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U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 1 LIBRAS LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 3 LIBRAS LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS Profª Drª Izabelly Brayner Educação a Distância Universidade Católica de Pernambuco EaD UNICAP U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 5 UNIVERSIDADE CATÓLICA DE PERNAMBUCO - UNICAP Reitor Prof. Dr. Pe. Pedro Rubens Ferreira Oliveira, S. J. Pró-reitor Administrativo Prof. Msc. Márcio Waked de Moraes Rêgo Pró-reitor Comunitário Prof. Dr. Pe. Lúcio Flávio Ribeiro Cirne, S. J. Pró-reitor de Graduação e Extensão Prof. Dr. Degislando Nóbrega de Lima Pró-reitora de Pesquisa e Pós-graduação Profª. Dra. Valdenice José Raimundo UNICAP DIGITAL Diretor Prof. Dr. Pe. Carlos Jahn, S. J. Assessor de EaD Prof. Msc. Valter Avellar Assessora Pedagógica Profa. Msc. Larissa Petrusk Designers Instrucionais Esp. Fernanda Silveira Msc. Flávio Santos Analista de Sistemas Prof. Msc. Flávio Dias Secretário Msc. Valmir Rocha ____ Correção Ortográfica Prof. Msc. Fernando Castim Diagramação Msc. Flávio Santos EDIÇÃO 2020 Rua do Príncipe, 526 - Bloco C - Salas 302 a 305 Boa Vista - Recife-PE - Cep: 50050-900 Telefone +55 81 2119.4335 PALAVRA PROFES SORA U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 7 Olá, estudante! Seja bem-vindo (a) à disciplina Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS. É com muita satisfação que iniciamos os estudos desta língua ganha que maior amplitude a cada ano. Tal alcance pode ser atribuído a dois importantes acontecimentos nos últimos anos: o primeiro, em 2017, com a escolha do tema “Desafios para a formação educacional de surdos no Brasil” no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem); o segundo, a eleição presidencial de 2018. Todos os presidenciáveis, em seus pronunciamentos, incluíram um profissional intérprete/tradutor de LIBRAS. Esses acontecimentos trouxeram visibi- lidade às questões da comunidade surda usuária da LIBRAS, pois mesmo participando do sistema educacional e de vários ambientes sociais a (in)visibilidade da Língua de Sinais no Brasil ainda é algo alarmante deixando alguns questionamento na população: Que língua é essa? Quem é beneficiado com essa língua? Quem são esses profissionais? Dessa forma, entendemos que o estudo da LIBRAS vai além do apren- dizado de uma nova língua. As discussões e reflexões sobre LIBRAS deve abrir a sua mente para uma comunidade que partilha o mesmo espaço que nós, ouvintes, e que usa outro meio de comunicação. É preciso entender as principais diferenças entre a LIBRAS e a língua portuguesa brasileira, é perceber a importância da aquisição da LIBRAS para a constituição da pessoa surda, entender as características da pessoa surda e perceber suas potencialidades, provocando assim, um efeito em larga escala na nossa sociedade que luta diariamente para diminuir as barreiras comu-nicacionais do nosso país. Conto com você para aventurar-se nesta viagem fabulosa que se inicia agora. Podemos dar início a nossa conversa? Então, vamos lá! OBJE TIVOS COMPE TÊNCIAS U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 9 UNIDADE I – Identidade, conhecimento e visualidade Objetivo Geral: Estudo dos aspectos básicos da Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS, em contextos de comunicação inicial, através de atividades práticas; desmistificação de ideias e mitos relativos à surdez, ao surdo e à Língua de Sinais; Competências • Desenvolver habilidades básicas de comunicação em LIBRAS, de modo a evidenciar atitudes inclusivas relacionadas ao âmbito profissional e social; • Reconhecer e problematizar as representações culturais sobre os surdos, a surdez e a LIBRAS; U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 11 1. COMUNICAÇÃO EM LIBRAS: ALFABETO MANUAL DA LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS “Enquanto houver dois surdos no mundo e eles se encontrarem, haverá o uso dos sinais.” Schuyler Long A Língua Brasileira de Sinais, língua que vamos caracterizar nesta disciplina, vem ganhando espaço na sociedade por conta dos diversos movimentos surdos em prol de seus direitos espalhados por todo o país. É uma luta de vários anos que distingue a comunidade surda da maioria da população brasileira, ouvinte, por sua cultura e língua própria. Por isso, no decorrer dos anos, os surdos foram oprimidos pela sociedade majoritária, estabelecendo padrões a serem seguidos que não valorizavam as potencialidades da pessoa surda. Assim, após anos de muitas batalhas, a comunidade surda conquistou o direito de usar a língua que lhe possibilita uma melhor comunicação e compreensão da sociedade. A Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS – é a língua sinalizada utilizada no Brasil pelas comunidades surdas de todo território nacional. Como a língua portuguesa, a LIBRAS não possui uma localização geográfica específica, sendo difundida e usada por todo o país, especialmente nos grandes centros urbanos, onde se encontra a maior concentração de surdos que partilham os mesmos espaços educacionais, associações, espaços culturais, praças, igrejas, entre outros. Dessa forma, as palavras, as sentenças e os sentidos da LIBRAS são sinalizados através das mãos, corpo e face, o que torna esta língua diferente da língua portuguesa. Antes