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ÉTICA GERAL E JURÍDICA Willian Gustavo Rodrigues Ética ambiental Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a importância da natureza para o homem. Conceituar antropocentrismo, ecocentrismo e deep ecology. Analisar o atual paradigma ambiental por meio do questionamento: atribuir direitos à natureza ou deveres aos homens? Introdução A ética ambiental começou a ser discutida em meados dos anos 1960, buscando ampliar o conceito de ética. Buscou, também, estabelecer uma relação intrínseca do indivíduo com a natureza, uma vez que a continuidade da espécie humana depende da manutenção de um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Nesse sentido, a ética busca retirar o homem do centro do entendimento, ou seja, as demais espécies não podem estar subordinadas à vontade humana, mas o homem deve estabelecer uma relação harmônica com a biodiversidade. Essa convi- vência saudável não busca cessar o progresso humano, mas fazê-lo se desenvolver de forma sustentável. Neste capítulo, você vai ler sobre a importância da natureza para o homem e conceituar antropocentrismo, ecocentrismo e deep ecology. Também vai analisar o atual paradigma ambiental por meio do questio- namento: atribuir direitos à natureza ou deveres aos homens? Importância da natureza para o indivíduo A necessidade de preservar o meio ambiente é intrínseca à capacidade de autopreservação da espécie humana. Não há como falarmos em vida humana sem abordar a preservação do meio ambiente. Os seres humanos só existem porque há natureza, uma vez que necessitamos dos animais e das plantas C06_Etica_ambiental.indd 1 24/05/2018 16:58:20 para nos alimentarmos, de água para beber, entre muitos outros exemplos que passam despercebidos no nosso cotidiano. Na história da investigação do pensamento, segundo Pessanha (1991), foi o filósofo francês René Descartes, no século XVII, que iniciou as bases do pensamento moderno, estabelecendo uma relação do homem com a na- tureza acima da perspectiva racional humana. Ou seja, a natureza não tem um dinamismo próprio, mas está condicionada a Deus. Portanto, estamos entregues à exploração da razão humana. Nesse sentido, a humanidade buscou estabelecer uma ordem de valores éticos e morais dentro da natureza, principalmente em meados dos anos 1960, a fim de debater a relação indivíduo versus natureza, uma vez que a simples organização dos indivíduos em sociedade já afetava o meio ambiente e a biodiversidade, que sofreu inúmeras modificações. Atualmente, a busca pelo desenvolvimento e progresso humano, culminando com o desenvolvimento das ciências, e o processo de racionalização dos meios produtivos levaram as sociedades a extraírem os recursos da natureza a fim de suprirem as suas demandas de consumo. O mito do progresso, visando à compreensão da dominação da natureza para a expansão e o progresso humanos, envolve formas que extrapolam o campo de investigação do pensamento, tendo em vista que não é possível o controle da natureza de forma absoluta, uma vez que colheitas, criação de animais e outras formas de extração de recursos naturais não podem ser determinadas com exatidão e os ciclos naturais nem sempre acontecem de forma previsível. Por isso, o modo como o indivíduo compreende a natureza e o seu uso e/ou destinação está intimamente relacionado à estruturação do modo de vida e produção de uma sociedade em determinado contexto temporal. A desmistificação do processo histórico da relação estabelecida entre os seres humanos e a natureza é de suma importância para o entendimento da forma intervencionista dos indivíduos na natureza. Nesse sentido, devemos diferenciar os fenômenos ambientais naturais catastróficos dos danos causados pela intervenção humana. Os fenômenos naturais são ações provocadas pela natureza, aparecendo de forma espontânea, Ética ambiental2 C06_Etica_ambiental.indd 2 24/05/2018 16:58:20 muitas vezes, de forma agressiva, que modificam o meio ambiente, provocando desastres ambientais. Já os fenômenos artificiais, causados pela interferência humana no meio ambiente, advêm da concepção de desenvolvimento tecnoló- gico e dos seus desdobramentos socioespaciais, provocando diversos desastres e catástrofes ambientais por ação humana. Podemos utilizar como exemplo um caso de grande