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História, Culturas e identidades Material Teórico Responsável pelo Conteúdo: Profa. Dra. Yvone Dias Avelino Revisão Textual: Profa. Ms. Luciene Oliveira da Costa Santos A representação da cidade sob o olhar da Literatura 5 • A representação da cidade sob o olhar da Literatura · Apresentar conceitos sobre as relações postas pelo historiador acerca do uso do espaço “cidade” sob a fonte literária. · Refletir sobre o processo de desenvolvimento das cidades; · Apresentar conceitos e exemplos de teorias da cidade; · Apresentar conceitos e exemplos de teorias da literatura; · Desenvolver ideias sobre o uso da literatura como fonte para o historiador; · Apresentar o conceito de Representação, utilizado na História Cultural, para entendermos o uso das linguagens como fonte. Caro(a) aluno(a), Nesta unidade, A Representação da Cidade Sob o Olhar da Literatura, vamos conhecer os conceitos sobre cidade como representação, e o uso da literatura como fonte para o historiador. Procure fazer as leituras e desenvolver todas as atividades propostas. Procure ler com atenção o conteúdo disponibilizado e o material complementar. Assim, você terá um excelente aproveitamento. É importante lembrar que vários recursos, como as atividades de sistematização e aprofundamento, assim como o fórum de discussão e a aula em vídeo, contribuem para o processo de aprendizagem. Após apreender todos esses recursos, registre as dúvidas e apresente-as ao professor-tutor. Nota: • Para iniciar seu estudo e desenvolver o trabalho desta unidade, primeiro acesse o item Material Didático, no qual você vai encontrar o Texto Teórico, ou seja, o texto que vai servir de base para as atividades da unidade. Leia-o com atenção! • Em seguida, verifique se houve uma suficiente compreensão do conteúdo, respondendo as perguntas das Atividades de Sistematização e, posteriormente, a Avaliação. Ambas tratam das questões fundamentais sobre o assunto abordado. • Foram disponibilizados, ainda, Materiais Complementares, Apresentação Narrada e Aula em Vídeo para aprofundar a análise do tema. • Finalmente, realize a Atividade de Aprofundamento da unidade, pois, nela, você vai encontrar dicas para saber mais sobre os assuntos apresentados. Bons estudos! A representação da cidade sob o olhar da Literatura 6 Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura Contextualização A importância dos estudos históricos a partir da forma como as contribuições da História Cultural na contemporaneidade ressaltam o valor de tais estudos e seus usos mais amplos. Para iniciarmos esta unidade, vamos apresentar uma discussão pertinente entre o uso da literatura como fonte para ler e interpretar uma cidade. Ou seja, levantar por meio da trama literária acontecimentos, expressões, arquitetura, ruas, personagens e a beleza de uma cidade, especificamente, em nosso exemplo, a cidade de São Paulo. Para esclarecer essas questões, elegemos artigos extraídos dos links apontados abaixo. Leia-os e entenda um pouco mais sobre essa cidade polifônica. Os Pais de Barros e a Imperial Cidade de São Paulo As pesquisas desenvolvidas sobre a história urbana e a arquitetura da cidade de São Paulo no período imperial levaram-nos a reparar na presença crescente, e cada vez mais atuante, de destacados ituanos na capital paulista, a partir do último terço do oitocentismo. O funcionamento da ferrovia de Santos a Jundiaí, iniciado em 1867, e a construção dos ramais ferroviários ligando Jundiaí a Campinas (1872) e a Itu (1873) propiciaram a rápida expansão da cultura cafeeira pelo Oeste da Província e facilitaram em muito a vida dos fazendeiros do interior. Na década de 1870, a economia agroexportadora paulista ingressava em sua etapa capitalista – o preço do produto sendo dado desde então pelo agricultor e não mais pelo intermediário, o comissário de café – e os grandes produtores que começavam a se transferir para São Paulo, já suficientemente imbuídos de mentalidade burguesa, puseram-se a aplicar seus excedentes de capital em empreendimentos urbanos de variada natureza, tornando-se assim responsáveis pela rápida transformação econômica, social e física da cidade. (Texto elaborado a partir de uma palestra dada pelo autor no Museu Republicano de Itu em 15 de junho de 2007.) Explore: Continua em: http://www.arquiamigos.org.br/info/info16/i-estudos.htm 7 O início da Avenida Angélica – Uma senhora muito atual! 13 de outubro de 2014. Por: Karen Szwarc Em 1893, os empresários alemães Martinho Bouchard e Victor Nothmann decidiram erguer próximo ao centro de São Paulo um loteamento planejado de alto padrão para atrair a nova elite paulistana. Lançado em 1895, o Boulevard Burchard, como foi chamado, desenvolveu- se em parte das terras que seriam futuramente conhecidas como bairro de Higienópolis. Na época, a região estruturou-se em duas artérias principais, a Avenida Higienópolis e a Avenida Itatiaia, aberta em 8 de março de 1898. Anos depois, a Itatiaia uniu-se à Avenida Circular, constituindo a Avenida Angélica, nome dado em 1907, homenagem à D. Angélica de Souza Queiroz de Barros, proprietária da Chácara Palmeiras. Inicialmente, seu tráfego de charretes e cavalos deu espaço a bondes, bicicletas e triciclos. Atualmente, passam por seus 2,7 quilômetros uma média de 2.100 carros por hora nos horários de pico do trânsito. Início do século XX Os