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@anab_rs | Ana Beatriz Rodrigues MARC 09
OBJETIVOS
− Discutir os principais transtornos mentais na infância que cursam com repercussões no desenvolvimento
neuropsíquico;
− Conhecer os principais transtornos de aprendizagem;
− Discutir diagnóstico entre o déficit cognitivo, TDAH e autismo;
− Conhecer os critérios diagnósticos do TEA – estudar M-Chat;
− Discutir o uso abusivo de telas.
Transtornos de Aprendizagem
INTRODUÇÃO
Um transtorno específico da aprendizagem, como o nome
implica, é diagnosticado diante de déficits específicos na
capacidade individual para perceber ou processar
informações com eficiência e precisão. Esse transtorno do
neurodesenvolvimento manifesta-se, inicialmente,
durante os anos de escolaridade formal, caracterizando-se
por dificuldades persistentes e prejudiciais nas habilidades
básicas acadêmicas de leitura, escrita e/ou matemática. O
desempenho individual nas habilidades acadêmicas
afetadas está bastante abaixo da média para a idade, ou
níveis de desempenho aceitáveis são atingidos somente
com esforço extraordinário. O transtorno específico da
aprendizagem pode ocorrer em pessoas identificadas
como apresentando altas habilidades intelectuais e
manifestar-se apenas quando as demandas de
aprendizagem ou procedimentos de avaliação (p. ex.,
testes cronometrados) impõem barreiras que não podem
ser vencidas pela inteligência inata ou por estratégias
compensatórias. Para todas as pessoas, o transtorno
específico da aprendizagem pode acarretar prejuízos
duradouros em atividades que dependam das habilidades,
inclusive no desempenho profissional.
CRITÉRIOS DIAGNÓSTICOS
Dificuldades na aprendizagem e no uso de habilidades
acadêmicas, conforme indicado pela presença de ao menos
um dos sintomas a seguir que tenha persistido por pelo
menos 6 meses, apesar da provisão de intervenções
dirigidas a essas dificuldades:
Leitura de palavras de forma imprecisa ou lenta e com
esforço (p. ex., lê palavras isoladas em voz alta, de forma
incorreta ou lenta e hesitante, frequentemente adivinha
palavras, tem dificuldade de soletrá-las).
Dificuldade para compreender o sentido do que é lido (p.
ex., pode ler o texto com precisão, mas não compreende a
sequência, as relações, as inferências ou os sentidos mais
profundos do que é lido).
Dificuldades para ortografar (ou escrever
ortograficamente) (p. ex., pode adicionar, omitir ou
substituir vogais e consoantes).
Dificuldades com a expressão escrita (p. ex., comete
múltiplos erros de gramática ou pontuação nas frases;
emprega organização inadequada de parágrafos;
expressão escrita das ideias sem clareza).
Dificuldades para dominar o senso numérico, fatos
numéricos ou cálculo (p. ex., entende números, sua
magnitude e relações de forma insatisfatória; conta com os
dedos para adicionar números de um dígito em vez de
lembrar o fato aritmético, como fazem os colegas; perde-
se no meio de cálculos aritméticos e pode trocar as
operações).
Dificuldades no raciocínio (p. ex., tem grave dificuldade
em aplicar conceitos, fatos ou operações matemáticas para
solucionar problemas quantitativos).
As habilidades acadêmicas afetadas estão substancial e
quantitativamente abaixo do esperado para a idade
cronológica do indivíduo, causando interferência
significativa no desempenho acadêmico ou profissional ou
nas atividades cotidianas, confirmada por meio de
medidas de desempenho padronizadas administradas
individualmente e por avaliação clínica abrangente. Para
indivíduos com 17 anos ou mais, história documentada das
dificuldades de aprendizagem com prejuízo pode ser
substituída por uma avaliação padronizada.
As dificuldades de aprendizagem iniciam-se durante os
anos escolares, mas podem não se manifestar
completamente até que as exigências pelas habilidades
acadêmicas afetadas excedam as capacidades limitadas do
indivíduo (p. ex., em testes cronometrados, em leitura ou
escrita de textos complexos longos e com prazo curto, em
alta sobrecarga de exigências acadêmicas).
As dificuldades de aprendizagem não podem ser
explicadas por deficiências intelectuais, acuidade visual
ou auditiva não corrigida, outros transtornos mentais ou
neurológicos, adversidade psicossocial, falta de
proficiência na língua de instrução acadêmica ou instrução
educacional inadequada.
Nota: Os quatro critérios diagnósticos devem ser
preenchidos com base em uma síntese clínica da história
do indivíduo (do desenvolvimento, médica, familiar,
educacional), em relatórios escolares e em avaliação
psicoeducacional.
Especificar se:
− Com prejuízo na leitura: Precisão na leitura de
palavras; Velocidade ou fluência da leitura;
Compreensão da leitura.
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Nota: Dislexia é um termo alternativo usado em referência
a um padrão de dificuldades de aprendizagem
caracterizado por problemas no reconhecimento preciso
ou fluente de palavras, problemas de decodificação e
dificuldades de ortografia.
− Se o termo dislexia for usado para especificar esse
padrão particular de dificuldades, é importante
também especificar quaisquer dificuldades
adicionais que estejam presentes, tais como
dificuldades na compreensão da leitura ou no
raciocínio matemático.
Com prejuízo na expressão escrita: Precisão na ortografia,
Precisão na gramática e na pontuação, Clareza ou
organização da expressão escrita
Com prejuízo na matemática: Senso numérico,
Memorização de fatos aritméticos, Precisão ou fluência de
cálculo, Precisão no raciocínio matemático
Nota: Discalculia é um termo alternativo usado em
referência a um padrão de dificuldades caracterizado por
problemas no processamento de informações numéricas,
aprendizagem de fatos aritméticos e realização de cálculos
precisos ou fluentes. Se o termo discalculia for usado para
especificar esse padrão particular de dificuldades
matemáticas, é importante também especificar quaisquer
dificuldades adicionais que estejam presentes, tais como
dificuldades no raciocínio matemático ou na precisão na
leitura de palavras.
GRAVIDADE
− Leve: Alguma dificuldade em aprender
habilidades em um ou dois domínios acadêmicos,
mas com gravidade suficientemente leve que
permita ao indivíduo ser capaz de compensar ou
funcionar bem quando lhe são propiciados
adaptações ou serviços de apoio adequados,
especialmente durante os anos escolares.
− Moderada: Dificuldades acentuadas em aprender
habilidades em um ou mais domínios acadêmicos,
de modo que é improvável que o indivíduo se
torne proficiente sem alguns intervalos de ensino
intensivo e especializado durante os anos
escolares. Algumas adaptações ou serviços de
apoio por pelo menos parte do dia na escola, no
trabalho ou em casa podem ser necessários para
completar as atividades de forma precisa e
eficiente.
− Grave: Dificuldades graves em aprender
habilidades afetando vários domínios acadêmicos,
de modo que é improvável que o indivíduo
aprenda essas habilidades sem um ensino
individualizado e especializado contínuo durante
a maior parte dos anos escolares. Mesmo com um
conjunto de adaptações ou serviços de apoio
adequados em casa, na escola ou no trabalho, o
indivíduo pode não ser capaz de completar todas
as atividades de forma eficiente.
CARACTERÍSTICAS DIAGNÓSTICAS
O transtorno específico da aprendizagem é um transtorno
do neurodesenvolvimento com uma origem biológica que
é a base das anormalidades no nível cognitivo as quais são
associadas com as manifestações comportamentais. A
origem biológica inclui uma interação de fatores
genéticos, epigenéticos e ambientais que influenciam a
capacidade do cérebro para perceber ou processar
informações verbais ou não verbais com eficiência e
exatidão. Uma característica essencial do transtorno
específico da aprendizagem são dificuldades persistentes
para aprender habilidadesacadêmicas fundamentais
(Critério A), com início durante os anos de escolarização
formal (i.e., o período do desenvolvimento). Habilidades
acadêmicas básicas incluem leitura exata e fluente de
palavras isoladas, compreensão da leitura, expressão
escrita e ortografia, cálculos aritméticos e raciocínio
matemático (solução de problemas matemáticos).
Diferentemente de andar ou falar, que são marcos
adquiridos do desenvolvimento que emergem com a
maturação cerebral, as habilidades acadêmicas (p. ex.,
leitura, ortografia, escrita, matemática) precisam ser
ensinadas e aprendidas de forma explícita.
Transtornos específicos da aprendizagem perturbam o
padrão normal de aprendizagem de habilidades
acadêmicas; não constituem, simplesmente, uma
consequência de falta de oportunidade de aprendizagem
ou educação escolar inadequada. Dificuldades para
dominar essas habilidades acadêmicas básicas podem
também ser impedimento para aprendizagem de outras
matérias acadêmicas (p. ex., história, ciências, estudos
sociais), mas esses problemas são atribuíveis a
dificuldades de aprendizagem de habilidades acadêmicas
subjacentes. Dificuldade de aprender a correlacionar letras
a sons do próprio idioma – a ler palavras impressas
(frequentemente chamada de dislexia) – é uma das
manifestações mais comuns do transtorno específico da
aprendizagem. As dificuldades de aprendizagem
manifestam-se como uma gama de comportamentos ou
sintomas descritivos e observáveis (conforme listado nos
Critérios A1-A6). Esses sintomas clínicos podem ser
observados, investigados a fundo por entrevista clínica ou
confirmados a partir de relatórios escolares, escalas
classificatórias ou descrições em avaliações educacionais
ou psicológicas prévias. As dificuldades de aprendizagem
são persistentes e não transitórias. Em crianças e
adolescentes, define-se persistência como um limitado
progresso na aprendizagem (i.e., ausência de evidências de
que o indivíduo está alcançando o mesmo nível dos
colegas) durante pelo menos seis meses apesar de ter sido
proporcionada ajuda adicional em casa ou na escola. Por
exemplo, dificuldades em aprender a ler palavras isoladas
que não se resolvem completa ou rapidamente com a
provisão de instrução em habilidades fonológicas ou
estratégias de identificação de palavras podem indicar um
transtorno específico da aprendizagem. Evidências de
dificuldades persistentes de aprendizagem podem ser
detectadas em relatórios escolares cumulativos, portfólios
de trabalhos da criança avaliados, medidas baseadas no
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currículo ou entrevista clínica. Nos adultos, dificuldade
persistente refere-se a dificuldades contínuas no
letramento ou numeralização que se manifestam na
infância ou na adolescência, conforme indicado por
evidências cumulativas de relatórios escolares, portfólios
de trabalhos avaliados ou avaliações prévias.