repercussão no Brasil, conhecido como caso Samarco, em que uma das barragens da mineradora se rompeu, causando um grande desastre ambiental na cidade mineira de Mariana e atingindo inclusive outros estados. Os fenômenos artificiais estão atrelados diretamente ao mito do progresso, como já falamos, o que faz os problemas ambientais ganharem dimensão socioambiental, levando ao problema de sustentabilidade do planeta. Nesse sentido, Leff (2007, p. 61) nos explica: A problemática ambiental — a poluição e degradação do meio, a crise de recursos naturais, energéticos e de alimentos — surgiu, nas últimas décadas do século XX, como uma crise de civilização, questionando a racionalidade econômica e tecnológica dominantes. A degradação do meio ambiente está, dessa forma, ligada ao modo de produção capitalista, que sempre visa expandir a sua atuação, mesmo que custe sacrificar o meio ambiente, pois isso seria uma questão secundária no processo expansionista. Dessa forma, devemos buscar processos de gestão de recursos naturais dentro do sistema de produção capitalista. Leff (2007, p. 67) confirma essa concepção: Estes processos estão intimamente vinculados ao conhecimento das relações sociedade-natureza: não só associados a novos valores, mas a princípios epistemológicos e estratégias conceituais que orientam a construção de uma racionalidade produtiva sobre bases de sustentabilidade ecológica e de equi- dade social. Desta forma, a crise ambiental problematiza os paradigmas estabelecidos do conhecimento e demanda novas metodologias capazes de orientar um processo de reconstrução do saber que permita realizar uma análise integrada da realidade. Qualquer tentativa de levantar questões ambientais dentro do sistema capi- talista é vista pelos detentores dos meios de produção urbanos ou latifúndios rurais como um processo ideológico para buscar alternativas ou modificar o status quo existente. Nesse processo epistemológico, deve ser apresentada a contradição visando à sustentabilidade, pois, até mesmo para os donos do meio de produção, a degradação dos espaços socioambientais acarreta problemas, tendo em vista que os recursos naturais são finitos. 3Ética ambiental C06_Etica_ambiental.indd 3 24/05/2018 16:58:20 Essa contradição acaba por criar uma relação esquizofrênica na doutrina neoliberal. Mesmo que busquemos alternativas sustentáveis a toda a exploração ambiental, o impacto ainda será consideravelmente grande e, portanto, danoso. A ética busca questionar o limite dessa degradação, quais necessidades huma- nas devem ser suprimidas e se, de fato, existem ou é só uma falsa premissa, visando, de fato, apenas ao lucro. Tentando preservar o meio ambiente da melhor forma possível, esse debate chega ao âmbito do Direito. Nesse sentido, uma nova perspectiva do constitu- cionalismo na América Latina busca proteger o meio ambiente. Países como Bolívia e Equador positivaram o direito a um meio ambiente equilibrado como um direito fundamental a todos os indivíduos. Em 2009, a Bolívia implementou um mecanismo de proteção à natureza, conhecido como Lei da Mãe Terra ou Pachamama, que estabelece direitos para a natureza, incluindo o direito à vida, por exemplo. Ela garante que o País não seja afetado por projetos de desenvolvimento ou megaestruturas que afetam o equilíbrio do ecossistema e as comunidades locais. Dessa forma, a Constituição da Bolívia trabalha a concepção de direitos dos seres vivos humanos, não simplesmente seres humanos, referindo-se a uma visão me- nos antropocêntrica. O art. 33 da Constituição boliviana (BOLÍVIA, 2009, documento on-line)dispõe sobre o direito ao meio ambiente, garantindo um ambiente equilibrado com os demais seres vivos: Las personas tienen derecho a un medio ambiente saludable, protegido y equilibrado. El ejercicio de este derecho debe permitir a los individuos y colectividades de las presentes y futuras generaciones, además de otros seres vivos, desarrollarse de manera normal y permanente. Para saber mais acerca da proteção ambiental boliviana, leia: “Preservação ambiental e desenvolvimento econô- mico desafiam futuro presidente boliviano”. Disponível em: https://goo.gl/eo8TK7 A proteção de forma positivada dentro do ordenamento jurídico de qualquer sociedade faz a proteção do meio ambiente ganhar força normativa, como Ética