habitantes da Angélica do início do século passado faziam parte da tradicional elite paulistana, moradores em grandes palacetes com jardins imponentes e pomares bem recortados. Com o passar dos anos houve a descaracterização da área, em parte fruto da decadência de muitas famílias que perderam suas fortunas com a grande depressão de 1929. Vários dos casarões e seus grandes espaços verdes foram aos poucos parcelados para acomodar residências menores, ou se transformaram em casas de aluguel, pensões, escolas, processo que levaria o bairro como um todo a se tornar uma área abandonada ou desvalorizada, como ocorrera nos Campos Elíseos. No período seguinte, muitas mansões cederam lugar para os primeiros condomínios verticais enquanto a elite preferia mudar-se para regiões mais distantes e tranquilas. Ao mesmo tempo, elementos da classe média procuravam instalar-se no bairro. Explore: Continua em: http://goo.gl/lk0Q0R 8 Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura A história das mentalidades obriga o historiador a interessar- se mais de perto por alguns fenômenos essenciais de seu domínio: as heranças, das quais o estudo ensina a continuidade, as perdas, as rupturas (de onde, de quem, de quando vem esse hábito mental, essa expressão, esse gesto?); a tradição, isto é, as maneiras pelas quais se reproduzem as sociedades, as defasagens, produto do retardamento dos espíritos em se adaptarem às mudanças e da inegável rapidez com que evoluem os diferentes setores da história. Campo de análise privilegiado para a crítica das concepções lineares a serviço histórico. A inércia, força histórica capital, mais fato referente ao espírito do que à matéria, uma vez que esta evolui frequentemente mais rápido que o primeiro. Os homens servem-se das máquinas que inventam, conservando as mentalidades anteriores a essas máquinas. Os automobilistas têm um vocabulário de cavaleiros; os operários das fábricas do Século XIX, a mentalidade de camponeses, seus pais e avós. A mentalidade é aquilo que muda mais lentamente. História das mentalidades, história da lentidão na história.1 Não é de hoje que a história proclamou sua independência dos textos escritos. A necessidade dos historiadores em problematizar temas pouco trabalhados pela historiografia tradicional levou- os a ampliar seu universo de fontes, bem como a desenvolver abordagens pouco convencionais, à medida que se aproximava das demais ciências sociais em busca de uma história total. Novos temas passaram a fazer parte do elenco de objetos do historiador, dentre eles a vida privada, o quotidiano,as relações interpessoais, etc. Uma micro-história que, para ser narrada, não necessita perder a dimensão macro, a dimensão social, totalizadora das relações sociais. Neste contexto uma história social da família, da criança, do casamento, da morte etc. passou a ser contada, demandando, para tanto, muito mais informações que os inventários, testamentos, curatela de menores, enfim, tudo o que uma documentação cartorial poderia oferecer. A tradição oral, os diários íntimos, a iconografia e a literatura apresentaram-se como fontes históricas da excelência das anteriores, mas que demandavam do historiador uma habilidade de interpretação com a qual não estava aparelhado. Tornava-se imprescindível que as antigas fronteiras e os limites tradicionais fossem superados. Exigiu-se do historiador que ele fosse também antropólogo, sociólogo, semiólogo e um excelente detetive, para aprender a relativizar, desvendar redes sociais, compreender linguagens, decodificar sistemas de signos e decifrar vestígios, sem perder, jamais, a visão do conjunto. 1 Op. Cit, p. 72. 9 A representação da cidade sob o olhar da Literatura No Plano da Cultura, e como espaço de experimentação e gestação de significações e projetos sociais, o viver urbano na cidade de São Paulo apresenta-se como um campo privilegiado para a reflexão sobre a História Social.2 (CRUZ, 2000) Nesta unidade, estaremos debruçados sob uma temática bastante complexa, que é a tentativa do historiador, dentro do que permite a História Cultural, fazer a relação entre cidades e literaturas, apresentando diversos autores e suas leituras sobre a representação histórica das cidades, além do papel destas nas criações de tramas literárias sobre o urbano e o cotidiano citadino. O que são cidades? A ideia de cidade vem da antiguidade clássica, onde sua expressão mais alta aparece, em Atenas, no século de Péricles. Aí ocorreram as mais variadas manifestações artísticas e arquitetônicas, que marcaram de forma indelével o valor e a beleza desse espaço. Ainda hoje o turista se encanta com o que lhe proporciona o encontro com a Grécia, mesmo nestes momentos difíceis da unidade europeia. Nesse espaço urbano, foi cultuada a democracia, a filosofia e a tragédia, que dão ao mundo contemporâneo oportunidades políticas de convivência, culturas e produções literárias. Não podemos também nos esquecer das grandes contribuições das cidades romanas, o sistema jurídico adotado pelo império romano sobretudo, assim como foram também as cidades medievais, com seus burgos, suas igrejas e suas feiras, “as cidades dos muros”, como eram conhecidas pelos homens que viviam no campo e que chegavam a esses territórios para as trocas comerciais e para as festas religiosas. Devemos nos lembrar das urbes, que nasceram do comércio, os célebres burgos, onde