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ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVO UNIASSELVI-PÓS Autoria: Manoel Carneiro de Oliveira Junior Indaial - 2022 2ª Edição CENTRO UNIVERSITÁRIO LEONARDO DA VINCI Rodovia BR 470, Km 71, no 1.040, Bairro Benedito Cx. P. 191 - 89.130-000 – INDAIAL/SC Fone Fax: (47) 3281-9000/3281-9090 Impresso por: Reitor: Prof. Hermínio Kloch Diretor UNIASSELVI-PÓS: Prof. Carlos Fabiano Fistarol Equipe Multidisciplinar da Pós-Graduação EAD: Carlos Fabiano Fistarol Ilana Gunilda Gerber Cavichioli Norberto Siegel Julia dos Santos Ariana Monique Dalri Jairo Martins Marcio Kisner Marcelo Bucci Revisão Gramatical: : Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Diagramação e Capa: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Copyright © UNIASSELVI 2022 O48o Oliveira Junior, Manoel Carneiro de Organização e planejamento do treinamento desportivo. / Manoel Carneiro de Oliveira Junior – Indaial: UNIASSELVI, 2022. 151 p.; il. ISBN Digital 978-65-5646-548-7 1. Treinamento desportivo. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 796 Sumário APRESENTAÇÃO ............................................................................5 CAPÍTULO 1 Histórico e Avaliações do Treinamento Desportivo ................7 CAPÍTULO 2 O Fator Planejamento no Treinamento Desportivo ..............51 CAPÍTULO 3 A Psicologia e a Nutrição na Contribuição do Treinamento Desportivo ..........................................................101 APRESENTAÇÃO Para entendermos os conceitos do treinamento desportivo, é fundamental vermos os fatos históricos marcados em épocas distintas e que complementam tudo aquilo que vemos atualmente quando falamos de técnicas de treino. Se formos pensar em primórdios do treinamento, vemos o homem pré-histórico utilizando técnicas de corrida, lançamento e saltos, que eram importantes para a sua sobrevivência. A história do treinamento passa desde essa época até anos mais tarde, em que as técnicas de treino foram marcadas por grandes mudanças, como a era dos jogos modernos da Grécia, em que o Barão de Coubertin deu início às competições em nível de público, tornando os atletas pessoas consagradas e mostrando a todos como são importantes as técnicas e a disponibilidade de treino. Não podemos pensar no treinamento desportivo como uma forma isolada de técnicas e treinos, temos que pensar também que existem “braços” no treinamento que ajudam em todos os aspectos na montagem e supervisão. Estamos falando das técnicas de aferição ou da antropometria, que é de extrema importância para determinarmos o andamento dos trabalhos que estão sendo conduzidos. Assim, no Capítulo 1, veremos a antropometria, uma valiosa ferramenta tanto nos treinamentos quanto na saúde dos avaliados, pois ela orienta os possíveis fatos e acontecimentos que podem fazer, por exemplo, que o atleta perca seu rendimento, passando por momentos fisiológicos importantes que não demonstram sucesso. Um outro aspecto muito importante e que também está ligado à antropometria são as avaliações neuromotoras, nelas podemos avaliar e mensurar a força, a resistência muscular e a flexibilidade, o que ajuda em qualquer esporte treinado. No Capítulo 2, abordaremos o planejamento do treinamento desportivo. A periodização deve ser organizada de forma global, respeitando todas as fases do desenvolvimento, evitando, assim, o abandono precoce da prática, devido a possíveis lesões ou transtornos causados pela falta de planejamento do treinamento. Uma vez estabelecidos de forma clara e concreta os objetivos da formação, respeitando os seus princípios científicos, as fases desse processo devem ser identificadas e organizadas, visto que a formação deve ser periódica. A periodização representa uma linha de trabalho para estruturar e orientar o treinamento, levando em consideração o tempo disponível para as atividades, o público-alvo e o ambiente no qual o programa estará inserido. Essa divisão é uma estratégia para organizar variáveis de carga de trabalho, como intensidade, volume, frequência e períodos de descanso, permitindo uma variedade de sessões de trabalho e auxiliar no rendimento do indivíduo. Por último, no Capítulo 3, abordaremos o trabalho da área nutricional e psicológica frente ao individuo que realizará o treinamento. Recentemente (Olimpíadas de 2021, em Tóquio), a atleta americana Simone Biles, da ginástica, desistiu de uma competição olímpica devido a problemas emocionais, o que justifica o uso da psicologia no esporte para manter não só o emocional, mas também a integridade dos atletas e/ou indivíduos que treinam. Abordaremos também o fator nutricional e como alguns parâmetros, como o metabolismo, podem interferir não só no rendimento, mas também na própria competição. CAPÍTULO 1 HISTÓRICO E AVALIAÇÕES DO TREINAMENTO DESPORTIVO A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: • Entender os fatos históricos do treinamento desportivo, passando por diversas épocas e fatos que trouxeram ferramentas para a sua constituição. • Avaliar os tipos de análise e avaliações corpóreas e como elas podem nos ajudar na elaboração de um treinamento. • Verifi car as análises, passando desde uma simples anamnese até a utilização de equipamentos para nos auxiliar no contexto do treino. • Diferenciar as avaliações de medidas com as avaliações neuromotoras e entender como elas podem infl uenciar no contexto neuromuscular. • Entender as dinâmicas do treinamento e ter uma noção ampla de como estruturar um ciclo de treino para um indivíduo. • Realizar medidas importantes para o contexto do esporte, utilizando técnicas simples e complexas para o desenvolvimento do atleta. 8 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo 9 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Segundo Tubino (2003), treinamento esportivo é o conjunto de atividades físicas que são realizadas ao longo de um período prolongado, perfazendo de uma forma progressiva, cuja principal função é desenvolver as habilidades humanas, fi siológicas e psicológicas de um indivíduo. Se formos levar em termos práticos e simples, os treinamentos são exercícios bem planejados individual e sistematicamente para a evolução de um atleta ou de uma equipe. Os objetivos do treinamento esportivo são diferentes, sendo o principal a evolução da forma física e técnica do indivíduo. Quando feito corretamente, ajuda a melhorar o desempenho, porém, certos princípios devem ser seguidos para atingir os resultados desejados em nível competitivo ou não. Dantas (2014) preconiza que é altamente recomendado que um profi ssional com destreza e técnica, formado em educação física, seja o responsável pelo planejamento do treinamento para atender a todos os detalhes de cada indivíduo. Mesmo em equipes com muitos atletas, o treino deve ser individualizado, pois cada organismo tem uma resposta diferente aos estímulos, o que podemos chamar de individualidade biológica. Embora os aspectos técnicos sejam bastante aprofundados, é importante afi rmar e ressaltar que, além dos conhecimentos técnicos, estes também devem abranger outras áreas, como psicologia e nutrição. O bom desenvolvimento mental é essencial para o alcance dos objetivos propostos, da mesma forma que o alimento pode ser um aliado ou um vilão nos resultados. Não há esporte em que o treinamento esportivo seja mais adequado. Isso porque cada atividade possui suas especifi cidades e particularidades, além das suas peculiaridades, e cabe ao profi ssional buscar o conhecimento técnico e científi co para aplicar com efi cácia a metodologia. Além disso, como cada atleta possui características próprias, o treinamento individualizado deve ser utilizadoem qualquer esporte. 2 HISTÓRIA DO TREINAMENTO DESPORTIVO Quando pensamos em treinamento desportivo, logo vem à mente os jogos olímpicos na Grécia, mas será que a história do treinamento desportivo provém dessa época? 10 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Os jogos olímpicos são jogos denominados de excelência, que dispõem de sucessos, fracassos, além de serem uma grande vitrine de atletas e, através disso, temos métodos de treinamento que são mostrados ao mundo, demonstrando o seu poder ao grande público. Segundo Bompa (2000), é necessário considerar que, antes dos jogos olímpicos surgirem na Grécia Antiga, já existiam algumas práticas de treinamentos diversifi cados sempre em busca de um objetivo, que era a melhora do rendimento físico. Óbvio que nesse contexto não nos convém debater e discutir se existia efi ciência nesses treinos e sim a causalidade destes. 2.1 OS FATOS HISTÓRICOS DO TREINAMENTO DESPORTIVO Pensando em forma de treinamento e até fazendo um comparativo com os tempos ditos modernos, as práticas desportivas em forma de treinamento eram feitas de forma inconsciente e não com o objetivo de performance, como seria na Pré-História, em que o objetivo do homem apenas e tão somente era a sua sobrevivência em relação aos seus predadores, bem como os de sua própria espécie, e isso pode ser considerado devido ao seu condicionamento físico adquirido no dia a dia (TUBINO, 2003). Posteriormente, com a evolução do homem, principalmente na Grécia e na Roma Antiga, estas práticas, bem diferentes do treinamento desportivo da atualidade, passaram a obedecer a um senso lógico e comum, buscando além da estética (e, pensando na estética, a beleza corporal era considerada um alto elemento signifi cativo, principalmente para elevar o homem comum a uma condição social mais elevada). Óbvio que esse fator era importante também para a preparação para as guerras, bem como para outras competições desportivas menos importantes que os Jogos Olímpicos, como os Jogos Augustos e os Jogos Capitolinos. Com o objetivo de iniciar uma nova discussão sobre o assunto, podemos exemplifi car a evolução do treinamento desportivo na história com a seguinte ordem cronológica: 1º - Período do Empirismo – duração: dos métodos arcaicos de preparação física das antigas civilizações até o surgimento do Renascimento (século XV). 2º - Período da Improvisação – duração: do surgimento do Renascimento (século XV) até as I Olimpíadas da Era Moderna (1896 - Atenas). 3º - Período da Sistematização – duração: das I Olimpíadas da Era Moderna (1896 - Atenas) - até as XI Olimpíadas (1936 - Berlim). 11 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 Como aspecto profi lático (prevenção de doenças) existiam os exercícios físicos, através de jogos, de ginástica, de desporto (esporte), da dança, do excursionismo, que é a prática de exercícios por um gosto, das massagens e das saunas. Na Antiguidade, os exercícios eram orientados principalmente para os aspectos estabilizadores e terapêuticos, tendo por objetivo geral cooperar no desenvolvimento integral do indivíduo, além de manter esses indivíduos saudáveis. Assista ao vídeo Efeitos da pandemia sobre os esportes de alto rendimento, disponível em: https://youtu.be/A8nKn- YG2ow. 4º - Período Pré-Científi co – duração: das XI Olimpíadas (1936 - Berlim) até as XIV Olimpíadas (1948 - Londres). 5º - Período Científi co – duração: das XIV Olimpíadas (1948 - Londres) até as XXI Olimpíadas (1972 - Munique). 6º - Período Tecnológico – duração: das XX Olimpíadas (1972 - Munique) até as XXV Olimpíadas (1992 - Barcelona). 7º - Período do Mercantilismo Desportivo – duração: a partir das XXV Olimpíadas (1992 - Barcelona) (COSTA, 1972). Temos que pensar que muitos dos diferentes processos que implicaram na complicada estrutura esportiva atual têm sua origem na mais remota civilização. Desde o começo da aventura do homem sobre a Terra, foram transmitidas de geração em geração práticas utilitárias, principalmente para a sua sobrevivência, que foram obviamente observadas e imitadas, possibilitando-lhe viver em um meio hostil, e isso ajudou o homem a apurar seus sentidos. Iniciando pela Pré- História, período em que o homem primitivo tinha sua vida cotidiana assinalada por grandes preocupações, principalmente atacar e se defender, passando pela Antiguidade, na qual alguns povos, como os do Oriente, Ocidente e do Novo Mundo, apresentavam um notável interesse em cuidar da alimentação, regime de vida e performance, até atingir o rigor tecnológico e científi co que conhecemos nos dias atuais. 12 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Na Antiguidade, podemos falar da enorme contribuição dos povos gregos e romanos para o desenvolvimento do treinamento desportivo. Temos na Grécia Antiga o exercício com o objetivo do culto ao corpo. Com os gregos era signifi cativo o número de jogos existentes, e podemos, obviamente, relatar o principal evento desportivo: os Jogos Olímpicos. Para Tubino (1985), pode-se dizer que a preparação dos atletas helênicos (atletas que participavam de quatro festivais de jogos gregos: os Jogos Olímpicos, os Jogos Piticos, os Jogos Nemeus e os Jogos Ístmicos) era muito semelhante aos treinos empregados nos dias atuais, com uma preparação bastante eclética (corridas, marchas, lutas, saltos etc.). Esses atletas usavam sobrecargas para a melhoria do seu rendimento físico e tinham uma preparação psicológica apoiada no sofrimento. Eles utilizavam o aquecimento no início e a volta à calma acrescida de artifícios importantes, como massagens ao fi nal do treino, e já possuíam, a exemplo dos ideais científi cos modernos, os chamados ciclos de treino, denominados na época de “tetras”, e ainda eram estabelecidas dietas diferenciadas nos períodos de treino e competições. Por outro lado, os povos romanos, chamados na época de ‘senhores do mundo’, atuando principalmente como conquistadores, desviaram totalmente os objetivos propostos através do esporte pelos gregos. Aproveitando os conhecimentos esportivos dos gregos, passaram a treinar seus soldados, a fi m de torná-los “indestrutíveis’ em um combate, e foi ainda sob a égide dos romanos que se passou a profi ssionalizar o esporte de forma degradante, assim, o esporte deixou de ser de um aspecto competitivo para se tornar um aspecto de força e de luta. A partir do século XV, temos como característica a transição da mentalidade medieval para a mentalidade moderna. Isso ocorreu através do movimento renascentista, que foi originado na Europa com um amplo alcance intelectual, atingindo alguns setores, como o das artes, das ciências e da fi losofi a, trazendo como consequência a construção de uma nova sociedade, mais racionalizada e baseada no progresso das ciências e na difusão educacional dos conhecimentos entre os homens. Para Cotrim (1987), com o aparecimento do Renascimento, surgiram os humanistas, que se encarregaram de transmitir a seus contemporâneos a necessidade de desenvolver amplamente a capacidade do homem, como também a interpretação da vida de uma maneira mais completa. Nesse contexto, os humanistas conseguiram ampliar, a exemplo dos povos antigos da Grécia, horizontes verdadeiramente amplos, conduzindo os propósitos dos indivíduos como realmente era necessário: com amplitude e profundidade, compreendendo de forma bastante criteriosa as mais importantes tendências da personalidade 13 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 humana em todos os aspectos. Dessa forma, como ponto de partida, esse período iniciou com os métodos arcaicos e antigos de preparação física das antigas civilizações, que não passavam de práticas perceptivas de treino, em que a busca de conhecimento passou a ser constante, e foi fi nalizado com o surgimento do período renascentista. Podemos afi rmarque algumas dessas práticas infl uenciaram também importantes modifi cações na educação física e nos desportos. 2.2 O PERÍODO DA SISTEMATIZAÇÃO No período da sistematização (século XX), evidencia-se a necessidade de um planejamento do controle e da ordem das cargas de trabalho para serem passadas durante um treinamento, estabelecendo caminhos e pontos básicos para serem seguidos em direção a uma meta estabelecida previamente. Esse processo teve uma facilidade, uma vez que, apesar das difi culdades de comunicação e pouco conhecimento na época no que diz respeito aos treinos, o continente europeu adaptou seus métodos e meios de treino de acordo com as “inovações” apresentadas pelos americanos, surgindo, nesse período, outras tendências de treinamento esportivo. Hegedus (1969) evidencia em seus estudos que o primeiro país a tomar a iniciativa dessa sistematização foi a Finlândia, destacando-se Lauri Tahko Pihkala (1888-1981), um treinador que, por volta de 1912, desenvolveu o sistema de treinamento fi nlandês. Suas ideias se voltaram para um tipo de treino denominado treinamento multilateral, aplicando um conceito do tipo ondulatório, que é o aumento da intensidade do trabalho, partindo de um trote lento até a velocidade máxima. Seus alunos faziam 4-5 vezes 100 a 200 metros com esforços intensos e pausas de 10-20 minutos. Por esse motivo, muitos alegam que foi Pihkala o criador do treino intervalado (interval-training) (TUBINO, 2003). O seu método apresentava as seguintes características: • A inclusão do treinamento de velocidade para meio-fundistas e fundistas. • Alternância de corridas curtas e intensas com intervalos longos para recuperação orgânica. • Incrementar signifi cativamente tanto a quantidade como também a qualidade dos treinamentos. Em 1920, na Alemanha, surgiram os estudos de Krummel, estudioso que seguia a tendência norte-americana, ele sistematizou o treinamento e publicou em seus trabalhos as seguintes demonstrações: 14 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo • Há diferenças entre resistência e endurance; sendo a resistência a capacidade de um músculo ou até um agrupamento muscular de manter contrações repetidas sobre uma carga em um período de tempo (prolongado). A resistência exigia do sistema cardiovascular um fornecimento energético muscular para manter um trabalho físico sustentado. • Existia uma vantagem em utilizar intervalos entre estímulos. • Era possível adquirir resistência e endurance através da aplicação de pequenas distâncias de treinamento (ALMEIDA; ALMEIDA; GOMES, 2021). O método fi nlandês constituía-se de várias correntes de trabalho, tendo um mesmo denominador comum, que parte do princípio a adaptação aos meios que a natureza oferece, a fi m de desenvolver as reservas naturais do homem por meio de esforços prolongados. Com essa intenção, precisamente na cidade sueca de Bosöm, o treinador Gösta Holmér (1891-1983) desenvolveu o treinamento “Fartlek”, que consistia na superação de percursos com subidas, descidas, planos, trechos com areia, entre outros. Nos percursos, os atletas deviam apresentar variações de ritmos de trabalho, embora a intensidade da corrida variasse de acordo com as distâncias e o tempo dos esforços executados, partindo do princípio de que os atletas deveriam evitar, em seus treinamentos, o contato direto com os locais de competição, como as pistas, utilizando outros “terrenos”, como bosques, campos e áreas parecidas, que seriam os locais mais favoráveis para o desenvolvimento das capacidades funcionais, como a velocidade e a resistência (BOMPA, 2000). O método constava em sua forma original de: • Esforços realizados em plena natureza, portanto, longe da pista de corridas, com 1 ou 2 horas de duração. • Existência de uma combinação de todos os tipos de distâncias durante o seu transcorrer, com uma variação de 50 até 3.000 metros. • Intensidade dos esforços de acordo com a distância das corridas. • A pausa entre os esforços de acordo com as características das corridas, realizadas de tal maneira que o intervalo de recuperação fosse realizado em forma de marcha ou trote. Apesar de esse método de treinamento passar por várias modifi cações ao longo dos anos, ainda hoje é largamente utilizado em todas as modalidades desportivas. 15 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 Ainda em 1930, também na Suécia, na cidade de Valadalen, Gösta Ölander (1911-1984) amplia o cenário esportivo da época, criando um método que recebeu o nome de Treinamento de Valadalen, que tinha como características de treinamento: • Alternar treinamentos “pesados” e “leves” para obter o efeito restaurador no organismo. • Utilizar terrenos com alto grau de difi culdade (areia da praia e morros). • Alegria e correção técnica durante a execução dos trabalhos. Segundo Costa (1972), a escolha do tipo de treino que os atletas deveriam executar provocou uma divisão entre esses dois treinadores suecos. Holmér optava pelo trabalho relativamente prolongado com variação de esforço, ao que Ölander preferia fazer um trabalho mais curto, com algumas sessões com grande intensidade, uma vez que ele dava preferência ao princípio da intensidade em relação à quantidade. Mesmo com essa divisão de preferência, o progresso no rendimento dos atletas foi muito satisfatório e a contribuição desses treinadores é notada nos tempos atuais, cuja tendência se volta para uma mesclagem dos dois tipos de treinamento preconizados na Suécia. Esse período iniciou com a primeira olimpíada da era moderna (1896 – Atenas), durando até as XI olimpíadas (1936 – Berlim), quando Adolf Hitler promoveu a primeira grande manifestação ideológico-política dos jogos olímpicos, construindo toda uma estrutura que permitisse mostrar ao mundo a pseudossupremacia dos alemães arianos sobre os outros povos e raças. 2.3 O PERÍODO PRÉ-CIENTÍFICO O período pré-científi co iniciou-se um pouco antes da Segunda Guerra Mundial, durando alguns anos após o fi nal da guerra. O que caracterizou essa época foi o aparecimento das primeiras tentativas de experimentos científi cos relacionados à preparação física, baseada nas observações experimentais até então vigentes no momento (BOMPA, 2000). Esses ensaios foram sensivelmente prejudicados pela escassez de recursos fi nanceiros, uma vez que o mundo voltava suas atenções para a guerra, o que estabeleceu nesse período uma profunda recessão econômica, o que não impediu o surgimento de novas tendências de trabalho com relação ao treinamento desportivo. No período pré-científi co, constata-se a contribuição do corredor tcheco Emil Zatopeck (1922-2000), o qual, por volta de 1945, a partir dos conhecidos trabalhos 16 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo de Toni Nett, modifi cou gradativamente sua forma de treinar, começando a utilizar intervalos de recuperação entre as corridas (TUBINO, 2003). Na sequência, ele promoveu algumas mudanças na proposta original predita, até desenvolver seu próprio método, que constava de: • Uma diminuição nas distâncias empregadas anteriormente. • Uso somente das distâncias: 200 e 400 metros. • Utilização de até 70 repetições das distâncias. • Utilização de 60 segundos de intervalo entre as repetições. Surgia, assim, o treinamento com intervalos, com o qual Zatopeck surpreenderia o mundo desportivo da época com resultados considerados excepcionais, apesar de hoje tornarem-se arcaicos, a ponto de serem conseguidos com facilidade por vários atletas. No ano de 1948, com a utilização de esforços físicos intervalados fora da Alemanha e Tchecoslováquia (agora República Tcheca), pelo médico e treinador húngaro Mihály Iglói (1908-1998), que ganhou extrema notoriedade por considerar o fato de os atletas possuírem diferentes condições hereditárias (Miháloy começou a pensar em genética), os planos de treinamento deveriam ser individualizados (DANTAS, 2014).Atualmente, sabe-se ser esta a pedra angular sobre a qual deve ser edifi cado todo o processo de treino, porém, pela primeira vez, observa-se na história a preocupação com a individualidade biológica. O seu método de treinamento se baseava em: • Uma grande dose de trabalho diário (20 a 40 quilômetros). • Cargas de treino estritamente individualizadas. Consideramos que esse período tenha durado das XI Olimpíadas (1936 – Berlim) até as XIV Olimpíadas (1948 – Londres). 2.4 O PERÍODO CIENTÍFICO Este período, apesar de iniciar-se ainda sobre os resíduos pouco fundamentados do período anterior, evoluiu rapidamente, com o mundo desportivo sendo estimulado por uma multiplicação impressionante de laboratórios de pesquisa do esforço físico, constituindo-se de três grandes tendências esportivas (FERNANDES, 1981). Na década de 1950, inicia-se uma época inovadora no treinamento desportivo, através da proposta de Percy Cerutty (1895-1975) na Austrália. Percy, 17 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 que em 1952 foi a Helsinque (Finlândia) a fi m de assistir aos Jogos Olímpicos, aproveitou a oportunidade para visitar Ölander e aprender o funcionamento do sistema de treinamento (ALMEIDA; ALMEIDA; GOMES, 2021). De volta à Austrália, Percy procurou adequar a metodologia às possibilidades naturais existentes lá. Para isso, escolheu um local específi co na costa oceânica, entre Melbourne e Portsea, com uma extensão de 80 a 100 quilômetros, que passou a ser o centro de treinamento de corredores australianos e, obviamente, de outros países. Cerutty foi adepto de um trabalho muito intenso e até muito esgotador. Seus melhores atletas percorriam uma distância de até 150 quilômetros por semana, no período de preparação geral, e 100 quilômetros no período que antecedia às competições. Eles utilizavam terrenos, como dunas de areia, buscando o desenvolvimento da resistência muscular localizada, para a qual alguns países, como EUA e Alemanha, recorriam ao treinamento de tempo (time-training) realizado em pistas de corridas (TUBINO, 2003). A alegação utilizada por Percy Cerutty era de que, em terrenos como dunas, o atleta necessita de um desenvolvimento de maior esforço em uma unidade de tempo superior às solicitações de uma competição. O corredor desenvolveria, dessa maneira, uma condição física muito especial perante o sofrimento provocado por semelhantes esforços. Com certeza seu método se ajusta perfeitamente a um dos princípios do atual treinamento de duração, cujos esforços prolongados são realizados sob um ritmo e intensidade especiais. Percy Cerutty não gostava do treinamento intervalado, ele acreditava ser um sistema proveniente de laboratório, porque os resultados nem sempre estavam de acordo com o que existia na prática. Ele achava que, para se adquirir a resistência geral e específi ca, era necessário executar trabalhos prolongados e extensos e nunca esforços rápidos e breves (HEGEDUS, 1969; FERNANDES, 1981). Arthur Lydiard (1917-2004), na Nova Zelândia, procurou pegar os pontos fortes do treinamento intervalado e do treinamento de duração, fazendo uma mesclagem dos dois tipos de sistemas. Assim, de acordo com a temporada de competições do seu país, dividia o ano em várias etapas de treinamento, nas quais se buscava um distinto objetivo (ALMEIDA; ALMEIDA; GOMES, 2021): Etapa pós-competitiva No fi nal da temporada das competições, iniciava-se esta etapa do treino. Nela, os corredores treinavam 6 vezes por semana, correndo entre estradas e bosques, fazendo um trote de 1 hora de duração, gastando uma média de 7 minutos por milha, durante 2 ou 4 semanas. 18 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Etapa de competições nacionais de cross-country Nesta etapa, era pedido ao corredor um trabalho feito nas mais diversas condições de terreno (areia, lama, pedras etc.), bem como nas mais diversas condições climáticas. Na primeira metade da semana eram feitos apenas trotes, para, em seguida, ser intensifi cado o trabalho, incluindo uma grande variação de esforços, que iam desde 50 metros até quilômetros, chegando a quilometragens enormes feitas aos domingos. Isso era feito durante 12 semanas, quando começavam as competições de cross-country. Etapa de treinamento de maratona Quando terminavam as competições de cross-country, iniciava-se o treinamento visando às altas quilometragens, atingindo uma média de 100 milhas por semana. O ritmo desenvolvido nas corridas era ajustado à capacidade de cada um dos corredores e o maior número de quilometragem era percorrido aos sábados, num ritmo menor que os dias anteriores, cerca de 7 minutos por milha. O total em quilômetros a serem percorridos durante a semana era distribuído de forma a alternar um dia com carga menor que o outro, cuja intensidade do trabalho variava conforme o terreno a ser utilizado para a corrida. Etapa de treinamento em terrenos variados 6 semanas no total, esta etapa dava continuidade ao período anterior, e o local utilizado era um terreno acidentado com longos aclives, intercalando com partes planas e descidas, para exigir uma grande variedade de ritmos para a corrida. O percurso possuía uma distância de 3.200 metros e o total percorrido em cada dia atingia uma média de 20 quilômetros. No fi nal da semana, era feito um treinamento de maratona de 2 a 2,5 horas de duração. Etapa de treinamento em estradas Nesta etapa, já se iniciava a preparação para as competições na pista. Os corredores percorriam 13 quilômetros por dia durante 4 semanas, fazendo uma mesclagem de treinamento de duração com corridas de tempo e séries de sprints, portanto, um trabalho bastante semelhante ao que conhecemos como fartlek. 19 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 Etapa de treinamento em pista Após toda a etapa de preparação que antecedia às competições, iniciava-se o treinamento de pista, com uma duração de 12 semanas, período em que eram realizadas as competições. Lydiard não utilizava o treinamento intervalado porque considerava as pausas muito lentas, o que ele acreditava não levar a resultados esperados. Ele preferia uma mescla de velocidade pura, velocidade prolongada e longas distâncias. Assim, seus corredores de meio-fundo faziam tanto velocidade prolongada quanto devia fazer um meio-fundista e o mesmo número de quilômetros que fazia um corredor de fundo (ALMEIDA; ALMEIDA; GOMES, 2021). 2.5 A ERA TECNOLÓGICA Após o advento do período científi co, os resultados esportivos, que já tiveram um crescimento signifi cativo, foram extremamente acelerados. Isso não se deve apenas ao surgimento de uma metodologia de treinamento com embasamento científi co, mas também ao constante avanço da tecnologia, como a fabricação de aparelhos, a confecção de roupas para atletas de elite, entre outros (TUBINO, 1985; DANTAS, 1998). Novas tendências surgiram com o crescente interesse político pelos grandes resultados esportivos. Os países ocidentais aceitaram de bom grado o desafi o, razão pela qual atualmente as nações estão investindo orçamentos milionários na preparação de seus atletas em defesa de suas ideologias políticas, como pode ser visto nas competições internacionais, e com isso podemos destacar a China e a Rússia. Nesse momento, o uso de tecnologias de informação parece ser um elemento fundamental no diagnóstico morfofuncional e psicológico de atletas, no planejamento do treinamento esportivo, na prescrição de exercícios em volume e intensidade de treinamento, bem como na correção da análise técnica e tática das situações competitivas. Esses fatores podem ser vistos como determinantes no caso da ciência moderna do fi tness. Essa tendência tinha como líder das competições esportivas os Estados Unidos, seguido pelo Canadá, Austrália, Nova Zelândia e África do Sul, onde se tinha a universidade, que se constituía na principalfonte de pesquisas dentro das mais sofi sticadas condições tecnológicas, oferecendo total apoio aos seus atletas, que recebiam em troca os estudos na própria universidade, a orientação 20 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo dos melhores técnicos desportivos do país, bem como utilizavam uma tecnologia e material desportivo de alto nível (FERNANDES, 1981; TUBINO, 2003). Essa tendência foi liderada pela ex-Alemanha Ocidental, que tinha seus principais componentes em países europeus não socialistas, tendo o intercâmbio técnico-científi co facilitado pela situação geográfi ca dos países europeus, com o Brasil se benefi ciando enormemente de estágios realizados em seus principais centros de formação científi ca e pesquisa, como Colônia e Mainz e outros localizados em outros países integrantes de sua doutrina (FERNANDES, 1981; TUBINO, 1985). Naquela época, havia alguns países que faziam parte dessa escola, principalmente Japão, Coreia e China. Nestes países, além de um rigoroso planejamento educacional, o esporte já recebia grande ajuda das suas inúmeras indústrias, com fábricas formando times esportivos. A característica mais marcante dessa tendência é que os aspectos capitalistas já eram evidentes e a cultura era usada como meio de motivação (TUBINO, 1985). 2.6 O PERÍODO DA ERA MERCANTILISTA ESPORTIVA Sem dúvida, o esporte se tornou um dos produtos mais efi cientes para divulgar nome, marca, patrocínio e publicidade, em grande parte porque permitiu uma maior aproximação com seus clientes e com o mercado esportivo em particular. É importante ressaltar que o esporte mostra ao atleta como ter sucesso e isso é inconscientemente atribuído às empresas que o promovem e, principalmente, aos seus produtos. Dessa forma, o investimento no esporte solidifi cou um excelente negócio, com grande retorno publicitário em divulgação, valorização de imagem, ganhos fi nanceiros e impostos. Parte dessa era são os países capitalistas (EUA, Canadá, Japão, Austrália, Nova Zelândia, Israel e países da Europa Ocidental), independentemente de sua localização geopolítica, com clubes e associações que quase sempre são subsidiados por empresas de apoio a atletas. O que mais chama a atenção nesse período é que as competições de alto rendimento tornaram-se verdadeiros espetáculos, independentemente do nível profi ssional, em que grandes empresas que desejam divulgar seus produtos utilizam estratégias publicitárias para investir milhões de dólares no fi nanciamento da formação de atletas ou equipes (são considerados verdadeiros astros), bem como a promoção e a gestão de eventos desportivos, sendo a universidade a principal fonte de investigação. 21 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 3 ANTROPOMETRIA A palavra antropometria, em seu contexto, é formada pela combinação de dois termos de origem grega: “anthropos”, que tem o signifi cado de “homem” ou “ser humano”, e “metron”, que signifi ca “medir”, e antes de falarmos sobre como devemos proceder, precisamos saber o que é antropometria. Antropometria é um ramo da antropologia, e é a ciência que estuda principalmente as medidas de diferentes áreas e partes do corpo humano (PETROSKI, 2001). 3.1 O QUE É ANTROPOMETRIA Segundo Franceschini et al. (2017), a ciência chamada antropometria está relacionada aos estudos da antropologia física ou biológica, e esta trata de analisar os aspectos genéticos e biológicos do ser humano e fazer uma comparação entre eles. A antropometria utiliza várias técnicas para medir cada uma das partes do ser humano. Por meio dessa medição fornecerá informações valiosas para atletas e pessoas sedentárias sobre aspectos de sua condição física e biológica. 3.1.1 Finalidades da antropometria Atualmente, a antropometria é utilizada em diversas áreas da saúde para estudar principalmente as doenças e anomalias que afetam as dimensões do organismo e da fi siologia humana. A puericultura é um ramo da antropometria que acompanha o desenvolvimento do corpo infantil, e este tipo de avaliação está sendo inserido no campo da pediatria (FRANCESCHINI et al., 2017). Nesse contexto, também podemos destacar a antropometria nutricional, que pode ser utilizada como uma ferramenta para avaliar o estado nutricional de um indivíduo. A antropometria nutricional consiste na avaliação nutricional, verifi cando o Índice de Massa Corpórea (IMC), a análise de dobras cutâneas e o índice de gordura entre a cintura e o quadril. A avaliação nutricional é um conglomerado de métodos de avaliação utilizados para diagnosticar o estado nutricional de indivíduos e/ou da população. Estes métodos incluem anamnese alimentar, exame clínico, dados bioquímicos, antropométricos e psicossociais, que permitem identifi car indivíduos em risco nutricional, possibilitando intervenções e monitoramento (PETROSKY, 2011). 22 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo O estado nutricional é uma característica individual ou populacional que possui um grande dinamismo. Resulta do balanço entre a ingestão e a perda de nutrientes, levando em conta sua ingestão, absorção, utilização e excreção. Pode manifestar uma nutrição adequada, carência de nutrientes ou algum distúrbio nutricional. A anamnese nutricional é o primeiro passo para se estruturar um plano alimentar adequado às necessidades do indivíduo. O questionário aplicado pelo nutricionista deve fornecer o maior número de informações possível, dentre estas é imprescindível ter os hábitos alimentares e as rotinas de horários, além da investigação sobre atividade física e o tipo de atividade, a qualidade do sono, os sinais e sintomas clínicos, como fadiga, unhas quebradiças, alopecia, adormecimento de membros inferiores, edema, cãibras, perda de memória, estufamento e má digestão, distúrbios alimentares, etilismo e tabagismo, além da quantidade de álcool e cigarro/dia. As medidas antropométricas, como peso, altura e medida de circunferência de cintura e de quadril, são utilizadas para o diagnóstico do estado nutricional e avaliação dos riscos para algumas doenças e têm sido demonstradas como um parâmetro indicado para avaliar o estado nutricional populacional, principalmente pela facilidade de obtenção das medidas, que podem ser válidas e confi áveis, desde que haja treinamento adequado e as aferições tenham padronização. 