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Abdome agudo 
➥ A expressão abdome agudo refere‑se habitualmente 
ao sinal e sintoma de dor e hipersensibilidade na região 
abdominal, uma manifestação clínica que, em geral, 
requer tratamento cirúrgico de emergência. 
➥ O diagnóstico de abdome agudo varia conforme a 
idade e o sexo. A apendicite é mais comum em jovens, 
enquanto a doença biliar, a obstrução intestinal, a 
isquemia e o infarto intestinal e a diverticulite são mais 
comuns em pacientes idosos. 
➥ A maioria das doenças cirúrgicas associadas a 
abdome agudo está relacionada com infecção, 
isquemia, obstrução ou perfuração de uma víscera 
➥ Muitas doenças, algumas das quais não são 
cirúrgicas ou nem mesmo abdominais, podem produzir 
dor abdominal aguda. 
➥ Portanto, todo esforço deve ser feito para se ter o 
diagnóstico correto a fim de que o tratamento 
escolhido, em geral por laparoscopia ou laparotomia, 
seja apropriado. Apesar das melhoras nos estudos 
laboratoriais e imaginológicos, o exame físico e a 
história clínica continuam sendo os pilares na 
determinação do diagnóstico correto e do início da 
terapia adequada e em tempo hábil. 
 
➥ A avaliação é realizada na ordem habitual, do 
histórico do paciente, seguindo‑se o exame físico, os 
exames laboratoriais e os estudos por imagem. Embora 
os estudos por imagem tenham aumentado a precisão 
do diagnóstico, a principal parte da avaliação continua 
sendo a anamnese completa e o exame físico 
cuidadoso. Os estudos laboratoriais e por imagem, 
ainda que geralmente necessários, são orientados pelos 
achados da história e do exame físico. 
 
 
Anatomia e fisiologia 
➣ A dor abdominal pode ser dividida em seus 
componentes visceral e parietal. 
↳ A dor visceral costuma ser vaga e mal localizada no 
epigástrio, região periumbilical ou hipogástrio, de 
acordo com a sua origem nos segmentos anterior, 
médio e posterior do intestino primitivo. Em geral, é 
consequência de distensão de uma víscera oca. 
 
↳ A dor parietal está relacionada com a irritação das 
raízes dos nervos segmentares que inervam o peritônio 
e tende a ser mais aguda e mais bem localizada. A dor 
referida é percebida em um local distante da fonte do 
estímulo. Por exemplo, a irritação do diafragma pode 
produzir dor no ombro. 
 
