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INTRODUÇÃO ATUARIAL AULA 1 Prof. Michel Dias Correa 2 CONVERSA INICIAL Os seguros estão presentes na vida de qualquer pessoa. Desde os primórdios, quando as Grandes Navegações se iniciaram, as operações de seguro também começaram, mesmo que de maneira bem rudimentar. A evolução foi inevitável, chegando aos dias de hoje, em que o mercado de seguros possui forte regulamentação, garante coberturas das mais variadas a toda a população e se apresenta como uma excelente área de estudos e de trabalho. Importante é saber não somente como funciona o mercado de seguros na prática, mas também as diferenças conceituais entre os diversos tipos de seguros, as instituições públicas e privadas que os regulamentam, além de toda a parte legal que norteia as operações entre seguradoras e segurados. É exatamente isso que começaremos a ver agora: os aspectos conceituais e legais dos seguros, vindos desde a época das Grandes Navegações até os dias atuais. CONTEXTUALIZANDO Você já comprou um carro ou já pensou em comprar? Você já comprou um imóvel ou já pensou em comprar? Esses itens podem ser muito caros, então você já comprou um celular ou pensou em comprar? É mais provável que sim. Pois saiba que até mesmo os celulares já possuem seguros disponíveis para alguns modelos. E se não existisse o seguro? O que aconteceria quando ocorre um acidente de carro em que o lado culpado notadamente não tem recursos para arcar com os prejuízos de todos? O seguro serve para isso: para “comprar” os riscos das operações mediante o recebimento de um valor chamado de prêmio. O que você consideraria na hora de contratar um seguro de veículo, que é um dos mais comuns no Brasil? O que faria uma seguradora ser considerada boa na sua opinião? São muitas questões e até agora nenhuma resposta, mas conforme você for lendo o material desta aula ficará claro o que deve ser considerado no momento da contratação de um seguro, seja para o celular, para a casa, para o carro ou para a vida. TEMA 1 – ASPECTOS CONCEITUAIS DE SEGUROS 3 Os seguros estão presentes na vida de todas as pessoas, quer elas queiram ou não. Muitas vezes nós fazemos seguros mesmo sem querermos, como é o caso dos veículos e de financiamentos imobiliários. A partir de agora nós veremos os aspectos conceituais de seguros no mundo, em Portugal e no Brasil. 1.1 A história do seguro no mundo Em algum momento da sua vida você já fez ou deve ter pensado em fazer um seguro, seja qual for a razão específica. Pode ser para um veículo, para sua casa, um seguro de vida ou até mesmo ligado a atividades profissionais. Os seguros estão muito presentes em nossa vida, e isso ocorre praticamente em todos os momentos dela. Para entender melhor os aspectos conceituais dos seguros, é necessário que nós tenhamos em mente que o seguro, de uma maneira mais ampla, surge para realizar o controle de algo que nós, apenas com a nossa própria vontade, não conseguimos fazer: o risco. O seguro é algo muito antigo em sua operacionalidade, pois já na Babilônia – e isso há mais de 2 mil anos antes de Cristo – as caravanas com um grande número de camelos que cruzavam o deserto arcavam, em conjunto, com os prejuízos decorrentes da morte dos animais, expostos à mais cruel das intempéries naturais: a secura extrema desértica. Também na porção de terra onde hoje está localizada a China e na época do Império Romano, os seguros, ou algo próximo a isso, eram operacionalizados por meio de associações com o objetivo de ressarcimento de prejuízos de seus membros (Larramendi et. al, 1997). Na China antiga, os comerciantes já reduziam os riscos nas operações com base em um princípio bem simples, o de não colocar todos os ovos dentro de uma mesma cesta. É claro que eles não viajavam com cestas e sim com carregamentos que completavam o espaço de cargas de um navio inteiro. Para evitar o problema de um navio afundar e todas as mercadorias serem perdidas, eles se juntaram entre si e passaram a distribuir de maneira igualitária e proporcional não somente os riscos, mas também as mercadorias a serem transportadas. No vídeo disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=QuuwYAriO uU> fica mais clara essa forma de ajuda que os grandes navegadores utilizavam https://www.youtube.com/watch?v=QuuwYAriOuU https://www.youtube.com/watch?v=QuuwYAriOuU 4 de maneira constante para diminuir as perdas associadas aos eventos que eles não conseguiam gerenciar. E isso acontecia não apenas com embarcações chinesas, mas também com as embarcações árabes e com os camelos, os quais levavam uma parte dos bens de cada dono e não tudo. Caso ocorresse algo inesperado com um camelo, as perdas seriam bem menores. Logo após o Renascimento veio um período em que era maior a quantidade de negociação de mercadorias, algo que era denominado Mercantilismo. Naquele momento da história da humanidade, o gerenciamento de riscos ganhou mais importância ainda. Naquela época, o que havia era uma forma de seguro diferente da que temos hoje em dia, mas que era bem viável para os navegadores. Vamos ver como ela funcionava. Em uma grande viagem, se ocorresse sucesso no transporte, o equivalente ao segurador da época cobrava um valor do comerciante que realizou a viagem caso ele chegasse ao seu destino ileso, algo como o prêmio do seguro, conforme temos atualmente. Caso ocorresse algum fato inesperado e o navegador perdesse todo o seu produto durante o transporte, esse segurador pagaria todo o valor da carga, a qual já havia sido avaliada antes da embarcação zarpar. Nessa época, o seguro era operacionalizado por pessoas e não por empresas, e era comum a desconfiança por parte dos contratadores em relação a um eventual acionamento em caso de acidente, o que temos hoje como sinistro. A coisa foi evoluindo em forma e estrutura, e no ano de 1347, em Gênova, na Itália, há o registro da confecção do primeiro contrato de seguro do mundo, com diversas cláusulas que isentavam as empresas seguradoras do pagamento em caso de sinistros. Consequentemente, em 1385 e 1397 as primeiras apólices foram firmadas, respectivamente em Pisa e em Florença, ambas cidades italianas. Até que chegou a Revolução Industrial e o seguro se tornou algo tão comum que era peça quase obrigatória na formação de uma nova indústria. Desde aquela época até os dias de hoje, os processos produtivos e de distribuição têm potencial de gerar prejuízos enormes em eventualidades negativas como sinistros. Por essa razão, a atividade de uma empresa seguradora acaba por se tornar uma atividade de cunho social, pois garante a continuidade das atividades dentro de uma região qualquer. 5 1.2 A história do seguro em Portugal Considerando que o Brasil é uma ex-colônia portuguesa, não só nossos costumes como sociedade, mas também nossa herança comercial e de práticas mercantilistas é devida aos nossos descobridores. Por essa razão foi separado um tópico para que possamos ver como se estruturou o seguro em Portugal e, consequentemente, o que nós acabamos por adotar aqui. Inicialmente, no ano de 1293, o Rei D. Diniz de Portugal estabeleceu que os seguros deveriam ser exclusivamente destinados às atividades marítimas. Afinal de contas, Portugal era uma nação conquistadora, e tais conquistas eram predominantemente obtidas por vias marítimas. Então podemos imaginar que não somente as grandes descobertas, mas também prejuízos gigantescos derivavam das operações marítimas portuguesas. É de lá que vem o termo prêmio para os seguros, pois os mercadores pagavam quantias sobre as embarcações, as quais estavam vinculadas às operações futuras planejadas para cada uma delas. No ano de 1370, foram criadas as bolsas do Porto e de Lisboa por D. Fernando I, que determinou o pagamento de dois por cento sobre o valor das embarcações.Mas foi apenas em 1529 que o cargo de escrivão de seguros foi criado. Menos de três décadas depois, em 1552, foi criado um dos mais antigos tratados de seguros de toda a história, que é o Livro de Pedro de Santarém. Saiba mais Há mais informações sobre Pedro de Santarém em: <http://santaremhistorico.blogspot.com.br/2009/11/pedro-de-santarem.html>. Em 1578 foi criada a atividade do profissional responsável pela regulação dos seguros, que era o corretor de seguros. Ele tinha uma remuneração prevista de cinco vezes a do escrivão de seguros, e os seguros, a partir de então, só seriam considerados válidos se passassem pelas mãos de um corretor. Mas foi apenas em 1791 que as companhias privadas de seguros puderam operar em Portugal, por meio da criação da Casa de Seguros de Lisboa, criando o Alvará Régio naquele ano. Com isso, surgiu quase que automaticamente a primeira companhia portuguesa de seguros, denominada Companhia Permanente de Seguros. http://santaremhistorico.blogspot.com.br/2009/11/pedro-de-santarem.html 6 Na sequência dos anos, muitas empresas foram criadas, algumas delas tendo atividades até os dias atuais, mas com outras denominações. Tais alterações ocorreram em decorrência de fusões e aquisições entre empresas, mas a base das operações continuou a mesma. Os seguros foram basicamente os seguros de incêndio e os terrestres, chegando aos seguros de vida, sem negociação prévia. A Revolução dos Cravos, período em que ocorreu a nacionalização das empresas privadas, foi sucedida pela volta das empresas às mãos privadas, e em 1982 foi criada a Associação Portuguesa de Seguradores. Atualmente há um sem-número de empresas e serviços oferecidos concernentes a seguros, todos seguindo a tendência mundial de coberturas e obrigações para os segurados. 1.3 A história do seguro no Brasil Seguindo os passos dos colonizadores, no Brasil o seguro apenas se desenvolveu após a vinda da Família Real Portuguesa e da consequente abertura dos portos, o que apenas ocorreu no ano de 1808. O seguro marítimo foi o primeiro a ser oferecido, naturalmente, e a companhia seguradora pioneira no Brasil foi a Companhia de Seguros Boa-Fé, também criada em 1808. O Banco do Brasil foi criado nesse mesmo ano, e embora hoje trabalhe com seguros e possua uma empresa que oferece exclusivamente este tipo de serviço, foi criado com o propósito de servir de suporte para a sede da Coroa Portuguesa, que se instalou em terras brasileiras. Saiba mais Quer saber mais sobre a história do Banco do Brasil desde a criação até os dias de hoje? Então acesse <http://www.bb.com.br/portalbb/page22,3669,36 69,22,0,1,8.bb?codigoNoticia=29857> e navegue pelos mais de 200 anos de história do banco. As leis portuguesas regularam a atividade securitária em território brasileiro até o ano de 1850, quando entrou em vigor o Código Comercial Brasileiro. Esse Código foi o responsável por profundos e mais elaborados estudos em termos de seguro marítimo. Os seguros terrestres também passaram a ser comercializados depois da entrada em vigor do Código e, embora proibido, o seguro de vida passou a ser comercializado em 1855. O mercado tinha tanta representatividade que, a partir http://www.bb.com.br/portalbb/page22,3669,3669,22,0,1,8.bb?codigoNoticia=29857 http://www.bb.com.br/portalbb/page22,3669,3669,22,0,1,8.bb?codigoNoticia=29857 7 de 1862, algumas empresas estrangeiras começaram a operar em território brasileiro por meio da instalação de filiais. Um problema que começou a ocorrer é que essas empresas, ao recolherem dos clientes os valores relativos aos prêmios, enviavam-nos para as matrizes em países estrangeiros. Isso provocava uma verdadeira fuga de divisas, e em 1895 um dispositivo legal, a Lei n. 294, foi constituído, obrigando as empresas a reinvestirem o capital obtido no Brasil para fazer frente aos riscos assumidos por elas dentro do próprio país. Isso fez com que algumas empresas saíssem do mercado nacional, descontentes com o cenário legal instituído. Desde o século XIX o Brasil vem evoluindo muito em termos de legislação e práticas comerciais relativas aos seguros, e várias seguradoras estrangeiras já voltaram para território nacional. Atualmente as operações de seguro são fiscalizadas pela Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), fundada em 1966. TEMA 2 – LEGISLAÇÃO DE SEGUROS Há várias legislações diferentes que versam sobre o seguro, impondo normas ou simplesmente detalhando o que pode ou o que não pode ser feito em termos securitários. Essa normatização possui uma hierarquização formal muito bem constituída, começando pela Constituição Federal e terminando nas leis ordinárias, passando pelas leis complementares e pelo próprio Novo Código Civil. Vamos ver essas legislações com mais detalhes a partir de agora. 2.1 A Constituição Federal Não apenas no que concerne aos seguros, mas a qualquer ponto relativo à nossa vida cotidiana, a Constituição Federal é a lei maior. Significa dizer que não há dispositivo legal que possa se sobrepor à Constituição. Vejamos a seguinte situação: imaginemos que um município ou um estado brasileiro queira implantar um novo seguro-desemprego, talvez mais completo e abrangente do que o oferecido pelo Governo Federal. Como todas as prerrogativas do seguro-desemprego estão evidenciadas na nossa Constituição Federal, não há legislação que, direta ou indiretamente, possa alterá-la, sob o risco de se tornarem nulas antes mesmo de entrarem em vigor. 8 Outro exemplo, fugindo da parte securitária, para enfatizar o poder que a Constituição Federal possui nas nossas vidas está relacionado à segurança. Imagine que um governador ou um prefeito mais liberal resolva liberar o porte de armas a qualquer cidadão que resida em determinado estado ou cidade do Brasil. Ele simplesmente não poderá emitir dita lei, pois a Constituição Federal expressamente determina que é ela mesma quem define os critérios relativos à armamento e desarmamento no país. Portanto, ela pode, no máximo, delegar a autoridade para outros dispositivos legais, como leis ordinárias, lei complementares, decretos ou equivalentes. Mas se qualquer um desses dispositivos passar por cima de algum ditame constitucional, automaticamente perde a validade jurídica. Saiba mais Quer ficar por dentro de alguns aspectos adicionais sobre a Constituição Federal vigente no Brasil? Então acesse <https://www.youtube.com/watch?v=m5U2FgB5xzA> e aprenda mais. 2.2 Legislação básica de seguros A despeito da possibilidade de se comercializar o seguro de vida em terras nacionais, uma das primeiras legislações específicas sobre o tema é o Decreto- Lei n. 5.384, de 1943. Após essa regulamentação específica, promulgada durante a Segunda Guerra Mundial, apenas no ano de 1964 é que a profissão de corretor de seguros foi regulamentada, também por uma legislação específica, a Lei n. 4.594 daquele ano. Dois anos depois, em 1966, foi criado o Sistema Nacional de Seguros Privados, o qual regulava todas as operações de seguros em território nacional. No ano seguinte, o Decreto-Lei n. 261 dispunha sobre as sociedades de capitalização, que é uma operação muito comum no Brasil e que, embora formalmente não seja uma operação de seguro, assemelha-se muito a uma, pois normalmente assegura uma parcela de capital durante determinado período. Vários dispositivos legais durante esses anos apenas tratavam de regulamentar, corrigir ou extinguir outros dispositivos legais mais antigos, e a legislação pouco evoluiu em termos práticos. Apenas em 1968 foi que a Lei n. 5.488 incluiu a correção monetária nos casos de liquidação dos sinistros cobertos exclusivamente por contratos de seguros. 9 Fora isso, nada andou muito ou teve alteração significativa até quase o meio da década de 1970, quando, em 1974, entrou em vigor a Lei n. 6.194, já no finaldo ano, quase em 1975, estabelecendo o Seguro Obrigatório de Danos Pessoais Causados por Veículos Automotores de Via Terrestre (DPVAT), ou por sua carga, a pessoas transportadas ou não. À época, esse seguro, obrigatório como o próprio nome dizia, alterou toda a dinâmica de funcionamento securitário no Brasil, pois obrigava todos os veículos a possuírem a cobertura, mesmo que não fosse vontade expressa do proprietário. Para entender como funciona melhor essa lei, em vigor até hoje, você pode acompanhar o desempenho do DPVAT, que é o seguro veicular obrigatório vigente no nosso país acessando <https://www.seguradoralider.com.br/Centro-de-Dados-e- Estatisticas/Desempenho-DPVAT> (acesso em: 12 jul. 2018). Novamente vivemos mais uma década meio apagada em termos de criação de legislações específicas para os seguros, e apenas em 1984 é que entrou em vigor a Lei n. 7.278, alterando alguns dispositivos previamente postos em vigor quando da regulamentação da profissão de corretor de seguros, a qual havia ocorrido duas décadas antes, em 1964. Outra importante lei que entrou em vigor em 1989 e que trata de seguros é a Lei n. 7.944, que instituiu a Taxa de Fiscalização dos mercados de Seguro, de Capitalização e da Previdência Privada Aberta. Este último ponto, inclusive, era pouquíssimo utilizado pela população em geral, que contava com os serviços da seguridade social para garantir a aposentadoria ao final da vida laboral. Hoje em dia é muito comum encontrarmos pessoas que já optam por não serem mais dependentes do seguro social, buscando formas alternativas de acumulação de capital para garantir tranquilidade financeira na aposentadoria, mas isso não é um assunto específico de legislação de seguros. Portanto, sigamos com nossa revisão das leis. De qualquer forma, verificando o aumento que ocorreu por serviços ligados à previdência privada (que na prática é uma espécie de seguro), o governo publicou em 1998 o Regimento Interno do Conselho de Recursos do Sistema Nacional de Seguros Privados, de Previdência Privada Aberta e de Capitalização por meio do Decreto n. 2.824 daquele ano. Já no novo milênio, o Novo Código Civil estabeleceu em capítulo específico algumas regulamentações para os contratos de seguro. Do art. 757 https://www.seguradoralider.com.br/Centro-de-Dados-e-Estatisticas/Desempenho-DPVAT https://www.seguradoralider.com.br/Centro-de-Dados-e-Estatisticas/Desempenho-DPVAT 10 até o art. 802 há uma série de especificidades acerca dos contratos de seguro, as quais devem ser seguidas tanto pelas empresas ofertantes dos serviços quanto pelos clientes, os segurados. TEMA 3 – CONTRATOS DE SEGURO Os contratos de seguro são instrumentos muito utilizados durante toda a nossa vida, mas dificilmente eles são obrigatórios. No Brasil não são muitos os seguros obrigatórios, como o de veículos e a seguridade social. Independentemente das modalidades de seguros, todas apresentam as mesmas características gerais, que norteiam a análise tanto da empresa seguradora como dos segurados. É exatamente isso que veremos neste tópico: as características gerais dos contratos de seguro. 3.1 Características dos contratos de seguro O contrato de seguro é o instrumento formal que faz com que o segurador se obrigue a garantir os direitos legítimos do segurado evidenciados em apólice, riscos estes previamente determinados, desde que tenha sido acordado o pagamento do prêmio respectivo. No Brasil, para que um seguro possa ser comercializado, é necessário que uma entidade seja formalmente constituída para tal fim e que seja legalmente autorizada para comercializar contratos de seguro. Saiba mais Você conhece as características dos contratos de seguros e como você pode resolver problemas que podem ocorrer em decorrência deles? O vídeo disponível em <https://www.youtube.com/watch?v=mrdsGKTB1FQ> explica detalhadamente tal situação. Voltando às características dos contratos de seguros, quais são os itens mais comumente encontrados em um contrato celebrado no Brasil? Vamos começar a ver essas características agora. A primeira coisa que um contrato de seguro deve ter é a comprovação do pagamento do prêmio, que pode ser feita com a exibição da apólice ou do bilhete de seguro ou por qualquer instrumento que comprove o respectivo pagamento do prêmio ao segurador. 11 Os riscos e os interesses a serem garantidos para os segurados precedem a proposta de seguro propriamente dita, pois devem inicialmente ser definidos os pontos e itens a serem cobertos e, na sequência, é feita a avaliação de risco. Vamos pensar em uma situação em que o segurado quer que o seu veículo fique segurado. Ele procurará uma seguradora com os detalhes do veículo, itens opcionais e eventuais coberturas adicionais, como para-brisa ou outros itens que normalmente não são cobertos. É um procedimento normal a seguradora querer os dados pessoais do futuro segurado para identificar os riscos a serem cobertos. A idade, por exemplo, pode indicar estatisticamente a probabilidade do envolvimento em acidentes. Já os endereços residencial e comercial indicam possibilidades de roubos e furtos, de acordo com os índices oficiais divulgados. De qualquer forma, o objetivo é deixar o preço do prêmio o mais justo possível para ambas as partes: o segurador e o segurado. A nulidade do contrato é uma característica muito importante para os acordos de seguro celebrados. Nessa parte do contrato serão definidas as situações em que a garantia oferecida ao segurado deixará de existir, normalmente proveniente de um ato doloso do segurado, de um beneficiário dele ou de um representante legal de qualquer um dos dois. Por exemplo, ainda considerando o seguro de veículos, caso um segurado tenha buscado os serviços de uma seguradora para garantir cobertura no caso de roubo ou furto e for comprovado que ele abandonou o veículo em local ermo para que este fosse roubado, está atestada a má-fé e o dolo por parte do segurado. Essa situação pode fazer com que o segurador declare o contrato como nulo, pois estava expressamente definido que qualquer ação dolosa por parte do segurado teria como consequência a nulidade contratual. Outra característica, embora pareça óbvia, é que apenas terão direito de indenização os segurados que estiverem adimplentes com os respectivos pagamentos. Pode ser que haja parcelas vincendas, ou seja, que ainda não venceram, mas o que não pode ocorrer é a existência parcelas já estejam vencidas e não pagas. Nessas situações o segurado não terá direito à indenização. 12 Partindo-se do pressuposto de que todos os lados agem de boa-fé, não é permitida a declaração inexata ou a omissão de dados que possam influenciar a empresa seguradora na tarefa de aceitar ou não os riscos e definir o preço do prêmio a ser pago. Vamos ver um exemplo? Imagine que o seguro de veículo prevê uma análise do perfil do futuro segurado. São perguntas simples, mas que englobam a rotina da pessoa. Se for perguntado se utiliza o veículo para realizar trabalhos como motorista, vendedor ou similar e a resposta for não, caso haja um sinistro durante o transporte de passageiros ou em deslocamento entre um cliente e outro, a seguradora pode se recusar legalmente a pagar a indenização com base no fato de ter havido omissão de fatos ou inexatidão nas informações prestadas no momento da formalização do contrato e da emissão da apólice. Não é apenas a empresa seguradora que possui obrigações em um contrato de seguros. O segurado também possui diversas obrigações, e entre elas está a de comunicar à empresa seguradora, no primeiro momento em que tiver conhecimento, quaisquer eventos que possam influenciar de alguma forma os riscos originalmente cobertos. Caso o segurado não comunique de maneira imediata e seja constatada má-fé por parte dele pela empresa seguradora, elepode até mesmo perder o direito à garantia oferecida na apólice decorrente de eventos fortuitos. Exemplificando: se uma residência possui uma janela com problemas na tranca e o proprietário do imóvel não faz nada, mesmo sabendo que há o problema, se for comprovado pela seguradora a omissão do proprietário, no caso de um evento como um assalto ou um furto, nada será ressarcido pela empresa seguradora, pois o segurado não cumpriu com suas obrigações contratuais. A agravação de risco e a diminuição de risco são situações muito comuns, mas que não possuem o mesmo tratamento legal em se tratando de contratos de seguros. Vejamos a primeira situação: quando foi firmado um contrato de seguro de veículo, o proprietário declarou, verdadeiramente, que o carro possuía alarme antifurto. No entanto, devido a uma pane elétrica o alarme deixou de funcionar, não realizando o segurado a comunicação da agravação de risco à seguradora. Essa ocorrência deixou o veículo mais vulnerável ao risco de furto, já que não possuía qualquer dispositivo para evitar que isso ocorresse. Além disso, quando definiu o valor do prêmio, a seguradora considerou que o dispositivo 13 antifurto estaria disponível durante toda a vigência da apólice, funcionando no veículo. Dependendo do que seja o agravador do risco, a seguradora tem o direito de encerrar o contrato 15 dias após o recebimento da informação, comunicando o segurado diretamente. No entanto, tal encerramento contratual apenas será efetivo 30 dias após feita tal notificação, e os valores eventualmente pagos e não utilizados pelo segurado devem ser devolvidos pela seguradora. Se ocorrer o oposto, ou seja, houver uma diminuição do risco, que seria a situação inversa – por exemplo, um veículo que não possuía qualquer dispositivo antifurto e agora o possui –, isso não trará qualquer benefício obrigatório para o segurado e nenhuma obrigação para a seguradora. Só que, nesse caso, nada impede o segurado de solicitar uma revisão do prêmio pago e, em último caso, o encerramento do contrato se assim julgar justo. Quando ocorre um sinistro, o segurado deve comunicar imediatamente à seguradora e, a partir desse momento, todas as despesas de salvamento, desde o sinistro até o encerramento do contrato, devem correr por conta da empresa seguradora. Outro ponto que merece destaque é que, embora estejamos em níveis relativamente controlados de inflação, é obrigação do segurador efetuar a correção monetária dos valores devidos de indenização aos segurados, desde o momento do sinistro ocorrido até o efetivo pagamento. Há situações em que o segurador pode identificar um risco inexistente, o que o obrigaria a notificar ao futuro segurado sobre tal situação. Caso isso ocorra e o segurador ainda assim emitir a apólice, deverá pagar o valor estipulado como prêmio em dobro ao segurado. A título de exemplo, vamos verificar uma situação que é bem comum no Brasil. Você vai viajar e precisa fazer um seguro para cobrir os gastos com a sua viagem. Só que, ao comprar as passagens, você não se deu conta de que já havia um seguro de acidentes pessoais embutido no ticket emitido pela companhia aérea. Dessa forma, quando procurar uma seguradora, você levará os tickets emitidos para comprovar a sua viagem e solicitará uma cotação de seguro. Se a seguradora o emitir mesmo sabendo que você não necessita dele, há a situação de risco inexistente e a emissão da apólice sem necessidade e com ocorrência de má-fé por parte da seguradora. 14 A renovação do contrato de seguro pode ocorrer de maneira tácita, ou seja, automaticamente se estiver expressa no contrato de seguro, mas não poderá ocorrer mais de uma vez, devendo ser realizado novo procedimento de análise de riscos e, se for o caso, do perfil do segurado ou dos segurados. Normalmente a forma de pagamento mais utilizada pelas seguradoras é em dinheiro pelo valor equivalente à coisa segurada. Mas podem ocorrer situações em que seja convencionado em contrato o pagamento na forma de reposição da coisa ora segurada, dependendo da concordância expressa do segurado no momento da assinatura do contrato de seguro. Em termos gerais, essas são as características comuns a todos os contratos de seguros. É claro que, a depender do que esteja segurado, um contrato de seguro pode ter mais detalhes e minúcias, mas nunca fugirá do que foi visto neste tópico. TEMA 4 – ESTRUTURA DO MERCADO SEGURADOR É muito importante que nós conheçamos a estrutura do mercado de seguros no Brasil. Até mesmo para saber aonde ir quando necessitamos de alguma informação mais específica é fundamental este conhecimento. Saber, por exemplo, que os seguros de saúde possuem uma regulamentação totalmente diferente de todos os outros seguros é algo que deve ser uma preocupação para quem pretende ingressar nesse mercado tão concorrido e aquecido quanto o de seguros. Afinal de contas, você conhece alguém que nunca tenha utilizado os serviços de um seguro, seja ele de qualquer natureza? Bem difícil, não é mesmo? Então vamos ver a partir de agora como está estruturado esse mercado no Brasil. 4.1 Sistema Nacional de Seguros Privados O Sistema Nacional de Seguros Privados foi criado por consequência de um instrumento legal, o Decreto-Lei n. 73, de 1966, que no decorrer dos anos foi sofrendo alterações de leis posteriores e possui atualmente os seguintes órgãos: Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP), Superintendência de Seguros Privados (SUSEP) e resseguradores. 15 A SUSEP, por ser um dos mais importantes órgãos relacionados aos seguros no Brasil, merece destaque no nosso material. No vídeo <https://www.youtube.com/watch?v=B1kiZoxeOKM> (acesso em: 12 jul. 2018) apresenta-se a comemoração do cinquentenário dessa instituição, servindo de ferramenta para vocês aprenderem mais um pouquinho sobre essa instituição. A nossa explicação mais detalhada vai se iniciar com o CNSP, que hierarquicamente é o órgão supremo do setor de seguros no Brasil. Esse órgão tem o poder regulatório e, consequentemente, pode ditar as regras e definir as políticas gerais de seguros e resseguros no Brasil. Também pode exercer a regulação na criação, na organização, na inspeção e no funcionamento tanto das seguradoras quanto dos corretores de seguros. Com relação aos seguros privados no Brasil, é responsabilidade do CNSP a fixação de diretrizes e normas de seguros. Tem como presidente o Ministro da Fazenda e contém representantes de diversos setores governamentais, entre eles o Superintendente da SUSEP, membros dos Ministérios da Justiça e da Previdência e Assistência Social, além de integrantes da Comissão de Valores Mobiliários e do Banco Central do Brasil (SUSEP, 2018). A SUSEP é uma autarquia de nível federal e apenas não fiscaliza nem regula os seguros de saúde, fiscalizando também os mercados de previdência privada e de capitalização. O CNSP estabelece as políticas regulatórias e a SUSEP as põe em prática. Trocando em miúdos, é como se o CNSP fosse o chefe de um departamento e a SUSEP fosse a funcionária, colocando em prática tudo o que tenha sido definido previamente pelo chefe. Entre essas tarefas está a supervisão de toda a parte operacional das seguradoras, desde sua constituição, passando pelos possíveis arranjos constitutivos que possam ocorrer, chegando à definição de limites operacionais praticados por elas. O terceiro componente do sistema são as resseguradoras, que possuem um papel importantíssimo no mercado de seguros, pois faz com que grandes apólices mantenham viabilidade, mesmo considerando a possibilidade de ocorrência de um sinistro com proporções gigantescas. Vamos imaginar uma empresa que trabalhe com mineração. Ela terá projetos muito grandes de exploração dos terrenos, e é certo que terá apólices vigentes para garantir a sobrevida das atividades operacionais.E se ocorrer algum sinistro e ela precisar acionar o seguro? É nesse momento que o https://www.youtube.com/watch?v=B1kiZoxeOKM 16 resseguro entra, garantindo que as seguradoras não quebrem por causa de eventos maiores. É uma diluição de uma apólice entre diversas seguradoras. É como se fosse o seguro das seguradoras. 