de aprofundarmos o aprendizado da temática desta aula, preci- samos esclarecer alguns pontos importantes para uma sinalização clara e eficiente. • Primeiro passo: você sabe o que é uma língua visoespacial? Brito (1995) conceitua as línguas sinalizadas através das mãos e o canal de compreensão é a visão. • Segundo passo: sabe com qual mão vai sinalizar? A sinalização pode acontecer com a mão direita ou com esquerda, a escolha é do sinalizante (é importante estar atento para não oscilar as mãos no momento da sinalização para não prejudicar o discurso); • Terceiro passo: e, qual o espaço utilizado na sinalização? No momento da sinalização, imagine-se dentro de um quadro, afinal, estamos tratando de uma língua em que o canal de compreensão é a visão. É preciso respeitar o campo de alcance da visão de quem está interagindo conosco, como no exemplo a seguir: 12 LI B R A S - L ín g u a B ra si le ir a d e S in ai s No espaço detalhado na figura 01, são produzidos os sinais da LIBRAS. Esse espaço é essencial para a produção e execução da língua; assim, é fundamental que ele seja bem utilizada. Portanto, a LIBRAS é uma língua que apresenta todos os aspectos linguísticos, como: • Unidades mínimas (fonemas) que se associam para estruturar os sinais. • Padrões prosódicos que são demonstrados através das expressões faciais e/ou corporais. • Os sinais se combinam para formar os enunciados. A partir das informações descritas, poderemos dar nosso primeiro passo para executarmos o primeiro conteúdo prático da LIBRAS: o alfabeto manual. O alfabeto manual da LIBRAS são as formas das mãos que representam as letras do alfabeto da língua portuguesa. Você sabe em quais situações podemos utilizar a datilologia do alfabeto manual? A LIBRAS não se limita ao alfabeto, por isso o uso dessa categoria semântica está restrito a dois aspectos específicos: • Nomes próprios: o alfabeto manual serve para sinalizarmos nomes próprios, localidades ou palavras que não possuem um sinal específico, pois, através da datilologia, ou seja, a soletração das palavras (obedecendo a ordem da escrita do português, por meio da sinalização do alfabeto manual). • Estratégia linguística: a datilologia pode ser utilizada se você esqueceu um sinal ou não conhece o sinal; assim, é possível realizar a soletração da palavra e descobrir o sinal correto. Vamos conhecer o alfabeto da LIBRAS? Na figura 02, tente observar as semelhanças e diferenças entre os formatos das letras. Figura 01: espaço de realização dos sinais Fonte: Ferreira-Brito & Langevin, 1995, p. 215. U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 13 Vamostreinar? Lembre-se: a repetição leva à precisão na execução e na fluência. Treine seu nome, o nome dos amigos da sala virtual, dos parentes... e perceba que temos semelhanças sutis nas letras do alfabeto, como: • As letras |A| e |S| - a diferença entre elas é o posicionamento do polegar, |A| se posiciona da lateral e o |S| se localiza no meio da mão; • As letras |F| e |T| - a diferença também é o polegar, no entanto a letra |F| vai se posicionar na frente do indicador, e na |T| atrás do indicador; • As letras |G| e |Q| - a diferença está no posicionamento da mão, a letra |G| para cima e |Q| para baixo; • As letras |H|, |K| e |P|- as três letras possuem o mesmo formato, o que difere entre elas são os movimentos, como podemos observar na figura 02. INSERIR QRCODE OU INSERIR LINK DE VÍDEO YOUTUBE As demais letras são distintas uma das outras, observe o posicionamento e o momento da execução. Após a execução do seu nome, iremos treinar nossa apresentação pessoal e como perguntar o nome de alguém. Veja os exemplos: Figura 02: Alfabeto manual da LIBRAS Fonte: Capovilla (2019, p. 17) Alfabeto Manual. Acesse o vídeo por meio do QR-Code ou pelo link: https://youtu.be/0xOgnXS-toE 14 LI B R A S - L ín g u a B ra si le ir a d e S in ai s Exemplo 1: NOME SEU QUAL (expressão de indagação) Exemplo 2: MEU NOME I-Z-A-B-E-L-L-Y Perceba que na LIBRAS a ordem da pergunta é invertida, como é uma língua visoespacial, a expressão facial será um elemento gramatical., Como a LIBRAS não possui pontuação, a expressão terá essa responsabilidade, por esse motivo, a ordem das frases é invertida. Outra informação importante na apresentação pessoal em LIBRAS é o sinal pessoal. Você tem um sinal pessoal? Caso não tenha, fique tranquilo(a), ensinarei como você pode conseguir;, se possuir, agregue a sua apresentação pessoal. Mas, o que é o sinal pessoal? Quando nascemos, nossos pais ou responsáveis escolhem nosso nome, o nome é pessoal, é nossa identidade e não pode ser mudado, exceto em caso de determinação judicial. Na LIBRAS, o nome é substituído por um sinal, pois a modalidade da língua não permite o uso do nome na língua portuguesa, por isso, culturalmente, a comunidade surda instituiu o sinal pessoal. Normalmente o sinal é escolhido a partir de uma característica individual ou por seu jeito de ser. A comunidade surda batiza surdos e ouvintes ao longo dos anos, por isso, assim que você conhecer um surdo, peça que ele o batize. Você poderá apresentar-se da seguinte forma: Com o avanço da tecnologia, podemos ter um dicionário acessível que faz a tradução da língua portuguesa para a LIBRAS. O aplicativo (que pode ser obtido tanto em Android, quanto em iOS) chama-se Hand Talk, nele você conhecerá o Hugo e poderá se divertir