» A presença de bactérias ou componentes que 
provoquem irritação química na cavidade peritoneal 
causam extravasamento de líquido na cavidade 
peritoneal. 
» O peritônio responde à inflamação com aumento do 
fluxo sanguíneo, maior permeabilidade e formação de 
exsudato fibrinoso em sua superfície. O intestino 
também é acometido por paralisia local ou 
generalizada. 
» A superfície fibrinosa e a redução da motilidade 
intestinal provocam aderências entre os intestinos e o 
omento ou a parede abdominal e ajudam a bloquear o 
processo inflamatório. Como resultado, um abscesso 
pode provocar dor aguda localizada com ruídos 
hidroaéreos e função gastrointestinal preservados, 
enquanto um processo difuso, como uma úlcera 
duodenal perfurada, provoca dor abdominal 
generalizada com diminuição da motilidade intestinal. A 
peritonite pode acometer toda a cavidade abdominal 
ou somente partes do peritônio visceral ou parietal. 
» A peritonite é uma inflamação peritoneal com várias 
causas. Em geral, é reconhecida no exame físico por 
sensibilidade intensa à palpação do abdome, com ou 
sem descompressão brusca positiva, e retração 
abdominal à compressão. A peritonite é geralmente 
secundária a uma inflamação, mais frequentemente 
uma infecção por um germe Gram‑negativo entérico ou 
um anaeróbio. Pode resultar também de inflamação não 
infecciosa, sendo um exemplo comum a pancreatite. A 
peritonite primária ocorre mais comumente em crianças 
e é mais frequentemente causada por pneumococos e 
estreptococos hemolíticos. 
» Adultos com doença renal terminal em diálise 
peritoneal podemdesenvolver peritonite, sendo os 
organismos mais comuns nestes casos os cocos 
Gram‑positivos. Adultos com cirrose e ascite podem 
desenvolver peritonite primária e, nesses casos, os 
organismos são geralmente Escherichia coli e Klebsiella 
spp. 
» Dor identificada com a ponta do dedo geralmente é 
mais localizada e típica de inervação parietal ou 
inflamação peritoneal, em comparação com a indicação 
da área de desconforto com a palma da mão, que é mais 
típica de desconforto visceral ou doença acometendo 
um órgão sólido. 
» O início súbito de dor lancinante sugere perfuração 
intestinal e embolização arterial com isquemia, embora 
outras condições como cólica biliar possam 
manifestar‑se subitamente também. 
» A dor que se desenvolve e se exacerba ao longo de 
várias horas é típica de inflamação progressiva ou 
infecção, como colecistite, colite ou obstrução intestinal. 
» O relato de piora progressiva versus episódios 
intermitentes de dor pode ajudar a diferenciar 
processos infecciosos que evoluem com o tempo, em 
comparação com a dor 
espasmódica em cólica associada a obstrução intestinal, 
cólica biliar e obstrução do ducto cístico, ou obstrução 
do trato geniturinário. 
 
 
 
 
 
 
 
 
» Igualmente importante é a localização e a irradiação 
da dor. A lesão ou a inflamação do tecido podem 
deflagrar tanto dor somática quanto visceral. 
» A dor de víscera abdominal sólida é localizada 
quadrante correspondente ao órgão envolvido, como, 
por exemplo, a dor no fígado encontrada no quadrante 
superior direito do abdome. 
» A dor nas afecções do intestino delgado é referida 
como dor periumbilical e pouco localizada, enquanto a 
dor nas afecções do cólon em geral está localizada entre 
o umbigo e a sínfise pubiana. Conforme a inflamação se 
expande para a superfície peritoneal, as fibras de nervos 
parietais provenientes da coluna provocam sensação 
focal e intensa. Essa combinação de inervação é 
responsável pela dor periumbilical difusa clássica da 
apendicite aguda em sua fase inicial, que depois se 
transforma em dor intensa localizada na porção direita 
do abdome inferior, no ponto de McBurney. Se o 
médico se ativer somente ao tipo da dor no momento 
do exame e não investigar o seu início e evolução, não 
perceberá esses fortes indícios na história. 
» A dor também pode se irradiar além do local onde se 
localiza a doença. O fígado partilha parte de sua 
inervação com o diafragma e pode criar dor referida no 
ombro direito mediada pelas raízes nervosas de C3‑C5. 
» A dor geniturinária comumente tem um padrão de 
irradiação. Os sintomas são primariamente na região do 
flanco, originando‑se dos nervos esplâncnicos de 
T11‑L1, mas a dor, em geral, irradia‑se para a bolsa 
escrotal e/ou os grandes lábios via plexo hipogástrico 
de S2‑S4. 
 
