Prévia do material em texto
Abdome agudo ➥ A expressão abdome agudo refere‑se habitualmente ao sinal e sintoma de dor e hipersensibilidade na região abdominal, uma manifestação clínica que, em geral, requer tratamento cirúrgico de emergência. ➥ O diagnóstico de abdome agudo varia conforme a idade e o sexo. A apendicite é mais comum em jovens, enquanto a doença biliar, a obstrução intestinal, a isquemia e o infarto intestinal e a diverticulite são mais comuns em pacientes idosos. ➥ A maioria das doenças cirúrgicas associadas a abdome agudo está relacionada com infecção, isquemia, obstrução ou perfuração de uma víscera ➥ Muitas doenças, algumas das quais não são cirúrgicas ou nem mesmo abdominais, podem produzir dor abdominal aguda. ➥ Portanto, todo esforço deve ser feito para se ter o diagnóstico correto a fim de que o tratamento escolhido, em geral por laparoscopia ou laparotomia, seja apropriado. Apesar das melhoras nos estudos laboratoriais e imaginológicos, o exame físico e a história clínica continuam sendo os pilares na determinação do diagnóstico correto e do início da terapia adequada e em tempo hábil. ➥ A avaliação é realizada na ordem habitual, do histórico do paciente, seguindo‑se o exame físico, os exames laboratoriais e os estudos por imagem. Embora os estudos por imagem tenham aumentado a precisão do diagnóstico, a principal parte da avaliação continua sendo a anamnese completa e o exame físico cuidadoso. Os estudos laboratoriais e por imagem, ainda que geralmente necessários, são orientados pelos achados da história e do exame físico. Anatomia e fisiologia ➣ A dor abdominal pode ser dividida em seus componentes visceral e parietal. ↳ A dor visceral costuma ser vaga e mal localizada no epigástrio, região periumbilical ou hipogástrio, de acordo com a sua origem nos segmentos anterior, médio e posterior do intestino primitivo. Em geral, é consequência de distensão de uma víscera oca. ↳ A dor parietal está relacionada com a irritação das raízes dos nervos segmentares que inervam o peritônio e tende a ser mais aguda e mais bem localizada. A dor referida é percebida em um local distante da fonte do estímulo. Por exemplo, a irritação do diafragma pode produzir dor no ombro. » A presença de bactérias ou componentes que provoquem irritação química na cavidade peritoneal causam extravasamento de líquido na cavidade peritoneal. » O peritônio responde à inflamação com aumento do fluxo sanguíneo, maior permeabilidade e formação de exsudato fibrinoso em sua superfície. O intestino também é acometido por paralisia local ou generalizada. » A superfície fibrinosa e a redução da motilidade intestinal provocam aderências entre os intestinos e o omento ou a parede abdominal e ajudam a bloquear o processo inflamatório. Como resultado, um abscesso pode provocar dor aguda localizada com ruídos hidroaéreos e função gastrointestinal preservados, enquanto um processo difuso, como uma úlcera duodenal perfurada, provoca dor abdominal generalizada com diminuição da motilidade intestinal. A peritonite pode acometer toda a cavidade abdominal ou somente partes do peritônio visceral ou parietal. » A peritonite é uma inflamação peritoneal com várias causas. Em geral, é reconhecida no exame físico por sensibilidade intensa à palpação do abdome, com ou sem descompressão brusca positiva, e retração abdominal à compressão. A peritonite é geralmente secundária a uma inflamação, mais frequentemente uma infecção por um germe Gram‑negativo entérico ou um anaeróbio. Pode resultar também de inflamação não infecciosa, sendo um exemplo comum a pancreatite. A peritonite primária ocorre mais comumente em crianças e é mais frequentemente causada por pneumococos e estreptococos hemolíticos. » Adultos com doença renal terminal em diálise peritoneal podemdesenvolver peritonite, sendo os organismos mais comuns nestes casos os cocos Gram‑positivos. Adultos com cirrose e ascite podem desenvolver peritonite primária e, nesses casos, os organismos são