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O DIREITO AMBIENTAL NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL ESTUDOS EM HOMENAGEM À MINISTRA CÁRMEN LÚCIA BELO HORIZONTE 2022 ORGANIZAÇÃO FELIPE MARTINS PINTO MARCELO AZEVEDO O DIREITO AMBIENTAL NO SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL ESTUDOS EM HOMENAGEM À MINISTRA CÁRMEN LÚCIA Copyright © Editora Instituto dos Advogados de Minas Gerais Copyright © Clio Gestão Cultural e Editora Todos os direitos reservados - 2022 Clio Gestão Cultural e Editora EDITORA EXECUTIVA: Tânia Maria Teixeira Melo Freitas DIAGRAMAÇÃO: Ludmila Andrade Rennó REVISÃO GERAL: Os organizadores REGISTRO E CATALOGAÇÃO: Gislene Rodrigues da Silva CONSELHO EDITORIAL DA CLIO GESTÃO CULTURAL E EDITORA: Profª. Drª. Adalgisa Arantes Campos - UFMG - Brasil Prof. Dr. Alfredo Morales - USE - Espanha Profª. Drª. Ângela Brandão – UNIFESP – Brasil Prof. Dr. Antônio Emílio Morga - UFAM - Brasil Pe. Mestre Carlos Fernando Russo - UP – Portugal Eng.º Mestre Fernando Roberto de Castro Veado – UFMG/IEPHA - Brasil Prof. Dr. Luiz Alberto Ribeiro Freire – UFBA - Brasil Prof. Dr. Luiz Carlos Villalta – UFMG - Brasil Prof. Dr. Magno Moraes Mello – UFMG - Brasil Profª. Drª. Mary del Priore - UNIVERSO - Brasil Prof. Dr. Saul António Gomes – UC - Portugal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Elaborada pela bibliotecária Gislene Rodrigues da Silva, CRB-6/MG 3293. D536 O direito ambiental no Supremo Tribunal Federal: estudos em Homenagem à ministra Cármen Lúcia / Felipe Martins Pinto; Marcelo Azevedo (org.). – Belo Horizonte: Clio Gestão Cultural e Editora, 2022. 328p. : 15,5x23 cm. ISBN: 978-65-89378-04-4 1. Direito ambiental. 2. Cármen Lúcia. 3. Supremo Tribunal Federal. I.Título. CDD – 344.046 CDU – 34:577.4 Clio Gestão Cultural e Editora - www.editoraclio.com.br Av. Álvares Cabral, 344, Sala 1701, Lourdes - Cep: 30170-001, Belo Horizonte, MG Contato: (31) 99757-4799 | E-mail: contatoclioeditora@gmail.com As ideias contidas neste livro são de responsabilidade do autor. Não expressam necessariamente a posição da editora. Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução, armazenamento ou transmissão de partes deste livro através de quaisquer meios, sem prévia autorização por escrito da editora e do autor. Sumário Nota do Presidente ..............................................................................7 Sobre os Autores ..................................................................................9 A aparente – mas não efetiva dicotomia entre interesse econômico e tutela socioambiental: breve análise da disputa dirimida no julgamento do caso “Raposa Serra do Sol” Werner Grau Neto Leticia Elizeu Duarte .........................................................................11 Afronta à autoridade das decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal em sede de controle concentrado da constitucionalidade do Código Florestal de 2012 Rebeca Stefanini Pavlovsky Maurício Pellegrino de Souza .............................................................27 Constitucionalismo Climático Délton Winter de Carvalho ................................................................41 Contribuições da Ministra Cármen Lúcia para a evolução do Direito Ambiental nas decisões do Supremos Tribunal Federal Eduardo de Campos Ferreira Claudia Hori ......................................................................................63 Criação e extinção de unidades de conservação da natureza: contribuições do Supremo Tribunal Federal Marcelo Azevedo .................................................................................85 Extensão da Responsabilidade Civil por dano ao meio ambiente no Brasil: a questão da imprescritibilidade José Alfredo de Oliveira Baracho Júnior ............................................117 Governança Ambiental:A Agenda Climática e a Pauta Verde do STF Natascha Trennepohl Isabelle Carvalho Gonçalves Laura Bianchini Leite ......................................................................133 1 2 3 4 5 6 7 Instrumentos para uma atuação resolutiva do Ministério Público: consensualidade e Acordos na Atuação do Ministério Público na Promoção da Responsabilização Cível e Criminal Terence Trennepohl Anna Karina Omena .......................................................................149 O direito ao Meio Ambiente Ecologicamente Equilibrado no Supremo Tribunal Federal José Adércio Leite Sampaio Christiane Costa Assis .......................................................................173 O mínimo existencial ecológico: sua aplicação no STF e as alternativas para a sua concreção prática Bruno Malta ....................................................................................187 O Princípio da Proibição ao Retrocesso em matéria ambiental: o voto da Ministra Cármen Lúcia na ADPF nº 760 Alexandre Burmann Mateus Staliveri da Costa ................................................................205 Poder Judiciário e Mudanças Climáticas: Contribuições do STF e da Ministra Cármen Lúcia para a Litigância Climática no Brasil Luiz Gustavo Escorcio Bezerra Gedham Medeiros Gomes .................................................................227 Reflexões sobre o licenciamento ambiental e aspectos do processo decisório dos órgãos competentes à luz da ADI 6808 Simone Paschoal Nogueira Iris Zimmer ......................................................................................245 Simplificação do Licenciamento Ambiental: limites legais e a jurispru- dência do STF Luciana Gil Ferreira Patrícia Mendanha Dias .................................................................259 Usinas Nucleares e a jurisprudência do STF: uma discussão sobre competência Rita Maria Borges Franco ................................................................281 Vedação ao retrocesso ambiental: análise do STF no âmbito da ADC 42 e ADI 4901, 4902, 4903 e 4937 Leonardo Lamego .............................................................................299 8 9 10 11 12 13 14 15 16 7Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Nota do Presidente O Instituto dos Advogados de Minas Gerais, solo historicamente fértil no qual, há mais de 107 anos, têm germinado e desenvolvido relevantes estudos para fomento e aperfeiçoamento da ordem jurídica, inaugurou a sua editora como instrumento catalizador para a divulgação e a sistematização de conteú- dos científicos e culturais produzidos por nossos associados. A editora se debruça com especial atenção para a produção advinda dos nossos Departamentos, como ocorre com a presente obra, nascida a partir do trabalho profícuo do Departamento de Direito Ambiental, sob a coordenação do dinâmico e competente Advogado Marcelo Azevedo. O tema, direito ambiental, sempre atual, adquiriu nos últimos anos incremento de relevância diante dos intensos debates políticos e jurídicos que tencionaram o tradicional binômio desenvolvimento econômico x preservação ambiental. Nesse sentido, a obra chega em excelente momento, lançando luzes sobre temas de complexidade e relevância. A pertinência deste livro coletivo se redobra pela justa e merecida ho- menagem à Ministra Cármen Lúcia, professora erudita e culta, amante da li- teratura que soube extrair o melhor da sabedoria do interior das Minas Gerais. Sua trajetória profissional,não obstante, ser conhecida por muitos, merece uma resumida menção: Mestre em Direito Constitucional pela Faculdade de Direi- to da Universidade Federal de Minas Gerais, Professora Titular da Pontifícia Universidade Católica de Minas, Exerceu a advocacia e, por concurso, em 1983 tornou-se Procuradora do Estado de Minas Gerais, tendo assumido o cargo de Procuradora Geral do Estado (2001 – 2002). Entre 1994 até 2006 foi mem- bro da Comissão de Estudos Constitucionais do Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil. Desde 2006, a homenageada é Ministra do Supremo Tribunal Federal. Em 2008 tomou posse como Ministra do Tribunal Superior Eleitoral, ano em que também assumiu a direção da Escola Judiciária Eleitoral e em 2012 assumiu a Presidência do Tribunal Superior Eleitoral, tendo sido a primeira mulher a presidi-lo. Retornou novamente para Côrte Eleitoral em 2020, onde, atualmente, mantém-se exercendo a judicatura. Em 2012 assumiu 8 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal a Vice-Presidência do Supremo Tribunal Federal e em 2016 a Presidência do Supremo Tribunal Federal e do Conselho Nacional de Justiça. Na condição de Presidente do Supremo Tribunal Federal, exerceu as funções da Presidência da República do Brasil em cinco oportunidades. É associada do Instituto dos Advogados de Minas Gerais e autora de diversas obras jurídicas. A obra, estruturada em 16 artigos, é um perfeito exemplo de obra cole- tiva, na qual se percebe não apenas um agrupado de textos, mas a organização de temas que efetivamente se entrelaçam, somada à circunstância de todos os textos oferecerem profundo conhecimento teórico, redigidos de maneira crítica e reflexiva e com alvissareira aptidão de aprimorar a prática jurídica. A lista dos autores que contribuíram para o projeto merece um destaque especial, por conter profissionais com densa formação acadêmica e ampla expe- riência profissional. O resultado não poderia ser diferente: uma efetiva produ- ção científica, fadada a se tornar uma relevante fonte de pesquisa. 9Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Alexandre Burmann - União Brasileira da Advocacia Ambiental Burmann Advogados Anna Karina Omena - Ministério Público do Estado da Bahia Bruno Malta -William Freire Advogados Christiane Costa Assis - Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Cláudia Hori - Machado Meyer Advogados Délton Winter de Carvalho - Delton Winter Advocacia Eduardo de Campos Ferreira - Machado Meyer Advogados Gedham Medeiros Gomes - Tauil Chequer Iris Zimmer - Siqueira Castro Isabelle Carvalho Gonçalves - Trennepohl Advogados José Adércio Leite Sampaio - Ministério Público Federal Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais José Alfredo de Oliveira Baracho Júnior - Oliveira Baracho Godoi Advogados - Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais Laura Bianchini Leite - Trennepohl Advogados Leonardo Lamego - Azevedo Sette Advogados Leticia Elizeu Duarte - Pinheiro Neto Luciana Gil Ferreira - Bichara Advogados Sobre os Autores 10 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Luiz Gustavo Escorcio Bezerra - Tauil Chequer Marcelo Azevedo - Instituto dos Advogados de Minas Gerais William Freire Advogados Mateus Staliveri da Costa - União Brasileira da Advocacia Ambiental Maurício Pellegrino de Souza - Cescon Barrieau Natascha Trennepohl - Trennepohl Advogados Patrícia Mendanha Dias - Bichara Advogados Rebeca Stefanini Pavlovsky - Cescon Barrieau Rita Maria Borges Franco - Mattei Franco Advogados Simone Paschoal - Siqueira Castro Terence Trennepohl - Trennepohl Advogados Werner Grau Neto - Pinheiro Neto 11Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia A aparente – mas não efetiva – dicotomia entre interesse econômico e tutela socioambiental: breve análise da disputa dirimida no julgamento do caso “Raposa Serra do Sol” Werner Grau Neto1 Leticia Elizeu Duarte2 Introdução Em 19/03/2009 o Plenário do Supremo Tribunal Federal julgou a Ação Popular (Pet 3.388/RO) na qual se discutia a demarcação do Território Indígena Raposa Serra do Sol. Aos povos indígenas que ocupavam a área foi reconhecido o direito fundiário sobre as terras contínuas demarcadas (e não em “ilhas” como controvertido nos autos) como ferramenta para “assegurar meios dignos de subsistência econômica para mais eficazmente poderem preservar sua identidade somática, linguística e cultural.”3 O posicionamento da Corte colocou fim a uma disputa histórica a contrapor indígenas que tradicionalmente viviam na região ao Estado de Roraima e arrozeiros que ali praticavam atividades agrícolas. Em suas manifestações formais nos autos, o Estado de Roraima pretendia dissuadir o Supremo Tribunal Federal de confirmar a demarcação contínua do território a partir da apresentação de argumentos centrados no interesse econômico local. Fundado na visão dicotômica entre preservação ambiental e interesse econômico, defendia-se que o reconhecimento dos direitos indígenas sobre o território inviabilizaria o desenvolvimento econômico do Estado de Roraima, por insuficiência de áreas de livre exploração. O raciocínio no qual repousa a ideia de que é necessário escolher 1 Werner Grau Neto. Advogado. Doutor em Direito Tributário Ambiental (USP), Mestre em Direito Ambiental Internacional (USP), Especialista em Direito Ambiental (USP). 2 Leticia Elizeu Duarte. Advogada. Pós-graduanda em Direito Ambiental e Gestão Estratégica da Sustentabilidade (PUC/SP). 3 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Pet 3.388/RR. Relator: Ministro Carlos Ayres Britto. Brasília, 19 mar. 2009. 1 12 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal entre preservação ambiental e direitos indígenas ou desenvolvimento econômico foi refutado em Plenário. Como constou expressamente do acórdão que instrumentalizou o julgado, a Constituição Federal não admitiria a interpretação antagônica entre valores econômicos e ambientais, cuja efetivação no plano político caberia ser promovida de maneira harmônica. Dada a clareza do posicionamento adotado no julgamento da Pet nº 3.388/RO, a solução aplicada ao caso “Raposa Serra do Sol” aparentemente teria enterrado de uma vez por todas a ultrapassada premissa de que meio ambiente e economia seriam tensões antagônicas. Mais de dez anos depois, porém, o fantasma da ideia maniqueísta que opõe conservação e desenvolvimento ainda paira sobre os debates acerca dos rumos do crescimento econômico do país e volta a ganhar fôlego em momentos de desempenho econômico insatisfatório. Em 2020, a disparada no preço do arroz trouxe à tona o fantasma do maniqueísmo nas redes sociais e na mídia. O aumento de 109% sobre o preço do grão que integra a base alimentar do brasileiro ganhou a atenção da população, não demorando para que a demarcação da terra indígena Raposa Serra do Sol fosse rememorada em vídeo que circulou nas redes sociais, associando o reconhecimento dos direitos indígenas sobre as referidas terras às mazelas sofridas pela população com a alta do custo de seu insumo alimentar básico. O alcance a que chegou o compartilhamento do vídeo em questão demonstra que ainda é necessário combater a ideia de que preservação ambiental e boa performance econômica são interesses inconciliáveis. Propomo-nos a refletir neste artigo, a partir do acórdão proferido no julgamento da Pet nº 3.388/RO, sobre os avanços a respeito da noção de desenvolvimento econômico sustentável, bem como sobre as dificuldades na incorporação da sua concepção no tecido social. O julgamento, suas repercussões e as possíveis vertentes para análise econômica da discussão jurídica A controvérsia e o seu julgamento pelo Supremo Tribunal Federal O julgamento da demarcação do território indígena Raposa Serra do Sol representa, ainda hoje, um dos principais marcos do reconhecimento 13Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia dos direitos constitucionalmente assegurados aos povos indígenas. Naquela oportunidade,solucionou-se a histórica disputa enfrentada pelos povos indígenas Ingarikó, Makuxi, Patamona, Taurepang e Wapixana, que lutavam para ter seus territórios reconhecidos e livres de ocupações externas. O Supremo Tribunal Federal foi chamado a decidir sobre o conflito em decorrência do ingresso com Ação Popular contra a União Federal, a fim de questionar e tornar nula a Portaria nº 534/2005, que homologou a demarcação contínua da Terra Indígena Raposa Serra do Sol. De acordo com a petição inicial, a Portaria nº 534/2005 conteria máculas oriundas do processo administrativo do qual resultou. Os questionamentos levantados pelos dois autores originais envolviam a suposta falha na oitiva de todos os afetados pela demarcação, parcialidade na elaboração do laudo antropológico que a fundamentou, entre outros. O Estado de Roraima requereu sua admissão no feito, ocasião em que fez coro aos argumentos da petição inicial. Além de concordar com os fundamentos dos autores originários da Ação Popular, o Estado de Roraima argumentou que a demarcação das terras indígenas resultaria em consequências desastrosas para o desenvolvimento, porque lhe restaria pouco espaço para o exercício da livre iniciativa. O pronunciamento do Plenário quanto à improcedência da Ação Popular foi reduzido a termo em ementa que diretamente rechaça a ideia de antagonismo entre território indígena e desenvolvimento econômico. 10. O FALSO ANTAGONISMO ENTRE A QUESTÃO INDÍGENA E O DESENVOLVIMENTO. Ao Poder Público de todas as dimensões federativas o que incumbe não é subestimar, e muito menos hostilizar comunidades indígenas brasileiras, mas tirar o proveito econômico delas para diversificar o potencial econômico-cultural dos seus territórios (dos entes federativos). O desenvolvimento que se fizer sem ou contra os índios, ali onde eles se encontrarem instalados por modo tradicional, à data da Constituição de 1988, desrespeita o objetivo fundamental do inciso II do art. 3º da Constituição Federal, assecuratório de um tipo de ‘desenvolvimento nacional’ tão ecologicamente equilibrado quanto humanizado e culturalmente diversificado, de modo a incorporar a realidade indígena. 14 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal O refinado voto da Excelentíssima Ministra Carmen Lúcia foi além da análise puramente jurídica e incorporou, no enfrentamento do argumento, elementos comparativos de taxas de concentração populacional para expor o despropósito da alegação: Também não procede a argumentação forjada no sentido de que haveria comprometimento da vida econômica do Estado de Roraima, pela exclusão de pouco mais de 7% da área demarcada como Terra Indígena Raposa Serra do Sol. As áreas reservadas aos indígenas naquele ente federal compreendem, segundo os dados apresentados nesta ação, 46% do território roraimense. Mas cumpre considerar que a área de 54% daquele ente estadual corresponde a um espaço equivalente à extensão que é compreendida em sua totalidade, por exemplo, pelo Estado de Pernambuco. E enquanto a população pernambucana é de 7.918.344 (sete milhões, novecentos e dezoito mil e trezentos e quarenta e quatro pessoas), a população roraimense, excluídos os aproximadamente 19.000 (dezenove mil) índios da Terra Indígena Raposa Serra do Sol, totaliza 324.397 habitantes, o que dá uma médica de 0,57% hb/km². Como afirma, mais uma vez, José Afonso da Silva, a área roraimense, excluída a Terra Indígena Raposa Serra do Sol, ainda é maior que Sergipe, Alagoas, Paraíba. É, por exemplo, quase quatro vezes maior que a Bélgica, que tem uma população aproximada de 7.282.000 habitantes. Pelo que a alegação de que estaria comprometida a sua condição de ente federado ou de falta de condições de sobrevivência sem a área demarcada como reservas indígenas cai por terra em face dos dados aritmeticamente apresentados. Os demais argumentos pelos quais os autores e o Estado de Roraima pretendiam desconstituir a validade da Portaria nº 534/2005 foram igualmente repelidos pela maioria da Corte, que não só manteve a demarcação contínua determinada no ato, como também teceu importantes esclarecimentos a respeito da dinâmica que rege os direitos indígenas na exploração de suas terras demarcadas e os respectivos limites que lhes são aplicáveis. Consoante divulgado nos veículos de comunicação à época, o processo de demarcação foi encerrado em 2009, e os últimos não-indígenas retiraram-se do local no mesmo ano.4 4 PF confirma saída de arrozeiros da Raposa Serra do Sol. Revista Consultor Jurídico. São 15Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia A grande contribuição do julgamento da Pet 3.388/RO para os direitos das populações tradicionais é induvidosa, e merece ser enaltecida pela doutrina e os operadores do direito ambiental. Mas, se é verdade que o acórdão proferido naquela ocasião é um dos principais marcos quanto ao reconhecimento dos direitos dos povos originários, é igualmente certo que a forma pela qual a priorização dos interesses indígenas sobre a área repercutiu no meio social – e até hoje repercute – coloca sob holofote a visão distorcida que ainda é nutrida a respeito de como deve ser promovida a perseguição dos propósitos econômicos elencados na Constituição Federal. Propomo-nos a seguir a refletir sobre as causas da persistência da citada concepção em parte do segmento social. O rescaldo do julgamento da Pet 3.388/RO e as suas lições históricas Em 2022, completa 34 anos a Constituição Federal brasileira promulgada em 1988, em cujo artigo 170 está preconizada a defesa do meio ambiente como um dos princípios da ordem econômica brasileira. Sob outro enfoque, vê-se que um período de mais de 13 anos distancia o momento presente do histórico julgamento no qual o Supremo Tribunal Federal foi chamado a explicitar, de maneira expressa, que a preservação não concorre com a ordem econômica constitucional tal qual prevista na Constituição Federal. Nada obstante a tais marcos, o reiterado aflorar de debates centrados na visão dicotômica entre preservação ambiental e economia parece demonstrar que ainda há espaço para que se aprimore as teorias integrativas de valores econômicos e ambientais, de modo a aprimorar a compreensão de que ambos podem – e devem – harmonizar-se. A construção e implementação do conceito de sustentabilidade econômica no Brasil A noção de “desenvolvimento sustentável” ou “ecodesenvolvimento,” como primeiramente denominado, começou a ser lapidada no final da década de 1960 e ao longo da década de 1970, quando a Declaração de Estocolmo Paulo, 14 de abril de 2009, 20h58. Disponível em: <https://www.conjur.com.br/2009-abr-14/ pf-confirma-saida-arrozeiros-reserva-raposa-serra-sol>. Acesso em 11 nov. 2022. 16 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal propagou a urgência de que se adotassem esforços para a proteção ambiental como meio de promover o bem-estar e os direitos fundamentais da humanidade. As preocupações ambientais difundidas pela comunidade internacional a partir da proclamação da Declaração de Estocolmo de 1972 deu ensejo à apresentação de proposta inovadora, que romperia com a ideia até então predominante de que preservar os recursos naturais seria sinônimo de ruína econômica. Como aponta a doutrina economista5, as teorias sobre desenvolvimento econômico cunhadas até então, e cujos pensamentos até hoje subsistem em nossa sociedade, aportavam grande crença na exploração inadvertida e inconsciente dos recursos naturais em virtude de não considerarem um fator hoje amplamente conhecido e demonstrado: o fato de que há uma limitação para a capacidade de resiliência dos ecossistemas explorados. Sustentabilidade, portanto, consistiria na abordagem transversal e integrativa entre os planos da economia e do meio ambiente, concebida como modelo alternativo cuja premissa busca deveria prevalecer sobre as concepções econômicas ortodoxas: Na época, a proposta de um novo estilo de desenvolvimento– o Ecodesenvolvimento – representava uma espécie de “terceira via,” colocando-se como uma alternativa à bipolarização que o debate então assumira: por um lado, a proposta do “crescimento zero” e, por outro, as reivindicações desenvolvimentistas dos países do terceiro mundo: seu “direito ao crescimento.”6 Resultado do amadurecimento ao nível internacional a esse respeito foi, portanto, o surgimento do novo paradigma de que meio ambiente e desenvolvimento econômico devem ser interpretados como forças parceiras, 5 “Até a década de 1970, as teorias de desenvolvimento econômico concebidas para interpretar o capitalismo não levavam em conta os componentes ambientais – fossem eles renováveis ou não –, como o esgotamento dos recursos naturais, a poluição ou a destruição dos ecossistemas. A des- consideração desses aspectos deve-se, sobretudo, ao fato de que, até aquele momento, a pressão das atividades humanas sobre o meio ainda não havia atingido um nível crítico. Foi, portanto, a partir dos anos 1970, quando as questões do meio ambiente e dos recursos naturais passam a configurar um problema para a humanidade, que elas começam a ser entendidas e tratadas en- quanto tais no âmbito das teorias econômicas.” FERNANDEZ, B. P. M. Ecodesenvolvimento, Desenvolvimento Sustentável e Economia Ecológica: em que sentido representam alternativas ao paradigma de desenvolvimento tradicional? Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 23, p. 109-120, jan./jun. 2011. Curitiba: Editora UFPR, 2011. 6 FERNANDEZ. Desenvolvimento e Meio Ambiente, p. 109-120. 17Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia não antagônicas: o meio ambiente deve prover os recursos para a consecução das finalidades econômicas, tais como existência digna, pleno emprego e redução de desigualdades; o desenvolvimento econômico, a seu turno, deve ser alcançado por meio de opções que não comprometam a capacidade dos ecossistemas de permanecer provendo os recursos e serviços ambientais para as presentes e futuras gerações. No Brasil, o texto constitucional aderiu à tendência global e adotou o modelo econômico de desenvolvimento sustentável como um de seus preceitos fundamentais. Consagrada nos artigos 170, inciso VI, e 225 da Carta Maior, tal opção representou o estabelecimento de um regime econômico que, conquanto fundado nos tradicionais elementos da livre iniciativa, propriedade privada e livre concorrência, submete-se à influência e a limites informados por valores ambientais. Ao menos desde 1988, portanto, não há mais falar-se, em termos de política econômica brasileira, no antigo dilema a contrapor preservação ambiental e produção econômica. A partir do refinamento, ao nível global e interno, da compreensão sobre as implicações mútuas entre meio ambiente e economia, tornou-se possível o avanço do movimento de Law and Economics (ou “Análise Econômica do Direito,” em português) e expandi-lo para além das fronteiras do Direito Privado. Admite-se, tal qual admitindo vem a jurisprudência brasileira, o uso da variável econômica como elemento interpretativo da análise jurídica a incidir sobre normas ambientais. A aplicação da Análise Econômica do Direito sobre a ordem ambiental e econômica preconizada pela Constituição conduz a uma interpretação de que seus valores são regidos por regras de equilíbrio e harmonia que infirmam a lógica de movimentos opostos. Ao discorrer sobre o tema, Werner Grau e Marcello Antonio Fiore discursam: [...] tratando-se de intervenção econômica, e esta será a tônica dos exemplos que se poderá encontrar nos registros históricos, o exame do caso a partir da aplicação do método interpretativo pregado, conforme atualmente interpretada a teoria da Análise Econômica do Direito, incluirá necessariamente não apenas a visão dos efeitos meramente econômicos do caso, de se decidir por este ou aquele caminho, mas também a visão dos efeitos sociais e ambientais vinculados. 18 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Esse balanço busca pela simetria entre os três elementos da equação do ideal da sustentabilidade – ambiental, social e econômico – é que ditará a intensidade a ser conferida a cada uma das externalidades como modelo de apreciação, e busca pela eficiência, sempre que adotado método interpretativo proposto pela teoria da Análise Econômica do Direito.7 O posicionamento do Supremo Tribunal Federal ao julgar a Pet 3.388/ RO, anos depois da promulgação da Constituição, vem reforçar a ideia quanto à impropriedade da lógica que repousa na ideia de que o desenvolvimento econômico é alcançado a partir da flexibilização de preocupações ambientais em benefício de uma ampliação, a qualquer custo, da produção econômica. É dizer, preservação ambiental e desenvolvimento econômico não admitem interpretação antagônica à luz do texto constitucional. Vale recuperar, quanto ao ponto, o trecho do festejado voto da Ministra Carmen Lúcia, em que bem pondera a necessidade de harmonização entre interesses econômicos e demais valores constitucionais: A alongada passagem citada tem como ponto nodular a explicitação do fundamento constitucional determinante do modelo de continuidade, mister de ser acatada quando tanto se mostrar necessário ao atendimento de preservação e respeito da identidade dos indígenas. Pelo que a descontinuidade pretendida pelo Estado de Roraima, autor do pedido neste sentido, atenderia a interesses de alguns particulares, mas não daria cumprimento e efetividade às normas constitucionais, pelo que não pode ser acatada. Consoante lição de Eros Roberto Grau, a missão de desenvolvimento econômico imposta pelo Poder Constituinte aos governantes tem por pressuposto a sustentabilidade da ordem econômica praticada: 7 FIORE, Marcello Antonio; GRAU NETO, Werner. Direito Econômico e Direito Ambiental: um olhar sobre a Teoria da Análise Econômica do Direito. In: JÚNIOR, Diógenes N. (Org.) Constituição e Ordem Social: saúde, educação e meio ambiente. Londrina: Thoth, 2021, p. 166-180. 19Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia “O princípio da defesa do meio ambiente conforma a ordem econômica (mundo ser), informando substancialmente os princípios da garantia do desenvolvimento e do pleno emprego. Além de objetivo, em si, é instrumento necessário – e indispensável – à realização do fim dessa ordem, o de assegurar a todos existência digna. Nutre também, ademais, os ditames da justiça social. Todos têm o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo – diz o art. 225, caput. O desenvolvimento nacional que cumpre realizar, um dos objetivos da República Federativa do Brasil, e o pleno emprego que impende assegurar supõem economia autossustentada, suficientemente equilibrada para permitir ao homem reencontrar-se consigo próprio, como ser humano e não apenas como um dado ou índice econômico.”8 A par do elucidativo ensinamento, vê-se, aqui, que a noção de sustentabilidade possui uma natureza programática. É um de tantos valores definidos pela Constituição cidadã a serem perseguidos pelas políticas públicas estatais. Seu conteúdo programático não prescinde da atuação política e normativa dos governantes para o seu exercício prático. Sustentabilidade é, pois, um valor que demanda vontade política a fim de que seja implementado. Exige o incurso efetivo do Poder Público na normatização e regulamentação dos seus instrumentos da política ambiental, muitos deles até hoje carentes de efetiva implementação, a exemplo do zoneamento ecológico econômico (ZEE) preconizado no artigo 9º da Lei nº 6.938/1981. A propósito, o ZEE efetivo, no qual se encontrem bem distribuídas territorialmente as áreas destinadas ao exercício das distintas atividades econômicas e aquelas vocacionadas à preservação, poderia prevenir conflitos como o que foi dirimido pelo Supremo Tribunal Federal no julgamento do caso da demarcação do Território Indígena Raposa Serra do Sol. Em outra oportunidade, enquantocomentávamos sobre relatório elaborado pelo Tribunal de Contas da União – TCU no qual se recomendava à Casa Civil a apresentação de projeto de lei que propusesse a efetiva regulamentação do instrumento, já discorríamos: 8 GRAU, Eros Roberto. A Ordem Econômica na Constituição de 1988. 15 ed. São Paulo: Ed. Malheiros, 2012, p. 521. 20 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal A definição dos critérios de integração entre atividades econômicas e proteção ambiental, posta na forma de abordagem das atividades pré-existentes e vindouras, com a salutar menção à necessidade, em casos específicos, de pagamento da justa indenização, denota postura de integração efetiva, e não de imposição. [...] A inclusão das Áreas de Proteção Ambiental – APAS no ZEE revela, por seu turno, profundo conhecimento da estrutura dos espaços territoriais especialmente protegidos, e a menção à ausência de inclusão das APAs no Sistema Nacional de Unidades de Conservação – SNUC (Lei nº 9.985, de 18.7.2000) demonstra o profundo conhecimento, pelo TCU, de tal instrumento. Por fim, soa como música a referência à forma de interação e integração de áreas inseridas ou em áreas de ingerência às Terras Indígenas. O uso das ferramentas de que é o país signatário mostra-se abordado de forma integrativa.9 Daí concluir-se que, de fato, há espaço limitado para que a concepção de sustentabilidade possa florescer, na medida em que a insuficiência de regulamentação adequada dos instrumentos capazes de harmonizar a atividade econômica e a conservação ambiental reforça a míope visão de antagonismo entre tais interesses. Logo, atribui-se, em parte, à ineficiência estatal em implementar dos mecanismos viabilizadores do desenvolvimento sustentável a razão da persistência, no discurso a respeito do crescimento econômico brasileiro, de que a legislação ambiental seria uma barreira à expansão econômica do país. O movimento ESG e a iniciativa de acolhimento às variáveis ambiental, social e de governança no âmbito privado Como comumente ocorre quando o aspecto político não é hábil no enfrentamento das demandas por soluções que deveriam há muito ter 9 GRAU NETO, Werner; DUQUE, Ana Carolina Cerqueira; DUARTE, Leticia Elizeu. A PNMA – Zoneamento Ecológico-Econômico: importância, obstáculos e proposta. In: GUER- RA, Sidney; FARIAS, Talden; AVZARADEL, Pedro (Orgs.) Política Nacional do Meio Am- biente: 40 anos da Lei 6938/1981. Curitiba: Instituto Memória. Centro de Estudos da Con- temporaneidade, 2021, p. 249-272. 21Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia sido providas, a realidade socioeconômica não espera o socorro de políticas públicas pendentes e passam a surgir novos arranjos para o preenchimento da lacuna estatal. O conceito de sustentabilidade, sozinho, não foi capaz de acompanhar as demandas e desafios apresentados pelas variáveis ambiental, social e econômica na sociedade, de sorte que a lentidão na sua implementação efetiva abriu caminhos para olhares de transformação. À época, já se apontava: Os debates acerca da Constituição Federal no que toca ao tema do meio ambiente revelam-se densos e polêmicos. Da necessidade de evolução acerca do conceito de sustentabilidade, passando pela busca de maior objetividade e clareza quanto a conceitos jurídicos indeterminados, deságua o exame do quanto ali posto na consideração do alcance dos direitos que se pretendeu garantir pela inserção de Capítulo próprio ao meio ambiente no contexto da Carta Magna. Os debates são intensos e, para os três temas, há teses e interpretações de uma miríade de matizes. A riqueza do debate nem sempre significa, no entanto, que tenhamos evoluído na condição de sociedade e que estejamos encontrando os resultados almejados. Antes disso, a polemização excessiva dos debates acerca do tema ambiental revela um oscilar entre a imaturidade da sociedade diante dos desafios que se apresentam e equivocada atribuição de peso excessivo ao componente político-ideológico ao debate.10 É neste estado de coisas que o movimento ESG (Environmental, Social and Governance) passa a ganhar relevo nos últimos anos: a expectativa por soluções que partam da esfera pública vem sendo paulatinamente substituída por demandas direcionadas por e aos próprios agentes econômicos, sob pressões de investidores e consumidores para que assumam o protagonismo na construção de modelos de negócios que contemplem as variáveis ambiental e social. O que o pensamento ESG representa é, portanto, uma ruptura com o modelo de sustentabilidade que, até o momento, não logrou êxito suficiente para 10 GRAU NETO, Werner. Sustentabilidade: princípio constitucional e a busca por sua imple- mentação. In: JÚNIOR, Diógenes N. (Org,) Constituição em tempos de crise: princípios, direitos fundamentais e defesa do Estado. Londrina: Thoth, 2020, p. 65-77. 22 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal acomodar a vertente ambiental na variável econômica e promover a necessária mudança do paradigma que opõe ambos os valores. O modelo promete oxigenar as concepções sobre a atividade econômica sob vertente harmônica e acolhedora dos interesses ambientais e sociais. No Brasil, as preocupações do modelo ESG têm recaído preponderantemente sobre as mudanças de uso da terra, em virtude das emissões de gases de efeito estufa e da perda florestal decorrentes do avanço do desmatamento ilegal. O agronegócio brasileiro sofre com as críticas de que o setor seria o responsável pela destruição das florestas nativas. O prejuízo que os riscos relacionados à variável socioambiental provocam sobre a imagem do setor vem ameaçando o segmento, que é de importância ímpar para a economia brasileira, a demonstrar que os riscos ambientais e sociais não admitem uma atuação ineficiente por parte dos agentes econômicos. Aqui, retornamos, então, às discussões a respeito das repercussões econômicas da demarcação do Território Indígena Raposa Serra do Sol que, a reboque da alta do preço de arroz em 2020, ressurgiram na pauta de certos meios de comunicação. Em vídeo compartilhado milhares de vezes nas redes sociais naquele ano, um criador de conteúdo digital com enfoque no agronegócio defendia que a elevação do preço do arroz estaria associada à retirada dos arrozeiros em decorrência da demarcação das terras indígenas, tal qual confirmado no julgamento do Supremo Tribunal Federal. A certa altura da “reportagem,” afirma-se que o Brasil teria sido prejudicado “milhares de vezes” com o reconhecimento dos direitos indígenas sobre as terras, por ter se perdido a produção de arroz e o desenvolvimento econômico que ela geraria. O despropósito da associação entre as variações no preço do grão e a demarcação do território indígena foi satisfatoriamente aclarado pelos veículos de combate a notícias falsas.11 É conveniente, porém, abordar a impropriedade do vídeo circulado também sob a perspectiva do pensamento ESG e do quanto firmado no esclarecedor voto da Excelentíssima Ministra Carmen Lúcia. Isto porque a produção em terras sobre as quais pese disputa territorial com comunidades indígenas vai de encontro à incorporação do modelo de negócios hoje demandado 11 VÍDEO usa alta de preço do arroz em 2020 para atacar demarcação de terra indígena em 2003. Blog. Estadão. São Paulo, 01 de outubro de 2020, 07h00. Disónível em:<https://politica. estadao.com.br/blogs/estadao-verifica/video-usa-alta-de-preco-do-arroz-em-2020-para-atacar- -demarcacao-de-terra-indigena-em-2003/>. Acesso em ago. 2022. 23Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia dos produtores, por ignorar as variáveis ambiental e social. A movimentação que hoje se identifica no setor do agronegócio, aliás, é exatamente oposta à ideia de explorar terras reivindicadas por comunidades tradicionais. O crescimento econômico que o segmento hoje busca – pois aí sim estará a verdadeira oportunidade de desenvolvimento sem o comprometimento dos valores constitucionais – é acompanharo mercado e atender as crescentes exigências quanto à responsabilidade socioambiental dos agentes econômicos. Werner Grau e Ana Carolina Duque abordam as perspectivas de impacto esperado sobre o agronegócio brasileiro a partir da expansão do modelo ESG: Fortemente marcado pela atribuição de responsabilidade pelos índices de desmatamento no país, o setor do agronegócio enfrenta resistência e, com isso, perde atratividade para investimentos internacionais. Aponta-se o dedo para o setor, na variável ambiental, no que toca aos aspectos vinculados ao desmatamento e queimadas; na variável social, no que toca à interação – e afirmado deslocamento forçado, entre outros pontos – com as comunidades tradicionais rurais; e, na variável governança, por meio de acusações de descontrole diante das variáveis ambiental e social. O economista e ex-presidente do Banco Central Armínio Fraga, em audiência pública perante o Supremo Tribunal Federal, ecoou essa realidade: “E, por fim, em face da crescente ênfase por parte das melhores empresas do mundo, do trio chamado em inglês ESG, traduzindo meio ambiente, social e governança, essa crescente ênfase reduz a atratividade do Brasil como destino de investimentos.” Bem se vê, já é hora de passarmos ao novo paradigma como mote, de sorte a intensificar e tornar eficiente a integração entre atividades produtivas e os primados da proteção, conservação e recuperação para obtenção do resultado positivo, que excede o trato das externalidades negativas e absorve o ideário da inserção do negócio em matriz na qual o propósito orienta o resultado positivo, integrativo e de geração de círculo virtuoso. O sistema ESG, em síntese, aceita o resultado econômico como norte orientador da atividade econômica, e impõe à governança garantir abordagem ética diante das variáveis 24 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal ambiental e social, daí surgindo o círculo virtuoso e o resultado positivo.12 Os esforços impostos pelo novo paradigma do ESG não se coadunam com a ideia de violação aos direitos dos povos originários. Aliás, ao setor é demandado rumo na direção oposta, na busca por desvincular sua imagem de quaisquer conflitos que tenham como fundo o desrespeito à preservação e conservação, seja sob a variável ambiental ou social. Para fins de combate a tal risco, o agronegócio deve focar em medidas de transparência e publicidade (e.g., certificação ambiental) que lhe permitam obter maior controle sobre a procedência dos insumos em sua cadeia produtiva, de forma a transmitir ao mercado a exigida segurança quanto à adequação dos seus produtos em termos de respeito às variáveis ambiental e social. Da correta contextualização do cenário econômico enfrentado, depreende-se, pois, que não há que se cogitar ter havido “perdas” em relação ao desenvolvimento econômico como consequência da demarcação do Território Indígena Raposa Serra do Sol. Assegurar preservação ambiental e garantir o respeito aos direitos dos povos indígenas é aquilo que se espera do país por consumidores e investidores, sob pena de boicote e perda do potencial de segmentos diretamente afetados pelo declínio da reputação quanto à política ambiental do Brasil. A harmonização entre as variáveis ambiental e social à variável econômica é, portanto, solução para o desenvolvimento brasileiro, e não vice-versa. A Ministra Carmen Lúcia anteviu a questão e, com maestria, demonstrou a adequada interpretação do direito e apontou o caminho que desaguaria, década depois, na consecução do modelo de negócios ESG. Considerações finais Muito embora um período de mais de uma década afaste-nos da histórica decisão do Supremo Tribunal Federal na qual, em aplicação dos 12 NETO, Werner Grau; DUQUE, Ana Carolina Cerqueira. Agronegócio: sustentabilidade, instrumentos econômicos e políticas ESG. In: FARIAS, Talden; ATAÍDE, Pedro (org.) Direito Ambiental Econômico: instrumentos econômicos de política ambiental. Andradina: Meraki, 2021, p. 378-405. 25Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia preceitos e garantias constitucionais, reconheceu-se o direito das comunidades indígenas à demarcação do território por elas ocupado no Estado de Roraima, e rechaçou-se a alegação de que tal medida ofereceria entraves ao desenvolvimento econômico, o aparente conflito entre prosperidade econômica e proteção de interesses socioambientais insiste em aflorar no palco das discussões sobre a formulação e execução das políticas ambientais brasileiras. A inércia política quanto à tomada de decisões que garantissem a necessária regulamentação de instrumentos de preservação ambiental frustrou a proposta programática do poder constituinte e, em suas limitações, impediu que o modelo de sustentabilidade pudesse ser explorado em sua plenitude. A despeito já de ter o Supremo Tribunal Federal explicitado a inexistência de essência antagônica entre interesses econômicos e ambientais, a limitação inerente à natureza programática da ideia de sustentabilidade não permitiu que o debate nacional evoluísse de forma mais madura para recepcionar a noção de que o desenvolvimento econômico brasileiro será beneficiado pela preservação e conservação ambiental. Mais do que nunca, vive-se atualmente em uma sociedade polarizada, inflamada por discursos que caminham no rumo contrário a conhecimentos científicos reiteradamente comprovados e bem estabelecidos. A atmosfera política e social é um terreno fértil para a multiplicação da míope visão que repousa na concepção conflitante entre crescimento econômico e defesa de interesses socioambientais. Em boa hora, portanto, chega o modelo ESG como proposta disruptiva que pretende integrar estas variáveis, sobretudo porque a adoção de um tratamento efetivo com relação à proteção ambiental não pode mais ser adiado. Referências BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Pet 3.388/RO. Relator Ministro Ayres Britto. Julgado em 19/03/2009. FERNANDEZ, B. P. M. Ecodesenvolvimento, Desenvolvimento Sustentável e Economia Ecológica: em que sentido representam alternativas ao paradigma de desenvolvimento tradicional? Desenvolvimento e Meio Ambiente, n. 23, p. 109-120, jan./jun. 2011. Curitiba: Editora UFPR, 2011. 26 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal FIORE, Marcello Antonio; GRAU NETO, Werner. Direito Econômico e Direito Ambiental: um olhar sobre a Teoria da Análise Econômica do Direito. In: JÚNIOR, Diógenes N. (Org.) Constituição e Ordem Social: saúde, educação e meio ambiente. Londrina: Thoth, 2021, p. 166-180. GRAU, Eros Roberto. A Ordem Econômica na Constituição de 1988. 15 ed. São Paulo: Ed. Malheiros, 2012, p. 521. GRAU NETO, Werner. Sustentabilidade: princípio constitucional e a busca por sua implementação. In: JÚNIOR, Diógenes N. (Org.) Constituição em tempos de crise: princípios, direitos f undamentais e defesa do Estado. Londrina: Thoth, 2020, p. 65-77. NETO, Werner Grau; DUQUE, Ana Carolina Cerqueira. Agronegócio: sustentabilidade, instrumentos econômicos e políticas ESG. In: FARIAS, Talden; ATAÍDE, Pedro (org.) Direito Ambiental Econômico: instrumentos econômicos de política ambiental. Andradina: Meraki, 2021, p. 378-405. GRAU NETO, Werner; DUQUE, Ana Carolina Cerqueira; DUARTE, Leticia Elizeu. A PNMA – Zoneamento Ecológico-Econômico: importância, obstáculos e proposta. In: GUERRA, Sidney; FARIAS, Talden; AVZARADEL, Pedro (Orgs.) Política Nacional do Meio Ambiente: 40 anos da Lei 6938/1981. Curitiba: Instituto Memória. Centro de Estudos da Contemporaneidade, 2021, p. 249-272. 27Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Afronta à autoridade das decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal em sede de controle concentrado da constitucionalidade do Código Florestal de 2012 Rebeca Stefanini Pavlovsky1 Maurício Pellegrino de Souza2 Introdução O presente artigo volta-se a discutir a validade de inúmeras decisões judiciais que afrontam a autoridade das decisões proferidas peloSupremo Tribunal Federal em sede de controle concentrado da constitucionalidade do Código Florestal (ADI n. 4901, ADI n. 4902, ADI n. 4903 e ADC n. 42). O pano de fundo será a aplicação do art. 62, que estabelece regramento específico às Áreas de Preservação Permanente – “APP” de reservatórios artificiais de água para geração de energia que foram registrados ou tiveram seus contratos de concessão, ou autorização assinados anteriormente à Medida Provisória n. 2.166-67, de 24 de agosto de 2001, determinando que a APP deverá corresponder à faixa entre o nível máximo operativo normal e a cota máxima maximorum do reservatório, geralmente incluída na área objeto de desapropriação para o enchimento do reservatório.3 1 Rebeca Stefanini Pavlovsky. Advogada formada pela PUC/SP com atuação na área de Direito Ambiental e especialização em Direito Constitucional (Escola de Direito do Brasil). Atual- mente cursando MBA em Agronegócio (Esalq/USP). 2 Maurício Pellegrino de Souza. Advogado formado na UFMG, especialista em Direito Am- biental. Sócio da Cescon, Barrieu, Flesch & Barreto. Membro do Comitê Jurídico do IBRAM e autor de livros e artigos especializados sobre as temáticas ambiental e de mineração. Ex-pro- fessor da cadeira de Meio Ambiente da FDMC. 3 Art. 62. Para os reservatórios artificiais de água destinados à geração de energia ou abastecimen- to público registrados, ou tiveram seus contratos de concessão, ou autorização assinados anterior- mente à MP n° 2.166-67, de 24 de agosto de 2001, a faixa da Área de Preservação Permanente será a distância entre o nível máximo operativo normal e a cota máxima maximorum. 2 28 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Como se observa, o art. 62 da Lei nº 12.651/2012 disciplina exclusivamente situações anteriores à sua vigência, ou seja, aquelas anteriores a 24 de agosto de 2001. Trata-se de um preceito normativo atípico, com eficácia retroativa por expressa determinação legal. Em 28 de fevereiro de 2018, no julgamento conjunto das ADI n. 4.901, 4.902 e 4.903, 4.937 e da ADC 42 propostas para questionar a validade de diversos dispositivos da Lei Federal n. 12.651/2012 (Código Florestal), o Supremo Tribunal Federal reconheceu a constitucionalidade, dentre vários outros, do art. 62. Sobre o tema, vale trazer à luz os termos do voto condutor do Min. Luiz Fux, em que restou consignado o seguinte: Passa-se, então, à análise das impugnações dirigidas ao art. 62 do novo Código Florestal, em relação ao qual questiona a Procuradoria-Geral da República a nova disciplina da área de preservação permanente para os reservatórios artificiais de água destinados à geração de energia ou abastecimento público, que foram registrados ou tiveram seus contratos de concessão ou autorização assinados anteriormente à Medida Provisória nº 2.166-67, de 24 de agosto de 2001. Enquadrando-se a área nesses requisitos, determina o dispositivo atualmente em vigor que ‘a faixa da Área de Preservação Permanente será a distância entre o nível máximo operativo normal e a cota máxima maximorum’. Sustenta o Requerente que a regra introduzida pela Lei nº 12.651/2012 remove ‘APPs dos reservatórios formados antes da entrada em vigor da MP 2.166 67/2001, marco temporal que não possui razoabilidade, pois a obrigatoriedade de preservação de áreas no entorno de reservatórios artificiais é anterior à MP’, pugnando pela declaração de inconstitucionalidade do citado artigo 62 ‘por configurar evidente retrocesso ambiental’. O estabelecimento de dimensões diferenciadas da APP em relação a reservatórios registrados ou contratados no período anterior à MP nº 2166-67/2001 se enquadra na liberdade do legislador para adaptar a necessidade de proteção ambiental às particularidades de cada situação, em atenção ao poder que lhe confere a Constituição para alterar ou suprimir espaços territoriais especialmente protegidos (art. 225, § 1º, III). Trata-se da fixação de uma 29Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia referência cronológica básica que serve de parâmetro para estabilizar expectativas quanto ao cumprimento das obrigações ambientais exigíveis em consonância com o tempo de implantação do empreendimento. Ex positis, declaro a constitucionalidade dos artigos 5º, caput e §§ 1º e 2º, e 62 do novo Código Florestal, julgando, no ponto, improcedente a ADI nº 4.903 e procedente a ADC nº 42. Frisou-se, portanto, que a superveniência do art. 62 da Lei nº 12.651/2012 não reduziu o patamar de proteção ao meio ambiente. De fato, a regra estabilizadora trazida pelo Novo Código Florestal preserva o meio ambiente, estabelecendo a necessidade de conservação do entorno do reservatório artificial, pacifica os conflitos sociais decorrentes do processo de aquisição e desapropriação de áreas consolidadas e evita a ruptura do equilíbrio econômico-financeiro dos contratos de concessão, mantendo o valor das tarifas originalmente previstas. Como norma estabilizadora que é, traz conformação às situações consolidadas em atendimento às exigências do ordenamento jurídico como um todo, não apenas – mas também - em relação aos direitos difusos e coletivos (cite-se como exemplo o resguardo do direito dos consumidores de manutenção do preço das tarifas de energia atualmente cobradas). A norma disciplinou, transitoriamente, questão específica antes não tratada na legislação revogada, o Código Florestal de 1965 (extensão de faixa de APP em reservatórios artificiais de água). Sobre este tema, cumpre fazer singela menção à omissão do Código de 19654 e à flagrante ilegalidade da Resolução do Conselho Nacional de Meio Ambiente – “CONAMA” n. 302/2002, que estabelece direitos e obrigações em violação ao sistema de repartição de competências estabelecido pela Constituição Federal. Isto porque, no anseio de resolver a lacuna da legislação federal, o CONAMA – como se competente fosse - expediu a Resolução n. 302/2002 com a menção aos limites a serem observados, com base em suposta autorização do art. 4º, §6º do Código Florestal de 1965, com as alterações da Medida Provisória nº 2.166-67/20015. No entanto, tal autorização 4 “Consideram-se de preservação permanente, pelo só efeito dessa lei, as florestas e demais formas de vegetação natural situadas: (...) b) ao redor as lagoas, lagos ou reservatórios d’água naturais e artificiais.” 5 “na implantação de reservatório artificial é obrigatória a desapropriação ou aquisição, pelo empreendedor, das áreas de preservação permanente criadas no seu entorno, cujos parâmetros e 30 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal contrariava o ordenamento jurídico, pois a Medida Provisória jamais poderia conceder “autorização” em desrespeito às competências legislativas previstas nos artigos 22, 24 e 30 da Constituição Federal. A doutrina especializada já se posicionava de forma contrária à legalidade da referida resolução. Nesse sentido, Paulo Affonso Leme Machado6 e Paulo de Bessa Antunes: O CONAMA tem função social e ambiental indispensável. Mas esse Conselho não tem função legislativa, e nenhuma lei poderia conceder-lhe esta função. Estamos diante de uma patologia jurídica, que precisa ser sanada, pois caso contrário o mal poderia alastrar-se e teríamos o Conselho Monetário Nacional criando impostos e o Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária definindo os crimes. É fundamental a proteção das APPs, mas dentro do Estado de Direito. [...] é indiscutível que a Resolução CONAMA nº 302/2002 inovou, pois estabeleceu metragem não prevista em lei. Como tem sido sustentado ao longo de todo este parecer, não cabe ao Poder Regulamentar inovar matéria reservada à lei. Em especial quando a inovação é produzida por ato administrativo de hierarquia inferior, como é o caso das Resoluções do CONAMA.7 A discussão não é recente. Em 2010, o Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo declarou a inconstitucionalidade incidenter tantum do regramento ambiental por meio de Resoluçõesdo CONAMA.8 Todavia, apesar de antiga, é ainda uma discussão atual, considerando-se posição recente do Ministério Público Federal em recurso extraordinário que aguarda julgamento no Supremo regime de uso serão definidos por resolução do Conama.” 6 MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. São Paulo: Editora Ma- lheiros, 2012, p. 874. 7 MACHADO. Direito Ambiental Brasileiro, p. 516. 8 “AÇÃO CIVIL PÚBLICA - Obrigação de não fazer - Proteção do meio ambiente - Inteligência do art. 30,1 c.c. art. 24, da CF - Resolução Conama 237/97 e Lei Municipal 2.508/98 - Competência que a Constituição Federal outorgou de modo concorrente não pode ser mitigada por lei de outro ente federativo e, muito menos, por ato normativo inferior - Competências constitucionais são deveres. Matéria ambiental não é assunto de interesse local - Declarada, pelo C. Órgão Especial deste Tribunal, a inconstitucionalidade da Resolução - Recurso não provido.” BRASIL. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO. Apelação nº 994.03.082689-0, Relator Des. Magalhães Coelho, 3ª Câmara de Di- reito Público, j. 02/03/2010. 31Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Tribunal Federal, requerendo-se a equiparação das resoluções do CONAMA às leis federais (REsp n. 1.865.275). De lado o debate a respeito do caráter normativo do CONAMA, não se pode olvidar que os dispositivos do Código Florestal de 2012 já foram detidamente analisados pelo Supremo Tribunal Federal, sendo evidente a competência do Tribunal e a autoridade das decisões proferidas em sede de controle concentrado de constitucionalidade. Não obstante, mais de 4 (quatro) anos após o término do julgamento das ADI n. 4.901, 4.902 e 4.903, 4.937 e da ADC 42, ainda há decisões furtando-se à aplicação do Código Florestal (e do art. 63, especificamente). Afronta à Constituição Federal: negativa de vigência chancelada pelo Superior Tribunal de Justiça Em sua maioria, as decisões que negam aplicação ao art. 62 do Código Florestal baseiam-se no princípio tempus regit actum, entendendo pela aplicação da Lei Federal n. 4.771/1965 (antigo Código Florestal) e da Resolução CONAMA n. 302/2002. Nesta toada, a análise rege-se pela sucessão de leis no tempo, aplicando-se e interpretando-se as normas vigentes à época da verificação dos danos que deram ensejo às ações na origem. A respeito, diz o Superior Tribunal de Justiça: 2. O Superior Tribunal de Justiça, em diversos julgados, tem defendido a tese de que, em matéria ambiental, deve prevalecer o princípio tempus regit actum, de forma a não se admitir a aplicação das disposições do novo Código Florestal a fatos pretéritos, sob pena de retrocesso ambiental (REsp 1728244/SP, Rel. Ministro HERMAN BENJAMIN, SEGUNDA TURMA, julgado em 06/12/2018, DJe 08/03/2019, e AgInt no REsp 1709241/SP, Rel. Ministro GURGEL DE FARIA, PRIMEIRA TURMA, julgado em 11/11/2019, DJe 02/12/2019). 3. A declaração de constitucionalidade de vários dispositivos do novo Código Florestal (Lei n. 12.651/2012) pelo Supremo Tribunal Federal, no julgamento das ADIs 4.901, 4.902 e 4.903 e da ADC 42 (DJE 13/08/2019), 32 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal não inibe a análise da aplicação temporal do texto legal vigente no plano infraconstitucional, tarefa conferida ao Superior Tribunal de Justiça. 4. Ao apreciar a irretroatividade da norma ambiental, esta Corte, sem conflitar com o decidido pelo STF, não ingressa no aspecto constitucional do novo diploma legal, efetuando leitura de ordem infraconstitucional, mediante juízo realizado em campo cognitivo diverso.9 Ocorre que, nestes casos, a questão controversa é erroneamente qualificada, atribuindo-se regramento incompatível com a técnica jurídica e, pior, com as decisões proferidas pelo Supremo Tribunal Federal em sede de controle concentrado de constitucionalidade. O equivocado entendimento viola o art. 5º, II da Constituição Federal pois, além de ter alçado ao status de lei uma resolução do CONAMA, privilegia-se espécie normativa inferior em detrimento de norma geral da União expedida com intuito de regular a situação específica das APP de reservatórios artificiais com contratos de concessão anteriores a 2001 (art. 62). Nosso sistema constitucional fundamenta-se no princípio da legalidade estrita, segundo o qual apenas a lei em sentido formal pode criar obrigações aos particulares. Neste sentido, dispõe a jurisprudência do Supremo Tribunal Federal: O princípio da reserva de lei atua como expressiva limitação constitucional ao poder do Estado, cuja competência regulamentar, por tal razão, não se reveste de suficiente idoneidade jurídica que lhe permita restringir direitos ou criar obrigações. Nenhum ato regulamentar pode criar obrigações ou restringir direitos, sob pena de incidir em domínio constitucionalmente reservado ao âmbito de atuação material da lei em sentido formal.10 O princípio constitucional da reserva de lei formal traduz limitação ao exercício das atividades administrativas e jurisdicionais do Estado. A reserva de lei – analisada sob tal perspectiva – constitui postulado revestido de função 9 BRASIL. SUPERIOR TRIBUNAL DE JUSTIÇA. REsp n. 1.646.193/SP, relator Ministro Napoleão Nunes Maia Filho, relator para acórdão Ministro Gurgel de Faria, Primeira Turma, julgado em 12/5/2020, DJe de 4/6/2020. 10 BRASIL. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. AC 1.033-AgR-QO, Rel. Min. Celso de Mello, j. em 25 de maio de 2006, Plenário, DJ de 16-6-2006. http://www.stf.jus.br/jurisprudencia/IT/frame.asp?PROCESSO=1033&CLASSE=AC%2DAgR%2DQO&cod_classe=1309&ORIGEM=IT&RECURSO=0&TIP_JULGAMENTO=M&EMENTA=2237 33Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia excludente, de caráter negativo, pois veda, nas matérias a ela sujeitas, quaisquer intervenções normativas, a título primário, de órgãos estatais não legislativos. Essa cláusula constitucional, por sua vez, projeta-se em uma dimensão positiva, eis que a sua incidência reforça o princípio, que, fundado na autoridade da Constituição, impõe à administração e à jurisdição a necessária submissão aos comandos estatais emanados, exclusivamente, do legislador. Não cabe ao Poder Executivo em tema regido pelo postulado da reserva de lei, atuar na anômala (e inconstitucional) condição de legislador, para, em assim agindo, proceder à imposição de seus próprios critérios, afastando, desse modo, os fatores que, no âmbito de nosso sistema constitucional, só podem ser legitimamente definidos pelo Parlamento. É que, se tal fosse possível, o Poder Executivo passaria a desempenhar atribuição que lhe é institucionalmente estranha (a de legislador), usurpando, desse modo, no contexto de um sistema de poderes essencialmente limitados, competência que não lhe pertence, com evidente transgressão ao princípio constitucional da separação de poderes.11 Por interferir no direito de livre dispor da propriedade, a regulamentação da forma de utilização de APP é matéria reservada à regulamentação por lei em sentido estrito, razão pela qual apenas uma lei poderia definir a metragem da faixa de preservação permanente que não poderá ser utilizada pelo proprietário. As decisões que se furtam à aplicação do dispositivo ferem tam- bém o art. 24, VI da Constituição Federal, que é expresso em atribuir competência concorrente para a União, os Estados e o Distrito Federal legislarem sobre “a conservação da natureza, defesa do solo e dos recur- sos naturais, proteção do meio ambiente e controle da poluição.” Ou seja, a regulamentação de APP constitui matéria reservada ao princípio da reserva de lei e, também por este prisma, a Resolução CONAMA n. 302/2002 é ilegal. Neste contexto, cumpre trazer os ensinamentos de Celso Antônio Bandeira de Mello, para quem: 11BRASIL. SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL. ADI 2.075-MC, Rel. Min. Celso de Mello, j. em 7 de fevereiro de 2001, Plenário, DJ de 27-6-2003. 34 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal [...] consagra-se, em nosso Direito Constitucional,a aplicação plena, cabal, do chamado princípio da legalidade, tomado em sua verdadeira e completa extensão. Em consequência, pode-se, com Pontes de Miranda, afirmar: ‘Onde se estabelecem, alteram ou extinguem direitos, não há regulamentos – há abuso do poder regulamentar, invasão de competência legislativa. O regulamento nada mais é do que auxiliar das leis, auxiliar que sói pretender, não raro, o lugar delas, mas sem que possa, com tal desenvoltura, justificar-se e lograr que o elevem à categoria de lei.12 A análise das decisões que negam aplicação ao art. 62 e, consequentemente, ao entendimento do Supremo Tribunal Federal quanto à sua constitucionalidade, leva a crer que as decisões estão permeadas de concepções ideológicas que levam a distorções do texto constitucional. Situação similar já fora vislumbrada por J. J. Gomes Canotilho: [...] os aplicadores-interpretadores servem-se de vários tópoi ou pontos de vista, sujeitos à prova das opiniões pró ou contra, a fim de descortinar dentro das várias possibilidades derivadas da polissemia de sentido do texto constitucional, a interpretação mais conivente para o problema. A tópoio seria, assim, uma arte de invenção (inventio).13 A seguir, o ilustre constitucionalista português afirma que: [...] além de poder conduzir a um casuísmo sem limites, a interpretação não deve partir do problema para a norma, mas desta para os problemas. A interpretação é uma actividade normativamente vinculada, constituindo a constitutio scripta um limite ineliminável (Hesse) que não admite o sacrifício da primazia da norma em prol da prioridade do problema.14 12 MELLO, Celso Antônio Bandeira de. Curso de Direito Administrativo. São Paulo: Editora Malheiros, 2008, p.341. 13 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7 ed. Coimbra: Almedina, 2000, p. 1085. 14 CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição, p. 1086. 35Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Por seu turno, Eros Grau, também afirma que a interpretação constitucional não pode ser realizada a partir da criação de uma “ordem de valores” sob pena de descaracterizar a própria “unidade e coerência” do sistema constitucional: [...] a demonstração de que os princípios são elementos internos ao sistema os situa, na dinâmica do processo de interpretação jurídica, no contexto sistêmico. A metáfora da ‘ordem de valores’ que se pretende detectar no texto constitucional e no direito – em cada direito – torna-se desnecessária, com o que o sistema é depurado. Assim, as possibilidades de realização de justiça material residem – ou não residem – no próprio texto constitucional, neste próprio texto. Não se encontram além deles, em valorações abstratas tecidas pelos movimentos românticos e naturalistas do ‘direito livre’, do behaviorismo, do legal realism, do pragmatismo da jurisprudência de interesses, que, como anota García de Enterría, na busca de valores materiais, dissolvem a objetividade e positividade do direito.15 Assim, o preceito normativo do art. 62 tem eficácia retroativa por expressa definição legal e já teve a sua constitucionalidade reconhecida pelo C. Supremo Tribunal Federal, em controle concentrado. Qualquer discussão sobre a validade do art. 62 da Lei Federal nº 12.651/2012 ou, ainda, qualquer interpretação que lhe afaste a incidência está superada. Não obstante, não é o que se tem visto. Reclamação como remédio possível De início, vale lembrar que as disposições do Código Florestal são aplicáveis mesmo às ações em curso distribuídas antes da sua vigência (ou da confirmação da sua constitucionalidade pelo Supremo Tribunal Federal) pois o direito superveniente e o fato novo devem influenciar no julgamento da 15 GRAU, Eros. A ordem econômica na Constituição de 1988. 7 ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 200. 36 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal lide, tal como prescrevem o art. 5º, II da Constituição Federal, art. 6º da Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro e art. 493 do Código de Processo Civil. Neste exato sentido, preleciona Arruda Alvim: O novo tratamento jurídico oferecido pela Lei 12.651/2012 às questões ambientais altera de forma significativa uma série de situações e determinações que são objeto de demandas judiciais pendentes de julgamento. E, como se viu, o art. 462 do CPC (LGL\1973\5), qualquer fato superveniente à propositura da ação, constitutivo, modificativo ou extintivo do direito, que influir no julgamento da lide, deve ser considerado na decisão. Isso significa que as disposições do novo Código Florestal que alteram as condições de recomposição e regularização das áreas de reserva legal devem, sempre, ser aplicadas nos processos em curso. Não há fundamento para querer aplicar a lei antiga, revogada, às situações jurídicas pendentes de julgamento.16 As ações judiciais em curso devem, portanto, adaptar-se às novas disposições legais, pois a aplicação do Código Florestal é inegável ao magistrado. Este é, aliás, o entendimento de grande parte dos Tribunais.17 Em complemento, vale notar que a aplicação do art. 62 não viola ato jurídico perfeito, direito adquirido ou coisa julgada, pois o dispositivo apenas altera aspectos relacionados à utilização das propriedades, adequando situações já consolidadas e garantindo estabilidade aos particulares em um cenário de grande incerteza jurídica. Todavia, sob a chancela da jurisprudência defensiva do Superior Tribunal de Justiça que se recusa a analisar o mérito recursal,18 prolifera-se o 16 ALVIM, Arruda. A incidência de novas normas ambientais em hipótese de haver ou não haver processos em curso. Revista de Processo. São Paulo, Revista dos Tri- bunais, v. 38, n. 218, p. 281-312, abr., 2013. 17 BRASIL. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE SÃO PAULO. 1ª Câmara Reservada ao Meio Ambiente, Apelação 0002159-21.2006.8.26.0481, j. 06/11/2014 e BRASIL. TRIBUNAL DE JUSTIÇA DE MINAS GERAIS. 6ª Câmara Cível, Embargos de Declaração 1.0702.09.561991- 3/003, j. 01.04.14. 18 “A jurisprudência defensiva pode ser entendida como a prática adotada pelos tribunais brasi- leiros, notadamente as cortes superiores, para o não conhecimento de recursos em razão de apego formal e rigidez excessiva em relação aos pressupostos de admissibilidade recursal. A inadmissão de recursos não é, por si só, o problema. O busílis reside justamente na criação de entraves forma- 37Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia desacerto e a injustiça de decisões que não reconhecem a validade dos dispositivos do Código Florestal e a autoridade das decisões do Supremo Tribunal Federal. A matéria é essencialmente de Direito, referindo-se à necessidade de aplicação dos dispositivos do Código Florestal que tiveram constitucionalidade reconhecida pelo Supremo Tribunal Federal e, por isso, a Reclamação é o remédio aplicável, com base no art. 102, I, “l,” da CF e no art. 988 do Código de Processo. O Supremo Tribunal Federal já tem se deparado com o tema, delineando os contornos das Reclamações e reconhecendo afronta às suas decisões. O quadro a seguir elenca algumas das decisões colegiadas e monocráticas já proferidas pela Corte: Rcl 44645 AgR, Relator Min. Ricardo Lewandowski, Segunda Turma, julgado em 24/05/2021. “Esta Suprema Corte, em reiteradas reclamações, tem considerado que o raciocínio adotado pelo Superior Tribunal de Justiça, fundado nos princípios do tempus regit actum e da vedação de retrocesso ambiental, acarreta burla às decisões proferidas pelo Plenário desta Corte na ADC 42/DF e nas ADIs 4.901/DF, 4.902/DF, 4.903/DF e 4.937/DF.” “Por implicar no esvaziamento do conteúdo normativo de dispositivo legal, com fundamento constitucional implícito, também existe afronta à Súmula Vinculante 10.” Rcl 43703 AgR, Relatora Min. Cármen Lúcia, Primeira Turma, julgado em 15/09/2021 Decisão reclamada que aplica o princípio tempus regit actum afastando as normas de transiçãodo Código Florestal Configurado descumprimento do que fora decidido nas ADI n. 4.937, 4.903 e 4.902 e na ADC n. 42. Rcl 43202 AgR, Relator Min. Dias Toffoli, Primeira Turma, julgado em 04/10/2021, Rcl 42889 AgR, Relator Min. Alexandre de Moraes, Primeira Turma, julgado em 29/03/2021 Rcl 39270, Relator Min. Gilmar Mendes, Decisão Monocrática, julgado em 16/11/2020. “(...) entendo que o ato reclamado, ao recusar a aplicação dos arts. 62 e 61-A do Código Florestal ao caso concreto, esvaziou a força normativa dos dispositivos legais em dissonância com a decisão vinculativa formalizada por esta Suprema Corte no julgamento das ADIs 4.901, 4.902 e 4.903, 4.937 e da ADC 42.” listas (por vezes contra legem), que prezam pelo rigorismo exacerbado, pernicioso, em detrimento do exame do mérito.” VAUGHNA, Gustavo Fávero. Jurisprudência defensiva no STJ à luz dos princípios do acesso à justiça e da celeridade processual. Revista de Processo. São Paulo: Revista dos Tribunais, v. 41, n. 254, abr. 2016. p. 339-373. 38 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Rcl 45546 AgR-segundo, Relator Dias Toffoli, Primeira Turma, julgado em 21/02/2022 Art. 15 do Código Florestal. Norma de transição de aplicação imediata. Conf igurado descumprimento do que fora decidido nas ADI n. 4.937, 4.903 e 4.902 e na ADC n. 42. Rcl 48825 AgR, Relator Min. Alexandre de Moraes, Primeira Turma, julgado em 11/10/2021. Não cabe reclamação quando já houver transitado em julgado o ato judicial que se alega desrespeitado decisão do Supremo Tribunal Federal. Rcl 42618 AgR, Relator Min. Ricardo Lewandowski, Segunda Turma, julgado em 19/04/2021. A Reclamação não pode ser utilizada como sucedâneo do recurso processual cabível. Decisão reclamada deve ser posterior ao pronunciamento do Supremo Tribunal Federal. Considerações finais Os efeitos decorrentes da entrada em vigor de nova legislação em relação a fatos pretéritos variam de acordo com os graus da retroatividade das leis, tal como admitem doutrina e jurisprudência e, sempre que conforme a vontade do legislador, vedando-se que alcance a situações jurídicas já consolidadas sob o manto do ato jurídico perfeito, do direito adquirido e da coisa julgada. Exatamente sob este prisma, o Código Florestal fora analisado pelo Supremo Tribunal Federal. Não obstante, mesmo após a decisão sobre a constitucionalidade do Código, o Superior Tribunal de Justiça firmou orientação no sentido de não admitir a aplicação das normas a fatos pretéritos sob pena de retrocesso ambiental, aplicando-se o princípio do tempus regit actum (REsp 1.728.244), entendendo que a declaração de constitucionalidade não inibe a competência do Superior Tribunal de Justiça acerca da aplicação da nova lei no tempo (REsp n. 1.646.193). A garantia de um meio ambiente sadio e ecologicamente equilibrado às presentes e às futuras gerações não pode servir de pretexto para a adoção de ginásticas interpretativas que fundamentem decisões judiciais e posições doutrinárias contrárias à lógica do ordenamento jurídico. No âmbito do Direito Ambiental, já há alguns anos, consagram-se teses descoladas dos preceitos erigidos pela Constituição Federal e do arcabouço normativo vigente, a exemplo da possibilidade de edição de “normas gerais” pelo CONAMA, da imprescritibilidade da pretensão no âmbito da responsabilidade civil ambiental e da admissão da proibição do retrocesso. Estas criações geram insegurança jurídica e violam diversos outros direitos fundamentais, a exemplo da livre iniciativa, da função social da propriedade e do desenvolvimento sustentável. Após os pronunciamentos definitivos do Supremo Tribunal Federal sobre o 39Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia tema, não é lícita qualquer negativa de aplicação do art. 62 da Lei nº 12.651/12 pelos órgãos do Poder Judiciário ou pela Administração Pública, tendo em vista o disposto no art. 102, § 2º, da Constituição Federal: §2º As decisões def initivas de mérito, proferidas pelo Supremo Tribunal Federal, nas ações diretas de inconstitucionalidade e nas ações declaratórias de constitucionalidade produzirão eficácia contra todos e efeito vinculante, relativamente aos demais órgãos do Poder Judiciário e à administração pública direta e indireta, nas esferas federal, estadual e municipal. Sobre a eficácia das decisões do Supremo Tribunal Federal em controle concentrado de constitucionalidade, tem-se que: No tocante à eficácia erga omnes das decisões, têm posição de destaque as ações de controle de constitucionalidade, espécies de processo coletivo especial. Diante de decisão proferida em ação direta de inconstitucionalidade, em ação declaratória de constitucionalidade ou de arguição de descumprimento de preceito fundamental, não podem os juízes que enfrentarem a questão constitucional de forma incidental desconsiderar a decisão judicial do Supremo Tribunal Federal, justamente porque o efeito erga omnes vincula a todos.19 Relevante destacar ainda que a Procuradoria Geral da República, em recente manifestação nos autos da Reclamação n. 39.270/SP, já se posicionou a respeito do tema em debate, acompanhando o entendimento pela aplicabilidade do Código Florestal, como se depreende do excerto a seguir: No caso em análise, o Juízo reclamado, desconsiderando o julgamento das ADIs e da ADC e invocando jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça de que a norma ambiental a ser observada é aquela vigente à época da apuração dos fatos, entendeu, em 9.10.2019, pela irretroatividade do Novo Código Florestal, sob 19 NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Ações constitucionais. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2013, p. 865. 40 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal os fundamentos de (i) incidência do princípio do tempus regit actum e (ii) de que a aplicação retroativa da Lei 12.651/2012 poderia ensejar ilegítima revisão de procedimentos de licenciamentos ambientais já findados. Assim, ao desrespeitar a decisão do Supremo Tribunal Federal em sede de controle concentrado de constitucionalidade, esvaziou por completo sua força normativa e recusou eficácia vinculante ao julgado, franqueando, consequentemente, a possibilidade de propositura da presente reclamação, inclusive por expressa disposição do Código de Processo Civil (arts. 927, I, e 988, III). Não há, portanto, discricionariedade em aplicar, ou não, as decisões emanadas pelo Supremo Tribunal Federal em sede de controle concentrado de constitucionalidade, dotadas de eficácia vinculante, sob pena de esvaziamento da autoridade e da eficácia das decisões. Referências ALVIM, Arruda. A incidência de novas normas ambientais em hipótese de haver ou não haver processos em curso. Revista de Processo. São Paulo, Revista dos Tribu- nais, v. 38, n. 218, p. 281-312, abr., 2013. ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. Rio de Janeiro: Editora Lumen Iuris, 2006. CANOTILHO, José Joaquim Gomes. Direito Constitucional e Teoria da Constituição. 7 ed. Coimbra: Almedina, 2000, p. 1085. GRAU, Eros. A ordem econômica na Constituição de 1988. 7 ed. São Paulo: Saraiva, 2008, p. 200. MACHADO, Paulo Affonso Leme. Direito Ambiental Brasileiro. São Paulo: Editora Malheiros, 2012. NEVES, Daniel Amorim Assumpção. Ações constitucionais. 2. ed. Rio de Janeiro: Forense; São Paulo: MÉTODO, 2013, p. 865. VAUGHNA, Gustavo Fávero. Jurisprudência defensiva no STJ à luz dos princípios do acesso à justiça e da celeridade processual. Revista de Processo. São Paulo: Revista dos Tribunais, v. 41, n. 254, abr. 2016. p. 339-373. 41Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Constitucionalismo Climático Délton Winter de Carvalho1 Introdução Com a intensificação dos eventos climáticos extremos e sua chegada antecipada frente as previsões científicas, o Direito passa a uma posição de protagonismo no processo global que vem demandando por respostas à mitigação, à adaptação e às perdas e danos relacionadasàs mudanças climáticas. Diante desta constatação, há a necessidade de delinear as bases estruturantes deste ramo, construído nas fronteiras do sistema jurídico com o da ciência. Para tanto, o presente texto elucida não apenas o Direito das Mudanças Climáticas nas dimensões mais tradicionais do Direito, isto é, o Direito Internacional e o Direito Nacional, mas também apresentar a formação de uma nova dimensão, a transnacional. Esta dimensão emerge tanto dos instrumentos internacionais clássicos como das aquisições evolutivas obtidas nos direitos nacionais e regionais, que ganham influência global por uma metodologia de direito comparado. Como fator propulsor destas aquisições, encontra-se um fenômeno, cada vez mais intenso, que é o da litigância climática. Em seguida, o presente texto aprofunda uma análise acerca desta dimensão transnacional. Necessário trazer à tona que uma geração de conflitos e problemas ambientais surgiram a partir do avançar da Sociedade Industrial. Este fenômeno produziu uma vasta consagração do “direito ao meio ambiente equilibrado e sadio” em diversas tradições constitucionais com o objeto apresentar respostas aos desafios da justiça ambiental, formando-se aquilo que vem sendo denominado Constitucionalismo Ambiental. Com a entrada do “Antropoceno”2 1 Délton Winter de Carvalho. Professor do Programa de Pós-Graduação em Direito da Univer- sidade do Vale do Rio dos Sinos - UNISINOS. Pós-Doutor University of California, Berkeley, CA, USA. Líder do Grupo de Pesquisa Direito, Risco e Ecocomplexidade (CNPq). Advogado. 2 Antropoceno consiste em um conceito que representa “era dos humanos,” criado para descre- ver uma nova era geológica, ainda não oficial, a partir da qual as dinâmicas do sistema terrestre são determinadas pela atividade humana. O termo foi proposto por Paul J Crutzen em 2002, em texto publicado na revista Nature. CRUTZEN, Paul J. Geology of mankind. Nature. United 3 42 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal em cena, agregam-se a uma primeira geração de conflitos ambientais, problemas de ordem mais complexa, desterritorializada e transtemporal. E é nesta nova geração onde os litígios climáticos encontram-se. Tais litígios trazem à discussão jurídica uma nova dimensão de (in)justiça, para além da social e da ambiental. Trata-se da justiça climática. A entrada do Direito no “Antropoceno” demanda por uma teoria constitucional compatível e apta a guiar o Estado de Direito nesta nova dimensão de conflitos e de justiça climática. Aí que começam os recentes debates acerca da formação de um Constitucionalismo Climático, uma evolução de seu predecessor, o ambiental. Finalmente, a importância de um Constitucionalismo Climático, como um elo congruente entre as diversas experiências constitucionais para tratamento da matéria climática, é trazida a partir de um estudo lançado sobre dois dos mais relevantes casos de litígios climáticos, Leghari v. Paquistão e Juliana v. USA. Apesar das diferenças entre estes casos, ambos trazem uma reflexão sobre a importância do papel exercido pelas previsões constitucionais, como estratégia para enfrentar a fragilização de direitos fundamentais em razão dos efeitos negativos das mudanças climáticas. Ainda ao nível de semelhanças, estes aproximam-se também na influência que produziram e produzem ao nível transnacional. Regime climático internacional O Direito das Mudanças Climáticas é constituído por “um regime jurídico tridimensional” (internacional, transnacional e nacional) de tratamento da mudança climática e seus efeitos. Entre 1988 e 1990,3 as mudanças climáticas passaram a ser determinadas como “uma preocupação comum para a humanidade,” momento em que a Assembleia das Nações Unidas formalmente começou a colocar em movimento as negociações para um tratado que enfrentasse tanto a mudança climática quanto seus efeitos.4 Kingdom, v. 415, n. 6867, p. 23, 2002. 3 Neste sentido, vide a Resolução 43/53, de 6 de dezembro de 1988, a Resolução 44/207, de 22 de dezembro de 1989, a Resolução 45/212, de 21 de dezembro de 1990 e a Resolução 46/169, de 19 de dezembro de 1991, todas da Assembleia Geral das Nações Unidas. 4 SANDS, Philippe; PEEL, Jacqueline. Principles of International Environmental Law. 4. ed. Cambridge: Cambridge University Press, 2018, p. 299. 43Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Tais negociações culminaram com a adoção da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas (UNFCCC, em inglês) em 1992. O “regime internacional” do Direito das Mudanças Climáticas orbita a partir de três instrumentos de Direito Internacional: a referida Convenção- Quadro de 1992, o Protocolo de Quioto de 1997 e o Acordo de Paris de 2015.5 A Convenção-Quadro consiste em um instrumento bastante amplo que estabelece objetivos e princípios básicos, assim como as estruturas de negociação para converter estes princípios em obrigações mais concretas. Portanto, esta depende de regulamentação. Já o Protocolo de Quioto é um tratado derivado da Convenção-Quadro, cujo conteúdo estabelece metas e cronogramas para reduzir a emissão de gases do efeito estufa. Este adota um regime top-down, estabelecendo obrigações vinculantes independentes para a redução de emissões por países desenvolvidos, a ser obtida por meio de uma série de instrumentos de mercado de mitigação climática e atendimento de suas metas. O Acordo de Paris, por seu turno, representa o ápice deste processo de negociações no plano internacional e prevê a estrutura normativa para governança climática a partir de 2020. O tratado compromete as Partes, por meio de um consenso político internacional, “a manter o aumento da temperatura média global bem abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais, e envidar esforços para limitar esse aumento da temperatura a 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais, reconhecendo que isso reduziria significativamente os riscos e os impactos da mudança do clima.”6 Diferentemente do Protocolo de Quioto, o Acordo de Paris não tem um prazo final definido, prevendo um processo contínuo de submissão de ações climáticas voluntárias pelos países, as chamadas Contribuições Nacionalmente Determinadas (NDCs, acrônimo na língua inglesa). Como manifestação ao “princípio das responsabilidades comuns, porém diferenciadas,” estas devem refletir a mais alta ambição possível de cada Parte, sendo periódica e progressivamente revistas pelos países.7 Ao invés de metas e cronogramas rígidos para as reduções de emissões, o Acordo de Paris adotou uma abordagem 5 FARBER, Daniel A.; CARLARNE, Cinnamon P. Climate Change Law. St. Paul: Founda- tion Press, 2018, p. 57. 6 Vide o artigo 1º, (a), do Acordo de Paris de 2015. UNITED NATIONS FRAMEWORK CONVENTION ON CLIMATE CHANGE. Acordo de Paris, 2015. 7 FARBER; CARLARNE. Climate Change Law, p. 67. 44 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal bottom-up, com as ações de mitigação e de adaptação sendo determinadas individualmente pelas partes em conformidade com as prioridades políticas e econômicas domésticas de cada Parte. Regime climático nacional De outro lado, as respostas jurídicas às mudanças climáticas devem também ser objeto de atenção ao nível de direito doméstico. Em outras tintas, as mudanças climáticas devem ser pensadas e negociadas globalmente, mas as ações mitigadoras, adaptativas e de perdas e danos devem ser executadas localmente. Para tanto, os países passam a desenvolver seu Direito das Mudanças Climáticas ao nível interno: (i) ratificando tratados climáticos de direito internacional; (ii) promulgando normativas acerca da matéria climática, tais como previsões constitucionais, processos legislativos nacionais, subnacionais e municipais, e atos normativos infralegais; (iii) por meio do desenvolvimento de planos executivos de mitigação e adaptação climática. As estratégias também podem se basear em instrumentos de mercado, como é o caso da taxação do carbono,de um lado, e a formação de um mercado de carbono (cap-and-trade), de outro. Assim, qualquer medida para combate nacional às mudanças climáticas necessariamente terá de lançar mão de alguma destas estratégias: regulação jurídica convencional, taxação das emissões ou mercado de quotas de emissões. Finalmente, um importante fator de propulsão e definição da regulação climática é exercido pelas cortes jurisdicionais (nacionais, regionais, comunitárias ou mesmo internacionais), naquilo que é denominado “litigância climática.”8 O regime jurídico climático brasileiro é estruturado sobre as bases da Política Nacional sobre Mudança do Clima - PNMC, instituída pela Lei nº 12.187 de 29 de dezembro de 2009, de um lado, e a ratificação do Acordo de Paris pelo Decreto nº 9.073, de 5 de junho de 2017, de outro. Também, o direito doméstico deve adotar como diretrizes da PNMC todos os compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre o Clima e demais documentos sobre mudança climática dos quais o país vier a ser signatário (art. 5º da Lei nº 12.187/2009). Importante destacar que, 8 UNEP - UN Environment Programme. Global Climate Litigation Report: 2020 Status Review. Nairobi: UN Environment Programme; Sabin Center for Climate Change Law, 2020. 45Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia no sistema pátrio, há uma ambiguidade de metas, capaz de causar confusões e insegurança jurídica. Primeiro, o texto legal da PNMC prevê como meta a redução de 36.1% a 38.9% das emissões projetadas até 2020, tendo como base o inventário de 2010 (art. 12 da Lei nº 12.187/2009). Para a obtenção e sistematização desta meta climática nacional, a projeção das emissões para 2020 são quantificadas setorialmente para (i) mudança de uso da terra, (ii) energia, (iii) agropecuária, (iv) processos industriais e tratamento de resíduos, mediante regulamentação emanada do Decreto nº 9.578, de 22 de novembro de 2018 (vide art. 18). Finalmente, esta regulamentação infra legal define “planos setoriais de mitigação e adaptação climática” para a consecução dos objetivos definidos pela PNMC, notando-se forte destaque ao combate ao desmatamento (art. 17). Tais planos consistem em planejamentos executivos setoriais de conteúdo científico, com função de operacionalizar a “governança climática” por setores e com “força normativa.” Nota-se, portanto, um sistema normativo, com metas setoriais quantificáveis e planejamentos executivos operacionais. De outro lado, a ratificação do Acordo de Paris, promulgada pelo Decreto nº 9.073/2017, torna norma doméstica a meta climática de “manutenção do aumento da temperatura média global bem abaixo de 2°C em relação aos níveis pré-industriais, e envidar esforços para limitar esse aumento da temperatura a 1,5° em relação aos níveis pré-industriais.” Para tanto, a NDC brasileira prevê, como meta brasileira ao Acordo de Paris, “a redução de 37% na emissão de gases do efeito estufa para 2025 em comparação às emissões registradas em 2005, e 43% em 2030, com obtenção de neutralidade climática em 2060.” Digno de destaque que referida meta está construída sobre bases diversas daquelas previstas na PNMC, havendo uma ambígua duplicidade de metas climáticas no sistema jurídico climático nacional. Da mesma forma, giza-se a ausência de um sistema completo, coerente e operacional da NDC brasileira, uma vez ausente a uma setorização quantificável das metas e de respectivos planos executivos. Regime climático transnacional Para além das dimensões internacional e nacional, há a formação de uma, cada vez mais forte, “dimensão transnacional.” Esta, volta-se para os aspectos globais do Direito das Mudanças Climáticas, tendo por base propulsora a expansão global dos litígios climáticos que, por seu turno, desencadeiam um 46 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal “movimento transnacional por justiça climática.9 Neste processo, cada vez mais frequente, casos paradigmáticos mundiais passam a influenciar e ter sua aderência testada em outras jurisdições, desencadeando uma verdadeira “governança climática transnacional” pelo litígio.10 Os litígios climáticos são fenômenos jurisdicionais, portanto, frequentemente ocorrem em âmbito local, em cortes nacionais ou subnacionais. Ante a constante ausência de um caráter vinculante (binding) e de execução forçada (enforcement) dos instrumentos internacionais, como o Acordo de Paris, os litígios climáticos envolvem litigantes e decisões de cortes domésticas.11 Apesar de frequentemente os litigantes serem de uma mesma nação, onde tramita a demanda jurisdicional, o caráter transnacional decorre da constatação de que os seus reflexos judiciais adquirem um alcance local e global, simultaneamente.12 Um dos aspectos mais destacados desta dimensão, originadas nas orientações emanadas do próprio Acordo de Paris, é o fato da “governança climática”: (i) ser multinível e para além do Estado (tendo como atores indivíduos, organizações não governamentais, cidades, estados, países, entre outros); (ii) ter uma sólida base científica (fundada em Relatórios Científicos do Intergovernmental Panel on Climate Change - IPCC); e (iii) identificar o potencial que as mudanças climáticas têm de afetar os mais vulneráveis e ocasionar a violação aos direitos humanos, tais como a vida, a dignidade da pessoa humana, a propriedade, o meio ambiente ecologicamente equilibrado, entre outros. E é no âmago deste movimento transnacional que um constitucionalismo global passa a adquirir sua face ambiental e, mais recentemente, climática. 9 PEEL, Jacqueline; LIN, Joline. Transnational Climate Litigation: The Contribution of the Global South. The American Society of International Law, Singapore, v. 113, n. 4, p. 679– 726, 2019, p. 681. 10 CARVALHO, Délton Winter de. Desastres ambientais e sua regulação jurídica: deveres de prevenção, resposta e compensação ambiental. 1. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2015. p. 188-197. CARVALHO, Délton Winter de. Estado de Direito Ambiental. In: Gestão Jurídica Ambiental. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2020, p. 140-149. 11 PEEL, Jacqueline; LIN, Joline. Transnational Climate Litigation: The Contribution of the Global South. The American Society of International Law, Singapore, v. 113, n. 4, p. 679– 726, 2019, p. 696. 12 BODANSKY, Daniel. Climate Change: Transnational Legal Order or Disorder? In: HALL- IDAY, Terence C.; SHAFFER, Gregory (Eds.). Transnational Legal Orders and Regulatory Law. Cambridge: Cambridge University Press, 2015, p. 287-308. 47Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia O constitucionalismo ambiental O aumento das preocupações com o equilíbrio ambiental global repercute em um crescimento da inserção de direitos e obrigações ambientais nas constituições de diversos países. A inserção de disposições ambientais constitucionais substanciais teve seu início na década de 70, sendo a Iugoslávia, por exemplo, um dos primeiros países a adotar um direito ao meio ambiente ao nível constitucional, em 1974,13 em decorrência da influência internacional exercida pela Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente Humano de Estocolmo em 1972. Esta proliferação de previsões de direitos substanciais ou procedimentais ambientais em constituições ao redor do mundo estabeleceu a marca de que, em 2015, 76 países já reconheciam expressamente o direito ao meio ambiente em suas constituições.14 Não obstante, uma influência internacional, as previsões constitucionais de cada país são marcadas por especif icidades nos respectivos textos constitucionais, influenciados por suas próprias culturas, teorias, doutrinas e jurisprudências constitucionais nacionais. Há uma grande diversidade no tratamento constitucional do meio ambiente dado pelos países, destacando- se, aqui, a região latino-americana. A exemplo do Equador e da Bolívia, que consideram a natureza como uma entidade legal (Pachamama e o princípio do “buen vivir”).Outros países como Brasil, México, Colômbia e Argentina inseriram o direito ao meio ambiente em suas constituições na década de 80, em grande parte atribuindo “direitos subjetivos individuais” ao ambiente sadio. No caso do Brasil, a inserção do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado envolve uma dupla dimensão, de um lado “direitos subjetivos públicos” e, de outro, “deveres objetivos de proteção.”15 A partir de uma perspectiva metodológica comparada,16 o Constitucionalismo Ambiental atua em uma dimensão transnacional, a partir da 13 KOTZÉ, Louis J. The Fundamentals of Environmental Constitutionalism. In: KOTZÉ, Louis J. Global Environmental Constitutionalism in the Anthropocene. Cap. 5, p. 133- 175. Oxford; Portland: Hart Publishing, 2016, p. 136. 14 DALY, Erin; MAY, James R. Comparative environmental constitutionalism. Jindal Global Law Review, Sonipat, v.6, n.1, p.9-30, 2015, p. 10. 15 CARVALHO, Délton W. Desastres ambientais e sua regulação jurídica: deveres de prevenção, resposta e compensação ambiental. 2. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2020a. p. 139-140. 16 MAY, James R; DALY, Erin. Global Environmental Constitutionalism. New York: Cam- bridge University Press, 2015. 48 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal qual a comparação entre a adoção da proteção ambiental nas diversas tradições constitucionais mundiais, no direito internacional, nos direitos humanos e no direito ambiental, é capaz de formar um corpo coerente apto a permitir o preenchimento de lacunas e uma influência recíproca em prol de uma efetiva proteção do ambiente a partir de um nível e um status constitucional. Trata- se, portanto, de um fenômeno global emergente de direito constitucional comparado, formando um processo de interpretação coerente das diversas culturas constitucionais em multiníveis, tais como subnacional, nacional e supranacional.17 Erin Daly e James May chamam a atenção para cinco vantagens do constitucionalismo ambiental ou, em outras palavras, da proteção constitucional do ambiente em detrimento de sua previsão apenas em normas infraconstitucionais.18 A “primeira” vantagem é a superioridade normativa e maior durabilidade das normas constitucionais em relação àquelas de natureza diversa. A “segunda”, se dá no sentido de que, como parte de uma lei superior de um dado território, a provisão constitucional guia o próprio discurso e comportamento público. Um “terceiro” benefício é a probabilidade de obediência, que aumenta em face de provisões constitucionais. A “quarta” vantagem apresentada pelos autores diz respeito ao fato de que, quando comparadas com leis ambientais ordinárias, estas cobrem questões mais específicas, as disposições constitucionais ambientais protegem direitos substantivos ambientais amplos, não apenas inerentes a matérias específicas ou isoladas. Finalmente, a “quinta” vantagem da tutela constitucional, em detrimento da proteção apenas por leis infraconstitucionais, consiste em que o constitucionalismo ambiental fornece uma rede de segurança para proteger o meio ambiente quando regras internacionais ou outras leis domésticas não se mostram suficientemente fortes para sua imposição judicial. Digno de nota que a constitucionalização de uma determinada matéria torna sua proteção mais perene e guia as decisões jurídicas futuras de um sistema jurídico, controlando a temporalidade jurídica, a partir de uma dimensão constitucional. Limita-se, assim, o âmbito de discricionariedade 17 DALY, Erin; MAY, James R. Comparative environmental constitutionalism. Jindal Global Law Review, Sonipat, v. 6, n. 1, p. 9-30, 2015. p. 10. 18 DALY, Erin; MAY, James R. Comparative environmental constitutionalism, p.21-22. 49Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia futura, quer da Administração Pública, quer das próprias cortes judiciais. Nos termos acima enfrentados, o constitucionalismo ambiental envolve uma dimensão fundamental (constitucionalismo ambiental fundamental), a partir dos dispositivos constitucionais textuais que protegem direitos substantivos e procedimentais dos cidadãos à qualidade ambiental, assegurados por instrumentos nacionais ou subnacionais.19 Além disso, há uma segunda forma de constitucionalismo ambiental, naquilo que se denomina “constitucionalismo ambiental estrutural” como a alocação de autoridade regulatória ambiental nos diversos níveis governamentais e que reflete os limites e restrições estruturais à implementação de políticas ambientais.20 O constitucionalismo climático A consolidação, desde o final do século passado, da nova era geológica, ainda informalmente denominada de “Antropoceno,” demanda por uma governança transnacional e um constitucionalismo climático apto a fornecer as bases para uma “nova onda de conflituosidade jurídica global,” dentre a qual destaca-se a climática. O Antropoceno impõe não apenas a necessidade de compreensão de uma narrativa de emergência física (physis) mas, também, uma crise por justiça (polis),21 fortemente orientada pelo combate às vulnerabilidades climáticas. Para lidar com este novo momento histórico, há a necessidade de integração entre a governança climática e o constitucionalismo global, naquilo que vem sendo descrito como “constitucionalismo climático.”22 A conscientização acerca da gravidade da emergência climática levou a uma evolução do constitucionalismo ambiental para um de índole climática, com algumas constituições começando a incluir direitos especificamente relacionados à estabilidade climática. Neste sentido, há pelo menos sete países 19 HUDSON, Blake. Structural Environmental Constitutionalism. Widener Law Review. Wilmington, v. 21, p. 201-216, 2015, p. 201. 20 HUDSON. Structural Environmental Constitutionalism, p. 202. 21 JARIA-MANZANO, Jordi; BORRÀS, Susana. Introduction to the Research Handbook on Global Climate Constitutionalism. In: JARIA-MANZANO, Jordi; BORRÀS, Susana. (Eds.). Research Handbook on Global Climate Constitutionalism. p. 1-17. Cheltenham (UK); Northampton (MA, USA): Edward Elgar Publishing, 2019, p. 3. 22 JARIA-MANZANO; BORRÀS. Introduction to the Research Handbook on Global Cli- mate Constitutionalism, p. 1-17. 50 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal que já incorporaram o assunto mudanças climáticas em seus respectivos textos constitucionais, sendo eles: República Dominicana (1998), Venezuela (1999), Equador (2008), Vietnam (2013), Tunísia (2014), Costa do Marfim (2016) e Tailândia (2017).23 Outros países, como França e Chile consideram a realização de referendos para a inclusão de referências ao ambiente e à luta às mudanças climáticas. No Brasil, há a Proposta de Emenda Constitucional – PEC nº 233/2019 da Estabilidade Climática, a qual visa incluir entre os “princípios da ordem econômica a manutenção da estabilidade climática e determina que o poder público deverá adotar ações de mitigação da mudança do clima e adaptação aos seus efeitos adversos,” por meio do acréscimo do inciso X ao art. 170 e o inciso VIII ao §1° do art. 225, da Constituição Federal de 1988.24 Ao nível transnacional, a Convenção-Quadro e o Acordo de Paris formam as bases do processo de constitucionalização da governança climática.25 A imposição de novos problemas ambientais globais trazidos pelo Antropoceno, desencadeiam a necessidade de uma transição constitucional, apta a lidar com tais desafios. Ante ausência de coercitividade do Direito Internacional e a dificuldade do direito doméstico em lidar com problemas globais, o “constitucionalismo global” passa a conceber um corpo coerente para lidar com os desafios impostos pela “justiça climática.” Inicialmente, textos constitucionais nacionais, textos normativos internacionais ou regionais, assim como decisões em cortes nacionais constitucionais, regionais e internacionais, começam a formar peças que, apesar de num primeiro momento mostrarem-se fragmentadas, logo em um segundo, formam um corpo global integrado ecoerente capaz de exercer uma influência recíproca entre países e suas cortes, num constitucionalismo climático de dimensão transnacional. Este movimento evolutivo transconstitucional direcionado à reflexão acerca da inclusão de direitos e deveres relacionados à estabilidade climática 23 MAY, James R.; DALY, Erin. Global Climate Constitutionalism and Justice in the Courts. In: JARIA-MANZANO, Jordi; BORRÀS, Susana (Eds.). Research Handbook on Global Cli- mate Constitutionalism. p. 235-245. Cheltenham (UK); Northampton (MA, USA): Edward Elgar Publishing, 2019. p. 240-241. 24 BRASIL. Senado Federal. Proposta de Emenda à Constituição n° 233, de 2019. Acres- centa o inciso X ao art. 170 e o inciso VIII ao § 1º do art. 225 da Constituição Federal. Brasília, DF: Senado Federal, 2019. 25 JARIA-MANZANO; BORRÀS. Introduction to the Research Handbook on Global Cli- mate Constitutionalism, p. 10. 51Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia consiste em uma resposta jurídica aos efeitos deletérios das mudanças climáticas. Para James May e Erin Daly,26 o constitucionalismo climático oferece ao menos dois caminhos adicionais para o avanço da “justiça climática”: a incorporação expressa das mudanças climáticas no texto constitucional ou a inferência de que outros direitos constitucionais expressos (vida, dignidade, devido processo e meio ambiente equilibrado) incorporam implicitamente obrigações que exigem respostas às mudanças climáticas. A importância do constitucionalismo climático é permitir a absorção de aquisições evolutivas envolvendo elementos científicos e jurídicos transnacionais que sejam compatíveis e coerentes com a prática constitucional ao nível nacional. Também, por se tratar de norma frequentemente aceita como de status superior e direcionada a uma determinada comunidade nacional ou subnacional, a Constituição e o seu texto desfrutam de uma perenidade e legitimidade perante as cortes. Desta maneira, o tratamento do conteúdo climático pela teoria constitucional tem como efeito fornecer a capacidade de seu tratamento ser mais acessível judicialmente, de ter maior capacidade de operacionalidade e maior aplicação prática local. Como dito na Constituição Norte-americana, a Constituição trata-se da lei suprema de uma terra (“The Supreme Law of the Land”).27 O papel do constitucionalismo climático é, portanto, induzir o enfrentamento do fenômeno global das mudanças climáticas por meio de soluções (constitucionais) mais localizadas, oriundas de um “aprendizado transnacional” em prol de uma justiça climática. Ao termo “justiça climática” atribuímos o sentido decorrente da forma pelas quais a mudança climática impactará direitos humanos básicos, exacerbando vulnerabilidades. No cenário brasileiro, uma manifestação deste Constitucionalismo Climático tem sido descrita a partir da ação civil pública climática do IEA v. Brasil,28 cujo conteúdo postula a defesa de um “direito fundamental à estabilidade climática”, assim como o cumprimento da meta climática de combate ao desmatamento na 26 MAY; DALY. Global Climate Constitutionalism and Justice in the Courts, p. 240. 27 Conforme disposto no artigo VI da Constituição dos Estados Unidos da América, de 1787. 28 SETZER, Joana; CARVALHO, Délton Winter de. Climate Litigation to Protect the Brazil- ian Amazon: Establishing a Constitutional Right to a Stable Climate. Review of European, Comparative & International Environmental Law – RECIEL; John Wiley & Sons, Nova Jersey, 2021. No prelo. 52 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Amazônia prevista no Plano de Prevenção e Combate ao Desmatamento na Amazônia Legal - PPCDAm, como plano setorial de mitigação climática. A forte adesão das cortes judiciais e o status destacado do texto constitucional nos sistemas jurídicos nacionais demonstra o potencial significativo que o constitucionalismo climático detém para desenhar respostas à justiça climática, a partir do desenho institucional do Estado de Direito, especialmente a partir do nível doméstico. Além disso, o maior atributo do constitucionalismo é servir de fundamento e sustentação para decisões ao nível territorial nacional, direcionadas a solucionar conflitos climáticos referentes às circunstâncias particulares de cada país.29 É a partir do constitucionalismo climático, como fenômeno transnacional, que há a formação de uma base mais sólida para uma sustentação cada vez mais efervescente dos litígios climáticos. Rights-turn: a virada da litigância climática em aproximação aos direitos humanos Como é amplamente conhecido, a litigância vem se mostrando uma profícua estratégia de governança climática pela judicialização dos compromissos e metas assumidas ao nível internacional e doméstico. Também não se trata de novidade o fato deste fenômeno consistir em um processo dinâmico e inovador que faz uso de instrumentos judiciais com o escopo de cobrar medidas necessárias para a mitigação, adaptação ou perdas e danos climáticos, a serem adotadas pelos governos ou atores privados. Como já demonstrado, as iniciativas ocorridas em cada país dialogam influenciando transnacionalmente umas às outras, despertando reflexões acerca da viabilidade e aderência destas estratégias ao nível doméstico. Uma importante característica deste fenômeno emergente em plena efervescência é a utilização de instrumentos judiciais para lidar com os desafios trazidos pela mudança climática, permeando tais debates pela reinterpretação de conceitos jurídicos tradicionais. Apesar de uma inegável fragmentariedade deste fenômeno, também é verdade que tais ações guardam relação e semelhanças por refletirem em última instância respostas jurídicas às informações e dados científicos climáticos. Num 29 MAY; DALY. Global Climate Constitutionalism and Justice in the Courts, p. 245. 53Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia padrão mais recente, estas demandas judiciais climáticas vêm chamando a atenção para a relação direta entre as consequências da mudança do clima e seus efeitos deletérios (violação ou fragilização) aos direitos humanos. A esta aproximação histórica entre litígios climáticos e direitos humanos (“rights- based litigation”),30 foi endossada e fortalecida pelo próprio texto contido no Preâmbulo do Acordo de Paris.31 Ao nível global, a recente direção dos litígios climáticos apresenta um padrão estrutural que demanda judicialmente por medidas mitigatórias ou adaptativas (1) para atender aos “objetivos do regime climático” traçados pelo Acordo de Paris em 2015 (governança climática); (2) a partir dos conhecimentos científicos quantificáveis vigentes, trazidos pelo IPCC em seus relatórios e avaliações; (3) invocando as normas, molduras (frameworks) e mecanismos para a aplicação dos direitos humanos, a fim de responsabilizar juridicamente governos a cumprirem com tais objetivos.32 Na sequência passamos a enfrentar alguns casos emblemáticos para demonstrar a força tanto da virada dos litígios climáticos em direção aos direitos humanos quanto a importância de um constitucionalismo transnacional para sustentar um Estado de Direito capaz de enfrentar os desafios da justiça climática. Este é o caso exatamente de Leghari v. Paquistão,33 onde há uma importante transição da noção de “justiça ambiental” em direção de sua “dimensão climática.” De outro lado, em casos de litígios estratégicos não é raro o fato de que, mesmo os casos que não tenham sido julgados procedentes são capazes de servir de bases 30 PEEL, Jacqueline; OSOFSKY, Hari M. A Rights Turn in Climate Change Litigation? Transnational Environmental Law - TEL, Cambridge, v. 7, n. 1, p. 37-67, dez. 2017, p. 37-67. 31 “Reconhecendo que a mudança do clima é uma preocupação comum da humanidade, as Partes deverão, ao adotar medidas para enfrentar a mudança do clima, respeitar, promover e con- siderar suas respectivas obrigações em matéria de direitos humanos, direito à saúde, direitos dos povos indígenas, comunidadeslocais, migrantes, crianças, pessoas com deficiência e pessoas em situação de vulnerabilidade e o direito ao desenvolvimento, bem como a igualdade de gênero, o empoderamento das mulheres e a equidade intergeracional.” UNITED NATIONS FRAME- WORK CONVENTION ON CLIMATE CHANGE. Acordo de Paris. 2015. 32 RODRÍGUEZ-GARAVITO, César. Litigating the Climate Emergency: The Global Rise and Impact of the ‘Rights Turn’ in Climate Litigation. In: RODRÍGUEZ-GARAVITO, César (Ed.). Litigating the Climate Emergency: How Human Rights, Courts, and Legal Mobilization Can Bolster Climate Action (prelo), Cambridge: Cambridge University Press, 2021. No prelo. WE- GENER, Lennart. Can the Paris Agreement Help Climate Change Litigation and Vice Versa? Transnational Environmental Law - TEL, Cambridge, v. 9, n. 1, p. 17-36, jan. 2020. 33 Para acessar o inteiro teor vide: PAKISTAN. Lahore High Court. Leghari v. Pakistan. (2015) W.P. No. 25501/201. Disponível em: <http://climatecasechart.com/climate-change-litigation/ non-us-case/ashgar-leghari-v-federation-of-pakistan/>. Acesso em: 10 jun. 2021. 54 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal para iniciativas futuras bem como de induzir mudanças de comportamentos, indutivamente. Este é o caso de Juliana v. USA, que lançou luzes sobre o potencial de um “direito fundamental à estabilidade climática.” Case Leghari v. Paquistão: a reinterpretação dos direitos fundamentais ante os novos desafios da justiça climática O enfrentamento judicial da complexa questão climática deve ser analisado como um processo histórico, de superação da estratégia jurídica baseada exclusivamente na regulação de comando e controle. A aproximação da questão climática e os direitos humanos vem na esteira evolutiva das conquistas da justiça social, num primeiro momento, devidamente seguidas por sua dimensão ambiental e, mais recentemente, climática. Como bem explica Randall S. Abate,34 o “rights-based thinking” estava, até recentemente, adstrito ao domínio da justiça social. Neste período, a litigância estratégica usava direitos humanos para defesa dos civil rights e de ações afirmativas, a partir das bases da justiça social. Num segundo momento evolutivo do direito norte-americano, esta estratégia passo a ser ampliada para debates acerca da “justiça ambiental.” A fim de superar um sistema regulatório exclusivamente de comando e controle ambiental, a litigância de justiça ambiental (environmental justice litigation) inseriu a rights- based theory, visando combater a exposição desproporcional de grupos mais vulneráveis à poluição35 a partir da utilização dos direitos fundamentais. Neste curso histórico, a “justiça climática” traz esta análise para uma dimensão mais complexa, atual e ampla na análise e interpretação dos direitos fundamentais. Este processo de transição de problemas de justiça ambiental para aqueles relacionados à climática, é objeto de atenção do caso Leghari v. Paquistão.36 Ashgar Leghari, um agricultor paquistanês, ajuizou uma ação contra o Governo 34 ABATE, Randall S. Atmospheric Trust Litigation: Foundation for a Constitutional Right to a Stable Climate System? George Washington Journal of Energy & Environmental Law, Washington, v. 10, n. 1, p. 33-38, 2019. p. 34. 35 ABATE, Randall S. Atmospheric Trust Litigation: Foundation for a Constitutional Right to a Stable Climate System? George Washington Journal of Energy & Environmental Law, Wash- ington, v. 10, n. 1, p. 33-38, 2019. p. 34. 36 ABATE. Atmospheric Trust Litigation: Foundation for a Constitutional Right to a Stable Climate System? p. 34. 55Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Federal do Paquistão, para cobrar a execução, pelo governo paquistanês, de sua Política Nacional de Mudança Climática de 2012, assim como o respectivo Plano para sua implementação (Framework for Implementation of Climate Change Policy – 2014-2030). Conforme constatado pela própria Corte de Apelação de Lahore, “nenhuma implementação prática ocorreu no local” até o momento do ajuizamento da ação pelo demandante. As razões do autor confrontavam a gravidade das mudanças climáticas e as vulnerabilidades locais (inundações extremas e secas frequentes) com a ausência de quaisquer estratégias governamentais para conservar a água ou movimento na direção de sementes resistentes ao calor, temendo o autor não ter condições de manter o seu sustento pela produção agrícola. Em sua ação, Leghari postulou que a não implementação de tais instrumentos pelo governo acarretariam, ao nível doméstico, a violação de seus direitos fundamentais, em especial o “direito à vida,” que inclui o direito ao meio ambiente sadio e equilibrado, assim como o “direito à dignidade da pessoa humana.” Para tanto, usou uma base argumentativa a partir dos princípios constitucionais da justiça social e econômica. Ainda, lançou mão dos princípios de direito ambiental internacional, tais como desenvolvimento sustentável, princípio da precaução, estudo de impacto ambiental, equidade inter e intra-geracional e na doutrina da confiança pública (public trust doctrine). Em decisão final ocorrida em 25/01/2018, a Corte julgou procedente a demanda de interesse público, a fim de assegurar que a ausência da implementação das políticas nacionais de mudança climática violava os direitos fundamentais dos cidadãos paquistaneses. Sem adentrar em profundidade em toda a riqueza deste caso, destaca-se que para o Chief Justice Syed Mansoor Ali Shah (Lahore High Court), enquanto a justiça ambiental tem uma abrangência mais local e restrita aos nossos próprios ecossistemas e biodiversidade, a dimensão climática desta consiste em uma reinterpretação da primeira. Assim, questões jurídicas climáticas envolvem um movimento de um debate “uma questão ambiental linear,” inerente às questões de justiça ambiental, em direção de um “problema global mais complexo,”37 37 LSE - London School of Economics and Political Science; Grantham Institute on Climate Change and the Environment. Ashgar Leghari v. Federation of Pakistan (Lahore High Court Green Bench 2015). Judgment. Item n. 21. 2021. Disponível em <https://climate-laws.org/ geographies/pakistan/litigation_cases/ashgar-leghari-v-federation-of-pakistan-lahore-high-cour- 56 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal que é a crise climática. A justiça climática, portanto, “vincula direitos humanos e desenvolvimento para alcançar uma abordagem centrada no ser humano” e deve ser “informada pela ciência, responder à ciência e reconhecer a necessidade de uma gestão equitativa dos recursos do mundo.”38 Nota-se que em Leghari v. Paquistão se atribuiu grande peso à ciência, como comunicação capaz de descrever os efeitos negativos do fenômeno das alterações climáticas. Além disso, neste caso, há uma tradução jurídica destas informações científicas para a constatação judicial de que a omissão governamental em adotar as devidas ações climáticas acarreta em violação a uma série de direitos fundamentais, como à vida e ao meio ambiente, à propriedade e à dignidade da pessoa humana. Nas palavras da decisão em Leghari v. Paquistão, o esquema dos direitos constitucionais, na atualidade, deve ser “projetado para atender às necessidades de algo mais urgente e poderoso, i.e., as Mudanças Climáticas.”39 Case Juliana v. USA: o direito fundamental à estabilidade climática Neste curso histórico, foi Juliana v. USA40 a ação climática que ganhou grande holofote ao propor a viabilidade constitucional de defesa de um direito fundamental a um sistema climático estável. Para os autores, 21 jovens norte- americanos, as políticas e programas governamentais de fomento ao uso de combustíveis fósseis violaram seus direitos constitucionais à vida, à liberdade, à propriedade, à proteção igualitária (equal protection), e aos recursos dados em confiança pela comunidade à Administração (public trust resources).41 Em t-green-bench-2015>. Acesso em: 10 jun. 2021. p. 22. 38 LSE - LondonSchool of Economics and Political Science; Grantham Institute on Climate Change and the Environment. Ashgar Leghari v. Federation of Pakistan (Lahore High Court Green Bench 2015). Judgment. Item n. 21, p. 22. 39 LSE - LSE - London School of Economics and Political Science; Grantham Institute on Climate Change and the Environment. Ashgar Leghari v. Federation of Pakistan (Lahore High Court Green Bench 2015). Judgment. Item n. 21. 2021, p. 11. 40 Para acessar o inteiro teor da ação vide: UNITED STATES (a). Supreme Court of the United States. Kelsey Cascadia Rose Juliana et al., v. United States of America et al. 947 F. 3d 1159 (9th Cir. 2020). Disponível em: <http://climatecasechart.com/climate-change-litigation/case/julia- na-v-united-states/>. Acesso em: 10 jun. 2021. 41 MAY, James R.; DALY, Erin. Can the U.S. Constitution Accommodate a Right to a Stable Climate? (Yes, it can). UCLA Journal of Environmental Law & Policy, Los Angeles, p. 1-26, set. 2020. p. 2. 57Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia síntese, os autores afirmam que o governo federal ao autorizar, financiar e executar políticas e programas que causam ou contribuem para um “sistema climático instável,” afeta negativamente a liberdade ordenada assegurada pela Constituição dos EUA. Merece destaque no case Juliana v. USA que, apesar de seu revés ao nível recursal pela falta de judicialidade (justiciability),42 esta causa, ainda pendente de decisão final, representa um marco, sobretudo no conteúdo da decisão histórica da Juíza da Corte Distrital do Oregon, Ann Aiken. Por entender que a “instabilidade climática” afeta os direitos fundamentais, em especial os de liberdade, a juíza acatou a alegação dos autores a fim de adotar o padrão mais exigente de escrutínio de políticas governamentais que possam estar violando direitos fundamentais43. Fazendo uso da noção de liberdade (ordered liberty) como um direito fundamental a partir da substantive due process clause em Obergefell v. Hodges,44 a decisão prolatou que “ao exercer meu julgamento fundamentado não tenho dúvidas de que o direito a um sistema climático capaz de sustentar a vida humana é fundamental para uma sociedade livre e ordenada.”45 Segundo esta, as ações governamentais que danificam o sistema climático, são capazes de comprometer direitos fundamentais, tais como a vida, a liberdade e a propriedade, protegidas constitucionalmente sob a égide da cláusula do devido processo substancial (substantial due process clause). A Juíza da Corte Distrital entendeu, ainda, pela existência de um direito fundamental ao sistema climático estável, sob o argumento de que direitos fundamentais podem ser aqueles enumerados na Constituição, assim como aqueles que, apesar de não estarem previstos expressamente, são (1) “profundamente enraizados na 42 UNITED STATES. Supreme Court of the United States. Kelsey Cascadia Rose Juliana et al., v. United States of America et al. 947 F. 3d 1159 (9th Cir. 2020)a. Disponível em: <http:// climatecasechart.com/climate-change-litigation/case/juliana-v-united-states/>. Acesso em: 10 jun. 2021. 43 MANK, Bradford C. Does the Envolving Concept of Due Process in Obergefell Justify Judi- cial Regulation of Greenhouse Gases and Climate Change?: Juliana v. United States. UC Davis Law Review, Davis, v. 52, p. 855-903, dez. 2018. UNITED STATES. Supreme Court of the United States. Kelsey Cascadia Rose Juliana et al., v. United States of America et al. 947 F. 3d 1159 (9th Cir. 2020)a. Disponível em: <http://climatecasechart.com/climate-change-litigation/ case/juliana-v-united-states/>. Acesso em: 10 jun. 2021. 44 UNITED STATES. Supreme Court of the United States. Obergefell et al. v. Hodges, Direc- tor, Ohio Department of Health, et al. 576 F. 3d 1298 (6th Cir. 2015). Disponível em: <https:// www.supremecourt.gov/opinions/14pdf/14-556_3204.pdf>. Acesso em: 10 jun. 2021. 45 UNITED STATES. Supreme Court of the United States. Kelsey Cascadia Rose Juliana et al., v. United States of America et al. 947 F. 3d 1159 (9th Cir. 2020)a. 58 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal história e tradução desta nação” ou (2) “fundamentais para o nosso esquema de liberalidade ordenada.”46 Isto é, mesmo em uma tradição jurídica que analisa os direitos fundamentais a partir de uma perspectiva eminentemente individualista, como é o caso da tradição constitucional norte-americana, a sua reflexão a partir dos desafios impostos para mudança climática foi capaz de trazer à tona a convicção judicial de que “o direito a um sistema climático estável capaz de sustentar a vida humana é fundamental para uma sociedade livre e ordenada.”47 Considerações finais O Constitucionalismo Climático emerge da dimensão transnacional do Direito das Mudanças Climáticas, a partir de uma simbiose entre as dimensões internacional e a nacional. Adotando uma perspectiva metodológica comparada, forma-se um corpo coerente e sistemático de como as estruturas constitucionais podem assegurar uma atenção judicial cuidadosa às violações aos direitos fundamentais ocasionadas por omissões ou atividades vinculadas às mudanças climáticas. O presente texto visa apresentar a novel terminologia do Constitucionalismo Climático, como estratégia transnacional de aprendizagem acerca do papel que os direitos fundamentais têm num cenário de mudanças climáticas e, consequentemente, de conflitos jurisdicionais que tenham como objeto a justiça climática. Para tanto, existem duas formas de uso do constitucionalismo para tratamento de conflitos climáticos. A primeira, pela inserção da matéria climática no texto constitucional, caminho adotado por um grupo de países precursores ao redor do mundo. De outro lado, o uso do 46 Texto original: “Fundamental liberty rights include both rights enumerated elsewhere in the Constitution and rights and liberties which are either (1) “deeply rooted in this Nation’s history and tradition” or (2) “fundamental to our scheme of ordered libe1ty[.]” UNITED STATES. Supreme Court of the United States. Kelsey Cascadia Rose Juliana et al., v. United States of America et al. 947 F. 3d 1159 (9th Cir. 2020). Disponível em: <http://climatecasechart.com/ climate-change-litigation/case/juliana-v-united-states/>. Acesso em: 10 jun. 2021a. p. 32. A cor- roborar com a análise deste argumento, vide: NOVAK, Scott. The Role of Courts in Remedying Climate Chaos: Transcending Judicial Nihilism and Taking Survival Seriously. The George- town Environmental Law Review, Washington, v. 32, n. 743, p. 743-778, 2020. 47 UNITED STATES. United States District Court. District of Oregon. Eugene Division. Kelsey Cascadia Rose Juliana et al., v. United States of America et al. Opinion and Order. AIK- EN, Judge Ann. 54 F. Case No. 6:15-cv-01517-TC. 2016b. p. 34. 59Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Direito Constitucional para tratamento da questão climática parte da (re) interpretação de direitos fundamentais antropocêntricos (vida, propriedade, dignidade da pessoa humana e mesmo meio ambiente), agora em face dos fenômenos climáticos e das potenciais violações provocadas pela ausência de cumprimento das metas e compromissos climáticos. Em ambos os casos, as cortes jurisdicionais terão a função de participar da governança climática, provocadas pela litigância estratégica, sob a orientação das premissas constitucionais, nacionais e transnacionais. Assim, um Constitucionalismo Climático, forjado na dimensão transnacional de aprendizados e influências recíprocas, em alguma medida, estabelece as bases para o movimento da virada dos direitos (rights-turn) se desenvolverem, unindo governança climática e direitos humanos. Neste caminho evolutivo, o leading case climático Leghari v. Pakistan promove uma precursora releitura de direitos fundamentais tradicionais (à vida, à dignidade humana, à saúde, ao patrimônio e ao meio ambiente), elaborada a partir do emergir de um novo contexto global de “justiça climática.” De outrolado, Juliana v. USA, propõe a viabilidade de um direito fundamental à integridade climática, em virtude do sistema climático equilibrado ser fundamental para uma sociedade justa e livre. Ambas ações, independentemente dos resultados, lançam luzes sobre outras diversas tradições constitucionais, mostrando toda a força da dimensão transnacional dos litígios climáticos e a formação das bases de um Constitucionalismo Climático. Afinal, como dito na inicial da ação climática brasileira do IEA v. Brasil, “percebe-se, portanto, que a estabilidade climática se trata de uma nova necessidade social essencial à preservação da vida humana e do equilíbrio ecológico.”48 Referências ABATE, Randall S. Atmospheric Trust Litigation: Foundation for a Constitutional Right to a Stable Climate System? George Washington Journal of Energy & Environmental Law, Washington, v. 10, n. 1, p. 33-38, 2019. 48 LSE - London School of Economics and Political Science; Grantham Institute on Climate Change and the Environment. v. Brazil. Federal District Court of Curitiba. 2020. Disponível em <https://climate-laws.org/geographies/brazil/litigation_cases/institute-of-amazonian-stud- ies-v-brazil>. Acesso em: 10 jun. 2021. p. 34. 60 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal BODANSKY, Daniel. Climate Change: Transnational Legal Order or Disorder? In: HALLIDAY, Terence C.; SHAFFER, Gregory (Eds.). Transnational Legal Orders and Regulatory Law. p. 287-308. Cambridge: Cambridge University Press, 2015. BRASIL. Decreto nº 9.073, de 5 de junho de 2017. 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Durante o julgamento, na sessão de 31 de março, a Ministra proferiu histórico voto no âmbito da Ação de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 760 e da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) 54, por meio do qual reafirmou a importância do robusto arcabouço legislativo ambiental brasileiro e teceu diversas considerações acerca da atuação dos representantes da União na consecução de políticas ambientais. 1 Os autores agradecem à trainee Laura Rodrigues Gonçales pelo auxílio na pesquisa e elaboração deste artigo. 2 Eduardo de Campos Ferreira. Sócio da Área Ambiental e de Gestão de Crise do escritório Ma- chado Meyer Advogados. Mestre em Direitos Difusos e Coletivos pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Especialista em Direito Ambiental e Gestão Estratégica da Sus- tentabilidade pela PUC/SP. Bacharel em Direito pela PUC/SP. 3 Claudia Hori. Advogada da Área Ambiental e de Gestão de Crise do escritório Machado Meyer Advogados. Mestranda em Droit des Affaires pelo Programa Parceria Internacional Triangular de Ensino Superior (PITES) firmado entre a Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (FDUSP) e as universidade francesas Lyon II, III e St. Étienne. Especialista em Direito Ambien- tal pelo Instituto O Direito por um Planeta Verde (IDPV). Dupla graduação em Direito pela FDUSP e Université Lumière Lyon II pelo programa PITES. 4 64 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Para contextualização do tema, relembra-se brevemente que a ADPF 760 envolve a alegação de suposta omissão inconstitucional do governo federal quanto ao dever de preservação da Amazônia, ilustrado principalmente pelo abandono do Plano de Ação para a Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm), sem que fosse substituído por outro programa eficiente, argumentando que haveria um estado de coisas inconstitucional em matéria ambiental, enquanto a ADO 54 sustenta a ocorrência de omissão governamental no dever de combate ao desmatamento. Ao longo de quase cento e sessenta páginas, a ilustre magistrada tece aprofundadas considerações, dentre diversos outros pontos, sobre o “Estado Constitucional Ecológico,”4 os princípios que norteiam a aplicação do Direito Ambiental brasileiro, as obrigações e compromissos assumidos por meio de acordos e tratados internacionais, a possibilidade (ou não) de controle judicial de políticas públicas e, por fim, o estado de coisas inconstitucional. É notável no voto da eminente ministra o peso dado à dimensão principiológica da discussão. Conforme se demonstrará nas seguintes seções deste trabalho, a preocupação com os princípios do Direito Ambiental e suas intersecções com o pleno gozo de direitos fundamentais é uma das mais marcantes características nas costumeiramente ricas ponderações feitas pela ilustre Ministra Cármen Lúcia. Para além do detalhamento e importância aos princípios do Direito Ambiental, a magistrada teceu duras críticas à ineficiência das políticas públicas relacionadas ao meio ambiente e ao enfraquecimento dos órgãos ambientais por elas responsáveis. A noção da Ministra de que esses órgãos ambientais apareçam como íntegros e funcionais por fora, mas internamente estejam sendo corroídos, com parte de sua funcionalidade dilapidada, foi denominado – inovadoramente – de “cupinização”: 4 “Um Estado Constitucional Ecológico pressupõe uma concepção integrada ou integrativa do ambiente e, consequentemente, um direito integrado e integrativo do ambiente. Embora não seja ainda muito claro o conceito de direito integrado do ambiente (o conceito aparece sobretudo na avaliação integrada do impacto ambiental), ele aponta para necessidade de uma proteção global sistemática que não se reduza à defesa isolada dos componentes ambientais naturais (ar, luz, água, solo vivo e subsolo, flora, fauna) ou dos componentes humanos (paisagem, patrimônio natural e construído, poluição).” Estudos de Direito Constitucional em homenagem a José Afonso da Silva. São Paulo: Malheiros, 2003, p. 105-107. 65Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Importante é realçar que as assertivas dos arguentes, na presente Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental estampam procedimento comum e antes mencionado sobre a poda normativa que se faz sem ruído, uma quase “cupinização” normativa cujos efeitos se notam apenas com o olhar geral sobre o quadro, especialmente com os resultados demonstrados quando o entrave burocrático-normativo já impediu o cumprimento da finalidade de preservação das florestas e dos mananciais, das reservas, da proteção das matas, da garantia dos direitos de todos à existência digna e saudável.5 Ainda, nessa oportunidade, aproveitou para reafirmar o essencial papel desempenhado pelo Poder Judiciário e, especialmente, pelo STF no que diz respeito à salvaguarda dos valores constitucionais: Não compete ao STF escolher as políticas públicas mais adequadas na área ambiental. Mas é dever do STF assegurar o cumprimento da ordem constitucional para a preservação ambiental e proibição do retrocesso ambiental, de direitos f undamentais e democrático.6 (grifo nosso) Feitas essas breves considerações, é de se destacar que o apurado nível técnico atualmente demonstrado pelo excelso STF é resultado de diversas contribuições do contexto histórico e de diversos magistrados, dentre as quais destacamos aquelas deixadas pela ilustre Ministra Cármen Lúcia ao longo de seus mais de 16 anos como integrante da Corte Constitucional. Evolução na análise de questões ambientais materiais pelo STF Breve histórico da evolução da tutela do meio ambiente no Brasil após a promulgação da Constituição de 1988 A evolução da atuação do Poder Judiciário e, especialmente, do STF na tutela do meio ambiente não pode ser entendida de maneira desconexa com 5 Voto proferido pela Ilma. Ministra Cármen Lucia no âmbito da ADPF 760 em 07/04/2022. 6 Idem. 66 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal o contexto histórico em que se insere.Nas palavras de Flávia Piovesan: O direito ao meio ambiente deve ser compreendido à luz da crescente complexidade social, que aponta a um novo padrão de conflituosidade, que transcende aos conflitos interindividuais. Surgem neste cenário, conflitos metaindividuais, no qual despontam novos sujeitos e a demanda por novos direitos de cunho coletivo e difuso.7 (grifo nosso) Embora o recorte temporal definido para a presente análise refira-se a período posterior à promulgação da Constituição Federal de 1988, não se ignora a existência de arcabouço legal e de instrumentos voltados para a tutela do meio ambiente em épocas anteriores. Tome-se como exemplo o Brasil nas épocas de colônia e reino, período no qual vigeram as Ordenações Afonsinas, Manuelinas e Filipinas. As ordenações “[t]raziam embriões jurídicos para uma ação do Poder Público na tutela de alguns recursos naturais”8. No entanto, “[d]eixava imune (se é que não incentivava) o esbulho do patrimônio natural, despojado do seu caráter de bem comum e tratado ignominiosamente como propriedade privada (...).”9 (grifos nossos) Posteriormente, no Brasil império, tem-se, por exemplo, o surgimento da Constituição Federal de 1824, a qual proibiu a instalação e operação de indústrias que fossem contrárias à saúde dos cidadãos brasileiros. Em seguida, constata-se o advento do primeiro Código Criminal no ano de 1830, por meio do qual foi vedado o corte ilegal de madeira. Apesar dos (ainda) esparsos esforços, havia grande descompasso “(...) entre a estrutura formal (leis e Administração Pública) e a estrutura real (a mentalidade e as práticas correntes, o dia a dia da vida colonial).”10 7 PIOVESAN et al. O direito ao meio ambiente e a Constituição de 1988. In: BENJAMIN, An- tonio Herman; FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de (Coord.) Direito ambiental e funções essenciais à Justiça. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011. p. 79. 8 MILARÉ, Édis. Evolução da legislação tutelar do ambiente no Brasil. In: MILARÉ, Édis (Org). Direito do Ambiente. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2021, p. 228-229. 9 Ibid., p. 229. 10 Ibid., p. 230-231. 67Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Por fim, do Brasil republicano até a promulgação da Carta Magna em 1988, observou-se o aparecimento de diversos diplomas normativos nacionais, como o Código Civil de 1916, o qual dispôs, ainda que de forma superficial e seguindo a lógica utilitarista, sobre a preservação de recursos hídricos, em seu artigo 584: “[s]ão proibidas construções capazes de poluir, ou inutilizar para o uso ordinário a água de poço ou fonte alheia, a elas preexistente.”11 Ainda antes da promulgação da Constituição em 1988, ressalta-se a importância da realização da Conferência de Estocolmo em 1972 e de seus respectivos desdobramentos, bem como da edição da Lei Federal n° 6.938/1981, conhecida como Política Nacional do Meio Ambiente (PNMA), a qual foi diretamente influenciada pela pressão internacional e pela necessidade de atenuação dos impactos ambientais negativos decorrentes do desenvolvimento econômico observado na década de 1970.12 Finalmente, em 1988, foi promulgada a Constituição Federal atualmente vigente, a qual trouxe uma mudança de paradigma em relação às normas anteriores, pois se apresentou não como um “instrumento de conformação do status quo, mas surge como um instrumento de direção e transformação social, bem como instrumento de implementação de políticas públicas.”13 Ainda, a Carta Magna inovou ao incutir em seu texto a noção de que a qualidade do meio ambiente compreende simultaneamente valor e bem, “cuja preservação, proteção e defesa se tornam um imperativo do Poder Público, para assegurar a saúde e o bem-estar da pessoa humana (...).”14 Por essas e outras razões, o novo texto passou a ser conhecido como “Constituição Verde,” justamente por ter elevado “a proteção integral do meio ambiente ao status de valor central da nação.”15 Consta do caput de seu artigo 225: Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público 11 LEI FEDERAL N° 3.071/1916. Disponível em:<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ L3071impressao.htm>. Acesso em ago. 2022. 12 ANTUNES, Paulo de Bessa. Política e Sistema Nacional de Meio Ambiente. In: ANTUNES, Paulo de Bessa (org). Direito Ambiental. São Paulo: Atlas, 2020, p. 122-123. 13 PIOVESAN et al. O direito ao meio ambiente e a Constituição de 1988, p. 63-64. 14 Ibid., p. 66-67. 15 Ibid., p. 167-168. 68 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações. Percebe-se, portanto, que o referido artigo “chega a explicitar o bem comum como causa e, ao mesmo tempo, decorrência do meio ambiente ecologicamente equilibrado.” Deve, portanto, ser o meio ambiente “objeto da proteção do Estado e da própria sociedade para usufruto da nação.”16 Nesse sentido, menciona-se também importantes considerações de Lucas de Faria Rodrigues sobre o tema: A admissão deste direito como sendo fundamental é um marco do postulado da solidariedade, pois esta proteção ambiental não se volta à salvaguarda de um direito puramente individual, está igualmente a tutelar um direito de todos, não só hoje, mas também no futuro – uma ética intergeracional –, na medida em que se destina a garantir o meio ambiente para as ‘presentes e futuras gerações’ (artigo 225, caput, da Constituição Federal). É, portanto, o próprio reflexo do meio ambiente na vida humana (e na sua existência) que permite sua qualificação como direito fundamental, ainda que com uma anatomia reconhecida em relação a outros direitos igualmente fundamentais, como a vida. Sua ligação com a condição humana não serve para enfraquecê-lo, mas apenas para justificar o alto grau de proteção que lhe é confiado – em um regime jurídico diferenciado, como é o dos direitos fundamentais.17 Também menciona-se a lição de Édis Milaré: De grande alcance foi a decisão do constituinte pátrio de albergar, na Carta Magna, a proteção do meio ambiente de forma autônoma e direta, uma vez que as normas constitucionais não representam apenas um programa ou ideário de um determinado momento histórico, mas 16 MILARÉ, Édis. Fundamentação constitucional. In: MILARÉ, Édis (org). Direito do Am- biente. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2021. p. 168. 17 RODRIGUES, Lucas de Faria. A concretização da Constituição ecológica: a norma am- biental e as ciências naturais. São Paulo: Lumen Juris, 2015 , p. 31. 69Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia são dotadas de eficácia e imediatamente aplicáveis. Como ensina José Afonso da Silva, não se nega que as normas constitucionais têm eficácia e valor jurídico diversos umas das outras, mas isso não autoriza a recusar-lhes juridicidade. Não há norma constitucional de valor meramente moral ou de conselho, avisos ou lições, pois todo princípio inserto numa Constituição rígida adquire dimensão jurídica, mesmo aqueles de caráter mais acentuadamente ideológico-programático.18 No entanto, ainda que o referido texto tenha sido considerado “como o mais avançado do Planeta em matéria ambiental,”19 há diversos obstáculos para que se atinja a efetividade desejada e necessária da proteção constitucional do meio ambiente ecologicamente equilibrado. Como acuradamente pondera Norberto Bobbio sobre o tema, “[o] problema grave do nosso tempo, com relação aos direitos do homem, não é mais o de fundamentá-los, e sim o de protegê-los (...).”20 Ante a essa latente dificuldade, exerce papel fundamental o Poder Judiciário na efetivação dos direitos e das garantias relacionados ao meio ambiente ecologicamente equilibrado: Quanto aos Tribunais, a vinculação aos preceitos constitucionais sobre o direito ao meio ambiente traduz- se positivamente, na sua interpretação, integração e aplicação, de modo a conferir-lhes a máximaeficácia possível, dentro do sistema jurídico. Há, assim, o dever de conferir efetividade imediata ao preceito, inclusive, suprindo lacunas que, não tivesse o preceito dotado de aplicabilidade imediata, atuariam como obstáculo à sua exequibilidade. [...] Daí o dever do Poder Judiciário de prover a exequibilidade imediata dos direitos e garantias constitucionais, particularmente do direito ao meio ambiente. Este 18 MILARÉ, Édis. Meio ambiente: bem jurídico per se. In: MILARÉ, Édis (org). Direito do Ambiente. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2018. p. 166-167. 19 MILARÉ, Édis. Fundamentação constitucional, p. 168. 20 BOBBIO, Norberto. A era dos direitos. Trad. Carlos Nelson Coutinho. Rio de Janeiro: Campus, 1992. p. 68-69. Apud. PIOVESAN et al. O direito ao meio ambiente e a Constituição de 1988. p. 74. 70 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal raciocínio se impõe como um corolário do princípio da supremacia da Constituição e exige do Poder Judiciário uma dinâmica renovada, já que poderá condenar os Poderes Públicos a uma obrigação de fazer, reduzindo o grau de sua discricionariedade no campo da proteção ao meio ambiente, a fim de assegurar a efetividade deste direito constitucional. [...] O papel a ser cumprido pelo Judiciário, como guardião da Constituição e da ordem social que a partir dela é projetada é de extrema importância, Há uma imensa responsabilidade política e social deste Poder que, intérprete maior da Constituição, tem em suas mãos o compromisso de conferir eficácia máxima ao novo texto e, particularmente ao direito ao meio ambiente equilibrado, que é o pressuposto condicionante de uma qualidade de vida sadia.21 (grifos nossos) A partir dessa breve exposição do histórico da tutela do meio ambiente no Brasil e da importância da atuação do Poder Judiciário na efetivação dos direitos e garantias constitucionais, passa-se a analisar, em seguida, a evolução do STF no trato de matérias de cunho ambiental sob a perspectiva constitucional e de controle de riscos, fazendo-se um recorte das essenciais contribuições da Ministra Cármen Lúcia para formação dos entendimentos do excelso STF. Evolução da tutela do meio ambiente no Brasil pelo STF sob a perspectiva de controle de riscos Para fins do presente texto, considerando as limitações intrínsecas a um único capítulo, analisar-se-á a evolução da tutela do meio ambiente pelo STF a partir da perspectiva de controle de riscos e de um recorte temporal das decisões do Tribunal sobre temas específicos (amianto e importação de pneus usados) e os reflexos de posicionamentos adotados pela Ministra Cármen Lúcia nas decisões mais recentes proferidas pelo STF em matéria ambiental. 21 PIOVESAN et al. O direito ao meio ambiente e a Constituição de 1988, p. 78-79. 71Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia A evolução sob a perspectiva dos casos práticos Não obstante, as contribuições trazidas pela Constituição Federal de 1988 já mencionadas, faz-se necessário apontar também a emergência de dois princípios basilares que norteiam a aplicação do Direito Ambiental e que dela emergiram: os princípios da precaução e da prevenção. Ainda que possuam distinções entre si, ambos os princípios guardam relação com a ideia de prevenção de danos e mitigação de eventuais riscos ao ambiente e à coletividade. Nesse sentido, o STF, na condição de agente do Judiciário e, portanto, de “guardião da Constituição e da ordem social,”22 apreciou, ao longo de sua existência, diversas questões envolvendo o controle de riscos ambientais. No entanto, como discorrido ao longo do presente, o aprofundamento da análise do excelso Tribunal ocorreu de maneira progressiva, evolução que pode ser observada de maneira cristalina no âmbito das opiniões proferidas sobre a matéria do amianto. Como bem observou Solange Teles da Silva: As decisões do STF envolvendo o controle de riscos ambientais f undamentaram-se essencialmente na competência legislativa: possibilidade dos Estados- membros adotarem normas mais restritas em relação a determinadas atividades ou substâncias. Isso ocorreu em matéria de plebiscito para a implantação de instalações industriais para produção de energia nuclear, transporte ou depósitos de resíduos de energia nuclear e de resíduos tóxicos ou radioativos quando provenientes de outros Estados ou países, amianto, organismos geneticamente modificados, agrotóxicos, biocidas e produtos saneantes domissanitários. Assim, a questão da competência legislativa ocupa o lugar central nos relatórios e votos dessas decisões do STF: invasão da competência privativa da União, competência legislativa concorrente através da análise do alcance da norma geral e do espaço para suplementar a norma federal. (grifo nosso).23 22 PIOVESAN et al. O direito ao meio ambiente e a Constituição de 1988, p. 78. 23 SILVA, Solange Teles da. Direito Fundamental ao Meio Ambiente Ecologicamente Equilibra- do: Avanços e Desafios. Revista de Direito Ambiental, [s. l], v. 48, p. 225-245, 2007. 72 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal No caso específico do julgamento relacionado às restrições envolvendo o amianto, percebe-se evolução na tutela do meio ambiente ecologicamente equilibrado e, portanto, da saúde humana. Em 8 de maio de 2003, o STF julgou a Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 2.396, ajuizada com o intuito de se declarar a inconstitucionalidade de alguns dos dispositivos implementados pela Lei Estadual n° 2.210/2001 do Mato Grosso do Sul. A referida norma previu a vedação à comercialização de produtos à base de amianto ou asbesto destinados à construção civil no estado. Naquela oportunidade, o Tribunal declarou a inconstitucionalidade da lei, fundamentando sua decisão no fato de que o Estado do Mato Grosso do Sul teria excedido a margem de competência concorrente que lhe é assegurada para legislar sobre determinados temas, como produção e consumo e proteção do meio ambiente e controle da poluição. Transcreve-se, abaixo, ementa do referido julgado: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. LEI Nº 2.210/01, DO ESTADO DE MATO GROSSO DO SUL. OFENSA AOS ARTIGOS 22, I E XII; 25, § 1º; 170, CAPUT, II E IV; 1º; 18 E 5º CAPUT, II E LIV. INEXISTÊNCIA. AFRONTA À COMPETÊNCIA LEGISLATIVA CONCORRENTE DA UNIÃO PARA EDITAR NORMAS GERAIS REFERENTES À PRODUÇÃO E CONSUMO, À PROTEÇÃO DO MEIO AMBIENTE E CONTROLE DA POLUIÇÃO E À PROTEÇÃO E DEFESA DA SAÚDE. ARTIGO 24, V, VI E XII E §§ 1º E 2º DA CONSTITUIÇÃO FEDERAL. (...) Competência do Supremo Tribunal Federal circunscrita à verificação da ocorrência de contraste inadmissível entre a lei em exame e o parâmetro constitucional. Sendo possível a este Supremo Tribunal, pelos fatos narrados na inicial, verificar a ocorrência de agressão a outros dispositivos constitucionais que não os indicados na inicial, verifica-se que ao determinar a proibição de fabricação, ingresso, comercialização e estocagem de amianto ou de produtos à base de amianto, destinados à construção civil, o Estado do Mato Grosso do Sul excedeu a margem de competência concorrente que lhe é assegurada para legislar 73Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia sobre produção e consumo (art. 24, V); proteção do meio ambiente e controle da poluição (art. 24, VI); e proteção e defesa da saúde (art. 24, XII). A Lei nº 9.055/95 dispôs extensamente sobre todos os aspectos que dizem respeito à produção e aproveitamento industrial, transporte e comercialização do amianto crisotila. A legislação impugnada foge, e muito, do que corresponde à legislação suplementar, da qual se espera que preencha vazios ou lacunas deixados pela legislação federal, não que venha a dispor em diametral objeção a esta. Compreensão que o Supremo Tribunal tem manifestado quando se defronta com hipóteses de competência legislativa concorrente. Precedentes: ADI 903/MG-MC e ADI 1.980/PR- MC, ambas de relatoria do eminente Ministro Celso de Mello. Ação diretade inconstitucionalidade cujo pedido se julga parcialmente procedente para declarar a inconstitucionalidade do artigo 1º e de seus §§ 1º, 2º e 3º, do art. 2º, do art. 3º e §§ 1º e 2º e do parágrafo único do art. 5º, todos da Lei nº 2.210/01, do Estado do Mato Grosso do Sul. (STF - ADI: 2396 MS, Relator: ELLEN GRACIE, Data de Julgamento: 08/05/2003, Tribunal Pleno, Data de Publicação: DJ 01-08-2003 PP-00100) Nota-se que o STF não tangenciou as questões materiais envolvidas em eventual vedação à comercialização de produtos que contivessem amianto, mas “[a]nalisou a questão apenas no campo da formalidade estrita. Não adentrou ao mérito verificando questões como os danos gerados à saúde pública pelo mineral, bem como as questões de natureza ambiental.”24 (grifo nosso). Seguindo a mesma lógica, o Supremo julgou, em 1 de agosto do mesmo ano, a Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 2.656, ajuizada pelo então Governador do Estado de Goiás contra lei editada pelo Estado de São Paulo que implementava a proibição de importação, extração, beneficiamento, comercialização, fabricação e instalação de produtos contendo qualquer tipo de amianto. O Tribunal decidiu pela inconstitucionalidade da norma, com 24 BENFICA, Amanda Daniela; PAULON, Luiz Otávio B. O caso do mineral amianto à luz do supremo tribunal federal. Revista de Direito Empresarial, [s. l], v. 7, p. 407-420, fev. 2015. 74 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal base em entendimento anteriormente fixado de que teria havido invasão de competência legislativa pelo Estado-Membro. Veja-se com mais detalhes: AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONA- LIDADE. LEI PAULISTA. PROIBIÇÃO DE IMPORTAÇÃO, EXTRAÇÃO, BENEFICIAMENTO, COMERCIALIZAÇÃO, FABRI CAÇÃO E INSTALAÇÃO DE PRODUTOS CONTENDO QUALQUER TIPO DE AMIANTO. GOVERNADOR DO ESTADO DE GOIÁS. LEGITIMIDADE ATIVA. INVASÃO DE COMPETÊNCIA DA UNIÃO. 1. Lei editada pelo Governo do Estado de São Paulo. Ação direta de inconstitucionalidade proposta pelo Governador do Estado de Goiás. Amianto crisotila. Restrições à sua comercialização imposta pela legislação paulista, com evidentes reflexos na economia de Goiás, Estado onde está localizada a maior reserva natural do minério. Legitimidade ativa do Governador de Goiás para iniciar o processo de controle concentrado de constitucionalidade e pertinência temática. 2. Comercialização e extração de amianto. Vedação prevista na legislação do Estado de São Paulo. Comércio exterior, minas e recursos minerais. Legislação. Matéria de competência da União (CF, artigo 22, VIII e XIII). Invasão de competência legislativa pelo Estado-membro. Inconstitucionalidade. 3. Produção e consumo de produtos que utilizam amianto crisotila. Competência concorrente dos entes federados. Existência de norma federal em vigor a regulamentar o tema (Lei 9055/95). Conseqüência. Vício formal da lei paulista, por ser apenas de natureza supletiva (CF, artigo 24, §§ 1º e 4º) a competência estadual para editar normas gerais sobre a matéria. 4. Proteção e defesa da saúde pública e meio ambiente. Questão de interesse nacional. Legitimidade da regulamentação geral fixada no âmbito federal. Ausência de justificativa para tratamento particular e diferenciado pelo Estado de São Paulo. 5. Rotulagem com informações preventivas a respeito dos produtos que contenham amianto. Competência da União para legislar sobre comércio interestadual (CF, artigo 22, VIII). Extrapolação da competência concorrente 75Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia prevista no inciso V do artigo 24 da Carta da República, por haver norma federal regulando a questão. (STF - ADI: 2656 SP, Relator: MAURÍCIO CORRÊA, Data de Julgamento: 08/05/2003, Tribunal Pleno, Data de Publicação: 01/08/2003) O entendimento do STF de que a questão do amianto deveria ser abordada a partir da perspectiva formal de competência, até então bastante consolidado, passou por expressiva remodelagem por ocasião de julgamentos mais recentes sobre o tema, como na Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 4.066, na qual se decidiu favoravelmente à declaração de inconstitucionalidade do artigo 2°, caput e parágrafo único, da Lei Federal n° 9.055/1995,25 e na Ação Direta de Inconstitucionalidade 3.937, “[o]portunidade em que a Corte sobrelevou a norma estadual em detrimento da norma federal, vez que aquela conferia proteção mais adequada à saúde e ao meio ambiente.”26 Nessas duas ações, “[a] oitiva dos vários especialistas sobre amianto, dos mais diversos matizes, aliada à posição de reconhecimento da Corte de que não atuava em um assunto de sua expertise foram fundamentais (...).27” Ainda, “[i]gualmente determinante (...) foi o reconhecimento dos julgadores da necessidade do conhecimento jurídico se apoiar nos saberes técnico-científicos, livrando as decisões da arbitrariedade e garantindo a excelência da função jurisdicional (...).28” No que diz respeito à Ação Direta de Inconstitucionalidade n° 4.066, chama-se especial atenção para o fato de que o precedente utilizado para embasar a mudança de posicionamento foi o acórdão proferido no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n° 101 em 2009, de relatoria, justamente, da Ministra Cármen Lúcia: 25 Art. 2º O asbesto/amianto da variedade crisotila (asbesto branco), do grupo dos minerais das serpentinas, e as demais fibras, naturais e artificiais de qualquer origem, utilizadas para o mesmo fim, serão extraídas, industrializadas, utilizadas e comercializadas em consonância com as disposi- ções desta Lei. Parágrafo único. Para os efeitos desta Lei, consideram-se fibras naturais e artificiais as comprovadamente nocivas à saúde humana. 26 SILVA, Artenira da Silva; MAIA, Maicy. Estudo de caso das ADIs n. 3.937/SP E n. 4.066/DF. Veredas do Direito, [s. l], v. 18, n. 41, p. 259-268. 27 Ibid. 28 Ibid. 76 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. ART. 2º, CAPUT E PARÁGRAFO ÚNICO, DA LEI Nº 9.055/1995. EXTRAÇÃO, INDUSTRIALIZAÇÃO, U T I L I Z AÇ ÃO, C O M E R C I A L I Z AÇ ÃO E TRANSPORTE DO ASBESTO/AMIANTO E DOS PRODUTOS QUE O CONTENHAM. AMIANTO CRISOTILA. LESIVIDADE À SAÚDE HUMANA. ALEGADA INEXISTÊNCIA DE NÍVEIS SEGUROS DE EXPOSIÇÃO. ( . . . ) QUESTÃO JURÍDICO-NORMATIVA E QUESTÕES DE FATO. ANÁLISE DA JURISPRUDÊNCIA. ART. 2º DA LEI Nº 9.055/1995. FONTE POSITIVA DA AUTORIZAÇÃO PARA EXPLORAÇÃO ECONÔMICA DO ASBESTO CRISOTILA. LEI Nº 9.976/2000. LEGISLAÇÃO FEDER AL ESPECÍFICA E POSTERIOR. INDÚSTRIA DE CLORO. USO RESIDUAL. TRANSIÇÃO TECNOLÓGICA. SITUAÇÃO ESPECÍFICA NÃO ALCANÇADA PELA PRESENTE IMPUGNAÇÃO. TOLERÂNCIA AO USO DO AMIANTO CRISOTILA NO ART. 2º DA LEI Nº 9.055/1995. EQUACIONAMENTO. LIVRE INICIATIVA. DIGNIDADE DA PESSOA HUMANA. VALOR SOCIAL DO TRABALHO. DIREITO À SAÚDE. DIREITO AO MEIO AMBIENTE E C O L O G I CA M E N T E E Q U I L I B R AD O. D E S E N VO LV I M E N TO E C O N Ô M I C O, PROGRESSO SOCIAL E BEM-ESTAR COLETIVO. LIMITES DOS DIREITOS FUNDAMENTAIS. COMPATIBILIZAÇÃO. (...) 2. O consenso médico atual identifica, para além de qualquer dúvida razoável, a contração de diversas doenças graves como efeito direto da exposição ao amianto. (...) Questão jurídica a decidir: se, em face do que afirma o consenso médico e científico atual, a exploração do amianto crisotila, na forma como autorizada pela Lei nº 9.055/1995, é compatível com a escolha política, efetuada pelo Poder Constituinte, de assegurar, a todos os brasileiros, os direitos à saúde e à fruição de um meio ambiente ecologicamente equilibrado. Precedente: ADPF 101 (Relatora Ministra Cármen Lúcia, Tribunal Pleno, DJe 77Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia 24.6.2009). 6. Análise da jurisprudência: ADI 2.396/ MS, Relatora Ministra Ellen Gracie, Tribunal Pleno, DJ 01.8.2003; ADI 2.656/SP, Relator Ministro Maurício Corrêa, Tribunal Pleno, DJ 01.8.2003; ADI 3.937-MC/ SP, Relator Ministro Marco Aurélio, Tribunal Pleno,DJ 10.10.2008. Art. 2º da Lei nº 9.055/1995 como fonte positiva da autorização para a extração, a industrialização, a comercialização e a utilização do asbesto/amianto da variedade crisotila (asbesto branco). (...) Consenso técnico e científico hoje estabelecido, no tocante às premissas fáticas de que (i) todos os tipos de amianto provocam câncer, não tendo sido identificado nenhum limite para o risco carcinogênico do crisotila, e (ii) a sua substituição, para os usos regulados pela Lei nº 9.055/1995, se mostra absolutamente viável sob o aspecto econômico. (...) 15. Ação direta de inconstitucionalidade conhecida e, no mérito, não atingido o quórum exigido pelo art. 97 da Constituição da República para a pronúncia da inconstitucionalidade do art. 2º da Lei nº 9.055/1995. (STF - ADI: 4066 DF, Relator: ROSA WEBER, Data de Julgamento: 24/08/2017, Tribunal Pleno, Data de Publicação: 07/03/2018) (grifo nosso). Há, assim, evidente contribuição da ilustre Ministra Cármen Lúcia para a evolução do entendimento judicial acerca da efetividade da tutela do meio ambiente e da saúde humana pelo STF. Isso porque, ao apreciar a questão da constitucionalidade de atos normativos proibitivos da importação de pneus usados, a Ministra tece rica argumentação, passando pela importância do meio ambiente ecologicamente equilibrado, pela dificuldade de reciclagem dos pneus importados pelo Brasil – o que geraria acúmulo maior de resíduos sólidos –, por riscos à saúde humana – a Ministra pontua que as populações economicamente hipossuficientes seriam as que mais estariam sujeitas aos impactos negativos do descarte dos pneus usados – e, até mesmo, pela Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento. Veja-se, abaixo, transcrição parcial da ementa do acórdão que teve a relatoria da ilustre Ministra Cármen Lúcia: ARGUIÇÃO DE DESCUMPRIMENTO DE PRECEITO FUNDAMENTAL: ADEQUAÇÃO. O B S E RVÂ N C I A D O P R I N C Í P I O D A 78 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal SUBSIDIARIEDADE. ARTS. 170, 196 E 225 DA CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA. C O N S T I T U C I O N A L I DA D E D E AT O S NORMATIVOS PROIBITIVOS DA IMPORTAÇÃO DE PNEUS USADOS. RECICLAGEM DE PNEUS USADOS: AUSÊNCIA DE ELIMINAÇÃO TOTAL DE SEUS EFEITOS NOCIVOS À SAÚDE E AO MEIO AMBIENTE EQUILIBRADO. A F R O N T A A O S P R I N C Í P I O S CONSTITUCIONAIS DA SAÚDE E DO MEIO AMBIENTE ECOLOGICAMENTE EQ UILIBRADO. COISA JULGADA COM CONTEÚDO EXECUTADO OU EXAURIDO: IMPOSSIBILIDADE DE ALTERAÇÃO. DECISÕES JUDICIAIS COM CONTEÚDO INDETERMINADO NO TEMPO: PROIBIÇÃO DE NOVOS EFEITOS A PARTIR DO JULGAMENTO. ARGUIÇÃO JULGADA PARCIALMENTE PROCEDENTE. 1. Adequação da arguição pela correta indicação de preceitos fundamentais atingidos, a saber, o direito à saúde, direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado (arts. 196 e 225 da Constituição Brasileira) e a busca de desenvolvimento econômico sustentável: princípios constitucionais da livre iniciativa e da liberdade de comércio interpretados e aplicados em harmonia com o do desenvolvimento social saudável. (...) 4. Princípios constitucionais (art. 225) a) do desenvolvimento sustentável e b) da equidade e responsabilidade intergeracional. Meio ambiente ecologicamente equilibrado: preservação para a geração atual e para as gerações f uturas. Desenvolvimento sustentável: crescimento econômico com garantia paralela e superiormente respeitada da saúde da população, cujos direitos devem ser observados em face das necessidades atuais e daquelas previsíveis e a serem prevenidas para garantia e respeito às gerações f uturas. Atendimento ao princípio da precaução, acolhido constitucionalmente, harmonizado com os demais princípios da ordem social e econômica. 5. Direito à saúde: o depósito de pneus ao ar livre, inexorável com a falta de utilização dos pneus inservíveis, fomentado pela importação, é fator de disseminação de doenças 79Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia tropicais. Legitimidade e razoabilidade da atuação estatal preventiva, prudente e precavida, na adoção de políticas públicas que evitem causas do aumento de doenças graves ou contagiosas. Direito à saúde: bem não patrimonial, cuja tutela se impõe de forma inibitória, preventiva, impedindo-se atos de importação de pneus usados, idêntico procedimento adotado pelos Estados desenvolvidos, que deles se livram. (...) Ponderação dos princípios constitucionais: demonstração de que a importação de pneus usados ou remoldados afronta os preceitos constitucionais de saúde e do meio ambiente ecologicamente equilibrado (arts. 170, inc. I e VI e seu parágrafo único, 196 e 225 da Constituição do Brasil). 9. Decisões judiciais com trânsito em julgado, cujo conteúdo já tenha sido executado e exaurido o seu objeto não são desfeitas: efeitos acabados. Efeitos cessados de decisões judiciais pretéritas, com indeterminação temporal quanto à autorização concedida para importação de pneus: proibição a partir deste julgamento por submissão ao que decidido nesta arguição. 10. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental julgada29 parcialmente procedente. (STF, ADPF 101, Tribunal Pleno, Rel. Min. Cármen Lúcia, DJe 01.06.12) (grifo nosso) A mudança de posicionamento do Supremo aponta para o reconhecimento da primordial importância de se resguardar o meio ambiente ecologicamente equilibrado e de que as decisões sejam tomadas com base nos saberes técnico-científicos e na realidade vigente, como expresso nas palavras de Solange Teles da Silva: Comprovado ou não o risco, de determinada atividade ou substância, esse risco deve ser levado em conta para decidir- se sobre a instalação ou continuidade de determinadas atividades, bem como sobre os processos de fabricação, de comercialização e de utilização de determinadas substâncias e produtos. Incumbe ao STF manifestar- se quando provocado, realizando um exame exegético 29 SILVA, Artenira da Silva; MAIA, Maicy. Estudo de caso das ADIs n. 3.937/SP E n. 4.066/DF. Veredas do Direito, [s. l], v. 18, n. 41, p. 268. 80 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal de ponderação dos interesses e princípios aplicados aos casos concretos, considerando-se que o direito f undamental ao meio ambiente equilibrado é a matriz de todos os demais direitos f undamentais, pois sem o meio ambiente ecologicamente equilibrado não há possibilidade de uma vida digna, e compromete- se o próprio desenvolvimento econômico e social das gerações presentes e também das gerações futuras desse país.30 (grifo nosso) Assim, ainda que não se possa analisar de maneira completa a atuação do STF a partir de uma única matéria apreciada pelo Supremo, nota-se que houve evolução na hermenêutica aplicada aos casos julgados pela Corte Constitucional, que exigiram “articulação da realidade fática – obtida por meio do conhecimento técnico- científico – e do conhecimento jurídico, com cautela e atenção sobre as transformações sociais e/ou evolução do conhecimento científico.”31 Considerações finais Em 2000, Édis Milaré chamou atenção para a necessidade de mudanças dos órgãos judiciais, “pois ainda não existe consciência de que o Judiciário é também destinatário do comando contido no art. 225 e seus incisos da Lei Fundamental.” Nesse sentido, ponderou que: [...] importante papel está reservado ao Poder Judiciário na apreciação das ações coletivas em defesa dos valores que as animam. Como supremos intérpretes da lei, o que se espera dos juízes brasileiros é a sensibilidade a esses valores e à gravidade da missão que lhes dá a ordem jurídica de dizer a última palavra em casos de alegada lesão.32 (grifos nossos) 30 SILVA, Solange Teles da. Direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado: avanços e desafios. Revista de Direito Ambiental, [s. l], v. 48, p. 225-245, 2007. 31 SILVA, Artenira da Silva; MAIA, Maicy. Estudo de caso das ADIs n. 3.937/SP E n. 4.066/DF. Veredas do Direito, [s. l], v. 18,n. 41, p. 268. 32 MILARÉ, Édis. Direito do ambiente. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000, p. 252-256. 81Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Dentre as conclusões a que o autor chegou, ressalta-se a de que: [é] possível depreender que o exercício da magistratura não pode escapar a reformulações, algumas delas verdadeiras reviravoltas, imposição dos tempos históricos de hoje. Em geral, as modificações que se impõem são salutares, porquanto desafiam a rotina, o establishment, a limitação de horizontes. Os ares da renovação fazem-se sentir, impetuosos, às vezes porém estimulantes, considerando-se que o Direito, por sua própria índole, mais segue os fatos do que se antecipa a eles. Sendo assim, os cultores e profissionais do Direito, se não precedem os fatos, devem ser seguros e ágeis em interpretá-los e acompanhá-los. Estudo e atualização passam a ser necessidade vital. [...] Por tudo, é preciso instaurar o Poder Judiciário que faça do ambiente ecologicamente equilibrado também coisa sua.33 (grifos nossos) Mais de 20 anos depois da publicação da supramencionada obra, nota-se que a preocupação com a efetividade da tutela do meio ambiente e com os mecanismos para sua proteção ganhou destaque e assumiu papel central na atuação do STF, quando provocado a decidir no controle constitucional de questão tão relevante, como o direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado. É perceptível que houve importante evolução no trato pelo Judiciário da proteção do meio ambiente ecologicamente equilibrado, especialmente quando se analisa o tema através dos entendimentos fixados nos julgamentos da matéria amianto pelo STF: Ao reconhecer os prejuízos a direitos f undamentais como saúde e meio ambiente ecologicamente equilibrado, trazidos pelo permissivo legal contido na Lei n. 9.055/1995, não restou outro entendimento ao STF senão admitir que tal norma federal passou por um processo de inconstitucionalização, razão pela qual as legislações estaduais contrárias a ela são mais protetoras da dignidade da pessoa humana, devendo, 33 Ibid. 82 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal portanto, prevalecer sobre a Lei n. 9.055/1995, última salvaguarda da possibilidade de utilização do amianto no Brasil.34 Tal evolução, demonstrada nas seções anteriores pelo tratamento do Supremo na questão do amianto, é percebida, em ainda maior grau, no refinamento e preocupação com as garantias constitucionais externalizados pelo Tribunal no âmbito do julgamento da Pauta Verde. Assim, conclui-se o presente capítulo ilustrando-se os avanços atualmente percebidos com um trecho do voto proferido no âmbito da ADPF 760 de lavra da eminente Ministra Cármen Lúcia, que, sem rodeios, apresenta o papel e importância do Judiciário e, especialmente do Supremo Tribunal Federal, na garantia da efetividade do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado: A inefetividade do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado produz efeitos irreversíveis sobre todos os seres humanos, desta e das futuras gerações, causando impacto sobre o direito à saúde e à vida de número indeterminado de pessoas, afetando ecossistemas inteiros, os animais, a qualidade do ar, o solo e os recursos hídricos e minerais. Mais e sempre, atinge-se com as ações deficientes e as omissões estatais a vida de todos os seres do planeta e a existência saudável do planeta mesmo. Por isso, a intervenção do Poder Judiciário pode- se mostrar imprescindível para que se estanque a destruição não apenas de direitos, mas das gentes e de todos seres vivos que habitam o planeta. (...) A atuação deste Supremo Tribunal na matéria, como observado antes, combina-se com atuações de órgãos judicantes internacionais. Nem poderia ser diferente, pois as questões referentes à matéria ambiental, que se conjuga com o direito à vida digna da presente e das f uturas gerações, é item essencial na agenda constitucional contemporânea.35 (grifos nossos) 34 SILVA, Artenira da Silva; MAIA, Maicy. Estudo de caso das ADIs n. 3.937/SP E n. 4.066/DF. Veredas do Direito, [s. l], v. 18, n. 41, p. 268. 35 Voto proferido pela Ilma. Ministra Cármen Lucia no âmbito da ADPF 760 em 07/04/2022. 83Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Assim, no atual contexto vivenciado pela sociedade, no qual eventual insucesso no combate às mudanças climáticas é apontado como o risco global mais preocupante36 e em que as ações de litigância climática passaram a despontar mundialmente para reivindicação da tomada de medidas para garantir a proteção do meio ambiente perante o Judiciário, constata-se a irreversível tendência de que o Poder exerça papel cada vez maior na efetivação da tutela do meio ambiente ecologicamente equilibrado. Referências ANTUNES ROCHA, Cármen Lúcia. Direitos de todos para todos. Belo Horizonte: Editora Fórum, 2004. ANTUNES, Paulo de Bessa. Política e Sistema Nacional de Meio Ambiente. In: ANTUNES, Paulo de Bessa (org). Direito Ambiental. São Paulo: Atlas, 2020. BENFICA, Amanda Daniela; PAULON, Luiz Otávio Braga. O caso do mineral amianto à luz do Supremo Tribunal Federal. Revista de Direito Empresarial, [s. l], v. 7, fev. 2015. BRASIL. Lei n. 9.055, de 1º de junho de 1995. Disciplina a extração, industrialização, utilização, comercialização e transporte do asbesto/amianto e dos produtos que o contenham, bem como das fibras naturais e artificiais, de qualquer origem, utilizadas para o mesmo fim e dá outras providências. Brasília, DF: Diário Oficial da União, 1995. MILARÉ, Édis. Direito do ambiente. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2000. MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2018. MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2021. PIOVESAN et al. O direito ao meio ambiente e a Constituição de 1988. In: BENJAMIN, Antonio Herman; FIGUEIREDO, Guilherme José Purvin de (Coord.) Direito ambiental e f unções essenciais à Justiça. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2011. RODRIGUES, Lucas de Faria. A concretização da Constituição ecológica: a norma ambiental e as ciências naturais. São Paulo: Lumen Juris, 2015. SILVA, Artenira da Silva; MAIA, Maicy. Estudo de caso das ADIs n. 3.937/SP E n. 4.066/DF. Veredas do Direito, [s. l], v. 18, n. 41. SILVA, Solange Teles da. Direito f undamental ao meio ambiente ecologicamente 36 World Economic Forum. Global Risks Report. 2022. Disponível em https://www.weforum. org/reports/global-risks-report-2022/shareables. Acesso em 22/08/2022. 84 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal equilibrado: avanços e desafios. Revista de Direito Ambiental, [s. l], v. 48, 2007. WORLD ECONOMIC FORUM. Global Risks Report. 2022. Disponível em https://www.weforum.org/reports/global-risks-report-2022/shareables. Acesso em 22/08/2022. 85Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Criação e extinção de unidades de conservação da natureza: contribuições do Supremo Tribunal Federal Marcelo Azevedo1 Introdução As unidades de conservação são importantes instrumentos de proteção do meio ambiente ecologicamente equilibrado e da diversidade biológica. A proteção é efetivada por meio da preservação in situ de características naturais relevantes, o que pode englobar fragmentos florestais, espécies da fauna silvestre e seus habitats, recursos hídricos e características geológicas peculiares e de notável beleza cênica. Paralelamente à proteção de recursos naturais, o modelo de áreas protegidas2 adotadas no país possui relevante valor social, seja por meio do cuidado com comunidades tradicionais e seus meios de vida, que está associado à necessidade de proteção da natureza, seja por meio da aproximação do homem com a natureza, efetivada por atividades educativas, científicas e ecoturismo. A estruturação jurídica da atuação do Poder Público voltada a definição de espaços a serem protegidos foi objeto de constante evolução desdea instituição do primeiro parque nacional em 1937.3 1 Marcelo Azevedo. Mestre em Direito Público pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e Bacharel em Direito pela Universidade Federal de Minas Gerais. Professor na Pós-Gra- duação em Direito Ambiental e Minerário Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais e das Pós-graduações em Direito Ambiental e em Direito da Mineração, do Centro de Estudos em Direito e Negócios. Vice-presidente do Instituto Brasileiro de Direito Minerário, Diretor do Departamento de Direito Ambiental do Instituto dos Advogados de Minas Gerais e membro fundador da União Brasileira da Advocacia Ambiental. Sócio responsável pela equipe de Direito Ambiental na William Freire Advogados Associados. 2 O modelo de unidades de conservação adotado no país é aderente com o conceito de área protegida, prevista na Convenção da Diversidade Biológica, que prevê: “área definida geograficamente, que é destinada, ou regulamentada, e administrada para alcançar objetivos específicos de conservação.” A convenção foi ratificada pelo Brasil e promulgada pelo Decreto Federal nº. 2.519/1998. 3 O Parque Nacional do Itatiaia ocupa parte do território do Rio de Janeiro e Minas Gerais e foi instituído em junho de 1937. 5 86 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal É possível identificar a existência de três períodos diferentes referentes à sistematização de um regime jurídico de áreas protegidas, com estruturas jurídicas distintas. O primeiro período está compreendido entre a instituição da primeira área protegida no país até a promulgação da Política Nacional de Meio Ambiente em 1981.4 O momento histórico indicado se caracteriza pela promulgação dos primeiros atos normativos que fornecem as estruturas jurídicas necessárias à instituição das unidades de conservação. De forma desconcertada e sem qualquer sistematização, surgem atos normativos que possibilitam ao poder público definir áreas a serem destinadas à conservação e à preservação.5 Destacam-se no período as previsões do Código Florestal de 1965, que indicavam a criação pelo Poder Público de Parques, Reservas Biológicas e Florestas Nacionais e congêneres dos demais entes federativos, sendo esses espaços voltados a proteção de áreas florestais. Com relação à proteção da fauna, a Lei Federal nº 5.197/1967, tratava igualmente da criação de Reservas Biológicas e Parques de Caça. Por fim, a Lei Federal nº 6.902/1981, que tratava da criação de Estações Ecológicas e Área de Proteção Ambiental. O segundo período é inaugurado pela promulgação da Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA), por meio da Lei Federal nº. 6.938/1981. A PNMA instituiu instrumentos voltados à proteção ao meio ambiente, entre os quais previu-se “a criação de reservas e estações ecológicas, áreas de 4 Herman Benjamin apresenta interessante anotação: “Observa-se, pois, que a adoção do modelo de áreas protegidas no Brasil, como instrumento de tutela da natureza, é anterior ao surgimento do Direito Ambiental, como disciplina orgânica e autônoma, estruturada em torno de caracterís- ticas, objetivos, princípios e instrumentos próprios. Por conta dessa evolução histórica, amiúde sem rumo certo, ao sabor das pressões localizadas – ou, por vezes, de facilidades de criação, como o caráter remoto do território -, as áreas protegidas nacionais foram casuística e assistematicamente determinadas e administradas, reféns, no seu desenho teórico, legal e prático, da diversidade de fi- liação filosófica e paternidade política, daí resultando, de forma inevitável, frequente confusão de regimes, sobreposição de unidades e, pior, ineficiência na consecução de suas finalidades. BEN- JAMIN, Antônio Herman. Introdução à lei do sistema nacional de unidades de conservação. In: BENJAMIN, Antônio Herman. (coord.) Direito ambiental das áreas protegidas – O regime jurídico das unidades de conservação. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001, p. 285-286. 5 De acordo com Nicolao Dino de Castro e Costa Neto: “Na acepção comum, os termos con- servação e preservação se equivalem. No campo do Direito Ambiental, contudo, tem-se busca- do estabelecer uma distinção, reservando-se para a segunda expressão um sentido mais rígido de proteção. Assim, enquanto o regime de preservação permanente pressupõe a ‘manutenção da integridade e perenidade dos recursos ambientais’, sem a possibilidade de exploração econômica direta, o regime de conservação pressupõe utilização racional, manejo.” COSTA NETO, Nicolao Dino de Castro e. Proteção Jurídica do Meio Ambiente. I – Florestas. Belo Horizonte: Del Rey, 2003, p. 202-203. 87Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia proteção ambiental e as de relevante interesse ecológico, pelo Poder Público Federal, Estadual e Municipal,” no artigo 9º, inciso VI.6 O período inaugurado pela Política Nacional marca o início da concentração dos esforços a serem efetivados pelo Poder Público de adotar medidas jurídicas voltadas à “preservação, melhoria e recuperação da qualidade ambiental,” para as quais a criação de áreas protegidas torna-se um dos elementos centrais. Sob a mesma premissa de incumbir o Poder Público da necessidade de adoção de atos concretos voltados a proteção ambiental, pode-se inserir no período a promulgação da Constituição da República de 1988, com o inovador capítulo de defesa ao meio ambiente. O artigo 225 normatiza a concepção do meio ambiente ecologicamente equilibrado como direito fundamental coletivo e a responsabilidade intergeracional. A norma constitucional, com nítido conteúdo programático, possui como premissa traçar um fim social a ser alcançado pela atuação futura do Poder Público.7 No que se refere às áreas protegidas,8 o texto constitucional incumbiu ao Poder Público a função de definir espaços territoriais a serem especialmente protegidos, que incluem outras áreas além das unidades de conservação. Adicionalmente, o enunciado normativo constitucional limitou a alteração e supressão desses espaços somente através de lei e a vedação a qualquer utilização que comprometa a integridade dos atributos que fundamentaram a proteção.9 O derradeiro período, que alcança os dias atuais, é inaugurado pela promulgação da Lei Federal nº 9.985/2000, que instituiu o Sistema Nacional 6 A redação foi alterada pela Lei Federal nº 7.804/1989 e a redação vigente indica: “a criação de espaços territoriais especialmente protegidos pelo Poder Público federal, estadual e municipal, tais como áreas de proteção ambiental, de relevante interesse ecológico e reservas extrativistas” 7 Para Luis Roberto Barroso: “As normas constitucionais programáticas veiculam princípios, desde logo observáveis, ou traçam fins sociais a serem alcançados pela atuação futura dos pode- res públicos. Quando desempenham este segundo papel, não geram para os jurisdicionados a exigibilidade de comportamentos comissivos, mas investem-nos na faculdade de demandar dos órgãos estatais que se abstenham de quaisquer atos que contravenham as diretrizes traçadas.” BARROSO, Luis Roberto. A Proteção do Meio Ambiente na Constituição Brasileira. Revista de Direito Constitucional e Internacional, São Paulo, Vol. 1, 1001-1037, Out – Dez, 1992, p. 115 – 140. 8 De acordo com Benjamim: “Em nenhum momento o texto constitucional alude à expressão unidades de conservação, usando, isso sim, de forma correta, o termo ‘espaços territoriais espe- cialmente protegidos’. Não se trata de opção vernacular aleatória ou acidental do legislador de 1988, que, nesse ponto, seguiu o standard científico apropriado, segundo o qual ‘conservação’ não é gênero, muito menos gênero do qual ‘preservação’ é espécie. BENJAMIN, op. cit., p. 288. 9 Constituição da República, art. 225, §1º, III. 88 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal de Unidades de Conservação (SNUC). A partir da promulgação da lei federal,10 o regramento sobre as unidades de conservação passou a ser reunido em único instrumento normativo,consolidando diversos atos esparsos que tratavam das características de cada tipo de unidade de conservação. A reunião em único instrumento possibilitou o estabelecimento de objetivos11 e diretrizes comuns.12 Outro ponto decorrente da criação do sistema é o estabelecimento de objetivos individuais e regras internas de proteção para cada unidade, bem como a classificação delas em dois grupos distintos,13 com características comuns das unidades integrantes de cada grupo. A partir da Lei do SNUC, foram estabelecidos procedimentos uniformizados para a criação,14 implantação,15 gestão16 e desafetação17 das unidades de conservação. Ressalvadas algumas poucas exceções, os procedimentos são aplicados a todas as modalidades de unidades de conservação, bem como devem ser obedecidos pelos entes federados. Apesar da relevância da adequada gestão dos espaços protegidos, o tema tem obtido tímida contribuição dogmática e boa parte da interpretação dada aos dispositivos constitucional e da própria Lei Federal nº. 9.985/2000 é obtida pela atividade jurisdicional, especialmente, exercida pelo Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito da competência privativa ou do controle concentrado de constitucionalidade, com destaque a relevante contribuição da Ministra Carmen Lúcia. Desse modo, o objetivo desse artigo é estabelecer uma sistematização sobre as possíveis interpretações dos dispositivos da Constituição da República 10 Cristiane Derani anota: “A Lei nº 9.985/2000 não cria unidades de conservação. Ela estabelece medidas para sua criação. Cria quadros de ação. Assim, por esse instituto normativo, é imposto o modo de criação, a competência para a instituição, assim como o conteúdo de cada unidade instituída. Apresenta a devida medida para a ação do Poder Público, unificando e ordenando – sistematizando – o procedimento de criação das unidades de conservação, as denominações de cada UC, bem como as características que devem conter cada espécie de UC..” DERANI, Cris- tiane. A estrutura do Sistema Nacional de Unidades de Conservação – Lei nº 9.985/2000. In: BENJAMIN, Antônio Herman. (coord.) Direito ambiental das áreas protegidas – O regime jurídico das unidades de conservação. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2001, p. 236-237. 11 Lei Federal nº. 9.985/2000, art. 4º. 12 Lei Federal nº. 9.985/2000, art. 5º. 13 Lei Federal nº. 9.985/2000, art. 7º. 14 Lei Federal nº. 9.985/2000, art. 22. 15 Lei Federal nº. 9.985/2000, art. 23, 24, 25, 27 e 29. 16 Lei Federal nº. 9.985/2000, art. 26, 30 e 32. 17 Lei Federal nº. 9.985/2000, art. 22, §7º. 89Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia e Lei do SNUC sobre as controvérsias jurídicas relativas à criação e extinção de unidades de conservação e apresentar uma contribuição sobre os referidos institutos. Além da revisão bibliográfica, pretende-se apontar a construção jurisprudencial pelo STF, para se estabelecer os fundamentos jurídicos relativos ao tema. Procedimento de criação de unidade de conservação a partir da lei do SNUC A Lei Federal nº. 9.985/2000 institucionalizou procedimentos específicos voltados à criação de unidades de conservação. Antes, contudo, de aprofundar sobre os procedimentos, deve-se observar a existência de determinados requisitos materiais, que são pressupostos de formação desses espaços. A indicação desses pressupostos decorre da interpretação do conceito de unidade de conservação materializado pela Lei do SNUC. De acordo com a Lei, as unidades de conservação são: [...] espaço territorial e seus recursos ambientais, incluindo as águas jurisdicionais, com características naturais relevantes, legalmente instituído pelo Poder Público, com objetivos de conservação e limites definidos, sob regime especial de administração, ao qual se aplicam garantias adequadas de proteção.18 Assim, o conceito da Lei indica pressupostos de natureza material, podem ser resumidos em cinco aspectos, conforme apontados por Herman Benjamin:19 (a) relevância natural, (b) oficialismo, (c) delimitação territorial; (d) objetivo conservacionista; (e) regime especial de proteção e administração. Sem a pretensão de reproduzir a construção teórica feita por Benjamim, parece importante ressaltar alguns principais itens indicados pelo autor e outros estudiosos. Em primeiro momento, a relevância natural, indicada no conceito da Lei, não se reduz a espaços com notável beleza cênica ou características únicas, endêmicas, singulares dos recursos naturais.20 Para Benjamin, relevância 18 Lei Federal nº. 9.985/2000, art. 2º, I. 19 BENJAMIM, op. cit., p. 291. 20 Marcelo Abelha Rodrigues defende a existência importância na manutenção do equilíbrio 90 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal natural pode ser “constituída de elementos comuns, corriqueiros ou até banais da natureza,” uma vez que a característica relevante “é uma noção de fundo ecológico e não um juízo prisioneiro da percepção ou apreciação humana.”21 Outro aspecto que merece destaque se refere ao oficialismo, que decorre da expressão “legalmente instituído pelo Poder Público,” como pressuposto jurídico-formal.22 A unidade de conservação não existe enquanto pressuposto fático que se amolda à previsão genérica da lei, como ocorre com as áreas de preservação permanente.23 Significa dizer, que não basta a identificação de eventual característica natural relevante para indicar a sua existência, especialmente considerando as premissas que resultam da relevância natural indicada acima. Para a criação de unidade de conservação é necessário “pronunciamento público inequívoco.”24 O entendimento é compartilhado por José Afonso da Silva, para quem “um espaço territorial se converte em unidade de conservação, quando assim é declarado expressamente.”25 Por fim, merece destaque à indicação de delimitação territorial,26 que não se confunde com a extensão territorial. A delimitação territorial é individual – aplicada a cada unidade – e atua como forma a separar o que integra e o que não integra27 o espaço protegido. Distingue-se da extensão territorial, pois a lei não indica qual a área ocupada por cada tipologia de área protegida. O ato formal, que reconhece a existência de característica natural relevante, definirá a extensão ecológico: “a) O primeiro aspecto característico de uma UC é a sua relevância ecológica, ou seja, a sua importância na manutenção do equilíbrio ecológico (ciclo hidrológico, manutenção da cobertura térmica, qualidade de vida no planeta).” RODRIGUES, Marcelo Abelha. Esquematizado - Direito ambiental. São Paulo: Saraiva, 2021, p. 192. 21 BENJAMIN, op. cit., p. 292. 