4.2 Seguros, previdência complementar e capitalização Compondo este item estão o IRB Brasil Resseguros, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e a Escola Nacional de Seguros. O primeiro é uma sociedade de economia mista, sendo o controle exercido o estatal. Até o ano de 2007 foi o único ressegurador atuante no país. Desde 1996 tal monopólio já havia sido revogado pela Emenda Constitucional n. 13, mas apenas com a Lei Complementar n. 126, de 2007, é que o mercado efetivamente foi aberto. A ANS também é uma autarquia e foi criada por lei em 2000, sendo vinculada ao Ministério da Saúde. A finalidade da ANS é bem clara, que é a promoção da defesa dos interesses públicos na assistência suplementar à saúde. Portanto, todos os seguros de saúde no país são regulamentados e fiscalizados por este órgão. O último organismo da estrutura do mercado segurador é a Escola Nacional de Seguros, criada em 1971 para espalhar o ensino, a pesquisa e o conhecimento de seguros de forma mais ampla em todo o território nacional. Possui convênios com instituições de dentro e de fora do Brasil, atuando fortemente também na educação continuada, responsável pelo alto nível de conhecimento dos profissionais de seguro no nosso país. Desde 2005 oferece no Rio de Janeiro um curso superior com ênfase em seguros e em previdência, atestando seu alto nível de comprometimento com a profissão. Com sede no Rio de Janeiro, possui outras unidades regionais espalhadas pelo Brasil, todas comprometidas com o mesmo propósito da sede, que é a difusão do conhecimento no setor de seguros. TEMA 5 – SEGURO DE PESSOAS Os seguros de pessoas são muito requisitados não somente por profissionais, mas por aqueles que querem que suas famílias fiquem resguardadas caso ocorra um infortúnio e a pessoa venha a faltar. Mas um seguro de pessoas não serve apenas para cobertura em caso de morte. Há desde os seguros que cobrem a atividade profissional por uma doença 17 temporária até aqueles que cobrem uma invalidez total e permanente. Há também os que são comercializados em conjunto, mas como se fossem um só, pois já se identificou que as pessoas sempre os contratam como se fossem um só. Vamos identificar essas modalidades a partir de agora. 5.1 Formas de cobertura Há duas formas diferentes para se contratar um seguro de pessoas: com cobertura de risco e com cobertura por sobrevivência. A primeira delas é a que veremos agora. As coberturas de risco são muito comuns e contam com grande quantidade de ocorrências e características. Por exemplo, pode-se contratar um seguro para cobertura de acidentes pessoais, invalidez temporária ou permanente, sendo ainda total ou parcial, coberturas por incapacidade laboral temporária, cobertura de doenças graves, da perda de renda, cobertura de despesas médicas e odontológicas, dentre mais uma ampla quantidade de possibilidades de contratação, desde que esteja associado o contrato de seguro a um risco de ocorrência de algo. Algumas necessidades são tão comuns que já estimularam as empresas seguradoras a formarem pacotes de seguros, pois foi identificada a necessidade conjunta de transferência de riscos. Os financiamentos imobiliários, por exemplo, são oferecidos com um seguro prestamista e com um seguro residencial. Esses dois tipos de seguro são vendidos como se fossem um só, ganhando uma identidade única e sendo caracterizados praticamente como uma única operação. Saiba mais Veja neste vídeo – <https://www.youtube.com/watch?v=d4iZPRMXFAs> mais sobre o seguro prestamista. No caso da cobertura por sobrevivência, os objetivos são a compensação de algo que não está completo na vida do segurado, por exemplo, para complementar a renda da aposentadoria ou para o custeio da educação dos filhos. Nesse caso, o responsável pela formação do capital que será utilizado é o próprio segurado, no que se chama de regime de capitalização. https://www.youtube.com/watch?v=d4iZPRMXFAs 18 Além de formarem o capital, esses recursos são associados a apólices de seguro, oferecendo segurança adicional aos segurados que, enquanto se capitalizam, mantêm-se segurados. A previdência privada é uma das formas mais buscadas ultimamente, pois o hábito de economizar para complementar a renda no futuro traz benefícios financeiros diretos, dado que diminui a dependência do seguro social, mas também gera benefícios indiretos como os seguros oferecidos em conjunto com esses planos. 5.2 Formas de contratação Em se tratando de seguros de pessoas, a contratação pode ser realizada de maneira individual ou coletiva. Se for contratado na modalidade individual, esses seguros recebem contribuições exclusivamente do contratante. Quando um seguro é coletivo, ou seja, contratado por uma empresa para várias pessoas, essa empresa também pode capitalizá-lo, ou seja, incluir recursos em sua estrutura. Nesse caso, será a empresa que estipulará quem será o beneficiário e as condições para a retirada dos recursos por parte dos segurados. Para os casos de um seguro ser criado para garantir uma dívida, no momento do falecimento do segurado, por exemplo, a dívida deixará de existir, pois o seguro será acionado para quitá-la. Se houver algum saldo remanescente, ele deverá ser encaminhado aos herdeiros do segurado. Vejamos um exemplo: foi contratado um seguro para cobrir um financiamento realizado pelo chefe de determinada família. No momento da contratação, o seguro previa o pagamento total do financiamento, que estava em torno de R$ 150 mil. Passados alguns anos, a dívida foi diminuindo conforme o chefe dessa família ia pagando, e o valor a ser coberto foi sendo corrigido por índices oficiais. No momento do falecimento do chefe da família, a dívida estava em torno de R$ 70 mil, e o seguro cobria o total de R$ 180 mil. Sendo assim, a cobertura serviu prioritariamente para a quitação da dívida a que estava atrelada, e a diferença, que era de R$ 110 mil, deverá ser encaminhada para os herdeiros do segurado. 19 Saiba mais Esta matéria mostra qual a melhor forma de contratar um seguro, considerando todas as variáveis possíveis que incidem nesse momento. Acesse <http://www.jornalahora.com.br/2017/07/31/qual-a-melhor-forma-de-contratar- um-seguro/>. TROCANDO IDEIAS O que estimularia você a contratar um seguro? E o que faria você pensar duas vezes antes de contratar um? Itens como custo, riscos e os benefícios certamente serão considerados no momento da tomada de decisão entre a contratação ou não de um seguro. Poste no fórum um comentário citando um bem comum na vida dos brasileiros e as razões que fariam você procurar ou não procurar os serviços de uma seguradora, justificando de maneira clara sua decisão pela contratação ou não. NA PRÁTICA Você é funcionário de uma empresa seguradora e foi destacado para realizar uma diligência em determinado bairro para verificar se os segurados ativos de fato deixam os veículos dormir nos endereços indicados. Por ser um bairro de classe alta, os índices de roubo são baixos, o que faz com que a seguradora cobre menos dos segurados. No entanto, houve denúncias anônimas de que segurados estariam forjando comprovantes de endereço para pagar menos pelos seguros, além de frequentarem faculdades e utilizarem os veículos com ferramenta de trabalho. Você tem duas semanas para realizar esta diligência juntamente com sua equipe de mais três pessoas. O que você e seus colegas de trabalho devem levar em consideração? Quais são as consequências possíveis do trabalhode vocês? Passos para resolução do problema Na identificação do que deve ser feito, você e sua equipe devem verificar os endereços informados como residenciais, comerciais e acadêmicos dos clientes a serem investigados. Após isso feito, deve ser conferido o perfil de cada 20 um: quem estuda deve ter informado que estuda, quem usa apenas para se deslocar até o trabalho deve realizar esse trajeto de maneira predominante etc. Se possível, entre em contato com o Departamento de Trânsito para solicitar o endereço em que os veículos estão registrados. Caso isso não seja possível, sua equipe deve dividir os veículos que receberam as denúncias para averiguar. No texto é apresentado o ponto em que, se houver omissão ou inexatidão por parte do segurado, a seguradora perde a obrigação de cobrir os prejuízos eventuais decorrentes de um sinistro. Essa é a chave para a resolução da situação-problema. Resolução do problema Você e sua equipe devem sair em busca das informações junto a órgãos oficiais ou de maneira independente. O objetivo é averiguar se houve inexatidão ou omissão por parte dos segurados em relação aos riscos que supostamente eles correm e ao perfil apresentado à seguradora. No caso de ser constatada tal situação, a seguradora pode produzir as provas que suportem a não cobertura por falta do segurado, deixando de indenizá-los na eventualidade de ocorrência de um sinistro. FINALIZANDO Os seguros são ferramentas tão presentes no nosso dia a dia quanto tomar um transporte público ou assistir a um telejornal. No entanto, é preciso conhecer suas origens, seus meandros legais e sua evolução histórica para saber os passos que esta área deu desde a sua origem até os dias atuais. Adicionalmente, é necessário que se saiba quais são os órgãos governamentais ou não que regulam a atividade securitária, definindo regras que devem ser seguidas tanto por seguradoras quanto por segurados. A exatidão de informações e a boa-fé são pressupostos básicos para que a relação entre seguradora e segurado seja a melhor possível, não importando se sinistros ocorram ou não. 21 REFERÊNCIAS AZEVEDO, G. H. W. de. Seguros, matemática atuarial e financeira. São Paulo: Saraiva, 2008. GOLDBERG, I. Direito de seguro e resseguro. Rio de Janeiro: Forense, 2012. (Série FGV Direito Rio) POLIDO, W. Contrato de seguro: novos paradigmas. São Paulo: Roncarati, 2010. SUSEP – Superintendência de Seguros Privados. Apresentação. Disponível em: <http://www.susep.gov.br/menu/a-susep/apresentacao>. Acesso em: 12 jul. 2018. INTRODUÇÃO ATUARIAL AULA 2 Prof. Michael Dias Correa 2 CONVERSA INICIAL Provavelmente, você já ouviu falar sobre seguro de vida, seguro de prestação de serviços e capitalização. Mas, também é provável que você nunca tenha ouvido falar de cosseguro, de resseguro e de retrocessão. E é exatamente sobre todos esses itens apresentados e mais outros relativos a seguros que vamos nos debruçar nesta aula. Aprofundar conhecimentos e descobrir novos conceitos é sempre importante; mas, saber como funcionam operações que estão tão presentes em nossa vida é fundamental para aumentarmos o nível de cidadania e a forma como encaramos as empresas em nosso país. Vamos começar nossos estudos a partir de agora! CONTEXTUALIZANDO Quando você vai atrás do serviço de uma empresa seguradora, é normal você apenas se preocupar com a reputação que ela possua entre os seus amigos ou pessoas que já a contrataram. Dificilmente essas pessoas já utilizaram os serviços de maneira efetiva, normalmente só ficaram com o serviço à disposição, sem necessitar de acionamento da garantia. Mas, então, como se deve avaliar a efetividade dos serviços prestados por uma seguradora? Primeiramente, deve ser verificada a autorização para seu funcionamento junto aos órgãos governamentais. Se estiver tudo certo, deve ser verificado o status de grandes garantias oferecidas a grandes segurados. Se estiver tudo certo nessas situações, segurados menores tendem a estar seguros. É exatamente isso que vamos analisar, juntos, nesta aula: os meandros legais e operacionais dos contratos de seguro mais presentes em nossas vidas, finalizando a aula com terminologias mais técnicas e utilizadas, em sua grande maioria, apenas por grandes empresas. E, para começar, estudaremos um tipo de seguro muito comum para nós: o de danos patrimoniais. Mãos à obra! TEMA 1 – SEGURO DE DANOS PATRIMONIAIS Os seguros de danos patrimoniais possuem uma característica muito específica, que é a de garantir não a vida, mas a segurança patrimonial dos segurados. A partir de agora, vamos analisar com mais detalhes as características desse tipo de seguro. Vamos lá! 3 1.1 Condições gerais do seguro As apólices, que formalmente são os contratos de seguro, possuem um conjunto estruturado de cláusulas contratuais. Esse conjunto de cláusulas estabelece os direitos e os deveres tanto da pessoa segurada quanto da entidade seguradora. As condições gerais, de maneira mais ampla, estabelecem o objeto do seguro, o foro a ser utilizado no caso de lide, as obrigações de segurado e de seguradora, entre outros aspectos. Cabe ressaltar que há também as condições particulares ou especiais, também chamadas de acessórias. As condições particulares representam um conjunto de cláusulas que alteram as condições gerais de um plano de seguro qualquer, alterando, incluindo ou excluindo dispostos contratuais previamente existentes. As condições especiais ou acessórias, por sua vez, apresentam as diversas modalidades de cobertura que porventura se façam presentes em um mesmo contrato vigente. Essas condições especiais são anexadas ao contrato original, alterando as suas condições gerais. Voltando à seara das condições gerais, estas normalmente se apresentam com o objetivo do seguro. Em se tratando de um seguro de danos patrimoniais, a seguradora garante ao segurado, respeitando o limite máximo estabelecido inicialmente entre as partes, a indenização dos prejuízos comprovados e compatíveis com a apólice, desde que tenham ocorrido em local segurado e ocasionados por um risco identificado, mas coberto pelo contrato. Formalmente, uma empresa seguradora possui, desde o recebimento da proposta de seguro, o prazo corrido de 15 dias para se manifestar em relação à aceitação ou não da proposta. Se houver a recusa, a seguradora deverá entrar em contato com quem propôs o seguro, explicitando-lhe as razões que fizeram com que declinasse da proposta. Se já houver sido realizado pagamento do prêmio por parte do proponente, a seguradora deve ressarcir os valores corrigidos de desde a data do pagamento feito até a devolução dos valores. No entanto, a cobertura ainda seguirá vigente por mais dois dias úteis a partir do momento em que for dado ciência ao segurado de que a seguradora não aceita cobrir o risco. Desvinculando-nos do raciocínio sobre a aceitação ou não do contrato, a renovação da apólice de seguro legalmente pode ser feita de duas formas 4 distintas, sendo automática ou de comum acordo entre os interessados. A diferença é que, no primeiro caso, não há necessidade de haver qualquer arranjo entre as partes, já sendo estabelecido na assinatura do contrato que este será automaticamente prorrogado. Para o segundo caso, é necessário que ambas as partes entrem em acordo, como se fosse uma apólice de seguro nova. Continuando com as condições gerais, a vigência normal de um contrato de seguro de danos patrimoniais é de um ano, sendo iniciada desde o primeiro minuto do dia que consta como de início da vigência. Por exemplo, se um contrato de seguro de danos patrimoniais está previsto para ter vigência entre 4 de março de um ano e 3 de março do ano seguinte, isso quer dizer que ele começaráa valer no primeiro minuto do dia 4 de março do ano em que foi firmado, vigorando até o último minuto do dia 3 de março do ano seguinte. Não há regra que especifique uma obrigatoriedade em relação ao período de vigência de um contrato de seguro de danos patrimoniais, mas o período de vigência refletirá no preço a ser acordado entre as partes. Da mesma forma, para prazos maiores, nada impede de as partes entrarem em comum acordo para firmarem uma apólice com até cinco anos de vigência. É natural que o valor do prêmio anual acabe sendo menor nesse tipo de contrato do que em um contrato anual, em virtude dos riscos assumidos pela seguradora. O que deve ser enfatizado é que o período de vigência de um seguro de danos patrimoniais não pode ser superior a cinco anos. Com relação à rescisão de um contrato de seguro de danos patrimoniais, nada impede que ela seja resolvida entre as partes, desde que acordadas entre si. Os valores já consumidos, proporcionais ao seguro total, podem ser descontados do valor a ser devolvido ao segurado. Caso em um contrato de seguro de 12 meses já tenha decorrido o prazo de 6 meses, a seguradora apenas devolverá ao segurado metade do prêmio pago relativa aos meses ainda não utilizados. O resto ficará retido, a título de serviço prestado. Curiosidade É usual que os seguros de danos patrimoniais sejam firmados para terem validade apenas em território brasileiro; mas, pode haver, por interesse do segurado, necessidade de cobertura internacional, o que acabará por majorar o valor do prêmio, sem inviabilizar a operacionalidade da prestação do serviço. 1.2 Tipos de riscos 5 Com relação às formas de contratação, as condições gerais de cada contrato especificam que existe o risco absoluto, o risco relativo e o risco total. Esses riscos estabelecem de maneira clara os limites das garantias oferecidas pela empresa seguradora. Antes de analisarmos, juntos, os detalhes desses riscos, vamos ver outros pontos importantes: por exemplo, o limite máximo de garantia é definido pelo segurado de maneira livre, constituindo o valor máximo a ser indenizado pela seguradora em caso de sinistro comprovado e coberto. Já o valor em risco é o custo para a reposição dos bens patrimoniais em momento anterior à assinatura do contrato de seguro. Em alguns casos, o segurado pode optar pela reposição do item patrimonial e não pela indenização. Considerando o risco absoluto, nesse caso a companhia seguradora é que arca com os prejuízos identificados de maneira integral, considerando o limite estabelecido na apólice e deduzidos os valores de franquia, caso haja. Já o risco relativo é utilizado quando há a possibilidade de um item patrimonial ser atingido mais do que uma vez pelo mesmo evento sem que haja perda total. O segurado deverá declarar, quando efetuar a formalização da apólice, o respectivo valor em risco de cada item patrimonial segurado, que é chamado valor em risco declarado. O último modelo, que é o risco total, tem relação com os valores máximos definidos pelo segurado no momento da assinatura da apólice. Se, no momento da ocorrência de um sinistro, for constatado que o valor do limite máximo de garantia não cobre o valor então atual dos bens, deverá haver um rateio, também definido em cláusula contratual. Vejamos um exemplo para deixar essa situação mais clara. Imaginemos que um segurado tenha firmado uma apólice de seguro de damos patrimoniais no valor de R$ 100 mil de limite máximo de garantia. No momento de ocorrência do sinistro, foi constatado, por um perito nomeado pela seguradora, que o valor em risco era de R$ 120 mil, sendo o prejuízo, calculado pelo perito, de R$ 30 mil. Nesse caso, o limite máximo em garantia não pode ser coberto, pois R$ 100 mil não cobrem R$ 120 mil, sendo necessária a aplicação de cláusula de rateio. Com isso, o cálculo da indenização segue a seguinte fórmula matemática: Indenização = (limite máximo em garantia / valor em risco) x prejuízo. 6 Considerando a situação-exemplo exposta, o cálculo seria o seguinte: Indenização = (100.000 / 120.000) x 30.000 = R$ 25 mil. Nessa situação, o segurado receberia como indenização o valor de R$ 25 mil, em decorrência do sinistro. Notem que, se fosse desconsiderar o valor então atual do item patrimonial, ele receberia o montante de R$ 30 mil para compensar o prejuízo. As seguradoras, para utilizarem esse cálculo simples, sem a cláusula de rateio, normalmente cobram maior valor de prêmio, pois o risco para ela é maior. Saiba mais O seguro não foi feito para fazer com que o segurado tenha aumento patrimonial nem saia beneficiado após a ocorrência de um sinistro. O seu princípio fundamental é a troca de riscos para que as eventuais perdas e danos patrimoniais sejam compensados, sem qualquer acréscimo patrimonial. Tanto é que a legislação brasileira não considera os valores recebidos a título de indenização de seguro como valores tributáveis, pois apenas farão a reposição de item que já constava anteriormente na estrutura patrimonial dos segurados. TEMA 2 – SEGURO DE PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS Pensando nas atividades profissionais exercidas nas mais diversas especialidades, os seguros de prestação de serviços surgem como garantidores das boas relações entre profissionais e clientes. Por mais gabaritado que um profissional seja ou por mais experiência que ele possua sobre determinada atividade, ninguém estará isento da possibilidade de cometer um erro durante a vida laboral, mesmo que não seja decorrente de má-fé ou negligência. Vamos ver as características desse tipo de seguro juntos, a partir de agora. 2.1 Características do seguro de prestação de serviços Um seguro de prestação de serviços possui a característica básica de garantir ao segurado o reembolso de valores ligados à responsabilidade civil, 7 provenientes de sinistros involuntários, normalmente ocorridos em locais pertencentes a terceiros. Tais danos podem ser corporais ou materiais. Vamos exemplificar para facilitar a compreensão: imaginemos um shopping center que necessite de um prestador de serviços para realizar a manutenção de seus elevadores, escadas rolantes e sistema de ar- condicionado. A primeira coisa a se fazer é, depois da escolha da empresa que fará a atividade citada, verificar se ela possui um seguro de prestação de serviços. Deve ser enfatizado que esse serviço pode ser, alternativamente, prestado por uma pessoa física, devendo o seguro ser contratado por ela para garantir a cobertura dos riscos associados à atividade. Esse contrato pode ser firmado entre a prestadora de serviço e uma seguradora para uma tarefa em específico, como é o caso do serviço do shopping center; ou ter vigência anual, servindo para assegurar todos os serviços prestados no intervalo de tempo em que a apólice estiver vigente. Esses seguros são muito indicados para prestadores de serviços que possuam estrutura empresarial pequena ou média e que não possuam descaracterização da pessoa física, como é o caso dos empreendedores individuais. Nesses casos, mesmo ocorrendo um sinistro em nome da pessoa jurídica, os bens da pessoa física podem ser arrolados como garantia, o que geraria a ruína do negócio, a depender do tamanho da indenização a ser realizada. O seguro de prestação de serviços protege tanto a pessoa física quanto a pessoa jurídica, pois qualquer dano involuntário, causado a um terceiro, que estiver coberto pelas condições da apólice será abrangido, sendo realizado pelo titular do negócio ou por qualquer um dos seus funcionários. Essa modalidade de seguro possui diversas vertentes, garantindo coberturas inclusive de atos ou de omissões realizadas pelo proprietário da empresa ou pelos seus funcionários. Algumas situações não são cobertas por esse seguro e, entre os casos, podem ser citados os prejuízos com multas,gastos ligados a resultados de processos criminais, a acidentes de trabalho, a desastres naturais, a sabotagem, a terrorismo e, o que é mais importante, ao descumprimento intencional de regulamentações e normas relativas à atividade operacional exercida. 8 Vejamos a seguinte situação: no mesmo caso do shopping center, uma empresa começou a realizar as devidas manutenções nos elevadores, escadas rolantes e sistema de ar-condicionado. No entanto, no decorrer das atividades, houve um acidente em que um funcionário se desequilibrou e caiu sobre um cliente que estava passando, gerando gastos hospitalares e alguns ossos quebrados para ambos os partícipes do fato. O que ocorreu foi que, além de o funcionário não ter utilizado todos os equipamentos de segurança, fato que foi atestado em perícia posterior, também não houve a correta sinalização e isolamento da área em que o serviço era prestado, deixando o funcionário de cumprir duas normas específicas: em relação ao uso dos equipamentos de segurança e ao isolamento da área em que o serviço de manutenção estava sendo realizado. Dessa forma, a seguradora tem o direito de se isentar da obrigação de qualquer pagamento relativo a indenizações, pois ficará comprovado como resultado da perícia realizada que houve negligência por parte do funcionário e, consequentemente, por parte da empresa segurada, colocando em risco, de maneira deliberada, não somente os próprios envolvidos no acidente, mas outros clientes e de maneira desnecessária, puramente por falta de cumprimento à regulamentação vigente de segurança do trabalho. Curiosidade Mesmo se tratando de uma situação em que a empresa não poderá acionar o seguro de prestação de serviço por causa do descumprimento das normas de segurança, o funcionário que permanecer sem condições de trabalho em decorrência de acidente poderá acionar o INSS para ter preservados os direitos relacionados ao período em que estiver sem condições de trabalho. 2.2 Sobre as indenizações devidas Uma pergunta muito comum que os prestadores de serviço se fazem é com relação aos valores a serem cobertos em um seguro. É praticamente impossível precisar o valor que necessitará ser coberto a título de indenizações por responsabilidade civil por parte de empresas e prestadores de serviço em decorrência de problemas ligados às atividades profissionais realizadas. Embora não se tenha um valor preciso, é unânime que os valores contratados não devem ser baixos. Os valores mais comumente buscados para 9 cobertura de riscos decorrentes de prestações de serviço giram em torno de R$ 1 milhão, mas essa quantia poderá ser maior ou menor de acordo com a necessidade identificada, além do tamanho da empresa e da qualidade dos clientes que normalmente a contratam. As indenizações desses contratos de seguros podem cobrir tanto serviços realizados em dependências físicas sob a responsabilidade do cliente quanto do próprio segurado, podendo eventualmente o serviço ser prestado em um terceiro local e, mesmo assim, a cobertura continuará vigente, desde que nenhuma cláusula da apólice seja desrespeitada. De maneira geral, as apólices possuem cobertura nacional para garantia das perdas e danos ocorridos durante a prestação do serviço, mas há casos de exportadoras que contratam este serviço com cobertura internacional, adicionando os países conforme as necessidades identificadas de cobertura. O que não pode ser deixado de lado é que, por transacionar com países estrangeiros, as empresas prestadoras de serviços também estarão sujeitas às regras vigentes naqueles países. Por fim, em se tratando de municípios brasileiros fronteiriços, ou seja, próximos a cidades estrangeiras, há opções que já congregam essas coberturas adicionais, principalmente nos países do Mercosul. Na Região Sul e na Região Centro-Oeste, é comum que prestadores de serviços localizados no Brasil se desloquem para países estrangeiros, como Uruguai, Argentina, Paraguai e Bolívia, para prestar serviços. Há também tal ocorrência na Região Norte. Mas, devido à geografia singular daquela região, a ocorrência é bem menor se comparada com o eixo sul-centro-oeste. Mas, e se ocorre um sinistro e há vários lesados com a cobertura, esta não sendo suficiente para indenização total de todos? Vamos verificar na prática, com um exemplo. Há um sinistro durante uma prestação de serviço que deixa duas vítimas, João e Mário. O seguro é acionado, mas a cobertura total é de apenas R$ 500 mil. As indenizações devidas são de R$ 600 mil para João e R$ 200 mil para Mário, ultrapassando a cobertura da apólice. Portanto, o valor total devido é de R$ 800 mil. Proporcionalmente, R$ 600 mil representam 75% de R$ 800 mil e R$ 200 mil representam 25% dos mesmos R$ 800 mil. Seguindo esse critério de proporcionalidade, João e Mário receberão, respectivamente, 75% e 25% da 10 cobertura total de R$ 500 mil, ficando o primeiro com R$ 375 mil e o segundo com R$ 125 mil. O restante da indenização, que o seguro não cobrirá, poderá ser pleiteado por via judicial, não estando o responsável por ter causado os danos livre do restante da responsabilidade. Saiba mais Nesse caso, como houve um valor a ser indenizado maior que o valor total coberto e havia mais de um indenizado, utiliza-se o critério da proporcionalidade para definir quanto cada um vai receber da seguradora a título de indenização. TEMA 3 – SEGURO DE RENDA: PREVIDÊNCIA PRIVADA A previdência privada é caracterizada por ser um seguro para garantir fundos na época da aposentadoria, mas que não possui qualquer ligação com o INSS. A previdência privada possui a função de complementar os valores percebidos pelos segurados como aposentadoria regular e todos os planos de previdência privada oferecidos no país são fiscalizados pela Superintendência de Seguros Privados (Susep), órgão pertencente à União. Pois então vamos começar nossos estudos em previdência privada, já! 3.1 Os diversos tipos de previdência privada Há duas tabelas de previdência privada, a regressiva e a progressiva e ambas possuem características muito distintas. A primeira, regressiva, é mais benéfica para os casos em que o segurado tenha a intenção de resgatar todo o dinheiro em uma única operação, pois os recursos entregues às seguradoras vão ficando “velhos” e, conforme isso vai ocorrendo, pagam menos tributos. Isso tem muita lógica, pois a tributação vai desde 35% até 10% sobre os valores, sendo de 35% se o resgate for em até 2 anos após o investimento e de 10% se for feito depois de 10 anos de investido o dinheiro. O governo abre mão do recolhimento de impostos, mas apenas nos casos em que o dinheiro ficou guardado por, no mínimo, uma década. A razão disso é relativamente simples, pois essa pessoa que poupou dinheiro por tanto tempo dá menos trabalho à Previdência Social, já que possui o complemento de renda e, em contrapartida, o governo a recompensa por tal disciplina. 