 
» As atividades que exacerbam e/ou aliviam a dor 
também são importantes. A ingesta de alimentos em 
geral exacerba a dor da obstrução intestinal, da cólica 
biliar, da pancreatite, da diverticulite ou da perfuração 
intestinal. 
O alimento pode aliviar a dor da úlcera péptica não 
perfurada ou da gastrite. 
» Os pacientes com irritação peritoneal evitam qualquer 
atividade que mobilize o abdome. Eles descrevem 
exacerbação da dor com qualquer movimento do corpo 
e informam melhora quando flexionam os joelhos. 
Sintomas associados podem fornecer informações 
importantes para o diagnóstico. 
→ Vômitos podem ocorrer na vigência de dor 
abdominal grave de qualquer causa ou como resultado 
de obstrução intestinal mecânica ou íleo. É mais 
provável que o vômito preceda o início da dor 
abdominal significativa em muitas condições clínicas, 
enquanto a dor de um abdome agudo cirúrgico 
manifesta‑se primeiro e estimula o vômito pelas fibras 
medulares eferentes que excitam as fibras aferentes 
responsáveis pela dor visceral. 
→ A constipação ou obstipação podem resultar tanto de 
obstrução mecânica quanto de redução do 
peristaltismo. Pode representar o principal problema e 
exigir laxativos e agentesprocinéticos, ou simplesmente 
ser sintoma de uma condição subjacente. Uma história 
cuidadosa deve verificar se o paciente continua a 
eliminar gases ou fezes pelo reto. 
→ Uma obstrução completa estará mais provavelmente 
associada a isquemia ou perfuração intestinal 
subsequentes à distensão intensa de uma alça de 
intestino delgado. 
A diarreia está associada a várias causas clínicas de 
abdome agudo, inclusive enterite infecciosa, doença 
intestinal inflamatória e contaminação parasitária. A 
diarreia com sangue pode ser observada nessas 
condições, da mesma forma que na isquemia colônica. 
 
O uso prévio de medicamentos e a história ginecológica 
de pacientes do sexo feminino também são 
importantes. 
✧ O uso de opiáceos podem: 
- Interferir na motilidade intestinal e provocar 
obstipação e obstrução 
- Podem contribuir para espasmo do esfíncter de Oddi 
- Exacerbar a dor de origem biliar ou pancreática. 
- Suprimir a sensação de dor 
- Alterar o estado mental do paciente e, 
consequentemente, prejudicar a realização de um 
diagnóstico preciso. 
✧ Anti‑inflamatórios não esteroides associam‑se a: 
- Maior risco de inflamação e perfuração do trato 
gastrointestinal alto, 
✧ Anti‑inflamatórios esteroidais: 
- Bloqueiam a ação protetora do muco gástrico 
produzido pelas células principais e, assim, reduzem a 
reação inflamatória à infecção, inclusive relacionada 
com a peritonite. 
✧ Agentes imunossupressores: 
- Aumentam o risco de infecções oportunistas virais e 
bacterianas, além de reduzir a resposta inflamatória e 
diminuir a dor presente na resposta fisiológica. 
✧ Anticoagulantes: (é mais prevalente em pacientes 
mais idosos 
- Podem levar a sangramento gastrointestinal, 
retroperitoneal ou na mucosa retal. 
- Também influenciam no preparo pré‑operatório e 
ainda podem ser causa de complicações se seu uso pelo 
paciente passar despercebido. 
✧ Drogas recreativas (tem influência nos pacientes com 
abdome agudo 
 - O etilismo crônico está fortemente associado a 
coagulopatia e hipertensão porta proveniente de 
doença hepática. 
- A cocaína e a metanfetamina podem provocar uma 
intensa reação vasoespástica, que pode ter como 
consequência crise hipertensiva grave e isquemia 
cardíaca ou intestinal. 
 
✶ A saúde ginecológica, especificamente a história 
menstrual, é crucial na avaliação da dor abdominal 
inferior em uma mulher jovem. A probabilidade de 
gravidez ectópica, doença inflamatória pélvica, dor 
entre as menstruações ou endometriose grave pode ser 
suspeitada pela história ginecológica 
 