geralmente Escherichia coli e Klebsiella spp. » Dor identificada com a ponta do dedo geralmente é mais localizada e típica de inervação parietal ou inflamação peritoneal, em comparação com a indicação da área de desconforto com a palma da mão, que é mais típica de desconforto visceral ou doença acometendo um órgão sólido. » O início súbito de dor lancinante sugere perfuração intestinal e embolização arterial com isquemia, embora outras condições como cólica biliar possam manifestar‑se subitamente também. » A dor que se desenvolve e se exacerba ao longo de várias horas é típica de inflamação progressiva ou infecção, como colecistite, colite ou obstrução intestinal. » O relato de piora progressiva versus episódios intermitentes de dor pode ajudar a diferenciar processos infecciosos que evoluem com o tempo, em comparação com a dor espasmódica em cólica associada a obstrução intestinal, cólica biliar e obstrução do ducto cístico, ou obstrução do trato geniturinário. » Igualmente importante é a localização e a irradiação da dor. A lesão ou a inflamação do tecido podem deflagrar tanto dor somática quanto visceral. » A dor de víscera abdominal sólida é localizada quadrante correspondente ao órgão envolvido, como, por exemplo, a dor no fígado encontrada no quadrante superior direito do abdome. » A dor nas afecções do intestino delgado é referida como dor periumbilical e pouco localizada, enquanto a dor nas afecções do cólon em geral está localizada entre o umbigo e a sínfise pubiana. Conforme a inflamação se expande para a superfície peritoneal, as fibras de nervos parietais provenientes da coluna provocam sensação focal e intensa. Essa combinação de inervação é responsável pela dor periumbilical difusa clássica da apendicite aguda em sua fase inicial, que depois se transforma em dor intensa localizada na porção direita do abdome inferior, no ponto de McBurney. Se o médico se ativer somente ao tipo da dor no momento do exame e não investigar o seu início e evolução, não perceberá esses fortes indícios na história. » A dor também pode se irradiar além do local onde se localiza a doença. O fígado partilha parte de sua inervação com o diafragma e pode criar dor referida no ombro direito mediada pelas raízes nervosas de C3‑C5. » A dor geniturinária comumente tem um padrão de irradiação. Os sintomas são primariamente na região do flanco, originando‑se dos nervos esplâncnicos de T11‑L1, mas a dor, em geral, irradia‑se para a bolsa escrotal e/ou os grandes lábios via plexo hipogástrico de S2‑S4. » As atividades que exacerbam e/ou aliviam a dor também são importantes. A ingesta de alimentos em geral exacerba a dor da obstrução intestinal, da cólica biliar, da pancreatite, da diverticulite ou da perfuração intestinal. O alimento pode aliviar a dor da úlcera péptica não perfurada ou da gastrite. » Os pacientes com irritação peritoneal evitam qualquer atividade que mobilize o abdome. Eles descrevem exacerbação da dor com qualquer movimento do corpo e informam melhora quando flexionam os joelhos. Sintomas associados podem fornecer informações importantes para o diagnóstico. → Vômitos podem ocorrer na vigência de dor abdominal grave de qualquer causa ou como resultado de obstrução intestinal mecânica ou íleo. É mais provável que o vômito preceda o início da dor abdominal significativa em muitas condições clínicas, enquanto a dor de um abdome agudo cirúrgico manifesta‑se primeiro e estimula o vômito pelas fibras medulares eferentes que excitam as fibras aferentes responsáveis pela dor visceral. → A constipação ou obstipação podem resultar tanto de obstrução mecânica quanto de redução do peristaltismo. Pode representar o principal problema e exigir laxativos e agentesprocinéticos, ou simplesmente ser sintoma de uma condição subjacente. Uma história cuidadosa deve verificar se o paciente continua a eliminar gases ou fezes pelo reto. → Uma obstrução completa estará mais provavelmente associada a isquemia ou perfuração intestinal