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Natalia Quintino Dias Eletrocardiograma FISIOLOGIA DA CONDUÇÃO ELÉTRICA MIOCÁRDICA Conceitos iniciais: despolarização e repolarização As células cardíacas têm um potencial elétrico de repouso (−90mV), pois possuem um transportador de membrana que “joga” 3 sódios (Na+) para fora das células e deixa “entrar” 2 potássios (K+) nas células, à custa de energia (ATP), gerando assim um gradiente elétrico com mais cargas positivas fora da célula. Nesse momento, considera-se a célula polarizada, pois existe uma face positiva em seu exterior e uma face negativa em seu interior. Despolarização= Quando a célula em seu potencial de repouso recebe um estímulo elétrico, ocorre a entrada de cargas positivas para o meio intracelular, causando inversão da carga elétrica da membrana. Se propaga de célula para célula, gerando uma corrente positiva. Repolarização= Para estar apta a uma nova despolarização, a célula se recupera eletricamente, retornando ao seu potencial de repouso com o restabelecimento da diferença de cargas. O ciclo cardíaco elétrico O nó sinusal (NS), localizado na porção alta do átrio direito, próximo à entrada da veia cava superior, dita a frequência cardíaca em situação de normalidade por possuir células que têm a capacidade de se despolarizar espontaneamente (automatismo). Por esse motivo, o vetor resultante da despolarização atrial é orientado para a esquerda e para baixo. O tecido especializado na condução elétrica é composto, nos átrios, pelos feixes internodais, e nos ventrículos, pelo feixe de His, ramo direito, ramo esquerdo com suas subdivisões e fibras de Purkinje. Após a despolarização dos átrios, o estímulo chega ao nó atrioventricular (NAV), que retarda a transmissão aos ventrículos para que eles tenham tempo suficiente de receber o débito atrial e garantir o volume sistólico adequado. O estímulo, então, percorre rapidamente os feixes de His, estimulando simultaneamente os ventrículos a partir do septo, seguido pelas paredes livres e finalmente pelas porções basais, o que resulta na contração miocárdica. O vetor resultante da despolarização ventricular orienta-se para a esquerda e para trás. Após a sístole ventricular, as células ventriculares se repolarizam, a fim de viabilizar nova despolarização no ciclo cardíaco seguinte. Como a repolarização atrial ocorre simultaneamente à despolarização ventricular (porção mais musculosa e, portanto, com maior carga elétrica), o fenômeno elétrico ventricular oculta o que ocorre no átrio no traçado eletrocardiográfico. Natalia Quintino Dias REPRESENTAÇÃO GRÁFICA DOS FENÔMENOS ELÉTRICOS No eletrocardiograma está representada a voltagem no eixo vertical pelo tempo no eixo horizontal, captada pelos eletrodos, que detectam a diferença de potencial. A velocidade padronizada do registro é de 25 mm/s; portanto, em 1 minuto são registrados 1.500 mm de traçado. Dessa forma, cada milímetro (quadradinho) na horizontal representa 40 ms e na vertical, 0,1 mV Onda P Morfologia: arredondada e pequena. Duração: 0,08−0,11 s. Amplitude: ≤ 2,5 mm. ONDA P = DESPOLARIZAÇÃO ATRIAL Orientação vetorial: para esquerda e para baixo. Intervalo PR Estende-se do início da onda P ao início do QRS. INTERVALO PR= TEMPO GASTO DA ORIGEM DO ESTÍMULO NO NÓ SINOATRIAL ATÉ SUA CHEGADA AOS VENTRÍCULOS Duração normal: 0,12−0,20 s. Complexo QRS Duração: 0,08−0,12 s. Amplitude: 5−20 mm (plano frontal) e 10−30 mm (plano horizontal) sem desvio do eixo COMPLEXO