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UNIVERSIDADE DE UBERABA GABRIELA SOARES JORNADA ACADÊMICA: EM BUSCA DE UM SONHO SÃO GABRIEL DA PALHA-ES 2023 GABRIELA SOARES JORNADA ACADÊMICA: EM BUSCA DE UM SONHO Memorial acadêmico apresentado a universidade de Uberaba como requisito para conclusão da graduação do curso de licenciatura em Pedagogia. Orientadora: Professora Elenice Israel da Silva SÃO GABRIEL DA PALHA-ES 2023 Dedico este trabalho a Deus por ser um amparo em minha vida, ao meu filho Gabryel, aos meus pais e minha amiga Michele, que sempre me incentivaram e motivaram nesta jornada acadêmica. AGRADECIMENTOS Agradeço primeiramente a minha mãe Eva, que é uma grande incentivadora e inspiração. Ao meu filho Gabryel, que apesar da pouca idade, sempre está do meu lado nos momentos mais difíceis. A minha melhor amiga Michele Cristina que é uma irmandade, confidente e companheira para todas as horas. As colegas de trabalho, cito Christiany pela indicação da instituição UNIUBE, a Jamile, Ana Gabriela e Eliscarla que me apoiaram nos momentos de incertezas. Por fim, o mais importante agradeço a Deus por abençoar os meus caminhos e mostrar que possuo a capacidade necessária para concluir os meus propósitos. “Suba o primeiro degrau com fé. Não é necessário que você veja toda a escada. Apenas dê o primeiro passo.” Martin Luther King Jr. INTRODUÇÃO Este presente memorial busca objetivar e traçar meu percurso acadêmico, realçando as minhas ações aprendidas, tanto em atividades anteriores quanto posteriores, perspectivas desenvolvidas no decorrer da formação. Resgatar momentos e memórias vividos na educação básica até a atualidade, apresentar a minha história de vida do passado, do presente e qual a visão do futuro ao completar a graduação de Pedagogia. CONSTRUÇÃO DA MINHA TRAJETÓRIA Chamo-me Gabriela Soares, afrodescendente, nascida em 9 de agosto de 1986, 37 anos, na região metropolitana de Vitória, estado do Espírito Santo, por onde passei a maior parte da minha vida escolar, mãe solo e único do Gabryel Soares Oliveira Silva, 15 anos. Vinda de uma família muito humilde, de poucos recursos, que infelizmente alguns tiveram que trocar a escola por um trabalho, para não passarem fome. Com 5 anos sofri abuso sexual, que marcou a minha vida, entretanto, hoje consigo falar abertamente sem sentir raiva, rancor ou medo de represálias, era inocente, não tinha dimensão do que era, e quais consequências do decorrer da minha trajetória. Resumidamente, acontecia na casa de família onde a minha mãe trabalhava por muitos anos, como empregada doméstica, descobri ser abuso na adolescência, aprendi na escola, e assim percebi que “as brincadeiras” eram de fato abusos. Só tive coragem de contar para a minha mãe, quando a pessoa que me fez isso comigo, faleceu, estava com 30 anos. A minha mãe já não trabalhava com eles, quando saiu de lá eu tinha 7 anos. Entretanto, essa parte da minha vida, ficou no passado, mas deixou-me uma missão, ao falar sobre o tema de uma certa forma pode ajudar outras crianças que vivem ou viveram a mesma situação. Tem uma frase de um filme animado chamado Kung Fu Panda, muita citada, que explicita um pouco a minha trajetória, “o ontem é história, o amanhã é um mistério, mas o hoje é uma dádiva. É por isso que se chama presente.”