aprendendo novos sinais. Nome IZABELLY. Acesse o vídeio por meio do QR-Code ou utilize o link: https://youtu.be/L8wh4dGdJrM U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 15 Exemplo 3: MEU NOME I-Z-A-B-E-L-L-Y MEU SINAL... A partir das imagens do primeiro alfabeto manual publicado, você consegue estabelecer semelhanças e diferenças com o alfabeto manual da LIBRAS (fig. 02)? A publicação de Juan Pablo Bonet serviu de inspiração para a criação do alfabeto manual ao redor do mundo, por isso as semelhanças com o formato das mãos de algumas letras. Então, vamos treinar? Uma boa estratégia para a execução dos sinais é realizá-los em frente ao espelho; dessa forma, você conseguirá visualizar a realização dos sinais e perceber onde está errando, ou como pode melhorar a postura e as expressões. Mãos na LIBRAS e vamos sinalizar! 2. COMUNICAÇÃO EM LIBRAS: SAUDAÇÕES E CUMPRIMENTOS No tópico anterior, iniciamos os estudos de sinalização do alfabeto manual. Agora daremos outro passo importante no aprendizado da LIBRAS, com as saudações e cumprimentos. Afinal, como se inicia uma conversa sem uma saudação? Uma das dicas primordiais para adquirir fluência na língua estudada é imbuir-se dos hábitos, cultura e expressões para contextos específicos. A primeira publicação do alfabeto manual foi feita por Juan Pablo Bonet (1579-1620). Ele publicou o primeiro livro sobre surdos com o título “Reduccion de las letras y arte para enseñar a hablar a los mudos”. Na sequência, teremos algumas imagens do primeiro alfabeto manual. Juan Pablo Bonet (1579-1620) 16 LI B R A S - L ín g u a B ra si le ir a d e S in ai s Toda língua possui um ritual de saudações e cumprimentos. Na LIBRAS, não é diferente. Dependendo do contexto, a saudação poderá ser formal ou informal, contendo símbolos específicos para cada uma dessas situações. Em nosso país, quando conhecemos uma pessoa ou somos apresentadas umas às outras, falamos nosso primeiro nome e, na sequência, nos cumprimentos (aperto de mão – contexto formal, e/ou beijo(s) – contexto informal). E na LIBRAS, como faremos? O aperto de mão e/ou o beijo acontece normalmente. É importante lembrar o caráter visual desta língua sinalizada. Felipe (2007) informa que, na comunidade surda, ao cumprimentar, deve-se executar a datilologia do seu nome e apresentar o sinal pessoal, que foi dado pela comunidade ou um amigo surdo. Você conhece as principais saudações em LIBRAS? Na figura 1 teremos as três principais saudações utilizadas em nosso dia a dia. Perceba como são executados os sinais de DIA, TARDE e NOITE. O conceito de variação linguística é aplicado na LIBRAS? Sim, como qualquer outra língua, a LIBRAS possui variação linguística, com fatores extralinguísticos que afetam a língua. Dependendo da região, história e cultura do povo, os sinais podem sofrer variação. Dessa forma, os sinais acima são utilizados na região nordeste do Brasil. Figura 01: Sinais de cumprimentos em LIBRAS Fonte: Capovilla (2019). BO@ NOITE BO@ TARDE BO@ DIA U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 17 A partir desses vocabulários, vamos treinar os dois tipos de situações: formal e informal? É possível perceber nos dois diálogos algumas diferenças importantes: 1. A inversão dos elementos – sujeito + verbo + objeto: essa é uma característica da gramática da LIBRAS; 2. O |@| ao final de algumas palavras: significa que você pode utilizar o feminino e/ou o masculino; 3. O uso da interrogação: na LIBRAS, a pontuação não é utilizada., Quando encontrá-la no texto, significa que a expressão de questiona- mento deve ser usada; 4. Uso da palavra “intensificado” após o verbo: deve-se executar o sinal com intensidade no movimento e na expressão. Nesta aula, tivemos dois desafios: o primeiro foi pesquisar as variações linguísticas dos sinais: BO@ DIA, BO@ TARDE e BO@ NOITE e o segundo foi treinar os dois diálogos (situação formal e informal). Em caso de dificuldade em alguns itens lexicais, não deixe de consultar o dicionário ou o aplicativo vLibras. Situação Formal A: BO@ DIA B: BO@ DIA A: POR FAVOR, DIA AULA? B: AMANHÃ TARDE A: NOME PROFESSOR@ AULA QUAL? B: ANGELA A: OBRIGAD@ B: POR NADA Situação Informal A: OI, TUDO BOM? B: OI, TUDO BOM! A: SAUDADE VOCÊ SUMIR! B: TRABALHAR (INTENSIFICADO) A: EU ESTUDAR (INTENSIFICADO) B: TCHAU EU ATRASAD@ A: TCHAU, BO@ TRABALHAR B: TCHAU, BO@ ESTUDAR Pesquise como são sinalizados os sinais: BO@ DIA, BO@ TARDE e BO@ NOITE, nos estados de: Rio Grande do Sul, São Paulo e Bahia e perceba as variações. Em seguida, partilhe sua pesquisa com os seus colegas de sala. 18 LI B R A S - L ín g u a B ra si le ir a d e S in ai s Nesta aula, aprendemos a sinalização das saudações e cumprimentos. Você encontrará mais vocabulário no vídeoaula disponível no AVA (Ambiente Virtual de Aprendizagem). Continue treinando para adquirir a precisão e fluência na sinalização. Abraço sinalizado. O VLibras é uma ferramenta responsável pela tradução de textos, áudios, vídeos do Português para a LIBRAS. Ele pode ser usado em computadores, celulares e páginas da WEB. Este aplicativo é fruto de uma parceria do entrea Secretária de Tecnologia da Informação e a Universidade Federal da Paraíba. O uso dele em nossas aulas será pertinente, pois encontraremos um número mínimo de variação linguística. O objetivo dessa tecnologia é diminuir as barreiras comunicacionais do