ambiental4 C06_Etica_ambiental.indd 4 24/05/2018 16:58:21 ocorre na Constituição brasileira, que protege o direito a um meio ambiente ecologicamente equilibrado no art. 225 (BRASIL, 1988). A relação estabelecida entre indivíduo e natureza deve observar sempre a proteção à biodiversidade, uma vez que, sem ela, não existe vida humana, pois nós dependemos da natu- reza para tudo. Ademais, esse paradigma é extremamente difícil de alcançar dentro de um sistema capitalista voraz que não respeita o meio ambiente na busca pelo lucro, tendo em vista que as necessidades humanas não podem se colocar sobre a proteção ambiental. Caso se queira um desenvolvimento, ele deve, pelo menos, ser sustentável. Antropocentrismo, ecocentrismo e deep ecology A ética ambiental busca estabelecer uma relação harmônica entre os seres humanos e a natureza, tendo em vista garantir a sustentabilidade de todo o ecossistema. Ela procura substituir a antiga visão de antropocentrismo, fazendo os demais seres vivos não se colocarem de forma inferior aos seres humanos. Os indivíduos devem controlar a sua sede predatória, havendo uma substituição de senhor da natureza — em que ela simplesmente deve atender às suas vontades e aos seus anseios, suprindo as suas necessidades — para a natureza. Ao longo da história, os seres humanos constituíram o protagonismo do mundo e, assim, formaram as bases do conceito de antropocentrismo. Nele, a humanidade deve permanecer no centro do entendimento dos seres humanos. Assim, as relações devem ser analisadas para beneficiar a humanidade, de forma que todas as demais coisas, incluindo a natureza, devem existir apenas para servir a humanidade. Nessa visão adotada pela maior parte da filosofia ocidental, como Aristó- teles e São Tomás de Aquino, o homem ocupa o mais nobre lugar dentro da pirâmide, sendo que os vegetais estão na base. Estes servem aos animais, os quais servem aos humanos. Os homens estão em posição vantajosa aos outros seres devido à sua racionalidade, o que acabou por influenciar as bases do Direito Ocidental e, com ele, a concepção de que a natureza existe para servir aos seres humanos. A visão antropocêntrica possui as suas origens da tradição judaico-cristã, uma vez que, segundo essa tradição, o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus, com domínio sobre as demais espécies, tradição essa que domina principalmente o mundo ocidental, que é de maioria judaico-cristã. Assim, nessa visão antropocêntrica, o meio ambiente é protegido somente dentro dos ditames de proteção do indivíduo e da sua consciência, promo- 5Ética ambiental C06_Etica_ambiental.indd 5 24/05/2018 16:58:21 vendo uma visão utilitária do Direito Ambiental. Nesse sentido, todas as necessidades, interesses e valores buscam atender aos anseios humanos, e toda proteção contra a degradação do ecossistema tem por vítimas principais os indivíduos, pois limitaria a forma como poderão dispor da natureza. Tentando desvincular a visão antropocêntrica utilitarista, começaram a surgir novas visões ambientalistas e antagônicas, chamadas de ecocentrismo, buscando um antropocentrismo alargado ou não utilitarista por meio da ecologia profunda (deep ecology). O antropocentrismo alargado é uma visão menos radical em relação à visão antropo- cêntrica utilitarista, em que os indivíduos usam a natureza a seu bel-prazer. Apesar da visão antropocêntrica ainda ser o elemento majoritário na análise ambiental, já não é possível ignorar a natureza e os demais seres vivos, colocando-os como inferiores aos seres humanos. Esse também é o posicionamento dominante no ordenamento jurídico mundial e entre ambientalistas. Assim, a natureza tem o seu valor, mas o ser humano continua sendo o principal objeto de proteção das normas. A manutenção dos seres humanos no centro da proteção normativa não permite que a utilização dos recursos naturais e dos animais seja desmedida, sem qualquer preocupação moral e de forma desnecessária. A ideia se funda na necessidade humana de extrair os recursos ambientais e na capacidade da natureza de nos dar esses recursos. Essa ideia é norteada pelo princípio do desenvolvimento susten- tável e de um meio ambiente equilibrado, inclusive como direito fundamental. Podemos perceber essa visão dentro da Constituição Federal de 1988, art. 225, § 1º, VII, quando