as corporações de ofício se tornaram famosas e embelezavam o espaço com as suas coloridas procissões, conforme a semioticista Lucrécia D´Aléssio Ferrara nos aponta em sua obra “Olhar Periférico: Informação, Linguagem, Percepção Ambiental”3: No domingo, depois da Assunção de Nossa Querida Senhora, eu vi a grande procissão da Igreja de Nossa Senhora de Antuérpia, quando a cidade inteira, de todos os ofícios e de todas as condições achava-se reunida, cada qual a usar suas melhores roupas, conforme a sua posição. E todas as ordens e corporações ostentavam as suas insígnias, pelas quais podiam ser reconhecidas. [...] vi a procissão passar ao longo da rua, o povo alinhado em fileiras muito próximas umas das outras. Estavam ali os ourives, os pintores, os pedreiros, os bordadores, os escultores, os marceneiros, os carpinteiros, os marinheiros, os pescadores, os alfaiates, os sapateiros e, enfim, trabalhadores de todas as espécies, e muitos artesãos e negociantes que trabalhavam para ganhar a vida.4 2 CRUZ, Heloisa de Faria. São Paulo em Papel e Tinta: Periodismo e vida urbana (1890-1915). São Paulo: EDUC, 2000. 3 FERRARA, Lucrécia D´Aléssio. Olhar Periférico: informação, linguagem, percepção ambiental. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 1999. 4 Descrição de Albrecht Dürer, no princípio do século XIX, colhida em Lewis Mumford, A Cidade na História. Suas Origens, Transformações e Perspectivas. São Paulo: Martins Fontes/Ed. da Universidade de Brasília, 1982, p. 304, In: FERRARA, Lucrécia D´Aléssio. Olhar Periférico: informação, linguagem, percepção ambiental. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 1999, p. 206. 10 Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura São esses mestres do conhecimento que vão contribuir para uma fantástica expansão das funções comerciais das cidades, no momento em que o burguês, ajudando o rei a ocupar a sua expressão política, constitui o Estado Absolutista. A Europa se expande, sobretudo Portugal e Espanha. O desconhecido oceano é vencido pelos barinéis, naus e caravelas, e o mundo transoceânico é incorporado à Europa conquistadora. Saiba Mais Para saber a diferença conceitual entre mar e oceano que, à primeira vista, pode nos parecer igual, veja a explicação em: http://www.alunosonline.com.br/geografia/diferenca-entre-mar-oceano.html As cidades do presente em nada se parecem a essas anteriores. A cidade, na contemporaneidade, é cheia de contradições e, nela, os homens vão construindo suas vidas nascendo, vivendo e morrendo. Essas cidades são pontos de partida para raciocinarmos e explorarmos a sua historicidade, pois elas passam por grandes transformações, e tornam-se tão importantes que se inserem, hoje, no universo dos estudos dos historiadores, sociólogos, antropólogos, arquitetos, literatos, geógrafos, semioticistas, levando-se em conta os grandes e pertinentes avanços da História Cultural, especificamente no nosso caso. As transformações econômicas e sociais deixam na vida do cidadão marcas ou sinais que contam uma história não verbal pontilhada de imagens, de máscaras, que têm como significado o conjunto de valores, usos, hábitos, desejos e crenças que nutriram, através dos tempos, o cotidiano dos homens.5 A cidade é uma via de duas mãos, pois carrega os sinais e as marcas das transformações de cada época, gerando interpretações e características semelhantes e distintas ao mesmo tempo. São resíduos do passado que permanecem, e agregações do novo, que a embelezam ainda mais. A cidade pode ser lida como um palco de representações, de extremos, desencadeados pelo homem, que a inventou, e que a reinventa constantemente, às vezes, por grandes movimentos sociais, em notáveis acontecimentos históricos, embora sua constante reinvenção aconteça no cotidiano, num processo quase imperceptível, somente notável pelo olhar mais atento às transformações sociais. Para saber mais sobre São Paulo, a cidade, foco de nosso objeto de estudo nesta unidade, assista ao vídeo em: https://www.youtube.com/watch?v=NLMKl397uBw: 5 FERRARA, Lucrécia, Op. Cit. , p. 202. 11 Figura 1 – A Favela de Paraisópolis e um dos condomínios do bairro do Morumbi, em São Paulo: contraste social Fonte: Tuca Vieira/Folha Imagem A cidade é, na realidade, um palco de contrastes. Nela, encontramos o carroceiro e, ao seu lado, no trânsito, um carro de luxo, assim como na imagem acima, uma favela ao lado de um condomínio de luxo, onde há uma piscina privada a cada residência. Se focarmos mais ainda nos contrastes, veremos uma casa da favela com três carros dentro, ou seja, mesmo dentro do espaço menos privilegiado, também há contrastes. Cidade é isso. É um espaço de complexidades e de convivências, que vamos ressaltar em exemplos de alguns autores, especificamente, na literatura. Trazemos, inicialmente, um memorialista que observa a cidade em um cotidiano boêmio. Trata-se de Frederico Branco, quando resgata no capítulo “Bares da Vida”, na obra “Postais Paulistas”6, este universo. Nesse capítulo, podemos acompanhar o desenho de uma trajetória pessoal de crescimento, do autor e da cidade, por meio da leitura de diversas bebidas que são consumidas em momentos distintose em lugares diferentes. A cidade se transforma, e com ela o autor, as bebidas e os lugares. Símbolos, representações e imaginário em constante transformação e significado da sociedade e da história. Essas transformações, além de outras tantas que existem, podem ser observadas nas fotos abaixo, que retratam as várias fases da Avenida Paulista, em São Paulo, considerada pelos paulistanos o cartão postal da cidade em um concurso. 