Exame físico 
1-Inspeção 
↳ O exame físico deve sempre começar com a inspeção 
geral do paciente, seguida pela inspeção do próprio 
abdome. 
↳ Os pacientes com irritação peritoneal apresentam 
piora da dor com qualquer atividade que movimente ou 
distenda o peritônio. Normalmente, esses pacientes 
ficam imóveis no leito durante a avaliação e, em geral, 
mantêm os joelhos e os quadris flexionados para reduzir 
a tensão na parede anterior do abdome. 
↳ Doenças que provocam dor sem irritação peritoneal, 
como isquemia mesentérica e cólica biliar e ureteral, 
fazem com que os pacientes mudem continuamente de 
posição no leito enquanto tentam achar um 
posicionamento que reduza seu desconforto 
↳ Outros sinais importantes, como palidez, cianose e 
sudorese, também podem ser observados durante a 
inspeção geral. 
↳ A inspeção abdominal diz respeito ao aspecto do 
abdome, se ele está distendido ou escavado, ou ainda 
se abaulamentos podem ser observados. O examinador 
deve estar atento a todas as cicatrizes, que devem ser 
correlacionadas com a história médica e cirúrgica 
obtida. 
↳ Podem‑se suspeitar de hérnias de parede abdominal 
já durante a inspeção. Estas poderão ser confirmadas 
durante a palpação. 
↳ Eritema ou edema da pele sugerem celulite da parede 
abdominal, enquanto equimoses são, algumas vezes, 
observadas com infecções necrosantes mais profundas 
da fáscia ou de estruturas intra‑abdominais como o 
pâncreas. 
 
 
 
 
2-Ausculta 
↳ A ausculta abdominal pode fornecer informações 
úteis sobre o trato gastrointestinal e o sistema 
circulatório. A quantidade e a qualidade dos ruídos 
intestinais devem ser avaliados. 
↳ O silêncio abdominal sugere íleo, enquanto ruídos 
intestinais hiperativos podem ser encontrados nas 
enterites e na fase precoce da isquemia intestinal. A 
intensidade e a qualidade dos sons, bem como o padrão 
dos ruídos peristálticos, devem ser considerados. A 
obstrução mecânica do intestino caracteriza‑se por 
ruídos metálicos em tom alto, que tendem a ocorrer em 
salvas e estão associados a dor. 
↳ Os sons intermitentes e tipo eco, em geral, estão 
presentes quando existe distensão intestinal 
significativa. 
↳ Os sopros auscultados no abdome refletem fluxo 
sanguíneo turbulento no sistema circulatório. São 
encontrados com maior frequência nos quadros 
compatíveis com estenose arterial de alto grau, de 70% 
a 95%, mas podem também ser na vigência de uma 
fístula arteriovenosa. 
 
3-Percussão 
↳ A percussão é utilizada para avaliar a presença de 
distensão gasosa nos intestinos, ar livre 
intra‑abdominal, grau de ascite e presença de irritação 
peritoneal. 
↳ Hiper‑ressonância, comumente denominada 
timpanismo à percussão, é característica de alças do 
intestino subjacentes repletas de gás. 
↳ No quadro de obstrução intestinal ou íleo, esse 
timpanismo é ouvido em todos os quadrantes, exceto 
no superior direito, onde o fígado se localiza 
imediatamente sob a parede abdominal. 
↳ Se for identificada macicez localizada à percussão em 
qualquer área que não o quadrante superior direito, 
considera‑se que possa haver uma massa abdominal 
deslocando o intestino 
↳ A peritonite também pode ser avaliada pela 
percussão. Os tratados tradicionais descrevem a técnica 
de compressão profunda da parede abdominal seguida 
por descompressão abrupta. 
 
 
4-Palpação 
↳ A palpação fornece mais informações úteis ao 
diagnóstico do que qualquer outro exame abdominal. 
Além de revelar a gravidade e a localização exata da dor, 
a palpação pode confirmar, adicionalmente, a presença 
de peritonite, bem como identificar visceromegalias ou 
qualquer massa intra‑abdominal anormal. 
↳ A palpação deve ter início com manobras delicadas e 
distantes da área de dor relatada. Caso seja induzida dor 
considerável no início da palpação, o paciente 
provavelmente contrairá voluntariamente o abdome, 
limitando a obteção de novas informações. 
↳ A contração involuntária, ou espasmo muscular da 
parede abdominal, é sinal de irritação peritoneal e 
precisa ser diferenciada da contração voluntária. Para 
alcançar esse objetivo, o examinador faz pressão 
consistente na parede abdominal afastado do ponto de 
dor máxima, enquanto pede ao paciente que inspire 
lenta e profundamente. 
↳ No quadro de contração voluntária, os músculos 
abdominais se relaxarão durante a inspiração, enquanto 
no involuntário os músculos permanecerão espásticos e 
tensos. 
Exames laboratoriais 
 