nosso país, para os ouvintes, que poderão acessá-lo quando tiver alguma dúvida nos sinais, e para os surdos que, através do VLibras, terão acesso aos diferentes conteúdos que circulam em nossa sociedade em língua portuguesa, na sua língua materna, a LIBRAS. U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 19 3. MITOS SOBRE A SURDEZ, A PESSOA SURDA E A LIBRAS Você saberia responder às seguintes perguntas sobre a LIBRAS? a. É uma língua? b. Possui gramática? c. Essa língua possui escrita? d. Todos os surdos fazem leitura labial? e. A surdez é hereditária? Se não conseguiu responder, não se preocupe, os questionamentos acima são exemplos de alguns mitos que envolvem a LIBRAS. São narrativas disseminadas e cultivadas ao longo dos anos. Essas crenças fazem com que a maioria da população brasileira propague informações incorretas com relação à Língua Brasileira de Sinais. No entanto, Gesser (2009) publicou um livro com o título “LIBRAS, que língua é essa?” na tentativa de esclarecer questões específicas com relação à surdez, à pessoa surda à LIBRAS. Assim, refletiremos agora sobre os principais mitos apresentando a explicação científica. A primeira questão que precisamos esclarecer é: a LIBRAS é uma língua natural? Sim. Ela surgiu do convívio e da necessidade de comunicação das pessoas surdas. O seu status de língua, segundo Honorato (2009, p. 41) está atrelado [...] à complexidade e à expressividade das línguas orais, pois pode ser passado qualquer conceito, concreto ou abstrato, emocional ou irracional [...]. Trata-se de línguas organizadas e não de simples junção de gestões. Por este motivo, por terem regras e serem totalmente estruturadas, são chamadas de LÍNGUAS [...]. Como mencionamos anteriormente, a LIBRAS possui a modalidade visoespacial. Se fizermos uma comparação com a língua portuguesa, para cada palavra teremos a representação de símbolo específico, por isso é mito achar que a LIBRAS é gesto ou mímica. De forma prática: como você acha que é o sinal da palavra CORAÇÃO em LIBRAS? Agora, pesquise na internet ou no Hand Talk como o sinal é executado. Você vai se surpreender, pois o sinal não tem nenhuma relação com o que pensou. Isso faz da LIBRAS uma língua independente da língua portuguesa. As Línguas de Sinais são universais? Se você respondeu “sim”, leia com atenção: nenhuma língua é universal., 20 LI B R A S - L ín g u a B ra si le ir a d e S in ai s Cada país tem a sua própria estrutura gramatical, regras, expressões idiomáticas, aspectos linguísticos. Dessa forma, como não temos uma língua oral universal, também não é possível nas línguas sinalizadas. O surgimento de uma língua envolve aspectos culturais e interesses comuns. Por esse motivo, os surdos brasileiros utilizam a LIBRAS, enquanto os surdos americanos a ASL – língua de sinais americana, cada país possui sua língua sinalizada. O Brasil é um país plurilíngue, além da língua portuguesa, temos outras línguas circulantes, como: a LIBRAS, as línguas de heranças dos imigrantes, as diferentes línguas indígenas e a Língua de Sinais Urubus Kaapor. Sim! Os índios também possuem uma língua sinalizada específica. Será que as línguas de sinais possuem escrita? A LIBRAS possui a modalidade escrita? Sim! A primeira forma de escrita de sinais surgiu nos Estados Unidos, SignWriting (é o sistema de escrita gestual ou escrita de sinais), criada por uma bailarina chamada Valerie Sutton. A partir dos passos de danças, ela criou os parâmetros para a escrever a Língua de Sinais Americana – ASL, esses estudos chegam ao Brasil em 1996 e, de forma tímida e gradativa, expandem-se no nosso país (BARRETO, 2012). Vamos continuar? A LIBRAS é regida por uma gramática própria? Depois de todas as informações apresentadas até o momento, acredito que sua resposta é “sim”. A LIBRAS possui uma gramática com regras específicas, além dos aspectos linguísticos que representam as línguas sinalizadas. Mesmo os países que utilizam a mesma língua, Brasil e Portugal, por exemplo, utilizam as línguas de sinais são diferentes. Os primeiros estudos brasileiros sobre a escrita da Língua de Sinais foram realizados em 1996 pelos professores Dr. Antônio Carlos da Rocha Costa, Dra. Marianne Stumpf (surda) e a Dra. Márcia Borba, na Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS). A ideia principal da escrita de sinais é projetar o sinal (a partir dos parâmetros) no papel, como mostra o exemplo do léxico CASA: Sinal em LIBRAS – CASA Escrita de sinais - CASA U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 21 Com relação à surdez, também podemos elencar alguns mitos. Você acha que todo surdo vive em um silêncio absoluto? Existem duas considerações importantes para esse mito: 1 Nenhuma pessoa é totalmente sem audição, não escuta absolutamente nada, as surdas possuem resíduos auditivos. 