Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

INTRODUÇÃO À PSICANÁLISE 
AULA 3 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Giseli Cipriano Rodacoski 
 
 
 
2 
CONVERSA INICIAL 
 Até aqui vimos que psicanálise foi em sua origem definida por Freud, seu 
fundador, como: 
• um procedimento para a investigação de processos mentais que são 
quase inacessíveis de outro modo; 
• um método para o tratamento de distúrbios psíquicos; 
• uma disciplina científica. 
Essa definição inicial, ainda que continue válida, foi alterada ao longo dos 
cem anos de exercício clínico da psicanálise; hoje, a teoria psicanalítica 
freudiana é respeitada como uma teoria da personalidade humana. Podemos 
sintetizar dizendo que se trata de uma modalidade de psicoterapia, de estudo e 
de pesquisa que entende o ser humano a partir do pressuposto do inconsciente. 
Para a psicanálise, a subjetividade é muito importante, pois o homem não é um 
ser determinado apenas por processos racionais e grande parte do 
comportamento dele é motivada pelo inconsciente. 
Nesta aula vamos falar um pouco sobre a natureza e a personalidade do 
ser humano. Não sei se você já pensou a esse respeito, mas algumas questões 
costumam inquietar as pessoas: 
• O ser humano nasce bom e a sociedade o corrompe, ou é ao contrário? 
• A personalidade é herdada ou adquirida? 
• As pessoas melhoram ou pioram com o tempo? 
• É possível prever o comportamento das pessoas? 
• Por que as pessoas têm atitudes diferentes para lidar com a mesma 
situação? 
O objetivo hoje é compreender o conceito de personalidade, entender o 
que caracteriza o desenvolvimento humano e o que caracteriza a estruturação 
da personalidade para a teoria psicanalítica freudiana. 
TEMA 1 – PERSONALIDADE 
Podemos considerar que há alguma semelhança no comportamento entre 
crianças, adolescentes, adultos e idosos; no entanto, em cada um desse grupo 
de “iguais” existe uma série de evidências de que as pessoas são diferentes 
 
 
3 
entre si. Por exemplo, os adolescentes gostam de conviver em grupos, mas nem 
todos. Costumamos dizer que a personalidade das pessoas é diferente com base 
em particularidades que as distinguem, apesar de fazerem parte de um mesmo 
grupo de iguais. 
As abordagens psicodinâmicas da personalidade embasam sua 
fundamentação na teoria psicanalítica e compreendem que a personalidade se 
estrutura ao longo do desenvolvimento humano: 
A estruturação da personalidade do indivíduo é o resultado da 
interação entre variáveis neurobiológicas inatas, como o 
temperamento, e experiências psicossociais e emocionais precoces, 
especialmente as relações parentais na primeira infância e os 
estressores ambientais. (Cordioli; Grevet, 2019, p. 1105) 
Essa definição caracteriza múltiplos determinantes, e não apenas uma 
relação de causa-efeito. Vamos entender melhor o que Cordioli e Grevet (2019) 
ressaltam. 
• Variáveis neurobiológicas inatas: ao nascer, a criança já tem consigo 
uma determinação hereditária que terá influência no seu padrão de 
comportamento. Essa carga hereditária é chamada de temperamento. 
• Experiências psicossociais e emocionais precoces: a partir do 
nascimento, os primeiros anos de vida até a adolescência são um período 
muito importante para formar a personalidade de uma pessoa. A maneira 
como foi cuidada, socializada, bem como a intensidade e os tipos de 
emoção que marcaram essa época da vida, serão determinantes 
significativos para a personalidade. 
• Estressores ambientais: a partir da adolescência, com toda a 
determinação hereditária e as experiências internalizadas ao longo da 
infância, a personalidade já será relativamente estável, mas os 
estressores ambientais no decorrer da vida inteira irão interagir com o 
temperamento (herdado) da pessoa, com os modelos adquiridos durante 
a vida, e dessa interação resultarão graus diferentes de regulação e de 
adequação ao ambiente. 
São muitas as teorias que se posicionam nesse campo do conhecimento 
entre o determinismo e o sociointeracionismo, sem negar as duas influências, 
mas sim atribuindo mais ou menos importância a cada uma delas. 
 
