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As doenças pulmonares intersticiais constituem um grupo heterogêneo de doenças que acometem o parênquima pulmonar de maneira difusa, mas que são classificadas em conjunto devido às suas semelhanças clínicas, radiológicas e de função pulmonar. Incluem-se neste grupo condições de diversas etiologias como: infecciosa, autoimune, tóxica, actínica e idiopática. Esse agrupamento justifica-se em parte pelo fato do interstício pulmonar dispor de uma variedade limitada de respostas a tais agressões, que resulta em um pequeno número de alterações histológicas e funcionais, com suas respectivas manifestações clínicas. Apesar da denominação, as doenças pulmonares intersticiais também afetam o epitélio alveolar, a circulação pulmonar e as vias aéreas em graus diversos. Etiopatogenia As DPI podem ter manifestação aguda ou insidiosa. Podem ter uma evolução rápida, lenta ou um curso estático. Incluem doenças pulmonares ocupacionais, como pneumoconiose, que é causada pela inalação de poeira inorgânica, como sílica, pó de carvão e pós de amianto; pneumonite por hipersensibilidade; doenças pulmonares causadas por exposição a substâncias tóxicas (p. ex., metotrexato, bleomicina, fenitoína, amiodarona); e doenças granulomatosas, como sarcoidose. Em alguns casos mais comuns de DPI a causa é a exposição à poeira e partículas inaladas e, em outros, não pode ser encontrada uma causa específica. Em contraste com as doenças pulmonares obstrutivas, que envolvem principalmente as vias respiratórias do pulmão, os distúrbios pulmonares intersticiais exercem seus efeitos sobre o colágeno e o tecido conjuntivo elástico encontrado no interstício delicado das paredes alveolares. Certos tipos de DPI afetam a parte distal dos alvéolos e isso causa restrições fisiológicas e diminuição dos volumes pulmonares. Outras DPI têm impacto sobre o interstício mais perto do aspecto proximal do ácino junto aos bronquíolos, o que provoca uma obstrução fisiológica, mas não afeta os volumes pulmonares. Muitas dessas doenças também envolvem as vias respiratórias, artérias e veias. Em geral, estas doenças pulmonares compartilham um padrão de disfunção pulmonar, que inclui redução dos volumes pulmonares, diminuição na capacidade de difusão do pulmão e diferentes graus de hipoxemia. Acredita-se que estes distúrbios sejam deflagrados por algum tipo de lesão do epitélio alveolar, seguido por um processo inflamatório que envolve os alvéolos e o interstício pulmonar. O acúmulo de células inflamatórias e imunológicas provoca danos permanentes ao tecido do pulmão e a substituição de tecido pulmonar de função normal por tecido cicatricial fibroso. Quadro Clínico e Diagnóstico As DPIs são tipicamente caracterizadas por: Dispneia progressiva A dispneia aos esforços progressiva costuma ser a queixa principal destes pacientes, acompanhada ou não de tosse com pouca expectoração. Outros sintomas respiratórios, embora menos comuns, devem ser pesquisados, pois podem fornecer informações úteis para o diagnóstico. Fadiga Dor Torácica A dor torácica pleurítica pode ocorrer com certas DPIs colagenovasculares ou induzidas por drogas, enquanto a dor torácica pleurítica aguda com dispneia pode representar um pneumotórax espontâneo em associação com a linfangioleiomiomatose, a esclerose tuberosa, a neurofibromatose ou a histiocitose de células de I.angerhans. Desconforto subesternal é mais comum na sarcoidose. Dor precordial, do tipo anginosa, relacionada aos esforços, pode estar presente na hipertensão pulmonar, uma complicação das afecções intersticiais avançadas. Hemoptise Sugere uma síndrome hemorrágica alveolar difusa, lúpus eritematoso sistêmico, linfangioleiomiomatose, granulomatose de Wegener ou síndrome de Goodpasture; ela é rara em outras DPls. Em pacientes com DPI existente, a hemoptise nova deve provocar