22 Idem, p. 293 23 Para Rodrigues: “b) A segunda característica é que a sua criação necessariamente é acompanhada de ato oficial, pois todas as Unidades de Conservação, sejam públicas ou privadas, estão sujeitas a um regime especial delimitado por órgão oficial. É mister que a própria caracterização de uma UC — tipologia — seja feita mediante ato oficial, daí por que esta é uma característica que identifica uma unidade de conservação..” RODRIGUES, op. cit., p. 192. 24 BENJAMIN, op. cit., p. 293 25 SILVA, José Afonso da. Direito Ambiental Constitucional. 6ª ed. São Paulo: Malheiros, 2007, p. 161. 26 Para Rodrigues: “O terceiro aspecto é a sua delimitação territorial, ou seja, as Unidades de Conservação, como o nome já diz, são unidades e, como tais, são áreas que guardam limitações necessárias à proteção do bem ambiental para a persecução da finalidade objetivada.” RODRI- GUES, op. cit., p. 192 27 BENJAMIN, op. cit., p. 295 91Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia da unidade e os contornos aplicáveis, definindo o limite da própria unidade e se for o caso da sua zona de amortecimento.28 Paralelamente aos requisitos materiais indicados acima, o artigo 22 da Lei do SNUC prevê que as unidades de conservação serão criadas29 por ato do poder público. O mesmo dispositivo estabelece que a criação de uma unidade de conservação deveser precedida de estudos técnicas e consultas públicas (§2º), sendo essa dispensada para as Estações Ecológicas e Reservas Biológicas (§ 4º). As disposições normativas integram o aspecto procedimental relacionado à criação dos espaços. Em consonância com os requisitos materiais indicados, a Lei do SNUC estabelece que estudos técnicos e consulta pública devem “permitir identificar a localização, a dimensão e os limites mais adequados para a unidade” (artigo 22, §2º). Além do mais, a Lei estabelece a necessidade de que o “Poder Público é obrigado a fornecer informações adequadas e inteligíveis à população local e outras partes” (artigo 22, §3º). Os poucos requisitos procedimentais indicados pela Lei, ao mesmo tempo, favorecem a atuação do Poder Público, sem que se apresente um procedimento com diversas etapas propício ao encontro de nulidades e, ao mesmo tempo, garantem a informação adequada à população que possa vir ser afetada pela criação da área protegida.30 Esses aspectos procedimentais definidos pela Lei levantam importantes questionamentos sobre o processo de criação de unidades de conservação. Primeiro, considerando que os estudos técnicos e as consultas públicas – nos casos em que essas são exigidas – são requisitos procedimentais para a criação das unidades de conservação, de caráter cogente para todos os entes federados, 28 Idibem. 29 Para Cristiane Derani: “Dois são os momentos normativos para a criação de uma unidade de conservação. O primeiro é o de criação de tipos ideais, universais e genéricos, encontrado no SNUC. O segundo é, a partir dos tipos criados pela lei, a subsunção de espaços concretos àquelas criações racionais, num processo de racionalização do espaço.” DERANI, op. cit., p. 239. 30 Importante alerta de Larissa Ribeiro C. Godoy: “A previsão legal não reflete, necessariamente, a realidade dos procedimentos de criação e ampliação de unidades de conservação. Historicamen- te as áreas protegidas, no Brasil, vêm sendo criadas sem a observância rígida de critérios técnicos e científicos. Da identificação até a emissão do ato legal de criação da unidade, o que pode levar anos, o procedimento é influenciado por fatores políticos que acabam por determinar, sobretu- do, a escolha da categoria de manejo e tamanho da área a ser protegida.” GODOY, Larissa Ribeiro da Cruz. Compensação ambiental e financiamento de áreas protegidas. Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris, 2015a, p. 74 92 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal é legítima a existência de dúvida jurídica se a efetivação do ato que oficialize a unidade de conservação, sem a devida realização dos procedimentos determinados por lei, poderia resultar na nulidade da instituição da área protegida. Como consequência à provocação original, questiona-se se seria possível considerar válido o ato administrativo que desconstitua o ato antecedente – autotutela administrativa –, caso aquele seja considerado nulo, tendo em vista a limitação constitucional para a necessidade de lei para a desafetação do espaço protegido. Além do mais, a formalização da criação da unidade de conservação depende de ato do Poder Público. Nesse sentido, em segundo lugar, deve-se considerar se haveria limitação à criação de unidades de conservação por ato administrativo ou por lei. A questão decorrente é se haveria limitação para que o Executivo ou o Legislativo criarem unidades de conservação. Os temas serão tratados individualmente, nos tópicos subsequentes. Respeito aos procedimentos previstos em lei. Possibilidade de declaração de nulidade do ato de criação A Administração Pública está vinculada ao princípio da legalidade administrativa,31 de modo que toda atividade do Executivo deve ser autorizada pela lei.32 Enquanto atividade administrativa, a criação de unidade de conservação necessita observar as medidas previstas em lei no que se refere aos estudos técnicas e à consulta à população interessada. Os estudos técnicos são dotados de enorme relevância, especialmente, quando se passa a considerar que o elemento relevância natural, da forma exposta anteriormente, deve ser considerada como pressuposto à existência de uma unidade de conservação.33 Significa dizer, 31 Para José dos Santos Carvalho Filho: “É extremamente importante o efeito do princípio da legalidade no que diz respeito aos direitos dos indivíduos. Na verdade, o princípio se reflete na consequência de que a própria garantia desses direitos depende de sua existência, autorizando- se então os indivíduos à verificação do confronto entre a atividade administrativa e a lei. Uma conclusão é inarredável: havendo dissonância entre a conduta e a lei, deverá aquela ser corrigida para eliminar-se a ilicitude. CARVALHO FILHO, José dos Santos. Manual de Direito Admi- nistrativo. 36ª ed. Rio de Janeiro: Grupo Gen, 2022, p. 60 32 Idem, p. 60. 33 Para Édis Milaré: “Quanto ao primeiro requisito, vale registrar que, além de permitirem a correta delimitação da unidade de acordo com os aspectos sociais, econômicos, ambientais e de biodiversidade da região afetada, a realização de estudos técnicos também se presta a evitar abusos e arbitrariedades que possam decorrer do Poder Executivo, tendo em vista a mencionada possibi- 93Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia que mesmo em áreas consideradas comuns é possível a existência de uma unidade de conservação, o que exige um processo comunicativo adequado com a comunidade afetada. Em oposição, a criação de área protegidas em áreas exclusivamente degradadas, pode esconder determinado desvio de finalidade quanto à intenção do Poder Público de impor à área inserida na delimitação territorial da unidade de conservação regras específicas e diferenciadas voltadas à proteção e, por consequência, restringir o uso e gozo regular da propriedade ou exercício de determinada atividade econômica. Ainda que a relevância natural possa ser comum, ela ainda deverá existir como pressuposto de existência da unidade de conservação. Deve-se relembrar o dever de equilíbrio na limitação de direitos do indivíduo, conforme lição de Paulo de Bessa Antunes: A atuação do Estado para a implementação de direitos constitucionalmente assegurados, sobretudo quando se trata de direitos que são, simultaneamente, individuais e coletivos – os direitos ao meio ambiente ecologicamente equilibrado são deles um notável exemplo –, deve ser feita de forma equilibrada e, na justa medida do necessário, sobretudo quando implicam no desequilíbrio entre as cargas sofridas pela coletividade e pelo indivíduo, fazendo com que os ônus recaíam majoritariamente sobre o indivíduo, em benefício da coletividade, ou daquilo que o Estado entende como coletividade. No particular, justifica-se a limitação, especialmente, devido ao fato de que, no caso concreto da definição de áreas a serem especialmente protegidas, a atividade estatal se caracteriza por uma prestação positiva e não meramente por uma inação. É da própria natureza da prestação positiva que, caso não seja limitada ao mínimo estritamente necessário, que ela se desdobre em arbítrio acobertado pelo manto da discricionariedade administrativa, fundada em juízos de conveniência e oportunidade que, em última instância, decorrem de um programa político da maioria, ou na interpretação de tal programa pelos encarregados de implementá-lo.34 lidade de criação de unidades de conservação por meio de ato administrativo.” MILARÉ, Édis. Direito do Ambiente. 12 ed. Revista dos Tribunais. São Paulo, 2021, RB 49.8. 34 ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 22 ed. São Paulo: Grupo Gen, 2021, p. 670. 94 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal De forma semelhante, estudos técnicos são essenciais para determinar a modalidade de unidade de conservação que se pretende instituir, bem como a delimitação territorial do espaço. A modalidade escolhida poderá resultar ao nível mais acentuado de intocabilidade do local, o que poderá afastara convivência da população com a unidade de conservação.35 Ainda que determinada medida seja exigida em circunstâncias específicas, que justificam, por exemplo, a escolha da criação de Reservas Biológicas e Estações Ecológicas, deve-se relembrar que a própria lei indica diretrizes de integração da comunidade local com a proteção ambiental intentada pela criação da unidade de conservação, no artigo 5º, incisos III, IV e V.36 A necessidade de clareza dos estudos técnicos, impactará de forma direta o conteúdo das consultas públicas.37 Por sua vez, as consultas públicas possibilitarão ao gestor público a adoção da decisão mais adequada no que se refere a modalidade da unidade de conservação38 e, como consequência, o 35 Importante ressalva de Paulo de Bessa Antunes: “A Constituição não proibiu que todas as áreas merecedoras de especial proteção legal pudessem ser utilizadas e exploradas economicamen- te; contudo, proibiu utilização que alterasse as características e os atributos que deram funda- mento à especial proteção. A questão coloca-se, portanto, no modelo de unidade de conservação a ser adotado para cada um dos espaços territoriais que venham a merecer uma especial proteção. Melhor dizendo, a cada modelo de unidade de conservação corresponde um determinado padrão de limitação de atividades econômicas, sociais e recreacionais etc..” Idem, p. 652 36 Lei Federal nº 9.985/2000: Art. 5o O SNUC será regido por diretrizes que: III - assegurem a participação efetiva das populações locais na criação, implantação e gestão das unidades de con- servação; IV - busquem o apoio e a cooperação de organizações não-governamentais, de organi- zações privadas e pessoas físicas para o desenvolvimento de estudos, pesquisas científicas, práticas de educação ambiental, atividades de lazer e de turismo ecológico, monitoramento, manutenção e outras atividades de gestão das unidades de conservação; V - incentivem as populações locais e as organizações privadas a estabelecerem e administrarem unidades de conservação dentro do sistema nacional; 37 Para Milaré: “Já a realização de consultas públicas, que encontra fundamento nos princípios constitucionais da participação comunitária e da publicidade e no direito fundamental à infor- mação, tem como objetivo primordial a ampla divulgação e o aprimoramento das propostas de criação de unidades de conservação por meio de reuniões preliminares com as comunidades locais e os setores interessados, de modo que também sejam levadas em consideração, ao longo do pro- cesso de criação, as questões de seu interesse.” MILARÉ, op. cit., RB 49.8. 38 Para Larissa Godoy: “A etapa da consulta pública nos processos de criação, embora dispensa- da, pela Lei nº. 9.985, de 2000, para a instituição de Estações Ecológicas e Reservas Biológicas, é importante instrumento de democratização e participação social nos processos de tomada de decisão do Poder Público. Tem sido considerara um grande avanço trazido pela Lei do SNUC. O ato de criação de uma área protegida não é simplesmente o resultado de estudos científicos, embasados em critérios ecológicos. Assim, o instrumento da consulta pública é essencial para que se mapeiem os conflitos quanto ao uso do território e dos recursos naturais, e se desenvolvam 95Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia tipo de proteção ambiental a ser efetivada e as restrições que dela decorre.39 Conforme ressalta Marcelo Buzaglo Dantas: Com efeito, como se sabe, a criação de uma UC não é, em absoluto, garantia de preservação ambiental. E, a falta de participação dos interessados (comunidade local, populações tradicionais, proprietários e possuidores de imóveis na área), pode ser um grande propulsor da falta de cuidado com o meio ambiente, posto que as atividades ali desenvolvidas passam, de uma hora para outra, a ser consideradas ilegais. Como bem assinalou Maurício Mercadante, em outro trabalho, justamente “a falta de transparência e a ausência de negociação é que pode estimular a depredação.”40 Com efeito, apesar da importância da existência dos estudos técnicos para melhor informação da população atingida pela criação da unidade de conservação, a lei não indica a existência de ordem no procedimento de criação entre o estudo e a consulta. Essa posição foi reafirmada pelo Supremo Tribunal Federal que decidiu em sede de Mandado de Segurança: Agravo regimental em mandado de segurança. Criação de reserva extrativista. Dilação probatória. Impossibilidade. [...]. 3. O § 2º do art. 22 da Lei nº 9.985/2000 não exige que os estudos técnicos estejam concluídos por ocasião das consultas públicas, mas, tão somente, por ocasião da criação da própria unidade de conservação. 4. Agravo regimental não provido. (MS 26189 AgR, Relator(a): DIAS TOFFOLI, Tribunal Pleno, julgado formas de se minimizar as pressões antrópicas sobre bens e recursos ambientais protegidos.” GO- DOY, 2015a, op. cit., p. 76 39 Na opinião de Marcelo Buzaglo Dantas, a escolha da tipologia de unidade de conservação é uma das formas de solução de conflitos entre a proteção ambiental e o respeito ao direito de propriedade: “De fato, a primeira opção parece ser a busca pela alteração de categoria de UC, permitindo a convivência entres os proprietários de imóveis na área e a proteção do meio ambien- te.” DANTAS, Marcelo Buzaglo. A criação de Unidades de Conservação da Natureza em áreas habitadas: problemáticas e soluções possíveis. In: BRAGA FILHO, Edson de Oliveira; AHMED, Flávio; MURAD, Samir Jorge; GRAU NETO, Werner. (Coord.). Mecanismos Legais para o Desenvolvimento Sustentável. Belo Horizonte: Fórum, 2010, p. 227. 40 Ibidem. 96 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal em 06/03/2013, ACÓRDÃO ELETRÔNICO DJe-065 DIVULG 09-04-2013 PUBLIC 10-04-2013) Em outra oportunidade, o Supremo também considerou que: (a) a consulta pública não possui natureza de plebiscito, de modo que não há necessidade de assentimento da comunidade atingida, bem como (b) que único estudo e consulta podem legitimar a criação de mais de uma unidade de conservação: MANDADO DE SEGUR ANÇA. ESTAÇÃO ECOLÓGICA DA TERRA DO MEIO. [...] 2. Não há que falar em desrespeito às garantias do contraditório e da ampla defesa, dado que, à luz das provas dos autos, foram realizados estudos técnicos e consultas às populações interessadas, antes da criação da estação ecológica. 3. A consulta pública, que não tem natureza de plebiscito, visa a “subsidiar a definição da localização, da dimensão e dos limites mais adequados” (art. 5º do Decreto 4.340/02) para a unidade de conservação, sendo facultativa quando se tratar de proposta de criação de estação ecológica ou reserva biológica (§ 4º do art. 22 da Lei 9.985/00). 4. Não há ilegalidade na criação de mais de um tipo de unidade de conservação da natureza a partir de um único procedimento administrativo. [...]. (MS 25347, Relator(a): AYRES BRITTO, Tribunal Pleno, julgado em 17/02/2010, DJe-050 DIVULG 18-03-2010 PUBLIC 19-03-2010 EMENT VOL-02394-01 PP-00119 RT v. 99, n. 897, 2010, p. 125-131 LEXSTF v. 32, n. 376, 2010, p. 126-135) Por outro lado, o Supremo possui posição firme no que se refere a indispensabilidade da realização dos estudos técnicos e consultas públicas para a criação das unidades de conservação, especialmente após a Lei do SNUC e edição do seu regulamento. A regra deve ser aplicada mesmo quando se tratar de ampliação dos limites de unidade de conservação devidamente instituída: MEIO AMBIENTE. Unidade de conservação. Estação ecológica. Ampliação dos limites originais na medida do acréscimo, mediante decreto do Presidente da República. 97Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Inadmissibilidade. Falta de estudos técnicos e de consulta pública. Requisitos prévios não satisfeitos. Nulidade do ato pronunciada. Ofensa a direito líquido e certo. Concessão do mandado de segurança. Inteligência do art. 66, §§ 2º e 6º, da Lei nº 9.985/2000. Votos vencidos. Aampliação dos limites de estação ecológica, sem alteração dos limites originais, exceto pelo acréscimo proposto, não pode ser feita sem observância dos requisitos prévios de estudos técnicos e consulta pública. (MS 24665, Relator(a): MARCO AURÉLIO, Relator(a) p/ Acórdão: CEZAR PELUSO, Tribunal Pleno, julgado em 01/12/2004, DJ 06-10-2006 PP-00033 EMENT VOL-02250-02 PP-00233 RTJ VOL-00199-02 PP-00652 RT v. 96, n. 856, 2007, p. 104-118) No mesmo sentido: Quando da edição do Decreto de 27.02.2001, a Lei nº 9.985/00 não havia sido regulamentada. A sua regulamentação só foi implementada em 22 de agosto de 2002, com a edição do Decreto nº 4.340/02. O processo de criação e ampliação das unidades de conservação deve ser precedido da regulamentação da lei, de estudos técnicos e de consulta pública. O parecer emitido pelo Conselho Consultivo do Parque não pode substituir a consulta exigida na lei. O Conselho não tem poderes para representar a população local. Concedida a segurança, ressalvada a possibilidade da edição de novo decreto. (MS 24184, Relator(a): ELLEN GRACIE, Tribunal Pleno, julgado em 13/08/2003, DJ 27-02-2004 PP-00034 EMENT VOL-02141-04 PP-00735)41 41 Em reforço ao entendimento exposto, uma vez que os requisitos tenham sido obedecidos, não há que se falar em nulidade do ato de criação: AGRAVO REGIMENTAL. MANDADO DE SEGURANÇA. CRIAÇÃO DE PARQUE NACIONAL MEDIANTE DECRETO. AU- SÊNCIA DE ILEGALIDADE. CUMPRIMENTO DOS REQUISITOS DA LEI 9.985/2000. CONTROVÉRSIA ACERCA DO DESCUMPRIMENTO DOS REQUISITOS LEGAIS E REAIS MOTIVOS PARA CRIAÇÃO DA UNIDADE DE CONSERVAÇÃO. NECESSIDA- DE DE DILAÇÃO PROBATÓRIA. IMPOSSIBILIDADE. AUSÊNCIA DE VIOLAÇÃO A DIREITO LÍQUIDO E CERTO. AGRAVO DESPROVIDO. I - Demonstrada a realização das consultas públicas e dos estudos técnicos, bem assim que o procedimento para criação do Parque Nacional de Campos Gerais observou todos os requisitos da Lei 9.985/2000, não há fa- lar em nulidade do decreto ora atacado. II - O entendimento pacífico desta Corte é no sentido da impossibilidade de discutir-se em sede de mandado de segurança questões controversas que 98 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Portanto, parece ser seguro indicar que, diante da inexistência de estudos técnicos e consultas públicas, o ato de criação de unidades de conservação pode ser considerado nulo42 e será legítima a atuação do Poder Judiciário para pronunciar a invalidação do ato.43 Uma vez autorizada a intervenção do Judiciário, na nossa visão, haveria igualmente legitimidade – senão, dever – para que a Administração Pública44 também reconhecesse a nulidade do ato de criação que desrespeitou a forma45 prevista em lei (dever de autotutela). A exigência constitucional de lei envolvam fatos e provas, por demandar dilação probatória. Precedentes. III - Não verificada, no caso, a existência de qualquer vício no ato impugnado que pudesse caracterizar ofensa a direito líquido e certo dos impetrantes, não há como prosperar o writ. IV – Agravo regimental a que se nega provimento. (MS 26067 AgR, Relator(a): RICARDO LEWANDOWSKI, Tribunal Pleno, julgado em 06/10/2011, DJe-204 DIVULG 21-10-2011 PUBLIC 24-10-2011 EMENT VOL- 02613-01 PP-00013) 42 No mesmo sentido, Édis Milaré: “Com efeito, da análise do art. 22, § 2º, da Lei 9.985/2000, combinado com os arts. 4º e 5º do Decreto 4.340/2002, extrai-se que a criação de uma Unidade de Conservação deve ser precedida (i) da elaboração de estudos técnicos e (ii) da realização de consulta pública. Trata-se de verdadeiros requisitos que devem ser devidamente cumpridos, sob pena de nulidade do ato de criação da unidade de conservação.” MILARÉ, op. cit., RB 49.8. No mesmo sentido, Paulo de Bessa Antunes: “O novo regime legal da criação de unidades de conser- vação impõe ao Poder Público que estabeleça um procedimento no qual deverão estar previstas a realização de estudos técnicos e de consulta pública, de forma que seja possível identificar a loca- lização, a dimensão e os limites mais adequados para a unidade, conforme se dispuser em regula- mento. A inexistência de tais procedimentos prévios, em minha opinião, torna nulo qualquer ato instituidor de unidade de conservação.” ANTUNES, op. cit., p. 700 43 Paulo de Bessa Antunes destaca: “A Lei nº 9.985/2000 estabeleceu um conjunto de normas vinculantes juridicamente que coíbem a prática do excesso ora mencionados e que, se bem ob- servados, impedem que a criação arbitrária de unidades de conservação, em especial aquelas do grupo de proteção integral, possa redundar em danos sociais maiores do que os benefícios de sua criação. Ao nível do atual debate jurídico, o cerne da proibição de excesso tem se limitado ao as- pecto pecuniário da questão, com a firme decisão das Cortes judiciais em determinar o pagamen- to de indenizações quando da criação de algumas modalidades de unidades de conservação do grupo de proteção integral, sem a transferência do domínio, sem a compensação para o particular. Contudo, penso que os limites interpretativos da Constituição de 1988 possam ser alargados de forma significativa, trazendo como resultado uma diminuição no gasto de recursos públicos e privados, bem como aumentando o grau de segurança jurídica, pressuposto fundamental do Estado de Direito, assentado em bases sólidas.” Idem, p. 670. 44 Para José dos Santos Carvalho Filho: “Por outro lado, a Administração pode invalidar seus próprios atos. Dotada do poder de autotutela, não somente pode, mas também deve fazê-lo (com as ressalvas que adiante serão vistas), expungindo ato que, embora proveniente da manifestação de vontade de algum de seus agentes, contenha vício de legalidade. O fundamento dessa inicia- tiva reside no princípio da legalidade (art. 37, caput, CF). De fato, o administrador não estaria observando o princípio se, diante de um ato administrativo viciado, não declarasse a anomalia por meio de sua invalidação.” CARVALHO FILHO, op. cit., p. 180 45 De Carvalho Filho: “O vício de forma provém do ato que inobserva ou omite o meio de exte- riorização exigido para o ato, ou que não atende ao procedimento previsto em lei como necessário à decisão que a Administração deseja tomar.” Idem, p. 179 99Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia para supressão do espaço territorial especialmente protegido parece não alcançar as causas de nulidade do ato de criação. Na nossa visão, o administrador e o juízo não adotam uma livre escolha quanto à retirada da proteção de determinado espaço, mas apenas reconhecem que o ato praticado para determinado fim não atendeu aos pressupostos legais para a produção de efeitos. Adicionalmente, a desconstituição do ato pelo não atendimento da forma prescrita em lei, não impede a prática de novo ato, que reafirme o compromisso de proteção da área, após o atendimento dos requisitos legais. Afiliamos, entretanto, à posição dogmática, construída no direito administrativo, que defende a limitação46 do dever de invalidação dos atos administrativos em duas hipóteses: o decurso do prazo e consolidação dos efeitos derivados do ato (teoria do fato consumado). Nesse sentido, opera- se a decadência do dever de autotutela da administração pública pelo prazo de cinco anos da prática do ato e, portanto, o administrador público estaria impedido de desfazer o ato. No segundo aspecto, será indissociável ao administrador a avaliação da situação concreta, como, por exemplo, a efetivação da implantação da área protegida, a conversão de propriedades privadas ao domínio do Poder Público, o desapossamento de pessoas e comunidades no interior da unidade, o recebimento de recursos para investimento na área protegida, entre outros elementos fáticos, o que limitaria a possibilidade de se declarar a nulidade do ato, que alcançassem maiores prejuízos se comparado à sua manutenção. Portanto, com exceção aos requisitos gerais limitadores da autotutela, cabe à Administração Pública declarar a nulidade de ato criador de unidade deconservação que não obedeceu aos requisitos da lei, especialmente à realização de estudos técnicos e consulta pública. Entretanto, operada, no plano concreto, a limitação ao dever de anulação, o desfazimento da unidade de conservação ficará restrito à hipótese constitucional da exigência de lei, sem possibilidade de atuação direta do administrador e, na nossa avaliação, até mesmo do Judiciário. 46 Para Carvalho Filho: “Entretanto, se essa deve ser a regra geral, há que se reconhecer que, em certas circunstâncias especiais, poderão surgir situações que acabem por conduzir a Admi- nistração a manter o ato inválido. Nesses casos, porém, não haverá escolha discricionária para o administrador, mas a única conduta juridicamente viável terá que ser a de não invalidar o ato e deixá-lo subsistir e produzir seus efeitos. Tais situações consistem em verdadeiras limitações ao dever de invalidação dos atos e podem apresentar-se sob duas formas: (1) o decurso do tempo; (2) consolidação dos efeitos produzidos.168 O decurso do tempo, como é sabido, estabiliza certas situações fáticas, transformando--as em situações jurídicas.” Idem, p. 181. 100 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Legitimidade das esferas pública no exercício do poder para criar unidades de conservação O ato de Poder Público instituidor de unidade de conservação específica possui a potencialidade de causar restrições ao direito de propriedade e de livre iniciativa. Considerando os objetivos de preservação e regime jurídico diferenciado de administração do espaço protegido, com a criação da unidade de conservação ocorre efetiva limitação administrativa47 à propriedade afetada. A afetação aos direitos individuais motivou questionamentos sobre a possibilidade de unidade de conservação ser criada por meio de ato administrativo, praticado pelo chefe do Executivo de cada ente federado. O debate chegou ao Supremo Tribunal Federal, via mandado de segurança, para exercício do controle do ato administrativo praticado pelo Presidente da República. Em célebre julgamento relatado pelo Ministro Eros Grau, o STF entendeu pela validade do ato do Executivo que instituiu unidade de conservação específica: MANDADO DE SEGURANÇA. MEIO AMBIENTE. DEFESA. ATRIBUIÇÃO CONFERIDA AO PODER PÚBLICO. ARTIGO 225, § 1º, III, CB/88. DELIMITAÇÃO DOS ESPAÇOS TERRITORIAIS PROTEGIDOS. VALIDADE DO DECRETO. SEGURANÇA DENEGADA. 1. A Constituição do Brasil atribui ao Poder Público e à coletividade o dever de defender um meio ambiente ecologicamente equilibrado. [CB/88, art. 225, §1º, III]. 2. A delimitação dos espaços territoriais protegidos pode ser feita por decreto ou por lei, sendo esta imprescindível apenas quando se trate 47 Em decisão do Superior Tribunal de Justiça: “A criação de áreas especiais de proteção ambien- tal - salvo quando tratar-se de algumas unidades de conservação de proteção integral e de uso sus- tentável em que a lei impõe que o domínio seja público - configura limitação administrativa, que se distingue da desapropriação. Nesta, há transferência da propriedade individual para o domínio do expropriante com integral indenização; naquela, há apenas restrição ao uso da propriedade imposta genericamente a todos os proprietários, sem qualquer indenização. 2. Se a restrição ao uso da propriedade esvaziar o seu valor econômico, deixará de ser limitação para ser interdição de uso da propriedade, e, neste caso, o Poder Público ficará obrigado a indenizar a restrição que aniquilou o direito dominial e suprimiu o valor econômico do bem. (Hely Lopes Meirelles. Di- reito Administrativo Brasileiro. São Paulo: Malheiros, 2009. 35ª ed., págs. 645/646.) [...] (AgRg no AREsp n. 155.302/RJ, relator Ministro Humberto Martins, Segunda Turma, julgado em 13/11/2012, DJe de 20/11/2012.). 101Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia de alteração ou supressão desses espaços. Precedentes. Segurança denegada para manter os efeitos do decreto do Presidente da República, de 23 de março de 2006. (MS 26064, Relator(a): EROS GRAU, Tribunal Pleno, julgado em 17/06/2010, DJe-145 DIVULG 05-08-2010 PUBLIC 06-08-2010 EMENT VOL-02409-03 PP-00546 LEXSTF v. 32, n. 380, 2010, p. 163-167 RT v. 99, n. 901, 2010, p. 140-142) – grifos nossos. A decisão sobre a validade do decreto para criar unidades de conservação foi reiterada em novas oportunidades, como indicado nos julgamentos abaixo: MEIO AMBIENTE - RESERVA EXTRATIVISTA - CONFLITO DE INTERESSE - COLETIVO VERSUS INDIVIDUAL. [...] RESERVA DE PROTEÇÃO AMBIENTAL - CRIAÇÃO - ALTERAÇÃO - SUPRESSÃO. A criação de reserva ambiental faz-se mediante ato administrativo, surgindo a lei como exigência formal para a alteração ou a supressão - artigo 225, inciso III, do Diploma Maior. [...] (MS 25284, Relator(a): MARCO AURÉLIO, Tribunal Pleno, julgado em 17/06/2010, DJe-149 DIVULG 12-08-2010 PUBLIC 13-08-2010 EMENT VOL-02410-02 PP-00298) Em outro caso semelhante: MEIO AMBIENTE. Unidade de conservação ou preservação permanente. Estação ecológica. Parque Nacional Mapinguari. Criação mediante decreto. Observância de todos os requisitos previstos na Lei nº 9.985/2000. Ofensa a direito líquido e certo. Inexistência. Segurança denegada. Agravo prejudicado. Não ofende direito subjetivo algum de particular, o decreto que, para criar unidade de proteção integral, se baseia em procedimento onde se observaram todos os requisitos da Lei nº 9.985/2000. (MS 27622, Relator(a): CEZAR PELUSO (PRESIDENTE), Tribunal Pleno, julgado em 24/06/2010, DJe-149 DIVULG 12-08-2010 PUBLIC 13-08-2010 EMENT VOL-02410-02 PP-00344) Ao observador atento não escapa a análise que, ao Supremo, foi questionada a validade do ato administrativo criador da unidade de conservação. 102 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Nesse sentido, a questão jurídica (ratio decidendi) posta à análise se refere à circunstância fática do Executivo Federal criar, via decreto, unidades de conservação, pois esse era o ato impugnado na via mandamental e que atraiu a competência privativa do STF. Como tese de direito do impetrante, sustentou- se a necessidade de lei para criação da área protegida, o que foi afastado pela Corte. Entretanto, nos casos apresentados, a possibilidade de criação de unidades de conservação por lei ordinária foi indicada de forma reflexa, e a decisão contemplou a possibilidade de criação tanto por lei, como por decreto. Em sede de controle concentrado de constitucionalidade sobre a Lei do SNUC, o Supremo Tribunal Federal avaliou novamente a questão, deixando em aberto a possibilidade de utilização de outros atos do Poder Público para a criação das áreas protegidas. Mais uma vez a corte tem como parâmetro de análise a eventual limitação da criação de unidades de conservação por decretos. No julgamento da ação direta da inconstitucionalidade, a Corte reiterou a constitucionalidade da lei ao permitir a criação de unidades de conservação por decreto e abrindo a possibilidade para outros atos do Poder Público. Ação direta de inconstitucionalidade. Artigo 22, caput e §§ 5º e 6º, da Lei nº 9.985/2000. Criação e modificação de unidades de conservação por meio de ato normativo diverso de lei. Ofensa ao art. 225, § 1º, III, da Constituição Federal. Não ocorrência. Improcedência da ação. [...] 2. Constitucionalidade do art. 22, caput, da Lei nº 9.985/2000. A dicção do texto constitucional não provoca maiores problemas quanto à definição de ato normativo apto à instituição/criação de espaços territorialmente protegidos, dentre os quais se pode destacar as unidades de conservação regulamentadas pela Lei nº 9.985/2000. Tendo a Carta se referido à reserva de legislação somente como requisito de modificação ou supressão de unidade de conservação, abriu margem para que outros atos do Poder Público, além de lei em sentido estrito, pudessem ser utilizados como mecanismos de instituição de espaços ambientais protegidos. Precedentes. [...] (ADI3646, Relator(a): DIAS TOFFOLI, Tribunal Pleno, julgado em 20/09/2019, PROCESSO ELETRÔNICO DJe- 262 DIVULG 29-11-2019 PUBLIC 02-12-2019) – grifos nossos 103Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Na nossa visão, contudo, uma questão ainda permanece em aberto. Sendo certo que não há limitação ao Executivo, será necessário investigar se haveria limitação ao Legislativo para criar unidade de conservação específica. A doutrina se divide sobre o tema, sem aprofundar no assunto visando apresentar uma posição definitiva. Para Édis Milaré,48 Paulo Affonso Leme Machado49 e Toshio Mukai,50 importantes pensadores da matéria, as unidades de conservação podem ser criadas tanto pela lei como por meio de decretos, conforme reiteradamente decidiu o Supremo Tribunal Federal. Por sua vez, Marcelo Abelha Rodrigues51 e Herman Benjamin ainda acrescentam que as unidades de conservação poderiam ser criadas até mesmo por ato judicial, por esses integrarem o conceito de ato do Poder Público. Benjamin52 defende que: No caso do Judiciário, na esteira do posicionamento jurisprudencial em matéria de tombamento, a sua atuação concreta independe de prévia manifestação da administração pública no caso concreto, estabelecendo unidade de conservação específica. O juiz, aqui, age 48 De acordo com o autor: “Daí que as unidades de conservação têm sido criadas ora por lei, ora por decreto, sendo definidos os seus limites e estabelecida a disciplina do uso, conservação ou preservação de seu território e dos recursos nele existentes. É nesse contexto que se deve entender a Constituição. O Poder Público deve definir espaços territoriais a serem protegidos. Pode fazê-lo por lei ou por decreto..” MILARÉ, op, cit., RB 49.8. 49 Para o autor: “A Lei nº 9.985/2000 não exigiu que as unidades de conservação fossem criadas por lei. O art. 22 estatui que “as unidades de conservação são criadas por ato do Poder Público.” Nada impede, contudo, que a lei seja o instrumento utilizado para sua criação, observando-se que a iniciativa da lei que ensejará a criação de “cargos, funções, ou empregos na administração direta, ou autárquica” federal é do presidente da República.” MACHADO, Paulo Affonso Leme. Áreas Protegidas: a Lei nº 9.985/2000. In: BENJAMIN, Antônio Herman (coord.). Direito ambien- tal das áreas protegidas – O regime jurídico das unidades de conservação. Rio de Janeiro: Fo- rense Universitária, 2001, p. 249. 50 Escreve que: “Trata-se, no caso, da concretização do que dispõe o art. 225, § 1º, inc. III, da Constituição Federal, no sentido de que a criação dos espaços especialmente protegidos se faça por ato do Poder Executivo ou por lei específica, mas as suas alterações e supressões somente serão permitidas através de lei.” MUKAI, Toshio. Direito Ambiental Sistematizado, 10ª edição. São Paulo: Grupo Gen, 2016, p. 155. 51 Para o autor: “Um dos aspectos mais importantes da Lei do SNUC foi ter delimitado regras para criação das UCs, evitando a criação dos denominados parques de papel, ou seja, evitan- do que apenas pela função política, às vezes até persecutória, fossem criados apenas no papel determinados espaços ambientais sem o menor rigor científico e sem definir o tipo específico da unidade em relação ao atributo ambiental tutelado e o fim ao qual se destinam. Seguindo o texto constitucional, apenas o Poder Público (os Três Poderes) poderá criar as UCs descritas no SNUC.” RODRIGUES, op. cit., p. 25. 52 BENJAMIN, op. cit, p. 303. 104 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal exatamente para suprir a omissão descabida, ou a intervenção insuficiente, do Poder Público. Entretanto, é válido anotar a posição exposta por Paulo de Bessa Antunes,53 Terence Trennepohl54 e Larissa Ribeiro Godoy55 no sentido de que a criação de unidade de conservação é atividade típica da Administração Pública e, por essa razão, deverá ser efetivada por meio de decreto do chefe do Executivo de cada ente federado. Nesse sentido, filiamos ao magistério de Paulo de Bessa Antunes,56 para o qual: Contudo, assim como em outros setores do Direito Ambiental, há uma “disputa” entre Poderes para a criação de Unidades de Conservação, havendo mesmo aquelas criadas por lei, cuja natureza jurídica, no entanto, é de ato administrativo, pois dotada de efeitos concretos, “carente da necessária generalidade e abstração” (STF. ADI 3652/ RR. Ministro Sepúlveda Pertence. Tribunal Pleno. Julgamento: 18/12/2006. DJU 16/3/2007, p. 377). A solução legislativa, inclusive, não contempla os elementos legais necessários para a instituição de uma unidade de conservação, haja vista que a Lei do SNUC determina em seu artigo 22 que: (i) a criação de uma UC deve ser precedida de estudos técnicos e de consulta pública que permitam identificar a localização, a dimensão e os limites mais adequados para a unidade, conforme se dispuser em regulamento; (ii) no processo de consulta, o Poder Público é obrigado a fornecer informações adequadas e 53 Para Antunes: “A CF, em seu artigo 225, § 1º, III, não definiu com precisão quais as condições necessárias para a criação de UCs, limitando-se a estabelecer um comando geral para o Poder Público: “em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos.” Cuida-se de obrigação de fazer, cujo destinatário é a Administração Pública.” ANTUNES, op. cit., p. 672. 54 De acordo com Trennepohl: “As unidades de conservação são criadas por ato do Poder Pú- blico, ou seja, são criadas por meio de decreto. No entanto, a desafetação ou redução dos limites de uma unidade de conservação só pode ser feita por meio de lei específica (art. 22 da Lei n. 9.985/2000)..” TRENNEPOHL, Terence. Manual de Direito Ambiental. 9 ed. São Paulo: Saraiva, 2022, p. 328. 55 Para a autora: “A criação e ampliação de unidades de conservação é um ato administrativo fortemente influenciado por critérios políticos, pois envolve interesses atuais e futuros de diversos atores afetados pela destinação a ser dada a um determinado território. É ato discricionário, e, portanto, demanda a utilização, pelo tomador da decisão, de critérios de conveniência e oportu- nidade.” GODOY, 2015a, op. cit., p. 74. 56 ANTUNES, op. cit., p. 673. 105Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia inteligíveis à população local e a outras partes interessadas. Assim, os proprietários eventualmente existentes em região que seja declarada UC ficarão sem o direito de impugnar sua criação. Ainda que o entendimento do Supremo Tribunal Federal aponte pela possibilidade de se criar unidade de conservação pela lei, não nos parece que essa leitura seja a melhor interpretação da disposição constitucional e da Lei do SNUC. É de se supor que criar áreas protegidas exclusivamente por lei57 seja uma restrição à criação de unidades de conservação, como estava originalmente proposto para a lei do SNUC.58 A criação exclusiva por lei teria como função estabelecer o legislador como controlador dos atos do chefe do Executivo, como nítida barreira a atuação direta e concreta do administrador. Entretanto, consolidou-se o entendimento sobre a possibilidade de criação de unidades de conservação por ato direto do chefe do Executivo, de modo que não há razão para que ele submeta eventual projeto de criação de determinada unidade ao Legislativo correspondente, e, assim, a sua atuação independe da chancela ou aprovação do Legislativo, podendo executar o ato de forma 57 Em artigo sobre o tema, Larissa da Cruz Godoy explica que: “Como em vários lugares do mundo, os parques nacionais americanos, protegidos principalmente por suas qualidades es- téticas, representaram uma forte tendência à renúncia ao ganho econômico tradicional, como agricultura, pecuária, mineração, exploração madeireira. Alerta quanto a esse fato, o Congresso americano sempre manteve controle direto sobre a criação dos parques nacionais e frequente- mente se certificou de que as terras a serem destinadasao estabelecimento de um parque nacional seriam imprestáveis para outros propósitos. As leis que criaram os parques só eram promulgadas após longas e intensas campanhas de seus apoiadores. Até hoje os Parques Nacionais só podem ser criados por lei aprovada pelo Congresso.” GODOY, Larissa Ribeiro da Cruz. O modelo de gestão e o financiamento de áreas protegidas nos Estados Unidos da América. Revista de Direi- to Ambiental, São Paulo, Vol. 77, 361 – 414, Jan-Mar, 2015b. 58 O §1º, do art. 22 da Lei do SNUC constava a expressão “lei de criação” e foi vetado pelo Presidente da República, por inconstitucionalidade. Na Mensagem nº. 967/2000, as razões do veto indicadas foram: “O art. 225, § 1o e seu inciso III, é de clareza meridiana ao estabelecer que ao Poder Público, vale dizer no caso, ao Poder Executivo e ao Poder Legislativo, cabe definir em todas as unidades da Federação, espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, sendo a alteração e a supressão somente permitidas através de lei. A definição dos espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos é da competência tanto do Poder Executivo, como do Poder Legislativo, indistintamente, sendo que tão-somente a alte- ração e a supressão desses espaços e componentes protegidos dependem de autorização do Poder Legislativo mediante lei. Assim, ao exigir lei para criação (definição) desses espaços territoriais e seus componentes a serem especialmente protegidos, este dispositivo subtraiu competência atri- buída ao Poder Executivo no preceito constitucional constante do § 1o e seu inciso III, do art. 225 da Carta Maior, razão pela qual sugere-se o seu veto face a sua inequívoca inconstitucionalidade.” 106 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal direta. Nesse sentido, a atuação das casas legislativas para criação de unidades de conservação seria autônoma, ou seja, sem a iniciativa do Executivo. Dessa forma, como bem ressalva Antunes, o Legislativo dificilmente teria meios adequados para cumprir os requisitos procedimentais previstos na Lei do SNUC, e na nossa visão, ainda imporia ao Executivo uma tarefa de implantar e gerir uma unidade de conservação que não foi planejada pela Administração Pública correspondente,59 resultando, no mais das vezes, em áreas criadas, mas não devidamente protegidas. Por essa razão, filiamos a última corrente exposta, no sentido que a criação de unidades de conservação deve ser limitada à atuação da Administração Pública, reservando à legislação o estabelecimento dos requisitos gerais a serem atendidos pelo Executivo e à extinção das áreas protegidas por atendimento ao preceito constitucional. Exigência de lei para a desafetação e a interpretação do Supremo Tribunal Federal Ainda que a criação de unidade de conservação possa se dar por meio de decreto do chefe do Executivo – defendamos que seja exclusivamente – a extinção de unidade de conservação específica, por força constitucional, deve ocorrer por meio de lei. A Constituição da República nesse tema refere-se à lei ordinária, ao contrário das indicações específicas de lei complementar.60 Em regulamentação ao dispositivo da Constituição, a Lei do SNUC indicará a necessidade de elaboração de lei específica, nos termos do art. 22, §7º.61 No 59 Conforme indica Paulo de Besse Antunes. “Parece claro que, após realizar os estudos previstos em lei e concluindo que a área merece proteção especial, ao administrador cabe, única e exclusi- vamente, decretar o regime especial de proteção consistente na instituição de uma unidade de conservação. Daí surge a candente questão do orçamento capaz de materializar concretamente a determinação do Constituinte; dado que os recursos públicos são escassos e necessitam ser divi- didos por diferentes setores da vida em sociedade, a utilização do regime de direito privado para a proteção do meio ambiente é uma fórmula criativa para, ao mesmo tempo, (i) implementar a obrigação de criar áreas especialmente protegidas, (ii) possibilitar que o cidadão atue ativamente na proteção ambiental e (iii) não criar pressão excessiva sobre os recursos públicos.” ANTUNES, op. cit., p. 673. 60 É o caso dos parágrafos únicos dos artigos 22 e 23, inseridos no capítulo sobre a organiza- ção do Estado e repartição de competência. O primeiro trata da delegação de competência da União para os demais entes para legislar sobre tema de competência legislativa privativa do ente federal. O segundo trata das normas de cooperação no âmbito da repartição de competências materiais comuns. 61 Lei Federal nº 9.985/2000. Art. 22. [...] § 7o A desafetação ou redução dos limites de uma unidade de conservação só pode ser feita mediante lei específica. 107Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia âmbito da ADI nº 3.646, o Supremo Tribunal Federal definiu que a exigência da lei prevista na Constituição deverá ser cumprida quando a modificação da unidade de conservação resultar em prejudicialidade ao status de proteção do espaço.62 Nesse sentido, a extinção da unidade após a sua criação, a desafetação quando apossado pelo Poder Público, a reclassificação da unidade para tipologia de menor status protetivo e a redução dos seus limites sujeitar-se-ão a exigência de lei específica. A partir dessas premissas, outra relevante discussão aportou no Supremo Tribunal Federal, que é a possibilidade de suprimir unidade de conservação por meio de medida provisória.63 Em 2012, a Presidente da República editou medida provisória que determinou a redução e redefinição dos limites de diversas unidades de conservação no Norte do país, especialmente na região da Amazônia Legal. A edição da medida provisória resultou no ajuizamento da ADI nº 4.717 pelo Procurador-Geral da República. As medidas provisórias são atos normativos primários, que desde a sua edição possuem efeitos jurídicos e hierarquia normativa equiparados às leis ordinárias,64 o que poderia sugerir o atendimento ao requisito constitucional para a extinção de espaços protegidos. Por sua vez, os limites de edição de medidas provisórias encontram-se expressamente indicados na Constituição 62 No julgamento da ADI, o Relator indicou: “Nesse sentido, a exigência de lei faz-se presen- te quando referida modificação implicar prejudicialidade ou retrocesso ao status de proteção já constituído naquela unidade de conservação, com o fito de coibir a prática de atos restritivos que não tenham a aquiescência do Poder Legislativo. Se, para inovar no campo concreto e efetuar limitação ao direito à propriedade, a Constituição não requisitou do Poder Público a edição de lei, tanto mais não o faria para simples ampliação territorial ou modificação do regime de uso aplicável à unidade de conservação, a fim de conferir a ela superior salvaguarda (de proteção par- cial para proteção integral). (ADI 3646, Relator(a): DIAS TOFFOLI, Tribunal Pleno, julgado em 20/09/2019, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-262 DIVULG 29-11-2019 PUBLIC 02- 12-2019)” 63 Na lição de Gilmar Mendes e Paulo Gustavo Gonet Branco: “Em resumo, as medidas provi- sórias são atos normativos primários, sob condição resolutiva, de caráter excepcional no quadro da separação dos Poderes, e, no âmbito federal, apenas o Presidente da República conta o poder de editá -las. Ostentam nítida feição cautelar. Embora produzam o efeito de concitar o Congresso a deliberar sobre a necessidade de converter em norma certo trecho da realidade social, não se confundem com meros projetos de lei, uma vez que desde quando editadas já produzem efeitos de norma vinculante.” MENDES, Gilmar Ferreira; BRANCO, Paulo Gustavo Gonet. Curso de Direito Constitucional. 