6 BRANCO, Frederico. Bares da Vida. In: Postais Paulistas. São Paulo: SENAC, 2002. 12 Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura Figura 2 – Museu Paulista – USP Foto: Jules Martin / Reprodução: José Rosael 1891 – Nesta pintura em aquarela, o pintor Jules Martin retrata a inauguração da Avenida Paulista, em 8 de dezembro de 1891. A iniciativa foi do empresário uruguaio Joaquim Eugênio de Lima que comprou os terrenos da região com o objetivo de criar um empreendimento imobiliário de alto luxo. A região era formada predominantemente por terrenos baldios cobertos por vegetação rasteira. Uma parte da Mata Atlântica original foi preservada, no atual Parque Tenente Siqueira Campos, conhecido como Parque Trianon. Figura 3 – 1910 - São Paulo - Avenida Paulista Fonte: Foto: Guilherme Gaensly 13 Figura 4 –1920 – Avenida Paulista 1920 (Fotos Antigas de cidades São Paulo) Figura 5 – Avenida Paulista em 1952 14 Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura Figura 6 – Avenida Paulista em 1976 A cidade é também personagem de quem a observa de forma mais visceral, mais profunda, de quem evita, por alguns momentos, o condicionamento que o filósofo alemão Walter Benjamin condenava, considerava como uma doença que impede a aproximação da cidade pelo cidadão.7 As cidades apresentam-se como representações da cultura em suas múltiplas faces. Para compreendê-las, é necessário decodificarmos os significados que emergem das diversas expressões de linguagem que explicam o seu conteúdo e que vão nos dar o caminho para interpretá-las na sua arquitetura, nos transeuntes, nos sinais de trânsito, nos espaços públicos como praças, onde convivem crianças e idosos, e nas diferentes marcas de suas variadas identidades no tempo e no espaço. As cidades são experiências visuais, lugares saturados de significações, acumuladas através do tempo. Como vimos no exemplo da Avenida Paulista, as transformações, com a expansão territorial e a variedade das construções e da população, fazem surgir na cidade de São Paulo outros espaços, também repletos de novos e grandes significados e interpretações. Alguns desses locais são compostos por burgueses, como é o caso dos bairros de Higienópolis e Campos Elíseos, com praças e jardins bem cuidados, ruas de traçados perfeitos, onde encontramos imensas mansões, onde habitam os detentores do poder. São Paulo cresce num ritmo tão grande, apagando no espaço de uma vida humana, o ambiente de uma geração anterior. O jovem de hoje não conhece a São Paulo de ontem. E o idoso de hoje se deslumbra e também se assusta com ela. As lembranças são mais duradouras que o cenário construído, e não encontram nele um apoio e um reforço. Os estudos históricos tornam-se, então, duplamente necessários, para que não caiam no esquecimento os lugares da vida passada e, para restituir profundidade, a experiência do ambiente urbano. Tudo isso ocorre também nos grandes centros mundiais, não podemos crer nem afirmar que em apenas um espaço urbano isso ocorra, e que essas vivências sejam únicas. São únicas para aqueles que ali circulam, mas são fenômenos inerentes a qualquer urbe. 7 BENJAMIN, Walter. O Flaneur. In: Charles Baudelaire. Um lírico no auge do capitalismo. Obras Escolhidas. Vol. III. São Paulo: Brasiliense, 1989. 15 O desenvolvimento da percepção da existência de uma linguagem, o seu entendimento e a sua aprendizagem se revelam no cotidiano urbano, e são considerados de fundamental importância para a compreensão desse fenômeno. A cidade deixa de ser somente um lugar onde se habita para adquirir um sentido maior, uma significação mais subjetiva da história pessoal de cada sujeito e do conjunto da sociedade. Esse significado de maior amplitude só pode ser conhecido por meio da leitura dos signos urbanos, do seu reconhecimento e da sua compreensão. Não é por outro motivo que a autora já citada, Lucrécia Ferrara, passa também em sua obra por uma análise de Walter Benjamin, quando comenta sobre a narrativa de lembranças, método que proporciona a construção de uma leitura das imagens que a cidade apresenta, levando à compreensão do fenômeno urbano e de suas acentuadas transformações. Movidos por todas essas reflexões, lançamos o nosso olhar de historiadores sobre as representações da cidade pelo viés da literatura, que pode ser definida em uma palavra: representação. O historiador não deve encarar a obra literária somente como um veículo de conteúdo, pois a importância e o valor dado ao texto literário não estão exatamente na confrontação que dele se pode fazer com a realidade exterior. Mas sim na forma como a realidade é perquirida, analisada, aprofundada, questionada, interpretada e recriada. Assim, as transformações daqueles elementos não literários em expressões estéticas criam olhares que se lançam sobre o objeto, ou seja, uma outra forma de observá-lo e de se criar uma relação com o real. O arqueólogo e historiador francês Paul Marie Veyne, especialista em história da antiguidade romana, em sua obra “Como se Escreve a História”, nos diz que: [...] o historiador passou a agir como um romancista ao tecer um fio de narração aos fatos por ele escolhidos, diferenciando- se