Pneumologia: Doença pulmonar intersticial Igor Mecenas consideração sobre uma malignidade superposta, embolia pulmonar ou infecção como aspergilose. Outros Cianose periférica, baqueteamento, sinais de hipertensão pulmonar e cor pulmonale (hiperfonese da segunda bulha no foco pulmonar, sopro de refluxo tricúspide e edema de membros inferiores) ou os sinais e sintomas de uma doença sistêmica subjacente costumam ser tardios e relacionados a estágios avançados das doenças. Anamnese Outras informações, de fundamental importância diagnóstica, obtidas na anamnese, incluem: Sexo: a linfangioleiomiomatose, doença caracterizada pela proliferação de músculo liso no parênquima pulmonar e formação de cistos, ocorre apenas em mulheres em idade fértil. O acometimento pulmonar nas colagenoses, exceto na artrite reumatóide, também predomina no sexo feminino. Por outro lado, as doenças relacionadas a exposições ocupacionais são mais comuns entre os homens. Idade: a fibrose pulmonar idiopática, que representa o protótipo das pneumonias intersticiais idiopáticas, ocorre usualmente após os 50 anos. Já as doenças intersticiais relacionadas a colagenoses, sarcoidose, histiocitose pulmonar de células de Langerhans e linfangioleiomiomatose predominam entre os 20 e 40 anos. Duração dos sintomas: embora as pneumopatias intersticiais sejam classicamente vistas como condições crônicas, apresentações agudas são típicas na pneumonia intersticial aguda, na pneumonia organizante e na pneumonite por hipersensibilidade. Quadros subagudos podem ser observados nas reações a agentes e nas colagenoses. Por fim, progressão ao longo de meses caracteriza fibrose pulmonar idiopática e sarcoidose, entre outras. Tabagismo: a doença intersticial associada à bronquiolite respiratória, à pneumonia intersticial descamativa e à histiocitose pulmonar de células de Langerhans ocorrem quase exclusivamente em fumantes. O tabagismo constitui fator de risco também para a fibrose pulmonar idiopática. A sarcoidose e a pneumonite por hipersensibilidade, por sua vez, são mais prevalentes entre os não fumantes. Outros sintomas: devem ser pesquisadas ativamente queixas extrapulmonares sugestivas de doenças do tecido conjuntivo como artrite, artralgias, dor ou fraqueza muscular, fotossensibilidade, espessamentos ou erupções cutâneos, fenômeno de Raynaud, ressecamento de mucosas, entre outros, assim como queixas dispépticas e condições que favoreçam a broncoaspiração crônica (disfagia, demência, restrição ao leito etc.). Antecedentes patológicos: os antecedentes de doenças prévias como as colagenoses são de grande importância, assim como o uso atual ou pregresso de medicamentos. Deve-se questionar ainda sobre histórico de neoplasias pulmonares e extrapulmonares e exposição a quimio ou radioterapia. Esses fatores podem direcionar o diagnóstico para complicações como linfangite carcinomatosa, pneumonite actínica ou toxicidade aos fármacos. Exposições: Observar ainda se a latência entre a exposição e o início do quadro é compatível com a de doenças ocupacionais. Igualmente importantes são as exposições ambientais no domicílio ou em atividades de lazer, em especial a fontes de antígenos orgânicos como aves, locais com mofo, materiais de pinturas, entre outros. História familiar: algumas pneumopatias intersticiais apresentam caráter hereditário como as relacionadas a doenças de depósito (p. ex., doença de Gaucher), assim como casos de agrupamento familiar de fibrose pulmonar idiopática já foram demonstrados. Exame Físico Assim como a anamnese, o exame físico deve incluir avaliação detalhada dos demais sistemas em busca de alterações que possam facilitar o diagnóstico diferencial, particularmente nas pneumopatias associadas a doenças sistêmicas. Ausculta Pulmonar Em alguns pacientes, o primeiro indício pode ser a observação de estertores grosseiros (crepitantes) à ausculta dos pulmões, geralmente em ambas as bases. Estas crepitações grosseiras devem ser distinguidas dos estertores mais finos típicos da insuficiência cardíaca oudo edema pulmonar não cardiogênico. Diversamente dos pacientes com doença pulmonar obstrutiva, sibilos não são comuns. Um histórico de sibilos sugere a coexistência oculta de vias aéreas hiperativas/obstrução ao fluxo aéreo, e levanta a possibilidade de aspergilose broncopulmonar alérgica, síndrome de Churg-Strauss, pneumonia eosinofílica crônica, ou infecção parasitária. Tratamento Quando a causa da DPI é claramente conhecida (p. ex., pneumonite de hipersensibilidade aguda/subaguda, DPI ocupacional, iatrogênica), é essencial o afastamento adicional do agente ou agentes causadores. Embora corticosteroides sistêmicos sejam geralmente indicados e sejam associados como boa resposta para algumas DPls, a posologia e duração não estão claras e são essencialmente baseadas na experiência de casos descritos. A suplementação de oxigênio de suporte é ditada pelas necessidades clínicas. Para pacientes selecionados com DPls terminais, como as associadas com importante fibrose pulmonar e hipertensão pulmonar. o transplante de pulmões pode ser uma opção exequível e viável. Fibrose Pulmonar Idiopática A fibrose pulmonar idiopática (FPI) se caracteriza como uma doença pulmonar fibrosante progressiva, de evolução variável, restrita aos pulmões, e que está classificada dentro das pneumopatias intersticiais idiopáticas. Apesar da realização de grandes avanços nos últimos anos, que permitiram um maior entendimento da fisiopatologia da doença, além do estabelecimento de critérios diagnósticos mais restritos e da aprovação de duas medicações antifibrosantes (pirfenidona e nintedanibe) para seu tratamento, existem diversos aspectos relacionados que precisam ser otimizados, especialmente no Brasil. Critérios diagnósticos definidos em diretrizes recentes incluem a exclusão de potenciais causas de pneumopatias intersticiais e a definição de padrão morfológico de pneumonia intersticial usual (PIU) na TCAR ou em combinações específicas de padrões na TCAR e biópsia cirúrgica. A caracterização de padrões típicos de PIU na TCAR apresenta alta concordância com a biópsia cirúrgica em múltiplas séries (90-100%), sendo que, atualmente, um diagnóstico imagenológico confiável de padrão PIU é considerado suficiente para a confirmação desse padrão morfológico, dispensando a realização de biópsia cirúrgica. Epidemiologia É a pneumonia intersticial idiopática mais comum, e o protótipo das doenças pulmonares restritivas. Discretamente mais prevalente em homens (20,2/100 mil) que em mulheres (13,2/100 mil), incide em indivíduos com idade superior a 50 anos, sendo que 2/3 dos pacientes têm mais de 60 anos. Sua prevalência, estimada em torno de 30 casos por 100.000 pessoas, aumenta vertiginosamente com a idade, afetando mais de 100 indivíduos por 100.000 pessoas com idade igual ou superior a 75 anos. Apesar dos diferentes tipos de evolução clínica, a FPI está associada a um mau prognóstico, com uma sobrevida mediana de dois a cinco anos. Os fatores de risco ambientais mais significativos relacionados ao desenvolvimento da FPI são tabagismo e exposição à poeira de metais. A transmissão genética da doença é identificada em torno de 5% dos casos. Ainda não há dados robustos de incidência, prevalência e mortalidade da FPI no Brasil, o que, além da importância epidemiológica, é fundamental do ponto de vista econômico para que sejam previstos os custos com sua abordagem, uma vez que existem drogas aprovadas para tratar a doença. Existe ainda no Brasil um limitado número de centros de referência capacitados para a abordagem das doenças pulmonares intersticiais. Patogenia Embora os agentes causadores da FPI permaneçam desconhecidos, nossos conceitos de patogenia evoluíram