. Desde a infância, sempre gostei da escola, passava o dia todo na creche, que hoje é conhecido como ensino infantil, pois, a minha mãe que é analfabeta, trabalhava como empregada doméstica, e por não ter uma formação escolar, sempre me dizia que não poderia dar-me coisas de valores, mas, o maior deles seria os estudos. Nasci numa época em que as oportunidades para os negros eram limitadas, atualmente, o cenário está em transformação, entretanto, tive vários momentos marcantes nesse percurso escolar. A primeira delas foi compreender e aprender sobre o preconceito racial e estrutural, mesmo pequena sabia que isso seria uma dificuldade que teria que superar com o tempo, a segunda foi compreender que nunca é tarde para correr atrás dos seus sonhos, que o sistema opressor não poderia limitar os meus propósitos, e terceiro, ser a primeira da minha família a possui uma graduação. Na década de 90, o ensino era tecnicista, ou seja, preocupava-se em formar um futuro trabalhador para o mercado de trabalho, e não um sujeito crítico preocupado em mudar a realidade em que vive, com uma aprendizagem autoritária, ainda com decorebas, onde o aluno é o passivo do seu próprio ensino. Durante o todo o ensino infantil, fui uma boa aluna e segui assim até os ensinos fundamentais I e II, entretanto, possuo mais lembranças do Ensino Médio, as aulas eram bem criativas, tinha um professor de Inglês que ensinava utilizando vários métodos de ensino como músicas, desenhos e filmes, uma professora de História explicitava a matéria sem a decoreba do livro didático, achava incrível. Nessa época já no século XX, o método de ensino deu um salto, as didáticas eram mais lúcidas, o aluno era o centro das atenções, o ensino era voltado com a criticidade dos discentes, veio a tecnologia para diversificar as aulas, os docentes estavam capacitando-se para novas aprendizagens. Sabia que minha área era a de humanas, sendo Língua Portuguesa, Língua Estrangeira, História, Geografia, Filosofia e Sociologia, pois nas matérias de exatas, que era Matemática, Física e Química, era mediana. Os conteúdos de Filosofia e Sociologia, aprendi quando ingressei na faculdade, pois no meu tempo do ensino regular ainda não era ensinado. O sonho de fazer de faculdade voltada para Educação partiu da necessidade de transmitir meus conhecimentos para as crianças, amigos e familiares, e ser um exemplo para o meu filho. TIRANDO O SONHO DA CAIXA Terminei os meus estudos regulares em 2004, e queria muito iniciar a graduação, entretanto, precisava trabalhar para ajudar nas despesas em casa, e com isso o sonho de entrar para faculdade ficou guardado na caixa, nesse meio tempo engravidei, e decidi que iria viver para o meu filho até que um dia eu pudesse ter condições de reabrir a caixa dos sonhos. A entrada para faculdade foi de forma abrupta, fiz o ENEM, só estudei o básico, consegui a pontuação necessária e conseguir uma bolsa de 100% pelo programa NOSSA BOLSA do governo do estado do Espírito Santo, foi um mister de alegria, emoção e medo, quase 15 anos após a conclusão do Ensino Médio, iria realizar o maior projeto da minha vida, confesso que os primeiros dias de aulas foram difíceis, era a mais velha da turma, mas com persistência fui conseguindo assimilar os conteúdos. Do primeiro ao quarto período, foi feito de forma presencial na antiga FASG (Faculdade de São Gabriel da Palha), e gostava das apresentações de trabalhos, seminários, gincanas e afins, que aconteciam na instituição, eram bem trabalhosos e ficava muito ansiosa nas apresentações, mas, tudo acontecia de forma prazerosa. Entretanto, devido aos processos sofridos contra a instituição, com o início pandêmico do (COVID-19), e com a saúde mental debilitada, fiz o trancamento da matrícula que durou quase um ano. Sempre fui uma pessoa determinada, criativa e curiosa, e não deixaria meu sonho parar novamente na caixinha, assim que me senti forte mentalmente, retornei para finalizar o projeto da minha vida, pois segundo Paulo Freire (1996), “A alegria não chega apenas no encontro do achado, mas faz parte do processo da busca. E ensinar eaprender não podem dar-se fora da procura, fora da boniteza e da alegria.” Em julho de 2022, decidi ser a hora de retornar a vida