・O hemograma com contagem diferencial é um exame 
útil, uma vez que a maior partedos pacientes com 
abdome agudo terá leucocitose ou presença de células 
brancas imaturas. 
・Dosagem de eletrólitos séricos, e níveis de ureia e 
creatinina no plasma ajudarão na avaliação do efeito de 
fatores tais como vômitos e acúmulo de líquido no 
terceiro espaço. Além disso, estes marcadores de função 
renal podem sugerir distúrbios endócrinos ou 
metabólicos como causa do problema do paciente. 
・As determinações da amilase e da lipase séricas 
podem sugerir pancreatite como causa da dor, mas 
podem também estar elevadas em outros distúrbios 
como infarto do intestino delgado e perfuração de 
úlcera duodenal. Os níveis normais da amilase e lipase 
séricas não excluem a pancreatite como um possível 
diagnóstico, pois a inflamação crônicaafeta a produção 
de enzimas e fatores de regulação. 
・Os exames da função hepática, inclusive bilirrubina 
total e direta, aminotransferase sérica e fosfatase 
alcalina, são úteis na avaliação do trato biliar como 
possível foco de dor abdominal. 
・Os níveis de lactato e as determinações da gasometria 
arterial podem ser úteis no diagnóstico da isquemia ou 
infarto intestinal. 
・A análise de urina é útil no diagnóstico de cistite, 
pielonefrite e determinadas anormalidade endócrinas, 
como diabetes e doenças renais. 
・A urocultura, embora possa confirmar uma suspeita 
de infecção urinária e guiar a antibioticoterapia, não 
está disponível a tempo para ser útil no manejo de 
pacientes com abdome agudo. 
・As dosagens urinárias dos níveis da gonadotrofina 
coriônica humana podem sugerir gravidez que, além de 
ser um fator de confusão, influencia no manejo da 
paciente. O feto de uma paciente grávida com abdome 
agudo estará mais protegido ao se propiciar a melhor 
assistência possível à mãe, inclusive uma operação, se 
indicada. 
・O exame de fezes para sangue oculto pode ser útil na 
avaliação desses pacientes, mas é inespecífico. Fezes 
para avaliação de ovos e parasitas, bem como cultura e 
ensaio para toxina de Clostridium difficile, podem ser 
úteis caso a diarreia seja um componente do quadro do 
paciente. 
 
Estudos por imagem 
 
→ As radiografias simples abdominais nas posições 
ortostática e supina são bastante úteis para 
identificação de obstrução gástrica distal e obstrução 
do intestino delgado proximal, médio e/ou distal e 
podem também ajudar a determinar se uma obstrução 
do intestino delgado é completa ou parcial, pela 
presença ou ausência de gás no cólon. A presença de 
gás colônico pode ser diferenciada do gás do intestino 
delgado pela presença de marcas das haustras das 
tênias da parede do cólon. Distensão concomitante do 
intestino delgado também pode estar presente nestes 
casos, em especial se a válvula ileocecal for 
incompetente. As radiografias também podem sugerir 
volvo tanto do ceco quanto do cólon sigmoide. 
→ O volvo cecal é identificado por uma alça distendida 
do cólon em formato de vírgula, com a concavidade 
voltada inferiormente e para a direita. O volvo do 
sigmoide tem como característica a aparência de um 
tubo interno recurvado, com seu ápice no quadrante 
superior direito 
 