do verdadeiro romancista, enquanto relator de eventos reais, acontecidos, em contraposição de uma narrativa substancializada na imaginação sobre o mundo sentido8. Atenção Aceitar e empregar a literatura como fonte, ao lado das demais consideradas tradicionais significa buscar um novo método, pois se trata de uma linguagem específica, que o historiador só pode conduzir por meio de códigos e metodologias próprios para uma leitura do contexto possível para a ciência histórica. Segundo o intelectual russo Lev Vigotski, que direcionou seus estudos e escritos para diversas áreas, como a psicologia social, a pedagogia etc., em sua obra “Psicologia da Arte”9, aponta: A arte é o social em nós, e se o seu efeito se processa em um indivíduo isolado, isto não significa, de maneira nenhuma, que suas raízes e essência sejam individuais. [...] O social existe até onde há apenas um homem e as suas emoções. [...] A refundição das emoções fora de nós realiza-se por força de um sentimento social que foi objetivado, levado para fora de nós, materializado e fixado nos objetos externos da arte, que se tornaram instrumentos da sociedade.10 8 VEYNE, Paul. Como se Escreve a História. Brasília: UnB, 1995. 9 VIGOTSKI, Lev S. Psicologia da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1999. 10 Op. Cit., p. 315. 16 Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura Sendo produção artística, a literatura ilustra, aclara e reforça os valores de uma cultura, não se prestando a apresentar a confirmação de um saber que podia adquirir de outras maneiras como, por exemplo, por meio de uma pesquisa histórica. A literatura toma para si princípios e leis diferentes dos existentes da realidade exterior, que já é inventariada. Além do mais, o artista/escritor está sempre superando os sistemas de classificação, com os quais uma sociedade apresenta suas significações provisórias do mundo. A literatura não reproduz a realidade exterior, mas sim a transforma, dá um caráter imaginário, ficcional, exprimindo o que nela está reprimido ou latente. Para obter uma melhor análise e interpretação das obras de arte, Vigotski se voltou também à literatura, não deixando de lado considerações sobre arquitetura, artes plásticas, e música, ressaltando que todas essas linguagens têm em comum a contradição entre conteúdo e forma. No exemplodado pelo autor em seu referido livro em relação à análise literária, conteúdo e material surgem como sinônimos, entendidos como a realidade imediata, as situações da vida cotidiana e que servem de base para a obra artística. Segundo Vigotski: [...] devemos entender por material tudo que o poeta usou como já pronto – relações do dia-a-dia, histórias, casos, o ambiente, os caracteres, tudo o que existia antes da narração e pode existir fora e independente dela, caso alguém narre usando suas próprias palavras para reproduzi-lo de modo inteligível e coerente.11 A obra literária considerada obra de arte, que age sobre seus leitores, é aquela que dramatiza as contradições e exacerba-as, leva-as às últimas consequencias, ou seja, representa-as, e oferece, assim, um princípio de respostas a perguntas ainda não claramente formuladas, seja na ficção ou na realidade. Ela libera possibilidades subjacentes a certas situações, joga com essas possibilidades, dá-lhes vida e, assim, tenta explorar as virtudes inerentes a uma época ou espaço. As obras literárias que melhor traduzem os movimentos sociais e históricos não são as que retratam de forma escrupulosamente exata os acontecimentos anteriores, mas sim aquelas que exprimem o que falta a um grupo social, e não aquilo que ele possui plenamente. A literatura fala ao historiador e ao leitor sobre a história que não ocorreu, sobre as possibilidades que não vingaram, sobre os planos que não se concretizaram. Desde Heródoto, historiador grego da antiguidade clássica, tal afirmação já era posta. Podemos, portanto, pensar numa história dos desejos não consumados, dos possíveis sonhos não realizados, das ideias não vingadas.12 Ocupa-se o historiador, portanto, da realidade, enquanto o escritor é atraído pela possibilidade. Cabe ao historiador levantar esse excedente de sentidos que estão fixados no romance. O método de apreensão de dados históricos por meio da literatura se faz, segundo o historiador e crítico literário americano Domenick Lacapra13, entre a união do autor, do texto e do contexto, ou seja, usar a linguagem para interpretar contextos como representação de uma experiência histórica. É a forma de notar como se apresentou uma dada realidade. 11 Op. Cit., p. 177. 12 SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão. São Paulo: Brasiliense, 1995. 13 LACAPRA, Domenick. História e Romance. In: RH, Revista de História da UNICAMP, nº 2/3. Campinas: UNICAMP, 1991. 