os desafi os do planejamento urbano retratados neste guia (WB, 2021d). Sendo a segunda maior fonte de capital para o Banco Mundial, o Estado do Japão é um dos países mais urbanizados do mundo, chegando a uma taxa de 91,7%, o que faz dele uma potência tanto na Ásia quanto mundialmente (CENTRAL INTELLIGENCE AGENCY, 2020; PLECHER, 2020h). Atualmente, o país dentro do BM tem como papel e objetivo o de auxílio a países em desenvolvimento, como fi nanciamento de projetos de ajuda humanitária ou de crescimento econômico, como por exemplo dentro da iniciativa de bolsas escolares por meio do Instituto do Banco Mundial (WBI, na sigla em inglês) (WB, 2020i). Sendo assim, o país tem grande infl uência mundialmente no que diz respeito ao desenvolvimento, e também na infraestrutura urbana. Portanto, por meio dos seus altos 7,47% dos votos do IBRD ajuda a impulsionar tais políticas e infl uências internacionais (WB, 2021d). Os Estados Unidos Mexicanos têm a segunda maior área urbana da América Latina, com 80,44%, apesar de ter demonstrado um aumento no desenvolvimento nas últimas décadas, ainda apresenta problemas como a desigualdade social e instabilidade políticas, o que contribui para problemas como a violência na área urbana (ADRIENNE ARSHT LATIN AMERICA CENTER, 2014; PLECHER, 2020i; WB, 2020k). O país tem atualmente a segunda maior porcentagem de votos da América Latina no IBRD, de 1,58%, e dentro do BM busca fomentar projetos de desenvolvimento social e políticos, visando à redução da pobreza, como por exemplo o programa de assistência social do governo do México, “Oportunidades”, o qual tem a assistência do BM (WB, 2020k, 2021d). A República de Moçambique é um país predominantemente rural, sendo sua produção voltada UFRGSMUNDI • 91 ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • para a subsistência (WB, 2021h). Esse tipo de organização torna a economia moçambicana bastante frágil, sendo a urbanização uma saída para a diminuição da pobreza e para o fortalecimento econômico, fato corroborado pelo resultado das reformas políticas e econômicas introduzidas na década de 1990, que promoveram o desenvolvimento urbano. Para conseguir modifi car a estrutura de sua sociedade, é necessário que Moçambique encontre formas de gerar empregos urbanos produtivos e melhore a interconexão entre as regiões urbana e rural. Nesse sentido, o Programa de Gestão e Manutenção de Estradas e Pontes (Ph-2 AF3), parceria do BM com Moçambique, já foi responsável pela reforma e construção de centenas de quilômetros de estradas, além de outras estruturas que dêem maior proteção essas conexões perante as adversidades climáticas, como as enchentes (WB, 2017c, 2018b). A República Federal da Nigéria possui mais de 40% de sua população abaixo da linha da pobreza, além de 25% em situação de vulnerabilidade, com previsão de crescimento desses índices (WB, 2020l). O desenvolvimento urbano se apresenta como uma forma de diminuir a pobreza, podendo ser alcançado por meio de investimentos na infraestrutura física e social, sendo os melhores resultados encontrados com investimentos na última (OGUN, 2010). O BM presta assistência para a Nigéria nesse sentido, desenvolvendo projetos como o Projeto Rede Nacional de Segurança e o Projeto de Desenvolvimento Comunitário e Social e Social, nos quais promove programas assistenciais para a população e o acesso dos cidadãos a escolas, hospitais e outros serviços públicos (WB, 2020l). A República Islâmica do Paquistão teve uma urbanização acelerada e pouco planejada. A partir disso, diversos problemas surgiram nas cidades paquistanesas, principalmente nas regiões mais pobres, como a falta de recursos, saneamento básico e o abastecimento de água (HAIDER, M.; HAIDER, I., 2006). A estratégia de investimentos do BM com o Paquistão para os anos de 2015 a 2020 (CPS-FY2015-20) teve como foco a prosperidade compartilhada e a diminuição da pobreza. Para isso, os investimentos se concentraram na transformação do setor energético, afetado por apagões e problemas na estrutura de transmissão, na inclusão dos mais pobres e socialmente excluídos e na reestruturação das cidades e dos serviços oferecidos à população (WB, 2020m). O Reino Unido da Grã-Bretanha e Irlanda do Norte é um dos membros fundadores do Banco Mundial, e tem como objetivo dentro do Banco a redução da pobreza e a fomentação de projetos que busquem o crescimento econômico (WB, 2019c). Atualmente o Reino Unido representa 3,79% dos votos dentro do IBRD (WB, 2021d). O país busca dentro do Banco promover projetos que aumentem os recursos dentro de países vulneráveis, e promover alianças maiores com tais atores. Sendo assim, o Reino Unido entende que uma organização urbana mais sustentável tem grande importância em ajudar a desenvolver regiões mais vulneráveis