Uma segunda característica-chave é a de que o
desempenho do indivíduo nas habilidades acadêmicas
afetadas está bem abaixo da média para a idade (Critério
B). Um forte indicador clínico de dificuldades para
aprender habilidades acadêmicas é baixo desempenho
acadêmico para a idade ou desempenho mediano mantido
apenas por níveis extraordinariamente elevados de esforço
ou apoio. Em crianças, habilidades escolares de baixo
nível causam interferência significativa no desempenho
escolar (conforme indicado por relatórios escolares e notas
e avaliações de professores). Outro indicador clínico,
particularmente em adultos, é a evitação de atividades que
exigem habilidades acadêmicas. Também na vida adulta,
baixas habilidades acadêmicas interferem no desempenho
profissional ou nas atividades cotidianas que exijam essas
habilidades (conforme indicado por autorrelato ou relato
de outros). Esse critério, todavia, também requer
evidências psicométricas resultantes de teste de
desempenho acadêmico administrado individualmente,
psicometricamente apropriado e culturalmente adequado,
padronizado ou referenciado a critérios. As habilidades
acadêmicas distribuem-se ao longo de um continnum;
assim, não há ponto de corte natural que possa ser usado
para diferenciar indivíduos com ou sem transtorno
específico da aprendizagem. Portanto, qualquer limiar
usado para especificar o que constitui desempenho
acadêmico significativamente baixo (p. ex., habilidades
acadêmicas muito abaixo do esperado para a idade) é, em
grande parte, arbitrário. Baixos escores acadêmicos em um
ou mais de um teste padronizado ou em subtestes em um
domínio acadêmico (i.e., no mínimo 1,5 desvio-padrão
[DP] abaixo da média populacional para a idade, o que se
traduz por um escore-padrão de 78 ou menos, abaixo do
percentil 7) são necessários para maior certeza
diagnóstica. Escores exatos, entretanto, irão variar de
acordo com os testes padronizados específicos
empregados. Com base em juízos clínicos, pode ser usado
um limiar mais tolerante (p. ex., 1,0-2,5 DP abaixo da
média populacional para a idade) quando as dificuldades
de aprendizagem são apoiadas por evidências
convergentes de avaliação clínica, história acadêmica,
relatórios escolares ou escores de testes. Além do mais,
considerando que testes padronizados não estão
disponíveis em todos os idiomas, o diagnóstico pode então
ser baseado, em parte, no julgamento clínico dos escores
de testes disponíveis.
Uma terceira característica central é a de que as
dificuldades de aprendizagem estejam prontamente
aparentes nos primeiros anos escolares, na maior parte dos
indivíduos (Critério C). Entretanto, em outros, as
dificuldades de aprendizagem podem não se manifestar
plenamente até os anos escolares mais tardios, período em
que as demandas de aprendizagem aumentam e excedem
as capacidades individuais limitadas.
Outra característica diagnóstica fundamental é a de que as
dificuldades de aprendizagem sejam consideradas
“específicas” por quatro razões. Primeiro, elas não são
atribuíveis a deficiências intelectuais (deficiência
intelectual [transtorno do desenvolvimento intelectual]); a
atraso global do desenvolvimento; a deficiências auditivas
ou visuais; ou a problemas neurológicos ou motores
(Critério D). O transtorno específico da aprendizagem
afeta a aprendizagem em indivíduos que, de outro modo,
demonstram níveis normais de funcionamento intelectual
(geralmente estimado por escore de QI superior a cerca de
70 [±5 pontos de margem de erro de medida]). A
expressão “insucesso acadêmico inesperado” é
frequentemente citada como a característica definidora do
transtorno específico da aprendizagem, no sentido de que
as incapacidades de aprendizagem específicas não são
parte de uma dificuldade de aprendizagem mais genérica,
como a que ocorre na deficiência intelectual ou no atraso
global do desenvolvimento. O transtorno específico da
aprendizagem pode, ainda, ocorrer em indivíduos
identificados como intelectualmente “talentosos”. Eles
podem conseguir manter um funcionamento acadêmico
aparentemente adequado mediante o uso de estratégias
compensatórias, esforço extraordinariamente alto ou
apoio, até que as exigências de aprendizagem ou os
procedimentos avaliativos (p. ex., testes cronometrados)
imponham barreiras à sua aprendizagem ou à realização
de tarefas exigidas. Segundo, a dificuldade de
aprendizagem não pode ser atribuída a fatores externos
mais gerais, como desvantagem econômica ou ambiental,
absenteísmo crônico ou falta de educação, conforme
geralmente oferecida no contexto da comunidade do
indivíduo. Terceiro, a dificuldade para aprender não pode
ser atribuída a algum transtorno neurológico (p. ex.,
acidente vascular cerebral pediátrico) ou motor ou a
deficiência visual ou auditiva, os quais costumam ser
associados a problemas de aprendizagem de habilidades
acadêmicas, mas que são distinguíveispela presença de
sinais neurológicos. Por fim, a dificuldade de
aprendizagem pode se limitar a uma habilidade ou
domínio acadêmico (p. ex., leitura de palavras isoladas,
evocação ou cálculos numéricos).
Uma avaliação abrangente é necessária. Um transtorno
específico da aprendizagem só pode ser diagnosticado
após o início da educação formal, mas, a partir daí, pode
ser diagnosticado em qualquer momento em crianças,
adolescentes e adultos, desde que haja evidência de início
durante os anos de escolarização formal (i.e., o período do
desenvolvimento). O diagnóstico é clínico e baseia-se na
síntese da história médica, de desenvolvimento,
educacional e familiar do indivíduo; na história da
dificuldade de aprendizagem, incluindo sua manifestação
atual e prévia; no impacto da dificuldade no
funcionamento acadêmico, profissional ou social; em
relatórios escolares prévios ou atuais; em portfólios de
trabalhos que demandem habilidades acadêmicas; em
avaliações de base curricular; e em escores prévios e atuais
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resultantes de testes individuais padronizados de
desempenho acadêmico. Diante da suspeita de um
problema intelectual, sensorial, neurológico ou motor, a
avaliação clínica de transtorno específico da
aprendizagem deve, ainda, incluir métodos apropriados
para esses distúrbios. Assim, uma investigação abrangente
envolverá profissionais especialistas em transtorno
específico da aprendizagem e em avaliação
psicológica/cognitiva. Uma vez que o transtorno costuma
persistir na vida adulta, raramente há necessidade de
reavaliação, a não ser que indicada por mudanças
marcantes nas dificuldades de aprendizagem (melhora ou
piora) ou por solicitação para fins específicos.
CARACTERÍSTICAS ASSOCIADAS QUE APOIAM
O DIAGNÓSTICO
O transtorno específico da aprendizagem é precedido,
frequentemente, embora não de forma invariável, nos anos
pré-escolares, por atrasos na atenção, na linguagem ou nas
habilidades motoras, capazes de persistir e de ser
comórbidos com transtorno específico da aprendizagem.
Um perfil irregular de capacidades é comum, como
capacidades acima da média para desenhar, para design e
outras capacidades visuoespaciais, mas leitura lenta,
trabalhosa e imprecisa, bem como dificuldades na
compreensão da leitura e na expressão escrita. Indivíduos
com transtorno específico da aprendizagem tipicamente
(mas não invariavelmente) exibem baixo desempenho em
testes psicológicos de processamento cognitivo. Ainda
não está claro, entretanto, se essas anormalidades
cognitivas são causa, correlatos ou consequência das
dificuldades de aprendizagem. Além disso, embora
déficits cognitivos associados com dificuldades em
aprender a ler palavras estejam bem documentados,
aqueles associados com outras manifestações do
transtorno específico da aprendizagem (p. ex.,
compreensão da leitura, cálculo aritmético, expressão
escrita) são pouco conhecidos ou especificados. Ademais,
indivíduos com sintomas comportamentais ou escores de
testes comparáveis apresentam uma variedade de déficits
cognitivos, e muitos desses déficits de processamento
também são encontrados em outros transtornos do
neurodesenvolvimento (p. ex., TDAH, transtorno do
espectro autista, transtornos da comunicação, transtorno
do desenvolvimento da coordenação). Logo, não há
necessidade de investigar déficits de processamento
cognitivo para uma avaliação diagnóstica. O transtorno
específico da aprendizagem está associado a risco
aumentado de ideação e tentativas de suicídio em crianças,
adolescentes e adultos.
Não existem marcadores biológicos conhecidos de
transtorno específico da aprendizagem. Como grupo,
indivíduos com o transtorno apresentam alterações
circunscritas no processamento cognitivo e na estrutura e
no funcionamento cerebral. Diferenças genéticas também
são evidentes em nível de grupo. Entretanto, testes
cognitivos, neuroimagem ou testes genéticos não são úteis
para o diagnóstico no momento atual.
DESENVOLVIMENTO E CURSO
Início, reconhecimento e diagnóstico de transtorno
específico da aprendizagem costumam ocorrer durante os
anos do ensino fundamental, quando as crianças precisam
aprender a ler, ortografar, escrever e calcular. Precursores,
porém, como atrasos ou déficits linguísticos, dificuldades
para rimar e contar ou dificuldades com habilidades
motoras finas necessárias para a escrita costumam ocorrer
na primeira infância, antes do início da escolarização
formal. As manifestações podem ser comportamentais (p.
ex., relutância em envolver-se na aprendizagem;
comportamento de oposição). O transtorno específico da
aprendizagem permanece ao longo da vida, mas seu curso
e expressão clínica variam, em parte, dependendo das
interações entre as exigências ambientais, a variedade e a
gravidade das dificuldades individuais de aprendizagem,
as capacidades individuais de aprendizagem,
comorbidades e sistemas de apoio e intervenção
disponíveis. Ainda assim, na vida diária, problemas na
fluência e compreensão da leitura, na soletração, na
expressão escrita e na habilidade com números costumam
persistir na vida adulta.
Mudanças na manifestação dos sintomas ocorrem com a
idade, de modo que um indivíduo pode ter um conjunto
persistente ou mutável de dificuldades de aprendizagem
em seu ciclo de vida.
Exemplos de sintomas que podem ser observados entre
crianças pré-escolares incluem falta de interesse em jogos
com sons da língua (p. ex., repetição, rimas), e elas podem
ter problemas para aprender rimas infantis. Crianças pré-
escolares com transtorno específico da aprendizagem
podem, com frequência, falar como bebês, pronunciar mal
as palavras e ter dificuldade para lembrar os nomes de
letras, números ou dias da semana. Elas podem não
conseguir reconhecer as letras do próprio nome e ter
problemas para aprender a contar. Crianças de jardim da
infância com transtorno específico da aprendizagem
podem não ser capazes de reconhecer e escrever as letras;
podem não ser capazes de escrever o próprio nome; ou
podem usar combinações inventadas de letras. Podem ter
problemas para quebrar palavras faladas em sílabas (p. ex.,
quarto, separado em quar-to), bem como problemas no
reconhecimento de palavras que rimam (p. ex., gato, rato,
pato). Crianças que vão ao jardim de infância podem,
ainda, ter problemas para conectar letras e seus sons (p.
ex., a letra “b” tem o som /b/) e podem também não ser
capazes de reconhecer fonemas (p. ex., não sabem qual,
em um conjunto de palavras [p. ex., bolo, vaca, carro],
inicia com o mesmo som de “casa”).