17 Trazemos como exemplo concreto o romance de Maria José Dupré, “Éramos Seis”14, publicado pela primeira vez na década de 1940. A autora relata em sua obra a trama de um núcleo familiar constituído de seis pessoas: pai, mãe e quatro filhos, que viviam na cidade de São Paulo, na Avenida Angélica, na primeira metade do século XX. Figura 7 – Avenida Angélica, por volta de 1959, vista de uma janela do edifício Santo André, que � ca na esquina da Rua Piauí, em frente ao Parque Buenos Aires Saiba Mais O enredo do romance de Maria José Dupré acontece numa avenida muito conhecida dos paulistanos, a Avenida Angélica, hoje até discutida na mídia pela mudança da permissão de quilometragem. O local descrito pela autora existia realmente, ou seja, a casa da família Lemos, personagens principais da trama. Hoje, nesse local, ergueu-se um edifício, resposta à grande verticalização da cidade. Um pouco mais abaixo, na mesma rua, existe hoje, na esquina com a Alameda Barros, um restaurante, chamado Angélica Grill, inaugurado em 1996. No mesmo local onde existia o palacete do Dr. Aguiar de Barros e dona Maria Angélica, que dá nome à Avenida. Esse palacete foi inspirado no Palácio de Chalottenburg, na Alemanha. 14 DUPRÉ, Maria José. Éramos Seis. São Paulo: Ática, 1994. 18 Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura Figura 6 – Palacete de Dona Angélica e Dr. Aguiar de Barros, onde hoje se encontra o restaurante Angélica Grill Figura 7 – Fachada do Restaurante Angélica Grill Maria José Dupré foi um dos nomes mais populares da literatura brasileira. Nasceu em Botucatu, São Paulo, em 1905. Aprendeu a ler com a mãe e com o irmão, e, ainda menina, estudou música e pintura. Veio para a capital paulista, cursou a Escola Normal Caetano de Campos, onde se formou professora. Casou-se com o engenheiro Leandro Dupré, e estreou na literatura em 1941 com “O Romance de Teresa Bernard”. A literata sempre escreveu para crianças. Publico, em 1943, o romance que trabalharemos, com uma esfuziante apresentação do escritor Monteiro Lobato, autor da famosa obra do Sítio do Picapau Amarelo, e criador do personagem Jeca Tatu. O sucesso da autora se estabeleceu rápido, em virtude também da grande quantidade de obras que escreveu, tanto para o público adulto, quanto para crianças e jovens. Apesar dessas várias publicações, foi esse romance que a projetou efetivamente no ramo editorial. Foi essa obra traduzida para muitas línguas, e até transformada em filme na Argentina e em telenovela no Brasil. A escritora morreu em 1984. 19 A trama central criada por Maria José Dupré, nessa obra, foi apresentar a trajetória de uma família urbana de classe média. A construção do dia a dia dos personagens que constituem o núcleo familiar da trama está ligada diretamente ao próprio cotidiano da cidade e, em alguns momentos de tensão, ao do próprio país. A tessitura literária que foi desenvolvida trouxe para a produção do romance brasileiro o drama de uma história sem pré-determinação, onde o inesperado se transformou em um elemento fundamental da vida da família Lemos. As experiências vividas pelos seis integrantes da narrativa (o pai, o senhor Júlio; a mãe, Dona Eleonora, ou simplesmente Lola; Julinho; Alfredo; Carlos e Isabel) são acompanhadas pelo olhar atento da narradora e personagem central, Lola. As representações das diferentes experiências vivenciadas por eles são filtradas pelo olhar atento, carregado de ternura, da mãe, que vai memorizá-los mais tarde. O romance “Éramos Seis” foi considerado um livro clássico, que vem, desde que foi lançado, emocionando variadas gerações de leitores. Para o casal Lemos, tão fundamental quanto o sonho da casa própria, era a educação dos filhos que ocupava o universo dos seus devaneios, e era plano de vida edificado pelos membros da família. Nesse enredo, a autora descortina memórias e fixa temporalidades. As lembranças de tia Emília trazem a história da memória dos pioneiros de São Paulo, das famílias ricas, em que a sua é uma delas. A memória sobre os barões do café e a burguesia industrial, que emergiram do centro urbano com o processo da urbanização. A cidade de São Paulo se desodorizava e se valorizava, com profundas e grandes transformações. A narradora não deixa de apresentar também a evolução econômica da família na relação com as mudanças da cidade. Novas casas comerciais, que elevavam as concorrências, novas moradias, com arquitetura arrojada, de estilo europeu, novos postos de trabalho como as mecânicas de automóveis (onde um dos filhos foi trabalhar), que proliferaram com a mão de obra necessária, com o aceleramento da indústria automobilística. São Paulo é uma cidade que passou por várias mudanças no breve período de sua história como cidade importante: três cidades construídas e destruídas num século, como diz Benedito Lima de Toledo, em sua obra “Três Cidades em um Século”15, na qual o autor trabalha o desenvolvimento dessa cidade. Os sujeitos alterando a cidade e sendo alterados também por ela. Relações sutis de um processo normal. Loteria, inflação, juros, concorrência, seguro de vida, a rua se transformando com novas edificações, novos valores, entre os ricos na Avenida Paulista, e o conceito do nu na arte. O trabalho da personagem principal de Éramos Seis, Lola, é uma contraposição ao não trabalho das outras vizinhas, que passeavam de automóvel e tomavam chá ou café com bolo às tardes, em confeitarias elegantes, que despontavam na arlequinal cidade, e visitavam umas às casas das outras.A nossa narradora fazia os bolos, e vivia disso, assim como do tricô. O café, principal símbolo da riqueza de São Paulo na época, é também símbolo de trocas, de experiências, de encontros alegres, mas também é servido nos momentos de sofrimento, de morte. O significado do café para a vida das pessoas no romance aparece com clareza durante o sofrimento do filho mais velho, onde a mãe promete, caso este se recupere de sua enfermidade, permanecer cinco anos sem beber café e, se necessário for, o resto da vida. O café em troca da saúde de um ente querido. O chá e o café são representações e estilos de lugares sociais nessa São Paulo. 