3.1.2 Principais medidas antropométricas Segundo Leão e Gomes (2014), podemos avaliar com os seguintes parâmetros: Peso: o peso mostra a dimensão da massa ou volume corporal total, constituído por todas as células, tecidos, órgãos e sistemas do organismo. Habitualmente chamada de peso, a massa é a soma de todos os componentes corporais e refl ete o equilíbrio energético-proteico do indivíduo. Em adultos, o peso deve ser aferido em balança zerada, colocada em piso nivelado, com o avaliado de pé, de costas para a escala da balança, com os pés afastados lateralmente, no centro da plataforma, com olhar reto e fi xo para o horizonte. Deve estar usando o mínimo de roupa possível ou roupas leves e a medida deve ser feita, preferencialmente, no período matutino, em jejum, para evitar fl utuações de peso decorrentes de algum tipo de edema. Caso isso não 23 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 Segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), é a medida da região do abdômen, no ponto médio entre a borda inferior da última costela e a borda superior da crista ilíaca, em que pode se concentrar principalmente a gordura visceral, diretamente relacionada a diversos riscos de saúde, como a hipertensão, diabetes mellitus e dislipidemias (doença que se caracteriza por anomalias nos níveis de lipídios no sangue), fatores que elevam o risco de doenças cardiovasculares. FONTE: <https://www.saude.rj.gov.br/obesidade/noticias/2017/11/ muito-alem-do-imc>. Acesso em: 19 jan. 2022.seja possível, fazer o controle sempre na mesma hora do dia. Estatura: a estatura demonstra a dimensão longitudinal ou linear do corpo humano. Ela é a soma dos membros inferiores, a pélvis, a coluna vertebral e o crânio. Frequentemente chamada de altura, a estatura é a distância entre o ponto mais alto da cabeça (ponto vértex) e a região plantar. É feita utilizando-se um equipamento chamado estadiômetro, trena ou antropômetro (LEÃO; GOMES, 2014). Para essa análise, o indivíduo que será testado deve estar descalço e em posição ortostática: de pé, ereto, com os calcanhares unidos, braços estendidos ao lado do corpo, com as superfícies posteriores (calcanhar, quadril, costas e cabeça) em contato com o instrumento de medida e com a cabeça voltada para frente, paralela ao solo. IMC: defi nido pelo peso em quilogramas dividido pela potência da altura em metros (altura)². O Índice de Massa Corporal (IMC) fornece uma boa avaliação da gordura corporal para grupos populacionais, porque a maioria das diferenças de peso entre adultos ocorre em virtude da gordura corporal. O IMC também pode ser um indicador de saúde. Circunferâncias: Galisa (2018) preconiza que a medida de circunferência fornece o perímetro dos diversos segmentos corporais, como braços, pernas, cintura, quadril, tórax e pescoço, porém daremos mais ênfase às circunferências de abdômen e quadril. A aferição da circunferência de cintura é feita com o avaliado em posição ortostática, colocando a fi ta em um plano horizontal, passando por cima da cicatriz umbilical. 24 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Circunferência de quadril: a pessoa a ser avaliada deve estar em posição ortostática, braços levemente afastados e pés juntos, colocando-se a fi ta em um plano horizontal no ponto de maior circunferência das nádegas. As medidas são feitas lateralmente. Relação cintura x quadril (RCQ): é o cálculo que se faz a partir das medidas da cintura e do quadril, dividindo-se a medida da circunferência da cintura em centímetros pela medida da circunferência do quadril em centímetros. O índice de corte para risco cardiovascular é igual ou maior que 0,80 cm para mulheres e 0,90 cm para homens. Percentual de gordura corporal: é aferido principalmente para a proporção de gordura corporal em relação ao peso corporal total (%GC). Esse percentual permite, em conjunto com o peso corporal, determinar o peso de gordura total de um indivíduo. Ao estabelecer um %GC desejado, conhece-se qual peso o indivíduo teria se modifi casse apenas a massa gorda e mantivesse sua massa magra intacta (FRANCESCHINI et al., 2017). Composição corporal: o corpo humano pode ser separado em dois grandes grupos: massa gorda (gordura corporal) e massa magra (parte muscular). Caso se subtraia a gordura do indivíduo, tudo o que sobra é a massa magra. Essa divisão didática é conhecida como modelo bicompartimental e permite simular administrações orais e inalatórias. A massa magra, por sua vez, é composta pela massa óssea (ossos do esqueleto), massa muscular e massa residual. A divisão corporal em quatro compartimentos (massa gorda, muscular, óssea e residual – a massa residual é a composição de água, vísceras e outros componentes de massa magra) é didaticamente conhecida como modelo tetracompartimental. Bioimpedância: o principal objetivo da bioimpedância é determinar a quantidade de massa magra e massa gorda do corpo. Isso se torna importante ao imaginarmos dois indivíduos com o mesmo peso e estatura, porém com composições corporais diferentes (LEÃO; GOMES, 2014). A massa magra é composta por músculos, ossos e órgãos vitais, sendo o principal responsável pela queima de calorias, e a massa gorda é composta de gordura corporal. Orientações para a realização da bioimpedância: 2 horas de jejum absoluto, inclusive água; evitar exercício físico no dia do exame; evitar estimulantes, como cafeína (café, chá mate, chá preto, chocolate e refrigerante tipo cola) ou bebidas alcoólicas no dia do exame; e usar roupas leves. Pessoas portadoras de marcapasso não podem realizar este exame. 25 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 3.1.3 Componentes da avaliação antropométrica Após a “coleta” ou adquirir as informações necessárias para determinar os parâmetros avaliativos, todas as obtenções avaliativas deverão ser comparadas e analisadas através de uma tabela de classifi cação. Lembrando que a avaliação antropométrica nutricional será o resultado dessas avaliações e, para isso, deve- se ter certeza de que todos esses dados estão descritos de forma correta. Por exemplo, o peso deve ser aferido no período matutino, de preferência com o avaliado em jejum, com a bexiga vazia e usando roupas confortáveis, que não sejam “pesadas”. O peso é a soma de todas as células corpóreas e seus componentes (órgãos e tecidos). Essa avaliação deve ser realizada preferencialmente em uma balança antropométrica (Figura 1, fotos 1 e 2), que esteja perfeitamente calibrada e com o analisado em posição ortostática, podendo estar ereto ou deitado. FIGURA 1 – BALANÇA ANTROPOMÉTRICA Foto 1: Balança antropométrica (vista lateral) Foto 2: Balança antropométrica FONTE: O autor Com relação à altura, esta avaliação deve ser realizada com o avaliado em pé, totalmente ereto e com os membros superiores ao longo do corpo. Devemos nos certifi car de que esteja olhando para o horizonte (ângulo de 90°) em relação ao chão e que os membros inferiores possuam um ponto de contato (como uma parede, por exemplo) com os pés bem fi xados no chão. Para aferir, basta somente a parte móvel da balança antropométrica “encostar” no topo da cabeça do paciente (comprimindo o cabelo). 26 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo O IMC pode ser obtido após serem aferidos o peso e altura do avaliado, bastando somente realizar o simples cálculo: IMC = altura (m)² / peso (kg). Com o resultado dessa conta podemos obter o volume corporal total de um indivíduo, porém somente com esse parâmetro não podemos verifi car a distribuição de massa corpórea. Isso signifi ca, por exemplo, que um atleta em plena forma física poderá ter um IMC de 27, mas isso não signifi ca que ele tenha sobrepeso. No entanto, se levarmos em consideração uma pessoa sedentária, se ela obtiver esse resultado, com certeza terá um risco alto de doenças coronárias. Por fi m, as medidas antropométricas mais comumente usadas são a medida de circunferência e a medida de dobras (plicas) cutâneas, que é utilizada para identifi car em quais partes do corpo existe um acúmulo de gordura. Nesse contexto, são realizadas medidas no tórax, cintura, abdômen, quadril, braços, antebraços, coxa e panturrilha. As medidas de dobras cutâneas são realizadas com um aparelho chamado adipômetro (Figura 2). Normalmente, este aparelho é encaixado em contato com dobras do corpo, como axilas, tríceps, abdômen e coxas. FIGURA 2 – ADIPÔMETRO FONTE: O autor 27 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 Essa Nota Técnica do CONFEF, que veremos posteriormente na sua integridade, foi fundamentada nas diretrizes do American College of Sports Medicine (ACSM), que é a grande referência no mundo com relação à prática de atividade física de forma segura e orientada, e no livro Recomendações sobre condutas e procedimentos do profi ssional de Educação Física na Atenção Básica à Saúde, que está disponível em: https://www.nescon.medicina.ufmg.br/biblioteca/ imagem/2363.pdf. 4 MEDIDAS DE AVALIAÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVO Para direcionar os treinadores e os profi ssionais de educação física, principalmente a fi m de que estes possam oferecer um serviço com segurança e qualidade, o CONFEF elaborou a Nota Técnica nº 002/2012, que tem a premissa de orientar os profi ssionais a realizarem uma avaliação física detalhada antes da elaboração de um programa de exercícios.Óbvio que caso sejam observados alguns fatores de risco que possam ser agravados pelo treinamento, o profi ssional deverá solicitar uma avaliação médica especializada, buscando identifi car restrições e estabelecer linhas de orientação para prescrições de exercícios e treinos apropriados. É importante para o treinador a capacidade de realizar uma avaliação física detalhada, utilizando protocolos de estratifi cação de risco, com conhecimento adequado dos testes, das indicações e contraindicações, das respostas hemodinâmicas e respiratórias ao treinamento, do preparo do benefi ciário, do conhecimento dos mecanismos de funcionamento dos equipamentos, bem como suas limitações e indicações de interrupção dos testes. 28 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Falando em profi ssional de educação física, quanto à profi ssão, o Conselho Federal de Educação Física estipula em suas diretrizes: Resolução CONFEF nº 328/2016. Dispõe sobre Especialidade Profi ssional em Educação Física na área de Avaliação Física. Veja a Resolução na íntegra em: https://www.confef.org.br/ confef/resolucoes/405. Quanto à Nota Técnica n° 002/2012, temos a seguinte premissa: NOTA TÉCNICA CONFEF n° 002/2012 Assunto: A avaliação física em programas de exercícios físicos e desportivos 1. Apresentação O Conselho Federal de Educação Física emite esta Nota Técnica na perspectiva de informar, orientar e padronizar condutas e procedimentos do profi ssional de Educação Física no uso da avaliação física como elemento principal para prescrição de exercícios físicos e desportivos. Leia a Nota Técnica na íntegra em: https://www.confef.org.br/ confef/conteudo/837. A grande pergunta de todo profi ssional que atua com atletas é: quando devemos realizar uma avaliação física, principalmente, quando devemos reavaliar? É importante realizar as avaliações sempre no início dos treinamentos, para determinar o nível de intensidade que será usado com o atleta; no decorrer de um período de treinamento, para determinar cargas de treino; e, principalmente, pelo sistema de adaptabilidade do indivíduo. Não podemos passar este capítulo sem falar desses princípios de treinamento. Começaremos pelo princípio da individualidade. 29 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 4.1 AS VARIAÇÕES DOS PRINCÍPIOS NAS AVALIAÇÕES DESPORTIVAS De acordo com Tubino (1985, p. 100), “chama-se individualidade biológica o fenômeno que explica a variabilidade entre elementos da mesma espécie, o que faz que com que não existam pessoas iguais entre si”. Cada indivíduo possui uma estrutura e formação física e psíquica própria, nesse sentido, o treinamento individual tem melhores resultados, pois obedeceria às características e necessidades do indivíduo. Grupos homogêneos também facilitam o treinamento desportivo. Cabe ao treinador verifi car as potencialidades, as necessidades e as fraquezas de seu atleta para o treinamento ter um real desenvolvimento. Há vários meios para isso, além da experiência do treinador, que conta muito, os testes específi cos são primordiais. Uma das capacidades do rendimento esportivo é a capacidade biotipológica, que está dividida em capacidade constitucional fenótipo e capacidade constitucional genótipo. O genótipo é o responsável pelo potencial do atleta. Isso inclui fatores, como composição corporal, biótipo, altura máxima esperada, força máxima possível, percentual de fi bras musculares dos diferentes tipos, entre outros. O fenótipo é responsável pelo potencial ou pela evolução das capacidades envolvidas no genótipo. Neste se inclui tanto o desenvolvimento da capacidade de adaptação ao esforço e das habilidades esportivas como também a extensão da capacidade de aprendizagem do indivíduo (BENDA; GRECO, 2001, p. 34). O indivíduo deverá ser sempre considerado como a junção do genótipo e do fenótipo, dando origem ao somatório das especifi cidades que o caracterizarão, deve-se entender o genótipo como a carga genética transmitida à pessoa e que determinará preponderantemente diversos fatores e, os potenciais são determinados geneticamente, e que as capacidades ou habilidades expressas são decorrentes do fenótipo (DANTAS, 1998, p. 39). Para Dantas (1998), o campeão seria aquele que nasceu com um ‘dom da natureza’ e que, aproveitando totalmente esse dom, o desenvolve através de um perfeito treinamento. Nos Jogos Pan-Americanos de 2007, verifi camos em entrevistas de atletas brasileiros considerados fenômenos pela mídia, um discurso que os bons resultados obtidos não eram frutos somente de um dom, e sim de muito esforço, trabalho, treinamento, incentivos fi nanceiros e técnicos. Elevando a importância dos fatores ambientais, do fenótipo do atleta, consequentemente, elevamos a importância do treinador, do profi ssional de 30 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo educação física e sua intervenção para o sucesso do atleta, de um campeão. Não cabe aqui discutir fatos históricos ligados às tentativas de manipulações das características genéticas, do genótipo de atleta, através, principalmente, dos ideais da eugenia no decorrer do século XX. Entretanto, sempre caberá em qualquer lugar o alerta com relação às tentativas de manipulação e violação do corpo, da integridade e dos direitos de todo homem. Princípio da adaptação Quando falamos de adaptação temos que pensar em adaptação como um princípio da natureza. Se não fosse esse princípio várias espécies não teriam sobrevivido ou ao menos conseguido sua sobrevivência a alguns ambientes e isso se deve graças à necessidade de adaptação. O próprio homem conseguiu “sobreviver” no planeta, como espécie ou ser vivo, devido a essa capacidade de adaptação. A adaptação é a lei mais universal e importante da vida. Adaptações em nível biológico se manifestam como mudanças funcionais e estruturais em quase todos os sistemas fi siológicos. Podemos defi nir ‘adaptações biológicas no esporte’ como alterações de órgãos e sistemas funcionais que aparecem em decorrência das atividades psicofísicas e esportivas (WEINECK, 2003). A adaptação ocorre constantemente e está dirigida à melhor realização das sobrecargas, representando a condição interna de uma capacidade que foi melhorada com o seu funcionamento, e esse processo existe em todos os níveis corporais. “O processo de adaptação e a sua capacidade pertencem ao processo evolutivo e são uma característica importante na vida. Os processos de adaptações são processos reversíveis e precisam constantemente ser revalidados” (ISRAEL, 1983, p. 141 apud WEINECK, 1991, p. 22). Weineck (2003) promulga em seus estudos que, no esporte, devido a múltiplos fatores de infl uência, o genótipo é completamente transformado em fenótipo raramente, mesmo se o indivíduo fi zesse um treinamento mais pesado. Para o autor, temos as fases sensitivas, que são zonas de limite, e que possuem uma maior adaptabilidade, sendo encontradas em diferentes períodos, para fatores de desempenho de coordenação e condicionamento. Nessa zona limite, é possível uma melhor expressão das características, e essa expressão é chamada de ‘período crítico’ (TUBINO, 2003). Quando temos a assimilação de estímulos, chamamos de capacidade de adaptação ou adaptabilidade, e isso se dá frente à mesma qualidade e quantidade de exercícios ou carga de treino. Ela pode ser atribuída à relação organismo e ambiente, sendo um ponto de vista da predisposição hereditária e sua expressão gênica (genética). 31 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 Esse princípio do treinamento esportivo está ligado de uma forma muito intensa ao fenômeno do estresse fi siológico. As pesquisas relacionadas ao estresse tiveram início em 1920, tendo um grande “boom” no período entre 1950 e 1970, em que praticamente surgiu uma literatura científi ca básica sobre isso (TUBINO,2003). Para Tubino (2003), a homeostase se defi ne como o equilíbrio estável do organismo humano em relação ao meio ambiente. Em resumo, a homeostase representa o equilíbrio do ser humano, que se modifi ca por qualquer alteração ambiental, isto é, para cada estímulo há uma resposta. Por estímulos defi nimos o calor, os exercícios físicos, as emoções, as infecções, entre outros. Conclui- se, com base num grande número de experiências e observações de diversos autores, que em relação ao organismo humano, temos: • estímulos débeis: não acarretam problemas; • estímulos médios: apenas excitam; • estímulos médios para fortes: provocam adaptações; • estímulos muito fortes: causam danos. Segundo Dantas (1998, p. 40), a “homeostase é o estado de equilíbrio instável mantido entre os sistemas constitutivos do organismo vivo, e o existente entre este e o meio ambiente”. Para o autor, a homeostase pode ser “quebrada” por fatores internos, geralmente provenientes do córtex cerebral, ou externos, como calor, frio, situações inusitadas, provocando emoções e variação da pressão, esforço físico, traumatismo, entre outros. Sempre que a homeostase é perturbada, o organismo apresenta um mecanismo de compensação, que procura restabelecer o equilíbrio, portanto, todo estímulo provoca uma reação no organismo, acarretando uma resposta adequada sobre isso. Nesse sentido, o sistema fi siológico busca o equilíbrio constante, estando sempre em um estado constante de equilíbrio. Tubino (2003) relata que, quando o organismo é estimulado, imediatamente aparecem mecanismos de compensação para responder a um aumento de necessidades fi siológicas. Podemos afi rmar que deve existir uma relação entre a adaptação de estímulos de treinamento e o estresse, o que é explicado pelo princípio científi co da adaptação. A defi nição dada ao estresse por Tubino (2003) é a seguinte: estresse ou Síndrome de Adaptação Geral (SAG) é a reação do organismo aos estímulos que provocam adaptações ou danos, sendo que esses estímulos são denominados agentes estressores ou estressantes. 32 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo A Síndrome de Adaptação Geral (SAG) costuma ser dividida em três fases, até que o agente estressante na sua ação atinja o limite da capacidade fi siológica de compensação do organismo: 1ª fase: reação de alarme. 2ª fase: fase da resistência (adaptação). 3ª fase: fase da exaustão. A 1° fase, de reação de alarme, preconiza que os mecanismos auxiliares são mobilizados para manter a ansiedade, a fi m de que a reação não se difunda. É caracterizada pelo desconforto, e está dividida em duas partes: o choque e o contrachoque. Podemos defi nir como choque a resposta inicial do organismo a estímulos aos quais não está adaptado, provocando a diminuição da pressão sanguínea. O contrachoque seria uma inversão de situação, ou seja, quando ocorre um aumento da pressão sanguínea. A fase da resistência é denominada como fase da adaptação, que é obtida pelo desenvolvimento adequado dos canais específi cos de defesa, sendo essa etapa caracterizada pela dor e pela ação do organismo resistindo ao agente estressor e inicial, sendo a fase que realmente mais interessa ao treinamento esportivo. A fase da exaustão é aquela em que as reações se disseminam, em consequência da saturação dos canais apropriados de defesa, apresentando como característica a presença do colapso, podendo chegar até a morte. Tubino (2003, p. 103) ainda menciona que “Eüler observou três tipos de estresse, de acordo com a origem dos estímulos estressantes, sendo eles o estresse físico, o estresse bioquímico e o estresse mental”. É muito importante a utilização correta do princípio de adaptação, tendo cuidado na aplicação das cargas de treinamento, agentes estressantes. Não só de modo realista devemos enxergar o princípio da adaptação, em termos de treinamento, o critério adaptativo pode ser estendido a vários outros fatores além do treinamento fi siológico. Princípio da sobrecarga Depois de aplicada a carga de trabalho, o organismo se recupera imediatamente com o objetivo de reconstruir a homeostase. [...] Usar o fenômeno de assimilação de compensação ou sobrecompensação permite a aplicação gradual do princípio de sobrecarga, e também pode ser severamente danifi cado pela má alocação do tempo de aplicação de carga. O equilíbrio entre a aplicação de carga e o tempo de recuperação garantirá que haja sobrecompensação permanente (DANTAS, 1998, p. 43-44). 33 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 Segundo Tubino (2003), o momento exato de adaptação aos fatores estressantes (estímulos) é, sem dúvida, um dos assuntos mais polêmicos no treinamento esportivo. Há uma visão de que a adaptação é estabelecida durante o intervalo intermediário de treinamento, enquanto outros estudos sustentam o argumento de que a adaptação é feita após o último intervalo de treinamento. Segundo Hegedus (1969), os diferentes estímulos produzem desgastes diversos, que são substituídos quando o trabalho é fi nalizado, e nisso podemos reconhecer a primeira reação de adaptação, uma vez que o organismo é capaz de restaurar as energias perdidas pelos diversos desgastes. Ele se cansa e ainda se prepara para uma carga de trabalho mais pesada, que chama de fenômeno de assimilação compensatória. Assim, sabe-se que não apenas as energias perdidas são devolvidas, mas também são criadas maiores reservas de energia de trabalho. A primeira fase, que é a que restaura as energias perdidas, é chamada de período de restauração, que permite a chegada ao mesmo nível de energia anterior ao estímulo. A segunda fase é chamada de período de restauração prolongada, após o qual o organismo terá uma fonte maior de energia para novos estímulos (TUBINO, 1985, p. 105-106). Para Tubino (1985), estímulos mais fortes devem ser aplicados sempre ao fi nal da assimilação compensatória, principalmente no período mais longo da fase de recuperação estendida, para que o limite de ajuste do atleta seja elevado. Esse é o princípio da sobrecarga, também chamado de princípio da progressão gradual, e sempre será fundamental em qualquer processo evolutivo atlético. Tubino (2003) dá algumas indicações para a aplicação do princípio da sobrecarga, que são referidas nas variáveis volume (quantidade) e intensidade (qualidade), em diferentes tipos de treinamentos, tais como contínuo, intervalado, circuito, musculação, fl exibilidade, agilidade e técnica. O professor ou técnico deve ter bom senso ao defi nir a sobrecarga que ele trabalhará com seu aluno ou atleta, observando todos os demais princípios do treinamento esportivo, sempre levando em consideração as necessidades e os desejos do atleta e, principalmente, o treinamento dentro da ética e dos limites. Princípio da continuidade Esse princípio está intimamente relacionado ao da adaptação, uma vez que a continuidade no tempo é essencial para que o corpo se adapte gradativamente. Uma condição atlética só pode ser alcançada após alguns anos consecutivos de treinamento, e os preparativos anteriores têm uma grande infl uência em qualquer programa de treinamento contínuo (TUBINO, 1985). Essas duas premissas explicam o chamado princípio da continuidade. 34 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Pode-se acrescentar que este princípio compreenderá sempre no treinamento em curso de uma sistematização de trabalho que não permita uma quebra de continuidade, isto é, que apresente uma intervenção compacta de todas as variáveis interatuantes. Em outras palavras, considerando um tempo maior, o princípio da continuidade é aquela diretriz que não permite interrupções durante esse período (TUBINO, 1985, p. 110). A continuidade do treinamento evita que o técnico subtraia passos importantes na formação atlética de um esportista. Em geral, um atleta que tem um alto desempenho, certamente teveuma continuidade ao longo de sua preparação, treinamento e também do aprendizado do esporte praticado. A continuidade também é importante no treinamento amador e recreativo, não apenas em termos fi siológicos, mas também, por exemplo, em termos psicológicos e em outros aspectos, cujos fatores podem afetar a prática atlética. Princípio da interdependência volume-intensidade Esse princípio está intimamente relacionado ao da sobrecarga, pois o aumento da carga de trabalho é um dos fatores que melhoram o desempenho. Esse aumento será produzido em volume e intensidade. Para Tubino (2003), pode-se dizer que os sucessos de atletas de alto rendimento, independentemente da especialização esportiva, estão ligados a uma grande quantidade (volume) e a uma alta qualifi cação (intensidade) para trabalhar, sendo essas duas variáveis (volume e intensidade). As fases de formação devem ser sempre adequadas, obedecendo a uma orientação de interdependência entre elas. “Na maioria das vezes, o aumento dos estímulos de uma dessas duas variáveis é acompanhado por uma diminuição do foco formativo da outra” (TUBINO, 2003, p. 110). As variáveis de volume e intensidade nem sempre são claramente explícitas para o treinador para que ele possa defi nir um treino ou ação com base na relação entre eles. Portanto, usando o bom senso, na dúvida, você nunca deve arriscar ou colocar o atleta ou praticante em risco. Um bom treinador pode ver mais claramente a relação interdependente entre o volume e a intensidade de uma ação ou atividade de treinamento. Princípio da especifi cidade De acordo com Dantas (2014), a partir do conceito de treinamento total, quando todo o trabalho de preparação passou a ser feito de forma sistêmica, integrada e voltada para objetivos claramente enunciados, a orientação do treinamento por meio de métodos de trabalho veio, paulatinamente, perdendo 35 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 a razão de ser. Atualmente, nos grandes centros desportivos, essa forma de orientação do treinamento foi totalmente abandonada em proveito da designação da forma de trabalho pela qualidade física que se pretende atingir. Associando esse conceito à preocupação em adequar o treinamento do segmento corporal ao do sistema energético e ao gesto esportivo, utilizados na performance, ter-se-á o surgimento de um sexto princípio esportivo: o princípio da especifi cidade, que vem somar aos já existentes. Podemos dizer que esse princípio sempre esteve intrínseco em todo o treinamento esportivo, desde o mais rústico nas práticas utilitárias, mas tê-lo como princípio norteador e como um dos parâmetros que devem ser levados em consideração é essencial ao estudo e planejamento crítico e consciente nos treinamentos contemporâneos. O princípio da especifi cidade é aquele que impõe, como ponto essencial, que o treinamento deve ser montado sobre os requisitos específi cos da performance desportiva, em termos de qualidade física interveniente, sistema energético preponderante, segmento corporal e coordenações psicomotoras utilizados. [...] Ao se estudar o princípio da especifi cidade, de imediato sobressai um fator determinante, que é o princípio da individualidade biológica, estabelecendo limites individuais a esta capacidade de transferência. O princípio da especifi cidade irá se refl etir em duas amplas categorias de fundamentos fi siológicos: os aspectos metabólicos e os aspectos neuromusculares (DANTAS, 2014, p. 50). Isso serve, cada vez mais, para fi rmar na consciência do treinador que o treino, principalmente na fase próxima à competição, deve ser estritamente específi co e que a realização de atividades diferentes das executadas durante a performance com a fi nalidade de preparação física se justifi ca se for feita para evitar a inibição reativa (ou saturação de aprendizagem). O segundo componente dos aspectos neuromusculares é controlado, principalmente, pelo sistema nervoso central ao nível de cérebro, bulbo e medula espinhal e pressupõe que todos os gestos esportivos, realizados durante a performance, já estejam perfeitamente “aprendidos”, de forma a permitir que, durante a performance, não se tenha que criar coordenações neuromusculares novas, mas tão somente “lembrar-se” de um movimento já assimilado e executá-lo. Princípio da variabilidade Também denominado de princípio da generalidade, encontra-se fundamentado na ideia do treinamento total, ou seja, no desenvolvimento global, o mais completo possível, do indivíduo. Para isso, deve-se utilizar das mais variadas formas de treinamento (COSTA, 1996). “Quanto maior for a diversifi cação desses estímulos – é óbvio que estes devem estar em conformidade com todos 36 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo os conceitos de segurança e efi ciência que regem a atividade – maiores serão as possibilidades de se atingir uma melhor performance” (COSTA, 1996, p. 357). A atenção a esse princípio diminui a possibilidade do aparecimento de um plateau no treinamento, ou mesmo o aparecimento de fatores desestimulantes, agindo de forma contrária, atuando na motivação e, o mais importante, possibilitando o surgimento de novas técnicas de treinamento, de estratégia, táticas, entre outras, inclusive de novos gestos específi cos, que sob um determinado ponto de visão, sob um treinamento não variável, não seria possível ser identifi cado ou ter aparecido. Um dos alicerces desse princípio é a criatividade, tanto do atleta quanto do treinador. Princípio da saúde Segundo Costa (1996, p. 358), esse princípio encontra-se diretamente ligado ao próprio objetivo maior de uma atividade física utilitária que vise à saúde do indivíduo: Assim, não só a ginástica localizada em si e suas atividades complementares possuem grande importância. Também os setores de apoio da academia, como o departamento médico, a avaliação funcional e o departamento nutricional assumem relevante função no sentido de orientar todo o trabalho, visando à aquisição e à manutenção dessa saúde. Podemos colocar que esse princípio está fundamentado na interdisciplinaridade. No entanto, nem sempre o princípio da saúde tem sido o principal norteador, ou mesmo um dos princípios norteadores. Em práticas de atividades físicas hodiernas, verifi camos não somente aquelas ligadas à aquisição e à manutenção da saúde do praticante, mas também aquelas de alta performance, que podem trazer malefícios devido ao compromisso com o alto rendimento e resultados, e, ainda, as atividades que não têm compromisso algum com o aspecto saúde. Atualmente, pessoas colocam a vida em risco em esportes extremamente radicais quando tentam ultrapassar os limites físicos. Portanto, cabe perguntar: os treinamentos dessas atividades estariam sob o princípio da saúde? De certo modo, com relação ao preparo para a execução da atividade, sim, pois é necessário um certo nível de condicionamento e saúde para tais práticas, e pelo fato de os praticantes estarem fazendo algo que gostam, que é importante para a vida delas e lhes dá prazer. A correlação entre esse princípio e outras perspectivas do esporte é um ponto interessante para ampliar os estudos. 37 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 1 Analise as afi rmações: I. O processo de treinamento pode ser planejado e programado de acordo com certos princípios, chamados princípios do treinamento esportivo. Na prática, o técnico deve ser capaz de compreender esses princípios antes de traçar programas de longo prazo para a preparação de atletas, especialmente para jovens atletas. São: o princípio da sobrecarga; o princípio da reversibilidade; o princípio da especifi cidade; e o princípio da individualidade biológica. II. O princípio da sobrecarga consiste em sobrecarregar o corpo do atleta, de forma adequada, variando a frequência, a intensidade, o volumee a duração do treinamento. A sobrecarga deve ser individualizada e aplicada gradualmente ao longo do processo de treinamento. III. Quando o tempo dedicado ao período de regeneração é adequado às cargas de trabalho, os níveis de atividade enzimática e de substratos metabólicos são restaurados acima dos observados antes do treinamento, e as fi bras musculares são reduzidas. Regenera-se completamente do trauma sofrido. Assinale a alternativa CORRETA: a) As afi rmativas I e III estão corretas. b) Apenas a afi rmativa I está correta. c) Apenas a afi rmativa II está correta. d) Todas as afi rmativas estão corretas. A inter-relação dos princípios De acordo com Costa (1996), faz-se lógico e transparente que essas leis não existem apenas por existir. Cada princípio, considerado individualmente, possui seu valor e função próprios, entretanto, a integração entre esses princípios adquire inestimável importância. Assim, cada princípio assume uma importância maior, um papel mais destacado quando associado aos outros princípios. Apesar dessa importante correlação, os princípios da adaptação, da sobrecarga, da continuidade e da interdependência volume- intensidade é que vão não só dar corpo como orientar toda a aplicação prática do treinamento, ou seja, são os verdadeiros 38 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo responsáveis pela “arrumação” de todo o processo de treinamento, traduzida na forma dos micro, meso e macrociclos de trabalho (COSTA, 1996, p. 358). Podemos certamente concluir que somente com o conhecimento de todos os princípios é possível realizar um treinamento ideal e efi caz. Provavelmente, a excelência em treinamento deve estar acompanhada do profundo saber de todos os princípios aqui comentados, além de outros tantos tópicos do treinamento esportivo. O saber profundo desses princípios e de mais outros tantos conhecimentos não é o único fator determinante para a excelência em treinamento. A excelência só será atingida se houver a inter-relação perfeita entre todos esses saberes e respectivas aplicações, e uma constante reformulação dessa inter-relação, pois esse conceito de reformulação está embutido nos próprios princípios. Componentes das avaliações físicas Após ver todos os princípios é importante determinar e saber as etapas das avaliações para um melhor parâmetro de montagem de uma programação de treinamento. É fundamental seguir alguns parâmetros baseados em antropometria. Uma sequência de fácil manuseio baseia-se em: anamnese, avaliação dos parâmetros fi siológicos, verifi cação da composição corporal e uma excelente avaliação antropométrica. É importante defi nir o local onde serão realizadas essas avaliações, levando em consideração que as avaliações deverão seguir sempre o mesmo local e horário em que foram realizadas desde a primeira vez. Essas podem ser feitas em laboratórios específi cos para avaliação física ou até no “campo” de treinamento. Oriente o indivíduo que realizará as análises do treinamento para trajar roupas que possibilitem o livre movimento, como shorts/ bermuda, top/camiseta, tênis e meia. Importante reforçar que o atleta não deve ingerir nenhum tipo de bebida que contenha cafeína na sua composição. Nos dias dos testes, não ter praticado atividade física intensa e não se deve realizar os testes com o indivíduo em jejum prolongado. Anamnese Segundo Franceschini et al. (2017), para que ocorra uma excelente anamnese, devemos seguir alguns parâmetros importantes, que deverão ser arquivados e, posteriormente, comparados para ver o nível de evolução do avaliado. É importante conter na fi cha de anamnese alguns parâmetros como: 39 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 diagnósticos clínicos (histórico de sintomas e enfermidades), em que serão anotadas todas as intercorrências importantes acontecidas durante um período de tempo que podem infl uenciar a prescrição de treinamento; exames clínicos e físicos realizados anteriormente: caso o avaliado possua algum exame físico anterior é importante para vermos como foi realizado e se houve algumas mudanças importantes. Problemas ortopédicos, uso de medicamentos e alergias são parâmetros importantes para defi nir uma meta de treino ou adaptar uma prescrição conforme a condição do avaliado. Importante também destacar, para o conhecimento do avaliador e treinador, outros hábitos, como tabagismo e etilismo, e profi ssão, caso o indivíduo labore em outros locais (LEÃO; GOMES, 2014). Parâmetros fi siológicos Segundo Leão e Gomes (2014), essas medidas são importantes para tipos e cargas de treino. São utilizados parâmetros como: idade; no caso de o avaliado ser do gênero feminino, o ciclo menstrual, para determinação do treinamento de força e de cargas para se evitar lesões durante o ciclo hormonal; importante também verifi car a frequência cardíaca em repouso e de treino para determinarmos o limiar aeróbio, além do IMC e da relação cintura quadril, o que pode nos dar um parâmetro importante de doenças cardiovasculares. Questionário par-q (physical activity readiness questionaire) O PAR-Q é uma ferramenta simples de autoavaliação, normalmente usado por treinadores para determinar a segurança ou os possíveis riscos do exercício com base no histórico de saúde, sintomas atuais e fatores de risco do avaliado. Também pode ajudar o treinador a criar uma prescrição de exercício ideal para um indivíduo. Todas as perguntas foram elaboradas para ajudar a descobrir qualquer risco potencial à saúde associado ao exercício. O risco potencial mais sério do exercício intenso é o de um problema cardíaco ou outro evento cardíaco súbito em alguém que não foi ainda diagnosticado com problemas cardíacos (WHALEY et al., 2006). Embora o PAR-Q não seja um histórico médico completo, as perguntas visam revelar problemas cardíacos, circulatórios, de equilíbrio, médicos, emocionais e articulares que podem tornar os exercícios difíceis, ou mesmo perigosos, para algumas pessoas. Segundo Whaley et al. (2006), o PAR-Q pode e deve ser usado por qualquer pessoa que esteja planejando iniciar um programa de exercícios e mantê-lo, seja por conta própria ou com a ajuda de um treinador ou instrutor. Também é recomendado para quem deseja aumentar a intensidade de sua rotina de exercícios atuais. 