ao longo dos anos. A noção anterior era de que a FPI era iniciada por uma agressão não identificada que originava uma inflamação crônica resultando em fibrose. O triste insucesso da terapia anti- inflamatória potente na alteração do curso da doença não sustentava essa visão. O conceito atual é que a FPI é causada por “ciclos repetidos” de ativação/lesão epitelial por algum agente não identificado. Ocorrem inflamação e indução de uma resposta de células T de tipo TH2 caracterizada pela presença de eosinófilos, mastócitos, IL-4 e IL-13 nas lesões. Porém a significância desta resposta inflamatória é desconhecida. O reparo epitelial anormal nesses locais origina proliferação fibroblástica/miofibroblástica exuberante, levando aos “focos fibroblásticos”, que são tão característicos da FPI. Os circuitos que acionam este reparo epitelial aberrante não são totalmente compreendidos, mas todas as evidências apontam para TGF-β1 como acionador do processo. Sabe-se que TGF-β1 é fibrogênico e é liberado das células epiteliais alveolares de tipo I lesadas. Ele favorece a transformação de fibroblastos em miofibroblastos e a deposição de colágeno e outras moléculas da MEC. O conceito de que existe uma anormalidade intrínseca do reparo tissular na FPI é sustentada pelo achado de que alguns pacientes com fibrose pulmonar familiar apresentam mutações que encurtam os telômeros. Lembre-se que os telômeros controlam replicações celulares e, com encurtamento dos telômeros, as células epiteliais alveolares sofrem senescência rápida e apoptose. Curiosamente, TGF-β1 regula negativamente a atividade da telomerase, consequentemente facilitando a apoptose de células epiteliais e o ciclo de morte e reparo. Outra molécula regulada por TGF-β1 é a caveolina-1, a proteína estrutural predominante das cavéolas, invaginações em forma de cantil da membrana plasmática presentes em muitas células de diferenciação terminal. A caveolina-1 atua como inibidor endógeno da fibrose pulmonar, limitando a produção de MEC induzida por TGF-β1 e restaurando os processos de reparo epitelial alveolar. A caveolina-1 está diminuída nas células epiteliais e nos fibroblastos de pacientes com FPI, e a superexpressão de caveolina-1 em um modelo de camundongos limita a fibrose. Esta infrarregulação pode ser mediada pela capacidade de o TGF-β1 atenuar a expressão de caveolina-1 em fibroblastos. Portanto, parece que TGF-β1 deixa suas marcas em múltiplas vias que regulam a fibrose pulmonar. Quadro Clínico O início dos sintomas é gradual, com dispneia progressiva e tosse improdutiva, eventualmente paroxística. De modo geral, a dispneia está presente nos meses que antecedem a apresentação do doente para consulta médica. Sintomas constitucionais são raros. O exame físico mostra baqueteamento digital em 25 a 50% dos casos. Estertores crepitantes, em “velcro”, ao final da inspiração e predominantes em bases pulmonares é um achado quase universal. Sinais de falência de ventrículo direito ocorrem somente em fase avançada da doença. Diagnóstico Radiografia Opacidades reticulares periféricas, predominando nas bases, associadas a faveolamento e redução dos campos pulmonares são achados radiográficos comuns. Doença muito incipiente pode apresentar radiografia normal. Espirometria A prova de função pulmonar mostra padrão restritivo, com redução das capacidades vital e pulmonar total, além de fluxos pulmonares normais ou elevados em relação aos volumes pulmonares. A alteração mais precoce é a redução da difusão pulmonar de CO. Pacientes tabagistas com algum grau de enfisema podem, ocasionalmente, ter prova de função pulmonar menos típica, com padrão restritivo menos evidente, mas mantendo a redução difusional. Tomografia A tomografia de tórax de alta resolução (TCAR) mostra padrão reticular bilateral, predominantemente basal/subpleural, associado a distorção