 
 
 
 
 
 
 
→ A ultrassonografia abdominal é bastante precisa para 
a detecção de cálculos biliares e para avaliar a espessura 
da parede da vesícula biliar e a presença de líquido ao 
seu redor. Também é útil para determinar o calibre dos 
ductos biliares intra e extra‑hepáticos. 
→ A ultrassonografia abdominal e transvaginal pode 
ajudar na detecção de anormalidades dos ovários, 
anexos e útero. Também é utilizada para detectar 
líquido intraperitoneal. 
Monitoração da pressão intra­abdominal 
➣ Uma pressão intra‑abdominal elevada pode ser 
sintoma ou causa de doença abdominal aguda. 
➣ A pressão intra‑abdominal elevada reduz o fluxo 
sanguíneo para os órgãos abdominais e diminui o 
retorno venoso ao coração, aumentando a estase 
venosa. 
➣ O aumento da pressão no abdome também pode 
elevar o diafragma, aumentando o pico da pressão 
inspiratória e diminuindo a capacidade ventilatória. 
➣ O risco de refluxo esofágico com consequente 
aspiração pulmonar também se mostra associado à 
hipertensão abdominal. É importante considerar a 
possibilidade de síndrome compartimental abdominal 
em qualquer paciente que apresente rigidez e/ou 
significativa distensão abdominal. 
➣ A pressão intra‑abdominal normal está situada entre 
5 a 7 mmHg para um indivíduo, em estado de 
relaxamento, que tenha um corpo mediano e esteja 
deitado na posição supina. 
➣ Na obesidade, a elevação da cabeceira da cama pode 
aumentar a pressão abdominal normal em repouso. A 
obesidade mórbida leva a aumento de 4 a 8 mmHg 
nesses níveis normais e a elevação da cabeceira da cama 
em 30 graus aumenta a pressão em 5 mmHg em média. 
➣ 20 Pressões são comumente medidas através da 
bexiga por um transdutor de pressão conectado a um 
cateter de Foley. Leituras de pressão são obtidas no final 
da expiração após a instilação de 50 mL de solução 
salina em uma bexiga previamente vazia. Pressões 
superiores a 11 mmHg são consideradas elevadas acima 
do normal e são graduadas por gravidade de de 1 a 4. 
➣ A hipertensão abdominal de graus 1 e 2 quase 
sempre pode ser tratada adequadamente com 
intervenções médicas objetivando manter a euvolemia, 
descompressão intestinal por sonda nasogástrica ou 
laxantes e enemas, suspensão da alimentação enteral, 
aspiração por punção de líquido ascítico, relaxamento 
da parede abdominal e o uso criterioso de líquidos 
hipotônicos intravenosos. Os graus 3 e 4 
frequentemente necessitam de descompressão 
cirúrgica via laparotomia com curativo aberto do 
abdome, caso a hipertensão grave e a disfunção 
orgânica não responderem prontamente ao tratamento 
médico agressivo. 
 
 
 