 
 
4 
TEMA 2 – MÚLTIPLAS PERSPECTIVAS DA PERSONALIDADE 
Já vimos que a perspectiva freudiana pressupõe múltiplas determinações, 
mas enfatiza a influência do inconsciente na personalidade. Há teorias que 
propõem outras perspectivas igualmente respeitadas, mesmo entre os 
psicanalistas, que não negam as múltiplas influências. O que acontece é um 
alinhamento com base em identificações pessoais com uma ou outra área de 
atuação profissional. Como psicanalistas, o objeto de trabalho será a atuação 
com os aspectos subjetivos que influenciam a personalidade, os processos e 
conflitos inconscientes. O Quadro 1 apresenta uma síntese das principais 
abordagens psicológicas sobre a personalidade. 
Quadro 1 − As múltiplas perspectivas da personalidade 
Abordagem 
teórica e 
principais 
teóricos 
Determinantes 
Cs X Ic da 
personalidade 
Natureza 
(fatores 
hereditários) X 
criação 
(fatores 
ambientais) 
Livre arbítrio X 
determinismo 
Estabilidade 
X 
modificabilidade 
Psicodinâmica 
(Freud, Jung, 
Adler) 
Ênfase no 
inconsciente 
Enfatiza a 
estrutura inata, 
herdada da 
personalidade, 
valorizando a 
importância da 
experiência 
infantil 
Enfatiza o 
determinismo, a 
visão de que o 
comportamento 
é direcionado e 
causado por 
fatores externos 
ao próprio 
controle 
Enfatiza a 
estabilidade das 
características 
durante a vida de 
uma pessoa. 
Traços (Allport, 
Cattell, 
Eysenck) 
Desconsidera o 
consciente e o 
inconsciente 
As abordagens 
variam 
Enfatiza o 
determinismo, a 
visão de que o 
comportamento 
é direcionado e 
causado por 
fatores externos 
ao próprio 
controle 
Enfatiza a 
estabilidade das 
características 
durante a vida de 
uma pessoa. 
Aprendizagem 
(Skinner, 
Bandura) 
Desconsidera o 
consciente e o 
inconsciente 
Centra-se no 
ambiente 
Enfatiza o 
determinismo, a 
visão de que o 
comportamento 
é direcionado e 
causado por 
fatores externos 
ao próprio 
controle 
Enfatiza que a 
personalidade 
permanece 
flexível e 
resiliente durante 
a vida de uma 
pessoa 
Biológica e 
evolucionista 
(Telleger) 
Desconsidera o 
consciente e o 
inconsciente 
Enfatiza os 
determinantes 
inatos, 
Enfatiza o 
determinismo, a 
visão de que o 
comportamento 
Enfatiza a 
estabilidade das 
características 
 
 
5 
herdados da 
personalidade 
é direcionado e 
causado por 
fatores externos 
ao próprio 
controle 
durante a vida de 
uma pessoa 
Humanista 
(Rogers, 
Maslow) 
Enfatiza o 
consciente mais 
do que o 
inconsciente 
Enfatiza a 
interação entre 
a natureza e a 
criação 
Enfatiza a 
liberdade dos 
indivíduos de 
fazer escolhas 
Enfatiza que a 
personalidade 
permanece 
flexível e 
resiliente durante 
a vida de uma 
pessoa 
Fonte: Feldman, 2015, p. 406. 
Podemos relacionar o Quadro 1 com os fundamentos da psicologia da 
educação e as concepções filosóficas sobre a natureza humana. Desde a 
antiguidade até os dias atuais, as concepções acerca do ser humano sofreram 
mudanças. Também conhecidos como paradigmas, podemos dizer que é o que 
predomina na sociedade, um padrão ou um modelo de pensamento. A ciência já 
acolheu diferentes pontos de vista como válidos, e a educação é uma das áreas 
que mais sofre influência desse padrão de pensamento a respeito da natureza 
do ser humano. Aqui residem as questões sobre "quem sou eu", ou seja, 
questões de difícil resposta. 
Com base no quadro que acabamos de apresentar, podemos perceber 
que Freud não é uma unanimidade. Ele postula a influência do inconsciente, ao 
passo que Skinner põe ênfase no ambiente para determinar a conduta do ser 
humano. No tema a seguir, vamos investigar algumas dessas concepções. 
TEMA 3 – CONCEPÇÕES EPISTEMOLÓGICAS 
São concepções que fundamentam as teorias do conhecimento científico 
(Oliveira, 2008): 
3.1 Concepção inatista 
A concepção inatista, biológica e evolucionistateve o filósofo Platão como 
precursor e muitos outros autores importantes, cujas teorias fundamentam os 
pressupostos educacionais. Nessa perspectiva, ao nascer o ser humano já porta 
os elementos da sua personalidade, e o meio ambiente tem pouco efeito para 
alterar o que já é determinado. Ao professor resta identificar e separar os aptos 
dos não aptos. "A linha do pensamento inatista pode ser encontrada na filosofia 
 