arquitetural, faveolamento (cistos subpleurais) e bronquiectasias de tração. As porções mais altas e centrais dos pulmões, em geral, estão poupadas. Se presente, o vidro fosco não deve ser a característica mais evidente. Consolidações e nódulos devem estar ausentes. Na presença dessas características,a certeza do diagnóstico de IPF corresponde a mais de 90% dos casos. O papel primordial da TCAR é separar pacientes com achados típicos de IPF daqueles com achados menos característicos. Broncoscopia e Biópsia O lavado broncoalveolar (LBA) e a biópsia transbrônquica (BTB) têm utilidade limitada, pois não permitem um diagnóstico histológico definitivo, servindo apenas para excluir doenças infecciosas, neoplásicas e outras pneumopatias intersticiais (sarcoidose, fibrose pulmonar por microaspiração crônica, pneumonia organizante, pneumonia eosinofílica e histiocitose de células de Langerhans). Embora inespecífico, o achado mais comum no lavado é o aumento dos neutrófilos (>5%) – ocorre em 70 a 90% dos pacientes. Pode ocorrer aumento discreto de eosinófilos (>5%), mas quando estes estão acima de 20% ou linfócitos acima de 15%, o diagnóstico de FIP torna-se improvável. A biópsia cirúrgica só é necessária em pacientes cujos dados clínicos ou tomográficos são atípicos. A expressão histopatológica da FIP é a pneumonia intersticial usual (UIP), caracterizada por heterogeneidade temporal, com áreas de fibrose pulmonar densa, remodelamento da arquitetura pulmonar e faveolamento, de permeio a focos fibroblásticos e áreas de parênquima pulmonar pouco alterado. O padrão UIP também pode ocorrer em colagenoses, pneumonia por hipersensibilidade crônica, asbestose, toxicidade por agentes, entre outras. A biópsia por videotoracoscopia é uma opção de menor morbidade. Quadro clínico-tomográfico típico permite diagnóstico de alta probabilidade sem necessidade de biópsia. O Quadro II contém os critérios para diagnóstico sem amostragem histológica em pacientes imunocompetentes. Critérios para Caracterização Tomográfica A aplicação de níveis de certeza para a definição tomográfica do padrão PIU é recomendada nas diretrizes atuais, sendo descritos três padrões: • Padrão PIU típico • Padrão PIU possível • Padrão inconsistente com PIU No primeiro, a biópsia cirúrgica não é recomendada. Os últimos requerem correlações histopatológicas. A correta percepção tomográfica de faveolamento é um passo crucial na definição de padrão PIU típico e diagnóstico clínico-imagenológico de FPI. Critérios para diagnóstico de faveolamento devem ser aplicados e são definidos como: A. Cistos entre 3-10 mm agrupados, compartilhando paredes relativamente espessas (1-3 mm); e B. Disposição em camadas usualmente em situação subpleural, assegurando-se de que não há definição de enfisema. Com a acentuação dos achados na TCAR, áreas de vidro fosco usualmente progridem para opacidades reticulares e essas, por sua vez, para faveolamento, que aumenta em extensão e tamanho ao longo do tempo. Deve-se ressaltar que a interpretação tomográfica é dinâmica, e, em pacientes com curso progressivo, é possível que resultados de TC inicialmente diagnosticados como padrão PIU possível evoluam temporalmente para padrão PIU típico. Padrão Inconsistente com PIU Dentre as características desse padrão, temos: a) doença de distribuição longitudinal nos campos pulmonares médios e superiores; b) predomínio peribroncovascular das alterações no eixo axial; c) padrão em vidro fosco desproporcional (maior extensão que as opacidades reticulares); d) micronódulos esparsos, bilaterais, predominando em campos pulmonares superiores; e) cistos (múltiplos, bilaterais, dissociados das áreas de fibrose); f) padrão de perfusão em mosaico/aprisionamento aéreo, bilateral, em mais de três lobos; e g) consolidações Os achados descritos nesse padrão devem suscitar a busca por diagnóstico diferencial, vários