11 Já na tabela progressiva, os valores dos tributos sobre a renda cobrados seguem a tabela tradicional do Imposto de Renda. Vão de isentos a até 27,5%, dependendo da quantidade de renda que tenha sido gerada. Para valores segurados nessa tabela o ideal é que os saques sejam menores, periódicos e mais constantes. A título de exemplo, uma pessoa com 20 anos de idade e que queira se aposentar em 30 anos faz um único investimento de R$ 60 mil ao iniciar a vida laboral. Vejamos na Tabela 1 o que acontece com esse valor. Tabela 1 – Evolução dos valores na previdência privada Tabela progressiva Tabela regressiva Saque único aos 50 anos de idade R$ 440.000,00 R$ 520.000,00 Renda temporária dos 50 aos 70 anos R$ 2.500,00 R$ 2.300,00 O que deve ficar claro é que esses valores são aproximados e correspondem ao valor do dinheiro em termos atualizados, ou seja, os valores podem serdiferentes em termos absolutos, mas terão o poder de compra dos valores apresentados na Tabela 1. Quando o segurado for assinar o contrato com a seguradora, é importante que ele defina e tenha consciência do regime tributário que será utilizado para a capitalização dos valores. Tudo porque a troca livre de regime tributário não é permitida, apenas podendo ocorrer da tabela progressiva para a tabela regressiva, mudança essa irreversível. Não é permitida a troca de um plano que, inicialmente, começou na tabela regressiva, pela progressiva. Trocando em miúdos, só existe possibilidade de troca uma única vez e exclusivamente para os planos que estão na tabela progressiva. Ainda falando sobre os contratos de previdência privada existentes, há dois tipos no Brasil, que são o Plano Gerador de Benefício Livre (PGBL) e o Vida Gerador de Benefício Livre (VGBL). Da mesma forma com que ocorre na escolha do regime de tributação, a escolha do tipo específico de plano define os rumos da cobertura financeira futura aos segurados. O PGBL é mais indicado para os indivíduos com renda mais elevada, porque permite abatimentos da base tributável para Imposto de Renda até o montante de 12% do total da renda bruta tributável. Se a sua renda for de R$ 100 mil por ano, por exemplo, você entrega R$ 12 mil para a seguradora durante 12 o ano e sua base tributável cai para R$ 88 mil, além de o dinheiro investido ficar disponível para cobrir sua aposentadoria, no futuro. Deve ser feito um planejamento em relação aos saques, pois no momento da retirada a incidência tributária é realizada sobre o montante total e não apenas sobre os ganhos auferidos, já que houve isenção da parcela investida por meio da redução da base tributável, enquanto se estava trabalhando. No caso do VGBL, a diferença fundamental dele é que não pode ser utilizado como abatimento para efeitos de Imposto de Renda, sendo tratado mais como um investimento do que como um seguro propriamente dito. Também os impostos apenas incidirão sobre os ganhos obtidos e não sobre o valor total disponível. Uma característica dos planos de previdência privada é a possibilidade de escolha da forma de recebimento da renda, a qual pode ser por um período ou vitalícia. Outro ponto importante, definindo-a claramente como seguro, é a determinação de que os filhos ou o cônjuge continuem recebendo a renda na eventualidade de morte do titular da apólice. A adição de pecúlio por morte ou por invalidez também funciona como seguro, pois em caso de morte o dinheiro é direcionado para os herdeiros diretos. Se houver invalidez permanente, é o próprio titular quem dispõe dos recursos financeiros como forma de indenização. 3.2 Diferenças em relação à previdência social Primeiramente, deve ser destacada a forma de capitalização dos valores, em um plano de previdência privada. De maneira distinta do INSS, em que você não escolhe quanto será destinado mensalmente para compor sua base de capital, na previdência privada é possível se definir quanto e quando será realizado um aporte financeiro para ser capitalizado. O que ocorre como consequência é que o valor a ser recebido no momento do saque, ou seja, após a aposentadoria, será proporcional ao valor total aportado durante o chamado período de acumulação. Quanto mais recursos estiverem lá, mais recursos estarão disponíveis. Outra característica dos planos de previdência privada e que os difere da previdência social é que, em caso de desistência do plano no meio do caminho, todo o valor aportado pode ser resgatado, descontando-se os tributos relacionados à modalidade que foi escolhida. Por isso é tão importante escolher 13 corretamente a melhor forma de tributação, ou seja, aquela que mais se adapta à realidade do segurado e de sua família. Já fica claro que não existe uma fórmula para que todos possam seguir e extrair os melhores benefícios de um seguro de renda, pois cada caso deve ser tratado de maneira exclusiva. Por fim, na previdência social apenas há uma forma de obtenção de benefícios, que é por meio da aposentadoria vitalícia, não sendo possível definir uma data em que os benefícios cessarão. Curiosidade Você sabe como funciona a previdência social em relação aos pagamentos e aos seus beneficiários? Veja o vídeo Diferença entre previdência social e privada (2014) e entenda um pouco mais. TEMA 4 – CAPITALIZAÇÃO A capitalização é, sim, uma forma de poupança. Embora muitas pessoas não gostem da capitalização como forma de investimento, ela é muito segura e toda regrada pela Susep. Isso é garantia para quem investe e risco de ganhar nos sorteios oferecidos pelas empresas que a oferecem. Você acha que entende bem de capitalização? Que tal verificarmos isso juntos, a partir de agora? Vamos lá! 4.1 Uma forma segura de guardar dinheiro É verdade que a capitalização é uma forma de investimento, mas também é verdade que esse investimento apenas é capitalizado parcialmente, ou seja, uma parte dele não receberá qualquer tipo de remuneração. Tudo isso deve estar definido no próprio título de capitalização, nas condições gerais do título, deixando bem claro quando e quanto será pago aos investidores dos valores colocados à disposição dos ofertantes. A parte que não é capitalizada é utilizada justamente para custear os sorteios realizados, além das despesas administrativas decorrentes da gestão dos títulos por parte das empresas administradoras. É muito comum que haja esses sorteios como forma de atrair mais clientes, o que torna o plano inteiro mais robusto, financeiramente falando. 14 Nas condições gerais devem estar previstas a vigência do título e outras características gerais, entre elas a possibilidade de transferência de titularidade, se houver interesse, por parte do titular. As formas de resgate também precisam estar claras, assim como as penalidades aplicadas para resgates antes das datas previstas. Adicionalmente, devem ser especificados os índices utilizados para reajuste anual dos valores pagos pelos titulares e é expressamente proibida a cobrança de qualquer taxa que esteja ligada com o ingresso na capitalização. Os tipos de títulos disponíveis no mercado são três, chamados de PM, PP e PU. O PM é aquele que estabelece um pagamento mensal por parte do titular; já o PP não possui relacionamento entre o número de meses de vigência e o número de parcelas a serem pagas; e o PU é o título que possui apenas um pagamento, normalmente realizado no início do contrato (Susep). Há quatro modalidades distintas de títulos de capitalização, a saber: tradicional, compra programada, popular e incentivo. A tradicional restitui o total dos pagamentos efetuados, no mínimo, ao final do período de vigência, desde que todas as datas previstas tenham sido seguidas pelo titular. A compra programada prevê que seja devolvido ao titular, ao fim da vigência, o valor total pago ou a alternativa de escolher um bem ou serviço previamente evidenciado no momento do cadastro. A intermediação que deve ser feita com os fabricantes ou prestadores de serviço não é de responsabilidade do titular e, sim, de quem oferece os títulos ao público. A popular é aquela que permite a participação do titular em sorteios diversos, mas em que não há previsão para devolução integral dos valores pagos. Por fim, o incentivo possui vinculação a um evento promocional que seja do interesse direto do ofertante do título de capitalização, normalmente associado a uma oferta de serviço, mas sem se caracterizar por uma venda casada. Um título de capitalização possui uma vigência mínima de 12 meses e, no mínimo, deve possuir 10 mil títulos a serem comercializados. Todos os integrantes terão iguais direitos perante a empresa que subscreveu os títulos e os pagamentos são divididos formalmente em três partes distintas, sendo uma a cota de capitalização,outra a cota de sorteio e a última a cota de carregamento. 15 Saiba mais Sabe por que os brasileiros buscam tanto os serviços de título de capitalização? Veja um pouquinho mais no vídeo Especialista explica o que é título de capitalização (2015). 4.2 Uma forma segura de apostar o dinheiro guardado Que o título de capitalização possui a cota de sorteio, aquela que faz com que você possa ganhar um dinheiro adicional de tempos em tempos, ninguém duvida. No entanto, qual segurança você possui, como investidor, de que os recursos estão, de fato, sendo direcionados para as três cotas, de acordo com o que deveria ser feito? É a Susep o órgão oficial que faz o controle e a fiscalização dos títulos de capitalização, baseando-se primeiramente no Decreto-Lei n. 261 de 28 de fevereiro de1967 (Brasil, 1967). Com base nesse texto legal, que é a base de toda a fiscalização, a Susep já emitiu uma série de circulares para normatizar efetivamente as empresas emissoras dos títulos. Até mesmo a mecânica de como os sorteios são realizados deve respeitar o estabelecido pela Susep e as autorizações para funcionamento das instituições emissoras de títulos só podem ser dadas por esse órgão de fiscalização. Os sorteios normalmente são realizados com base em loterias oficiais. Essa estratégia, por parte das emissoras de títulos de capitalização, possui uma explicação simples, que é a redução de custos. Para implementar uma modalidade própria para sorteio, todo o processo de validação e de auditoria deveria ser validado pela Susep, o que deixaria a gestão dos títulos muito mais complexa e cara, onerando mais ainda os titulares. Quando se utilizam índices oficiais, aceitos pela Susep, como referência para premiação, o resultado já vai pronto e é garantida a idoneidade dos procedimentos sem a necessidade do gerenciamento por parte da instituição emissora. A emissora dos títulos também deve definir de que maneira serão trabalhados os números de loterias oficiais e as formas de premiação dos titulares. Normalmente há múltiplos em relação aos valores pagos. Por exemplo, se um titular paga R$ 100 mensais e um título prevê o pagamento de 20 vezes o valor pago, o prêmio deve ser de R$ 2 mil. A emissora também deve definir se 16 os prêmios a serem pagos serão brutos ou líquidos, ou seja, se haverá ou não a incidência de Imposto de Renda. Após o sorteio, um título pode ou não permanecer em vigor, situação essa que deve estar expressamente prevista nas condições gerais do contrato, e o fato de o titular porventura ter sido sorteado em algum momento não faz com que o seu direito a receber os valores pagos até aquele momento se alterem de nenhuma forma. Por fim, não existe previsão legal que obrigue uma instituição emissora a estabelecer sorteios periódicos para os titulares concorrerem a qualquer premiação. Isso também define a cota de capitalização, pois, quanto maior for o volume de sorteios realizados e seus prêmios, a tendência é que sobre uma menor parte disponível para a cota de capitalização, que é a parte a ser devolvida para os titulares ao fim da vigência do plano. Curiosidade O título de capitalização é muito parecido com a própria loteria, no Brasil, e é muito popular justamente por esse caráter de manter o titular concorrendo a sorteios, tal como ocorre em uma loteria normal, mas possui a situação de poupança de recursos, algo que a loteria normal não oferece. TEMA 5 – COSSEGURO, RESSEGURO E RETROCESSÃO O cosseguro, o resseguro e a retrocessão são assuntos tão específicos que devem ser tratados em conjunto, pois ocorrem praticamente em conjunto. Ainda por cima, eles não estão tão ligados a nossas vidas cotidianas como os assuntos que vimos anteriormente nesta aula, pois fazem parte do conjunto de atividades que afetam as rotinas das companhias seguradoras. Mas, nós não estamos aqui apenas para verificar uma parte do conteúdo e, sim, o conteúdo completo. E vamos começar logo a fazer isso, porque o tempo não para! 5.1 Conceitos de cosseguro, resseguro e retrocessão Conceitualmente, podemos dizer que o cosseguro é a divisão de responsabilidades provenientes dos riscos assumidos entre duas seguradoras ou mais. É quando, na prática, distribuem-se as responsabilidades entre as 17 empresas seguradoras, sendo que cada uma assume apenas parte dos riscos de uma apólice, tudo com o devido conhecimento do segurado. O resseguro é o seguro da própria seguradora, que é uma transferência parcial ou total dos riscos assumidos de um segurado. O ressegurador normalmente é o Instituto de Resseguros do Brasil (IRB), que, no entanto, desde meados da primeira década do novo milênio deixou de ter o monopólio das operações de resseguro no Brasil, fazendo com que o mercado ganhasse em dinamismo e com redução dos preços e também houvesse riscos maiores, com a entrada de players internacionais nesse mercado. Já a retrocessão é uma operação que depende da presença do IRB. Nessa operação, é repassado ao mercado o excesso de responsabilidade que ultrapasse o que a seguradora tem condição de indenizar, ou seja, de cobrir em garantia. Saiba mais Você sabe como funcionam os resseguros no Brasil? Já ouviu falar sobre os resultados e as operações de resseguros? No vídeo Resseguro melhora resultados (Mendonça, 2016) você pode ficar mais atualizado com relação a esse assunto. 5.2 Fluxo de operações no cosseguro e no resseguro Inicialmente, nós vamos mostrar os fluxos de operações que ocorrem no cosseguro e, na sequência, será mostrado o conjunto de fluxos de operações que ocorre no resseguro e na retrocessão. No cosseguro o segurado entra em contato com uma seguradora, a qual emite a apólice de seguro devidamente registrada e com os riscos conhecidos e cobertos de acordo com o interesse de ambos. É acordado o pagamento do prêmio, por parte do segurado. Até esse momento, o que ocorre é uma operação normal, tal como já vimos nesta aula, em diversas passagens. Mas, há mais detalhes no cosseguro e eles começam a ser descritos aqui. Essa seguradora passará a ser chamada de seguradora líder. Líder porque cederá à outra seguradora o prêmio de cosseguro que foi pago pelo segurado. Com isso, as duas seguradoras dividem de maneira proporcional e previamente acordada entre elas as responsabilidades e os riscos apresentados pelo segurado. 18 O fluxo de operações no resseguro e na retrocessão é um pouco diferente. Até o momento em que a primeira seguradora entra em comum acordo com o segurado, novamente não há diferença. A diferença está na forma de cessão que essa primeira seguradora utiliza. Nesse caso, o que ocorre é a cessão por meio de um contrato de resseguro, em que a resseguradora aceita receber o contrato da primeira seguradora, chamado contrato de retrocessão. O prêmio de resseguro acontece normalmente entre seguradora e resseguradora e, na prática, é como se a resseguradora garantisse as condições oferecidas pela seguradora ao segurado. Para finalizar, para o segurado não muda nada. Ele continua segurado, as condições contratuais não são alteradas em nenhum momento, mas a forma como essa garantia será transferida em caso de sinistro é que será alterada. Curiosidade Com o texto Entenda o resseguro (2018), você poderá entender um pouco mais as operações de cosseguro e resseguro, tão comuns no mercado brasileiro, mas que, devido ao fato de serem utilizadas apenas pelas grandes empresas, não são difundidas na mídia. TROCANDO IDEIAS Você já pensou em quando se aposentar? Se ainda não pensou, é hora de se preocupar com isso. O assunto é particularmente importante, pois a previdência social vem diminuindo constantemente o valor máximo a ser pago para as aposentadorias. Na década de 1980, os valores máximos giravam em torno de 10 a 15 salários-mínimos; na década de 1990, esse valornão passava de 10 salários- mínimos e, na primeira década deste milênio, o teto da aposentadoria pela previdência social equivalia, no máximo, a 8 salários-mínimos. Especialistas dizem que, por volta de 2030, o teto da aposentadoria na pela previdência social estará em torno de dois salários-mínimos. O que fazer, então? Preparar sua aposentadoria enquanto você trabalha, enquanto você tem condições de criar uma reserva financeira. Do contrário, sua maior preocupação durante a aposentadoria será continuar trabalhando para garantir o padrão de vida obtido enquanto ativo. 19 A previdência privada é uma solução para diminuir esses problemas financeiros, ao fim da vida laboral. Mas, além dos dois regimes tributários existentes, há duas modalidades de planos vigentes. O que faria com que você escolhesse o regime progressivo ou o regressivo? E o que faria você escolher o VGBL ou o PGBL? Poste no fórum suas escolhas e justifique-as, de acordo com seus planos de longo prazo. NA PRÁTICA Imagine que você, por necessidades que podem ser tanto pessoais quanto profissionais, resolveu contratar um seguro de vida para resguardar não apenas você, mas também a sua família, na eventualidade de um óbito. Você buscou os serviços de um corretor e ele lhe garantiu coberturas em casos de invalidez permanente e de morte, o que foi aceito por você imediatamente. Durante a vigência do contrato, você hipoteticamente sofre um acidente de trabalho e é obrigado a ficar hospitalizado, sendo atestado que deverá permanecer durante 180 dias sem exercer atividades laborais, ou seja, apenas em recuperação. Ao acionar o seguro e pleitear sua garantia, o corretor comenta que a garantia apenas cobre a invalidez permanente, mesmo que parcial, mas não indeniza invalidez temporária, mesmo que total. Qual foi seu principal erro ao contratar esse seguro, em se tratando de riscos cobertos? Aponte quais alternativas poderiam ser escolhidas para que todas as situações de risco fossem cobertas. Isso pode se dar com a contratação de um novo seguro ou com a adequação da apólice, durante a vigência. Passos para a resolução do problema Você deve identificar as necessidades do segurado ao contratar um seguro, para garantir tranquilidade financeira para ele e sua família. Isso consiste em verificar junto a um corretor quais situações precisam ser cobertas e quais podem ficar de fora, de acordo com o perfil apresentado. Esse procedimento prévio é o que faz com que erros sejam evitados no momento da contratação dos serviços de uma seguradora. Resolução do problema 20 Há duas alternativas simples e viáveis que poderiam ter sido escolhidas pelo segurado em questão. A primeira delas seria adicionar, logo no momento da assinatura do contrato de seguro ou em momento posterior, quando identificada a sua necessidade, uma cobertura em caso de invalidez temporária, o que não havia sido feito. Alternativamente, poderia ter sido contratado um seguro de atividades profissionais, que é um seguro que garante o pagamento de uma parcela por dia de internação ao segurado, desde que ele não possa realizar suas tarefas laborais. Esse seguro poderia ser contratado de maneira separada, em complemento ao seguro que foi efetivamente firmado, o que completaria a cobertura necessária. FINALIZANDO Seguros podem ser contratados durante a nossa vida toda, independentemente do momento em que estejamos. Mas é importante saber quais seguros são mais e menos interessantes para a nossa realidade. Esta aula mostrou exatamente isso: os detalhes dos seguros mais presentes em nossa vida. De maneira adicional, mostrou detalhes de operações que são preocupações das próprias empresas seguradoras, com vistas a garantir o cumprimento contratual com todos os segurados sob sua responsabilidade. 21 REFERÊNCIAS AZEVEDO, G. H. W. de. Seguros, matemática atuarial e financeira. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. BRASIL. Decreto-Lei n. 261, de 28 de fevereiro de 1967. Dispõe sobre as sociedades de capitalização e dá outras providências. Diário Oficial da União, Brasília, 28 fev. 1967. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/1965-1988/Del0261.htm>. Acesso em: 15 jun. 2018. CRUZ, D. Diferença entre previdência social e privada. Videoexplicação. YouTube, 14 out. 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=05f1YO2HvDs>. Acesso em: 15 jun. 2018. ENTENDA o resseguro. Tudo sobre seguros, 2018. Disponível em: <http://www.tudosobreseguros.org.br/portal/pagina.php?l=366>. Acesso em: 15 jun. 2018. GOLDBERG, I. Direito de seguro e resseguro. Rio de Janeiro: Forense, 2012. (Série FGV Direito Rio). MENDONÇA, A. P. Publicado por Penteado Mendonça e Char Advocacia. Reprodução de programa televisivo Siga Seguro, veiculado originalmente no canal Band News em 18 de julho de 2015. YouTube, 2 fev. 2016. POLIDO, W. Contrato de seguro: novos paradigmas. São Paulo: Roncarati, 2010. SINDSEG NNE. Especialista explica o que é título de capitalização. Videoexplicação. YouTube, 16 nov. 2015. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=bP83VsBDWok>. Acesso em: 15 jun. 2018. SUSEP – Superintendência de Seguros Privados. Site institucional. Capitalização. Rio de Janeiro. Disponível em: <http://www.susep.gov.br/menu/informacoes-ao-publico/planos-e- produtos/capitalizacao>. Acesso em: 15 jun. 2018. https://www.youtube.com/watch?v=05f1YO2HvDs http://www.susep.gov.br/menu/informacoes-ao-publico/planos-e-produtos/capitalizacao http://www.susep.gov.br/menu/informacoes-ao-publico/planos-e-produtos/capitalizacao INTRODUÇÃO A ATUARIAL AULA 3 Prof. Michael Dias Correa 2 CONVERSA INICIAL O que leva uma empresa a assumir os riscos de outras como sua atividade principal? As seguradoras trabalham basicamente com essa atividade: garantir os direitos de outras pessoas para que elas possam desempenhar suas atividades de forma mais tranquila. No entanto, essa tarefa requer um capital mínimo, uma limitação com relação aos riscos assumidos e uma análise mais aprofundada das demonstrações contábeis, principalmente em relação aos índices econômico- financeiros. Esses são os pontos em que nós vamos nos debruçar nesta aula. Estão prontos? Vamos lá! CONTEXTUALIZANDO Você já trabalhou ou conhece alguém que trabalhe ou já tenha trabalhado em uma empresa de seguros? Pois bem: essa é uma atividade extremamente rentável, mas consiste basicamente em garantir os direitos dos outros. Todos nós, em algum momento de nossas vidas, já nos deparamos com a necessidade de contratar os serviços de uma seguradora. Mas, do ponto de vista contábil, como são registradas e controladas as operações contábeis de uma seguradora? Afinal de contas, ela não possui estoques para comercialização nem fabrica qualquer produto para ser vendido. Pois bem, os seguros representam um tipo tão específico de serviço que há normas e regulamentos específicos só para eles. Tais normas estão vigentes para garantir o seu direito, o nosso direito como segurados, desde que nós também cumpramos o que está estabelecido no contrato, que é a apólice de seguro. Dando enfoque apenas sobre a faceta contábil e formal da atividade securitária, iniciamos mais uma aula com objetivo de conhecer mais os meandros contábeis, operacionais, formais e gerenciais dessa atividade que, a cada dia que passa, cresce mais no nosso país. TEMA 1 – O CICLO ECONÔMICO DE UMA COMPANHIA DE SEGUROS O ciclo econômico mostra-se tão importante para as empresas que, no caso de um plano malfeito em relação a ele, os prazos podem ficar tão 3 desfavoráveis que façam com que determinada empresa seja obrigada a sair do mercado. E é isso que nós começaremos a estudar agora. Vamos juntos! 1.1 Conceito de ciclo econômico Para queseja analisado o ciclo econômico, é necessário que sejam estudados os outros ciclos de uma empresa, que são os ciclos operacional e financeiro. De maneira isolada, o ciclo econômico não fornece as informações necessárias para que uma decisão de longo prazo seja tomada corretamente. O ciclo econômico avalia o tempo em que, na prática, uma mercadoria permanece no estoque de uma empresa. Isso é relativamente simples para as empresas industriais e para as comerciais, mas um pouco difícil de visualizar em se tratando de empresas prestadoras de serviços. Passando para o ciclo operacional, ele corresponde ao intervalo de tempo entre a data da compra e o recebimento da venda efetuada. Novamente, as prestadoras de serviços têm tratamento distinto das indústrias e empresas comerciais. Na situação hipotética de uma empresa apenas vender à vista, o ciclo operacional e o econômico se equivalerão entre si. O último que devemos analisar é o ciclo financeiro, compreendendo o tempo entre o pagamento aos fornecedores e o recebimento das vendas realizadas. Pensando em um bom ciclo financeiro, ele dependerá do prazo dado pelos fornecedores, ou seja, quanto mais tarde forem os pagamentos aos fornecedores, menor será o ciclo financeiro. Mas, agora que sabemos como conceituar cada um dos ciclos apresentados, como trabalharemos o ciclo econômico nas empresas seguradoras? Afinal de contas, elas não trabalham com estoques, mas mesmo assim perfazem um ciclo econômico. Curiosidade É muito comum empresas de setores distintos trabalharem com conceitos ligados à administração econômico-financeira de maneira distinta. Isso ocorre não somente com empresas seguradoras, mas com siderúrgicas, mineradoras, petrolíferas e outras empresas de grande porte. 4 1.2 O ciclo econômico em empresas de seguros Não somente em empresas de seguros, mas em empresas prestadoras de serviço, de maneira geral, que não gerenciam estoques, como se identifica o ciclo econômico? Temos que pensar da seguinte maneira: uma indústria entrega a seus clientes os produtos fabricados e uma empresa comercial entrega a seus clientes as mercadorias adquiridas para revenda. Uma empresa prestadora de serviços entrega para os clientes os serviços contratados e, sendo mais específico em relação às empresas de seguros, elas entregam para os segurados o direito de utilizar os serviços descritos nas apólices contratadas durante a vigência do contrato. Essa é a mercadoria comercializada por uma empresa de seguros e é isso que deve ser considerado no seu ciclo econômico. O ideal, então, seria encurtar o período de prestação de serviços para que o ciclo econômico se reduzisse também. Mas aí entra outro problema para as empresas de seguros: se um contrato de seguro é firmado e terá a vigência de um ano, como encurtar esse prazo? Para compreender esse item melhor com relação às seguradoras, é importante pensar da seguinte maneira: os funcionários que trabalham na linha de frente de uma empresa seguradora, ou seja, comercializando os seguros, conseguem comercializar determinada quantia de contratos. Vamos exemplificar como sendo 30 contratos por mês, por funcionário. O ciclo econômico é o período que esse funcionário leva para conseguir comercializar um contrato. E se ele conseguir aumentar esse número para 45 contratos comercializados? Significa dizer que o ciclo econômico, o qual dispensa os recebimentos financeiros, foi reduzido em 50%, pois eram 30 contratos e esse valor subiu para 45. Uma variação de 15 unidades que, comparadas com a quantidade inicial, que era de 30, equivale a um aumento de 50%. Podemos afirmar, então, que essa situação ensejou uma redução considerável no ciclo econômico. Essa, inclusive, é a única situação em que a atividade das empresas de seguros se diferencia das empresas industriais, comerciais e até de outras prestadoras de serviços. Isso porque, quando um serviço é prestado, ele geralmente é feito de uma vez ou durante um intervalo curto de tempo. É só imaginar quando nós vamos ao cabeleireiro ou vamos ao cinema. O serviço é 5 prestado no momento em que estamos presentes, iniciando-se e finalizando enquanto ainda estamos fisicamente no estabelecimento. Com os seguros a situação é diferente, pois ele segue sendo prestado durante todo o período de vigência, normalmente de um ano. Isso deve ser analisado para conseguirmos identificar as particularidades em relação ao ciclo econômico das empresas de seguro. Saiba Mais Para que você não fique apenas imaginando como esses ciclos todos se comunicam, no vídeo intitulado Ciclo operacional (Costa, 2009) há uma explicação mais detalhada sobre os ciclos econômico, operacional e financeiro de uma empresa. Ficará mais clara a importância de cada um para o seu processo de gestão. TEMA 2 – ESQUEMA CONTÁBIL E SUAS LIMITAÇÕES As empresas de seguros possuem uma estrutura contábil única, situação que também ocorre com as instituições bancárias. Só que essa estrutura única também possui certas limitações, principalmente se compararmos tais empresas com as outras empresas no cenário nacional. Neste ponto, identificaremos a parte contábil, especificando suas limitações. Vamos lá? 2.1 Aspectos contábeis das empresas de seguros A contabilidade de uma empresa de seguros é composta de dois grandes campos de gestão: o operacional e o financeiro. Nesse caminho são desenhados os sistemas de controle para que os registros contábeis das suas operações possam ser realizados, além de possibilitarem a análise econômico-financeira dessas empresas ao fim de um período, normalmente um exercício financeiro. Como consequência dos registros contábeis, são geradas informações úteis para o processo decisório, as quais podem ser tanto de confecção e divulgação obrigatória como facultativa. Essas informações organizadas são denominadas livros contábeis e possuem como documentos obrigatórios o diário e o razão e como facultativos o livro-caixa, o livro de contas-correntes, os livros de apuração de impostos, entre outros que a seguradora julgar necessária a elaboração. 