 
6 
antiga com dois de seus principais representantes, Sócrates e Platão e, na 
filosofia moderna, com Descartes" (Almeida; Valeirão, 2015, p. 39). 
Até a Idade Média, quando era a mitologia, e não a ciência, que dominava 
o pensamento humano, a crença era a de que tudo o que aconteceria durante a 
vida já havia sido determinado por Deus ao nascer (destino). As teorias 
biológicas e evolucionistas estão alinhadas com o inatismo, mas, sob influência 
do Iluminismo, seguem atreladas à ciência e não mais à mitologia, a exemplo da 
teoria evolucionista de Charles Darwin sobre a seleção natural das espécies 
(Oliveira, 2008). 
3.2 Concepção ambientalista 
Na filosofia, John Locke (1632-1704), filósofo inglês alinhado à Aristóteles, 
faz uma crítica ao inatismo e concebe que a mente humana ao nascer é uma 
folha em branco e que os conteúdos são impressos pelo ambiente externo ao 
interno: 
A crítica ao inatismo, realizada por Locke, levou-o a conceber a alma 
humana, no momento do nascimento, como uma "tábula rasa", uma 
espécie de papel em branco, no qual inicialmente nada se encontra 
escrito. Chega, então, à conclusão de que, se o homem adulto possui 
conhecimento, se sua alma é um "papel impresso", outros deverão ser 
os seus conteúdos: as ideias provenientes − todas − da experiência. 
(Locke, 1999, p. 10) 
A concepção ambientalista enfatiza a influência do meio ambiente sobre 
a pessoa, que se constituirá como sujeito a partir de suas experiências com o 
mundo externo. O psicólogo norte-americano B. F. Skinner, teórico do 
comportamento, representa a compreensão de estímulos ambientais que 
provocam respostas do organismo que, se forem reforçadas, serão mantidas, e 
se forem punidas, serão extintas. As teorias comportamentalistas (ou 
behavioristas) não trabalham com a hipótese do inconsciente, mas sim com a 
análise funcional do comportamento (Davis, 1994, p. 31). 
A concepção ambientalista na educação levou, por um lado, ao 
planejamento e organização do ensino, mas, por outro, a um excessivo 
direcionamento do professor, e os alunos eram considerados passivos, aos 
quais cabia a tarefa de ouvir, copiar, decorar e repetir. O educador brasileiro 
Paulo Freire fez a crítica a esse modelo de educação chamando de educação 
bancária que leva à opressão, e não à libertação (Freire, 2005). 
 
 
7 
Aqui podemos identificar uma diferença entre a área de estudo da 
psicologia e da psicanálise: a primeira engloba as teorias do comportamento de 
concepção ambientalista; a segunda, não (o objeto de interesse da psicanálise 
é o inconsciente, e não o comportamento observável). 
3.3 Concepção interacionista 
Os teóricos interacionistas, ou sociointeracionistas, concordam que 
organismo e meio exercem ação recíproca, portanto discordam tanto dos 
inatistas quanto dos ambientalistas. Piaget e Vygotski são representantes dessa 
concepção (Davis, 1994, p. 36). 
É, pois, na interação da criança com o mundo físico e social que as 
características e peculiaridades desse mundo vão sendo conhecidas. Para cada 
criança, a construção desse conhecimento exige elaboração, ou seja, uma ação 
sobre o mundo (Davis, 1994, p. 36). 
É possível perceber a interface da psicanálise como ciência que estuda o 
inconsciente, com as outras ciências que estudam o comportamento, o 
desenvolvimento físico, social, cognitivo e neurológico dos seres humanos ao 
longo da vida. 
Quando definimos nosso interesse pela psicanálise, não estamos 
negando, mas sim selecionando um ponto de vista sobre o ser humano, 
mantendo a consideração de se tratar de um ser biopsicossocial. 
TEMA 4 – OS CICLOS VITAIS 
É sabido que há um processo de maturação biologicamente determinado, 
e, mesmo que não queiram, os seres humanos irão crescer fisicamente, 
nascerão dentes, cabelos, haverá habilidade para sentar-se, engatinhar, andar 
etc., além de uma carga genética que os habilitará para certas habilidades 
(vocações). O que é geneticamente determinado é tudo aquilo que não se pode 
mudar por força da vontade nem com anos de psicanálise, como a cor dos olhos, 
dos cabelos, da pele, a estatura e o som da voz, as fases sequenciais de criança, 
adolescência, adulto, idoso e a certeza da morte. No entanto, essas 
características típicas do desenvolvimento humano podem nos identificar, mas 
não definem nossa personalidade. 
 