acadêmica, demandaria mais esforço, pois conciliar trabalho e estudos não é fácil, decidi por fazer na modalidade EAD, pois conseguiria ter mais autonomia, foco e organização. Escolhi a instituição UNIUBE por indicação de uma amiga em comum, e durante as minhas pesquisas foi a que mais me agradou, a ponto que juntamente com a graduação de Pedagogia, estou fazendo tecnólogo Gestão em Recursos Humanos. E como foi maravilhoso o recomeço, voltar a estudar, ler, aprender e aprimorar os conhecimentos. Fui bem acolhida, as aulas, palestras, simpósios, tudo bem-organizado e pontual. No primeiro bimestre, reestudei matérias que tinha visto no estabelecimento anterior, entretanto, a mais interessante e empolgante foi a Arte e Educação, pois possuo aptidão para trabalhos manuais com diversos tipos materiais recicláveis, onde a criatividade não tem limites, e isso é muito importante para o desenvolvimento cognitivo das crianças. O terceiro bimestre, o conteúdo interessante foi Metodologia da Educação Infantil, conhecer técnicas de como conduzir uma turma dessa modalidade foi enriquecedor. Do quinto bimestre em diante destaco os estágios obrigatórios no Ensino Infantil e Fundamental que estão sendo muito estimulantes na minha graduação, vivenciar de perto as necessidades e dificuldades enfrentadas da educação, só afirmou a minha crença de que essa é a minha verdadeira vocação e missão, como Paulo Freire (2000) afirma,” Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.” Além das matérias de Psicologia do desenvolvimento e da Educação, sendo bem atraentes, a mente humana é complexa, desde a concepção ao nascimento, maturação e desenvolvimento cognitivo, cada indivíduo possui sua essência, e com os estímulos corretos perfazem a diferença nos seus aprendizados, são conhecimentos enriquecedores para minha formação, não é o simples ato de dar aula, é necessário um estudo aprofundado dos alunos para que sua didática seja coerente com suas faixas etárias. Por ter um filho, minha presença no seu cotidiano escolar sempre foi ativa, faço questão em participar e acompanhar de tudo, desde as reuniões com os educadores, palestras, eventos, vivencio esse espaço escolar e tenho a certeza de que escolhi a graduação correta. VIDA PROFISSIONAL Meu primeiro emprego quando morava na minha cidade natal, Vitória, foi numa rede fast-food conhecida em todo o país, o BOB’S, então com 18 anos, como atendente ao cliente, lá conheci o pai do meu filho e depois de 1 ano e 2 meses, engravidei e tive que sair, devido a problemas pessoais, gosto de trabalhar com pessoas, mesmo sendo uma tarefa muito difícil. Depois que sair do meu primeiro emprego, os trabalhos nas empresas posteriores seguiam o mesmo padrão, o atendimento ao cliente. A meta sempre foi encontrar uma empresa em que eu possa desenvolver a minha criatividade, e claro, buscar uma boa remuneração para dar conforto a minha família. Por morar em um centro metropolitano, o cotidiano é muito puxado, meu filho adoecia constantemente, eu e minha família decidimos mudar de ares e ir para o interior, em São Gabriel da Palha, lugar que sempre visitava nas férias escolares, por ser cidade pequena basicamente é formada por comércios, com foco principalmente na agricultura do cultivo de café. Os primeiros meses na nova cidade foram desafiadores, mas com experiências anteriores, cursos profissionalizantes, foi de grande ajuda. Sou uma pessoa que gosta de desafios, mas, o crescimento profissional nas empresas em que atuei não me agradava, portanto, sempre ia em busca de novas qualificações, mudanças de cargos. Antes da pandemia, trabalhava como estagiária remunerada de uma escola municipal, isso ajudou ainda mais na minha formação, no auge da pandemia fiquei desempregada, porém, conseguia sustentar-me