6 Adicionalmente, as empresas de seguros são obrigadas a realizar registros auxiliares em seus sistemas contábeis, sendo enquadradas nessa obrigação aquelas que operam nos chamados ramos elementares, como ramo vida, com previdência privada aberta e capitalização. Esses registros, além dos aspectos formais de elaboração, devem realizar emissão de apólices e outros documentos relacionados a prêmios a receber e cobranças de apólices, além de sinistros pagos e avisados. Se houver tais registros, também há a obrigatoriedade da escrituração de cosseguros recebidos e o conjunto integral dessas informações deve ser finalizado a cada mês por todas as seguradoras em território nacional. Em relação à documentação formal que deve ser obrigatoriamente constituída pelas empresas de seguros, estão os formulários de proposta de seguro, os que são emitidos antes da emissão das apólices, momento em que os segurados apresentam a intenção de contratar a cobertura. Essa solicitação pode ser aceita ou recusada pela empresa de seguros em até 15 dias. Outro formulário de preenchimento obrigatório é a ficha de compensação, a qual remete ao segurado a apólice que foi emitida juntamente com o aviso da cobrança bancária relativa ao prêmio contratado no momento da assinatura. Como os prêmios devem ser obrigatoriamente cobrados via rede bancária, antes desse procedimento o que era feito era a nota de seguro, a qual era remetida ao banco para cobrança e que era utilizada como comprovante do pagamento do prêmio, procedimento esse que também já era efetuado por meio da rede bancária. Por último e de envio obrigatório para a Superintendência de Seguros Privados (Susep) está o formulário de informações periódicas, conhecido como FIP, o qual tem o objetivode informar a situação administrativa, econômica e financeira de uma empresa de seguros, sendo apresentada uma série de informações contábeis e patrimoniais a seu respeito, tais como demonstrações contábeis, sobre sinistros, coberturas, informações de prêmios por área geográfica, entre outras operações que compõem a rotina de uma empresa de seguros. Curiosidade Embora tenha diferenças operacionais e de registros em relação às operações contábeis, os artigos 128 e 129 da Circular Susep no 517 de 30 de julho de 2015 tratam dos detalhes tanto de operações de seguros como de 7 operações de resseguros, no que concerne a planos de contas. Os códigos, nomenclaturas a serem utilizadas e outros detalhes estão especificados nessa circular (Susep, 2015). 2.2 A prática contábil nas empresas de seguros As empresas seguradoras precisam atender aos critérios estabelecidos pelo artigo 130 da Circular Susep no 517/2015 (Susep, 2015), o qual estabelece que o relatório da administração, o balanço patrimonial, a demonstração do resultado do período, a demonstração de resultado abrangente, a demonstração das mutações do patrimônio líquido, a demonstração dos fluxos de caixa, as notas explicativas e o correspondente relatório do auditor independente sobre as demonstrações financeiras devem ser publicados até o dia 28 de fevereiro do ano seguinte ao da data-base, respeitando os critérios estabelecidos pela Lei no 6.404 de 15 de dezembro de 1976 (Brasil, 1976). Para as empresas de seguros, há um plano de codificação das operações contábeis, o qual estabelece dois códigos a serem utilizados. O primeiro é um número composto por 10 algarismos, que indicam, na sequência, o que está descrito no Quadro 1. Quadro 1 – Códigos contábeis para empresas de seguros Sequência Descrição 1º algarismo Classe 2º algarismo Grupo 3º algarismo Subgrupo 4º algarismo Conta 5º algarismo Subconta 6º algarismo 1º desdobramento da subconta, se necessário 7º algarismo 2º desdobramento da subconta, se necessário 8º algarismo 3º desdobramento da subconta, se necessário 9º algarismo 4º desdobramento da subconta, se necessário 10º algarismo 5º desdobramento da subconta, se necessário Fonte: adaptado de Susep, 2015. É incumbência exclusiva da Susep a faculdade de criar a codificação que vá até o décimo algarismo. O código que vem na sequência, o segundo, é composto por quatro algarismos e indica o código do ramo, que é composto 8 pelos campos denominados grupo e identificador do ramo, podendo ser utilizado tanto nas contas patrimoniais quanto nas contas de resultado (Susep, 2015). Leitura Obrigatöria A contabilidade para seguradoras, assim como a contabilidade em geral, está em processo de harmonização com as normas internacionais de contabilidade. O artigo Contabilidade de seguradoras: estudo comparativo entre as normas brasileiras e as normas internacionais mostra os detalhes desse processo de harmonização (Souza; Silva, Lara, 2008). TEMA 3 – LIMITES OPERACIONAIS E LIMITES TÉCNICOS São várias as normatizações que regem o trabalho das empresas de seguro. A partir de agora nós vamos ver mais especificamente os limites operacionais e os limites técnicos que regem o trabalho de uma empresa desse ramo. Vamos caminhar juntos na busca por esses conhecimentos! 3.1 Limites operacionais Uma empresa de seguros não pode atuar de maneira indiscriminada, arriscando-se a contrair problemas financeiros que prejudiquem a sua continuidade operacional. Isso é muito simples de se imaginar, pois em suas operações rotineiras está a garantia de patrimônios e direitos dos clientes segurados. Dessa maneira, há regras específicas que estabelecem limites operacionais para as empresas seguradoras. A Resolução no 321 de 15 de julho de 2015 do Conselho Nacional de Seguros Privados estabelece que o valor máximo de responsabilidade que uma empresa de seguros pode reter por contrato é de 4% do seu ativo líquido, que é o patrimônio líquido ajustado. Esse mesmo regramento também estabelece que os limites operacionais devem ser apurados com periodicidade semestral, calculados nos meses de fevereiro e agosto, sendo facultado o cálculo de novos limites para os outros meses (CNSP, 2015). Para tal, os valores calculados entre fevereiro e julho têm como base o valor do patrimônio líquido ajustado do mês de dezembro do ano anterior e os valores calculados entre os meses de agosto e janeiro consideram o valor do patrimônio líquido de junho. 9 Exemplificando, se uma empresa seguradora apresentar, em 30 de junho de um ano, o valor de ativo total de R$ 5 milhões e um passivo total de R$ 3 milhões, o limite operacional, ou seja, a responsabilidade máxima que ela pode obter em uma única apólice é de R$ 80 mil, valor que representa 4% de R$ 2 milhões, diferença entre o ativo total e o passivo total. No caso de haver aumento de capital após a data de apuração dos valores componentes do ativo líquido, desde que integralizado na forma de dinheiro ou de bens disponibilizados à empresa de seguros, eles deverão ser computados no cálculo do limite operacional. Não será estabelecido limite operacional para a empresa de seguros se o valor dos prejuízos acumulados registrados no patrimônio líquido forem superiores à soma do capital realizado e das suas reservas. Tampouco será definido limite operacional para as seguradoras que não possuírem o capital mínimo exigido para operação, haja vista que possuem atividade ligada à garantia de direitos de terceiros. Leitura Obrigatória É importante entender com detalhes os conceitos do limite operacional. Para tanto, leia o artigo Alternativas para análise de risco e retorno dos ativos frente às necessidades de reservas atuariais e cobertura de passivos (Mello et al., 2014), publicado na Revista Brasileira de Previdência, e que fala sobre os riscos assumidos por empresas do ramo de seguros. 3.2 Limites técnicos A mesma Resolução no 321 do CNSP (2015) define a maneira de calcular os limites técnicos das empresas seguradoras, assim como o fizera para os limites operacionais. Da mesma forma que os limites operacionais são definidos com base nos ativos líquidos de uma empresa de seguro, assim também o são os limites técnicos. A resolução também estabelece que a expressão limite técnico pode ser substituída por limite de retenção, sem prejuízo de sua interpretação por parte do legislador. Em termos operacionais, os ativos líquidos também são representados pelo patrimônio líquido. Mas, de maneira distinta do limite operacional, o limite técnico deve ser definido pelas empresas de seguros com base em cada ramo de seguro e com o uso de algum método que seja cientificamente comprovado 10 e que tenha a possibilidade de gerar resultados consistentes com a realidade vivida por elas. É estabelecido o limite de retenção de até 5% do patrimônio líquido ajustado sem que haja necessidade de autorização prévia da Susep. Para valores superiores, é necessária prévia anuência do CNSP. Após serem realizados os cálculos e obtidos os valores de limite técnico, estes devem ser encaminhados para a sede da Susep, localizada no Rio de Janeiro. Da mesma forma que o limite operacional, o limite técnico também não será calculado quando os prejuízos constantes no patrimônio líquido superarem o capital realizado mais as reservas, nem quando a empresa de seguros não possuir o capital mínimo exigido para a manutenção de suas atividades operacionais. Por fim, cabe à Susep o encargo de definir um limite técnico diferente para uma empresa de seguros em específico, desde que sejam apontadas as devidas justificativas que motivaram o estabelecimento de novo valor. Curiosidade Desde 2012 a Susep vem divulgando consultas públicas com a intenção de alterar as normas vigentes e estabelecer novos limites de retenção, sendorealizadas diversas atualizações em suas normas, nos últimos anos, como nos informa.notícia vinculada pelo Sincor-GO (2013). TEMA 4 – MARGEM DE SOLVÊNCIA E CAPITAL MÍNIMO Ainda sobre os pontos relativos à parte operacional e às normas ligadas diretamente a tais atividades, agora é o momento de nós vermos os detalhes sobre a margem de solvência e sobre o capital mínimo de uma empresa de seguros. São exigências adicionais, que não cancelam o que já foi visto anteriormente, tudo com vistas a garantir os direitos dos segurados. Pois então vamos ver esses dois temas, a partir de agora? 4.1 Margem de solvência Com periodicidade mensal, é uma preocupação de todas as empresas de seguros no Brasil: a elaboração da margem de solvência. Ela corresponde à 11 comprovação da suficiência dos ativos líquidos para realizarem a cobertura das atividades das empresas. A margem de solvência deve considerar duas situações distintas, nos seus cálculos: 1. a primeira é 0,2 vez o total da receita líquida dos prêmios emitidos nos últimos 12 meses; 2. a segunda é 0,33 vez a média anual do total dos sinistros retidos dos últimos 36 meses. Essas duas referências de valores devem ser consideradas, pois os ativos líquidos devem ser suficientes para cobri-las. Nesse cálculo devem ser computadas as operações de todos os ramos, exceto a previdência privada e a vida individual. No cálculo a ser realizado, devem ser excluídas quaisquer operações que tenham ligação com as sucursais ou matrizes estabelecidas em países estrangeiros e quaisquer bem, direito ou obrigação que a elas estejam vinculados. Se não houver suficiência de ativos líquidos para a cobertura das operações, a empresa de seguros deve apresentar um plano de regularização de solvência, diretamente à Susep, com o objetivo de cumprir o requisito em um prazo máximo de 18 meses a partir do mês subsequente ao do recebimento da comunicação de insolvência. Nesse plano de recuperação, os procedimentos a serem adotados para que a empresa de seguros consiga se restabelecer devem ser precisamente evidenciados, destacando-se as informações sobre aporte de recursos financeiros e a análise técnica das carteiras que apresentem uma nova política de absorção de riscos de terceiros. Após a submissão do plano de recuperação à Susep, esta poderá exigir da empresa o fornecimento de mais detalhes, se julgar necessário, e definir o prazo para o cumprimento das etapas apresentadas. A margem de solvência é uma das referências para aumentar a efetividade das operações das empresas de seguro, a fim de garantir os direitos dos segurados. Leitura Obrigatória Recomendamos a leitura do texto Margem de solvência: introdução à discussão, da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS, 2017), que versa exclusivamente sobre a margem de solvência para os seguros de saúde, para 12 que os detalhes desse assunto também possam ser analisados com mais profundidade. 4.2 Capital mínimo Para que possam operar com tranquilidade e cumprindo integralmente as regras vigentes, as empresas de seguros precisam, além de todos os pontos já mencionados nesta aula, ter estabelecido um capital mínimo para suportar as suas atividades. Isso é válido também para as sociedades resseguradoras, para as sociedades de capitalização e para as entidades abertas de previdência complementar. Para estas entidades, mensalmente é obrigatória a apresentação, juntamente com as demonstrações mensais, de um patrimônio líquido ajustado igual ou superior ao capital mínimo. Por meio da Resolução no 321/2015 (CNSP, 2015), os detalhes relativos ao capital mínimo requerido estão evidenciados e devem ser seguidos pelas empresas de seguros. Essa norma estabelece, por exemplo, que as empresas de seguros devem apresentar, juntamente com o pedido inicial de autorização para operação, um capital que seja igual ou superior ao mínimo requerido. Para garantir que o capital mínimo seja aceito pela CNSP, as empresas de seguro devem integralizar em dinheiro, equivalentes de caixa ou títulos públicos federais o mínimo de 50% do capital total e o restante em outros ativos aceitos como integralizáveis. Se, ao fim de determinado mês, ao entregar os dados de seu patrimônio líquido ajustado, uma empresa de seguros não conseguir alcançar o capital mínimo requerido, a Susep poderá determinar que essa sociedade empresarial, se estiver com insuficiência de até 30%, apresente um plano corretivo de solvência. Essa insuficiência deve ser evidenciada semestralmente, medida nos meses de janeiro e julho. De maneira diversa, caberá ao Conselho Diretor da Susep estabelecer as medidas a serem adotadas em relação às empresas de seguros que apresentarem uma insuficiência no patrimônio líquido ajustado em relação ao capital mínimo requerido superior a 30%. Esse controle será efetuado com periodicidade mensal. A norma também estabelece o capital-base, que é um montante fixo de capital que uma empresa de seguros deve manter a qualquer tempo. O capital- 13 base total é de R$ 15 milhões e há uma parcela fixa de R$ 1,2 milhão, sendo que a parcela variável é determinada de acordo com a localização geográfica de cada empresa de seguros. Para os estados da Região Norte, exceto o Tocantins, e para o Piauí, o Maranhão e o Ceará, a parcela variável é de R$ 120 mil; para os outros estados da Região Nordeste, a parcela variável é de R$ 180 mil; os estados da Região Centro-Oeste e o Tocantins possuem parcela variável de R$ 600 mil; para os estados da Região Sudeste, exceto São Paulo, a parcela variável é de R$ 2,8 milhões; para o estado de São Paulo, o valor é o mais alto, de R$ 8,8 milhões; e os estados da Região Sul possuem parcela variável de R$ 1 milhão. Leitura Obrigatória O Siscorp divulgou um material detalhado, que deve ser lido, sobre o capital mínimo nas empresas de seguro, intitulado Efeitos das regras de capital mínimo para as seguradoras (Faggion, 2008). TEMA 5 – PRINCIPAIS INDICADORES DO SETOR DE SEGUROS Em uma empresa normal, os indicadores econômico-financeiros são importantes para analisar não somente se a empresa está bem, considerando suas atividades da porta para dentro, mas também em comparação com seus concorrentes. Mas, em uma empresa de seguros, os índices a serem utilizados são um pouco diferentes, pois consideram características que apenas as seguradoras possuem. É exatamente isso que nós vamos começar a ver neste momento: os principais indicadores do setor de seguros. Esses indicadores nos ajudarão a identificar se uma empresa de seguros está bem não só interna, mas também externamente. Então, sem perder tempo, vamos começar? 5.1 Análise financeira A partir de agora nós vamos direcionar nosso foco para as disponibilidades e exigibilidades de uma empresa de seguros. Vamos analisar tudo o que entra e tudo o que sai de recursos financeiros, leia-se caixa e equivalentes de caixa. Aquilo que não representa possibilidade de fluxo financeiro para uma seguradora está fora de questão aqui. 14 Serão tomados como referência todos os ativos realizáveis, tanto os de curto quanto os de longo prazo, assim como as obrigações circulantes e não circulantes, sendo representadas pelas dívidas de curto e de longo prazo de uma seguradora. Essa análise busca identificar a saúde financeira por meio da medição da liquidez de uma entidade, que também é chamada de solvência financeira, ou seja, o poder que uma empresa possui para pagar todas as suas obrigações. Para isso, há índices de liquidez, de solvência, de endividamento, de garantia de capitais de terceiros, de imobilização de capitais próprios, além da medição da independência financeira, do capital circulante líquido, da liquidez operacional e da cobertura vinculada. Por se tratar de empresas de seguros, uns índices detêm mais importância do que outros, sendomais analisados aqui. Os índices de liquidez verificam a capacidade que uma empresa tem de pagar suas obrigações, tanto de curto como de longo prazo. No geral, possui uma importância apenas mediana em comparação com outros índices, pois é mais importante que se analise o perfil da dívida, ou seja, se ela tem mais característica de curto ou de longo prazo, do que simplesmente verificar se há dinheiro disponível para pagá-las imediatamente. Outro fator que reduz a importância geral dos índices de liquidez é que apenas se analisa o seu momento atualizado, sem qualquer desdobramento da dívida. De qualquer forma, vamos verificar um exemplo de aplicação do índice de liquidez corrente. BALANÇO PATRIMONIAL (valores em R$) Ativo Passivo Ativo Circulante 150.000 Passivo Circulante 100.000 Ativo Não Circulante 300.000 Passivo Não Circulante 110.000 Patrimônio Líquido 240.000 Ativo Total 450.000 Passivo Total 450.000 A fórmula para o cálculo do índice de liquidez corrente (ILC) é a seguinte: ILC = Ativo Circulante / Passivo Circulante Para calculá-lo, tomamos como referência os valores de R$ 150 mil e R$ 100 mil, ativo e passivo circulantes, respectivamente. Da relação matemática se extrai o valor de 1,5. Isso quer dizer que, para cada R$ 1,00 que uma seguradora 15 possua de obrigações no curto prazo, ela terá R$ 1,50 de ativos com liquidez no mesmo prazo, ou seja, até o final do exercício financeiro seguinte. Para esse índice, quanto maior for o valor, melhor será para as seguradoras, assegurando-lhe uma boa saúde financeira no curto prazo. Embora não seja o único índice para ser analisado, já passa uma ideia de como a seguradora está, em termos financeiros. A solvência geral é outro índice que faz a comparação dos ativos com os passivos, mas o faz de maneira integral, comparando todos os bens e direitos de uma entidade com o total de suas obrigações exigíveis. A solvência geral, além de evidenciar a liquidez de uma entidade, também apresenta o capital próprio indiretamente, pois quanto maior for a solvência geral, maior será o capital próprio de uma seguradora. O endividamento faz a comparação do total de obrigações exigíveis com o total de ativos de uma seguradora. Aqui nós começamos a verificar a interligação entre os índices, pois, conforme o endividamento aumenta, a solvência de uma empresa de seguros diminui e vice-versa. Uma boa gestão dos níveis de solvência é, por consequência, uma boa gestão de dívidas, em uma empresa. Mudando o foco para a garantia dos capitais de terceiros, tal índice representa o quanto uma entidade consegue cobrir de suas obrigações com capital próprio. É mais um índice de controle do que um índice operacional, pois nunca deve ser analisado isoladamente, já que o patrimônio líquido, na prática, não pode ser oferecido como garantia em nenhuma operação realizada por uma seguradora. A imobilização dos capitais próprios também apresenta a relação do patrimônio líquido, mas sua outra parte é o ativo permanente, representado pelos ativos que não possuem intenção de se transformarem em dinheiro para uma seguradora. O que sobra dessa relação evidencia a sobra de recursos que é direcionada para o capital de giro, uma certa espécie de independência financeira, que é o próximo índice que veremos. Pois bem, a independência financeira compara o capital próprio de uma seguradora com o seu ativo total, também completando a análise do endividamento. Quanto menor for o patrimônio líquido em relação aos ativos totais, maior será o endividamento de uma seguradora e menor será a sua independência financeira. 16 Abordando mais a fundo o conceito de independência financeira, temos o capital circulante líquido, que é o capital de giro próprio, aquela parcela dos ativos de curto prazo que são, de fato, da empresa. Deve ser feita a comparação simples dos ativos e dos passivos de curto prazo. Se os ativos forem maiores, dizemos que o capital circulante líquido é positivo e os índices de liquidez estão, no mínimo, satisfatórios. Se ativos e passivos forem iguais, o que é extremamente hipotético, dizemos que o capital circulante líquido é nulo. Por fim, se ativos são superados pelos passivos, podemos dizer que o capital circulante líquido é negativo e os índices de liquidez não estão em bons níveis. A liquidez operacional, para uma seguradora, é muito importante, pois apresenta o grau de liquidez nos chamados créditos operacionais com seguros no ativo circulante e os débitos operacionais com seguros no passivo circulante. É uma espécie de índice de liquidez exclusivo das seguradoras e é mais abrangente, pois apresenta as relações de uma seguradora não somente com os segurados, mas também com outras seguradoras, resseguradoras e com seus agentes ou correspondentes. Por último e também mais específico para as empresas de seguro está a cobertura vinculada, que mensura o nível do comprometimento das aplicações de uma seguradora que são apresentadas como garantia para cobertura das provisões técnicas que ela possua. Na prática, as seguradoras procuram sempre manter o nível de cobertura vinculada em níveis baixos, garantindo suas atividades operacionais com mais tranquilidade. Curiosidade O texto Mercado de seguros regulados pela Susep: desempenho em jan./dez. de 2015 ([2017?]), do website Tudo sobre Seguros, apresenta várias informações sobre o desempenho das seguradoras no Brasil. É uma excelente fonte de dados históricos, mostrando a evolução desse setor tão importante na economia nacional. 5.2 Análise econômica A última análise a ser considerada na nossa aula é a econômica, a qual leva em conta o capital investido nas empresas de seguro, além do seu volume monetário de receitas, o qual é proveniente dos prêmios de seguros recebidos durante determinado período. 17 Como índices econômicos, podem ser citadas as margens bruta, líquida e operacional, além da taxa de retorno do capital próprio, das retenções própria e de terceiros e da sinistralidade. Outros índices são os custos de comercialização e administrativo, o prêmio-margem, o resultado patrimonial e os índices combinado e combinado amplo. Vamos ver todos esses mais detalhadamente a partir de agora. Muito usadas em qualquer tipo de empresa, as margens também são utilizadas em empresas de seguros. A margem bruta faz a relação do resultado bruto com os prêmios de seguros obtidos; a margem operacional faz a relação das operações de seguros com os prêmios de seguros obtidos. Por último, a margem líquida já relaciona o lucro líquido do exercício com os prêmios de seguros obtidos. Muito parecida com a margem líquida, a taxa de retorno dos capitais próprios relaciona o lucro líquido com o patrimônio líquido médio, considerando a média aritmética do período atual e do imediatamente anterior. É com ela que os acionistas verificam como está a rentabilidade dos capitais investidos. A primeira retenção, a própria, indica em que nível ocorre a retenção própria em uma seguradora, considerando como base o total de prêmios de sua emissão. Esse índice de retenção indica a política de retenção de riscos, indicando mais ou menos operações de cosseguros e resseguros. A segunda retenção, a de terceiros, apresenta os riscos não assumidos em cada apólice, desde que tenham sido repassados ao IRB ou a empresas congêneres, e relaciona os prêmios de sua própria emissão com os prêmios que foram cedidos a terceiros. A sinistralidade é a relação entre o total de sinistros retidos e os prêmios obtidos com os seguros. É o valor que sobra de receita de prêmio para a cobertura de despesas administrativas e de comercialização. O primeiro custo a ser analisado, o de comercialização, relaciona as despesas de comercialização com os prêmios de seguros obtidos. Ele indica quanto sobra para fazer face às despesas administrativase com sinistros. O custo administrativo relaciona as despesas administrativas com os prêmios de seguros obtidos e complementa o custo de comercialização em termos informacionais, pois indica como está a política das áreas administrativa e comercial de uma empresa de seguros. 18 O prêmio-margem é a relação entre os prêmios de seguros obtidos e o patrimônio líquido, buscando a evidenciação de eventuais problemas ligados à solvência da seguradora, no futuro. Não devemos esquecer que o patrimônio líquido, embora sofra ajustes, é a base para a medida da margem de solvência, já analisada no Tema 4. O resultado patrimonial faz uma análise das operações que não estão ligadas com as atividades principais de uma seguradora, pois relaciona resultados com empresas coligadas, controladas e com aluguéis de imóveis, quando aplicáveis. Mostra quanto do lucro de uma empresa depende dessas atividades extras, relacionando tais resultados com o lucro líquido. Quando o resultado patrimonial é negativo, sabe-se que o resultado geral foi reduzido por causa dessas perdas. Os dois últimos índices econômicos, o combinado e o combinado amplo, mostram praticamente a mesma informação, mas o resultado patrimonial é que provoca a diferença entre os dois. A relação dos dois é feita com a soma dos valores retidos de sinistros, das despesas administrativas e de comercialização, sendo que o combinado relaciona as receitas e despesas apenas com os resultados operacionais, sendo as receitas representadas pelos prêmios de seguros obtidos. O índice combinado amplo, além de fazer a relação das despesas com os prêmios de seguros obtidos, também considera como receitas os resultados patrimoniais, os quais não possuem ligação com a atividade operacional de uma empresa de seguros. Saiba Mais A revista Apólice, especializada em operações securitárias, publicou uma reportagem com os resultados obtidos pelas principais empresas seguradoras durante o ano de 2016 (Seguradoras, 2017), sendo uma ótima fonte de leitura para aqueles que querem entender mais esse mercado tão dinâmico, que é o mercado de seguros. TROCANDO IDEIAS Os aspectos formais de uma empresa de seguros não representam mera burocracia para os gestores. Eles são, de fato, mecanismos de proteção tanto para a sociedade empresarial quanto para seus clientes. 19 No formato de wiki, que é um texto que sempre é complementado e melhorado, vamos discutir sobre o que você identificou, após a apresentação dos conceitos, que falta para que o controle das atividades de seguro se tornarem ainda mais garantidoras dos direitos do cidadão. Vamos lá! A sua contribuição ajudará outras pessoas a entenderem melhor os aspectos contábeis das empresas de seguros. NA PRÁTICA No decorrer desta aula você conseguiu identificar que os aspectos contábeis das empresas de seguro se diferem um pouco dos aspectos apresentados por uma empresa que não seja do setor securitário. Seja pela quantidade de normas específicas ou pelos regramentos mais genéricos, como de estruturação de demonstrações contábeis, os seguros possuem algumas particularidades que os diferem de outras atividades operacionais. Aponte, no mínimo, duas diferenças nos aspectos contábeis ligadas à atividade securitária em relação àqueles presentes nas empresas não securitárias. Passos para a resolução do problema Você deve apresentar aspectos únicos que influenciem os registros e as operações contábeis das empresas seguradoras. Há vários desses aspectos, os quais devem ser evidenciados, de preferência, com alguns detalhes sobre as diferenças entre as atividades securitárias e as não securitárias. Resolução do problema Diferenças: 1. As vendas das seguradoras são denominadas prêmios de seguros e não receitas brutas com vendas, mantendo a mesma localização na demonstração do resultado do exercício. 2. Periodicamente, as seguradoras devem enviar um relatório para a Susep evidenciando a estrutura do seu patrimônio e a sua compatibilidade com as operações, haja vista que garantias aos segurados precisam ser comprovadas. Isso não ocorre em empresas não securitárias, as quais não 20 necessitam apresentar a nenhum organismo governamental condições financeiras de quitar as obrigações com seus fornecedores, por exemplo. 3. Há um patrimônio líquido mínimo para a operação das empresas de seguros, fator não obrigatório para empresas de outros setores, exceto as instituições financeiras. Esse valor mínimo depende da unidade da federação em que a seguradora esteja instalada, separando ainda uma parcela fixa e outra variável consideradas como mínimas. 