O transtorno específico da aprendizagem em crianças do
ensino fundamental costuma se manifestar como uma
dificuldade acentuada para aprender a correspondência
entre letra e som (especialmente em crianças cujo idioma
é o inglês), decodificar as palavras com fluência,
ortografar ou compreender fatos matemáticos; a leitura em
voz alta é lenta, imprecisa e trabalhosa, e algumas crianças
sofrem para compreender a magnitude que um número
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falado ou escrito representa. As crianças, nos primeiros
anos escolares (1º a 3º ano), podem continuar a ter
problemas no reconhecimento e na manipulação de
fonemas, ser incapazes de ler palavras comuns
monossilábicas (tais como cão ou pó) e ser incapazes de
reconhecer palavras comuns soletradas irregularmente (p.
ex., ficho por fixo). Elas podem cometer erros de leitura,
indicativos de problemas para conectar sons e letras (p.
ex., jato por gato em inglês), além de apresentar
dificuldades para colocar números e letras em sequência.
Crianças do 1º ao 3º ano podem também ter dificuldade
para lembrar fatos numéricos ou operações matemáticas
de adição, subtração e assim por diante, podendo ter
queixas de que a leitura ou a aritméticaé difícil e evitando
fazê-las. Crianças com transtorno específico da
aprendizagem nas séries intermediárias (4º a 6º ano)
podem pronunciar mal ou pular partes de palavras longas
e multissilábicas (p. ex., convido em vez de convidado,
aminal em vez de animal) e confundir palavras com sons
semelhantes (p. ex., comestível e combustível, inferno e
inverno). Podem apresentar problemas para recordar
datas, nomes e números de telefone e ainda dificuldades
para completar no tempo temas de casa ou testes. Crianças
nas séries intermediárias podem, ainda, ter problemas de
compreensão, com ou sem leitura lenta, trabalhosa e
imprecisa, e podem ter problemas para ler pequenas
palavras funcionais (p. ex., que, o/a, em). Podem ter uma
ortografia muito ruim, bem como apresentar trabalhos
escritos insatisfatórios.Podem acertar a primeira parte de
uma palavra e depois tentar adivinhar o restante (p. ex.,
leitura de clover como clock, no inglês), podendo
manifestar medo ou recusa a ler em voz alta.
Em contraste, os adolescentes podem ter dominado a
decodificação de palavras, mas a leitura permanece lenta
e trabalhosa, com tendência a problemas acentuados na
compreensão da leitura e na expressão escrita (inclusive
problemas ortográficos), bem como domínio insatisfatório
de fatos matemáticos ou solução de problemas
matemáticos. Na adolescência e na vida adulta, indivíduos
com transtorno específico da aprendizagem podem
continuar a cometer vários erros de ortografia, ler palavras
isoladas e textos lentamente e com muito esforço, com
problemas na pronúncia de palavras multissilábicas. Com
frequência, podem precisar reler o material para
compreender ou captar o ponto principal e ter problemas
para fazer inferências a partir de textos escritos.
Adolescentes e adultos podem evitar atividades que
exijam leitura ou matemática (ler por prazer, ler
instruções). Adultos com o transtorno têm problemas
contínuos de ortografia, leitura lenta e trabalhosa ou
problemas para fazer inferências importantes a partir de
informações numéricas, em documentos escritos
relacionados à vida profissional. Podem evitar atividades
de lazer e profissionais que demandem leitura ou escrita
ou usar estratégias alternativas para ter acesso a material
impresso (p. ex., software texto-pronúncia/pronúncia-
texto, áudio livros, mída audiovisual).
Uma expressão clínica alternativa inclui dificuldades de
aprendizagem circunscritas que persistam ao longo vida,
como incapacidade de dominar o sentido básico dos
números (p. ex., saber qual de um par de números ou
pontos representa a magnitude maior) ou não ter
proficiência na identificação e na ortografia das palavras.
Evitação ou relutância em se envolver em atividades que
exijam habilidades acadêmicas é comum em crianças,
adolescentes e adultos. Episódios de ansiedade grave ou
transtornos de ansiedade, incluindo queixas somáticas ou
ataques de pânico, são comuns ao longo vida e
acompanham as expressões circunscrita e ampla das
dificuldades de aprendizagem.
FATORES DE RISCO E PROGNÓSTICO
AMBIENTAIS
Prematuridade e muito baixo peso ao nascer aumentam o
risco de transtorno específico da aprendizagem, da mesma
forma que exposição pré-natal a nicotina.
GENÉTICOS E FISIOLÓGICOS
O transtorno específico da aprendizagem parece agregrar-
se em famílias, particularmente quando afeta a leitura, a
matemática e a ortografia. O risco relativo de transtorno
específico da aprendizagem da leitura ou da matemática é
substancialmente maior em parentes de primeiro grau de
indivíduos com essas dificuldades de aprendizagem na
comparação com aqueles que não as apresentam. História
familiar de dificuldades de leitura (dislexia) e de
alfabetização prediz problemas de alfabetização ou
transtorno específico da aprendizagem na prole, indicando
o papel combinado de fatores genéticos e ambientais.
Existe elevada herdabilidade na capacidade e na
incapacidade de leitura, nos idiomas alfabéticos e não
alfabéticos, incluindo alta herdabilidade para a maioria das
manifestações de capacidades e incapacidades de
aprendizagem (p. ex., estimativas de herdabilidade
maiores do que 0,6). A covariação entre as várias
manifestações de dificuldades de aprendizagem é alta,
sugerindo que genes relacionados a uma apresentação
estão altamente correlacionados com genes relacionados a
outra manifestação.
MODIFICADORES DO CURSO
Problemas acentuados com comportamento de desatenção
nos anos pré-escolares predizem dificuldades posteriores
em leitura e matemática (mas não necessariamente
transtorno específico da aprendizagem) e não resposta a
intervenções acadêmicas efetivas. Atraso ou transtornos
na fala ou na linguagem, ou processamento cognitivo
prejudicado (p. ex., consciência fonológica, memória de
trabalho capacidade de nomear rapidamente em série) nos
anos pré-escolares predizem transtorno específico da
aprendizagem posterior em leitura e expressão escrita. A
comorbidade desses problemas com TDAH é preditora de
pior evolução da saúde mental quando comparada àquela
associada a um transtorno específico da aprendizagem sem
TDAH. Instrução sistemática, intensiva e individualizada,
utilizando intervenções baseadas em evidências, pode
melhorar ou diminuir as dificuldades de aprendizagem em
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alguns indivíduos ou promover o uso de estratégias
compensatórias em outros, mitigando, dessa forma,
evoluções de outro modo negativas.
COMORBIDADE
O transtorno específico da aprendizagem costuma ser
comórbido com transtornos do neurodesenvolvimento (p.
ex., TDAH, transtornos da comunicação, transtorno do
desenvolvimento da coordenação, transtorno do espectro
autista) ou com outros transtornos mentais (p. ex.,
transtornos de ansiedade, transtornos depressivo e
bipolar). Essas comorbidades não necessariamente
excluem o diagnóstico de transtorno específico da
aprendizagem, mas podem dificultar mais os testes e o
diagnóstico diferencial, uma vez que cada um desses
transtornos comórbidos interfere, de forma independente,
na execução de atividades da vida diária, inclusive na
aprendizagem.
Déficit Cognitivo
Deficiência intelectual (transtorno do desenvolvimento
intelectual) é um transtorno com início no período do
desenvolvimento que inclui déficits funcionais, tanto
intelectuais quanto adaptativos, nos domínios conceitual,
social e prático. Os três critérios a seguir devem ser
preenchidos:
Déficits em funções intelectuais como raciocínio, solução
de problemas, planejamento, pensamento abstrato, juízo,
aprendizagem acadêmica e aprendizagem pela experiência
confirmados tanto pela avaliação clínica quanto por testes
de inteligência padronizados e individualizados.
Déficits em funções adaptativas que resultam em fracasso
para atingir padrões de desenvolvimento e socioculturais
em relação a independência pessoal e responsabilidade
social. Sem apoio continuado, os déficits de adaptação
limitam o funcionamento em uma ou mais atividades
diárias, como comunicação, participação social e vida
independente, e em múltiplos ambientes, como em casa,
na escola, no local de trabalho e na comunidade.
ESPECIFICAR A GRAVIDADE
Os vários níveis de gravidade são definidos com base no
funcionamento adaptativo, e não em escores de QI, uma
vez que é o funcionamento adaptativo que determina o
nível de apoio necessário. Além disso, medidas de QI são
menos válidas na extremidade mais inferior da variação
desse coeficiente. Níveis de gravidade para deficiência
intelectual (transtorno do desenvolvimento intelectual):
LEVE
Domínio conceitual: Em crianças pré-escolares, pode não
haver diferenças conceituais óbvias. Para crianças em
idade escolar e adultos, existem dificuldades em aprender
habilidades acadêmicas que envolvam leitura, escrita,
matemática, tempo ou dinheiro,sendo necessário apoio
em uma ou mais áreas para o alcance das expectativas
associadas à idade. Nos adultos, pensamento abstrato,
função executiva (i.e., planejamento, estabelecimento de
estratégias, fixação de prioridades e flexibilidade
cognitiva) e memória de curto prazo, bem como uso
funcional de habilidades acadêmicas (p. ex., leitura,
controle do dinheiro), estão prejudicados. Há uma
abordagem um tanto concreta a problemas e soluções em
comparação com indivíduos na mesma faixa etária.
Domínio social: Comparado aos indivíduos na mesma
faixa etária com desenvolvimento típico, o indivíduo
mostra-se imaturo nas relações sociais. Por exemplo, pode
haver dificuldade em perceber, com precisão, pistas
sociais dos pares. Comunicação, conversação e linguagem
são mais concretas e imaturas do que o esperado para a
idade. Podem existir dificuldades de regulação da emoção
e do comportamento de uma forma adequada à idade; tais
dificuldades são percebidas pelos pares em situações
sociais. Há compreensão limitada do risco em situações
sociais; o julgamento social é imaturo para a idade, e a
pessoa corre o risco de ser manipulada pelos outros
(credulidade).
Domínio pratico: O indivíduo pode funcionar de acordo
com a idade nos cuidados pessoais. Precisa de algum apoio
nas tarefas complexas da vida diária na comparação com
os pares. Na vida adulta, os apoios costumam envolver
compras de itens para a casa, transporte, organização do
lar e dos cuidados com os filhos, preparo de alimentos
nutritivos, atividades bancárias e controle do dinheiro. As
habilidades recreativas assemelham-se às dos
companheiros de faixa etária, embora o juízo relativo ao
bem-estar e à organização da recreação precise de apoio.
Na vida adulta, pode conseguir emprego em funções que
não enfatizem habilidades conceituais. Os indivíduos em
geral necessitam de apoio para tomar decisões de cuidados
de saúde e decisões legais, bem como para aprender a
desempenhar uma profissão de forma competente. Apoio
costuma ser necessário para criar uma família.
MODERADA
Domínio conceitual: Durante todo o desenvolvimento, as
habilidades conceituais individuais ficam bastante atrás
das dos companheiros. Nos pré-escolares, a linguagem e
as habilidades pré-acadêmicas desenvolvem-se
lentamente. Nas crianças em idade escolar, ocorre lento
progresso na leitura, na escrita, na matemática e na
compreensão do tempo e do dinheiro ao longo dos anos
escolares, com limitações marcadas na comparação com
os colegas. Nos adultos, o desenvolvimento de habilidades
acadêmicas costuma mostrar-se em um nível elementar,
havendo necessidade de apoio para todo emprego de
habilidades acadêmicas no trabalho e na vida pessoal.