40 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Quais são as perguntas do PAR-Q? O PAR-Q contém apenas sete perguntas de sim ou não, tornando-o rápido e fácil de responder. Essas questões são: 1. O seu médico já disse que você tem problema de coração e que só deve fazer atividade física recomendada por um médico? 2. Você sente dor no peito quando faz atividade física? 3. No último mês, você sentiu dor no peito quando não estava praticando atividade física? 4. Você perde o equilíbrio por causa da tontura ou perde a consciência? 5. Você tem algum problema ósseo ou articular que pode ser agravado por uma mudança em sua atividade física? 6. O seu médico está prescrevendo medicamentos (por exemplo, comprimidos de água) para sua pressão arterial ou problemas cardíacos? 7. Você conhece algum outro motivo pelo qual não deveria praticar atividade física? Resultados PAR-Q Segundo Adams (1999), as respostas a essas perguntas podem ajudar a determinar a prontidão para iniciar um programa de exercícios ou aumentar a intensidade do programa atual. Se a maioria das respostas foram sim, o próximo passo é fazer o PAR-Q +, que é uma série de 10 perguntas de acompanhamento. Essas perguntas mais aprofundadas perguntam se o indivíduo tem problemas de saúde específi cos, como artrite e câncer. Tendo uma resposta sim a qualquer uma delas é recomendado que o indivíduo consulte um médico antes de fazer um teste de condicionamento físico ou aumentar substancialmente a atividade física. Se a maioria das respostas do PAR-Q foram não, pode estar razoavelmente certo de que o indivíduopode se exercitar com segurança e tem baixo risco de ter quaisquer complicações médicas decorrentes do exercício. Ainda é importante começar devagar e aumentar gradualmente. Também pode ser útil fazer uma avaliação de condicionamento físico para determinar por onde começar (ADAMS, 1999). IMC Como vimos, o IMC é extremamente importante, porém não traz parâmetros fi éis, ainda mais com pessoas treinadas, em que o índice de massa deste indivíduo será maior devido a sua condição e isso está relacionado com o aumento de massa magra e não com o aumento de massa gorda (FIGURA 3). 41 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 FIGURA 3 – IMC FONTE: <https://www.efdeportes.com/efd175/analise-do-imc-em- escolares-na-zona-rural.htm>. Acesso em: 6 out. 2021. RCQ – Relação Cintura-Quadril Este é um parâmetro importante, pois correlaciona a concentração de massa gorda com os riscos cardíacos. Quanto mais elevada a concentração de gordura próxima ao sistema cardíaco, maior o risco para o desenvolvimento de doenças neste sistema (Figura 4). Para se calcular, devemos utilizar uma fi ta métrica em volta da região da cintura, na parte mais estreita, passar em volta do quadril, na parte mais larga, e o resultado deve ser calculado dividindo o resultado obtido da cintura pelo do quadril. FIGURA 4 – TABELA DE RISCO CINTURA-QUADRIL FONTE: <https://www.tuasaude.com/relacao-cintura-quadril/>. Acesso em: 6 out. 2021. Análise visual postural Esta análise é fundamental para se visualizar alguns desvios que podem prejudicar o indivíduo ou o treino que está sendo executado, é importante também para determinar a biomecânica do exercício. Neste tipo de avaliação, a importância da visualização será sempre a coluna vertebral (Figura 5), os joelhos (Figura 6) e os pés (Figura 7). 42 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo FIGURA 5 – COLUNA VERTEBRAL FONTE: <https://pt.depositphotos.com/vector-images/escoliose. html?qview=91303554>. Acesso em: 6 out. 2021. FIGURA 6 – JOELHOS FONTE: <https://www.researchgate.net/fi gure/Figura-1-Tres-diferentes-tipos-alinhamentos- do-membro-inferior-A-geno-varo-B_fi g1_303486788>. Acesso em: 6 out. 2021. FIGURA 7 – PISADA FONTE: <https://rsaude.com.br/img/noticias/g/voce-cuida-da-sua- postura-20122017172039.png>. Acesso em: 6 out. 2021. 43 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 1 Uma das medidas mais importantes na antropometria e de fácil aferição é a medida de peso. Para realizá-la, são importantes alguns parâmetros e, principalmente, alguns requisitos. Com relação à aferição de peso, assinale a alternativa CORRETA: a) Verifi cado em uma balança calibrada, em que o indivíduo é posicionado em pé, descalço, no centro da balança e com roupas leves. O valor aferido representa o peso atual do indivíduo naquela data. b) Defi nido com alguns parâmetros, tais como idade, biótipo, sexo e altura. Devido às variações individuais, o peso pode variar de 10% para baixo ou para cima. c) Referência na avaliação às mudanças recentes de peso e em caso de impossibilidade de aferição do peso atual. Geralmente, é o peso que se mantém por maior período. d) O indivíduo deve estar em posição supina e com leito horizontal completo. Marcar o lençol na altura da extremidade da cabeça e da base do pé no lado direito do indivíduo com o auxílio de um triângulo. 5 AVALIAÇÃO NEUROMOTORA É importante salientar que a avaliação neuromotora é essencial para a saúde e as funções fi siológicas dos indivíduos. Sempre buscamos analisar a força dos grupos musculares, denominados fl exores e extensores de tronco, com o objetivo de identifi car alguma assimetria na força desses músculos, já que possíveis diferenças de força entre esses grupos musculares podem estar ligadas a dores ou lesões nessa região (KENDALL, 2007). Poucos indivíduos vão a óbito pela falta de fl exibilidade ou uma força diminuída, no entanto, muitas pessoas sofrem com problemas lombares crônicos e a diminuição da força muscular com o fator de envelhecimento, isso associado à falta e/ou à carência de atividade física, tornando-se visível a importância de exercícios regulares para a manutenção do aspecto neuromuscular, baseados em fl exibilidade, força e resistência muscular localizada. 44 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo 5.1 TESTES DE AVALIAÇÃO NEUROMOTORA Dentre estes testes, podemos começar com os de fl exibilidade, que demonstram a qualidade física, que pode ser defi nida com uma certa amplitude do movimento em algumas articulações e apresenta relevante papel de níveis de aptidão física e saúde. Os testes de fl exibilidade podem ser realizados com medidas angulares, em que os resultados são expressos em graus realizados através de aparelhos próprios para eles. Os testes de medidas lineares, como sentar e alcançar, são os mais difundidos por prescindirem de alguns instrumentos para serem realizados. Os testes de medidas adimensionais avaliam a fl exibilidade, de forma passiva, com aproximadamente 20 movimentos específi cos (KENDALL, 2007). Testes angulares são aqueles que possuem os seus resultados em ângulos (formados entre os dois segmentos corporais que se opõem na articulação). A medida dos ângulos é denominada de goniometria e tem sido o método mais frequentemente utilizado na literatura sobre fl exibilidade e mobilidade articular. Instrumentos: • Flexômetro de Leighton. Fleximeter – (baseado no Flexômetro de Leighton). Eletrogoniômetro. • Goniômetro – (goniometria). Testes adimensionais são os testes de fl exibilidade como adimensional quando não existe uma unidade convencional, tal como ângulo e centímetros, para expressar o resultado obtido. Como regra, eles não dependem de equipamentos, utilizando-se unicamente de critérios ou mapas de análise preestabelecidos. • Testes de Carter – Wilkinson e Beighton – Horan. • Flexiteste – original (20 movimentos analisados). • Flexiteste – adaptado (8 movimentos analisados). Testes lineares se caracterizam por expressar os resultados em uma escala de distância, tipicamente em centímetros ou polegadas. Utilizam primariamente fi tas metálicas, réguas ou trenas para a mensuração. Os testes lineares apresentam como pontos fracos a incapacidade de dar uma visão global da fl exibilidade do indivíduo e a provável interferência das dimensões antropométricas sobre os 45 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 resultados dos testes. Banco de Wells Sentar e alcançar – Seat and Reach Test. • Extensão de tronco e pescoço – Trunk-andreck Extension Test. • Afastamento lateral dos membros inferiores – Side Split. • Teste de Schoberlike – avalia a coluna cervical. • Teste de Schober – avalia a coluna torácica e lombossacro. • Teste de Ott – avalia a coluna torácica e lombossacro. • Teste de tocar os dedos para fl exibilidade do manguito rotador. • Teste de Amplitude de Movimento das Costas Passivo. • Teste de Amplitude de Movimento das Costas Ativo. • Testes Combinados de Flexão do Tronco e da Articulação do Quadril de Calliet. Teste de força Segundo Kendall (2007), a avaliação de força é fundamental para uma prescrição efi caz, tendo como objetivo a promoção da saúde. É importante também para atenuar a diminuição de força muscular e densidade óssea, principalmente quando associada ao processo de envelhecimento. Os estudos de força têm mostrado uma redução dos riscos de lesão articular e musculares que podem ocorrer durante as atividades. Dentre esses parâmetros, podemos destacar também a resistência muscular, que é a capacidade de executar e contrair os grupos musculares repetidamente por um período específi co, podendo causar algum tipo de fadiga ou manter estatisticamente uma contração muscular voluntária máxima por um período prolongado. Alguns testes de forçapodem ser aferidos de forma: isométrica ou estática, em que a musculatura envolvida nesse teste desenvolve tensão sem mudar o comprimento da fi bra muscular; isotônica, também conhecida como dinâmica, em que a tensão deve estar constante em toda a amplitude de movimento, podendo acontecer de forma concêntrica e excêntrica; e isocinética, que são testes realizados com contrações com velocidade constante em amplitudes de movimentos. Neste teste existe a necessidade de equipamentos especiais que permitem a velocidade constante na contração, independentemente da carga. Para uma mensuração de força e resistência, são empregados desde aparelhos, como dinamômetros, tensiômetros e até pesos livres. Podemos classifi car esses testes em força máxima, força explosiva e força rápida. 46 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo 1 Algumas pessoas são mais fl exíveis e possuem um talento natural para algumas atividades, como a ginástica artística ou para atividades mais comuns, como a yoga. Outras têm mais força, tendo uma maior facilidade para atividades, como musculação ou levantamento de peso, como atletas, e existem pessoas que têm uma maior potência aeróbia, sendo mais predispostas a atividades, como corrida e natação. Através disso, percebemos que existem pessoas diferentes, que apresentam diferentes níveis iniciais de aptidão física, tanto morfológica, cardiorrespiratória, muscular e articular. Lendo essa sentença, podemos defi ni-la com qual princípio de treinamento desportivo? Testes de avaliação de força máxima podem ser classifi cados em testes dinâmicos, estáticos e isocinéticos. Os testes dinâmicos utilizam teste de peso máximo, também conhecido como o famoso teste de 1 RM (1 repetição máxima), que avalia a força dinâmica em um determinado músculo ou um grupo muscular, e se refere à quantidade máxima de peso levantado de uma só vez, de forma correta e completa. O teste de 1 RM tem a fi nalidade de aferir a quantidade de força dinâmica máxima executando um movimento completo, abrangendo o arco articular como um todo. Devemos tomar cuidado com esse teste, pois ele deve ser aplicado em pessoas que já fazem uso de trabalho de força e tenham conhecimento corporal (KENDALL, 2007). Para esse teste, serão utilizados aparelhos de treino de força que contenham diversos pesos ou barras e anilhas. Na metodologia do teste, constam as seguintes etapas: primeiro, escolhe-se o músculo ou grupo muscular que será testado. O avaliado realiza uma série de tentativas para determinar a maior carga que é capaz de mover em determinado movimento. A carga inicial deve ser leve, em função de ser a primeira tentativa, e vai aumentando a carga até que o avaliado consiga realizar no máximo uma repetição completa com a maior carga possível. Teste estático: este teste utiliza equipamentos específi cos, que geralmente são os tensiômetros e os dinamômetros, para testar a força máxima isométrica. O tensiômetro tem a característica de ser leve, versátil, portátil, durável, fácil de usar e mensura a força em praticamente todos os ângulos na amplitude do movimento. A fi nalidade é mensurar a força máxima de um músculo ou grupamento em determinado ângulo do movimento. 47 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 a) Princípio da adaptabilidade. b) Princípio da especifi cidade. c) Princípio da individualidade. d) Princípio da progressividade. 2 Este princípio estabelece que, para adquirir uma boa aptidão física, o organismo precisa ser submetido a esforços cada vez maiores (mais intensos ou por um tempo maior, ou ainda em maior frequência), de tal maneira que possa provocar no organismo reações de adaptação que acarretem na melhoria da aptidão. A isto, chamamos de: a) Volume/intensidade. b) Especifi cidade. c) Reversibilidade. d) Sobrecarga. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Vimos neste capítulo as referências históricas do treinamento desportivo e como esses fatos contribuíram para o que conhecemos atualmente. Vimos a evolução, principalmente tecnológica, e como ela infl uencia no planejamento individual e/ou coletivo. Vimos também o quão importante é a antropometria, que provém da antropologia. O principal fator da antropometria é a avaliação como um todo, e sendo uma avaliação de precisão, ela é extremamente importante para avaliar dimensões físicas, nutricionais e composição corporal no ciclo de treinamento. Um fator muito importante de conhecimento são os métodos existentes de avaliação e como estamos inseridos em um “mar” tecnológico, muitos aparelhos estão sendo produzidos com a mais alta tecnologia, benefi ciando não só o avaliado, mas também o avaliador. Vimos que as técnicas que não são tão tecnológicas são também efi cientes, pois nem todos dispõem de uma condição fi nanceira favorável para a compra desses equipamentos. Portanto, mesmo utilizando técnicas menos tecnológicas, o planejamento do treinamento também consegue ser efi caz, e existem diversas técnicas, chamadas de técnicas “puras”, que conseguem realizar esses procedimentos. 48 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Por fi m, vimos as avaliações neurológicas e como elas são efi cientes no planejamento de melhora de performance de um atleta ou de uma equipe. Através de técnicas simples de avaliação de força, estrutura muscular e fl exibilidade podemos aumentar o rendimento de um atleta de forma excepcional. Até o próximo capítulo! REFERÊNCIAS ADAMS, R. Revised Physical Activity Readiness Questionnaire. Can Fam Physician, [s. l.], v. 45, p. 992-995, 1999. ALMEIDA, H. F. R. de.; ALMEIDA, D. C. M. de; GOMES, A. C. Evolução do treinamento desportivo através da história. Site dos Boleiros, c2021. 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A prática da preparação física. 4. ed. Rio de Janeiro: Sprint, 1998. DANTAS, E. H. M. A prática da preparação física. 6. ed. São Paulo: Roca, 2014. 49 ORGANIZAÇÃO E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 1 FERNANDES, J. L. O treinamento desportivo: procedimentos, organizações, métodos. São Paulo: EPU, 1981. FRANCESCHINI, S. do C. C. et al. Técnicas de aferição de medidas antropométricas e de composição corporal. São Paulo: UFV, 2017. GALISA, M. S. Cálculos nutricionais: análise e planejamento dietético. São Paulo: Payá, 2018. HEGEDUS, J. Treinamento desportivo. Coleção Educação Física Escolar. Volume I. São Paulo: Esporte e Educação Ltda., 1969. KENDALL, F. P. Músculos: provas e funções com postura e dor. 5. ed. São Paulo: Manole, 2007. LEÃO, L. S. C. S.; GOMES, M. do C. R. Manual de nutrição clínica para atendimento ambulatorial do adulto. 15. ed. São Paulo: Vozes, 2014. PETROSKI, E. L. Antropometria: técnicas e padronizações. 5. ed. São Paulo: Fontoura, 2001. 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Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins, 2006. 50 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo CAPÍTULO 2 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVO A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: • Planejar de forma técnica os tipos de treinamentos para pessoas e atletas pensando em tempo de treino. • Entender como é a infl uência dos programas de avaliação e planejamento no tipo muscular e como a má gestão destes pode infl uenciar de modo negativo em uma competição de alto rendimento. • Aprender tanto o treinamento coletivo quanto o treinamento individualizado. • Aprender como, onde e quando devemos intensifi car o treino, dar rest pause e incentivar os indivíduos com as mudanças de treino. • Entender as bases do treinamento personalizado frente à periodização de treino. 52 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo 53 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Atualmente, em quase todos os esportes, o ano de treinamento é dividido em vários períodos e ciclos com o objetivo específi co de alcançar o alto rendimento por meio de uma preparação sistemática. Com isso aparecem fases e períodos, surgindo, assim, o termo periodização. Segundo Bompa (2001), entende-se por periodização a subdivisão da época de preparação em estágios com objetivos, diretrizes e características específi cos, o que implica a defi nição de procedimentos e diretrizes de treinamento específi cos. As fases são importantes no planejamento da formação, visto que têm uma infl uência decisiva na organização e estruturação da formação. Os fundamentos que justifi caram a necessidade de dividir a temporada em determinados períodos e fases de preparação residem, inicialmente, na necessidade de responder às especifi cidades do treino, determinadas pelas variações climáticas, adaptação do organismo e, por fi m, pelo reconhecimento de peculiaridades inerentes às diferentes modalidades esportivas, que devem ser atendidas e respeitadas pela lógica do processo de preparação. O conceito fundamental que promove a periodização é baseado na síndrome de adaptação geral, que sugere que a adaptação do corpo passa por três fases quando se depara com uma necessidade. Neste caso, o estímulo oferecido é chamado de choque: quando o corpo enfrenta um novo estímulo de treinamento, a “dor” (desconforto) se desenvolve e o desempenho realmente diminui. A segunda fase é a adaptação do estímulo: o corpo se adapta ao novo estímulo de treinamento e o desempenho aumenta (TUBINO, 2003). Segundo preconiza Tubino (2003), a terceira fase é caracterizada pelo cansaço: o corpo já se adaptou ao novo estímulo, sem qualquer outra adaptação. Nessa fase, o desempenho pode não mudar ou, no caso de muitos atletas altamente motivados, o desempenho pode diminuir devido ao excesso de treinamento. A grande importância da periodização do treinamento esportivo reside na possibilidade de controlar o processo da forma esportiva como um estado ótimo de preparação (o melhor possível) do atleta para alcançar certos resultados esportivos. Em geral, a forma esportiva é uma unidade harmônica de todos os aspectos (componentes) da capacidade ideal do atleta: físico, mental, técnico e tático. Somente a presença de todos esses componentes permite afi rmar que o atleta está em boa fase da forma, tentando fazer coincidir o período de bons resultados com o período das grandes competições. Nesse sentido, a periodização do treino desportivo visa organizar e orientar o processo de preparação para que a 54 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo manifestação da forma aconteça durante a competição ou durante as competições mais importantes da temporada dividida em três períodos: preparação, competição e transição, que correspondem às três fases do formulário, respectivamente, aquisição, manutenção e perda temporária (WEINECK, 2003). 2 MONTAGEM E PLANEJAMENTO DO TREINAMENTO DESPORTIVO O programa anual é uma ferramenta que orienta o treinamento atlético. Segundo Bompa (2001), o treinamento é baseado em um conceito de periodização, que, por sua vez, é dividido em fases e princípios do treinamento. O conhecimento existente sobre planejamento esportivo, bem como o controle de treinamento, é algo que nenhum profi ssional deve ignorar. É igualmente verdade que os treinadores que atuam na área do alto rendimento esportivo aplicam esses conhecimentos de forma fundamentalmente artesanal e individual para melhorar o desempenho de seus atletas (FEAL; NAVARRO; FONTOIRA, 2001). O principal objetivo do treinamento é fazer com que o atleta atinja um alto nível de desempenho em uma certa circunstância, especialmente durante a principal competição do ano, perfazendo uma boa forma atlética (BOMPA, 2001). 2.1 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVO Para uma boa estruturação, temos os conceitos da planifi cação: • A planifi cação não é intuitiva. Pelo contrário, tem que seguir um processo. • Os objetivos devem estar de acordo com os problemas e necessidades, devendo estabelecer-se claramente. • As metas, os objetivos e, em última instância, os fi ns devem ser alcançáveis, realistas (o que não exclui uma certa ousadia e um certo nível de risco). • A planifi cação é um processo sequencial e logicamente ordenado, não se desenvolve tudo simultâneo e nem caprichosamente. • A planifi cação está imersa no meio ambiente, não podendo desprezá-lo e nem trabalhar à margem dele. • Toda planifi cação pressupõe uma troca efetiva a respeito da situação existente. • Planifi ca-se para a execução. Não se pode falar de verdadeira 55 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 Após as Olimpíadas de Tóquio, muitos atletas jovens têm se destacado e até ganhado medalhas em seus esportes, mas o que podemos dizer sobre o treinamento de alto rendimento com crianças? Leia a notícia sobre Giovanna Wacksman, atleta de futebol do Botafogo com 12 anos de idade, que já se revela uma superatleta, disponível em: https://www.fogaonet.com/noticias-do-botafogo/ giovanna-waksman-vai-jogo-botafogo-ganha-camisa-rafael-sera- emprestada-internacional/. planifi cação sem a intenção de pôr em prática o trabalho exclusivamente teórico, deve, portanto, existir vontade de fazê-la efetiva (SANCHO, 1997 apud FORTEZA, 2001). Nesse contexto, Forteza (2001) considera que o planejamento do treino desportivo é a organização de tudo o que acontece nas fases de preparação do atleta, portanto, o sistema que relaciona os momentos de preparação e competição. Essa defi nição deixa em aberto o problema atual do planejamento de desempenho competitivo. Estrutura e planejamento são dois termos indissociáveis no processo de preparação esportiva, mas são diferentes. A estrutura organiza o cronograma para treinamento e competição. A estrutura formativa é de carácter temporário, considera o início e o fi m do processo de preparação e qualifi cação e será determinada basicamente por: • Calendário competitivo, que considera o número de competições, a frequência, o caráter e a dispersão ou concentração das competições em um período de tempo. • Organização e dosifi cação das cargas, que considera se estas serão diluídas ou concentradas. A concepção adotada no caráter da carga, quer dizer, a proporcionalidade entre as cargas gerais e as especiais. • As direções de treinamento, objetos de preparação, que consideram as direções determinantes do rendimento (DDR) e as direções condicionantes do rendimento (DCR). A estruturação do rendimento desportivo é considerada hoje uma das principais condições para se ter umresultado esportivo e isso se aplica a qualquer esporte. 56 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Para analisar uma estrutura de formação atual, deve-se partir da estrutura formulada por Matveiev (1977), conhecida mundialmente como periodização de formação. Periodização e planejamento são conceitos diferentes: periodização é o período e planejamento é a integração do processo de receita. O objetivo deste estudo é mostrar as diferentes estruturas da periodização pedagógica do treinamento esportivo no contexto de uma pesquisa bibliográfi ca. 2.2 O TREINAMENTO ESPORTIVO COMO PROCESSO EDUCACIONAL O treinamento esportivo moderno como processo educacional ocorre sob a orientação de princípios científi cos consagrados, que podem ser divididos em dois grupos básicos: gerais e específi cos (SIFF; VERKHOSHANSKY, 2000). A teoria do treinamento esportivo afi rma que o conhecimento dos princípios científi cos, comumente referidos como leis e regras, podem, na prática, pavimentar o caminho para o sucesso. O próprio regulamento apresenta objetivos, dependências e elos essenciais no domínio da atividade desportiva. Basta formar bases sólidas para a obtenção de resultados esportivos não subjetivos. A diferença entre as manifestações inconscientes das leis e as regras da atividade, que aqui também inclui o esporte, dá a liberdade de escolher uma de suas variantes e leva a resultados diferentes, dependendo da variante escolhida e das circunstâncias específi cas. Segundo Tubino (2003), o efeito de usar os mesmos meios e métodos de preparação esportiva em diferentes situações não é o mesmo. Por isso atribui particular importância à procura de objetivos e à consequente concretização de princípios consolidados, isto é, de teses, que no estado ideal revelam as regras fundamentais e, ao mesmo tempo, a liderança, mais precisamente das condições de prática esportiva. Portanto, o cumprimento do Regulamento de Preparação Esportiva está vinculado à elaboração dos princípios norteadores. Os princípios são adequados apenas se revelarem objetivamente as regras e não forem deduzidos ao acaso. É aqui que os princípios e regras relevantes trabalham juntos: as regras são primárias e os princípios (como uma representação das regras) são secundários. A implementação do plano, fundamentalmente, aborda os principais problemas metodológicos a serem elaborados nas formas de preparação esportiva. Existem pontos em comum quando se trata de fazer ajustes em um plano de preparação anual e um plano de preparação de longo prazo. 57 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 Veremos, agora, o plano de preparação do produto em cada estágio de seu desenvolvimento. As etapas do planejamento da preparação têm muito a ver com praticamente tudo aquilo que devemos fazer antes de chegarmos ao fi nal da elaboração de qualquer planejamento e devemos dar-lhe forma, anotando. Essas etapas estão profundamente ligadas aos problemas relacionados com os fatores que infl uenciam o planejamento (ZAKHAROV; GOMES, 1992). É importante reunir e organizar as diferentes partes que, uma vez devidamente harmonizadas, constituem o próprio plano. Há um grande número de operações a serem realizadas, algumas das quais são muito diferentes. Estude, analise, compare, caracterize pessoas, construa baterias de teste e/ou controle de testes, entre outras. Estes são alguns fatores que não devemos esquecer quando formos montar um plano de treino: 1. Análise da situação anterior. 2. Conhecimento detalhado de modelos de competição e treinamento. 3. Caracterização de cada atleta e seu respectivo grupo. Esta caracterização resulta da comparação dos dados dos dois fatores anteriores (modelos de jogo e preparação) com os resultados da análise da situação anterior. Dessa comparação, teremos dados sobre o que fazer a seguir: a) Estabelecer os objetivos da preparação: elementos fundamentais de ordem física, tática, técnica, psicológica e teórico-metodológica. Os objetivos da preparação podem ser determinados pelos grupos de atletas e individualmente. b) Estabelecer objetivos de desempenho: classifi cação na prova; promoções para níveis superiores; convocar jogadores para times estaduais, nacionais e internacionais. c) Defi nição de ideias de jogos (no caso de jogos desportivos): será com base nos objetivos estabelecidos e no conceito de jogo defi nido que veremos quanto tempo vai demorar para os atingir. 4. Conhecimento do calendário competitivo. No caso de elaboração de um plano de preparação, basta conhecer as principais competências, o que lhe permitirá estabelecer o prazo específi co. • Para a elaboração de um plano anual de preparação, no entanto, é necessário conhecer todas as competições em que os atletas participarão, independentemente da sua natureza. 58 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo • Estabelecido o calendário competitivo anual completo, é determinada a ordem de importância das partidas ou competições. É a ordem de importância que servirá de base para a periodização do processo de preparação anual e a determinação dos diferentes mesociclos de treinamento, cada um com sua especifi cidade. 5. Programação de taxas de treinamento esportivo. Sendo a forma esportiva o resultado qualitativo do processo de preparação, parece claro que não deve continuar a ser avaliada por meio de frases, como ‘me sinto bem’, ‘não me sinto bem hoje’ etc. Quantas vezes nós treinadores já ouvimos essas frases, ou semelhantes, que tentam demonstrar que o praticante se sente ou não capaz de realizar determinadas tarefas (no treinamento ou mesmo diretamente na competição). A forma desportiva é o objetivo do treino e é fundamental que possamos identifi cá-la. O desenvolvimento tecnológico, na era das tecnologias da informação, facilita essa ação. Portanto, a forma esportiva deve ser expressa, na medida do possível, por meio de dados objetivos obtidos em diagnósticos médicos biológicos, bem como por meio de dados específi cos fornecidos pela própria competição. Assim, é possível ter: a) resultados em testes de controle específi cos; b) valores de índices funcionais, consumo máximo de oxigênio, capacidade de esforço anaeróbio; c) resultados de comportamento psíquico. 6. Estabelecer números de indicadores de prontidão; para cada mesociclo, o número de: dias de preparação; sessão de treinamento; jogos e competições; dias de descanso etc. 7. Teste. É necessário identifi car os momentos em que é conveniente e útil aplicá-los de acordo com a divisão em mesociclos obtida após a determinação da ordem de importância dos jogos e das diferentes competições. Os resultados são registrados em planilhas individuais. 8. Controle médico. Pode ser geral ou parcial. As datas de implementação devem ser estabelecidas. Além disso, as marcações não podem ser escolhidas aleatoriamente, há momentos em que é necessária a supervisão médica e outros em que é aconselhável. Aqui estão alguns exemplos: • Antes de começar. • Antes de um período difícil de competição, para saber em que condições se encontram os atletas. • Antes do período de transição, para saber como organizar esse tempo para cada atleta. 59 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 9. Meios de manter e restaurar a efi ciência. Eles serão específi cos dependendo das características dos mesociclos nos quais serão usados. 10. Apoio científi co e metodológico. Também terá um caráter específi co, dependendo dos diferentes tipos de mesociclos, que podem ser: a) pesquisas laboratoriais (por exemplo, determinações bioquímicas); b) investigações de campo (por exemplo, observação e coleta de dados para avaliação estatística da própria equipe e dos futuros adversários; controle do treinamento por meios telemétricos). 11. Aspectos materiais e administrativos. É você quemfi nalmente permite que o plano se concretize ou não. Precisamos ter uma ideia muito clara de ‘em que podemos confi ar’. Esta também é a área por excelência para uma cooperação estreita e efi caz com diretores de esportes. 12. Elabore o plano e não se esqueça da documentação anexa (fi chas desportivas, principais grupos de recursos a utilizar no processo de treino, documentação de treino, aspectos de individualização de treino etc.). Como todo plano tem necessariamente uma parte descritiva e um gráfi co, cada treinador deve desenhar um certo número de formas (incluindo mesociclo, microciclo, treinos, formas de atleta etc.). 2.3 PLANEJAMENTO DE LONGO PRAZO Atualmente, você difi cilmente pode esperar muito dos planos de curto prazo, que ocorrem em quase todas as áreas da vida. Parece não haver nada melhor do que exemplos (GOMES, 2009). Alemanha, Canadá e Cuba, três países que não pertencem ao grupo das grandes potências mundiais em termos de população, mas que se inserem no campo dos esportes de alto rendimento. Se muitos fatores diversos contribuíram para essa situação, que em cada caso foram necessariamente diferentes, a verdade é que esses países se benefi ciaram muito com a existência de planos de formação de longo prazo. 60 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Quanto ao plano de preparação de longo prazo, existem duas alternativas para a sua elaboração. O primeiro refere-se à preparação dos atletas de um clube e o segundo aos componentes das diferentes equipes. Portanto, não é realizado para todas as categorias de atletas e inclui apenas os grupos devidamente selecionados. Esses planos costumam ter duração de quatro anos (infl uenciados pelos ciclos olímpicos), mas também podem ser desenvolvidos por um período mais curto (dois ou três anos), como superar o baixo nível de qualidade dos atletas de um determinado clube ou por muito tempo. Um plano de preparação de longo prazo consiste nos seguintes componentes: Dados preliminares (parte descritiva) a) Caracterização do valor atual da respetiva modalidade e aprofundamento das suas tendências de desenvolvimento. Conhecer os modelos e analisar a situação anterior são aspectos que têm muito a ver com outros já mencionados. Além disso, também é necessário examinar com muito cuidado quais aspectos são fundamentais e decisivos para que os componentes individuais do processo de treinamento (físico, técnico e psicológico) alcancem resultados de alto nível. Outros aspectos estão relacionados à necessidade de prever os resultados e estabelecer a hierarquia de valores para cada modalidade. b) Composição do grupo e caracterização individual e detalhada dos atletas. Devem aparecer aqui os elementos que nos permitem ter a nossa disposição uma primeira imagem da matéria humana. É necessário ter a informação mais completa possível sobre cada atleta, referente à(a): • Idade, peso, altura, equipe em que compete. • Funções desempenhadas (alternativa principal), tempo de exercício, origem (antigo treinador). • Índices morfológicos e funcionais. Gomes (2009) explicita em seus estudos que é fundamental uma pequena anamnese destacando os dados relevantes (parâmetros do esforço anterior do atleta, elementos relativos ao último período imediatamente anterior ao planejamento, estado de saúde, trauma sofrido e características fundamentais do processo preparatório a que foi submetido). Todos esses elementos podem e devem ser registrados. 