 
8 
No clássico livro O ciclo vital, a autora, Helen Bee, considera que o 
desenvolvimento dos seres humanos acontece em ciclos previsíveis e os 
organiza da seguinte forma: 
• Pré-natal e nascimento; 
• Infância; 
• Infância pré-escolar; 
• Meninice intermediária; 
• Adolescência; 
• Início da vida adulta; 
• Vida adulta intermediária; 
• Velhice e vida adulta tardia (Bee, 1997, p. 62). 
Esses são os ciclos vitais previsíveis, ou seja, aqueles esperados. Dentro 
de cada um deles, são observados processos de desenvolvimento 
biopsicossocial, apresentados no livro pela autora como: 
• Desenvolvimento físico; 
• Desenvolvimento perceptivo e cognitivo; 
• Desenvolvimento social e da personalidade (Bee, 1997). 
Ao se tratar do desenvolvimento da personalidade, a partir da teoria 
psicanalítica de Sigmund Freud, também encontraremos fases que são 
previsíveis, chamadas por ele de estágios do desenvolvimento psicossexual. 
O que são previsíveis são os cinco estágios que, assim como os ciclos 
vitais, se sucedem ao longo do desenvolvimento (Friedman; Shustack, 2004, p. 
73-75): 
1) Fase oral: do nascimento até por volta dos 12 meses de idade; 
2) Fase anal: no segundo e terceiro anos de vida; 
3) Fase fálica: do terceiro até por volta do quinto ano; 
4) Fase de latência: entre o quinto até por volta de 12 anos; 
5) Fase genital: da adolescência em diante. 
Além dos ciclos vitais previsíveis, que os autores definem conforme 
acabamos de elencar, temos os imprevisíveis, ou seja, aqueles eventos que 
podem ou não acontecer, que são os processos individuais, subjetivos, 
particulares, o modo como cada um vai lidar com as situações e experiências, 
como será a relação entre mundo interno e mundo externo. Freud se interessou 
 
 
9 
por esse aspecto do desenvolvimento humano, e não por todo o 
desenvolvimento humano. Apesar de sua teoria ser considerada uma teoria 
psicossexual do desenvolvimento da personalidade, precisamos lembrar que 
personalidade e desenvolvimento não são sinônimos. Vejamos: 
• O desenvolvimento humano ocorre em diversas áreas, dentre elas física, 
emocional, social, cognitiva e adaptativa. 
• A estruturação da personalidade é um dos elementos que caracteriza o 
desenvolvimento global do ser humano. 
Com base na compreensão do conceito de personalidade, podemos 
concluir que os seres humanos podem passar igualmente por todos os ciclos 
vitais e chegar até a fase idosa, pois tais ciclos são previsíveis, e, sob esse ponto 
de vista, todos terão vivido igualmente. No entanto, cada um terá se constituído 
a seu modo, determinado pelo que lhe foi inato, pelas experiências significativas 
que internalizou, pelo modo com que elaborou seus conflitos, influenciado ainda 
por outros determinantes, especialmente pela condição de saúde, conceituada 
aqui em seu sentido mais amplo: “Em seu sentido mais abrangente, a saúde é 
resultante das condições de alimentação, habitação, educação, renda, meio 
ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da 
terra e acesso a serviços de saúde” (CNS, 1988). 
Por ser o desenvolvimento humano determinado por tantosfatores, as 
teorias do desenvolvimento são de interesse de multiprofissionais e de pessoas 
leigas, especialmente pais, cuidadores, gerentes, treinadores e líderes de 
equipes que precisam de assessoria para planejar intervenções assertivas em 
suas atribuições. 
Feitos os esclarecimentos sobre desenvolvimento humano (geral) e 
desenvolvimento da personalidade, vamos seguir falando apenas sobre a 
personalidade. 
TEMA 5 – TEORIA PSICANALÍTICA DA PERSONALIDADE 
Freud formulou sua teoria do desenvolvimento da personalidade por meio 
de cinco estágios psicossexuais; em cada um deles, as crianças têm 
necessidades/conflitos que são atendidos ou negligenciados. Tais conflitos 
podem ser decorrentes de ter as necessidades ignoradas ou excessivamente 
atendidas; ou seja, um excesso de frustração ou um excesso de gratificação 
 