15 TOLEDO, Benedito Lima de. São Paulo: Três cidades em um século. São Paulo: Duas Cidades, 1981. 20 Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura A autora nos conduz aos caminhos da memória, narrado pela principal personagem, no próprio título com que rotula a obra. Éramos seis. O tempo verbal utilizado já está no passado. Éramos, não somos. Quantos se perderam, e como foi, eis como o chamado despertou à leitura, e esta, à memória do que foi narrado. Cada momento tem seu próprio tempo, que se embrica no tempo da construção da modernidade da cidade, e envolve cada sujeito, onde ele vive, sonha e sofre. Há uma temporalidade, que vem de fora, que vai se ajustando a cada outra época, e aí vai surgir outro processo. É nesta confluência de eixos, de temporalidades diferentes, que vão emergir conflitos e tensões. Ao interpretá-los, descobrem-se os cruzamentos de inúmeras e diferentes durações de tempo e, assim, vai-se compreender melhor o vivido. Ao abstrair a construção e a desconstrução da cidade de São Paulo, através do modo de viver de determinados personagens sociais no seu cotidiano, configurou-se como algo fundamental para problematizar os processos sociais que sequestraram aos sujeitos o papel de fazer história. Estudar a família revela para o historiador importantes vestígios que recuperam trajetórias de vida, de pessoas, num espaço dinâmico em transformação. As relações de vizinhança na obra vão possibilitar visualizar uma teia de relações fundamentais para o situar-se na cidade, relações essas muitas vezes decisivas para a sobrevivência. A personagem dona Genu, a vizinha, simboliza o socorro, para a vida e para a morte. Por outro lado, o contraste com o campo e a cidade, importante diálogo para o historiador, tão bem colocado na obra de Williams16, é percebido no romance por meio da personagem Clotilde, irmã de Lola, como o espaço desconhecido, apreciado no diálogo da página 166, que vai nos revelar esta tensão: No interior onde vivia, ia à casa de amigas, ia visitar doentes, ia à igreja, ia entregar doces. E, assim, corria a vida; tão simples, sem complicações e sem correrias e problemas. Tudo lentidão e paz. Para que pressa? Em São Paulo, todo mundo corria, todo mundo andava de pressa, para chegar na hora. Todo mundo vivia afobado. Corre, que o bonde vem vindo. Não tem lugar neste bonde, temos que esperar outro. Então chegaremos atrasados. Quem é a vizinha da esquina? Não sei. Não sabe? Pois não são vizinhos? Somos. Faz mais de três anos que vieram morar aí, mas não sei quem são. Deus me livre e guarde! Viver assim, sem conhecer ninguém, é pior que viver no deserto. O espaço doméstico simboliza o espaço do trabalho feminino. A mãe é subordinada. É a provedora. O pai é o símbolo da autoridade. O senhor Júlio conduzia com rigor a sua família, exigindo disciplina e obediência dos filhos e da mulher. Sustentava a casa com o seu trabalho honesto, e controlava a economia das despesas caseiras, mas gastava com jogo, mulheres e bebida. Quando chegava embriagado, era um terror. A família sofria, e a mãe contemporizava. Havia a hierarquização do poder familiar: pai, mãe, filho mais velho, e a filha, era sempre a última nessa hierarquia. O homem podia não trabalhar, era o caso do filho Alfredo. A mulher, 16 Williams, Raymond. O Campo e a Cidade. São Paulo: Cia. das Letras, 1988. 21 não, pois a mãe tinha dupla e tripla jornada. Uma mãe resignada, devotada, que pensava somente na felicidade dos filhos. Por outro lado, o espaço da casa se revelou conflitivo. Se configurou num campo tenso de lutas e de valores; negações de costumes e tradições relacionadas ao casamento. É o caso de Isabel, a rebeldia na adolescência e depois da morte do pai. Havia uma racionalidade do trabalho e a negação de posições políticas conservadoras. É o caso de Alfredo, o filho que se rebelava e se voltava para a ideologia do Partido Comunista. O aburguesamento da cidade acontecia com o aburguesamento dos sujeitos. É o caso de Julinho, o filho que buscou seu futuro no casamento; e a retidão do caráter dos sujeitos na educação rígida e no comportamento social, o caso de Carlos, o filho mais bem-comportado. A questão da moradia apareceu como algo fundamental para uma família trabalhadora. A casa representa o privado, o abrigo, o direito, o espaço da cidadania17. O significado da casa, como símbolo de união dos filhos, mas ao mesmo tempo, a casa como espaço da tristeza, da morte, da solidão. A vivência de experiências inesperadas no cotidiano da família é apresentada com o surgimento das revoluções e da guerra. O envolvimento de Alfredo em reuniões do Partido Comunista; Carlos participando como soldado na Revolução de 1930. Os antagonismos de valores presentes no cotidiano dos sujeitos sociais em são Paulo, nas décadas de 1920 e 1930 são bem explicitados nas relações da família com a cidade, nos seus novos comportamentos sociais derivados do progresso trazido pela modernidade. Talvez, propositadamente, a autora não questiona a própria construção da categoria revolução. A cidade e as inclusões e exclusões – a cidade produz loucos. A cidade precisa controlar os desajustados, os doentes e os loucos. A família também produz, e ao mesmo tempo, precisa