4. Índices financeiros específicos, com variáveis não aplicáveis a nenhuma outra atividade, como capacidade de cobertura para apólices, quantidade relativa de cosseguros e resseguros assinados, os quais mostram a saúde financeira de uma seguradora. FINALIZANDO Os aspectos contábeis de uma empresa de seguros são importantes tanto do ponto de vista operacional quanto do ponto de vista estratégico, pois existem as normas aplicadas a todas as empresas presentes no mercado, mas há também as regras aplicáveis especificamente às seguradoras. Não somente as regras contábeis, mas também os índices econômico- financeiros e as regulamentações sobre a formação do capital e os riscos que devem ser assumidos por uma seguradora são pontos importantes de serem aprendidos. Trabalhar com índices é uma tarefa árdua, que requer muito estudo e conhecimento do setor em que se trabalha, mas, uma vez que você esteja nesse mercado, é apenas uma questão de tempo para que esse conhecimento prático faça parte da sua rotina, ajudando-lhe no processo de gestão de uma empresa de seguros. 21 REFERÊNCIAS ANS – Agência Nacional de Saúde Suplementar. Margem de solvência: introdução à discussão. Brasília: ANS, 2017. Disponível em: <http://www.ans.gov.br/images/stories/Particitacao_da_sociedade/comissao_pe rmanente_de_solvencia/material_de_apoio_introducao_margem_solvencia.pdf >. Acesso em: 29 maio 2018. AZEVEDO, G. H. W. de. Seguros, matemática atuarial e financeira. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. BRASIL. Lei n. 6.404 de 15 de dezembro de 1976. Dispõe sobre as sociedades por ações. Diário Oficial da União, Brasília, p. 1, 17 dez. 1976. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L6404consol.htm>. Acesso em: 29 maio 2018. CNSP – Conselho Nacional de Seguros Privados. Resolução n. 321 de 15 de julho de 2015. Dispõe sobre provisões técnicas, ativos redutores da necessidade de cobertura das provisões técnicas... Diário Oficial da União, Brasília, 17 jul. 2015. Disponível em: < https://www.legisweb.com.br/legislacao/?id=287082>. Acesso em: 29 maio 2018. COSTA, R. Ciclo operacional. Videoexplicação. YouTube, 13 nov. 2009. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=NYO-ivVaBzU>. Acesso em: 29 maio 2018. FAGGION, F. Efeitos das regras de capital mínimo para as seguradoras. São Paulo: Siscorp Sistemas Corporativos, 2008. Disponível em: <https://capitalaberto.com.br/wp- content/uploads/2012/05/Capital_Minimo_jul08.pdf>. Acesso em: 29 maio 2018. GOLDBERG, I. Direito de seguro e resseguro. Rio de Janeiro: Forense, 2012. (Série FGV Direito Rio). MELLO, E. D. et al. Alternativas para análise de risco e retorno dos ativos frente às necessidades de reservas atuariais e cobertura de passivos. 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INTRODUÇÃO A ATUARIAL AULA 4 Prof. Michael Dias Correa 2 CONVERSA INICIAL A função de atuário, embora pouco conhecida no Brasil, apresenta alguns aspectos que elevam a sua importância para o desenvolvimento da nação, pois os atuários são responsáveis pela precificação dos seguros de qualquer natureza, além de calcularem os valores ligados à previdência, tanto à privada quanto à social. Para isso, a estatística é muito utilizada em qualquer ponto específico das ciências atuariais. Quando se imagina uma tábua de mortalidade ou de vida, por exemplo, que são bases para os pagamentos de indenizações de seguros de vida ou de pagamentos de benefícios previdenciários, nenhum valor pode ser definido sem o auxílio da estatística aplicada. Todas as variações de ditas tábuas ou tabelas são dependentes da estatística e, diferentemente do que se aprende em um curso regular, nas ciências atuariais elas são muito direcionadas para os produtos comercializados pelas empresas de seguros. CONTEXTUALIZANDO Já pensou em se aposentar? Quais são seus planos para o futuro? Para aquele futuro mais distante, o que eu quero dizer? Não pensando em profissão, mas em aspectos mais pessoais, como o ritmo de vida depois de 20 ou 25 anos de trabalho? Devemos ter um direcionamento muito definido e já construído em termos de aposentadoria. Isso porque, quanto menor o prazo para construção de uma reserva previdenciária, maiores serão os aportes financeiros necessários. Sabendo disso, as empresas de seguros buscam conscientizar os potenciais segurados mostrando-lhes dados de expectativa de vida crescente. Isso significa dizer que, se você não fizer nada pela sua aposentadoria, a tendência é que você viva mais tempo, mas com mais dificuldade financeira. Não seria muito mais interessante ter uma velhice mais longa, mas sem problemas sérios de ordem financeira? Uma aposentadoria digna não representa obter proventos milionários, mas o suficiente para bancar os custos de uma vida mais simples e menos demandante de recursos financeiros. Afinal de contas, os filhos já estarão criados, o imóvel já estará quitado e o carro não será uma necessidade tão grande, nem uma fonte de gastos. 3 Mas, para ter esse mínimo de dignidade, os serviços de uma empresa de seguros ou de previdência são essenciais e precisam ser buscados o quanto antes. Como cliente, você não precisa saber como calcular uma tábua de mortalidade, mas precisa saber que ela influencia nos valores que você pagará e que receberá no futuro. É sobre isso que nós vamos nos debruçar nesta aula: a influência da estatística e da matemática na vida das pessoas, mais especificamente nos seguros e na previdência. Vamos começar mais essa caminhada! TEMA 1 – A FUNÇÃO DE ATUÁRIO E A EVOLUÇÃO HISTÓRICA DA MATEMÁTICA ATUARIAL A função de atuário tem ligação direta com a evolução da matemática atuarial. Isso porque esse ramo específico da matemática suporta o atuário na tarefa de basear os cálculos realizados nos mais diferentes ramos possíveis para se trabalhar, que vão desde os seguros, passando pelo cálculo da expectativa de vida das pessoas, finalizando na previdência, seja ela social ou privada. É isso que nós vamos estudar neste tema. Vamos começar? 1.1 A função de atuário Com o mercado de seguros em expansão no mercado brasileiro, expansão essa consolidada após a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos, a figura do atuário acabou por ganhar mais destaque se comparada com outras atividades. Vamos ver agora o que um atuário faz e quais são as suas responsabilidades. Você já deve ter feito uma pergunta para si mesmo(a), provavelmente antes de dormir, questionando-se sobre o que ocorrerá com você no momento da aposentadoria. Quanto você ganhará? O que e como você pode fazer para ganhar mais? Como é calculado o valor que você ganhará quando vier a se aposentar? Para todas essas perguntas há um profissional que pode ter as respostas: o atuário. Devemos admitir que a profissão não é das mais conhecidas pelos brasileiros em geral, mas é de extrema importância para o bom andamento dos mercados. Isso porque o atuário trabalha gerindo os riscos por meio da análise 4 das características gerais dos seguros e planos de previdência. Esses seguros podem ser tanto de curto quanto de longo prazos. Pela facilidade de trabalhar com números, também é um profissional muito requisitado para trabalhar no mercado financeiro e no mercado de capitais, podendo desempenhar atividades como consultor de empresas, em trabalhos mais específicos. O atuário tem todas as suas atividades desempenhadas em um ambiente que apresenta as incertezas de um mercado qualquer. Nos seguros, ele define a melhor quantia a se cobrar nos prêmios; na previdência, realiza a gestão de fundos de pensão. Por possuir uma formação sólida em matemática superior, ele calcula probabilidades de ocorrências de eventos que vão influenciar nos seguros e na previdência, como indenizações, benefícios, reservas técnicas, prêmios, além de avaliar os riscos de todas essas operações, definindo planos estratégicos de ação e políticas de investimento para a melhor utilização dos recursos financeiros por parte das empresas. A atuação de um atuário é predominantemente na área econômico- financeira da sociedade e ele ficou mais conhecido por atuar no mercado de seguros desde a assinatura de uma apólice de seguros até a renovação por parte do cliente ou a sua liquidação, que pode ocorrer na situação de um sinistro. A profissão de atuário foi regulamentada em 3 de abril de 1970 por meio do Decreto no 66.408 (Brasil, 1970) e foi reconhecida pelo MEC no mesmo ano. Para ser considerado um atuário, o profissional precisa estar devidamente registrado junto ao Instituto Brasileiro de Atuária (IBA), que é o órgão responsável pelo controle da profissão junto ao Ministério do Trabalho. Por mais que os profissionais tenham habilidades direcionadas para trabalhar com previdência privada e seguros, é o atuário o único profissional formado especificamente para atuar com seguros e previdência. Todo o conteúdo de matemática e estatística visto durante a graduação, aliado aos conteúdos de direito, administração, economia e contabilidade, deixam a sua formação bem sólida. É muito comum que os profissionais de atuária sejam convidados a trabalhar em empresas de auditoria justamente pelo perfil crítico que possuem, assim como pelos seus sólidos conhecimentos de matemática e estatística. Curiosidade 5 Para entender um pouco mais não somente a atividade do atuário, mas das ciências atuariais como um todo,que tal assistir ao vídeo Ciências atuariais: de onde vem, o que come, quais são seus hábitos (Econoweek, 2016)? 1.2 A evolução histórica da matemática atuarial A matemática atuarial, por ser muito ligada às operações com seguros, também é conhecida como matemática dos seguros. Esse outro conceito é decorrente do foco que a matemática atuarial possui, direcionado aos cálculos específicos para avaliação de riscos e sistemas de seguros. Ela foi concebida no século XVII, no continente europeu, a partir da probabilidade identificada para os jogos de azar, mas vinculada à necessidade de haver um sistema com a capacidade de gerir os sistemas de previdência e de seguro, pois a sociedade começava a dar indícios de crescimento. Outros cálculos foram decorrentes da origem da matemática atuarial, como as tábuas de mortalidade e a teoria das anuidades, que consiste em pagamentos anuais vitalícios. À época, era chamada de anuidade de vida inteira. Atualmente, a previdência social herdou essas características, tal qual a previdência privada, desde que mantenha as características de planos de vida inteira. No século XVIII, a probabilidade acabou recebendo um impulso nas suas análises, conceitos e investigações, também como consequência da matemática atuarial, pois as fábricas já eram realidade nas cidades maiores, o que passou a demandar cálculos mais precisos sobre os riscos de acidentes de trabalho, afastamento e aposentadoria. Podemos dizer que a principal função da matemática atuarial, no âmbito da matemática geral, é a de, majoritariamente na área de seguros, calcular os riscos absorvidos para se assegurar determinado bem, identificando o valor de prêmio mais apropriado e justo para ambas as partes. Toda vez que você busca os serviços de um corretor de seguros ou de um banco comercial, você demanda serviços da matemática atuarial. Seja para calcular o valor justo para pagamentos do seu plano de previdência privada, de modo a garantir uma aposentadoria mais tranquila; ou simplesmente para deixar o carro segurado contra roubo, furto e incêndio, os cálculos vão considerar não somente os fatores objetivos, tais como valor do bem, tempo de uso e vida útil estimada, mas também fatores mais subjetivos. 6 E é exatamente isso que faz com que a matemática atuarial, embora se utilizando de conceitos das ciências exatas, seja uma ciência social, pois lida com o perfil dos consumidores juntamente com os valores matemáticos. O aspecto pessoal é único em cada seguro formalizado, fazendo com que o mesmo veículo, por exemplo, comprado no mesmo dia e na mesma loja, mesmo se contratado com a mesma empresa de seguros, possua valores de prêmios distintos, pois o perfil das pessoas que o contrataram é diferente. A tendência é que, por exemplo, um motorista com menos tempo de experiência comprovada na carteira de habilitação esteja mais propenso a sofrer um acidente de trânsito, mesmo que não queira, pois não possui horas de direção em número tão elevado quanto outra pessoa que já seja habilitada há mais de 30 anos. Isso não é uma garantia de não acidente para a pessoa habilitada há mais tempo, nem uma certeza de sinistro para o habilitado mais recente, mas são as probabilidades trabalhando em prol de uma precificação mais justa para ambos. Conforme o tempo for passando, esse habilitado com menos tempo ganhará experiência e pagará menos prêmio para ter o mesmo bem segurado. Aqui está uma das grandes diferenças da matemática atuarial para a matemática geral: ela não é tão lógica quanto parece. E é também por isso que ela faz com que a formação dos profissionais da área seja tão específica e direcionada, deixando-os com um conhecimento mais amplo e com maior poder de empregabilidade. Saiba Mais O Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese) publicou, em conjunto com outras entidades, um material muito rico falando exatamente sobre as inconsistências do modelo de previdência social do Brasil e a projeção para o ano de 2060. Com o envelhecimento da população, é interessante saber quais são as tendências de evolução da previdência social. Consulte esse material (Puty; Gentil, 2017). TEMA 2 – A ESTATÍSTICA E A CIÊNCIA ATUARIAL A ciência atuarial é muito dependente da estatística, embora esta não seja a prioridade absoluta nos trabalhos atuariais. De qualquer forma, além do perfil das pessoas e dos riscos apresentados, é primordial que a estatística seja bem 7 aplicada para que as ciências atuariais possam atingir o seu objetivo maior, que é a satisfação de ambas as partes: quem transmite o risco e quem recebe o risco. 2.1 Não se confunde estatística com ciências atuariais Antes de qualquer análise, deve ficar claro que estatística não é a mesma coisa que ciência atuarial. Muita gente pode pensar que, por ser um atuário, a formação acadêmica de determinado profissional é a estatística. Não necessariamente. Um estatístico é formado para atuar de maneira mais ampla, podendo desempenhar estudos e pesquisas dentro de grandes empresas, em universidades ou trabalhar com consultorias específicas, de acordo com as necessidades de cada cliente contratante. No entanto, enquanto está no período de formação, o estatístico amplia mais o leque de conhecimentos com os quais ele tem contato, sendo consequentemente menos profundo o conhecimento de cada item estudado. Mudando a análise para o profissional graduado em ciências atuariais, a quantidade de conteúdos distintos ligados à estatística, em comparação com um profissional estatístico, é bem menor. Só que a profundidade e o direcionamento dado para o conhecimento da estatística são muito maiores para o profissional das ciências atuariais. Vejamos um exemplo simples. Um profissional da estatística, durante a sua formação, tem contato com os mais distintos tipos de regressão e combinação de valores na busca de relacionamentos entre variáveis distintas, como pode ser o caso de associação entre o hábito de fumar e a expectativa de vida. Para o profissional das ciências atuariais, o raciocínio e os objetivos são distintos. Ele não se preocupará especificamente com uma parte da população que fuma ou que faz exercícios físicos regularmente; ele se preocupará com o todo. Para definir o período de tempo em que alguém deverá contribuir para a previdência social, por exemplo, um atuário considera apenas a população economicamente ativa, não importando se ela é fumante, sedentária, instruída ou não. O fator primordial para o atuário é tratar toda a população como uma grande massa de estudo e análise, para tirar as conclusões que serão aplicadas a todos os indivíduos de uma sociedade. 8 Voltando o foco para os estatísticos, estes estão mais preocupados com desenvolver políticas específicas para aqueles que fazem pouca atividade física ou que fumam, pois o governo pretende, por exemplo, reduzir os gastos com internações devido a problemas cardíacos e pulmonares. Para isso, os estatísticos podem utilizar estudos e testes que identifiquem que aqueles que realizam menos atividades físicas e fumam estão mais propensos a utilizarem o serviço público de saúde. Evitando-se o fato que gerou a necessidade do uso, que é a atividade física reduzida ou o fumo em excesso, a tendência é que se gaste menos com a saúde desse grupo de indivíduos e mais leitos estejam liberados para acidentados, por exemplo. Outras políticas podem estar sendo desenvolvidas, ao mesmo tempo, para reduzir os acidentes de trânsito, de modo que se gastem menos recursos com deslocamentos de ambulâncias até os locais dos acidentes e também com internações. Mas é exatamente aqui que as duas áreas se juntam, pois as ciências atuariais não estão muito interessadas apenas na parcela de fumantes ou na parcela da população que realiza pouca atividade física. Mas, é dointeresse de um atuário ter conhecimento das estatísticas sobre acidentes de trânsito. Se são coletados, no momento de um acidente, o endereço de onde ocorreu, o local exato, o horário, o dia da semana, além de dados sobre o motorista ou os motoristas envolvidos no acidente, se houve vítimas fatais etc., com base nesse conjunto de dados específicos um atuário poderá identificar locais mais perigosos e locais que apresentem um menor risco, ou seja, uma menor probabilidade de ocorrência de sinistro. O que conseguimos notar é que um atuário depende dos dados gerais da estatística, os quais são gerados de maneira contínua e armazenados conforme a necessidade de cada usuário da informação. Como se define que uma cidade é mais perigosa do que outra? Por que em algumas atividades profissionais os indivíduos se aposentam com menos tempo de serviço e exigem um expediente de trabalho com carga horária reduzida? A resposta para todas as perguntas feitas no parágrafo anterior passa pelo uso da estatística geral e da estatística aplicada, esta última chamada de ciência atuarial. 9 Atualmente, é possível fazer um seguro de praticamente tudo. De um telefone celular, algo que se tornou tão importante quanto a própria roupa que vestimos, até as cordas vocais de um cantor famoso. Pode até parecer absurdo, mas, se há um interessado em repassar o risco de um sinistro e há, do outro lado, outro interessado em assumir o risco, existe a possibilidade de criação de uma apólice. Basta que se defina o valor do prêmio, e para isso os dados estatísticos são fundamentais. Curiosidade Você sabia que a profissão de atuário é uma das menos conhecidas no Brasil? Para comprovar isso, só indo para a rua e entrevistando as pessoas. No vídeo Mundo atuarial: versão 4 minutos você pode conferir o resultado dessa rápida pesquisa, além de descobrir mais alguns detalhes dessa profissão (Alan, 2014). TEMA 3 – TÁBUAS DE MORTALIDADE A partir de agora nós vamos ver que as tábuas de mortalidade possuem importância em uma sociedade não somente para a sua utilização na definição de prêmios de seguros e para o planejamento de previdência, mas porque também servem como base para a definição das políticas públicas a serem implementadas em uma cidade, estado ou país. 3.1 A importância das tábuas de mortalidade para uma sociedade É sabido que o aumento da expectativa de vida dos brasileiros tem afetado os hábitos de consumo e a forma como as próprias empresas passaram a oferecer certos serviços para parcelas distintas da sociedade. Na década de 1990, além de a situação financeira do Brasil não ser estável, havia uma expectativa de vida mais baixa, o que fazia com que a terceira idade não tivesse tanta importância assim no planejamento das empresas. Hoje em dia, há programas e pacotes específicos de viagem, por exemplo, para pessoas idosas, o que atesta essa mudança de parâmetros e a emergência de um novo perfil de consumidor: aquele que já se aposentou. Mas, não foi apenas um novo nicho de mercado que surgiu com o aumento da longevidade dos brasileiros. A tábua de mortalidade precisou ser completamente revista, independentemente do interesse direto que ela tivesse. 10 Entre os anos de 2000 e 2010, por exemplo, houve um aumento na expectativa de vida média dos brasileiros de quase quatro anos, o que aumenta a dificuldade dos profissionais para garantirem valores acumulados que sirvam durante todo o período de aposentadoria até a morte da pessoa, fazendo com que a vida acabe antes e não o dinheiro. É exatamente esse déficit que se busca evitar e as entidades que administram planos de pensão e de aposentadoria estão se atualizando a cada dia que passa. Indiretamente, o aumento na expectativa de vida se transformou em fator de alto risco para o negócio previdenciário. Nesse sentido, as tábuas de mortalidade surgem como um diferencial no negócio, medindo os riscos na definição de quanto tempo cada segurado receberá o benefício. Elas identificam as probabilidades tanto de vida quanto de morte de uma determinada população, de acordo com as idades que essa população compreende. Agora a gente começa a verificar a ligação entre o valor a ser recebido de aposentadoria e a tábua de mortalidade. Ela não é a única, mas é uma das referências utilizadas para o cálculo dos benefícios a serem pagos em virtude da aposentadoria dos trabalhadores. E a ideia da tábua de mortalidade não é fazer o dinheiro sobrar e, sim, ser o mais eficiente possível com relação à disposição dos recursos financeiros para os cidadãos. Vejamos uma situação hipotética: quando você estiver prestes a se aposentar, você terá uma quantidade calculada de recursos financeiros acumulados durante os tempos de trabalho. Para a determinação do valor do benefício a ser pago a você a título de aposentadoria, um atuário será o profissional responsável por calcular os valores a serem pagos, de forma que eles não terminem enquanto o beneficiado ainda estiver vivo; mas também não fará um cálculo tão conservador a ponto de que o beneficiado morra e ainda possua uma grande quantia de dinheiro disponível. A ideia é que o dinheiro nem sobre nem falte, considerando, é claro, a morte natural dos beneficiados, não associada a acidentes ou ocorrências inesperadas. Para isso, deve-se complementar a cobertura com um seguro de vida. Na tábua de mortalidade, tanto as expectativas de morte quanto de vida estão definidas, de modo que o direcionamento do trabalho do profissional atuário seja único. Curiosidade Você sabia que, para se definir o fator previdenciário, que é utilizado para a determinação dos valores das aposentadorias da previdência social por tempo 11 de contribuição, utiliza-se a tábua de mortalidade do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)? O texto Aposentadoria: tábua de mortalidade do IBGE altera cálculo do fator previdenciário mostra como os valores são calculados e os impactos que eles produzem nas vidas das pessoas (Secretaria de Previdência, 2016). 3.2 A evolução na construção de uma tábua de mortalidade Nós já sabemos o que são tábuas de mortalidade, aquelas utilizadas pelos profissionais atuários na determinação de valores a serem pagos para os membros da sociedade. O termo tábua é uma tradução, que passou a ser largamente utilizada, do termo originalmente desenvolvido em inglês, table, que tem uma tradução mais utilizada como tabela, o que seria mais lógico em se tratando do uso das informações. No entanto, é o que existe e o que se tem de referência em termos atuariais, para o trabalho profissional. E as suas origens datam de 1663, quando John Gaunt e William Pett receberam dados de Londres relativos a mortes ocorridas. Só que os dados não eram tão precisos e não especificavam a idade na hora da morte da pessoa, por exemplo. Outro problema de Londres é que havia uma quantidade relativamente grande de população migratória e em expansão. Mas, 30 anos depois, em 1693, um renomado astrônomo, físico e matemático chamado Edmond Halley desenvolveu um excelente trabalho nas ciências atuariais, trabalho esse que é pouquíssimo lembrado, haja vista que tal astrônomo é muito mais conhecido por ter calculado sozinho a chegada do cometa que ganhou o seu nome. No entanto, Halley acabou por revolucionar não apenas a astronomia, mas também a demografia ao conceber a primeira tabela de mortalidade totalmente baseada em dados demográficos mais precisos que a anterior. Essa tabela foi chamada de tabela da vida. Embora não seja exatamente conhecido como tudo foi feito, Halley teve acesso aos dados demográficos de uma cidade chamada de Breslaw, que hoje fica na Polônia e se chama Wroclaw. Esses dados eram recheados de informações úteis, tais como os nascimentos e as mortes registrados nos últimos cinco anos, na cidade. Tendo esse conjunto deinformações, o cientista desenvolveu a tabela da vida, evidenciando a probabilidade de morte de acordo 12 com cada faixa etária, o que se tornou referência histórica para os cálculos atuariais, principalmente aqueles associados à definição de rendas vitalícias, os quais têm como base os dados atualizados da tabela criada por Halley. Saiba Mais Você sabia que o cálculo de aposentadoria no Brasil é realizado pela Previdência Social e possui como referência o cálculo histórico da tábua da vida de Halley? Há um material do IBGE bem completo e que apresenta a metodologia aplicada no cálculo da aposentadoria de todos os brasileiros (Castro, 2015). É uma ótima leitura! TEMA 4 – VIDA MÉDIA COMPLETA As tábuas de vida média completa também são chamadas simplesmente de tábuas de vida, muito utilizadas pelas empresas de seguros e de previdência. Já outras ocorrências, como a suavização e a tábua intergeracional, buscam a adequação à realidade dos mais diversos lugares e suas populações. É o que nós veremos neste tema! 4.1 Tábuas de vida atuarial As tábuas de vida atuarial são aplicadas não somente pelo setor público de uma sociedade, mas também pelo setor privado no cálculo de probabilidades de vida e morte em função da idade. Elas realizam a análise demográfica com base em um modelo tabular validado e assim os estudos demográficos ganham em efetividade, servindo também de referência para a definição de políticas públicas. Os censos são a principal matéria-prima para a produção das tábuas de vida atuarial, além de dados de outras entidades oficiais. Dados de registros civis, livros de batismo e livros de enterros e também a experiência adquirida pelas empresas gestoras de fundos de pensão e de seguros de vida ajudam a aumentar a qualidade das informações geradas. Quanto mais apurados forem esses dados, mais precisas serão as projeções realizadas em relação à probabilidade de sobrevida e de morte de uma parcela da população, tendo a sua idade como referência. E como isso ocorre, na prática, com relação à assinatura de um seguro de vida, por exemplo? Vamos imaginar a seguinte situação: você tem 30 anos e 13 precisa contratar um seguro de vida para garantir a tranquilidade financeira de sua família, caso você venha a faltar. Quando você toma tal decisão, você transfere o risco da morte para a seguradora e ela cobrará o prêmio baseado na sua expectativa de vida. No Brasil, há expectativas de vida locais e uma expectativa de vida geral, em que é tirada a média para todo e qualquer brasileiro. Mas é fácil de se identificar que as empresas de seguros de vida não utilizarão a tabela nacional, pois particularidades de uma ou de outra cidade ficarão de fora. Para um cálculo mais preciso, é necessário que se obtenham mais dados acerca do local em que vive o futuro segurado e de alguns aspectos da vida cotidiana que ele leva. Não seria justo, por exemplo, que se cobrasse um prêmio de seguro de vida no mesmo valor de duas pessoas distintas, embora com a mesma idade, mas se uma desempenhasse a função de professora e a outra desempenhasse atividades profissionais como policial militar. A probabilidade de o segundo não atingir o máximo da expectativa de vida é muito maior do que a pessoa com mesma idade, que seja professora. E é por isso que os detalhes pessoais são tão importantes, pois fazem com que a cobrança seja mais justa para todos. Tanto para o policial, que, pela atividade que desempenha, apresenta um risco maior para a seguradora, quanto para o professor, que, no desempenho de uma atividade com baixo risco à vida, terá um valor de prêmio a pagar menor que o policial. Outros fatores são considerados, tais como endereço de residência, local de trabalho e modo de deslocamento, entre outros. Complementando, se o professor viver em uma área muito violenta, ou seja, que apresente altos índices de criminalidade, também apresentará um risco maior de não atingir a expectativa de vida média da população em geral. Considerando essa situação, o prêmio cobrado pela seguradora tenderá a ser maior também para o professor em decorrência dos níveis de criminalidade apresentados pelo local em que ele vive. Curiosidade O texto Como calcular o seguro de vida e a importância de ter um (2016) é uma ótima fonte de conhecimento sobre o cálculo do seguro de vida que é oferecido pelas instituições presentes em nosso país. São considerados, além da cobertura pretendida e da idade do futuro segurado, seus fatores pessoais e o estado geral de saúde que ele apresenta. 