 
10 
podem ser igualmente prejudiciais para a formação de personalidade na criança. 
Vamos ver em detalhes cada uma das fases. Friedman e Shustack, (2004, p. 73-
75), com base na teoria psicossexual do desenvolvimento infantil, sintetizaram 
os cinco estágios (ou fases), conforme mostra o Quadro 2. 
Quadro 2 − Fases do desenvolvimento psicossexual 
Fases Idade Características principais 
Oral 0 a 12 meses Ocorre no primeiro ano de vida, quando a atenção da 
criança está concentrada basicamente nas zonas 
erógenas da boca, por meio da qual obtém prazer pela 
sucção, no ato de mamar. 
Anal 2 a 3 anos O interesse na atividade anal passa a ser importante 
para a criança, principalmente quanto ao controle dos 
esfíncteres (cocô e xixi). 
Fálica 3 a 5 anos Nessa fase, a criança se interessa pelos órgãos sexuais 
e pelos prazeres ligados ao seu manejo. O menino e a 
menina se colocam nos papéis imaginários de pai e 
mãe. Desenvolvimento do Complexo de Édipo. 
Latência 5 a 12 anos Idade escolar. Ocorre supressão (sublimação) dos 
impulsos sexuais, construção do pensamento lógico e 
influência da vida psíquica pelo princípio da realidade. 
Genital Adolescência em 
diante 
É nessa fase que o adolescente passa a se interessar 
por outras pessoas e coisas como objetos importantes, 
deixando de lado o interesse por si mesmo como objeto 
primário. É despertado por atividades da vida madura. 
Fonte: Friedman; Shustack, 2004, p. 73-75. 
É por meio dos estágios de desenvolvimento que a personalidade se 
organiza. Não é linear, mas sim sequencial, as fases podem se sobrepor, as 
idades de mudança de fase também não são exatas, mas sim “por volta de”. No 
quadro mostrado, as faixas etárias estão definidas, mas isso atende apenas a 
uma função didática. O mais adequado é considerar que: 
• Fase oral: se inicia ao nascer e irá terminar quando, pela observação, for 
percebido que o interesse e a satisfação já não estão tanto na boca, mas 
sim nas situações de controle: dos esfíncteres, da presença e ausência 
de pessoas e objetos, esconder e achar. 
• Fase anal: fica evidente quando o desejo da criança é ter o “controle”. 
• Fase fálica: período em que a diferença entre os sexos é percebida e 
problematizada pela criança. Ela volta seu interesse aos órgãos genitais, 
demonstra ciúmes e faz comparações. Nesse período Freud descreveu o 
Complexo de Édipo. 
• Fase de latência: por volta de 6 ou 7 anos até a adolescência, quando a 
criança diminuir o interesse pelos temas da fase anterior e focar atividades 
 
