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PRESIDÊNCIA DA REPÚBLICA 
Jair Messias Bolsonaro 
MINISTÉRIO DA JUSTIÇA E SEGURANÇA PÚBLICA 
Anderson Gustavo Torres 
SECRETARIA DE GESTÃO E ENSINO EM SEGURANÇA PÚBLICA 
Ana Cristina Melo Santiago 
DIRETORIA DE ENSINO E PESQUISA 
Roberto Glaydson Ferreira Leite 
COORDENAÇÃO GERAL DE ENSINO 
Juliana Antunes Barros Amorim 
COORDENAÇÃO DE ENSINO A DISTÂNCIA 
Juliana Antunes Barros Amorim 
COORDENAÇÃO PEDAGÓGICA 
Gisele Matos Gervásio 
COORDENAÇÃO DE INOVAÇÃO E TECNOLOGIA APLICADA 
Alessandra Veríssimo Lima Santos 
 
CONTEUDISTA 
Cyntia Cristina de Carvalho e Silva 
 
REVISÃO TÉCNICA 
Ângela Maria dos Santos 
 
REVISÃO TEXTUAL 
Daniel Antonio Cassano 
 
PRODUÇÃO (APOIO) 
Maria de Fátima de Souza Moreno 
 
REVISÃO PEDAGÓGICA 
Marcio Raphael Nascimento Maia 
Daniele Rosendo dos Santos 
 
PROGRAMAÇÃO E EDIÇÃO 
Renato Antunes dos Santos 
Vinícius Alves de Sousa 
 
DESIGNER 
Renato Antunes dos Santos 
Zulmiro José Machado Filho 
 
DESIGNER INSTRUCIONAL 
Vinícius Alves de Sousa 
 
 
SUMÁRIO 
Apresentação do Curso ............................................................................................ 5 
Contextualização ..................................................................................................... 5 
Objetivos do curso ................................................................................................... 8 
Estrutura do curso .................................................................................................... 9 
Módulo 1 – A Pessoa Idosa e a Segurança Pública.............................................. 10 
Apresentação do Módulo ....................................................................................... 10 
Objetivos do Módulo .............................................................................................. 11 
Estrutura do Módulo ............................................................................................... 11 
Aula 1 - Introdução: a pessoa idosa e a segurança pública ................................... 12 
Aula 2 - Quem é a pessoa idosa hoje no Brasil e seus direitos .............................. 14 
Aula 3 - Estereótipos e estigmas, preconceito, discriminação e etarismo .............. 21 
Aula 4 - Relacionamentos intergeracionais ............................................................ 34 
Aula 5 - Pessoas idosas e o suporte emocional ...................................................... 45 
Aula 6 - Pessoas idosas, autonomia e independência ........................................... 51 
6.1 – Tomada de decisão apoiada ...................................................................... 55 
6.2 – Ação de Curatela ....................................................................................... 56 
6.3 – Diretivas antecipadas ou testamento vital .................................................. 58 
6.4 – Cuidados paliativos .................................................................................... 60 
6.5 - Pessoas idosas, arquitetura e urbanismo ................................................... 62 
Aula 7 - Pessoas idosas, finanças, previdência e consumo ................................... 67 
Aula 8 - Pessoas idosas, solidão e violência – desafios da segurança pública ..... 72 
8.1 - O profissional da segurança pública e a população idosa ........................... 73 
Finalizando .............................................................................................................. 77 
Módulo 2 – Violência Doméstica e Familiar Contra a Pessoa Idosa ................... 78 
Apresentação do Módulo ....................................................................................... 78 
Objetivos do Módulo .............................................................................................. 78 
Estrutura do Módulo ............................................................................................... 78 
Aula 1 - As formas de violência contra a pessoa idosa .......................................... 79 
1.1 - Crimes praticados no contexto familiar e domiciliar .................................... 80 
Aula 2 - Estelionato afetivo ..................................................................................... 85 
Finalizando............................................................................................................. 87 
 
 
Módulo 3 – Crimes de Violência Contra a Pessoa Idosa Praticados por 
Desconhecidos ........................................................................................................ 88 
Apresentação do Módulo ....................................................................................... 88 
Objetivos do Módulo .............................................................................................. 88 
Aula 1 - Violência de rua e crimes de discriminação contra a pessoa idosa .......... 90 
1.1 - Crimes de discriminação contra a pessoa idosa ......................................... 90 
Aula 2 - Golpes Virtuais e Exclusão Digital ............................................................ 93 
Aula 3 - Os desafios do crédito consignado ........................................................... 98 
Finalizando........................................................................................................... 100 
Módulo 4 – Particularidades da Investigação dos Crimes Contra os Idosos ... 101 
Apresentação do Módulo ..................................................................................... 101 
Objetivos do Módulo ............................................................................................ 101 
Estrutura do Módulo ............................................................................................. 102 
Aula 1 - Prevenção de crimes contra as pessoas idosas ..................................... 103 
1.1 - Mediação dos conflitos ............................................................................. 109 
Aula 2 - Denúncias de Crimes Contra as Pessoas Idosas e Roteiro de Registro de 
Ocorrência ........................................................................................................... 111 
2.1 - Roteiro de registro de ocorrência .............................................................. 112 
Aula 3 - A Investigação Preliminar ....................................................................... 116 
Aula 4 – Instrumentos Especiais da Investigação de Crimes Contra a Pessoa Idosa 
................................................................................................................................. 122 
4.1. A visitação das pessoas idosas ................................................................... 122 
4.2. Medidas judiciais de proteção da pessoa idosa ......................................... 123 
Finalizando........................................................................................................... 124 
Módulo 5 – Rede de Apoio e Promoção dos Direitos das Pessoas Idosas e 
Integração com demais Serviços Públicos ......................................................... 125 
Apresentação do Módulo ..................................................................................... 125 
Objetivos do Módulo ............................................................................................ 125 
Aula 1 - A abordagem policial integral .................................................................. 127 
Aula 2 - Rede de proteção da pessoa idosa ........................................................ 131 
Aula 3 - Integração com o serviço de saúde ........................................................ 133 
Aula 4 - Integração com o serviço de assistência social ...................................... 136 
Aula 5 - Integração com os serviços de previdência social .................................. 143 
Aula 6 - Mobilidade urbana e lazer ....................................................................... 145 
Referências bibliográficas.................................................................................... 149 
Nota de fim ............................................................................................................. 153 
 
 
5 
Apresentação do Curso 
 
 
Contextualização 
 
No Brasil, o Estatuto do Idoso, a principal lei que trata sobre essa população 
específica, considera idosa toda pessoa com idade igual ou superior a 60 anos (art. 
1º da Lei nº 10.471/2003, alterada pela Lei nº 13.423/22 - Estatuto da Pessoa Idosa). 
A partir desse parâmetro, observa-se que a população brasileira está em um 
processo contínuo, acelerado e, aparentemente, irreversível de envelhecimento: em 
1940, a população idosa era de 1,7 milhão (4% da população); em 2000, 14,5 milhões 
(8,6% da população); e, em 2017, 30,2 milhões (14,65% da população)i. 
Porém, é um erro pensar que esse grupo seja como um conjunto homogêneo de 
pessoas. Se a população brasileira tem a grande característica da diversidade 
biológica e cultural na juventude, esse traço também está presente na velhice. Assim, 
haverá pessoas idosas, negros, brancos, indígenas, cisgênero, transgênero, hetero e 
homossexuais, generosos, mesquinhos, de bom ou mau caráter, mas todos unidos 
pela experiência do envelhecimento. 
Entre 1940 e 2000, a população idosa aumentou de um modo geral, inclusive e 
especificamente entre aqueles com mais de 80 anos. Hoje, os mercados já classificam 
esse público entre 60+, 70+, 80+ e 90+, ou seja, terceira, quarta, quinta idade e assim por 
diante. 
É importante ressaltar esse ponto, para enfatizar a pluralidade desse conjunto 
denominado população idosa. Ele inclui tanto pessoas na “faixa de 60 anos, que, pelos 
avanços tecnológicos da medicina, podem estar em pleno vigor físico e mental, bem 
como pessoas na faixa de 90 anos, que devem se encontrar em situações de maior 
vulnerabilidade” (CAMARANO, 2004, p. 25). A previsão é que esse grupo corresponda 
a 40% dos brasileiros em 2100. 
Trata-se da chamada Revolução da Longevidade, expressão que evoca o 
profundo impacto na sociedade moderna mundial que o envelhecimento populacional 
acelerado tem causado, com consequências marcantes em todas as áreas: saúde, 
educação, segurança, previdência etc. 
 
 
6 
Figura 1: A tartaruga dragão é um símbolo de longevidade na China. Todo mundo passa a mão em 
estátuas como essa acreditando garantir uns anos a mais! 
 
Fonte: Shankar, 2017. 
 
Afinal, com o crescente aumento da população idosa, multiplicam-se os crimes 
contra esse grupo, cujo enfrentamento exige estratégias que levem em consideração 
as particularidades dessa faixa etária, como a sua posição na estrutura familiar, a 
perda gradual da capacidade física e cognitiva e o preconceito contra os idosos, ou 
seja, o etarismo estrutural, que caracteriza a atual sociedade brasileira e também a 
mundial. 
Porém, de modo geral, nos casos de crimes contra o idoso, há questões 
subjacentes, cujo enfrentamento é indispensável para prevenir a ocorrência de novas 
condutas criminosas. São pontos que não podem ser abordados apenas da 
perspectiva da política de segurança pública ou do sistema de justiça criminal. Esses 
problemas demandam uma intervenção mais transversal da máquina pública, 
envolvendo áreas como a saúde e a assistência social, caso o objetivo seja 
efetivamente resolver o problema. 
Neste curso, você vai aprender sobre todas essas questões, mergulhando a no 
universo das pessoas idosas! Um tema não muito comum na formação curricular da 
maioria das faculdades, que raramente dedicam-se a estudar a Lei nº 10.741/03, o 
Estatuto do Idoso, alterada pela Lei nº 13.423/22 - Estatuto da Pessoa Idosa. Mas, aqui 
você vai, ao longo deste curso, examinar vários conceitos importantes para compreender 
o fenômeno do envelhecimento por vários aspectos, seja biológico, social, familiar, 
jurídico, psicológico e assistencial. E vai estudar as principais características das 
pessoas idosas, tanto como grupo quanto como 
 
 
7 
 
indivíduos, bem como as mais relevantes formas de violência às quais eles estão 
submetidos. E mais: você vai refletir também sobre os principais desafios e estratégias da 
segurança pública em geral no Brasil para lidar com a Revolução da Longevidade, e 
sobre os desafios individuais como membros do Sistema Único de Segurança Pública 
(SUSP) para acolher e auxiliar a população idosa. 
Ademais, você irá entender, ainda, a complexidade dos crimes contra a 
população idosa, com o objetivo de prevenir, elucidar e reprimir melhor essas 
condutas. Em relação à tarefa de prevenção, é fundamental as forças de segurança 
pública atuarem a partir de uma perspectiva verdadeiramente resolutiva, ou seja, 
abordar a situação conflitiva globalmente, visando não só à punição dos responsáveis 
pelo delito, mas, acima de tudo, ao acolhimento da vítima e ao seu encaminhamento 
para a rede de suporte para a resolução também das questões subjacentes ao crime. 
Às vezes, existe a necessidade de um benefício especial, de uma mediação judicial 
de conflitos, de mecanismos de tomada de decisão apoiada, curatela, diretivas 
antecipadas. Tudo isso e muito mais você vai conhecer aqui. 
Missão: a atuação resolutiva do problema. 
Enfrentar essas modalidades criminosas partindo de uma perspectiva resolutiva, ou 
seja, que abranja todos os níveis de contenção e, principalmente, de prevenção, 
evitará novas ocorrências similares ou, o que é pior, a progressão da violência até a 
morte da vítima. 
A ATUAÇÃO RESOLUTIVA DO PROBLEMA é a plena missão dos membros 
do Sistema Único de Segurança Pública: a pacificação social, por meio da pacificação 
dos conflitos. Essa abordagem somente é possível, caso seja adotada, 
simultaneamente, uma visão integrativa e transversal da máquina pública, na qual o 
Estado é mobilizado como um todo, para o enfrentamento dos problemas da 
coletividade e do indivíduo. Imagine uma corrida de revezamento, na qual toda equipe 
sabe o papel do próximo colega, que, passando o bastão recebido para o próximo, 
caminhará adiante até a vitória na linha de chegada. 
 
 
8 
 
Figura 2: Amigos dançando 
 
Fonte: Manyange, 2014. 
 
 
 Áudio de apresentação do curso 
 
Objetivos do curso 
 
Os objetivos do curso são: 
• Sensibilizar o profissional da Segurança Pública sobre as questões da 
população idosa, abrangendo vários aspectos desde culturais, sociais, 
psicológicos, biológicos a jurídicos e policiais; 
• Conhecer as principais diretrizes legais relacionadas à população idosa, no 
que tange, principalmente, à segurança pública; 
• Conhecer a rede de suporte e apoio da população idosa, bem como 
entender seu funcionamento; e 
• Estimular o estudante à ação direcionada à proteção das pessoas idosas, 
bem como ao fortalecimento da rede de apoio e suporte na sua região. 
 
 9 
Estrutura do curso 
 
O curso está estruturado em cinco módulos, a saber: 
Módulo 1 – A Pessoa Idosa e a Segurança Pública. 
Módulo 2 – Crimes de violência doméstica e familiar contra a pessoa idosa. 
Módulo 3 – Crimes de violência conta a pessoa idosa praticados por 
desconhecidos. 
Módulo 4 – Particularidades da investigação dos crimes contra os idosos. 
Módulo 5 – Rede de apoio e promoção dos direitos das pessoas idosas e 
integração com demais serviços públicos. 
 
 10 
Módulo 1 – A Pessoa Idosa e a Segurança Pública 
 
 
Apresentação do Módulo 
 
 Áudio de apresentação do módulo 1 
Aqui você irá se deparar com várias questões relacionadas ao envelhecimento 
de uma forma integrada, considerando os aspectos biológicos, sociais, econômicos e 
jurídicos. 
Essas questões constituem o alicerce de toda orientação do profissional da 
segurança pública para a chamada Atuação Resolutiva em relação aos problemas da 
pessoa idosa, ou seja, aquela em que não se preocupa apenas com o encerramento 
de chamado de urgência, um boletim de ocorrência ou um inquérito policial, masaquela em que, para além do possível crime retratado naquela situação, busca entender 
as questões subjacentes a ele, de forma a atuar para resolver os problemas e evitar 
que a situação se repita ou que se progrida para casos de extrema violência. 
Além disso, lembre-se, você faz parte do Sistema Único de Segurança Pública 
(Susp), cuja atuação deve ser integrada e não preocupada apenas com as atribuições 
e competências específicas. 
Dessa forma, neste módulo, você vai explorar o fenômeno de “envelhecer”, 
conhecendo os preconceitos sobre ele, os termos ageísmo/etarismo/idadismo, os 
conceitos de gerações e as relações intergeracionais, a questão da família, da 
afetividade, do círculo social, os estereótipos da velhice, questões jurídicas de 
interdição, tomada de decisão apoiada, além dos temas sobre cuidados paliativos 
para doenças terminais, diferentes formas de envelhecer, e como buscar o tal 
envelhecimento ativo. 
Ademais, ciente de toda essa complexidade que envolve o tema, você poderá 
relacionar todo conhecimento adquirido aqui à sua prática profissional como agente 
de segurança pública e, ao entender melhor as questões subjacentes ao tema, 
principalmente quando instado a resolvê-las, poder decidir e agir com maior 
propriedade e segurança, fazendo os devidos encaminhamentos quando suas 
atribuições específicas se esgotarem. 
 
 11 
 
Ao final, você não terá apenas aprimorado seus conhecimentos globais sobre o 
envelhecimento para se tornar um profissional melhor da segurança pública: também 
começará a refletir sobre você mesmo; sobre o seu próprio processo de 
envelhecimento. Afinal, com um toque de sorte e algum privilégio, todos, um dia, 
tornar-se-ão pessoas idosas. 
 
 
Objetivos do Módulo 
 
Os objetivos do módulo 1 são: 
• Sensibilizar o profissional da Segurança Pública sobre a questão da 
população idosa, abrangendo vários aspectos desde culturais, sociais, 
psicológicos, biológicos, jurídicos e policiais; e 
• Conhecer as principais diretrizes legais relacionadas à população idosa, no 
que tange à segurança pública. 
 
 
Estrutura do Módulo 
 
Aula 1 - Introdução: a pessoa idosa e a segurança pública. 
Aula 2 - Quem é a pessoa idosa hoje no Brasil e seus direitos. 
Aula 3 - Estereótipos e estigmas; preconceito; discriminação e etarismo. 
Aula 4 - Relacionamentos intergeracionais. 
Aula 5 - Pessoas idosas e o suporte emocional. 
Aula 6 - Pessoas idosas, autonomia e independência. 
Aula 7 - Pessoas idosas, finanças, previdência e consumo. 
Aula 8 - Pessoas idosas, solidão e violência – desafios da segurança pública. 
 
 12 
Aula 1 - Introdução: a pessoa idosa e a segurança pública 
 
 
Figura 3: 106 anos de idade 
Fonte: Rosino, 2011. 
 
 
Não sorria tranquilo, porque é feio ficar despreocupado com o semelhante só 
porque ele não é nosso comensal ou nosso amigo. Cada estranho é um irmão 
de destino, que ainda não nos foi apresentado, apenas. 
Cecília Meirele 
 
Dignidade da pessoa humana! Qualquer curso, ensinamento, que trata de 
cuidar dos bens da vida, do ser humano, deve começar com a dignidade da pessoa 
humana, porque é por ela que estamos aqui. Profissionais da segurança pública 
trabalham todos os dias em defesa da “paz social”, do “ser humano”. Antes mesmos 
de serem membros do Sistema Único de Segurança Pública (Susp), são PESSOAS, 
seres humanos, o que os iguala a todos entre si. 
Independentemente da fé, da crença, da profissão, da cor da pele, do formato 
do cabelo, da identidade de gênero, da orientação sexual, da origem, da quantidade 
de dinheiro na conta bancária, da educação formal, da idade, de você gostar ou não 
 
 13 
 
de chocolate, de jiló, ou de abacaxi, há um fato que nos une. Somos pessoas. E a 
pessoa vem antes de qualquer adjetivo que a delimite, caracterize ou especifique. 
O envelhecimento, com sorte, é o processo que abrangerá a todos e caso não 
seja abatido pela morte antes, todo mundo vai ficar velho: o seu chefe, seus amigos e até 
você. As pessoas altas, baixas, magras, gordas, boas e más envelhecem. Os 
honestos e os canalhas também envelhecem. Isso tudo é para deixar claro que o 
objeto deste estudo é bem variado: você vai estudar as características desse processo de 
envelhecimento e suas possíveis relações com o seu trabalho de cuidar das 
PESSOAS, dos seres humanos e da paz social. 
O envelhecimento é um processo complexo, um fenômeno/fato social com 
várias nuances econômicas, sociais, familiares, afetivas, psicológicas, físicas que 
precisam ser compreendidas para melhor serem gerenciadas, principalmente, no que 
tange à relação com a prevenção, investigação e combate da criminalidade. 
Por fim, lembre-se: pessoas de mais idade são simplesmente PESSOAS 
IDOSAS independente do que vier depois da PESSOA, (idosa, mulher, negra, branca, 
homossexual, heterossexual, policial etc.), antes ela é como qualquer ser humano, 
uma pessoa. 
De pessoa para pessoa, vamos lá? 
 
Figura 4: Idosos dançam no Tuen Mun Park 
Fonte: Stand News, 2019. 
 
 14 
 
Aula 2 - Quem é a pessoa idosa hoje no Brasil e seus direitos 
 
A coisa mais moderna que existe nessa vida é envelhecer. 
Arnaldo Antunes 
 
 
Clique aqui para assistir ao clip, Envelhecer - Arnaldo Antunes (Ao Vivo Lá Em 
Casa). 
 
 
 
Acertou quem disse 70 anos. Isso mesmo! A cada ano essa expectativa fica 
maior e tende a melhorar bastante (ROSLING, 2021, p. 65). 
Mas não tem problema se você errou a resposta. A maioria das pessoas erra, e 
normalmente para pior. Porém, fique calmo. Este curso é para isso mesmo. Quebrar 
os preconceitos sobre as diferenças e começar a refletir sobre que tipo de segurança 
pública se quer construir para a sua sociedade, família ou você mesmo agora, no 
presente, e em um futuro muito próximo. 
Envelhecer é, de fato, algo muito moderno no mundo todo. Em 1800, a 
expectativa de vida era só de 30 anos: os suecos morriam de fome e as crianças 
britânicas trabalhavam em minas de carvão (fato que até inspirou o conto de fadas 
“Branca de Neve e os Sete Anões”, que, na verdade, não eram anões, mas crianças 
mesmo, porque elas eram menores e cabiam nas minas). Absurdo, não é? De lá para cá, 
houve muita evolução! Mas temos muito que percorrer. 
Em 2022, mesmo com as mortes causadas pela pandemia da COVID-19, que 
atingiu diretamente a população idosa em todo mundo, a expectativa de vida no 
mundo está, em média, em 72 anos, segundo os dados do site World dataii. 
No Brasil, expectativa de vida é ainda um pouco melhor, 72,2 anos, e tende a 
melhorar, conforme mostra a projeção da “pirâmide demográfica”, projetada pelo 
Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, que cada vez mais perde a 
forma de pirâmide, como pode se observar abaixo: 
Palavra do Especialista! 
Pense! 
Qual é a expectativa de vida hoje no mundo? 
A – 50 anos 
B – 60 anos 
C – 70 anos? 
https://www.youtube.com/watch?v=HFgi79BbrxI
 
 15 
 
Figura 5: Expectativa de vida 
 
Fonte: Site do IBGEiii. 
 
 
Segundo as projeções do IBGE, a população das pessoas nonagenárias, 
principalmente entre mulheres, será como a dos septuagenários de hoje! Vai ser muito 
mais comum a gente fazer festinha de aniversário de um século! Já pensou onde você 
vai comemorar seus 100 aninhos de vida? 
Viver 100 anos!!! Você já pensou quantas vidas e quantos conflitos cabem dentro 
de 100 anos?! Importantíssimo esse ponto de vista para os membros da Segurança 
Pública, que irão atender a uma ocorrência conflituosa tendo a pessoa idosa como 
vítima. Com essa perspectiva, poderão entender melhor o quão falíveis são como 
seres humanos. 
Nunca se viveu tanto e tão bem! Como é comum ver pessoas de 60, 70, 80 anos 
viajando, divertindo-se, dançando em forrós, “Os 60 são os novos 40”! 
Em 1960, a expectativa de vida do brasileiro médio era de 54 anos hoje é de 
72,2 anos! Em 60 anos, ganhamos 18 anos de vida! E isso, por si só, já é razão para 
se comemorar! E essa conquista, além dealegrias, traz também muitos desafios 
individuais, familiares, sociais, inclusive para o Estado brasileiro, em todas suas 
funções seja a criativa, a gestora e ou a pacificadora de conflitos. 
Com essa velocidade de envelhecimento, em 2060, as pessoas idosas serão 
25% da população brasileira. Se hoje, com os dados do último censo, realizado em 
 
 16 
2017, a população idosa já representa 20% dos consumidores do país, imagina no 
futuro? É a chamada “economia prateada”, referente aos cabelos prateados das 
pessoas idosas, que já movimentam 1,6 trilhão de reais a cada ano. Hoje, entre os 
brasileiros com mais de 55 anos, 86% têm renda própria e, entre aqueles com mais 
de 75 anos, 93%. Naturalmente, você vai entender um pouco mais a fundo sobre esse 
cenário, principalmente no que se refere à desigualdade social. Contudo, esses dados 
já adiantam o novo desenho em que está se configurando a nova cara da sociedade 
brasileira nos próximos vinte anos. 
Teremos sim mais pessoas idosas e cada vez mais, bem mais idosas. Será 
preciso de mais opções de lazer, de mais convivência familiar, de mais atividades 
físicas, lúdicas, diversão, assistência médica, social e também de segurança com 
maior capacitação dos seus agentes para esses novos desafios que mudam tão 
rapidamente a cada dia, dando novos significados à velhice na vida das pessoas. 
Todavia, a longevidade não é igual para todos, ela tem a ver com saúde e bem- 
estar, e não o prolongamento da vida a qualquer custo, em estado vegetativo, muitas 
vezes sustentado por aparelhos hospitalares e drogas farmacêuticas. 
O Município de São Paulo participa do projeto Saúde, Bem-Estar e 
Envelhecimento (SABE), que é coordenado pela Organização Pan-Americana de 
Saúde (OPAS) cujo objetivo é saber sobre as condições de vida das pessoas com 
mais de 60 anos residentes de áreas urbanas de sete países da América Latina e 
Caribe, avaliando questões de gênero, dados socioeconômicos, estado de saúde, 
acesso e utilização dos cuidados de saúde. 
Foram entrevistadas 2.143 pessoas em 2000 e verificou-se que as mulheres são 
a maioria; 62,6% viveram por cinco anos ou mais na área rural até os 15 anos de vida; 
13,2% viviam sós; 6,9% tinham deterioração cognitiva; 18,1% eram depressivas. Nas 
autoavaliações, 53,8% dos entrevistados consideraram sua saúde regular ou má, 
tendo como mais frequentes as seguintes enfermidades: hipertensão (53,3%); 
artrite/artrose/reumatismo (31,7%) e diabetes (17,9%). A grande maioria dos idosos 
não apresentou dificuldades nas atividades básicas de vida diária (80,7%) iv. Esses 
resultados foram obtidos pela amostra de 2000, mas se sabe que o quadro piorou no 
período entre 2000 e 2010, o que leva à reflexão de que não se está envelhecendo 
bem. 
 
 
 
 
 
 17 
Em 2010, dos 2.143 entrevistados em 2000, apenas 556 estavam vivos e, 
 
[...] no grupo de 60 a 64 anos, 16,2% não conseguiam desempenhar uma ou 
mais atividades básicas, como alimentar-se e tomar banho; 35,5% não 
conseguiam realizar atividades instrumentais, que são um pouco mais 
complexas, como, por exemplo, da preparação de alimentos à utilização de 
transporte público ou privado, de cuidar de animais de estimação a gerenciar 
seus recursos financeiros. Em 2000, 53,3% relatavam ter hipertensão; em 
2017, foram 54,8%. Os percentuais para diabetes subiram muito – de 17,9% 
para 24,6% no mesmo período. (TAVARES, 2020, p.24). 
 
A partir dessa pesquisa, é inevitável a seguinte reflexão: se o envelhecimento é 
a coisa mais moderna que existe para se celebrarem os novos anos de vida recebidos, 
é preciso também pensar em como envelhecer melhor para se manterem a vitalidade 
e a saúde integrais. 
Envelhecimento é um processo natural da vida e acarreta algumas alterações 
intrínsecas para o organismo, processos fisiológicos normais e não representam 
doenças. Não se morre de “velhice”, apesar de que, recentemente, a Organização 
Mundial de Saúde (OMS) adotou, em sua Classificação Internacional de Doenças 
(CID), um código para morte causada por “velhice”. Essa medida causou indignações em 
várias organizações mundiais de defesa da pessoa idosa, inclusive, na Organização 
das Nações Unidas (ONU), de modo que, em breve, a OMS reverá essa classificação. 
Até lá, vale a pena repetir: ninguém morre de velhice. E, se por um lado, a ideia 
de envelhecimento tem alguma relação com a ideia de morte, lembre-se de que, para 
morrer, basta estar vivo. 
A médica especialista em cuidados paliativos e autora do livro “A morte é um dia 
que vale a pena viver – um excelente motivo para se buscar um novo olhar para vida”, 
Ana Cláudia Quintana Arantes, diz que a inquietação é o sentimento mais comum. 
“Será que havia algum jeito de não estar ali?” “Se eu não tivesse fumado ou bebido 
demais?” Um dos arrependimentos mais comuns, segundo Ana, é “Eu gostaria de ter 
priorizado as minhas escolhas em vez de ter feito escolhas para agradar os outros”. 
(ARANTES, 2019, p 129). 
Se não se pode controlar o momento da morte, é possível, pelo menos retardá- 
lo cuidando da saúde física, mental, psicológica e espiritual, em busca da longevidade. 
As principais características fisiológicas do envelhecimento nos seres humanos 
são o embranquecimento dos cabelos, a perda de elasticidade da pele, o surgimento 
de rugas, alterações na memória recente, aumento da gordura corpórea, redução do 
tecido muscular, por exemplo. 
Sabendo de todos esses fatos, é possível controlar a ingestão de alimentos 
saudáveis, bebidas alcóolicas, praticar exercícios físicos, buscar atividades 
 
 18 
intelectuais e lúdicas para fortalecer a mente, criar laços afetivos e sociais, cuidar mais 
dos nossos próprios desejos e sonhos, tudo isso para garantir uma vida longa com 
maior qualidade. 
Assim, há um novo entendimento sobre o envelhecer que ultrapassa a visão 
meramente cronológica e que vem sendo substituída pela visão biopsicológica, ou 
seja, não mais importa a data do nascimento, mas o quanto se está bem física, 
psicológica e intelectualmente. 
GERONTOLOGIA é o estudo interdisciplinar dos fenômenos relacionados ao 
envelhecimento do ser humano. Trata-se de uma área do conhecimento que 
ultrapassa as barreiras de classificações estanques de disciplinas para abranger toda a 
complexidade do envelhecimento. Esse campo é relativamente novo no Brasil, mas já 
constitui objeto de inúmeras especializações, pós-graduações e até mesmo 
graduações no país. Trata-se de um campo promissor para o futuro, já que em 2060, 
25% da população brasileira terão mais de 60 anos. 
Os achados da gerontologia são fundamentais para orientar o sistema de 
segurança pública. A partir dos próximos tópicos, você vai conhecer um pouco sobre 
essa nova área do conhecimento que está em ascensão para integrá-la à sua 
atividade na segurança pública. 
 
Figura 6: Brasil 
Fonte: Steve Evans, 2008. 
 
 
Todas as pessoas, independentemente de sua idade, são sujeitos dos direitos 
inerentes à pessoa humana e, consequentemente, são lhes asseguradas as 
oportunidades e facilidades para viver sem violência, preservar sua saúde física e 
mental e seu aperfeiçoamento moral, intelectual e social. 
 
 19 
O ordenamento jurídico brasileiro possui um microssistema de proteção dos 
idosos, que tem, como fundamento principal, o art. 230 da Constituição Federal de 
1988, que dispõe sobre o dever de amparo às pessoas idosas pela família e pelo 
Estado, assegurando sua participação na comunidade e defendendo sua dignidade, 
bem-estar e o direito à vida. Esses direitos são reconhecidos inclusive no âmbito 
internacional, como se extrai da Resolução nº 46/1991 da Assembleia Geral da 
Organização das Nações Unidas (ONU). 
Compõe esse microssistema um conjunto de leis específicas, notadamente: 
 
 
Esse microssistema é composto ainda por diversas normas estaduais e 
municipais, que estabelecem políticas locais de defesa das pessoas idosas, bem 
como por uma grandevariedade de normas infralegais. 
Ao longo do presente material, você vai conhecer diversos direitos que são 
assegurados para as pessoas idosas. Porém, dada a sua importância, convém já 
tratar de um deles: a prioridade do atendimento da pessoa idosa em qualquer serviço 
privado ou público, inclusive naqueles de segurança pública (art. 1º da Lei nº 
10.048/2000). Além da pessoa idosa, possuem direito a essa prioridade: as pessoas 
com deficiência, as gestantes, as lactantes, as pessoas com crianças de colo. 
Esse atendimento prioritário impõe não só a pronta resposta da pessoa idosa, 
caso outra pessoa com prioridade não esteja também presente; assegura também o 
seu tratamento diferenciado, em razão das circunstâncias da sua idade. 
Mas o que acontece quando estão presentes, para atendimento, duas pessoas 
com prioridade legal, nos termos da Lei nº 10.048/2000? Por exemplo, o que acontece 
quando dois idosos aguardam atendimento? Ou mais: entre uma pessoa idosa, outra 
com deficiência e uma gestante, quem será atendido primeiro? 
Não há dispositivo legal que trate expressamente de uma hierarquia entre as 
prioridades legais. Porém, o art. 3º, §2º, da Lei nº 10.741/2003 (Estatuto do Idoso, 
alterada pela Lei nº 13.423/22 - Estatuto da Pessoa Idosa ) estabelece que, entre as 
 
 
Lei nº 8.842/94, que instituiu a Política Nacional do Idoso; 
 
 20 
pessoas idosas, “é assegurada prioridade especial aos maiores de oitenta anos, 
atendendo-se suas necessidades sempre preferencialmente em relação aos demais 
idosos”. Esse dispositivo é interpretado no sentido de que a prioridade da pessoa 
idosa com mais de 80 anos seria a “prioridade entre as prioridades”, sobrepondo-se 
sobre as demais estabelecidas pela Lei nº10.048/2000. A razão dessa diferenciação 
seria o fato de, em geral, as pessoas idosas octogenárias apresentarem uma perda física 
e cognitiva maior, em comparação com os segmentos mais jovens do conjunto de 
pessoas idosas. Fora dessa situação, o atendimento delas com prioridade legal deve, 
em geral, seguir a ordem especificada pelo estabelecimento. 
Isso é relevante, porque diversos conflitos ocorrem em estabelecimentos 
públicos e privados, em razão de disputas em torno da questão da preferência. Assim, 
conhecer o funcionamento objetivo dessa regra é importante para você atuar como 
mediador e encontrar a melhor resolução para esses conflitos. 
 
Aula 3 - Estereótipos e estigmas, preconceito, discriminação e etarismo 
 
É mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito. 
 
Albert Einstein 
 
 
 
No presente a mente, o corpo é diferente 
E o passado é uma roupa que não nos serve mais 
No presente a mente, o corpo é diferente 
E o passado é uma roupa que não nos serve mais 
Belchior. Velha roupa colorida. Clique aqui e acesse. 
 
Figura 7 – Povo de San Juan Bautista 
Fonte: Wilfredor, 2013. 
 
Qual é a primeira imagem que você tem quando pensa em uma pessoa idosa? 
O que vem à sua mente quando pensa na sua velhice, sem filhos ou com os filhos 
com suas próprias famílias? 
https://www.youtube.com/watch?v=UvAKkqPwqs4
 
 21 
Será que você pensa que será pessoa idosa chata, ranzinza, triste, solitária, que 
viverá em um asilo, sem receber visitas e se esquecendo de grande parte de suas 
memórias? 
Muitas pessoas têm essas imagens do envelhecimento, de que a velhice é 
doença e que as pessoas idosas ficam em casa esperando a morte chegar. A 
realidade, porém, é bem diferente. 
Como se abordou no tópico anterior, envelhecer é uma coisa muito moderna e 
há várias formas de se passar por isso. Acompanhe, por exemplo, o perfil 
@avósdarazão, na rede social Instagram. Nele, com mais de 160 mil seguidores, três 
garotas, Gilda Bandeira de Mello (80 anos), Helena Wiechmann (93 anos), e Sônia 
Bonetti (94 anos), abordam questões do cotidiano com muita diversão. Ora, uma vida 
muito diferente daquela que talvez você tenha se imaginado para você mesmo, 
quando for octo ou nonagenário, não é? 
 
Figura 8 – Avós da Razão 
Fonte: Vik Photo Atelier, 2020. 
 