QRS= DESPOLARIZAÇÃO VENTRICULAR (SEPTO, PAREDES LIVRES E PORÇÕES BASAIS) Onda Q= quando a primeira onda do QRS é negativa em determinada derivação. Denomina-se onda R a primeira onda positiva (se houver uma segunda, será denominada R’) e onda S qualquer onda negativa que não seja a primeira do complexo. Ondas de maior amplitude são representadas por letras maiúsculas, e de menor amplitude, por letras minúsculas. Intervalo QT INTERVALO QT= SÍSTOLE VENTRICULAR (TEMPO TOTAL DA DESPOLARIZAÇÃO E REPOLARIZAÇÃO DOS VENTRÍCULOS) Varia de acordo com a FC. Onda T ONDA T= REPOLARIZAÇÃO VENTRICULAR Orientação: normalmente positiva e paralela ao complexo QRS na maior parte das derivações. Segmento PR e segmento ST Importância: desnivelamentos podem ocorrer em algumas patologias, portanto auxiliam no diagnóstico da síndrome coronariana aguda (infra ou supradesnivelamento de ST) e da pericardite aguda (infradesnivelamento de PR), por exemplo. Cálculo da FC FC = 1500/mm entre 2 ondas R (intervalo RR) OU FC= 300/”quadradão” OU FC= nº de QRS (em DII longo) x 6 Derivações e planos eletrocardiográficos Plano horizontal Natalia Quintino Dias No plano frontal, temos 6 derivações (D1, D2, D3, aVF, aVR e aVL) que fazem a leitura pelos eletrodos colocados nas extremidades dos membros. No plano horizontal encontramos as derivações precordiais (V1, V2, V3, V4, V5 e V6), que fazem a leitura pelos eletrodos colocados em pontos específicos do precórdio. SOBRECARGAS O aumento das câmaras cardíacas é decorrente da sobrecarga volêmica (produz hipertrofia excêntrica) ou pressórica (produz hipertrofia concêntrica). Causas de sobrecarga pressórica: HAS, hipertensão arterial pulmonar e estenoses valvares. Causas de sobrecarga de volume: insuficiências valvares. A sobrecarga ou aumento de câmaras pode gerar no ECG alterações da onda P e/ou do complexo QRS, com aumento de amplitude, duração ou desvio do eixo elétrico do vetor que representa um fenômeno específico. Sobrecargas atriais Normal= onda P positiva em D1 e aVF, todas com a mesma morfologia e precedendo cada QRS, com vetor SÂP entre 0 e +90. As melhores derivações para a análise da onda P são D2 (plano frontal) e V1 (plano horizontal). Sobrecarga atrial direita (SAD) Na SAD, o componente inicial da onda P fica mais amplo e, com isso, forma-se uma onda P pontiaguda com amplitude > 0,25 mV, desviando o SÂP para a direita e/ou para frente. Em V1, ocorre aumento da porção inicial positiva (> 0,15 mV). A morfologia pontiaguda é mais facilmente visualizada nas derivações D1, D2 e aVF no plano frontal. Natalia Quintino Dias Em casos de cor pulmonale crônico, pode-se observar a onda P “pulmonale”, que se desvia para a direita, além de +60°, tornando-se negativa em aVL e ampla em D2, D3 e aVF. Sobrecarga atrial esquerda (SAE) Na SAE, o componente final da onda P aumenta a duração (≥ 0,12 s), levando ao prolongamento dessa onda, eventualmente com a morfologia em “corcova”. Em V1, a onda P normalmente tem a morfologia isodifásica. Quando há aumento do átrio esquerdo, esse componente negativo em V1 aumenta, levando ao aparecimento do famoso sinal de Morris. As seguintes alterações da onda P indicam SAE: • Aumento de sua duração (≥ 0,12 s). • Ondas alargadas e com entalhe em D2 (corcova de camelo). • Onda P com componente negativo aumentado (lento e profundo) em V1. • Índice de Morris (onda P negativa em V1 ≥ 1 mm2) Sobrecarga biatrial Caracteriza-se pela apresentação simultânea de achados de SAD e SAE, com uma onda P com aumento