estabelece proteção à fauna e à flora, vedando as práticas que colo- quem em risco a sua função ecológica e a crueldade contra animais, o que mostra uma preocupação com a natureza, rompendo com o antropocentrismo utilitarista (BRASIL, 1988). Essa proteção ao meio ambiente não significa que a Constituição Federal confere direitos à natureza, uma vez que somente os seres humanos são sujeitos de direitos, como nos explica Érika Bechara (2003, p.72): Independentemente do título que se queira dar às correntes filosóficas que explicam a relação direitos-homem-natureza, somos do entendimento que os recursos naturais merecem a mais ampla proteção, mas não exatamente por Ética ambiental6 C06_Etica_ambiental.indd 6 24/05/2018 16:58:21 titularizarem esse direito, mas em virtude de exercerem um papel fundamental no funcionamento de todo o ecossistema e, principalmente, na obtenção da saúde, bem-estar (físico e psíquico) e dignidade da pessoa humana. Dessa forma, o antropocentrismo alargado busca um equilíbrio, uma igual- dade, entre os seres humanos e o meio ambiente, não significando que um se sobreponha ao outro, mas que haja uma harmonia entre eles para o bem-estar dos próprios seres humanos e a preservação do meio ambiente. Em contrapartida à ideia antropocêntrica, de forma mais radical, surge o ecocentrismo, uma concepção que se preocupa com a vida de forma ampla, não apenas ligada aos seres humanos, buscando a ecologia profunda. O ecocentrismo consiste em uma ética ecológica somada a uma ética da vida, independentemente dos seres humanos, uma vez que o mundo natural é anterior aos próprios seres humanos; nesse sentido, Leonardo Boff (2002, p. 97) defende a ideia de uma ética ecológica ou global: Age de tal maneira que tuas ações não sejam destrutivas da Casa Comum, a terra, e de tudo que nela vive e coexiste conosco [...] Age de tal maneira que permita que todas as coisas possam continuar a ser, a se reproduzir e a con- tinuar a evoluir conosco [...]. Age de tal maneira que tua ação seja benfazeja a todos os seres, especialmente aos vivos. O valor teleológico do ecocentrismo é a vida, uma vez que os valores bioéticos e os inerentes à vida passam pela intervenção humana na natureza, a ética da vida global, ou seja, a preocupação do ecocentrismo é a vida de forma ampla, não somente a vida humana, uma vez que todas as formas de vida possuem seu valor e não simplesmente uma finalidade para a vida humana. Dentro do ecocentrismo, há uma consciência ecológica que busca proteger o ecossistema com uma menor intervenção humana, havendo duas correntes ecológicas: a profunda e a superficial. A ecologia profunda (deep ecology) defende uma mudança de paradigma antropocentrista, bem como a redução do consumo e a produção de bens e serviços, devendo estar de acordo com a necessidade dos seres humanos e sem a perspectiva do lucro. Ela busca o respeito mútuo entreos seres vivos, não o protagonismo de forma egoísta dos seres humanos. Criada pelo filósofo norueguês Arne Naess (apud FURTADO, 2004), a deep ecology possui os seguintes princípios fundamentais: o bem-estar e o desenvolvimento da vida humana e não humana na Terra têm valor em si próprios (sinônimos: valor intrínseco, valor ine- 7Ética ambiental C06_Etica_ambiental.indd 7 24/05/2018 16:58:21 rente); esse valor é independente da utilidade do mundo não humano aos propósitos humanos; a riqueza e a diversidade das formas de vida contribuem para realização desse valor e são em si mesmas valores; os homens não têm o direito de reduzir essa riqueza e diversidade, exceto para satisfazer às necessidades vitais; o desenvolvimento da vida e das culturas humanas é compatível com uma redução substancial da população humana; o desenvolvimento da vida não humana exige essa redução; a atual interferência humana com o mundo não humano é excessiva, e a situação piora rapidamente; as políticas devem ser alteradas; essas políticas afetam as estruturas econômicas, tecnológicas e ideológicas básicas; o estado das coisas daí resultante será profundamente diferente do presente; a mudança ideológica é basicamente apreciar a qualidade de vida (resi- dindo em situações de valor inerente), em vez de aderir a um standard de vida cada vez mais alto; haverá uma consciência profunda da diferença entre grande e ótimo; aqueles que subscrevem