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História, Culturas e 
identidades
Material Teórico
Responsável pelo Conteúdo:
Profa. Dra. Yvone Dias Avelino
Revisão Textual:
Profa. Ms. Luciene Oliveira da Costa Santos
A representação da cidade sob o olhar da Literatura
5
• A representação da cidade sob o olhar da Literatura
 · Apresentar conceitos sobre as relações postas pelo historiador acerca do uso do 
espaço “cidade” sob a fonte literária.
 · Refletir sobre o processo de desenvolvimento das cidades;
 · Apresentar conceitos e exemplos de teorias da cidade;
 · Apresentar conceitos e exemplos de teorias da literatura;
 · Desenvolver ideias sobre o uso da literatura como fonte para o historiador;
 · Apresentar o conceito de Representação, utilizado na História Cultural, 
para entendermos o uso das linguagens como fonte.
Caro(a) aluno(a),
Nesta unidade, A Representação da Cidade Sob o Olhar da Literatura, vamos 
conhecer os conceitos sobre cidade como representação, e o uso da literatura como fonte para 
o historiador. Procure fazer as leituras e desenvolver todas as atividades propostas. Procure 
ler com atenção o conteúdo disponibilizado e o material complementar. Assim, você terá um 
excelente aproveitamento. 
É importante lembrar que vários recursos, como as atividades de sistematização e 
aprofundamento, assim como o fórum de discussão e a aula em vídeo, contribuem para 
o processo de aprendizagem. Após apreender todos esses recursos, registre as dúvidas e 
apresente-as ao professor-tutor.
Nota:
• Para iniciar seu estudo e desenvolver o trabalho desta unidade, primeiro acesse o item Material 
Didático, no qual você vai encontrar o Texto Teórico, ou seja, o texto que vai servir de base 
para as atividades da unidade. Leia-o com atenção!
• Em seguida, verifique se houve uma suficiente compreensão do conteúdo, respondendo as 
perguntas das Atividades de Sistematização e, posteriormente, a Avaliação. Ambas tratam 
das questões fundamentais sobre o assunto abordado.
• Foram disponibilizados, ainda, Materiais Complementares, Apresentação Narrada e Aula 
em Vídeo para aprofundar a análise do tema.
• Finalmente, realize a Atividade de Aprofundamento da unidade, pois, nela, você vai encontrar 
dicas para saber mais sobre os assuntos apresentados.
Bons estudos!
A representação da cidade sob o olhar da 
Literatura
6
Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura
Contextualização
A importância dos estudos históricos a partir da forma como as contribuições da História 
Cultural na contemporaneidade ressaltam o valor de tais estudos e seus usos mais amplos.
Para iniciarmos esta unidade, vamos apresentar uma discussão pertinente entre o uso da 
literatura como fonte para ler e interpretar uma cidade. Ou seja, levantar por meio da trama 
literária acontecimentos, expressões, arquitetura, ruas, personagens e a beleza de uma cidade, 
especificamente, em nosso exemplo, a cidade de São Paulo. Para esclarecer essas questões, 
elegemos artigos extraídos dos links apontados abaixo. Leia-os e entenda um pouco mais 
sobre essa cidade polifônica.
Os Pais de Barros e a Imperial Cidade de São Paulo
As pesquisas desenvolvidas sobre a história urbana e a arquitetura da cidade de São 
Paulo no período imperial levaram-nos a reparar na presença crescente, e cada vez mais 
atuante, de destacados ituanos na capital paulista, a partir do último terço do oitocentismo.
O funcionamento da ferrovia de Santos a Jundiaí, iniciado em 1867, e a construção dos ramais 
ferroviários ligando Jundiaí a Campinas (1872) e a Itu (1873) propiciaram a rápida expansão 
da cultura cafeeira pelo Oeste da Província e facilitaram em muito a vida dos fazendeiros do 
interior. Na década de 1870, a economia agroexportadora paulista ingressava em sua etapa 
capitalista – o preço do produto sendo dado desde então pelo agricultor e não mais pelo 
intermediário, o comissário de café – e os grandes produtores que começavam a se transferir 
para São Paulo, já suficientemente imbuídos de mentalidade burguesa, puseram-se a aplicar 
seus excedentes de capital em empreendimentos urbanos de variada natureza, tornando-se 
assim responsáveis pela rápida transformação econômica, social e física da cidade.