deles remetendo a pneumonite de hipersensibilidade crônica (PHC). Padrão PIU Típico O padrão PIU típico apresenta opacidades reticulares de predomínio periférico e basal, associado a faveolamento, estando presentes ou não bronquiolectasias de tração. Não devem estar presentes nenhuma das alterações descritas no padrão inconsistente com PIU. Havendo preenchimento de todos esses critérios, os achados são considerados patognomônicos para PIU, dispensando a correlação com a biópsia cirúrgica. É importante pontuar que o padrão morfológico PIU e FPI não são sinônimos, sendo conhecidas inúmeras causas determinando esse padrão. Padrão PIU Possível O padrão PIU possível apresenta opacidades reticulares de predomínio periférico e basal, sem faveolamento ou alterações descritas no padrão inconsistente com PIU. No padrão possível, a especificidade para diagnóstico de PIU é menor, e o principal diagnóstico diferencial a ser considerado é a pneumonia intersticial não específica (PINE) fibrótica. Ausência de faveolamento, maior extensão de padrão em vidro fosco, preservação relativa do interstício subpleural (subpleural sparing) e redução volumétrica de lobos inferiores são fatores que favorecem o diagnóstico de PINE. O faveolamento é raro na PINE, sendo observado em menos de 5% dos pacientes estudados em uma série de pacientes com PINE idiopática. Tratamento [Cecil] O tratamento inclui pelo menos 3 meses de administração de corticosteróides – prednisona 0,5 a 1 mg/kg/dia, com resposta parcial e transitória em 10 a 30% dos pacientes. Se houver melhora clínica, radiológica ou funcional, pode-se manter a dose de 15 a 20 mg/dia de prednisona. Não há vantagem demonstrada em realizar pulsoterapia com metilprednisolona. A azatioprina 100 mg/dia representa uma alternativa para pacientes sem resposta aos corticosteróides ou com intolerância aos seus efeitos colaterais, pois mostrou resposta positiva em pequenos ensaios não- controlados. A dose pode ser aumentada 50 mg a cada 2 semanas até o máximo de 200 mg/dia. O risco- benefício do uso dos imunossupressores deve ser calculado para cada paciente, dada a baixa expectativa de ganho com o tratamento. Os resultados clínicos desanimadores com o uso de corticosteróides e o prognóstico geral desfavorável estimulam ensaios clínicos em outras frentes. Em estudo duplo-cego, placebo-controlado e aleatorizado, a pirfenidona (inibidor da síntese de colágeno) melhorou desfechos secundários em 9 meses (melhora da capacidade vital e redução de exacerbações). O acréscimo ao tratamento usual (prednisona e azatioprina) de N-acetilcisteína na dose de 600mg 3 vezes/dia, durante 12 meses, também mostrou lentificação da perda de capacidade vital forçada e da difusão de monóxido de carbono, em estudo aleatorizado e controlado realizado em 36 centros de 6 países europeus. Quando disponível, o transplante de pulmão é uma alternativa no tratamento da FIP. Um único pulmão transplantado melhora a sobrevida em 75%, em comparação aos pacientes na lista de espera. Diretriz da SBPT Nintedanibe O fármaco nintedanibe foi inicialmente desenvolvido como um inibidor dos receptores de VEGF e de FGF, visando sua aplicação em doenças oncológicas. Entretanto, como a substância inibe os receptores de PDGF, essa foi também investigada como terapia para a FPI. O nintedanibe inibe, de modo competitivo, as tirosinoquinases, o que justifica seu amplo potencial de ações, tais como interferir na proliferação e migração de miofibroblastos e fibroblastos, assim como na deposição de matriz extracelular. Evidências mais recentes indicam que o nintedanibe ainda pode reduzir a produção do TGF-β, inibir a formação de redes de fibrinas de colágeno e estimular a produção da proteína D do surfactante. Um estudo clínico de fase II e dois estudos clínicos de fase III avaliaram os efeitos do uso de nintedanibe na