subsequentes à distensão intensa de uma alça de intestino delgado. A diarreia está associada a várias causas clínicas de abdome agudo, inclusive enterite infecciosa, doença intestinal inflamatória e contaminação parasitária. A diarreia com sangue pode ser observada nessas condições, da mesma forma que na isquemia colônica. O uso prévio de medicamentos e a história ginecológica de pacientes do sexo feminino também são importantes. ✧ O uso de opiáceos podem: - Interferir na motilidade intestinal e provocar obstipação e obstrução - Podem contribuir para espasmo do esfíncter de Oddi - Exacerbar a dor de origem biliar ou pancreática. - Suprimir a sensação de dor - Alterar o estado mental do paciente e, consequentemente, prejudicar a realização de um diagnóstico preciso. ✧ Anti‑inflamatórios não esteroides associam‑se a: - Maior risco de inflamação e perfuração do trato gastrointestinal alto, ✧ Anti‑inflamatórios esteroidais: - Bloqueiam a ação protetora do muco gástrico produzido pelas células principais e, assim, reduzem a reação inflamatória à infecção, inclusive relacionada com a peritonite. ✧ Agentes imunossupressores: - Aumentam o risco de infecções oportunistas virais e bacterianas, além de reduzir a resposta inflamatória e diminuir a dor presente na resposta fisiológica. ✧ Anticoagulantes: (é mais prevalente em pacientes mais idosos - Podem levar a sangramento gastrointestinal, retroperitoneal ou na mucosa retal. - Também influenciam no preparo pré‑operatório e ainda podem ser causa de complicações se seu uso pelo paciente passar despercebido. ✧ Drogas recreativas (tem influência nos pacientes com abdome agudo - O etilismo crônico está fortemente associado a coagulopatia e hipertensão porta proveniente de doença hepática. - A cocaína e a metanfetamina podem provocar uma intensa reação vasoespástica, que pode ter como consequência crise hipertensiva grave e isquemia cardíaca ou intestinal. ✶ A saúde ginecológica, especificamente a história menstrual, é crucial na avaliação da dor abdominal inferior em uma mulher jovem. A probabilidade de gravidez ectópica, doença inflamatória pélvica, dor entre as menstruações ou endometriose grave pode ser suspeitada pela história ginecológica Exame físico 1-Inspeção ↳ O exame físico deve sempre começar com a inspeção geral do paciente, seguida pela inspeção do próprio abdome. ↳ Os pacientes com irritação peritoneal apresentam piora da dor com qualquer atividade que movimente ou distenda o peritônio. Normalmente, esses pacientes ficam imóveis no leito durante a avaliação e, em geral, mantêm os joelhos e os quadris flexionados para reduzir a tensão na parede anterior do abdome. ↳ Doenças que provocam dor sem irritação peritoneal, como isquemia mesentérica e cólica biliar e ureteral, fazem com que os pacientes mudem continuamente de posição no leito enquanto tentam achar um posicionamento que reduza seu desconforto ↳ Outros sinais importantes, como palidez, cianose e sudorese, também podem ser observados durante a inspeção geral. ↳ A inspeção abdominal diz respeito ao aspecto do abdome, se ele está distendido ou escavado, ou ainda se abaulamentos podem ser observados. O examinador deve estar atento a todas as cicatrizes, que devem ser correlacionadas com a história médica e cirúrgica obtida. ↳ Podem‑se suspeitar de hérnias de parede abdominal já durante a inspeção. Estas poderão ser confirmadas durante a palpação. ↳ Eritema ou edema da pele sugerem celulite da parede abdominal, enquanto equimoses são, algumas vezes, observadas com infecções necrosantes mais profundas da fáscia ou de estruturas intra‑abdominais como o pâncreas. 