61 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 c) Novos elementos em preparação. Precisamos estar atentos a novos desenvolvimentos, e o mais importante é saber exatamente como e quando podemos apoiar e enriquecer efetivamente o nosso processo de formação. Elementos de conteúdo gráfi co a) Defi nição de objetivos. Os objetivos serão divididos em gerais, grupais e individuais. Para atingir seus objetivos, você precisa se fazer algumas perguntas durante o processo de preparação. Para uma melhor e mais efi ciente organização do trabalho, é bom que tenhamos uma divisão muito clara dos problemas a resolver. Portanto, uns se referirão ao aprendizado, outros à correção de um ou outro detalhe, e outros apenas ao seu aprimoramento. Parece necessário destacar algumas considerações sobre a metodologia a ser seguida para a determinação dos objetivos. Em seguida, iniciaremos com uma análise do desempenho da equipe e dos atletas no ano esportivo anterior, bem como uma apreciação dos resultados esportivos alcançados. Os objetivos de desempenho podem ser de ordem diferente. Portanto, podemos ter, entre outras possibilidades, o seguinte: • Classifi cações das várias competições (as principais) em que a equipe ou atleta participará. No caso da equipe, deve-se estabelecer a quantidade de pontos com que será possível obter a vaga desejada. Para o atleta individual, deve ser feita uma previsão do resultado necessário. • Promoção de um a dez atletas pela Seleção Nacional. Quanto aos objetivos de preparação, eles devem ser aumentados ano a ano e compreender os elementos fundamentais que permitirão o cumprimento do modelo e dos objetivos fi nais. Devem ser estabelecidas metas para cada componente do processo de treinamento esportivo (preparação física geral e especial, preparação técnica, preparação tática, preparação psicológica e preparação teórica) e para cada ano de sua duração. • b) Calendário de competições. Inclui apenas as competições principais (campeonato nacional, competições internacionais ofi ciais), de acordo com as quais serão processadas. c) Formas e locais de preparação. As formas de preparação podem ser: fases (em altura, costa, entre outras), torneios multi-dias, fases especiais de preparação, preparação normal no clube, fases de preparação comuns com clubes ou seleções, entre outras. 62 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo As formas e locais de preparação são escolhidos em função das possibilidades materiais existentes, dos objetivos propostos, da periodização do processo formativo e da necessidade de aperfeiçoamento. O diagnóstico e os exames médicos são importantes para conhecer a evolução dos índices (carta desportiva). d) Parâmetros de preparação. Este item deve incluir os dados mais signifi cativos e cruciais para o progresso: número de sessões de treinamento (com a equipe, com grupos de atletas, individualmente), número de partidas e/ ou competições, número de dias de preparação, número de dias de treinamento, viagem, número de dias de descanso, tempo dedicado à preparação física, tática e técnica, entre outros. Plano anual de treinamento do ciclo O plano anual é um documento obrigatório para qualquer categoria de atleta. Portanto, pode ou não vir de um plano de preparação de longo prazo. Nesse caso, servirá para atingir gradativamente os objetivos traçados em segundo plano e deverá incluir elementos com infl uência direta, no que diz respeito à preparação dos atletas para as necessidades atuais e de longo prazo. Um plano de preparação anual deve incluir: Conjunto de dados preliminares (parte descritiva). a) Equipe de especialistas. Serão apenas anotadas as mudanças que possam ter ocorrido e estudadas as possíveis consequências nas diferentes formas de colaboração e na dinâmica de relacionamento que deve existir entre os diferentes membros da equipe. b) Composição do grupo de atletas. c) Defi nição de metas. d) Calendário de competições. Com relação ao plano de preparação de longo prazo, Weineck (2003) relata que se devem considerar todos os jogos ou competições em que a equipe e/ou atletas competirão, independentemente de sua natureza. O calendário competitivo completo nos fornece a periodização do treinamento. A ordem de importância dos jogos nos leva a dividir o processo de preparação em diferentes mesociclos, cada um com sua especifi cidade bem defi nida. a) Formas e locais depreparação. 63 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 b) Parâmetros de preparação e compromisso. Escalonado por mesociclos, com registro e controle estrito da relação entre o que é planejado e o que é feito. c) Testes de controle. Exame médico. Direção de moda esportiva. d) Meios de recuperação e esforço. e) Assistência metodológica científi ca (pesquisa, documentação, controle de treinamento, entre outros). f) Aspectos materiais e administrativos. Análise detalhada da situação anterior (dos atletas e da equipe). Proceda conforme descrito no plano de preparação de longo prazo. 2.4 MONTAGEM DE PROGRAMAS DE AVALIAÇÃO Durante todo o processo da atividade motora do indivíduo, muitas tarefas motoras têm que ser resolvidas. A solução dessas tarefas está relacionada à percepção da atividade motora (AM). A atividade motora, que faz parte da atividade integral do indivíduo, deve estar sempre atenta e orientada. A diferença entre o princípio da atividade motora e o movimento em função do organismo humano se manifesta por meio da locomoção motora humana de duas maneiras: • manutenção constante da posição corporal (postura); • deslocamento do corpo em relação ao meio circundante ou deslocamento de algumas de suas partes em relação a outra (PLATONOVOV, 2008). As ações motoras constituem um meio completo e específi co de preparação do atleta, e cada tipo de atividade esportiva se caracteriza pelo seu conjunto de ações motoras. Como regra geral, um movimento conjunto por si só ainda não constitui um AG independente. A ação com a qual o atleta resolve a tarefa motora é composta por movimentos articulares distribuídos e interligados no espaço e no tempo. Em cada ação motora, movimentos isolados podem ser condicionalmente distinguidos. Assim, no salto em altura, destacam-se: impulso, ação combinada de elevar a perna acima da barra e aterrissar (BARBANTI, 1997). O exercício físico é a base da preparação do atleta como processo pedagógico. Portanto, os exercícios físicos são a principal forma de utilização das ações motoras na preparação esportiva. O exercício físico integrado ao processo de preparação do atleta pode ser defi nido como a atividade motora incluída no sistema geral de possíveis infl uências pedagógicas destinadas a resolver as tarefas de preparação do atleta. A corrida, por exemplo, adquire importância no 64 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo exercício físico quando é utilizada de acordo com as necessidades justifi cadas do ponto de vista de preparação do atleta (GOMES, 2009). O exercício está necessariamente relacionado ao método, uma vez que o processo organizado, visando à melhoria de quaisquer qualidades do indivíduo e assumindo um sistema estável de ações repetidas, possui as interconexões necessárias para a solução das tarefas planejadas e não apenas um conjunto aleatório de operações. Portanto, tais ações, em essência, formam um método. Na linguagem esportiva, o termo “meio” indica o que é usado e o termo “método” como os meios são usados no processo de atingir a meta de preparação. Assim, o exercício representa os meios e a forma como é utilizado representa o método (TUBINO, 2003). Ao lado das ações motoras, existem muitos outros fatores relacionados à mídia, cujo uso direcionado determina a efi ciência da preparação do atleta. Por exemplo, como meio de preparar o atleta, o seguinte deve ser considerado: • Equipamentos especiais: o material desportivo, as instalações desportivas, os aparelhos de treino desportivos, os aparelhos de ginástica, a barra de ferro, a aparelhagem de diagnóstico – testes, piscinas. • Fatores da natureza: a infl uência do ar e da água, a radiação solar, as condições climáticas das zonas montanhosas etc. • Condições sociais e ecológicas de vida dos atletas: as condições de vida cotidiana, o regime de sono, os estudos, o trabalho, os fatores social, econômico e cultural etc. • Alimentação do atleta: deve ser vista como fator importante na preparação, o que determina, no organismo, a recepção das quantidades necessárias de substâncias ricas de energia, água, microelementos, vitaminas e sais. • Fatores de recuperação: a massagem, os preparados farmacológicos, a fi sioterapia, a sauna etc. • Infl uências informativas: a informação verbal e visual do técnico, a observação como forma de obter dados. É costume caracterizar o exercício físico pela forma e pelo conteúdo. A forma do exercício físico é determinada pelos parâmetros dinâmicos e cinemáticos. A cinemática fornece a ideia do aspecto externo dos movimentos do atleta e caracteriza-se pelos seguintes parâmetros: • Espaço: a posição do corpo e de suas partes e a amplitude do movimento. • Tempo: a duração do exercício. 65 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 • Espaço e tempo: a velocidade, a aceleração e a desaceleração. As características dinâmicas dão uma ideia das forças que infl uenciam o movimento do corpo. Esses parâmetros são infl uenciados pelas forças relacionadas ao movimento. A ideia integral da forma de exercício físico está expressa na ‘técnica do exercício físico’. O conteúdo do exercício físico é revelado no processo de atividade locomotora imediata do indivíduo e é caracterizado por sua “carga”. É preciso orientar, na diversidade dos exercícios físicos, o que melhor corresponde, em volume mais completo, às tarefas de preparação. A seguir, você poderá ver algumas maneiras de classifi car os exercícios com base em diferentes indicações. Classifi cação dos exercícios Dependendo do regime de contração muscular em movimento, a contração muscular em exercício pode ser estática ou dinâmica. Os exercícios físicos estáticos são aqueles relacionados à manutenção da posição adotada, como a posição do corpo nos exercícios ginásticos nas argolas “cruzadas”. Os exercícios físicos dinâmicos estão relacionados ao movimento do corpo ou partes do atleta (por exemplo, exercícios para correr e pular). A divisão dos exercícios em dinâmicos e estáticos é muito convencional, pois a maioria dos movimentos é realizada combinando regimes dinâmicos e estáticos com contrações de diferentes músculos. Portanto, para realizar o movimento dinâmico da mão ou perna, todos os músculos do tronco devem primeiro se certifi car de que estão em uma determinada posição estática. Por outro lado, para manter a posição, é necessário que, antes de qualquer ação que perturbe essa posição, sejam realizados os correspondentes movimentos dinâmicos compensatórios (FORTEZA, 2001). Quanto à estrutura do movimento, os exercícios dinâmicos dividem-se em cíclicos, acíclicos e mistos (BOMPA, 2001). Os exercícios cíclicos são caracterizados pela repetição múltipla de ciclos de movimento em relação à estrutura biomecânica. Ao fi nal de cada ciclo de movimentos, todas as partes do corpo do atleta voltam à posição inicial (corrida, natação, ciclismo etc.), o que permite a possibilidade de repetição dos movimentos por muito tempo. Os exercícios acíclicos caracterizam-se pela variação no fi nal do movimento em comparação com a inicial, o que exclui a possibilidade da repetição reiterada e ligada de tais movimentos (ex.: arremessos e ações motoras nos jogos desportivos). 66 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Quanto aos exercícios mistos, são os que combinam os movimentos do tipo cíclico e acíclico (ex.: o salto com vara). Dependendo do volume da massa muscular ativa que participa no movimento, os exercícios físicos classifi cam-se em exercícios localizados, regionais e globais (TUBINO, 2003). Os exercícios locais são aqueles cuja realização participa até um terço de toda a massa muscular do corpo do atleta (ex.: o exercício feito apenas com os músculos do braço ou da perna). Os regionais são os exercícios cuja realização envolve de um terço a dois terços detoda a massa muscular (ex.: exercícios com halteres deitado). Os exercícios globais são os que envolvem mais de dois terços de toda a massa muscular (natação, corrida, esqui etc.). Essa classifi cação é importante do ponto de vista do sistema energético do exercício (GOMES, 2009). Weineck (2003) relata que, com todas as condições iguais, os exercícios globais têm valor energético maior. O aperfeiçoamento físico do indivíduo adquire uma orientação especial de preparação somente quando os exercícios são escolhidos considerando-se sua signifi cância para o aperfeiçoamento da atividade motora na modalidade desportiva praticada. A orientação especial constitui o pivô metódico, que determina a estrutura e o conteúdo dos meios de preparação do atleta. É por isso que se utiliza mais amplamente, na teoria e na prática de preparação dos atletas, a classifi cação dos exercícios físicos segundo a medida de semelhança das características cinemáticas e dinâmicas das ações motoras que compõem o exercício físico dado, com as ações motoras que baseiam a modalidade escolhida da atividade competitiva. De acordo com esse indício, todos os exercícios físicos dividem-se em exercício competitivo, preparatório especial e preparatório geral. Exercício competitivo É uma atividade motora integral, dirigida no sentido da solução da tarefa locomotora que constitui o objeto da competição e realizada de acordo com as regras da modalidade a ser competida. É importante salientar os exercícios competitivos propriamente ditos, realizados em condições reais, com todos os requisitos próprios das competições. A forma de treino (modelo) do exercício competitivo coincide com a primeira forma pelas principais características cinemáticas e dinâmicas dos movimentos, mas cumpre-se nas condições do treino e é dirigida para a solução das tarefas deste. Como exemplo, podemos mencionar o combate no boxe ou a corrida na distância igual à de competição, objetivando obter o resultado máximo (GOMES, 2009). 67 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 Exercício preparatório especial Representa o exercício que é muito semelhante, por seu parâmetro, aos competitivos. A especialização é um princípio de melhoria muito importante em qualquer tipo de negócio. É por isso que esse tipo de exercício representa o principal meio que condiciona a melhoria dos resultados desportivos. Deve-se notar que os exercícios preparatórios especiais não são idênticos aos exercícios competitivos, caso contrário, não haveria razão para recorrer a ele. Esses exercícios são usados para garantir a infl uência mais considerável e seletiva que corresponde aos parâmetros determinados do exercício competitivo integral (MATVEIEV, 1977). Os exercícios preparatórios especiais representam um modelo seletivo dos componentes da atividade competitiva. São muito importantes na preparação especializada do atleta, visto que, nos estágios iniciais de preparação, a adesão total ao exercício competitivo é inacessível, devido ao baixo nível de aptidão física. Existe a possibilidade de modelar, no processo de treinamento, alguns parâmetros, com limitada reprodução simultânea de outros. Tudo isso torna o exercício acessível. Os exercícios preparatórios especiais aproximam-se gradualmente dos competitivos em seus parâmetros. Como exemplo dessa modelagem parcial, podemos usar um ciclista ao pedalar em ritmo de corrida, mas com transmissões baixas, ou em corridas com uma motocicleta na liderança. Nesse caso, um parâmetro corresponde totalmente ao fator rítmico dos movimentos, e o outro se limita ao regime de força do exercício (BOMPA, 2000). Nos esportes cíclicos são muito comuns exercícios preparatórios especiais, nos quais são previstas distâncias menores que a distância da corrida, mas com a velocidade da corrida, ou, inversamente, trechos mais longos, mas com velocidade menor que a corrida. Em modalidades de coordenação complexa, como a ginástica, o exercício pode ser utilizado com a execução de toda a combinação de competição, mas com uma distribuição dos elementos mais longa no tempo do que o exercício de competição (competitiva). 68 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo 1 A periodização é um dos conceitos mais importantes no planejamento do treinamento. O termo vem da palavra período, que é uma porção ou divisão do tempo em segmentos menores, mais fáceis de controlar, chamados de fases. Existem três períodos: 1) Período de planejamento. 2) Período preparatório. 3) Período competitivo. 4) Período transitório. Quais seriam eles? a) 1, 2 e 4. b) 2, 3 e 4. c) 1, 2 e 3. d) 1, 3 e 4. Exercício preparatório geral Para Tubino (2003), o exercício pode ou não ser semelhante aos principais exercícios competitivos. Visto que o organismo humano é único, o desenvolvimento de algumas propriedades não ocorre isoladamente do desenvolvimento de outras. Uma especialização extremamente estreita, na qual o necessário desenvolvimento multilateral é ignorado, contradiz o desenvolvimento natural do organismo. Ter isso em mente é fundamental em crianças e adolescentes. Todas as experiências na preparação de atletas mostram que o sucesso da especialização esportiva em uma determinada modalidade depende em grande parte do desenvolvimento físico multilateral. De acordo com essa disposição, a melhoria do nível geral das capacidades funcionais do corpo do atleta é essencial para o sucesso da especialização desportiva. Essa importante tarefa preparatória é resolvida com a ajuda dos exercícios preparatórios gerais (ZAKHAROV; GOMES, 1992). A prática desportiva acumulou ao longo da sua história uma enorme quantidade de exercícios preparatórios gerais, porém, na resolução de tarefas preparatórias, tendo em conta a sua abordagem particular, a composição dos 69 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 meios de preparação geral do atleta é escolhida de forma a poder contribuir precisamente para o desenvolvimento de qualidades dominantes no desporto escolhido. Todos os meios de treinamento esportivo mencionados não são apenas formas de preparação física, mas também de preparação técnica, tática e psicológica. Ao mesmo tempo em que são usados meios específi cos, são utilizadas formas variáveis de preparação intelectual, moral e estética. A seguir, serão descritos exemplos de exercícios para desenvolver habilidades motoras. Métodos pedagógicos de preparação desportiva O método de preparação desportiva está diretamente ligado ao objetivo pretendido, o qual representa um sistema estável de ações consecutivas direcionadas para a solução de tarefas programadas anteriormente. A preparação integral do atleta pressupõe a obtenção de vários objetivos, que determinam os mais diversos meios e métodos de preparação desportiva. Para cada componente do sistema de preparação do atleta, existe uma composição de métodos. Na sequência, será abordada apenas a característica geral dos métodos de infl uência pedagógica. Tais métodos, para podermos estudá-los com profundidade, serão divididos em três grupos: infl uência prática, verbal e demonstrativa (MATVEIEV, 1977). A especifi cidade da preparação do atleta pressupõe a orientação predominante das infl uências sobre o aperfeiçoamento das capacidades locomotoras do organismo humano, que determina o signifi cado dominante dos métodos de infl uência prática. No processo de preparação do atleta, tais métodos são apresentados, preferencialmente, pelos métodos de exercício físico. Os dois outros grupos de métodos, infl uência verbal e demonstrativa, são complementares para a ótima realização dos métodos práticos (ZAKHAROV; GOMES, 1992). Os métodos de infl uência prática são referendados pelos métodos de exercício físico conhecidos como: programados, de jogos e competitivos. Método de infl uência prática “programado” A programação é uma condição necessáriapara a infl uência direcional dos métodos de treinamento e ajuda a resolver com efi cácia as tarefas de 70 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo preparação. Qualquer método possui um certo grau de programação, mas o grau e os parâmetros são diferentes (TUBINO, 2003). Os métodos de exercícios programados prescritos são muito diversos. Os aspectos internos do conteúdo de cada método possuem características muito específi cas. É conveniente comparar as características de cada método com os objetivos específi cos de preparação do atleta. Cada método possui uma série de variáveis, que são utilizadas conforme a demanda pela tarefa de movimento aumenta. Portanto, apresentaremos a seguir apenas a classifi cação geral dos métodos com base em evidências externas baseadas em exercícios. Todos os métodos de exercícios programados podem ser divididos em dois subgrupos: • Métodos orientados para o ensino da técnica das ações motoras. • Métodos orientados para o treinamento das capacidades motoras. Essa divisão com certeza é considerada convencional, pois qualquer execução prática do exercício possui infl uência conjugada sobre diversos aspectos de preparação do atleta. Dessa forma, tal classifi cação permite distinguir os diversos elementos que são próprios desses métodos. Métodos de ensino da técnica de ações motoras Destacam-se dois enfoques metodológicos principais do ensino da técnica das ações motoras: o integral e o dividido. a) Método de ensino integral Sua premissa é realizar um estudo abrangente sobre a técnica do movimento. Sua principal vantagem é que a tecnologia da atividade esportiva pode ser assimilada na interação permanente de suas etapas de forma holística, de forma que o ritmo da ação e sua estrutura geral sejam mantidos. Quanto às defi ciências, podemos destacar: • A difi culdade de aplicar o método no ensino das ações motoras complexas. • As difi culdades na correção dos erros, pois o técnico não é capaz de corrigir imediatamente todos os erros cometidos durante a realização do exercício. • A difi culdade de prestar atenção seletiva ao aperfeiçoamento de certos elementos das Ações Motoras (AM). • O rápido cansaço do atleta promovido pela múltipla repetição do exercício. 71 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 Esse método é utilizado para o aprendizado preliminar de movimentos motores relativamente simples, que envolvem técnicas ou movimentos, que não podem ser divididos sem destruir as etapas e os elementos destacados. É amplamente utilizado na fase de consolidação e aprimoramento da tecnologia AM. O método de execução integral múltipla de AM pode ser usado nas seguintes variantes (HARTMANN et al., 2009): • execução repetida da AM com o consequente aperfeiçoamento dos elementos e dos detalhes; • repetição múltipla da AM nas condições permanentes com o objetivo de sua consolidação; • execução com as condições crescentes que se aproximam das realizadas em competição; • execução nas condições complexas (com muito cansaço, com a presença do adversário, com as condições climáticas etc.). b) Método de ensino dividido (analítico-sintético). Representa a divisão da atividade motora em elementos ou em fases relativamente independentes, que podem ser aprendidos de modo autônomo, com sua posterior ligação globalizada. A possibilidade de uma concentração mais completa da atenção do atleta durante a fase de apostas, bem como melhorias mais detalhadas, constituem seus aspectos positivos. Ao utilizar os componentes dessa tecnologia, exclui-se a execução repetitiva das peças e etapas que não foram assimiladas. Dessa forma, erros estáveis podem ser evitados (destacados no método de ensino integral). Gomes (2009) afi rma que a execução da parte isolada não é tão cansativa quanto a execução da ação integral. Portanto, o número de repetições de elementos na ação pode ser aumentado. Recomenda-se dividir as atividades esportivas para minimizar o número de desfi gurações na parte destacada. Sua assimilação não pode ser considerada automação (nível de hábito). Uma desvantagem considerável desse método é que ele não deve ser usado onde AM não pode ser segmentado (por exemplo, pular ou chutar na ginástica) ou não pode ser segmentado sem desfi guração signifi cativa da parte proeminente. Mesmo no caso mais vantajoso, quando partes ou fases relativamente independentes são destacadas na tecnologia AM, é impossível manter completamente suas próprias características na composição de um AM completo. Quando as partes separadas das atividades esportivas são apresentadas na forma de exercícios, chamados de ‘exercícios semelhantes’, as defi ciências dos métodos de ensino segmentados são reduzidas. Eles representam variantes simplifi cadas de ações de trabalho ou partes separadas da AM geral (FORTEZA, 2001). 72 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo As principais variantes desse método são: • o estudo separado dos elementos da ação com posterior ligação para o movimento total; • o ensino consequente dos elementos da técnica da AM com sua ligação gradativa (ensino da técnica da AM com o método de “intensifi cação”; • o destaque dos elementos da AM, para curto período, para sua precisão; • o aperfeiçoamento dos elementos da AM sob a forma de exercícios. Métodos de treino das capacidades motoras Na classifi cação geral dos métodos voltados ao treinamento de habilidades motoras fi nas, existem indicações externas para o exercício, portanto, o exercício pode ser realizado em um intervalo contínuo (permanente) ou em regime misto. Cada uma das variantes pode ser caracterizada por exercício constante ou variável. Os seguintes modos de exercício planejados são então destacados, aplicáveis para melhorar as habilidades motoras (TUBINO, 2003). O método de exercício de carga contínua é caracterizado por desempenho de exercício prolongado sem mudanças frequentes de ritmo. As mudanças de ritmo de carga são programadas com antecedência e podem ser concentradas na prática de várias maneiras. Esse tipo de capacidade aeróbia (VO2 máx.) é utilizado nos esportes, principalmente nas modalidades em que o desempenho depende dessa fonte de energia, tais como natação, ciclismo, atletismo, remo, canoagem, entre outros (GOMES, 2009). O método de exercício contínuo pode ser controlado em sua intensidade pelos parâmetros de frequência cardíaca, concentração de lactato e velocidade média de execução do exercício: o volume é controlado pela duração total do exercício. O importante é que o técnico observe com que dinâmica de carga pretende administrar o trabalho, pois esta está diretamente correlacionada com o nível apresentado pelo atleta. Método de exercício de carga com intervalo O exercício de carga com intervalo deve ser estruturado com o objetivo do treinamento em mente. Na organização da sessão de treinamento, o treinador seleciona a dinâmica de carga compatível com o seu objetivo de treinamento, determinando, assim, a dinâmica a ser utilizada ou o número de repetições ou séries que deve compor o programa de treinamento. O volume está diretamente relacionado ao tipo de esporte. Os exercícios de intervalo devem ser uma prioridade em esportes de combate, jogos de equipe e uma série de outros esportes de curta duração (BOMPA, 2000). 73 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 Método de exercício de carga mista (intervalado e contínuo) É importante observar a dinâmica das cargas mistas, em que a prioridade é sempre começar com cargas intervaladas e terminar com cargas contínuas. Na prática, é muito comum que o treinador decida, por exemplo, no início do treinamento, treinar o sistema anaeróbio alático e fi nalizar o treinamento com o sistema aeróbio, podendo compor o trabalho de diferentes formas, dependendo do esporte e da prioridade do treino (MATVEIEV, 1977).Os métodos discutidos não cobrem toda a multiformidade de meios para resolver as tarefas de treinamento de atletas. Na prática, várias variantes de métodos combinados têm sido amplamente utilizadas. Com base em métodos combinados, muitas vezes é possível resolver as tarefas de preparação com mais sucesso, pois ampliou-se as possibilidades de exercícios de prescrição. Método competitivo O método competitivo deve ter características de competições A competição é a expressão mais brilhante do método competitivo, que tem uma abrangência muito ampla e pode ser utilizado em qualquer modalidade baseada em exercícios físicos. A subordinação do desempenho do atleta à tarefa de vencer o adversário, ou seja, superar o resultado obtido anteriormente, é a pista mais característica do método competitivo do atleta (BOMPA, 2000). O fator rivalidade cria condições emocionais nas quais as mudanças funcionais no organismo do atleta são potencializadas. Nas condições do método competitivo, o efeito do treinamento é mais expressivo do que no caso da utilização de outros métodos. É justamente assim que se explica a particular importância do método na preparação de atletas de alto nível. A desvantagem desse método é a limitação da direção do atleta no processo de realização do exercício de forma competitiva, bem como a difi culdade de dosar e controlar a carga, garantindo o complexo de infl uência (conjugado) em diferentes aspectos da preparação e, portanto, é muito efi caz na fase de aperfeiçoamento esportivo. A aplicação do método competitivo na fase inicial de aprendizado da técnica AM, ou com baixo nível de desenvolvimento de habilidades, não é recomendada, pois o resultado pode ser negativo (TUBINO, 2003). Método de jogo O método de jogo se dá não apenas por meio dos jogos usuais (vôlei, futebol, basquete etc.), mas é muito mais amplo nos meios e formas de atuação. A principal peculiaridade do método de jogo é desenvolver a atividade locomotora 74 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo do indivíduo. Como base para o desenvolvimento, podem ser utilizadas situações de vida imaginadas (jogos de imitação), certos movimentos e ações características do trabalho humano e da prática militar (ZAKHAROV; GOMES, 1992). Se o mesmo exercício não tem um sentido de desenvolvimento semelhante e está totalmente subordinado à tarefa de aperfeiçoar a técnica de ação ou a velocidade de movimento, neste caso é o método de exercício planejado ou o método competitivo aplicado. No método de jogo, sempre há um confronto entre os participantes do jogo, mas está subordinado ao desenvolvimento do exercício. No caso em que um jogo esportivo passa a ser o conteúdo do exercício realizado com base no método do jogo e, dependendo do seu resultado, ocorre a competição, as diferenças entre os dois métodos desaparecem (BOMPA, 2000). A par da forma, a falta de uma programação rigorosa e a emotividade claramente expressa na atividade dos jogadores são os sinais mais característicos do método de jogo. A diversidade das situações de jogo exige uma independência criativa na escolha das soluções mais adequadas e mais efi cientes para as tarefas motoras. Nesse sentido, em geral, o complexo de diferentes hábitos e habilidades motoras se manifesta no jogo, características essas que potencializam o valor do método do jogo no processo de preparação de jovens atletas. Na aplicação do método de jogo, deve-se ter em mente que ele não permite a dosagem precisa da carga, uma vez que não há a possibilidade de prever as ações de cada um dos participantes (GOMES, 2009). Métodos de infl uência verbal A própria denominação desse método deixa claro o tipo de interação entre técnico e atleta que ele envolve. A solução de qualquer que seja a tarefa de preparação do atleta é impossível sem a utilização das formas verbais de contato. Dentre os métodos de infl uência verbal, podem ser citados a explicação, a conversa, o comando, a indicação corretiva, a análise verbal e a avaliação. Convém relevar o conteúdo emocional e o sentido lógico (informativo) de cada método verbal (BARBANTI, 1997). O alto nível pedagógico do técnico manifesta-se, em grande medida, na maneira como são tratados os atletas, sabendo utilizar a palavra para a ativação e para a direção efi ciente da sua atuação. É muito difícil falar dos caminhos concretos de aplicação de tal ou qual método, pois são demasiadamente diversifi cadas as situações que determinam a escolha do processo pedagógico. 75 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 O técnico apoia-se frequentemente em critérios de difícil detecção e ligados à intuição, à experiência pessoal, ao conhecimento das particularidades individuais do atleta e à situação concreta. Não poderíamos, neste livro, analisar todas as situações possíveis e os métodos de infl uência verbal ligados a elas (TUBINO, 2003). É por isso que temos de nos limitar à constatação geral do papel do método na preparação dos atletas. Métodos de infl uência demonstrativa No que diz respeito à demonstração, pretendemos utilizar, no processo de formação do atleta, as possibilidades dos diferentes sistemas sensoriais humanos. Existem três grupos de métodos de infl uência demonstrativos: • Os métodos de demonstração visual podem ser divididos em apresentação da atividade motora, demonstração do material de ensino e orientação visual. A demonstração da atividade motora é o método de ensino mais popular, aplicado na fase de aprendizagem. Na base do ensino, com a ajuda da demonstração, existe a imitação. É especialmente importante usar esse método ao trabalhar com crianças, pois elas têm uma capacidade altamente desenvolvida de imitar. O método de demonstração visual é sempre combinado com o método de infl uência verbal. Para criar uma ideia geral, a prova completa é aplicada, entretanto, para apresentar as peculiaridades da FA em detalhes, a prova adaptada é usada. Os movimentos são apresentados em ritmo lento e, na medida do possível, enfatizando expressivamente as posições do corpo com paradas (FORTEZA, 2001). A demonstração do material didático oferece possibilidades adicionais para o atleta compreender os meios de resolução da tarefa motora: gravações de vídeo, cartazes, desenhos e diagramas. A orientação visual permite que o movimento no espaço e no tempo seja executado corretamente. Como pistas visuais, objetos ou sinais são usados, a partir dos quais o atleta deve construir seu movimento (por exemplo, são usadas “ondas” de luz ao longo da pista de corrida ou na piscina). • Os métodos de demonstração auditiva (som) criam os pontos sonoros de referência, necessários para o início e o fi m do movimento ou seus elementos. Com um sinal sonoro combinado com antecedência, é possível indicar o momento do esforço principal (por exemplo, a curva do corpo na execução de um elemento de ginástica no aparelho). Com o auxílio da demonstração sonora, o ritmo das ações motoras é bem assimilado, utilizando, para isso, um animador sonoro. 76 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo 1 Um indivíduo pretende correr uma maratona em 4 horas. Consequentemente, ele precisa de um plano de treino para atingir os objetivos. A proposta do educador físico que coordenará o plano de treinamento é de 180 dias até o dia da maratona. O período total para conseguir isso é chamado de: a) Misociclo. b) Mesociclo. c) Ciclo semestral. d) Macrociclo. • Os métodos de demonstração motora (cinestésicos) visam organizar a percepção do atleta das sensações originadas do aparelho motor. A técnica de fi xar as posições do corpo ou de suas partes em momentos separados (por exemplo, a postura do ciclista ou do boxeador) também ajuda a ensinar esta posição. Será muito útil para o atleta sentir a posição correta versus a má posição (TUBINO, 2003). 3 PERIODIZAÇÃO APROFUNDADA A periodização do treinamentodesportivo procura organizar e orientar o processo de preparação de modo que a ocorrência da forma aconteça por ocasião da competição ou das competições mais importantes da temporada. Assim, o treino, para obedecer ao ciclo da forma, deve ser dividido em etapas. 