 
Agora, alguns conceitos fundamentais para suas relações pessoais, sociais e 
profissionais que irão ajudar você a evitar muitos problemas na sua vida: estereótipo, 
preconceito, estigma e discriminação. 
Chama-se de Estereótipo a generalização que se faz de um grupo a partir das 
similaridades entre uma situação, coisas ou pessoas. Exemplo: ao ver muitas 
mulheres idosas usando a cor rosa em determinada cultura, pode-se pensar que essa 
tonalidade é própria do público feminino; se durante a infância, as pessoas idosas que 
conviviam com as crianças eram frágeis, doentes e separadas das suas famílias 
 
 22 
quando seus filhos se casavam, é natural associar essa experiência ruim a pessoas 
idosas. 
Por sua vez, o Preconceito é um julgamento, um juízo normativo de 
necessidade, sobre uma situação, uma pessoa ou uma coisa, fundamentado em um 
estereótipo. Pegue o mesmo exemplo de ver mulheres usandosempre a cor rosa. Daí, 
por um julgamento baseado na sua experiência e somente nela, você conclui que 
Sara, uma mulher que você acabou de conhecer, só pelo fato de ela ser mulher, adora 
usar a cor rosa. Ou seja, um juízo da sua cabeça, um salto de conclusão à distância 
– quase uma modalidade olímpica – ou mesmo um exercício de futurologia, de que 
Sara, só porque é mulher, ama rosa. A mesma coisa, só porque uma pessoa é idosa, 
você conclui, a partir da sua experiência com outras pessoas idosas, que toda pessoa 
idosa é frágil, chata, ranzinza e cheia de manias. Só que não, não é? 
Estigma é a característica específica, sempre de caráter negativo, que leva à 
generalização (estereótipo) e, consequentemente, ao preconceito, aquele julgamento em 
quese busca prever o comportamento futuro das pessoas baseado apenas na sua 
experiência. Assim, não se pode dizer que a roupa rosa é uma característica negativa, 
e que usar a cor rosa seria um estigma, ou seja, uma marca negativa. Contudo, no 
segundo exemplo, pode-se dizer sim que julgar que “toda pessoa idosa é chata, 
ranzinza e cheia de manias” é um estigma para pessoas idosas. 
Finalmente, Discriminação é uma prática de exclusão que se materializa na 
forma de ações e omissões, de palavras e de gestos, em desfavor de uma pessoa 
que tem uma característica considerada pelo autor da discriminação como negativa, 
um estigma. 
O preconceito está na cabeça das pessoas; a discriminação, no seu 
comportamento, embora ela tenha como ponto de partida o estereótipo e o 
preconceito. 
Se o ato discriminatório causar a exclusão social de sua vítima ou lhe trouxer 
sofrimento em razão de palavras, ofensas e xingamentos, a pessoa pode incorrer no 
crime de injúria qualificada (art. 140, §3º, do Código Penal) ou de racismo (art. 20 da 
Lei nº 7.716/1989v). A Discriminação, quando caracteriza uma conduta típica, ou seja, 
prevista na legislação penal, é crime. E tudo começou em razão de um falso 
julgamento baseado em generalizações sociais sem qualquer fundamento que 
corresponda à natureza das pessoas. Ninguém é igual a ninguém. 
Para ilustrar a ideia dos dois exemplos, quando você obriga uma mulher, contra 
a sua vontade, a usar a cor rosa, só porque você concluiu que toda mulher deve usar 
rosa, porque em toda sua experiência você achou que mulher usa rosa, você está 
 
 23 
cometendo um crime, no mínimo, um constrangimento ilegal (art. 146 do Código 
Penal) e se tiver outras circunstâncias como convivência familiar ou doméstica, ainda 
responderá com base na Lei nº 11.340/06 (Lei Maria da Penha). Mesma coisa se você 
tratar mal ou xingar uma pessoa idosa, só porque você julgou que toda pessoa idosa 
é chata e ranzinza, você comete o crime de injúria qualificada (art. 140, §3º, do Código 
Penal). 
É bom esclarecer uma coisa: nem sempre as generalizações são ruins para a 
convivência social. Aliás, elas são indispensáveis, uma vez que são o ponto de início 
de muitos comportamentos. Porém, nãose pode deixar as generalizações se 
cristalizem em dogmas que resistem mesmo quando contraditados pela realidade. 
Cuidado! Evite que generalizações; e seus preconceitos se transformem em atos 
discriminatórios capazes de disseminar sofrimento a nossa volta. E esse cuidado deve 
ser redobrado, quando se trata de preconceitos relativos a populações minorizadas, 
pois, muito frequentemente, esses preconceitos deságuam em práticas 
discriminatórias. 
 
 
 
Quanto às pessoas idosas, Fran Winandy (2021), com base em um estudo da 
Universidade de Montreal, no Canadá, listou 14 estigmas ligados ao envelhecimento: 
“falta de disponibilidade de socialização, saúde frágil, aparência ruim, falta de 
preocupação com higiene pessoal e maior incidência de problemas financeiros, perda de 
memória, declínio de agilidade física e mental, perda de audição, dificuldade de 
aprendizado e de lidar com tecnologias”. 
Será mesmo que toda pessoa idosa que você conhece é necessariamente 
assim? Cuidado com os seus preconceitos ou você será campeã ou campeão na 
modalidade de salto de conclusão à distância!!! 
Segundo o psicólogo estadunidense Daniel Katz, os preconceitos não se 
norteiam pela lógica; eles são baseados em valores pessoais, como crenças 
religiosas, experiências de vida ou valores morais básicos, aprendidos, por exemplo, 
Consideram-se populações minorizadas todas aquelas que 
 
 
estigmas 
 
 
 
 
 
 24 
com os amigos e com a família. Tentar mudá-los não significa contestar esses valores ou 
julgar seus amigos ou familiares negativamente. Não! Longe disso. A ideia é refletir sobre 
os preconceitos, buscar as suas origens, inclusive históricas, para manter aqueles 
que são socialmente funcionais e revisar aqueles que causam sofrimentos a outras 
pessoas. É preciso evitar o dogma, o fechamento dos próprios preconceitos, que 
conduzem a uma postura hostil ao desconhecido, ao novo que não se enquadra nunca 
numa visão petrificada de mundo. 
Enquanto chamamos a discriminação contra as pessoas negras de racismo; 
contra as mulheres, de machismo, o Etarismo, Ageísmo, ou Idadismo é a 
discriminação contra as pessoas idosas, ou seja, tratá-las de forma negativa ou 
desvalorizá-las pelo simples fato de possuírem idade cronológica acima de 60 anos. 
Quem primeiro cunhou essa expressão foi o geriatra (médico especialista em idosos) 
estadunidense Robert Butler, nos anos 1960. 
Mas nada melhor do que esse vídeo aqui no canal das Avós da Razão no 
Youtube, para dar o devido lugar de falar e voz “Às vozes da razão” sobre o Etarismo. 
Aperte o play! Clique aqui para assistir! 
No vídeo, Gilda explicou dois tipos de etarismo, ou seja, o “benevolente” e o 
“negativo”. Os dois são muito ruins. Além dos exemplos que as avós da razão citaram, 
temos mais situações que podem ser consideradas como etarismo, como bem 
lembrou Fran Winady, no seu livro Etarismo, 2021: 
 
 
• Omitir situações que lhe parecem mais agressivas ou realistas demais para não 
chocar o idoso (etarismo benevolente) – como não vou contar que um parente 
faleceu para não ferir emocionalmente uma pessoa idosa; 
• Usar expressões no diminutivo, (caminha, roupinha). A pessoa idosa não é 
criança 
(etarismo benevolente); 
• Perguntar a idade para pessoa e dizer que ela está ótima para a idade 
(etarismo benevolente) – no fundo a gente ressalta esse padrão de busca eterna 
da 
juventude, o que pode gerar sofrimento e cobrança às pessoas idosas; 
• Evitar ter contatos com pessoas idosas por conta da idade e as excluir das rodas 
de conversa, da família; 
• Ficar repetindo o que disse ou falar mais alto ou pausadamente só por achar que a 
pessoa idosa não vai entender, ao invés de analisar o caso concreto; 
• Achar que pessoas idosas são mais chatas por conta da idade; 
https://www.youtube.com/watch?v=fgF-Dc80PLY
 
 25 
• Fazer piadas depreciativas, por conta da idade – (etarismo recreativo); 
• Ficar nervoso no trânsito quando há uma pessoa idosa dirigindo, só porque ela é 
mais lenta ou precisa prestar mais atenção; 
 
 26 
 
 
 
 
 
Figura 9: Espírito Humano 
Fonte: 7C0, 2020. 
 
 
A nossa sociedade é bastante cruel com essas populações minorizadas. 
Comportamentos como esses levam a ainda mais estresse e cobranças das pessoas 
idosas, que, como qualquer outro ser humano, passam por várias transformações 
biopsicossociais ao longo da vida. 
Tratamentos cruéis como esses podem levar ao desenvolvimento de doenças 
físicas e psíquicas como depressão, bipolaridade, ansiedade, pressão alta, estresse, 
síndrome do pânico, entre muitas outras. 
Chama-se de Gerascofobia o termo usado para identificar o medo irracional 
de envelhecer. Esse pânico costuma estar relacionado com mudanças na aparência, 
declínio na saúde, possibilidade de dependência na velhice e medo da solidão, ou 
seja, muitos daqueles estereótipos, características generalizantes, decorrentes de 
saltos de conclusão à distância. Cada pessoa é uma pessoa e não é porque todo 
• Ignorar a pessoa idosa quando ela está acompanhada e ficar apenas perguntando para 
o acompanhante, sem levar em conta a opinião ou a vontade da pessoa idosa 
– acontece muito em consultas médicas ou em registros de boletins de ocorrência, 
como se os sintomas, dores e queixas pudessem ser descritas melhor e mais 
claramente pelo outro. Trata-se de falta de respeito e, mais do que isso, falta de 
empatia. 
 
 27 
 
mundo vai ficar velho, que serão todos iguais. Pessoas legais, pessoas chatas, 
pessoas honestas, pessoas canalhas, todos envelhecem. 
Outro conceito importante para conhecer é o chamado “AGE SHAMING”, que 
é o nome dado para a vergonha de envelhecer, um fenômeno que afeta principalmente 
as mulheres. 
Nesse contexto, é muito útil conhecer e refletir sobre o conceito de 
MICROAGRESSÕES, uma ideia desenvolvida pelo psicanalista estadunidense 
Chester Pierce, sobre condutas relacionadas ao racismo contra as pessoas negras 
que reforçam imaginários conscientes e inconscientes sobre o “desvalor” de pessoas 
em razão de uma caraterística física ou cultural, como melanina na pele ou idade de 
uma pessoa (MOREIRA, 2019, p.52). 
Segundo Chester Pierce, essas migroagressões são manifestadas por meio de 
atos, mensagens, representações verbais, físicas, culturais e rituais que reforçam o 
“desvalor” de grupos. Ele as classificou em três: 
 
Microssaltos 
 
Caracteriza o desprezo ou a agressividade de uma pessoa em relação à outra em 
função de seu pertencimento social. São geralmente conscientes e propositais e 
decorrem de estereótipos negativos em relação ao outro. Manifestam-se, por 
exemplo, pela conduta de evitar interações sociais com as populações minorizadas 
e de não tratar essas pessoas com a mesma educação que trataria outros grupos. 
Microinsultos 
 
Têm a ver com o sentimento de superioridade em relação ao outro, podendo ser 
consciente ou não, e se manifestam pela depreciação de símbolos culturais de outros 
grupos, concretizada, por exemplo, no ato de falar mal de símbolos religiosos do 
grupo estigmatizado. 
Microinvalidações 
 
É ignorar as experiências, os pensamentos e as opiniões dos outros. 
 
Uma das principais e mais sutis formas que essas migroagressões se 
manifestam contra as populações minorizadas é por meio do humor. É o chamado 
racismo, etarismo, capacitismo ou machismo recreativo. Isso porque o humor tem uma 
 
 28 
 
função fundamental nas relações sociais de “distensionamento”. Quem nunca soltou 
uma piadinha ao ficar nervoso ou se encontrar numa situação pública desconfortável 
só para descontrair o ambiente, não é mesmo? Essas brincadeiras servem também 
para criticar a própria condição ou dificuldade para trazer leveza àquela situação de 
tensão. 
Contudo, é preciso prestar atenção nessas situações de modo a não reproduzir 
estereótipos, preconceitos e discriminações em forma dessas modalidades de 
migroagressões. 
Mas o que torna uma piada racista, machistaou etarista? 
Moreira explica: 
[...] uma piada é racista quando pretende causar dano a uma minoria, quando 
pode ser esperado que ela terá esse efeito e quando o dano infligido não pode 
ser moralmente justificado. (...) Piadas são racistas quando propagam 
estereótipos negativos sobre membros de grupos minorizados o que ocorre 
para a reprodução da animosidade social em relação a eles. (MOREIRA, 
2019, p. 79-80). 
 
E quando esses estereótipos negativos construídos no imaginário social para 
desvalorizar características específicas de pessoas como orientação sexual, idade, 
identidade de gênero, cor da pele se concentram em apenas uma pessoa? Ou seja, o que 
deve sentir uma mulher transgênero, lésbica, idosa, negra, pobre, de religião de matriz 
africana e com alguma deficiência? Como acolhê-la quando ela reportar algum tipo de 
crime ou discriminação? Como entender suas dores ao longo da vida? 
Chamam-se de “opressões cruzadas” quando esses marcadores sociais 
negativos se encontram em uma só pessoa. Nesses casos, as discriminações sofridas 
pela vítima do crime não são apenas somadas como parcelas de sofrimento (A + B + 
C, por exemplo), mas sim potencializadas (A x B x C). Por isso, é preciso ter muito 
mais empatia, compreensão para entender as situações em conflito e acolher a vítima 
expressando nosso apoio. 
Compreender a complexidade do conceito de opressões cruzadas leva também 
a outro termo bem importante para o trabalho na segurança pública, a ideia de 
Interseccionalidade. Esse termo é relativamente novo e foi cunhado pela 
pesquisadora social estadunidense Kimberlé Crenshaw, após a Conferência Mundial 
contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e formas conexas de intolerância, em 
Durban, na África do Sul, em 2001. 
Para ela, a ideia da interseccionalidade visa: 
 
 29 
 
Dar instrumentalidade téorico-metodológica à inseparabilidade estrutural do 
racismo, capitalismo e cishetoropatriarcado – produtores de avenidas 
identitárias em que mulheres negras são repetidas vezes atingidas pelo 
cruzamento e sobreposição de gênero, raça e classe, modernos aparatos 
coloniais (AKOTIRENE, p. 19). 
 
Ou seja, entender a existência da interseccionalidade, isto é, a interseção de 
opressões, de características construídas como negativas socialmente em uma só 
pessoa implica uma grande melhoria da prestação dos serviços de segurança, porque se 
entente o usuário em sua complexidade. 
Nem todas as mulheres são iguais. Há mulheres negras, brancas, idosas, 
jovens, ricas, pobres, cis ou transgênero, hetero e homossexuais. A todas elas se 
aplica a Lei nº 11.340/06 (Lei Maria da Penha), cujo objetivo é a proteção da mulher 
contra a violência doméstica e familiar. 
Mas se aplica a todas elas da mesma maneira? Claro que não. Formalmente 
sim, mas materialmente, é preciso acionar o pensamento complexo, com todos 
aqueles conceitos acima tratados, para encontrar a melhor solução criativa, naquele 
caso concreto, para oferecer o melhor serviço e equipamento público para seu 
usuário. 
A interseccionalidade estimula o pensamento complexo, a criatividade e evita 
a produção de novos essencialismos, ou seja, ninguém é igual a ninguém, mas todos 
merecem respeito. 
Assim, enquanto a ideia de opressões cruzadas refere-se ao acúmulo de 
estigmas sociais simultaneamente na experiência social de um indivíduo como, por 
exemplo, mulher negra, mulher idosa, homem idoso homossexual, mulher pobre, a 
interseccionalidade é uma teoria metodológica na qual se busca lidar com 
conceituação de opressões cruzadas no estudo dos fenômenos sociais, na confecção 
e execução de políticas públicas, compreendendo a experiência social dos usuários 
dos serviços públicos a partir da ideia do acúmulo de estigmas sociais. A abordagem 
interseccional leva em conta a potencialização cumulativa dos estigmas na 
experiência social do indivíduo e busca a aplicação de medidas/ações individualizadas 
e acolhimento. 
Para se ter uma noção das opressões cruzadas em relação às pessoas idosas, 
Fran Winanday (2021) traz alguns dados e recortes: 
 
 
30 
 
 
Idosos negros 
 
A velhice de pessoas negras, composta por 48% da população idosa do país, 
merece grande atenção. Grupo marcado pelo racismo e preconceitos relacionados a 
questões sociais e econômicas, somadas às dificuldades de acesso a serviços de 
saúde e empregos, sua velhice é precoce e ruim. Muitos negros não chegam à terceira 
idade e não têm acesso ao envelhecimento ativo. 
 
Figura 10: Grandemum em uma cerimônia de casamento 
 
 
Fonte: Ezequiel Kevin Annan, 2017. 
Idosos homossexuais 
 
Um estudo realizado com 144 idosos LGBTQIA+ apontou que 25% dessas 
pessoas não conseguiram assumir sua orientação sexual para o seu médico; 26% 
disseram que nunca iam revelar a sua orientação sexual para o médico e 20% tinham 
receio que o médico descobrisse. Tais aspectos impossibilitam tratamentos 
preventivos e cuidados direcionados. 
 
 
31 
 
Figura 11: Casal homoafetivo 
 
 
 
 
 
Idosos transexuais 
Fonte: Netflix, 2022. 
A população transexual idosa no Brasil é rara, já que, aqui, a expectativa de 
vida desse grupo populacional não passa dos 35 anos. Por conta disso, os escassos 
estudos sobre o tema são internacionais. No âmbito profissional, é importante 
destacar o trabalho do portal de vagas” Transempregos” cujo objetivo é garantir 
emprego e dignidade a pessoas trans, com mais de 700 empresas parceiras e um 
banco de dados crescente, com mais de 22.000 usuários. 
 Figura 12: SandyStone 
 
 Fonte: Andymiah, 2011. 
 
 32 
 
 
 
 
 
 
Esses recortes são apenas exemplos sobre quão complexa é sua atividade na 
segurança pública, não é mesmo? Como bem recomendou Fran Winandy (2021, p. 
70), que tal fazermos o “Teste do Pescoço”? É simples! A ideia é olhar em volta, no 
seu entorno, vire seu pescoço, e avalie qual o percentual de pessoas pertencentes a 
 
 
 
[...] exemplos da perpetuação do modelo patriarcal e violento como forma de 
relação entre os sexos. São mulheres desprotegidas, abandonadas e 
fragilizadas que se veem impossibilitadas de tomar quaisquer atitudes contra 
esses homens, que, por sua vez exercem o papel masculino pela violência. 
(PENSO, 2019, p. 53). 
 
Figura 13: Idosa Gambiana retrato facial 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Flickr, 2008. 
 
 33 
 
grupos minorizados que fazem parte do seu dia a dia. No seu trabalho, por exemplo, 
quantas pessoas com deficiência? Quantos líderes negros? Quantos LGBTQIA+ na 
sua equipe? E quantas mulheres idosas? 
Essas microagressões, preconceitos discriminatórios e estigmas estão 
arraigados no imaginário social e, você, como profissional da segurança pública, deve ter 
consciência delas não apenas como parte do imaginário social, mas também da 
subjetividade dos próprios agressores, mas principalmente como parte de si! Veja 
bem: não é porque somos responsáveis pela garantia dos direitos humanos e pela 
paz social que estamos automaticamente separados, como num passe de mágica, 
dessa cultura discriminatória contra populações historicamente minorizadas. 
O primeiro passo para mudar essa cultura da discriminação é a sensibilização, que 
se dá por meio do conhecimento. É muito bom saber desses conceitos quando 
conversar ou fizer um acolhimento às pessoas idosas visando àqueles sinais de medo ou 
vergonha do envelhecimento. 
Muitas vezes, esses sentimentos levam ao autoisolamento social, ao descuido 
consigo próprio, à omissão de violências provocadas por parentes ou mesmo por 
cuidadores, como se as pessoas idosas se sentissem “fardos” para suas famílias. 
Cuidado! Esses sentimentos podem levar ao agravamento de conflitos e até a 
resultados piores para elas. Por isso, “olhar de lince” para conseguir identificar as 
questões subjacentes por de trásdos conflitos. Mas, calma, haverá um módulo 
específico com dicas boas para melhor acolher as pessoas idosas e investigar 
eventuais condutas criminosas contra elas. 
Como bem disse uma das mentes mais brilhantes que já passou pelo planeta 
Terra, Albert Einstein, “é mais fácil desintegrar um átomo que um preconceito”. A luta 
contra os estereótipos, preconceitos, estigmas, discriminações é uma luta diária e 
estamos juntos nessa. Não é impossível. Se, por meio do conhecimento, foi possível 
fazer uma fissão nuclear, assim também será para detonar preconceitos. 
 
 34 
Aula 4 - Relacionamentos intergeracionais 
 
 
Você diz que seus pais não entendem, 
mas você não entende seus pais 
Você culpa seus pais por tudo 
Isso é um absurdo 
São crianças como você 
O que você vai ser quando você crescer? 
Legião Urbana, Pais e Filhos. Clique aqui para assistir. 
 
 
Figura 14: Saudável 
 
Fonte: SquereSpace, 2018. 
 
 
 
“Ah, na minha época, os jovens respeitavam os mais velhos, as músicas eram 
bem mais divertidas e tinham letra”. Quem já não se pegou falando isso ou mesmo 
escutando isso de pessoas mais velhas? 
Abordar o tema de pessoas idosas implica entender a ideia de geração. Como 
pensou o filósofo Mannheim (1928), “jovens que experienciam os mesmos problemas 
históricos concretos são parte de uma mesma geração”. De fato, compartilhar as 
mesmas experiências concretas, vivenciadas em uma coletividade, localizadas em um 
determinado tempo e local leva as pessoas a produzirem visões parecidas de mundo, 
sobre significados para família, trabalho, valores, afetos, gostos culturais, 
estabelecendo construções de laços de solidariedade social que levam ao 
entendimento recíproco sobre como lidar com os desafios da vida cotidiana. 
Pessoas que viveram o medo e a escassez de uma guerra, por exemplo, têm 
valores diferenciados sobre a questão do desperdício e da economia. Pessoas que 
https://www.youtube.com/watch?v=sfixHYBWaiU
 
 35 
 
viveram fortes desastres naturais ou mesmo crises econômicas tendem a ser mais 
cautelosas em relação à poupança e à previdência privada. 
O conceito de geração é uma chave de leitura para auxiliar a compreender os 
fenômenos sociais. Para você da segurança pública, ajuda a entender como as 
pessoas veem o mundo segundo as lentes dos óculos do seu tempo, valores e lugar 
onde foram criadas. 
Assim, pode-se dizer que geração é uma construção social que pode ser 
entendida como grupo de pessoas nascidas num determinado ano ou período de 
tempo e que teriam um padrão de valores e forma particular de ver o mundo. Nessa 
concepção, cada indivíduo faz parte de uma única geração, embora participe de 
diferentes grupos etários no decorrer da vida. (WINANDY, 2021) 
Naturalmente se pode reduzir a complexidade das pessoas a classificações 
sociais ou a características generalizadoras, como apresentado no tópico anterior. 
Contudo, conhecer o lugar e o tempo em que a base X das pessoas se formou é bem 
relevante para entender as suas expectativas e decisões que tomam na vida. Não 
quer dizer, claro, que teremos a “síndrome de Gabriela”, como na música “Eu nasci 
assim, vou ser sempre assim, Gabrielaaaa... sempre Gabrielaaaa...”. É possível 
mudar e, de fato, muda-se muito, principalmente, quando se abre à diversidade e ao 
convívio com outras gerações. 
Grande parte dos cientistas sociais entende que as gerações não surgem em 
razão da cadência temporal estabelecida por uma sucessão de gerações biológicas, 
de forma que não há um prazo certo entre uma e outra, vai depender do ritmo das 
mudanças sociais ou históricas daquele local e daquele tempo (FEIXA, 2010). 
Nesse contexto, apresentam-se os seguintes grupos geracionais: 
 
 
 
 
 
 36 
 
 
Babies Boomers - nascidos no pós-guerra até meados da década de 60 (1946-1964), 
época marcada por aumento das taxas de natalidade, sobre a qual é comum ouvir de 
nossos avós sobre família de 15 a 20 irmãos! 
 
Geração X – nascidos entre o início da década de 1960 até o final dos anos 1970. 
 
Geração Y ou Millenials – referentes aos nascidos entre 1980 até o meio da década 
de 1990. Muitos dos nascidos nessa época costumam lidar melhor com as mudanças, 
tendo em conta que o mundo passou por diversas transformações desde o fim da 
Guerra Fria e das ditaduras militares na América Latina, além de graves crises 
econômicas. 
 
Geração Z ou Zoomers – nascidos entre 1995 até o início dos anos 2005. Essa é a 
geração da era digital, na qual grande parte dos jovens cresceu em contato com a 
internet e celulares. 
 
Geração Alpha – aqueles que nasceram a partir de 2010 até a atualidade. 
 
Em que pese seja comum a divisão das gerações segundo o período de 
nascimento das pessoas, é importante também saber sobre a existência dos 
seguintes conceitos: 
 
 
Perennials ou geração ageless 
 
Referindo-se à noção de perenes, permanente, são aqueles que desafiam os 
estereótipos tradicionais relacionados às pessoas mais velhas, de modo a não se 
encaixarem nessa classificação de gerações, pois estão sempre florescendo, já que 
vivem e aproveitam o momento presente, têm amigos de todas as faixas etárias e 
procuram se atualizar nas questões relacionadas à tecnologia. Eles valorizam hábitos 
saudáveis e a manutenção da energia e da disposição. 
Geração Canguru 
 
É um termo originado na França para designar pessoas com idade de 25 e 34 
anos que adiam a saída da casa dos pais. Segundo IBGE, cerca de 60% dessa 
geração é composta por homens com bom nível de escolaridade, empregados, 
 
 37 
 
 
 
 
 
Como bem lembrou WINANDY (2021), os desafios da geração sanduíche 
agravaram-se ainda mais com a pandemia de COVID-19, com um número recorde de 
filhos adultos voltando para a casa dos pais, além de pais e avós idosos precisando 
de novos tipos de cuidado. Assim, 
[...] a geração sanduíche acostumada a abraçar boa parte das despesas 
envolvidas e assumir outras responsabilidades, foi pressionada a cuidados 
de questões sociais, emocionais e financeira de três gerações, quando não 
quatro”. (WINANDY, 2021). 
 
 
 
 
estão relacionados com a falta de conhecimento sobre o processo do envelhecimento 
 
 
 
SAIBA MAIS! 
 
Para saber mais, veja aqui interessante entrevista do filósofo alemão Frank 
Schirrmacher, autor do livro “O Complô Matusalém”, lançado em 2004 na Alemanha, 
dada à Revista Veja, em 15 de agosto de 2004, sobre as perspectivas do 
envelhecimento no mundo. 
 
A ditadura dos jovens 
 
O filósofo alemão diz que os velhos são tratados como estorvo e prevê um choque de 
gerações em poucos anos, quando os idosos forem maioria. 
 
 38 
 
O filósofo alemão Frank Schirrmacher acredita que a humanidade está às vésperas 
de uma revolução econômica, política e cultural, motivada por uma modificação 
demográfica radical: o envelhecimento da população. "Nosso envelhecimento 
pessoal, não apenas o envelhecimento abstrato das estatísticas oficiais, já está sendo 
tratado como uma catástrofe natural", escreveu Schirrmacher em seu livro O Complô 
Matusalém (sem tradução no Brasil), lançado neste ano na Alemanha. Em apenas 
três meses, a obra vendeu 300.000 exemplares. Ele aconselha os jovens a mudar de 
comportamento em relação aos idosos desde já, sob o risco de verem a própria ruína em 
um futuro próximo. Doutor em filosofia pela Universidade de Cambridge, na Inglaterra, 
Schirrmacher tem 44 anos, é diretor do Frankfurter Allgemeine, um dos jornais mais 
tradicionais da Alemanha, e publicou mais de uma dezena de livros em que se dedica 
a analisar a sociedade moderna. De seu escritório, em Frankfurt, ele explicou a VEJA 
sua teoria sobre a revolução dos velhos. 
 
Veja – O senhor escreveu que quando os jovens e os adultos de hoje chegarem à 
terceira idade viverão em um planeta que será um grande asilo de velhos. Por quê? 
 
Schirrmacher – As estatísticas do envelhecimento da população mundial mostram 
isso. Em 2050, viverão na Chinatantas pessoas com mais de 65 anos quanto hoje em 
todo o mundo. Nesse período, o número de idosos no planeta vai triplicar, enquanto o 
resto da população aumentará apenas 50%. O total de homens e mulheres 
centenários se multiplicará por dez. Na América Latina, o número de pessoas com 
mais de 80 anos será quatro vezes maior que agora. Na Alemanha, em apenas uma 
década haverá mais indivíduos acima dos 50 anos do que abaixo dessa idade. 
Quando chegarem à terceira idade, as mulheres alemãs que hoje têm 30 anos serão 
a maioria no país. Pela primeira vez na história, o número de velhos será maior que o 
de crianças. A humanidade envelhece numa rapidez nunca vista antes. 
 
Veja – Estamos preparados para isso? 
 
 
Schirrmacher – Não. Em 99,99% da história da humanidade as pessoas nunca 
viveram mais que trinta ou 35 anos. A experiência de ficar velho, de viver sessenta 
anos ou mais, é muito nova. Nossa sociedade foi construída com base na expectativa de 
vida do século XIX. Nossas instituições, o casamento, o Estado, as empresas e o 
 
 39 
 
sistema de previdência, como conhecemos hoje, vêm de uma época em que apenas 
3% das pessoas ultrapassavam a barreira dos 65 anos. É como uma roupa que ficou 
muito curta. Não estamos adaptados a essa nova realidade. O resultado é que 
desperdiçamos o maior recurso que temos: tempo de vida. Os idosos não podem mais 
ficar em casa, esperando o tempo passar. Nossa velhice não será confortável. Temos de 
descobrir o que fazer com a segunda vida que ganhamos de presente. 
 
Veja – O que precisamos fazer para nos adaptar a esse fenômeno demográfico? 
 
 
Schirrmacher – Temos de revolucionar o modo como os idosos são vistos e tratados. 
Nossas sociedades não vão sobreviver se o seu maior grupo populacional for 
colocado à margem, como ocorre hoje. Tiramos dos velhos sua dignidade, seu posto 
de trabalho e sua biografia. São tratados como um estorvo, como seres improdutivos, sem 
memória, maçantes e fracos. Imagine uma sociedade em que metade da população 
sofre esses preconceitos. Esse será o mundo em que viveremos, se não mudarmos 
o conceito do envelhecimento a partir de agora. Será um mundo em que a metade mais 
jovem vai rechaçar a metade mais velha. E os idosos sentirão raiva de si mesmos por 
consumir os recursos da sociedade sem construir ou produzir nada. 
 
Veja – Por que as pessoas se sentem culpadas quando estão envelhecendo? 
 
 
Schirrmacher – O sentimento de culpa pelo envelhecimento é instintivo. A natureza 
não se interessa mais por seres que não podem se reproduzir. No reino animal não 
há envelhecimento. Um ser que perde a função reprodutiva morre ou é morto. Ou 
simplesmente não chega a esse estágio. Ele vira uma ameaça para o grupo, porque 
não faz mais nada além de se alimentar. Nos humanos, o sentimento é o mesmo. 
Costumamos dizer que não queremos viver até uma idade muito avançada e nos 
programamos para morrer mais cedo do que as estatísticas preveem. Achamos feios 
aqueles que parecem não estar mais em idade reprodutiva e desprezamos os que não 
trabalham mais. Isso tem de mudar. Já estamos vivendo uma revolução na 
sexualidade que doma nosso instinto. A pílula contra a impotência masculina é um 
dos maiores responsáveis por essa mudança de comportamento. O próximo passo é 
levar a revolução dos velhos ao mundo do trabalho. E, por fim, mudar o modo como 
eles são vistos pela sociedade. 
 
 40 
 
 
 
Veja – A idade de aposentadoria deveria ser ampliada? 
 
 
Schirrmacher – Hoje, cada quatro trabalhadores americanos e europeus sustentam 
um aposentado. Quando eu estiver velho, essa proporção será de um para um, o que é 
economicamente inviável. Nos países em desenvolvimento, o crescimento espantoso 
da expectativa de vida vai causar o mesmo problema. Por isso, as pessoas deveriam 
trabalhar até uma idade mais avançada, desde que a profissão o permita. Em 
compensação, quem tem entre 30 e 40 anos e possui filhos deveria trabalhar menos. 
E ganhar mais. Está errada a ideia de que os salários devem aumentar quanto mais tempo 
de serviço o trabalhador tem. Pais que ainda estão criando suas crianças precisam 
ganhar mais que aqueles cujos filhos já são adultos. Por outro lado, deve- se dar aos 
idosos as mesmas condições que são oferecidas aos empreendedores jovens para 
abrir um novo negócio. Atualmente, os bancos dificultam os empréstimos para pessoas 
acima de 60 anos. 
 
Veja – É comum a ideia de que pessoas mais velhas são mais esquecidas, mais lentas 
e menos produtivas que os jovens. Isso é verdade? 
 
Schirrmacher – A generalização é falsa. Os idosos podem ser mais lentos ou menos 
vigorosos, mas compensam com a maior experiência e a confiança no próprio 
trabalho. O que se deve fazer é empregá-los em funções adaptadas às suas 
qualidades. Não há estudo que prove que eles são piores no trabalho que os outros. 
Isso vale apenas para a minoria dos casos. O problema é que, quando você convence 
alguém de que ele não consegue mais trabalhar, ele realmente não vai mais 
conseguir. É o que se faz hoje em dia com as pessoas mais velhas. 
 
Veja – O escritor argentino Adolfo Bioy Casares descreveu em um de seus livros uma 
guerra fictícia em que jovens espancam e matam velhos na rua por achar que eles 
não têm mais serventia. Como o senhor imagina uma guerra entre gerações no futuro? 
 
Schirrmacher – Essa guerra vai começar não com os jovens se voltando contra os 
velhos, mas com os velhos se jogando uns contra os outros. A disputa se dará entre 
os que têm e os que não têm filhos. Os que tiverem acusarão os outros de só terem 
 
 41 
 
vivido para ganhar dinheiro, sem ter se preocupado com a reposição da população, 
necessária para sustentar o sistema previdenciário. Isso já está ocorrendo na 
Alemanha. Mas a verdadeira guerra das gerações se dará na forma de um choque de 
civilizações. Enquanto a Europa, os Estados Unidos, a América Latina e a Ásia 
envelhecem, ocorre uma grande explosão de natalidade nos países árabes. 
 
Veja – Qual será a consequência disso? 
 
 
Schirrmacher – Sociedades com muitos jovens costumam ser muito inquietas, 
agitadas e instáveis. Isso ocorreu na Alemanha, quando surgiu o nazismo. A 
Revolução Francesa se deu em um país com muitos jovens. A revolução iraniana 
aconteceu nas mesmas condições. Esse fenômeno agora está sacudindo todo o 
mundo árabe. A Faixa de Gaza será o território mais jovem do mundo, com uma idade 
média de 16 anos. Nos próximos anos, os jovens entre 14 e 24 anos em países como 
o Egito, o Irã, a Arábia Saudita e a Síria vão representar 20% da população. Haverá 
enorme pressão política e migratória sobre as sociedades ocidentais. O terrorismo já 
é uma das consequências da instabilidade dos países árabes. 
 
Veja – Como mudar a imagem negativa que a sociedade tem dos idosos? 
 
 
Schirrmacher – A mudança tem de começar pelas propagandas, pelos filmes e pelos 
programas de TV. As pessoas mais velhas não podem mais ser retratadas sempre 
como bizarras, loucas ou patéticas. Precisamos de uma campanha de imagem 
positiva para o envelhecimento. Em 1999, pesquisadores alemães mostraram que 
crianças de 4 anos de idade que nunca viram desenho animado se comportavam 
naturalmente quando estavam com idosos. Aos 6 anos, depois de assistirem a vários 
filmes de animação, as mesmas crianças passaram a ter medo das pessoas mais 
velhas. Não é à toa. As histórias infantis retratam os velhos como maus, estúpidos ou 
horríveis. Os jovens não são os únicos que devem mudar o conceito em relação aos 
idosos. Os velhos também devem modificar a imagem que têm de si mesmos. É 
preciso amenizar o culto à juventude que existe hoje. 
 