 
11 
cognitivas, na aprendizagem, formar grupos e diversificar sua atenção 
para objetos fora do corpo dela. 
• Fase genital: da adolescência em diante. É quando a sexualidade terá 
adquirido sua maturidade (ou não). A ocorrência de conflitos importantes 
nas fases anteriores, como memórias traumáticas por exemplo, será 
determinante para a saúde mental na fase adulta. 
Sobre a sexualidade infantil, Freud (1905/1989, p. 162) escreveu que: 
Faz parte da opinião popular sobre a pulsão sexual que ela está 
ausente na infância e só desperta no período da vida designado da 
puberdade. Mas esse não é apenas um erro qualquer, e sim um 
equívoco de graves consequências, pois é o principal culpado de nossa 
ignorância de hoje sobre as condições básicas da vida sexual. Um 
estudo aprofundado das manifestações sexuais da infância 
provavelmente nos revelaria os traços essenciais da pulsão sexual, 
desvendaria sua evolução e nos permitiria ver como se compõe a partir 
de diversas fontes. 
O que Freud vai teorizar é que o objeto da pulsão muda ao longo do 
desenvolvimento, ou seja, é "aquilo junto a que, ou através de que, a pulsão 
pode atingir seu alvo" (Freud, 1915/1989, p. 86). No bebê, o objeto desejado 
para alívio de tensões é o seio materno, carregado de prazer na experiência da 
amamentação. Anos depois, esse meio seio materno pode ser visto com asco 
pela criança maior. Ao observar uma criança de 2 a 3 anos, é possível perceber 
que para ela é mais prazeroso ter o controle (dos esfíncteres, da 
presença/ausência) do que mamar no peito. O objeto da pulsão é contingente e 
variável e está a serviço de tornar possível a satisfação ao longo do 
desenvolvimento. 
A teoria do desenvolvimento psicossexual foi construída na mesma época 
em que Freud publicou Três ensaios sobre a teoria da sexualidade” (Freud, 
1905/1989), cujos conceitos centrais são: perversão, fixação e regressão. O 
objetivo aqui não é aprofundar esses temas, mas sim estabelecer relação de 
interdependência entre tais conceitos com os estágios do desenvolvimento 
psicossexual e a estruturação da personalidade. 
Até esse momento da teoria freudiana, o aparelho psíquico era descrito 
com base na 1ª tópica: Consciente (Cs), Pré-consciente (Pcs) e Inconsciente 
(Ic). Os anos seguintes na experiência clínica de Freud o levaram a elaborar a 
2ª tópica, ou seja, a segunda teoria para explicar o aparelho psíquico: id, ego e 
superego. A 2ª tópica não exclui nem compete com a 1ª tópica, mas a 
complementa. 
 
 
12 
Na continuidade de nossas reflexões, sob um ponto de vista cronológico 
de estudos, vamos procurar compreender como se dá a estruturação da 
personalidade e a constituição do sujeito considerando a dinâmica entre id, ego 
e superego. 
NA PRÁTICA 
A psicanálise é uma teoria sobre a personalidade que contribui para os 
estudos a respeito do desenvolvimento humano. Considerando-se que esse 
desenvolvimento é biopsicossocial, outros elementos também o caracterizam 
além da estruturação da personalidade, dentre eles marcadores biológicos e 
maturidade neurológica que impactam o pleno desenvolvimento físico e motor, 
capacidades cognitivas e diversas outras funções do corpo. Portanto, o 
desenvolvimento da personalidade faz parte ou compõe o processo de 
desenvolvimento humano. 
Por sua vez, a estruturação da personalidade também sofre influência de 
outras variáveis. Conforme ressaltam Cordioli e Grevet (2019, p. 1105), “a 
estruturação da personalidade do indivíduo é o resultado da interação entre 
variáveis neurobiológicas inatas, como o temperamento, e experiências 
psicossociais e emocionais precoces, especialmente as relações parentais na 
primeira infância e os estressores ambientais”. 
No senso comum, são conhecidos os ditados populares que comunicam, 
em forma de brincadeira, a concepção de homem que se tem. O inatismo é 
representado por ditos como “filho de peixe, peixinho é”, “pau que nasce torto 
morre torto” e “tal pai, tal filho”. Já o ambientalismo é identificado em discursos 
como: “Me dê uma criança de colo e eu faço dela um bandido ou um homem de 
bem” ou "Diga-me com quem andas e te direi quem és". 
Sobre a concepção interacionista, vale a pena assistir a um vídeo antigo, 
da Universidade de Yale, de 1977, mas apresentado pelo próprio Jean Piaget, 
com áudio traduzido ao português. Ele está disponível no seguinte link: 
<https://www.youtube.com/watch?v=FWYjDvh3bWI>. Acesso em: 9 fev. 2022. 
Uma aproximação da psicanálise com a teoria do conhecimento abre um 
campo de atuação de psicanalistasna área educacional. Uma leitura sobre esse 
tema é o livro O que esse menino tem? Sobre alunos que não aprendem e a 
intervenção da psicanálise na escola, de Ana Lydia Santiago e Raquel Martins 
de Assis. Parte da obra está disponível no link: 
 