3.1 ETAPAS DE PREPARAÇÃO A LONGO PRAZO A preparação de longo prazo é dividida em cinco etapas. Etapa 1: fase de preparação preliminar Na fase de preparação preliminar, as principais tarefas são: assegurar a preparação física multilateral e a formação harmônica do organismo em desenvolvimento, ensinar os vários gestos motores necessários à vida do 77 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 indivíduo (correr, pular, jogar, nadar etc.), incluindo gestos básicos para futuras sessões de esportes. Desenvolver interesse em exercícios e regimes esportivos (treinamento regular, combinação de estudo e treinamento escolar, higiene etc.) é importante nessa fase (BOMPA, 2000). No processo de preparação preliminar, não é necessário precipitar-se para a especialização desportiva, seria mais correto dar ao atleta iniciante a oportunidade de experimentar diferentes exercícios desportivos e, só a seguir, defi nir o tipo de especialização futura. Grupos de preparação física geral, nos quais as crianças não são responsáveis pela obtenção de resultados esportivos em uma determinada modalidade, são uma forma ideal de organizar o treinamento na fase preliminar. A análise retrospectiva da preparação dos atletas mais destacados mostra que as sessões dos primeiros dois ou três anos foram de caráter expressamente lúdico a partir do uso extensivo de elementos de diferentes modalidades, com o método de jogos preferido (TUBINO, 2003). Na fase de preparação preliminar, a estrutura do ciclo anual, característica das fases posteriores, ainda não foi formada. Na preparação de muitos atletas excepcionais, períodos prolongados de descanso e mudanças na atividade dos tipos motores, que geralmente são de dois a três meses ou mais, são características dos primeiros anos de treinamento. O microciclo semanal deve geralmente consistir em duas a quatro sessões de treinamento, cada uma com duração de 30 a 60 minutos (WEINECK, 2003). O volume total anual é de 100 a 300 horas ou 10 a 15% do volume da fase de resultados superiores. A fase de preparação preliminar é geralmente de dois a três anos e depende da idade em que o esporte começa. Se a criança começa a praticar esportes relativamente cedo, a preparação preliminar leva quatro anos ou mais, mas se o início for tardio, o estágio pode ser reduzido de um ano para um ano e meio. Etapa 2: fase de especialização desportiva inicial O início desta fase deve estar condicionalmente vinculado ao esporte em que se encontra a especialização do atleta, em processo de preparação a longo prazo. A especialização inicial do atleta costuma ocorrer em escolas de esportes das categorias infantis (GOMES, 2009). Garantir a preparação multilateral geral dos jovens atletas deve ser considerada a tarefa mais importante da fase inicial de especialização e contribui para o aprimoramento efetivo das habilidades especiais do atleta. O organismo humano apresenta-se como uma unidade, e o retardo ou o desenvolvimento desproporcional de certos órgãos ou sistemas funcionais refl ete- 78 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo se inevitavelmente na atividade do organismo como um todo e, em particular, nas condições extremas de competição. O valor deve constituir o arranjo metodológico, que determina a estrutura e o conteúdo da preparação dos jovens nessa fase (GOMES, 2009). Na maioria dos esportes, a fase inicial da especialização coincide com o período da puberdade, condicionado pelo desenvolvimento impetuoso do organismo (aumento de tamanho e de massa corporal e alterações hormonais), o atleta recebe uma grande carga biológica além do treinamento. Portanto, os parâmetros das infl uências formativas devem ser rigorosamente dosados, levando em consideração os ritmos de desenvolvimento individual dos corpos dos adolescentes. O aprimoramento das habilidades motoras em jovens atletas deve seguir seu desenvolvimento natural. Além de atentar para a velocidade e a capacidade de coordenação, não se deve esquecer de melhorar a resistência, habilidade motora necessária para atletas de diferentes modalidades. Experiências tardias com cargas que aumentam a resistência causam danos essenciais ao desenvolvimento físico multilateral da criança e não permitem que o corpo se prepare gradualmente para grandes cargas de treinamento nos estágios fi nais de preparação a longo prazo (TUBINO, 2003). Na primeira fase da especialização, deve-se atentar para o desenvolvimento da força muscular nos jovens, devendo os exercícios que contribuem para o desenvolvimento da força ser acompanhados de tensão mínima, excluindo esforços prolongados e consideráveis. As crianças costumam ter defi ciências nos músculos abdominais, quadris, isquiotibiais, abdutores das pernas e músculos escapulares. Aqui, os exercícios gerais de preparação são o método dominante. Seu percentual, no volume total, diminui, ao fi nal da etapa, de 80 para 50%. A redução dos meios gerais de preparação facilita o crescimento de meios mais específi cos, caracterizando-se como um dos sinais de conclusão da fase inicial de especialização (PLATONOV, 2008). Uma das tarefas centrais da fase inicial de especialização é dominar as técnicas da modalidade escolhida. É necessário que os atletas novatos comecem a aprender os fundamentos da técnica das ações motoras, e que a variedade de hábitos e de experiências motoras seja mais ampla, isso garantirá, posteriormente, o melhor aprimoramento na técnica esportiva. A estrutura do ciclo anual de preparação adquire, ao fi nal da fase inicial de especialização, os sinais da periodização tradicional, ou seja, com os períodos preparatórios prolongados e transitórios, os microciclos começam a se formar competitivos, os quais podem ser considerados como os com base no período 79 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 competitivo. A estrutura e o conteúdo do ciclo anual estão geralmente sujeitos ao regime de aulas escolares para jovens. O maior volume de formação realiza-se durante as férias escolares, o que conduz ao aparecimento de microciclos e mesociclos durante as férias (TUBINO, 2003). Durante o período de férias de verão, são estruturados dois a três mesociclos de quase um mês cada. A preparação, durante as férias, deve, muitas vezes, levar em consideração o fato de as crianças estarem no campo de esportes, em que o número de treinos no microciclo pode aumentar consideravelmente. A regra geral é ter duas sessões de treinamento por dia, o que resulta em um aumento acentuado no volume de treinamento durante esse período. A carga de treinamento durante o mesociclo de um mês durante as férias escolares pode ser de 80 a 90 horas. Volume normal 30 a 40 horas (três a quatro sessões por semana) no ano um. Etapa 3: fase de especialização profunda A fase de especialização profunda é a continuação natural da fase de preparação inicial anterior e visa criar uma base especializada para a preparação do atleta. A preparação, nessa fase, exige um aumento substancial do tempo de trabalho e visa à obtenção de resultados desportivos. É por isso que apenas atletas que possuem potencial funcional sufi ciente para alcançar altos resultados esportivos em uma determinada modalidade podem iniciar a fase de especialização profunda. Formar uma motivação estável para alcançar altos resultados esportivos é uma tarefa importante nessa fase (GOMES, 2009). Uma das principais peculiaridades metodológicas da fase de especialização profunda é o aumento invariável do volume dos meios de preparação especializados em correlação absoluta e relativa com os meios depreparação física geral. No aprimoramento das habilidades motoras, o preparo da força e a velocidade do atleta merecem considerável atenção, pois permitem infl uências específi cas nos grupos musculares que, por sua vez, garantem a manifestação das possibilidades de força no esporte praticado. Ao se preparar para a velocidade e força, é aconselhável usar vários exercícios de salto com peso e exercícios especiais de corrida (ZAKHAROV; GOMES, 1992). Para evitar a estabilização do nível de capacidade de velocidade (o aspecto da ‘barreira de velocidade’), as infl uências do treinamento devem ter um caráter de “contraste”. “A partir da idade de 15 a 16 anos, crescem intensivamente o interesse e a capacidade de vontade, o que se deve ao aumento do vigor do sistema nervoso, criando premissas para maior enfoque, durante a etapa de especialização profunda, no aperfeiçoamento da resistência especial” (GOMES, 2009, p. 164). No início da fase de especialização profunda, os atletas já devem 80 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo dominar as bases técnicas da modalidade escolhida, razão pela qual aos jovens atletas é confi ada a tarefa de uma consolidação sólida de técnicas. Técnicas de aprimoramento esportivo e alguns detalhes das ações motoras são resolvidos devido ao crescimento da condição física do atleta. Na fase de especialização profunda na modalidade escolhida, o método competitivo passa a ter um papel substancial no aprimoramento das técnicas esportivas, dessa forma, o jovem atleta aprimora suas habilidades táticas (defesa) e a individualização do treinamento nesse sentido. A transição para a fase de especialização profunda em muitos atletas está ligada ao início da preparação nas escolas para meninos. Graças a isso, a preparação começa a desenvolver-se em função de uma dieta especializada, que permite ter, no fi nal da etapa, de dois a três treinos por dia (10 a 14 treinos no microciclo semanal) e aí há um aumento substancial do volume de treinamento que, em dinâmica, de acordo com os anos da fase de preparação, representa de 600 a 1000 horas por ano, e, em alguns aspectos, o número pode ser maior (GOMES, 2009). A estrutura do ciclo anual de preparação inclui períodos preparatórios, competitivos e transitórios. O período preparatório inclui as etapas de preparação geral e especial. O período competitivo tem uma duração mais curta do que as fases seguintes. Etapa 4: fase de resultados superiores O objetivo desta fase é obter resultados superiores (máximo individual) na modalidade escolhida, cuja duração coincida com os limites da idade ótima correspondente ao período de resultados superiores. O objetivo de realizar o potencial funcional acumulado nas conquistas esportivas é determinar a estrutura e o conteúdo da preparação para o ciclo anual. Na fase de resultados superiores, o volume de treinamento atinge parâmetros máximos de 1000 a 1500 horas por ano e, em alguns casos, até 1800 horas. A participação do treinamento especial no volume de treinamento geral aumenta consideravelmente e se aproxima dos índices máximos (de 80 a 85%). O número de microciclos de “choque” também aumenta, mesmo com cargas concentradas apenas para um objetivo fi siológico. O número total de sessões pode ser de 15 a 20 no microciclo semanal, incluindo cinco a oito sessões de alta carga (GOMES, 2009). De forma alheia às condições climáticas locais, a preparação, no ciclo anual, é construída a partir de dois ou três macrociclos. Portanto, a preparação do atleta geralmente ocorre em clubes profi ssionais, escolas de esportes de primeira linha, centros de treinamento olímpico e seleções nacionais (ZAKHAROV; GOMES, 1992). 81 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 Etapa 5: fase de manutenção de resultados A principal tarefa da preparação é manter um alto nível de resultados esportivos. O número de atletas em processo de preparação a longo prazo que chega a essa fase está longe de ser grande, visto que a maioria termina suas carreiras no esporte em fases anteriores devido a circunstâncias diferentes. Há uma queda do nível de resultados desportivos provocada por erros metodológicos e pela necessidade de renúncia à prática desportiva por motivos profi ssionais, familiares etc. Para a manutenção dos resultados, os atletas precisam ser altamente qualifi cados e preparados, com o objetivo de continuarem a atuar em jogos desportivos. Esses atletas podem ser profi ssionais ou amadores. 3.2 ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO DO TREINAMENTO NO CICLO OLÍMPICO O ciclo olímpico de treinamento separa uma olimpíada da outra. Com quatro anos de duração, são muitas as formas de estruturar o treinamento nos mais diversos desportos que compõem o calendário olímpico de competições. Alguns atletas da história da olimpíada chegaram a participar de 4 a 5 olimpíadas, totalizando 16 a 20 anos de alto rendimento desportivo. Por mais talentoso que seja o atleta, esse nível de performance só é possível com a execução de exercícios rigorosamente selecionados e no tempo correto durante os vários ciclos olímpicos de treinamento (GOMES, 2009, p. 167). Existem duas variações na estruturação do ciclo olímpico: a primeira é a preparação do atleta para os primeiros jogos olímpicos, a segunda é a estrutura de carga a ser utilizada com atletas que já participaram dos jogos olímpicos. Os grupos de exercícios devem ser distribuídos durante a temporada de treinamento, respeitando as fases de trabalho com sua concentração fi siológica adequada. O que é ser um treinador? Assista a este vídeo e veja Edu Gaspar falando sobre a gestão de treino. Disponível em: https:// youtu.be/lkCX-nKK47Q. 82 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo No período de competição, normalmente estruturada em um curto período, habilidades específi cas são aprimoradas, facilitando o grande momento, que é a forma esportiva de alto nível. Nos esportes coletivos, o período preparatório é menos importante, sendo muito mais curto do que nos esportes individuais (PLATONOV, 2008). Determinar a duração do período preparatório e competitivo no esporte é uma discussão entre vários pesquisadores ao redor do mundo. A ciência ainda não conseguiu explicar quanto tempo leva para alocar cada período. A tendência atual mostra que a correlação do conteúdo do treinamento em cada etapa da preparação pode facilitar uma adaptação mais efetiva das infl uências em cada tipo de esporte. A composição do ciclo olímpico varia de país para país, o que está relacionado com a importância atribuída ao calendário internacional de competições. As experiências científi cas mostram tendências na organização do processo formativo que têm permitido atingir resultados elevados todos os anos do ciclo. De modo geral, o período de preparação, no primeiro ano do ciclo olímpico, deve durar cinco meses no início da temporada; no segundo ano, o período de preparação é reduzido para quatro meses, aumentando o período de competição para sete, e, no terceiro ano, dois macrociclos são estruturados na temporada. No primeiro macrociclo, os períodos de preparação e competição são de três meses, no segundo macrociclo, apenas dois, e o período de competição sendo de três meses (TUBINO, 2003). O objetivo principal, no terceiro ano do ciclo olímpico, é desenvolver ao máximo as habilidades competitivas e a resistência de participação dos atletas em competições. O quarto ano do ciclo competitivo, também estruturado com dois macrociclos, visa preparar o atleta diretamente para as competições. O período preparatório para o primeiro macrociclo é de apenas dois meses, sendo três meses para a competição (GOMES, 2009). O segundo macrociclo começa com um mês de preparação, no qual o conteúdo do treinamento é mantido de forma particular, dedicando os cinco meses seguintes ao período de competição, em que se pretende atingir o rendimento máximopossível do atleta. A construção do ciclo olímpico deve levar em consideração o tipo de esporte e suas particularidades. Quando falamos do ciclo olímpico nos esportes coletivos, temos que encurtar o período de preparação, dando maior ênfase ao período de competição (GOMES, 2009). Nesse caso, são desenvolvidos modelos que atendem, em sua estrutura e conteúdo, todos os esportes que fazem parte do programa olímpico. Estruturar o sistema de treinamento no ciclo olímpico de atletas de alto rendimento não é uma tarefa 83 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 fácil para o treinador, pois a diversidade dos esportes e das funções desempenhadas pelo atleta difi culta a elaboração do plano. Nesse contexto, a experiência apresentada na literatura internacional por alguns estudiosos pode servir como um ponto de partida, facilitando, assim, o trabalho do treinador na atualidade (GOMES, 2009, p. 169). 3.3 ESTRUTURA DA SESSÃO (SEMANA) DE TREINAMENTO A sessão de treinamento é o elemento integral inicial da estrutura de preparação do atleta, representando um sistema de exercícios relativamente isolado no tempo que visa à solução de tarefas de dado microciclo da preparação do desportista. A teoria e a metodologia referentes à estrutura coerente e ao conteúdo da sessão de treinamento baseiam-se nos princípios pedagógicos de estruturação de uma sessão, mas têm também algumas particularidades específi cas próprias do treinamento desportivo. Na classifi cação das sessões de treinamento, deve ser levada em consideração uma série de fatores, dentre os quais convém destacar os objetivos e as tarefas, os meios de organização dos atletas, a composição dos meios de treinamento e a grandeza da carga da sessão (GOMES, 2009, p. 171). Dependendo de seus objetivos, os exercícios podem ser divididos em sessões de treinamento e controle (TUBINO, 2003). Os exercícios visam aumentar o nível de treinamento do atleta e podem resolver diversos problemas: treinamento de habilidades básicas e educação da personalidade do atleta, ensino da técnica de ações motoras, domínio de sistemas táticos etc. As sessões de acompanhamento pressupõem a avaliação preferencial da efi cácia do processo de formação. Sessão de treinamento Essas sessões podem ter como objetivo verifi car o nível de certos aspectos do estado de treinamento e pressupor uma avaliação complexa do estado de treinamento do atleta. A sessão de treinamento pode ser tratada como uma unidade autônoma de tempo de ensino, com tarefas e objetivos operacionais bem defi nidos – como uma unidade diária cíclica (duas a três sessões de treinamento por dia) – com objetivos operacionais diferentes. Deve constituir-se como um todo funcional com cada uma de suas partes, cujas modalidades e conteúdos não devem ser programados ao acaso, mas devem estar interligados de forma a sanar a defi ciência apresentada pelo atleta ou pela equipe (BARBANTI, 1997). Em cada treino é comum destacar 84 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo três partes devidamente interligadas: preparatória, principal e fi nal. A divisão da sessão em três partes é condicionada pelas peculiaridades do estado funcional do atleta. Parte preparatória Na fase preparatória da sessão, devem ser criadas as condições para a atividade efetiva dos atletas na parte principal. Com esse objetivo, podemos destacar a fase de organização e o aquecimento. Na fase de organização, todo o grupo se reúne e as tarefas a serem realizadas são explicadas em sessão, preparando o material a ser utilizado, que deve chamar a atenção dos atletas e motivá-los para o desenvolvimento da atividade (WEINECK, 2003). O aquecimento deve garantir a transição do corpo do atleta do estado de repouso para o estado de “trabalho”, o que efetivamente resolve as tarefas de preparação durante a parte principal do treinamento. Está conectado com a superação da inércia de sistemas de um organismo humano que não começam a funcionar imediatamente com o aumento no nível da atividade motora. Leva tempo para que tais sistemas passem de um estado de calma para um estado de mobilização e coordenação mútuas adequadas. Assim, por exemplo, o volume de sangue por minuto, a ventilação pulmonar e o consumo de oxigênio atingem um nível ideal 3-5 minutos após o início do trabalho. Os órgãos respiratórios e o sistema cardiovascular não podem garantir imediatamente o fornecimento de oxigênio aos órgãos operatórios nas quantidades necessárias. Portanto, se um atleta competir sem aquecimento, ele pode chegar ao fi nal do exercício competitivo sem revelar seu potencial. Nesse caso, o resultado esportivo será inferior ao potencial do corpo (TUBINO, 2003). No aquecimento é necessário destacar a parte geral e a parte especial. O efeito interno da parte geral do aquecimento está ligado ao aumento da temperatura corporal, que está diretamente ligado à ativação do metabolismo, à atividade dos sistemas cardiovascular, respiratório e motor etc. (GOMES, 2009). Recomenda-se começar com exercícios para os braços, região dos ombros e depois exercícios para o tronco e quadril, terminando com exercícios para as pernas (coxa, perna e pé). Esse trabalho muscular para cima e para baixo pode ser feito repetidas vezes. “Primeiro, devem ser realizados os exercícios para os grupos musculares menores” (GOMES, 2009, p. 172). Cada exercício é geralmente repetido de 10 a 15 vezes (BARBANTI, 1997). O conjunto de exercícios contém de 10 a 15 exercícios. Depois vêm os exercícios 85 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 que melhoram a mobilidade das articulações, que têm um alcance cada vez maior e contribuem para o alongamento dos músculos que intervirão ativamente nos seus movimentos. A função do aquecimento é preparar os músculos e ligamentos para movimentos futuros e a profi laxia de traumas, e não o aumento da fl exibilidade do atleta. A quantidade de exercícios e sua orientação dependem da atividade futura e das características individuais dos atletas (idade, nível de trauma sofrido etc.) (GOMES, 2009). A parte especial do aquecimento deve corresponder à atividade específi ca do aparelho motor e às funções vegetativas do organismo (além do estado mental do atleta), exigidas na parte principal da sessão, geralmente dura de 20 a 40 minutos. O intervalo ideal entre o aquecimento e a parte principal da sessão não deve exceder 15 minutos, durante os quais o efeito de aquecimento persiste. No caso de intervalos maiores, o efeito de aquecimento desaparece gradualmente. O aquecimento pré-corrida merece atenção especial, pois continua sendo o principal método de mobilização das habilidades do atleta antes da largada (GOMES, 2009). Ao resolver uma tarefa, existem diferentes abordagens metodológicas para o conteúdo da sessão. Portanto, em alguns casos, a tarefa pode ser resolvida usando um único meio de treinamento, que será estável durante toda a parte principal da sessão. Em outros casos, tal tarefa pode ser resolvida recorrendo a um amplo círculo de meios de treinamento de uma orientação, aplicados no regime de um método. Por exemplo, o aperfeiçoamento da resistência aeróbia pode resolver-se, no primeiro caso, apenas mediante a utilização da corrida num regime correspondente e, no outro caso, com base na aplicação de repetição de alguns exercícios cíclicos (marcha, corrida, natação, trabalho em veloergômetro etc.) (GOMES, 2009, p. 175). A escolha de uma ou outra variante depende da fi nalidade da sessão e de sua inserção no sistema de treinamento de longa duração do atleta, pois afeta diferentes funções do corpo que determinam a revelação dessa habilidade (GOMES, 2009). Durante sessões com diferentes meios de comunicação com a mesma orientação, os jovens apresentam uma capacidade de trabalho signifi cativamente maior, sem risco de esgotamento mental, em comparaçãocom o caso de utilizar apenas um meio. Na preparação de atletas de alto nível, essa variante da sessão de treinamento raramente é utilizada, principalmente com o objetivo de eliminar a tensão psíquica decorrente do monótono trabalho anterior. 86 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Segundo Gomes (2009), à medida que a preparação e o nível desportivo aumentam, as sessões unidirecionais ganham cada vez mais importância, estruturadas em torno de um único meio de treino, atrelado principalmente a três condições metodológicas para a preparação dos atletas de alto nível. 1. As possibilidades de adaptação do organismo do desportista aumentam à medida que diminui o número de fatores a que o atleta tem que se adaptar. Por conseguinte, a diminuição da diversidade motora das sessões de treinamento leva à especialização mais concreta dos sistemas funcionais. Se os exercícios são escolhidos e estão de acordo com a especifi cidade da modalidade desportiva, verifi ca-se o rápido crescimento dos resultados desportivos. 2. A condição metodológica está ligada à interação dos efeitos de treinamento de cargas de diferente direção. Tal interação pode ter caráter positivo, neutro ou negativo. A interação negativa dos efeitos de algumas cargas obriga a seguir a variante de sessões de treinamento com uma direção. 3. A condição metodológica está ligada à necessidade de elevação gradual de infl uências de treino concentradas na referida sessão. Caso contrário, torna-se impossível o crescimento posterior dos resultados desportivos (GOMES, 2009, p. 175). Nesse ponto particular, as condições naturais de vida do indivíduo (alimentação, sono, desempenho de funções sociais etc.) não permitem aumentar a duração das sessões de treinamento. Assim, passamos a um regime de dois a três treinos diários (GOMES, 2009). No treinamento dos atletas de alto nível, as sessões com objetivo seletivo constituem um dos principais fatores que estimulam a melhora dos resultados desportivos. Nos treinos dos jovens, a utilização de uma grande quantidade de sessões de direção seletiva com um meio nem sempre é justifi cada, pois está ligada à exploração ativa das possibilidades de adaptação do organismo e poderá levar à supertensão dos sintomas funcionais (GOMES, 2009, p. 175). 4 TREINAMENTO PERSONALIZADO No treinamento personalizado, o indivíduo sempre irá dispor de um acompanhamento muito mais próximo, individualizado, o que nos remete àquela teórica da individualidade biológica, e totalmente focado nos seus objetivos, o que faz toda a diferença no resultado. Uma das suas principais vantagens é que, nesse tipo de treino, o professor/ treinador tem a oportunidade de ter um conhecimento melhor do atleta para montar um treino mais específi co e efetivo: seus hábitos alimentares, patologias, limitações, rotina e outros fatores relevantes. Saber das variáveis particulares 87 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 da vida do atleta faz com que o treino funcione como uma prescrição médica, atuando de forma mais direta no que precisa ser trabalhado para cada caso. 4.1 CARGA DE TREINAMENTO NO MICROCICLO E SUAS DIVERSAS COMBINAÇÕES A estruturação dos microciclos é determinada por uma série de fatores, entre os quais se destaca o caráter do efeito de treinamento das cargas aplicadas no microciclo. Um dos problemas mais complexos da teoria e metodologia de preparação é a descoberta de uma correlação ótima de cargas no microciclo, com o objetivo de obter o efeito sumário que permite resolver tarefas de aperfeiçoamento de diversos aspectos da preparação do atleta (PLATONOV, 1986 apud GOMES, 2009). A primeira, preferencialmente entre as décadas de 1950 e 1960, formou a base teórica para a estruturação dos microciclos de treinamento. Considerava- se que a interação dos efeitos de treinamento somente contribuía para uma dinâmica ascendente do crescimento do nível de treinamento do atleta no caso de a carga repetida no microciclo referir-se à fase de supercompensação depois da infl uência precedente ou à fase de recuperação consolidada (GOMES, 2009). Realizar a sessão de treinamento com uma carga inferior de sub-recuperação foi considerado um erro metodológico grave que causava o sobretreinamento. Ressalta-se que tal abordagem ainda possui alguma importância metodológica, sendo aplicada, em particular, na preparação de atletas iniciantes (GOMES, 2009). Nas décadas seguintes, muitos dados recebidos atestam que os processos de recuperação após o trabalho físico são heterocrônicos, ou seja, a recuperação e a sobrecompensação das diferentes funções do organismo não ocorrem simultaneamente, e a presença da fase de sobrecompensação não é uma condição obrigatória para alcançar mudanças adaptativas positivas. Em alguns casos, a recuperação da capacidade de trabalho ocorre apenas ao nível inicial, ocasionando a ausência da fase de sobrecompensação (GOMES, 2009). Pesquisas realizadas mostram que, mesmo com um regime de treinamento muito rígido, a capacidade de trabalho diminui sensivelmente apenas “com a primeira dose signifi cativa de carga. Mais adiante, à medida que o exercício é repetido, verifi ca-se a diminuição e a estabilização prolongada da capacidade de trabalho do indivíduo” (PLATONOV, 1986 apud GOMES, 2009, p. 187). 88 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Dessa forma, o organismo, mesmo nas condições de sub- recuperação, é capaz de manter um bom nível de treinamento, embora seja menos alto. No que diz respeito à preparação do atleta, tais dados podem servir de fundamento fi siológico de que a realização, dentro de certos limites de um regime rígido de combinação de cargas nos microciclos, pode levar ao aumento do nível de treinamento do atleta. A alta exigência das possibilidades do atleta, consequência do intenso trabalho sob determinada orientação, não signifi ca, de modo algum, que ele não seja capaz de manifestar alta capacidade de trabalho na esfera de uma outra orientação, realizada predominantemente por outros órgãos e mecanismos funcionais. Por exemplo, uma forte fadiga do sistema funcional, que determina o nível das capacidades de velocidade ou de força máxima do atleta, não impede que ele, passadas algumas horas, revele uma alta capacidade de trabalho na atividade aeróbia. Tais dados e a necessidade de elevação posterior dos resultados desportivos determinaram a segunda abordagem relacionada com a questão da alternância de cargas de grandeza e orientação diferentes no microciclo. Apoiando-se nesses pontos de vista, ocorreu, nos anos 1970, o aumento substancial (quase duas vezes) do volume geral de cargas em diversas modalidades, inclusive o volume de exercícios de alta intensidade. Na maioria dos casos, a preparação passou a constituir-se na base de duas ou três sessões de treinamento por dia, com o volume de trabalho de treinamento no microciclo semanal de até 32 a 38 horas. Nos últimos anos, as características qualitativas dos microciclos adquiriram tendência à estabilização de seus parâmetros (PLATONOV, 1987 apud GOMES, 2009, p. 187). No microciclo de orientação predominante, a combinação das sessões com a carga máxima requer atenção especial. Orientação à fadiga Nesse sentido, a capacidade de trabalho do atleta, na segunda sessão, resulta consideravelmente diminuída, e ele geralmente não pode cumprir mais do que 75 a 80% do trabalho proposto. Levando em consideração essa circunstância, convém planejar, com muito cuidado, duas sessões seguidas com cargas de choque no microciclo somente para atletas qualifi cados e bem treinados. A introdução no microciclo das sessões com cargas estabilizadoras e recuperativas, na fase de alta fadiga, após as sessões de orientação seletiva, exerce, normalmente, infl uência favorável na adaptação do organismo do atleta. Não é conveniente utilizar duas sessões de orientaçãode velocidade com o volume máximo de exercícios, pois, ao repetir a sessão, perturbam-se as principais disposições metodológicas que condicionam o aperfeiçoamento das capacidades de velocidade. Durante o aperfeiçoamento das capacidades de força, seria conveniente prever, na segunda sessão, outros grupos musculares com a manutenção da orientação geral de força das sessões. 89 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 Na prática do treinamento desportivo, são mais difundidos os microciclos de caráter complexo, que permitem exercer infl uências equilibradas sobre diferentes aspectos da preparação do atleta em conformidade com as tarefas da etapa de preparação. Nas modalidades de coordenação complexas, nos jogos desportivos e nos combates, que se distinguem pela diversidade de ações motoras e por um grande número de fatores determinantes da atividade competitiva, o microciclo constitui a única forma aceitável de construção do processo de treinamento (PLATONOV, 1986 apud GOMES, 2009, p. 188). A estruturação do microciclo com o objetivo de resolver tarefas complexas apresenta sérias difi culdades metodológicas, vinculadas à defi nição da combinação de sessões de diferentes cargas. Se, no microciclo de caráter concentrado, a carga orientada para solucionar uma tarefa constitui o principal fator, no microciclo complexo, o número de fatores aumenta proporcionalmente ao número de tarefas a solucionar. A soma de efeitos das cargas de diferente orientação, no microciclo, tem importante signifi cado para a determinação dos parâmetros de infl uência de treino sobre o organismo do atleta (GOMES, 2009). Na literatura especializada, não se conseguiu encontrar dados convincentes sobre o efeito positivo da combinação direta de cargas de choque de diferente orientação. O especialista (PLATONOV, 1986) procura explicá-lo com o fato de a carga máxima exigir a mobilização das reservas profundas do organismo do atleta e a redistribuição da atividade dos processos que ocorrem no organismo de acordo com a orientação da carga. Devido à fadiga que se desenvolveu, tal processo possui uma estabilização signifi cativa. A aplicação da carga de outra orientação exige também mobilização máxima, mas já de outros sistemas, o que é pouco conveniente do ponto de vista da formação das reestruturações de adaptação a longo prazo. Tal combinação pode provocar descoordenação dos processos de adaptação, e mesmo falha de adaptação. Por isso, seria conveniente alternar, no microciclo, as cargas próximas das máximas com as cargas de grandeza moderada. No processo de preparação dos atletas de alta qualifi cação, depara-se, frequentemente, com um problema: a utilização de microciclos para solucionar tarefas complexas não assegura que infl uências de diferentes orientações sejam sufi cientemente capazes de estimular o aperfeiçoamento posterior imediato de alguns componentes da preparação do atleta (GOMES, 2009, p. 188-189). A efi ciência de direção do processo de treinamento no microciclo é condicionada, em grau considerável, pela dinâmica do volume e da intensidade da carga. A análise dos microciclos de sete dias, com seis dias de treino, que são os mais difundidos na prática do treinamento de atletas qualifi cados, permite destacar variantes com a dinâmica de um, dois e três picos de volume e de intensidade de cargas (GOMES, 2009). 90 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Normalmente, a carga máxima não é esperada no primeiro dia de microciclo, principalmente nos casos em que o microciclo anterior termina com um dia de descanso. “Não é desejável que ocorra, no organismo, uma brusca mudança, que poderá ser provocada pela passagem do estado de descanso a uma atividade que exija a completa mobilização das reservas do organismo” (GOMES, 2009, p. 189-190). O período de recuperação, após cargas próximas das máximas, dura alguns dias e, portanto, todos os exercícios subsequentes serão realizados com o objetivo de sub-recuperação, o que pode afetar negativamente a efi ciência geral do microciclo. Por isso, recomenda-se, no primeiro dia do microciclo, a carga com parâmetros não superiores a 60 ou 70% das máximas (GOMES, 2009). Seria preferível planejar as cargas de alta intensidade, ligadas ao aperfeiçoamento das capacidades de velocidade, de força explosiva, assim como o ensino inicial das ações motoras complexas para o 1º e 2º dia do microciclo ou para o dia seguinte, após a sessão de treino recuperativo. Quanto aos exercícios com alto volume de carga orientada para o treinamento da resistência aeróbia, anaeróbia, glicolítica e de força, seria conveniente planejá-los de modo que o pico de intensidade adiante, em tempo, o pico do volume de cargas. O aumento do volume da carga além das grandezas determinadas provoca inevitavelmente a redução da intensidade (GOMES, 2009, p. 190). Com relação às particularidades dos processos recuperativos que determinam a estrutura do microciclo, convém levar em conta o fato de que a duração de recuperação, após as cargas máximas de diversas orientações, apresenta diferenças substanciais. As possibilidades dos sistemas funcionais, que asseguram o nível das capacidades de velocidade, de coordenação, a força máxima e de impulso, se restabelecem de uma e meia a duas vezes mais rápido do que as capacidades dos sistemas funcionais que determinam o nível de resistência aeróbia e anaeróbia glicolítica (GOMES, 2009). Na construção do microciclo, deve-se levar em consideração que as capacidades de recuperação do corpo humano, após um trabalho pesado, mudam signifi cativamente sob a infl uência do treinamento. Atletas de alto desempenho não só superam os menos habilidosos em resultados esportivos e habilidades funcionais de diferentes sistemas, como, também, na capacidade de se restabelecerem rapidamente (GOMES, 2009). O treinador não deve esquecer também as peculiaridades estritamente individuais do organismo de diferentes atletas, relacionadas à duração da recuperação. 91 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 1 O treinamento esportivo de alta performance normalmente é dividido por algumas questões cronológicas. Qual a denominação dessa divisão? a) Sobrecarga do treinamento. b) Periodização do treinamento. c) Adaptação do treinamento. d) Microciclo de treinamento. 