Veja – Como começou o culto aos jovens? 
 
 42 
 
Schirrmacher – Em maior ou menor grau, ele sempre existiu, porque os jovens 
sempre foram maioria. Já o culto moderno à juventude teve início na segunda metade da 
década de 40, nos Estados Unidos, quando começarama nascer os baby boomers 
(nascidos no período de altos índices de natalidade após a II Guerra). Eles 
transformaram a sociedade radicalmente. Em quinze anos nasceram 70 milhões de 
pessoas. O fenômeno ocorreu também em menor proporção em outros países. Os 
babies boomers provocaram uma revolução no consumo quando se tornaram 
adolescentes, porque eram muitos e tinham poder de compra. O culto à juventude 
surgiu como resultado desse fenômeno econômico. 
 
Veja – Os idosos têm um poder de compra cada vez maior. Isso não levará às 
mudanças de comportamento que o senhor defende? 
 
Schirrmacher – É exatamente o que vai ocorrer. As pessoas da geração do baby 
boom, que revolucionaram a moda, o consumo e a tecnologia no século XX, nos 
próximos vinte anos estarão aposentadas. Elas detêm hoje 70% do poder de compra 
nos Estados Unidos e não poderão ser ignoradas. É a geração que dará início à 
revolução da terceira idade. O que não podemos é esperar ficar velhos para começar 
a transformar a imagem dos idosos na sociedade. Temos de começar a partir de 
agora, enquanto somos fortes e poderosos. Depois, nossa credibilidade será menor. 
Todos aqueles que nasceram entre 1960 e 1980 devem se juntar à revolta. Teremos 
de modificar em poucas gerações um modelo biológico e cultural construído ao longo 
de milhares de anos. 
 
Veja – Há uma onda retrô na moda, na música e nos filmes, em que os adultos tentam 
recuperar os objetos e o estilo de vida da infância. Qual o significado disso? 
 
Schirrmacher – Está ocorrendo uma infantilização da sociedade. É uma reação ao 
envelhecimento. O corpo envelhece, mas a personalidade se recusa a acompanhar a 
mudança. É comum vermos pessoas de 25 a 40 anos que falam ou se vestem como 
criança. A série de livros infanto-juvenis Harry Potter faz mais sucesso entre adultos 
que entre crianças. É como uma operação de beleza. Harry Potter é uma cirurgia de 
beleza para a alma. Faz parte do fenômeno da negação do envelhecimento que existe 
hoje. 
 
 43 
 
 
 
Veja – As cirurgias plásticas, os cremes e os tratamentos estéticos ajudam ou 
atrapalham os idosos a ser mais respeitados? 
 
Schirrmacher – O efeito social das técnicas de rejuvenescimento varia de indivíduo 
para indivíduo. O interessante é que o assunto é tratado como tabu. Apesar de todos 
fazermos de tudo para parecer mais jovens, criticamos quem se submete a 
tratamentos de embelezamento. Quando se transforma o corpo com cirurgias 
plásticas, o que está em jogo é simplesmente se a pessoa está satisfeita consigo 
mesma ou não. Isso não pode ser censurado. Mas, quando um idoso tenta parecer 
mais jovem, nossa reação é considerá-lo um impostor. A origem disso é, novamente, 
o instinto animal. Ao assumir uma aparência jovial, o idoso atrapalha, simbolicamente, 
a função dos jovens de ter e criar filhos. É como se não fosse permitido aos velhos 
parecer que ainda estão em idade de reprodução. 
Veja – A tentativa de parecer mais jovem, no entanto, começa bem antes da terceira 
idade, não? 
 
Schirrmacher – Sim. Nas passarelas de moda, modelos de 13 ou 16 anos são 
vestidas e pintadas para que pareçam ter 30. Obviamente, qualquer um percebe que 
elas são bem mais jovens. Por isso, ao se comparar com elas, até uma mulher de 25 
anos se sente velha e feia. O ideal de beleza e juventude nos faz sentir culpados e 
infelizes, mesmo quando ainda somos jovens. Isso desperta em gerações inteiras a 
sensação de punição e de falta de amor. 
 
Veja – No futuro, o que vai mudar na estrutura familiar? 
 
 
Schirrmacher – As famílias serão mais verticais, o que significa que a pessoa que 
está trabalhando terá de sustentar mais dependentes. Será preciso sustentar os filhos, os 
pais, os avós e, em alguns casos, até os bisavós. Isso porque, com o aumento da 
expectativa de vida, várias gerações viverão simultaneamente. Se não mudarmos o 
conceito de envelhecimento, o mundo será dividido entre a fração dos provedores e a dos 
egoístas. 
 
 44 
 
 
 
Veja – O que as pessoas que estão tendo dificuldade para enfrentar o envelhecimento 
deveriam dizer a si mesmas? 
 
Schirrmacher – Essas pessoas deveriam pensar que o medo do envelhecimento é 
apenas instintivo e que a ciência nos deu um grande presente: uma vida mais longa. 
Devem se convencer, também, de que fazem parte de uma vanguarda que vai 
conquistar uma nova realidade. A de um mundo dominado pelos anciãos. 
 
 45 
 
Aula 5 - Pessoas idosas e o suporte emocional 
 
Will you still need me, 
will you still feed me 
When I'm sixty-four 
 
The Beatles, When I’m 64. Clique aqui para assistir. 
 
A relação com o envelhecimento também vai depender não apenas da nossa 
geração, mas também do lugar onde nasceu. É muito comum escutar aqui no 
Ocidente que os orientais, especialmente, os japoneses valorizam muito os idosos, 
assim também como algumas tribos indígenas ao redor do mundo. Sim, isso é 
verdade, mas não em absoluto. Especialmente em relação às culturas que valorizam 
a ancestralidade, a importância das pessoas mais velhas ganha destaque na 
sociedade, pois elas seriam o símbolo da sabedoria e fontes de conselhos para os 
mais jovens. 
Mas há também culturas que interpretam o envelhecimento de uma forma muito 
diferente, podendo parecer muito mais cruel. É o caso, por exemplo, de algumas tribos 
esquimós que fazem iglus e deixam os idosos morrerem de frio e de fome depois de 
certa idade ou sobre um trenó ao ar livre ou mesmo algumas tribos na Índia, ainda 
não integradas à sociedade moderna, que também sacrificam seus idosos. Por mais 
cruel e moralmente reprovável, isso faz parte da cultura e da sabedoria de alguns 
povos, assim também como o comportamento dos elefantes quando os animais mais 
velhos de distanciam da manada para buscar a solidão da morte. 
Se você é da geração Y ou Z, pode se lembrar aqui de um episódio da Família 
Dinossauro, sobre o “Dia do Arremesso”, uma tradição em que o genro é responsável por 
jogar a sogra de uma montanha e ela cai em um lago de piche, onde ela irá fazer 
companhia para outras pessoas idosas. Clique aqui para acessar. 
O fato é que se vive amplamente, tanto no Ocidente como no Oriente, uma forte 
cultura do consumo, em que se valoriza muito mais o ter do que o ser, e segundo esse 
modelo de sociedade do consumismo desenfreado, a sabedoria não tem muito valor, 
sendo substituída pela necessidade de movimento a todo tempo, rotinas de trabalho 
incessantes, sem pausas para descanso e reflexão. 
Nessa cultura do vício em trabalho, do sempre estar em movimento igual a um 
tubarão faminto, as pessoas idosas perdem seu valor e se “retiram” da cena públic a (em 
inglês, to retire, significa aposentar-se). Elas vão para os seus aposentos ficar de 
pijamas para ser o “jáque” da família, isto é, “já que você não está fazendo nada, vai 
https://www.youtube.com/watch?v=PSYM_kv9KpI
https://www.dailymotion.com/video/x26i2pf
 
 46 
 
buscar as crianças na escola?” Ao invés de “jubilarse” (aposentar-se em espanhol), 
que dá a ideia de júbilo, de celebração, após a construção de uma vida cheia de 
sentidos, a pessoa idosa é condenada ao isolamento social. 
Deve-se reconhecer que, além das transformações biológicas, o envelhecimento tem 
implicações sociais. O primeiro deles é a diminuição da rede de relacionamentos, em 
decorrência da aposentadoria, uma vez que haverá, na grande maioria das vezes, a 
perda de contato com o pessoal do trabalho. Há também um possível aumento de 
gastos com saúde, lazer e uma possível queda nos rendimentos, uma vez que grande 
parte da população se aposenta pelo teto da previdência social ou ainda deixa de 
ganhar parcelas indenizatórias que compõem a remuneração de quem está na ativa. 
Além disso, tem que enfrentar doenças ou morte do cônjuge, de familiares e de amigos 
gradativamente, que, inevitavelmente, trarão impactos psicológicos na qualidade de 
vida das pessoas idosas, intensificando o seu isolamento.É exatamente por conta desses desafios que os agentes da segurança pública 
precisam se sensibilizar para os problemas específicos da pessoa idosa e também 
imaginar como poderão criar uma rede de suporte e apoio para esse segmento da 
comunidade, especialmente na vasta população de baixa renda, a grande 
representante da categoria de usuários do Sistema de Segurança Pública (Susp). 
Fundamental, portanto, conversar sobre família, afetividade e amigos. 
A sociedade brasileira vem passando por inúmeras transformações no que diz 
respeitos às relações familiares desde a redemocratização do país, que culminou com 
a promulgação da Constituição de 1988, que trouxe mudanças de paradigmas 
fundamentais para direcionar a intervenção do Estado na vida privada das pessoas. 
A primeira delas foi equiparar as responsabilidades jurídicas, sociais, políticas e 
familiares do pai e da mãe na família, sendo os dois responsáveis pela criação dos 
filhos. Houve também o estabelecimento de prioridade máxima para as crianças e, em 
segundo lugar, para as pessoas idosas, de forma que cabe ao Estado garantir a elas 
especial proteção. 
Além disso, inspirada nos princípios da Constituição de 1988, a jurisprudência 
brasileira vem se mostrando cada vez mais receptiva ao conceito de família 
eudaimonista, ou seja, a ideia de que as relações familiares são pautadas pela 
afetividade e não pela transmissão de patrimônio. Ganha progressivamente mais 
espaço a visão de que a família é um núcleo de suporte do indivíduo para apoiá-lo em 
 
 47 
 
seu direito individual pela “busca da felicidade”, já que “eudamonia, em grego, é o 
sentido da vida para Aristóteles, que significa a busca verdadeira pela felicidade. 
Assim, diferentemente do paradigma civilista do antigo Código Civil de 1916, que 
considerava a família como centro do patrimônio daquele núcleo social, o Código Civil de 
2002, juntamente com a jurisprudência dos Tribunais Superiores e de todo o país, 
inovam dia a dia em suas interpretações para valorizar o afeto e não o direito, como 
liga, cimento e liame das relações familiares atuais. 
Nesse espírito, o Supremo Tribunal Federal aprovou, por unanimidade, o 
casamento entre pessoas de mesma identidade de gênero e/ou orientação sexual, 
permitindo-lhes a adoção de crianças e adultos, e o reconhecimento da união estável 
entre casais homoafetivos, o direito de visitas dos avós aos netos, aos sobrinhos e a 
qualquer familiar que se tenha uma relação afetiva, mesmo que não haja relação 
biológica. A decisão também admitiu a impenhorabilidade do bem de família de 
pessoas solteiras, considerando todos os tipos de arranjo familiar. Ora, onde há amor, 
há família! 
Não raro se encontram Famílias Mosaicos, ou seja, com formações bem 
diferentes daquelas tradicionais de mamãe, papai e filhinhos. Mas todo mundo 
morando junto, com avós, bisavós, tios, enteados, filhos biológicos, filhos adotivos, 
netos, mães lésbicas, pais homoafetivos, três mães, madrastas, cachorro, gato, 
periquito e cada um torcendo para um time de futebol diferente! Um verdadeiro 
mosaico, cheio de pecinhas coladas entre si pelo amor e afeto, pelo menos, na maioria 
das vezes, não é? E cada um desses membros com suas próprias características e 
subjetividade... Um auê! E viva a diversidade! 
Nessa família mosaico, tão comum na realidade brasileira, pode tanto haver o 
suporte da afetividade quanto também uma fonte de conflitos que podem ser 
escalados para vários tipos de violência contra a pessoa idosa, desde a 
microagressões, xingamentos, isolamento, solidão, violência patrimonial, psicológica, 
omissão de cuidados e até violência física direta. 
Muitos desses conflitos são originados por choques intergeracionais, problemas 
de escassez financeira, falta de planejamento familiar para a aposentadoria, falta de 
poupança, falhas nos cuidados com a saúde mental e física, mas, principalmente, pela 
ausência de diálogo entre os membros da família. Não há espaço para que todos 
possam conversar, dialogar sobre seus problemas, aflições, angústias, porque, muitas 
vezes, os mais jovens e os adultos estão muito envoltos em suas atividades 
 
 48 
 
profissionais ou estudantis e a rotina dos afazeres domésticos sobra para os mais 
velhos. 
Daí a relevância de identificar essas dinâmicas quando lidar com situações 
conflitivas que envolvam relações familiares com pessoas idosas, para verificar se 
elas estão tendo oportunidade de ter sua autonomia e independência preservadas, 
bem como a sua voz ouvida nas decisões familiares. 
Ademais, é importante o aconselhamento para o desenvolvimento de núcleos de 
socialização além do núcleo familiar, como espaços para atividades esportivas ou 
artísticas, como hidroginástica, meditação, yoga, aulas de dança, ou mesmo 
artesanato, dominó e baralho. É importante que as pessoas idosas preservem seus 
laços de amizade em ambientes fora do núcleo familiar, de forma a estabelecer uma 
socialização neutra e diferenciada para que ela mesma possa refletir sobre o seu 
papel na sua família. 
Sobre a importância da amizade entre pessoas idosas, o filme francês vencedor 
de vários prêmios, “Intocáveis”, conta sobre a amizade entre um enfermeiro e uma 
pessoa idosa e também com deficiência. Outro filme incrível sobre a necessidade de 
socialização para além do núcleo familiar, também de origem francesa, é “Tardes com 
Marguerite”. Há também o filme “Victoria e Abdul”, mas esse de origem britânica. 
Clique aqui para ouvir a música de Roberto Carlos “O coração não tem idade”. 
 
Um assunto considerado tabu é o amor na “terceira, quarta ou quinta” idade. Mas 
não deveria ser. Depois de criarem os filhos, está cada vez mais normal acontecerem 
divórcios que põe fim a longos casamentos, de mais de 30 anos juntosvi em razão das 
mudanças de significado do que venha ser “casamentos para sempre”. Cada vez 
mais, as pessoas buscam uniões afetivas para serem felizes; e a manutenção de 
relacionamentos de fachada ou apenas por conveniência, por preguiça ou ainda por 
crenças religiosas é cada vez mais rara. Ainda mais quando se considera a 
possibilidade de se fazer todo procedimento do divórcio, quando não há filhos 
menores, em um cartório extrajudicial, desde que os dois concordem com todos os 
seus termos, inclusive com a separação dos bens! 
Além disso, é também comum a viuvez nessa etapa da vida e muitas pessoas 
buscam novas oportunidades de relacionamentos afetivos, seja por meio de grupos 
sociais como a dança, os jogos, os bingos, e as atividades filantrópicas ou esportivas. 
https://www.youtube.com/watch?v=MR2BuV1YsYk
 
 49 
 
Algumas pessoas idosas recorrem inclusive a aplicativos de relacionamento na 
Internet! 
Sobre novos relacionamentos entre pessoas idosas, experimente assistir “Elsa 
e Fred”, produção argentina e espanhola; “Up – Altas aventuras”, desenho animado 
da Pixar; e a sequência de filmes “O exótico hotel Marigot I e II”. 
 
Figura 15 - Elsa e Fred 
Fonte: Google Imagens, 2022. 
 
 
 
Figura 16 - UP altas aventuras 
 
Fonte: Google Imagens, 2022. 
 
 
50 
Figura 17 – O Exótico Hotel Marigold 
Fonte: Google Imagens, 2022. 
 
 
51 
Aula 6 - Pessoas idosas, autonomia e independência 
 
Nós, que somos velhos, não temos nada a perder! 
Temos tudo a ganhar vivendo perigosamente! 
Podemos dar início às mudanças 
sem pôr em risco o emprego ou a família, 
somos aqueles que devemos assumir os riscos! 
 
Maggie Kuhn, ativista pelos direitos das pessoas idosas e fundadora do 
movimento Panteras Cinzentavii. 
 
Figura 18: Quatro imortais saúdam a longevidade 
Fonte: Shang Xi, 2010. 
 
 
Como vimos, a gerontologia é o estudo dos fenômenos relacionados ao 
envelhecimento do ser humano em todos seus aspectos, médicos, jurídicos, 
psicológicos, arquitetônicos, urbanísticos, políticos, enfim, alcança toda a 
complexidade de esferas do conhecimento que abrange a ideia de humanidade. Há, 
contudo, doisconceitos fundamentais que norteiam todas as ações que dizem 
respeito à pessoa idosa: Independência e Autonomia. 
Qualquer profissional que venha a trabalhar com pessoas idosas tem que saber 
isso prontamente, ou seja, aprender com o coração e, principalmente entender que, 
quando você não souber resolver qualquer problema no caso concreto – e isso vai 
acontecer muitas vezes, porque, afinal, estão todos aprendendo juntos a lidar com o 
envelhecimento da população – você deve nortear, direcionar sua ação considerando 
a Independência e Autonomia da pessoa idosa. 
 
 
52 
Assim, qualquer solução encontrada deve garantir ao máximo a independência 
e autonomia da pessoa idosa, porque, assim, garantem-se, em grande medida, os 
direitos fundamentais da pessoa idosa, e não dos seus filhos (as), companheiro (a), 
namorado (a), sobrinho (os, as). 
Isso é muito importante, porque os profissionais da segurança pública têm o 
tirocínio policial, aquela “pulga atrás da orelha”, que identifica a “treta na área”, quando 
alguém os procura com motivos não muito justos, não é mesmo? E lembrar que a 
pessoa idosa tem muito mais chance de se encontrar vulnerável naquela situação 
ajuda a ligar alerta máximo de “treta na área”. 
INDEPEDÊNCIA é a capacidade de realizar atividades cotidianas sem auxílio, 
como vestir-se ou tomar banho. AUTONOMIA refere-se à capacidade de 
autodeterminação, um princípio lapidar de liberdade de escolha, ou seja, significa viver 
de acordo com seus desejos e suas próprias regras (TAVARES, 2020). 
E, acrescentando ao conceito de Marisa Tavares, autonomia não tem a ver 
apenas com a liberdade de escolha de viver de acordo com seus desejos e suas 
regras, mas também de morrer de acordo com seus desejos e regras. 
Pois bem, que tal tratar agora de assuntos delicados que, muitas vezes, não 
são conversados durante as nossas vidas nas reuniões familiares? 
Eles são imprescindíveis, porque como todo mundo vai envelhecer e 
precisamos “combinar com os russos”, para garantir que nossos desejos e regras 
sejam sempre observadas, em caso de perda gradativa de mobilidade ou consciência, ou 
até mesmo depois da morte. 
O objetivo deste tópico é tirar o “elefante branco” da sala, ou seja, apresentar, 
de forma clara, objetiva e leve, questões práticas que devem ser consideradas na 
gestão do envelhecimento, a fim de garantir ao máximo a autonomia e independência da 
pessoa idosa. 
Antes de tudo, você precisa saber que há dois tipos de envelhecimento: 
 
 
 demências. 
 
caracterizada por sinais como rugas na pele, perda de músculo sem impacto 
 
 
 
53 
 
 
Dessa forma, é preciso avaliar em que situação se encontra a pessoa idosa, 
para se traçar um plano terapêutico individualizado para sua senescência. Essa 
avaliação é geralmente chamada de Avaliação Geriátrica Ampla (AGA), que é um 
processo diagnóstico utilizado para avaliação e acompanhamento clínico de pacientes 
idosos em relação a suas condições físicas, sociais e psicológicas. Há muitos modelos de 
questionários de AGA disponíveis e validados por pesquisadores e associações 
médicas. 
Para se ter uma ideia, existem alguns parâmetros avaliados e conceitos 
utilizados na AGA para nortear sua ação quando não é possível contatar de imediato 
um geriatra para realizá-la. São eles: 
 
 
Atividades da Vida Diária (AVD) 
São as tarefas básicas de autocuidado. Elas incluem alimentar-se, ir ao banheiro, 
escolher a própria roupa, arrumar-se e cuidar da higiene pessoal, manter-se 
continente, vestir-se, tomar banho. 
Atividades Instrumentais da Vida Diária (AIVD) 
São habilidades complexas necessárias para viver de maneira independente. 
Elas incluem gerenciar finanças, lidar com transporte (dirigir ou usar o transporte 
público), fazer compras, preparar refeições, usar o telefone e outros aparelhos de 
comunicação, gerenciar medicações e realizar as tarefas domésticas. 
 
Outros conceitos importantes para entender as questões do envelhecimento e 
a sua atuação na segurança pública são: 
 
 
Pessoa idosa independente 
 
Aquela dotada de capacidade funcional preservada para todas as atividades de 
vida diária, ainda que requeira algum dispositivo de ajuda para o seu autocuidado; 
Pessoa idosa semi-dependente: 
 
É aquela dependente de cuidados em até três atividades básicas da vida diária, 
 
 
54 
 
tais como: alimentação, locomoção, higiene e controle esfincteriano (fazer xixi), sem 
comprometimento cognitivo ou com alteração cognitiva leve a moderada; 
Pessoa idosa dependente 
 
É aquela incapaz de realizar todas as atividades de vida diária e para seu 
autocuidado. Em geral são acometidos por comprometimento cognitivo grave; 
Capacidade Funcional do Idoso 
 
Grau de independência/dependência de cuidados do idoso para o desempenho 
das atividades da vida diária (banho, alimentação, higiene, locomoção, controle 
esfincteriano, gerenciamento de finanças e medicamentos, anotar recados, usar 
telefone, fazer compras, usar transporte etc.); 
Equipamento ou Dispositivo de autocuidado 
 
Qualquer equipamento ou adaptação, utilizado para compensar ou potencializar 
habilidades funcionais, tais como: bengala, andador, óculos, aparelho auditivo, 
cadeira de rodas; entre outros de função assemelhada. 
 
À primeira vista, esses conceitos podem parecer distantes da sua formação, 
mas os entenda como ferramentas para manejar a segurança pública no país, 
principalmente na prevenção, elucidação e repressão de crimes contra pessoas 
idosas. A partir dessas noções, será possível orientar as famílias que possuem 
pessoas idosas em casa que, por vezes, precisam de uma interdição parcial, de 
cuidados específicos para auxiliar nos efeitos do envelhecimento e evitar conflitos 
familiares. 
Como se viu no tópico sobre as relações familiares, o conceito de família 
baseado na “gestão do patrimônio” já é ultrapassado. O que importa agora é o amor, isto 
é, as relações afetivas. Não se concentra mais no ter, mas sim no ser, por isso se 
deve preservar a autonomia da pessoa idosa na gestão de seu patrimônio, porque 
tudo que ela construiu durante a vida, em primeiro lugar, é para ela, sempre. 
Por vezes, contudo, nos casos de senilidade acompanhada por perda gradativa de 
autonomia e independência, será necessária a intervenção do Estado, dos amigos, 
 
 
55 
dos familiares para auxiliar a pessoa idosa na manifestação de seus desejos de vida 
e também de morte. E para tanto, há mecanismos jurídicos/médicos que serão 
abordados nos próximos segmentos. 
 
 
6.1 – Tomada de decisão apoiada 
 
No caso de senilidade com pouca perda de autonomia e independência, é 
possível que a pessoa idosa se sinta mais segura para praticar alguns atos de sua 
vida civil ou patrimonial com auxílio de pessoas de sua confiança. Assim, ela pode 
buscar a Defensoria Pública, atender aos requisitos legais de hipossuficiência, ou 
mesmo procurar um advogado para promover uma ação de tomada de decisão 
apoiada. 
Trata-se de um processo pelo qual a pessoa com deficiência ou senilidade com 
pequeno grau de perda de autonomia e ou independência elege pelo menos duas 
pessoas idôneas, com as quais mantenha vínculos e que gozem de sua confiança, 
para prestar-lhe apoio na tomada de decisão sobre atos da vida civil, fornecendo-lhes 
elementos e informações necessárias para que possa exercer sua capacidade. 
 
A tomada de decisão está prevista no art. 1.783-A e seguintes do Código Civil 
Brasileiro, que foi modificado pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência (Lei 
nº13.146/15), trazendo uma boa solução para preservar a autonomia das pessoas 
plenamente capazes, como pessoas idosas ou com deficiência, mas em uma situação de 
vulnerabilidade por conta de sua condição. 
Não se trata, pois, de um modelo limitador da capacidade, mas de um remédio 
personalizado para as necessidades existenciais de uma pessoa, no qual as 
medidas de cunho patrimonial surgem em caráter acessório,prevalecendo o 
cuidado assistencial e vital ao ser humano. (FARIA, 2017. P. 1883-1884). 
 
Como não há lide, ou seja, conflito, o processo é de jurisdição voluntária, cuja 
competência é da vara de família, conforme prevê o art. 723, do Código de Processo 
Civil de 2015. Nesse processo, o magistrado não está limitado à estrita legalidade 
pode decidir por equidade, ou seja, pode haver soluções específicas e 
personalizadas para cada pessoa idosa, o que é ótimo para efetividade dos acordos. 
O que é necessário para a tomada de decisão apoiada? Construir um termo em 
que constem os limites do apoio a ser oferecido e os compromissos dos apoiadores, 
 
 
56 
inclusive o prazo de vigência do acordo e o respeito à vontade, aos direitos e aos 
interesses da pessoa que devem apoiar. O beneficiário do apoio conservará a sua 
autodeterminação em todos os atos que não estejam incluídos no acordo. 
Você, como profissional da segurança pública, ao observar uma situação em 
concreto na qual a pessoa idosa é consciente, mas vulnerável diante da influência de 
pessoas má intencionadas, pode orientá-la a buscar pessoas de sua confiança para 
fazer um processo de tomada de decisão apoiada. Ela vai se sentir bem mais segura 
na gestão de sua vida civil e patrimonial e você vai evitar o escalonamento de uma 
situação relativamente simples para um crime violento. 
 
 
6.2 – Ação de Curatela 
 
Se você é do tempo em que se falava “vou interditar você”, pode ir se 
atualizando! 
Não se fala mais em ação de interdição, mas sim ação de curatela. Isso porque 
esse termo interdição é estigmatizante e discriminatório, como se fosse declarar a 
morte de uma pessoa em vida. Essa mudança foi trazida pelas enormes modificações 
realizadas pelo Estatuto da Pessoa com Deficiência em todo ordenamento jurídico e 
também em razão da incorporação, com a qualidade de emendas constitucionais, das 
convenções sobre os direitos das pessoas com deficiência, o que irradiou esses 
princípios por todo ordenamento jurídico brasileiro. 
Agora não se interdita ninguém totalmente. O que se fala é curatela como um 
projeto terapêutico individualizado, porque cada um é cada um, não é mesmo? E não dá 
para fazer uma caixinha para que todo mundo se adeque sobre a perda gradativa de 
autonomia e independência. 
É imprescindível entender que não é o fato de a pessoa ser idosa que leva à 
ação de curatela e sim o fato de que ela está vulnerável, com uma doença que afeta 
sua autonomia e independência, e, por isso, os parâmetros aplicados são o Estatuto 
da pessoa com deficiência. Veja: 
 
Art. 85. A curatela afetará tão somente os atos relacionados aos direitos de 
natureza patrimonial e negocial. 
§ 1º A definição da curatela não alcança o direito ao próprio corpo, à 
sexualidade, ao matrimônio, à privacidade, à educação, à saúde, ao 
trabalho e ao voto. 
 
 
57 
§ 2º A curatela constitui medida extraordinária, devendo constar da sentença 
as razões e motivações de sua definição, preservados os interesses do 
curatelado. 
§ 3º No caso de pessoa em situação de institucionalização, ao nomear 
curador, o juiz deve dar preferência a pessoa que tenha vínculo de natureza 
familiar, afetiva ou comunitária com o curatelado. 
 
Assim, a pessoa idosa sobre um projeto terapêutico individualizado, específico 
para seu caso, pode e deve ter direitos sobre seu próprio corpo, à sua sexualidade, a 
casar-se, à privacidade, à educação continuada, à saúde, ao trabalho e ao voto, 
lembrando que o voto é facultativo para as pessoas maiores de 70 anos. 
A regra é a liberdade, a autonomia e a independência. A curatela vai ser 
proporcional às necessidades da pessoa idosa e vocacionada à dignidade do 
indivíduo, conferindo ao curador apenas funções existenciais e patrimoniais. 
O querido Prof. Cristiano Chaves Faria, sempre brilhante, deixa claro que a 
dignidade da pessoa humana veio para ficar em todas as interpretações das leis 
brasileira e como direcionador de nossas ações na segurança pública: 
Com efeito, o princípio da Dignidade da Pessoa Humana (CF, art. 1º, III) não 
se compatibiliza com uma abstrata homogeneização de seres humanos em 
uma categoria despersonalizada de incapacidades. Por isso, a sentença de 
curatela tem de considerar os aspectos pessoais, individualizados daquela 
pessoa humana, levando em conta a sua vontade e preferência, inclusive. 
Com isso, a sentença de curatela há de corresponder a um projeto 
terapêutico individual. Desse modo, merece realce a relevante 
possibilidade (rectius, necessidade) de gradação da curatela devendo o 
magistrado, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, flexibilizar o 
grau e a extensão da curatela de uma pessoa, ao perceber que existem 
elementos (mínimos que sejam) de compreensão e discernimento em 
especial no que tange às situações afetivas e intelectuais. (FARIA, 2017, p. 
1887). 
 
Quem pode propor a ação de curatela? O próprio curatelado, o cônjuge ou 
companheiro, parentes ou tutores, representante da entidade em que se encontra o 
curatelado (instituição de longa permanência, por exemplo) e o membro do Ministério 
Público. A competência será o local da residência ou domicílio do curatelado, tendo 
em vista a facilitação da colheita de provas, realização de sua entrevista e da própria 
perícia médica obrigatória. 
São necessários: laudo médico preliminar da situação do curatelado (aquela 
Avaliação Geriátrica Ampla mencionada acima, o AGA); audiência para entrevista do 
curatelado sobre sua vida, suas vontades, suas preferências, seus laços familiares e 
afetivos, seus negócios e bens; um projeto terapêutico individualizado e detalhado de 
como vão ser as coisas, quem vai cuidar do quê, como será tudo. Em casos de 
 
 
58 
extrema urgência, o juiz nomeará um curador provisório para a gestão urgente da vida 
e patrimônio do curatelado. E, se for necessário, o juiz vai até o local onde está o 
curatelado para fazer a entrevista com ele pessoalmente. 
É importante saber que a natureza da sentença na ação de curatela é 
constitutiva, ou seja, a pessoa só tem sua autonomia limitada judicialmente depois de 
transitada em julgado, isto é, quando não mais couber recurso da sentença. Nesse 
sentindo, o Superior Tribunal de Justiça já consolidou: 
A sentença de interdiçãoix (SIC) tem natureza constitutiva, pois não se limita 
a declarar uma incapacidade preexistente, mas também a constituir uma nova 
situação jurídica de sujeição do interdito à curatela, com efeitos ex nunc. STJ 
(Ac. Unâni. 3ª Turma, Resp. 1.251.728/PE, rela. Min. Paulo de Tarso 
Sanseverino, j. 15.3.13., Cje 23.5.13). 
 
O plano terapêutico individualizado de curatela de uma pessoa idosa em 
gradativa perda de autonomia é tão personalizado que é possível determinar inclusive 
a curatela compartilhada, como a guarda compartilhada, com o objetivo de mitigar 
uma sobrecarga de cuidadores. Nesse plano terapêutico, especifica-se a 
incapacidade jurídica da pessoa idosa, reconhecendo diferentes limitações e 
possibilidades, a depender dos elementos probatórios colhidos. Tudo isso para 
preservar o seu direito à convivência familiar e comunitária. Ah, é claro que é possível 
levantar a curatela, desde que demonstrada ter deixado de existir a situação que a 
causou ou parcialmente a causou. 
 
 
6.3 – Diretivas antecipadas ou testamento vital 
 
Chegou o instante de aceitar em cheio 
a misteriosa vida dos que um dia vão morrer. 
 
Clarice Lispector 
 
 
É simples assim: o direito a uma vida digna traz, em si mesmo, o direito a uma 
morte digna. Aposto que já imaginou como seria a festa do seu casamento, do 
nascimento dos filhos, a festa de 15 anos da filha, bodas, festa da firma, não é? Agora já 
pensou em como vai ser seu funeral? Ou mesmo a que tipo de procedimentos 
médicos você quer ser submetido para prolongar sua vida? Já imaginou se você, que 
nem tem tantos anos de vida assim, ao sofrer um acidente que afete a sua condição 
motora oumesmo sua consciência, você vai querer ou não ser mantido por aparelhos? 
 
 
59 
Se você já teve dificuldade em responder essas questões, já imaginou sua família ter 
de decidir tudo isso no seu lugar? 
Exatamente por isso que existem as diretivas antecipadas ou o testamento vital 
(em inglês, “living will”), afinal o “combinado não sai caro”. É preciso deixar de lado o 
“tabu” e conversar sim sobre os assuntos importantes, como o que fazer se ficar em 
coma por muito tempo, se irá querer ser cremado ou não, se irá ou não doar os órgãos, 
enfim, várias decisões que gostaria de tomar se tivesse condições em uma situação 
extrema. 
Essas são as chamadas diretivas antecipadas, um conjunto de desejos, prévia 
e expressamente manifestados por uma pessoa, sobre cuidados e tratamentos que 
ela quer ou não receber no momento em que estiver incapacitada de expressar sua 
vontade de maneira livre e autônoma. 
Não há uma lei formal sobre as diretivas antecipadas. No entanto, em relação 
aos procedimentos de saúde, o Conselho Federal de Medicina elaborou a Resolução 
nº 1.995/2012 sobre o tema, orientando os médicos a levar em consideração os 
desejos de seus pacientes, se manifestos por escrito antecipadamente ou delegados 
aos cuidados de um representante legal, segundo a própria definição do CFM: 
Conjunto de desejos, prévia e expressamente manifestado pelo paciente, 
sobre cuidados e tratamentos que ele quer, ou não, receber no momento em 
que estiver incapacitado de expressar, livre e autonomamente, sua vontade, 
por exemplo, em casos como demência avançada ou estado vegetativo 
persistente. (Resolução 2012 do Conselho Federal de Medicina). 
 
Chamam-se de “futilidade médica” os procedimentos médicos que prolongam 
a vida de doentes terminais sem chance de cura. Cada um tem um juízo próprio sobre 
o assunto e, por isso, é importante que o paciente deixe registrado suas vontades em 
documento por escrito ou ainda que as delegue para um representante legal, que será o 
guardião da autonomia da pessoa e deve se comprometer a realizar as 
determinações desta última. 
Deixar as coisas organizadas sempre é demonstração de carinho por aqueles 
que nos rodeiam. (TAVARES, 2020). Leve isso em consideração quando você, 
profissional da segurança pública, for atender uma família com uma pessoa idosa já 
com a saúde comprometida. Procure conversar com ela e sua família sobre suas 
vontades, pensamentos sobre a morte, e atos de última vontade. 
 