2 O uso de aparelho auditivo por surdos não garante a boa compreensão da língua oral. Esse recurso tecnológico pode trazer benefícios, mas, dependendo dos resíduos, a pessoa surda não compreenderá a língua oral. Então, todo surdo faz leitura labial? Alguns surdos são excelentes leitores labiais, mas essa é uma habilidade que é aprendida através da terapia fonoaudiológica. Por isso, a maioria dos surdos não faz leitura labial. É comum, ao encontrar um surdo, iniciar uma conversa falando mais alto e devagar. Saiba que pode não adiantar, pois mesmo que você grite, ele não está escutando e pode não realizar uma leitura labial que seja efetiva para a comunicação. Por que a maioria dos surdos não consegue desenvolver a linguagem oral? O desenvolvimento da fala está ligado à audição. Como o surdo possui esse sentido comprometido, não consegue passar da fase do balbucio para a produção das palavras. Então o surdo não fala (em sua maioria), por não estar escutando. Existem várias doenças que podem causar a surdez. Carmozine (2012) refere que a hereditariedade representa 5% dos casos de surdez do nosso país. A doença que mais provoca a surdez é a rubéola. O vírus se instala nos três primeiros meses da gravidez, estágio em que o aparelho auditivo está em desenvolvimento. Com o vírus instalado, ocorre uma desordem na formação da audição, oca-sionando a surdez. QUADROS, Ronice Müller de. Língua de sinais brasileira: estudos linguísticos. [reimpr. 2007]. Porto Alegre: Artmed, 2004. 22 LI B R A S - L ín g u a B ra si le ir a d e S in ai s Existem outros mitos, como: 1. Deficiente auditivo, surdo ou surdo-mudo, qual o termo correto? 2. O uso da LIBRAS atrapalha o aprendizado do aluno surdo? 3. O intérprete de LIBRAS é a voz do surdo? 4. A Língua Brasileira de Sinais é o alfabeto manual? 5. Qual a diferença entre o professor de Libras e o intérprete de Libras? Deixo essas perguntas para que você possa pesquisar e partilhar com seus colegas de sala nos fóruns de interação. É importante sermos multiplicadores de informações corretas. Que, a partir deste material didático, possamos diminuir os preconceitos com relação a surdez, a pessoa surda e a LIBRAS, além de minimizar as barreiras comunicacionais. 4. CONHECENDO A SURDEZ: CONCEITO, DIAGNÓSTICOS E RECURSOS TECNOLÓGICOS Até o momento, aprendemos duas categorias semânticas importantes para a sinalização em LIBRAS e alguns mitos com relação à surdez, à pessoa surda e a LIBRAS. Mas, afinal, o que é a surdez? Antes de entrar no tema surdez, vamos fazer o caminho inverso: o que é ouvir? Pense um pouco sobre as habilidades envolvidas no ato de ouvir. Poderíamos elencar muitas funções exercidas pela nossa audição. Agora conheça o seu aparelho auditivo: Pode ser complicado quando visualizamos todo o sistema auditivopela primeira vez, no entanto, utilizando uma linguagem objetiva, o ato de ouvir se dá pela seguinte forma: Figura 04: Anatomia e fisiologia da orelha Fonte: Google. U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 23 o som ambiente é captado pelo pavilhão auricular, que conduz o som através do canal auditivo; ao chegar à membrana timpânica, o estímulo sonoro vibra e permanece a vibrar através dos ossículos, chegando a janela oval, que conduz este estímulo sonoro para a cóclea; ela é constituída por um canal espiral, no qual encontram-se as células ciliadas, elas tem a função de reconhecer o estímulo sonoro e desenvolve-lo para um impulso nervoso, que será enviado pelo nervo auditivo para ser identificado (CARMOZINE, 2012, p. 14). Após essa explicação, percebemos que a nossa audição executa várias funções que culminam na nossa comunicação. Um alerta importante quanto à preservação da nossa audição: desde a antiguidade até os dias atuais, não existe nenhuma cirurgia ou medicamento que possa trazer a audição para os padrões de normalidade. Uma vez perdida, não temos como recuperá-la. Assim, a American National Standards Institute (ANSI, 2012) conceitua a surdez como a diferença existente na habilidade normal para a percepção. Elas podem variar desde dificuldades em ouvir sons (agudos e graves) ou entender a fala até a completa ausência de reconhecimento sonoro. Você sabe identificar uma surdez? Por meio da audiometria, esse exame avalia o grau da sua audição. É a partir desse e outros exames complementares que é realizado o diagnóstico da surdez. A audiometria é o exame principal, é com ele que o avaliador conseguirá estabelecer os limites entre a normalidade e o grau de surdez que o sujeito apresenta. A audição é medida em decibel (dB), que é a unidade de medida do som, no intervalo de 0 a 25 dB a audição é considerada normal, de 26 a 40 dB o sujeito apresenta um perda auditiva de grau leve, de 41 a 70 dB é uma perda auditiva moderada, de 71 a 90 dB é perda auditiva severa e acima de 91 dB temos uma perda auditiva profunda (LOPES FILHO, 1997). Além da audiometria, que é um exame extremamente importante, existem outros que auxiliam o diagnóstico, como o teste da orelhinha, que é uma triagem auditiva neonatal, é obrigatório e gratuito desde 2010 (Lei 12.303/2010), devendo ser realizado alguns dias após o nascimento da criança. Segundo Carmozine (2012), o exame deve ser realizado com a criança dormindo em sono natural, não causa dor, dura cerca de 10 (dez) minutos e não há contraindicações para a sua realização. Agora que sabemos quais os principais exames para realização do Aproximadamente 90% das crianças brasileiras com surdez em grau severo e profundo são filhas de pais ouvintes. 