4.2 ESTRUTURA E ORGANIZAÇÃO DO TREINAMENTO NO MESOCICLO INDIVIDUALIZADO Classifi cação dos mesociclos O mesociclo trata da estrutura de carga, que varia de 3 a 6 semanas, e representa o elemento da estrutura de preparação do atleta orientado para a solução das tarefas de determinado macrociclo (período) de preparação. Quanto aos indícios que permitem classifi car os mesociclos, podem-se destacar: • A principal tarefa a ser resolvida pelo mesociclo no sistema de preparação. • O momento do referido mesociclo na estrutura do macrociclo de preparação. • A composição dos meios e dos métodos de treino aplicados no mesociclo. • Os tipos de microciclos que compõem o conteúdo predominante do mesociclo estabelecido. • A grandeza das cargas e sua dinâmica no mesociclo (GOMES, 2009). Mesociclo inicial Sua tarefa é garantir a transição gradual do corpo do atleta do estado reduzido da atividade de treinamento no nível competitivo para parâmetros elevados, muitas vezes próximos às cargas máximas de treinamento nos mesociclos. O 92 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo conteúdo do mesociclo inicial consiste em 2-3 microciclos de recuperação ou tipo inicial e termina com o microciclo de recuperação. A intensidade relativamente baixa com um aumento gradual no volume total de exercícios é característica do mesociclo inicial (FORTEZA, 2001; GOMES, 2009). Mesociclo básico Agrupa alguns tipos de mesociclos, nos quais se realiza o trabalho de treinamento principal no que se refere ao aprimoramentode vários aspectos da preparação do atleta que, pela magnitude das cargas, dividem-se em desenvolvimento e estabilizadores (GOMES, 2009). Mesociclo evolutivo É a principal forma de organização das infl uências do treinamento, com o objetivo de alcançar o efeito cumulativo do treinamento, que é a base para aumentar o nível de treino do atleta. Tal ciclo é caracterizado pela quantidade considerável de cargas (geralmente próximas do máximo para um dado nível de preparação). A seguir, analisaremos algumas peculiaridades metodológicas de construção desse tipo de mesociclo (FORTEZA, 2001; GOMES, 2009). Mesociclo estabilizador Visa consolidar as alterações obtidas anteriormente, as quais são garantidas pela redução ou estabilização insignifi cante das cargas anteriormente realizadas. Mesociclo de recuperação Aplica-se no período transitório de preparação, quando têm importância predominante as tarefas de recuperação completa do atleta após um período prolongado de cargas máximas de treinamento e de competição. O mesociclo recuperativo é importante para a adaptação do organismo do atleta, pois permite prevenir a transformação da fase de resistência na fase de profundo esgotamento e de fracasso de adaptação. O mesociclo caracteriza-se pela redução do volume e da intensidade das cargas (geralmente 20 a 30% em relação aos parâmetros do mesociclo básico de desenvolvimento). Têm sido aplicadas diferentes formas de descanso ativo que contribuem para a descarga psicológica do atleta (natação, jogos, passeios nas montanhas etc.). No processo de preparação de atletas qualifi cados, incluem-se, no mesociclo recuperativo, vários tratamentos fi sioterapêuticos que visam à eliminação das consequências de traumatismos sofridos e à profi laxia de doenças. Nesse mesociclo, seria conveniente efetuar uma análise médica aprofundada que permita avaliar o estado de saúde do atleta (GOMES, 2009, p. 193). 93 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 Mesociclo de controle Geralmente, completa o período preparatório. Sua principal tarefa é garantir o controle multiforme da efi ciência dos mesociclos básicos anteriores e a adaptação progressiva do atleta às necessidades dos mesociclos de competição subsequentes. Desempenha a função de preparação e controle. Durante esse mesociclo, qualquer defi ciência na preparação do atleta pode ser corrigida (GOMES, 2009). Mesociclo pré-competitivo Destaca-se como componente estrutural que proporciona a preparação imediata para a competição principal do macrociclo. Durante esse mesociclo, tarefas são resolvidas, em particular, a recuperação após a fase anterior de competições seletivas, a manutenção e a possível elevação do nível alcançado, a eliminação de pequenos defeitos de preparação, a resolução do estado mental do atleta, a adaptação das condições das principais competições etc. A necessidade de resolver essas tarefas condiciona a inclusão, na estrutura do mesociclo pré-competitivo, de diferentes tipos de microciclos, cujo conteúdo pode variar dependendo da condição do atleta. As particularidades da estrutura e da dinâmica geral das cargas, no mesociclo pré-competitivo, serão analisadas posteriormente (GOMES, 2009). Mesociclo agonístico Representa a base do período competitivo de preparação do atleta. A sua estrutura e o seu conteúdo são determinados pela especifi cidade da modalidade desportiva, pelo sistema de preparação competitiva, pelas particularidades do calendário de competições, pelo nível da qualifi cação do atleta e por outros fatores. A duração do período competitivo poderá ser de 6 até 8 meses, o que é característico, por exemplo, para os jogos desportivos. Nesse período, destacam-se geralmente 4 a 6 mesociclos competitivos. Nesses casos, quando as competições se realizam durante 1 a 2 meses, é conveniente destacar o mesociclo de competições principais e os mesociclos competitivos que resolvem outras tarefas (o mesociclo de competições seletivas, os preparatórios etc.). Dependendo do número de participações, do intervalo entre elas e da importância das competições, podem ser incluídos, na estrutura do mesociclo competitivo, além dos microciclos competitivos, outros tipos de microciclos (GOMES, 2009, p. 193-194). 94 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Sua função é contribuir para a recuperação e garantir a manutenção da alta capacidade de trabalho do atleta ao longo do mesociclo competitivo. 4.3 COMPOSIÇÃO DOS MICROCICLOS NA ESTRUTURA DO MESOCICLO Dependendo das tarefas a serem realizadas no mesociclo e do nível de preparação do atleta, a carga dos microciclos pode variar em uma faixa muito ampla. Conforme o número de sessões de treino com cargas de choque e ordinárias e de sua distribuição nos microciclos, o processo de recuperação das possibilidades funcionais do organismo, depois da soma da carga do microciclo, poderá terminar dentro de algumas horas após a última sessão ou demorar alguns dias. Assim, o microciclo seguinte poderá realizar-se no período de recuperação depois da soma da carga do microciclo precedente ou no momento da fadiga residual. A dinâmica de cargas pressupõe a execução do trabalho de treino no terceiro microciclo no nível da fadiga do microciclo anterior, sendo que o microciclo de choque é planifi cado durante a recuperação relativa (GOMES, 2009). Mesociclo preparatório para mulheres Ao planejar cargas de mesociclo para mulheres, a infl uência do biorritmo mensal deve ser levada em consideração. A alteração do estado funcional, que depende do ciclo biológico específi co, denominado ovulatório-menstrual, é uma peculiaridade do organismo feminino, cuja duração varia, na norma fi siológica, em média de 21 a 36 dias. Em 60% das mulheres, é de 28 dias (MARX et al., 2001; GOMES, 2009). O ciclo é geralmente dividido em cinco fases: a primeira, a da menstruação (do 1º ao 3º dia); a segunda, pós-menstrual (do 4º ao 12º dia); o terceiro, ovulatório (do 13º ao 14º dia); a quarta, pós-ovulatória (de 15 a 25 dias); e o quinto, o pré- menstrual (do 26º ao 28º dia). A duração da primeira metade do ciclo ovulatório- menstrual (até a ovulação) é diferente e está relacionada às características individuais do organismo feminino, sendo a duração da segunda metade sempre constante (14 dias). É fundamental saber os prováveis dias de início da ovulação: com o ciclo de 21 dias, a ovulação começa do 7º ao 9º dia; com o ciclo de 28 dias, a ovulação ocorre entre o 12º e o 16º dia do ciclo; enquanto que, com o ciclo de 36 dias, entre o 19º e 23º dia do ciclo (GOMES, 2009). 95 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 Em condições normais, durante as diferentes fases do ciclo ovulatório- menstrual, ocorrem uma alteração da atividade hormonal e uma alteração do estado funcional de todos os sistemas do organismo (KOROP; KONONENKO, 1983; KEIZER, 1986). Índices de capacidade para o trabalho mais elevados durante este ciclo são característicos das fases pós-menstrual e pós-ovulatória (GOMES, 2009). Essas variações têm um caráter expressamente individual e se manifestam de acordo com a especialização do esporte. Nessas fases há diminuição da força, velocidade, resistência particular e distúrbios da coordenação dos movimentos em considerável número de desportistas. Nas fases pré-menstrual e menstrual do ciclo ovulatório-menstrual, a irritabilidade e a instabilidade emocional das atletas aumentam (MARX et al., 2001). A literatura apresenta abordagens relacionadas com o problema da estruturação da preparação desportiva das mulheres. Continua a ser bastante discutido o ponto de vista dos técnicos que estruturam a preparação desportiva das mulheres idêntica à dos homens, ou seja, desconsideram as mudanças do estado funcional e as oscilações da capacidade de trabalho desportivo das mulheres durante o ciclo ovulatório-menstrual. Como principal argumento, aludem, nesse caso, ao fato de que as atletas obrigam-se a participar das competições em diversas fases do ciclo. Pelo visto, tal argumento já não pode satisfazer às exigências modernas da preparação das atletas altamente qualifi cadas. Deve-se dar atenção especial às variações individuais do estado funcional das atletas em diversas fases do ciclo ovulatório-menstrual (GOMES, 2009, p. 195). Parece mais justifi cada a abordagem que se propõe a encarar o ciclo biológico feminino como uma formação estrutural integral (mesociclo) da preparação das desportistas. Nesse caso, convém que, na planifi cação do mesociclo, seja tomado como base o ciclo ovulatório-menstrual individual da atleta, e seus microciclos sejam relacionados com as fases do ciclo ovulatório-menstrual (GOMES, 2009). Kraemer et al. (2003) preconizam que, tendo em conta o estado funcional da mulher, as tarefas correspondentes devem ser resolvidas em cada fase, determinando os meios de treino mais adequados para o choque. Para períodos de reduzida capacidade de trabalho, os microciclos devem ter cargas principalmente de caráter recuperativo. Como as oscilações mais pronunciadas das funções fi siológicas do corpo feminino ocorrem nas fases ovulatória, pré-menstrual e menstrual, deve-se enfatizar, no mesociclo, dois microciclos especiais: o primeiro, 96 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo incluindo a possível fase de ovulação, e o segundo, que cobre o período de 1-2 dias antes da menstruação. O mesociclo de treinamento compreende, além de dois microciclos especiais, respectivamente, mais 2 a 3 microciclos de treinamento. O número e a duração dos microciclos devem ser planejados de acordo com a duração do ciclo individual e suas fases (GOMES, 2009). No caso do ciclo curto de 21 dias, é necessário prever, no primeiro microciclo, uma redução signifi cativa da extensão da carga nos dias de provável ovulação em atletas com ciclo ovulatório-menstrual reduzido, e o programa de treinamento principal deve ser concluído na segunda metade do mesociclo. Durante o período do microciclo especial, recomenda-se reduzir o volume total e a intensidade das cargas (KRAEMER et al., 2003; GOMES, 2009). As cargas mais aceitáveis são as que visam à manutenção da preparação técnica e da fl exibilidade, sendo que as cargas aeróbias em pequenos volumes exercem infl uência favorável. As cargas estáticas e dinâmicas globais sobre os músculos da zona pélvica e abdominal são contraindicadas (GOMES, 2009). Estrutura do mesociclo Pré-competitivo As grandes competições são o objetivo da preparação do atleta, uma vez que o desempenho nessas competições depende do resultado da preparação anterior (às vezes vários anos de treinamento). Na fase que antecede as competições principais, a preparação do atleta visa criar as condições mais favoráveis para atingir o nível de capacidade de treino alcançado nos desportos de alto nível durante essas competições. O fato, porém, de o atleta ter o nível necessário de treinabilidade não signifi ca que, a qualquer momento, seja capaz de mostrar tais resultados altos. Na prática desportiva, há muitos exemplos em que, durante as competições principais, os atletas apresentavam resultados mais baixos, que não correspondiam aos resultados dos testes de treinabilidade. Segundo dados dos especialistas (ZAKHAROV, 1985; PLATONOV, 1986), 25 a 60% dos atletas demonstram os seus melhores resultados nas competições principais. A causa de falhas reside frequentemente na má estruturação do mesociclo pré-competitivo (GOMES, 2009, p. 196). 97 O FATOR PLANEJAMENTO NO TREINAMENTO DESPORTIVODESPORTIVO Capítulo 2 1 A combinação das fases de estimulação e recuperação cria as condições necessárias para que ocorra o fenômeno da sobrecompensação, melhorando o nível de condicionamento do atleta. A menor fração do processo de treinamento é considerada: a) Mesociclo de preparação. b) Mesociclo de transição. c) Microciclo. d) Período pré-preparação. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Que bom que você conseguiu chegar até aqui. Neste capítulo, vimos como é realizado o planejamento e o que nós chamamos de periodização de treinamento, e esperamos que você tenha compreendido o quanto é fundamental esta periodização, tanto para a melhora de rendimento quanto para a preparação para a “não lesão” durante o fator competitivo. Vimos que a periodização é dividida em tempos, denominados micro e macrociclos, e a principal diferença entre eles é que o macrociclo é um plano de periodização que organiza o treino a longo prazo, podendo ser anual, bianual ou olímpico, com a duração de quatro anos. Já o mesociclo é o conjunto de microciclos, ou seja, o agrupamento de treinos menores. Cada mesociclo pode ter uma periodicidade de 1 a 12 microciclos. Vimos aqui também o treinamento personalizado não como coletivo, mas sim como individual. Levamos em consideração o treino feminino no aspecto hormonal e como este período tem infl uência no treinamento, principalmente quando falamos de evolução de treino e hormônios. Assim, temos que levar em consideração que a maior quantidade de estrogênio e testosterona presentes no organismo após a menstruação interfere positivamente na sua disposição e favorece a construção da musculatura. Já, após a ovulação, quando os níveis desses dois hormônios despencam e a progesterona domina o organismo (ela prepara o corpo para a menstruação), é normal que o seu rendimento não seja mais o mesmo. Esperamos que este capítulo tenha elucidado algumas práticas e que ajude no seu dia a dia na construção dos seus treinos e que você consiga aumentar o rendimento dos seus atletas. 98 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Um grande abraço e nos vemos mais adiante. REFERÊNCIAS BARBANTI, V. J. Teoria e prática do treinamento esportivo. 2. ed. São Paulo: Edgard Blucher, 1997. BOMPA, T. O. A periodização no treinamento esportivo. Barueri, SP: Manole, 2000. BOMPA, T. O. Periodização: teoria e metodologia do treinamento. 4. ed. São Paulo: Phorte, 2001. FEAL, A. R.; NAVARRO, N. V.; FONTOIRA, D. M. Planifi cación y control del entrenamiento de natación. Gymnos: Editorial Gymnos S. L., 2001. FORTEZA, A. de la R. Treinamento desportivo: carga, estrutura e planejamento. São Paulo: Phorte Editora, 2001. GOMES, A. C. Treinamento desportivo: estruturação e periodização. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2009. Disponível em: https://edisciplinas.usp.br/pluginfi le. php/5281087/mod_resource/content/1/Treinamento%20Desportivo%20 Estruturac%CC%A7ao%CC%83%20e%20Periodizac%CC%A7a%CC%83o.pdf. Acesso em: 10 dez. 2021. HARTMANN, H. et al. Effects of different periodization models on rate of force development and power ability of the upper extremity. 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Rio de Janeiro: Grupo Palestra Sport, 1992. 100 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo CAPÍTULO 3 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVO A partir da perspectiva do saber-fazer, neste capítulo você terá os seguintes objetivos de aprendizagem: • Abordar a ajuda de duas áreas importantes para o treinamento coletivo e individualizado. • Verifi car como a nutrição e a psicologia infl uenciam de forma positiva para o alto rendimento de atletas e como a não utilização destas pode acarretar danos psicológicos e/ou nutricionais. • Abordar os macro e os micronutrientes, os fatores sociopsicológicos e as ferramentas para identifi car problemas nessas áreas. • Interpretar de forma correta os problemas psicológicos que estão acometendo a equipe e/ou o atleta. • Indicar a melhor solução para a estabilização esportiva. • Verifi car se o atleta e/ou a equipe estão se alimentando perfeitamente para cada tipo de esporte específi co e se isso está infl uenciando os resultados que deveriam ser obtidos. 102 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo 103 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 1 CONTEXTUALIZAÇÃO Nutrição e esporte são áreas que se complementam e é difícil pensar em um sem cuidar do outro. Muitas vezes, uma alimentação balanceada não é sufi ciente para manter o indivíduo com boa saúde, é necessário, também, fazer exercícios físicos adequados. Mesmo sabendo da importância de trabalhar as duas questões juntas, surgem as seguintes questões: Qual é a melhor abordagem para a nutrição no esporte? Como posso melhorar o desempenho atlético do meu cliente por meio do monitoramento nutricional? A nutrição, atualmente, está muito na mídia e quase todo mundo acha que domina o conteúdo, certo? Quem nunca recebeu de um amigo conselhos sobre uma dieta “milagrosa” que ele viu em algum lugar? Além disso, por se tratar de uma “nova” ciência, nós, profi ssionais, muitas vezes nos deparamos com mudanças de conceito e devemos aprender a lidar com esse fato diariamente. O mercado de esportes e atividades físicas está se fortalecendo no Brasil e, antes mesmo dos ajustes dietéticos necessários, as pessoas já usam diversos suplementos alimentares. Talvez um dos maiores desafi os do profi ssional que trabalha com nutrição hoje é fazer a pessoa entender que, mais importante do que o uso de qualquer suplemento é, sobretudo, regular a alimentação, porque é muito comum notar certas falhas na maneira como essa pessoa se alimenta. Devemos estar cientes de que além de introduzir uma nova dieta, será necessário corrigir alguns erros para que o acompanhamento deste atleta ou praticante de atividade física tenha os resultados esperados. Isso não signifi ca que os alimentos ou suplementos escolhidos sejam prejudiciais, mas que seu uso sem o devido controle e dosagem não produzirá o efeito desejado e pode até ser prejudicial à saúde. A psicologia do esporte é o estudo de fatores comportamentais que infl uenciam e são afetados pela participação e desempenho no esporte, exercício ou atividade física e a aplicação dos conhecimentos adquiridos por meio deste estudo à situação diária. Estudar psicologia aplicada ao exercício é estudar as causas e os efeitos dos eventos psíquicos que os seres humanos experimentam antes, durante e depois do exercício. Certamente você já percebeu que, mesmo para ingressar em uma simples academia, o seu estado mental afeta diretamente a forma como você treina. Alguns dias são melhores ou piores do que outros. Muitos desses sentimentos são consequências de pensamentos, considerações e percepções de si mesmo e do mundo. Como outros campos da psicologia, a psicologia do esporte surgiu justamente para estudar o efeito da mente na prática de esportes físicos, especialmente de alto rendimento e trabalho em equipe. 104 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Temas, como motivação, personalidade, agressividade e violência, liderança, dinâmica de grupo, bem-estar psicológico, pensamentos e sentimentos dos atletas e vários outros aspectos da prática esportiva e física da atividade exigiram o estudo e a atuação dos profi ssionais do setor. Com efeito, o nível técnico dos atletas e das equipes de alto nível deve tornar-se mais equilibrado, livre das pressões extremas que prejudicam a saúde das pessoas, o que é muito facilitado pela atenção especial à preparação. 2 ASPECTOS NUTRICIONAIS E O DESEMPENHO FÍSICO Segundo Guyton e Hall (2002), a nutrição é responsável por fornecer ao corpo todos os nutrientes de que ele precisa, tanto em termos da necessidade de energia física para o esporte quanto em termos dos nutrientes de que o corpo necessita para equilibrar sua saúde e atingir seus objetivos. Na hora de escolher uma alimentação de qualidade, o corpo é o principal benefi ciado e se você deseja ter um corpo saudável ou perder peso, a nutrição esportiva é fundamental para isso. Ao fornecer os nutrientes certos em quantidades adequadas a sua rotina e qualidade de vida, a nutrição esportiva ajuda a equilibrar sua saúde. 2.1 A NUTRIÇÃO E O DESEMPENHO FÍSICO A nutrição esportiva proporciona os seguintes benefícios: previne o desgaste natural da cartilagem e dos ossos; ajuda a melhorar o desempenho físico; evita que vitaminas e minerais do corpo percam o ritmo devido a novas atividades físicas incluídas na rotina; acelera a recuperação muscular; ajuda a reduzir a gordura corporal; ajuda a regular a quantidade apropriada de nutrientes para o exercício que o paciente está fazendo e também para os objetivos do paciente; ajuda o corpo a se recuperar mais facilmente após o treino etc. A hidratação é um aspecto importante para que o corpo tenha saúde, qualidade de vida e equilíbrio, portanto, além de seguir o plano alimentar pensado para a sua individualidade, é extremamente importante ingerir a quantidade ideal de água todos os dias (COLLINS, 2009). Para confi gurar uma fonte de alimentação adequada, é importante que o atleta forneça uma maior variedade de informações para melhorar a prescrição da nutrição esportiva. O momento do treinamento físico é um aspecto que será 105 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 levado em consideração pelo profi ssional que prescreverá a nutrição. Com relação à refeição após o treino, é importante fornecer nutrientes e garantir uma recuperação mais rápida do corpo após um curso de atividade física intensa. É frequente até que o médico peça exames para avaliar o estado de saúde do seu paciente, para que a partir dos dados construa uma alimentação saudável e totalmente personalizada (SHIRREFFS, 2009). É importante ressaltar que o grande diferencial da nutrição esportiva é a melhora signifi cativa na saúde e no desempenho físico de quem procura um bom profi ssional. Uma pessoa que participa de um exercício físico de qualquer intensidade geralmente causa um desequilíbrio natural de seus minerais e vitaminas. Isso é normal devido à eliminação do suor e ao próprio treinamento, mas nenhum desequilíbrio é saudável, principalmente quando é gerado por uma pessoa tentando se autoalimentar ou seguindo uma dieta da moda. Consultar um nutricionista esportivo é uma escolha acertada para evitar problemas de saúde e difi culdades de desempenho. Pensando nisso, o praticanteentende as necessidades naturais do seu corpo, garantindo, através da alimentação, tudo o que precisa para se tornar mais saudável. Portanto, a dieta será uma fonte dos nutrientes exatos para garantir que o atleta alcance seus objetivos estéticos, bem como uma fonte de energia. Até o momento, vimos que o trabalho da nutrição ajuda o atleta e o usuário a criarem uma rotina mais saudável e efi ciente, mas quais são os reais efeitos da boa alimentação nesses casos? Em termos da resposta física às mudanças dietéticas, o monitoramento nutricional é capaz de melhorar o treinamento energético, aumentar o rendimento e, o mais importante, ajudar na recuperação muscular e nas reservas de energia para que o atleta possa realizar sessões de treinamento sem afetar o desempenho e a saúde. Graças ao acompanhamento nutricional, o atleta e/ou praticante de exercício físico conseguem manter um bom estado nutricional, com um peso ideal, um bom percentual de gordura e massa muscular, um ótimo estado de macro e micronutrientes e bioativos compostos extremamente importantes para: a boa formação de energia (melhoria da função mitocondrial); o funcionamento ideal dos sistemas de defesa e melhoria da imunidade; combater o estresse oxidativo (gerado naturalmente pela atividade, mas que não deve ser excessivo) e a infl amação, pois reduz muito o risco de lesões musculares e articulares; melhorar a produção de hormônios; e corrigir desequilíbrios intestinais. Finalmente, com suporte nutricional, melhora não só o desempenho, mas também a saúde! 106 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo 1 Imagine a seguinte situação: um atleta, campeão brasileiro de mountain bike, te procura porque no fi nal do ano passado ele estava pesando 5 kg a mais e teve a impressão de que isso estava prejudicando o seu desempenho. O que o atleta não sabia é que não era apenas o peso que o impedia de ir bem nos treinos. Apesar de ter passado por vários profi ssionais, ele continuava cometendo os erros da maioria dos atletas de resistência (esportes fracos ou médios, intensidade e longa duração): tinha um consumo excessivo de carboidratos de baixa qualidade (comia pão branco com creme de avelã cheio de açúcar no café da manhã, colocava açúcar no café e comia massa branca com frequência), comia pouca proteína e ingeria suplementos. Como ele pode obter melhores resultados nas provas em que participa? 2.2 O ASPECTO HIDRATAÇÃO NA NUTRIÇÃO DESPORTIVA Segundo Collins (2009), os fl uidos corporais são distribuídos nos compartimentos intracelular e extracelular, sendo este último formado pelo interstício celular e plasma sanguíneo. Cerca de 20% do peso corporal consiste em fl uidos intersticiais e plasmáticos, respectivamente, 3/4 e 1/4 dos 14 litros de compartimento extracelular existentes no homem médio de 70 kg. Na sua composição, predominam os cátions de sódio (142 mEql/l), secundados pelos ânions de cloro e pequenas quantidades de proteínas e potássio (4,2 mEq/l). A composição do líquido extracelular é estritamente regulada por diferentes mecanismos, com ênfase na função renal, que mantém as células umedecidas em um líquido com concentração de eletrólitos e nutrientes sufi cientes para seu funcionamento adequado. No compartimento intracelular, existem 28 litros dos 42 litros existentes no corpo, o que representa cerca de 40% do peso corporal de um indivíduo médio. O fl uido intracelular contém pequenas quantidades de cloreto e íons de sódio (14 mEql/l), grandes quantidades de íons de potássio (140 mEql/l), fosfato e quase quatro vezes a concentração plasmática de proteína (GUYTON; HALL, 2002). A manutenção de um volume relativamente constante e de uma composição estável dos solutos dos líquidos corporais é essencial para a homeostasia do organismo. A necessidade 107 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 diária de água varia individualmente, sendo infl uenciada por uma série de fatores, como as condições ambientais e as características da atividade física, como duração da sessão, intensidade do exercício e necessidade de vestimentas que interferem na termorregulação, por exemplo. A água do organismo provém de várias fontes, sendo ingerida sob a forma de água pura e de água que compõe os alimentos, inclusive os sólidos, que são as fontes exógenas. Existe, ainda, a produção endógena de água, decorrente da oxidação dos macronutrientes. A soma das fontes exógena e endógena precisa oferecer ao organismo humano a quantidade de água correspondente às perdas diárias. Além do débito urinário, cerca de 100 ml de urina/hora, ocorrem perdas pela pele e pelo trato respiratório, somando cerca de 700 ml/dia de perda insensível de água, perda pelo suor, que é bastante variável, podendo atingir até dois litros por hora durante a prática de exercícios físicos, além das perdas pelas fezes, cerca de 100 ml/dia. Portanto, para que exista equilíbrio entre ingestão e excreção, cabe aos rins a tarefa de regular a perda de líquidos e eletrólitos, por meio de múltiplos mecanismos. Com efeito, o mecanismo essencial pelo qual o organismo mantém o equilíbrio hidroeletrolítico depende do bom funcionamento renal (GUYTON; HALL, 2002 apud CARVALHO; MARA, 2010, p. 144). 2.3 TERMORREGULAÇÂO A efi ciência mecânica do organismo humano é baixa. Na caminhada rápida e na corrida, no máximo 25% da energia química advinda da oxidação dos nutrientes costumam se transformar em energia mecânica, responsável pelo movimento. O restante é transformado imediatamente em energia térmica. Posteriormente, inclusive a energia mecânica, que proporcionou o movimento, também é transformada em energia. Portanto, 100% da energia são transformados em calor. Essa energia térmica, que se acumula durante o exercício, elevando a temperatura corporal, deve ser dissipada, o que é feito por mecanismos termorreguladores, sem os quais o corpo entraria em colapso por superaquecimento em poucos minutos de atividade (CARVALHO; MARA, 2010). Dentre os mecanismos termorregulatórios, o mais efi caz durante a prática de exercícios é a evaporação do suor. Portanto, não basta suar, sendo necessária a evaporação do suor para que o calor seja liberado pelo organismo, algo infl uenciado pela umidade relativa do ar ambiente, ou seja, o aumento da umidade relativa do ar diminui a taxa de evaporação do suor, possibilitando, consequentemente, menor liberação do calor corporal. Os demais mecanismos, que são a condução, a irradiação e a convecção, têm importância menor durante a prática de exercícios, principalmente os mais intensos e prolongados. Na medida em que ocorre a elevação da temperatura externa, esses três mecanismos se tornam ainda menos efetivos (CARVALHO; MARA, 2010). 108 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Convecção é a transferência de calor por meio da movimentação interna dos fl uidos. A convecção ocorre quando há transmissão ou transferência de energia de um lugar para outro pelo deslocamento de meio material através de correntes que se estabelecem no interior do meio. Dois exemplos são a geladeira e o aquecedor de água. FONTE: <https://www.if.ufrgs.br/~dschulz/web/conveccao>. Acesso em: 25 jan. 2022. O fl uxo sanguíneo que banha as células do hipotálamo anterior permite ao corpo humano controlar o sangue ou a temperatura interna do corpo. Segundo Gisolfi e Duchman (1992), diante do aumento de temperatura central, desencadeia-se uma resposta eferente mediada por receptores adrenérgicos nos vasos sanguíneos, ocorrendo vasodilatação periférica e, consequentemente, desvio de sangue para a pele. Concomitantemente, ocorre estímulo dos receptores colinérgicos nas glândulas sudoríparas, que aumentam a taxa de produção do suor. Portanto, o aumento da temperatura central desencadeia o mecanismo de termorregulação, que culmina com a formação e a evaporação do suor.Os mecanismos da termorregulação e da manutenção da homeostasia cardiocirculatória podem se tornar confl itantes, principalmente se houver desidratação com diminuição do volume plasmático circulante, quando o organismo privilegia a manutenção do volume plasmático, em detrimento da termorregulação, ocorrendo, então, diminuição da vasodilatação periférica e da produção de suor. Com o aumento da temperatura central, a consequência é a gradativa diminuição do desempenho físico, que pode culminar com o colapso, a exaustão e a insolação, ocasionando até mesmo o óbito (MONTAIN; COYLE, 1992). O Comitê de Medicina Esportiva da Academia Americana de Pediatria (vide Tabela 1) recomenda que sejam levados em consideração para a prática esportiva os níveis de estresse térmico medidos pelo Índice de Temperatura do Globo e Bulbo Úmido. Esse índice combina as temperaturas de medida do ar (Tdb), umidade (Twb) e radiação solar (Tg), sendo determinado pela equação WBGT = 0,7wb + 0,2Tg + 0,1Tdb. Curiosamente, essa recomendação é mais relevante para atividades extenuantes e de longo prazo (CARVALHO; MARA, 2010). 109 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 TABELA 1 – EXERCÍCIOS FÍSICOS DE ACORDO COM OS NÍVEIS DE ESTRESSE TÉRMICO FONTE: Carvalho e Mara (2010, p. 145) 2.4 DESIDRATAÇÃO Guyton e Hall (2002) afi rmam que, em atletas de provas de longa duração, o mecanismo de desidratação se dá principalmente pela perda de suor, que pode chegar a ser de até dois litros/hora, sendo que fatores, como as condições ambientais, condicionamento físico, aclimatação, grau de intensidade de esforço e tempo de exposição infl uenciam o volume da perda. Principalmente, mas não somente, as atividades de longa duração em climas quentes expõem o indivíduo às doenças relacionadas com o calor, sendo importante o diagnóstico do estado de hidratação nesse contexto (LOPEZ; CASA, 2009). O uso de solução de reposição oral, recomendação que obrigatoriamente deve ser seguida pelos participantes de atividades de longa duração, inclusive os que percorrem trilhas, atividade que vem crescendo nos últimos anos, permite a adequada reposição de água, energia (carboidrato simples) e eletrólitos (principalmente o sódio). Portanto, a reposição ideal se faz por meio das soluções hidroglicoeletrolíticas, conhecidas popularmente como ‘bebidas desportivas’ (CARVALHO; MARA, 2010, p. 145). 110 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo O grau de desidratação pode ser determinado pela massa corporal verifi cada imediatamente antes e após a atividade física, sendo a perda de cada 0,5 kg correspondente a aproximadamente 480-500 ml de líquido (GUYTON; HALL, 2002). A partir de certo ponto, a desidratação, que espolia os compartimentos intracelular e extracelular, acarreta diminuição do fl uxo sanguíneo periférico e do ritmo da transpiração, podendo mesmo interromper a dissipação do calor (SAWKA, 1992). A desidratação, que reduz a massa corporal em 1%, compromete a termorregulação entre 3 e 5%, causando aumento da frequência cardíaca e da temperatura e diminuição do débito cardíaco, enquanto a desidratação, que reduz a massa corporal em 7%, geralmente causa colapso durante o exercício (SAFRAN; MCKEAG; VAN CAMP, 1998). O ambiente sempre deve ser levado em consideração, pois atletas com o mesmo percentual de perda de massa corporal apresentam melhor desempenho em clima frio ou ameno (20 ou 21° C) do que em clima quente (31 ou 32° C) (SHIRREFFS, 2009). Desidratação leve e moderada causa sinais e sintomas, como fadiga, perda de apetite, sede, vermelhidão da pele, intolerância ao calor, tonturas, oligúria e aumento da concentração urinária. A desidratação severa causa pele seca e enrugada, olhos fundos, visão embaçada, delírio, espasmos musculares, choque térmico e coma, podendo levar à morte (SCHWELLNUS, 2009). 2.5 REPOSIÇÃO HIDROELETROLÍTICA Segundo Montain e Coyle (1992), a partir da desidratação que causa perda de peso corporal entre 1 e 2%, há um aumento na temperatura corporal de 0,4 °C para cada percentual subsequente de desidratação. A reposição em volumes equivalentes às perdas previne o declínio no volume de ejeção ventricular, benefi ciando a termorregulação, favorecendo o fl uxo sanguíneo periférico e facilitando a transferência de calor. Especialmente no exercício de longa duração, água, eletrólitos e estoques de glicogênio são constantemente depletados e, a menos que esses elementos sejam repostos, podem ocorrer hipovolemia, hipoglicemia, hiponatremia, hipertermia e desidratação (GISOLFI; DUCHMAN, 1992). A inadequada reposição eletrolítica e a super-hidratação podem contribuir para a hiponatremia, cujos sinais e sintomas, muitas vezes semelhantes aos da desidratação, exigem a dosagem de sódio sérico capilar e a pesagem de massa corporal antes e após a atividade física, para que se estabeleça o diagnóstico diferencial (Tabela 2) (ADROGUÉ; MADIAS, 2000). 111 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 Você já imaginou o quanto os atletas de luta se desidratam tanto em competições quanto nos períodos de pré-competição? Muitos utilizam essas pseudotécnicas para perder peso e diminuir de categoria, mais o quanto isso é prejudicial para o atleta? Veja a matéria ‘O perigoso método usado por lutadores de MMA para perder 7 kg em um dia’ e tire as suas conclusões sobre esse perigoso método. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional- 39280340# :~ : tex t=Esse%20processo%20%C3%A9%20 potencializado%20com,gota%20de%20%C3%A1gua%20do%20 corpo. A perda de sódio é dependente do estado de aclimatação do atleta e da taxa de suor, sendo uma grande preocupação em atividades de longo prazo. Além da perda de água e eletrólitos, exercícios prolongados podem causar hipoglicemia e depleção de glicogênio, fatores que contribuem para o aparecimento da fadiga relacionada ao clima e à atividade esportiva (SHIRREFFS, 2009). O Colégio Americano de Medicina Esportiva publicou um guia de orientação para a reposição hidroglicoeletrolítica fundamentado na duração e intensidade do evento desportivo, de modo que seja devidamente estimada a necessidade de reposição de água, eletrólitos e substrato energético. Tal reposição deve ocorrer antes, durante e após a sessão de exercício. Conforme a duração, os eventos são classifi cados em atividades de menos de uma hora, entre uma e três horas e acima de três horas. Em atividades com menos de uma hora de duração, a reposição de água visa evitar o aumento da temperatura central, não sendo necessária a reposição de sódio. Nessa situação, também, a reposição de carboidrato não é recomendada, principalmente porque em geral são atividades de alta intensidade, nas quais o esvaziamento gástrico é prejudicado. Eventos com duração entre uma e três horas são realizados geralmente entre 60 e 90% do consumo máximo de oxigênio, devendo ocorrer reposição hídrica e do substrato energético (CARVALHO; MARA, 2010, p. 146). 112 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo TABELA 2 – SINAIS E SINTOMAS DIFERENCIAIS ENTRE HIPONATREMIA E DESIDRATAÇÃO FONTE: Carvalho e Mara (2010, p. 146) Em eventos de longa duração, ou com duração maior que três horas, recomenda-se a ingestão de 300 a 500 ml de água antes da prova e de 500 a 1.000 ml por hora de atividade. A bebida a ser consumida durante a atividade deve ter temperatura entre 5 e 15 ºC, e conter entre 6 e 8% de carboidrato e entre 20 e 30 mEq/l de sódio. A reposição de potássio pode ser benéfi ca, na concentração entre 3 e 5 mEq/l (GISOLFI; DUCHMAN, 1992 apud CARVALHO; MARA, 2010, p. 146). As diretrizes da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte, sobre modifi cação da dieta e reposição de eletrólitos, geralmente recomendam que o indivíduo comece a se hidratar com250 a 500 ml de água duas horas antes do exercício e mantenha a ingestão de líquidos a cada 15 a 20 minutos durante o exercício. O volume a ser ingerido varia de acordo com a taxa de suor, que pode variar de 500 a 2.000 ml/h (CARVALHO; MARA, 2010). A reposição de carboidrato, entre 30 e 60 g de glicose por hora de atividade, deve ser considerada apenas para as atividades intensas e contínuas com mais de uma hora de duração. Após o exercício, deve continuar a ingestão de líquido, para que sejam supridas as perdas adicionais pela urina e sudorese. Recomenda-se a reposição de 50 g de glicose nas primeiras duas horas após a atividade, para que se promova a ressíntese de glicogênio muscular e hepático (CARVALHO; MARA, 2010, p. 146). 113 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 2.6 RECOMENDAÇÕES NUTRICIONAIS Segundo Carvalho e Mara (2010), para aqueles que praticam exercícios não competitivos, uma alimentação balanceada, recomendada para a população em geral, é sufi ciente para manter a saúde e permitir um bom desempenho físico. No caso do atleta, a necessidade energética é calculada por meio da soma da necessidade energética basal e o gasto energético médio em treino. Os macronutrientes (carboidratos, lipídios e proteínas) devem ser consumidos visando à recuperação muscular, manutenção do sistema imunológico, equilíbrio do sistema endócrino e melhora do desempenho desportivo. As necessidades nutricionais, em termos calóricos, correspondem a um consumo que se situa entre 37 e 41 kcal/kg de peso/dia. Contudo, a depender dos objetivos, a necessidade calórica pode apresentar variações mais amplas, entre 30 e 50 kcal/kg de peso/dia (CARVALHO; MARA, 2010, p. 147). Na atividade leve, abaixo de 70% da FC máxima, portanto, abaixo do limiar anaeróbio, a energia advém quase que exclusivamente das reservas de gordura (quociente respiratório igual ou pouco acima de 0,70). Durante uma atividade contínua e moderada, com intensidade entre 70 e 85% da FC máxima, algo em torno ou pouco acima do limiar anaeróbio, a obtenção de energia advém de fonte mista, ou seja, da mobilização de carboidratos e gorduras (quociente em torno de 0,83). Quando a intensidade se acentua, igual ou acima do ponto de compensação respiratória, a obtenção de energia depende exclusivamente dos carboidratos (quociente respiratório igual ou acima de 1,0). A energia decorrente dos carboidratos depende principalmente do glicogênio armazenado no músculo esquelético, ou seja, da glicogenólise e subsequente glicólise, enquanto a energia vinda da gordura decorre da oxidação de ácidos graxos, provenientes principalmente da lise de triglicérides (lipólise). Portanto, a determinação do substrato a ser utilizado como fonte de energia depende da duração e intensidade do exercício (CLAASSEN et al., 2005 apud CARVALHO; MARA, 2010, p. 147). Segundo Carvalho (2003), o glicogênio exige muito espaço para pouca energia, pois 3/4 do seu volume correspondem à água. A energia advinda dos carboidratos é de grande explosão, sendo facilmente depletável. Consequentemente, após cerca de 90’ de uma atividade contínua, moderada e intensa, costuma ocorrer a depleção quase total das reservas de carboidrato, tendo como consequências a fadiga e a indisposição, causadas principalmente 114 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo pela hipoglicemia e pelo acúmulo de corpos cetônicos (cetose). Para que isso não ocorra, há a necessidade de consumo de carboidrato simples durante a atividade, mesmo quando existe uma boa reserva inicialmente. A reposição das reservas de carboidrato é importante no período de recuperação, evitando a fadiga crônica e preservando o desempenho desportivo e a saúde (HERNANDEZ, 2009). A ingestão de carboidratos correspondente a algo situado entre 60 e 70% do aporte calórico diário atende perfeitamente à demanda de um treinamento desportivo. Para aperfeiçoar o processo de recuperação muscular, recomenda-se o consumo de carboidratos entre 5 e 8 g/kg de peso/dia. Em atividades de longa duração, recomendam-se até 10 g/kg de peso/dia para que ocorra adequada recuperação do glicogênio muscular. Para atletas de provas longas, recomenda-se consumo entre 7 e 10 g/kg de peso/dia e entre 30 e 60 g de glicose para cada hora de exercício contínuo, para prevenção da hipoglicemia, da depleção de glicogênio e da consequente fadiga. Imediatamente após o exercício, recomenda-se a ingestão de carboidratos simples, de alto índice glicêmico, correspondente a algo entre 0,7 e 1,5 g/kg de peso. A ingestão de carboidrato simples imediatamente após o exercício favorece a ressíntese de glicogênio muscular de forma mais rápida, tendo sido demonstrado que altas taxas de ressíntese de glicogênio muscular podem ser obtidas com o consumo de cerca de 1,2 g de glicose/kg a cada 30 minutos nas primeiras cinco horas de recuperação (GOFORTH et al., 2003 apud CARVALHO; MARA, 2010, p. 147). Visando um maior acúmulo ou “supercompensação” de glicogênio muscular, Sherman et al. (1981) propuseram, para um grupo de atletas praticantes de atividade de longa duração, uma redução no volume e intensidade do treinamento e um aumento no consumo de carboidratos, de cerca de 9 a 10 g/kg/dia durante os quatro dias imediatamente anteriores ao teste, em uma abordagem considerada mais efi caz do que a proposta anteriormente por Bergstrom et al. (1967), que haviam demonstrado que a sobrecarga de carboidratos produzia altas concentrações de glicogênio muscular após a corrida. Foi também demonstrado que a ingestão de bebida contendo carboidrato simples melhora o desempenho dos atletas durante a atividade de longa duração, na comparação com a ingestão de água ou placebo, sendo que a resposta metabólica não ocasionou elevação da temperatura corporal central, mesmo em temperaturas ambientes de 30 ºC (HULSTON; JEUKENDRUP, 2009 apud CARVALHO; MARA, 2010). Em temperaturas de 30 °C, Keizer et al. (1987) verifi caram que, quando o consumo de alimentos à vontade era permitido, sem orientação específi ca aos atletas, eles não conseguiam repor adequadamente os estoques de glicogênio. Portanto, é importante monitorar e orientar a ingestão de carboidratos durante o período de recuperação dos atletas conforme prescrição necessária. 115 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 1 A nutrição é uma ferramenta importante dentro da prática esportiva. É um dos fatores que pode favorecer o desempenho atlético, já que, quando bem orientada, pode reduzir a fadiga e as lesões ou ajudar na recuperação destas, aumentar as reservas de energia para a competição e auxiliar na preparação física. Assinale V para as afi rmações verdadeiras e F para as falsas: ( ) Reduções signifi cativas na gordura dietética podem prejudicar o desempenho físico. Alimentos ricos em gordura devem ser consumidos antes da atividade física, pois a gordura é uma fonte de energia para exercícios de longa duração de alta intensidade. ( ) Recomenda-se o consumo de carboidratos com índice glicêmico moderado imediatamente após uma maratona, a fi m de promover a ressíntese de glicogênio. Isso indica que, para atletas de provas de longa duração, recomenda-se consumir entre 7 e 10 g/kg de peso corporal/dia e entre 30 e 60 g de carboidratos simples por hora de exercício contínuo, a fi m de prevenir hipoglicemia, exaustão grave de glicogênio e fadiga. Após a atividade física, são recomendados carboidratos de alto índice glicêmico, correspondendo a algo entre 0,7 e 1,5 g/kg de peso, no período entre quatro e cinco horas. Para a população em geral, consumir uma quantidade normal de carboidratos na dieta, dentro de 24 horas após atividades longas, é sufi ciente para repor os estoques de glicogênio, sem a necessidade de recomendação especial (KEIZERet al., 1987). Com relação às proteínas, é sufi ciente para indivíduos sedentários o consumo entre 0,8 e 1,2 g/kg/peso/dia. Para atletas, a recomendação pode ser entre 1,2 e 1,6 g/kg/ peso/dia. Mesmo no caso de atletas de força (fi siculturistas, halterofi listas etc.) a recomendação é de no máximo 1,8 g/kg/ peso/dia, algo facilmente possível de ser obtido por meio de uma dieta balanceada, que, portanto, é sufi ciente para fornecer a proteína que permita a necessária síntese proteica, necessária para o ganho de massa muscular, não havendo necessidade de qualquer suplementação. Quanto às necessidades diárias de lipídios, os atletas necessitam das mesmas recomendações destinadas à população em geral, ou seja, 1 g de lipídio/kg de peso corporal, correspondendo a 30% do valor calórico total da dieta, devendo ser mantidas as proporções normais de ácidos graxos, ou seja, 10% de lipídios saturados, 10% de monoinsaturados e 10% de poli-insaturados (HERNANDEZ, 2009 apud CARVALHO; MARA, 2010, p. 147). 116 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo ( ) Indivíduos treinados têm maior capacidade de utilizar ácidos graxos e também economizar glicogênio muscular durante o exercício. ( ) A ingestão de carboidratos durante o exercício não previne a fadiga muscular, mas retarda seu início. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) F, F, V, V. b) V, F, V, F. c) V, V, F, F. d) F, V, F, V. 2.7 A SUPLEMENTAÇÃO NA VISÃO DA COMPOSIÇÃO CORPORAL Ganho de força, aumento da massa muscular, redução da gordura corporal, aumento da capacidade aeróbica, redução da fadiga, recuperação rápida e outros fatores que melhoram o desempenho físico atlético são objetivos comuns em atletas. Para o ganho de massa muscular, é preciso ter um aporte adequado de nutrientes, contido em todos os grupos de alimentos, e, sobretudo, um aporte proteico adequado, pois o aumento da disponibilidade plasmática de aminoácidos leva ao anabolismo proteico muscular (KATSANOS et al., 2008). Os suplementos alimentares estão no centro das atenções, ainda mais quando pensamos sobre seus possíveis efeitos no desempenho físico, e seu uso está cada vez maior, principalmente entre atletas (PENCHARZ; ELANGO; BALL, 2012). Frequentemente, as necessidades de alta energia não são atendidas apenas pela dieta, o que requer a adição de ingestão de suplementos dietéticos (GOSTON; CORREIA, 2009). Macronutrientes são recomendados para atletas, de 1,2 a 2,0 g/kg p/dia de proteína, 60,0% de carboidratos e 20,0% de gordura. Criada em 10 de novembro de 1999, a Agência Mundial Antidoping (AMA) – em inglês, World Anti-Doping Agency (WADA) – estabelece regras e diretrizes para combater a dopagem em escala global, expandidas politicamente pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) e outros órgãos (CFM, 2018). 117 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 Suplementos abrangidos na RDC nº 18/2010 da ANVISA, especialmente formulados para auxiliar os atletas e atender suas necessidades nutricionais específi cas e auxiliar no desempenho do exercício: cafeína, creatina, suplementos energéticos, suplementos hidroeletrolíticos, suplementos para substituição parcial de refeições e suplementos proteicos (BRASIL, 2010). No entanto, essa regulamentação não abrange substâncias estimulantes, hormônios, entre outras consideradas como “doping”. Pessoas fi sicamente ativas, que praticam atividade física recreativa, por estética ou para a promoção da saúde não necessitam de nutrientes adicionais além dos obtidos por uma alimentação equilibrada, a não ser em condições especiais, sob prescrição de profi ssionais da área (GOSTON; CORREIA, 2009). Atletas envolvidos em treinos com considerável duração diária e semanal podem se benefi ciar do uso de suplementos, sendo estes adicionais a uma dieta adequada, visto que esses indivíduos precisam consumir energia sufi ciente para o treinamento (BECKER et al., 2016). A baixa ingestão alimentar pode levar à diminuição de massa muscular e densidade óssea, aumento do risco de fadiga, lesão muscular, entre outros (MALFATTI et al., 2008). É importante entender a legislação vigente para avaliar as características dos suplementos e os fatores associados ao seu consumo, visto que existe uma grande quantidade desses produtos no mercado atual, o que torna difícil entender corretamente os seus reais benefícios e quais são os mais adequados para uso em situações específi cas (COSTA JÚNIOR, 2012). A prescrição de suplementos pelo nutricionista deve ser baseada na avaliação do estado nutricional, na dieta do atleta, no ajuste do consumo alimentar e na defi nição clara do período de uso do suplemento. Fica clara a importância do trabalho multidisciplinar, visto que o nutricionista, em sua formação, não aprende satisfatoriamente todos os conteúdos sobre a fi siologia do exercício e do esforço e as características de cada tipo de treinamento, informações totalmente compreendidas pelo educador físico e pelo fi siologista (WLOCH et al., 2008). Veremos, a seguir, alguns dos suplementos mais utilizados, seus efeitos e consumo segundo alguns estudos. Suplementos à base de carboidratos Os carboidratos são combustíveis importantes para o sistema nervoso central, têm efeito anticetogênico, ação poupadora de proteínas e fator imunorregulatório (SANTOS, 2011). O uso de suplementação de carboidratos por atletas é interessante, pois dependendo da duração e intensidade do treinamento, 118 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo há perda de fl uidos corporais, queda da glicemia e depleção dos estoques de glicogênio muscular (ACSM, 2011). As bebidas isotônicas, por exemplo, também são utilizadas por atletas por conterem concentrações adequadas de eletrólitos, que levam à rápida absorção dos líquidos, mantendo o corpo hidratado e equilibrado, visto que o equilíbrio eletrolítico visa aumentar o açúcar no sangue. O consumo de bebidas energéticas de 10 a 60 minutos antes do exercício pode ser benéfi co, melhorando o foco mental e o desempenho durante o treinamento. O uso dessas bebidas durante o treino é importante para a manutenção de níveis adequados de glicose, principal substrato para a geração de energia, porém, cuidados devem ser tomados, pois uma maior ingestão calórica pode favorecer uma ingestão de energia que às vezes não é considerada parte integrante do consumo energético diário total necessário. As bebidas isotônicas contêm de 4 a 8% de carboidratos em sua composição, como misturas de glicose, sacarose, frutose e maltodextrina, eletrólitos (sódio e potássio) e pode conter outros compostos, como proteínas/aminoácidos ou cafeína (BURKE; MAUGHAN, 2010). Costa et al. (2010) sugerem que a quantidade e o tipo de carboidratos utilizados são fundamentais para que seu uso seja efi caz, infl uenciando diretamente no esvaziamento gástrico. Concentrações de carboidratos acima de 8% diminuem a taxa de esvaziamento gástrico, retardando o processo de absorção. As recomendações para o consumo adequado de carboidratos em exercício serão descritas no Quadro 1. QUADRO 1 – CONSUMO DE CARBOIDRATOS RECOMENDADO PARA ATLETAS FONTE: Becker et al. (2016, p. 97) 119 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 BCAA Estudos já demonstraram que, para a síntese de proteínas musculares, uma mistura de aminoácidos de cadeia ramifi cada é tão efi caz quanto todos os aminoácidos essenciais combinados (MATA; NAVARRO, 2009). Com relação ao possível efeito antifadiga dos BCAA, Falavigna et al. (2012) comentam que a suplementação crônica com 3,57% de BCAA contidos em uma dieta padrão para roedores com livre acesso à ração aumentou o tempo de natação até a exaustão em ratos suplementados em comparação a um grupo comcontrole. A suplementação de BCAA possui efeito dose-dependente e uma ingestão crônica de grandes quantidades de BCAA pode levar à incapacidade de manter a força muscular, com consequente redução do desempenho, ao contrário do que se é esperado pelos atletas ao usarem a estratégia da suplementação (BECKER et al., 2016). Como não são decompostos diretamente no fígado, os BCAA ingeridos acabam na corrente sanguínea e estão disponíveis para os músculos esqueléticos. Dietas ricas em BCAA estão frequentemente associadas ao baixo peso corporal, sugerindo oxidação de ácidos graxos (KAINULAINEN; HULMI; KUJALA, 2013). “Enfi m, há a hipótese de que os BCAA são mediadores no catabolismo da glicose, há o aumento da utilização dos ácidos graxos para a β-oxidação, aumentando a capacidade aeróbia no exercício e também em situações de repouso” (BECKER et al. 2016, p. 98). Arginina A associação da suplementação de arginina ao exercício físico pode melhorar o desempenho, uma vez que a arginina é substrato para a formação do óxido nítrico, levando a uma melhora na função endotelial com melhoria do fl uxo sanguíneo e também à redução da agregação plaquetária, melhora da resistência e crescimento vascular, aumento do ritmo de fi ltração glomerular, entre outros (LIMA et al., 2012). A arginina tem sido estudada, também, como um aminoácido que estimula a secreção de hormônio do crescimento (GH), por meio da inibição da secreção da somatostatina, que é um hormônio que inibe a secreção de GH, podendo, então, aumentar os níveis de GH em repouso (NICASTRO et al., 2008 apud BECKER et al., 2016). Creatina O exercício pode induzir lesões musculares e comprometer o desempenho do atleta, devido a isso, existe a justifi cativa das estratégias de suplementação 120 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo nutricional, que visam interferir positivamente nesse aspecto (SOUZA et al., 2010). Essa pode ser uma ferramenta de modulação do metabolismo de carboidratos. Em alguns estudos, já foi observado que a creatina pode afetar a absorção de glicose, aumentando a secreção de insulina pancreática ou por ação direta nos tecidos periféricos, aumentando a expressão do transportador de glicose muscular (GLUT-4) aumentando o transporte de glicose para as células (FREIRE et al., 2008). A melhor forma de administrar a creatina ainda é bastante discutida e, em alguns estudos, que não chegaram a uma conclusão em si, a absorção de creatina parece ser aumentada quando combinada com carboidratos em sucos ou bebidas esportivas (MAHAN; RAYMOND, 2011). Devido a isso, sugere-se que a ingestão de carboidratos simples estimula a secreção de insulina, resultando em aumento da atividade da bomba sódio-potássio e do transporte de creatina para o músculo. A dose diária de suplementação segura e recomendada de creatina pode ser entre 3 e 5 gramas, e o recomendado é que a ingestão de creatina ocorra 30 minutos antes do exercício. Estima-se que os estoques de creatina permaneçam elevados 2 a 3 meses após a suplementação com 20 gramas de creatina durante cinco dias. Whey Protein A maioria dos estudos disponíveis conclui que o soro do leite ou proteína do leite (soro + caseína) ingerido imediatamente após o exercício de resistência aumenta a síntese de proteína muscular em comparação com o consumo de carboidratos imediatamente após o treinamento (HULMI; LOCKWOOD; STOUT, 2010). Além disso, a proteína do soro do leite pode ter a propriedade de aumentar a resposta antioxidante, devido à produção de glutationa celular, que é um peptídeo composto por glutamato, cisteína e glicina, que tem efeito antioxidante. Durante exercícios, espécies reativas de oxigênio são liberadas, resultando em estresse oxidativo (TERADA et al., 2009). Terada et al. (2009) demonstraram que a ingestão de proteínas hidrolisadas do soro do leite após o exercício leva à maior síntese de aminoácidos no sangue e de proteínas musculares quando comparado à ingestão de proteínas de soja ou caseína também pós-exercício. Observou-se, também, que a ingestão de proteínas de soja estimulou maior síntese de proteínas em relação à caseína. Sugere-se, então, que o consumo de um suplemento de proteínas hidrolisadas tem ação mais rápida, aumentando a disponibilidade de aminoácidos na circulação sistêmica que estarão disponíveis para o anabolismo de proteínas musculares. A suplementação de proteína do soro do leite é vista na maioria dos estudos como 121 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 1 O processo de hipertrofi a ocorre quando a taxa de síntese proteica muscular ultrapassa a taxa de degradação, resultando em um balanço positivo do balanço proteico muscular. Assinale V para as afi rmativas verdadeiras e F para as falsas: ( ) O exercício de força induz a um aumento agudo no turnover e oxidação de proteínas durante o exercício. ( ) A hidratação e a ingestão adequada de nutrientes (carboidratos e proteínas) durante o período pós-exercício atuam em conjunto para atingir o balanço proteico muscular positivo. ( ) Recomenda-se uma ingestão proteica entre 1,6 g/kg/dia e 2,0 g/ kg/dia com o objetivo de otimizar a síntese de proteína muscular. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: ( ) F, F, F. ( ) V, V, V. ( ) F, V, V. ( ) F, V, F. 2 As recomendações dietéticas para homens e mulheres fi sicamente ativos visam atingir um equilíbrio entre a ingestão e o gasto de energia, promovendo uma melhora no desempenho físico, manutenção/ganho de massa magra, benefícios nas funções imunológicas, entre outros. Assinale a alternativa CORRETA: a) O aumento do metabolismo na atividade física amplia a produção de radicais livres potencialmente prejudiciais. Para reduzir a possibilidade de estresse oxidativo e danos às células, sua dieta diária deve conter alimentos ricos em vitaminas e minerais antioxidantes. b) A suplementação de vitaminas em excesso aos valores encontrados em uma dieta balanceada pode melhorar o desempenho físico ou o potencial de treinamento, além dos poderosos benefícios antioxidantes que agrega à dieta. uma estratégia importante para aumentar a resposta de resistência ao exercício e hipertrofi a muscular, e a proteína do soro do leite pode ou não estar associada à ingestão de carboidratos. 122 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo c) Não há recomendação precisa para a ingestão diária de gorduras, uma recomendação conservadora sugere não ultrapassar de 30 a 35% do valor energético total e, dentro desse percentual, tentar chegar a 90% na forma de ácidos graxos insaturados. d) Para atender às necessidades diárias de energia e nutrientes e minimizar o risco de doenças crônicas, os adultos devem consumir entre 45 e 65% do valor energético total dos carboidratos, com ingestão máxima de açúcares adicionados de 25% do valor total. 3 O METABOLISMO ATUANTE NO TREINAMENTO DESPORTIVO “Nos momentos iniciais do exercício, ocorre predominância das fontes energéticas primárias ATP e CP” (LANCHA JUNIOR, 1996, p. 68). Este evento se deve à ressíntese do ATP pela quebra do CP; a enzima creatina fosfoquinase (CPK) controla a degradação desse CP. O metabolismo ATP-CP predomina em atividades de curta duração e alta intensidade. 3.1 O METABOLISMO ENERGÉTICO NO TREINAMENTO DESPORTIVO Cintra Filho (1997), estudando dois grupos de sedentários, negros africanos (de Camarões, Senegal, Zaire, Costa do Marfi m e Burundi) e caucasianos, descobriu que os africanos têm maior atividade da enzima CPK, envolvida no metabolismo do ATP-CP, e a enzima fosfofrutocinase (PFK), que atua no metabolismo glicolítico. Em comparação aos caucasianos, não houve diferenças signifi cativas. Assim, concluiu que “os negros africanos são, em média, bem dotados para provas de alta intensidade e curta duração com respeito às características enzimáticas” (CINTRAFILHO, 1997, p. 58). O metabolismo ATP-CP predomina até 30 segundos, em seguida, o sistema glicolítico prevalece no exercício. Cintra Filho (1997) relata que os carboidratos são a fonte de energia do metabolismo glicolítico e alerta que esse carboidrato é transformado em glicose, para uso, ou convertido em glicogênio, para armazenamento no fígado e nos músculos. Segundo Hawley e Hopkins (1995), a degradação do glicogênio em glicose ou seu uso imediato pela glicose forma o ácido pirúvico; a fosfofrutocinase (PFK) controla a taxa do metabolismo glicolítico, 123 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 1 O sistema fi siológico depende de uma molécula que constitui a principal forma de energia química, pois sua hidrólise é altamente exergônica. Qual é o nome dessa molécula considerada como a moeda energética dos seres vivos? a) ADP. b) ATP. c) DNA. d) RNA. e o PFK de jovens de 16 e 17 anos apresenta menor atividade do que o de adultos. Nessa faixa etária, o ácido pirúvico se combina com os íons hidrogênio (H +) e forma o ácido lático (LA), que é o produto do metabolismo glicolítico e uma das causas do cansaço e da fadiga. As características dos desportos e das atividades físicas do metabolismo glicolítico são ações de alta intensidade e maior duração que o ATP-CP; geralmente, o sistema predomina até três minutos. Tourinho Filho e Tourinho (1998) afi rmam que crianças e adolescentes apresentam défi cit no metabolismo glicolítico quando comparados aos adultos, pois a taxa de glicólise é menor. Exercícios com ácido lático devem ser evitados, principalmente em crianças que não estão preparadas para exercícios de alta intensidade. No entanto, o American College of Sports Medicine (1988) recomenda de 20 a 30 minutos de exercícios vigorosos para crianças e adolescentes. Uma questão importante é o uso efi ciente do tempo nas aulas de educação física. Um importante assunto é o uso efetivo do tempo da aula de educação física. O estudo do tempo e da movimentação dos alunos durante as aulas de educação física tem sugerido que uma grande fração do tempo instrucional é dedicado à matéria teórica, ao tempo de espera, à troca de veste e ao banho. Em algumas aulas, os estudantes gastam não mais que 11 minutos do período de 50 minutos, e, durante grande parte do tempo disponível, a frequência cardíaca (FC) não atinge o limiar de treinamento de 150 batimentos por minuto (BPM) (SHEPHARD, 1995, p. 72 apud MARQUES JUNIOR, 2001, p. 66). 124 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo 3.2 O EFEITO EPOC O gasto energético diário pode ser dividido em três componentes: TMR (taxa metabólica de repouso), efeito térmico da dieta e gasto energético associado à atividade física (AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE, 1988). A primeira condição refere-se ao próprio gasto energético durante o exercício e durante a fase de recuperação; a segunda refere-se às alterações na taxa metabólica de repouso (TMR). Com relação ao efeito agudo, está bem estabelecido que, após o término do exercício, o consumo de O2 não retorna imediatamente aos valores de repouso. O excesso de consumo de oxigênio após o exercício consiste em um componente rápido e um componente prolongado. O componente rápido do EPOC ocorre dentro de 1h. Embora a causa precisa dessas respostas não esteja bem esclarecida, é provável que esses fatores contribuam para: a ressíntese de ATP/CP, redistribuição comportamental dos íons (aumento na atividade da bomba de sódio e potássio), remoção do lactato, restauração do dano tecidual, assim como restauração do aumento da FC e do aumento da temperatura corporal (BAHR; SEJERSTED, 1991 apud FOUREAUX; PINTO; DÂMASO, 2006, p. 394). Durante o componente prolongado, os processos de retorno da homeostase fi siológica ocorrem continuamente, mas em nível inferior. Esses processos podem incluir o ciclo de Krebs com maior uso de ácidos graxos livres; efeitos de vários hormônios, como cortisol, insulina, ACTH, hormônios da tireoide e GH; ressíntese de hemoglobina e mioglobina; aumento da atividade simpática; aumento da respiração mitocondrial pelo aumento da concentração de norepinefrina; ressíntese de glicogênio e aumento da temperatura (RICCIONI et al. 2004, BAHR; SEJERSTED, 1991). Os resultados de vários estudos sobre a extensão e a duração do EPOC são confl itantes: enquanto vários estudos mostram que o EPOC pode durar horas, outros concluíram que o EPOC é transitivo e mínimo (FOUREAUX; PINTO; DÂMASO, 2006). Vários trabalhos têm analisado a contribuição do EPOC em programas de emagrecimento, visto que este é o resultado de um balanço energético diário negativo entre consumo e gasto energético. Bahr et al. (1987) já haviam considerado o EPOC como um importante fator no controle do peso, uma vez que o exercício demanda uma energia extra além da prevista na atividade física (FOUREAUX; PINTO; DÂMASO, 2006, p. 394). 125 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 O aumento do metabolismo durante a recuperação tem uma implicação importante na prescrição de programas de redução de peso. A perda de peso também está ligada a alterações crônicas na atividade física, ou seja, na taxa metabólica de repouso (TMR). A TMR é defi nida como o gasto energético necessário à manutenção dos processos fi siológicos no estado pós- absortivo, chegando a compreender até 60-70% do gasto energético total, dependendo do nível de atividade física. Todo esse interesse na redução ponderal deve-se ao fato de a obesidade, atualmente, ser considerada pela Organização Mundial de Saúde um problema de saúde pública. Uma estimativa considerando a prevalência de pessoas obesas atualmente ressalta que, se essa proporção se mantiver, no ano de 2230, 100% da população norte-americana será obesa. Analisando a realidade brasileira, Meirelles e Gomes (2004) mostraram que, no Rio de Janeiro, 44% dos homens e 33% das mulheres na faixa etária de 26 a 45 anos apresentam sobrepeso ou obesidade (FOUREAUX; PINTO; DÂMASO, 2006, p. 394). Embora a obesidade esteja ligada a várias causas, tais como genéticas, fi siológicas, metabólicas, ambientais, emocionais e culturais, toda a atenção dada ao aumento do gasto energético total diário é de grande valia, uma vez que o balanço energético é determinado, por um lado, pelo consumo e, por outro lado, pelo gasto de energia, e um desequilíbrio energético positivo pode levar a um acúmulo excessivo de energia armazenada como gordura corporal (FOUREAUX; PINTO; DÂMASO, 2006). 3.3 EFEITO DO EPOC NO AUMENTO DO GASTO ENERGÉTICO DIÁRIO TOTAL COM EXERCÍCIO AERÓBIO Segundo Imamura et al. (2004), as disparidades nos resultados relacionados ao EPOC podem refl etir diferenças em muitos fatores, como massa muscular envolvida no exercício; intensidade e duração; estado do treinamento; ingestão de alimento (efeito térmico da refeição); qualidade do sono da noite anterior; condições ambientais; familiaridade do sujeito com o protocolo; variações na temperatura e nas concentrações de catecolaminas; custo metabólico da remoção do lactato; utilização do substrato e fase do ciclo menstrual, no caso das mulheres; ansiedade pré-exercício; ritmo circadiano; presença de overtraining, em casos de atletas; entre outros. 126 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo O EPOC aumenta linearmente com a duração do exercício. No entanto, a intensidade do exercício parece afetar tanto o tamanho quanto a duração do EPOC; a duração do exercício, por outro lado, afeta apenas a duração do EPOC (IMAMURA et al., 2004). Portanto, estudos têm sugerido que exercícios de maior intensidade produzem aumento mais sustentado do EPOC do que exercícios de menor intensidade (quando em volume equivalente), devido ao fato de causar maior estresse metabólico,exigindo maior gasto de energia para retornar à homeostase. Além disso, um maior nível de atividade do sistema nervoso simpático (estimulado por catecolaminas) também pode contribuir para o aumento da taxa metabólica após o exercício, uma vez que adrenalina e norepinefrina estimulam a respiração e a função mitocondrial e celular, facilitando a passagem de sódio e potássio pela membrana celular, aumentando a produção de ATP e o uso de oxigênio (BORSHEIM et al., 1994). Existe um aumento de 20-35% na resposta lipolítica no adipócito após o exercício, no entanto, a taxa de oxidação lipídica é ainda maior após o exercício de alta intensidade porque a síntese de glicogênio é aumentada para substituir o glicogênio utilizado. A oxidação dos lipídios também está associada ao aumento do turnover dos ácidos graxos livres; ao mesmo tempo, o aumento do turnover de proteínas também pode contribuir para um maior EPOC. Além desses fatores, exercícios mais intensos estão associados a uma maior ressíntese de hemoglobina e mioglobina e parecem estar inversamente associados às taxas de obesidade (BAHR; SEJESTED, 1991). Alguns trabalhos analisaram o EPOC e o gasto energético comparando protocolos de exercício contínuo e intervalado submáximos e exercício contínuo submáximo e intervalado supramáximo. Todos esses estudos demonstraram maior gasto energético para os exercícios mais intensos. Partindo- se do princípio de que é possível realizar mais minutos à alta intensidade com o exercício intermitente se comparado com o exercício contínuo, pessoas com sobrepeso podem exercitar- se por tempo menor a uma intensidade que produza um EPOC maior, visto que, na maioria das vezes, essas pessoas, além de descondicionadas, têm aversão à atividade física (FOUREAUX; PINTO; DÂMASO, 2006, p. 394). No entanto, deve-se ressaltar que o EPOC é relativamente curto após exercícios de intensidade e duração moderada, < 70% do VO2máx. e/ou < 60 minutos, visto que a magnitude do EPOC após o exercício aeróbio depende de ambos os fatores (intensidade e duração do exercício). Por outro lado, exercícios com duração > 60 minutos e/ou com intensidade > que 70% do VO2máx. parecem estar relacionados a um EPOC prolongado. Tem sido proposto, ainda, que para as pessoas que querem emagrecer, a magnitude do EPOC (custo energético) é mais importante que a duração (FOUREAUX; PINTO; DÂMASO, 2006). 