 
60 
De igual maneira, tire o elefante da sala: faça reuniões com sua família e 
converse sobre isso Não precisa ter idade avançadíssima para ter mais chance de 
morrer. Para morrer, basta estar vivo. 
Em falar nisso, uma forma leve para conversar sobre esses assuntos delicados 
como a morte é assistir com a família , à animação “VIVA! A vida é uma festa”. 
 
 
 
 
6.4 – Cuidados paliativos 
 
Na mesma toada das diretivas antecipadas, é importante conhecer o conceito 
de cuidados paliativos, que, aliás, tornou-se recentemente uma especialidade médica 
no Brasil. 
Cuidados paliativos consistem na abordagem multidisciplinar para melhorar a 
qualidade de vida de pacientes e familiares diante de uma doença crônica ou que 
ameace a continuidade da vida. Os objetivos dos cuidados paliativos, segundo a 
Organização Mundial da Saúde, são: proporcionar o alívio da dor ou de outros 
sintomas angustiantes; considerar o morrer como um processo natural e, portanto, 
não apressar ou adiar a morte; integrar os aspectos sociais e espirituais na assistência 
SAIBA MAIS! 
 
Eutanásia – morte piedosa, sem sofrimento, por relevante valor moral. Não é 
permitido no Brasil. 
Mistanásia – eutanásia social e muito comum em hospitais brasileiros quando, diante de 
um acidente, por exemplo, o médico tem de escolher qual dos pacientes será 
atendido primeiro. 
Ortonanásia – eutanásia por omissão, apenas cometida pelo médico que deixa de 
prolongar o inevitável processo de morte do paciente, por meios artificiais, que 
poderiam protrair aquela situação fática. Pode ser permitido, desde que haja as 
diretivas antecipadas ou autorização pela família. 
Distanásia - é o prolongamento artificial do processo natural de morte ainda que à 
custa do sofrimento do paciente. É a continuação, por intervenção da medicina, da 
agonia, mesmo sabendo que, naquele momento, não há chance conhecida de cura. 
A chamada utilização de “futilidade médica” nos termos da Resolução 2012 do CFM. 
Kalotanásia – é a ideia de morte “bela”, tranquila, pacífica, sem sofrimento. 
 
 
61 
ao paciente; oferecer apoio a pacientes e familiares, incluindo aconselhamento de 
luto; entre outros. 
Como diz a papisa no tema, a médica Ana Claudia Quintana Arantes, “o 
percurso entre a certeza do diagnóstico de uma doença grave, que ameaça a 
continuidade da vida, e a morte é acompanhado pelo sofrimento. (...). Existem 
milhares de pessoas com câncer. O sofrimento, porém, é algo absoluto, único. 
Totalmente individual. (...) Cada dor é única. Cada ser humano é único.” (ARANTES, 
2019, p. 42). 
Unicidade: é sobre isso. Acolher a pessoa idosa é tratá-la como sendo única 
em sua dor, em seu sofrimento, e, muitas vezes, admitir que os agentes da segurança 
pública poderão oferecer alguns cuidados paliativos para o corpo e para a alma 
daquela pessoa idosa em sofrimento. Acolhamos sem julgamentos e com amor.x 
Não apenas em “doenças terminais”, sem expectativa de cura, em que se deve 
atuar, mas também paliativamente, para não agravar mais o sofrimento da pessoa 
idosa como, por exemplo, em casos de situações de conflitos familiares muito pesados 
envolvendo consumo de entorpecentes. 
Tanto na medicina quanto na atuação da segurança pública, podemos refletir 
em cuidados paliativos como sendo “tratar e escutar o paciente e a família; é dizer sim 
sempre que há algo que pode ser feito da forma mais sublime e amorosa que possa 
existir.” (ARANTES, 2019, p. 51). Muitas vezes, “apenas” ouvir é a maior cura para 
muitos desses clientes. 
E essa prática de fazer o que está ao nosso alcance de forma compassiva e 
empática já está sendo endossada pelo Poder Judiciário. A jurisprudência mais 
sensível e mais atenta aos novos rumos do atual século tem decidido que a mitigação do 
sofrimento humano deve ser o sustentáculo de decisões judiciais, no sentido de 
salvaguardar o bem supremo e o foco principal do direito: o ser humano em sua 
integridade física, psicológica, socioambiental e ético espiritual”. (STJ, REsp 
1.008.398, Rel. Min. Nancy Andrighi). (FARIA, 2017, p. 160). 
Na prática, a ideia desses cuidados paliativos pode se estender a todas as 
esferas da vida da pessoa idosa, já que se consistem na assistência, promovida por 
equipes multidisciplinares, para melhorar a qualidade de vida do paciente e, por 
extensão, dos seus familiares, diante de uma doença ou uma situação sem qualquer 
possibilidade de reversão. 
 
 
62 
O objetivo número um é: aliviar o sofrimento da pessoa idosa e entender o que 
você pode fazer naquela situação em concreto para amenizá-lo ou, no mínimo, não o 
aumentar ainda mais. A maioria acha que só há necessidade de cuidados paliativos 
em casos terminais, mas há enfermidades que se prolongam por 10 ou 15 anos, como 
demências, que também demandam esse tipo de abordagem. Não. Estamos falando 
do controle de sintomas como dor, náusea, vômitos, medo, pânico, impotência, 
fracasso decorrente de vários tipos de violência, desde psicológica até física. 
No caso da área médica, há a resolução do CFM n. 1.805/06, que permite ao 
médico limitar ou suspender procedimentos e tratamentos que prolonguem a vida do 
doente, garantindo-lhe os cuidados necessários para aliviar os sintomas que levam 
ao sofrimento, na perspectiva da assistência integral, respeitada a vontade do 
paciente ou de seu representante legal, desde que ele esclareça as modalidades 
terapêuticas adequadas em cada situação. 
São exemplos de práticasde cuidados paliativos em pacientes terminais a não 
intubação, a alta hospitalar, a não ingestão de medicamentos com efeitos colaterais 
que causem sofrimento. 
Se você quiser saber mais sobre o assunto, leia o livro “A morte é um dia que 
vale a pena viver, da médica Ana Claudia Quintana Arantes, especialista na área, e 
assista aos seus TEDs Talk, cujos links estão abaixo: 
 
1. A morte é um dia que vale a pena viver | Ana Claudia Quintana Arantes | 
TEDxFMUSP; e 
2. Preciso dizer que te amo | Ana Claudia Quintana Arantes | TEDxSaoPaulo. 
 
Tenho certeza de que você não vai se arrepender de assistir a esses vídeos e 
vai ter mais ferramentas na sua caixa mágica de habilidades para trabalhar com a 
segurança pública! Essa ferramenta aqui é sobre como confortar pessoas no 
momento da dor! 
 
 
6.5 - Pessoas idosas, arquitetura e urbanismo 
 
Acidentes domésticos constituem grandes causas de hospitalização de 
pessoas idosas e, depois, levam a complicações com infecções hospitalares, e até a 
morte. Tudo isso poderia ter sido evitado mediante a construção de lares e cidades 
planejadas pensando tanto nas pessoas com deficiência, quanto nas pessoas idosas. 
https://www.youtube.com/watch?v=ep354ZXKBEs
https://www.youtube.com/watch?v=ep354ZXKBEs
https://www.youtube.com/watch?v=6kqomNi-w8M
 
 
63 
A palavra do momento é acessibilidade física, social, linguística, educacional. 
Se todos são iguais perante a lei, por que nem todos têm acesso aos mesmos bens 
materiais e culturais? Fica aí a reflexão. 
Dentro de cada residência, pelo menos, é possível promover melhor 
acessibilidade às pessoas com dificuldade de mobilidade, com o fim de prevenirmos 
prevenir acidentes evitáveis. Além disso, como profissional da segurança pública, 
você também pode avaliar ambientes inadequados e alertar os responsáveis para 
mudanças a fim de evitar o pior e, é claro, indenizações e prejuízos ainda maiores. 
 
Figura 19: Banheiro acessível. Jpeg 
Fonte: Annasmith, 1986. 
 
 
64 
 
Figura 20: Teclado de computador acessível a mão no alto contraste.jpeg 
Fonte: Francisclarke, 2016. 
 
Abaixo, uma lista de dicas retirada do livro Longevidade no Cotidiano, de 
Mariza Tavares, para serem observadas no ambiente doméstico ou mesmo 
comercial: 
 
 
• Prefira maçanetas de alavanca às de formato redondo, são mais fáceis de 
manipular e evitam que as pessoas fiquem presas no ambiente; 
• A largura das portas deve permitir a passagem de cadeira de rodas. Uma 
solução é os batentes para ganhar espaço extra; 
• Tapetes soltos são terminantemente proibidos; 
• Pisos devem ser antiderrapantes; 
• Nível de iluminação amplo, com vários pontos de menor intensidade em vez 
de um único; 
• Fios são responsáveis por quedas. Melhor embutidos nas paredes ou em 
canaletas; 
• No quarto, é importante que a pessoa idosa se sente nas camas e apoie os 
pés no chão; 
• Interruptores perto da cama, em local acessível para quem está deitado; 
• Mesa de cabeceira mais alta em relação à cama, evitando que, durante o 
sono, a pessoa idosa role sobre o móvel ou derrube objetos em cima dele; 
• Fixar a mesinha no chão aumenta a segurança, porque ela funcionará como 
apoio; 
https://commons.wikimedia.org/w/index.php?title=User%3AFrancisclarke&action=edit&redlink=1
 
 
65 
 
• Cuidado com as quinas! Adesive-as com espuma para evitar acidentes! 
• Deixar uma lanterna na gaveta; 
• Cuidado com o banheiro! É o lugar de mais quedas! 
• Box – uso de faixas adesivas antiderrapantes, mais higiênicas que os tapetes 
emborrachados; 
• Saboneteiras devem ser trocadas por recipientes para sabonetes líquido, 
presos à parede, evitando-se prateleiras de vidro e detalhes salientes ou 
cortantes; 
• Portas que abram para fora permitem acesso rápido em caso de emergência. 
 
Se de um lado pensamos em transformar nossas casas em lares, para acolher 
também o nosso envelhecimento, é necessário também pensar essa acessibilidade 
nos espaços urbanos e na construção de prédios públicos. 
Matthias Hollwich, um arquiteto alemão, formado na famosa escola de design 
da Bauhaus, e professor na Universidade da Pensilvânia, nos Estados Unidos, 
escreveu um livro em 2016, sem tradução ainda para o português de nome “ New aging: 
live smarter now to live better forever” (tradução livre: “Nova era: viva com esperteza 
hoje para viver melhor para sempre”), no qual traz várias dicas de como pensar o 
envelhecimento em todas as áreas da vida. 
Muitas delas, inclusive, já abordadas aqui, como cultivar relacionamentos, ou 
adaptar casas para as possíveis dificuldades de mobilidade. Matthias inova em propor 
mais áreas de convivência nos prédios comerciais e até residenciais como, por 
exemplos, cafeterias nos lobbys dos elevadores, nas quais os vizinhos poderiam 
sentar-se e tomar um café juntos. Outra ideia interessante é convidar os amigos para 
que vivam como vizinhos, todos juntos, para facilitar o convívio solidário e harmônico 
entre eles na velhice. 
Essa ideia parece ser tendência em vários países da Europa Ocidental, onde 
já há várias iniciativas de condomínios só para pessoas idosas. 
Outra sugestão bacana está na Inglaterra e no País de Gales, as chamadas 
“cidades da demênciaxi”, cada uma com várias iniciativas diferentes e cooperações 
com instituições públicas e privadas, por exemplo, capacitação dos funcionários para 
reconhecer sinais de declínio cognitivo, uma habilidade muito importante também para as 
forças de segurança pública. 
 
 
66 
Aqui no Brasil, há também iniciativas legais que você pode copiar para sua 
comunidade, como a chamada “Cidade Amiga do Idoso”. Trata-se de uma ideia do 
médico brasileiro Alexandre Kalache, uma das maiores autoridades mundiais em 
longevidade! (TAVARES, 2020, p. 133). 
A ideia é incentivar os municípios a ouvir as próprias pessoas idosas sobre suas 
necessidades na cidade por meio dos conselhos municipais, em oito frentes: 
transporte, moradia, participação social, respeito e inclusão social, participação cívica 
e emprego, comunicação e informação, apoio comunitário e serviços de saúde, 
espaços abertos e prédios adaptados. Seis cidades brasileiras já receberam o título 
de “Cidade Amiga do Idoso” da Organização Mundial da Saúde (OMS): Porto Alegre, 
Esteio e Veranópolis, no Rio Grande do Sul; Pato Branco, no Paraná; Balneário 
Camboriú, em Santa Catarina; Jaguariúna, em São Paulo. 
E aí, já pensou em transformar sua cidade em “Cidade Amiga do Idoso”? Aqui 
está o guia da OMS Guia Global: Cidade Amiga do Idoso. Basta clicar e mãos à obra. 
http://apps.who.int/iris/bitstream/handle/10665/43755/9789899556867_por.pdf%3Bjsessionid%3D03EFF8CCF0BB645A2D3530D7B9CD8FC0?sequence=3
 
 
67 
Aula 7 - Pessoas idosas, finanças, previdência e consumo 
 
 
Figura 21: Inauguração do Centro de Convivência do Idoso 
Fonte: Governo do Estado de São Paulo, 2017. 
 
 
Um grande tabu nas famílias, nos relacionamentos, de qualquer que seja a 
natureza, é falar sobre dinheiro. Sim, é preciso falar sobre riqueza. Claro que isso não 
é tudo, mas ajuda bastante, principalmente quando se trata de um envelhecimento 
confortável. 
Ter dinheiro não afasta problemas psicológicos, de violência familiar ou 
doméstica, ou mesmo doenças físicas, e, até em certa medida, pode atrair mais 
problemas em razão da ganância de alguns familiares. Contudo, como dizia o filósofo 
grego Protágoras, “nada em excesso”. 
Com um bom colchão financeiro, é possível garantir uma velhice mais saudável, 
com um bom plano de saúde, acesso a medicamentos, atividades físicas, profissionais 
como psicólogos, fisioterapeutas, viagens de férias e certa tranquilidade. 
Muitos problemas com que se lidam hoje no dia a dia de profissionais da 
segurança pública são originados da ampla desigualdade de renda no país e pela falta de 
acesso a bens de consumo e sobrevivência básicos como comida, educação, saúde 
e segurança. Daí a origem das situações conflituosas quegeram brigas, que geram 
crimes, que geram prisões, que geram mais conflitos e que geram mais crimes. 
 
 
68 
Naturalmente, não é possível parar a roda desse ciclo vicioso, mas podem-se 
fazer pequenas medidas preventivas e até interventivas durante uma atuação para 
auxiliar os clientes em lidar com as finanças de forma a evitar conflitos de abuso 
econômico ou escassez. 
Agir preventivamente pode começar por uma conversa com as famílias sobre 
sua renda, saber dos gastos, de quem é responsável por eles, incentivar a obtenção 
de rendas extras ou mesmo corte de gastos supérfluos. Infelizmente, é comum visitar 
famílias com pessoas idosas que são responsáveis por quase toda a renda da casa, 
por meio de sua aposentadoria ou benefício assistencial. Nessas situações bem 
complexas, em que não há mesmo dinheiro para todos, é importante observar se as 
necessidades mais básicas da pessoa idosa estão sendo atendidas e se está, de fato, 
havendo alguma apropriação indevida por parte dos familiares. 
Sem dúvida, é bem complicada a presença de dolo nesses casos em que, no 
momento presente, não há escolha a não ser usar o benefício da pessoa idosa para 
alimentar todos na casa. A situação é muito difícil mesmo e a atuação repressiva do 
Estado em nada auxiliaria, ou até prejudicaria ainda mais a pessoa idosa, trazendo- 
lhe sofrimento ao ver sua família passando ainda mais necessidades. 
Nesses casos, o mais adequado seria o acionamento da rede de apoio como os 
Centros de Referência da Assistência Social (CRAS) e os Centros de Referência 
Especializado da Assistência Social (CREAS), como ficará claro nos módulos 
seguintes, para auxiliar o aumento da renda familiar. 
Contudo, também é possível atuar preventivamente junto às famílias durante a 
atuação como forças de segurança pública, de modo a incentivar uma poupança para 
o envelhecimento desde cedo. Mariza Tavares (2020, p. 89) trouxe um ensinamento 
que pode ajudar a refletir sobre o quanto seria necessário para manter um padrão de vida 
depois da aposentadoria: 
No livro “4 Dimensões de uma Vida em Equilíbrio”, três especialistas em 
finanças mostram através de uma regra fácil de memorizar, como calcular a 
poupança a ser acumulada enquanto estiver na ativa. Denise Hills, Jurandir 
Macedo e Martin Iglesias usam quatro números para medir a “saúde” do 
dinheiro economizado: 1 – 3 – 6 – 9. O número 1 corresponde ao valor 
recomendável para uma pessoa de 35 anos ter guardado: nessa idade, o 
ideal seria ter 1 ano de salário guardado em algum tipo de investimento. O 
número 3 representa o valor para quem chegasse aos 45 anos: 3 anos de 
salário. Aos 55 anos, seriam 6 anos de salário e aos 65 anos, 9 anos de 
salário, passaporte para manter o seu padrão de consumo semelhante. 
Vamos imaginar que alguém ganhe 5 mil reais por mês. Aos 65, esse 
indivíduo deveria ter R$ 540 mil aplicados. Quem tem 25 anos deveria 
guardar 10% de sua renda (a idade menos 15). Se quiser começar com 26 
 
 
69 
anos, será preciso reservar 11% (26 menos 15). Resumo da ópera: conforme 
o tempo passa, maior terá que ser a poupança. Se você for mulher, tem que 
poupar mais, porque sua expectativa de vida supera em 7 anos a de um 
homem. 
 
Poupar e investir pensando no envelhecimento, a cada dia, fica mais e mais 
necessário, porque, como visto no primeiro segmento deste módulo, a “pirâmide 
etária” transforma-se gradativamente em um retângulo etário, ou seja, o Brasil ficará 
bem mais idoso e com cada vez mais menos pessoas jovens para custear a 
previdência social. É uma grande conta que não está fechando agora e imagina em 
um futuro próximo. Assim, é preciso pensar hoje no amanhã, porque, menos dinheiro, 
mais desigualdade, mais conflito, mais problemas, mais crimes, mais desafios para a 
segurança pública. 
Só relembrando, a velhice não é um período homogêneo e compreende 
diferentes estágios: até os 70 anos, os indivíduos atualmente são considerados idosos 
jovens. Entre os 70 e 80, as doenças crônicas se manifestam com maior frequência e 
talvez surjam as primeiras limitações. A partir daí é que as coisas começam a ficar 
mais complicadas, tanto em termos de maiores gastos, quanto em termos de 
organização das finanças, desde acesso aos documentos até mesmo de senhas de 
contas bancárias. 
Assim, é importante incentivar as pessoas idosas, sempre que você tiver 
oportunidade de conversar com ela, para ter tudo organizado em pastas, cadernos, 
desde que, é claro, em um lugar seguro e com a informação acessível a uma pessoa 
de sua plena confiança. Isso porque, em caso de emergência, muitas pessoas não 
sabem sequer se a pessoa idosa tem plano de saúde, se é ou não alérgica a certos 
alimentos ou medicamentos, e muito menos seus desejos e vontades sobre 
tratamentos médicos ou diretivas de morte. Não sabem também se há alguma 
poupança, imóveis que possam ser utilizados para custear tratamentos. Enfim, se se 
organizar, pode-se evitar o pior cenário. 
Dessa forma, o ideal é ter acesso a todas as informações sobre as finanças: 
contas bancárias, pagamentos em débito automático, cartões de crédito, 
empréstimos, investimentos, seguros, certidões – nascimento, casamento, dívidas, 
valores a receber. Tudo! 
Não é necessário que a pessoa de confiança saiba todos os “logins” e senhas, 
mas desde que elas estejam anotadas de forma organizada, e a pessoa idosa informe 
onde ela está em caso de emergência, isso pode salvar vidas! Depois dos 80 anos, 
 
 
70 
os quadros de demência se tornam mais comuns e, se nada foi discutido antes, muitas 
decisões a serem tomadas poderão ser o oposto do que as pessoas idosas desejariam 
para o fim de suas existências. (TAVARES, 2020). 
Além disso, como verá a seguir, é fundamental também se atentar para a 
conferência periódica de extratos bancários e também contracheques, no caso 
daquelas pessoas idosas que recebem qualquer benefício previdenciário ou 
assistencial. É bastante comum, atualmente, os golpes de empréstimos consignados 
contra as pessoas idosas, porque os agressores sabem que, geralmente, elas não 
têm acesso à internet e têm muita dificuldade em conferir, mensalmente, os extratos 
de seus holerites. Dessa forma, você pode alertá-los para isso. 
Mas não só de alertas e preocupações é feito o tema das pessoas idosas e o 
dinheiro. Há também uma nova e promissora onda de investimentos em um novo 
setor, a chamada economia prateada, em homenagem aos cabelos brancos, cinzas 
ou prateados dessa nova parcela da população que garantirá um envelhecimento 
ativo e saudável e se tornará em um novo mercado de consumidor. 
Segundo Fran Winandy (2021): 
 
A economia prateada é o conjunto de atividades econômicas associadas às 
necessidades das pessoas com mais de 50 anos, envolvendo produtos e 
serviços voltados para esse público. De acordo com dados da Hype 50+, no 
Brasil, 63% das pessoas acima dos 60 anos são provedoras da família. Dados 
do Federal Reserve atestam que, nos Estados Unidos, as pessoas nascidas 
até 1964 movimentaram 78 trilhões no ano de 2019, de um total de 112 
trilhões, o que comprova a potência deste mercado, que só no ano de 2020, 
de acordo com a Harvard Business Review, movimentou cerca de 15 trilhões 
pelo mundo. Estima-se que até o ano de 2025, mais de um terço dos 
europeus trabalhará para a economia prateada. 
 
Há várias iniciativas nesse setor da economia prateada, desde viagens 
personalizadas, tecidos mais fáceis de vestir, condomínios para pessoas idosas com 
segurança, médicos, fisioterapias, entretenimento, a mercado de luxo, como iates e 
lanchas. A cada dia, mais pessoas buscam por especializações em gerontologia para 
adaptar seus negócios e empresas a essa nova fatia importante do mercado. 
Serviços bancários com segurança, cuidadores de confiança, carros equipados 
para compensar alguma deficiência da pessoa idosa, serviços médicos 
personalizados, cosméticos, medicamentos, procedimentos estéticos, ou seja,uma 
fonte inesgotável de crescimento econômico. 
 
 
71 
Olha, como você também vai envelhecer, já pensou em estudar mais esse 
mercado para integrá-lo depois da sua aposentadoria? Pelo menos, alguma 
experiência na área você já vai ter! Continue seus estudos! 
 
Figura 22: Idosos com laptops.jpg 
Fonte: Kai Hendry, 2012. 
 
 
72 
Aula 8 - Pessoas idosas, solidão e violência – desafios da segurança pública 
 
Todas as informações expostas nos tópicos anteriores são fundamentais para 
o exercício do trabalho diário na segurança pública com as pessoas idosas, que, 
basicamente, é prevenir e reprimir a violência contra elas. 
Violência é um fenômeno multifatorial que vai desde problemas 
socioeconômicos, como a ampla desigualdade social no país, à socialização violenta, 
característica marcante nas sociedades brasileira, sul-africana, russa e 
estadunidense, por exemplo. Acabar com essa brutalidade é tarefa impossível sem 
questionar as estruturas sociais, econômicas e culturais. Contudo, se, por um lado, é 
muito difícil lidar com os vários tipos de agressão nas atuais condições do Brasil, não 
pode, por outro, desistir de fazer sua parte. 
Os profissionais da segurança pública podem sim utilizar todos esses 
conhecimentos sobre o envelhecimento para evitar que situações de solidão, 
abandono, descaso, apropriação de renda levem à gradação de conflitos e até à morte 
das pessoas idosas. 
Roupas sujas ou odores que denotem falta de cuidados com a higiene são 
indícios de comprometimento cognitivo ou depressão – ou ambos, assim como não 
procurar os amigos, abandonar hobbies, não querer sair de casa e não demonstrar 
interesse por nenhum assunto. É preciso ficar atento a esses sinais e aconselhar 
familiares e a própria pessoa idosa a cultivar laços de afetividade, mapear as 
atividades lúdicas do bairro, buscar cursos de educação continuada, adotar um animal de 
estimação, encontrar um hobby ou um motivo para se levantar da cama. 
A sociabilidade é fundamental para evitar crimes contra a pessoa idosa, uma vez 
que há o compartilhamento de experiências, espaços de conversa e trocas. 
É importante entendermos a complexidade emocional para encorajar a pessoa 
idosa a denunciar um crime praticado contra ela por um ente querido ou mesmo um 
desconhecido. 
Sentimentos de amor, culpa, vergonha muitas vezes impedem as pessoas 
idosas a denunciar crimes contra elas e, amiúde, até se perceberem como vítima de 
delitos. São condições para o chamado “conluio do silêncio”, o medo de que um filho 
ou um parente seja preso ou responda um processo, ou até mesmo passe 
necessidades básicas, caso a pessoa idosa interrompa o sustento de todos na casa. 
 
 
73 
Há várias questões que devem ser consideradas nessa equação de difícil 
solução. A debilidade das pessoas idosas, a grande desigualdade social do país, as 
dificuldades para conseguir benefícios previdenciários e assistenciais, a fadiga dos 
cuidadores, que, muitas vezes, são responsáveis por cuidar seus filhos e seus pais, o 
estresse do desemprego, enfim, uma bola de neve que só parece crescer. 
Por outro lado, é preciso que o profissional da segurança pública também fique 
atento, ao lado do discurso da pessoa idosa dizendo que está tudo bem a alguns 
sinais de violência como machucados, fraturas, falhas de cabelo, má nutrição e 
desidratação, problemas de saúde sem explicação, medo excessivo, distúrbio de 
sono, sintomas de utilização inadequada de medicação, isolamento e depressão. O 
distanciamento não serve apenas para esconder agressões físicas; ele pode funcionar 
como instrumento de abuso emocional. 
Nos próximos módulos, você irá estudar mais detalhadamente sobre os tipos de 
violência contra a pessoa idosa, tanto praticada no âmbito familiar e doméstico quanto por 
desconhecidos, quando poderá refletir sobre toda a sensibilização acerca do 
processo de envelhecimento aprendido neste módulo. 
 
 
8.1 - O profissional da segurança pública e a população idosa 
 
Saiba: todo mundo foi neném 
Einstein, Freud e Platão também 
Hitler, Bush e Sadam Hussein 
Quem tem grana e quem não tem 
Saiba: todo mundo teve infância 
Maomé já foi criança 
Arquimedes, Buda, Galileu 
E também você e eu 
Saiba: todo mundo teve medo 
Mesmo que seja segredo 
Nietzsche e Simone de Beauvoir 
Fernandinho Beira-Mar 
Saiba: todo mundo vai morrer 
Presidente, general ou rei 
Anglo-saxão ou muçulmano 
Todo e qualquer ser humano 
 
Arnaldo Antunes. Clique aqui e acesse. 
 
Todos irão ficar velhos: você, seus pais e seus filhos. Como você gostaria que os 
seus entes queridos fossem tratados, especialmente no âmbito dos serviços de 
segurança pública e de justiça? Já parou para pensar nisso? 
https://www.youtube.com/watch?v=haTqwpYCk8w
 
 
74 
A pessoa idosa é um sujeito de direitos e, entre esses direitos, está o tratamento 
respeitoso e resolutivo dos seus problemas. Diante do seu escopo de atuação, tem 
especial relevância os problemas relacionados com os atos de violência contra a 
pessoa idosa, em especial aqueles que constituam crimes. 
Dito isso, em primeiro lugar, observe que, para a caracterização de um crime 
contra a pessoa idosa, o importante é que a vítima tenha idade igual ou superior a 60 
anos no momento do fato, e não no momento da sua apuração. 
No entanto, se a pessoa tinha menos de 60 anos no momento do fato e depois 
teve a sorte de alcançar essa faixa etária, a pessoa agora idosa pode fazer jus aos 
benefícios processuais ou administrativos, como a prioridade de atendimento e de 
procedimentos em que figure como parte, independentemente de terem eles natureza 
criminal ou administrativa. Mas, lembre-se: só há o direito de preferência processual, 
porque a conduta praticada não constituirá crime contra pessoa idosa, tendo em vista 
o princípio da legalidade que rege o direito penal. 
Essa prioridade alcança, por exemplo, a tramitação das investigações criminais, 
a realização de perícias pela política técnica e o atendimento de ocorrências pelas 
polícias ostensivas. Inclui também o tratamento diferenciado da pessoa idosa pelas 
forças de segurança, seja ela vítima, testemunha ou mesmo autor do fato. 
Porém, no que consiste esse tratamento diferenciado? Ele deve apresentar, no 
mínimo, os seguintes elementos: 
 
 
Respeito à condição humana 
Significa que a vítima idosa deve ser tratada com dignidade, respeito e empatia. 
Acima de tudo, ela deve ser preservada na sua autonomia e independência, como 
visto no módulo 1. 
Não julgamento 
Tem a ver com a separação entre observação e avaliação. Uma coisa é 
descrever a realidade e outra é submeter essa realidade a uma apreciação de valor. 
Assim, quando você escutar a pessoa idosa, deve se preocupar com as suas dores, 
ideias e percepções em seus próprios termos, sem querer impor como ela deveria 
sentir, pensar e perceber. Trata-se de uma estratégia importante inclusive para 
atenuar o Etarismo que permeia a visão de mundo das pessoas em geral. O não 
julgamento é um ato de respeito ao outro, à sua capacidade de ter os seus próprios 
 
 
75 
 
sentimentos, percepções e ideias. A postura de não julgamento no momento da oitiva não 
obsta que, no momento seguinte, seja feito um juízo de valor da fala da pessoa idosa, 
inclusive quanto ao enquadramento jurídico e à força persuasiva das suas 
palavras. 
Linguagem respeitosa e acessível 
 
Diante da situação que inclui: 
1) tratamento formal (senhor, senhora); 
2) comunicação pausada e articulada, de forma a verificar se o interlocutor está 
compreendo a mensagem; 
3) não utilização de diminutivos como forma de tratamento nem termos como 
“vovô” ou “vovó”; e 
4) possibilidade de aumentar o tom da voz, em casos de dificuldades auditivas, 
desde que com empatia e educação. 
Atuação resolutiva 
Da questão com informação à pessoa idosa sobre os direitos a ela assegurados e 
indicação do procedimento para pleiteá-los, os quais são exemplificadosno curso 
deste material; 
Atendimento prioritário 
 
Já tratado acima. 
 
Além disso, o enfrentamento dos problemas das pessoas idosas deve ser levado 
a efeito por meio de uma atuação estatal de caráter resolutivo e integrado, lastreada 
na postura e na ação de compreender a questão trazida pela pessoa idosa e dar o 
devido encaminhamento resolutivo, seja na área da segurança pública, seja em 
qualquer órgão ou instituição da rede de apoio estatal ou paraestatal. 
Um bom exemplo de atuação integrada é a Operação Vetus, idealizada pelo 
Ministério da Mulher, dos Direitos Humanos e da Família. Trata-se de operação 
conjunta das polícias civis de todos Estados da Federação, coordenada pelo 
Ministério da Justiça, realizada, anualmente, para mutirão de investigação de crimes 
contra os idosos, visitação a casos em situação de risco, verificação de denúncias do 
disque 100 e cumprimento de mandados de busca, apreensão e prisão além de 
deflagração de operações policiais. 
 
 
76 
Esses apontamentos são orientações gerais sobre como as forças de segurança 
pública devem proceder na sua interação com as pessoas idosas. Você reencontrará 
repetidamente essas diretrizes ao longo dos próximos segmentos, em que estudará 
cada uma das formas específicas de violência contra a pessoa idosa, bem como as 
estratégicas disponíveis para as forças de segurança pública, a fim de contribuir para a 
resolução desses problemas. 
 
Figuras 23: Alegria na velhice. Alegre senhora idosa italiana.jpg 
Fontes: Isaías bd (2016). Alberto Alvin, 1978. 
 
 
77 
Finalizando 
 
 
Neste módulo, você estudou que: 
 
• Ao longo do primeiro módulo, você teve acesso a um universo de temas sobre a 
pessoa idosa em várias áreas da vida, cujo conhecimento facilita seu trabalho, que, 
como já sabe, abrange muito mais que prevenção e resolução de crimes ao garantir 
a ideia de “paz social” e “ordem pública”. 
• Sabe-se agora que cada vez mais haverá mais pessoas idosas. E ainda bem! Logo, 
também todos serão idosos, e, portanto, terão que aprender a lidar com os 
benefícios e os desafios trazidos pelo envelhecimento da sociedade. 
• É preciso identificar estereótipos, estigmas, preconceitos, discriminações e o 
etarismo não só nos outros, mas em si mesmo, de forma que possa refletir melhor 
sobre suas condutas e postura diante do envelhecimento. Naturalmente, para ser 
um profissional melhor da segurança pública, a mudança de postura começa em 
você próprio, considerado um norte, um exemplo a ser seguido cujos 
comportamentos inspiram outras pessoas. 
• Além disso, você também viu como se dão os conflitos intergeracionais e a 
importância do suporte emocional familiar à pessoa idosa em casos de violência. 
Autonomia e independência são as palavras-chave para guiarem a atuação da 
segurança pública em relação à pessoa idosa. 
• Questões como consumo, economia prateada, arquitetura e urbanismo para as 
pessoas idosas, agora, estão no seu radar. Quando passear pelas cidades, irá 
imaginar o espaço urbano na perspectiva de uma pessoa idosa e conduzir sua ação 
para poder, cada vez mais, garantir a realização, na prática, dos direitos daquelas 
pessoas. 
• Adotando tais posturas, de hoje em diante, é possível garantir um futuro melhor 
para a sociedade, para sua família e para você mesmo. 
 
 
78 
Módulo 2 – Violência Doméstica e Familiar Contra a Pessoa Idosa 
 
 
Apresentação do Módulo 
 
 
 Áudio de apresentação do módulo 2 
 
Neste módulo, você irá estudar as diferentes formas de violência que podem ser 
submetidas a pessoa idosa no contexto das suas relações domésticas e familiares, 
considerando as particularidades da situação examinadas no módulo anterior. 
 
 
Objetivos do Módulo 
 
Os objetivos do módulo 2 são: 
• Identificar as formas de violência contra a pessoa idosa; 
• Reconhecer as circunstâncias das relações domésticas e familiares que 
podem constituir fatores de risco para atos de violência contra a pessoa 
idosa; e 
• Familiarizar-se com alguns dos principais crimes dos quais as pessoas 
idosas são vítimas no contexto de suas relações domésticas e familiares. 
 
 
Estrutura do Módulo 
 
Aula 1 - As formas de violência contra a pessoa idosa. 
Aula 2 - Estelionato afetivo. 
 
 
79 
Aula 1 - As formas de violência contra a pessoa idosa 
 
Todo crime praticado contra a pessoa idosa constitui, antes de tudo, um ato de 
violência, que pode ser caracterizado como qualquer ação ou omissão, dolosa ou 
culposa, praticada em local público ou privado que lhe cause morte, lesão, sofrimento 
físico, sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial. 
Frequentemente essas ações violentas estão associadas a condições de maior 
vulnerabilidade física, psicológica e cognitiva da pessoa idosa, como explorado no 
segmento anterior. Por exemplo, a pessoa idosa sofre de perda gradual de mobilidade 
física e de acuidade intelectual, bem como com a exclusão digital. Tal circunstância 
as torna vítimas preferenciais tanto em crimes de rua, como furtos e roubo, quanto 
em estelionatos digitais. Sofrem ainda com diversos atos de etarismo, dentro e fora 
de casa, que podem configurar diversos crimes do Estatuto do Idoso. 
Dito isso, convêm separar, inicialmente, as modalidades de violência contra a 
pessoa idosa em: violência física, violência patrimonial, violência psicológic a e violência 
sexual. 
A violência física, abuso físico ou maus-tratos físicos são o uso da força física 
para compelir pessoas idosas a fazer o que não desejam, para feri-las, provocar-lhes dor, 
incapacidade ou morte. 
Uma das formas mais comuns de violência física contra elas é a negligência, ou 
seja, a recusa ou maus-tratos por omissão de cuidados devidos e necessários por 
parte dos responsáveis familiares ou institucionais. Esse descaso é ainda mais 
preocupante, quando a pessoa idosa possuir um quadro de autonegligência, em que, 
apesar de autônoma, ela se recusa a prover as suas necessidades básicas. 
A forma extrema desse descuido é o abandono, que consiste na ausência ou na 
deserção dos responsáveis familiares, institucionais ou governamentais de prestarem 
socorro a uma pessoa idosa carente de proteção. 
A violência patrimonial é aquela que reduz o patrimônio da vítima, o que pode 
ocasionar prejuízos para a segurança financeira. 
Já a violência psicológica, abuso psicológico ou maus-tratos psicológicos 
correspondem a agressões escritas, verbais ou gestuais, geralmente reiteradas, com 
o objetivo de aterrorizar pessoas idosas, humilhá-las, restringir sua liberdade ou isolá- las 
do convívio social. 
 