dose-alvo de 150 mg duas vezes ao dia, por 52 semanas, no ritmo de queda da CVF. Nas doses recomendadas para o tratamento da FPI, os efeitos adversos mais comuns do fármaco estão relacionados com o trato gastrointestinal, particularmente diarreia de intensidade variável que, nos estudos clínicos originais, acometeu aproximadamente 62% dos participantes que utilizaram a medicação. Para pacientescom FPI, nós sugerimos usar nintedanibe (recomendação condicional; qualidade de evidência moderada). Portanto, os resultados obtidos se aplicam, primariamente, a pacientes que preencham os mesmos critérios de seleção desses estudos. Esses estudos não incluíram pacientes com FPI muito inicial (DLCO ≥ 80%) ou muito avançada (CVF < 50% do previsto e/ou DLCO < 30%). Portanto, os efeitos do fármaco nesses dois grupos de pacientes ainda não estão bem caracterizados. Além disso, com base nos artigos selecionados, não se pode determinar a eficácia e segurança do fármaco em longo prazo, uma vez que a duração máxima dos estudos incluídos aqui foi de 52 semanas. A recomendação feita implica que usar esse fármaco é a conduta certa a ser tomada em 50-95% dos casos. Pirfenidona A pirfenidona é um fármaco que tem ação anti- inflamatória e antifibrótica que atua nos receptores de TNF-α e TGF-β, bem como na modulação da oxidação celular. Em última análise, o fármaco inibe a proliferação de fibroblastos com consequente redução da síntese e deposição de colágeno. Três estudos, em análise combinada, demonstraram uma redução da queda de CVF, em percentual do previsto, com a dose-alvo de 2.403 mg/dia, assim como a redução do risco de progressão da doença. Nos cinco ensaios clínicos, os eventos adversos foram mais comuns no grupo que recebeu pirfenidona, relacionando-se principalmente à pele (rash e fotossensibilidade) e ao trato gastrointestinal (náuseas, dispepsia e perda de apetite). Para pacientes com FPI, nós sugerimos usar pirfenidona (recomendação condicional; qualidade de evidência baixa). Os resultados obtidos se aplicam a pacientes que preencham os mesmos critérios de inclusão desses estudos, ou seja, aqueles com doença de grau leve a moderada. Os estudos em questão não incluíram pacientes com FPI com alteração funcional muito inicial (DLCO ≥ 90%) ou muito avançada (CVF < 50% do previsto ou DLCO < 30%), ou ainda com idade superior a 80 anos. Adicionalmente, com base nos resultados encontrados, não se pode determinar o impacto do fármaco em termos de eficácia e segurança em longo prazo, uma vez que a duração máxima dos estudos incluídos foi de 72 semanas. A recomendação determinada implica que usar a pirfenidona é a conduta correta a ser feita em 50-95% dos casos. Inibidores da Fosfodiesterase-5 Os inibidores da fosfodiesterase-5 (iFD-5) estabilizam o monofosfato de guanosina cíclico, segundo mensageiro do óxido nítrico, o que leva à vasodilatação pulmonar. A vasodilatação produzida pelo fármaco parece ter preferência pelo tecido pulmonar bem ventilado, o que poderia melhorar a relação ventilação-perfusão e as trocas gasosas em pacientes com FPI. Além disso, a hipertensão pulmonar é um achado comum em pacientes com FPI, associando-se a maior morbidade e mortalidade. Os iFD-5 disponíveis no mercado são sildenafil, tadalafil e vardenafil; porém, somente o sildenafil foi testado em pacientes com FPI. Três estudos clínicos, sendo apenas dois deles randomizados, avaliaram o efeito do sildenafil em pacientes com FPI avançada. O desfecho primário utilizado sempre foi a mudança na DT6, a qual não foi atingida em nenhuma das investigações. O tratamento com sildenafil também não exibiu impacto sobre as taxas de exacerbações e mortalidade. Para pacientes com FPI, nós sugerimos não usar iFD-5 (recomendação condicional; qualidade de evidência moderada). Antagonistas de Receptores da Endotelina Embora a patogênese da FPI não