Assistência contínua diária é necessária para a realização
de tarefas conceituais cotidianas, sendo que outras pessoas
podem assumir integralmente essas responsabilidades
pelo indivíduo.
Domínio social: O indivíduo mostra diferenças marcadas
em relação aos pares no comportamento social e na
comunicação durante o desenvolvimento. A linguagem
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falada costuma ser um recurso primário para a
comunicação social, embora com muito menos
complexidade que a dos companheiros. A capacidade de
relacionamento é evidente nos laços com família e amigos,
e o indivíduo pode manter amizades bem-sucedidas na
vida e, por vezes, relacionamentos românticos na vida
adulta. Pode, entretanto, não perceber ou interpretar com
exatidão as pistas sociais. O julgamento social e a
capacidade de tomar decisões são limitados, com
cuidadores tendo que auxiliar a pessoa nas decisões.
Amizades com companheiros com desenvolvimento
normal costumam ficar afetadas pelas limitações de
comunicação e sociais. Há necessidade de apoio social e
de comunicação significativo para o sucesso nos locais de
trabalho.
Domínio pratico: O indivíduo é capaz de dar conta das
necessidades pessoais envolvendo alimentar-se, vestir-se,
eliminações e higiene como adulto, ainda que haja
necessidade de período prolongado de ensino e de tempo
para que se torne independente nessas áreas, talvez com
necessidade de lembretes. Da mesma forma, participação
em todas as tarefas domésticas pode ser alcançada na vida
adulta, ainda que seja necessário longo período de
aprendizagem, que um apoio continuado tenha que ocorrer
para um desempenho adulto. Emprego independente em
tarefas que necessitem de habilidades conceituais e
comunicacionais limitadas pode ser conseguido, embora
com necessidade de apoio considerável de colegas,
supervisores e outras pessoas para o manejo das
expectativas sociais, complexidades de trabalho e
responsabilidades auxiliares, como horário, transportes,
benefícios de saúde e controle do dinheiro. Uma variedade
de habilidades recreacionais pode ser desenvolvida. Estas
costumam demandar apoio e oportunidades de
aprendizagem por um longo período de tempo.
Comportamento mal-adaptativo está presente em uma
minoria significativa, causando problemas sociais.
GRAVE
Domínio conceitual: Alcance limitado de habilidades
conceituais. Geralmente, o indivíduo tem pouca
compreensão da linguagem escrita ou de conceitos que
envolvam números, quantidade, tempo e dinheiro. Os
cuidadores proporcionam grande apoio para a solução de
problemas ao longo da vida.
Domínio social: A linguagem falada é bastante limitada
em termos de vocabulário e gramática. A fala pode ser
composta de palavras ou expressões isoladas, com
possível suplementação por meios alternativos. A fala e a
comunicação têm foco no aqui e agora dos eventos diários.
A linguagem é usada para comunicação social mais do que
para explicações. Os indivíduos entendem discursos e
comunicação gestual simples. As relações com familiares
e pessoas conhecidas constituem fonte de prazer e ajuda.
Domínio pratico: O indivíduo necessita de apoio para
todas as atividades cotidianas, inclusive refeições, vestir-
se, banhar-se e eliminação. Precisa de supervisão em todos
os momentos. Não é capaz de tomar decisões responsáveis
quanto a seu bem-estar e dos demais. Na vida adulta, há
necessidade de apoio e assistência contínuos nas tarefas
domésticas, recreativas e profissionais. A aquisição de
habilidades em todos os domínios envolve ensino
prolongado e apoio contínuo. Comportamento mal-
adaptativo, inclusive autolesão, está presente em uma
minoria significativa.
PROFUNDA
Domínio conceitual: As habilidades conceituais
costumam envolver mais o mundo físico do que os
processos simbólicos. A pessoa pode usar objetos de
maneira direcionada a metas para o autocuidado, o
trabalho e a recreação. Algumas habilidades
visuoespaciais, como combinar e classificar, baseadas em
características físicas, podem ser adquiridas. A ocorrência
concomitante de prejuízos motores e sensoriais, porém,
pode impedir o uso funcional dos objetos.
Domínio social: O indivíduo apresenta compreensão
muito limitada da comunicação simbólica na fala ou nos
gestos. Pode entender algumas instruções ou gestos
simples. Há ampla expressão dos próprios desejos e
emoções pela comunicação não verbal e não simbólica. A
pessoa aprecia os relacionamentos com membros bem
conhecidos da família, cuidadores e outras pessoas
conhecidas, além de iniciar interações sociais e reagir a
elas por meio de pistas gestuais e emocionais. A
ocorrência concomitante de prejuízos sensoriais e físicos
pode impedir muitas atividades sociais.
Domínio pratico: O indivíduo depende de outros para
todos os aspectos do cuidado físico diário, saúde e
segurança, ainda que possa conseguir participar também
de algumas dessas atividades. Aqueles sem prejuízos
físicos graves podem ajudar em algumas tarefas diárias de
casa, como levar os pratos para a mesa. Ações simples
com objetos podem constituir a base para a participaçãoem algumas atividades profissionais com níveis elevados
de apoio continuado. Atividades recreativas podem
envolver, por exemplo, apreciar ouvir música, assistir a
filmes, sair para passear ou participar de atividades
aquáticas, tudo isso com apoio de outras pessoas. A
ocorrência concomitante de prejuízos físicos e sensoriais
é barreira frequente à participação (além da observação)
em atividades domésticas, recreativas e profissionais.
Comportamento mal-adaptativo está presente em uma
minoria significativa.
CARACTERÍSTICAS DIAGNÓSTICAS
As características essenciais da deficiência intelectual
(transtorno do desenvolvimento intelectual) incluem
déficits em capacidades mentais genéricas (Critério A) e
prejuízo na função adaptativa diária na comparação com
indivíduos pareados para idade, gênero e aspectos
socioculturais (Critério B). O início ocorre durante o
período do desenvolvimento (Critério C). O diagnóstico
de deficiência intelectual baseia-se tanto em avaliação
clínica quanto em testes padronizados das funções
adaptativa e intelectual.
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O critério A refere-se a funções intelectuais que envolvem
raciocínio, solução de problemas, planejamento,
pensamento abstrato, juízo, aprendizagem pela educação
escolar e experiência e compreensão prática. Os
componentes críticos incluem compreensão verbal,
memória de trabalho, raciocínio perceptivo, raciocínio
quantitativo, pensamento abstrato e eficiência cognitiva. O
funcionamento intelectual costuma ser mensurado com
testes de inteligência administrados individualmente, com
validade psicométrica, abrangentes, culturalmente
adequados e adequados do ponto de vista psicométrico.
Indivíduos com deficiência intelectual apresentam escores
em torno de dois desvios-padrão ou mais abaixo da média
populacional, incluindo uma margem de erro de medida
(em geral, ±5 pontos).
Déficits no funcionamento adaptativo (Critério B)
referem-se a quão bem uma pessoa alcança os padrões de
sua comunidade em termos de independência pessoal e
responsabilidade social em comparação a outros com
idade e antecedentes socioculturais similares. O
funcionamento adaptativo envolve raciocínio adaptativo
em três domínios: conceitual, social e prático. O domínio
conceitual (acadêmico) envolve competência em termos
de memória, linguagem, leitura, escrita, raciocínio
matemático, aquisição de conhecimentos práticos, solução
de problemas e julgamento em situações novas, entre
outros. O domínio social envolve percepção de
pensamentos, sentimentos e experiências dos outros;
empatia; habilidades de comunicação interpessoal;
habilidades de amizade; julgamento social; entre outros. O
domínio prático envolve aprendizagem e autogestão em
todos os cenários de vida, inclusive cuidados pessoais,
responsabilidades profissionais, controle do dinheiro,
recreação, autocontrole comportamental e organização de
tarefas escolares e profissionais, entre outros. Capacidade
intelectual, educação, motivação, socialização, aspectos
de personalidade, oportunidade vocacional, experiência
cultural e condições médicas gerais e transtornos mentais
coexistentes influenciam o funcionamento adaptativo.
O funcionamento adaptativo é investigado mediante uso
tanto da avaliação clínica quanto de medidas
individualizadas, culturalmente adequadas e
psicometricamente adequadas. Medidas padronizadas são
empregadas com informantes (p. ex., pais ou outro
membro da família; professor; conselheiro; provedor de
cuidados) e com o indivíduo, na medida do possível.
Outras fontes de informação incluem avaliações
educacionais, desenvolvimentais, médicas e de saúde
mental. Escores de medidas padronizadas e fontes de
entrevista devem ser interpretados com uso de julgamento
clínico. Quando a realização de um teste padronizado é
difícil ou impossível por uma variedade de fatores (p. ex.,
prejuízo sensorial, comportamento problemático grave), o
indivíduo pode ser diagnosticado com uma deficiência
intelectual não especificada. O funcionamento adaptativo
pode ser de difícil investigação em um cenário controlado
(p. ex., prisões, centros de detenção); se possível,
informações corroborativas que reflitam o funcionamento
fora desses locais devem ser obtidas.
O critério B é preenchido quando pelo menos um domínio
do funcionamento adaptativo – conceitual, social ou
prático – está suficientemente prejudicado a ponto de ser
necessário apoio contínuo para que a pessoa tenha
desempenho adequado em um ou mais de um local, tais
como escola, local de trabalho, casa ou comunidade. Para
que sejam atendidos os critérios diagnósticos de
deficiência intelectual, os déficits no funcionamento
adaptativo devem estar diretamente relacionados aos
prejuízos intelectuais descritos no Critério A. O Critério
C, início durante o período do desenvolvimento, refere-se
ao reconhecimento da presença de déficits intelectuais e
adaptativos durante a infância ou adolescência.
CARACTERÍSTICAS ASSOCIADAS QUE APOIAM
O DIAGNÓSTICO
A deficiência intelectual é uma condição heterogênea com
múltiplas causas. Pode haver dificuldades associadas ao
juízo social; à avaliação de riscos; ao autocontrole do
comportamento, emoções ou relações interpessoais; ou à
motivação na escola ou nos ambientes de trabalho. Falta
de habilidades de comunicação pode predispor a
comportamentos disruptivos ou agressivos. A credulidade
costuma ser uma característica, envolvendo ingenuidade
em situações sociais e tendência a ser facilmente
conduzido pelos outros. Credulidade e falta de consciência
sobre riscos podem resultar em exploração por outros e
possível vitimização, fraude, envolvimento criminal não
intencional, falsas confissões e risco de abuso físico e
sexual.
Pessoas com diagnóstico de deficiência intelectual, com
transtornos mentais comórbidos apresentam risco de
suicídio. Elas pensam em suicídio, fazem tentativas
suicidas e podem morrer em decorrência delas. Assim, é
essencial a investigação de pensamentos suicidas no
processo de avaliação. Em decorrência da falta da
consciência de riscos e perigos, taxas de lesões acidentais
podem ser elevadas.