os pontos anteriores têm, direta ou indireta- mente, a obrigação de tentar implementar as mudanças necessárias. A crítica sob a deep ecology consiste no argumento de que não seria possível atribuir valor intrínseco a outros seres vivos no mesmo patamar dos seres humanos, uma vez que esse radicalismo implicaria em mudanças econômicas sociais que, em tese, acabariam por retroceder a sociedade, isto é, ideologica- mente ela seria correta, mas se tornaria impraticável. Em contrapartida a essa teoria mais radical, há a ecologia rasa, uma cor- rente mais moderada, demonstrando um biocentrismo superficial. Ela adota os princípios da deep ecology, mas de forma mais ponderada, utilizando a concepção de que a natureza tem um valor intrínseco, mas é protegida por ela própria, ou seja, os seres humanos não estão no mesmo patamar que as plantas e os animais, uma vez que cada um tem valor próprio e, apesar de serem titulares de direitos, eles não se sobrepõem aos seres humanos, fazendo cada um ter o seu valor dentro da sua esfera de atuação. O ecocentrismo é uma realidade presente nas sociedades existentes e, se ainda não foi adaptado ou inserido no ordenamento jurídico dos países, devem ser observadas ponderações para um meio ambiente equilibrado. Ademais ele pode ser a base que estabelece novas concepções ao Direito, para novas formulações jurídicas a serem inseridas nas sociedades. Ética ambiental8 C06_Etica_ambiental.indd 8 24/05/2018 16:58:22 O atual paradigma ambiental: atribuir direitos à natureza ou deveres aos homens? Dentro da perspectiva de se atribuir uma ética ambiental e, com isso, uma preservação maior dos direitos ao meio ambiente equilibrado, há um confl ito de interesses que se coloca no centro da discussão: como existir um desen- volvimento que leve ao progresso humano se isso confl ita diretamente com a forma de se preservar o meio ambiente? Durante toda a história da humanidade, foi necessário explorar a natureza, buscando a extração das suas riquezas para suprir as necessidades humanas, como, por exemplo, a alimentação. Ocorre, porém, que, a partir da evolução humana, o que era feito na medida da necessidade humana passou a ser objeto para suprir o consumo demasiado humano, resultado principal de um aumento exponencial da população mundial. Dentro do pensamento antropocentrista utilitarista, os seres humanos se con- sideravam racionais o suficiente para usarem a natureza o quanto fosse possível, uma vez que saberiam os limites da natureza, visando à infinitude dos recursos naturais — uma atitude extremamente egoísta em relação aos demais seres vivos. É nessa perspectiva que surge o desenvolvimento sustentável, uma mu- dança no hábito dos seres humanos visando garantir a existência das futuras gerações, alinhando progresso humano e proteção ao meio ambiente, em um processo menos individualista e mais coletivo, harmonizando a existência humana com a dos demais seres vivos. A preservação ambiental se faz mais do que necessária para garantir a existência humana no futuro, uma vez que o planeta já sente os efeitos da degra- dação ambiental. A Figura 1 mostra o desmatamento da Amazônia no período de 1988 a 2013, que vem oscilando entre perdas da mata nativa e proteção. Figura 1. Desmatamento da Amazônia de 1988/2013. Fonte: Dados... (2013). 9Ética ambiental C06_Etica_ambiental.indd 9 24/05/2018 16:58:22 Nesse sentido, é necessária a inversão de paradigmas da vida em so- ciedade, como propõe a teoria do ecocentrismo, uma vez que os seres humanos devem assumir a responsabilidade enquanto agentes ativos para implementar ações que visem proteger o meio ambiente das próprias ações humanas, como, por exemplo, a educação ecológica, implementando valores na sociedade que, ao mesmo tempo que protejam a natureza, estimulem o não consumismo, para que os indivíduos consumam somente o neces- sário à vida humana, o que consequentemente desestimularia a produção exacerbante e traria várias consequências benéficas ao meio ambiente, como a diminuição do lixo. Nesse enfrentamento paradigmático, os direitos à natureza e os deveres aos seres humanos caminham de forma paralela, buscando uma solidariedade ambiental, uma vez que os seres humanos são responsáveis pela degradação ambiental, estabelecendo o binômio direito-dever, dentro do Estado Demo- crático