14 4.2 Suavização e tábua intergeracional Como podemos constatar simplesmente verificando o que ocorre em nossas famílias, hoje em dia se vive muito mais do que se vivia há 10 anos atrás. Da mesma forma que se vivia muito menos há 20 anos atrás e a tendência é de que, daqui a 10 anos, se viva mais do que se vive atualmente, pelo menos em termos de expectativa média de anos a serem vividos. Esse fator faz com que os trabalhos das empresas que se utilizam das tábuas de vida sejam constantemente reavaliados, pois um cálculo efetuado de maneira equivocada provoca cobranças injustas, que podem fazer com que um segurado pague menos ou mais para ter um mesmo direito. O ideal é que sempre se cobre o valor justo, de acordo com a cobertura acordada entre as partes celebrantes. As empresas de seguros e de previdência, principalmente as privadas, tendem a utilizar o que se chama de suavização em relação aos valores constantes nas tábuas de vida e de morte, tudo isso com o objetivo de fazer com que os efeitos do aumento da expectativa de vida sejam reduzidos por causa da redução de mortes. Vários são os fatores que fazem parte dessa suavização e a referência é a idade-raiz. Entre eles estão o número de pessoas no início da idade e que faleceram ao longo da idade, a probabilidade de uma pessoa com uma idade qualquer morrer antes da idade. Ainda há a discriminação por meio de gênero, consumo ou não de tabaco, classe social, histórico de saúde, dentre outros elementos. Quanto mais detalhes forem coletados, melhor e mais justa serão a análise do perfil e a definição do valor do prêmio a ser cobrado dos futuros segurados. Outro ponto a ser considerado em um cenário de aumento continuado da expectativa de vida é a tábua intergeracional, também chamada de tábuas geracionais, adequando-se às diferentes gerações em termos de expectativa de vida e de morte. Isso permitiu que fossem desenvolvidas tábuas mais apropriadas, sendo diferenciadas entre si pelo ano de nascimento de cada indivíduo em questão. Essas tábuas avaliam de maneira mais precisa tanto a mortalidade quanto a sobrevivência, avaliando de maneira antecipada os efeitos do aumento da expectativa de vida da população. Esse aumento é uma resposta natural à 15 evolução tecnológica, o que melhorou as condições de vida dentro das residências, oferecendo às pessoas mais conforto e diminuindo a necessidade de esforços físicos mais pesados. Se, por um lado, a expectativa de vida aumentou pela redução do esforço físico, por outro o aumento de tipos de doença antes inexistentes também foi consequência do aumento do sedentarismo das pessoas. Curiosidade Os jovens são os mais prejudicados pela evolução da tecnologia e a expectativa de vida deles, em comparação com algumas gerações mais antigas, vêm apresentando queda. Isso é consequência dos maus hábitos que lhes são incutidos desde a infância. Veja a reportagem reproduzida do programa televisivo Hoje em Dia (Misturanet, 2012) e verifique se a sua infância foi da forma como narrada pela matéria. TEMA 5 – TÁBUAS DE COMUTAÇÃO As tábuas de comutação são produtos de uma tábua de mortalidade qualquer, mas dependem adicionalmente de um fator de descapitalização dos recursos e da taxa de juros definida para os contratos. Vamos ver agoraas situações em que a tábua de comutação pode ser aplicada. 5.1 As características das tábuas de comutação As tábuas de comutação são compostas de dados referentes às funções de sobrevivência, de morte e de número descontado de sobreviventes. Existe a possibilidade de uma mesma tábua de mortalidade originar diversas tábuas de comutação, desde que se altere a taxa de juros aplicada como referência. Como as tabelas de comutação são diversas, podemos ter inúmeras como referências para a definição de coberturas de um seguro qualquer. Para compreendermos melhor os detalhes das tábuas de comutação, vamos imaginar duas tabelas, uma considerando a idade de 80 anos e a outra considerando a idade de 90 anos como expectativa de vida dos indivíduos. O que ocorre na prática é que, quando for necessário se calcular seguros que estejam relacionados a rendas dos indivíduos e o evento ocasionador do benefício para o segurado for a sobrevivência, sempre a tabela a ser utilizada será aquela em que tiver evidenciada a maior expectativa de vida. Nesse 16 exemplo, a tabela a ser utilizada é a de 90 anos. Aqui, o risco da empresa de seguros está no fato de subestimar a sobrevivência do segurado. Analisando o caso de um segurado com 50 anos, ela se programa para realizar pagamentos durante o período de 40 anos, ou seja, até ele alcançar os 90. Esse raciocínio é bem simples, pois parte do conservadorismo financeiro que deve ser seguido por parte de qualquer entidade empresarial, que não deve estimar suas obrigações futuras com base em um período menor, quando há uma alternativa maior. São duas possibilidades: ela pode esperar pagar até os 80 anos do segurado ou até os 90 anos. Se ela se programa para pagar até os 80 e o segurado vive até os 90, já está configurado o desfalque financeiro. Mas, se ela se programa para pagar até os 90 anos do segurado e ele vive apenas até 80, há uma folga financeira de 10 anos para a empresa de seguros. O mesmo raciocínio deve ser seguido quando se tratar de benefício em caso de morte do segurado, mas de maneira invertida. Pensando na mesma situação de conservadorismo, uma empresa de seguros tem duas alternativas para analisar: o caso de o segurado com 50 anos morrer com 90 anos ou morrer com 80 anos. Pensando assim, a empresa de seguros deve se preparar para desembolsar os valores antes, ou seja, no intervalo de 30 anos, quando o segurado completar o máximo da expectativa de vida da tabela que apresentar a menor das duas expectativas. A ideia de serem seguidos esses raciocínios distintos para os casos de seguros de benefícios em vida e de indenizações por morte para os segurados tem um objetivo simples e claro: evitar problemas financeiros para as seguradoras no longo prazo, problemas esses que poderiam vir a gerar a quebra das empresas, caracterizada pela sua falência, o que prejudicaria não apenas determinado segurado em específico, quer seja de vida ou de morte, mas todos os segurados de uma empresa. Essas são as chamadas comutações de sobrevivência e as comutações de morte, as quais devem ser utilizadas de acordo com a referência de cada empresa de seguros. No Brasil, quem exerce a regulamentação específica dessas empresas são a Superintendência de Seguros Privados (Susep) e o Conselho Nacional de Seguros Privados (CNSP), organismos governamentais muito claros em relação aos procedimentos que adotam. Saiba Mais 17 Os death bonds são títulos associados a seguros de vida, mas em que os titulares podem receber a indenização ainda em vida. Sim, isso existe e pode ser visto com mais detalhes no artigo Uma análise econômico-atuarial dos death bonds publicado pela Revista Brasileira de Economia (Carvalho; Afonso, 2012). Não deixe de ler! TROCANDO IDEIAS As tábuas de referência sempre foram a base para a definição das indenizações dos seguros, tanto os ligados à morte quanto os ligados à entrega de benefícios ainda em vida, como é o caso da previdência privada. Pensando exclusivamente na criação das tabelas, os dados que as compõem são todos ligados a nascimentos, mortes e às quantidades de ocorrências associadas a tais fatores. Com base nesses pressupostos de operacionalização, deixe seu comentário em um fórum que trata sobre o seguinte assunto: você acha justo que, além dos dados de nascimento e morte de determinada população, outros fatores sejam utilizados pelas seguradoras para definir quem paga mais ou menos para contratar um seguro de vida? Deixe seus comentários com justificativas para que todos possam ver o seu posicionamento sobre essa questão. NA PRÁTICA A confecção e a utilização das tábuas de mortalidade e de vida fazem parte da rotina de qualquer empresa de seguros. No entanto, a sua gestão é um processo complicado, pois a expectativa de vida das sociedades, principalmente das mais desenvolvidas, está em constante aumento. Países como o Japão, por exemplo, possuem altíssima expectativa de vida, fazendo com que as seguradoras tenham sérios problemas no momento de negociar um seguro de benefícios previdenciários em países como aquele. No Brasil, embora a expectativa de vida seja menor, por uma série de fatores, ainda assim não para de aumentar, ano após ano, pela evolução tecnológica e pela maior preocupação em deixar os níveis de qualidade de vida mais elevados. Mesmo assim, as empresas de seguros são rentáveis no Brasil e têm atraído grandes corporações internacionais para investimentos em terras 18 nacionais. Com base nessa situação mais ampla, quais são os aspectos que devem ser considerados por uma empresa para aventar a possibilidade de colocação de novos produtos no mercado? Um exemplo é a inserção de novas modalidades de previdência privada, como é o caso da renda vitalícia, da renda temporária, da renda temporária com herdeiros etc. Passos para a resolução do problema Devemos ter informações atualizadas sobre o mercado em que pretendemos entrar ou aumentar nossa participação. Em locais com altos índices de roubos e furtos residenciais, por exemplo, normalmente não se oferece seguro residencial como bônus para os segurados. Isso já é mais comum em locais com menor incidência daqueles sinistros. Da mesma forma, a indivíduos que exercem certas atividades profissionais não são vendidos seguros de acidentes profissionais ou de responsabilidade civil, o que diminui os riscos assumidos pelas seguradoras. Essa prática efetivamente possui o potencial de aumentar os ganhos das seguradoras, tornando os seus negócios mais viáveis, no longo prazo. Resolução do problema Além do uso das tábuas de mortalidade, é imprescindível trabalharmos com dados estatísticos atualizados de saúde, segurança pública, saneamento básico etc. Todas essas informações contribuem para que as empresas de seguros possam identificar os seus potenciais de maneira mais ampla, tornando as suas atividades viáveis e os preços dos prêmios praticados, mais justos. A ideia de oferecer apenas serviços mais interessantes para as próprias seguradoras é uma estratégia de mercado. Assim como lojas de departamentos não vendem casacos e jaquetas em locais geograficamente mais quentes, as seguradoras também não oferecerão alguns tipos de seguros para algumas parcelas da população, e a identificação dessas situações é de inteira responsabilidade das próprias empresas de seguros. FINALIZANDO Conseguiu identificar o quão importante é saber conteúdos de caráter estatístico e matemático, na área atuarial? Agora você sabe o quanto a 19 expectativa de vida influencia os gastos que você precisa ter para garantir uma boa aposentadoria. Além de conhecimentos específicos atuariais, conseguimos identificar um conjunto de fatores, mesmo não atuariais, que fazem uma enorme diferença nas vidas de todos os indivíduos, pois podem proporcionar que a velhice das pessoas sejamais tranquila ou mais penosa. Viu como a estatística e a matemática, não necessariamente, são conhecimentos que nunca serão aplicados em nossas vidas cotidianas? Agora que você já tem tais conhecimentos, use-os de maneira sábia, tanto de maneira teórica quanto prática! 20 REFERÊNCIAS ALAN, C. Mundo atuarial: versão 4 minutos. YouTube, 12 ago. 2014. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=eueBvhn2eUs>. Acesso em: 29 maio 2018. AZEVEDO, G. H. W. de. Matemática financeira e atuarial: noções aplicadas ao seguro. Rio de Janeiro: Funenseg, 2005. _____. Seguros, matemática atuarial e financeira. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. BRASIL. Decreto n. 66.408 de 3 de abril de 1970. Dispõe sobre a regulamentação do exercício da profissão de Atuário, de acordo com o Decreto- Lei nº 806, de 4 de setembro de 1969. Diário Oficial da União, Brasília, p. 2.537, 6 abr. 1970. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/1970- 1979/d66408.htm>. Acesso em: 29 maio 2018. CARVALHO, J. V. de F.; AFONSO, L. E. Uma análise econômico-atuarial dos death bonds. Revista Brasileira de Economia, Rio de Janeiro, v. 66, n. 2, p. 187-206, abr./jun. 2012. Disponível em: <http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/rbe/article/download/3589/2652>. Acesso em: 29 maio 2018. CASTRO, L. G. de. Nota técnica sobre a metodologia adotada pelo Ministério da Previdência Social na extrapolação das tábuas de mortalidade IBGE para as idades acima de 80 anos. Ministério da Previdência Social: site institucional, Brasília, 1 jun. 2015. 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São Paulo: Roncarati, 2010. PUTY, C. A. C. B.; GENTIL, D. L. (Org.). A Previdência Social em 2060: as inconsistências do modelo de projeção atuarial do governo brasileiro. Brasília: Anfip; Dieese; Plataforma Política Social, 2017. Disponível em: <https://www.dieese.org.br/evento/2017/aPrevidenciaSocialEm2016.pdf>. Acesso em: 29 maio 2018. SECRETARIA DE PREVIDÊNCIA. Ministério da Fazenda. Aposentadoria: tábua de mortalidade do IBGE altera cálculo do fator previdenciário. Brasília, 1 dez. 2016. Disponível em: < http://www.previdencia.gov.br/2016/12/aposentadoria-tabua-de-mortalidade-do- ibge-altera-calculo-do-fator-previdenciario/>. Acesso em: 29 maio 2018. SILVA, A. Contabilidade e análise econômico-financeira de seguradoras. São Paulo: Atlas, 1999. VILANOVA, W. Matemática atuarial. São Paulo: Pioneira, 1969. INTRODUÇÃO A ATUARIAL AULA 5 Prof. Michael Dias Correa 2 CONVERSA INICIAL Nas nossas vidas sempre estamos preocupados com o futuro. Seja o próprio futuro, seja o futuro da família e dos amigos. É normal que nos preocupemos com o que acontecerá em 10, 20 ou 30 anos a partir da data presente. No entanto, não podemos nos esquecer de que devemos trabalhar no "hoje", mesmo que com um objetivo maior no "amanhã". Parte desse trabalho nos dias atuais passa pela assinatura de contratos de seguro, os quais transferem riscos pessoais para empresas seguradoras, garantindo a tranquilidade dos segurados e dos seus parentes a partir do momento presente. Sejam seguros individuais, sejam coletivos, os seguros de pessoas são largamente comercializados em todo o país e devemos saber os detalhes sobre eles para evitar que erros em sua contratação sejam cometidos. CONTEXTUALIZANDO Não importa a sua idade, com certeza você já fez parte de alguma apólice de seguro, mesmo que indiretamente. Por que eu escrevi que "com certeza"? Você já esteve coberto por um seguro desde que você nasceu? A resposta a essa pergunta é relativamente simples. O Brasil é um dos únicos países no mundo em que existe um seguro para pessoas obrigatório, que é o seguro veicular, conhecido como DPVAT. Ele garante a cobertura contra morte, invalidez, entre outros aspectos, de todos os passageiros de um veículo, que tenham realizado o pagamento ou não, pois recai sobre o proprietário e faz a cobertura de todos os passageiros. Dessa forma, foi escrito com certeza logo na primeira linha, pois é quase certo que você tenha saído do hospital em que você nasceu dentro de um veículo, sem contar aqueles casos mais raros em que a pessoa já nasce dentro de um veículo a caminho do hospital. Pode-se dizer que essa pessoa já nasceu segurada! O raciocínio é esse e nos acompanha durante toda a nossa vida. Devemos sempre estar segurados. Fazemos isso instintivamente, pois se estudamos para uma prova, estamos fazendo um "seguro de aprovação", pois é muito improvável que quem estuda para uma prova não passe. 3 Com nossos bens e nossa vida, podemos pensar igual: se eu contratar um seguro para garantir minha renda, é como se eu estivesse estudando para fazer uma prova. O "estudar" é o processo de montagem da reserva financeira e a "prova" é a aposentadoria, considerando a garantia de rendas, ou a indenização em caso de morte, no caso do seguro de vida. Agora, vem a pergunta que não quer calar: você já começou a "estudar" para a sua "prova" da vida? Não corra o risco de ser "reprovado", pense no futuro hoje. TEMA 1 – CÁLCULO DE SEGURO DOTAL O seguro dotal, conforme o próprio nome indica, está relacionado a dote e possui a característica de ser um produto mesclado de vida com previdência, o que aumenta sua visibilidade. Vamos estudá-lo neste tema. 1.1 Características e cobertura básica O seguro dotal está relacionado ao pagamento de um valor, o qual é chamado de dote, para o caso de um segurado sobreviver durante um período determinado de anos. O que ocorre, na prática, é que os segurados formam um grupo, que é o fundo dotal, pagando um prêmio único e, no período de anos determinado no contrato, as pessoas passam a receber a quantia acordada como seguro. Esse seguro não é um seguro de vida nem é um seguro de previdência; é uma mistura dos dois. Ele é uma alternativa para os segurados que querem manter todos os itens securitários em apenas um instrumento, sem a necessidade de ter duas preocupações distintas: vida e previdência. Por se tratar de um tipo de seguro com maior nível de sofisticação, acaba sendo voltado para um público-alvo mais direcionado. Também chamado de seguro dotal puro, ele prevê a garantia de indenização caso o segurado siga vivo. Por exemplo, uma pessoa faz a contratação quando tem 30 anos de idade de tal apólice por 30 anos. No momento em que completar 60 anos de idade, retira todo o dinheiro acordado no contrato. Mas se o segurado vier a falecer antes de completar os 60 anos de idade, o montante fica com a empresa seguradora. 4 O seguro dotal é diferente do seguro dotal misto, o qual será visto mais adiante e, por não oferecer qualquer benefício no caso da morte prematura do segurado, possui valores de prêmio inferiores, o que atrai muitos interessados em contratar tal segurança. O seguro dotal também pode ser contratado na modalidadecriança, ou seja, um responsável pode contratar para um filho com o objetivo de garantir os estudos ou qualquer outro suporte financeiro que julgar necessário. Nesse caso, o benefício é recebido pela criança quando o contrato chegar ao fim. A diferença entre o dotal puro é que mesmo que o titular da apólice tiver falecido ou apresentar invalidez permanente durante o período de vigência da apólice, a criança ainda sim fará jus ao recebimento do valor ao final do período. Planos como o seguro dotal puro são sempre comercializados pelas empresas seguradoras como produtos de benefício definido. Embora possa ter um terceiro definido como beneficiário, caracteriza-se como um seguro individual, avaliando características únicas do beneficiário que o contratar. Saiba mais Para entender um pouco mais sobre o seguro de vida resgatável, o qual tem dote relativo ao seu momento de resgate, assista ao vídeo a seguir. O QUE é Seguro de Vida Resgatável. FranklinSeg Corretora de Seguros, 17 nov. 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=b8FgdWyNDWY>. Acesso em: 3jul. 2018. 1.2 Como se calcula o valor do seguro dotal Conforme foi visto no tema anterior, o seguro dotal possui a característica de fornecer um dote para a pessoa segurada apenas em caso de sobrevivência após o período do seguro. Para que seja calculado o valor do seguro, deve-se formar um grupo de pessoas com interesses idênticos e que paguem um prêmio único e puro. Esse prêmio único e puro estará vinculado à apólice e estabelecerá o momento em que as pessoas seguradas receberão a quantia acordada. Do ponto de vista da empresa seguradora, alguns procedimentos são necessários para que se possa calcular corretamente o valor do seguro dotal. Vamos conferi- los com um pouco mais de detalhes a partir de agora. 5 Inicialmente, as empresas seguradoras devem igualar as receitas e as despesas previstas para o contrato todo, considerando todos os integrantes do grupo formado. É necessário que seja trazida para uma data inicial, chamada de data focal zero, sendo descapitalizado o valor segurado tantos anos quanto forem os estabelecidos na apólice. Exemplificando: se foi combinado que em 25 anos seria paga a quantia de R$ 300 mil para cada segurado componente do grupo que forma o seguro dotal, esse valor deve ser descapitalizado os mesmos 25 anos, ou seja, trazido para a data atual. Para isso, deve ser utilizada uma tábua de comutação válida para ser considerada a taxa de juros correspondente à valorização esperada até o fim dos 25 anos. Se nessa situação a tábua de comutação identificar uma taxa de juros de 5% anuais, deve ser descapitalizado o valor total de R$ 300 mil por 25 anos a uma taxa de juros anuais de 5%. O seguro dotal possui uma série de vertentes e essa forma de cálculo apresenta a situação de um segurado que tenha optado por receber todos os recursos ao final da vigência da apólice e exclusivamente na situação de ter sobrevivido ao tempo. Mas há casos em que uma pessoa pode pagar um prêmio para receber determinado valor de maneira vitalícia ou por intervalo predeterminado de tempo. Por exemplo, pode ficar acordado que o recebimento será apenas durante 10 ou 20 anos a partir do momento do início do direito aos recebimentos, não havendo recebimento integral. No entanto, tais circunstâncias não são consideradas seguros dotais puros, mas serão analisadas ainda nesta aula. Saiba mais Atualmente, há vários seguros de vida resgatáveis no mercado brasileiro. Leia, no texto a seguir, algumas explicações adicionais sobre a importância e o funcionamento dele. NIGRO, T. O que é e como funciona o seguro de vida resgatável? 25 out. 2016. Disponível em: <http://oprimorico.com.br/seguros/o-que-e-como- funciona-seguro-de-vida-resgatavel>. Acesso em: 3 jul. 2018. 6 TEMA 2 – CÁLCULO DE RENDAS ANUAIS As rendas anuais têm feito cada vez mais parte dos planos dos brasileiros que pensam em manter o mesmo nível de vida durante a aposentadoria que tinham em seu período laboral. Mas nem todas as formas de obtenção de rendas anuais têm as mesmas características. Vamos verificar isso a partir de agora! 2.1 Tipos de rendas anuais As rendas anuais, de maneira adicional ao fato de proporcionarem renda para aqueles que se planejaram e fizeram suas economias financeiras durante o período laboral, possuem alguns tipos distintos, variando de acordo com as necessidades identificadas de cada indivíduo. Conceitualmente, elas podem ser definidas como imediatas ou diferidas, temporárias ou vitalícias e antecipadas ou postecipadas. O procedimento acaba sendo o mesmo realizado previamente para o seguro dotal, quando as receitas e as despesas são igualadas e os valores distintos de rendas anuais a serem oferecidos devem ser trazidos ao tempo presente, data chamada de data focal zero. Para cada tipo de renda anual escolhida pelo segurado, há um cálculo específico a ser realizado pela empresa de seguros. E a maneira correta de trazer os valores para a data focal zero, que é o tempo presente, é com a utilização de tábuas de comutação. Curiosidade O texto a seguir mostra com mais detalhes as maneiras de se utilizar as tabelas de comutação, chamadas CSO, para o cálculo dos benefícios. A título informativo, o próprio INSS utiliza esses dados para a definição de quanto cada trabalhador ganhará no momento em que se aposentar. BELTRÃO, K. I. et al. Tábuas de mortalidade no mercado brasileiro de seguros: uma comparação. Rio de Janeiro: IPEA, 2004. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/agencia/images/stories/PDFs/TDs/td_1047.pdf>. Acesso em: 3 jul. 2018. 7 2.2 Características e cálculos das rendas anuais Para se fazer os cálculos de rendas anuais, deve-se proceder ao controle dos fluxos de caixa referentes às rendas a serem concedidas, sejam elas vitalícias, constantes, antecipadas ou postecipadas. Vamos verificar as diferenças existentes entre os tipos de rendas e iniciaremos com a diferenciação entre as rendas antecipadas e as postecipadas. As primeiras são pagas no início de cada período em que o segurado faz jus aos valores; as postecipadas, no fim. Exemplificando: se um segurado fizer jus a um pagamento anual relativo a uma renda vitalícia ou não, ele deverá receber em janeiro de cada ano na modalidade antecipada e em dezembro de cada ano na modalidade postecipada. Isso influenciará nos valores a serem recebidos, pois as tábuas de comutação influenciarão nos direitos dos segurados. Nos contratos com recebimento antecipado, não há a incidência dos juros no ano em que se recebe. Já nos postecipados, existe tal incidência, pois o recebimento apenas ocorre no fim de cada ano. Conceitualmente também podemos diferenciar as rendas temporárias e as vitalícias. Aqui o raciocínio é bem simples, pois as rendas vitalícias serão devidas aos segurados durante toda a vida deles e as temporárias apenas por um período previamente acordado entre as partes. Vamos exemplificar esse caso agora: imaginemos um segurado que, aos seus 30 anos de idade, resolve criar um seguro de rendas anuais para sua aposentadoria. Ele acorda com o banco pagamentos mensais com valores fixos reajustados pela inflação oficial e um pagamento anual variável de acordo com a disponibilidade do segurado. A empresa seguradora oferece duas modalidades de pagamentos depois do momento da aposentadoria, também hipoteticamente definido como sendo quando o segurado completasse 65 anos de idade. A primeira é a renda vitalícia, em que o segurado receberá uma quantia mensal até a sua morte, sofrendo um reajuste anual de acordo com a inflação oficial ou outra taxa acordada. A segunda alternativa é definir uma renda a ser paga mensalmente, mas por um período fixo, que pode ser 10 anos, 20 anos ou outro período de interesse do segurado. 8 O que fica fácilde ser identificado é que, no caso da renda vitalícia, o pagamento mensal terá valores inferiores aos previstos para o período temporário, pois a expectativa de vida aos 65 anos pode ser superior à situação temporária, pensando no período de 10 anos, em que os pagamentos terminarão aos 75 anos do segurado. Na segunda situação, com 20 anos, talvez não haja muita diferença, pois a expectativa de vida ficará muito próxima dos 85 anos, o que faz com que muitos segurados optem pela renda vitalícia. O raciocínio utilizado pelos segurados faz muita lógica, pois caso eles não cheguem aos 85 anos, garantem uma renda vitalícia, embora percam alguns recursos pelo fato de não terem utilizado na integralidade, mas se eles ultrapassarem a expectativa de vida, ou seja, extrapolarem os 85 anos de idade, garantem a renda enquanto permanecerem vivos. Fica muito claro o conceito de seguro, pois se transfere o risco de o segurado passar da idade média geral da população, mas o benefício para a empresa seguradora é a ausência de necessidade de pagamentos no caso de morte antes do período médio esperado de vida. Embora haja situações em que os segurados podem transferir os benefícios temporários para herdeiros, a regra é que cessem os pagamentos. Essa última situação naturalmente gerará mais custos para os segurados, mas não é contratada de maneira obrigatória. Saiba mais Os seguros contratados, como também é o caso da previdência privada, ajudam financeiramente os segurados e ainda facilitam em termos práticos por evitarem a necessidade de levantamento de inventário de bens quando o titular falece. Veja no vídeo a seguir uma explicação sobre esse assunto! PREVIDÊNCIA privada é boa opção para o planejamento sucessório? Exame.com, 21 nov. 2017. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=5dR08EKYHFc>. Acesso em: 3 jul. 2018. TEMA 3 – CÁLCULO DE SEGUROS EM CASO DE MORTE E SEGURO DOTAL MISTO Na primeira parte desta aula, foram vistos aspectos sobre os seguros dotais, estabelecendo regras e formas de cálculo nas situações em que havia a 9 sobrevivência dos segurados, não representando a morte deles uma situação que obrigasse as empresas seguradoras a realizarem indenizações. A partir deste momento, veremos as situações em que a morte obriga as seguradoras a indenizarem as pessoas seguradas. 3.1 Seguros em caso de morte Para falarmos de maneira mais genérica e serem consideradas praticamente todas as situações sobre os seguros em caso de morte, tomaremos como base o chamado seguro vida inteira. De maneira geral, os cálculos são idênticos aos casos anteriores, pois as receitas devem ser igualadas às despesas. O que se torna distinto dos casos já vistos é que, no que se refere às despesas, o valor a ser considerado será o de mortos, e não o de vivos. As indenizações são pagas pelas empresas seguradoras quando finalizar cada ano, o que ocasiona uma defasagem entre a data efetiva da morte e o momento do recebimento por parte dos beneficiários das apólices, podendo ser de quase um ano. Exemplificando, se um segurado vier a falecer durante o mês de janeiro, serão necessários mais de 11 meses até que o beneficiário possa receber a indenização correspondente. Para os seguros de morte, além do seguro contra morte vitalício, chamado de seguro vida inteira, há o seguro vida inteira diferido, o seguro temporário imediato e o seguro temporário diferido. Vamos ver um exemplo considerando cada um dos tipos de seguros apresentados neste parágrafo dentro de uma situação hipotética de pagamentos e eventos de morte e recebimentos de indenizações. Imaginemos uma pessoa de 35 anos que contrate um seguro de morte, com o objetivo de assegurar a importância de R$ 200 mil. Não entraremos nos detalhes dos cálculos, mesmo porque o objetivo da disciplina não é a realização de cálculos, mas sim a comparação dos valores e a compreensão das suas diferenças. No caso do seguro vida inteira, o valor do prêmio único puro será de R$ 30.914,30. Pensando em uma situação alternativa, com o seguro iniciando aos 55 anos do segurado, que é o seguro morte vida inteira diferido, o valor do prêmio será de R$ 19.942,60. Se analisarmos essas duas situações, as empresas seguradoras cobram valores menores para o segundo caso, pois o período de cobertura é maior e se o segurado vier a falecer antes de completar 10 os 55 anos de idade a família recebe a importância segurada na forma de indenização no momento do falecimento do segurado. Já o seguro contra morte temporário imediato será analisado como se permanecesse vigente até os 55 anos do segurado, gerando uma necessidade de pagamento de prêmio no valor de R$ 10.971,70 e, por fim, o seguro contra morte temporário diferido, vigente desde o momento em que o segurado completar os 55 anos de idade até completar os 70 anos. Para essa última situação o valor do prêmio será de R$ 14.415,75. Analisando esses dois últimos contratos de seguro, o último prêmio pago deve ser maior que o penúltimo, pois é muito mais provável que alguém morra entre 55 e 75 anos do que entre 35 e 55 e a indenização a ser paga pela seguradora ao beneficiário sempre é baseada nos valores pagos como prêmio de seguro. Saiba mais O vídeo a seguir mostra o caso de um seguro de vida temporário, além da probabilidade de morte, evidenciando os cálculos passo a passo. SEGURO de Vida Temporário e Probabilidade de Morte - Khan Academy em português (12º ano). Khan Academy em Português de Portugal, 18 out. 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=EihIR-nFF2k>. Acesso em: 3 jul. 2018. 3.2 Seguro dotal misto O seguro dotal misto, por ser uma mescla de vários tipos diferentes de seguro, considera tanto a possibilidade de morte quanto de vida. Os beneficiários de um seguro desse tipo garantem o recebimento dos valores segurados quer seja permanecendo vivo durante o período de vigência da apólice ou vindo a falecer. Na última hipótese, a família é quem recebe os referidos valores. Fica líquido e certo que a empresa seguradora terá a ocorrência de uma despesa, pois, no caso do falecimento, a família recebe e caso sobreviva é o próprio segurado quem fará jus aos valores. Em termos práticos, o seguro dotal misto é uma mistura de seguro contra morte temporário e seguro dotal. Os segurados buscam vigências que variam de 5 até 30 anos, sendo 20 anos o período mais procurado. Comumente chamado de seguro misto, as empresas seguradoras o chamam de dotal. 