esteja completamente elucidada, a endotelina-1, potente vasoconstritor e fator de crescimento, já foi relacionada ao processo fibroproliferativo da doença. As endotelinas exibem potente atividade proliferativa sobre células mesenquimais e podem induzir diferenciação celular, aumentando a síntese e a deposição de componentes da matriz extracelular, bem como sua contratilidade. Dois ensaios clínicos avaliaram a eficácia do uso de bosentana em comparação a placebo em pacientes com FPI. Não foram detectados efeitos significativos do fármaco sobre o desfecho primário, DT6, nem sobre o ritmo de progressão da doença, qualidade de vida ou intensidade da dispneia. Finalmente, um estudo que investigou os efeitos da ambrisentana em pacientes com FPI, em comparação com placebo, foi interrompido precocemente quando uma análise interina mostrou que os pacientes exibiram mais frequentemente critérios de progressão funcional e maior número de internações respiratórias. Para pacientes com FPI, nós recomendamos não usar antagonistas de receptores da endotelina (recomendação forte; baixa qualidade de evidência). N-Acetilcisteína A N-acetilcisteína (NAC) é um fármaco precursor da glutationa, antioxidante hidrossolúvel presente na maioria das células do organismo. Uma possível contribuição do estresse oxidativo na progressão da FPI fez com que estudos fossem desenvolvidos no sentido de avaliar se o uso desse fármaco poderia restaurar os níveis pulmonares de glutationa. Dessa forma, a NAC poderia retardar a evolução da doença. Um estudo multicêntrico, duplo cego e placebo controlado avaliou o uso de NAC oral em associação a corticosteroide e azatioprina comparado com placebo. Os participantes que receberam a combinação de NAC, azatioprina e corticosteroide tiveram redução significativa do ritmo de queda da CVF e da DLCO. Por outro lado, estudos utilizando monoterapia com NAC por via inalatória ou oral, comparada a placebo, não demonstraram diferenças significativas na evolução da função pulmonar ou de outros desfechos clínicos. Para pacientes com FPI, nós sugerimos não usar N- acetilcisteína (recomendação condicional; baixa qualidade de evidência). Corticosteroides A hipótese atualmente mais aceita na patogênese da doença consiste em uma agressão e dano epitelial alveolar seguidos de liberação de mediadores pró- fibróticos, com reparação anormal, proliferação miofibroblástica e deposição de colágeno, sem inflamação evidente. O conceito atual de FPI foi estabelecido em 2000 e, desde então, nenhum ensaio clínico controlado foi realizado envolvendo monoterapia com corticosteroides nessa população de pacientes. Para pacientes com FPI, nós não temos evidências suficientes para recomendar ou não recomendar o uso de corticosteroides. Tratamento Farmacológico Antirrefluxo Gastroesofágico O refluxo gastroesofágico (RGE) é altamente prevalente nos pacientes com FPI e, apesar de não haver evidências de uma relação causal até o momento, a aspiração crônica é considerada um fator de risco para a progressão e exacerbação da doença. A importância das microaspirações do conteúdo gástrico na patogenia da doença ainda não está estabelecida; entretanto, há descrições de casos anedóticos de estabilização e de melhora clínica e funcional em pacientes com FPI após o tratamento farmacológico e/ou cirúrgico do RGE. Diretrizes internacionais recentes sugerem o uso de terapia antiácida regular para todos os pacientes com FPI, mas com muito baixa qualidade da evidência. Até o momento, não existem na literatura ensaios clínicos com desenho e número adequado de voluntários que avaliem o uso rotineiro de fármacos voltados ao tratamento de RGE em pacientes com FPI, independentemente de referirem sintomas ou não. Para pacientes com FPI, não temos evidências suficientes para recomendar ou não recomendar o uso de tratamento farmacológico anti-RGE.