127 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 3.4 EFEITO DO EPOC NO AUMENTO DO GASTO ENERGÉTICO DIÁRIO TOTAL COM O EXERCÍCIO RESISTIDO Laforgia et al. (1997) apontaram que exercícios de endurance provavelmente causam maior perturbação da homeostase do que exercícios aeróbicos, sugerindo que, devido às altas intensidades envolvidas, podem requerer mais gasto de energia, tanto durante o exercício quanto durante a recuperação. Além disso, olhando apenas para o exercício resistido, sugere-se também que um protocolo mais intenso é mais efi caz no controle de peso (SCHUENKE; MIKAT; MCBRIDE, 2002). Dois fatores foram atribuídos ao fato de o exercício de endurance produzir um EPOC mais alto: o primeiro fator refere-se às respostas hormonais, que podem alterar o metabolismo, especialmente catecolaminas, cortisol e hipertrofi a tecidual de GH, que se deve ao fato de a síntese de proteínas ser reduzida durante o próprio exercício. No entanto, após o exercício, há um fenômeno compensatório, no qual o turnover das proteínas parece ser estimulado. Além disso, o processo de síntese de proteínas requer uma alta demanda de energia (6 ATP por mol de peptídeo formado). Esse mecanismo também pode contribuir para um estímulo duradouro do gasto energético após o exercício. Um estudo acompanhou sete homens saudáveis em dois circuitos de treinamento de peso, um usando 20’’ de intervalo e outro usando 60’’ a 75% de 20 RM. Os resultados demonstraram que o EPOC foi signifi cativamente maior no protocolo de 20’’, se comparado com o de 60’’. O gasto energético em 1h de recuperação foi de 51 ± 2,84 kcal x 37 ± 1,97 kcal, respectivamente; essa diferença também foi signifi cativa, porém, o gasto de energia total (exercício + 1h de recuperação) foi signifi cativamente maior no protocolo de 60’’ de intervalo (277,23 kcal) comparado com o protocolo de 20’’ de intervalo (242,21 kcal). O protocolo de 20’’ resultou em maior componente rápido do EPOC, o que era esperado, uma vez que este é proporcional à intensidade do exercício (FOUREAUX; PINTO; DÂMASO, 2006, p. 395). Parece haver uma combinação ideal de intensidade e duração em exercícios de endurance para maximizar o EPOC. No entanto, essa combinação ótima permanece incerta. No estudo de Schuenke, Mikat e McBride (2002), um EPOC foi encontrado além de 16h após 38' de exercício de endurance. Além disso, o 128 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo VO2 também apresentou aumento constante ao longo do dia, atribuindo a isso o provável acúmulo de efeitos causados por atividades diárias, emoções e ritmo circadiano. O efeito do exercício resistido no EPOC foi verifi cado em homens de 22 a 40 anos previamente treinados com exercícios resistidos, nos quais foi observado que, após uma sessão de 90 minutos, a taxa metabólica permanecia elevada por mais de duas horas após o exercício. Outro estudo investigou o efeito de 45’ de exercício resistido em mulheres treinadas sobre o EPOC. Após 120 minutos de recuperação, observou-se elevação de 18,6% no metabolismo de repouso, se comparado com o controle. Em contraposição aos trabalhos mencionados anteriormente, um estudo analisou seis homens adultos por 42 minutos durante exercício de levantamento de peso (12RM), observando-os nos 60 minutos iniciais da recuperação. A taxa metabólica estava signifi cativamente elevada ao fi nal dos 60 minutos, porém, apenas 19 kcal adicionais foram despendidas. Os autores ressaltaram que esse gasto energético de recuperação teria pouco efeito na regulação do peso. No entanto, o fato de o consumo de oxigênio ter permanecido elevado após o controle de uma hora impossibilitou que esses autores determinassem a verdadeira duração do EPOC e o verdadeiro gasto energético durante esse período. Visto isso, o consumo de oxigênio poderia ter retornado aos valores de repouso imediatamente após esse período, como pode ter permanecido elevado por horas (MELBY; TINCKNELL; SCHMIDT, 1992 apud FOUREAUX; PINTO; DÂMASO, 2006, p. 395). Existem muitos mecanismos potentes pelos quais o exercício regular poderia facilitar a manutenção ou a redução do peso corporal, o que inclui: aumento do gasto energético diário total, redução do apetite, aumento da TMR, da massa livre de gordura, do efeito térmico da refeição, do consumo excessivo de oxigênio após o exercício e da taxa de mobilização e oxidação de gordura (GORE; WITHERS, 1990). Epoc e obesidade Vários estudos mencionaram o efeito do EPOC no auxílio à perda de peso. No entanto, embora as palavras perda de peso e obesidade tenham aparecido com frequência na literatura, poucos estudos realmente analisaram essa população. Poehlman et al. (2002) analisaram o efeito do treinamento aeróbio e resistido em mulheres obesas; entretanto, não observaram o consumo de oxigênio após o exercício, o que reforça a importância de novos estudos analisando o EPOC nessa população específi ca. Esses autores também citam outro aspecto relevante ao contexto dos obesos: a TMR foi medida 10 dias após os seis meses de treinamento e não houve alteração crônica signifi cativa em nenhum dos grupos. 129 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 3.5 TMR: EFEITOS AGUDO E CRÔNICO DO EXERCÍCIO A TMR é o principal componente do gasto energético diário, sendo modifi cada por diversos fatores como: horário do dia, temperatura, ingestão alimentar, ingestão de cafeína,tipo de exercício e estresse (IMAMURA et al., 2004). Na massa corporal, isso se deve em parte a uma diminuição da massa corporal magra e da atividade do sistema nervoso simpático. Com relação aos efeitos agudos do exercício, Osterberg e Melby (2000) descobriram que o exercício resistido aumentou a TMR por 16 horas após o exercício em cerca de 4,2%, sugerindo um aumento em cerca de 50 kcal/dia da TMR com o exercício. Um estudo de Hawley e Hopkins (1995) constatou que a TMR pela manhã após o exercício de endurance foi 4,7% maior do que a medida pela manhã antes do exercício. Para analisar o efeito crônico do exercício, mulheres obesas na pós- menopausa foram acompanhadas por 16 semanas de treinamento de resistência. Além disso, as pessoas obesas experimentaram reduções signifi cativas na massa corporal, gordura corporal e porcentagem de gordura, indicando que o exercício resistido pode ser um importante componente integrado a programas de emagrecimento em mulheres pós-menopausa. Schuenke, Mikat e McBride (2002) acrescentam um aspecto importante à literatura ao demonstrarem que o treinamento resistido acompanhado de redução da massa corporal não levou à redução da MTR. Confi rmando esse resultado, foi encontrado um aumento de 7,7% na TMR em homens idosos com protocolo semelhante. No entanto, Bahr et al. (1987) analisaram os efeitos de 12 semanas (3 vezes por semana) de exercícios aeróbicos e de resistência sobre o peso corporal, composição corporal e MTR em 18 idosos (aproximadamente 61 anos), que apresentaram diminuição da massa corporal 9 ± 1 kg em 11 semanas. Os resultados indicaram que nenhum dos dois tipos de exercício conseguiu reverter a diminuição da TMR de aproximadamente 15% (260 kcal/dia) ou a oxidação de gordura como consequência da redução da massa corporal anterior. Da mesma forma, dois grupos de mulheres não obesas foram treinadas, um grupo com exercício resistido e outro com exercício aeróbio por seis meses. O gasto energético diário foi mensurado 10 dias após os seis meses. Concluiu-se que os benefícios do treinamento físico no aumento do gasto energético é primariamente decorrente do efeito do exercício e não de elevação crônica do gasto energético diário em mulheres não obesas (POEHLMAN et al., 2002). 130 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo No entanto, deve-se notar que os dados sobre os efeitos do treinamento de longa duração na MTR são confl itantes, talvez devido ao fato de ser difícil quantifi car o tempo exato de recuperação de um treinamento anterior, quando apenas o efeito crônico destina-se a ser medido durante o treinamento, excluindo o efeito agudo da última sessão (para não superestimar a RMR). Segundo Freake e Oppenheimer (1995), fatores genéticos e fi siológicos que infl uenciam a RTM, como níveis de hormônio tireoidiano circulante, turnover das proteínas desacopladoras 2 e 3 e níveis circulantes de leptina, também começaram a ser investigados. Esses aspectos do metabolismo de repouso indicam que a atividade física pode ter dois efeitos distintos na TMR. Além do efeito do treinamento no aumento da massa magra, um segundo efeito pode resultar desses processos fi siológicos que infl uenciam a TMR (FOUREAUX; PINTO; DÂMASO, 2006). A proteína de desacoplamento (UCP3) foi descoberta em 1997 (BOSS et al., 1997). Essas proteínas transportam certos prótons ou ânions de ácidos graxos através da membrana interna da mitocôndria para produzir ATP e aumentar o gasto de energia. No entanto, também há evidências de que a principal função fi siológica da UCP3 não é a regulação do gasto energético, mas isso permanece obscuro (FOUREAUX; PINTO; DÂMASO, 2006). Foi sugerido por Lanouette et al. (2001) que a UCP3 pode estar envolvida com as adaptações induzidas pelo treinamento no metabolismo energético, exercendo uma downregulation na UCP3, que, por sua vez, está associada ao aumento do mecanismo de efi ciência no aproveitamento de energia. Deve-se ressaltar, no entanto, que, no exercício agudo, ocorre upregulation da UCP3, possibilitando maior oxidação de ácidos graxos. Entretanto, com o treinamento, a capacidade de oxidar ácidos graxos poderia aumentar, reduzindo a necessidade de altos níveis de UCP3. 3.6 TMB NOS OBESOS E LEPTINA A leptina, um hormônio produzido pelo tecido adiposo, é o maior regulador da ingestão de alimentos e da taxa metabólica. O nível plasmático de leptina refl ete- se nos estoques energéticos, uma vez que esse hormônio exerce um feedback negativo no eixo hipotálamo-pituitária-tireoide e eixo hipotálamo-pituitária-adrenal (RICCIONI et al., 2004). O mecanismo de ação da leptina envolve diminuição da ingestão alimentar e aumento do gasto energético, com consequente redução da massa corporal. 131 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 A leptina também aumenta a atividade simpática, sugerindo aumento da termogênese no tecido adiposo marrom (regula o peso corporal após a compulsão alimentar), o que poderia ser um mecanismo pelo qual a leptina poderia regular a massa corporal. Um estudo mostrou uma redução de 43% na ingestão de alimentos com a administração de oxigênio de leptina, o que foi associado a um aumento na síntese de novas proteínas UCP (proteína desacopladora). A concentração total de UCP aumentou em 131% com a administração de leptina, promovendo a redução da massa corporal. A ativação do UCP aumenta a taxa de oxidação do substrato e a produção de calor. Os autores concluíram que a leptina aumenta o turnover da norepinefrina no tecido adiposo, porque a leptina aumenta a ativação simpática, aumentando a termogênese no tecido adiposo marrom e a expressão de UCP (ZHOU et al., 2000). 3.7 A PSICOLOGIA APLICADA AO DESPORTO O rendimento esportivo está associado, por razões óbvias, aos resultados dos atletas; em geral, estamos de acordo que: melhores rendimentos produzem melhores resultados. Um dos aspetos que maior atração exerce sobre atletas, treinadores, preparadores físicos e psicólogos, é esse momento em que se produz a melhor execução possível, a excelência esportiva, ou a execução plena, utilizando a terminologia de Williams e Straub (1991). Alguns dos atletas mais experientes relevaram a enorme importância do fator psicológico: “no tênis profi ssional, 95% é mental”, comentava Jimmy Connors, ou “se teu cérebro pode convencer teu corpo de que ele pode fazer algo, sem dúvida o fará”, falava Carl Lewis (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012, s.p.). Segundo Williams e Straub (1991), é necessário assumir que o desempenho completo é consequência tanto de fatores físicos quanto mentais. Não podemos separar a mente do corpo. Podemos estimar que uma condição prévia para as execuções ótimas é ter um certo nível de condicionamento e domínio das tarefas físicas implicadas na execução. O psicólogo deve analisar quais habilidades psicológicas são mais relevantes e necessárias nas diferentes situações esportivas, bem como analisar e determinar as necessidades específi cas de cada atleta (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). O psicólogo de esporte aplicado deverá conhecer e analisar as diferentes situações esportivas que se produzem ao longo de um jogo, uma competição, uma temporada ou um ciclo olímpico no esporte, em que será feito um treinamento psicológico, e deverá avaliar, em primeiro lugar, as necessidades e os 132 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo recursos psicológicos de seus atletas e da equipe técnica com quem ele vai colaborar, para poder otimizar o rendimento e o bem-estar dos atletas com quem trabalha (CRUZ, 2002, p. 29). 3.8 ASPECTOS METODOLÓGICOS PARA O TRABALHO PSICOLÓGICO NO ESPORTE DE ALTO RENDIMENTO Para uma intervenção psicológica, é muito importante conhecer os aspectos característicos de cada esporte. Embora as variáveis psicológicas relacionadas ao desempenho sejam as mesmas para todos os atletas,o mesmo não acontece com as situações específi cas que terão de enfrentar, situações com potencialidades diferentes, cargas de estresse diferentes para cada esporte e para cada momento esportivo do mesmo esporte. Aspectos, como o sistema competitivo, a estrutura da temporada, os momentos de participação inativa na competição e a necessidade de um maior ou menor nível de ativação, exigem que o psicólogo do esporte tenha algum conhecimento do esporte em que intervirá (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). Tendo como proposta ideal o trabalho multidisciplinar no esporte, em que o objetivo é a otimização do rendimento do atleta, o psicólogo, como todos os demais profi ssionais: médicos, fi sioterapeutas, treinadores ou preparadores físicos, deve ter um conhecimento básico dos aspectos específi cos que fazem parte do trabalho dos colegas. Nesse aspecto, o psicólogo, tendo conhecimentos gerais de preparação física, treino desportivo, medicina e anatomia básica, mantém uma útil proximidade com o ambiente profi ssional. Em esportes específi cos, foram realizados estudos que indicam dentro de cada esporte a existência de uma fase mais ou menos importante para o atleta (ALZATE et al., 1997). Na verdade, não devemos perder de vista os seguintes pontos: • Concentração. • Deslocamento para o lugar da competição. • Aquecimento prévio. • Início da competição. • Períodos de participação não ativa (faltas, arremessos livres, o saque em voleibol etc.). • Diferenças no marcador. • Reiniciar o jogo após o descanso. • Quilômetros concretos em esportes de resistência. 133 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 1 Atualmente, falamos muito em qualidade de vida, mas o dia a dia é mais exigente. A tecnologia, feita para facilitar a vida das pessoas, está tornando o mundo cada vez mais complexo, implacável e sedentário, além da poluição, das obrigações, dos abusos etc., que afetam a saúde mental e o bem-estar psicológico. Nesse sentido, assinale a alternativa INCORRETA: O atleta deve saber administrar as demandas psicológicas que cada um desses momentos exige. Na realidade, essas situações tornam-se um verdadeiro test bed para contrariar as técnicas, habilidades e estratégias aprendidas pelo atleta durante um treinamento psicológico prévio. Segundo Nitsch (1985, p. 150), “o objetivo e a fi nalidade do treinamento psicológico é a modifi cação dos processos e estados psíquicos (percepção, pensamento e motivação), ou seja, a base psíquica para a regulação do movimento. Essa modifi cação será realizada com o auxílio de procedimentos psicológicos”. Os principais objetivos podem ser alcançados com medidas de treinamento psicológico: • Melhoria planejada e sistemática das habilidades psíquicas individuais e habilidades de desempenho. • Estabilização e otimização do comportamento de corrida. • Aceleração e otimização dos processos de recuperação e regeneração psicológica. • Otimização dos processos de comunicação social. No treinamento psicológico, os seguintes princípios éticos devem ser levados em consideração (BECKER JUNIOR; SAMULSKI, 2002): • A participação no treinamento psicológico deve acontecer por interesse próprio e sem pressão externa. • Antes de aplicar o treinamento psicológico, deve-se informar aos atletas seus objetivos, métodos, indicações e efeitos. • Os métodos aplicados no treinamento psicológico devem ser cientifi camente aprovados. • O treinamento psicológico deve contribuir para o desenvolvimento da personalidade, da saúde, do bem-estar, da autodeterminação e da responsabilidade social. 134 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo a) A redução da ansiedade após o exercício físico ocorre independentemente da intensidade, da duração ou do tipo do exercício, embora os melhores resultados sejam obtidos em atividades aeróbicas. b) O autoconceito é um termo usado para caracterizar os aspectos concernentes a quem o indivíduo é. É uma variável de baixa relação com a satisfação que um indivíduo tem quanto a sua vida. c) As consequências fi siológicas do exercício para o bem-estar psicológico podem ser explicadas pelo aumento no fl uxo sanguíneo cerebral, pelo aumento e pela liberação do consumo de oxigênio no cérebro, pela redução da tensão muscular, entre outros. d) O estresse produz poucos efeitos debilitantes em uma personalidade resistente e o exercício auxilia nesse processo. 3.9 O TRABALHO PSICOLÓGICO GERAL PARA O ESPORTE DE ALTA COMPETIÇÃO O trabalho psicológico que se desenvolve na alta competição deve ser realizado ao longo do macrociclo de treinamento, sistematicamente durante a preparação física, técnica, tática e teórica, nas semanas que antecedem à competição e na própria competição. Seu objetivo é a educação, o aperfeiçoamento de todos os componentes psicológicos do sistema de regulação da ação e do comportamento do atleta, que infl uenciam na formação da personalidade. Por outro lado, com o trabalho psicológico, o atleta saberá adaptar-se melhor ao rigoroso esforço de trabalho exigido por pertencer a uma equipe de alto rendimento (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). É importante considerar as diferenças individuais no desenvolvimento do plano de trabalho psicológico durante o treinamento, pois os atletas podem ter diferentes difi culdades. A identifi cação dos componentes psicológicos subdesenvolvidos em atletas é uma tarefa essencial para o desenvolvimento do trabalho psicológico geral, em que é necessário considerar o nível de expressão de qualidades psicológicas, processos e formações que não são alterados por dias ou semanas. Requer-se de longos meses de trabalho, às vezes, anos, no sentido de obter esse objetivo (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). 135 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 Segundo Samulski (2002), para elaborar um plano geral de trabalho psicológico, é necessário levar em consideração as fases do macrociclo, em que as tarefas específi cas serão introduzidas, pois a priorização dos componentes da regulação psicológica, dentro do macrociclo, dependerá do papel que cada um desempenha dentro das diferentes fases de preparação do atleta. Ao priorizar os componentes psicológicos, devem ser levadas em consideração as características do esporte. O desenvolvimento de um plano de trabalho psicológico para uma equipe de tiro não é o mesmo que para uma equipe de voleibol ou de outra disciplina esportiva. Cada modalidade tem sua especifi cidade e, portanto, seus requisitos essenciais. Segundo Cárdenas e Cárdenas (2012), os componentes psicológicos (de regulação orientadora) que determinam um alto rendimento no tiro esportivo são os seguintes: • Capacidade de coordenação sensório-motora. • Capacidade de reação. • Rapidez de percepção óptica. • Capacidade de concentração. • Discriminação tátil. Esses componentes não são os mesmos que determinam a qualidade do desempenho dos jogadores de voleibol. Nesses participam, como qualidades importantes de atenção, a distribuição e a velocidade de mudança. A distribuição tátil não é tão importante quanto os cálculos ópticos motores e as reações de antecipação etc. No trabalho psicológico geral, todos os componentes do sistema de regulação psicológico que dizem respeito à ação desenvolvida pelo atleta devem ser instruídos. Veja, a seguir, a periodização dos componentes psicológicos dentro de cada preparação do atleta de alto desempenho. 136 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo TABELA 3 – O TRABALHO PSICOLÓGICO ESPECIAL PARA O ESPORTE DE ALTA COMPETIÇÃO FONTE: Cárdenas e Cárdenas (2012, s.p.) O trabalho psicológico especial para o esporte de alta competição será responsável por garantir que o atleta possa se apresentar em uma competição com um estado ideal de desempenho. Cada competição é ao mesmo tempo para o atleta: um meiopara comprovar a efi ciência de nosso trabalho; um momento de confrontação de possibilidades para o atleta; uma possibilidade para mobilizar a vontade e desenvolver o autocontrole; um meio a mais de treinamento em condições de alta tensão; uma 137 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 forma ideal para integrar os membros da equipe num mesmo propósito; meta imediata para objetivos futuros (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). Portanto, podemos dizer que o trabalho psicológico especial possui características diferentes do geral, embora faça parte dele. Segundo Thomas (1982), um trabalho psicológico especial deve ser desenvolvido sempre que participamos com a equipe de uma competição. Pensar que apenas na competição mais importante deve ser feito um trabalho psicológico especial seria um erro, pois isso poderia levar a um estresse adicional para o atleta, já que ele não estaria adaptado a essa intervenção. Fazer todos os requerimentos de ordem psicológica, a fi m de que o atleta participe com a melhor disposição, nas diferentes atividades que se desenvolvem no macrociclo, adapta o atleta a receber as tarefas como algo normal e necessário. Preparação pré-competitiva Está compreendida em várias semanas antes da competição. O tempo dedicado a essa preparação é maior ou menor, em dependência da importância da competição e das características de nossa equipe. Seu objetivo é mobilizar as disposições e capacidades de rendimento do atleta, para que este obtenha, na data da competição, ou durante a temporada da competição, um estado ótimo que lhe permita obter altos desempenhos. Nela, são feitas tarefas específi cas, que pretendem “colocar em forma” tanto os aspetos de motivação, vontade, controle dos estados de tensão psíquica como todos aqueles componentes psicológicos sob os quais descansam as destrezas técnicas-táticas (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). Preparação competitiva Esta preparação compreende as tarefas que são feitas nas jornadas competitivas; seu tempo de duração é variável, tendo em consideração o tipo de esporte. Seu objetivo é manter ótimo o estado de desempenho, o qual começa a se modelar desde a preparação geral, mobiliza-se na preparação pré-competitiva e tem que se manter nos dias da competição. Nela, aplicam-se tarefas que são dirigidas fundamentalmente à regulação dos estados desfavoráveis e à concentração dos atletas nas ações imediatas, assim como na correção das ações da equipe durante a competição. Pode-se observar que, no trabalho psicológico, existe uma interdependência entre o geral e o especial. Se excluirmos o trabalho psicológico geral, estaremos preparando as condições para o fracasso do trabalho psicológico especial, porque o atleta só poderá ter confi ança em si mesmo, e um alto grau de aspirações, caso se sinta com pleno domínio de suas 138 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo habilidades motrizes, e se educamos nele os componentes indutores, que o permitem entregar-se totalmente na busca da vitória. Ao mesmo tempo, a preparação pré-competitiva é a base para a preparação competitiva, porque não se pode manter um estado que não se tenha mobilizado nas semanas anteriores à competição. Assim mesmo, o resultado de nosso trabalho com os atletas, durante o período de competição, repercutirá favoravelmente na sua disposição geral para enfrentar o próximo ciclo de treinamento, sempre que formos capazes, seja ante os êxitos ou ante os fracassos, de utilizar esses resultados de forma produtiva (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012, s.p.). 1. Informação detalhada sobre a competição e os adversários Forma de aplicação: comunicar ao atleta a data, a cidade e o provável local onde decorrerá a competição, o comportamento típico do público, julgar a possibilidade de participação, as condições de alojamento (durante uma viagem a outro local, estado ou país), o nível de treinamento e resultados competitivos das equipes ou a individualidade do adversário ou da equipe, os votos por eles impostos, as posições alcançadas em jogos anteriores etc. (muitos treinadores tiram fotos de seus oponentes e as colocam na academia ou no campo, para que sua equipe possa se relacionar com eles e se acostumar com suas características externas). Frequência de aplicação da tarefa: uma vez, no início dessa preparação (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). 2. Informação sobre as próprias possibilidades individuais e coletivas Forma de aplicação: inicia-se com entrevistas individuais, em ambiente privado, com cada membro da equipe, em que são analisados os aspectos positivos e ainda não resolvidos nos dias que antecedem à prova. Além disso, informa-se ao atleta suas possibilidades reais para esse confronto a fi m de que ele possa ter uma aspiração real de rendimento, e evitar, dessa forma, uma vivência de fracasso que possa interferir em sua motivação futura. Posteriormente, reúne- se a equipe e se analisa coletivamente a particularidade do nível de treinamento do grupo, utilizando sempre a mobilização de todas as suas disposições para a entrega ao trabalho, e refl etir sobre o resultado que consideram alcançar no confronto, se necessitam realizar um esforço supremo etc. Frequência de aplicação: uma vez, no início dessa preparação (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). 3. Fixação de aspirações de rendimento individuais Forma de aplicação: individualmente, perguntar-se-á a cada atleta qual é o rendimento que ele aspira alcançar (exemplo: se é um jogador de handebol, deverá informar sua aspiração com relação à efi ciência em arremessos a curta, média e longa distância, passes etc.), infl uindo sempre inteligentemente, para que eleve ou diminua suas aspirações, quando consideramos que elas diferem 139 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 de suas possibilidades reais. É importante que o atleta fi que convencido de que essas metas surgem dele e que não são impostas pelo seu treinador. Frequência de aplicação: uma vez, no início dessa preparação (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). 4. Fixação de aspirações coletivas de rendimento Após a informação das metas individuais, reúne-se toda a equipe para informar, coletivamente, as aspirações individuais de rendimento, com o intuito de convertê-las em compromisso. Também, analisa-se, com todos os membros da equipe, de forma democrática, o possível lugar a alcançar na competição; é dizer as aspirações de rendimento da equipe, os apoiando nas experiências anteriores, nos resultados de confrontos passados, no nível alcançado pelos atletas durante o macrociclo, na qualidade dos adversários etc. Frequência de aplicação: uma vez ao início dessa preparação (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). 5. Treinamento modelado Faz-se necessário programar as tarefas gerais e particulares, tanto na ação prática como no plano mental, nas quais se deve fazer o seguinte: • Treinamento ideomotor, a fi m de representar a participação pessoal nas diversas ações, nas condições prováveis da competição. • Treinamento moldado à competição é dizer as atividades que serão feitas no treino, e estas deverão se ajustar às mesmas condições da competição (infl uências de sons gravados de barulho da torcida, música etc.), da forma mais variada possível. É importante compreender que os estímulos aplicados nos treinos da última semana, similares aos que enfrentarão nossos atletas na competição, ajudarão para que estes apresentem um estado psíquico mais controlado e com melhores possibilidades de êxito. Frequência de aplicação: duas vezes por semana (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). 6. Regulação das tensões psíquicas pré-competitivas Forma de aplicação: serão utilizadas técnicas variadas para o controle das tensões psíquicas, aprendidas durante a preparação psicológica geral. Nessa tarefa, é importante considerar que não é possívelincorporar ao treinamento que se desenvolve na etapa de preparação pré-competitiva aquelas tarefas para o controle dos estados de tensão psíquica que não foram apreendidas anteriormente, pois isso infl uirá negativamente sobre os resultados competitivos. Só deverá ser utilizada aquela tarefa que o atleta esteja identifi cado, dessa forma, poderá infl uir positivamente nessa etapa. Frequência de aplicação: todos os dias, sete semanas antes da competição (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). 140 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo Como será a vida intensa de uma atleta frente a uma competição internacional? Simone Biles ainda não se sente segura para voltar a praticar a ginástica artística. A lendária ginasta confessou, em um programa de TV dos Estados Unidos, que ainda não conseguiu se recuperar da crise psicológica que teve nos Jogos Olímpicos de Tóquio. Biles se emocionou durante a entrevista. Leia a entrevista de Simone Biles e tente imaginar o que se passou na cabeça dela. Disponível em: https://ge.globo.com/ginastica-artistica/noticia/biles- fala-sobre-seu-emocional-ainda-tenho-medo-de-fazer-ginastica. ghtml. Tarefas que podem ser feitas na preparação competitiva no trabalho psicológico especial: • Antes de chegar ao lugar da competição, devemos ter em consideração as seguintes questões: mostrar alegria e levar confi ança e serenidade aos nossos atletas. Não é o momento de discutir com eles, nem de mostrar o nosso nervosismo ou as nossas preocupações. Não permitir que membros da torcida, jornalistas, familiares, diretores etc. pretendam, na última hora, falar com os atletas, exigindo-lhes um bom desempenho ou lembrando-os que todos estarão pendentes de sua atuação. Caso isso ocorra, só contribuirá para elevar os níveis de tensões psíquicas dos atletas, o que infl uirá posteriormente em seu desempenho Não permitir uma alimentação exagerada poucas horas antes do confronto. Se a competição ocorrer à tarde ou à noite, deve-se propiciar aos atletas que se distraiam, escutando música, vendo fi lmes, participando de jogos recreativos, lendo livros etc. Evitar a realização de atividades físicas intensas (dançar, nadar etc.). Deve-se vigiar o repouso do atleta durante o dia; se os atletas dormem depois do almoço e a competição é à noite, só deverão dormir o tempo de costume. Se a competição é à tarde, deverão repousar de 15 a 20 minutos, sem chegar ao sono profundo. Se nos deslocamos de ônibus para o lugar da competição, devemos estar atentos para que os atletas mantenham a alegria e a tranquilidade. Deverão ser medidas as pulsações dos atletas, e, se possível, a estimação do tempo (utilizando cronômetros), duas horas antes do início da competição, para determinar os que apresentam tensões psíquicas desfavoráveis, a fi m de tomar as medidas pertinentes. Os atletas que apresentem tensões psíquicas desfavoráveis deverão fazer técnicas de regulação das tensões psíquicas excessivas uma hora antes da competição, a fi m de que possam se apresentar num estado adequado para começar as ações (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). 141 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 • Ao chegar à competição: segundo Thomas (1982), ao chegar ao local onde decorrerá a competição, devemos considerar que as nossas tarefas psicológicas passam por três fases: 1. Primeiro passo: orientação Os atletas devem olhar livremente o local da competição, adaptando-se aos estímulos de atuação (observar as características da instalação, onde estão os torcedores etc.). É importante que os atletas encontrem a semelhança do local da competição com o local onde realizam os seus treinamentos. 2. Segundo momento: concentração Os atletas devem focar sua atenção no programa da primeira atuação. Deverão também eliminar gradualmente de seu pensamento todo conteúdo que possa desviar-lhe sua atenção no momento da execução da ação. Para isso, é necessário utilizar técnicas de autorregulação das tensões psíquicas excessivas, tais como Terapia Racional Emotiva (RET), treinamento ideomotor, Terapia Ativa (TA), sempre antes do aquecimento. 3. Terceiro momento: manter o estado ideal durante a competição O treinador sempre pode ajudar na valoração das ações, ainda em situações críticas, de forma calma e efi ciente, para cooperar com a precisão e modifi cação do programa tático estabelecido, e na regulação das tensões dos atletas durante a competição. Segundo Gorbunov (1988), é mais conveniente utilizar os termos ‘tranquilos’, ‘mas ativos’, fortes, a utilizar imperativos, tais como ‘controla-te’, ‘acorda’ etc. A conduta do treinador constituirá um espelho para o atleta, porque treinadores nervosos = atletas nervosos e treinadores calmos = atletas com maiores possibilidades de se acalmar. Deve-se garantir o descanso e a recuperação nas saídas da quadra, entre os jogos etc. com meios rápidos de regulação das tensões psíquicas, como os exercícios respiratórios, regulação por imagens positivas, mudanças na direção do pensamento, música suave etc. O fi m da competição não é o momento de analisar os resultados. A análise deve ser feita depois, quando a equipe estiver descansada, e sempre tendo em consideração as vivências de êxito ou de fracasso que os atletas obtiveram ao fi nalizar. No caso de êxito, a análise pode começar pela informação dos erros que foram feitos, porque o estado de ânimo da equipe está elevado e pronto para receber novas informações. No caso de fracasso, deve-se estimular o estado de ânimo da equipe iniciando a análise pelos 142 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo 1 O esporte atualmente é caracterizado pela pressão para vencer e treinar durante o ano todo. As recompensas fi nanceiras para os melhores, assim como a publicidade e o status para atletas e treinadores têm levado ao prolongamento das temporadas, resultando em pouco tempo para o descanso e desgaste excessivo dos protagonistas esportivos. Analise as afi rmações a seguir: I. O desgaste mental tem como características: esgotamento físico e psicológico; sentimento de baixa realização; baixa autoestima; sentimento de fracasso; depressão; despersonalização; e desvalorização. II. Ao vivenciar um desgaste psicológico, o atleta e o técnico buscam uma fuga psicológica, emocional e física, em resposta a um excessivo nível de estresse ou insatisfação. O afastamento do esporte é inevitável. III. Apesar de pouco falado, o desgaste psicológico é bastante comum nos árbitros. Isso é gerado pelo alto nível de estresse e pelas poucas compensações da profi ssão. O medo do fracasso e de uma marcação equivocada acarreta avaliações negativas sobre o indivíduo, que pioram, ainda mais, o nível de estresse. a) Assinale a alternativa CORRETA: b) Apenas a afi rmativa II está correta. aspetos positivos, dessa forma, eles poderão ativar sua atenção para processar a informação que vai sendo encaminhada para melhorar os erros apresentados (CÁRDENAS; CÁRDENAS, 2012). A análise dos resultados ao fi nalizar a competição deverá contar, necessariamente, desde o ponto de vista psicológico, com vários aspetos: • Destacar as ações que têm contribuído para o sucesso coletivo. • Criticar ações que possam contribuir para o fracasso dos objetivos coletivos. • Analisar a disciplina mantida durante a competição. • Não criticar os atletas, mas sim os erros, os maus jogos. A expressão ‘você estava muito mal’ é percebida de forma diferente de ‘a ação X não surtiu efeito’; a primeira tem uma conotação pessoal, que pode ser avaliada pelo atleta como agressão. 143 A PSICOLOGIA E A NUTRIÇÃO NA CONTRIBUIÇÃO DO TREINAMENTO DESPORTIVODO TREINAMENTO DESPORTIVO Capítulo 3 c) Apenas a afi rmativa I está correta. d) As afi rmativas I e II estão corretas. e) Todas as afi rmativas estão corretas. ALGUMAS CONSIDERAÇÕES Estamos muito felizes quevocê tenha chegado até aqui. No Capítulo 3, você conseguiu ver e analisar como a nutrição e a psicologia são essenciais para a saúde do atleta, seja ele de alto nível ou não. Vimos que sem a nutrição existe uma depleção de nutrientes efi cazes para o atleta e que, atualmente, no esporte de alto rendimento, vitórias aleatórias são cada vez mais raras e a tendência à interdisciplinaridade tanto do controle dos estados mentais e emocionais é uma das condições básicas para o desempenho máximo do atleta em competição. O esporte competitivo também é um estressor em decorrência de variáveis fi siológicas, biomecânicas e psicológicas, que desempenham um papel relevante no desempenho esportivo. Altos níveis de estresse estão ligados a perdas no desempenho esportivo, infl uenciando o nível de atenção, ansiedade, ativação e motivação do atleta, predispondo-o a situações de perda de controle, depressão e ansiedade. Atletas que possuem um maior controle emocional, administrando altos níveis de estresse e oscilações de humor, têm potencial para atingir níveis ótimos de ativação, com resultados favoráveis no momento da competição. Além do controle emocional, destaca-se a infl uência da dieta alimentar em atletas. Os efeitos da insufi ciência nutricional incluem aumento da propensão à fadiga, predisposição à desidratação, perda da composição corporal, entre outros, por isso a necessidade de termos esse conhecimento para auxiliar nossos atletas. Esperamos que este capítulo tenha sido informativo a você e que continue estudando mais e mais sobre o mundo do esporte e como ajudar nossos competidores. Uma excelente jornada. 144 OrganiZação e Planejamento do Treinamento Desportivo REFERÊNCIAS ACSM. Physical fi tness in children and youth. Medicine and Science in Sports and Exercise, [s. l.], v. 20, n. 4, p. 1, 1988. ACSM. Selecting and Effectively Using Sports Drinks, Carboydrate Gels and Energy Bars. 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