11 Vamos imaginar uma pessoa com seus 40 anos completos e que deseje cobertura de seguro até completar 60 anos de idade no caso de falecimento e, na situação de sobreviver, que seja devida a importância combinada de R$ 200 mil. Para tanto, o valor do prêmio devido pelo segurado será de R$ 68.410,50. O uso das tábuas de vida e de morte por parte das empresas seguradoras tem várias intenções. Tanto para a situação de sobrevivência quanto de morte do segurado, as seguradoras sempre devem se manter prudentes com relação às finanças, aumentando a rentabilidade sempre que possível, mas principalmente evitando a insolvência financeira dela. A explicação disso está ligada ao fato de que os prêmios recebidos pelas seguradoras são referentes aos valores presentes das anuidades e das indenizações devidas, ambos multiplicados pelas probabilidades de sobrevivência ou de morte, respectivamente especificadas nas tábuas. Quando uma tábua possui maior expectativa de vida, acarretará em maior sobrevida por parte dos segurados, o que gera mais valores arrecadados a título de prêmio no que se refere a anuidades. Por outro lado, se uma tábua apresentar uma expectativa de vida reduzida, com maior probabilidade de morte, isso também permitirá a cobrança de valores mais elevados de prêmios quando se tratar de seguro de vida. Curiosidade Pensando em quanto se pagade prêmio de seguro, as mulheres pagam mais valores de anuidades do que homens pelo simples fato de elas viverem mais do que os homens na média. O texto indicado apresenta com mais detalhes algumas das razões que fazem a sobrevida das mulheres ser maior que a dos homens. ROBSON, D. Que motivos fazem as mulheres viverem mais que os homens? BBC Future, 5 out. 2015. Disponível em: <http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/10/151005_vert_fut_longevi dade_sexos_ml>. Acesso em: 3 jul. 2018. TEMA 4 – CÁLCULO DE SEGURO DE VIDA EM GRUPO Desde o início de nossas aulas, apenas nos preocupamos com os seguros individuais, seja do ponto de vista de sobrevida, seja de morte. A partir de agora, 12 passaremos a analisá-los sob o ponto de vista coletivo, ou seja, considerando um grupo de segurados, e não apenas um único indivíduo. Vamos começar! 4.1 Conceitos do seguro de vida em grupo Como o foco neste ponto do nosso conteúdo é tratar dos seguros de vida em grupo, vamos verificar alguns itens importantes do ponto de vista conceitual. O primeiro conceito é o de estipulante, que não existia antes, quando os contratos de seguros apenas tinham o objetivo de oferecer garantias individuais. O estipulante pode ser pessoa física ou jurídica responsável pela contratação da apólice de seguro coletiva junto às seguradoras, além de ter plenos poderes para representar o conjunto de segurados junto às empresas seguradoras nos assuntos que tiverem relação com a apólice em questão. O conceito de garantia básica continua muito ligado aos contratos de seguros individuais, referindo-se à garantia de pagamento do capital do seguro ao beneficiário definido na apólice, na situação em que ocorrer a morte do titular da apólice. As garantias adicionais já são mais direcionadas aos seguros em grupo, pois existem de acordo com as necessidades identificadas pelo estipulante, devendo abranger todo o grupo de segurados e para qualquer tipo de seguro contratado, seja por morte, seja por invalidez. Garantias suplementares são distintas e específicas, permitindo o beneficiamento de cônjuge e filhos como recebedores de recursos em caso de morte do segurado. Por fim, a taxa média pura é a razão matemática existente entre o prêmio total puro, pago pelos segurados, e o capital segurado total, oferecido pela empresa seguradora. Essas taxas têm valores fixos de acordo com o objetivo a que se referem. Para indenização especial por morte acidental, o valor é de 0,08% para invalidez permanente total ou parcial por acidente; o valor é de 0,05% para invalidez permanente total por doença é de 15%. Curiosidade Todas essas coberturas vistas são apresentadas na forma de siglas aos segurados, o que podem confundir no momento da assinatura e da discussão dos detalhes e coberturas das apólices. Esse artigo apresenta uma situação de Santa Catarina em que uma juíza determinou que todas 13 as siglas fossem esclarecidas aos futuros segurados. Uma ótima decisão para os consumidores, que normalmente são a parte mais fraca das relações comerciais, mesmo nas que envolvem as operações com seguros. PERDIDO em um cipoal de siglas, segurado busca e obtém amparo na Justiça. Jus. Estadual, 11 dez. 2012. Disponível em: <http://www.tribunadodireito.com.br/noticias- detalhes.php?codNoticia=5611&q=Perdido+em+um+cipoal+de+siglas%2C +segurado+busca+e+obt%E9m+amparo+na+Justi%E7a>. Acesso em: 3 jul. 2017. 4.2 Cálculos do seguro de vida em grupo Embora tenhamos todos os conceitos distintos, alguns apenas utilizados para os contratos de seguros de vida em grupo, é importante também que verifiquemos alguns valores médios calculados para esta modalidade de seguro, que traz mais robustez prática aos conhecimentos adquiridos. Vamos verificar um exemplo, agora, adaptado de Azevedo (2005). Imaginemos a situação de uma empresa que deseja contratar um seguro de vida em grupo para todos os funcionários registrados em sua folha de pagamento. Para tal, ela especificou os detalhes que devem constar no contrato final a ser firmado junto à empresa seguradora, que são o capital segurado como garantia básica no valor de 10 vezes o salário mensal de cada empregado. Também solicitou a garantia adicional IEA (indenização especial de morte por acidente), cujo capital segurado representa 1,5 vezes o valor da garantia básica. Há também a solicitação para a garantia adicional IPA (invalidez permanente total ou parcial por acidente), com capital segurado correspondente ao dobro da garantia básica. Como despesas e encargos contratuais, foi definida corretagem de 5%, pró-labore no valor de 4%, despesas operacionais e administrativas de 4% e custos ligados à publicidade na ordem de 2%. Os juros anuais foram definidos arbitrariamente e em comum acordo entre as partes em 6%. Considerando todas essas variáveis, qual deverá ser o valor do prêmio a ser pago pela empresa? Os valores pagos serão mensais e as características dos funcionários são apresentadas na tabela a seguir. 14 Tabela 1 – Características dos funcionários Idade Probabilidade de morte Quantidade de funcionários Salários 25 0,1608 30 200,00 30 0,1775 40 400,00 40 0,2942 15 600,00 50 0,6933 10 1.000,00 Fonte: Adaptado de Azevedo, 2005. Para os funcionários de 25 anos, o capital segurado individual é de R$ 2 mil; para os de 30 anos, R$ 4 mil; para os de 40 anos, R$ 6 mil; e para os funcionários de 50 anos, de R$ 10 mil. De acordo com a quantidade de funcionários em cada idade, define-se o capital segurado total de acordo com o que está na tabela a seguir. Tabela 2 – Capital segurado total Idade Quantidade de funcionários Capital segurado Capital segurado total 25 30 2.000,00 60.000,00 30 40 4.000,00 160.000,00 40 15 6.000,00 90.000,00 50 10 10.000,00 100.000,00 Fonte: Adaptado de Azevedo, 2005. Para a empresa de seguros, o valor do prêmio a ser obtido deve ser calculado pelo produto da probabilidade de morte com o capital segurado total. De acordo com cada grupo de funcionários separados por idade, os que têm 25 anos gerarão prêmio mensal de R$ 9,65, os de 30 anos gerarão prêmio de R$ 28,40, os de 40 anos, prêmio de R$ 26,48 e, por fim, os de 50 anos vão pagar prêmio de R$ 69,33. Facilmente podemos perceber que, em decorrência da probabilidade de morte dos mais velhos ser maior, isso faz com que os valores pagos a título de prêmio por parte da empresa contratante sejam maiores para eles. Considerando todas as despesas adicionais especificadas no início do exemplo apresentado e os valores obtidos no parágrafo anterior, o valor total a ser pago a título de prêmio total para que todos os funcionários permaneçam segurados é de R$ 245,92 por mês. Saiba mais 15 Você sabia que o seguro de vida em grupo é tão completo que pode até mesmo cobrir casos de morte em caso de suicídio? Há algumas condições que devem ser consideradas, uma espécie de carência, mas, sim, isso pode ocorrer. Veja no vídeo mais detalhes sobre os seguros de vida em grupo. GARANTIAS do seguro de vida em grupo. Penteado Mendonça e Char Advocacia. 2 fev. 2016. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=hfuHxxgURAg>. Acesso em: 3 jul. 2018. TEMA 5 – CÁLCULO DE RENDAS SUBANUAIS As rendas subanuais são formas de renda tidas como mais próximas da realidade dos brasileiros medianos, aqueles que não possuem tanto conhecimento financeiro assim, mas não deixa de ter a necessidade de assistência financeira, seja por seguro, seja por previdência. Vamos ver agora o funcionamento das rendas subanuais. 5.1 Funcionamento de rendas subanuais Anteriormente, não somente nesta aula, mas nas outras aulas que já passamos, os procedimentos relativos aos cálculos das rendas anuais foram analisados de acordo com cada procedimento específico. O mais comum e mais fácil de se compreender é que os cálculos sejam realizadoscom base em tábuas de morte e elas são consideradas ano após ano dentro da realidade das pessoas seguradas. Só que as nossas necessidades como pessoas em relação a rendas e recebimento de seguros se dão em prazos menores, isso porque as necessidades financeiras ocorrem diariamente e é muito mais fácil considerarmos recebimentos de rendas em periodicidades menores, normalmente em intervalo mensal entre um recebimento e outro. Tornou-se necessário, então, transformar tal renda, antes anual, em valores pagáveis em intervalos menores dentro de um mesmo ano. Há de se considerar, é claro, o efeito exponencial dos juros nos pagamentos, pois são parcelas de juros compostos que atualizam o capital e não o juro linear, sempre com a mesma base como referência. 16 Outro fator que pode dificultar nos cálculos de rendas subanuais é o fato de que há valores supostos de mortes totais em um ano nas tábuas, mas não se discute se as mortes ocorrem mais no início, no meio ou no fim de cada ano. É óbvio que não há um mês preferível para deixar de viver nem estatisticamente tido como o mais perigoso ou o menos provável de se morrer. O fato é que, para efeitos de possibilitar os cálculos dos valores das rendas devidas, presume-se que as mortes ocorrem de maneira linear durante um ano, ou seja, se há 120 mortes durante um ano qualquer, é admitido que ocorrem, na média, 10 mortes por mês. Já podemos identificar que não basta simplesmente tomar uma renda anual como referência, por exemplo, uma renda de R$ 24.000 anuais e dividi-la por 12, encontrando R$ 2.000 mensais devidos ao segurado. Devem ser consideradas as duas formas de análise, a exponencial e a linear, para que se encontre a medida mais correta para uma renda subanual mensal, por exemplo. Neste momento da aula, apenas nos preocuparemos com as rendas antecipadas, ou seja, pagas no início de cada período, pois não há atividade laboral que justifique o "merecimento" da renda. A título de exemplo, vamos verificar o caso de uma pessoa que tenha 50 anos de idade e que deseje uma renda mensal de R$ 20 mil. A obtenção de tal renda deve ser dada com a aquisição de um seguro específico para rendas ofertado por uma empresa seguradora. Vamos analisar sempre com base mensal e na metodologia de renda antecipada. O caso mais comum será o primeiro a ser visto por nós, em que a renda é imediata e vitalícia. Na sequência, veremos a renda vitalícia, mas diferida por 10 anos. O terceiro caso será de uma renda temporária por 20 anos e imediata e o último caso será de uma renda temporária de 20 anos, mas diferida por 10 anos. No primeiro caso, considerando apenas um cálculo relativamente simples, pois a renda é vitalícia, é necessário que o prêmio a ser pago pelo segurado seja de R$ 2.871.812,06. Esse valor pode ser oferecido para a empresa seguradora de uma única vez no momento da obtenção da renda ou pode ser acumulado durante a vida laboral do segurado, seja em previdência privada, seja em qualquer modalidade de investimento que vise à aposentadoria. O segundo caso já tem um pouco mais de pontos a serem considerados no cálculo, pois há um diferimento de 10 anos na renda vitalícia obtida pelo 17 segurado. Essas situações normalmente ocorrem quando o segurado resolve continuar trabalhando por mais um período de tempo antes de iniciar os recebimentos efetivos provenientes da empresa seguradora. De qualquer forma, considerando a mesma renda de R$ 20 mil a ser obtida, mas agora com o diferimento, serão necessários R$ 1.133.264,66 em recursos aportados e disponibilizados para a empresa seguradora. O terceiro caso a ser analisado corresponde à renda temporária por 20 anos. Nessa situação, o segurado garante o recebimento durante todo o período considerado, ou seja, até completar os 70 anos de vida, desde que tenha posto à disposição da empresa de seguros o montante de R$ 2.535.703,18. Note que o valor é muito parecido com o valor que deve ser posto à disposição da empresa seguradora como prêmio no caso da renda subanual vitalícia. Isso porque, de acordo com a expectativa de vida, aos 50 anos e com uma renda de 20 anos, a seguradora cessará os pagamentos em um período muito próximo do estimado para a morte do segurado. De qualquer forma, é mais comum que os segurados optem por garantir rendas vitalícias, pois quando se extrapola a expectativa de vida, eles continuam recebendo. No caso de a renda subanual ser temporária, não haverá qualquer recebimento para o segurado após os 70 anos de idade, estando ele vivo ou não. No último caso a ser analisado, há o caso da renda temporária por 20 anos e diferida por 10 anos. Como o período de recebimento efetivo por parte do segurado ocorrerá apenas nos últimos 10 anos de vigência, os valores de prêmio também ficam reduzidos se comparados com o caso anterior. Serão necessários serem entregues à empresa seguradora a título de prêmio de seguro a quantia de R$ 1.075.076,72, os quais garantirão o recebimento de R$ 20 mil a partir dos 60 anos de idade até os 70 anos. É fácil verificar a similaridade com o segundo caso apresentado, em que a renda mensal era vitalícia, pois a expectativa de vida está muito próxima ao fim dos pagamentos por parte da seguradora, que é a idade de 70 anos. Mas por que as pessoas têm tanta preferência por receberem rendas vitalícias, mesmo sabendo que podem vir a falecer antes e terem os seus direitos cessados repentinamente? O que ocorre, na prática, é que as pessoas não estão muito interessadas no que perderão caso venham a falecer antes das previsões constantes das tábuas de mortalidade. O que elas querem é garantir que, 18 enquanto estiverem vivas, terão garantidos qualidade de vida e suporte financeiro. Mesmo que precisem trabalhar um pouco mais durante o período de diferimento, torna-se uma prioridade a garantia da renda "enquanto se respirar", conforme alguns segurados costumam dizer. A justificativa de muitos deles é que, vivendo 5 anos ou 20 anos recebendo as rendas subanuais e vindo a falecer, em nenhum momento ele passará por dificuldades financeiras, haja vista que sua renda é pelo tempo em que ele permanecer vivo. Se ocorrer a eventualidade de falecer de maneira prematura em relação às predições das tábuas de morte, é mais aconselhável que se pague um seguro de vida para que os parentes e outros herdeiros não sejam prejudicados financeiramente. Afinal de contas, a reserva constituída para a manutenção da renda subanual do segurado provavelmente só pode ser constituída com a ajuda e o suporte financeiro de todos os componentes da família, sendo eles herdeiros diretos ou não. Há também a alternativa de a renda temporária ser transferida para um beneficiário, que pode ser herdeiro ou não, mas o ajuste de tais condições deve ser acertado previamente com a empresa seguradora, o que pode acarretar pagamentos adicionais a título de prêmio único. Saiba mais A previdência privada oferece a alternativa de ser resgatado o valor total acumulado durante a vida laboral ou a alternativa de renda vitalícia ou temporária, conforme o interesse de cada segurado. Esse texto mostra alguns valores que devem ser poupados e as rendas obtidas, além de fornecer alguns detalhes sobre esse dilema que pode influenciar em sua qualidade de vida na velhice. Confira! COUTINHO, E. Previdência privada: resgatar ou ter renda mensal vitalícia? 2 set. 2015. Disponível em: <https://educandoseubolso.blog.br/2015/09/02/previdencia-privada-o-que- compensa-mais-resgatar-ou-ter-renda-mensal-vitalicia/>. Acesso em: 3 jul. 2018. 19 TROCANDO IDEIAS Terminamos de ver que existe uma infinidade de seguros para pessoas, garantindo diversas situações que ocorrem em nossas vidas. Considerando exclusivamente os seguros de rendas, apresente seu posicionamento sobre a melhor opção na hora de definiruma renda durante a aposentadoria: se temporária ou vitalícia. Apresente não apenas a sua escolha, mas as razões que levaram você a realizar tal escolha. NA PRÁTICA Com a clara intenção de garantir a tranquilidade financeira dos herdeiros, você começou a estudar quais seriam as atitudes mais prudentes que precisariam ser tomadas e assegurassem, no caso de sua eventual ausência não programada por morte, que todos não teriam problemas financeiros maiores dentro de sua família. Os objetivos eram os mais distintos: garantia de educação para os filhos menores, habitação e gastos rotineiros para o cônjuge. Também poderia simplesmente ser uma reserva financeira que permitisse a tomada de decisões com mais tranquilidade por quem ficasse. Dentre as diversas possibilidades de garantia de patrimônio, você acabou se direcionando para os seguros de pessoas, mais focados na situação de ausência por motivo de morte de quem fosse o titular da apólice. Aponte qual é a forma de escolher a melhor opção (ou conjunto de melhores opções) para alcançar o objetivo de garantir a tranquilidade financeira de sua família. Passos para a resolução do problema Primeiramente, deve ser identificado o perfil de gastos da família, além das idades dos filhos e o nível de educação e empregabilidade do cônjuge. Tudo isso influencia diretamente na escolha a ser feita, pois se os filhos forem muito novos, ou seja, ainda estiverem frequentando até o ensino médio, o raciocínio deverá ser um. No caso de os filhos já estarem em idade universitária, deve-se pensar de maneira distinta, pois é bem provável que o cônjuge já esteja mais próximo da aposentadoria. 20 O perfil familiar é muito importante, pois ele influencia diretamente nos produtos a serem contratados junto a empresas seguradoras. Resolução do problema Inicialmente, deve ser contratado um seguro de vida que garanta suporte financeiro aos filhos e ao cônjuge no caso de morte não esperada. Esse seguro pode ser dotal misto, que também assegura recebimento no caso de sobrevida, o que excluiria a necessidade de contratação de plano de previdência. Alternativamente, pode ser buscado um seguro de rendas para que os herdeiros recebam os valores das rendas mensais durante a vida do titular e, em paralelo, um seguro de morte, garantindo recursos financeiros para os herdeiros quando o titular estiver ausente por morte. Neste último caso, os valores do seguro de vida podem ser menores, pois apenas necessitarão cobrir os gastos de três dos componentes familiares: os dois filhos e o cônjuge que permanecer vivo. No exemplo, a família tinha dois filhos e os valores contratados a título de seguro de vida também são influenciados pela estrutura de gastos domésticos e pela idade dos filhos. FINALIZANDO Falar em seguro de vida é algo que chega a parecer pesado, macabro, pois o plano todo é feito considerando uma realidade em que o titular da apólice de seguros não está mais presente. No entanto, é necessário ter frieza e encarar o fato de que ninguém é eterno e é muito natural pensar que a morte é uma realidade. Afinal de contas, é a única certeza que temos enquanto vivemos. Por isso, é necessário, além de planejamento, conhecimento sobre a temática atuarial, tão nebulosa não somente nos bancos universitários, mas também na cabeça dos brasileiros. 21 REFERÊNCIAS AZEVEDO, G. H. W. de. Matemática financeira e atuarial: noções aplicadas ao seguro. Rio de Janeiro: Funenseg, 2005. _____. de. Seguros, matemática atuarial e financeira. São Paulo: Saraiva, 2008. CONSENTINO, H. M.; COSTA, A. C. F. da; MOURA JÚNIOR, A. A. Matemática atuarial para administradores: seguro de pessoas. Série textos didáticos. Brasília: Escola Nacional de Seguros, 2016. GOLDBERG, I. Direito de Seguro e Resseguro. Série FGV Direito Rio. Rio de Janeiro: Forense, 2012. POLIDO, W. Contrato de Seguro. Novos Paradigmas. São Paulo: Roncarati, 2010. SILVA, A. Contabilidade e análise econômico-financeira de seguradoras. São Paulo: Atlas, 1999. VILANOVA, W. Matemática atuarial. São Paulo: Pioneira, 1969. INTRODUÇÃO A ATUARIAL AULA 6 Prof. Michael Dias Correa 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula nós trataremos sobre a norma legal de benefícios a empregados. É um pronunciamento técnico que versa sobre os benefícios concedidos a empregados no curto prazo e no longo prazo, os benefícios pós- emprego e os benefícios rescisórios. É importante que todos sejam devidamente conhecidos e diferenciados, pois apresentam similaridades práticas que podem confundir aqueles que não se aprofundarem no seu estudo. Dessa forma, vamos começar agora a ver esses conteúdos de grande importância para os controles empresariais e para a estrutura financeira das entidades. CONTEXTUALIZANDO Você sabe como uma empresa faz para diferenciar os benefícios de curto e de longo prazo pagos aos empregados? E os benefícios pós-emprego dos benefícios rescisórios? São ocorrências bem similares entre si, mas que precisam ser diferenciadas para cumprir as normas internacionais de contabilidade. O pronunciamento técnico do Comitê de Pronunciamentos Contábeis (CPC, 2009b) no 33 trata especificamente sobre esse assunto, abordando com detalhes cada operação, servindo de instrumento para a correta diferenciação entre elas. Na prática, todas as operações representam saídas de recursos financeiros das empresas para os empregados, mas não são tratadas contabilmente da mesma maneira, tendo cada uma sua maneira distinta de reconhecimento, mensuração e registro contábil. Você já ouviu falar de programa de demissão voluntária? Algumas empresas o utilizam e pagam aos seus empregados incentivos no momento da demissão. Aqui está um exemplo do tratamento diferenciado de uma mesma situação: a perda de emprego. Vamos ver juntos, nesta aula, todos os detalhes dessas operações. Vamos lá! 3 TEMA 1 – CPC 33: BENEFÍCIOS A EMPREGADOS, ASPECTOS NORMATIVOS E CONCEITUAIS Qualquer empresa busca se diferenciar, nos mercados em que atuam, não somente com o produto ou com o serviço que oferecem. A sua, provavelmente, também investe em concessão de benefícios como forma de incentivo aos funcionários. Mas, como isso é registrado segundo a estrutura contábil? E quais são as normatizações que devem ser seguidas para isso? É exatamente isso que nós veremos nesta aula a partir de agora, iniciando com os aspectos conceituais e normativos estabelecidos no pronunciamento CPC 33. Vamos lá! 1.1 Definições conceituais de benefícios a empregados O CPC 33 estabelece não somente a contabilização, mas também as formas com que devem ser divulgados os benefícios que são concedidos aos empregados. É necessário que a entidade reconheça um passivo no exato momento em que um empregado lhe presta um serviço em troca de benefícios que, de acordo com o contrato de trabalho, serão pagos em tempo futuro. Uma entidade também deve reconhecer uma despesa quando se utilizar de um benefício econômico que venha de um serviço recebido de um empregado, desde que realizado em troca de benefícios diretos a ele acordados. Ou seja, a sua empresa, por exemplo, deverá reconhecer a despesa no momento em que os serviços forem prestados. No entanto, se o pagamento for baseado em ações ou se o acordo tiver a previsão de pagamento futuro baseado em ações, não será objeto de análise do CPC 33 e, sim, do CPC 10, o qual trata especificamente dos pagamentos baseados em ações (CPC, 2010b). Da mesma forma, não se refere a demonstrações contábeis elaboradas pelos planos de benefícios a empregados ou por fundos de pensão e assemelhados. O CPC 33, de maneira bem direta, se aplica aos benefícios a empregados proporcionados por planos ou acordos formais entre a empresa e os empregados, que podemser indivíduos, grupos de empregados ou seus representantes legais. Isso significa dizer que, mesmo que você não tenha uma relação direta com a sua empresa, em termos de benefícios a serem recebidos, 4 uma instituição pode representá-lo, a qual pode ser um sindicato ou uma entidade de classe. As obrigações por parte das empresas também podem ser evidenciadas por acordos setoriais, quando tais acordos exijam a contribuição de planos adicionais, estatais, setoriais ou qualquer outro plano de benefícios a que você, como empregado, possa fazer jus. É comum que pensemos que os benefícios a empregados são, além do salário, as contribuições de seguridade social, assistência médica, auxílio- alimentação, auxílio-transporte e férias. Só que temos mais benefícios do que imaginamos. Há empresas que oferecem participação nos lucros e bônus de produtividade, assistência-moradia, veículos, subsídios para bens de consumo, tais como computadores, tablets e outros acessórios de informática. Também há os benefícios que apenas são apresentados a nós, como empregados, após o período laboral, como podem ser citados os benefícios de aposentadoria, seguro de vida e assistência médica mesmo sem que você necessite estar empregado. A aposentadoria com valor integral também é um benefício que pode ser oferecido aos empregados, pois a previdência social apenas garante o pagamento dos valores de pensões até o teto legal estabelecido. Por fim, há os benefícios de longo prazo, que são ausências remuneradas de longo prazo, como licenças sabáticas ou por tempo de serviço. Há empresas em que você trabalha por um período de 10 anos ininterruptos e elas oferecem um período de 6 meses de ausência remunerada, sem contar com as férias, já estabelecidas em lei. Também podem ser citados benefícios por invalidez de longo prazo, além dos benefícios concedidos a título de rescisão do contrato de trabalho. Com relação à amplitude do alcance dos benefícios a empregados, também serão considerados como tal os benefícios extensivos aos dependentes e que possam ser liquidados por pagamento direto ao empregado ou aos seus dependentes. Eventualmente, tal pagamento pode ser feito por um terceiro, como é o caso de uma empresa seguradora. Os diretores ou administradores são considerados, de acordo com os preceitos estabelecidos no CPC 33, como empregados, embora a legislação trabalhista os trate de maneira diferente. E os empregados serão considerados tanto os de tempo integral, parcial, casual ou temporário. 