24 LI B R A S - L ín g u a B ra si le ir a d e S in ai s Grau da perda auditiva Limiar auditivo (em decibéis dB) Habilidades de ouvir e falar Sem perda auditiva 0 - 25 dB Sem dificuldades aparentes. Leve 26 - 40 dB Dificuldades em ouvir a fala e conversas em intensidade fraca, especialmente em situações com ruídos, mas entendem bem em ambientes silenciosos. Moderada 41 – 70 dB Dificuldades em entender a fala, especialmente na presença de ruído de fundo, é necessário aumentar o volume para entender Tv e rádio. Severa 71 – 90 dB Não compreende a fala, mesmo falando em um volume alto, só sendo viável a compreensão através da amplificação. Profunda Acima de 91 dB Mesmo com amplificação é difícil a compreensão. Quadro 01: Comparação do grau de perda auditiva e as habilidades de ouvir e falar Fonte: Carmozine (2012) diagnóstico da surdez, como ela acontece? Você consegue citar uma doença que causa a surdez? Conhece alguma? Para Casanova (1997), existem dois tipos principais de surdez: condutiva e sensorioneural. As perdas condutivas interferem na passagem do som da orelha média para a interna, em sua maioria são corrigidas com tratamento clínico ou cirúrgico. Enquanto as sensório-neural, ocorrem quando há uma impossibilidade de recepção do som por lesão das células ciliadas, da cóclea ou do nervo auditivo, esse tipo de surdez é irreversível. Uma dúvida muito comum é como a surdez pode interferir nas habilidades auditivas e de fala? Depende do grau de surdez que o sujeito apresenta, por isso, sintetizamos as principais informações no quadro 01. Doenças que causam a surdez: 1. Perdas condutivas: Cerúmen ou corpos estranhos; otites; perfuração da membrana timpânica. 2. Perdas Sensório-neural: a. Pré e Perinatais: hereditariedade; rubéola; sífilis; fator RH; desnutrição; alcoolismo materno; prematuridade; traumas durante o parto; anóxia. b. Pós-natais: meningite; sarampo; caxumba; drogras totóxicas; traumas físicos. U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 25 A partir dos dados do quadro 01, percebemos que, desde a surdez no nível moderado até o pronfundo, há um prejuizo na audiçao e, consequentemente, na fala. De forma a minimizar os efeitos negativos da surdez. Os pesquisadores no mundo todo estudam tecnologias que possam recuperar a audição. Você conhece algum recurso tecnológico que auxilie a audição? Atualmente, temos dois dispositivos principais que exercem essa função: o aparelho de amplificação sonora (AASSI) e o implante coclear. O AASI é um dispositivo eletrônico que seleciona os sons que o sujeito deseja ouvir: é composto de três elementos: microfone, amplificador e receptor. Pode tornar o som mais audível, oferecendo um conforto auditivo em ambientes com ou sem a presença de ruídos (LOPES FILHO, 1997). É importante destacar que nenhum aparelho auditivo resolve ou restaura completamente a audição. O implante coclear (IC) é uma tecnologia semi-implantável na orelha. É um precedimento cirurgico que visa a estimular o nervo auditivo e permitir a sensação da audição. É recomendável a crianças e adultos com surdez do tipo sensório-neural de grau severo a profundo, e que não sejam beneficiados com o uso do AASI. Após essas explicações, você percebeu que o aparelho auditivo é complexo e que uma perda, mesmo que leve, acarreta prejuízos no ato de ouvir e compreender. Figura 05: Exemplo e AASI Figura 06: Exemplo de Implante Coclear Por que uma pessoa que nasce surda apresentará dificuldades para desenvolver a fala? 26 LI B R A S - L ín g u a B ra si le ir a d e S in ai s 5. LÍNGUA BRASILEIRA DE SINAIS – LIBRAS: CARACTERÍSTICAS E PARTICULARIDADES O que você vê na imagem acima? Uma mão grande saindo da direção a boca, sem olhos e os cabelos encaracolados de forma a escrever a palavra mother. Se você descreveu características parecidas com essas, entendemos que a LIBRAS irá permutar de lugar com a língua oral. Por isso precisamos entender a diferença entre as duas línguas. Agora iremos entender sobre a estrutura e aspectos específicos da LIBRAS, antes de mergulharmos neste oceano de conteúdo. Antes de continuar, segue uma pergunta: Qual é o significado de LIBRAS? a) Linguística Brasileira de Sinais b) Linguagem Brasileira de Sinais c) Língua Brasileira de Sinais d) Literatura Brasileira de Sinais Antes que você responda, deixe-me te informar que essa questão já caiu em provas de concurso para o cargo de professor de LIBRAS. Tenho certeza que de você marcou a letra C (Língua Brasileira de Sinais). Caso tenha assinalado a letra B, não se preocupe, é aceitável. Por muitos anos, a LIBRAS foi considerada uma linguagem, no entanto, após a sanção da Lei 10.436/2002, recebeu o status de língua. Há algum problema em escrever a sigla da nomenclatura Língua Brasileira de Sinais, LIBRAS ou Libras? Problema nenhum. As duas formas são admissíveis, com base nas normas da ABNT siglas pronunciáveis (com mais de 5 (cinco) letras) podem ser escritas com todas as letras em maiúsculo ou a primeira letra em maiúsculo e o restante em minúsculo. Quem são os usuários da LIBRAS? A LIBRAS é a língua utilizada pelas comunidades surdasbrasileiras. No entanto, entende-se por usuários, todas as pessoas surdas e ouvintes que Categoria: Artes Plásticas País: Estados Unidos Obra: “ASL – Mother” Línguas: Inglês e American Sign Language (ASL) U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 27 usam, apoiam e divulgam a LIBRAS. Apesar de tratar de um conteúdo novo, você já conhece uma característica da LIBRAS. Mencionamos no tópico 1 que a modalidade dessa língua é visoespacial, o que difere da língua portuguesa, que possui a modalidade oral-auditiva, ou seja, expressamos através da fala e compreendemos pela audição. É importante destacar que as línguas