(Texto elaborado a partir de uma palestra dada pelo autor no Museu Republicano de Itu em 15 de junho de 2007.)
Explore: Continua em: http://www.arquiamigos.org.br/info/info16/i-estudos.htm
7
O início da Avenida Angélica – Uma senhora muito atual!
13 de outubro de 2014. Por: Karen Szwarc
Em 1893, os empresários alemães Martinho Bouchard e Victor Nothmann decidiram erguer 
próximo ao centro de São Paulo um loteamento planejado de alto padrão para atrair a nova 
elite paulistana. Lançado em 1895, o Boulevard Burchard, como foi chamado, desenvolveu-
se em parte das terras que seriam futuramente conhecidas como bairro de Higienópolis. 
Na época, a região estruturou-se em duas artérias principais, a Avenida Higienópolis e a 
Avenida Itatiaia, aberta em 8 de março de 1898. Anos depois, a Itatiaia uniu-se à Avenida 
Circular, constituindo a Avenida Angélica, nome dado em 1907, homenagem à D. Angélica 
de Souza Queiroz de Barros, proprietária da Chácara Palmeiras. Inicialmente, seu tráfego de 
charretes e cavalos deu espaço a bondes, bicicletas e triciclos. Atualmente, passam por seus 
2,7 quilômetros uma média de 2.100 carros por hora nos horários de pico do trânsito.
Início do século XX
Os habitantes da Angélica do início do século passado faziam parte da tradicional elite 
paulistana, moradores em grandes palacetes com jardins imponentes e pomares bem 
recortados. Com o passar dos anos houve a descaracterização da área, em parte fruto da 
decadência de muitas famílias que perderam suas fortunas com a grande depressão de 1929. 
Vários dos casarões e seus grandes espaços verdes foram aos poucos parcelados para acomodar 
residências menores, ou se transformaram em casas de aluguel, pensões, escolas, processo 
que levaria o bairro como um todo a se tornar uma área abandonada ou desvalorizada, como 
ocorrera nos Campos Elíseos. No período seguinte, muitas mansões cederam lugar para os 
primeiros condomínios verticais enquanto a elite preferia mudar-se para regiões mais distantes 
e tranquilas. Ao mesmo tempo, elementos da classe média procuravam instalar-se no bairro.
Explore: Continua em: http://goo.gl/lk0Q0R 
8
Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura
A história das mentalidades obriga o historiador a interessar-
se mais de perto por alguns fenômenos essenciais de seu 
domínio: as heranças, das quais o estudo ensina a continuidade, 
as perdas, as rupturas (de onde, de quem, de quando vem esse 
hábito mental, essa expressão, esse gesto?); a tradição, isto é, as 
maneiras pelas quais se reproduzem as sociedades, as defasagens, 
produto do retardamento dos espíritos em se adaptarem às 
mudanças e da inegável rapidez com que evoluem os diferentes 
setores da história. Campo de análise privilegiado para a crítica 
das concepções lineares a serviço histórico. A inércia, força 
histórica capital, mais fato referente ao espírito do que à matéria, 
uma vez que esta evolui frequentemente mais rápido que o 
primeiro. Os homens servem-se das máquinas que inventam, 
conservando as mentalidades anteriores a essas máquinas. Os 
automobilistas têm um vocabulário de cavaleiros; os operários 
das fábricas do Século XIX, a mentalidade de camponeses, seus 
pais e avós. A mentalidade é aquilo que muda mais lentamente. 