DESENVOLVIMENTO E CURSO
O início da deficiência intelectual é no período do
desenvolvimento. Idade e aspectos característicos no
início dependem da etiologia e da gravidade da disfunção
cerebral. Atrasos em marcos motores, linguísticos e
sociais podem ser identificáveis nos primeiros dois anos
de vida entre aqueles com deficiência intelectual mais
grave, ao passo que níveis leves podem não ser
identificados até a idade escolar, quando ficam aparentes
as dificuldades de aprendizagem acadêmica.
Quando a deficiência intelectual está associada a uma
síndrome genética, pode haver uma aparência física
característica (como na síndrome de Down, p. ex.).
Algumas síndromes têm um fenótipo comportamental, o
que se refere a comportamentos específicos,
característicos de determinado transtorno genético (p. ex.,
síndrome de Lesch-Nyhan). Nas formas adquiridas, o
aparecimento pode ser abrupto, após doenças como
meningite ou encefalite ou traumatismo encefálico durante
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o período do desenvolvimento. Quando a deficiência
intelectual decorre de perda de habilidades cognitivas
previamente adquiridas, como em lesões cerebrais
traumáticas, pode ser atribuído tanto diagnóstico de
deficiência intelectual quanto o de um transtorno
neurocognitivo.
Embora a deficiência intelectual em geral não seja
progressiva, em algumas doenças genéticas (p. ex.,
síndrome de Rett) há períodos de piora seguidos de
estabilização, e, em outras (p. ex., síndrome de San
Phillippo), ocorre piora progressiva da função intelectual.
Depois da primeira infância, o transtorno costuma
perdurar por toda a vida, ainda que os níveisde gravidade
possam mudar ao longo do tempo. O curso pode ser
influenciado por condições médicas ou genéticas
subjacentes e por condições comórbidas (p. ex.,
deficiências auditivas ou visuais, epilepsia). Intervenções
precoces e continuadas podem melhorar o funcionamento
adaptativo na infância e na vida adulta. Em alguns casos,
ocorre melhora significativa da função intelectual, até
tornando o diagnóstico de deficiência intelectual não mais
apropriado. Desse modo, é prática comum ao avaliar bebês
e crianças pequenas postergar o diagnóstico de deficiência
intelectual para até depois de um curso apropriado de
intervenção ter sido proporcionado. Em crianças mais
velhas e adultos, o nível de apoio oferecido é capaz de
possibilitar a completa participação em todas as atividades
cotidianas e melhora na função adaptativa. As avaliações
diagnósticas devem determinar se uma melhora nas
habilidades de adaptação é resultado da aquisição de uma
nova habilidade estável e generalizada (caso em que o
diagnóstico de deficiência intelectual pode não ser mais
apropriado) ou contingência da presença de apoios e
intervenções ininterruptas (caso em que o diagnóstico de
deficiência intelectual pode ainda ser apropriado).
FATORES DE RISCO E PROGNÓSTICO
Genéticos e fisiológicos. Etiologias pré-natais incluem
síndromes genéticas (p. ex., variações na sequência ou
variações no número de cópias envolvendo um ou mais
genes; problemas cromossômicos), erros inatos do
metabolismo, malformações encefálicas, doença materna
(inclusive doença placentária) e influências ambientais (p.
ex., álcool, outras drogas, toxinas, teratógenos). Causas
perinatais incluem uma gama de eventos no trabalho de
parto e no nascimento que levam a encefalopatia neonatal.
Causas pós-natais incluem lesão isquêmica hipóxica, lesão
cerebral traumática, infecções, doenças desmielinizantes,
doenças convulsivas (p. ex., espasmos infantis), privação
social grave e crônica, síndromes metabólicas tóxicas e
intoxicações (p. ex., chumbo, mercúrio).
MARCADORES DIAGNÓSTICOS
Uma avaliação abrangente inclui avaliação da capacidade
intelectual e do funcionamento adaptativo; identificação
de etiologias genéticas e não genéticas; avaliação da
existência ou não de condições médicas associadas (p. ex.,
paralisia cerebral, epilepsia), e avaliação de transtornos
mentais, emocionais e comportamentais comórbidos. Os
componentes da avaliação podem incluir história médica
pré-natal e perinatal, genograma familiar incluindo três
gerações, exames físicos, avaliação genética (p. ex.,
cariótipo ou análise cromossômica por microarray e testes
para detecção de síndromes genéticas específicas), bem
como triagem metabólica e investigação por
neuroimagem.
COMORBIDADE
A ocorrência concomitante de condições mentais, do
neurodesenvolvimento, médicas e físicas é frequente na
deficiência intelectual, com taxas de algumas condições
(p. ex., transtornos mentais, paralisia cerebral e epilepsia)
3 a 4 vezes mais altas que na população em geral. O
prognóstico e o resultado de diagnósticos comórbidos
podem ser influenciados pela presença da deficiência
intelectual. Os procedimentos de avaliação podem
demandar mudanças em função dos transtornos
associados, tais como transtornos da comunicação,
transtorno do espectro autista e transtornos motores,
sensoriais e outros.
Os transtornos mentais e do neurodesenvolvimento
comórbidos mais comuns são transtorno de déficit de
atenção/hiperatividade, transtornos depressivo e bipolar,
transtornos de ansiedade, transtorno do espectro autista,
transtorno do movimento estereotipado (com ou sem
comportamento autolesivo), transtornos do controle de
impulsos e transtorno neurocognitivo maior. Um
transtorno depressivo maior pode ocorrer nos diferentes
níveis de gravidade da deficiência intelectual.
Comportamento autolesivo requer imediata atenção
diagnóstica, podendo gerar um diagnóstico separado de
transtorno do movimento estereotipado. Indivíduos com
deficiência intelectual, em especial os com uma
deficiência mais grave, podem também evidenciar
agressividade e comportamentos disruptivos, inclusive
causando danos a outros ou destruindo propriedades.
Transtorno De Déficit De
Atenção/Hiperatividade
CARACTERÍSTICAS CLÍNICAS DO TDH
SINTOMAS PRINCIPAIS
O TDAH é uma síndrome com duas categorias de
sintomas principais: hiperatividade/impulsividade e
desatenção. Cada um dos principais sintomas do TDAH
tem seu próprio padrão e curso de desenvolvimento. A
queixa em relação aos sintomas de TDAH pode ter origem
nos pais, professores ou outros cuidadores.
HIPERATIVIDADE E IMPULSIVIDADE
Comportamentos hiperativos e impulsivos quase sempre
ocorrem juntos em crianças pequenas. O subtipo
predominantemente hiperativo-impulsivo de TDAH é
caracterizado pela incapacidade de ficar parado ou inibir o
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comportamento. Os sintomas de hiperatividade e
impulsividade podem incluir:
− Inquietação excessiva (por exemplo, batendo as
mãos ou os pés, contorcendo-se no assento)
− Dificuldade em permanecer sentado quando é
necessário sentar (por exemplo, na escola, no
trabalho, etc.)
− Sensações de inquietação (em adolescentes) ou
corridas ou escaladas inadequadas em crianças
mais novas
− Dificuldade de jogar em silêncio
− Difícil de acompanhar, parecendo estar sempre
"em movimento"
− Conversa excessiva
− Dificuldade em esperar turnos
− Borrando as respostas muito rapidamente
− Interrupção ou intrusão de outros
Os sintomas hiperativos e impulsivos geralmente são
observados quando a criança atinge os quatro anos de
idade e aumentam durante os próximos três a quatro anos,
com pico de gravidade quando a criança tem sete a oito
anos de idade. Após sete a oito anos de idade, os sintomas
de hiperatividade começam a diminuir; na adolescência,
podem ser pouco discerníveis para os observadores,
embora o adolescente possa sentir-se inquieto ou incapaz
de sossegar. Em contraste, os sintomas impulsivos
geralmente persistem ao longo da vida. Os sintomas de
impulsividade em adolescentes incluem uso de
substâncias, comportamento sexual de risco e condução
prejudicada. O foco da impulsividade está relacionado ao
meio ambiente. Como exemplo, adolescentes com TDAH
que não são tratados e em um ambiente onde o álcool e
outras substâncias comumente abusadas estão
prontamente disponíveis correm maior risco de se
envolver no uso ou experimentação de drogas do que os
adolescentes sem TDAH.
DESATENÇÃO
O subtipo predominantemente desatento de TDAH é
caracterizado pela capacidade reduzida de focar a atenção
e velocidade reduzida de processamento cognitivo e
resposta. As crianças com o subtipo desatento geralmente
são descritas como tendo um ritmo cognitivo lento e
frequentemente parecem estar sonhando acordadas ou
"fora da tarefa". As queixas típicas se concentram em
problemas cognitivos e/ou acadêmicos. Entre as crianças
nascidas com idade gestacional <32 semanas, os sintomas
de desatenção parecem ser mais proeminentes do que
hiperatividade e impulsividade.
Os sintomas de desatenção podem incluir:
− Falha em prestar muita atenção aos detalhes, erros
descuidados
− Dificuldade em manter a atenção em brincadeiras,
escola ou atividades domésticas
− Parece não ouvir, mesmo quando abordado
diretamente
− Falha em seguir (por exemplo, dever de casa,
tarefas, etc.)
− Dificuldade em organizar tarefas, atividades e
pertences
− Evita tarefas que exigem esforço mental
consistente
− Perde objetos necessários para tarefas ou
atividades (por exemplo, livros escolares,
equipamentos esportivos, etc.)
− Facilmente distraído por estímulos irrelevantes
− Esquecimento em atividades rotineiras (por
exemplo, lição de casa, tarefas domésticas, etc.)
Os sintomas de desatenção geralmente nãosão aparentes
até que a criança tenha oito a nove anos de idade. Esse
atraso pode estar relacionado à sensibilidade reduzida de
avaliação de problemas de atenção ou ao aumento da
variabilidade no desenvolvimento normal das habilidades
cognitivas. Semelhante ao padrão de impulsividade, os
sintomas de desatenção geralmente são um problema ao
longo da vida. Em adolescentes, sintomas de desatenção
podem resultar em dificuldade acadêmica.
FUNCIONAMENTO PREJUDICADO
Para atender aos critérios para TDAH, os sintomas centrais
devem prejudicar a função nas atividades acadêmicas,
sociais ou ocupacionais. As habilidades sociais em
crianças com TDAH geralmente são significativamente
prejudicadas. Problemas com desatenção podem limitar as
oportunidades de adquirir habilidades sociais ou atender a
pistas sociais necessárias para uma interação social eficaz,
dificultando a formação de amizades.
Comportamentos hiperativos e impulsivos podem resultar
em rejeição dos pares. As consequências negativas da
função social prejudicada (por exemplo, baixa auto-
estima, aumento do risco de depressão e ansiedade) podem
ser de longa data.
AVALIAÇÃO
INDICAÇÕES E PROCESSO
A avaliação do TDAH deve ser iniciada em crianças ≥ 4
anos de idade que apresentem sintomas de desatenção,
hiperatividade ou impulsividade ou que tenham queixas
frequentemente associadas ao TDAH.