2-Ausculta ↳ A ausculta abdominal pode fornecer informações úteis sobre o trato gastrointestinal e o sistema circulatório. A quantidade e a qualidade dos ruídos intestinais devem ser avaliados. ↳ O silêncio abdominal sugere íleo, enquanto ruídos intestinais hiperativos podem ser encontrados nas enterites e na fase precoce da isquemia intestinal. A intensidade e a qualidade dos sons, bem como o padrão dos ruídos peristálticos, devem ser considerados. A obstrução mecânica do intestino caracteriza‑se por ruídos metálicos em tom alto, que tendem a ocorrer em salvas e estão associados a dor. ↳ Os sons intermitentes e tipo eco, em geral, estão presentes quando existe distensão intestinal significativa. ↳ Os sopros auscultados no abdome refletem fluxo sanguíneo turbulento no sistema circulatório. São encontrados com maior frequência nos quadros compatíveis com estenose arterial de alto grau, de 70% a 95%, mas podem também ser na vigência de uma fístula arteriovenosa. 3-Percussão ↳ A percussão é utilizada para avaliar a presença de distensão gasosa nos intestinos, ar livre intra‑abdominal, grau de ascite e presença de irritação peritoneal. ↳ Hiper‑ressonância, comumente denominada timpanismo à percussão, é característica de alças do intestino subjacentes repletas de gás. ↳ No quadro de obstrução intestinal ou íleo, esse timpanismo é ouvido em todos os quadrantes, exceto no superior direito, onde o fígado se localiza imediatamente sob a parede abdominal. ↳ Se for identificada macicez localizada à percussão em qualquer área que não o quadrante superior direito, considera‑se que possa haver uma massa abdominal deslocando o intestino ↳ A peritonite também pode ser avaliada pela percussão. Os tratados tradicionais descrevem a técnica de compressão profunda da parede abdominal seguida por descompressão abrupta. 4-Palpação ↳ A palpação fornece mais informações úteis ao diagnóstico do que qualquer outro exame abdominal. Além de revelar a gravidade e a localização exata da dor, a palpação pode confirmar, adicionalmente, a presença de peritonite, bem como identificar visceromegalias ou qualquer massa intra‑abdominal anormal. ↳ A palpação deve ter início com manobras delicadas e distantes da área de dor relatada. Caso seja induzida dor considerável no início da palpação, o paciente provavelmente contrairá voluntariamente o abdome, limitando a obteção de novas informações. ↳ A contração involuntária, ou espasmo muscular da parede abdominal, é sinal de irritação peritoneal e precisa ser diferenciada da contração voluntária. Para alcançar esse objetivo, o examinador faz pressão consistente na parede abdominal afastado do ponto de dor máxima, enquanto pede ao paciente que inspire lenta e profundamente. ↳ No quadro de contração voluntária, os músculos abdominais se relaxarão durante a inspiração, enquanto no involuntário os músculos permanecerão espásticos e tensos. Exames laboratoriais ・O hemograma com contagem diferencial é um exame útil, uma vez que a maior partedos pacientes com abdome agudo terá leucocitose ou presença de células brancas imaturas. ・Dosagem de eletrólitos séricos, e níveis de ureia e creatinina no plasma ajudarão na avaliação do efeito de fatores tais como vômitos e acúmulo de líquido no terceiro espaço. Além disso, estes marcadores de função renal podem sugerir distúrbios endócrinos ou metabólicos como causa do problema do paciente. ・As determinações da amilase e da lipase séricas podem sugerir pancreatite como causa da dor, mas podem também estar elevadas em outros distúrbios como infarto do intestino delgado e perfuração de úlcera duodenal. Os níveis normais da amilase e lipase séricas não excluem a pancreatite como um possível diagnóstico, pois a inflamação crônicaafeta a produção de enzimas e fatores de regulação. ・Os exames da função hepática, inclusive bilirrubina total e direta, aminotransferase sérica e fosfatase alcalina, são úteis na avaliação do trato biliar como possível foco de dor abdominal. ・Os níveis de lactato e as determinações da gasometria arterial podem ser úteis no diagnóstico da isquemia ou infarto intestinal. ・A análise de urina é útil no diagnóstico de cistite, pielonefrite e determinadas anormalidade endócrinas, como diabetes e doenças renais. ・A urocultura, embora possa confirmar uma suspeita de infecção urinária e guiar a antibioticoterapia, não