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@anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 1 OBESIDADE / SÍNDROME METABÓLICA OBESIDADE A prevalência de sobrepeso e obesidade cresceu de modo significativo nos últimos anos. A obesidade destaca-se no grupo de doenças crônicas não transmissíveis, por ser uma doença e um fator de risco para outras doenças como HAS e DM2. A prevenção e o diagnóstico precoce são importantes aspectos para redução de morbimortalidade. EPIDEMIOLOGIA No Brasil mais de metade da população brasileira está com excesso de peso − 57% dos adultos estão com excesso de peso e 20,8% com obesidade; − 33,5% das crianças estão com excesso de peso e 14,3% com obesidade; − 17,1% dos adolescentes estão com excesso de peso e 8,4% com obesidade. As doenças crônicas não transmissíveis representam 74% do total de mortes no Brasil − 31% por doenças do aparelho circulatório; − 17% por câncer; − 6% por diabetes; − 6% por doença respiratória crônica. A obesidade pode ser compreendida como um agravo de caráter multifatorial envolvendo desde questões biológicas às históricas, ecológicas, econômicas, sociais, culturais e políticas. DEFINIÇÃO É o excesso de gordura corporal, em quantidade que determine prejuízos à saúde. Uma pessoa é considerada obesa quando seu índice de massa corpórea (IMC) é maior ou igual a 30 e a faixa de peso normal varia entre 18,5 a 24,9 (OMS). CLASSIFICAÇÃO - Distribuição de Gordura ASPECTO ANDROIDE − Assemelha-se a uma maçã; − São pacientes que apresentam obesidade troncular ou central; − Tem um acúmulo de gordura mais localizado na região abdominal; − Aumenta o risco cardiovascular; − É mais comum entre homens. Aspecto ginóide − Assemelha-se a uma pêra; − O acúmulo de gordura é maior na região dos − quadris; − Possui maior risco de artrose e varizes; − É mais comum em mulheres. ETIOLOGIA A obesidade pode ser ocasionada por vários fatores. CAUSAS IATROGÊNICAS: drogas e medicações que causam ganho de peso e procedimentos cirúrgicos (ex: cirurgia hipotalâmica). RELACIONADA A ALIMENTAÇÃO: más práticas de alimentação infantil, obesidade hiperplásica progressiva, frequência de comer, dietas ricas em gorduras e o ato de comer demais. CAUSAS NEUROENDÓCRINAS: doenças hipotalâmicas, hipotireoidismo, transtorno afetivo sazonal, síndrome de cushing, síndrome de ovários policísticos, hipogonadismo, deficiência de hormônio de crescimento e pseudo-hipoparatireoidismo. FATORES SOCIAIS E COMPORTAMENTAIS: status sócio-econômico, etnia, fatores psicológicos, comedores contidos, síndrome da alimentação noturna, compulsão alimentar. ESTILO DE VIDA SEDENTÁRIO: inatividade forçada e envelhecimento OBESIDADE GENÉTICA (DISMÓRFICA): traços autossômicos recessivos e dominante, traços vinculados ao X e anomalias cromossômicas. @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 2 OUTROS: baixo peso ao nascimento. MEDICAMENTOS ASSOCIADOS AO GANHO DE PESO − Glicocorticoides: prednisona − Medicamentos para diabetes: insulina, sulfonilureias, tiazolidindionas, meglitinidas − Antipsicóticos de primeira geração: tioridazina − Antipsicóticos de segunda geração: risperidona, olanzapina, clozapina, quetiapina − Agentes neurológicos e estabilizadores de humor: carbamazepina, gabapentina, lítio, valproato − Anti-histamínicos: especialmente a cyproheptadina − Antidepressivos: paroxetina, citalopram, amitriptilina, nortriptilina, imipramina, mirtazapina − Agentes hormonais: especialmente progestinas (medroxiprogesterona) − Betabloqueadores: especialmente propranolol − Bloqueadores alfa: especialmente terazosina IMPACTOS DA OBESIDADE NA SAÚDE − PSÍQUICO E NERVOSO: Ansiedade, depressão e AVC; − SISTEMA ENDÓCRINO: Diabete, dislipidemia e hipertensão; − DOENÇA CARDIOVASCULAR; − DOENÇA VASCULAR: estase venosa, varizes, edema, úlcera, flebite e