de Direito. Ainda nesse paradigma, o Direito assenta nos ordenamentos jurídicos o meio ambiente como direito fundamental. Em 1972, a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano, em Estocolmo, discutiu a preservação ambiental e as irracionalidades de produção e consumo dos países desenvolvidos, com base em estudos que estabelecem que os recur- sos naturais são finitos. Ao final, apresentou alguns princípios ambientais (Manifesto Ambiental), estabelecendo as novas bases a serem aplicadas pela Organização das Nações Unidas (ONU) na preservação ambiental. Após a Conferência, vários países europeus inseriram a defesa ao meio ambiente em suas constituições, o que só ocorreu no Brasil, de forma efetiva, na Constituição Federal de 1988. A Constituição Federal de 1988 dedicou um capítulo inteiro à preservação do meio ambiente. É um dos capítulos mais avançados e modernos do mundo, segundo a doutrina, justificando-se pela necessidade de assegurar a vida, o bem mais fundamental da humanidade. A extensão do meio ambiente, enquanto direito fundamental, consiste justamente, segundo Benjamin (2011, p. 122-123), por: “a) estrutura normativa do artigo; b) força do § 2º, do art. 5º, da Constituição Federal de 1988; c) extensão material do direito à vida”. Ética ambiental10 C06_Etica_ambiental.indd 10 24/05/2018 16:58:22 Essa elevação do meio ambiente a um direito fundamental leva à deep ecology, havendo a mudança paradigmática de antropocentrismo para eco- centrismo, fazendo o meio ambiente não existir simplesmente para servir aos seres humanos. Em outras palavras, os seres humanos fazem parte da natureza e devem, portanto, respeitá-la. Essa visão ecocêntrica pode ser encontrada no plano constitucional tanto do Equador, promulgado em 2008, como da Bolívia, promulgado em 2009. No segundo, ela protege os direitos dos seres vivos humanos e não huma- nos, retirando por completo o homem do centro da proteção e colocando-o lado a lado com o meio ambiente. Nessa visão, afirma Wolmer e Fagundes (2011, p. 377-388): Assim, as novas constituições surgidas no âmbito da América Latina são do ponto de vista da filosofiajurídica, uma quebra ou ruptura com a antiga matriz eurocêntrica de pensar o Direito e o Estado para o continente, voltando-se, agora, para refundação das instituições, a transformação das ideias e dos instrumentos jurídicos em favor dos interesses e das culturas encobertas e violentamente apagadas da sua própria história; quiçá, observa-se um processo de descolonização do poder e da justiça. Essas duas Constituições, em especial, buscam proteger o multicultu- ralismo atrelado à proteção ambiental de forma a preservar o interesse das comunidades locais e o direito ao meio ambiente, em especial, o direito à natureza como um todo. Essa nova onda constitucionalista sul-americana busca o enfrentamento paradigmático entre direitos à natureza ou deveres dos seres humanos, a fim de demonstrar que a vida humana não necessita caminhar no sentido do desenvolvimento tecnológico e consumismo de um capitalismo desenfreado, passando por cima da natureza. Dessa forma, a harmonização dos seres humanos com a natureza busca garantir a própria existência humana. Não há como implicar direitos ao meio ambiente se os próprios seres humanos não possuírem uma visão ética na forma de se relacionar com a natureza. A harmonização consiste justamente na ideia do ecocentrismo ao preservar a vida, evoluindo a forma como os seres humanos se relacionam com a natureza e garantindo a existência das futuras gerações. 11Ética ambiental C06_Etica_ambiental.indd 11 24/05/2018 16:58:22 BECHARA, É. A proteção da fauna sob a ótica constitucional. São Paulo: Juarez de Oliveira, 2003. BENJAMIN, A. H. Constitucionalização do ambiente e ecologização da Constituição Brasileira. In: CANOTILHO, J.J. G.; LEITE, J. R. M. (Org.). Direito Constitucional Ambiental brasileiro. 4. ed. São Paulo: Saraiva, 2011. BOFF, L. Do iceberg à Arca de Noé: o nascimento de uma ética planetária. Rio de Janeiro: Garamond, 2002. BOLÍVIA. Constitución Política del Estado. El Alto: [s.n.], 2009. Disponível em: <https:// www.oas.org/dil/esp/Constitucion_Bolivia.pdf>. Acesso em: 10 abr. 2018. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado Federal, 1988. 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