de sinais são baseadas nas experiências visuais da comunidade surda mediante suas interações. Na língua portuguesa, as palavras são constituídas através dos sons, na LIBRAS é por meio dos sinais. Assim, toda língua tem regras e padrões, e para entendermos sua organização, foi construído um quadro comparativo com a língua portuguesa. O painel facilitará sua compreensão e possibilitará que você estabeleça as semelhanças e diferenças entre as duas línguas. Língua Portuguesa LIBRAS Oral-auditiva Visoespacial Apresenta artigo, preposições, conectivos e elementos de ligação. Não apresenta artigo, preposição, conectivos e elementos de ligação. Os verbos são conjugados: presente, passado e futuro. Os verbos estarão sempre no infinitivo, por isso, nas frases, é necessário o uso do advérbio de tempo para quando ocorrer a ação. Apresenta a marcação de gênero: feminino e masculino. Não apresenta marcação de gênero. As estruturas das frases, em sua maioria, obedecem à ordem: sujeito- verbo-objeto. A estrutura das frases, em sua maioria, não obedecem à ordem: sujeito-verbo-objeto. O plural é identificado pelo “S” ao final das palavras. O plural é identificado pela repetição do sinal (ênfase no movimento e expressão facial) Possui acentuação e pontuação. Não possui acentuação e pontuação (essa última será expressa através da expressão facial) Quadro 02: Comparação entre os aspectos estruturais da LIBRAS e da língua portuguesa Fonte: Felipe (2007). 28 LI B R A S - L ín g u a B ra si le ir a d e S in ai s Ficou surpreso(a) com tanta informação? Qual(is) aspectos causou um impacto maior? É assim que precisamos compreender a LIBRAS. Por ser uma língua manual, os elementos a que estamos acostumados na língua portuguesa não pode ser estabelecido na língua de sinais, como: artigos, conectivos, preposições, entre outros. A estruturação da LIBRAS leva em consideração a visualidade e, adicionando os seus parâmetros: a transmissão de ideias e fatos, uma estrutura própria e que surgiu da necessidade de comunicação das comunidades surdas brasileiras. Lembra que, nas considerações iniciais, mencionei que faríamos uma viagem fabulosa? Após essas explicações, você está começando a entender a língua e se familiarizando com a sua estrutura gramatical. Não se esqueça de colocar tudo isso em prática com os vocabulários aprendidos nos conteúdos 1 e 2. O quadro 1 trouxe várias informações importantes, mas como se configura o sistema pronominal da LIBRAS? De acordo com Felipe (2007), o sistema pronominal representa as pessoas do discurso. Percebam que o quadro 1 expõe que, na LIBRAS, não temos marcação de gênero, então, como devo realizar a sinalização? Muito simples. Lembra que a língua é visoespacial? A compreensão é através da visão, por esse motivo, os pronomes são realizados 6. REVISANDO Nas formas que representam o singular, o sinal é o mesmo para todas as pessoas (eu, tu, ele ou ela): Em libras, as frases seguem a estrutura abaixo? SUJEITO + VERBO + OBJETO Não. Essa sequência é utilizada para as respostas afirmativas curtas, a maioria das sentenças na LIBRAS se organiza da seguinte forma: OBJETO + SUJEITO + VERBO Por que, os elementos são invertidos? Seria mais fácil se fosse igual à língua portuguesa? Seria, sim, mas lembre que estamos tratando de modalidades distintas de língua, então quando (FELIPE, 2007) apresenta esse tipo de estrutura frasal, a autora está levando em consideração os aspectos citados no quadro 1, além da compreensão do sinalizador nos diferentes tipos de frases: afirmativa, negativa, interrogativa e exclamativa. U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 29 As formas plurais serão representadas com formato dos numerais em LIBRAS: dual (sinal com o formato do número 2), trial (sinal com o formato do número 3), quatrial (sinal com o formato do número 4) e quando a referência for para o plural, utilizamos o sinal que representa o TODOS ou GRUPO. Você já se convenceu que a LIBRAS é uma língua com estrutura gramatical própria. Então, como toda e qualquer língua, ela também possui as variações linguísticas? Exatamente, as línguas de sinais apresentam diferentes tipos de variações: regional, social e históricas. 1. Variações regionais: representam os sinais que mudam de uma região para outra no país. No exemplo a seguir, temos o sinal do léxico VERDE utilizado em três estados diferentes. 2. Variações sociais: representam as variações no formato da mão (configuração) e/ou movimento do sinal, mas que não altera o seu sentido. No exemplo a seguir, temos o sinal do léxico AJUDAR em dois formatos distintos. 