17. ed. São Paulo: Saraiva, 2022, p. 498. 64 Para Barroso: “A Constituição contempla, de outra parte, atos normativos que, embora não emanados diretamente do Legislativo, têm força de lei. Dizem-se, assim, atos materialmente le- gislativos, gênero onde se situam, e.g., espécies normativas como as medidas provisóriase as leis delegadas.” BARROSO, Luís Roberto. Curso de Direito Constitucional contemporâneo: os conceitos fundamentais e a construção do novo modelo. 10. ed. São Paulo: Saraiva, 2022, p. 221. 108 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal da República, após a edição da Emenda Constitucional nº 32/200165 e entre as hipóteses de vedação não há clausula relativa a áreas protegidas ou em sentido mais amplo, de direito ambiental. No julgamento da ADI nº 4.717, relatada pela Ministra Carmen Lúcia, a inexistência de vedação à edição de medida provisória foi objeto de análise do voto. Na ação, alegou o requerente (Procurador-Geral da República) que haveria um limite implícito, para além das hipóteses do art. 62, no sentido de se vedar emissão de medida provisória para hipóteses no qual a constituição exigiu lei ordinária, bem como inexiste relevância e urgência para a hipótese e a edição do ato ofenderia o princípio da vedação ao retrocesso socioambiental. As três teses foram admitidas pelo Tribunal. AÇÃO DIRETA DE INCONSTITUCIONALIDADE. MEDIDA PROVISÓRIA N. 558/2012. CONVERSÃO NA LEI N. 12.678/2012. INÉPCIA DA INICIAL E PREJUÍZO DA AÇÃO QUANTO AOS ARTS. 6º E 11 DA MEDIDA PROVISÓRIA N. 558/2012 E AO ART. 20 DA LEI N. 12.678/2012. POSSIBILIDADE DE EXAME DOS REQUISITOS CONSTITUCIONAIS PARA O EXERCÍCIO DA COMPETÊNCIA E X T R AO R D I N Á R I A N O R M AT I VA D O CHEFE DO EXECUTIVO. AUSÊNCIA DOS PRESSUPOSTOS DE RELEVÂNCIA E URGÊNCIA. ALTERAÇÃO DA ÁREA DE UNIDADES DE CONSERVAÇÃO POR MEDIDA PROVISÓRIA. IMPOSSIBILIDADE. CONFIGURADA OFENSA AO PRINCÍPIO DA PROIBIÇÃO DE RETROCESSO SOCIOAMBIENTAL. AÇÃO PARCIALMENTE CONHECIDA E, NESSA PARTE, JULGADA PROCEDENTE, SEM PRONÚNCIA DE NULIDADE. 1. Este Supremo Tribunal manifestou-se pela possibilidade e análise dos requisitos constitucionais para a edição 65 Constituição da República de 1988: Art. 62. Em caso de relevância e urgência, o Presidente da República poderá adotar medidas provisórias, com força de lei, devendo submetê-las de imediato ao Congresso Nacional. § 1º É vedada a edição de medidas provisórias sobre matéria: I - relativa a: a) nacionalidade, cidadania, direitos políticos, partidos políticos e direito eleitoral; b) direi- to penal, processual penal e processual civil; c) organização do Poder Judiciário e do Ministério Público, a carreira e a garantia de seus membros; d) planos plurianuais, diretrizes orçamentárias, orçamento e créditos adicionais e suplementares, ressalvado o previsto no art. 167, § 3º; II - que vise a detenção ou seqüestro de bens, de poupança popular ou qualquer outro ativo financeiro; III - reservada a lei complementar; IV - já disciplinada em projeto de lei aprovado pelo Congresso Nacional e pendente de sanção ou veto do Presidente da República. 109Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia de medida provisória após a sua conversão em lei. 2. A jurisprudência deste Supremo Tribunal admite, em caráter excepcional, a declaração de inconstitucionalidade de medida provisória quando se comprove abuso da competência normativa do Chefe do Executivo, pela ausência dos requisitos constitucionais de relevância e urgência. Na espécie, na exposição de motivos da medida provisória não se demonstrou, de forma suficiente, os requisitos constitucionais de urgência do caso. 3. As medidas provisórias não podem veicular norma que altere espaços territoriais especialmente protegidos, sob pena de ofensa ao art. 225, inc. III, da Constituição da República. 4. As alterações promovidas pela Lei n. 12.678/2012 importaram diminuição da proteção dos ecossistemas abrangidos pelas unidades de conservação por ela atingidas, acarretando ofensa ao princípio da proibição de retrocesso socioambiental, pois atingiram o núcleo essencial do direito fundamental ao meio ambiente ecologicamente equilibrado previsto no art. 225 da Constituição da República. 5. Ação direta de inconstitucionalidade parcialmente conhecida e, nessa parte, julgada procedente, sem pronúncia de nulidade. (ADI 4717, Relator(a): CÁRMEN LÚCIA, Tribunal Pleno, julgado em 05/04/2018, PROCESSO ELETRÔNICO DJe-031 DIVULG 14-02-2019 PUBLIC 15-02-2019) No aspecto relacionado ao não atendimento dos critérios de relevância e urgência, o voto condutor da Ministra Carmen Lúcia indica o posicionamento da Corte admitindo, em caráter excepcional, a sindicância sobre o atendimento dos critérios constitucionais. Ao passo que, ainda que o controle judicial dos critérios seja possível, a verificação da sua existência depende da análise e circunstâncias fáticas do caso concreto,66 sendo que, na hipótese das alterações nas unidades de conservação abrangidas pelo ato, os requisitos não estariam presentes. O 66 O Ministro Luis Roberto Barroso apresentou proposta de fixação de tese sobre esse tema, que abrangeu o seguinte conteúdo: “A minha tese de julgamento é a seguinte: “A supressão ou redu- ção de uma unidade de conservação ambiental, como regra geral, não constituirá providência de urgência capaz de preencher os requisitos do caput do art. 62 da Constituição. É possível, em tese e por exceção, que o Poder Executivo seja capaz de superar o ônus argumentativo da demonstra- ção da urgência. De modo que estou de acordo que não é possível, como regra geral, fazer por medida provisória, embora possa, em tese, imaginar que, se for possível demonstrar urgência, isso será cabível,” p. 77. 110 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal segundo aspecto de relevo no voto relaciona-se com a possibilidade de indicar a presença de limites implícitos à edição de medidas provisórias. O voto condutor ressaltou que mesmo com a inserção de limites no art. 62 da Constituição, por meio da Emenda Constitucional nº 32, não estaria afastada a possibilidade de se reconhecer a existência de outros limites implícitos ao tema. A Jurisprudência do STF é bastante restritiva à hipótese de que haveria vedação à edição de medidas provisórias para os dispositivos nos quais a Constituição exigisse lei em sentido formal. De acordo com a Ministra: Com o advento da Constituição de 1988 e a substituição do decreto-lei pelo instituto da medida provisória, com configuração nova no sistema normativo primário, este Supremo Tribunal firmou jurisprudência segundo a qual a instituição ou majoração de tributos por medida provisória é constitucional. Ao apreciar o Recurso Extraordinário n. 146.733 (Relator Ministro Moreira Alves, Tribunal Pleno, DJ 6.11.1992), o Ministro Moreira Alves ofereceu argumentos que negam a tese sustentada pelo Procurador-Geral da República nestes autos. Acolheu-se a alegação de que a palavra lei, nas normas constitucionais que veiculam garantias fundamentais, sempre significa lei em sentido formal, o que conduziria à inutilização do instituto da medida provisória, pois todas as hipóteses seriam alcançadas pelo art. 5º, inc. II, da Constituição, o qual dispõe que “ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei.”67 Ainda assim, o STF, no caso em julgamento, acolheu o argumento sobre eventual limitação às medidas provisórias que promovam diminuição da proteção ao meio ambiente. O argumento, no caso, está concentrado nos efeitos provisórios do ato e o efeito nocivos que poderiam decorrer do momento de edição até o vencimento do prazo de vigência para a proteção da área, caso não convertida em lei pelo Congresso. Por fim, o argumento que mais merece destaque se refere àquele que trata da ofensa ao princípio do retrocesso socioambiental. Em linhas gerais, o princípio opera uma proteção ao núcleo do direito fundamental efetivado pela legislação ordinária, o que promove um parâmetro mínimo de proteção que não pode ser regredido. 67 ADI nº 4717, p. 23 111Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia O tema está contido na matéria dos limites dos limites68 dos direitos fundamentais. De acordo com a teoria constitucional, a proporcionalidadee razoabilidade operam enquanto limitadores à restrição ao direito fundamental. A proporcionalidade possui dupla acepção e atua tanto na vedação do excesso, quando a regulamentação do direito fundamental impeça a sua fruição pelo cidadão, quanto na vedação à proteção insuficiente ou deficiente, quando o Estado não promove ou promove de forma incompleta a legislação que possibilitará a efetivação do direito fundamental.69 O Estado deve agir de modo a efetivar direitos fundamentais,70 mesmo na acepção coletiva, tendo como parâmetro as proteções ao núcleo de direito por meio da proporcionalidade. A partir da regulamentação, a proibição do retrocesso71 age no sentido de 68 De acordo com Barroso: “Algumas Constituições preveem, como limite à restrição de direitos – i.e., como ‘limite dos limites’, como se refere a doutrina alemã – a preservação do núcleo essen- cial do direito em questão. Não há previsão expressa na Constituição brasileira nesse sentido, mas parece implícito no sistema constitucional que se um direito for restringido na sua essência, ele terá deixado de ser protegido.” BARROSO, 2022, op. cit., p. 208. No mesmo sentido, Mendes: “Cogita-se aqui dos chamados ‘limites dos limites’ (Schranken-Schranken), que balizam a ação do legislador quando restringe direitos individuais. Esses limites, que decorrem da própria Cons- tituição, referem se tanto à necessidade de proteção de um núcleo essencial do direito fundamen- tal quanto à clareza, determinação, generalidade e proporcionalidade das restrições impostas.” MENDES; BRANCO, op. cit., p. 96 69 Importante lição de Barroso: “[...] uma das manifestações do princípio da proporcionalidade consiste na vedação do excesso, como visto acima. Porém, ao lado dos deveres de abstenção e de autocontenção, o Estado também tem deveres de atuação para a defesa e promoção dos direitos fundamentais. Nesses casos, o princípio da proporcionalidade se manifesta sob a forma de ve- dação da proteção deficiente, exigindo do Estado comportamentos mínimos obrigatórios. Em outras palavras: os direitos fundamentais impõem (i) obstáculos à atuação do Estado – hipótese em que a proporcionalidade funciona como régua para medir a constitucionalidade das medidas restritivas ao seu âmbito de proteção; e (ii) deveres de atuação do Estado – situação em que a proporcionalidade opera como medida de fiscalização da omissão ou da atuação deficiente ou insuficiente.” BARROSO, op. cit., p. 209 70 Para Ingo Sarlet e Tiago Fensterseifer: “Assim, cabe ao Estado, por força dos seus deveres de proteção para com os direitos fundamentais, assegurar uma tutela efetiva de tais direitos, especial- mente no que tange - o que assume uma posição de destaque para a esfera dos Direitos Sociais e ambientais - à garantia do mínimo existencial socioambiental, que, nesta perspectiva, atua como uma espécie de garantia do núcleo essencial dos direitos fundamentais, aspecto que será reto- mado mais adiante no contexto da proibição de retrocesso em matéria ambiental.” SARLET, Ingo Wolfgang; FENSTERSEIFER, Tiago. Breves considerações sobre os deveres de proteção do Estado e a garantia da proibição de retrocesso em matéria ambiental. Revista de Direito Ambiental, São Paulo, Vol. 58, p. 41-85, Abr-Jun, 2010. 71 Ainda os autores: “A proibição de retrocesso, de acordo com o entendimento consolidado na doutrina, consiste em um princípio constitucional implícito, tendo como fundamento consti- tucional, entre outros, o princípio do Estado (Democrático e Social) de Direito, o princípio da dignidade da pessoa humana, o princípio da máxima eficácia e efetividade das normas definidoras 112 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal proteger o bloco normativo formado pelo direito fundamental e a regulação decorrente, que passa a se submeter a nova escala de proteção e não pode ser suprimido integralmente. Conforme lição de Ingo Sarlet e Tiago Fensterseifer: Em linhas gerais, portanto, é possível afirmar que a garantia da proibição de retrocesso tem por escopo preservar o bloco normativo - constitucional e infraconstitucional - já construído e consolidado no ordenamento jurídico, especialmente naquilo em que objetiva assegurar a fruição dos direitos fundamentais, impedindo ou assegurando o controle de atos que venham a provocar a supressão ou restrição dos níveis de efetividade vigentes dos direitos fundamentais.72 Em complemento, Patrick Ayala indica a existência de determinado consenso que o princípio define uma margem de reserva não afetada pelas decisões públicas: Na medida em que, para aqueles que sustentam a elaboração do princípio, um mínimo de existência representaria, na verdade, um argumento jusfundamental relevante para manter determinado nível de realização de um direito fundamental, parece possível reconhecer em sua elaboração um sentido pelo qual, apesar de não proibir a reversão, define-se uma margem de reserva que não pode ser afetada pelas decisões públicas de desenvolvimento social, a menos que uma melhor razão jusfundamental seja apresentada.73 No mesmo sentido, Sarlet e Fensterseifer admitem que o princípio não importa em restrição absoluta à alteração da legislação ordinária ou atuação da administração pública.74 Nessa ótica, a análise de legitimidade da medida de direitos fundamentais, o princípio da segurança jurídica e seus desdobramentos, o dever de progressividade em matéria de Direitos Sociais, econômicos, culturais e ambientais, apenas para citar os mais relevantes fundamentos jurídico-constitucionais invocados.” Ibidem. 72 Ibidem. 73 AYALA, Patrick Araújo. Direito Fundamental ao ambiente, mínimo existência ecológico e proibição de retrocesso na ordem constitucional brasileira. Revista dos Tribunais. São Paulo, v. 901, p. 29 -64, Nov., 2010. 74 Para Sarlet e Fensterseifer o princípio atua na limitação dos atos legislativos e na atuação da ad- ministração pública: A proibição de retrocesso, neste contexto, diz respeito mais especificamente 113Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia restritiva se pautará pela fórmula consagrada de verificação da razoabilidade e proporcionalidade, bem como de proteção ao núcleo do direito fundamental: Assim, ganha destaque a já retratada noção de que no campo da edição de atos legislativos e administrativos que afetam o âmbito de proteção dos direitos socioambientais, é preciso ter sempre presente que tanto o legislador quanto o administrador encontram-se vinculados às proibições de excesso e de insuficiência de proteção, portanto, deverão observar as exigências internas da proporcionalidade, quais sejam, da adequação, da necessidade e da proporcionalidade em sentido estrito, bem como da razoabilidade, que aqui não serão objeto de aprofundamento,56 mas que são - juntamente com a segurança jurídica (em especial a proteção da confiança e a tutela dos direitos adquiridos) reconhecidos por expressiva doutrina como indispensáveis também ao controle de medidas restritivas em matéria de direitos socioambientais.75 No mesmo sentido dos fundamentos dogmáticos expostos neste trabalho, a Ministra Carmen Lúcia destacou no voto da ADI nº 4.717 que as alterações nas unidades de conservação parcialmente desafetadas pelos atos ocorreram à revelia do processo legislativo formal ordinário, sem todos os meios inerentes de debate público, resultando em diminuição relevante da proteção ambiental garantida pelas unidades de conservação. Por essa razão, ainda que unidades de conservação possam vir a ser suprimidas, como autoriza a norma constitucional, deve-se observar a necessidade de existência de lei formal, resultante do processo legislativo ordinário, para o qual a sociedade terá ampla possibilidade de debater e garantir que a diminuição da proteção efetivada é justificada pelas razões sociais e culturais contemporâneas à edição do ato. No caso concreto, os efeitos da medida provisória, posteriormente convertida em lei, se tornaram concretos, o queautorizou a alteração das áreas a uma garantia de proteção dos direitos fundamentais (e da própria dignidade da pessoa humana) contra a atuação do legislador, tanto no âmbito constitucional quanto - e de modo especial - infraconstitucional (quando estão em causa medidas legislativas que impliquem supressão ou restrição no plano das garantias e dos níveis de tutela dos direitos já existentes), mas também proteção em face da atuação da administração pública.” SARLET; FENSTERSEIFR, op. cit. 75 Ibidem. 114 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal que estavam anteriormente sob proteção, inclusive com a construção de obras de grande porte nas áreas desafetadas. Por essa razão, o Supremo Tribunal Federal fixou a tese de inconstitucionalidade da medida provisória, contudo, sem a pronúncia de nulidade do ato, mantendo os efeitos da lei resultante. Considerações finais Apesar da importância das unidades de conservação para manutenção do meio ambiente ecologicamente equilibrado, sob os diversos aspectos naturais e sociais, o tema tem recebido tímida atenção da teoria jurídica na fixação de premissas básicas de atuação do Poder Público. Especialmente, no que se refere à criação e extinção das unidades de conservação, boa parte da construção dos entendimentos jurídicos foi erigido pela atuação do Supremo Tribunal Federal, especialmente, no controle dos atos administrativos praticados pelo Presidente da República. O posicionamento da Corte sobre a necessidade de respeito aos critérios procedimentais da Lei do SNUC apresenta alguns contornos relevantes expostos neste capítulo. A determinação de realização de estudos técnicos e consultas públicas possui caráter cogente a todos os entes federados e sua inobservância resulta na nulidade do ato criador de unidade de conservação específica. Entretanto, inexiste ordem específica entre os instrumentos, bem como a lei não determina conteúdo mínimo para os estudos técnicos. Ademais, o Tribunal assentou que as consultas públicas não possuem caráter de plebiscito, não se exigindo a anuência social para a criação da área. O estudo técnico e a consulta pública precisam explicitar com clareza os requisitos materiais para a existência da unidade de conservação. Nesse aspecto, é essencial a indicação da delimitação territorial adequada, as características naturais relevantes que se pretende proteger, bem como as regras de proteção, que conduzirão à escolha da tipologia unidade de conservação específica. O processo de informação adequado terá o condão de minimizar os conflitos que possam decorrer da criação do espaço protegido. A desobediência aos requisitos, por sua vez, autoriza a decretação da nulidade do ato criador ou até mesmo o exercício da autotutela administrativa, que estaria limitada, apenas, pela decadência e pelo fato consumado. Paralelamente, no que se refere ao ato oficial de criação da unidade de conservação, que exige um pronunciamento inequívoco sobre a instituição do espaço, defendemos que o ato criador seja praticado exclusivamente pelo Executivo. 115Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia O STF manifestou em diferentes oportunidades sobre a possibilidade ampla de atos do Poder Público, especialmente o ato administrativo e a lei, criarem unidades de conservação. Entretanto, entendemos pela inexistência de manifestação específica do Tribunal sobre a vedação de atuação do legislativo para criar unidades de conservação de forma autônoma, ou seja, sem o projeto iniciado pelo Executivo. Conforme opinamos, o Legislativo dificilmente cumpriria de forma adequada os requisitos da Lei do SNUC, por ser estruturados como atividade administrativa típica, bem como imporia um ônus não planejado de implantação e gestão de unidade de conservação ao Executivo, com risco de se criar graves transtornos sociais, resultando na falta de efetivação da devida proteção ambiental. Por fim, expusemos o que se tornou a maior contribuição do STF ao tema. Em atuação memorável da Ministra Carmen Lúcia, a corte definiu sobre a impossibilidade da extinção de unidades de conservação por medidas provisórias. Em linhas gerais, o caráter provisório do instrumento pode resultar em grave prejuízos ao meio ambiente, caso o ato não seja referendado pelo Legislativo, bem como há nítida supressão do processo legislativo ordinário, como meios e oportunidades adequadas de participação popular, o que se revela um limite implícito à edição de medidas provisórias e violação do princípio da vedação ao retrocesso ambiental. Referências ANTUNES, Paulo de Bessa. Direito Ambiental. 22 ed. São Paulo: Grupo Gen, 2021. AYALA, Patrick Araújo. Direito Fundamental ao ambiente, mínimo existência ecológico e proibição de retrocesso na ordem constitucional brasileira. Revista dos Tribunais, São Paulo, Vol. 901, p. 29 -64, Nov., 2010. BARROSO, Luis Roberto. A Proteção do Meio Ambiente na Constituição Brasileira. Revista de Direito Constitucional e Internacional, São Paulo, Vol. 1, p. 1001- 1037, Out – Dez, 1992. BARROSO, Luís Roberto. 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São Paulo: Saraiva, 2022. 117Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Extensão da Responsabilidade Civil por dano ao meio ambiente no Brasil: a questão da imprescritibilidade José Alfredo de Oliveira Baracho Júnior1 Introdução Desde a promulgação da Lein. 6.938, de 31 de agosto de 1981, o Brasil adotou alguns institutos jurídicos de proteção ao meio ambiente e combate à poluição consentâneos com os estabelecidos pelos Estados pioneiros na conformação de políticas nacionais de meio ambiente. A prevenção ao dano ambiental e a responsabilidade civil, administrativa e penal pelos danos causados estão entre os institutos mais relevantes, ambos previstos na mencionada Lei brasileira. No que tange à responsabilidade civil, a Lei 6.938/81 instituiu a responsabilidade objetiva e solidária, gravando com expressivo rigor as ações degradadoras, o que naturalmente não impede divergências sobre as possíveis excludentes de responsabilidade, ou mesmo sobre a medida da corrente de responsáveis diretos e indiretos pelo dano. As excludentes são definidas pelo fundamento da responsabilidade objetiva, podendo estar alicerçado nas teorias do risco integral, do risco administrativo, do risco proveito ou do risco criado. Por certo, a teria do risco integral reduz significativamente as excludentes, ao passo que as demais são mais flexíveis quanto a fatores externos, objetivos ou subjetivos, passíveis de atenuar a responsabilidade civil. As divergências quanto aos responsáveis diretos e indiretos são igualmente vivas. Quanto à responsabilidade direta, como estabelecer objetivamente a co-responsabilidade? No caso da responsabilidade indireta, seriam responsáveis os fornecedores de bens ou serviços que municiaram o causador direto do dano? São temas complexos, objeto de vasto estudo doutrinário e aplicação diversificada na jurisprudência pátria. 1 José Alfredo de Oliveira Baracho Júnior. Mestre e Doutor em Direito Constitucional pela UFMG. Master of Law pela Harvard Law School. Professor do Programa de Pós-graduação em Direito da PUC Minas. Advogado. 6 118 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal De todo modo, são divergências inerentes às sociedades complexas, precisamente as que tornaram possível a destruição massiva de ecossistemas terrestres. Tema de igual relevância para determinar a extensão da responsabilidade civil por dano ao meio ambiente no Brasil foi objeto de inúmeras controvérsias, e diz respeito à imprescritibilidade. Identificamos nessa seara três correntes, a dos que defenderam a aplicação da vintena prescricional prevista no Código Civil, os que sustentaram a prescrição quinquenal prevista na Lei 4.717 de 29 de junho de 1965 (Lei da Ação Popular), com aplicação supletiva à Lei 7.347, de 24 de julho de 1985 (Lei da Ação Civil Pública), matéria inclusive assim decidida pelo Superior Tribunal de Justiça, e, por fim, há os que defendem a imprescritibilidade da responsabilidade civil por dano ao meio ambiente, entendimento que recebeu o endosso do Supremo Tribunal Federal no julgamento do Recurso Extraordinário n. 654.833 – Acre, o qual teve reconhecida a repercussão geral (Tema 999) e afirmou a tese segundo a qual “É imprescritível a pretensão de reparação civil de dano ambiental.” O rigor com que, em tese, o Direito brasileiro tem disciplinado a responsabilidade por dano ambiental é notável, porém, a imprescritibilidade, como acentua a própria decisão do STF, coloca em pauta a segurança jurídica, pois impede à consolidação do substrato fático um termo fatal, tornando perenes potenciais controvérsias jurídicas nessa matéria. Sem dúvida é necessário severidade no tratamento das ações e omissões lesivas ao meio ambiente, contudo, devemos observar dois aspectos: que as ciências da natureza não são exatas quanto aos impactos das ações humanas sobre o meio ambiente, e por isso mesmo sustentam a precaução como indispensável à boa gestão ambiental; que a expressão meio ambiente tem em si o elemento antrópico, o ser humano é parte do meio ambiente e também como tal é merecedor de proteção. O propósito do presente artigo é analisar essa importante decisão do Supremo Tribunal Federal no amplo espectro esboçado acima, o que fazemos almejando contribuir para a permanência discussão da matéria, não obstante, os efeitos vinculantes do decisum estudado. Afinal, nem mesmo no sistema jurídico anglo-americano as decisões judiciais são imodificáveis. No desenvolvimento de nossa contribuição, analisaremos o acórdão supra mencionado sob três perspectivas: a análise da decisão sob o paradigma do 119Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Estado Democrático de Direito; a imprescritibilidade como tema estranho aos autos até o pronunciamento do Superior Tribunal de Justiça; a segurança jurídica, em tese afetada pela imprescritibilidade, e o papel democrático do Supremo Tribunal Federal. Breve escorço paradigmático O Direito Ambiental é uma das melhores expressões da transformação do Direito identificada sob o paradigma do Estado Democrático de Direito.2 Nas sociedades complexas, o Estado perde a centralidade da esfera pública conquistada nas condições prevalentes sob o paradigma do Estado de Direito Social. E um dos motivos para essa mudança reside na condição do próprio Estado como degradador do meio ambiente, tanto através de ações e omissões diretas – empresas públicas poluidoras, obras públicas degradadoras, escassez de medidas reparadoras – quanto indiretas – tolerância e mesmo incentivo a ações privadas lesivas ao meio ambiente. A defesa da qualidade ambiental foi reconhecida à coletividade, conforme consta do artigo 225 da nossa Constituição. É uma incumbência tanto do Estado quanto da coletividade, em outros termos, um dever inserido em uma esfera pública transformada. Essa transformação da esfera pública tem como uma de suas implicações a flexibilização da hierarquia entre público e privado, ordem essa característica do Estado de Direito Social, no qual, por definição, o público é invariavelmente superior ao privado, em particular o público especificamente estatal. No Estado Democrático de Direito estão postos o interesse público, o interesse coletivo e o interesse privado como igualmente primordiais. Nesse ponto, é necessário esclarecer que o interesse privado a que nos referimos não é o da propriedade absoluta como no paradigma do Estado de Direito Liberal, e tampouco o da propriedade que atenda apenas à função social, abordamos o interesse privado na propriedade que cumpre uma função sócio-ambiental, em outros termos, a proteção de espaços particulares relevantes para o meio ambiente, mormente quando sustentáveis, sendo ou não produtivos, bem como o controle das empresas sobre a geração de poluição. A decisão do Supremo 2 A esse respeito indicamos o estudo mais profunda que fizemos no livro Responsabilidade civil por dano ao meio ambiente. Belo Horizonte: Del Rey, 1999. 120 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Tribunal Federal analisada parte da hierarquia entre o direito coletivo (ou difuso, como preferem alguns autores) ao meio ambiente ecologicamente equilibrado sobre qualquer outro direito ou interesse, estatal ou privado. O ministro Alexandre de Moraes enfrentou a tensão entre o interesse coletivo (ou difuso) e o privado, a começar pela formulação da seguinte pergunta: Nesse contexto, a questão posta nos autos é saber se deve prevalecer o princípio da segurança jurídica, que beneficia o autor do dano ambiental diante da inércia do Poder Público; ou se devem prevalecer os princípios constitucionais de proteção, preservação e reparação do meio ambiente, que beneficiam toda a coletividade. A resposta por ele oferecida não deixa dúvidas quando à imutabilidade de uma relação hierárquica entre o interesse público e o interesse privado: Nessa linha, conclui-se que a existência de direitos fundamentais individuais não tem o condão de afastar a supremacia do interesse público no que se refere à conservação de um meio ambiente ecologicamente equilibrado e sadio à qualidade de vida. Não afastamos a hipótese de que, para o caso, a conclusão possa estar bastante adequada, porém, como foi reconhecida arepercussão geral e afirmada a tese da imprescritibilidade da pretensão de reparação civil do dano ambiental, as particularidades do caso julgado perdem relevância, o Supremo exarou uma norma jurídica nova, inexistente na Constituição ou nas leis brasileiras, o que reconhece o próprio relator: Assim, embora a Constituição e as normas infraconstitucionais não disponham acerca do prazo prescricional para a reparação de danos civis ambientais, bem como que a regra seja a estipulação de prazo para pretensão ressarcitória, “força reconhecer a existência de direitos imprescritíveis. Assim, não se sujeitam a limite de tempo, não se extinguem pela prescrição (...) os direitos que constituem diretas irradiações da personalidade humana, como a vida [...] 121Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Embora o trecho doutrinário não se refira de modo específico à imprescritibilidade da pretensão de reparação do dano ao meio ambiente, ele tampouco respalda a imprescritibilidade nascida da jurisprudência, conforme vai concluir a corte. A regra da imprescritibilidade é apresentada aqui como uma emanação; na expressão doutrinária, “diretas irradiações da personalidade humana como a vida.” A tese de direitos imanentes sofreu diversas objeções em séculos passados, e se considerarmos a relação do ser humano com a natureza, essa tese tem pouca sustentação. Em A condição humana,3 Hannah Arendt distingue o cosmos, o planeta Terra e a natureza, criações divinas sob o ponto de vista religioso, fruto da interação de inúmeros acasos sob o ponto de vista do evolucionismo, do mundo, a autora toma o mundo como uma criação eminentemente humana, o que promove a diferenciação dos humanos em relação aos seres estritamente naturais. A relação do humano com a natureza é uma relação permeada pela violência, somente agindo de forma hostil o homem é capaz de dominar parcialmente a natureza, com vistas à construção dos objetos permanentes que constituem o mundo. Esse ponto de vista indica a dificuldade, talvez definitiva, em estabelecer uma relação harmônica entre a natureza e o mundo, instâncias antagônicas em seus fundamentos. Isso não descredencia o empenho humano em impedir o esgotamento de ecossistemas terrestres, a saúde e o bem-estar – não falo aqui da vida, ideia constantemente barateada nos discursos jurídicos, exceção feita aos debates sobre o aborto e a pena de morte -, o empenho humano em reequilibrar ecossistemas é meritório e necessário à nossa saúde e bem-estar. O problema é ocultar o caráter conflitivo da relação entre o humano e a natureza sob o manto de ideias míticas, a incolumidade de Gaia vilipendiada pelos erros humanos ao edificar o mundo sobre seu solo. Tomar a proteção do meio ambiente como um direito absoluto, que justifica toda subjugação de outros direitos, ainda que fundamentais, é o reflexo da facilidade com que ideias vagas, até míticas, podem ser irrefletidamente adotadas no campo conflituoso que deve ser o do Direito. Outro aspecto, conexo e igualmente relevante, é a concepção de meio ambiente subjacente à decisão judicial em apreço. O direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, 3 ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989. 122 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal segundo os fundamentos do acórdão, está acima de qualquer outro direito, devido ao grau extremo de degradação verificado nas últimas décadas. Mas o que vem a ser o meio ambiente ecologicamente equilibrado? A ciência oscila quanto a isso; e ainda, falou-se de um equilíbrio antropocêntrico ou que tenha como centro o fim da hierarquia entre os seres vivos? Em estudo publicado anteriormente,4 apresentamos as seguintes ponderações: Por outro lado, a própria relação utilitarista foi posta em xeque por grupos sociais, políticos e científicos, causando a cisão entre o ambientalismo antropocentrista, de viés utilitarista, e o ecocentrista, este propagador de uma nova ética que resulte na quebra de hierarquia entre os seres vivos. A depender da vinculação epistemológica, as bases da responsabilidade por dano ao meio ambiente serão mais ou menos severas, os utilitaristas relativizando-as e os defensores de uma nova ética aprofundando-as. O desenvolvimento veloz de teorias sobre os direitos subjetivos dos animais e das plantas demonstra a possibilidade de pensarmos normas jurídicas que não têm o humano como seu fim. Entretanto, quando a ação humana envolve o extermínio de alguma espécie natural designada nocivo à saúde do homem, há potencialmente um desequilíbrio a ser resolvido pela instituição de uma ordem hierárquica, o meio ambiente cede à espécie humana; ou o antropocentrismo deve ceder face à isonomia entre os seres vivos? Lembremos, nem todos os fatores naturais prejudiciais à saúde e ao bem-estar nasceram da degradação do planeta, muitos estão conosco há séculos ou milênios. Não somos os únicos responsáveis pela fragilidade da nossa condição na Terra. Parece-nos razoável concluir que tomar a hierarquia plena entre o direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado sobre outros direitos fundamentais, como razão exclusiva para instituir uma nova regra civil e processual, é reduzir acentuadamente a qualidade da argumentação sobre matéria sobejamente delicada. Ressaltamos mais uma vez, a primorosa narrativa dos fatos feita pelo 4 BARACHO JÚNIOR, José Alfredo de O. A responsabilidade por dano ao meio ambiente no Direito Comparado. In: AZEVEDO, Marcelo e MALTA, Bruno. Direito Ambiental em perspectiva. Belo Horizonet: D´Plácido, 2020, p. 47 a 64. 123Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia ministro Alexandre de Moraes conduz a sólidas conclusões pela condenação civil dos responsáveis pelo dano, contudo, estamos abordando a repercussão geral e a fixação da tese sobre a imprescritibilidade, o que evidentemente ultrapassa os limites das especificidades do caso. Da controvérsia sob julgamento A excelente narrativa do substrato fático e processual propiciada pelo relator nos permite constatar que a imprescritibilidade não integrou os argumentos de qualquer dos partícipes do processo, seja na instância originária, seja no Tribunal Regional Federal da 1ª Região. A discussão naquelas instâncias ateve-se à aplicação da prescrição estabelecida no Código Civil, vinte anos, e a prevista na Lei da Ação Popular, aplica segundo a interpretação jurisprudencial à Lei da Ação Civil Pública, cinco anos. O artigo 141 do Código de Processo Civil proíbe ao juiz conhecer questões não suscitadas, a cujo respeito a lei exija iniciativa da parte. O artigo 264, por sua vez, proíbe a modificação do pedido ou da causa de pedir após a citação inicial. A inserção da imprescritibilidade no julgamento realizado pelo Superior Tribunal de Justiça aparentemente não atendeu aos dispositivos acima. Se isso é verdade, o reconhecimento da repercussão geral sobre a imprescritibilidade não poderia ocorrer, dado que a matéria era estranha ao objeto da causa nas duas primeiras instâncias. Ainda mais surpreendente foi constatar, pela leitura do acórdão do Supremo Tribunal Federal, que a decisão sobre a imprescritibilidade era totalmente desnecessária à solução da controvérsia. Preliminarmente, os recorrentes sustentam que houve violação ao princípio da reformatio in pejus. Asseveram que o Superior Tribunal de Justiça alterou o prazo prescricional de 20 (vinte) anos, adotado pelo Tribunal Regional Federal da 1a Região, para declarar a imprescritibilidade da reparação dos danos ambientais, a despeito de ter havido recurso apenas dos réus. Não assiste razão aos recorrentes. O STJ não agravou a situação dos demandados, uma vez que manteve a conclusão da instância anterior. 124 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Embora a imprescritibilidade parecia mais gravosa, a rigor, a aplicação do prazo prescricional de 20 anos conduz ao mesmo resultado no caso concreto. Assim,não há que se falar em reformatio in pejus. A condenação à reparação civil por danos ao meio ambiente, que reputamos acertada ao caso, seria o resultado do julgamento, ainda que não fosse cogitada a tese da imprescritibilidade. Temos, portanto, dois problemas sensíveis: a imprescritibilidade foi decidida sem que constituísse objeto da demanda em primeira e segunda instâncias, e o resultado do julgamento seria o mesmo, no Superior Tribunal de Justiça e no Supremo Tribunal Federal, caso a repercussão geral não fosse reconhecida e a tese da imprescritibilidade não fosse afirmada. Muito tem sido debatido no Brasil as decisões judiciais, especialmente do Supremo Tribunal Federal, que, em tese, ultrapassam os limites impostos à jurisdição pela separação de poderes. Elival da Silva Ramos foi um dos pioneiros no estudo da matéria, assimilando do Direito estadunidense a expressão ativismo judicial.5 Em estudo sobre o denominado ativismo judicial no Supremo Tribunal Federal, apresentamos as seguintes considerações. Diversos são os modos de reação ao ativismo judicial. Alguns têm uma conotação preponderantemente política e não se ocupam das dificuldades em se realizar a jurisdição nas sociedades complexas. Outras reconhecem que os limites entre uma jurisdição não-ativista e uma ativista nem sempre são limites de todo evidentes. Por tal razão, uma teorização sobre o ativismo merece análises mais profundas e críticas.6 Os limites que o Estado de Direito Liberal estabeleceu para o exercício das funções legislativa, executiva e jurisdicional foram problematizados no século XIX, e definitivamente não são apropriados ao constitucionalismo dos séculos 5 RAMOS, Elival da Silva. Ativismo Judicial. Parâmetros Dogmáticos. São Paulo: Saraiva, 2010 6 BARACHO JÚNIOR, José Alfredo de O. Jurisdição constitucional no Supremo Tribunal federal e ativismo judicial. In: RIBEIRO, Patrícia H. e outros (org.) 25 anos da Constituição brasileira de 1988: democracia e direitos fundamentais no Estado Democrático de Direito. 125Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia XX e XXI. O princípio continua vital ao Estado de direito e à democracia, contudo, sem a exatidão estrita então possível nas organizações políticas dos séculos XVII, XVIII e primeira metade do século XIX. As funções do Poder Legislativo não se limitam à edição de normas gerais e abstratas, compreendendo também diversas atribuições fiscalizadoras dos demais poderes, o Poder Executivo não se restringe à edição ex officio de normas individuais e concretas com o fim de aplicar as leis e promulga normas gerais e abstratas com força de lei, e o Poder Judiciário não apenas decide sobre casos concretos, mas também profere decisões com efeitos erga omnes, o que era originariamente próprio das leis. A jurisdição transformou-se não apenas no aspecto funcional, mas também se tornou no século XX uma jurisdição de massas, o acesso ao Poder Judiciário foi feito mais amplo não apenas a indivíduos como também a coletividades, resultando no que é denominado por alguns cientistas políticos e sociais como” judicialização da política,”7 bem como no fenômeno correspondente, nomeado “tribunalização do legislativo.” Nesse contexto, nem sempre é fácil identificar o que significa uma invasão da autoridade judiciária nas funções do Legislativo e do Executivo, e por isso a reflexão sobre o “ativismo judicial” deve ser cuidadosa. Não é possível estabelecer um catálogo das decisões que avançam além do que é especificamente jurisdicional, o momento em que o Direito confiou seus alicerces às codificações é há muito passado, e serão sempre controversas as decisões judiciais que inovam na ordem jurídica, controvertidas no sentido de compreendê-las como decisões que apenas conferem novas interpretações ao Direito estabelecido, ou decisões que instituem um novo Direito e, por consequência, comprometam o exercício das funções próprias dos poderes políticos. A contrário senso, é preciso ainda considerar que a construção da ordem jurídica a partir das decisões judiciais não é estranha à experiência jurídica ocidental, e ainda que os sistemas romano-germânico e anglo-americano tenham distâncias históricas importantes, esse afastamento tornou-se cada vez menor nos séculos XX e XXI, e o intercâmbio intelectual entre as duas experiências 7 VIANNA, Luiz Werneck. Judicialização da política e das relações sociais no Brasil.Rio de Janeiro: Revan, 1999. 126 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal acentua-se a cada ano. Em suma, não queremos construir nosso argumento em bases canônicas, consideramos plausível e legítimo o nascimento do Direito pela atuação do Poder Judiciário. Contudo, essa origem não pode ser corriqueira, e é precisamente a alta frequência e a diversidade de matérias contempladas em inovações judiciais que torna também perturbadora a instituição da imprescritibilidade da pretensão de reparação civil por dano ao meio ambiente. Cass Sunstein8 oferece uma abordagem minuciosa sobre os problemas da amplitude e da profundidade das decisões judiciais. O autor reconhece igualmente a complexidade do exercício da jurisdição na sociedade atual, mas, ao mesmo tempo identifica meios através dos quais a jurisdição pode ser, internamente, mais consistente, ao mesmo tempo, em que, externamente, propicia uma extensão compatível à atividade jurisdicional. Dentre diversos ônus que podem advir do exercício da jurisdição, Sunstein se preocupa com o custo das decisões judiciais, custos pensados sob duas perspectivas: o custo para a autoridade judiciária do Estado e o custo econômico para o poder público e para a sociedade. Uma decisão judicial inadequada coloca em xeque a autoridade do Poder Judiciário, comprometendo sua força simbólica e a sustentabilidade de decisões futuras. Do mesmo modo, algumas decisões do Poder Judiciário podem ter alto custo econômico, seja para o Estado na consecução de algumas destas decisões, seja para o mercado ao sofrer seus impactos sobre as atividades seus agentes desempenham. A democracia exige forte separação entre as deliberações jurisdicionais e as deliberações políticas. Temas morais e temas políticos são mais bem trabalhados pelas instâncias políticas, sendo que o custo de revisão de deliberações pelas instâncias políticas é normalmente menor do que o custo de revisão de decisões da mesma natureza pelo Poder Judiciário. Neste particular, ressaltamos que o forte ônus advindo de uma determinação extrema, e com efeito erga omnes, como a imprescritibilidade da pretensão civil reparatória por dano ao meio ambiente, poderá acarretar dificuldades no julgamento de demandas futuras, quando os elementos concretos do caso a ser decidido apontarem a inadequação da aplicação da tese fixada pelo Supremo Tribunal Federal. Sunstein entende que o custo de decisões judiciais é menor quando estas decisões são proferidas 8 SUNSTEIN, Cass R. One case at a time. Judicial minimalism on the Supreme Court. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1999. 127Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia por cortes inferiores. Já os precedentes da Suprema Corte – no caso brasileiro, os do Supremo Tribunal Federal com efeitos gerais e vinculantes - podem gerar, em razão de seu caráter nacional, um custo bastante alto, tanto sob o ponto de vista da autoridade judiciária quanto sob o ponto de vista econômico. É impossível manter afastadas do Poder Judiciário algumas matérias de ordem moral e política, não obstante, é melhor que estas matérias sejam decididas primeiramente por cortes inferiores. Isso permite que a discussão sobre a matéria seja amadurecida e sua eventual apreciação pelas cortes superiores esteja precedida por reflexões que potencializam uma decisão mais correta ou razoável, o que também diminui os custos da decisão. Segundo Sunstein, as decisões judiciais podem ser classificadas em amplas, restritas, profundas ou superficiais. Essas quatro categoriaspodem ser conjugadas de modo que uma decisão pode ser ampla e profunda ou ampla e superficial bem como restrita e profunda ou restrita e superficial. A amplitude e a profundidade da decisão influenciam de modo mais acentuado seus custos, tanto o custo para a autoridade quanto o custo econômico. O autor em análise acredita que uma decisão correta ou razoável pode conjugar todas essas categorias. Brown v. Board of Education, que ele entende como uma decisão correta quanto ao exercício da autoridade judiciária, é uma decisão classificada como ampla e profunda, com alto custo econômico. Não obstante, o autor entende ser uma decisão que necessitava destas características. Já outras decisões são amplas e superficiais, como Roe v. Wade, igualmente com custos muito altos, tanto para a autoridade da Suprema Corte quanto para os sistemas de saúde dos Estados federados. Deliberar apenas sobre o aborto em caso de violência contra a mulher, como o caso requeria, ou seja, uma decisão restrita e superficial ou restrita e profunda, teria reduzido todos os tipos de custo envolvidos. A tese firmada pelo Supremo Tribunal Federal no Recurso Extraordinário em comento, a de imprescritibilidade da pretensão civil reparatória pelo dano ambiental, é ampla e superficial. A amplitude advém da repercussão geral e da afirmação da tese oriunda do Tema 999. A superficialidade resulta do emprego de um método limitado, o da hierarquização de direitos, produto da hierarquização de valores. Como dissemos antes, a decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal é apropriada ao caso concreto, a riqueza analítica do voto proferido pelo ministro relator revela tal 128 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal adequação, efetivamente a responsabilização deveria ser aplicada aos infratores, inclusive com a magnitude dos montantes impostos em primeira e segunda instâncias. Esse grau de assertividade seria alcançado pelo cotejo dos fatos e sua subsunção à Constituição e à Lei, dispensando debates sobre a hierarquia entre direitos coletivos – ou difusos – e direitos individuais, um tema árido, são muitos os argumentos a serem considerados, e por isso suscetível à indeterminação. Em outros termos, e empregando os conceitos de Sunstein, uma decisão que evitasse sugestões para incursões mais arrojadas no significado da responsabilidade por dano ao meio ambiente, contornando assim a organização hierárquica entre direitos, ou seja, uma decisão superficial, e que não afirmasse uma tese, ou seja, uma decisão restrita ao caso sob julgamento, teria sido uma decisão com alto grau de acerto e baixos custos institucionais e econômicos. Falamos, portanto, da decisão do apelo extremo sem a repercussão geral, o que significaria afastar a força vinculante para os demais órgãos do Poder Judiciário, estando o acórdão apto a ser invocado pela força de seus fundamentos e da autoridade da corte, não pela coerção às demais instâncias, nascida do Tema 999. Nessa hipótese, a controvérsia inerente à imprescritibilidade, inerente porque a segurança jurídica é inevitavelmente afetada por uma tal determinação, essa controvérsia não sombrearia a autoridade do Supremo Tribunal Federal, que está sujeito a deparar-se com dezenas ou centenas de decisões proferidas por tribunais inferiores afastando, in casu, a tese da imprescritibilidade, o que, inclusive, pode ocorrer sob excelentes fundamentos. Além do custo para a autoridade do Supremo Tribunal Federal, não podemos esquecer do custo econômico, a imprescritibilidade autoriza medidas judiciais ilimitadas no tempo, possibilita acionar o causador do dano e a seus sucessores indefinidamente, há uma potencial multiplicação de ações reparatórias cíveis com impacto tanto sobre o custo do aparelho judiciário quanto sobre o mercado, negócios são paralisados em virtude da incerteza quanto ao valor do passivo ambiental constituído ao longo do tempo. A afirmação da tese de imprescritibilidade e a democracia A democracia, afirmada como estrutura política ou norma constitucional, é amparada por atributos essenciais, merecendo citação no presente artigo a realização de eleições periódicas e o controle judicial da Constituição. Os representantes eleitos ao Poder Legislativo têm como competência precípua 129Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia criar o direito através das leis, devendo preventivamente observar o preceituado na Constituição. Ao Poder Judiciário, em particular ao Supremo Tribunal Federal, cabe precipuamente a guarda da Constituição, razão pela qual a jurisdição constitucional constitui sua função mais relevante, cabendo-lhe julgar a compatibilidade das leis com a Constituição, quando assim lhe for demandado. As inovações à ordem jurídica, nesse sentido, é atribuição dos representantes eleitos e mandatários da outorga popular, ao passo que aos juízes constitucionais cabe preservar a ordem posta, atuando, se necessário, como legislador negativo, ou seja, nulificando leis ou atos normativos contrários à constituição. A decisão proferida pelo Supremo Tribunal Federal no Recurso Extraordinário n. 654.833 – Acre não invalidou qualquer ato do Poder Legislativo, certamente não podendo ser caracterizada como jurisdição constitucional em sentido estrito. Por outro lado, o acórdão sequer busca adstringir-se à interpretação do artigo 225 da Constituição, ao contrário, textualmente afirma que essa matéria não está inscrita na Constituição ou em qualquer lei. O que justificaria uma atuação inovadora como essa por parte do Poder Judiciário, que atribuição teria sido outorgada ao Supremo Tribunal Federal conferindo-lhe a prerrogativa de instaurar na ordem brasileira um instituto jurídico sem norma anterior que o definisse? Encontramos também no Direito estadunidense teorias jurídicas justificadoras de interferências incisivas do Poder Judiciário na esfera política, a inação dos órgãos do Poder Legislativo em dadas circunstâncias, autorizando decisões judiciais com estrutura de norma geral, abstrata e inovadora. Um dos livros que melhor expõe justificativas para atividades dessa ordem no âmbito do Poder Judiciário é o de John Hart Ely9, o qual pesquisa em particular a Corte presidida por Earl Warren (1953 a 1969). Ely refuta afirmativas no sentido de que a Corte presidida por Warren tenha ultrapassado os limites impostos pela separação de poderes. Em sua opinião a Suprema Corte, em especial ao decidir questões acerca da segregação racial, atuou no sentido de retirar barreiras ao melhor transcurso do processo democrático. Para esse autor, a Corte de Warren atuou no sentido de remover estas barreiras em cenários 9 ELY, John H. Democracy and Distrust. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1980. 130 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal nos quais os “poderes políticos,” Executivo e Legislativo, foram incapazes de agir. Neste sentido, a Suprema Corte não estaria invadindo atribuições de outro poder, mas tão somente assegurando que o jogo democrático, que deve fundamentar a elaboração das leis e as políticas públicas, pudesse se desenvolver com a participação minimamente igualitária de todos os grupos e indivíduos. Ely defende que a Suprema Corte deve agir como um árbitro, ou seja, seu principal papel é permitir a liberdade de atuação dos agentes da democracia, autoridades, partidos políticos, grupos sociais ou indivíduos, não cabendo ao Judiciário determinar como deve ser jogado o certame democrático, mas tão somente possibilitar que ele aconteça sem a desqualificação imotivada de qualquer ator. Ainda que as noções de ativismo no Direito norte-americano comportem certa dose de ambivalência e controvérsia, no final da década de 1960, em especial após a eleição do Presidente Richard Nixon, teve início um processo de restrição às ações da Suprema Corte em matérias que pudessem ser tidas como política ou moralmente controvertidas, o que de fato significou uma reação ao período emque a Corte foi presidida por Earl Warren. Houve a nomeação de um novo Chief Justice, Warren Buger, bem como de juízes com trajetória profissional mais conservadora, com destaque para Harry Blackmun, nomeado em 1970. Há textos no Direito brasileiro que defendem protagonismo similar para o Supremo Tribunal Federal, o ministro Luís Roberto Barroso10 é um dos autores mais ilustrativos dessa tendência; destarte, caberia ao STF substituir o legislador naquelas matérias sensíveis, que poderiam promover o avanço da democracia e da sociedade brasileiras. Sobre as duas perspectivas, a perspectiva arbitral de John Hart Ely e a perspectiva iluminista de Luís Roberto Barroso, ressalvas devem ser feitas. O aspecto mais frágil do ótimo trabalho de John Hart Ely é pressupor a incolumidade da Suprema Corte a determinantes políticos. Naturalmente a Corte deve ao máximo isentar-se das disputas político-partidárias, mas excluí-la do elenco de atores instáveis que dão vida à democracia é mitificar a sua condição na dinâmica estadunidense. 10 Dentre outros textos, merecem destaque: BARROSO, Luís Roberto. Neoconstitucionalis- mo e constitucionalização do direito: o triunfo tardio do Direito Constitucional no Brasil. In: Revista da Procuradoria Geral do Estado. São Paulo, v. 63, n. 49, p. 1-49, jan./dez/ 2006; BARROSO, Luís Roberto, Judicialização, ativismo judicial e legitimidade democrática. Dispo- nível em: <http://www.direitofranca.br/direitonovo/FKCEimagens/file/ArtigoBarroso_para_ Selecao.pdf>. Acesso em 26/09/2022. 131Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Por outro lado, uma teoria do direito fundada no iluminismo é não apenas anacrônica – restaura ambições mortas desde o século XIX -, como também arbitrária, os membros do Supremo Tribunal Federal não representam a vontade popular, e nem devem representar, precisam estar ao máximo afastados das disputas político-partidárias, e nesse sentido não é cabível outorgar-lhe o monopólio de qualquer transformação estrutural ou política que seja, por mais qualificados os membros que a compõem. Em suma, não nos parece adequado reconhecer a um órgão do Poder Judiciário inovação como a imprescritibilidade da pretensão civil de reparação por dano ao meio ambiente, seja porque não estamos diante de uma decisão constitucional interpretativa de dispositivo da Constituição ou das leis, seja porque não se trata de jurisdição constitucional em sentido estrito, ou seja, não se trata de julgar uma lei ou ato normativo exarado por outra autoridade, mas exclusivamente da criação de norma jurídica antes inexistente. Mesmo se, em tese, defendermos essa imprescritibilidade como a que deve vigorar no Direito brasileiro, o que é inclusive minha própria inclinação, é duvidoso que essa restrição à segurança jurídica deva brotar de uma decisão judicial, com efeito vinculante. Considerações finais A relação do ser humano com a natureza é invariavelmente conflituosa, a construção do mundo e sua perpetuação é a vocação que o homem melhor afirmou dede a pré-história, e nesse sentido é insustentável raciocinar a partir de uma hierarquização entre interesses humanos, individuais ou coletivos, e a preservação do meio ambiente. As duas dimensões são igualmente primordiais, e por isso mesmo a segurança jurídica não pode ser afastada peremptoriamente sob o argumento de que não deve obstaculizar a pretensão civil de reparação do dano ambiental. Não há antagonismo entre as duas dimensões, mas interdependência. Ainda que possamos consagrar a imprescritibilidade como o instituto a ser estabelecido no Brasil, o meio correto para tal é a atividade legislativa, é papel da lei inovar na ordem jurídica, senão de forma monopolística, ao menos principal. A especialização dos órgãos do Estado em funções como legislar, executar e julgar é basilar à democracia, e a confusão no exercício dessas funções um campo fértil para o arbítrio. A tese afirmada pelo Supremo Tribunal Federal no Recurso Extraordinário n. 654.833 – Acre padece ainda de um problema processual, 132 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal não foi objeto das decisões proferidas em primeira e segunda instância, sequer constituiu a controvérsia entre as partes, a qual se ateve à aplicação da vintena prescricional do Código Civil e o quinquênio prescricional da Ação Popular aplicada à Ação Civil Pública. A imprescritibilidade era estranha ao processo, foi inserida pelo Superior Tribunal de Justiça e amplificada pelo Supremo Tribunal Federal quando reconheceu a repercussão geral. Há, portanto, defeitos da decisão sob o ponto de vista do devido processo legal e da lei processual civil. Por fim, ainda que os limites entre as atividades legislativa, executiva e jurisdicional sejam bem mais imprecisos do que nos séculos XVIII e XIX, a indiferenciação de funções e órgãos apenas fomenta o arbítrio e compromete o Estado Democrático de Direito. Referências ARENDT, Hannah. A condição humana. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1989. BARACHO JÚNIOR, José Alfredo de O. Jurisdição constitucional no Supremo Tribunal federal e ativismo judicial. In: RIBEIRO, Patrícia H. e outros (org.) 25 anos da Constituição brasileira de 1988: democracia e direitos fundamentais no Estado Democrático de Direito. Belo Horizonte: D´Plácido, 2014. BARACHO JÚNIOR, José Alfredo de O. A responsabilidade por dano ao meio am- biente no Direito Comparado. In: AZEVEDO, Marcelo e MALTA, Bruno. Direito Ambiental em perspectiva. Belo Horizonet: D´Plácido, 2020, p. 47 a 64. BARACHO JÚNIOR, Responsabilidade civil por dano ao meio ambiente. Belo Horizonte: Del Rey, 1999. BARROSO, Luís Roberto. Neoconstitucionalismo e constitucionalização do direito: o triunfo tardio do Direito Constitucional no Brasil. In: Revista da Procuradoria Geral do Estado. São Paulo, v. 63, n. 49, p. 1-49, jan./dez/ 2006. BARROSO, Luís Roberto. Judicialização, ativismo judicial e legitimidade democrática. Disponível em: <http://www.direitofranca.br/direitonovo/ FKCEimagens/file/ArtigoBarroso_para_Selecao.pdf.> Acesso em 26/09/2022. ELY, John H. Democracy and Distrust. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1980. RAMOS, Elival da Silva. Ativismo Judicial. Parâmetros Dogmáticos. São Paulo: Saraiva, 2010. SUNSTEIN, Cass R. One case at a time. Judicial minimalism on the Supreme Court. Cambridge, MA: Harvard University Press, 1999. VIANNA, Luiz Werneck. Judicialização da política e das relações sociais no Brasil. Rio de Janeiro: Revan, 1999. 133Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Governança Ambiental: A Agenda Climática e a Pauta Verde do STF Natascha Trennepohl1 Isabelle Carvalho Gonçalves2 Laura Bianchini Leite3 Introdução Governança é um conceito que pode assumir muitas interpretações e ter diversos atores envolvidos. Como bem explorado por Arts4, para muitos, o termo se refere a uma mudança de paradigma na forma como sociedades e organizações são governadas, passando por um processo de relocação da política, desterritorialização e difusão do poder.5 Aqui, a governança está intimamente ligada aos processos decisórios em todos os níveis e como tais decisões são implementadas. Tem-se governança como: [...] a soma das muitas maneiras pelas quais indivíduos e instituições, públicas e privadas, gerenciam seus assuntos comuns. Trata-se de um processo contínuo através do qual interesses conflitantes ou diversos podem ser 1 Natascha Trennepohl. Natascha Trennepohl. Doutora pela Humboldt-Universität zu Berlin (Alemanha), Mestre pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e Sócia no escritório Trennepohl Advogados, em São Paulo. 2 Isabelle Carvalho Gonçalves. Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e Advogada no escritório Trennepohl Advogados, em São Paulo. 3 Laura Bianchini Leite. Bacharel em Direito pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e Advogada no escritório Trennepohl Advogados, em São Paulo. 4O autor destaca as diferenças entre “velha governança” com direcionamentos top-down, de comando e controle para a “nova governança” partindo de iniciativas público-privadas à autorre- gulação. ARTS, Bas. Non-state Actors in Global Environmental Governance: new arrangements beyond the State. In: KOENIG-ARCHIBUGI, M.; ZÜRN, Michael. New Modes of Gover- nance in the Global System. Palgrave Macmillam, November 2005, p. 178. 5 De acordo com Arts, a relocação da política é percebida com o deslocamento de ações do Estado para as organizações internacionais; a desterritorialização a partir do surgimento de novos espaços políticos e a difusão do poder com a divisão entre atores públicos e privados. ARTS, 2005, p. 178. 7 134 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal acomodados e ações cooperativas podem ser tomadas. Inclui instituições formais e regimes habilitados a impor o cumprimento, bem como arranjos informais que as pessoas e as instituições concordaram ou percebem ser de seu interesse.6 Na seara ambiental, a governança engloba os processos e as instituições através dos quais diferentes atores estatais e não estatais estão organizados e participando das decisões relacionadas ao meio ambiente.7 Dessa forma, a governança ambiental pode ser percebida a partir da perspectiva de responsabilidade, empoderamento e participação pública ao se analisar quem possui o poder de tomar decisões que impactam comunidades e ecossistemas. Ao tratar do tema e questionar-se “Quem decide o destino dos ecossistemas? Quem administra a natureza? A Terra não tem CEO e nem Conselho de Administração,” o relatório do WRI sobre governança ambiental destaca que a gestão do planeta é um trabalho coletivo e em grande parte descoordenado e que a governança ambiental pode fazer a diferença entre o sucesso e o fracasso na gestão de ecossistemas e implementação de políticas ambientais.8 No contexto atual, a governança ambiental passa a ser encarada como um sistema com a participação cada vez maior de diversos stakeholders visando prevenir, mitigar e se adaptar às mudanças globais e ambientais dentro do contexto de desenvolvimento sustentável.9 Assim, frente aos desafios trazidos pelas mudanças climáticas, a tomada de decisões precisa considerar diversas visões, incluindo atores estatais e não estatais, para alcançar resultados positivos. Ademais, como destacado por 6 Tradução Livre. Our Global Neighborhood. Report of the Commission on Global Gov- ernance. Cap. 1, 1995. 7 ADAMS, Cristina. et. al. Governança Ambiental no Brasil: acelerando em direção aos Objeti- vos do Desenvolvimento Sustentável ou olhando pelo retrovisor? In: Cadernos Gestão Pública e Cidadania. São Paulo, v. 25, n. 81, 2020, p. 2. 8 WRI. Environmental Governance: Whose Voice? Whose Choice? World Resources Insti- tute 2002-2004. p. 14-15. 9 Para um estudo mais detalhado sobre governança ambiental e as transformações sociais, vide BIERMANN, Frank. et. al. Earth system governance: people, places, and the planet. Science and implementation plan of the earth system governance project. ESG Report No. 1. Bonn, IHDP: The Earth System Governance Project, 2009. 135Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Wolkmer & Paulitsch, “sob o pálio da judicialização das políticas ambientais, tem-se como legítima a atuação do Poder Judiciário, especialmente quando observada a omissão estatal no combate da degradação ambiental,” tendo-se, inclusive, uma atuação cada vez mais presente na análise das questões que afetam a qualidade do meio ambiente para as futuras gerações.10 Sendo assim, o presente artigo aborda a chamada Pauta Verde do Supremo Tribunal Federal, focando especialmente na Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 760 e a sua correlação com a governança ambiental e o combate ao desmatamento, bem como o potencial dos incentivos para a conservação florestal e a geração de créditos de carbono. A Pauta Verde no Supremo Tribunal Federal No primeiro semestre de 2022 foram iniciados os julgamentos da chamada “Pauta Verde” ou “Pacote Verde” pelo Supremo Tribunal Federal. Ao todo, foram reunidas sete ações constitucionais a serem analisadas e julgadas pelos Ministros da Corte. O pacote de ações faz parte de uma iniciativa do Poder Judiciário em dar andamento a causas ambientais que se encontravam estagnadas e que, considerando a importância e relevância da temática, deveriam ser direcionadas a uma decisão. Em resumo, a Pauta Verde é formada pelas seguintes ações: a) Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) nº 760, abordada no presente artigo; b) ADPF nº 735, que trata da autonomia do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e Energias Renováveis (IBAMA) para fiscalizar os crimes ambientais, retirada por meio de decreto presidencial que a transfere para as Forças Armadas do Brasil, por meio da Operação Verde Brasil; c) ADPF nº 651, que trata do decreto que exclui a sociedade civil do conselho deliberativo do Fundo Nacional do Meio Ambiente, por considerá-lo inconstitucional; d) Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão (ADO) nº 54, que alega omissão do Governo Federal no combate ao desmatamento, em razão do descumprimento da meta estipulada na Política Nacional de Mudança do Clima (Lei Federal nº 12.187/2009). 10 WOLKMER, Maria; PAULITSCH, Nicole. O Estado de Direito Socioambiental e a Gover- nança Ambiental: Ponderações Acerca da Judicialização das Políticas Públicas Ambientais e da Atuação do Poder Judiciário. Novos Estudos Jurídicos, 18 (2), 2013, p. 264. 136 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Além das ações destacadas, também compõem a Pauta Verde a: e) Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) nº 6.148, em que é questionada a Resolução CONAMA nº 491/2018, a qual estabelece padrões de qualidade do ar sem impor prazos para cumprimento; f) ADI nº 6.808, em que se questiona a Medida Provisória nº 1.040/2021 (já convertida na Lei Federal nº 14.195/2021), a qual permite que licença ambiental seja concedida automaticamente para empresas com risco de grau médio, de modo que os órgãos licenciadores ficam impedidos de solicitar informações além daquelas prestadas por meio da Rede Nacional para Simplificação do Registro e da Legalização de Empresas e Negócios; g) ADO nº 59, a qual alega omissão da União quanto à gestão do Fundo Amazônia que teria sido paralisado e não teria repassado valores para o financiamento de ações de preservação da Amazônia Legal. Destaque-se que a maioria das ações constitucionais citadas acima têm a Ministra Cármen Lúcia como relatora, com exceção para a ADO nº 59 que possui relatoria da Ministra Rosa Weber. Percebe-se que a temática ambiental se mostra cada vez mais importante e em evolução no Brasil, considerando não apenas o atual julgamento das ações pelo STF, mas também a escolha do Poder Judiciário em “unir” a pauta, dando maior visibilidade à temática. Essa tendência de judicialização e maior destaque às questões ambientais vêm sendo muito debatida internacionalmente e no Brasil, considerando os graves riscos que a sociedade vem observando nas últimas décadas causadas pelas mudanças climáticas e danos ambientais que repercutem ao redor do mundo. A preservação do meio ambiente passa a ter maior enfoque pelas diferentes estruturas de governança do país, tendo o judiciário papel importante no desenvolvimento do que se tem visto como “litigância climática.” Neste sentido: A litigância climática visa impulsionar ações de controle e diminuição da emissão antropogênica de gases de efeito estufa, e demais medidas de contenção às mudanças climáticas. Pela via jurisdicional, os atores públicos e privados (nacionais e internacionais) que emitem (ou permitem) significativamente esses gases poluentes seriam responsabilizados e/ou constrangidos a adotarem comportamentos mais ativos para o alcance do compromisso global de redução do efeito estufa.11 11 CARVALHO, Délton Winterde; BARBOSA, Kelly de Souza. Litigância climática como es- tratégia jurisdicional ao aquecimento global antropogênico e mudanças climáticas. Revista de 137Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Vale ressaltar que é importante que a litigância climática esteja vinculada a políticas públicas que instrumentalizam ações que irão construir as proposições climáticas do país. Dessa forma, portanto, o sistema de governança climática deve ser delineado para superar possíveis falhas regulatórias internacionais, aumentando assim a segurança jurídica por meio de políticas internas que tragam soluções reais. Neste ponto, a litigância se mostra necessária por permitir discussões e impulsionar a elaboração de um arcabouço legal necessário e que atenda a urgência pela qual deve existir. O que já se vêm observando com a instituição da Pauta Verde. A ADPF 760 e o Combate ao Desmatamento Idealizada, inicialmente, por organizações de terceiro setor, com a participação e apoio de sete partidos políticos, a ADPF 760 requer a execução efetiva do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAm). A ADPF 760 cobra a efetividade do PPCDAm e que o Plano seja executado de modo o possibilitar que o Brasil cumpra as metas climáticas que foram assumidas em acordos internacionais. O pedido inicial12 foi dividido em tópicos, dentre eles: 1) a essencialidade da Amazônia para os preceitos fundamentais objeto da ADPF; 2) Amazônia desprotegida: atos omissivos e comissivos voltados à inexecução da política pública de combate ao desmatamento na Amazônia Legal: omissão estatal generalizada e atuação estatal insuficiente e contrária à ordem constitucional; 3) lesão a preceitos fundamentais: direitos fundamentais violados por atuação estatal contrária ao cumprimento de deveres fundamentais; 4) da necessária determinação judicial para a execução efetiva do PPCDAm e a cessação das lesões a preceitos fundamentais.13 Direito Internacional, Brasília, v. 16, n. 2, 2019, p. 63. 12 BRASIL.Supremo tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental nº 760. Tribunal Pleno. Relator: Min. Cármen Lúcia. Brasília, DF, 11 nov. 2020. Petição inicial. 13 GUIMARÃES, Bianca Azedo. As estratégias dos atores nas ações climáticas de omissão 138 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Os argumentos jurídicos utilizados na petição inicial versam, principalmente, sobre a atuação estatal com referência à redução da fiscalização e controle ambientais; atos omissivos e comissivos destinados a inviabilizar a implementação do PPCDAm, com a inexecução do orçamento disponível e congelamento do financiamento da política pública; a Inexecução orçamentária no Ministério do Meio Ambiente; atos omissivos e comissivos destinados a inviabilizar a atuação de agências reguladoras; a Paralisação do Fundo Amazônia, cuja finalidade principal é a garantia de implementação do PPCDAm; atos omissivos e comissivos atentatórios aos direitos fundamentais à informação e à participação em matéria ambiental, bem como a outros preceitos como a violação do Direito fundamental das presentes e futuras gerações ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, à vida, à dignidade da pessoa humana e à saúde, dos povos indígenas às suas terras tradicionais.14 A Amazônia, como maior bloco de vegetação tropical remanescente do mundo, possui relevância per se, o que contribui ativamente para a ADPF, atualmente, ser considerada memoriosa. Isso porque, representa uma das mais significativas ações apresentadas sobre a temática no STF e visa combater, em síntese, o desmatamento na Amazônia Legal. O desmatamento, bem como a degradação florestal são atividades que emitem gases de efeito estufa (GEE), que contribuem ativamente para a mudança do clima.15 Ademais, além de contribuir para o efeito estufa, o desmatamento gera diversos outros impactos socioambientais negativos, em contraponto com a conservação e recuperação de florestas, que trazem benefícios para a mitigação e adaptação à mudança climática, frente a seus efeitos adversos. Desse modo, a ADPF possui seu enfoque notadamente na retomada das contribuições assumidas pelo Brasil em relação ao combate às mudanças climáticas. Para que isso se concretize a ação exige a redução do desmatamento na Amazônia ao patamar de 3.925 km² até 2021, o que já deveria ter ocorrido em 2020, como previsto na Política Nacional sobre Mudança do Clima.16 da união frente ao Supremo Tribunal Federal. Escola de Formação da Sociedade Brasileira de Direito Público – SBDP, Manaus, 2021, p. 66. 14 BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamen- tal nº 760. Tribunal Pleno. Relator: Min. Cármen Lúcia. Brasília, DF, 11 nov. 2020. Petição inicial, p.14. 15 BRASIL. Ministério do Meio Ambiente. Redd+ Brasil. Fundo Amazônia, 2017. Recuperado de< http://redd.mma.gov.br.> Acesso em: 29 out. 2022. 16 CONECTAS. ADPF 760: a retomada de plano de combate ao desmatamento. 139Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Para que as diversas exigências da ADPF sejam concretizadas, é essencial o seguimento do Plano de Ação para Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal, criado em 2004 e mecanismo essencial para o controle efetivo do desmatamento e para que as iniciativas de impacto positivo possam receber apoio do Fundo Amazônia. O PPCDAm foi estruturado para enfrentar o desmatamento de forma abrangente, integrada e intensiva. Como destacou o Relatório da Comissão de Meio Ambiente do Senado Federal feito em 2019 e intitulado como “Avaliação da Política Nacional sobre Mudança do Clima.”17 Quinze anos após sua criação, o PPCDAm constitui o principal e mais relevante marco institucional brasileiro no que se refere ao conhecimento da dinâmica do desmatamento na Amazônia, identificação de suas causas e consequências, bem como de proposição e implementação de políticas de enfrentamento do problema. [...] O sucesso alcançado na redução do desmatamento da floresta amazônica atraiu a atenção da comunidade internacional e conduziu o País a posição de referência mundial no combate ao desmatamento e de líder global na redução de emissões de gases de efeito estufa (GEE). Em termos de redução de emissões de CO2, entre 2006 e 2015 somente o PPCDAm contribuiu com quase 4 bilhões de toneladas de CO2 a menos na atmosfera, o correspondente ao valor total de emissões brutas do Brasil em 2017 e 2018 somados (dados do SEEG). Nesse ínterim, em abril de 2022, a Ministra Cármen Lúcia concluiu seu voto histórico18 dentro do lema de que “as fronteiras são criadas pelo homem, mas a natureza não as conhece.” Assim, a Ministra votou pela criação de um plano específico com medidas a serem adotadas para a retomada de atividades de controle da fiscalização ambiental e combate de crimes no ecossistema, com o resguardo dos direitos dos povos indígenas. Isso porque, para ela, a atual política pública ambiental se mostrou insuficiente e ineficiente diante do comprovado aumento das queimadas e do 17 Senado Federal. Avaliação da Política Nacional sobre Mudança do Clima: Relatório Con- solidado. 2019, p. 112-114. 18 O julgamento foi suspenso por pedido de vista do ministro André Mendonça. 140 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal desmatamento na Amazônia Legal de 2019 a 2021, contribuindo ativamente para uma conjuntura de ofensa massiva, sistemática e generalizada aos direitos fundamentais ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, à saúde e à vida digna. Em relação ao PPCDAm, a Ministra Relatora reconhece sua paralisação e alega em seu voto que verificou que o Governo Federal, de forma não expressa, realizou o seu desmonte, tornando inoperante a execução das políticas públicas de combate ao desmatamento, o que deveria ser taxativamente proibido de acordo com o princípio da vedação de retrocesso, como garantidor das conquistas ambientais. Ainda para a Ministra,é evidente a caracterização de retrocesso ambiental, o que é inadmissível do ponto de vista constitucional. Isso, fundamentado na diminuição de ações ambientais, do abandono do PPCDam e da inexecução orçamentária, promovendo um ambiente de redução de recursos para projetos ambientais, de desregulamentação e de falta de fornecimento de informações.19 Diante da intrínseca relação entre desmatamento e mudanças climáticas, a ADPF 760 e o voto da Ministra Cármen Lúcia contribuem para o avanço das questões relacionadas com as mudanças climáticas. O papel de instrumentos jurídicos que possibilitem esse alcance se mostra primordial na construção de uma efetiva governança ambiental. Isso pois, de acordo com Fensterseifer: [...] o Direito não pode silenciar. O Direito, e especialmente a teoria dos direitos fundamentais, já que esses tomam a forma da dimensão jurídica mais próxima do plano existencial humano, não pode recusar respostas à situação de risco existencial delineado no horizonte contemporâneo. Nesse contexto de riscos e incertezas, cumpre ao Direito, a fim de restabelecer o equilíbrio e a segurança nas relações sociais (agora socioambientais) a missão de insurgir-se contra essas novas ameaças que fragilizam e colocam em risco a ordem de valores e princípios fundamentais da nossa sociedade, firmando o seu compromisso existencial para com o presente, bem como para com o futuro humano e 19 STF. Desmatamento: ministra Cármen Lúcia vota por exigir plano da União para fiscalização ambiental. 141Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia mesmo a vida em termos gerais. Nesse contexto, percebe- se o importante papel da Pauta Verde na promoção da governança ambiental e no desenvolvimento das bases para a litigância climática no país. A Preservação Florestal e o Mercado de Carbono Quando se fala em preservação do meio ambiente, é necessário expandir o seu significado e considerar as intersecções de tal ação – a preservação – com diversos setores da sociedade para, assim, concluir que, dada a sua importância e magnitude, preservar as florestas, por exemplo, se trata de um ato para muito além de manter árvores estocando carbono e produzindo o oxigênio. A preservação da Floresta Amazônica deve estar ancorada não apenas na atualidade, mas também no futuro, uma concepção que a própria Constituição Federal, em seu artigo 225, apresenta e que está refletida na Política Nacional do Meio Ambiente, na Política Nacional de Mudanças Climáticas, no Código Florestal e em diversos outros textos legais. Dentre tantos temas importantes em razão da interseccionalidade com a “preservação do meio ambiente,” considerando-se especialmente a preservação da floresta em pé, o mercado de carbono vem ganhando cada vez mais destaque e importância, com estimativas de grande potencial, podendo chegar a até U$120 bilhões de dólares.20 Alguns países, inclusive, possuem mercados regulados e bem estruturados, como é o caso da União Europeia e o seu Sistema de Comércio de Emissões (European Union Trading Emissions Scheme). No sistema, as instalações/setores participantes possuem limites de emissão de gases de efeito estufa (GEE). Dessa forma, há o comércio de permissões de emissões entre os participantes do sistema, bem como a possibilidade de compensação, por meio do uso de créditos de carbono, quando as reduções internas ou as permissões recebidas/adquiridas não forem suficientes. Nos mercados voluntários, por sua vez, os limites de emissão ou metas de redução de emissões não são estabelecidos por uma autoridade regulatória. 20 ICC BRASIL; Way CARBON. Oportunidades para o Brasil em Mercado de Carbono. 2022, p. 35. 142 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal As empresas definem em seus planejamentos estratégicos as suas metas e podem comprar créditos de carbono para compensar emissões que não foram reduzidas através de práticas internas. Considerando o perfil de emissão de GEE do Brasil, o desmatamento na Amazônia é um dos grandes geradores de emissões de gases de efeito estufa, pois o imenso estoque de carbono que a floresta mantém, é liberado com as queimadas e supressão da vegetação.21 Já existem alguns programas de incentivo para o reflorestamento, como a política de Redução das Emissões de Gases de Efeito Estufa Provenientes do Desmatamento e da Degradação Florestal, Conservação dos Estoques de Carbono Florestal, Manejo Sustentável de Florestas e Aumento de Estoques de Carbono Florestal (REDD+). O REDD+ foi uma ferramenta criada com base em uma proposta apresentada pelo Instituto de Pesquisa da Amazônia (IPAM) no ano de 2003 durante a COP-9, em Milão, na Itália. Foi apresentada uma sugestão para que fosse considerado, por parte dos signatários da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC), um mecanismo de compensação aos países em desenvolvimento, por meio de políticas de redução do desmatamento. No entanto, a proposta apenas ganhou força em 2005, na COP11 em Montreal, no Canadá, onde a discussão caminhou no sentido de que fosse feita uma colaboração entre países, para que o crescimento econômico estivesse aliado ao manejo sustentável, e para que fosse revista a decisão, no âmbito do Protocolo de Quioto, de excluir do mercado de carbono as reduções de emissões por desmatamento.22 A legislação brasileira prevê a possibilidade de projetos REDD+ no país por meio da Política Nacional de Mudança do Clima (Lei Federal nº 12.187/2009), visto que um de seus objetivos é a: [...] consolidação e à expansão das áreas legalmente protegidas e ao incentivo aos reflorestamentos e à recomposição da cobertura vegetal em áreas degradadas”23, além de prever a utilização de “medidas fiscais e tributárias 21 SEEG. Observatório do Clima. Desafios e Oportunidades para Redução das Emissões de Metano no Brasil. 2022, p. 6. 22 CUNHA, Tiago Ferreira. O papel do direito na implementação de projetos de. PSE/ REDD+. 2015. 201p. Mestrado – Faculdade de Direito, Universidade de São. São Paulo, 2015., p. 77. 23 Art. 4º, inciso VII, da Lei nº 12.187/2009. 143Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia destinadas a estimular a redução das emissões e remoção de gases de efeito estufa, incluindo alíquotas diferenciadas, isenções, compensações e incentivos, a serem estabelecidos em lei específica.24 Após alguns anos, foi estabelecida pelo Ministério do Meio Ambiente a Estratégia Nacional para REDD+ (ENREDD+),25 formalizando assim a política. Em 2015 foi criada a Comissão Nacional para REDD+ por meio do Decreto nº 8.576/2015, substituído pelo Decreto nº 10.144/2019, passando a existir a previsão para pagamentos por resultados de REDD+. A Comissão publicou no ano de 2020 a Resolução CONAREDD+ nº 3/2020, reconhecendo o mercado voluntário de carbono florestal, passando a prever a união entre o seu funcionamento e os instrumentos jurídicos nacionais e subnacionais. Além disso, em 2021 foi publicada uma nova Resolução,26 adotando como indicadores da fase piloto as Salvaguardas de REDD+ do Brasil, representando um conjunto de iniciativas que devem ser apoiadas para o bom funcionamento desta ferramenta de combate à emissão de gases de efeito estufa e de preservação do meio ambiente. Recentemente, o REDD+ ganhou força com a publicação do Programa Nacional de Pagamentos por Serviços Ambientais,27 que foi instituído pela Portaria nº 288/2020, implementando o projeto-piloto chamado “Floresta+,” na Amazônia Legal, permitindo que os recursos sejam obtidos por meio de resultados de REDD+.28 O programa Floresta+ criou consigo vertentes, como o Floresta+ Carbono que, de acordo com Nota Técnica29 do Ministério do Meio Ambiente, tem como objetivo a manutenção dos estoques de carbono que resultam da conservação e recuperação das florestas nativas, sendo que: [...] o que se comercializa nesse mercado não é o carbono como um produto ou ativo, mas sim os serviços de 24 Art. 6º, inciso VI, da Lei nº 12.187/2009.25 Portaria nº 370/2015. 26 Resolução CONAREDD+ nº 04/2021. 27 Ademais, a Política Nacional de Pagamento por Serviços Ambientais foi instituída pela Lei 14.119/2021. 28 Art. 5o, inciso IX, da Portaria no 288/2020. 29 Ministério do Meio Ambiente. Nota Técnica nº 379/2021. 144 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal proteção, monitoramento, vigilância ambiental, combate a incêndios e recuperação que resultam em captura e estocagem, evitando emissões de gases de efeito estufa (GEE) na atmosfera. O crédito de carbono é usado como um indicador de desempenho e performance dos projetos. Vale ressaltar que a maior parte dos projetos REDD+ se localizam na região Norte do Brasil com 71,4% dos créditos de Agricultura, Floresta e Uso do Solo, considerando o ano de 2021.30 Pode-se concluir que a preservação do meio ambiente amazônico pode gerar inúmeros benefícios para a sociedade, considerando não apenas àqueles que se traduzem em melhores condições climáticas e de saúde e bem-estar da população, como também na possibilidade de que os proprietários dessas terras possam converter a conservação destes ambientes em rentabilidade, que pode ser aplicada não apenas na manutenção de suas atividades, como também em projetos sociais locais. Para o desenvolvimento do mercado de carbono será necessária transparência e credibilidade dos projetos de carbono, que poderão permitir uma segurança maior na compra dos créditos, considerando a sua efetividade e resultados ao meio ambiente. A f im de garantir transparência e credibilidade, é essencial que a governança ambiental seja fortalecida e promovida. Os cenários de alta governança, consideram o equilíbrio ambiental em busca de um desenvolvimento sustentável, no qual ocorre a adoção de políticas de restauração da vegetação nativa e demais atividades em compliance com a legislação em vigor. Assim, atualmente, tem-se a redução do desmatamento como um dos principais desafios31 da governança ambiental na Amazônia brasileira.32 Mostra-se necessário, desse modo, a implantação de medidas que contribuem e que podem se desenvolver através do apoio a programas de crédito através de serviços de extensão rural para produtores envolvidos em 30 ICC BRASI. Oportunidades para o Brasil em Mercado de Carbono, p. 29. 31 IPEA. Desafios para o desenvolvimento brasileiro. Brasília: Ipea, 2011. 32 MEDINA, Gabriel. Governança Local para Manejo Florestal na Amazônia. Revista Brasilei- ra de Ciências Sociais, v. 27, nº 78, p. 66–191, fev. 2012. 145Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia produção sustentável,33 incentivos a políticas de pagamentos por serviços ambientais, promoção de mecanismos como o REDD+,34 iniciativas passíveis de geração de crédito de carbono e para o desenvolvimento de efetiva governança ambiental. Nesse contexto, a litigância climática também surge como um mecanismo alternativo de governança para enfrentar as mudanças climáticas ao se apresentar como uma estratégia para estabelecer a responsabilidade de proteger e responsabilizar os culpados pelos danos ao ambiente e ao clima.35 O papel da Pauta Verde diante do enfrentamento global das mudanças do clima é considerável e pode se mostrar, inclusive, como um instrumento capaz de auxiliar o Brasil a alcançar suas metas de redução de emissão de GEE. Considerações finais Percebe-se que a transversalidade e interligação dos temas socioambientais previstos na Pauta Verde, em especial na ADPF 760, correlacionam-se diretamente com a tendência mundial de expansão da governança ambiental e dos litígios que versam sobre questões climáticas. Sob a ótica da preservação do meio ambiente e das garantias sociais, o combate ao desmatamento ilegal e a geração de valor na conservação da floresta em pé pode trazer benefícios não apenas para bem-estar da sociedade, mas também ser fonte de incentivos financeiros. O alcance e a repercussão da Pauta Verde podem representar um movimento relevante do Poder Judiciário, cada dia mais aberto às pautas ambientais, possibilitando uma expansão do alcance da governança ambiental e do desenvolvimento de litígios relacionados com questões climáticas no país. 33 NEPSTAD, D. et al. Inhibition of Amazon deforestation and fire by parks and indigenous lands. Conservation Biology, v. 20, n. 1, p. 65–73, 2006. 34 MOUTINHO, P. et al. REDD in Brazil: A focus on the Amazon. Principles, criteria, and institutional structures for a national program for Reducing Emissions from Deforestation and Forest Degradation – REDD, 2013. 35 AVERILL, Marilyn. Climate Litigation: Ethical Implications and Societal Impacts. Denver Law Review. v. 85, 2008, p. 906. Disponível em: <https://digitalcommons.du.edu/cgi/viewcon- tent.cgi?article=1471&context=dlr.> Acesso em: 29 out.10 2022. 146 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Referências ADAMS, Cristina. et. al. Governança Ambiental no Brasil: acelerando em direção aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável ou olhando pelo retrovisor? In: Cadernos Gestão Pública e Cidadania. São Paulo, v. 25, n. 81, 2020 AVERILL, Marilyn. Climate Litigation: Ethical Implications and Societal Impacts. Denver Law Review. V. 85, 2008, p. 906. 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A Constituição Federal de 1988, instituindo assegurou direitos e garantias individuais fundamentais, inovando na questão da previsão de direitos sociais, difusos e coletivos.3 Além disso, o novel texto constitucional, afastando-se dos anteriores, alçou a probidade pública ao patamar de direito fundamental do cidadão, trazendo à baila os princípios e regras norteadores da administração pública.4 Nele, há realce às sanções pela prática de atos de improbidade administrativa, à imprescritibilidade do ressarcimento do dano ao patrimônio público e à extensão das consequências político-penais aos agentes públicos ímprobos. Assim, a atuação ministerial expandiu-se não se restringindo apenas para a seara criminal. 1Terence Trennepohl. Advogado. Pós Doutor pela Universidade de Harvard. 2 Anna Karina Omena. Promotora de Justiça no Estado da Bahia. Coordenadora do Centro de Apoio Operacional da Criança e do Adolescente – CAOCA. 3 ALVARES Rocha Lira, V. N., & Alencar Bolwerk, A, 2022, p. 2 4 A CF de 1824 dispunha que o Imperador era inviolável, contudo, o Ministro de Estado poderia ser responsabilizado. Já a CF/1891 previu crime de responsabilidade de atos do Presidente da República que atentassem contra a guarda e emprego constitucional de dinheiros públicos e de improbidade administrativa, no art. 54. A responsabilização do Chefe do Poder Executivo foi replicada nas Constituições seguintes de 1934 (art. 57), 1937 (art. 85, d), 1946 (art. 89, V e VII) e 1967 (art. 84, V). 