A avaliação para possível TDAH inclui avaliação médica
abrangente, de desenvolvimento, educacional e
psicossocial. A avaliação abrangente é necessária para
confirmar complicações funcionais dos sintomas centrais,
excluir outras explicações para os sintomas centrais e
identificar distúrbios emocionais, comportamentais e
médicos coexistentes.
A avaliação deve incluir a revisão dos históricos médicos,
sociais e familiares; entrevistas clínicas com o cuidador e
paciente; revisão de informações sobre funcionamento na
escola ou creche; e avaliação para transtornos emocionais
ou comportamentais coexistentes.
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CRITÉRIO DE DIAGNÓSTICO
Um padrão persistente de desatenção e/ou hiperatividade-
impulsividade que interfere no funcionamento e no
desenvolvimento, conforme caracterizado por (1) e/ou (2):
1. DESATENÇÃO: Seis (ou mais) dos seguintes
sintomas persistem por pelo menos seis meses em um grau
que é inconsistente com o nível do desenvolvimento e têm
impacto negativo diretamente nas atividades sociais e
acadêmicas/profissionais:
Nota: Os sintomas não são apenas uma manifestação de
comportamento opositor, desafio, hostilidade ou
dificuldade para compreender tarefas ou instruções. Para
adolescentes mais velhos e adultos (17 anos ou mais), pelo
menos cinco sintomas são necessários.
− Frequentemente não presta atenção em detalhes
ou comete erros por descuido em tarefas
escolares, no trabalho ou durante outras atividades
(p. ex., negligencia ou deixa passar detalhes, o
trabalho é impreciso).
− Frequentemente tem dificuldade de manter a
atenção em tarefas ou atividades lúdicas (p. ex.,
dificuldade de manter o foco durante aulas,
conversas ou leituras prolongadas).
− Frequentemente parece não escutar quando
alguém lhe dirige a palavra diretamente (p. ex.,
parece estar com a cabeça longe, mesmo na
ausência de qualquer distração óbvia).
− Frequentemente não segue instruções até o fim e
não consegue terminar trabalhos escolares, tarefas
ou deveres no local de trabalho (p. ex., começa as
tarefas, mas rapidamente perde o foco e
facilmente perde o rumo).
− Frequentemente tem dificuldade para organizar
tarefas e atividades (p. ex., dificuldade em
gerenciar tarefas sequenciais; dificuldade em
manter materiais e objetos pessoais em ordem;
trabalho desorganizado e desleixado; mau
gerenciamento do tempo; dificuldade em cumprir
prazos).
− Frequentemente evita, não gosta ou reluta em se
envolver em tarefas que exijam esforço mental
prolongado (p. ex., trabalhos escolares ou lições
de casa; para adolescentes mais velhos e adultos,
preparo de relatórios, preenchimento de
formulários, revisão de trabalhos longos).
− Frequentemente perde coisas necessárias para
tarefas ou atividades (p. ex., materiais escolares,
lápis, livros, instrumentos, carteiras, chaves,
documentos, óculos, celular).
− Com frequência é facilmente distraído por
estímulos externos (para adolescentes mais velhos
e adultos, pode incluir pensamentos não
relacionados).
− Com frequência é esquecido em relação a
atividades cotidianas (p. ex., realizar tarefas,
obrigações; para adolescentes mais velhos e
adultos, retornar ligações, pagar contas, manter
horários agendados).
2. HIPERATIVIDADE E IMPULSIVIDADE: Seis (ou
mais) dos seguintes sintomas persistem por pelo menos
seis meses em um grau que é inconsistente com o nível do
desenvolvimento e têm impacto negativo diretamente nas
atividades sociais e acadêmicas/profissionais:
Nota: Os sintomas não são apenas uma manifestação de
comportamento opositor, desafio, hostilidade ou
dificuldade para compreender tarefas ou instruções. Para
adolescentes mais velhos e adultos (17 anos ou mais), pelo
menos cinco sintomas são necessários.
− Frequentemente remexe ou batuca as mãos ou os
pés ou se contorce na cadeira.
− Frequentemente levanta da cadeira em situações
em que se espera que permaneça sentado (p. ex.,
sai do seu lugar em sala de aula, no escritório ou
em outro local de trabalho ou em outras situações
que exijam que se permaneça em um mesmo
lugar).
− Frequentemente corre ou sobe nas coisas em
situações em que isso é inapropriado. (Nota: Em
adolescentes ou adultos, pode se limitar a
sensações de inquietude.)
− Com frequência é incapaz de brincar ou se
envolver em atividades de lazer calmamente.
− Com frequência “não para”, agindo como se
estivesse “com o motor ligado” (p. ex., não
consegue ou se sente desconfortável em ficar
parado por muito tempo, como em restaurantes,
reuniões; outros podem ver o indivíduo como
inquieto ou difícil de acompanhar).
− Frequentemente fala demais.
− Frequentemente deixa escapar uma resposta antes
que a pergunta tenha sido concluída (p. ex.,
termina frases dos outros, não consegue aguardar
a vez de falar).
− Frequentemente tem dificuldade para esperar a
sua vez (p. ex., aguardar em uma fila).
− Frequentemente interrompe ou se intromete (p.
ex., mete-se nas conversas, jogos ou atividades;
pode começar a usar as coisas de outras pessoas
sem pedir ou receber permissão; para adolescentes
e adultos, pode intrometer-se em ou assumir o
controle sobre o que outros estão fazendo).
Vários sintomas de desatenção ou hiperatividade-
impulsividade estavam presentes antes dos 12 anos de
idade.
Vários sintomas de desatenção ou hiperatividade-
impulsividade estão presentes em dois ou mais ambientes
(p. ex., em casa, na escola, no trabalho; com amigos ou
parentes; em outras atividades).
Há evidências claras de que os sintomas interferem no
funcionamento social, acadêmico ou profissional ou de
que reduzem sua qualidade.
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Os sintomas não ocorrem exclusivamente durante o curso
de esquizofrenia ou outro transtorno psicótico e não são
mais bem explicados por outro transtorno mental (p. ex.,
transtorno do humor, transtorno de ansiedade, transtorno
dissociativo, transtorno da personalidade, intoxicação ou
abstinência de substância).
Obs.: vários sintomas se manifestaram antes dos 12 anos
de idade; vários sintomas ocorrem em, no mínimo, dois
ambientes (casa, escola, trabalho, na presença de amigos
ou parentes, em outras atividades); há prejuízos sociais,
acadêmicos ou profissionais ao indivíduo; os sintomas não
ocorrem exclusivamente durante o curso de algum
transtorno psiquiátrico, excluindo-se o transtorno do
espectro autista.
SUBTIPO
Apresentação combinada: Se tanto o CritérioA1
(desatenção) quanto o Critério A2 (hiperatividade-
impulsividade) são preenchidos nos últimos 6 meses.
Apresentação predominantemente desatenta: Se o
Critério A1 (desatenção) é preenchido, mas o Critério A2
(hiperatividade-impulsividade) não é preenchido nos
últimos 6 meses.
Apresentação predominantemente
hiperativa/impulsiva: Se o Critério A2 (hiperatividade-
impulsividade) é preenchido, e o Critério A1 (desatenção)
não é preenchido nos últimos 6 meses.
GRAVIDADE
LEVE: Poucos sintomas, se algum, estão presentes além
daqueles necessários para fazer o diagnóstico, e os
sintomas resultam em não mais do que pequenos prejuízos
no funcionamento social ou profissional.
MODERADA: Sintomas ou prejuízo funcional entre
“leve” e “grave” estão presentes.
GRAVE: Muitos sintomas além daqueles necessários
para fazer o diagnóstico estão presentes, ou vários
sintomas particularmente graves estão presentes, ou os
sintomas podem resultar em prejuízo acentuado no
funcionamento social ou profissional.
Autismo
CRITÉRIOS DIAGNÓSTICO AUTISTA
Déficits persistentes na comunicação social e na interação
social em múltiplos contextos, conforme manifestado por
tudo o que segue, atualmente ou por história prévia:
1.Déficits na reciprocidade socioemocional, variando, por
exemplo, de abordagem social anormal e dificuldade para
estabelecer uma conversa normal a compartilhamento
reduzido de interesses, emoções ou afeto, a dificuldade
para iniciar ou responder a interações sociais.
2.Déficits nos comportamentos comunicativos não verbais
usados para interação social, variando, por exemplo, de
comunicação verbal e não verbal pouco integrada a
anormalidade no contato visual e linguagem corporal ou
déficits na compreensão e uso gestos, a ausência total de
expressões faciais e comunicação não verbal.
3.Déficits para desenvolver, manter e compreender
relacionamentos, variando, por exemplo, de dificuldade
em ajustar o comportamento para se adequar a contextos
sociais diversos a dificuldade em compartilhar
brincadeiras imaginativas ou em fazer amigos, a ausência
de interesse por pares.
Padrões restritos e repetitivos de comportamento,
interesses ou atividades, conforme manifestado por pelo
menos dois dos seguintes, atualmente ou por história
prévia:
− Movimentos motores, uso de objetos ou fala
estereotipados ou repetitivos (p. ex., estereotipias
motoras simples, alinhar brinquedos ou girar
objetos, ecolalia, frases idiossincráticas).
− Insistência nas mesmas coisas, adesão inflexível a
rotinas ou padrões ritualizados de comportamento
verbal ou não verbal (p. ex., sofrimento extremo
em relação a pequenas mudanças, dificuldades
com transições, padrões rígidos de pensamento,
rituais de saudação, necessidade de fazer o mesmo
caminho ou ingerir os mesmos alimentos
diariamente).
− Interesses fixos e altamente restritos que são
anormais em intensidade ou foco (p. ex., forte
apego a ou preocupação com objetos incomuns,
interesses excessivamente circunscritos ou
perseverativos).
− Hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais
ou interesse incomum por aspectos sensoriais do
ambiente (p. ex., indiferença aparente a
dor/temperatura, reação contrária a sons ou
texturas específicas, cheirar ou tocar objetos de
forma excessiva, fascinação visual por luzes ou
movimento).
Os sintomas devem estar presentes precocemente no
período do desenvolvimento (mas podem não se tornar
plenamente manifestos até que as demandas sociais
excedam as capacidades limitadas ou podem ser
mascarados por estratégias aprendidas mais tarde na vida).
Os sintomas causam prejuízo clinicamente significativo
no funcionamento social, profissional ou em outras áreas
importantes da vida do indivíduo no presente.
Essas perturbações não são mais bem explicadas por
deficiência intelectual (transtorno do desenvolvimento
intelectual) ou por atraso global do desenvolvimento.
Deficiência intelectual ou transtorno do espectro autista
costumam ser comórbidos; para fazer o diagnóstico da
comorbidade de transtorno do espectro autista e
deficiência intelectual, a comunicação social deve estar
abaixo do esperado para o nível geral do desenvolvimento.
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Nota: Indivíduos com um diagnóstico do DSM-IV bem
estabelecido de transtorno autista, transtorno de Asperger
ou transtorno global do desenvolvimento sem outra
especificação devem receber o diagnóstico de transtorno
do espectro autista.