 
80 
Uma das formas mais comuns de violência psicológica contra a pessoa idosa é 
o chamado etarismo recreativo. Ela consiste nos usos sociais de expressões 
linguísticas e de humor para reproduzir relações assimétricas de poder entre grupos 
de diferentes faixas etárias, a fim encobrir a hostilidade contra o envelhecimento e a 
valorização do padrão da jovialidade como o único merecedor de apreço social. 
Por fim, há o abuso e violência sexual, ou seja, um ato ou jogo sexual de caráter 
homo ou heterorrelacional contra pessoas idosas, para obter excitação, relação sexual 
ou práticas eróticas por meio de aliciamento, violência física ou ameaças. 
Dito isso, é possível separar também as modalidades de violência contra a 
pessoa idosa de acordo com o espaço social onde elas acontecem. 
Em primeiro lugar, a violência pode acontecer no âmbito social, compreendido 
como o espaço de convívio permanente de pessoas, sem vínculo familiar, no espaço 
público ou na relação com desconhecidos. 
Por sua vez, a violência institucional ocorre nas relações com instituições 
públicas e privadas, incluindo relações de consumo e de trabalho, com a população 
idosa. 
Por fim, há a violência praticada contra a pessoa idosa no contexto de uma 
comunidade formada por indivíduos que são ou se consideram aparentados, unidos 
por laços naturais, porafinidade ou por vontade de expressão e com qualquer relação 
íntima de afeto na qual a pessoa agressora conviva ou tenha convivido com a vítima, 
independentemente de coabitação. 
Neste segmento, você vai examinar especificamente essa última modalidade de 
violência, isto é, a violência contra a pessoa idosa praticada no contexto familiar e 
doméstico. No próximo segmento, será a vez de conversar sobre a violência contra a 
pessoa idosa praticada por desconhecido, o que inclui tanto a violência no âmbito 
social quanto no institucional. 
 
 
1.1 - Crimes praticados no contexto familiar e domiciliar 
 
O processo de envelhecimento é marcado por modificações nas relações da 
pessoa idosa com os demais integrantes de sua família e com todos os demais que 
compartilhem o ambiente doméstico com ela. Conforme ele avança, há a diminuição 
da autonomia e da independência, tornando a pessoa idosa cada vez mais 
dependente de um cuidador, para gerenciar a sua vida financeira, cuidar da sua rotina 
 
 
81 
de consultas, exames e medicamentos e, mais para o final da vida, ajudá-la com as 
suas necessidades mais básicas, conforme a perda da capacidade física e cognitiva 
alcance níveis mais críticos. 
O cuidador pode ser tanto formal (remunerado), informal (não remunerado, por 
exemplo, amigo ou vizinho) ou familiar. 
O surgimento da figura do cuidador na dinâmica doméstica e familiar da pessoa 
idosa é apenas uma das mudanças que caracterizam essa etapa do ciclo de vida 
humana. Existem outras. E a forma como o grupo familiar responde a essas alterações 
pode constituir fatores de risco para episódios de violência (física, psicológica e 
patrimonial) contra aquele grupo. 
Neste segmento, você vai examinar alguns dos crimes que podem acontecer 
contra ele no contexto do domicílio e/ou da família. Não se trata de uma lista exaustiva. 
A seleção levou em consideração não apenas a frequência dessas condutas, mas, 
antes também, a sua importância para a criminação dos atos de violência contra a 
pessoa idosa. 
Chama-se de criminaçãoxii o processo pelo qual uma conduta passa a ser 
enxergada socialmente como crime. Trata-se de um processo social que vai além da 
sua tipificação como crime pelo ordenamento jurídico-penal. Tal preocupação é 
importante, porque, em razão do etarismo estrutural da sociedade, diversos atos de 
violência contra a pessoa idosa são normalizados em sua reprovabilidade, isto é, não 
são percebidos socialmente como crimes. 
Nesse sentido, em termos de violência psicológica, primeiramente, é necessário 
destacar que constitui crime tanto a “humilhação, menosprezo ou discriminação da 
pessoa idosa por qualquer motivo” (art. 96, §1º, da Lei nº 10.741/2003, alterada pela 
Lei nº 13.423/2022) – 6 meses a 1 ano de reclusão e multa -, quanto a “injúria de 
pessoa idosa, ofendendo-lhe a dignidade ou o decoro por meio da utilização de 
elementos referentes a condição da pessoa idosa” (art. 140, §3º, do CP) – 1 a 3 anos 
de reclusão e multa. Assim, se o ato de desrespeito ou discriminação for uma injúria 
verbal, escrita ou gestual, haverá o crime do art. 140, §3º, e, em qualquer outra 
hipótese de humilhação, menosprezo e desrespeito contra esse grupo, incidirá, 
diversamente, o art. 96, §1º, da Lei nº 10.741/2003. 
Nesse quadro, constitui crime, por exemplo, chamar a pessoa idosa de “velho 
gagá” ou, diante de alguma dificuldade física ou cognitiva dessa mesma pessoa, falar 
 
 
82 
que “ela não serve mais para nada”. Porém, para a configuração desses tipos de 
crimes, é necessária a presença da intenção de ofender ou de discriminar. 
Note-se que essa intenção estará presente mesmo que a ofensa ou a 
discriminação tenha sido realizada como parte de uma piada, numa manifestação de 
etarismo recreativo. Fazer rir às custas da degradação da pessoa idosa é também 
uma forma de preconceito e discriminação. A piada só é engraçada quando todo 
mundo ri. 
Tais condutas podem acontecer em ambientes sociais e institucionais, porém 
são comuns no âmbito domiciliar e familiar, especialmente quando as relações 
familiares passam a ficar tensionadas, em razão do desentendimento entre um ou 
mais de seus integrantes. O desrespeito verbal é um primeiro sinal de que as coisas 
talvez não estejam bem na relação com a pessoa idosa. 
Já no âmbito dos crimes patrimoniais, observa-se que constitui também um crime 
específico a conduta de “apropriação ou desvio de bens, proventos, pensão ou 
qualquer outro rendimento da pessoa idosa para dar aplicação diversa da de sua 
finalidade” (art. 102 da Lei nº 10.741/03, , alterada pela Lei nº 13.423/2022). Trata-se 
de forma específica do crime de apropriação indébita (art. 168 do CP), embora ambos 
possuam a mesma pena: 01 a 04 anos de reclusão e multa. 
Em caso de a apropriação indébita se dar pelo próprio curador da pessoa idosa, ou 
seja, pela própria pessoa responsável pela boa gestão do patrimônio do idoso total ou 
parcialmente incapaz, deve incidir a causa de aumento de pena do art. 168, §1º, do 
CP. 
Infelizmente, essa situação é relativamente comum. Frequentemente o curador 
é também o cuidador da pessoa idosa e, conforme diminui a autonomia e a 
independência, ambas as tarefas se tornam mais onerosas. Por vezes, a pessoa sente 
que deveria ser recompensada por todo esse trabalho e acaba se apropriando de 
parte do dinheiro da vítima idosa. 
Em outros casos, há uma disputa entre os familiares próximos acerca de quem 
será o curador da pessoa idosa. Por vezes, esse embate tem como motivo uma 
autêntica preocupação com o longevo. Porém, em outros casos, a disputa é pelo 
controle do patrimônio dela, cujos familiares querem usufruir em vida. De qualquer 
forma, esse é um aspecto da dinâmica familiar que deve ser observado no curso da 
investigação, principalmente nos casos de suspeita de apropriação indébita. 
 
 
83 
Nessa linha, verifica-se que constitui também crime a “coação de qualquer modo de 
pessoa idosa a doar, contratar, testar ou outorgar procuração” (art. 103 e art. 107 da 
Lei nº 10.741/03, alterada pela Lei nº 13.423/22 - Estatuto da Pessoa Idosa). Aliás, não 
pratica crime apenas aquele que coage a pessoa idosa a outorgar procuração, mas 
também o responsável pela “lavratura de ato notarial que envolva pessoa idosa sem 
discernimento de seus atos, sem a devida representação legal” (art. 108 da Lei nº 
10.741/03, alterada pela Lei nº 13.423/22 - Estatuto da Pessoa Idosa). 
Muitas vezes, a pessoa idosa constitui a única fonte de renda estável da família. Por 
outro lado, em razão do etarismo estrutural da sociedade, ela sofre com um 
isolamento social cada vez maior, ficando, logo e especialmente, especialmente 
vulnerável a ser pressionado por seus familiares para tomar empréstimos, 
principalmente consignados, para custear o estilo de vida e os planos de vida de filhos e 
netos. Há casos que isso é uma escolha dela mesma e, nessa medida, deve ser 
respeitada. 
Porém, em outros casos, essas dívidas são resultadas de chantagem ou de 
abuso de eventual perda de autonomia e independência da pessoa idosa, 
principalmente no campo cognitivo. Nesse último caso, haverá o crime do art. 107 da Lei 
nº 10.741/2003, alterada pela Lei nº 13.423/22 - Estatuto da Pessoa Idosa. 
Na linha da violência física contra a pessoa idosa, ressalte-se o crime específico 
de “privação de pessoa idosa de sua liberdade, mediante sequestro e cárcere privado” 
(art. 148, §1º, inciso I, do CP. Trata-se de um tipo penal que se configura no contexto 
de disputas entre familiares, pois pode acontecer de o familiar que assumiu o papel 
de cuidador recusar aos outros parentes acesso à pessoa idosa e, simultaneamente, 
impedir que o idoso saia de casa. Essa conduta pode ter inclusive “boas intenções”, 
como a de protegê-lo de si mesmo e de parentes “maliciosos”. Mas essa privação de 
liberdade pode também ter por objetivo manter o controle sobre a pessoa idosa e 
especialmentedo seu patrimônio. 
Nessa linha, é crime também o abandono material da pessoa idosa (art. 244 do 
CP), que consiste na conduta de deixar, sem justa causa, de prover a subsistência de 
ascendente maior de 60 (sessenta) anos, não lhes proporcionando os recursos 
necessários ou deixar, sem justa causa, de socorrer ascendente, gravemente 
enfermo. 
Assim, os filhos e netos têm a obrigação de garantir, do ponto de vista material, 
o mínimo necessário para a subsistência de seus ascendentes, bem como de cuidar 
deles em caso de doença. Caso descumpram essa obrigação, haverá crime. Ou seja, 
 
 
84 
se nos parágrafos anteriores, você examinou alguns casos em que os familiares 
buscavam explorar o patrimônio da pessoa idosa, no caso do art. 244 do CP, a 
situação é inversa: o ascendente está em situação de penúria financeira ou enfermo 
e o descendente se recusa a ajudá-lo. Em ambos os casos, tanto na exploração 
patrimonial quanto no abandono material, há crime. 
Em relação às circunstâncias que influenciam na dosimetria da pena, chama 
atenção, primeiramente, que, quando o homicídio ou o feminicídio é praticado contra 
pessoa idosa, incide uma causa especial de aumento de pena que amplia a 
reprimenda em 1/3 (art. 121, §§ 4º e 7º, II, do CP). A mesma majoração acontece 
quando a vítima tem 60 anos ou mais (art. 129, §7º, do CP). 
Em termos de violência psicológica, a lei prevê o aumento de pena no crime de 
perseguição (art. 147-A do CP), caso a vítima seja pessoa idosa, ou seja, quando o 
autor perseguir “alguém, reiteradamente e por qualquer meio, ameaçando-lhe a 
integridade física ou psicológica, restringindo-lhe a capacidade de locomoção ou, de 
qualquer forma, invadindo ou perturbando sua esfera de liberdade ou privacidade”. 
Por fim, no âmbito dos crimes contra a dignidade sexual, como o de estupro (art. 
213 do CP), a pena é aumentada de 1/3 a 2/3, caso a vítima seja pessoa idos a. 
Vale destacar,também, que a circunstância de a vítima ser uma pessoa idosa, 
por si só, constitui, no mínimo, uma agravante genérica (art. 61, h, do CP), quando 
não constituir um elemento do tipo ou causa especial de aumento de pena. Sem 
dúvida, a correta dosimetria da pena, no caso de decisão condenatória, é 
preocupação principalmente do Poder Judiciário. 
Contudo, a correta dosimetria da reprimenda passa pela adequada elucidação 
dos fatos, que é uma das tarefas das forças de segurança pública e, por 
consequência, vai depender da coleta das respectivas provas tempestivamente. Daí 
a importância de o profissional da segurança pública ter conhecimento também das 
circunstâncias que afetam a o tamanho da reprimenda. 
 
 
85 
Aula 2 - Estelionato afetivo 
 
Recomendação de filme: O Golpista do Tinder. 
 
 
No âmbito criminal, ocorre o estelionato afetivo ou estelionato sentimental, 
quando a pessoa abusa da relação de confiança e afeto, para induzir a vítima em erro 
e, em razão dessa fraude, obter vantagem econômica. Trata-se de conduta que tem 
enquadramento no art. 171 do CP, com aumento de pena quando a vítima é pessoa 
idosa, conforme art. 171, §4º, do CP. Todavia, é necessário muito cuidado na 
verificação da tipicidade dessa conduta. 
Para a configuração do crime, não é suficiente que uma das partes do 
relacionamento afetivo presenteie a outra com bens materiais. Não há, por exemplo, 
estelionato afetivo na figura do “sugar daddy ou sugar mommy”, homens ou mulheres 
mais velhas que mantêm relacionamento com mulheres ou homens muito mais novos, os 
quais oferecem o seu afeto em troca de presentes, ajuda financeira, viagens e 
jantares em restaurantes. 
Não basta a reprovação social ou da família para que haja o crime de estelionato. É 
necessário mais do que isso: uma fraude, uma indução da vítima em erro sobre a 
configuração da realidade. Não é suficiente falar que “ele achava que ela amava ele, 
mas só estava atrás do seu dinheiro”. 
Do ponto de vista criminal, só haverá estelionato afetivo, quando a relação de 
confiança e de afeto for utilizada como instrumento para fraude, de maneira similar ao 
que acontece no furto qualificado pelo abuso de confiança (art. 155, §4º, II, do CP). 
Por exemplo, um namorado pede para a namorada uma elevada quantia em 
dinheiro, sob o argumento de que seria necessário para o tratamento de saúde de sua 
mãe, que sofreria de uma doença rara e grave. No entanto, essa situação não existe 
na realidade. Porém, convencida que a necessidade é verdadeira, a namorada 
fornece a quantia solicitada. Afinal, ela confia nele e ele abusou dessa confiança, para 
induzir a vítima em erro, praticando, dessa maneira, o crime de estelionato. 
É importante ter isso em mente, pois não é raro que, insatisfeitos com o novo 
relacionamento da pessoa idosa, os seus familiares procurem a delegacia de polícia 
para reclamar que ela está sendo vítima de um “golpista” ou de uma “golpista”. Por 
vezes, a preocupação desses familiares não é com os sentimentos da pessoa idosa 
e sim com o valor da herança que esperam receber um dia e que seria ameaçado pela 
 
 
86 
entrada de uma nova pessoa na vida do seu ascendente. Lembre-se de que o 
importante aqui é defender a autonomia e a independência das pessoas idosas e não de 
seus filhos, netos e parentes. 
Porém, a circunstância da pessoa ter mais de 60 anos não retira, por si só, o seu 
poder de escolha sobre a sua vida afetiva. Se ela possui uma perda de capacidade 
cognitiva que justifique a limitação de sua responsabilidade civil, existem instrumentos 
jurídicos para mitigar esse problema, como a tomada de decisão apoiada e a 
interdição, como já abordados no módulo 1. Sem dúvida, a criminalização da vida 
afetiva da pessoa idosa não constitui um desses instrumentos. 
 
 
87 
Finalizando 
 
• Ao final deste módulo, você pode observar o quão complexa é a questão da 
violência doméstica e familiar contra a pessoa idosa. Por essa razão, os 
profissionais da segurança pública devem ser capazes de perceber pequenos 
detalhes e circunstâncias que constituem ainda mais fatores de riscos para atos 
violentos contra a pessoa idosa. 
• Além disso, foram discutidos alguns dos principais crimes relacionados à violência 
doméstica e familiar contra a pessoa idosa e algumas formas de abordagem para 
a atuação resolutiva do problema, aliando a atuação do agente de segurança aos 
conhecimentos adquiridos no módulo 1. 
 
 
88 
Módulo 3 – Crimes de Violência Contra a Pessoa Idosa Praticados por 
Desconhecidos 
 
 
Apresentação do Módulo 
 
 
 Áudio de apresentação do módulo 3 
Neste módulo, você vai estudar algumas formas de violência contra a pessoa 
idosa praticada por desconhecidos. Uma parte considerável desta etapa é dedicada a 
analisar como os estelionatários exploram as características específicas desse grupo, 
como a sua pouca familiaridade com instrumentos digitais, para aplicar golpes. Você 
vai examinar também porque as pessoas idosas são alvos preferenciais da 
criminalidade de rua, como furtos e roubos, bem como algumas das principais formas de 
discriminação contra o idoso, especificando quais delas constituem crimes. 
 
 
Objetivos do Módulo 
 
Os objetivos do módulo 3 são: 
• Perceber como as características da situação da pessoa idosa a tornam 
um alvo preferencial tanto para a criminalidade violenta de rua quanto para 
fraudadores que espreitam o mundo virtual; 
• Conhecer as principais modalidades de estelionato que podem vitimar 
pessoas idosas, envolvendo principalmente técnicas de engenharia social, 
bem como algumas providências simples que devem ser repassadas para 
elas, para prevenir que caiam nesse golpe; 
• Tomar contato com alguns dos problemas da relação entre a pessoa idosa 
e as instituições financeiras e como a modelagem específica do 
empréstimo consignado é utilizada por muitos estelionatários para praticar 
violência patrimonial contra as pessoas idosas; e 
• Adquirir sensibilidade para as diversasformas de discriminação das quais 
a pessoa idosa pode ser vítima, assim como quais delas constituem crime. 
 
 
89 
Estrutura do Módulo 
 
 
Aula 1 - Violência de rua e crimes de discriminação contra a pessoa idosa. 
Aula 2 - Golpes virtuais e exclusão digital. 
Aula 3 - Os desafios do crédito consignado. 
 
 
90 
Aula 1 - Violência de rua e crimes de discriminação contra a pessoa idosa 
 
No segmento anterior, observam-se as particularidades que tornam a pessoa 
idosa especialmente vulnerável a atos de violência doméstica e/ou familiar. Essas 
fragilidades decorrem, entre outros fatores, da sua perda de autonomia e 
independência, em razão da progressiva redução da sua capacidade física e mental, 
bem como do etarismo estrutural que caracteriza a nossa sociedade, em que 
prevalece uma visão estereotipada da pessoa idosa, tachando-a de frágil, atrasada, 
infantilizada e incapaz de gerenciar os seus próprios problemas. 
Esse estigma que recai sobre as pessoas idosas as torna mais vulneráveis 
também a uma série de outros crimes praticados não mais por “amigos” e familiares, 
mas por desconhecidos, que veem nela um alvo fácil para o crime. 
Um criminoso de rua, à espreita de um alvo fácil para a prática do crime de furto 
(art. 155 do CP) ou de roubo (art. 157 do CP), tem a pessoa idosa como uma das 
vítimas preferenciais. Isso porque, em geral, sente confiança de que, no momento da 
abordagem, detém a superioridade de força física, mesmo que essa superioridade se 
materialize na capacidade de correr mais rápido. 
Igualmente, o estelionatário também busca preferencialmente pessoas idosas 
para aplicar os seus golpes, por acreditar que detém a superioridade em poder mental, 
em razão da perda da capacidade cognitiva que caracteriza as terceiras, quarta e 
quinta idade e a estereótipos de que as pessoas idosas seriam atrasadas e 
infantilizadas e, por consequência, mais fáceis de serem enganadas. 
O legislador reconhece essa maior vulnerabilidade da pessoa idosa, tanto que a 
pena do crime de furto é aumentada em 1/3, se ele é praticado contra pessoa idosa 
(art. 155, §4º-C, II, do CP). A mesma coisa acontece no crime de estelionato (art. 171, 
§4º, do CP). 
Nos próximos segmentos, você vai examinar algumas formas específicas de 
violência dirigidas contra a pessoa idosa por desconhecidos. 
 
 
1.1 - Crimes de discriminação contra a pessoa idosa 
 
Como se viu anteriormente, a atual sociedade brasileira é caracterizada por 
etarismo estrutural, isto é, por uma discriminação contra a pessoa idosa, baseada em 
estereótipos de que o idoso seria frágil e incapaz, um fardo para as gerações mais 
jovens. 
 
 
91 
Essa discriminação pode tomar a forma de violência patrimonial, psicológica e 
até mesmo física. Há discriminação contra a pessoa idosa, na forma de violência 
patrimonial, quando ela é recusada em uma entrevista de emprego, em razão da sua 
idade, sem levar em consideração a sua capacidade para o trabalho. 
Já na sua forma psicológica, são utilizadas, para se referir àquela população, 
expressões preconceituosas e degradantes, como na frase: “Velho não serve para 
nada! Tinha tudo mesmo que morrer”. 
Na modalidade física, o crime acontece quando a expressão mencionada é 
levada a efeito, e pessoas idosas são abandonadas à própria sorte, tanto por sua 
família quanto pelo próprio Estado, quando não há a elaboração e o financiamento de 
políticas públicas voltadas para esse segmento cada vez maior da sociedade. 
Contudo, a discriminação em razão da idade não está AINDA prevista como uma 
das formas de discriminação com enquadramento no crime de racismo (art. 20 da Lei 
nº 7.716/1989), diversamente do que acontece com a discriminação em razão da de 
raça, da cor, da etnia, da religião, da procedência nacional e, a partir do julgamento 
da ADO 26/DF pelo Supremo Tribunal Federal, da orientação sexual e da identidade 
de gênero. 
No entanto, uma série de condutas discriminatórias específicas é prevista como 
crimes na legislação penal. 
Já se sabe, como no módulo anterior, que a injúria discriminatória contra a 
pessoa idosa constitui crime (art. 140, §3º, do CP), quando praticada em qualquer 
contexto, e não apenas no contexto de conflitos domésticos e/ou familiares. 
Assim, se, numa fila de supermercado, a pessoa idosa demora um pouco mais 
para passar as suas compras, e, em razão disso, é chamado de “velho gagá” por 
alguém aguardando ainda atendimento, essa pessoa terá praticado o crime tipificado 
no referido dispositivo legal. 
Observa-se que constitui também crime impedir o acesso de pessoa idosa a 
emprego ou trabalho (art. 100, I e II, da Lei nº 10.741/2003, alterada pela Lei nº 
13.423/2022 - Estatuto da Pessoa Idosa), em razão da sua idade. Dessa forma a 
idade, assim como o gênero, a raça, a naturalidade e a orientação sexual não podem 
ser utilizadas como critério para decidir pelo recrutamento, ou não, de uma pessoa idosa. 
Em razão disso, é crime negar emprego a pessoa idosa, ao argumento de que ela 
está “velha demais para esse serviço”, a menos que a idade seja sim uma limitação 
razoável para o desempenho das respectivas funções, como no caso de empregos 
que demandam uma atividade física intensa. Aliás, configura 
 
 
92 
crime a “sujeição de pessoa idosa a trabalho excessivo ou inadequado” (art. 99 da Lei 
nº 10.741/03, alterada pela Lei nº 13.423/22 - Estatuto da Pessoa Idosa). 
No mais, você deve sempre lembrar que, independentemente do crime, a 
condição de pessoa idosa é suficiente para fazer incidir, no caso, o art. 61, II, h, do 
CP. 
 
 
93 
Aula 2 - Golpes Virtuais e Exclusão Digital 
 
 
Recomendação de vídeo – Saiba mais sobre a exclusão digital clicando aqui. 
 
 
O surgimento das novas tecnologias da informação e a consequente Revolução 
Digital modificaram drasticamente a forma como as pessoas se relacionam com o 
mundo, com outros indivíduos e até entre elas mesmas. Quem nasceu na década de 
1980 se lembra dos “orelhões” e da ficha telefônica! 
Hoje você e quase todos os seus colegas de curso carregam consigo um 
computador portátil chamado de smartphone, que funciona como telefone, cartão de 
crédito, mapa, caixa de correio, balcão de banco e muito mais. Esses pequenos 
computadores são frequentemente a conexão com entes queridos, com colegas de 
trabalho e com as infinitas possibilidades da Internet. Graças a eles é possível acessar 
uma quantidade infinita de informações. 
Se os períodos anteriores da história da humanidade foram definidos pela 
dificuldade de acesso à informação, a Era Digital é caracterizada pela sua 
superabundância, de modo que a dificuldade é saber como navegar em meio a essa 
avalanche de informações. 
Aliás, é norma estranhar ou ficar frustrado quando essa conexão é interrompida 
por falhas técnicas ou simplesmente porque se está em um lugar remoto, onde 
aparentemente o futuro ainda não chegou, não é mesmo? 
Porém, para navegar nesse admirável mundo novo, é necessário um conjunto 
mínimo de habilidades, que recebe o nome de alfabetização digital. No seu âmbito, 
ela inclui, entre outras, a habilidade de localizar e analisar dados, bem como de 
produzir e tomar decisão com base em conhecimento. Infelizmente, nem todos têm as 
mesmas condições de alcançar a alfabetização digital. 
Chama-se de excluída digital a pessoa que está sendo deixada para trás pela 
Revolução Digital, em razão da sua carência total ou parcial em termos de 
alfabetização digital. A separação entre incluídos e excluídos digitais recebe o nome 
de fissura digital e tem se ampliado rapidamente, inclusive como efeito da pandemia 
de Covid-19. É o lado sombrio das novas tecnologias da informação e contribui para 
o aumento da desigualdade não só socioeconômica, mas também a intergeracional. 
https://www.youtube.com/watch?v=VjMQERelRx8
 
 
94 
Como se viu, a população idosa é um grupo muito heterogêneo. No entanto, 
algumas generalizaçõessão possíveis. Entre elas, está o seu baixo grau de 
alfabetização digital. Parte significante desse grupo nunca teve um contato mais 
próximo com as novas tecnologias da informação. Quando muito, teve contato com 
computadores e com a Internet apenas na sua vida adulta, o que, em geral, torna-o menos 
proficientes com essas tecnologias do que os nativos digitais, isto é, as pessoas que 
nasceram já durante a Revolução Digital. 
Nessa situação de exclusão digital, total ou parcial, a população idosa se torna 
parte desse segmento especialmente vulnerável a fraudes eletrônicas. Esse quadro é 
agravado pelo progressivo declínio das suas capacidades cognitivas e pelo seu, cada vez 
maior, isolamento social. 
Assim, a prevenção e a elucidação de crimes cibernéticos contra as pessoas 
idosas merecem especial atenção das forças de segurança pública. 
Em primeiro lugar, nota-se que a falta de uma adequada alfabetização digital 
torna a pessoa idosa especialmente vulnerável a técnicas de engenharia social, que 
permitem ao fraudador obter muitos dados pessoais, bem como informações sobre a 
rotina da pessoa idosa. Isso porque, atualmente, há muitos bancos de dados na 
Internet, que podem ser consultados pelo autor das fraudes. Há também o fato de 
que, ao se navegar pela Internet, fica para trás um enorme rastro de dados pessoais, 
especialmente nas redes sociais, o qual pode ser utilizado contra os próprios usuários. 
E como isso funciona na prática? 
Por exemplo, por meio de técnicas de engenharia social, o fraudador consegue 
o nome e a foto da primeira vítima, bem como uma lista de seus amigos e familiares, 
com os seus respectivos telefones. O agressor também pode comprar esses dados 
inclusive no mercado subterrâneo, uma vez em que o Brasil já passou por inúmeros 
episódios massivos de vazamento de dados pessoais, inclusive originados de 
organizações governamentais. 
Na sequência, ele instala o aplicativo de mensagens em um celular com um 
número qualquer e coloca no perfil do usuário a foto. Então, ele envia mensagens para 
amigos e familiares da primeira vítima, argumentando que, por qualquer razão, teve 
que mudar de número de celular, pede para a nova vítima salvar o novo número, e 
conta uma história triste que termina com um pedido de transferência eletrônica de 
um valor em dinheiro para uma conta bancária do fraudador. Normalmente a história 
falsa é muito dramática e urgente, o que, por vezes, conduz à vítima secundária a 
 
 
95 
realizar a transferência sem refletir muito sobre a verossimilhança da situação. A conta 
bancária está em nome de um “laranja”, claro, que será sempre um amigo ou uma 
amiga do fraudador, caso questionado pela vítima secundária. 
Essa situação pode ser ainda mais dramática, quando o fraudador conseguir 
sequestrar o aplicativo de mensagens da própria vítima. Assim, ele terá acesso ao 
número original dela e a sua lista de contatos, ampliando exponencialmente a sua 
chance de sucesso com as pessoas que serão, efetivamente, as vítimas do 
estelionato. 
Mas como o fraudador vai conseguir sequestrar o aplicativo de mensagens da 
vítima original? Mais uma vez, as técnicas de engenharia social mostram-se muito 
úteis para esse objetivo. 
Com acesso a diversos dados pessoais da primeira vítima, o infrator tenta 
habilitar tal perfil em um novo celular, do que resulta o envio de um código de 
confirmação para o aparelho original da primeira vítima. Em seguida, o fraudador entra 
em contato com essa vítima e a convence a lhe repassar esse código, a pretexto de 
ser premiado com alguma oferta, por exemplo. De posse dessa sequência, ele 
completa a instalação do aplicativo de mensagens da vítima em seu próprio celular, o 
que potencializa enormemente a sua capacidade de aplicar golpes nos seus familiares 
e amigos, até porque, nesse caso, a vítima original fica sem acesso ao seu aplicativo de 
mensagens e, dessa forma, demora algum tempo para perceber que caiu num golpe 
e avisar a todas as pessoas de seu ciclo social, principalmente nos tempos atuais em 
que os aplicativos de mensagens são talvez a principal forma que as pessoas têm de 
se comunicar entre si. 
O sequestro da conta do aplicativo de mensagens pode ser evitado com a 
habilitação da verificação em duas etapas, que exige, de tempos em tempos, que o 
usuário digite uma senha para utilizar o aplicativo. Assim, se o fraudador não possuir 
esse código, não conseguirá operar o perfil da vítima original e terá que partir para 
outras estratégias para aplicar golpes nos familiares e amigos dessa primeira vítima. 
Assim, o sucesso da manobra depende de a vítima cometer dois erros: a não 
ativação da verificação em duas etapas e o repasse para terceiro do código de 
ativação do aplicativo de mensagem. 
Ninguém está livre de cometer esses erros, nem mesmo os nativos digitais. 
Porém, a falta de familiaridade com dispositivos eletrônicos da média das pessoas 
idosas incrementa a sua vulnerabilidade tanto a ter sua identidade roubada, o que 
 
 
96 
caracteriza o crime de falsa identidade (art. 307 do CP), quanto de ser vítima imediata 
do golpe, o que constitui o crime de estelionato (art. 171 do CP). 
Nesse ponto, convém notar que, quando o estelionato é praticado contra pessoa 
idosa, a pena deve ser aumentada de 1/3 ao dobro, por força do art. 171, §4º, do CP. 
 
Palavra do Especialista! 
 
 
Para evitar cair nessas fraudes, ative a verificação em duas etapas do seu 
aplicativo de mensagens e nunca transfira dinheiro para outra pessoa, quando 
solicitado subitamente por mensagem. Nesses casos, faça uma checagem adicional 
por um meio de comunicação alternativo, por exemplo, por uma simples chamada de voz. 
Mas deu tudo errado e você caiu no golpe? 
Em primeiro lugar, entre em contato com o banco da conta para o qual você 
transferiu o dinheiro, relate o acontecido e verifique se é possível impedir que o valor 
seja sacado pelo fraudador e seus comparsas. Em seguida, entre em contato também 
com o gestor do aplicativo de mensagens e peça a desativação da conta clonada. Por fim, 
dirija-se à Delegacia de Polícia mais próxima para o registro da ocorrência policial. Na 
oportunidade, informe: “dia e hora que ocorreu o fato com a descrição do problema; 
modus operandi; período no qual ficou sem acesso ao telefone e aplicativo; e-mail e 
telefone utilizado pelo infrator e pela vítima; contas bancárias e chaves pix para 
transferência; identificação da vítima e valores depositados” (BARRETO e SILVA, 
2022, p. 17). 
O “Sim Swap” é um golpe ainda mais sofisticado do qual qualquer um pode ser 
vítima, especialmente a pessoa idosa por ser mais vulnerável. Nesse crime, o 
fraudador não sequestra apenas o perfil da vítima em uma rede social ou em um 
aplicativo de mensagem, ele pega o próprio número de telefone da vítima. De posse 
dos dados pessoais dela, o fraudador solicita à operadora a transferência do número 
telefônico para um cartão SIM em branco, que, acreditando estar diante de titular da 
linha, realiza a operação. Isso é grave porque esse sequestro facilita o acesso do 
fraudador inclusive a aplicativos de Internet Banking da vítima, bem como a todas as 
suas redes sociais e aplicativos de mensagem. Por óbvio, a vítima perde acesso ao 
celular. 
 
 
97 
Para evitar o golpe do “Sim Swap”, é importante também ativar a verificação em 
duas etapas, mas, de preferência, com uma segunda etapa que não seja o envio de 
um código por SMS, pois, nesse caso, com a clonagem do número telefônico, o 
fraudador terá acesso à sequência de verificação. 
Esses são apenas alguns exemplos de fraudes que podem ser praticadas com 
base nas novas tecnologias da informação para perpetrar fraudes especialmente 
contra pessoas idosas, aproveitando-se do fato que frequentemente elas são 
excluídas digitais, assim como a maioria dos adultos das gerações Z para trás. 
Para além da divulgação dos cuidados simples, acima especificados,que 
diminuem o risco de a pessoa idosa cair em um golpe, a medida mais efetiva para a 
prevenção desses crimes é a elaboração e a execução de uma política pública voltada 
para a promoção da alfabetização digital da pessoa idosa. 
Alfabetização digital vai muito além de saber entrar em redes sociais e utilizar 
aplicativos de mensagens. Além da capacidade de localizar, analisar e utilizar os 
dados disponibilizados na rede mundial de computadores, a alfabetização digital inclui 
também um conhecimento mínimo de como se comportar para navegar com 
segurança na Internet. 
Ora, em grandes cidades, sabe-se que se devem evitar ruas escuras e não 
deixar itens de valor à mostra em lugares públicos. Igualmente, o repertório mínimo 
para transitar com segurança no mundo digital inclui estratégias que buscam 
minimizar riscos, principalmente em relação à disponibilização dos seus dados 
pessoais, uma vez que o passo inicial de muitos desses golpes é a sua mineração no 
ambiente virtual por meio de técnicas de engenharia social. 
 