do mundo e a reduzir a pobreza (PLECHER, 2020m; WB, 2019c). A República Democrática do Congo (RDC) passou, no último século, por um processo de urbanização acelerada, fruto da independência do país e que permitiu a migração interna, além da vinda de refugiados das zonas de confl ito próximas à RDC. Devido a falta de planejamento e à concentração de pessoas, as cidades sofrem atualmente com problemas ambientais, esgotamento das suas infraestruturas, como a falta de moradias, empregos e saneamento básico, e com o aprofundamento da desigualdade socioeconômica (ERIC; SHOUYU; QIN, 2010). O Banco Mundial fi nancia diversos projetos focados no planejamento urbano, na expansão da matriz energética do país e na melhoria do sistema educacional, sendo exemplos disso os projetos Eastern Recovery Project (STEP), Kinshasa Multisector Development and Resilience Project e o DR Congo Emergency Equity and System Strengthening in Education. Dessa maneira, a RDC e o BM buscam melhorar as condições das cidades, trazendo maior segurança, oportunidades e capacidade de acolhimento aos cidadãos urbanos (WB, 2020d, 2020e, 2020j). Após o genocídio e a guerra civil (1990-1994), a República de Ruanda tem utilizado a urbanização como ferramenta para a reconstrução do país, sendo os principais focos o desenvolvimento econômico e a redução da pobreza. O processo de urbanização em Ruanda tem acontecido de forma rápida, sendo necessário o desenvolvimento de leis, políticas e instituições de gestão urbana sustentável e inclusivas, voltadas para a criação de empregos e renda, acesso à educação, saúde e outros serviços essenciais. Esses aspectos têm sido pontuados em projetos desenvolvidos por meio do Banco em parceria com diferentes países (JAGANYI et al., 2018; WB, 2017d). A Federação Russa dentro do Banco Mundial tem como objetivos para o seu país promover esforços para seu crescimento e prosperidade para sua população, buscando projetos que busquem o crescimento econômico (WB, 2020n). De forma geral tem uma participação considerável dentro do banco, com 2,59% dos votos dentro do IBRD (WB, 2021d). A Rússia apresenta atualmente um alto nível de urbanização, chegando a uma porcentagem de 74,59% em 2019 (PLECHER, 2020j). Além disso, mais de 85% da população vive em áreas urbanas, com isso o país busca junto ao Banco ISSN: 2318-6003 | V.9, 2021 BANCO MUNDIAL • 92 • GUIA DE ESTUDOS - UFRGSMUNDI 2021 • desenvolver projetos que busquem a alta demanda da população, executando planos de habitação e serviços comunitários (WB, 2017a). A República Democrática Socialista do Sri Lanka é um país pouco urbanizado, mas com expectativas de crescimento desse índice. Taxas elevadas de emigração de seus habitantes, desastres climáticos e cidadesnão sustentáveis, com escassez de moradias e água potável, apresentam-se como problemas sérios para a urbanização do país (VAN HOREN; PINNAWALA, 2006). Como forma de atenuar essas questões, o BM promove 19 projetos no Sri Lanka, somando mais de 2,3 bilhões de dólares investidos no país, dos quais 65% estão voltados para o desenvolvimento sustentável e em melhorias estruturais do ambiente urbano, como a resiliência das cidades, o acesso a água e transportes, e 32% para o desenvolvimento humano, compreendido por setores como educação, saúde e proteção social (WB, 2020o). A República de Uganda apresenta taxas de urbanização crescentes, infl uenciadas pelo êxodo rural e pelo crescimento natural da população urbana, apesar de ser somente 24% (PLECHER, 2020l; WB, 2012). Essa tendência de crescimento atual pode superlotar a infraestrutura urbana, mostrando- se necessária a atuação dos governantes locais no planejamento de serviços básicos, acessibilidade, infraestrutura e transporte que compreenda a população e demanda crescentes. Dessa forma, o país tem desenvolvido projetos no Banco que apresentam medidas rápidas e viáveis, voltadas para soluções sustentáveis para os problemas da urbanização nacional (GASHISHIRI, 2015; MBABAZI; ATUKUNDA, 2020). 5 QUESTÕES PARA DISCUSSÃO (1) Você acredita que o desenvolvimento urbano seja melhor atingido através de projetos de melhoria da infraestrutura das cidades, como o foco em qualidade das moradias e do transporte público, ou por políticas sociais mais amplas, como o combate à pobreza mediante programas de distribuição direta de renda? (2) Qual você acha que deve ser a prioridade para cada âmbito de governo: locais, estaduais, nacionais e internacionais para lidar com os problemas apresentados? R EFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABIKO, Alex K.; ALMEIDA, Marco A. P. de; BARREIROS, Mário A. F. Urbanismo: história e desenvolvimento. São Paulo: Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, 1995. 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