 
13 
<https://www.relicarioedicoes.com/wp-
content/uploads/2019/10/MIOLO_Oqueessemeninotem_primeiras-
p%C3%A1ginas.pdf>. Acesso em: 9 fev. 2022. 
FINALIZANDO 
A psicanálise se desenvolveu a partir da hipótese do inconsciente, como 
um procedimento de investigação e de tratamento de distúrbios psíquicos. 
A estruturação da personalidade ocorre ao longo do desenvolvimento dos 
seres humanos e é resultado da: 
A estruturação da personalidade do indivíduo é o resultado da 
interação entre variáveis neurobiológicas inatas, como o 
temperamento, e experiências psicossociais e emocionais precoces, 
especialmente as relações parentais na primeira infância e os 
estressores ambientais. (Cordioli; Grevet, 2019, p. 1105) 
No campo do estudo da personalidade, muito se discute quais são os 
determinantes da constituição do sujeito. Como expressões desses paradigmas 
temos as concepções inatistas, ambientalistas e interacionistas. 
O desenvolvimento humano envolve fatores biopsicossociais, e a 
psicanálise contribui com teorias, dentre as quais a teoria psicossexual do 
desenvolvimento infantil, que irá organizar a atividade psíquica da criança até a 
adolescência em cinco estágios: 
• Fase oral: do nascimento até o segundo ano de vida; 
• Fase anal: por volta dos 3 anos de idade; 
• Fase fálica: por volta dos 4 aos 6 anos; 
• Fase de latência: dos 6 ou 7 anos até a adolescência; 
• Fase genital: da adolescência em diante. 
De acordo com Freud, os excessos de frustração ou de gratificação, em 
um estágio particular, podem resultar em fixações. 
Ao longo do desenvolvimento existem ciclos vitais previsíveis: 
nascimento, infância, adolescência, adultez e envelhecimento. A área de 
interesse da psicanálise não são os ciclos previsíveis observados no 
crescimento e envelhecimento, mas sim os processos intrapsíquicos e os 
conflitos que cada um desses estágios apresenta como desafios. 
A teoria de Piaget, de concepção interacionista, se tornou dominante na 
área da educação. Mesmo assim, a psicanálise continuou estudando o 
 
 
14 
inconsciente, pois não está nem esteve disputando o domínio de uma teoria do 
conhecimento nem do desenvolvimento humano, mas sim esteve interessada na 
estruturação da personalidade e está colocando em curso um método de 
tratamento no qual acredita, ou seja, o método da associação livre para 
tratamento de conflitos psíquicos. 
 
 
 
15 
REFERÊNCIAS 
ALMEIDA, A. L.; VALEIRÃO, K. Fundamentos psicológicos da educação. 
Pelotas: NEPFIL online, 2015. (Série Dissertatio-Incipiens). 
BEE, H. O ciclo vital. Porto Alegre: Artmed, 1997. 
CNS. Conselho Nacional da Saúde. Anais da VIII Conselho Nacional de 
Saúde. Brasília: Ministério da Saúde, 1986. 
CORDIOLI, A. V.; GREVET, E. H. (Orgs.) Psicoterapias: abordagens atuais. 4. 
ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. 
DAVIS, C. Psicologia na educação. São Paulo: Cortez, 1994. 
FELDMAN, R. S. Introdução à Psicologia. 10. ed. Porto Alegre: AMGH, 2015. 
FREIRE, P. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2005. 
FREUD, S. (1905). Três ensaios sobre a teoria da sexualidade. In: FREUD, S. 
Obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro: Imago, 
1989. v. 7. 
FRIEDMAN, H. S.; SHUSTACK, M. W. Teorias da personalidade: da teoria 
clássica à pesquisa moderna. São Paulo: Prentice Hall, 2004. 
LOCKE, J. Ensaio sobre o entendimento humano. São Paulo: Nova Cultural, 
1999. Disponível em: <http://abdet.com.br/site/wp-
content/uploads/2014/12/Ensaio-Acerca-do-Entendimento-Humano.pdf>. 
Acesso em: 7 fev. 2022. 
NASIO, J-D. Édipo: o complexo do qual nenhuma criança escapa. Tradução de 
André Telles. Rio de Janeiro: Zahar, 2007. 
OLIVEIRA, M. K. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento: um processo 
socio-histórico. 4. ed. São Paulo: Scipione, 2008. 
PIAGET por Piaget. YouTube, [s.d.]. Disponível em: 
<https://www.youtube.com/watch?v=FWYjDvh3bWI>. Acesso em: 7 fev. 2022. 
SANTIAGO, A. L.; ASSIS R. M. O que esse menino tem? Sobre alunos que 
não aprendem e a intervenção da psicanálise na escola. 2. ed. Belo Horizonte: 
Relicário Edições, 2018. (Coleção BIP – Biblioteca do Instituto de Psicanálise).

Mais conteúdos dessa disciplina