de amplitude e, ao mesmo tempo, com duração aumentada. Natalia Quintino Dias Sobrecargas ventriculares O vetor representante do complexo QRS orienta-se para a esquerda e para trás. À medida que progride uma sobrecarga ventricular, deve ocorrer aumento da amplitude da câmara acometida e/ ou desvio do eixo elétrico do SÂQRS. Sobrecarga do ventrículo direito (SVD) Desvio do eixo do QRS para a direita (além de +90°) no plano frontal; ou seja, negativo em D1 (derivação esquerda) e positivo em aVR (derivação direita). Critérios de SVD: • Eixo do SÂQRS à direita de +110°. • Onda R ampla em V1 ou V2 e S profundas nasderivações opostas (V5 e V6). • Morfologia qR ou qRs em V1 ou em V1 e V2. • Padrão strain nas derivações direitas. • R V1 + S V5-V6 > 10,5 mm As patologias que causam SVD são: hipertensão do território arterial pulmonar e estenose valvar pulmonar (em algumas cardiopatias congênitas), com estreitamento da superfície que abre da valva pulmonar, que une o VD à circulação arterial pulmonar. QRS normal = negativo em V1 e V2 e + em V5 e V6 Sobrecarga do ventrículo esquerdo (SVE) Os critérios de SVE são: - Aumento da amplitude das ondas R nas derivações esquerdas e ondas S nas derivações direitas. - Alterações secundárias da repolarização do VE, ou seja, o segmento ST e a onda T se opõem ao QRS = strain (O padrão de strain ocorre porque o miocárdio ventricular fica tão espessado que a repolarização sofre esse “impacto”). Os principais critérios de SVE (Sokolow e Cornell) levam em consideração o aumento de amplitude nas derivações esquerdas, mas há outros critérios (Romhilt) que consideram achados adicionais, como a presença de SAE, o distúrbio de condução do ramo esquerdo e o desvio do eixo para a esquerda. Sokolow= Onda R em V5 ou V6 + onda S em V1 ou V2 > 35mm. Natalia Quintino Dias Sobrecargas biventriculares Normalmente ocorre desvio do eixo do QRS para a direita no plano frontal (SÂQRS > +90°) associado ao aumento da voltagem do QRS nas derivações precordiais, com critérios de SVE presentes de acordo com os índices de Sokolow ou de Cornell. Podem também ser encontrados amplos complexos RS nas derivações precordiais, grandes ondas R em V1 e grandes ondas S em V6 (SVD), bem como pronunciadas ondas R em V5/V6 e pronunciadas ondas S em V3 (SVE). Natalia Quintino Dias Bloqueios Quando os ventrículos são despolarizados pelo sistema de condução especializado composto pelo feixe de His e suas ramificações, o estímulo é propagado com maior velocidade. O feixe de His divide-se no ramo direito e no ramo esquerdo. O ramo esquerdo sofre mais uma subdivisão, suas porções anterossuperior, posteroinferior e anteromedial. Se, por acaso, o estímulo sofrer um atraso ou uma interrupção em sua via normal, a condução daquela região passará a ser mais lenta, com a corrente propagando-se de célula a célula. Essas alterações podem ocorrer por motivo estrutural ou funcional. Os bloqueios de ramo referem-se aos processos patológicos que atrasam ou interrompem a condução no ramo direito (BRD) ou no ramo esquerdo (BRE). Quando o problema ocorre nas subdivisões do ramo esquerdo, o termo usado é bloqueio divisional (BDAS, BDPI e BDAM). Bloqueio de ramo direito (BRD) No BRD, o estímulo que caminha pelo ramo esquerdo despolariza o septo e a parede livre do VE e somente depois ocorre a despolarização tardia e anômala do VD. Isso faz aparecer uma onda lenta direcionada para o VD, que aumenta a duração do QRS (> 0,12 s) e desvia o eixo do vetor SÂQRS para