erisipela; − SISTEMA RESPIRATÓRIO: Doença pulmonar, apneia do sono e síndrome de hipoventilação − SISTEMA DIGESTÓRIO: Hernia de hiato, refluxo gastroesofágico e colelitíase − ALTERAÇÕES GINECOLÓGICAS: irregularidade menstrual, infertilidade, Síndrome dos ovários policísticos e risco obstétrico maior. − OSSOS E ARTICULAÇÕES: osteoartrite, osteoartrose e gota − CÂNCER: mama, endométrio, colón, esôfago, pâncreas, bexiga, rim e próstata. DIAGNÓSTICO IMC Bom indicador, mas não totalmente correlacionado com a gordura corporal. Não distingue massa gordurosa de massa magra. RELAÇÃO CIRCUNFERÊNCIA ABDOMINAL/ QUADRIL Foi inicialmente a medida mais comum para avaliação da obesidade central. Relação com comorbidades. MEDIDA DA CIRCUNFERÊNCIA ABDOMINAL Passou a ser mais utilizada para avaliar gordura visceral que a relação circunferência abdominal/quadril. − Cintura: medir entre o rebordo costal inferior e a crista ilíaca. − Quadril: medir no local com maior diâmetro passando a fita sobre os trocanteres maiores. AVALIAÇÃO COMBINADA − Pesagem hidrostática (peso submerso); − Composição corporal por absorciometria com raios-X de dupla energia (DEXA); − Ressonância magnética, tomografia computadorizada; − Pregas cutâneas: subescapular, triciptal, biciptal, suprailíaca e da coxa; − Ultrassonografia: avaliar a gordura visceral, medir a espessura do tecido adiposo e tecidos mais profundos nas diferentes regiões corporais; − Análise de bioimpedância: corpo humano ser composto por água e íons condutores elétricos. *O tecido adiposo impõe resistência a passagem da corrente elétrica a passo que o tecido muscular esquelético, rico em água, é um bom condutor. EXAMES COMPLEMENTARES − Lipidograma − Pressão arterial − Glicemia em jejum, HBA1c − Avaliação cardiovascular: sexo, idade, níveis pressóricos, tabagismo, HDLc e LDLc − Avaliação de condições endócrinas: obesidade hipotalâmica e a síndrome de Cushing. PREVENÇÃO ESTRATÉGICOS DE ABORDAGEM Estabelecimento de um plano de ação para mudança de comportamento com foco na promoção da alimentação saudável e atividade física. @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 3 Avaliação do estágio de mudança do comportamento. Avaliação do consumo alimentar. Orientação alimentar com vistas à promoção do peso saudável. Guia alimentar para a população brasileira. TERAPIA COGNITIVO COMPORTAMENTAL Análise e modificação de transtornos de comportamentos, associados ao estilo de vida do paciente. Objetivo: Programar estratégias que auxiliam no controle de peso, reforçando a motivação com relação ao tratamento, dessa forma evitando a recaída e o consequente ganho posterior de peso. Exemplo − Automonitoramento; − Controle de estímulos; − Resolução de problemas; − Reestruturação cognitiva; − Suporte social; − Entrevista motivacional. TRATAMENTO FARMACOLÓGICO 1. IMC maior ou igual a 30, ou 2. IMC maior ou igual a 25 ou 27na presença de comorbidades (dependendo do medicamento) 3. Falha em perder peso com o tratamento não farmacológico. A história prévia de falência com tentativa com dieta com restrição calórica é suficiente. Medicamentos aprovados no Brasil: Sibultramina, orlistate e liraglutida 3,0 mg. SIBULTRAMINA: bloqueia a recaptação de noradrenalina (NE) e de serotonina (SE) e levar a redução da ingestão alimentar. Pode ocorrer uma elevação média de 3-5 mmHg, pressão arterial diastólica e de 2 a 4 bpm na frequência cardíaca. ORLISTATE: Análogo da lipstatina inibidor de lipases gastrointestinais (GI) que se liga no sítio ativo da enzima através de ligação covalente, fazendo com que cerca de um terço dos triglicérides ingeridos permaneçam não digeridos e não sejam absorvidos pelo intestino, sendo eliminados nas fezes. LIRAGLUTIDA: Agonista do peptídeo semelhante ao glucagon-1 (GLP-1) que compartilha 97% de homologia com o GLP-1 nativo, sendo a meia-vida