está disponível a tempo para ser útil no manejo de pacientes com abdome agudo. ・As dosagens urinárias dos níveis da gonadotrofina coriônica humana podem sugerir gravidez que, além de ser um fator de confusão, influencia no manejo da paciente. O feto de uma paciente grávida com abdome agudo estará mais protegido ao se propiciar a melhor assistência possível à mãe, inclusive uma operação, se indicada. ・O exame de fezes para sangue oculto pode ser útil na avaliação desses pacientes, mas é inespecífico. Fezes para avaliação de ovos e parasitas, bem como cultura e ensaio para toxina de Clostridium difficile, podem ser úteis caso a diarreia seja um componente do quadro do paciente. Estudos por imagem → As radiografias simples abdominais nas posições ortostática e supina são bastante úteis para identificação de obstrução gástrica distal e obstrução do intestino delgado proximal, médio e/ou distal e podem também ajudar a determinar se uma obstrução do intestino delgado é completa ou parcial, pela presença ou ausência de gás no cólon. A presença de gás colônico pode ser diferenciada do gás do intestino delgado pela presença de marcas das haustras das tênias da parede do cólon. Distensão concomitante do intestino delgado também pode estar presente nestes casos, em especial se a válvula ileocecal for incompetente. As radiografias também podem sugerir volvo tanto do ceco quanto do cólon sigmoide. → O volvo cecal é identificado por uma alça distendida do cólon em formato de vírgula, com a concavidade voltada inferiormente e para a direita. O volvo do sigmoide tem como característica a aparência de um tubo interno recurvado, com seu ápice no quadrante superior direito → A ultrassonografia abdominal é bastante precisa para a detecção de cálculos biliares e para avaliar a espessura da parede da vesícula biliar e a presença de líquido ao seu redor. Também é útil para determinar o calibre dos ductos biliares intra e extra‑hepáticos. → A ultrassonografia abdominal e transvaginal pode ajudar na detecção de anormalidades dos ovários, anexos e útero. Também é utilizada para detectar líquido intraperitoneal. Monitoração da pressão intraabdominal ➣ Uma pressão intra‑abdominal elevada pode ser sintoma ou causa de doença abdominal aguda. ➣ A pressão intra‑abdominal elevada reduz o fluxo sanguíneo para os órgãos abdominais e diminui o retorno venoso ao coração, aumentando a estase venosa. ➣ O aumento da pressão no abdome também pode elevar o diafragma, aumentando o pico da pressão inspiratória e diminuindo a capacidade ventilatória. ➣ O risco de refluxo esofágico com consequente aspiração pulmonar também se mostra associado à hipertensão abdominal. É importante considerar a possibilidade de síndrome compartimental abdominal em qualquer paciente que apresente rigidez e/ou significativa distensão abdominal. ➣ A pressão intra‑abdominal normal está situada entre 5 a 7 mmHg para um indivíduo, em estado de relaxamento, que tenha um corpo mediano e esteja deitado na posição supina. ➣ Na obesidade, a elevação da cabeceira da cama pode aumentar a pressão abdominal normal em repouso. A obesidade mórbida leva a aumento de 4 a 8 mmHg nesses níveis normais e a elevação da cabeceira da cama em 30 graus aumenta a pressão em 5 mmHg em média. ➣ 20 Pressões são comumente medidas através da bexiga por um transdutor de pressão conectado a um cateter de Foley. Leituras de pressão são obtidas no final da expiração após a instilação de 50 mL de solução salina em uma bexiga previamente vazia. Pressões superiores a 11 mmHg são consideradas elevadas acima do normal e são graduadas por gravidade de de 1 a 4. ➣ A hipertensão abdominal de graus 1 e 2 quase sempre pode ser tratada adequadamente com intervenções médicas objetivando manter a euvolemia, descompressão intestinal por sonda nasogástrica ou laxantes e enemas, suspensão da alimentação enteral, aspiração por punção de líquido ascítico, relaxamento da parede abdominal e o uso criterioso de líquidos