 
98 
Aula 3 - Os desafios do crédito consignado 
 
O oferecimento de empréstimos consignados, por meio de telemarketing, para 
pessoas idosas tem sido objeto de polêmica nos últimos anos. 
Ao longo do tempo, muitas instituições financeiras e, especialmente, seus 
correspondentes bancários têm utilizado estratégias agressivas para vender 
empréstimos consignados nesse segmento, atraídas, por um lado, pela segurança 
oferecida em razão do desconto das parcelas do empréstimo diretamente nas suas 
aposentadorias e, por outro, pela falta de familiaridade das pessoas idosas com esses 
instrumentos. Assim, a instituição aborda a pessoa idosa por telefone, apresenta a 
sua oferta como imperdível, não explica como incidem efetivamente os juros e o 
impacto desse empréstimo na sua renda mensal, e impõe que ele precisa decidir 
naquele momento. 
O crédito consignado é uma forma de empréstimo interessante, pois, como é 
descontada diretamente na remuneração ou no benefício previdenciário do devedor, 
oferece, em tese, juros mais baixos. Porém, retira do devedor a possibilidade de 
escolher o que vai pagar primeiro, o que pode prejudicar, por exemplo, a compra de 
alimentos e remédios. 
Dessa forma, antes de contrair essa dívida, a pessoa idosa deve ter 
oportunidade de refletir e ser informado, pela instituição financeira ou por seus 
representantes, sobre todas as suas especificidades e problemas, por exigência do 
Código de Defesa do Consumidor. No final de 2021, a Lei nº 14.131/2021 aumentou 
de 30% para 40% a margem consignável dos aposentados e pensionistas do Instituto 
Nacional do Seguro Social - INSS. 
As reclamações contra esse tipo de comportamento acumularam-se nas 
instituições de defesa do consumidor. 
Nesse quadro, muitos estados decidiram proibir, em seu território, esse tipo de 
prática. Alguns deles estabeleceram que a solicitação de empréstimos precisa, 
necessariamente, partir da pessoa idosa. Outros estipularam que esses contratos 
somente podem ser celebrados presencialmente, inclusive para evitar que terceiros 
pressionem a pessoa idosa a concordar com o empréstimo. Distrito Federal, Espírito 
Santo, Pará, Paraná, Santa Catarina e Rondônia possuem legislações nesse sentido, 
que, aliás, já foram declaradas constitucionais pelo Supremo Tribunal Federal (ADI 
6727/PR). 
 
 
99 
Porém, apesar de constituir potencialmente um ilícito civil, essa conduta 
empresarial não constitui crime. 
A situação é diferente no caso do chamado “golpe do consignado”. 
Nessa modalidade de crime, por meio de técnicas de engenharia social, a 
pessoa reúne os dados pessoais necessários e entra em contato com a pessoa idosa, 
passando-se por um representante de uma instituição financeira ou do INSS. Em 
seguida, oferece condições extremamente vantajosas para o empréstimo consignado, 
para convencer a vítima a lhe fornecer as informações de que precisa e/ou a fazer um 
depósito prévio, na conta bancária indicada, para garantir um empréstimo. No caso 
em que há o pedido de depósito, há o crime de estelionato (art. 171 do CP). Por outro 
lado, os dados pessoais obtidos dessa maneira pelos fraudadores podem ser 
utilizados em uma série de outros golpes, especialmente contra instituições 
financeiras e o sistema financeiro nacional. 
 
 
100 
Finalizando 
 
• Neste módulo, você viu que as particularidades da pessoa idosa a tornam mais 
vulnerável não só à violência doméstica e familiar, mas também a uma série de 
outras formas de agressões praticadas por desconhecidos. Na visão desse tipo de 
criminalidade, a pessoa idosa é mais vulnerável, física e mentalmente, e, por 
consequência, um alvo preferencial para furtos, roubos e uma enorme variedade 
de espécies de estelionatos. 
• Aliás, em razão do elemento geracional, em grande parte dos casos, as pessoas 
idosas apresentam menor grau de alfabetização digital, fato que lhes deixam 
especialmente vulneráveis a crimes cibernéticos, como estelionatos e "roubos de 
identidade". 
• Assim, ao mesmo tempo em que a população idosa fica cada vez mais numerosa, 
ela também se torna ainda mais vulnerável à criminalidade da sociedade 4.0. 
• Neste módulo, foram examinadas muitas dessas formas de violência contra a 
pessoa idosa. Contudo, o tema não é exaustivo, pois demanda a atualização 
permanente do profissional de segurança pública, dada a ampla margem para a 
inovação nesse campo criminoso. 
 
 
101 
Módulo 4 – Particularidades da Investigação dos Crimes Contra os Idosos 
 
 
Apresentação do Módulo 
 
 Áudio de apresentação do módulo 4 
Neste módulo, você vai estudar alguns instrumentos importantes para que as 
forças de segurança pública cumpram a sua missão na prevenção, elucidação e 
repressão de crimes contra a pessoa idosa. 
Embora as fases do procedimento investigativo sejam similares às de outros 
crimes, as características específicas da pessoa idosa recomendam uma abordagem 
específica nesses casos, que leve em consideração as especificidades da inserção 
da pessoa idosa no seu contexto familiar e as características biológicas e psíquicas 
desse grupo etário. 
 
 
Objetivos do Módulo 
 
Os objetivos do módulo 4 são: 
• Observar a importância de cuidar dos problemas subjacentes ao episódio 
de violência, para ser efetivo na prevenção de crimes; 
• Identificar os principais canais de denúncia de atos de violência contra a 
pessoa idosa; 
• Compreender os cuidados que devem ser observados em cada etapa da 
investigação, diante das características específicas dos crimes contra a 
pessoa idosa; 
• Entender a importância da visitação à residência da pessoa idosa, tanto na 
apuração de supostos crimes quanto na prevenção de novos episódios de 
violência; e 
• Conhecer as particularidades das medidas de proteção da pessoa idosa, 
quando comparadas com os instrumentos disponíveis, por exemplo, para a 
proteção da mulher em situação de violência doméstica e/ou familiar. 
 
 
102 
Estrutura do Módulo 
 
Aula 1 - Prevenção de crimes contra as pessoas idosas. 
Aula 2 - Denúncias de crimes contra as pessoas idosas e roteiro de registro de 
ocorrência. 
Aula 3 - A investigação preliminar. 
Aula 4 - Instrumentos especiais da investigação de crimes contra a pessoa 
idosa. 
 
 
103 
Aula 1 - Prevenção de crimes contra as pessoas idosas 
 
Os objetivos da política de segurança pública são, em síntese, a prevenção e a 
elucidação de crimes. Assim, o cumprimento efetivo desses objetivos deve motivar 
todas as ações das suas forças. Eles não podem constituir meras declarações de 
intenções a serem penduradas na parede sem maiores consequências. 
Dito isso, modernamente, sabe-se que, se o objetivo é a efetiva prevenção de 
crimes, não basta simplesmente patrulhar as ruas do território e atender às 
ocorrências que, porventura, surgirem. É indispensável adotar uma postura voltada à 
resolução dos problemas que dão ensejo,eventualmente, à prática de crimes. 
Nos segmentos anteriores, examinaram-se muitos desses fatores de risco, em 
relação aos atos de violência contra a pessoa idosa, como, por exemplo, a sobrecarga 
dos seus cuidadores, que pode ser causada pela falta de políticas públicas que deem 
suporte a essas famílias, como a insuficiência na região de centros de convivência de 
idoso. Constitui também um importante fator de risco a deficiente segurança financeira da 
família, que tende a majorar o risco de conflitos internos. 
O modelo de policiamento que tem como particularidade o enfrentamento das 
condições subjacentes ao crime se chama, Policiamento Voltado ao Problema, que visa 
minimizar a possibilidade da ocorrência de novas infrações. Nessa linha, diante da 
prática de um crime, não basta elucidar a sua autoria e circunstância, mas também 
analisar as suas causas subjacentes, para diminuir a chance de sua repetição no 
futuro. 
Dito de outro modo, o modelo do policiamento voltado ao problema busca 
superar o método burocrático de polícia, no qual prevalece a visão de que as forças 
de segurança pública deveriam se preocupar apenas com a repressão de crimes e de que 
os problemas subjacentes a essa criminalidade, como iluminação pública e 
assistência social, são problemas de outros segmentos da máquina estatal. 
Predominava, dessa maneira, o entendimento de que cada repartição do Poder 
Pública deveria atuar tão somente na área de sua competência e especialidade, isto 
é, focar em suas atribuições específicas sem olhar para o lado. 
Diversamente, o modelo do policiamento voltado à resolução do problema busca 
uma atuação mais efetiva da máquina estatal, pois compreende a necessidade de 
criar fluxos transversais entre os seus diversos segmentos, de modo a resolver 
efetivamente a situação. 
 
 
104 
Pode-se dizer que há semelhanças entre a perspectiva do policiamento voltado 
à resolução do problema com a atuação resolutiva do problema, visto no módulo 1. 
Mas também há diferenças. Enquanto ambos estão interessados não apenas no 
atendimento da ocorrência ou chamado da comunidade, mas também nas questões 
subjacentes, o policiamento voltado à resolução do problema tem mais relação com a 
atividade ostensiva da polícia, de uma maneira mais ampla e geral, enquanto a 
atuação resolutiva do problema guarda mais relação com a atividade investigativa e 
dedicada à solução daquele caso em si. Contudo, isso não quer dizer que, por vezes, 
eles não podem se confundir. 
 
 
 
Essa maior preocupação com a efetividade das políticas de segurança pública 
está inserida num movimento mais amplo na administração pública não só no Brasil, 
como no mundo, denominado gerencialismo. 
Em resumo, o foco do gerencialismo é a melhoria da efetividade da máquina 
estatal, por meio adoção no setor público de parte dos instrumentos de gestão do 
setor privado. Entre eles, está a preocupação de avaliar constantemente a efetividade da 
organização, a partir de indicadores estabelecidos em razão dos seus objetivos. 
 
 
 
seus 
 
 
 
 
 
administração 
 
 
https://youtu.be/WtQbB0-fwV4
 
 
105 
Como se viu, no caso das organizações voltadas à promoção da segurança 
pública, um dos seus principais objetivos é a prevenção de crimes. Para tanto, não 
basta que a organização cumpra as suas obrigações específicas, deve ainda 
colaborar com as demais organizações públicas, para que o problema seja 
efetivamente resolvido. 
 
 
 
Porém, como tudo isso funciona na prática? A ideia de policiamento voltado para 
a resolução de problemas tem aplicabilidade nos diversos níveis da elaboração e 
execução da política de segurança pública. 
Pense, por exemplo, na atuação de um policial militar chamado a intervir em uma 
situação flagrancial de violência doméstica e familiar contra pessoa idosa. 
No modelo burocrático, ao tomar conhecimento de uma situação flagrancial de 
violência contra a pessoa idosa, o integrante da polícia ostensiva dirige-se ao local, 
toma providências para fazer cessar a violência, caso isso seja necessário, isola o 
local para perícia e encaminha o agressor, a vítima e as eventuais testemunhas para 
a delegacia de polícia mais próxima. A partir daí, o caso não é mais seu problema. 
Diferentemente, no policiamento voltado à solução do problema, esse mesmo 
policial, já nesses momentos iniciais, conversa com a pessoa idosa, de modo a 
O modelo gerencial de administração pública 
 
O modelo gerencial é uma evolução do modelo burocrático e tem 
como principal característica a adaptação de instrumentos da 
gestão privada para a gestão pública, com o objetivo de 
aumentar a sua efetividade, ou seja, a sua capacidade de 
satisfazer o interesse do público. 
Entre essas inovações está a ampla utilização de indicadores 
para a mensuração do desempenho dos diversos serviços 
públicos. É relevante também a adoção da ideia de ciclos nas 
políticas públicas, em que elas são constantemente submetidas 
à revisão e ao aperfeiçoamento, diante das informações obtidas 
com a mensuração dos indicadores de efetividade da política 
pública. 
Para saber mais, não deixe de assistir ao vídeo clicando aqui. 
https://youtu.be/wTIcHfsxRXk
 
 
106 
compreender não só a dinâmica desse ato de violência, mas também os problemas 
que lhe são subjacentes, sempre de maneira empática e com uma abordagem sem 
julgamento. 
Na sequência, com uma visão mais clara do quadro geral, encaminha essa 
vítima para outros serviços públicos que possam ajudá-la a solucionar aquelas 
questões. Talvez seja o caso de encaminhá-la para um centro de referência em 
assistência social (CRAS), para que a pessoa idosa obtenha benefícios que vão 
contribuir com a sua segurança financeira ou para um centro de atenção psicossocial 
(CAPS), para receber ajuda de um psicólogo e/ou de um psiquiatra, a fim de superar um 
quadro de depressão, que a deixa mais vulnerável a esses episódios de violência. Essas 
orientações iniciais são importantes para a solução que está na raiz de muitos 
desses crimes. Há um desconhecimento geral sobre o funcionamento dos serviços 
públicos disponíveis para o cidadão. Assim, os integrantes das forças de segurança 
pública podem e devem ser um vetor de disseminação dessas 
informações, inclusive para ser efetivo na sua tarefa de prevenir crimes. 
Tudo isso parece muito bom, mas você deve estar querendo saber ainda mais 
detalhes de como o policiamento voltado para a solução de problemas e a atuação 
resolutiva do problema funcionam na prática. 
O principal método de policiamento voltado para a solução de problemas é 
conhecido pela sigla IARA (ou SARA, no original em inglês): Identificar, Analisar, 
Responder e Avaliar (MORAIS, 2015, p, 236). Trata-se de um ciclo de ações muito 
similar ao ciclo das políticas públicas em geral, que segue idealmente a seguinte 
sequência: identificação do problema público; formulação da agenda pública – em que 
é feita a priorização dos problemas públicos; exploração das soluções possíveis; 
tomada de decisão; planejamento das ações da política pública; execução das ações 
da política pública e avaliação das ações da política pública. De qualquer modo, é 
importante você saber mais concretamente o que significa cada uma das letras do 
método IARA. 
O primeiro passo é IDENTIFICAR os problemas e suas circunstâncias, para, em 
seguida, ordená-los em ordem de prioridade, com ênfase nos problemas responsáveis 
por um maior número de crimes, seguindo a lógica do princípio de Paretoxiii (MORAIS, 
2015, p. 237 e 240). Essa identificação pode ser no nível micro e no calor dos 
acontecimentos, como no exemplo acima, em que o policial militar conversa com a 
vítima idosa e identifica os fatores de risco subjacentes à sua situação concreta. Mas 
 
 
107 
pode acontecer também no nível estratégico, por meio da observação estatística dos 
principais crimes contra a pessoa idosa em determinado território.É possível inclusive 
a utilização de técnicas de pesquisa para a coleta dessas informações, como a 
aplicação questionários e realização de entrevistas. 
O método IARA destaca também a importância do diálogo constante com a 
comunidade para a identificação desses problemas. A máquina estatal não é 
onipresente e, nessa medida, quem mora ou trabalha no local detém informações e 
perspectivas que são indispensáveis para a formulação de ações efetivas para a 
identificação e o enfrentamento do problema. Nesse ponto, é especialmente 
importante a oitiva da rede local de apoio e proteção da pessoa idosa na identificação 
dessas adversidades, na medida em que ela atende dia a dia pessoas idosas e, por 
consequência, tem um contato privilegiado com suas crises e dificuldades. 
Essas informações são indispensáveis não só para a identificação de problemas 
públicos, mas também para as demais fases do ciclo proposto pelo método IARA. 
Se a fase de identificação corresponde à coleta de evidências e perspectivas 
acerca do problema, o passo seguinte é a sua ANÁLISE. Nele, os dados reunidos na 
etapa anterior devem ser correlacionados com o estado da arte do conhecimento 
científico acerca do tema, para especificar tanto as condicionantes do problema 
especificado quanto as melhores soluções possíveis para o seu enfrentamento. Note- se 
que são muitas as áreas do conhecimento que podem contribuir para elucidação das 
causas de um fenômeno criminoso, como educação, psicologia social, sociologia, 
assistência social, entre outras. 
Essa abordagem transforma o policiamento voltado para a resolução de 
problemas em uma autêntica política pública baseada em evidências que, juntamente 
com o estado da arte em conhecimento científico, ocupam um lugar central no 
processo decisório. 
Na fase de análise, deve se considerar o modelo do “triângulo de análise de 
problemas”, de acordo com o qual “o crime ocorre quando um potencial infrator 
encontra-se com um potencial alvo (para aquele tipo de infrator) no mesmo tempo e 
lugar, sem a presença de um guardião eficaz” (MORAIS, 2015, p. 238). 
Além disso, as soluções mapeadas na fase de análise podem ser classificadas 
como ações de prevenção primária e de prevenção secundária. 
As ações de prevenção primária atuam sobre as causas do fenômeno criminal, 
de modo a evitar que ele aconteça. Por exemplo, uma política pública de fomento da 
 
 
108 
alfabetização digital da pessoa idosa atua na prevenção primária de crimes de 
estelionato por meio digital, cujos autores frequentemente têm como alvo preferencial 
a pessoa idosa, que costuma ter mais dificuldades com as novas tecnologias da 
informação. 
Já as ações de prevenção secundária atuam sobre indivíduos e grupos 
específicos, que apresentem um risco concreto de se envolver em fenômenos 
criminosos, como vítima ou como autor. São exemplos de iniciativas de prevenção 
secundária: realizar policiamento ostensivo com foco nas famílias em contexto de 
violência doméstica e familiar; realizar visitas domiciliares às famílias em contexto de 
violência doméstica ou familiar, enquanto perdurarem os fatores de riscos; elaborar 
em conjunto com as vítimas de violência doméstica um plano de segurança individual. 
Em seguida, tem-se a fase de RESPOSTA, em que, diante das soluções 
possíveis catalogadas na fase de análise, o gestor responsável escolhe quais dessas 
soluções serão articuladas na forma de uma política pública voltada para a solução 
do problema identificado. Ainda nessa mesma etapa, essa decisão é executada. 
Quando se fala em políticas públicas em geral, muitos autores separam a fase 
de tomada de decisão e de execução, mas o método IARA reúne esses dois 
processos em uma só etapa. 
Por exemplo, diante da proliferação de estelionatos contra idosos, a Polícia Civil 
pode realizar um levantamento, na sua base de ocorrências policiais e inquéritos em 
andamento, para mapear as circunstâncias desses crimes. Por fim, observa-se um 
padrão: os crimes são praticados em meios digitais e os autores aproveitam da 
familiaridade de parte significativa das pessoas idosas com as novas tecnologias da 
informação. 
Logo, a solução proposta para o enfrentamento desse fenômeno criminoso foi 
se aliar com parceiros da sociedade civil, especialmente da rede de apoio e proteção 
da pessoa idosa, tanto para elaborar materiais específicos com cuidados que a 
pessoa idosa deve ter para evitar ser vítima desses golpes, quanto para a promoção, 
em geral, da alfabetização digital desse segmento da população. 
Por fim, há a fase de AVALIAÇÃO, em que é verificada a efetividade das 
soluções escolhidas e, com base nas informações colhidas ao longo da execução da 
política pública, verifica-se se ela deve ser mantida, revisada ou mesmo encerrada. 
Em caso de continuidade, o ciclo se reinicia. Essa fase é importante não só para 
interromper ações que não estão funcionando ou para aperfeiçoar a iniciativa em 
 
 
109 
curso, mas também replicar as ações de sucesso em outros territórios (MORAIS, 
2015, p. 238). 
No exemplo anterior, ao fim de um determinado período, verificam-se se houve 
redução nas ocorrências de estelionato digital contra a pessoa idosa e o perfil dos 
crimes que continuam acontecendo. Pode ser que tenham surgidas novas estratégias de 
fraude, que importem a necessidade de revisar o material informativo anteriormente 
elaborado. 
Observe-se que a adoção do policiamento voltado à solução de problema 
encontra amparo inclusive na configuração da Política Nacional de Segurança Pública 
e Defesa Social (Lei nº 13.675/2018). Afinal, ele possui, entre as suas diretrizes, o 
foco na resolução de problemas (art. 5º, XII) e a integração transversal das políticas 
de segurança com as políticas sociais existentes em outros órgãos e entidades, ainda que 
vinculado a outro ente da Federação e não pertencente ao Sistema Único de 
Segurança Pública (art. 5º, IV e XIX). 
Há também uma grande ênfase: em participação social (art. 4ª, VII e art. 6º, V); 
na atuação baseada em evidência e no estado da arte do conhecimento científico (art. 5º, 
IX e art. 6º, VI); no atendimento prioritário, qualificado e humanizado às pessoas em 
situação de vulnerabilidade (art. 5ª, X); e na eficiência na prevenção de infrações 
penais (art. 4º, IV), aferida por mecanismos de acompanhamento e avaliação (art. 6º, 
XVIII). 
 
 
1.1 - Mediação dos conflitos 
 
Em muitos casos, no contexto de atos de violência doméstica e familiar, a vítima 
idosa apresenta uma postura aparentemente ambígua. Ela quer deixar de sofrer a 
violência física, psicológica ou financeira, mas não quer romper a relação conflituosa, 
em razão de relação de afeto subjacente. Afinal, por vezes, os agressores são seus 
próprios filhos, netos e cônjuge. Nesses casos, a mediação de conflitos mostra-se útil por 
ir além da elucidação e repressão do crime praticado. 
A mediação de conflitos é um método consensual de solução de conflitos, no 
qual as partes já possuem vínculos anteriores e que é conduzido por um terceiro não 
interessado, cuja atuação visa à identificação das questões objeto do conflito, os 
interesses e as circunstâncias, conduzindo à construção com as partes de soluções 
criativas e adequadas ao caso concreto, de forma a gerar benefícios mútuos. 
 
 
110 
No Distrito Federal – Tribunal de Justiça do DF a Central Judicial do Idoso 
mapeou dados do Núcleo de Mediação do Idoso – “A mediação de conflitos como 
ferramenta de prevenção de crimes contra a pessoa idosa”: 
 
Os dados do Núcleo de Mediação do Idoso, publicados recentemente, 
revelam que de abril de 2014 a dezembro de 2018, foram realizadas 642 pré- 
mediações, 160 mediações, 98 acordos, com 1769 pessoas atendidas. 
Na mesma publicação, identificou-se que a principal temática submetida à 
mediação é o cuidado com o idoso, seguida de conflitos familiares e conflitos 
envolvendo questões financeiras. 
Considerandoque os três principais tipos de violência praticada contra a 
pessoa idosa são a violência psicológica (31,12%), a negligência (30,03%) e 
a violência financeira (17,64), segundo a análise dos dados coletados da CJI, 
do Disque 100 e do Nepav, entre 2008 e 2016, temos que a mediação de 
conflitos sobre os referidos temas tem o condão de interromper o caminho de 
violência nas famílias (Tribunal de Justiça do Distrito Federal e dos Territórios, 
2019). 
 
 
SAIBA MAIS! 
 
 
Leia os artigos que tratam de mediação de conflitos envolvendo a pessoa idosa: 
 
 
1. Mediação de conflito: soluções propostas em atendimento a casos de violência 
contra a pessoa idosa. 
2. Mediação de conflitos de violência infrafamiliar contra pessoas idosas: Uma 
proposta não jurídica. 
https://www.scielo.br/j/rbgg/a/vDV8c6chV7BVNZ7vr3FKdck/
https://www.scielo.br/j/rbgg/a/vDV8c6chV7BVNZ7vr3FKdck/
https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fass/article/view/18168/13312
https://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/fass/article/view/18168/13312
 
 
111 
Aula 2 - Denúncias de Crimes Contra as Pessoas Idosas e Roteiro de Registro 
de Ocorrência 
O Estado moderno é uma máquina enorme que pode muito, mas não pode tudo. 
Especificamente, os seus agentes não podem estar em todos os lugares. Assim, 
frequentemente depende da ajuda da comunidade inclusive para tomar ciência da 
ocorrência de supostos crimes. Para potencializar essa ajuda, a criação, manutenção 
e divulgação de canais de denúncia de crimes, inclusive denúncias anônimas, 
mostram-se essencial. 
Dentro da lógica do método IARA de policiamento voltado para a solução de 
problemas, os canais de denúncia constituem um elemento importante na fase de sua 
identificação e circunstâncias. 
No âmbito de cada estado, a Polícia Civil possui canais próprios de denúncias. 
No final desse material, você encontrará o telefone de cada um deles. Por sua vez, no 
Governo Federal, o Ministério da Justiça disponibiliza uma pluralidade de canais de 
denúncias para as mais variadas espécies de crime. 
Entre eles, são especialmente relevantes para a denúncia de crimes contra a 
pessoa idosa: o DISQUE 100 (Disque Direitos Humanos) e o DISQUE 180 (Disque 
violência contra a mulher). As denúncias recebidas por esses canais são 
encaminhadas à Polícia Judiciária para investigação. Além disso, qualquer pessoa ou 
organização pode encaminhar notícia de crime para a delegacia de polícia mais 
próxima por qualquer meio disponível, como telefone, e-mail, rede social e até mesmo de 
maneira presencial. 
Independentemente de sua origem, as denúncias recebidas pela Polícia 
Judiciária serão objeto de investigação. Porém, nem sempre elas contêm elementos 
de informação mínimos para a instauração de termo circunstanciado ou inquérito 
policial. Nesses casos, será necessária uma apuração preliminar, para verificar se a 
instauração desses procedimentos é possível. 
Instaurado ou não, o denunciante deve ser informado do encaminhamento da 
sua denúncia, caso seja possível a especificação da identidade do comunicante. 
 
 
112 
2.1 - Roteiro de registro de ocorrência 
 
Um dos canais mais comuns para a denúncia de atos de violência contra a 
pessoa idosa são o balcão da Delegacia de Polícia, quando uma testemunha, vítima 
ou denunciante vai diretamente até lá, ou por meio da abordagem por parte da Polícia 
Ostensiva, que desaguará também na Polícia Judiciária, para o registro de ocorrência 
policial, instauração de inquérito policial,se for o caso, e envio posterior ao Poder 
Judiciário. 
Este segmento contém um roteiro semiestruturado para o registro da ocorrência 
policial e traz, questões que devem ser levadas em consideração no momento da 
elaboração do boletim pelas Polícias Civis e pela Polícia Federal. No entanto, ele é 
útil também para as Polícias Ostensivas, na medida em que específica uma série de 
circunstâncias que devem ser objetos de atenção no momento da abordagem, por 
exemplo, de uma situação flagrancial. 
É bom lembrar, aliás, que o tratamento homogêneo das ocorrências registradas 
pela Polícia Ostensiva e a Polícia Judiciária é uma das diretrizes da Política Nacional 
de Segurança Pública e Defesa Social (art. 5º, XXII, da Lei nº 13.675/2018). 
Abaixo, um roteiro para o registro de ocorrências relacionadas com atos de 
violência contra a pessoa idosa, que, diante das suas particularidades, deve ser objeto 
de atenção especial por parte do policial, retirado do Procedimento Operacional 
Padrão da Pessoa Idosa da Polícia Civil do Distrito Federal (2021): 
 
I - Indagar sobre todos os detalhes da eventual situação criminosa, em 
especial as circunstâncias que apontam para a violência contra a 
pessoa idosa, considerando-se os elementos e circunstâncias 
descritas nos tipos penais, causas de aumento e agravantes 
referentes à condição da pessoa idosa como vítima, mencionadas, de 
forma exemplificativa, no presente material; 
II - indagar sobre eventuais pessoas que estavam presentes no 
momento da conduta, eventuais testemunhas, com a devida 
qualificação pessoal, perguntar sobre eventual motivação do crime, 
descrição do ambiente, os sentimentos da vítima, se houve agressões 
físicas ou verbais, e quais foram exatamente as palavras proferidas, 
no caso de agressão verbal, transcrevendo-as literalmente e com o 
uso de aspas; 
III - descrever as circunstâncias em torno do crime, se há filhos da 
vítima, relações familiares conflituosas, que tipo de conflitos existem, 
uso de substâncias químicas, entorpecentes, álcool, existência de 
armas de fogo ou habilidades em lutas marciais e, em caso de 
dependência química, encaminhar a pessoa idosa ao serviço 
responsável pelo tratamento dessa doença e ao centro de referências 
em assistência social mais próximo da casa da pessoa idosa; 
 
 
113 
IV - questionar sobre a saúde da pessoa idosa, se faz uso de 
medicação contínua, se tem doenças que demandam 
acompanhamento (por exemplo: do coração, diabetes, pressão alta, 
osteoporose, osteoartrose, depressão e demência, por exemplo a de 
Alzheimer), se consegue alimentar-se adequadamente, se pratica 
atividade física regularmente, onde realiza acompanhamento médico 
e com que frequência. Caso sejam verificados problemas de saúde e 
caracterizado ou suspeitado que esteja sem receber atendimento 
regular, deve-se encaminhar para a unidade básica de saúde mais 
próxima da residência da pessoa idosa; 
V - questionar sobre as finanças da pessoa idosa, se possui débitos, 
dívidas, financiamentos, quem é responsável pela gestão financeira, 
se tem ciência sobre sua condição financeira e, em caso de 
dificuldades ou inexistência de renda familiar, encaminhar para os 
centros de referências em assistência social mais próximo da casa da 
pessoa idosa; 
VI - no caso de vítimas com experiências sociais de opressões 
cruzadas, questionar a vítima sobre suas dificuldades particulares, que 
a impossibilita de solucionar os problemas narrados, observando a 
abordagem interseccional; 
VII - em casos de crimes contra os idosos praticados em ambientes 
virtuais ou redes sociais, procurar preservar as provas do eventual 
delito: 
• por meio do uso do celular ou da tecla print screen para fotografar 
o insulto, imprimir a prova e juntar à ocorrência policial; 
• por meio da identificação do emissor e destinatário de e-mails 
ofensivos, retirados da ampliação do cabeçalho dos correios 
eletrônicos; 
• por meio de sistemas de preservação de provas digitais como 
CDs, pendrives, repositório de arquivos virtuais (nuvens); 
VIII - em caso de agressões ou discussões públicas ou familiares de 
crimes contra a pessoa idosa, reunir o maior número de testemunhas 
que presenciaram a agressão com seus nomes e telefones de contato; 
IX - em caso de agressões físicas, abandono material, ou outros 
crimes contra a pessoa idosa, registrar as agressões por meio de 
fotografia e encaminhar a vítima ao Instituto Médico Legal mais 
próximo, para exame de lesõescorporais, descrevendo, no histórico 
da ocorrência policial e no memorando de encaminhamento, o maior 
nível de detalhes das circunstâncias em que fora encontrada a vítima 
– sendo altamente recomendável o registro de alteração do estado 
mental, caso tenha sido observada; 
X - em caso de crimes contra a pessoa idosa ocorridos em âmbito 
doméstico ou familiar, esclarecer sobre a existência das medidas 
protetivas de urgência e indagar se a vítima deseja ou não requerer 
tais medidas, descrevendo no histórico com máximo detalhamento 
acerca da rotina da pessoa agressora, sua renda, ocupação, 
condições familiares, econômicas e de moradia; 
XI - em caso de crimes sexuais contra a pessoa idosa: 
• informar a aparência da pessoa agressora, se ela possui 
tatuagens, piercing, vestimentas, odores diferentes, seu aspecto 
físico, se usou aparelho celular antes ou depois do ato, qual era 
o teor da conversa; 
• informar se havia ou não vestígios no local, que tipo de vestígios, 
possibilidade de colheita de impressão digital ou material 
genético, como “bitucas” de cigarros e chicletes; 
 
 
114 
• informar se houve uso de preservativos em caso de relação 
sexual e se houve ejaculação; 
• se possível, refazer o percurso da vítima e observar a presença 
de câmeras; 
• se for o caso de a vítima reconhecer o agressor, encaminhá-la 
ao serviço de retrato falado. 
XII - em casos de desaparecimento de pessoas idosas: 
• coletar o máximo de informações sobre sua rotina, costumes, 
contato com últimas pessoas, detalhar a última vestimenta da 
vítima, operações bancárias, telefones celulares, contatos de 
pessoas próximas; 
• inquirir e registrar na ocorrência, especificamente, se há 
conhecimento ser acometida por doença de Alzheimer ou outra 
demência (“perda de memória” ou outra alteração significativa 
do estado mental), bem como alguma ocorrência anterior de ter 
se perdido em local para ela conhecido 
• informar na ocorrência se a vítima faz uso de medicação e que 
tipo, se tem algum tipo de acompanhamento médico; 
• informar, por meio do meio de comunicação disponível, a 
eventual centro integrado de atuação das forças de segurança 
pública, o registro da ocorrência, bem como as principais 
características da vítima, e constar a providência no histórico da 
ocorrência; 
• informar, via telefone, a rede hospitalar da região do 
desaparecimento, e constar a providência no histórico da 
ocorrência policial; 
• alimentar o Sistema Nacional de Localização e Identificação de 
Desaparecidos – SINALID, e constar a providência no histórico 
da ocorrência policial. 
XIII - em casos de pessoas idosas encaminhadas às delegacias de 
polícia sem identificação: 
• consultar os sistemas policiais para tentar identificá-la; 
• verificar a existência de ocorrência de desaparecimento nos 
sistemas policiais, bem como registro no SINALID; 
• observar se existem indícios de doença de Alzheimer ou outra 
demência, caracterizados, por exemplo, por: perda de memória 
sobre fatos básicos, desorientação no tempo (dia da semana, do 
mês, ano etc.) e/ou no espaço (bairro, cidade, reconhecer que 
está em unidade policial), confusão mental, comportamento 
bizarro etc. 
• não havendo indício de agressão física ou de qualquer conduta 
criminosa, encaminhar ao CRAS da região mais próxima para o 
devido acolhimento; 
• em caso de suspeita de crime, registrar ocorrência policial e 
encaminhar ao IML, se for o caso, ou mesmo ao serviço de 
identificação civil. 
XIV - juntar ocorrências policiais anteriores, folha de antecedentes 
criminais e identificação civil referentes aos envolvidos à ocorrência 
policial de violência contra as pessoas idosas; 
XV – listar, na ocorrência policial, pessoas que possam ser 
responsabilizadas pelo cuidado da pessoa idosa, filhos, netos, 
parentes próximos, irmãos, procedendo à pesquisa nos sistemas 
policiais de parentes dos idosos que são responsáveis legais por eles; 
 
 
115 
XVI - questionar se a vítima tem consigo ou em fácil acesso outros 
documentos que possam atestar e fortalecer sua narrativa, como 
laudos médicos, psicológicos, decisões judiciais, se o ofensor é 
usuário de drogas etc.; 
XVII - em caso de crimes patrimoniais contra os idosos, descrever os 
responsáveis pela gestão financeira na ocorrência policial, informando 
quem realiza saques, se há instrumento de procuração para tanto, e 
solicitar extratos bancários dos idosos, bem como relatório de receitas, 
despesas e patrimônio da vítima. 
XVIII – em caso de crimes ocorridos em Instituições de Longa 
Permanência para Idosos apurar situação de regularidade do 
estabelecimento em relação às exigências dos órgãos competentes, 
incluindo a autorização expedida pelo Conselho Distrital do Idoso. 
 
 
116 
Aula 3 - A Investigação Preliminar 
 
Houve a denúncia ou o registro de ocorrência policial e o caso foi encaminhado 
para o Delegado de Polícia. Quais são os próximos passos? Qual é o fluxo que se 
inicia com essas informações iniciais e conclui com relatório final que, em regra, 
encerra essa primeira etapa da persecução criminal? 
Chama-se de investigação preliminar a fase inicial da persecução criminal e que 
pode culminar com o arquivamento da apuração ou com o oferecimento de denúncia 
perante o Poder Judiciário. De maneira genérica, é possível segmentar a investigação 
preliminar nas seguintes etapas: 
 
 
1) Recebimento de notícia de crime ou registro de ocorrência; 
2) Apuração prévia; 
3) Instauração de termo circunstanciado ou inquérito policial; 
4) Diligências; e 
5) Relatório final. 
 