Indivíduos com déficits acentuados na comunicação
social, cujos sintomas, porém, não atendam, de outra
forma, critérios de transtorno do espectro autista, devem
ser avaliados em relação a transtorno da comunicação
social (pragmática).
GRAVIDADE
Usamos a classificação DSM-5-TR para especificar o
nível de gravidade do TEA, reconhecendo que a gravidade
pode variar com o contexto e ao longo tempo. A gravidade
deve ser avaliada separadamente para cada domínio,
conforme indicado abaixo.
A deficiência intelectual concomitante geralmente é
responsável pelas diferenças nos níveis de gravidade.
COMUNICAÇÃO/INTERAÇÃO SOCIAL
Nível 1 (“Requer suporte”) – Perda perceptível sem
suporte; dificuldade em iniciar interações sociais,
respostas atípicas ou malsucedidas a aberturas
sociais; diminuição do interesse nas interações
sociais; falha na troca de turnos na conversa; falha na
geração de respostas ou tópicos adequados ao
contexto; tentativas malsucedidas ou estranhas de fazer
amigos.
Uma criança com TEA e nível 1 de comunicação/interação
social pode ser capaz de comunicar com sucesso intenções
e necessidades básicas usando palavras, mas pode fazê-lo
de uma maneira roteirizada que não inclui nenhum
comportamento de comunicação não verbal (por exemplo,
mudanças na expressão facial, uso do olhar contato, uso
de gestos).
Nível 2 (“Requer suporte substancial”) – Déficits
acentuados na comunicação; deficiências aparentes
mesmo com suportes; iniciação limitada de interações
sociais; resposta reduzida/anormal a aberturas sociais.
Nível 3 (“Requer suporte muito substancial”) –
Deficiências graves no funcionamento; iniciação muito
limitada de interações sociais; resposta mínima a aberturas
sociais de outros.
Exemplos de comunicação/interação social que requerem
apoio muito substancial incluem:
− Comunicação inexistente (a criança não tenta
compartilhar pensamentos ou interesses ou fazer
pedidos)
− Comunicação que consiste apenas em gestos
físicos (p.
− Comunicação que consiste em palavras repetidas
de outros contextos e sem relevância para o
contexto atual (por exemplo, ecolalia).
COMPORTAMENTO REPETITIVO/RESTRITO
Nível 1 (“Requer suporte”) – Comportamentos
interferem significativamente na função; dificuldade em
alternar entre as atividades; independência limitada por
problemas de organização e planejamento.
Em crianças com TEA e comportamento repetitivo/restrito
de nível 1, o comportamento pode se manifestar como um
interesse específico (por exemplo, trens, aspiradores de
pó), um tópico geral (por exemplo, dinossauros, desastres
naturais) ou um interesse apropriado para a idade (por
exemplo, colecionar cartas). No entanto, o interesse
perseverante ocupa a maior parte do tempo lúdico da
criança e interfere em outras atividades. Além disso, a
criança muitas vezes experimenta angústia ou frustração
quando não é permitido perseguir o interesse.
Nível 2 (“Requer suporte substancial”) –
Comportamentos suficientemente frequentes para serem
óbvios para um observador casual; comportamentos
interferem com a função em uma variedade de
configurações; angústia e/ou dificuldade em mudar o foco
ou a ação.
Nível 3 ("Requer suporte muito substancial") –
Comportamentos interferem marcadamente na função em
todas as esferas; extrema dificuldade em lidar com a
mudança; grande aflição/dificuldadeem mudar o foco ou
a ação.
Exemplos de comportamento repetitivo/restrito que requer
suporte muito substancial incluem:
− Balançar ou girar o corpo, girar objetos, bater as
mãos ao balançar ou comportamentos auto-
estimulatórios visuais associados a girar ou
balançar objetos ou a si mesmo
− Envolver-se em exploração sensorial incomum,
como observar as mãos ou objetos de perto,
cheirar ou morder objetos
− Aderência rígida às rotinas durante as brincadeiras
ou tarefas adaptativas que interferem nas
atividades funcionais (por exemplo, socialização).
M-CHAT – CRITÉRIOS DIAGNÓSTICO TEA
O Departamento de Pediatria do Desenvolvimento e
Comportamento da Sociedade Brasileira de Pediatria
recomenda aos pediatras e profissionais de saúde que
trabalham com crianças da primeira infância, o
instrumento de triagem de indicadores do Transtorno do
Espectro Autista (TEA) chamado Modified Checklist for
Autism in Toddlers (M-CHAT).
A Academia Americana de Pediatria recomenda que toda
a criança seja submetida a uma triagem para o TEA entre
18 e 24 meses de idade, que pode ser feito pela aplicação
do M-CHAT, mesmo naquelas que não estão sob suspeita
diagnóstica de TEA ou outros transtornos, desvios e
atrasos do desenvolvimento. O teste pode ser repetido em
intervalos regulares de tempo ou quando houver dúvida.
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Os utilizadores devem ter em atenção que mesmo com a
Entrevista de Seguimento, um número significativo de
crianças que falham no M-CHAT- R não serão
diagnosticadas com PEA, no entanto, estas crianças estão
em risco para outras perturbações do desenvolvimento ou
atrasos e por isso, o seguimento é recomendado para
qualquer criança cujo despiste é positivo.
A escala compreende perguntas sequenciadas com
respostas simples e, ao final, é fornecido um escore do
total de pontos uma vez que o acesso é online. Esse total
define se a criança tem risco ou não na triagem para
autismo. O resultado deve ser repassado aos pais e/ou
cuidadores na mesma consulta, sempre correlacionando o
desenvolvimento e comportamento da criança com dados
colhidos na anamnese e exame físico completos.
Repare que os pais poderão responder "talvez" às questões
feitas durante a entrevista. Quando um pai relata um
"talvez", pergunte se a maior parte das vezes a resposta é
"sim" ou "não" e continue a entrevista de acordo com
aquela resposta. Nos espaços em que é possível responder
"outro", o entrevistador deve usar o seu julgamento para
determinar se é uma resposta de "passa" ou não.
ALGORITMO DE COTAÇÃO
Para todos os itens, exceto 2, 5, e 12, a resposta "não"
indica risco de PEA; para os itens 2, 5, e 12, "sim" indica
risco elevado de PEA. O seguinte algoritmo maximiza as
propriedades psicométricas do M-CHAT-R:
BAIXO RISCO: Cotação total é de 0-2; se a criança tiver
menos de 24 meses, repetir o M-CHAT-R aos 24 meses.
Não é necessária nenhuma outra medida, a não ser que a
vigilância indique risco de PEA.
RISCO MODERADO: Cotação total é 3-7; administrar a
Entrevista de Seguimento (segunda etapa do M-CHAT-
R/F) para conseguir informação adicional sobre as
respostas de risco. Se a cotação do M-CHAT-R/F
continuar a ser igual ou superior a 2, a criança cota positivo
no despiste. Medidas necessárias: encaminhar a criança
para avaliação de diagnóstico e possível sinalização para
intervenção precoce. Se a cotação da Entrevista de
Seguimento for 0-1, a criança cota negativo. Nenhuma
outra medida é necessária, a não ser que a vigilância
indique risco de PEA. A criança deverá voltar a fazer o
despiste posteriormente.
ALTO RISCO: Cotação total é de 8-20; é aceitável
prescindir da Entrevista de Seguimento e encaminhar a
criança para avaliação de diagnóstico e possível
sinalização para intervenção precoce.
Por se tratar de um instrumento de triagem e não de
diagnóstico, nem todas as crianças que pontuam no M-
CHAT serão diagnosticadas com TEA, ou vice-versa. No
entanto, os resultados podem apontar para existência de
outros transtornos de desenvolvimento, como, por
exemplo, atraso da linguagem. Nos casos de escores
positivos, ou de suspeita de atraso nos marcos do
neurodesenvolvimento e na interação social, é
fundamental o encaminhamento para avaliação
especializada por médico especialista e equipe
interdisciplinar. A estimulação precoce é fundamental,
tanto para auxiliar o desenvolvimento cerebral de forma
mais saudável possível, quanto para esclarecer e dar apoio
educativo aos pais e/ou cuidadores. Quanto mais precoce
a criança iniciar a estimulação, mais chances de ter a
trajetória do seu desenvolvimento otimizada, além da
possibilidade de melhorar os resultados no funcionamento
sócio-adaptativo a longo prazo. É papel de todo pediatra
investigar na anamnese, na avaliação física e na aplicação
de escalas quaisquer atraso do desenvolvimento
neuropsicomotor.
Os programas de tratamento específicos devem ser
individualizados de acordo com o funcionamento e as
necessidades da criança.
INTERVENÇÕES COMPORTAMENTAIS E
EDUCACIONAIS
A importância de intervenções comportamentais e
educacionais intensivas precoces na melhoria dos
resultados para crianças com TEA está bem documentada.
As principais características dos programas educacionais:
− Uma alta proporção de funcionários por aluno,
programação individualizada para cada criança
− Professores com experiência especial no trabalho
com crianças com autismo
− Um mínimo de 25 horas por semana de serviços
− Avaliação e ajuste contínuos do programa;
− Análise funcional de problemas de
comportamento
− Planejamento de transição, Envolvimento da
família e Monitoramento próximo e modificação
conforme as necessidades da criança mudam
INTERVENÇÕES PSICOFARMACOLÓGICAS
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Medicamentos psicotrópicos geralmente são usados em
crianças com TEA para tratar sintomas específicos,
incluindo: Hiperatividade, desatenção e impulsividade,
agressão, explosões e automutilação, ansiedade,
comportamentos obsessivo-compulsivos, rigidez e
comportamentos repetitivos sintomas depressivos e
disfunção do sono
Ao considerar o uso de medicamentos para sintomas-alvo
em crianças com TEA, os potenciais benefícios e riscos
devem ser avaliados caso a caso. A terapia farmacológica
geralmente é iniciada após as intervenções
comportamentais e ambientais estarem em vigor e terem
sido maximizadas.
Risperidona e aripiprazol são os únicos medicamentos
psicotrópicos aprovados pelo FDA especificamente para o
tratamento de indivíduos com TEA. No entanto, muitos
outros medicamentos são usados off-label. Os pais e
cuidadores devem ser informados se o medicamento
estiver sendo usado off-label.
MONITORAMENTO
Crianças com TEA são mais sensíveis aos efeitos da
medicação e mais propensas a ter efeitos adversos do que
crianças sem TEA. Os medicamentos devem ser iniciados
em doses mais baixas e as doses devem ser aumentadas
mais lentamente do que em pacientes sem TEA.
A eficácia e os efeitos adversos dos agentes
farmacológicos devem ser monitorados sistematicamente
durante a terapia através de acompanhamento das
atividades do paciente. O intervalo de acompanhamento
específico varia com a medicação, mas geralmente não
deve ser superior a três meses. Após o controle bem-
sucedido do sintoma alvo por 6 a 12 meses, a retirada da
medicação por um período de tempo pode ser justificada
para determinar se ainda é necessária.