hipotônicos intravenosos. Os graus 3 e 4 frequentemente necessitam de descompressão cirúrgica via laparotomia com curativo aberto do abdome, caso a hipertensão grave e a disfunção orgânica não responderem prontamente ao tratamento médico agressivo. Diagnóstico diferencial Preparação para cirurgia de emergência ➣ O estado geral de saúde dos pacientes com abdome agudo é muito variável no momento em que se indica a operação. ➣ Independentemente da gravidade da doença, todos os pacientes necessitam de algum grau de preparo pré‑operatório. ➣ Deve‑se obter acesso IV para as eventuais correções das anormalidades eletrolíticas. A maioria, senão a totalidade dos pacientes, terá necessidade de antibióticos venosos. As bactérias mais comumente encontradas na vigência de abdome agudo são microrganismos entéricos Gram‑negativos e anaeróbios. ➣ Antibióticos para cobrir estes organismos devem ser iniciados imediatamente após o diagnóstico presuntivo ter sido feito. ➣ Os pacientes com íleo paralítico generalizado ou vômitos beneficiam‑se de uma sonda nasogástrica para diminuir a probabilidade de vômito e aspiração. ➣ A cateterização vesical com cateter de Foley para avaliação do débito urinário, uma medida de adequação da reposição volêmica, está indicada na maioria dos pacientes. O débito urinário pré‑operatório de 0,5 mL/kg/h, juntamente com pressão arterial sistólica de pelo menos 100 mmHg e uma frequência cardíaca de 100 batimentos/min ou menos, são indicativos de um volume intravascular adequado. Uma anormalidade eletrolítica comum que exige correção é a hipocalemia. ➣ A acidose pré‑ operatória deve ser tratada com reposição de líquido e infusão IV de bicarbonato. A acidose causada por isquemia ou infarto intestinal pode ser refratária à terapia pré‑operatória. ➣ A colocação de um cateter venoso central facilita a reanimação e permite uma correção mais breve da concentração de potássio. ➣ Anemia significativa não é um achado comum, de modo que transfusões de sangue no período pré‑operatório geralmente são desnecessárias. Entretanto, a maioria dos pacientes deve ter sangue tipado, com provas cruzadas e disponível para a operação. Pacientes atípicos ⮞ Gravidez ↳ Gestantes com dor abdominal aguda podem levar a situações diagnósticas insólitas e tratamento desafiador. ↳ Deve‑se dar ênfase especial à possibilidade de doenças ginecológicas e/ou cirúrgicas quando ocorrer uma dor abdominal aguda durante a gravidez devido à morbidade caso elas não sejam prontamente diagnosticadas. A laparoscopia tem mostrado grande benefício no diagnóstico e no tratamento de gestantes com dor abdominal aguda, e é agora rotineiramente utilizada em várias situações clínicas. Embora casos de perda fetal após cirurgia laparoscópica continuem sendo relatados, sua segurança foi considerada igual ou superior a uma abordagem cirúrgica aberta em todos os trimestres da gravidez. Um estudo retrospectivo com meta‑análise questionou a segurança da apendicectomia laparoscópica comparada com laparotomia, enfatizando a necessidade de mais estudos nessaárea. ↳ Na maioria das vezes, os sintomas são atribuídos à gravidez subjacente, incluindo dor abdominal, náuseas, vômitos e anorexia. A gravidez também pode alterar as manifestações de algumas doenças e faz que o exame físico seja mais difícil, em decorrência do útero aumentado na pelve. No final do terceiro trimestre de gestação, o apêndice está deslocado da pelve em direção cranial chegando até alguns centímetros do rebordo costal anterolateral direito. ⮞ Abdome Agudo em Pacientes Pediátricos ↳ As estratégias diagnósticas do abdome agudo na população pediátrica são as mesmas que para os adultos. A apendicite continua sendo uma das causas primárias de abdome agudo nessa faixa etária. Embora obstrução intestinal e doença litiásica biliar sejam observadas, essas entidades são muito menos frequentes do que nos adultos. A intussuscepção deve ser mantida no diagnóstico diferencial, especialmente para aqueles que têm menos de 