cuidar dos seus loucos. O espaço reservado para eles foi construído, são os territórios da exclusão, longe da família, e longe da cidade. Os que não têm dinheiro, não podem mandar seus loucos para o hospício. O caso da cunhada de Dona Candoca revelou as características da loucura: não falava, não saía de casa, não reconhecia as pessoas, falava sozinha, cantava. São representações da cidade, que de forma sutil, confundem-se com as questões familiares. As relações de parentesco configuram-se como essenciais no processo de constituição familiar. Dinheiro emprestado por tia Emília; empréstimos de roupas e joias para eventos importantes; alimentos; presentes; solidariedade nas necessidades como trabalho, o cuidar dos netos por parte dos avós etc. A família vai diminuindo, e a cidade vai crescendo. A família vai se desestruturando, e a cidade vai se estruturando. São ecos e ruídos de um passado e de um presente que vão se entrelaçando nas tramas da vida, entre a ficção e o real. Chartier salienta que as representações e as ações estão sempre conectadas, e que estas são basicamente as formas de funcionamento de uma sociedade, sobretudo quando se pensa estudar a história cultural18. Destino triste de uma frágil, mas forte mulher, que sonhou, suportou e sobreviveu às derrotas e agruras de uma vida inteira de sofrimento. A morte ceifou-lhe duas vidas, o marido e o filho Carlos; Julinho e Isabel casam-se e nas suas vidas não há espaço para ela. São gerações diferentes, onde a pacata e conformada Lola não desejava ser um estorvo. Não queria que a carga da sua pobreza empanasse o brilho da riqueza de seus filhos e netos. Era como transformar um céu brilhante em nuvens sombrias. 17 MATTA, Roberto da. A Casa e a Rua. Espaço, Cidadania, Mulher e Morte no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. 18 Chartier, Roger. A História Cultural: Entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL, 1990. 22 Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura A casa tão sonhada durante uma vida inteira, não tem mais valor, sentido, ou objetivo. Só lhe restou rememorar.Reminiscências de uma vida. Tempos de guerra, tempos de paz. Às vezes, os filhos e os netos fazem uma visita onde hoje ela mora, num pequeno quarto, numa pensão de freiras. Julinho é negociante, está rico e é feliz com a família que constituiu no Rio de Janeiro. Isabel casou-se com o homem que escolheu. Trabalha, luta e ajuda o marido. Não é mais uma menina, é uma mulher, e é feliz. Alfredo tem o que quer; sem responsabilidade, sem ter que pensar no futuro, vive ao sabor da aventura, de terra em terra. Está na guerra do Pacífico Sul, “[...] se lembra de mim e me escreve. É feliz, mas meu coração me diz que eu não o verei mais”. Carlos foi o único que não escolheu, foi escolhido. “É o mais feliz dos quatro, tenho certeza. Tem tudo”. A trajetória da cidade que se constrói com grandes mazelas é representada na figura altiva e forte da mulher Lola, que construiu vidas, a elas se dedicou e, hoje, vive a tristeza da solidão. Não tem mais família, a não ser a distância, e, ao rememorar, entrelaça o público e o privado, a cidade e a família. 23 Material Complementar Sites: O melhor entendimento sobre o conceito de cidade, a diversidade de espaços urbanos diferenciados e alguns deles até cooptados pela narrativa literária, leva-nos a compreender as relações existentes entre espaço urbano e cidade. Para isso, leia o artigo que se encontra no site http://goo.gl/h4QDfs Para um melhor entendimento sobre a força e os significados da imagem icônica de Che Guevara e a sua trajetória histórica, leia o artigo que se encontra no site de Alberto Bonnet. Faça um texto sobre um exemplo de reapresentação de um símbolo forte imagético, de sua escolha. Artigo disponível em: https://pormaopropria.wordpress.com/2012/10/09/che-a-viagem-de-uma-imagem/ 24 Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura Referências BENJAMIN, Walter. O Flaneur. In: Charles Baudelaire. Um lírico no auge do capitalismo. Obras Escolhidas, Vol. III. São Paulo: Brasiliense, 1989. BRANCO, Frederico. Bares da Vida. In: Postais Paulistas. São Paulo: SENAC, 2002. Chartier, Roger. A História Cultural: Entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL, 1990. CRUZ, Heloisa de Faria. São Paulo em Papel e Tinta: Periodismo e vida urbana (1890- 1915). São Paulo: EDUC, 2000. DUPRÉ, Maria José. Éramos Seis. São Paulo: Ática, 1994. FERRARA, Lucrécia D´Aléssio. Olhar Periférico: informação, linguagem, percepção ambiental. São Paulo: EDUSP, 1999. LACAPRA, Domenick. História e Romance. In: RH, Revista de História da UNICAMP, nº 2/3. Campinas: UNICAMP, 1991. MATTA, Roberto da. A Casa e a Rua. Espaço, Cidadania, Mulher e Morte no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1997. MORSE, Richard. Formação Histórica de São Paulo. São Paulo: DIFEL, 1970. MUNFORD, Lewis. A Cidade na História: Suas origens, transformações e perspectivas. São Paulo: Martins Fontes, 1991. SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão. São Paulo: Brasiliense, 1995. TOLEDO, Benedito Lima de. São Paulo: Três cidades em um século. São Paulo: Duas Cidades, 1981. VEYNE, Paul. Como se Escreve a História. Brasília: UnB, 1995. VIGOTSKI, Lev S. Psicologia da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Williams, Raymond. O Campo e a Cidade. São Paulo: Cia. das Letras, 1988. 25 Anotações