5 Nós precisamos ver outros conceitos para que, nos próximos momentos de nossa aula, nós possamos abordar com mais profundidade cada um deles. Vamos iniciar a verificação de tais conceitos? Os benefícios a empregados são compensações pagas pelos empregadores em troca de serviços que são prestados pelo empregado ou provenientes da rescisão do contrato de trabalho vigente. Os benefícios podem ser classificados de acordo com o prazo, tendo algumas distinções nesse sentido. Os benefícios de curto prazo, não entrando no cômputo os benefícios rescisórios, são os benefícios que serão liquidados, ou pelo menos se espera isso, em um período máximo de 12 meses a partir da confecção das demonstrações contábeis que apresentem a obrigação ligada ao serviço que foi prestado. Como exemplo, você pode tomar o seu salário como base ou os valores devidos por férias e por décimo-terceiro salário. Os benefícios pós-emprego não podem ser classificados como de curto prazo nem como rescisórios e devem ser pagos logo após o período de emprego efetivo, normalmente com periodicidade máxima de um ano. Se a sua empresa tiver a política de pagar participação nos resultados, normalmente você receberá esses valores no momento da rescisão do seu contrato de trabalho. Há outros benefícios de longo prazo, sendo assim classificados todos aqueles que não sejam de curto prazo, pós-emprego ou rescisórios. Os últimos são os benefícios rescisórios, sendo devidos aos empregados em decorrência da interrupção do contrato de trabalho, que pode ocorrer por iniciativa do empregador, por rescisão ou por iniciativa do empregado, aceitando uma oferta de benefícios em troca da rescisão do contrato de trabalho (CPC, 2009b). Outras classificações podem ser dadas aos benefícios, pensando exclusivamente no pós-emprego, os quais se originam de acordos formais ou informais em que as entidades empregadoras se comprometem a proporcionar benefícios, após o período de emprego, para um ou mais empregados. Há também os planos de contribuição definida, que são pós-emprego, em que uma entidade patrocinadora efetua pagamentos fixos a um terceiro, que normalmente é um fundo, representado por uma entidade separada. Os planos de benefício definido, por sua vez, também são pós-emprego, mas possuem características que os distinguem dos primeiros, os de contribuição definida. Os últimos a serem citados neste ponto da nossa aula são os chamados planos multiempregadores, sendo caracterizados por contribuição definida ou de 6 benefício definido, sem contar com a previdência social. A principal característica desses planos é que são formados por contribuições de diversas entidades patrocinadoras com controle acionário distinto e que utilizam os ativos formados para oferecer os benefícios aos empregados de mais de uma entidade patrocinadora. A partir de agora nós veremos com mais detalhes todos esses tipos de planos de benefícios a empregados, iniciando com os mais comumente vistos e conhecidos, que são os benefícios de curto prazo. Saiba Mais Você já tinha ouvido falar de benefício definido e contribuição definida? O vídeo Entendendo as modalidades dos planos previdenciários (2013) pode explicar melhor esses e outros conceitos. TEMA 2 – RECONHECIMENTO E MENSURAÇÃO DE BENEFÍCIOS A EMPREGADOS DE CURTO PRAZO Quando um empregado prestar serviços a uma entidade qualquer em determinado período contábil, ela deverá reconhecer os valores dos benefícios de curto prazo aos empregados de duas formas. Primeiro, como passivo, como uma obrigação que será liquidada em momento futuro; e, depois, como despesa, afetando o resultado do período. Mas, e se a entidade quiser incluir os valores como ativo? Você deve ficar ciente de que isso só poderá ocorrer se os pronunciamentos que tratam de estoques e de ativo imobilizado assim o permitirem. Neste Tema 2 nós vamos verificar os detalhes de todos os benefícios a empregados oferecidos e que possuam características de curto prazo. Vamos lá! 2.1 Licenças remuneradas de curto prazo As licenças remuneradas de curto prazo devem ser reconhecidas pelas entidades de forma cumulativa, quando o serviço prestado pelos empregados aumentar o seu direito a ausências remuneradas futuras; ou de forma não cumulativa, quando as ausências ocorrerem de maneira efetiva. As ausências remuneradas podem ter as mais diversas razões, entre elas feriados, doenças e 7 invalidez temporária de curto prazo, maternidade e paternidade, entre outras (CPC, 2009b). A título de exemplo, vamos verificar um caso de licença médica remunerada em uma empresa qualquer. Imaginemos que tal empresa oferece cinco dias anuais de licença médica remunerada, que, se não for utilizada em um ano, pode ser utilizada no ano seguinte. No último dia do ano 1, a média de dias de licença não utilizados é de dois dias por empregado. Com base em dados históricos, espera-se que essa tendência continue, sendo que noventa e dois empregados não tirariam mais do que cinco dias de licença médica no ano 2 e que apenas os oito empregados restantes tirariam uma média de seis dias e meio de licença, cada um. Como consequência, a entidade espera pagar um valor adicional referente a doze dias de auxílio-doença relativos ao período excedente da média de cada um dos oito empregados. Como a licençaé de cinco dias e eles tiraram seis dias e meio na média, cada um, o excedente é de um dia e meio para cada empregado, gerando tal obrigação para a entidade. Já as licenças remuneradas não cumulativas não possuem a prerrogativa de passarem de um período para outro e, no caso de desligamento dos empregados da entidade, não dão direito a recebimento de qualquer valor financeiro. Fica fácil para nós identificarmos essas situações em nossa realidade brasileira, pois se um homem ou uma mulher, na condição de empregados, permanecerem sem ter filhos durante todo o período em que o contrato de trabalho permanecer vigente, esse fator não gerará qualquer direito de recebimento futuro, em momento de demissão, pelo fato de não ter utilizado a licença-paternidade ou maternidade. Aqueles funcionários que tiverem usado a licença ganharam financeiramente os valores e poderão fazê-lo em momento futuro novamente, se tiverem mais filhos. Para os que não são pai nem mãe, não há qualquer direito financeiro previsto no momento da demissão, por conta de não terem utilizado tal benefício em forma de auxílio. Curiosidade Alguns órgãos governamentais buscam aumentar os direitos relativos à licença-maternidade para aumentar a qualidade de vida das mães e garantir a boa expectativa de vida do bebê. Por exemplo, a Prefeitura de Contagem, em 8 Minas Gerais, publicou em seu Diário Oficial matéria versando sobre a ampliação da licença-maternidade, cuja leitura recomendamos (Contagem, 2009). 2.2 Planos de participação nos lucros e bônus Nenhuma entidade é obrigada a pagar parcela dos lucros obtidos aos funcionários a título de bonificação adicional. No entanto, há muitas empresas que agem dessa forma, mas impondo algumas condições para que os funcionários tenham tal direito, ao fim de cada ano. É possível que você trabalhe ou conheça alguém que trabalhe em uma empresa que paga participação nos lucros, mas os empregados geralmente recebem tal parcela adicional se permanecerem na entidade com vínculo ativo durante um período estabelecido, que normalmente é o ano civil. Caso o empregado peça demissão antes do fim do ano-base, não fará jus a qualquer recebimento. No entanto, se a empresa o demitir, ele manterá o direito proporcional ao tempo trabalhado. Existem empresas que realizam os pagamentos de maneira proporcional, tal como ocorre com o décimo-terceiro salário. Exemplificando, se o empregado trabalhar na empresa de janeiro a junho e for desligado, fará jus à metade da participação que um empregado com mesmo salário, mas que tenha trabalhado todo o ano, receberá. Mas, fiquem cientes de que o pronunciamento não estabelece que nenhuma empresa é obrigada a realizar pagamentos referentes à participação nos lucros, o que só ocorre se a obrigação construtiva estiver formalizada. Vamos verificar um exemplo em que uma empresa tem a política de participação nos lucros apenas para os empregados que permanecerem durante todo o ano-base. De acordo com os termos apresentados pela empresa, se não houver desligamentos de empregados durante o ano em questão a empresa deverá realizar o pagamento de 3% de seu lucro líquido aos empregados. Com base no histórico de rotatividade de pessoal obtido junto ao setor de recursos humanos, estimou-se de maneira confiável que é prudente que seja esperado um pagamento de 2,5% do lucro líquido. Como consequência, a entidade deve registrar uma despesa e um passivo correspondentes a 2,5% do lucro líquido obtido no período-base. Os planos de participação nos lucros de uma empresa devem ser claros com relação à operacionalidade dos cálculos e das bases a serem utilizadas 9 para definição dos valores a serem pagos aos empregados, assim como se apenas os funcionários que ficarem durante todo o tempo como empregados farão jus a esses valores ou se haverá pagamento proporcional. Todos os valores pagos como participação nos lucros aos empregados devem ser reconhecidos como despesas do período para a empresa e não como distribuição de lucros, sendo o lucro líquido apenas utilizado como base para cálculo, não sendo deduzido de outros cálculos. Curiosidade Por se tratar de um ganho para os empregados, os valores de participação nos lucros estão sempre sendo analisados sob o ponto de vista tributário. O texto Participação nos lucros e resultados é obrigatória? Saiba tudo sobre o benefício (Soares, 2016) nos esclarece sobre essa temática, tão discutida entre os juristas e por profissionais da área tributária. TEMA 3 – RECONHECIMENTO E MENSURAÇÃO DE BENEFÍCIOS PÓS- EMPREGO Os planos de benefícios pós-emprego são definidos como acordos em que a entidade proporcione benefícios aos seus ex-empregados que envolvam ou não o estabelecimento de uma entidade separada de previdência para o recebimento dos aportes e pagamento dos benefícios, sejam essas entidades de previdência abertas ou fechadas. Nós vamos ver os dois tipos de planos, a partir de agora: os de contribuição definida e os de benefício definido. 3.1 Plano de contribuição definida Nesses planos a contribuição é direta, pois os montantes devidos pela patrocinadora em cada exercício são determinados pelas contribuições no mesmo período. Por ser simples e direto o seu cálculo, não há qualquer premissa atuarial regendo os recebíveis e não há necessidade de desconto de qualquer valor, a não ser que as obrigações não sejam liquidadas no prazo de 12 meses a partir do momento em que o serviço foi prestado pelos empregados. Então, já sabemos que o fluxo de caixa descontado, tábuas de morte, de vida ou qualquer outro instrumento atuarial são desnecessários para a definição dos valores. 10 Tendo o empregado prestado serviços durante determinado período, o reconhecimento da contrapartida gerada por esses serviços prestados, por parte da empresa, deve se constituir na forma de passivo. Caso já tenham sido adiantados valores durante o período e sobre algum crédito para a empresa, esses valores devem ser reconhecidos como despesas pagas antecipadamente no ativo, devendo ser compensadas em períodos futuros ou em forma de reembolso, dependendo de como esteja acertado com os empregados. O reconhecimento também pode ser realizado como despesa, desde que não seja componente de estoques ou de ativo imobilizado, os quais possuem pronunciamentos específicos. Por fim, se não forem liquidados os valores devidos em um intervalo de 12 meses, o próprio pronunciamento técnico CPC 33 estabelece, , em seu no item 83 , os critérios a serem utilizados para desconto dos valores (CPC, 2009b). Saiba Mais Outra forma de os empregados receberem benefícios é por meio dos fundos de pensão. Você sabe como eles funcionam? Se não sabe, o texto Fundos de pensão: o que são e como funcionam (Seabra, [2012?]) pode ajudá- lo não somente a compreender, mas também a verificar se ele é uma boa opção para você. Boa leitura! 3.2 Plano de benefício definido A contabilização e o reconhecimento dos planos de benefício definido são complexos, pois já são necessárias algumas premissas atuariais, diferentemente do plano que vimos anteriormente. Como consequência, abre-se margem para ganhos e perdas atuariais. Todas as obrigações geradas devem ser avaliadas em valor presente, pois existe a possibilidade de serem liquidadas apenas muitos anos após os empregados terem efetivamente prestado os serviços para as empresas. Esses planos não necessitam ter um fundo constituído, podendo ainda ser total ou parcialmente financiados por aportes da empresa e dos próprios empregados para a entidade gerenciadora ou o fundo escolhido pela entidade patrocinadora. Essa será a base para o pagamento dos benefícios aos empregados. Os pagamentos não dependem apenas da situação financeira e do desempenho do fundo, mas do interesse e da capacidade da patrocinadora de 11 cobrireventuais problemas financeiros do fundo. O que vemos é que a entidade patrocinadora acaba assumindo os riscos atuariais e de investimento do plano. O que também nos leva ao raciocínio de que as despesas efetivamente incorridas em decorrência do plano de benefício definido não serão obrigatoriamente os valores a serem pagos aos empregados, pois o desempenho financeiro do fundo também será uma variável considerada. Os planos de benefício definido são contabilizados de acordo com os passos que veremos a seguir: i) determinação de déficit ou de superávit; ii) determinação do valor líquido de passivo ou ativo de benefício definido no item i; iii) determinação dos valores que serão reconhecidos no resultado; iv) determinação das reavaliações dos valores líquidos para passivos ou ativos de benefícios definidos para serem transferidos a outros resultados abrangentes. No primeiro item, para que uma entidade determine se há superávit ou déficit, deve ser utilizada uma técnica atuarial ou outro critério para estimar o custo final, para a entidade, dos benefícios. Posteriormente, devem ser descontados o valor presente e os custos correspondentes. Por fim, deve ser deduzido o valor de ativos eventualmente existentes no plano para definição do valor presente da obrigação com benefício definido. O segundo item é a definição do valor líquido do passivo ou do ativo do benefício definido, ajustado sempre que houver alguma situação de teto de ativo alcançado, chamado de asset ceiling. No terceiro momento há o reconhecimento do custo corrente, de qualquer custo passado ou dos juros líquidos sobre o valor líquido. No último momento, os ganhos e perdas atuariais devem ser reavaliados, assim como o retorno sobre os ativos do plano e qualquer mudança que tenha ligação com o teto de ativo (asset ceiling). Curiosidade É provável que você saiba que os empregados de empresas privadas possuem regimes de previdência diferentes dos empregados do serviço público. O que provavelmente você não deve saber é sobre os detalhes dos planos de previdência dos empregados públicos. No texto Perguntas e respostas sobre 12 participante ativo alternativo (Funpresp, [201-]) você poderá saber como funciona a previdência dos empregados do setor público. TEMA 4 – RECONHECIMENTO E MENSURAÇÃO DE OUTROS BENEFÍCIOS DE LONGO PRAZO Não são apenas os benefícios de curto prazo que são considerados pela norma e que merecem preocupação e controles por parte das empresas. Os benefícios pagos aos empregados e que são classificados como de longo prazo também são tratados de maneira única, tudo especificado pelo pronunciamento técnico CPC 33 (CPC, 2009b). Vamos ver com detalhes esses benefícios, agora? 4.1 Aspectos práticos para outros benefícios A primeira condição para que um benefício a empregado seja considerado de longo prazo é que não tenha a expectativa de ser liquidado em até 12 meses. Após completada essa condição, devemos encarar as possibilidades de ocorrência, que são as seguintes: ausências de longo prazo, desde que remuneradas, como ocorre com as licenças por tempo de serviço ou licenças sabáticas; jubileus ou quaisquer benefícios decorrentes de tempo de serviço; benefícios associados à invalidez com prazo longo, entre outras remunerações oferecidas aos empregados, pelas empresas. Essas remunerações de longo prazo são diferentes das remunerações pós-emprego, principalmente no que se refere à incerteza presente nestas últimas. Dessa maneira, podemos identificar uma maior simplicidade no registro contábil dos benefícios, concedidos aos empregados, que tenham característica de longo prazo. Devemos ficar cientes de que não há qualquer necessidade de reavaliação dos valores devidos em outros resultados abrangentes, o que deixa todo o processo mais claro e objetivo. O reconhecimento e a mensuração dos benefícios de longo prazo a empregados devem seguir as mesmas premissas dos benefícios pós-emprego a empregados, assim como as definições para o valor justo devem ser as mesmas dos benefícios de curto prazo a empregados. 13 A empresa também deve reconhecer os valores líquidos no resultado dos custos dos serviços que foram prestados pelos empregados, dos juros líquidos sobre o valor das obrigações geradas e das remunerações do valor líquido de passivo, no caso de benefício definido. Esse raciocínio só não deve ser seguido nas situações em que houver outro pronunciamento técnico que verse especificamente sobre o tema, como é o caso dos valores monetários que vão compor os bens em estoque ou os ativos imobilizados das entidades. Há outro benefício de longo prazo aos empregados, que é a chamada invalidez de longo prazo. Para o caso de o benefício estar atrelado ao tempo de serviço prestado, a obrigação deve surgir no momento da prestação de serviço. Além disso, tal obrigação deve refletir a probabilidade de o pagamento poder ser exigido e o tempo em que o pagamento for feito. Pode acontecer de o benefício ser idêntico para os empregados considerados inválidos, não importando o tempo de serviço que tenham prestado. Quando isso ocorrer, o custo esperado dos benefícios será reconhecido quando o evento que gerar o benefício de longo prazo decorrente da invalidez ocorrer. O pronunciamento técnico CPC 33 (CPC, 2009b) não exige divulgações específicas sobre outros benefícios de longo prazo concedidos aos empregados, mas existem outros pronunciamentos técnicos específicos que podem exigir essas divulgações, como são os casos do pronunciamento técnico CPC 05 (CPC, 2010a), que trata da divulgação sobre partes relacionadas e pode solicitar divulgação de benefícios para os administradores de uma entidade. Nesse caso, os gestores são considerados como empregados. Esse último pronunciamento técnico, que versa sobre a apresentação das demonstrações contábeis, especifica os detalhes sobre a divulgações dos benefícios concedidos a empregados na forma de despesas, pelas demonstrações financeiras. Curiosidade Muitas empresas promovem um intervalo de tempo chamado de período sabático, para seus funcionários. É claro que nem todos os funcionários têm tal direito. Normalmente ele é destinado apenas aos ocupantes de cargos mais altos na hierarquia, mas é uma alternativa viável para reciclagem profissional e aumento do comprometimento desses funcionários com a própria empresa. É uma espécie de período de descanso, de reflexão, em que o empregado passa a se dedicar a si mesmo para depois voltar mais confiante e comprometido 14 à empresa. No vídeo Período sabático (Lima, 2017) há mais informações a respeito. TEMA 5 – RECONHECIMENTO E MENSURAÇÃO DE BENEFÍCIOS RESCISÓRIOS Os benefícios rescisórios são tratados no pronunciamento técnico CPC 33 de maneira distinta dos outros benefícios concedidos a empregados, pois o seu evento gerador é distinto. No caso de benefícios rescisórios, estes são resultantes da decisão da entidade de rescindir o contrato de trabalho vigente ou da decisão do empregado de aceitar uma oferta de benefícios da empresa em troca da rescisão do contrato de trabalho, nos chamados planos de demissão voluntária, ambos não tendo qualquer relação com a prestação de serviço em si, que é o fato gerador de todos os outros benefícios concedidos a empregados (CPC, 2009b). A partir de agora nós vamos ver os últimos tipos de benefícios a empregados: os rescisórios. Pois então, vamos lá! 5.1 Aspectos conceituais e práticos dos benefícios rescisórios Inicialmente, deve ficar claro que os benefícios rescisórios não incluem em seu escopo aqueles benefícios, devidos aos empregados, provenientes da rescisão do contrato de trabalho a pedido do empregado e sem uma oferta formal da entidade empregadora ou como consequência da aposentadoria compulsória, pois esses dois exemplos se tratam de benefícios pós-emprego. Existemempresas que oferecem benefícios menores, quando o empregado pede a rescisão do contrato de trabalho, quando comparados com a rescisão do mesmo contrato de trabalho sendo realizada pela própria entidade empregadora. A diferença monetária existente entre o primeiro benefício, que é um benefício pós-emprego, e o benefício maior, oferecido pela empresa quando ela promove a rescisão, é chamada de benefícios rescisórios. Vamos exemplificar: um empregado prestou serviços a determinada empresa, continuamente, pelos últimos cinco anos. Se ele viesse a pedir demissão, ou seja, se solicitasse a rescisão do contrato de trabalho contra a vontade da empresa, faria jus a uma parcela de R$ 50 mil. No entanto, caso a empresa ofereça uma proposta de bônus por demissão voluntária no valor de R$ 15 80 mil, naquele mesmo momento, por qualquer razão, a parcela devida de benefícios rescisórios é de R$ 30 mil, sendo constituída pela diferença entre o que seria recebido pelo funcionário no benefício pós-emprego, R$ 50 mil, e o valor da demissão voluntária, de R$ 80 mil. De maneira geral, os benefícios concedidos aos funcionários não estão ligados à rescisão do contrato de trabalho ou a serviços prestados por eles, sendo predominantemente parcelas pagas de uma única vez. De acordo com o pronunciamento técnico CPC 33 (CPC, 2009b), uma entidade deve efetuar o reconhecimento da despesa e do correspondente passivo relativo aos benefícios rescisórios na primeira situação a ocorrer, das duas apresentadas a seguir: 1. quando não for mais possível para a entidade empregadora o cancelamento dos benefícios ofertados; 2. quando houver o reconhecimento, por parte da entidade, dos custos de reestruturação previstos no pronunciamento técnico CPC 25, que trata especificamente de provisões, passivos contingentes e ativos contingentes e que envolvam o pagamento de benefícios rescisórios (CPC, 2009a). Você já deve ter ouvido falar dos planos de demissão voluntária, comumente oferecidos por empresas que desejam se reestruturar e ofertam tais benefícios para alguns funcionários. Há um momento em que as entidades ofertantes não podem mais efetuar o cancelamento das propostas de demissão voluntária e esse momento também é considerado o primeiro entre os dois apresentados a seguir: 1. no momento em que o empregado aceita a oferta; 2. no momento em que uma restrição impede a entidade de realizar o cancelamento da oferta. Essas exigências podem ser legais, regulatórias ou contratuais. Ainda de acordo com o pronunciamento técnico CPC 33 (CPC, 2009b), uma entidade deve mensurar os benefícios rescisórios com base no reconhecimento que tiver sido previamente realizado, fazendo valer quaisquer mudanças posteriores, de acordo com cada benefício concedido aos empregados e tendo como base que os benefícios rescisórios são uma melhoria dos benefícios pós-emprego. 16 A título de exemplo, vamos analisar a seguinte situação hipotética: determinada empresa foi adquirida por outra e, como política de aquisição, terá uma de suas unidades fabris desativada em futuro próximo. O prazo comunicado aos funcionários para que isso ocorra é de 10 meses e, ao fim de tal período, todos os funcionários terão os contratos de trabalho rescindidos. Não é intenção da empresa que todos os funcionários se desliguem da empresa imediatamente, pois ela ainda necessita do conhecimento que eles possuem sobre as operações para o total cumprimento de contratos vigentes com clientes. Dessa forma, a empresa anuncia que possui um plano de rescisão para todos os funcionários, com alguns termos simples. Vamos a eles: 1. todo funcionário que permanecer até o fim das operações da fábrica receberá o pagamento em dinheiro de R$ 30 mil; 2. todo funcionário que solicitar desligamento antes do encerramento das operações da fábrica receberá o pagamento em dinheiro e de forma não parcelada de R$ 10 mil. Ao todo, a fábrica a ser fechada possui o total de 120 funcionários e os diretores supõem que 20 funcionários solicitarão desligamento antes do encerramento das operações. Com isso, já projetam as saídas futuras de caixa, que estão assim evidenciadas: (20 funcionários x R$ 10 mil) + (100 funcionários x R$ 30 mil) = R$ 3,2 milhões. Sendo assim, os benefícios rescisórios são devidos em função da rescisão dos contratos de trabalho e os benefícios de curto prazo são devidos em troca de serviços prestados. Como será em 10 meses o fechamento da empresa e todos os funcionários terão os seus contratos de trabalho rescindidos, deve-se analisar com mais profundidade a situação. Independentemente de saírem antes ou não do encerramento das atividades da empresa, todos os funcionários terão os contratos rescindidos, o que dá um benefício rescisório de R$ 10 mil para cada. Como são 120 funcionários, a entidade deve reconhecer o total de R$ 1,2 milhão como benefícios rescisórios. Todo o restante será considerado como benefícios de curto prazo, pois serão devidos aos funcionários conforme eles permanecerem prestando serviços para a empresa até o encerramento de suas atividades, durante os próximos 10 meses. A diferença de R$ 2 milhões será reconhecida ao longo dos 10 meses imediatamente anteriores ao encerramento das atividades 17 operacionais da empresa de maneira linear, na proporção de R$ 200 mil por mês, representando o reconhecimento da despesa e o consequente passivo devido aos funcionários, a ser liquidado no momento do efetivo encerramento das atividades operacionais da empresa. Complementando, não há necessidade de se realizar divulgação específica sobre os pagamentos relativos aos benefícios rescisórios, embora outros pronunciamentos técnicos possam exigir tal divulgação de maneira mandatória. Saiba Mais Você sabia que o Banco Central do Brasil (Bacen) obrigou todas as instituições financeiras brasileiras, sem exceção, a realizarem divulgação de suas informações pertinentes aos benefícios praticados junto aos seus empregados? Isso serve para pequenas, médias e grandes empresas do setor e está regulamentado pela Resolução Bacen no 4.424 de 25 de junho de 2015 (Bacen, 2015). TROCANDO IDEIAS Quando um contrato de trabalho é finalizado, do ponto de vista do funcionário, não existe diferença: o dinheiro apenas entra de uma vez só na sua conta-corrente e ele recebe uma espécie de relatório especificando os detalhes sobre os valores, nada mais do que isso. No entanto, para as empresas, embora os valores também tenham saído de um mesmo caixa, os registros na contabilidade devem ser distintos. Dessa forma, apresente a sua sugestão sobre como os controles dos registros podem ser melhorados de forma que os valores pagos a título de extinção do contrato de trabalho possam ser segregados. Não se esqueça de que há os benefícios de curto e de longo prazo, os benefícios pós-emprego e os benefícios rescisórios. NA PRÁTICA Vamos imaginar que você seja o responsável por uma das 20 unidades fabris de determinada empresa. Sua função é descobrir novos mercados e novas estratégias de mercado. Com a experiência de alguns anos em sua função, você 18 conseguiu identificar que a planta produtiva pela qual você é o responsável não oferece mais o rendimento mínimo necessário que a diretoria demanda. Mesmo após ajustes produtivos, treinamento de funcionários e inserção de novos itens no mix de produção, a viabilidade da planta produtiva foi atestada como abaixo do esperado, pelos membros da diretoria-geral. De posse dessa informação, você já sabe que terá que se desfazer não somente da estrutura física, mas também dos funcionários produtivos, sendo realocados apenas os supervisores e gestores. Ao todo serão 80 funcionários dispensados nos próximos 2 anos, período em que a empresa ainda possui contratos vigentes com alguns clientes importantes. Os diretores repassama informação de que os funcionários que permanecerem durante todo o período serão beneficiados com o valor de R$ 50 mil adicionais no momento da rescisão contratual. Já aqueles que ficarem nos 12 primeiros meses terão a bonificação reduzida para R$ 20 mil, na rescisão, e aqueles que optarem pela rescisão imediata do contrato de trabalho ganharão o valor de R$ 5 mil. A empresa espera que 60% dos funcionários fiquem até o fim dos 2 anos, 30% fiquem durante os 12 primeiros meses e o restante solicite a saída imediata. De posse dessas informações, identifique os registros que devem ser realizados, de acordo com a sua natureza (benefícios de curto prazo, de longo prazo e rescisórios), além do valor total por natureza e global a ser desembolsado pela empresa, com a demissão dos 80 funcionários. Passos para a resolução do problema Primeiramente, deve ser calculada a parcela financeira a ser paga aos funcionários que permanecerem durante os 2 anos e multiplicá-la por R$ 50 mil. Na sequência, proceder-se ao mesmo cálculo para os funcionários que permanecerem durante 12 meses e, por fim, ao mesmo cálculo para os funcionários que solicitarem desligamento imediato. Não podemos esquecer de que todos os funcionários terão a parcela rescisória, mas alguns terão benefícios de curto prazo a receber e outros terão benefícios de longo prazo a receber. 19 Resolução do problema Considerando-se os 80 funcionários, 60% deles são um total de 48, os quais receberão R$ 50 mil cada por ficarem até o fim das operações, totalizando, assim, R$ 2,4 milhões. Trinta por cento deles ficarão durante os 12 primeiros meses, perfazendo 24 funcionários, e receberão R$ 20 mil cada, totalizando R$ 480 mil. Os 8 funcionários que solicitarem desligamento imediato receberão cada um R$ 5 mil, totalizando R$ 40 mil. Dessa forma, o valor total a ser desembolsado pela empresa pelo encerramento das atividades é de R$ 2,92 milhões, mas ainda precisamos separar por tipo de benefício. Os 8 funcionários que pedirem demissão imediata receberão apenas o benefício rescisório (R$ 5 mil). Já os 24 funcionários que ficarem durante o primeiro ano receberão o benefício rescisório (R$ 10 mil) e o benefício de curto prazo (R$ 10 mil), totalizando assim R$ 20 mil cada. Por último, os funcionários que ficarem até o fim dos 2 últimos anos de operação ganharão o benefício rescisório (R$ 10 mil), o benefício de curto prazo (R$ 20 mil) e o benefício de longo prazo (R$ 20 mil). Os valores são distintos, pois o valor total pertinente aos funcionários que trabalharão durante 12 meses é de R$ 20 mil, sendo R$ 10 mil de rescisão e o restante de curto prazo. Já os funcionários que ficarão até o final receberão ao todo R$ 50 mil, sendo R$ 10 mil de benefício rescisório e o restante dividido em duas partes iguais, uma para o benefício de longo prazo e outra para o benefício de curto prazo, ambas de R$ 20 mil cada. Eis os cálculos detalhados: – benefício rescisório (por demissão de todos os funcionários): R$ 5 mil x 80 = R$ 400 mil; – benefício de longo prazo (pelo recebimento durante o segundo ano de trabalho): R$ 20 mil x 48 = R$ 960 mil; – benefício de curto prazo (pelo recebimento durante o primeiro ano de trabalho): (R$ 20 mil x 48) + (R$ 10 mil x 24) = R$ 1,2 milhão. Ao serem totalizados os valores de R$ 400 mil, de R$ 960 mil e de R$ 1,2 milhão, tem-se o total de R$ 2,56 milhões calculados anteriormente, mas aqui demonstrados por natureza de benefício concedido a cada funcionário. 20 FINALIZANDO Vimos nesta aula a importância de serem realizados registros corretos sobre os valores de benefícios pagos a empregados. Tais valores serão evidenciados nas demonstrações contábeis das empresas, mostrando as políticas de benefícios que praticam e também a forma como estão organizadas internamente, pois quanto mais fácil for a compreensão dos valores nas demonstrações, maior será o nível da qualidade informacional que elas prestarão. Não se faz a divulgação desse tipo de informação apenas porque a empresa deseja ter boa relação com a sociedade, mas porque existem regras específicas que as obrigam a fazê-lo. A regra é baseada no pronunciamento técnico CPC 33 (CPC, 2009b), o qual trata exclusivamente dos benefícios a empregados. 21 REFERÊNCIAS AZEVEDO, G. H. W. de. Matemática financeira e atuarial: noções aplicadas ao seguro. Rio de Janeiro: Funenseg, 2005. _____. Seguros, matemática atuarial e financeira. 1. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. BACEN – Banco Central do Brasil. Resolução n. 4.424, de 25 de junho de 2015. Dispõe sobre o registro contábil e a evidenciação de benefícios a empregados. 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