com ajuda do auxílio do governo, na pós (pandemia), atuei como supervisora do IBGE Censo 2022, o que me fez aumentar meu networking, e por fim, na atualidade sou Fiscal de Caixa em uma rede de supermercados Cricaré provisoriamente, pois, o meu objetivo é ser atuante na área da Educação. VISÃO DO FUTURO Tem um filme que me toca bastante, onde mostra que com persistência e determinação podemos alcançar nossas metas e objetivos, o filme “Á procura da felicidade” de 2006, conta a história de Chris Gardner, um pai solteiro que após o abandono de sua esposa, ver-se em várias situações difíceis, mas consegue erguer- se juntamente com filho, essa história tem contextos parecidos com a minha vida. Uma frase marcante do filme dita pelo Chris Gardner (2006) foi, “Nunca deixe ninguém te dizer que não pode fazer algo. Se você tem um sonho tem que correr atrás dele. As pessoas não conseguem vencer e dizem que você também não vai vencer. Se você quer uma coisa corre atrás.” Desde o dia que nasci, fui fardada a seguir os passos dos meus antepassados, onde os afrodescendentes não possuíam capacidade intelectual de exercer cargos majoritariamente de pessoas claras, e cresci até um certo ponto acreditando que não possuía essa capacidade, até ter a ciência que eu posso mudar o meu destino, através dos estudos, o conhecimento liberta e te leva a lugares inimagináveis. A perspectiva para o meu futuro após a conclusão da minha graduação é ser atuante na Educação, continuar aprimorando os meus conhecimentos, pretendo fazer pós-graduação em Psicologia, mestrado e doutorado, e futuramente graduação em Direito. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante do exposto, ao desenvolver este memorial acadêmico, deu-me uma dimensão extraordinária do quanto caminhei, passei, busquei e cheguei ao meu objetivo final, relembrar momentos escolares da minha vida até os dias atuais foi gratificante. As escolhas incorretas, incertas e corretas foi o que construiu o ser humano que sou hoje. Cicatrizes curadas, que serviram de motivação para não desistir da vida pessoal e profissional. Claro que a história apresentada aqui é somente um resumo dos 37 anos percorridos, e que com certeza seguirá o seu curso até a plena realização profissional, pessoal e social. Uma frase citada do livro O Educador: Um perfil de Paulo freire, do autor Sérgio Haddad, 2019, exemplifica toda a minha trajetória educacional, "Na verdade, só os oprimidos podem conceber um futuro completamente diferente de seu presente, na medida em que alcançam a consciência da classe dominada.”, ou seja, nós podemos mudar o nosso futuro, entretanto, temos que trabalhar firme para alcançar os nossos ideais. REFERÊNCIAS Á PROCURA DA FELICIDADE. Direção: Gabriele Muccino. Produção da Overbrooks Entertainment. Estados Unidos: Sony Pictures, 2006. Acessado na plataforma Netlfix. BOLSANELLO, Maria Augusta. Memorial Acadêmico de uma professora universitária: sentido e significado, Curitiba, 2017. Universidade Federal do Paraná. Disponível em:https://www.scielo.br/j/er/a/zkJ5CKYf9DDcSnK4djrm6Qv/?lang=pt. Acesso em: 11. Set. 2023. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido.42. ed Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. 213 p. ISBN 8521900058. HADDAD, Sérgio. O educador: um perfil de Paulo Freire. Vol 1. ed São Paulo: Todavia, 2019. 251 p. ISBN 9786580309276. KUNG KU PANDA. Direção: Mark Osborne; John Steverson. Produção da Dreamworks Pictures. Estados Unidos: Dreamworks, 2008. Acessada na plataforma Netflix. PORTELA, Patrícia Oliveira. Apresentação de trabalhos acadêmicos de acordo com as normas de documentação da ABNT: Informações Básicas, Uberaba, 2019. Disponível em:https://www.uniube.br/biblioteca/novo/trabalhos_academicos.php. Acesso em 11. Set.2023.