AGENTES FARMACOTERAPÊUTICOS USADOS
PARA O MANEJO DE SINTOMAS EM CRIANÇAS E
ADOLESCENTES COM TRANSTORNOS DO
ESPECTRO DO AUTISMO
Agente
Sintoma(s)
direcionado(s)
Efeitos adversos
potenciais
Agentes
antipsicóticos
atípicos (por
exemplo,
risperidona*,
aripiprazol*,
olanzapina)
Agressão
Hiperatividade
ou desatenção
Comportamento
repetitivoDistúrbios de
sono
Ganho de peso
Síndrome
metabólica
Tremor
Sintomas
extrapiramidais
Salivação
aumentada
Sedação
Estimulantes (por
exemplo,
metilfenidato,
dextroanfetamina,
dexmetilfenidato)
Hiperatividade/d
esatenção/impuls
ividade
Diminuição do
apetite
Dificuldade em
adormecer
Irritabilidade
Retraimento social
Inibidores
seletivos da
recaptação de
serotonina (por
exemplo,
fluoxetina,
fluvoxamina,
sertralina,
paroxetina, etc
Ansiedade
Depressão
Comportamento
repetitivo
Agressão
Potencial aumento
do risco de
ideação suicida
Ativação
comportamental
Irritabilidade
Agonistas alfa-2-
adrenérgicos (por
exemplo,
guanfacina,
clonidina)
Agressão
Hiperatividade/d
esatenção
Distúrbios de
sono
Sedação, Fadiga
Irritabilidade
Constipação
Hipotensão
Hipertensão rebote
se descontinuado
abruptamente
Estabilizadores de
humor
anticonvulsivantes
(por exemplo,
ácido valpróico)
Agressão
Hiperatividade/d
esatenção
Comportamentos
repetitivos
Distúrbios de
sono
Labilidade de
humor
Fadiga
Insônia
Diarréia
Ganho de peso
Aumento do
apetite
Atomoxetina
Hiperatividade/d
esatenção
Potencial aumento
do risco de
ideação suicida
Irritabilidade
Sintomas
gastrointestinais
Fadiga
Melatonina
Distúrbios de
sono
Dificuldade para
acordar
Sonolência diurna
Enurese
Estabilizador de
humor (por
exemplo, lítio)
Agressão
Ganho de peso
Náusea
Micção frequente
CUIDADOS DE ROTINA
Crianças com TEA têm as mesmas necessidades gerais de
cuidados de saúde que outras crianças e devem receber os
mesmos cuidados preventivos e triagem.
É particularmente importante obter informações sobre o
comportamento das refeições, ingestão alimentar,
atividade física e tempo de tela (por exemplo, televisão,
computador) para avaliar potenciais deficiências
nutricionais (por exemplo, cálcio, vitamina D) e
diminuição da densidade mineral óssea. Também é
importante perguntar sobre terapias alternativas ou
complementares que possam afetar o estado
nutricional. Crianças com TEA que têm baixo índice de
massa corporal, ingestão insuficiente de cálcio e energia e
uma alta proporção de tempo de tela para atividade física
podem estar em risco de diminuição da densidade
óssea. Eles também têm taxas aumentadas de sintomas
gastrointestinais, incluindo constipação, do que crianças
sem TEA.
Orientações antecipadas sobre segurança podem precisar
ser adaptadas para crianças com TEA, particularmente em
relação ao afogamento e vagar.
https://www.uptodate.com/contents/risperidone-pediatric-drug-information?search=tratamento%20espectro%20autista&topicRef=603&source=see_link
https://www.uptodate.com/contents/aripiprazole-oral-and-long-acting-injectable-abilify-maintena-pediatric-drug-information?search=tratamento%20espectro%20autista&topicRef=603&source=see_link
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Vigilância de comorbidades, incluem:
− Distúrbios médicos (por exemplo, convulsões;
distúrbios genéticos potenciais).
− Comorbidades de desenvolvimento e saúde
mental (por exemplo, hiperatividade, ansiedade,
depressão, regulação comportamental).
− Problemas de sono (por exemplo, início tardio,
despertar frequente, inquietação), que podem
afetar a função diurna.
− Problemas gastrointestinais, alimentares e
nutricionais (por exemplo, constipação, dieta
restrita).
− Atrasos na aquisição de habilidades de autoajuda
(por exemplo, ir ao banheiro, vestir-se, higiene).
Uso de Telas
Os primeiros 1000 dias são importantes para o
desenvolvimento cerebral e mental de qualquer criança,
assim como os primeiros anos de vida, a idade escolar e
durante toda a fase da adolescência. São diferentes
estruturas e regiões cerebrais que amadurecem e não só a
nutrição/oral, mas todos os circuitos sensoriais como o
toque de prazer/apego, os estímulos do tato/aconchego
(holding/attachment), visuais/ luz, sons, olfato modelam a
arquitetura e a função dos ciclos neurobiológicos para
produção dos neurotransmissores e conexões sinápticas.
O desenvolvimento precoce da linguagem e das
habilidades de comunicação são fundamentais para o
desenvolvimento das habilidades cognitivas e sociais.
O atraso no desenvolvimento da fala e da linguagem é
frequente em bebês que ficam passivamente expostos às
telas, por períodos prolongados. O estabelecimento das
rotinas do dia/vigília e da noite/sono também é
fundamental para a produção dos hormônios necessários
ao crescimento harmonioso, corporal e mental.
Transtornos de sono são cada vez mais frequentes e
associados aos transtornos mentais precoces em crianças e
adolescentes, além dos traumas da violência e outras
doenças.
Importante ainda considerar que o tempo de maturação do
córtex pré-frontal, responsável pelas funções cognitivas e
executivas do controle dos impulsos, julgamento,
resolução de problemas, atenção, inibição, memória,
tomada de decisões é assíncrono em relação ao sistema
límbico que é estimulado por emoções. Este descompasso
entre o córtex pré-frontal e o sistema límbico é
intensificado no início da puberdade entre os 10-12 anos
até os anos seguintes, em torno de 25-30 anos. Daí os
comportamentos típicos dos adolescentes, não só de
curiosidade e impulsividade, mas quando arriscam seus
próprios limites, inclusive durante a participação nos jogos
de videogames, desafios virtuais, selfies em locais
extremos e inseguros ou nas redes sociais. O uso da
Internet e as gratificações significativas, por pontos ou
“likes”, recebidas por estes comportamentos nos jogos ou
redes perpassam pelos mecanismos de recompensa e da
produção do neurotransmissor dopamina. Muitos
comportamentos se tornam impulsivos e automáticos
aliviando episódios recentes de tédio, estresse ou
depressão. Assim, algo que começou como uma distração
na tela ou simples experimentação do objeto de consumo,
como um jogo de videogame, estimulado pelas indústrias
de entretenimento, passa a ser uma solução rápida para
desaparecerem sentimentos perturbadores e emoções
difíceis com as quais as crianças e adolescentes ainda não
aprenderam a lidar. A dependência dos jogos, inclusive
com teor violento o, mas que trazem desafios e
recompensas, impede que enfrentem os problemas que
contribuíram com este estresse tóxico e a liberação do
cortisol, criando um ciclo vicioso de ansiedade e
depressão.
O tecnoestresse se torna ainda mais problemático, por
perda da empatia, crescente irritabilidade e agressividade,
causando alterações do comportamento, do
relacionamento familiar e social, de transtornos de
aprendizado e escolar, além de diversas outras doenças.
O brilho das telas, devido à faixa de onda de luz azul
presente na maioria das telas contribui para o bloqueio da
melatonina e para a prevalência cada vez maior das
dificuldades de dormir e manter uma boa qualidade de
sono à noite na fase de sono profundo, com aumento de
pesadelos e terrores noturnos. Ao acordar, aumento da
sonolência diurna, problemas de memória e concentração
durante o aprendizado com diminuição do rendimento
escolar e a associação com sintomas dos transtornos do
déficit de atenção e hiperatividade. Existe também o
aumento do estresse pelo uso indiscriminado de fones de
ouvido em volumes acima do tolerável e podendo causar
trauma acústico e perda auditiva induzida pelo ruído
(PAIR), irreversível.
O poder de atração e disseminação do uso de telas,
acontece muitas vezes por ser o ambiente dos jogos e das
redes sociais online, o único onde as crianças e
adolescentes e também muitos adultos atualmente,
conseguem encontrar seus amigos de imediato, já que por
diversos motivos alguns assim preferem e vão se isolando
cada vez mais, perdendo a noção da realidade.
Importante ressaltar que estas principais alterações decomportamento e de saúde estão frequentemente
associadas entre si e de etiologia multifatorial ao se
relacionar com o uso precoce e excessivo das TICs, com
fatores predisponentes como contexto cultural, a dinâmica
familiar e a co-dependência no relacionamento pais-filhos
e seus valores e regras do convívio familiar, além do
tempo de uso diário.
CONTEXTO FAMILIAR
Fatores de Risco Fatores de Proteção
Falta de afeto e abandono Diálogo e respeito
Falta de limites Regras claras de convivência
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Negação dos
comportamentos
inadequados do/s filho/s
Modelos referenciais e
saudáveis de identificação
Violência familiar Olhar de cuidados
Família disfuncional Oportunidades e alternativas
mais saudáveis
Episódios frequentes de
estresse tóxico
Desenvolvimento de valores
éticos
Uso de álcool e drogas Não uso de álcool e drogas
Falta de suporte e apoio Apoio e resiliência familiar
Entre as principais orientações atualizadas pelo novo
Manual de Orientação da SBP, destacam-se:
− Evitar a exposição de crianças menores de dois
anos às telas, mesmo que passivamente;
− Limitar o tempo de telas ao máximo de uma hora
por dia, sempre com supervisão para crianças com
idades entre dois e cinco anos;
− Limitar o tempo de telas ao máximo de uma ou
duas horas por dia, sempre com supervisão para
crianças com idades entre seis e 10 anos;
− Limitar o tempo de telas e jogos de videogames a
duas ou três horas por dia, sempre com
supervisão; nunca “virar a noite” jogando para
adolescentes com idades entre 11 e 18 anos;
− Para todas as idades: nada de telas durante as
refeições e desconectar uma a duas horas antes de
dormir;
− Oferecer como alternativas: atividades esportivas,
exercícios ao ar livre ou em contato direto com a
natureza, sempre com supervisão responsável;
− Criar regras saudáveis para o uso de equipamentos
e aplicativos digitais, além das regras de
segurança, senhas e filtros apropriados para toda
família, incluindo momentos de desconexão e
mais convivência familiar;
− Encontros com desconhecidos online ou off-line
devem ser evitados; saber com quem e onde seu
filho está, e o que está jogando ou sobre conteúdos
de risco transmitidos (mensagens, vídeos ou
webcam), é responsabilidade legal dos
pais/cuidadores;
− Conteúdos ou vídeos com teor de violência,
abusos, exploração sexual, nudez, pornografia ou
produções inadequadas e danosas ao
desenvolvimento cerebral e mental de crianças e
adolescentes, postados por cyber criminosos
devem ser denunciados e retirados pelas empresas
de entretenimento ou publicidade responsáveis.