de circulação do GLP-1 aumentada de 1-2 minutos para 13 horas e na dose de 3,0 mg. Tem uma açãohipotalâmica em neurônios envolvidos no balanço energético, em centros ligados a prazer e recompensa e uma ação menor na velocidade de esvaziamento gástrico. TRATAMENTO CIRÚRGICO − Idade de 18 a 65 anos; − IMC maior que 40 ou 35 com uma ou mais comorbidades graves relacionadas com a obesidade; e somente após ter sido submetido a tratamento clínico adequado, mas sem resultados. Orientações a respeito do tratamento cirúrgico da obesidade − O paciente deve ser bem informado sobre o tratamento, motivado e apresentar risco operatório aceitável; − O paciente deve ser selecionado para a cirurgia, após cuidadosa avaliação por equipe multidisciplinar: endocrinologistas, cirurgiões, psiquiatras ou psicólogos e nutricionistas; − A operação deve ser feita por um cirurgião experiente no procedimento e que trabalhe com equipe e em local com suporte adequado para todos os tipos de problemas e necessidades que possam ocorrer; − Após a operação, deve haver acompanhamento médico de longo prazo. @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 4 SÍNDROME METABÓLICA É um transtorno complexo representado por um conjunto de fatores de risco cardiovascular usualmente relacionados à deposição central de gordura e à resistência à insulina. É importante destacar associação da SM com a doença cardiovascular, aumentando a mortalidade geral. DIAGNÓSTICO Critérios – OMS: Distúrbio da glicose ou resistência à insulina + 2 componentes, como hipertensão arterial, dislipidemia e/ou obesidade. Critérios – NACEP-ATP III (mais usado): Presença de 3 ou mais dos seguintes componentes: − Obesidade abdominal; − Alteração da homeostase da glicose; − HDL baixo; − Hipertrigliceridemia; − Hipertensão arterial. *Em face da recomendação da American Diabetes Association, o ponto de corte proposto para o diagnóstico de glicemia de jejum alterada passou de 110 mg/dL para 100 mg/dL, o que futuramente poderá influir no critério de diagnóstico da SM. FISIOPATOLOGIA Resistência a insulina= menor ação da insulina nos tecidos periféricos. Mecanismo compensatório: maios secreção de insulina pelo pâncreas= hiperinsulinemia. Receptores B-adrenérgicos e do cortisol no tec. Adiposo visceral-> ativados promovem lipólise ...Lipólise -> libera ác. Graxos na circulação portal -> antagonizando a ação da insulina no fígado e inibindo sua secreção pancreática (lipotoxicidade). Lipotoxicidade -> deterioração da função da célula B- pancreática. Adipócitos-> secreta citocinas -> pró-inflamação -> resistência à insulina e disfunção endotelial -> início do desenvolvimento da aterosclerose. HISTÓRIA CLÍNICA Dar ênfase: − Idade − Tabagismo − Prática de atividade física − História patológica pregressa de HA, DM2, DM gestacional, doença arterial coronariana, acidente vascular encefálico − SOP − Doença hepática gordurosa não-alcoólica − Hiperuricemia − História familiar de HA, DM2. DCV − Uso de medicamento hiperglicemiante (corticosteroides, betabloqueadores e diuréticos). EXAME FÍSICO PARA SM − Medida da cintura abdominal − Níveis de PA − Peso e estatura com cálculo de IMC − Exame da pele para pesquisa de acantose nigricans (principalmente pescoço e dobras cutâneas) − Exame cardiovascular AVALIAÇÃO DO RISCO CARDIOVASCULAR Aplicação da tabela de Framingham @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 5 DIAGNÓSTICO LABORATORIAL Glicemia em jejum, HDL, triglicerídeos Exames adicionais para avaliação do risco cardiovascular: Colesterol total, LDL, ác. Úrico, creatinina, microalbuminúria, proteína C-reativa e eletrocardiograma. TRATAMENTO DA SM MUDANÇAS NO ESTILO DE VIDA − Alimentação saudável; − Combate ao tabagismo e ao estresse; − Exercício físico: 30-40 min por dia (3 a 5 vezes na semana). O ideal é que o paciente