frente. A derivação mais representativa do que ocorre é V1 (uma das derivações direitas), onde aparece uma morfologia rSR’ que se assemelha a uma letra M, por conta da onda lenta de despolarização do VD. No plano frontal, observamos ondas S lentas em D1 – “onda S empastada” (espelho da onda R de aVR) e no plano horizontal, ondas S lentas em V6 (espelho da onda R’ de V1). Natalia Quintino Dias Critérios de BRD • QRS ≥ 0,12 s; • Desvio do eixo para frente (aparecimento de rSR’ ou rsR’ em V1); • Ondas S lentas em D1, aVL, V5 e V6; • Ondas qR em aVR com ondas R empastadas; • Eixo elétrico de QRS variável, tendendo para a direita no plano frontal. Quando ocorre uma pequena onda r’ em V1, que não torna a duração do QRS ≥ 0,12 s, dá-se o nome de distúrbio de condução do ramo direito ou atraso final de condução. Bloqueio de ramo esquerdo (BRE) Quando há BRE, o QRS perde sua morfologia polifásica característica e passamos a ver um QRS alargado, monofásico e um serrilhado que faz lembrar uma torre, sobretudo nas derivações esquerdas (D1, V5 e V6). Critérios de BRE • QRS alargado (≥ 0,12 s); • Ausência de q em D1, V5 e V6; • Ondas R alargadas (torre) em D1, aVL, V5 e V6; • Orientação do SÂQRS normal (esquerda e atrás), entre −30° e +60°; • Ondas S largas em V1 e V2; • Ondas T invertidas nas derivações esquerdas. Natalia Quintino Dias Para diferenciar os bloqueios de ramo: olhe para V1 e considere a alavanca para dar seta do carro: - Para dar seta para a direita, você desloca a alavanca para cima; portanto, se V1 estiver “positivo”, temos BRD. - Para dar seta para a esquerda, você desloca a alavanca para baixo; logo, se V1 “negativo”, temos BRE. Bloqueios divisionais Os bloqueios das divisões do ramo esquerdo atrasam o estímulo, porém sem causar o alargamento do QRS (< 0,12 s), e desviam o eixo em um dos planos (horizontal ou frontal). O que mais costuma cair em provas é o BDAS, que é também o mais frequente. É comum aparecer a coexistência de BRD com BDAS, encontrada na miocardiopatia chagásica. Bloqueio divisional anterossuperior (BDAS) Desvio do eixo para a esquerda (além de −30°) e para cima. Portanto, encontraremos ondas negativas tipo rS nas derivações inferiores (D2, D3 e aVF). A onda S em D3 é sempre maior que em D2 porque o eixo está mais próximo de −60° do que de −120°. No plano horizontal, observa-se redução da progressão de R em V1-V3 devido à orientação do QRS mais para trás do que o normal. Critérios BDAS • Eixo elétrico de QRS além de −30°; • rS em D2, D3 e aVF com S3 maior que S2; QRS com duração < 120 ms; • Onda S de D3 com amplitude maior que 15 mm (ou área equivalente); • qR em D1 e aVL com tempo da deflexão intrinsecoide maior que 50 ms ou qRs com “s” mínima em D1; • qR em aVL com R empastado; • Progressão lenta da onda r de V1 até V3; • Presença de S de V4 a V6. Natalia Quintino Dias Bloqueio divisional posteroinferior (BDPI) É sempre importante diferenciar de outras causas de desvio do eixo para a direita, como SVD, BRD e TEP, por exemplo. Critérios para BDPI • Eixo elétrico de QRS no plano frontal orientado • para a direita > +90°; • qR em D2, D3 e aVF com R3 > R2 e deflexão intrinsecoide > 50 ms; • Onda R em D3 > 15 mm (ou área equivalente); • Tempo de deflexão intrinsecoide aumentado em aVF, V5-V6 maior ou igual a 50 ms; • rS em D1 com duração < 120 ms, podendo ocorrer progressão mais lenta de “r” de V1 a V3; • Onda S de V2 a V6. Portanto, enquanto o BDAS desvia o eixo para a esquerda, o BDPI desvia para a direita.