8 150 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Em seguida à abertura política e conforme diretrizes da Magna Carta, foi promulgada a Lei Federal nº 8.429, em 1992 (Lei de Improbidade), aperfeiçoando- se o regime de responsabilização dos agentes públicos e particulares envolvidos em atos de corrupção, nas esferas administrativa e cível, à medida que ampliou o rol de condutas contrárias à probidade pública – desde a violação de princípios administrativos até o enriquecimento ilícito. Somam-se à Lei de Improbidade outros diplomas normativos voltados à defesa do patrimônio e moralidade públicos, como a Lei nº 12.846/13 - que regula a responsabilização objetiva, administrativa e civil, das pessoas jurídicas pela prática de atos contra a Administração Pública, por isso denominada de lei anticorrupção empresarial, e a Lei nº 12.850/13, que define organização criminosa e dispõe sobre os meios de obtenção de prova para persecução penal, com primazia para a colaboração premiada. Cite-se também a Lei das Inelegibilidades (Lei Complementar nº 64/90), a Lei de Licitações (nº 8.666/93), a Lei de Lavagem de Dinheiro (nº 9.613/98) e a Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar nº 101/00). Nesse contexto, também é possível destacar o tratamento dispensando pelo Constituinte ao Ministério Público que, no atual modelo, é órgão constitucional autônomo que não se confunde com os demais poderes (Executivo, Legislativo e Judiciário), e pode livremente coexistir e interagir, com independência funcional de seus membros no exercício de suas atribuições, com vistas à defesa da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses sociais e individuais indisponíveis, com destaque para a proteção do patrimônio público (artigos 127 e 129, III, da CF/88). Destaque-se também a atuação do Ministério Público na Lei de Improbidade, haja vista sua indispensável presença nas ações judiciais (ou negócios consensuais) dela, decorrentes, seja no polo ativo, seja como fiscal da lei. Não obstante o arcabouço normativo anticorrupção que se formou em mais de três décadas e do fortalecimento do Ministério Público como principal instituição encarregada de concretizá-lo, os resultados obtidos no combate à corrupção ainda são insatisfatórios para efetiva proteção do patrimônio público e eficiência nos serviços prestados pelo Estado, máxime em razão dos problemas que circundam as ações judiciais voltadas ao ressarcimento do dano ao erário e à responsabilização dos agentes ímprobos, como a dificuldade de prova, o 151Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia assoberbamento e a morosidade do Judiciário e o extenso leque de recursos dirigidos aos Tribunais. E não foram poucos os esforços na busca da melhoria da eficiência do combate à corrupção pelos Poderes da República, a exemplo das Metas concebidas, desde o ano de 2009, pelo Conselho Nacional de Justiça e direcionadas a todas as unidades judicantes do país, para o aumento da produtividade judicial e celeridade na tramitação do feito, sem descuidar do fomento às soluções alternativas de conflitos. Em 2013, pela primeira vez, surge a Meta 18, especificamente voltada ao julgamento das ações de improbidade e ações penais relacionadas com os crimes contra a administração pública. A questão envolvendo o trâmite longevo de processos relacionados à improbidade administrativa atinge também outras esferas, tais como cível, criminal e ambiental. De acordo com o último Relatório das Metas Nacionais do CNJ (2022), publicado em dezembro de 2021, para servirem como metas para o ano 2022, vê-se como metas identificar e julgar até 31/12/2022: a) Superior Tribunal de Justiça: pelo menos, 99% dos processosdistribuídos até 31/12/2017 e 95% dos distribuídos em 2018, b) Justiça Estadual: pelo menos, 80% dos processos distribuídos até 31/12/2018 no 1º grau, 80% dos processos distribuídos até 31/12/2019 no 2º grau, e 90% dos processos distribuídos até 31/12/2019 nos Juizados Especiais e Turmas Recursais e c) Justiça Federal: No 1º e 2º graus, 100% dos processos distribuídos até 31/12/2017 e 85% dos processos distribuídos em 2018; e d) nos Juizados Especiais Federais e nas Turmas Recursais, 100% dos processos distribuídos até 31/12/2019.5 A Carta de Brasília,6 apontou como principal obstáculo de acesso do cidadão à Justiça o acúmulo de processos judiciais pendentes de solução, que ultrapassou, em 2020, pouco mais de 75 milhões. Naquele ano, quase 26 milhões de processos novos deram entrada no sistema. Desse total, quase 28 mil processos foram baixados e os Tribunais de Justiça encerraram o ano com 25 milhões de sentenças e decisões proferidas. 5 METAS NACIONAIS 2022, aprovadas no 15º Entro do Poder Judiciário. Dispnível em <https://www.cnj.jus.br/wp-content/uploads/2022/01/metas-nacionais-aprovadas-no-15o- enpj.pdf.> Acesso em: 26 set. 2022. 6 A carta de Brasília é um acordo de resultados firmado entre a Corregedoria Nacional e as Corregedorias das unidades do Ministério Público. O documento, aprovado durante o 7º Congresso Brasileiro de Gestão, em setembro de 2016.<https://www.cnmp.mp.br/portal/ images/Carta_de_Bras%C3%ADlia-2.pdf.> 152 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Diante desses números, é possível perceber que a capacidade de solução da judicialização se iguala, praticamente, à quantidade de novos processos. De outro modo, a equação demonstra que a capacidade de solução judicial frente ao total de processos tramitando é de apenas 25%. Nesse cenário, tornou-se imperativo que a atuação do Ministério Público, não se resuma aos procedimentos judiciais pouco céleres, como forma de atender, nos dizeres de Álvares Rocha Lira e Alencar Bolwerk: A novos valores de uma sociedade ávida pela execução do espírito democrático, desempenhando, desse modo, as relevantes atribuições de órgão de transformação social, continuando a ser útil e legitimado por essa sociedade – priorizando a adoção de outro perfil (não abandonando de tudo o perfil clássico/demandista) fincado na iniciativa proativa e na resolução dos conflitos, controvérsias e problemas sociais (resolutividade), sem a necessidade de ajuizamento de demandas, mas que pacificasse e restaurasse o convívio social com respeito aos direitos humanos, representando um meio de acesso à justiça ampliado (2022). Exsurgem, assim, ferramentas de justiça consensual ou negócios jurídicos consensuais aplicáveis nas diversas instâncias de responsabilização, penal e extrapenal, para as quais o Ministério Público é o principal ator. A consensualidade no microssistema normativo-constitucional brasileiro Já no preâmbulo da Constituição de 1988, o Brasil assumiu o compromisso com a solução pacífica das controvérsias, em busca de uma sociedade livre, justa e solidária: Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social 153Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL. Com base na Constituição, é possível af irmar a existência um microssistema jurídico integrado por princípios e normas (materiais e processuais), internas, nacionais e internacionais, das diversas instâncias de responsabilização, que consagra a consensualidade como mecanismo de defesa dos interesses públicos. Nos dizeres da Procuradora da República, Mônica Garcia (2018), vivemos um novo tempo “que nos ensina e nos impele a conjugar novos verbos, como negociar e transigir, sem descuidar da boa-fé e do dever de proteger o patrimônio público.” A par da importância inegável da Constituição, tem-se como marco na defesa dos interesses metaindividuais a Lei da Ação Civil Pública (nº 7.347/85) ao introduzir no ordenamento jurídico a ação civil pública ou ação coletiva, como prefere o Professor Hugo Nigro Mazzilli (2006), como a via processual para se buscar, em Juízo, a reparação de danos ao meio ambiente, ao consumidor, aos bens e direitos de valor artístico, estético, histórico, turístico e paisagístico. Mais tarde, já sob o manto constitucional, o Código de Defesa do Consumidor alterou a Lei da Ação Civil Pública para inaugurar o termo de ajustamento de conduta como instrumento transacional cuja finalidade é adequar a conduta do infrator às exigências legais. Outra alteração se fez necessária para incluir a defesa do patrimônio público entre as finalidades da ação civil pública. Então, diz a Lei: Art. 1º Regem-se pelas disposições desta Lei, sem prejuízo da ação popular, as ações de responsabilidade por danos morais e patrimoniais causados: [...] VIII – ao patrimônio público e social. (incluído pela Lei nº 13.004, de 2014). Art. 5o Têm legitimidade para propor a ação principal e a ação cautelar: [...] § 6° Os órgãos públicos legitimados poderão tomar dos interessados compromisso de ajustamento de sua conduta às exigências legais, mediante cominações, que terá eficácia de título executivo extrajudicial. 154 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal Posteriormente, outros diplomas legais trouxeram, expressamente, o compromisso de ajustamento de conduta como instrumento de resguardo dos direitos transindividuais por eles tutelados, como o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/90, art. 211), a Lei do CADE (Lei nº 8.884/94, art. 53), Lei dos Crimes Ambientais (Lei nº 9.605/98, art. 79-A), e o Estatuto do Idoso (Lei nº 10.741/03, art. 74, inciso X). O termo de ajustamento de conduta é o negócio jurídico celebrado, de um lado, por uma estrutura estatal de poder - entes federativos, o Ministério Público, a Defensoria Pública e os órgãos públicos propriamente ditos legitimados à propositura de ações coletivas - e, de outro, o violador, atual ou iminente, de interesses transindividuais, na definição de Emerson Garcia (2017). Para Ana Luiza Nery (2012), o compromisso é um negócio jurídico bilateral no qual se reconhece a finalidade de contrair, modificar ou extinguir direitos. A celebração objetiva o alcance da melhor alternativa para reparar ou evitar a lesão a um bem de natureza metaindividual. Noutro sentido, arraigados no paradigma da indisponibilidade do interesse público, alguns estudiosos propagam que o termo de ajustamento de conduta não possui natureza contratual, tampouco de transação, porque os órgãos públicos não podem dispor dos interesses que protegem, sendo inviável a solução negociada (RODRIGUES, 2013). Assim, o compromisso de ajustamento de conduta seria um mero ato administrativo negocial (negócio jurídico de Direito Público), que consubstancia uma declaração de vontade do Poder Público coincidente com a do particular (o causador do dano, que concorda em adequar sua conduta às exigências da lei) (MAZILLI, 2006). Felizmente, a tendência de consensualidade na resolução de conflitos não deixou escapar o direito sancionador em sentido amplo, seja ele penal ou extrapenal, haja vista que a indisponibilidade do interesse público ganhou novos contornos para exprimir a ideia de que a Administração Pública deve adotar a melhor solução – transação, perdão, renúncia - que atenda à consecução desse interesse que, por vezes, é o atendimento de um interesse secundário ou até mesmo particular. Por isso, Luzardo Faria (2019) bem pontuouque inexiste incompatibilidade entre o princípio da indisponibilidade do interesse público 155Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia com as transações entabuladas pela Administração, já que elas até podem indicar mais um instrumento de concretização desse princípio, à medida que os interesses (verdadeiramente) indisponíveis devem ser identificados no caso concreto quando se mostrarem indispensáveis em prol dos objetivos cogentes do sistema legal e constitucional. Dito de outro modo, indisponível é o direito que, no caso concreto, se mostre indispensável à Administração Pública para preservação do interesse público, admitindo-se, regra geral, a adoção de instrumentos consensuais. Não por outro motivo, Emerson Garcia (2020) entende que: [...] a tendência é a adoção de um modelo híbrido, em que o Estado, sem dispor por completo do bem jurídico tutelado, transige em relação a alguns aspectos afetos à sua essência ou de natureza periférica, enquanto o infrator aceita as imposições antes da resolução do processo, judicial ou administrativo, ou, mesmo, do seu próprio início. Desse modo, o termo de ajustamento de conduta assume, em definitivo, sua feição negocial, com natureza de título executivo extrajudicial, aplicado nas mais diversas atuações estatais e visando a máxima proteção dos direitos metaindividuais, através do ajuste da conduta do autor do ilícito às conformidades legais, mas não só isso, também através da pactuação de obrigações com viés punitivo no campo da reparação ou da recomposição de eventual dano, embora não se trate de sanção propriamente dita. Também, e principalmente, compõem o microssistema as Leis nº 12.846 e 12.850, de 2013, a primeira, que dispõe sobre a responsabilização administrativa e civil das pessoas jurídicas pela prática de atos contra a administração pública, por isso denominada de lei anticorrupção empresarial, e a segunda, que define organizações criminosas e dispõe sobre a investigação criminal. A lei anticorrupção empresarial (LAC) ganha destaque no microssistema anticorrupção, em sintonia com os marcos globais da Convenção de Mérida e da Convenção Anticorrupção da OCDE - Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico, ao ressignificar os programas de compliance7 das pessoas jurídicas e aprimorar 7 Compliance se define, brevemente, como programa interno com regras e mecanismos de controle e auditoria, com o objetivo de prevenir e identificar atos de corrupção (art. 7, inciso III, da Lei Anticorrupção). 156 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal o acordo de leniência com vistas à promoção da probidade pública, desde a prevenção até a reparação e responsabilização. O acordo de leniência é como instrumento consensual de solução de conflitos com a administração pública e desponta, com notoriedade, no enfrentamento da corrupção, permitindo que o Poder Público e a pessoa jurídica envolvida em atos corruptos ajustem o abrandamento das sanções quando houver reparação do dano e colaboração com a investigações. Trata-se, pois, de negócio jurídico bilateral, também com força de título executivo extrajudicial, no qual a pessoa jurídica que primeiro manifestar o interesse em cooperar, voluntariamente, admite o ato de corrupção e colabora com a investigação com vistas à identificação dos envolvidos e à obtenção de documentos e informações comprobatórias das infrações; em contrapartida, o Poder Público poderá dispensar a sanção de publicação extraordinária da decisão condenatória e reduzir a sanção de multa, previstas no art. 6º da LAC, sem prejuízo do ajuste de outras penalidades administrativas. Mas não é só. Como bem observa o Procurador da República Vladimir Aras (2018), no acordo de leniência, as pessoas jurídicas ainda podem aceitar outras obrigações de fazer, não fazer e dar, como a indicação de ativos a serem recuperados ou repatriados, a adoção de programas de integridade ou o aperfeiçoamento dos programas existentes, assim como, a contratação de profissionais independentes (monitores ou auditores) para o acompanhamento do cumprimento dos deveres decorrentes dos ajustes ou de investigadores para auxiliar o Poder Público na colheita de provas, a partir do acervo documental fornecido pela pessoa jurídica leniente. Quanto à pluralidade de instâncias de responsabilização, a lei anticorrupção, expressamente, determinou que a responsabilização da pessoa jurídica não elide a punição das pessoas naturais envolvidas com o ato ilícito, seja na esfera penal ou nas esferas administrativa e civil, notadamente no âmbito de aplicação da Lei de Improbidade Administrativa. Desse modo, vige no Brasil o sistema de independência entre as instâncias de responsabilização,8 e uma conduta pode ensejar várias sanções. Por isso, o microssistema não descuidou da consensualidade na responsabilização penal, e a Lei nº 12.850/2013 – Lei 8 Vigora no ordenamento jurídico brasileiro o princípio da autonomia das instâncias administrativa, cível e penal de maneira que uma única conduta praticada pelo agente público ou particular em detrimento da Administração Pública pode desencadear diversos processos de responsabilização, sendo certo que a sentença penal absolutória se fundamentada na negativa de autoria ou ausência de materialidade impedirá a condenação em outra esfera. 157Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia das Organizações Criminosas - consolidou o instituto da colaboração premiada, já previsto em leis anteriores9 e melhorado pelo pacote anticrime,10 como “negócio jurídico bilateral que se caracteriza como um contrato, considerando a contraposição de interesses, aqui consubstanciados nas vantagens esperadas por ambas as partes (investigado e Ministério Público) em razão do conteúdo pactuado.”11 Por meio da colaboração premiada, na persecução penal dos agentes que integram organizações criminais, busca-se obtenção de provas sobre a materialidade e autoria do ilícito, identificação do proveito do delito e preservação da integridade física e da vida de eventuais vítimas. O colaborador, então, é beneficiado com o perdão, a redução ou a isenção da pena, ou modificação de regime prisional, daí porque esse negócio jurídico tem natureza mista, mesmo entendimento de Didier e Bomfim (2017), com vieses processual e material, como meio de obtenção de prova, pois nele se estabelecem situações jurídicas processuais, como o compromisso do Estado de não processar ou a suspensão do processo, mas também efeitos materiais correspondentes aos benefícios na aplicação das sanções, com consequente extinção da punibilidade. Após analisar todas as características da colaboração premiada, tais como a bilateralidade e a onerosidade, Didier e Bomfim (2017), concluem que se trata de um contrato de natureza mista, no qual as manifestações de vontade dos pactuantes repercutem na definição e escolha de categorias jurídicas processuais e materiais. A natureza negocial da colaboração é reforçada pela Lei quando admitiu sua formalização durante as investigações ou no curso da ação penal e até após a sentença, restringindo a atuação judicial ao juízo de homologação, com a verificação dos requisitos formais, como a regularidade, a voluntariedade e a legalidade, incidindo no plano da eficácia ou validade do ajuste. O destaque da colaboração premiada no microssistema é sentido por 9 Tais como a delação premiada inserida na Lei de Crimes Hediondos (nº 8.072/90) e a colaboração voluntária nas Leis de Proteção a Testemunha (nº 9.807/99), de Lavagem de Dinheiro (nº 9.613/98) e de Drogas (nº 11.343/06). 10 O pacote anticrime, como chamada a Lei nº 13.964/2019, aprimorou o texto legal da colaboração premiada (Seção I, da Lei nº 12.850/2013), com novas diretrizes e incorporou a interpretação dada pelos Tribunais Superiores nos últimos anos. 11 DIDIER; BONFIM, 2017, p.113 158 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal muitos, pois há consenso na afirmaçãode que os meios investigativos tradicionais (perícias, testemunhas e quebra de sigilos de dados e comunicações) não geram os resultados necessários, desembocando num elevado índice de impunidade. Como bem frisado pela 5ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal (2017, p. 126), circunstâncias excepcionais como a vivenciada pelo Brasil cuja corrupção é sistêmica, in verbis: [...] não se pode ignorar as dificuldades para a devida repressão às condutas ilícitas, em igualdade de condições em relação às sanções devidas aos corruptores e aos corruptos, sobretudo quando, entre estes, encontram- se dirigentes e ex-dirigentes de poderes, estatais e partidos políticos, além de parlamentares, mandatários e servidores públicos de alto escalão. A Lavajato é exemplar nesse sentido [...] A colaboração premiada, portanto, nos crimes corporativos ou de colarinho branco, é indispensável fonte de provas, por meio da confissão e da efetiva colaboração do infrator em indicar os coautores e fornecer elementos que demonstrem a materialidade, tudo com vistas a gozar dos institutos premiais. Ora, a vantagem estatal nesta troca fundamenta-se “em sua ignorância sobre os ilícitos, sobretudo os de caráter organizacional, bem como na insuficiência probatória (...), ou, ainda, na desejável otimização de recursos e tempo para apurar e processar infrações.”12 Em período mais recente, a convencionalidade nos conflitos envolvendo a Administração ganhou importantes reforços legislativos que espancam qualquer resistência à celebração de acordo envolvendo o interesse público, notadamente, no combate à corrupção. A solução consensual tornou-se um baluarte na defesa do patrimônio público. Assim, a Lei Federal nº 13.140/15 (Lei de Mediação) trata, especialmente, da mediação entre particulares e da autocomposição de conflitos no âmbito da administração pública, dispondo que os direitos indisponíveis admitem transação (art. 3º), assim como, que os Entes Federados poderão criar câmaras de prevenção e resolução administrativa de conflitos, no âmbito dos respectivos órgãos da Advocacia Pública, utilizando, para tanto, o termo de ajustamento de conduta, que constituirá título executivo extrajudicial (art. 32, § 3º). Não 12 5ª Câmara de Coordenação e Revisão do Ministério Público Federal, 2017, p. 44 159Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia só, também previu a possibilidade de conciliação em ação de improbidade administrativa que discuta matéria objeto de litígio com o Poder Público.13 No mesmo ano, o novo Código de Processo Civil (CPC) abraçou a solução consensual dos conflitos como sua diretriz, estabelecendo que o Estado a promoverá, sempre que possível e que os métodos consensuais deverão ser estimulados por juízes, advogados, defensores públicos e membros do Ministério Público, inclusive no curso do processo judicial (art. 3º, §§2º e 3º). A advertência para o estímulo à adoção dos métodos consensuais, inclusive no curso do processo judicial, sugere que o legislador determinou como regra a convencionalidade extrajudicial ou pré-processual. O CPC avançou mais e ao tratar dos auxiliares da Justiça determinou aos entes federados a criação de câmaras de mediação e conciliação específicas para solução consensual de conflitos no âmbito administrativo, inclusive, por meio da celebração de termo de ajustamento de conduta, nos moldes do art. 174 do CPC; e o artigo seguinte frisa que essa medida que não exclui ou outras formas de consensos extrajudiciais envolvendo os organismos públicos. Foi-se além, rompendo-se o dogma da tipicidade dos negócios jurídicos processuais, e criou uma cláusula geral da qual podem surgir inúmeros negócios atípicos sujeitos à autonomia de vontade das partes. Diz o art. 190: Art. 190. Versando o processo sobre direitos que admitam autocomposição, é lícito às partes plenamente capazes estipular mudanças no procedimento para ajustá-lo às 13 Art. 32. A União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios poderão criar câmaras de prevenção e resolução administrativa de conflitos, no âmbito dos respectivos órgãos da Advocacia Pública, onde houver, com competência para: I - dirimir conflitos entre órgãos e entidades da administração pública; II - avaliar a admissibilidade dos pedidos de resolução de conflitos, por meio de composição, no caso de controvérsia entre particular e pessoa jurídica de direito público; III - promover, quando couber, a celebração de termo de ajustamento de conduta. Art. 36. No caso de conflitos que envolvam controvérsia jurídica entre órgãos ou entidades de direito público que integram a administração pública federal, a Advocacia-Geral da União deverá realizar composição extrajudicial do conflito, observados os procedimentos previstos em ato do Advogado-Geral da União. (...) § 4º Nas hipóteses em que a matéria objeto do litígio esteja sendo discutida em ação de improbidade administrativa ou sobre ela haja decisão do Tribunal de Contas da União, a conciliação de que trata o caput dependerá da anuência expressa do juiz da causa ou do Ministro Relator. (grifo nosso) 160 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal especificidades da causa e convencionar sobre os seus ônus, poderes, faculdades e deveres processuais, antes ou durante o processo. Esclarece Fredie Didier (2015) que a inovadora cláusula geral não trata da autocomposição sobre o direito litigioso, mas sobre as regras do processo, derrogando as normas processuais. E Antônio do Passo Cabral (2016, p. 68) alerta que negócio processual pode ser celebrado entre as partes interessadas, antes ou durante o processo, sem intervenção de terceiros, as quais podem dispor sobre o procedimento em si ou sobre a criação, a modificação ou a extinção de situações jurídicas processuais. A cláusula geral de convenção processual atípica é perfeitamente aplicável às ações judiciais de responsabilização, seja na área criminal, administrativa ou de improbidade administrativa, ainda que as leis especiais de regências não contemplem o negócio processual. Dessarte, agora, não se pode negar a possibilidade de negócio jurídico processual em processos punitivos, como no processo penal ordinário ou na ação de improbidade administrativa. Relembre- se, à luz do preconizado no art. 3º do CPP, a desejável aplicação subsidiária do CPC ao processo penal. O incremento à resolução consensual no âmbito estatal também foi alvo da alteração na Lei de Introdução às Normas do Direito Brasileiro (Lei nº 4.657/42) pela Lei nº 13.655/18, que trouxe regras sobre a criação e a aplicação do direito público. Autorizada está a celebração de compromisso de conduta entre a Administração e o particular, visando eliminar a irregularidade, incerteza jurídica ou situação contenciosa na aplicação do direito público, com prévia oitiva do seu órgão jurídico, cuja eficácia dependerá apenas da publicação oficial. Em arremate, o pacote anticrime (Lei nº 13.964/2019), sob o rótulo do combate ao crime organizado e à corrupção, alterou diversos diplomas normativos, dentre eles, o Código de Processo Penal (CPP), a Lei de Execução Penal, a Lei de Organização Criminosa e a Lei de Improbidade Administrativa (LIA). No texto aprovado, na onda da valorização do consenso, foram inaugurados no nosso sistema punitivo legal, em sentido amplo, os acordos de não persecução penal (ANPP) e não persecução cível (ANPC), ambos negócios jurídicos consensuais já disciplinados pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) através das Resoluções nº 181 e nº 179 de 2017. 161Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia O cerne do acordo de não persecução é, como a própria nomenclatura sugere, a promessa de não processar ou de não levar ao Judiciário a pretensão, desde que cumpridas certas condições ajustadas entre as partes, e dentre as quais algumas têm nítido caráter sancionatório. Em razão disso, Saulo Mattos (2020, p.12), ao discorrer sobre o ANPP, diz queé um “negócio para punir, e não somente para evitar a existência de um novo processo sobre um fato aparentemente delitivo.” O acordo de não persecução penal (ANPP) se deu através da inclusão, no CPP, do art. 28-A cuja redação é a seguinte: Art. 28-A. Não sendo caso de arquivamento e tendo o investigado confessado formal e circunstancialmente a prática de infração penal sem violência ou grave ameaça e com pena mínima inferior a 4 (quatro) anos, o Ministério Público poderá propor acordo de não persecução penal, desde que necessário e suf iciente para reprovação e prevenção do crime, mediante as seguintes condições ajustadas cumulativa e alternativamente: (grifo nosso) No CPP, o acordo não corresponde a uma inovação propriamente dita e não difere, em sua essência, da colaboração premiada, mas supera a aplicação restrita da justiça penal negociada (legislada) aos crimes de menor potencial ofensivo – através da transação penal ou suspensão condicional do processo, descritos na Lei nº 9.099/95 – e às organizações criminosas, abarcando um sem-número de delitos, previstos no Código Penal e nas leis penais esparsas, cujas penas mínimas abstratas sejam inferiores a 4 (quatro) anos – consideradas as causas de aumento e de diminuição de pena - e desde que cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa. Aqui cabe o destaque para a possível aplicação ANPP na grande parte dos crimes contra a Administração Pública, em especial a corrupção ativa e a passiva, a concussão, o peculato, a prevaricação – previstos no Código Penal - e as fraudes licitatórias descritas na Lei de Licitações (atualmente Lei nº 14.133/21). Portanto, a propagada impunidade dos ilícitos penais que atentam contra a Administração pode estar com os dias contados, notadamente quando a devolução do proveito ou produto do crime e a perda da função pública forem condições para o ajuste. Ainda, no ANPP, é necessária a confissão do investigado e a estipulação das seguintes condições, cumulativa ou alternativamente: reparação 162 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal do dano causado à vítima, quando houver; renúncia de instrumentos, produto ou proveito do crime; prestação de serviço à comunidade; e, pagamento de prestação pecuniária. O viés punitivo do ANPP, por seu turno, exige a presença de justa causa para a ação penal, melhor dizendo, exige a prévia colheita de elementos de prova suficientes da ocorrência do crime (materialidade) e da sua autoria, superando a hipótese de arquivamento da investigação. De tal modo, que a confissão formal e circunstanciada (ainda que na fase pré-processual), como requisito expresso, não pode suprir a carência de elementos probatórios da investigação.14 Nesse ponto, o acordo não se afasta da regra de que a confissão tem valor probatório relativo e deve ser confrontada com os demais elementos coletados, tampouco se elide as normas que regem a coleta de provas (art. 158 e art. 197 do CPP).15 Cabe registrar, tal como na colaboração premiada, o ANPP deve ser submetido à homologação judicial para o crivo da legalidade e do atendimento ao pressuposto da voluntariedade. Todavia, nesse ponto, a reforma ainda autorizou a recusa do acordo pelo magistrado quando considerar as condições inadequadas, insuficientes ou abusivas, remetendo-a às partes para que seja reformulado, merecendo as valorosas críticas doutrinárias. Para Leonardo Augusto Marinho Marques, ao concluir sua análise sobre o novo instituto: “A necessidade de revisar o conteúdo produzido nas fases antecedentes e de controlar os atos praticados é um sinal inequívoco de que não compreendemos a racionalidade da justiça consensual. Nos países anglo- saxões, o magistrado verifica apenas se o acordo atendeu os requisitos mínimos.” (2020) Além de todos estes instrumentos de resolução de conflito de forma 14 A exigência de justa causa para o ANPP visa evitar o que muitos estudiosos chamam de “excesso da acusação” em decorrência das distorções porventura causadas pela obrigatoriedade da confissão. 15 Art. 158. Quando a infração deixar vestígios, será indispensável o exame de corpo de delito, direto ou indireto, não podendo supri-lo a confissão do acusado. Art. 197. O valor da confissão se aferirá pelos critérios adotados para os outros elementos de prova, e para a sua apreciação o juiz deverá confrontá-la com as demais provas do processo, verificando se entre ela e estas existe compatibilidade ou concordância. 163Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia consensual, temos também o acordo de não persecução cível introduzido na Lei de Improbidade (LIA), através do §1º, do art. 17: Art. 17. A ação principal, que terá o rito ordinário, será proposta pelo Ministério Público ou pela pessoa jurídica interessada, dentro de trinta dias da efetivação da medida cautelar. § 1º As ações de que trata este artigo admitem a celebração de acordo de não persecução cível, nos termos desta Lei. (grifo nosso) [...] § 10-A. Havendo a possibilidade de solução consensual, poderão as partes requerer ao juiz a interrupção do prazo para a contestação, por prazo não superior a 90 (noventa) dias. A modificação legislativa passou a autorizar, expressamente, o ANPC - a par da sua adoção há algum tempo pelos Ministérios Públicos na esfera de responsabilização por ato de improbidade administrativa, a partir da aplicação sistêmica das normas do microssistema anticorrupção e consoante diretrizes fixadas pelo CNMP na dita Resolução nº 179/1716 -, e conferiu salutar segurança jurídica às convenções que afastam o manejo das ações de improbidade pelos legitimados, haja vista a superada proibição (expressa) na versão original da Lei.17 Desde logo, vale advertir que o ANPC não se confunde com a cláusula geral de atipicidade dos negócios jurídicos disposta no precitado artigo 190 do CPC a qual, diante da sua natureza processual, não incorpora cláusulas sancionatórias ao seu conteúdo, embora ela seja aplicável às ações de improbidade administrativa em razão da aplicação subsidiária do CPC à LIA. Nesse sentido, parece importante transcrever a análise do Professor Fábio Medina Osório (2020), in litteris: 16 A Resolução nº 179/2017 do CNMP, autoriza, expressamente, a celebração de Termo de Ajustamento de Conduta em matéria de improbidade administrativa. Na sequência, os Ministérios Públicos estaduais editaram atos normativos regulamentando a convenção nos procedimentos ministeriais apuratórios de atos de improbidade, são exemplos a Resolução nº 06/2014 do MP/ES, a Resolução nº 02/2017 do MP/AP, a a Resolução nº 03/2017 do MP/MG, a Resolução nº 03/2019 do MP/PE e a Resolução nº 01/2017 do MP/PR. 17 Assim era a redação original do § 1º, do art. 17, da LIA: § 1º É vedada a transação, acordo ou conciliação nas ações de que trata o caput. 164 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal [...] o acordo de não persecução tem consequências diretas na medida repressiva no campo do direito sancionador, afetando, desta forma, a pretensão punitiva Estatal, o que acaba por atrair o instituto para a órbita do direito material. É preciso registrar, neste norte, que a natureza jurídica do acordo de não persecução cível é de curial importância, pois terá consequências diretas na vida prático/processual. E tanto o acordo de não persecução penal, quanto o acordo de não persecução cível, tem natureza de direito material, implicando renúncia à pretensão punitiva e negociação de sanções, sendo esta sua finalidade primária. Vê-se, pois, que há um leque de instrumentos que podem ser utilizados pelo Ministério Público para a resolução de questões, que vão desde o Termo de ajustamento de Conduta, passando pela Acordo de Leniência e os mais recentes ANPC e ANPP, com vistas a se evitar a judicialização e assim obter-se uma resposta mais rápida e resolutiva. O Ministério Público e a necessidade de uma atuação resolutiva Embora bastante aprofundado o estudo da justiça negocialno Direito Público contemporâneo e o empirismo jurídico, pautado na integração das normas no ordenamento, é indubitável que a mudança legislativa para autorizar, expressamente, o acordo de não persecução cível nos atos de improbidade administrativa e do acordo de não persecução penal na esfera criminal, supera a celeuma jurídica sobre o cabimento das convenções nessa seara. Uma atuação resolutiva ministerial visa equilibrar o acesso do cidadão à justiça, bem como potencializa a aplicação da justiça negociada/ autocompositiva e racionaliza as intervenções judiciais, buscando resultados jurídicos positivos, cuja cadeia de valor se encerra com a justa aplicação da pena e o devido ressarcimento e reparação das vítimas de crimes. Mesmo raciocínio é defendido por Igor Pinheiro (2020, p.20-21): Permitir que o réu se valha de toda a marcha processual, com os recursos e incidentes quase intermináveis, para, após uma instrução desfavorável, mostrar-se “aberto ao acordo” que antes refutava por certeza de 165Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia sua inocência ou por conveniências pessoais (como a proximidade de uma eleição), seria algo contra a própria essência do instituto e um prêmio a recalcitrância e comportamento contraditório.(...) Nesse caso, o réu já terá tido a oportunidade de fazer acordo durante toda a fase investigatória e no começo do processo judicial, mesmo após a decisão de admissibilidade da petição inicial. Deixar a máquina judicial ser usada como estratégia, para, ao final, diante de um cenário de possível condenação, permitir o acordo vai de encontro com a finalidade concebida para a criação do instituto e depõe contra a boa-fé. (...) Ora, como existe um duplo juízo nas ações de improbidade administrativa (notificação preliminar para defesa e citação para contestação), até o fim do prazo desse último ato defensivo antes do recebimento da ação é cabível o pedido de suspensão para o acordo. Neste sentido, pautando-se por uma atuação mais resolutiva, foi publicado no dia 28 de junho de 2018, no Diário Eletrônico do Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP), a Recomendação de Caráter Geral CNMP-CN nº 2/18, que dispõe sobre parâmetros para a avaliação da resolutividade e da qualidade da atuação dos membros e das unidades do Ministério Público pelas Corregedorias-Gerais. Dentre as diretrizes de atuação ministerial dispostas no art. 1º da referida Recomendação, encontram-se: Art. 1º Para a avaliação, a orientação e a fiscalização qualitativas da resolutividade das atividades dos Membros e das Unidades do Ministério Público brasileiro nos planos extrajudicial e judicial, envolvendo a atuação criminal, cível, tutela coletiva e especializada, respeitadas as peculiaridades das funções e atribuições de cada Unidade Institucional, serão considerados, entre outros, os seguintes princípios e diretrizes: I - conhecimento das deficiências sociais e das causas locais; II - capacidade de articulação, sobretudo no que tange à identificação dos campos conflituosos; III - autoridade ética para mediar demandas sociais, aferida pela capacidade para o exercício de liderança a partir da força do melhor argumento na defesa da sociedade e do regime democrático; 166 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal IV - capacidade de diálogo e de construção do consenso; V - senso de oportunidade para o desencadeamento das atuações que levem em consideração as situações de lesão ou de ameaça aos direitos fundamentais; VI - atuação preventiva, amparada no compromisso com ganhos de efetividade na atuação institucional, voltada notadamente para evitar a prática, a continuidade e a repetição de ilícitos ou para promover a sua remoção; [...] VIII - realização precedente de pesquisas e investigações eficientes sobre os fatos, em suas múltiplas dimensões e em sede procedimental, como base para a atuação resolutiva e qualificada; IX - utilização de mecanismos e instrumentos adequados às peculiaridades de cada situação; X - utilização de ambientes de negociação que facilitem a participação social e a construção da melhor decisão para a sociedade; XI - contribuição para a participação da comunidade diretamente interessada; XII - utilização racional e adequada dos mecanismos de judicialização; [...] XIV - atuação tempestiva e efetiva, com aptidão para evitar a prática e/ou imediatamente estancar a continuidade ou a repetição dos ilícitos, ou para removê-los, independentemente de ocorrência de dolo, culpa ou dano; XV - atuação efetiva capaz de garantir a integral reparação dos danos nos seus múltiplos aspectos; [...] XVII - atuação efetiva na tutela coletiva e na propositura de ações individuais em situações absolutamente necessárias, sem prejuízo dos atendimentos individuais e dos encaminhamentos devidos; [...] XX - atuação célere e ef iciente na condução dos procedimentos de investigação que presidir, bem como efetiva contribuição para a rápida conclusão de procedimentos extrajudiciais e processos judiciais em que atuar; XXI - adoção de todas as medidas e providências para a resolução humanizada dos conflitos, controvérsias e problemas.18 18 https://diarioeletronico.cnmp.mp.br/apex/f?p=102:1:0 DIÁRIO ELETRÔNICO DO CNMP EDIÇÃO Nº 119| CADERNO ADMINISTRATIVO DISPONIBILIZAÇÃO: 167Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia Ora, o Ministério Público é a instituição, por excelência e força constitucional, protagonista na defesa da sociedade, da ordem jurídica, do regime democrático e dos interesses transindividuais. Seu caráter essencial ao Estado e seus contornos (unidade, indivisibilidade e independência) o elevam à principal estrutura de poder, em harmonia com os demais poderes da República, encarregado de atuar de forma célere em defesa do patrimônio público e da moralidade administrativa, como direitos fundamentais do cidadão.19 No Brasil, após a Constituição, é inegável que o Ministério Público exerce o papel de ombudsman, figura construída na comunidade europeia, desde o ano de 1809, na Suécia, e em período mais recente nos demais países, de órgão independente, representante da sociedade e não subordinado a outro poder, cuja missão é fiscalizar os demais Poderes constituídos (Executivo, Legislativo e Judiciário). Em outras palavras, ombudsman, ou ouvidor do povo, é um órgão independente, externo à Administração e aos outros Poderes soberanos, dotado da independência funcional necessária para fiscalizar a conformidade da atuação de todos eles, de acordo com os objetivos constitucionais e os direitos fundamentais. No cenário brasileiro, inexiste outra instituição que não o Ministério Público com aptidão constitucional para o encargo. Para Salomão Ismail Filho (2015), o membro do Ministério Público é um mediador sui generis, pois sua atuação não é plenamente neutra e imparcial, considerando o seu papel constitucional de zelar pelos interesses individuais indisponíveis, dispondo de instrumentos específicos para sua missão. Sua vocação constitucional à defesa do patrimônio público e da moralidade administrativa é indubitável, de maneira que as ações judiciais ou negócios jurídicos consensuais, penais ou extrapenais, destinados à recomposição do erário e/ou responsabilização do infrator, pressupõe a intervenção do Ministério Público. A participação do Ministério Público nos diversos institutos de negociação ainda encontra outro Quarta-Feira, 27 de junho de 2018 PUBLICAÇÃO: Quinta-Feira, 28 de junho de 2018 19 Para Rodrigo Wanis (2015, p.56), “afere-se, pois, de modo inconcusso, que o patrimônio público, tanto sob o aspecto subjetivo (titularidade individual e coletiva) quanto sob o aspecto objetivo (ordem jurídica), foi forjado, externa e internamente, como direito fundamental, porquanto se trata de conjunto de bens transindividuais e solidarizados, a bem da dignidade da pessoa humana, sendo parâmetro básico para ainterpretação e a concretização da própria ordem jurídica e da fixação dos parâmetros e valores do próprio Estado Democrático de Direito.” 168 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal respaldo fático-jurídico. Não se pode esquecer que para uma mesma conduta ilícita, praticada por um agente público ou particular em conluio, decorrem diferentes responsabilizações nos diversos sistemas de natureza, penal, civil e administrativa. Ademais, é bastante apregoada a independência entre as instâncias de responsabilização, constatando-se que a consolidação da consensualidade no enfrentamento da corrupção também cuidou de certa comunicabilidade entre elas, a partir de uma ampliação objetiva e subjetiva dos acordos e da cooperação interinstitucional. Dessa forma, somente quando presente o Órgão Ministerial, com atribuição na atuação criminal, se poderá cogitar na ampliação material do objeto do acordo para alcançar as sanções penais, propiciando maior atratividade ao instrumento negocial. Porque se almeja informações relevantes para a descoberta e cessação dos ilícitos, quanto maior a ampliação da negociação no seu aspecto material (punições), maior será a segurança jurídica no universo de múltipla tipicidade da conduta, mais convincente será o mediador a mover o infrator na direção da colaboração, quebrando os pactos de silêncio e maior será a proteção do patrimônio público. É possível, a partir de uma atuação conjunta das Promotorias de Justiça com atribuição em improbidade administrativa e com atribuição criminal20, que seja firmado único acordo de não persecução, penal e cível, com dupla incidência nas searas de responsabilização, bem como o Termo de Ajustamento de Conduta, conferindo máxima segurança jurídica ao colaborador-acordante e concretizando os ideais de eficiência e celeridade. Ressalva-se, apenas, que a eficácia das obrigações atinentes à esfera penal estará sujeita à homologação judicial. por imperativo legal (art. 28-A, § 4º, CPP). Considerações finais A consensualidade no ordenamento jurídico brasileiro veio para ficar, com respaldo na Constituição Cidadã de 1988, não escapando dela o direito 20 No Ministério Público do Estado da Bahia as promotorias de justiça com atribuição na defesa do patrimônio público também acumulam a atribuição criminal nos ilícitos correlatos (salvo se presente a prerrogativa de foro em razão da função a atrair a atribuição do Procurador-Geral de Justiça), o que contribui para melhor desempenho do seu mister e otimização dos recursos humanos. 169Estudos em homenagem à Ministra Cármen Lúcia sancionador, aí incluídos os sistemas penais e extrapenais de responsabilização pela prática de atos ilícitos. A guinada para a solução consensual dos conflitos, abandonando a concepção de supremacia da intervenção estatal na resolução dos litígios, não foi repentina, mas construída ao longo das últimas décadas, com raízes nos negócios jurídicos processuais típicos entre particulares e nos compromissos de ajustamento de conduta, tomados pela Administração Pública, com vistas à cessação do ato ilícito e adequação da conduta do infrator às exigências legais. No direito sancionador, a mudança foi mais tardia, influenciada pelos compromissos internacionais assumidos pelo Brasil e impulsionada pela falência do modelo de judicialização (dispendioso e moroso) de toda e qualquer demanda para responsabilização, ainda que desprovidas de gravidade concreta a conduta. Superando os dogmas doutrinários que enxergam no princípio da indisponibilidade do interesse público a impossibilidade de negociação pelo Poder Público, no exercício do seu poder punitivo, do conteúdo das sanções penais, civis, administrativas e de improbidade administrativa, vários diplomas normativos, com supedâneo na Constituição, introduziram instrumentos de composição, os quais se traduzem em negócios jurídicos híbridos, já que tocam o processo em si (provas, prazos, ritos, etc.) e também o direito material em jogo. O conjunto desses diplomas forma o microssistema normativo- constitucional, cuja coerência e atualidade busca proporcionar efetividade da atuação estatal no tratamento dos atos lesivos à Administração Pública. Nele se destacam a Lei da Ação Civil Pública, a Lei Anticorrupção, a Lei de Combate às Organizações Criminosas, a Lei de Improbidade e o Código de Processo Penal. Tais mecanismos consensuais de solução de conflitos reafirmam o papel fundamental do Ministério Público na proteção da probidade administrativa, sendo inegável que seu desenho constitucional lhe confere, com exclusividade, a função de ombudsman ou ouvidor do povo voltado à fiscalização do cumprimento da ordem jurídica e a defesa do patrimônio público, em uma atual mais resolutiva. Referências ALENCAR, Rosmar Rodriges; TÁVORA, Nestor. Comentários ao anteprojeto de lei anticrime. Bahia: Juspodivm, 2019. 170 O Direito Ambiental no Supremo Tribunal Federal ALVARES ROCHA LIRA, V. N.; ALENCAR BOLWERK, A. A Proatividade e Resolutividade do Ministério Público como sustento da legitimação social e proteção dos Direitos humanos. Revista Direito em Debate, [S. l.], v. 31, n. 57, p. e10649, 2022. Disponível em: <https://www.revistas.unijui.edu.br/index.php/revistadireitoemdebate/ article/view/10649.> Acesso em: 12 nov. 2022. ANDRADE, Landolfo. Acordo de não persecução cível: primeiras reflexões. 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