perda 5-10% do seu peso inicial para melhorar os níveis pressóricos. TRATAMENTO MEDICAMENTOSO É iniciado quando somente as mudanças no estilo de vida não geram resultados O tratamento é direcionado especificamente para cada componente da SM (HA, DM2, dislipidemia, obesidade...) DIABETES MELITO Primeira escolha -> sensibilizadores da ação da insulina: Metformina (mais usada) e glitazonas Secretagogos -> podem ser associados aos sensibilizadores. Ex. -> sulfoniluréias: Clorpropamida, glibenclamida, gliclazida, glipizida e glimepirida. HIPERTENSÃO ARTERIAL Recomendado quando mesmo com a MEV a pressão permanece acima de 140x90mmHg ou de 130x80mmHg na presença da DM2. Qualquer uma das cinco principais classes de anti- hipertensivos pode ser utilizada como tratamento inicial. − Em casos de associação de fármacos é importante classes distintas e baixas doses. − Benefícios para proteção renal na nefropatia diabética com proteinúria em diabéticos do tipo I: IECA − Benefícios para proteção renal na nefropatia diabética com proteinúria em diabéticos do tipo II: BRA − Em pacientes sem DM2, a PA deve ser reduzida para 130x85 mmHg; − Em pacientes com DM2, a PA deve ser reduzida para 130x80mmHg, não importando quais associações de fármacos são necessárias para isso; − Em casos de nefropatia e proteinúria importante, a PA deve ser reduzida para 120x75mmHg; − Em pacientes com doença cardiovascular estabelecida e com idade superior a 50 anos, recomenda-se atingir essa meta em menos de seis meses. DISLIPIDEMIA Definição de dislipidemia: presença de baixos níveis de HDL e altos níveis de triglicerídeos. Apesar da elevação de LDL não compor os critérios diagnósticos da SM, a sua redução é uma meta primária no tratamento. ESTATINAS As estatinas são fármacos de escolha para redução do LDL colesterol. FIBRATOS Os fibratos são indicados para o tratamento da hipertrigliceridemia quando as MEV não são suficientes; Os fibratos elevam HDL mais que as estatinas, além disso eles possibilitam uma redução dos níveis de LDL também. @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 6 Ácido nicotínico, ácidos graxos Omega-3 e Ezetimiba O ácido nicotínico de liberação intermediária pode aumentar o HDL e, segundo alguns estudos, contribui para a redução de eventos cardiovasculares, mas pode resultar em aumento discreto da glicemia. É contraindicado em casos de doença hepática ou gota. O ezetimiba associado às estatinas permite acentuada redução do LDL. Os ácidos graxos ômega-3 podem ser usados como terapia coadjuvante da hipertrigliceridemia. Os estudos com estes fármacos são escassos e não mostram evidências clínicas de redução de eventos cardiovasculares com monoterapia. A terapêutica combinada de estatinas com fibratos ou com ácido nicotínico pode ser uma opção atrativa nos indivíduos com SM em casos de resposta inadequada ao uso isolado de fármacos. Em casos de triglicerídeos >/= 500mg/dL, deve-se iniciar com uma dose usual de fibrato e avaliar os valores do LDL após 30-40 dias de tratamento, se as metas não forem atingidas podem ser associados às estatinas nas doses iniciais (geralmente 10mg) e caso não se atinja a meta após 30 dias de associação deve-se aumentar a dose da estatina para 20mg e aguardar mais 30 dias, e assim por diante. Dosagens de creatina kinase (CK) e das aminotransferases devem ser realizadas em um, três e seis meses após o uso das estatinas e fibratos. Se houver: elevação da CK 10 vezes a mais do limite superior da normalidade; presença de mialgia, mesmo com CK normal e elevação das aminotransferases três vezes acima do limite superior do normal -> a medicação deve ser suspensa. Caso os pacientes estejam estáveis, essas dosagens devem se feitas a cada seis meses. TABELAS @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 7 @anabea.rs | Ana Beatriz Rodrigues 8