Na sua atuação prática, você já está familiarizado com cada uma dessas etapas, 
mas, neste segmento, você vai revisitar cada uma delas, a partir da abordagem que é 
necessária especificamente na apuração dos crimes contra a pessoa idosa. 
Inicialmente, como se viu, nem sempre será possível a instauração imediata de 
termo circunstanciado ou de inquérito policial, a partir do recebimento pela Polícia 
Judiciária da notícia de crime ou da ocorrência policial. Por vezes, será necessário 
proceder as apurações prévias, para colher elementos mínimos que viabilizem a 
instauração da investigação preliminar propriamente dita. Ressalte-se: essa etapa 
será desnecessária, se as informações iniciais trouxerem elementos suficientes para 
a instauração de uma investigação formal. 
Dito isso, nesse momento procedimental, é importante atentar para algumas 
circunstâncias e estratégias próprias da apuração dos crimes contra a pessoa idosa: 
 
 
I – Oitiva por telefone de vítimas, comunicante, ou qualquer envolvido já qualificado 
na denúncia ou na ocorrência policial, observar a ordem que atenda à conveniência e 
oportunidade da investigação; 
 
 
117 
 
II – Em caso de crimes que envolvam violência patrimonial, solicitar cópias de extratos 
bancários à vítima ou a seu responsável, bem como relatórios detalhados contendo a 
receita e a despesa mensal da pessoa idosa; 
III – Em caso de crimes contra a pessoa idosa em ambiente doméstico e familiar, 
realizar diligências na respectiva vizinhança, a fim de buscar testemunhas das rotinas da 
vítima e dos eventuais agressores, assim como elementos que forneçam indícios 
sobre o estado de saúde física e mental da pessoa idosa; 
IV – Em caso de crimes relacionados a abandono material, realizar visita domiciliar à 
pessoa idosa, para verificar as condições em que ela vive, se há alimentação 
suficiente, medicamentos, vestuário, condições mínimas de higiene, entre outros 
elementos. Considerando a realidade social e epidemiológica da velhice brasileira, é 
desejável perquirir elementos sociais que permitam avaliar, ainda que 
preliminarmente, se uma eventual insuficiência de cuidados decorra da escassez de 
meios e/ou da ignorância das necessidades de um idoso dependente de cuidados em 
contraposição à desídia na prestação de cuidados; 
V – Em casos de denúncias sobre as condições de higiene tratamento de idosos em 
instituições de longapermanência, comunicar os fatos ao Ministério Público, para que 
sejam tomadas, paralelamente, as devidas providências na esfera cível; 
VI – Em caso de denúncias de maus tratos provocados por cuidadores, verificar com 
a família a possibilidade de instalação de câmeras de segurança secretas ou mesmo 
dispositivos de gravação ambiental para eventual colheita de prova. 
 
Quando for efetivamente necessária, a apuração prévia deve ser consolidada 
em um relatório das diligências iniciais, com filmagens, fotos e outros dados que 
atestem os fatos ou as condições de vida da pessoa idosa. 
Neste material, há uma sugestão anexa de modelo de relatório. É desejável 
consignar, nesse documento, os elementos que caracterizam qualquer estado de 
saúde e/ou condição funcional que indiquem maior grau de vulnerabilidade, como a 
presença de doença de Alzheimer ou outra demência, emagrecimento acentuado e 
presença de feridas causadas por restrição no leito, entre outros. 
Encerrada a apuração prévia, o (a) Delegado (a) de Polícia deve verificar se é 
ou não, o caso de instaurar termo circunstanciado ou inquérito policial. 
Nesse ponto, convém destacar que, nos crimes previstos na Lei nº 10.741/03 
(Estatuto do Idoso, alterada pela Lei nº 13.423/22 - Estatuto da Pessoa Idosa), cuja 
pena privativa de liberdade não ultrapasse 4 anos, aplica-se 
 
 
118 
o procedimento previsto na Lei nº 9.099/95 (Lei dos Juizados Especiais Civis e 
Criminais) nos termos de seu art. 94. Porém, os institutos despenalizadores previstos 
nos art. 76 e 89 da Lei nº 9.099/05 não são aplicados, conforme entendimento do 
Supremo Tribunal Federal, exarado em controle de constitucionalidade abstrato, com 
efeito vinculante aos demais órgãos do Poder Judiciário e ao Poder Executivo, na ADI 
3.096-5 – STF. Além disso, em caso de complexidade de investigação do caso 
concreto, deve se instaurar inquérito policial, por incompatibilidade procedimental com 
a Lei nº9.099/95. 
Nas demais modalidades criminosas contra a pessoa idosa, aplicam-se o Código de 
Processo Penal e Código Penal, devendo ser instaurado inquérito policial ou temo 
circunstanciado, seja por auto de prisão em flagrante, seja por portaria. 
A portaria inaugural deve conter ainda a indicação das diligências iniciais da 
investigação. Entre elas, no caso de crimes contra a pessoa idosa, seguem algumas 
providências importantes, também retiradas do Procedimento Operacional Padrão da 
Pessoa Idosa da Polícia Civil do Distrito Federal (2021): 
I – Determinação para aposição de indicador de preferência no procedimento 
policial por se tratar de pessoa idosa, mais de 60 anos, ou mais de 80 anos, 
se for o caso; 
II – se se tratar de denúncia recebida por órgãos externos à Polícia Judiciária 
como Ministério Público, Defensoria Pública, Secretaria de Saúde, entre 
outros, oficiar ao órgão ou instituição remetente da denúncia, comunicando a 
instauração do procedimento policial; 
III – encaminhamentos pertinentes à rede de apoio aos idosos como CREAS, 
CAPS, CRAS, Conselhos do Idoso e Secretaria de Saúde (estadual, distrital 
e/ou municipal), entre outros; 
IV – caso se vislumbre possível composição do conflito via mediação, oficiar 
a central de autocomposição, porventura, existente junto ao Poder Judiciário, 
encaminhando cópia dos autos para análise; 
V – caso haja elementos indicativos da necessidade de aplicação das 
medidas específicas de proteção, previstas no art. 45 do Estatuto do Idoso, 
oficiar ao Ministério Público, encaminhando cópia dos autos. 
 
Neste material, existe um modelo anexo de portaria inaugural para servir de 
referência. 
Na sequência, a etapa seguinte é a realização das diligências de investigação. 
Mais uma vez, no momento de planejar a coleta de informações, você deve prestar 
atenção às particularidades das investigações que envolvam pessoas idosas, levando em 
conta o tipo objetivo e subjetivo dos crimes em questão. A seguir, mais alguns 
procedimentos retirados do Procedimento Operacional Padrão em Ocorrências 
Envolvendo Pessoa Idosa, da Polícia Civil do Distrito Federal (2021): 
 
 
119 
 
I – Oitiva formal presencial ou por telefone dos envolvidos; 
II – identificação de todos os responsáveis legais pelo idoso, registrando, no 
procedimento, os seus dados pessoais; 
III - em caso de crimes que envolvam violência patrimonial, além da 
solicitação dos dados financeiros ao responsável ou à própria vítima, ofício a 
instituições bancárias nas quais haja movimentação financeira do idoso; 
IV – solicitações aos juízos de cópias ou informações sobre processos 
judiciais em andamento que constam a vítima como envolvidos; 
V – solicitação de relatórios detalhados contendo a receita e a despesa 
mensal da pessoa idosa à vítima ou a seu responsável; 
VI – solicitações aos cartórios extrajudiciais de procurações que envolvam a 
vítima idosa, bem como relação de negócios jurídicos por ela realizados no 
período da investigação; 
VII – solicitação de filmagens ou microfilmagens de caixas eletrônicos, 
referentes a saques ou transações indevidas nas contas bancárias da vítima 
idosa; 
VIII – solicitação de mandado de verificação, no caso de impedimento de 
acesso à pessoa idosa por equipe policial, a fim de verificar as condições em 
que ela vive, se há alimentação suficiente, medicamentos, vestuário, higiene, 
entre outros elementos, conforme o relatório de investigação preliminar em 
anexo; 
IX – solicitação de perícia ao Instituto de Medicina Legal, destacando-se, 
entre outros, os laudos de: lesões corporais (exame do próprio corpo da 
pessoa); lesões corporais indiretas (exame de prontuário médico); atos 
libidinosos e lesão corporal, importante no contexto de crimes sexuais; laudo 
psiquiátrico para avaliação da capacidade para os atos da vida civil em 
ocorrências de natureza criminal. Nos anexos deste material, há sugestão de 
quesitos adicionais para serem utilizados nas solicitações dessas perícias. 
X – outros mandados judiciais de investigação pertinentes ao caso concreto. 
 
 
Note-se que, em geral, é desnecessário repetir as diligências que anteriormente 
foram realizadas na fase de apuração prévia, inclusive em razão do princípio da 
eficiência. 
Esse cuidado é importante também para não submeter os envolvidos a 
sofrimentos desnecessários, causados pela reativação das memórias de eventos 
dolorosos e traumáticos, especialmente nos casos de violência doméstica e familiar 
contra a pessoa idosa, o que chamamos de revitimização. 
Essas diligências devem ser consolidadas em relatórios de investigação, do qual, 
entre outros, devem constar os seguintes elementos, cujas orientações foram também 
retiradas do Procedimento Operacional Padrão da Pessoa Idosa da Polícia Civil do 
Distrito Federal (2021): 
 
I – Determinação para aposição de indicador de preferência no procedimento 
policial por se tratar de pessoa idosa, 60 anos ou mais, ou de 80 anos ou 
mais, se for o caso; 
II – listagem de todas as diligências realizadas, bem como de seus resultados, 
contendo informações resumidas das oitivas de cada envolvido; 
III – relato da impressão pessoal dos policiais que participaram das diligências 
investigativas sobre o grau de veracidade das versões dos envolvidos, bem 
 
 
120 
como suas impressões acerca do ambiente familiar e social da vítima, no 
contexto da situação investigada; 
IV – sugestões de encaminhamentos para rede de proteção e apoio à pessoa 
idosa, considerando o caso concreto; 
V – em caso de se vislumbrar possível composição do conflito via mediação, 
sugerir ofício a eventual núcleo de autocomposição existente junto ao Poder 
Judiciário, como a Central Judicial do Idoso. 
 
A síntese, no relatório de investigação, das informações sobre o caso reunidas 
até o momento é importante para documentar a memória da apuração até o momento de 
sua elaboração. Serve também como uma oportunidade para a revisão da estratégia 
adotada para a elucidação dos fatos. Encontra-setambém modelo sugestivo anexo 
de relatório de investigação de crimes contra a pessoa idosa. 
Por fim, quando a investigação se encerrar, seja por não existir mais linhas 
investigativas disponíveis, seja porque os fatos foram suficientemente esclarecidos, 
caberá à Autoridade Policial elaborar o relatório final do procedimento investigativo. 
Entre outros elementos, deverá constar no relatório final, conforme sugestões 
retiradas do Procedimento Operacional Padrão da Pessoa Idosa da Polícia Civil do 
Distrito Federal (2021): 
 
I – Determinação para aposição de indicador de preferência no procedimento 
policial por se tratar de pessoa idosa, 60 anos ou mais, ou de 80 anos ou 
mais, se for o caso; 
II – cotejo das diligências constantes no relatório investigativo das seções 
policiais com os tipos penais, qualificadoras, causas de aumento, ou 
circunstâncias agravantes referentes à pessoa idosa como vítima; 
III – indiciamento do autor do crime ou sugestão de arquivamento do 
procedimento policial, se for o caso; 
IV – solicitação de medidas protetivas de urgência, medidas restritivas de 
patrimônio, de liberdade ou de qualquer direito ou garantia, visando à 
proteção da vítima idosa; 
V - encaminhamentos do caso para rede de proteção e apoio à pessoa idosa, 
considerando o caso concreto; 
VI - em caso de vislumbre de possível composição do conflito via mediação, 
oficiar a Central Judicial do Idoso, encaminhando cópia dos autos para 
análise. 
 
Antes de encerrar este segmento, convém destacar que o objetivo da 
investigação preliminar não é encontrar culpados pelo suposto ato criminoso, e sim 
elucidar a verdade dos fatos. 
Assim, é perfeitamente admissível que a apuração não confirme a hipótese inicial 
de que teria havido um crime, seja porque demonstrou que ele não aconteceu ou 
porque, apesar de todos os esforços empreendidos, não foi possível colher 
informações suficientes que permitam imputar a alguém conduta criminosa. Afinal, na 
 
 
121 
apuração de toda espécie de crime, o compromisso das forças de segurança pública 
deve ser sempre com a verdade e com a justiça! 
Nos dois próximos segmentos, você estudará dois instrumentos específicos que 
podem ser utilizados no curso da investigação preliminar: a visitação das pessoas 
idosas e as medidas judiciais de proteção da pessoa idosa. 
 
 
122 
Aula 4 – Instrumentos Especiais da Investigação de Crimes Contra a Pessoa 
Idosa 
 
 
4.1. A visitação das pessoas idosas 
 
No contexto específico da investigação dos crimes contra as pessoas idosas, um 
dos instrumentos mais úteis é o relatório de visitação, principalmente diante de 
notícias de maus tratos e abandono material da pessoa idosa no contexto de violência 
doméstica e familiar. 
Essa é uma das ferramentas de investigação que mais exigirão das suas 
habilidades emocionais e interpessoais, uma vez que, nessas visitações, você vai se 
deparar com situações de profundo desamparo, bem como conflitos interpessoais que 
precisará gerenciar, até mesmo para conseguir acesso à pessoa idosa. 
Esse contato, na residência da própria pessoa idosa, é importante também para 
entender de forma mais ampla o seu contexto familiar, o que será importante não só 
para a elucidação dos fatos, como também para o seu encaminhamento para outros 
serviços públicos, com o fim de alcançar uma efetiva resolução do problema, para 
além da sua dimensão de segurança pública, em sentido estrito. 
É importante sempre lembrar que, no momento da visitação, você está na casa 
de outra pessoa. Assim, é importante preservar a intimidade dos seus habitantes o 
máximo possível, sem descuidar dos objetivos da visita. Dessa forma, por exemplo, é 
importante que você peça licença antes de tirar fotos ou começar uma filmagem, ou 
mesmo sair abrindo armários e geladeiras. Seja educado e peça permissão antes, 
explique o porquê está fazendo isso. Afinal, a urbanidade é obrigação de todo servidor 
público (art. 116, XI, da Lei nº 8.112/1990). 
Em caso de negativa de permissão para adentrar ao domicílio da pessoa idosa, 
é necessário providenciar pedido de mandado de verificação junto ao Poder Judiciário, 
cujo modelo anexo segue, caso não haja situação flagrancial. 
Os achados da visitação devem ser consolidados em um relatório de visitação, 
que consiste em um formulário padrão, elaborado no formato semiestruturado, ou 
seja, há partes já padronizadas e há outras que vão depender do lugar da visita, e que 
é utilizado para proceder às visitas domiciliares de pessoas idosas. Nos anexos deste 
material, há uma sugestão de formulário padrão a ser utilizado nessas visitas e que 
você poderá utilizar também. 
 
 
123 
4.2. Medidas judiciais de proteção da pessoa idosa 
 
As medidas judiciais de proteção da pessoa idosa são providências aplicadas, 
isoladas ou cumulativamente, pelo Poder Judiciário, por meio de requerimento da 
Autoridade Policial ou do Ministério Público, em caso de ameaça ou violação de 
direitos da pessoa idosa seja por ação ou omissão da sociedade ou do Estado, por 
falta, omissão ou abuso da família, curador ou entidade de atendimento ou mesmo 
por razão de sua condição pessoal. 
Merece destaque, porém, que, no caso de violência doméstica ou familiar contra 
mulher idosa, incide a Lei nº11.340/2006 (Lei Maria da Pena). Assim, nesse caso, é 
possível que essa vítima requeira diretamente ao juiz a medida protetiva, seja no 
balcão de uma delegacia, seja em um cartório extrajudicial. O magistrado terá, então, 
48 horas para decidir sobre a providência (art. 18 da Lei nº 11.340/2006). Isso é 
importante especialmente fora dos grandes centros urbanos. Nas cidades menores, 
por vezes, não há Delegado de Polícia ou Promotor de Justiça e, dessa forma, a 
possibilidade de a própria vítima solicitar, em nome próprio, a medida acelera muito o 
seu eventual deferimento. 
Porém, infelizmente, esse rito acelerado ainda não está disponível nos casos de 
violência doméstica ou familiar contra o homem idoso. É necessária uma inovação 
legislativa, para suprir esse buraco no sistema de proteção da pessoa idosa. O Projeto da 
Lei nº 4438/2021, de autoria da Senadora Simone Tebet, aprovado de forma unânime 
no Senado Federal e com emendas para aplicação também para as pessoas com 
deficiência não abrangidas pela Lei 11.340/06, que se encontra em tramitação na 
Câmara dos Deputados, pretende precisamente solucionar esse problema. 
 
 
124 
Finalizando 
 
Nesta etapa, você pôde concretizar grande parte das informações adquiridas 
nos módulos anteriores, de modo a identificar, na prática, as relações subjacentes às 
questões criminais para subsidiar o acolhimento de uma pessoa idosa que venha a 
reportar um eventual caso de crime. Assim, foi possível observar os cuidados em cada 
etapa da investigação, a preservação de provas, a importância da visitação da 
residência da vítima, a confecção dos relatórios preliminares e de investigação, para 
subsidiar a atuação resolutiva para o problema. 
 
 
125 
Módulo 5 – Rede de Apoio e Promoção dos Direitos das Pessoas Idosas e 
Integração com demais Serviços Públicos 
 
 
Apresentação do Módulo 
 
 
 Áudio de apresentação do módulo 5 
Neste último módulo, você estudará como a atuação das forças de segurança 
pública podem ser integradas à prestação de outros serviços públicos, de modo a 
conferir um caráter integral à intervenção da máquina estatal, para a solução de 
problemas individuais e coletivos. 
Especificamente, será abordada a integração das forças de segurança pública 
com os serviços de seguridade social (saúde, assistência social e previdência social), 
bem como com os serviços de mobilidade urbana e de cultura. 
Objetivos do Módulo 
 
Os objetivos do módulo 5 são: 
• Elaboração uma estratégia de atuação baseada no policiamento voltado à 
solução de problemas; 
• Reconhecer que a promoção do envelhecimento ativo é o objetivo último 
das políticas públicas voltadaspara a pessoa idosa e que a prevenção, 
repressão e elucidação de atos de violência contra as pessoas idosas 
constitui parte fundamental dessa política mais ampla; 
• Identificar oportunidades, para, no curso da sua atuação policial, 
encaminhar a pessoa idosa para os serviços de seguridade social, caso 
tenha ela necessidade desses serviços; e 
• Repassar para a pessoa idosa conhecimentos básicos acerca de seus 
direitos, em relação tanto à seguridade social quanto à mobilidade urbana 
e à cultura. 
 
Estrutura do Módulo 
Aula 1 - A abordagem policial integral. 
Aula 2 - Rede de proteção da pessoa idosa. 
 
 
126 
Aula 3 - Integração com o serviço de saúde. 
Aula 4 - Integração com o serviço de assistência social. 
Aula 5 - Integração com os serviços de previdência social. 
Aula 6 - Mobilidade urbana e lazer. 
 
 
127 
Aula 1 - A abordagem policial integral 
 
Como se viu, o problema da violência contra a pessoa idosa é multifacetado. 
Possui dimensões biológicas, psicológicas, familiares, financeiras e sociais. Não é um 
problema que possa ser enfrentado com o emprego tão somente das forças de 
segurança pública. Para que a intervenção estatal seja verdadeira e efetiva, ela 
precisa ser transversal, isto é, envolver os diversos segmentos da máquina estatal, 
para atacar os diferentes aspectos do problema, cada uma agindo na sua 
especialidade. É esse, aliás, o espírito do policiamento voltado para a solução de 
problemas e o sentido das diretrizes da Política Nacional de Segurança Pública e 
Defesa Social, como se viu acima. 
Porém, para que essa proposta seja efetiva, deve se ter um cuidado especial na 
identificação do problema e suas circunstâncias. Somente, então, será possível 
pensar nas suas possíveis soluções e em quais setores do Poder Público devem ser 
acionadas para tomar parte dessa proposta de solução. 
O objetivo da intervenção do Poder Público como um todo deve ser 
simplesmente prevenir a ocorrência de atos de violência contra a pessoa? Ou seria 
algo mais amplo? Diante de tudo que foi dito no primeiro módulo deste material, 
parece que o objetivo último da intervenção deve ser a promoção do envelhecimento 
ativo por parte da pessoa idosa. Afinal, uma pessoa que envelheceu ativamente não 
só terá realizado de forma mais plena a sua subjetividade, mas também será capaz 
de gerenciar mais facilmente as situações de risco que lhe expõe a atos de violência. 
Envelhecimento ativo é um conceito adotado pela Organização Mundial da 
Saúde (OMS) e significa a otimização das oportunidades para melhora da saúde, 
assim como da participação social, cultural e cívica. No Brasil, ele constitui uma das 
diretrizes da Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa (Portaria nº 2.528/2006 do 
Ministério da Saúde). Em resumo, a ideia de envelhecimento ativo visa promover a 
qualidade de vida no processo de envelhecimento, o que torna incompatível com a 
submissão da pessoa idosa a atos de violência. 
Assim, o objetivo geral da máquina estatal seria a promoção do envelhecimento 
ativo e, nesse contexto mais amplo, o objetivo específico das forças de segurança 
pública seria o enfrentamento da violência contra a pessoa idosa, que, nessa medida, não 
seria um fim em si mesmo, mas parte de um projeto estatal mais amplo. 
 
 
128 
Mas como essas reflexões impactam a atuação prática dos profissionais da 
segurança pública? 
Por exemplo, imagine um caso em que o policial militar chega a uma residência 
onde aconteceu um ato de violência contra a pessoa idosa. Sem dúvida, a sua 
primeira preocupação deve ser fazer cessar tal agressão, caso ela esteja ainda 
acontecendo, de preferência, por meio de meios não-violentos. Em seguida, deverá 
conversar com as pessoas presentes e com os vizinhos, bem como observar o local 
dos fatos, de modo a colher informações iniciais, que auxiliem a posterior elucidação 
dos fatos. Até aí nada de novo. São tarefas exercidas tradicionalmente pelas forças 
de segurança pública. 
A novidade está na terceira etapa desse fluxo, em que o policial busca observar 
a existência de problemas subjacentes aos fatos, que podem constituir tanto causas 
imediatas do fenômeno violento quanto obstáculos para o envelhecimento ativo da 
pessoa idosa. Ou as duas coisas. 
Essa etapa exige do policial um grande repertório de habilidades, para lidar com 
questões que, em geral, são multidimensionais. Neste material, você já teve contato, 
ainda que superficial, com parte desses conhecimentos, como aqueles relacionados 
com o processo biológico de perda da capacidade física e cognitiva da pessoa idosa, bem 
como com o seu impacto dessas particularidades nas suas relações familiares, 
principalmente sobre aquele responsável pelos seus cuidados. 
Exige também capacidade de gestão de relações interpessoais e resiliência 
pessoal, para suportar os custos emocionais de lidar com situações muitas vezes 
dramáticas. Muitas dessas ferramentas e habilidades você aprendeu no módulo 1 e 
agora já pode agregá-las à sua caixa mágica do profissional da segurança pública. 
Somente com a mobilização desses saberes, o policial conseguirá identificar 
qual é o seu papel na resolução do problema e quais segmentos da questão devem 
ser repassados para outros componentes da máquina pública, para que, de maneira 
integrada e transversal, todos, como na corrida de bastão, consigam alcançar a 
verdadeira solução do problema e criar oportunidades para o envelhecimento ativo da 
pessoa idosa em questão. 
Por exemplo, ao verificar uma situação de vulnerabilidade financeira, o servidor 
da segurança pública deverá direcionar a pessoa idosa e/ou a sua família para um 
Centro de Referência em Assistência Social (CRAS), no qual poder-se-ão providenciar 
 
 
129 
as formalidades necessárias para obter benefícios de diversos programas sociais, 
como o “Auxílio Brasil”. 
Diversamente, se for identificado um problema de saúde mental, por parte da 
pessoa idosa ou de familiar, esse indivíduo poderá ser encaminhado para Unidade 
Básica de Saúde (UBS), de onde ele poderá ser encaminhado para um Centro de 
Atenção Psicossocial (CAPS). 
Observe-se que o encaminhamento da pessoa idosa e/ou de seus familiares 
para esses serviços públicos atende não só aos ditames do policiamento voltado à 
resolução de problemas e da Política Nacional de Segurança Pública e Defesa Social, 
mas também do direcionamento geral da máquina pública no sentido da promoção do 
envelhecimento ativo. 
Chama-se de abordagem policial integral a ação policial que, sem perder de 
vista a sua função primária de prevenção e elucidação de crimes, busca também, de 
maneira secundária, contribuir para a resolução de outros problemas subjacentes ao 
crime. Tal abordagem tem em si efeitos de prevenção secundária, o que reforça a sua 
importância para as forças de segurança pública, bem como outras externalidades 
sociais positivas, como a promoção do envelhecimento ativo, no caso de crimes contra 
a pessoa idosa. A abordagem policial integral é o único caminho para a solução dos 
problemas, sem a qual o esforço das forças de segurança pública está condenado a 
“enxugar gelo”. 
No entanto, dada a imensidão do Poder Público e a frequente dificuldade de 
comunicação entre órgãos e entidades, inclusive de um mesmo ente federativo, é 
recomendável a formulação de procedimentos operacionais padrão, que garantam a 
efetiva integração desses serviços, para que a “corrida de bastões” ocorra da forma 
suave e sem sobressaltos. 
Um exemplo positivo são os Procedimentos Operacionais Padrões - POPs da 
Polícia Civil do Distrito Federal elaborados por diversas delegacias especializadas, 
como as delegacias das mulheres para a investigação de feminicídio a delegacia de 
crimes cibernéticos, com inúmeros POPs para cada tipologia de crimes virtuais ; a 
delegacia contra as discriminações (Decrin), com o POP da Pessoa Idosa e o POP da 
pessoa LBGTQIA+, entreoutros. Se sua instituição não tem esses procedimentos 
padronizados, entre em contato com quem já tem e trate de reproduzir isso na sua 
instituição. É fato que isso facilitará muito o trabalho dos colegas e o seu também. 
 
 
130 
Esse conjunto de protocolos devem ser elaborados de modo a se integrarem 
entre si os diversos serviços públicos relacionados com a promoção do 
envelhecimento ativo da população idosa. E não há como se pensar em protocolos 
integrados, sem, ao mesmo, reconhecer a necessidade de uma rede de proteção da 
pessoa idosa que lhe sirva de substrato material. 
Assim, é preciso que você conheça a rede de apoio e suporte à pessoa idosa da 
sua região. Caso ela seja ainda pobre ou fraca, trabalhe para fortalecê-la! 
 
 
131 
Aula 2 - Rede de proteção da pessoa idosa 
 
A rede de proteção social e de apoio à pessoa idosa é composta por uma miríade 
de instituições estatais e não estatais destinadas à defesa dos direitos da pessoa 
idosa em todos os seus aspectos, envolvendo representantes de todos os Poderes do 
Estado e parceiros da sociedade civil, como empresas, associações, integrantes do 
Sistema S e mesmo pessoas físicas engajadas na defesa da pessoa idosa. 
Por maior que seja o seu poder e o seu alcance, o Estado não tem como 
enfrentar e resolver sozinho todos os problemas públicos. Para tanto, ela precisa da 
cooperação da sociedade civil, isto é, do segmento da sociedade mobilizado para 
cuidar do interesse público, seja no campo da educação, da assistência social, da 
saúde ou mesmo na promoção e defesa dos direitos específicos da pessoa idosa. 
Chama-se de espaço cívico o ponto de contato entre a sociedade civil e o Poder 
Público, em que esses dois componentes da sociedade dialogam, negociam e 
articulam conjuntamente estratégias para o avanço da sociedade. 
Para saber mais sobre o conceito de espaço cívico, assista ao vídeo clicando aqui. 
No contexto das políticas públicas voltadas para as pessoas idosas, os conselhos 
são peças muito importantes da arquitetura do espaço cívico. O art. 6º da Lei nº 
8.842/1994 prevê a sua criação em todas as esferas da federação, isto é, nos âmbitos 
municipal, estadual, distrital e federal. Eles são órgãos permanentes, paritários e 
deliberativos, compostos em igual número de representantes de órgãos 
públicos e representantes da sociedade civil ligados à área. 
Dessa forma, constitui um nó importante na rede de proteção da pessoa idosa 
e, a depender do grau de engajamento dos seus integrantes, pode constituir um 
espaço central na coordenação e integração das diversas políticas públicas voltadas 
para esse segmento da população, entre elas, as de segurança pública. 
É competência dos conselhos do idoso o acompanhamento, a fiscalização e a 
avaliação da execução da Política Nacional da Pessoa Idosa na sua esfera de 
atuação. Eles são responsáveis também pela supervisão dos aparelhos públicos 
dedicados às pessoas idosas no âmbito do seu território, como instituições de longa 
permanência e centros de convivência. 
Adicionalmente, o Conselho Nacional do Idoso, atualmente situado na estrutura 
administrativa do Ministério da Justiça e Segurança Pública, participa ativamente na 
https://www.youtube.com/watch?v=OYzthEySMew
 
 
132 
elaboração desse Plano Nacional, além de acompanhar e fiscalizar a sua 
implementação. 
Por sua vez, a Política Nacional da Pessoa Idosa (Lei nº 8.842/1994) trata de 
uma grande pluralidade de temas e tem, entre as suas diretrizes (arts. 3º e 4º), a 
emancipação e o protagonismo da pessoa idosa, a promoção e a defesa de seus 
direitos e a elaboração e divulgação de informações para o combate do etarismo. 
Basta a leitura desse documento para observar que a proteção da pessoa idosa 
envolve uma grande variedade de áreas, a indicar a transversalidade do tema. Tal 
transversalidade exige que a intervenção estatal nesses problemas ocorra a partir de 
uma perspectiva de integração e de atuação voltada ao problema por parte dos 
serviços públicos envolvidos. 
Porém, para os fins do presente material, por seu grande impacto na vida da 
pessoa idosa, mostra-se especialmente o estudo da seguridade social, segmento da 
máquina pública que cuida da saúde, da assistência e da previdência pública. 
 
 
133 
Aula 3 - Integração com o serviço de saúde 
 
Como se viu em módulos anteriores, uma das características mais marcantes do 
envelhecimento é diminuição progressiva das capacidades físicas e cognitivas da 
pessoa. E uma das principais contribuições que a medicina moderna trouxe foi a 
capacidade de retardar e mitigar os efeitos dessa deterioração, com grandes impactos na 
expectativa de vida e, consequentemente, na proporção do corpo social constituído por 
pessoas idosas. 
Dessa forma, é fácil perceber a importância do serviço de saúde no 
envelhecimento ativo da pessoa idosa. 
No campo do direito à saúde, o ordenamento jurídico reconhece uma série de 
direitos para a pessoa idosa, muitos deles especificados na Lei nº 10.741/2003 
(Estatuto do Idoso, alterado pela Lei nº 13.423/22 - Estatuto da Pessoa Idosa). Em 
primeiro lugar, é direito da pessoa idosa a existência de políticas públicas de saúde 
voltadas especificamente para as suas necessidades, que são distintas daquelas de 
outras faixas etárias, inclusive com a possibilidade de atendimento domiciliar nos 
casos de impossibilidade de locomoção (art. 15, §1º, IV, do Estatuto do Idoso). 
No âmbito federal, existe a Portaria nº 2.528/2006 do Ministério da Saúde, que, 
como já mencionado, instituiu a Política Nacional de Saúde da Pessoa Idosa, inclusive 
em resposta às exigências da Lei nº 8.842/1994 (Política Nacional do Idoso). 
Nesse ponto, é relevante notar que a Política Nacional de Saúde de Pessoa 
Idosa considera que “o conceito de saúde para o indivíduo idoso se traduz mais pela 
sua condição de autonomia e independência que pela presença ou ausência de 
doença orgânica”. Estabelece também, nas justificativas do documento, que a “saúde 
da pessoa idosa é a interação entre a saúde física, a saúde mental, a independência 
financeira, a capacidade funcional e o suporte social”, isto é, trata-se de um tema 
essencialmente transversal. 
O Estatuto do Idoso reconhece também o direito da pessoa idosa a políticas 
públicas específicas, ao estabelecer que incumbe “ao Poder Público fornecer aos 
idosos, gratuitamente, medicamentos, especialmente os de uso continuado, assim 
como próteses, órteses e outros recursos relativos ao tratamento, habilitação ou 
reabilitação” (art. 15, §2º, do Estatuto do Idoso, alterado pela Lei nº 13.423/2022 – 
Estatuto da Pessoa Idosa). 
Em razão das particularidades das pessoas idosas, frequentemente ele possui 
um consumo relevante de medicamentos e, dessa maneira, o seu forneciment o 
 
 
134 
gratuito não apenas contribui para a prevenção e o controle de doenças, mas como 
socorro financeiro para as famílias. Nesse contexto, é importante o policial perguntar 
para a pessoa idosa se faz uso de algum medicamento e, em caso positivo, informar 
sobre a possibilidade de conseguir, ao menos parte deles, na farmácia pública mais 
próxima. 
Ressalte-se que, não sendo possível a aquisição gratuita do medicamento, outra 
opção é o programa “Farmácia Popular” – parte da Política Nacional de Assistência 
Farmacêutica (Resolução nº 338/2004 do Conselho Nacional de Saúde) -, que oferece 
medicamentos a preços mais baixos do que em farmácias do próprio SUS ou de redes 
conveniadas. Os descontos podem chegar a até 90% do valor de referência, que será 
compensado para o fornecedor pelo Poder Público, em caso de aquisição do insumo 
na rede conveniada. 
Tanto o fornecimento gratuito quanto a sua aquisição subsidiada pelo programa 
“Farmácia Popular” alcançam inclusive fraldas geriátricas, caso exista indicação médica 
para a sua utilização. É possível também a obtenção de aparelhos auditivos 
gratuitamente por meiodo SUS. 
Nesse ponto, vale relembrar que, em todo atendimento, inclusive nos 
atendimentos de saúde, os maiores de oitenta anos terão preferência especial sobre 
os demais idosos, exceto em caso de emergência (art. 15, §7º, do Estatuto do Idoso - 
alterado pela Lei nº 13.423/2022 – Estatuto da Pessoa Idosa). É importante sempre 
recordar dessa ordem de prioridade, na medida em que, por vezes, surgem conflitos 
a respeito desse tema e as forças de segurança pública são chamadas a intervir. 
É também assegurado à pessoa idosa internada ou em observação o direito à 
acompanhante, devendo o órgão de saúde proporcionar as condições adequadas 
para a sua permanência em tempo integral, segundo critério médico (art. 16, caput, 
do Estatuto do Idoso). Em caso de impossibilidade, esse direito pode ser afastado, 
mas os motivos dessa impossibilidade devem ser registrados por escrito (art. 16, 
parágrafo único, do Estatuto do Idoso – alterado pela Lei nº 13.423/2022 – Estatuto 
da Pessoa Idosa). 
Por fim, “ao idoso que esteja no domínio de suas faculdades mentais é 
assegurado o direito de optar pelo tratamento de saúde que lhe for reputado mais 
favorável” (art. 17, caput, do Estatuto do Idoso, alterado pela Lei nº 13.423/2022 – 
Estatuto da Pessoa Idosa). Caso a pessoa idosa já tenha perdido parte da sua 
capacidade cognitiva, a decisão sobre o tratamento será tomada pelas seguintes 
pessoas, em ordem de prioridade: 
 
 
135 
1) pelo curador, quando o idoso for interditado; 2) pelos familiares, quando o 
idoso não tiver curador ou este não puder ser contactado em tempo hábil; 3) 
pelo médico, quando ocorrer iminente risco de vida e não houver tempo hábil 
para consulta a curador ou familiar; 4) pelo próprio médico, quando não 
houver curador ou familiar conhecido, caso em que deverá comunicar o fato 
ao Ministério Público. (art. 17, parágrafo único, do Estatuto do Idoso). 
 