 
Diagnóstico diferencial 
 
Preparação para cirurgia de emergência 
➣ O estado geral de saúde dos pacientes com abdome 
agudo é muito variável no momento em que se indica a 
operação. 
➣ Independentemente da gravidade da doença, todos 
os pacientes necessitam de algum grau de preparo 
pré‑operatório. 
➣ Deve‑se obter acesso IV para as eventuais correções 
das anormalidades eletrolíticas. A maioria, senão a 
totalidade dos pacientes, terá necessidade de 
antibióticos venosos. As bactérias mais comumente 
encontradas na vigência de abdome agudo são 
microrganismos entéricos Gram‑negativos e 
anaeróbios. 
➣ Antibióticos para cobrir estes organismos devem ser 
iniciados imediatamente após o diagnóstico presuntivo 
ter sido feito. 
➣ Os pacientes com íleo paralítico generalizado ou 
vômitos beneficiam‑se de uma sonda nasogástrica para 
diminuir a probabilidade de vômito e aspiração. 
➣ A cateterização vesical com cateter de Foley para 
avaliação do débito urinário, uma medida de adequação 
da reposição volêmica, está indicada na maioria dos 
pacientes. O débito urinário pré‑operatório de 0,5 
mL/kg/h, juntamente com pressão arterial sistólica de 
pelo menos 100 mmHg e uma frequência cardíaca de 
100 batimentos/min ou menos, são indicativos de um 
volume intravascular adequado. Uma anormalidade 
eletrolítica comum que exige correção é a hipocalemia. 
➣ A acidose pré‑ operatória deve ser tratada com 
reposição de líquido e infusão IV de bicarbonato. A 
acidose causada por isquemia ou infarto intestinal pode 
ser refratária à terapia pré‑operatória. 
➣ A colocação de um cateter venoso central facilita a 
reanimação e permite uma correção mais breve da 
concentração de potássio. 
➣ Anemia significativa não é um achado comum, de 
modo que transfusões de sangue no período 
pré‑operatório geralmente são desnecessárias. 
Entretanto, a maioria dos pacientes deve ter sangue 
tipado, com provas cruzadas e disponível para a 
operação. 
 
Pacientes atípicos 
⮞ Gravidez 
↳ Gestantes com dor abdominal aguda podem levar a 
situações diagnósticas insólitas e tratamento 
desafiador. 
↳ Deve‑se dar ênfase especial à possibilidade de 
doenças ginecológicas e/ou cirúrgicas quando ocorrer 
uma dor abdominal aguda durante a gravidez devido à 
morbidade caso elas não sejam prontamente 
diagnosticadas. A laparoscopia tem mostrado grande 
benefício no diagnóstico e no tratamento de gestantes 
com dor abdominal aguda, e é agora rotineiramente 
utilizada em várias situações clínicas. Embora casos de 
perda fetal após cirurgia laparoscópica continuem 
sendo relatados, sua segurança foi considerada igual ou 
superior a uma abordagem cirúrgica aberta em todos 
os trimestres da gravidez. Um estudo retrospectivo com 
meta‑análise questionou a segurança da 
apendicectomia laparoscópica comparada com 
laparotomia, enfatizando a necessidade de mais 
estudos nessaárea. 
 
↳ Na maioria das vezes, os sintomas são atribuídos à 
gravidez subjacente, incluindo dor abdominal, náuseas, 
vômitos e anorexia. A gravidez também pode alterar as 
manifestações de algumas doenças e faz que o exame 
físico seja mais difícil, em decorrência do útero 
aumentado na pelve. No final do terceiro trimestre de 
gestação, o apêndice está deslocado da pelve em 
direção cranial chegando até alguns centímetros do 
rebordo costal anterolateral direito. 
 
 
 
⮞ Abdome Agudo em Pacientes Pediátricos 
↳ As estratégias diagnósticas do abdome agudo na 
população pediátrica são as mesmas que para os 
adultos. A apendicite 
continua sendo uma das causas primárias de abdome 
agudo nessa faixa etária. Embora obstrução intestinal e 
doença litiásica biliar sejam observadas, essas entidades 
são muito menos frequentes do que nos adultos. A 
intussuscepção deve ser mantida no diagnóstico 
diferencial, especialmente para aqueles que têm menos 
de 3 anos de idade. A gastroenterite, perfurações por 
ingestão de corpo estranho, intoxicação alimentar, 
divertículo de Meckel e colite causada por C. difficile são 
também causas potenciais. 
↳ Finalmente, existe experiência progressiva no 
tratamento da apendicite precoce de forma não 
cirúrgica com antibióticos 
 