3. Variações históricas: o passar dos anos, os avanços tecnológicos, a inserção dos surdos ao meio acadêmico têm proporcionado um estudo cada vez mais aprofundado da LIBRAS e com ele as alterações decorrentes dos costumes culturais da comunidade surda. No exemplo Sinal usado RSSinal usado SPSinal usado RJ Fonte: Capovilla (2019). Fonte: Capovilla (2019). Formato da mão direita fechada Formato da mão direita aberto 30 LI B R A S - L ín g u a B ra si le ir a d e S in ai s de variações históricas, temos o sinal do léxico CACHORRO, na fig. 1, sinal antigo e não mais usado pela comunidade surda, na fig. 2 o sinal que usamos atualmente. A partir desses exemplos, desafio você a realizar uma pesquisa elencando os sinais que correspondam às variações regionais, sociais e históricas. Na sequência compartilhem com seus colegas, assim teremos um acervo vasto para as nossas consultas. Outra característica importante da LIBRAS é a iconicidade e a arbritariedade que a língua possui. O que isso significa? Por exemplo, se você tivesse que sinalizar o sinal léxico: TELEFONE e CORAÇÃO. Como sinalizaria? Tenho certeza de que varia algo semelhante aos gestos que comumente utilizamos no nosso cotidiano. No entanto, quando tratamos da iconicidade, Brito (1995) refere ser a produção de uma imagem. Por exemplo, uma pessoa ou a fotografia de um objeto. Quando estamos nos referindo aos sinais, a sua realização é motivada pelas características do referente. Mas isso não é uma regra. A maioria dos sinais em LIBRAS não possui a característica icônica. O grande acervo de sinais da LIBRAS é arbitrário, ou seja, não mantém nenhuma semelhança com o referente, como nos exemplos abaixo. Assim, a partir das características apresentadas, percebemos que a LIBRAS é uma língua que apresenta uma complexidade linguística como Sinal icônico - TELEFONE Sinal arbitrário - CORAÇÃO Sinal antigo Sinal usado na atualidade Fonte: Capovilla (2019). Fonte: Capovilla (2019). U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 31 as línguas orais. Para finalizarmos a unidade 1, desafio você, a sinalizar algumas expressões idiomáticas em LIBRAS. Sabe os provérbios, os jargões, algumas palavras específicas que possuem uma carga cultural na língua portuguesa. Como poderemos traduzi-las para a LIBRAS? No entanto, essa tradução precisa transmitir o sentido correto. Parece difícil? Mas não é! Perceba que, nesta aula, fizemos questão de mostrar a diferença entre a LIBRAS e a língua portuguesa. Portanto, no processo de tradução de uma língua para outra precisamos estar atentos ao sentido e não às palavras; no casodas expressões idiomáticas, iremos atentar ao sentido concreto da informação e não à ideia abstrata, metafórica que o enunciado propõe, por exemplo: Para finalizamos nossa aula, deixarei como expressões idiomáticas para vocês pensarem em como poderíamos sinalizá-las: • Água mole em pedra dura tanto bate até que fura. • Preciso tirar a água do joelho. • Você fala pelos cotovelos. • Ele bateu as botas. • Precisamos ficar com as barbas de molho com ela. • Aqui é assim, uma mão lava a outra. Lembrem-se de estar atentos ao sentido e não às palavras, boa sinalização. 7. SINTETIZANDO Nesta unidade, tivemos o nosso primeiro contato com a LIBRAS, aprendemos as duas principais categorias semânticas que nos possibilitam a sinalização dos cumprimentos e nosso apresentação pessoal, com esse acervo de vocabulário, você pode tentar uma conversa com uma pessoa surda e até conseguir um sinal pessoal em LIBRAS, caso não tenha. Além disso, também aprendemos alguns mitos com relação à surdez, à pessoa surda e à Língua de Sinais, que vêm sendo disseminados ao longo dos anos, o que consolida, na comunidade ouvinte, informações errôneas, provocando, assim, barreiras linguísticas, sociais, interacionais, políticas e culturais entre surdos e ouvintes. Um dos primeiros passos no aprendizado da língua é apropriar-se dos conceitos e características da LIBRAS em seus mais varados contextos, tornando-nos responsáveis de sermos multiplicadores da informação correta. No mesmo viéis, conhecemos sobre a surdez: o que é, quais patologias ocasionam a surdez, os tipos de surdez, como fazer o diagnóstico e quais os recursos tecnológicos utilizados na atualidade que podem trazer alguma contribuição para os resíduos auditivos da pessoa surda. E, por fim, estudamos sobre a LIBRAS, quais são características desta língua, como a estruturamos na sinalização, quais as variações linguísticas que ela possui e seus aspectos icônicos e arbitrários. 32 LI B R A S - L ín g u a B ra si le ir a d e S in ai s Para finalizar nossa unidade, teremos nosso último desafio, aceitam? Vamos sinalizar? Situação – Encontro com amigo A: BO@ DIA B: BO@ DIA A: POR FAVOR, DIA AULA? B: AMANHÃ TARDE A: NOME PROFESSOR@ AULA QUAL? B: ANGELA A: OBRIGAD@ B: POR NADA U n iv er si d ad e C at ó lic a d e P er n am b u co 33 Referências ANSI: American National Standards Institute. Methods for calculation of speech intelligibility index. Washington: ANSI; 2012 BARRETO, M. Escrita de Sinais sem mistérios/ Madison Barreto, Raquel Barreto. – Belo Horizonte: Ed. Do autor, 2012. Brasil. Ministério da Saúde. Lei nº 12.303, de 2 de agosto de 2010. Dispõe sobre a obrigatoriedade de realização do exame denominado Emissões Otoacústicas Evocadas [Internet]. Diário Oficial da União; Brasília; 2010. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2007-2010/2010/lei/l12303.htm CAPOVILLA, F. C. Dicionário da Língua de Sinais do Brasil: A LIBRAS em suas mãos. Fernando César Capovilla, Walkiria Duarte Raphael, Janice Gonçalves Temoteo, Antonielle Cantarelli Martins. – 1, ed. 2. Reimpr. – São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 2019. CARMOZINE, M. M. Surdez e LIBRAS: conhecimento em suas mãos/ Michele <. Carmozine, Samanta C.C. Noronha. - São Paulo: Hub editorial, 2012. CASANOVA, J. Peña. Manual de Fonoaudiologia. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. FERREIRA-BRITO, L. Por uma gramática de línguas de sinais. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1995. 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