É importante notar ainda que os 
 
Casos de suspeita ou confirmação de violência praticada contra idosos serão 
objeto de notificação compulsória pelos serviços de saúde públicos e privados 
à autoridade sanitária, bem como serão obrigatoriamente comunicados por 
eles a quaisquer dos seguintes órgãos: 1) autoridade policial; 2) Ministério 
Público; 3) Conselho Municipal do Idoso; 4) Conselho Estadual do Idoso; 5) 
Conselho Nacional do Idoso. (art. 19 do Estatuto do Idoso). 
 
Em respeito às suas respectivas normas éticas, os profissionais dos serviços de 
saúde devem avisar o paciente que o episódio de violência será comunicado às 
autoridades competentes, o que, aliás, sinaliza que a vítima idosa pode contar com 
uma rede de apoio social e institucional para enfrentar a situação de violência em que se 
encontra. 
Essa notificação compulsória traz um bom exemplo de atuação integrada do 
Poder Público, em prol da proteção do idoso contra atos de violência. O serviço público 
de saúde tem frequentemente o primeiro contato com o ato de violência e, além de 
cuidar da sua dimensão, repassa a informação para a rede de proteção do idoso, para 
que os demais atores possam fazer também a sua parte na proteção desse idoso. 
Entre os diversos estabelecimentos públicos de saúde, são de especial 
interesse, para os objetivos deste material, os centros de atenção psicossocial; um 
serviço de saúde aberto e comunitário do Sistema Único de Saúde, que dispõe de 
atendimento social, psicológico e ambulatorial dentro da sua área de abrangência: 
 
 
 
Ressalte-se que, como se viu, as circunstâncias da pessoa idosa a tornam 
especialmente vulnerável a problemas de saúde mental, em razão tanto da perda 
progressiva da capacidade física e mental quanto do etarismo que infelizmente ainda 
caracteriza a sociedade brasileira. 
 
 
 
 
136 
Aula 4 - Integração com o serviço de assistência social 
 
A rede de proteção integral à pessoa idosa inclui também diversos 
estabelecimentos, públicos e privados, que prestam serviços de assistência social. 
Frequentemente, quando você se deparar com atos de violência contra a pessoa 
idosa, será o caso de encaminhá-la para esse tipo de serviço, principalmente em 
territórios mais socialmente vulneráveis. 
No entanto, o que é assistência social? 
A assistência social é um serviço público que disponibiliza benefícios sociais 
mínimos, de natureza pecuniária ou não, para quem precisa, independentemente de 
prévia contribuição do beneficiário. Ele é prestado tanto pelo Poder Público quanto 
pela sociedade civil. 
Mas a assistência social atende apenas o interesse individual do seu beneficiário ou 
satisfaz um verdadeiro interesse público? 
Para responder a essa pergunta, imagine que você é um equilibrista que tenta 
atravessar o espaço entre dois postes, caminhando sobre uma estreita corda. Você 
dá tudo de si para não cair. Mas fica mais tranquilo ao saber que logo abaixo existe 
uma rede de segurança pronta para amortecer a sua queda. Afinal, por mais que 
confie na sua habilidade, você sabe que, por vezes, infortúnios acontecem. 
A assistência social é essa rede de segurança. Nenhum de nós quer cair em 
uma situação de extrema dificuldade financeira, mas é um conforto saber que a 
assistência social está lá esperando para estender a mão no momento de nossa maior 
dificuldade. 
Além disso, em uma sociedade tão desigual como a brasileira, a assistência 
social cumpre um importante papel redistributivo, pois utiliza parte dos recursos 
recolhidos do conjunto da sociedade, principalmente por meio de tributos, e os 
repassa para o segmento mais vulneráveis, por meio de benefícios pecuniários e 
prestação de serviços especializados. 
De acordo com o art. 203 da CF 88, são objetivos da assistência social: 
 
 
 
 
 
 
 
137 
 
 
 
Por sua vez, os serviços socioassistenciais prestados pelo Poder Público estão 
organizados no Sistema Único de Assistência Social (SUAS), inspirado pelo Sistema 
Único de Saúde (SUS) e que foi estabelecido pela Lei Orgânica da Assistência Social 
(Loas). O SUAS é um mecanismo administrativamente descentralizado, aberto à 
participação da sociedade civil, que tem por objetivo mobilizar e articular os recursos 
administrativos e financeiros dos três níveis da Federação, para o cumprimento do 
Plano Nacional de Assistência Social (PNAS). 
Os serviços de assistência social podem ser reunidos em dois grupos principais: a 
proteção social básica e a proteção social especial. A primeira reúne os serviços 
públicos voltados para a prevenção de riscos sociais e pessoais, como por meio de 
programas voltados para o fortalecimento de vínculos familiares e comunitários das 
pessoas atendidas. Já a segunda volta-se a indivíduos e famílias que já estão em 
situação de risco ou já tiveram os seus direitos violados, como no caso de mulheres 
em situação de violência doméstica. 
 
 
 
manutenção ou de tê-la provida por sua família, conforme dispuser a lei – é o chamado 
benefício de prestação continuada (BPC), especificado pelo art. 20 da Lei nº 8.742/93, 
 
 
 
SAIBA MAIS! 
 
 
A minissérie “Maid”, disponível na plataforma de streaming Netflix, retrata a 
jornada de uma mulher que foge de casa com a sua filha pequena nos braços, para 
se ver livre da rotina de violência psicológica a que era submetida pelo marido. Ela 
retrata as diversas formas que pode assumir a violência doméstica, bem como a sua 
dificuldade de aceitar que violência psicológica é também uma espécie de violência e 
 
 
138 
 
 
 
Em relação aos principais problemas das pessoas idosas, os principais 
aparelhos públicos de atendimento, em termos de assistência social, são as 
seguintes: 
 
 
Centro de Convivência da Pessoa Idosa (CCIs) 
 
Instituição que tem como foco o desenvolvimento de atividades que contribuam 
para o processo de envelhecimento saudável, o desenvolvimento da autonomia e do 
convívio comunitário. Promove cursos, encontros semanais, palestras, trabalhos 
voluntários, passeios, viagens. Destina-se, principalmente,a idosos com maior grau 
de desempenho funcional (autônomos e independentes) 
Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) 
 
Unidade pública de assistência social do Sistema Único de Assistência Social 
(SUAS), que se destina ao atendimento de famílias e indivíduos em situação de 
vulnerabilidade e risco social, referente ao serviço de proteção e atendimento integral 
à família (PAIF), para acessar outros serviços, benefícios, programas e projetos 
socioassistenciais. 
Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS) 
Unidade pública da política de assistência social na qual são atendidas famílias 
e pessoas em situação de risco social ou que tiveram seus direitos violados. 
que, por consequência, estava figurando no papel de vítima dela. A série evidencia 
também a importância de políticas públicas bem estruturadas, para dar suporte à 
pessoa no difícil momento de sair de casa e romper a relação com o seu agressor, 
que, apesar de ser uma relação de violência, é também uma relação de afeto. Em 
resumo, a série oferece uma oportunidade de empatia e de reflexão sobre as 
dificuldades de quem vive em situação de violência doméstica e sobre a 
responsabilidade de cada um de nós em ajudar quem deseja sair dessa situação. Vale 
a pena assistir! 
Outro filme recomendado para ajudar a entender essa rede de apoio social ou a 
falta dela é “Eu, Daniel Blake”, que conta as aventuras de um senhor aposentado em 
busca de seu benefício previdenciário. Clique aqui e acesse. 
https://www.youtube.com/watch?v=ob_uqy1aouk
 
 
139 
 
Central de Vagas e Acolhimento 
 
É um serviço de assistência social que gerencia a rede de fornecimento de 
vagas e acolhimento para pessoas que necessitam de abrigo, em razão de risco e 
vulnerabilidade social, funcionando em unidade de acolhimento para idosos para 
mulheres e para adultos e famílias. 
Instituição de Longa Permanência para Idosos (ILPI) 
 
É estabelecimento, de natureza governamental ou não governamental, de 
caráter residencial, destinado em domicílio coletivo de pessoas idosas, com ou sem 
suporte familiar, em condição de liberdade, dignidade e cidadania. Destina-se a 
pessoas que não querem mais viver sozinhas ou com a sua família. Em razão de seu 
estigma, o termo “asilo” não é mais utilizado para designar esse estabelecimento. 
Centro de Convivência da Pessoa Idosa 
 
É um espaço comunitário e multidisciplinar com o foco no desenvolvimento de 
atividades que contribuam para o processo de envelhecimento ativo e saudável, por 
meio do desenvolvimento da autonomia e do convívio comunitário, como encontros 
periódicos, cursos, palestras, trabalhos voluntários, passeios, viagens. Atende idosos 
plenamente independentes, capazes de escolher ir ou não ir ao centro de convivência, 
bem como quais atividades vai desenvolver. 
Centro-dia 
 
É um espaço similar a um centro de convivência, mas é dedicado 
especificamente a pessoas idosas que não podem ficar sozinhas, e não têm quem 
cuide deles de dia, embora tenha quem cuide deles durante a noite. Ou seja, não tem 
caráter residencial, o que o diferencia de ILPIs. 
Centro de Referência Especializada para População em Situação de Rua (Centro 
POP) 
Unidade pública da assistência social de referência em convívio grupal e social da 
população em situação de rua, possibilitando o acesso aos usuários a serviços e 
benefícios da assistência social e demais políticas públicas, inclusive o acesso a 
 
 
140 
 
 
 
 
Agora, você vai entender como essas unidades funcionam com alguns exemplos 
práticos, tudo bem? 
Para solicitar qualquer dos benefícios do programa “Auxílio Brasil”, a pessoa 
idosa precisa ter um “número de inscrição social” (NIS), obtido pelo seu registro no 
Cadastro Único (CadÚnico), normalmente realizado nos Centros de Referência de 
Assistência Social (CRAS). 
O CadÚnico é um banco de dados cujo objetivo é saber quem são e como vivem as 
famílias de baixa renda no país. Ele é usado como requisito para diversos programas 
de assistência social, e não só pelo “Auxílio Brasil”, inclusive por programas 
específicos dos municípios, dos estados e do Distrito Federal. Então, diante de uma 
pessoa idosa em situação de vulnerabilidade social, é importante você verificar se ela 
possui um “número de inscrição social” (NIS) e, em caso negativo, encaminhá-la para 
o CRAS mais próximo, para que ela seja inserida no CadÚnico e obtenha o NIS. 
Por exemplo, o NIS é exigido também para a emissão da “Carteira da Pessoa 
Idosa”, um documento que permite que a pessoa idosa demonstre, de forma 
simplificada, que possui os requisitos para o benefício de gratuidade em transportes 
públicos interestaduais no limite de até 2 vagas por veículo. Caso essas vagas já 
tenham sido preenchidas, a pessoa idosa terá direito a um desconto de, no mínimo, 
50% do valor da passagem. Para tanto, ela deve possuir mais de 65 anos e renda 
mensal de até 2 salários-mínimos. Sem dúvida, a carteira não é indispensável para 
fazer jus a esse benefício, mas, na sua ausência, a pessoa idosa deverá utilizar outros 
meios para comprovar a renda exigida. A “Carteira da Pessoa Idosa” pode ser 
solicitada ainda no sítio eletrônico. Clique aqui e acesse. 
É possível solicitar também, no CRAS, o benefício de prestação continuada 
(BPC), valor mensal de 1 salário-mínimo concedido para as pessoas idosas a partir 
de 65 anos, que não possuírem outros meios para prover a sua subsistência, bem 
como de tê-la provida por sua família, nos termos do art. 20 da Lei nº 8.742/1993. 
Esse benefício assistencial pode ser solicitado também em qualquer agência do 
necessidades básicas do ser humano, lavanderia, alimentação, guarda de pertences 
e a cursos profissionalizantes, por meio de demanda espontânea ou encaminhamento da 
rede de apoio. 
https://carteiraidoso.cidadania.gov.br/
 
 
141 
Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), no telefone 155 ou por meio do sítio 
eletrônico. Clique aqui e acesse. 
Nos contextos de maior vulnerabilidade socioeconômica, o acesso da pessoa 
idosa aos benefícios da assistência social é decisivo para assegurar um mínimo de 
segurança financeira para esses indivíduos e, por vezes, para o conjunto de seu grupo 
familiar. 
Como se viu, a insegurança financeira é um importante fator de risco para a 
prática de atos de violência contra a pessoa idosa e, nessa medida, o funcionamento 
efetivo dos programas de assistência social contribui para a prevenção de crimes. 
Assim, quando encaminha uma pessoa idosa, por exemplo, para ser registrada no 
CadÚnico, o profissional da segurança pública está contribuindo para a sua missão 
de prevenir crimes. 
Diversamente do que acontece nos serviços de saúde, os serviços de 
assistência social não têm a obrigação de notificar as autoridades em caso de tomar 
conhecimento de violência praticada contra a pessoa idosa. O Estatuto do Idoso (Lei 
nº 10.741/2003, alterada pela Lei nº 13.423/22 - Estatuto da Pessoa Idosa) é silente 
nesse ponto. Assim, o assistente social somente terá essa obrigação se trabalhar no 
serviço de saúde, como em uma Unidade Básica de Saúde (UBS) ou Centro de Atenção 
Psicossocial (CAPS), por exemplo. Porém, ele não terá essa obrigação na hipótese 
de trabalhar em um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) ou em um 
Centro de Referência Especializado de Assistência Social (CREAS). 
Pode parecer absurdo que essa obrigação de notificação não alcance toda 
amplitude do Poder Público. Porém, as coisas são um pouco mais complexas do que 
possam parecer em uma primeira análise. 
Mesmo no caso dos serviços de saúde, a obrigação de notificação é polêmica. 
O receio é que haja uma quebra de confiança entre o profissional e a pessoa atendida, 
de modo que a vítima de violência deixe de procurar o serviço de saúde e/ou de 
assistência social, por receio, por exemplo, de prejudicar um filho ou um parente 
próximo, já que o episódio de violênciadeverá ser necessariamente notificado para 
as autoridades competentes para a persecução criminal do fato. Lembre-se que, em 
razão das normas de ética profissional, o atendido deverá ser comunicado de que 
haverá a notificação compulsória. 
Não é um problema de fácil resolução, mas o profissional da segurança pública 
deve conhecer essa polêmica, pois a integração da máquina estatal passa também 
https://www.gov.br/inss/pt-br
 
 
142 
pela compreensão das particularidades da posição de cada um dos agentes públicos 
envolvidos no enfrentamento do problema. 
 
 
143 
Aula 5 - Integração com os serviços de previdência social 
 
O terceiro segmento da seguridade social é a previdência social. 
Fala-se muito de previdência social, de reforma da previdência social, do déficit 
da previdência social etc. Mas, afinal, você sabe o que é previdência social? 
A previdência social é uma forma de seguro social, que concede ao trabalhador 
proteção contra uma pluralidade de infortúnios, principalmente de natureza 
econômica. É graças a ela que os empregados têm direito a benefícios como o auxílio- 
doença e a licença paternidade/maternidade. 
Contribuem obrigatoriamente para a previdência social tanto o empregado 
quanto o empregador, embora somente o primeiro goze de seus benefícios. Para os 
autônomos, a contribuição é opcional, mas, se não contribuir, por óbvio, não terá 
direito aos seus benefícios. 
Assim, a obtenção dos benefícios da previdência depende de a pessoa possuir 
a condição de segurado, ou seja, de a pessoa efetivamente contribuir para a 
previdência social, diversamente do que acontece na assistência social, em que, para 
tanto, basta que ela demonstre a necessidade do benefício. 
Em relação à pessoa idosa, os dois principais benefícios da previdência social 
são a aposentadoria por idade e a pensão por morte. 
A aposentadoria por idade é devida ao segurado que se enquadre em uma das 
seguintes situações: a) aposentadoria voluntária urbana - 65 (sessenta e cinco) anos 
de idade, se homem, e 62 (sessenta e dois) anos de idade, se mulher, observado 
tempo mínimo de contribuição (art. 201, §7º, I, da CF), mas essa idade mínima é 
reduzida em 5 anos para o professor que comprove tempo de efetivo exercício das 
funções de magistério na educação infantil e no ensino fundamental e médio (art. 201, 
§8º, da CF); e b) aposentadoria voluntária rural - 60 (sessenta) anos de idade, se 
homem, e 55 (cinquenta e cinco) anos de idade, se mulher, para os trabalhadores 
rurais e para os que exerçam suas atividades em regime de economia familiar, nestes 
incluídos o produtor rural, o garimpeiro e o pescador artesanal, sem qualquer requisito de 
tempo de contribuição (art. 201, §7º, II, da CF). 
Com a Emenda Constitucional nº 103/2019 (Reforma da Previdência), deixaram de 
existir a aposentadoria por idade e a aposentadoria por tempo de contribuição como 
dois benefícios apartados. Por óbvio, essas alterações não afetam aqueles que 
obtiveram a aposentadoria na sistemática anterior. 
 
 
144 
Por sua vez, o benefício de pensão por morte é previsto na Lei nº 8.213/1991 e 
será devida ao conjunto das pessoas que forem seus dependentes quando ele falecer 
(art. 74). Ou seja, os dependentes terão que dividir entre si o valor da pensão em 
partes iguais (art. 77), não existindo uma ordem de prioridade, como acontece com a 
herança. O prazo do benefício depende da idade do cônjuge ou do companheiro no 
momento da morte do segurado. Poder durar 3 anos, caso o beneficiário tenha menos 
de 21 anos, e é vitalício, caso a pessoa tenha mais de 44 anos (art. 77, §2º, V, c). No 
caso de descendente ou irmãos, a pensão é devida apenas até os 21 anos, salvo no 
caso que o beneficiário seja pessoa com deficiência, hipótese em que a pensão será 
vitalícia (art. 77, §2º, II). Caso o segurando, antes de falecer, tenha realizado menos 
que 18 contribuições, o benefício terá a duração de apenas quatro meses, salvo se a 
morte decorrer de acidente de qualquer natureza (art. 77, §2º, V, b). 
Mas porque você precisa entender de previdência social, para exercer a sua 
função nas forças de segurança pública? 
Ora, se frequentemente os benefícios previdenciários são a única renda da 
pessoa idosa, recomenda-se ter uma ideia de como funciona o sistema de 
previdência, inclusive, para melhor orientar as famílias e as pessoas idosas. Por 
vezes, é a única renda da família e a razão imediata de muitos conflitos e episódios 
de violência doméstica. 
 
 
145 
Aula 6 - Mobilidade urbana e lazer 
 
A vida da pessoa idosa é mais do que o atendimento das suas necessidades 
básicas por meio de políticas públicas de seguridade social. Ela tem direito a uma vida 
social e cultural que faça a vida valer a pena ser vivida. 
Neste segmento, você irá estudar dois conjuntos de direitos da pessoa idosa que 
impactam diretamente na sua qualidade de vida: o direito à mobilidade urbana – que 
facilita muito da sua vida social – e o direito à cultura. 
Inicialmente, observa-se que é assegurada à pessoa idosa, com renda igual ou 
inferior a dois salários-mínimos – demonstrada por um comprovante de renda ou pela 
carteira do idoso -, no sistema de transporte coletivo interestadual, a reserva de duas 
vagas gratuitas por veículo, bem como o desconto de 50%, no mínimo, no valor das 
passagens que excederem as vagas gratuitas (art. 40 do Estatuto do Idoso). 
Note-se que a não observância desse direito pode ensejar responsabilidade da 
empresa de transporte interestadual, devendo a pessoa idosa ser encaminhada aos 
postos de fiscalização da Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), 
instalados nos principais terminais rodoviários do país. 
Além disso, em muitas unidades da Federação, como o Distrito Federal e o 
município do Rio de Janeiro, é assegurado aos maiores de 65 anos o transporte 
coletivo urbano gratuito. 
É assegurada à pessoa idosa a reserva de 5% das vagas nos estacionamentos 
públicos e privados, as quais devem ser posicionadas de forma a garantir a melhor 
comodidade do beneficiário (art. 41 do Estatuto do Idoso). 
Por fim, é garantida a participação dos idosos em atividades culturais e de lazer com 
descontos de, pelo menos, 50% nos ingressos para eventos artísticos, culturais, 
esportivos e de lazer, bem como o acesso preferencial aos respectivos locais (art. 23 
do Estatuto do Idoso). 
 
 
SAIBA MAIS! 
 
 
No livro “A revolução dos idosos”, que trata de análises futurísticas sobre o 
envelhecimento na Alemanha, o autor, o jornalista alemão Frank Schirmacher, já 
prevê companhia de viagens para idosos separando-os em terceira, quarta e quinta 
idades, bem como empresas especializadas em festas de aniversário de 100 anos! Já 
 
 
146 
 
 
 
 
Figura 24: Velha Senhora em Pampatar Beach 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Fonte: Rodríguez, 2014. 
 
 
147 
Finalizando 
 
Você pôde perceber neste módulo que, ano a ano, a população idosa torna-se 
mais prevalente na composição da sociedade brasileira. Por consequência, as 
questões relativas a esse grupo tornam-se, a cada dia, mais centrais para 
compreender a dinâmica e os problemas de nossa sociedade. Segurança pública; 
Saúde; Assistência Social; Previdência social; Acessibilidade. Mobilidade urbana e 
Cultura. Esses são apenas algumas facetas da vida moderna que são impactadas 
pelo envelhecimento da população. Nunca se viveu tanto. Trata-se de um admirável 
mundo novo, que possui os seus próprios problemas, os quais demandam também 
novas soluções. 
Para organizar uma máquina estatal capaz de enfrentar minimamente esses 
desafios, é necessário abandonar o formalismo do modelo burocrático, que faz, muitas 
vezes, órgãos públicos se isolarem em si mesmos, no casulo do seu conjunto 
específico de atribuições. Diversamente, para enfrentar esses novos desafios, é 
necessário que os diversos segmentos da máquina pública atuem de maneira integral 
e transversal, nabusca da efetiva solução do problema, seja ele individual, seja 
coletivo. Somente por meio dessa abordagem integral será possível enfrentar os 
problemas que surgem ou se intensificam em decorrência do envelhecimento da 
população brasileira e mundial. 
Assim, no enfrentamento dos crimes contra a pessoa idosa, as forças de 
segurança pública não devem andar sozinhas, mas se inserir em redes mais amplas 
de defesa e promoção dos direitos da pessoa idosa, que incluam, por exemplo, os 
órgãos responsáveis pelos serviços de saúde, assistência social e previdência social, 
bem como com a sociedade civil, tantas vezes indispensável inclusive para fazer 
chegar ao conhecimento das forças policiais a notícia da suposta prática de crime. 
Essa interação é indispensável para fazer circular não só a identificação dos 
problemas, mas também as melhores práticas para o seu enfrentamento e solução. 
No entanto, essa integração é insuficiente para garantir a efetividade das forças 
de segurança pública na prevenção, elucidação e repressão de crimes contra a 
pessoa idosa. 
É necessário, além disso, que o profissional de segurança pública tenha, no seu 
repertório de conhecimentos, noções mínimas das circunstâncias específicas da 
pessoa idosa, sobre as suas condições biológicas, psicológicas e sociais. São 
 
 
148 
indispensáveis também competências interpessoais, principalmente para manejar 
episódios de violência doméstica e familiar contra pessoas idosas, marcada por uma 
multidão de afetos, em especial, pela vergonha e pela culpa, que devem ser levados 
em conta em qualquer arranjo que busque efetivamente solucionar o problema. 
Em resumo, a defesa da pessoa idosa é um tema vasto, cuja imensidão não foi 
plenamente explorada por este material, que pretende tão somente ser uma 
introdução e um guia prático, para ajudar o profissional de segurança no seu dia a dia de 
enfrentamento de episódios de violência contra aqueles cidadãos. 
Por fim, é possível que o objetivo deste material tenha sido cumprido se, por 
meio de você, ele impactar positivamente na vida de uma pessoa idosa e de sua 
família. 
 
 
149 
Referências bibliográficas 
 
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Acesso em: 15 março. 2022. 
 
 . Decreto nº 5.296/2004. Regulamenta as Leis nos 10.048, de 8 de novembro 
de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 
19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a 
promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade 
https://apublica.org/2020/05/idosos-refens-de-emprestimos-consignados-aguardam-batalha-juridica-em-meio-a-pandemia/
https://apublica.org/2020/05/idosos-refens-de-emprestimos-consignados-aguardam-batalha-juridica-em-meio-a-pandemia/
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150 
reduzida, e dá outras providências. Disponível em: 
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http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2003/l10.741.htm Acesso em: 11 mai.2022. 
Alterada pela Lei 13.423/22 (Estatuto da Pessoa Idosa), de 22 de julho de 2022. 
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151 
 
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11 de junho de 2018. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015- 
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instituições de longa permanência para os conselhos estaduais e municipais da 
pessoa idosa. Brasília, 2021. 
 
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contribuição demográfica. Rio de Janeiro: IPEA, 2002. 
 
 . Os novos idosos brasileiros: muito além dos 60? Rio de Janeiro: IPEA, 
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do silêncio: a violência intrafamiliar contra a pessoa idosa. São Paulo: Roca, 
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FARIA, Cristiano Chaves de. Manual de Direito Civil – Volume único. Salvador. Ed. 
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FEIXA, Carles. O conceito de geração nas teorias sobre juventude. Revista 
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• Colocar referência do Michel Misse aqui. 
• Canal a Máquina Pública no Youtube 
https://www.youtube.com/watch?v=VjMQERelRx8 
• Supremo Tribunal Federal (ADI 6727/PR). 
• Lei do SUSP 
• na ADI 3.096-5 – STF 
• Projeto da Lei nº 4.438/2021 
• Portaria nº 2.528/2006 do Ministério da Saúde). 
• O art. 6º da Lei nº 8.842/1994 
• Resolução nº 338/2004 do Conselho Nacional de Saúde 
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• https://carteiraidoso.cidadania.gov.br/. 
• www.previdencialsocial.gov.br. 
https://www.jota.info/coberturas-especiais/relacoes-de-consumo/proibicao-de-oferta-de-credito-a-idosos-via-telemarketing-se-alastra-nos-estados-08102021
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http://www.youtube.com/watch?v=VjMQERelRx8
https://carteiraidoso.cidadania.gov.br/
http://www.previdencialsocial.gov.br/
 
 
153 
Nota de fim 
 
i Os dados de 1940 e 2000 foram encontrados em: Camarano, Ana Amélia (org.). Os novos idosos 
brasileiros: muito além dos 60? Rio de Janeiro: IPEA, 2004, p 25. Já os dados referentes ao ano de 
2017 foram extraídos da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua de 2017. 
 
ii https://www.worlddata.info/life-expectancy.php - Esse site é incrível, mas para isso você precisa ler 
em inglês. A boa notícia é que você também pode aprender inglês nos cursos da SENASP! 
 
iii https://cidades.ibge.gov.br/brasil/panorama - O site do IBGE é uma fonte riquíssima para fundamentar 
suas pesquisas sobre o Brasil, Estados e Municípios. Há projeções interativas, dados sobre população, 
economia, cultura, segurança. uma festa para o cientista social! 
 
iv Lebrão, Maria Lúcia e Laurenti, Rui Saúde, bem-estar e envelhecimento: o estudo SABE no Município 
de São Paulo. Revista Brasileira de Epidemiologia [on line]. 2005, v. 8, n. 2 [Acessado 1 março 2022], 
pp. 127-141. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S1415-790X2005000200005 Epub 16 Ago 2005. 
ISSN 1980-5497. https://doi.org/10.1590/S1415-790X2005000200005 
 
v ATENÇÃO! No Art. 20 da Lei 7.716/89, não há previsão legal de racismo em razão da idade.! Confira! 
Art. 20. Praticar, induzir ou incitar a discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou 
procedência nacional. 
 
Pena: reclusão de um a três anos e multa. 
§ 1º Fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou 
propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo. 
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa. 
§ 2º Se qualquer dos crimes previstos no caput é cometido por intermédio dos meios de comunicação 
social ou publicação de qualquer natureza: 
Pena: reclusão de dois a cinco anos e multa. 
§ 3º No caso do parágrafo anterior, o juiz poderá determinar, ouvido o Ministério Público ou a pedido 
deste, ainda antes do inquérito policial, sob pena de desobediência: 
I - O recolhimento imediato ou a busca e apreensão dos exemplares do material respectivo; 
II - a cessação das respectivas transmissões radiofônicas, televisivas, eletrônicas ou da publicação por 
qualquer meio; 
III - a interdição das respectivas mensagens ou páginas de informação na rede mundial de 
computadores. 
 
vi Sobre essa possibilidade de recomeçar a vida, sugerimos a minissérie “As Filhas de Eva”, na 
plataforma do Globo Play, cuja trama se dá a partir da decisão de uma mulher se divorciar em razão 
da frustração ao longo de seu casamento de 50 anos, onde ela priorizou o sucessoprofissional do 
marido em detrimento de seus sonhos e sua felicidade pessoal. 
 
vii O movimento Panteras Cinzentas foi fundado na década de 70, nos Estados Unidos, por Maggie 
Kuhn, falecida em 1995, para a defesa dos direitos da pessoa idosa, logo após que ela foi obrigada a 
se aposentar com 65 anos. O maior feito do coletivo foi modificar a aposentadoria compulsória aos 65 
anos nos Estados Unidos, em 1986, entre muitos outros, como derrubar estereótipos associados ao 
envelhecimento no cinema, cultura, televisão. O lema dos Panteras Cinzentas é “Age and youth in 
action” (velhice e juventude em ação), onde reúne estudantes de ensino médio, universitários em 
octogenários. Lindo, né? Não vemos a hora de termos um desses aqui no Brasil, já pensou? Eu já! 
 
viii Você sabia que há duas palavras para se referir ao envelhecimento em latim? Vetus – significa 
velho, no sentido de qualificar algo, velhos tempos, panela velha. Daí você já deve ter visto nos 
juridiquês por aí “o vetusto código civil”, no sentido negativo. Já Senex se fere a ideia de idoso, de 
sábio. O órgão mais alto da República Romana era o SPQR (Senatus Popolusque Romanorum) “O 
Senado e o Povo de Roma.” E a ideia de que pessoas com mais experiências tem maior probabilidade 
de serem mais sábias está encrustada na nossa cultura e Constituição Federal, ao prever maior idade 
– acima de 35 anos – para candidatura à Presidência da República e ao Senado Federal! Agora quando 
você encontrar a palavra senil sendo utilizada, vai entender que é em sinal de respeito e sabedoria. 
 
ix Não se fala mais em interdição, ok? É ação de curatela. 
https://www.worlddata.info/life-expectancy.php
https://cidades.ibge.gov.br/brasil/panorama
https://doi.org/10.1590/S1415-790X2005000200005
https://doi.org/10.1590/S1415-790X2005000200005
 
 
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x Constamos um caso em que a Delegacia Especial de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, 
Religiosa, ou por Orientação Sexual, ou Contra a Pessoa Idosa ou com Deficiência – Decrin, da Polícia 
Civil do Distrito Federal foi acionada por meio de denúncia anônima sobre uma idosa em sofrimento 
profundo, com escaras que colocava seus pulmões à mostra. A equipe da Decrin esteve no local, 
prendeu em flagrante a filha da idosa e encaminhou a vítima ao Hospital, que veio a falecer no dia 
seguinte. Apesar do ressentimento e tristeza da equipe com a morte da idosa, houve uma sensação de 
dever cumprido ao ter possibilitado uma morte digna àquela mulher idosa, retirando-a do local de 
sofrimento e efetuando a prisão de sua filha que negligenciava os cuidados com ela. 
 
xi Você pode encontrar aqui mais informações sobre essas cidades na Inglaterra. Mas o site está em 
inglês. https://www.dementiafriends.org.uk/WebArticle?page=dfc-public-listing#.Yi6NG3rMJD8 Mas 
não se preocupa, tem curso de inglês aqui na plataforma do EAD também! Nunca deixe de estudar! 
 
xii MISSE, Michel. Malandros, marginais e vagabundos. A acumulação social da violência no Rio 
de Janeiro. Rio de Janeiro, IUPERJ. Tese de Doutorado em Sociologia, 1999. 
xiii O princípio de Pareto (também conhecido como regra do 80/20, lei dos poucos vitais ou princípio de 
escassez do fator) afirma que, para muitos eventos, aproximadamente 80% dos efeitos vêm de 20% 
das causas. 
https://www.dementiafriends.org.uk/WebArticle?page=dfc-public-listing&.Yi6NG3rMJD8
	SUMÁRIO
	Apresentação do Curso
	Contextualização
	Missão: a atuação resolutiva do problema.
	Objetivos do curso
	Estrutura do curso
	Módulo 1 – A Pessoa Idosa e a Segurança Pública
	Apresentação do Módulo
	Objetivos do Módulo
	Estrutura do Módulo
	Aula 1 - Introdução: a pessoa idosa e a segurança pública
	Aula 2 - Quem é a pessoa idosa hoje no Brasil e seus direitos
	Aula 3 - Estereótipos e estigmas, preconceito, discriminação e etarismo
	Aula 4 - Relacionamentos intergeracionais
	Aula 5 - Pessoas idosas e o suporte emocional
	Aula 6 - Pessoas idosas, autonomia e independência
	6.1 – Tomada de decisão apoiada
	6.2 – Ação de Curatela
	6.3 – Diretivas antecipadas ou testamento vital
	6.4 – Cuidados paliativos
	6.5 - Pessoas idosas, arquitetura e urbanismo
	Aula 7 - Pessoas idosas, finanças, previdência e consumo
	Aula 8 - Pessoas idosas, solidão e violência – desafios da segurança pública
	8.1 - O profissional da segurança pública e a população idosa
	Finalizando
	Módulo 2 – Violência Doméstica e Familiar Contra a Pessoa Idosa
	Apresentação do Módulo
	Objetivos do Módulo
	Estrutura do Módulo
	Aula 1 - As formas de violência contra a pessoa idosa
	1.1 - Crimes praticados no contexto familiar e domiciliar
	Aula 2 - Estelionato afetivo
	Finalizando
	Módulo 3 – Crimes de Violência Contra a Pessoa Idosa Praticados por Desconhecidos
	Apresentação do Módulo
	Objetivos do Módulo
	Estrutura do Módulo
	Aula 1 - Violência de rua e crimes de discriminação contra a pessoa idosa
	1.1 - Crimes de discriminação contra a pessoa idosa
	Aula 2 - Golpes Virtuais e Exclusão Digital
	Palavra do Especialista!
	Aula 3 - Os desafios do crédito consignado
	Finalizando
	Módulo 4 – Particularidades da Investigação dos Crimes Contra os Idosos
	Apresentação do Módulo
	Objetivos do Módulo
	Estrutura do Módulo
	Aula 1 - Prevenção de crimes contra as pessoas idosas
	1.1 - Mediação dos conflitos
	Aula 2 - Denúncias de Crimes Contra as Pessoas Idosas e Roteiro de Registro de Ocorrência
	2.1 - Roteiro de registro de ocorrência
	Aula 3 - A Investigação Preliminar
	Aula 4 – Instrumentos Especiais da Investigação de Crimes Contra a Pessoa Idosa
	4.2. Medidas judiciais de proteção da pessoa idosa
	Finalizando
	Módulo 5 – Rede de Apoio e Promoção dos Direitos das Pessoas Idosas e Integração com demais Serviços Públicos
	Apresentação do Módulo
	Objetivos do Módulo
	Estrutura do Módulo
	Aula 1 - A abordagem policial integral
	Aula 2 - Rede de proteção da pessoa idosa
	Aula 3 - Integração com o serviço de saúde
	Aula 4 - Integração com o serviço de assistência social
	Aula 5 - Integração com os serviços de previdência social
	Aula 6 - Mobilidade urbana e lazer
	Finalizando
	Referências bibliográficas
	Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).
	Nota de fim

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