⮞ Abdome Agudo em Pacientes Críticos 
 
↳ Muitas das doenças subjacentes e tratamentos 
realizados na unidade de tratamento intensivo 
predispõem a doença abdominal aguda. Ao mesmo 
tempo, doença abdominal não reconhecida pode ser 
responsável pela permanência dos pacientes em um 
estado crítico. Os pacientes críticos em geral são de 
difícil avaliação quando comparados com os não graves, 
em virtude do comprometimento nutricional ou 
imunológico, da analgesia com narcóticos e do uso de 
antibióticos. 
↳ A circulação extracorpórea está associada a várias 
doenças abdominais agudas graves. Isquemia 
mesentérica, íleo paralítico, síndrome de Ogilvie, úlcera 
péptica por estresse, colecistite alitiásica aguda e 
pancreatite aguda têm sido relacionados com o estado 
de baixo fluxo da circulação extracorpórea, e sua 
incidência parece relacionar‑se com a duração do 
procedimento cardíaco 
↳ Quando ocorre uma complicação abdominal aguda 
no paciente sob tratamento intensivo, os intensivistas 
precisam manter um alto grau de suspeição sobre o 
desenvolvimento de doença intra‑abdominal e informar 
de imediato aos cirurgiões para maximizar o potencial 
de recuperação 
⮞ Pacientes Imunocomprometidos com Abdome 
Agudo 
↳ Os pacientes imunocomprometidos apresentam os 
mais variados sintomas nas doenças abdominais 
agudas. A variabilidade é altamente relacionada com o 
grau de imunossupressão. Não existe exame confiável 
para determinar o grau de imunossupressão vivenciado 
por um determinado paciente, de modo que as 
estimativas são feitas por associações de determinados 
estados de doença ou medicamentos. 
Comprometimento leve a moderado é visto em 
pacientes idosos, indivíduos desnutridos, diabéticos, 
transplantados na terapia de manutenção, pacientes 
com câncer, pacientes com insuficiência renal e 
pacientes com HIV com contagens de CD4 superiores a 
200/mm3. 
↳ Esses pacientes podem não ser capazes de 
desenvolver uma resposta inflamatória completa e, 
portanto, podem experimentar menos dor abdominal, 
atraso do aparecimento de febre e leucocitose discreta. 
↳ A colite pseudomembranosa tem sido 
tradicionalmente associada ao uso recente de 
antibióticos de largo espectro, embora seja observada 
cada vez mais em pacientes imunocomprometidos com 
doenças como linfoma, leucemia e AIDS. As 
manifestações clínicas geralmente incluem diarreia, 
desidratação, dor abdominal, febre e leucocitose; 
entretanto, os pacientes imunocomprometidos podem 
não apresentar muitos desses achados por causa de sua 
incapacidade de gerar uma resposta inflamatória 
normal. 
↳ Todos os pacientes imunodeprimidos graves 
necessitam de avaliação imediata e completa para 
queixas abdominais persistentes. Aqueles que exigem 
hospitalização são submetidos a uma avaliação 
cirúrgica para o diagnóstico e o tratamento oportuno 
 
⮞ Abdome Agudo nos Pacientes Obesos Mórbidos 
↳ A obesidade mórbida cria numerosos desafios ao 
diagnóstico preciso na vigência de abdome agudo. 
Muitos autores descreveram alterações nos sinais e 
sintomas de peritonite na obesidade mórbida. 
↳ Achados de peritonite franca frequentemente são 
tardios e nefastos, levando à sepse, falência de múltiplos 
órgãos e morte. 
↳ O diagnóstico de sepse abdominal é mais refinado 
nessa população e pode estar associada somente a 
sintomas inespecíficos como mal‑estar, dor no ombro, 
soluços e falta de ar. 
↳ Os achados dos exames complementares podem ser 
de difícil interpretação. Dor abdominal grave não é 
comum, e achados menos específicos, como 
taquicardia, taquipneia, derrame pleural, ou febre 
podem ser a primeira observação. 
↳ A avaliação da distensão ou massa intra‑abdominal 
também é muito difícil, por causa do tamanho e da 
espessura da parede abdominal.

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