3 anos de idade. A gastroenterite, perfurações por ingestão de corpo estranho, intoxicação alimentar, divertículo de Meckel e colite causada por C. difficile são também causas potenciais. ↳ Finalmente, existe experiência progressiva no tratamento da apendicite precoce de forma não cirúrgica com antibióticos ⮞ Abdome Agudo em Pacientes Críticos ↳ Muitas das doenças subjacentes e tratamentos realizados na unidade de tratamento intensivo predispõem a doença abdominal aguda. Ao mesmo tempo, doença abdominal não reconhecida pode ser responsável pela permanência dos pacientes em um estado crítico. Os pacientes críticos em geral são de difícil avaliação quando comparados com os não graves, em virtude do comprometimento nutricional ou imunológico, da analgesia com narcóticos e do uso de antibióticos. ↳ A circulação extracorpórea está associada a várias doenças abdominais agudas graves. Isquemia mesentérica, íleo paralítico, síndrome de Ogilvie, úlcera péptica por estresse, colecistite alitiásica aguda e pancreatite aguda têm sido relacionados com o estado de baixo fluxo da circulação extracorpórea, e sua incidência parece relacionar‑se com a duração do procedimento cardíaco ↳ Quando ocorre uma complicação abdominal aguda no paciente sob tratamento intensivo, os intensivistas precisam manter um alto grau de suspeição sobre o desenvolvimento de doença intra‑abdominal e informar de imediato aos cirurgiões para maximizar o potencial de recuperação ⮞ Pacientes Imunocomprometidos com Abdome Agudo ↳ Os pacientes imunocomprometidos apresentam os mais variados sintomas nas doenças abdominais agudas. A variabilidade é altamente relacionada com o grau de imunossupressão. Não existe exame confiável para determinar o grau de imunossupressão vivenciado por um determinado paciente, de modo que as estimativas são feitas por associações de determinados estados de doença ou medicamentos. Comprometimento leve a moderado é visto em pacientes idosos, indivíduos desnutridos, diabéticos, transplantados na terapia de manutenção, pacientes com câncer, pacientes com insuficiência renal e pacientes com HIV com contagens de CD4 superiores a 200/mm3. ↳ Esses pacientes podem não ser capazes de desenvolver uma resposta inflamatória completa e, portanto, podem experimentar menos dor abdominal, atraso do aparecimento de febre e leucocitose discreta. ↳ A colite pseudomembranosa tem sido tradicionalmente associada ao uso recente de antibióticos de largo espectro, embora seja observada cada vez mais em pacientes imunocomprometidos com doenças como linfoma, leucemia e AIDS. As manifestações clínicas geralmente incluem diarreia, desidratação, dor abdominal, febre e leucocitose; entretanto, os pacientes imunocomprometidos podem não apresentar muitos desses achados por causa de sua incapacidade de gerar uma resposta inflamatória normal. ↳ Todos os pacientes imunodeprimidos graves necessitam de avaliação imediata e completa para queixas abdominais persistentes. Aqueles que exigem hospitalização são submetidos a uma avaliação cirúrgica para o diagnóstico e o tratamento oportuno ⮞ Abdome Agudo nos Pacientes Obesos Mórbidos ↳ A obesidade mórbida cria numerosos desafios ao diagnóstico preciso na vigência de abdome agudo. Muitos autores descreveram alterações nos sinais e sintomas de peritonite na obesidade mórbida. ↳ Achados de peritonite franca frequentemente são tardios e nefastos, levando à sepse, falência de múltiplos órgãos e morte. ↳ O diagnóstico de sepse abdominal é mais refinado nessa população e pode estar associada somente a sintomas inespecíficos como mal‑estar, dor no ombro, soluços e falta de ar. ↳ Os achados dos exames complementares podem ser de difícil interpretação. Dor abdominal grave não é comum, e achados menos específicos, como taquicardia, taquipneia, derrame pleural, ou febre podem ser a primeira observação. ↳ A avaliação da distensão ou massa intra‑abdominal também é muito difícil, por causa do tamanho e da espessura da parede abdominal.