História das mentalidades, história da lentidão na história.1
Não é de hoje que a história proclamou sua independência dos 
textos escritos. A necessidade dos historiadores em problematizar 
temas pouco trabalhados pela historiografia tradicional levou-
os a ampliar seu universo de fontes, bem como a desenvolver 
abordagens pouco convencionais, à medida que se aproximava 
das demais ciências sociais em busca de uma história total. Novos 
temas passaram a fazer parte do elenco de objetos do historiador, 
dentre eles a vida privada, o quotidiano,as relações interpessoais, 
etc. Uma micro-história que, para ser narrada, não necessita perder 
a dimensão macro, a dimensão social, totalizadora das relações 
sociais. Neste contexto uma história social da família, da criança, 
do casamento, da morte etc. passou a ser contada, demandando, 
para tanto, muito mais informações que os inventários, 
testamentos, curatela de menores, enfim, tudo o que uma 
documentação cartorial poderia oferecer. A tradição oral, os diários 
íntimos, a iconografia e a literatura apresentaram-se como fontes 
históricas da excelência das anteriores, mas que demandavam do 
historiador uma habilidade de interpretação com a qual não estava 
aparelhado. Tornava-se imprescindível que as antigas fronteiras e 
os limites tradicionais fossem superados. Exigiu-se do historiador 
que ele fosse também antropólogo, sociólogo, semiólogo e um 
excelente detetive, para aprender a relativizar, desvendar redes 
sociais, compreender linguagens, decodificar sistemas de signos 
e decifrar vestígios, sem perder, jamais, a visão do conjunto.
1 Op. Cit, p. 72.
9
A representação da cidade sob o olhar da Literatura
No Plano da Cultura, e como espaço de experimentação 
e gestação de significações e projetos sociais, o viver 
urbano na cidade de São Paulo apresenta-se como um 
campo privilegiado para a reflexão sobre a História Social.2
(CRUZ, 2000)
Nesta unidade, estaremos debruçados sob uma temática bastante complexa, que é a tentativa 
do historiador, dentro do que permite a História Cultural, fazer a relação entre cidades e literaturas, 
apresentando diversos autores e suas leituras sobre a representação histórica das cidades, além 
do papel destas nas criações de tramas literárias sobre o urbano e o cotidiano citadino.
O que são cidades? A ideia de cidade vem da antiguidade clássica, onde sua expressão mais 
alta aparece, em Atenas, no século de Péricles. Aí ocorreram as mais variadas manifestações 
artísticas e arquitetônicas, que marcaram de forma indelével o valor e a beleza desse espaço. 
Ainda hoje o turista se encanta com o que lhe proporciona o encontro com a Grécia, 
mesmo nestes momentos difíceis da unidade europeia. Nesse espaço urbano, foi cultuada 
a democracia, a filosofia e a tragédia, que dão ao mundo contemporâneo oportunidades 
políticas de convivência, culturas e produções literárias.
Não podemos também nos esquecer das grandes contribuições das cidades romanas, o 
sistema jurídico adotado pelo império romano sobretudo, assim como foram também as cidades 
medievais, com seus burgos, suas igrejas e suas feiras, “as cidades dos muros”, como eram 
conhecidas pelos homens que viviam no campo e que chegavam a esses territórios para as 
trocas comerciais e para as festas religiosas. Devemos nos lembrar das urbes, que nasceram do 
comércio, os célebres burgos, onde as corporações de ofício se tornaram famosas e embelezavam 
o espaço com as suas coloridas procissões, conforme a semioticista Lucrécia D´Aléssio Ferrara 
nos aponta em sua obra “Olhar Periférico: Informação, Linguagem, Percepção Ambiental”3:
No domingo, depois da Assunção de Nossa Querida 
Senhora, eu vi a grande procissão da Igreja de Nossa 
Senhora de Antuérpia, quando a cidade inteira, de todos 
os ofícios e de todas as condições achava-se reunida, cada 
qual a usar suas melhores roupas, conforme a sua posição.
E todas as ordens e corporações ostentavam as suas insígnias, 
pelas quais podiam ser reconhecidas.
[...] vi a procissão passar ao longo da rua, o povo alinhado em 
fileiras muito próximas umas das outras. Estavam ali os ourives, os 
pintores, os pedreiros, os bordadores, os escultores, os marceneiros, 
os carpinteiros, os marinheiros, os pescadores, os alfaiates, os 
sapateiros e, enfim, trabalhadores de todas as espécies, e muitos 
artesãos e negociantes que trabalhavam para ganhar a vida.4
2 CRUZ, Heloisa de Faria. São Paulo em Papel e Tinta: Periodismo e vida urbana (1890-1915). São Paulo: EDUC, 2000.
3 FERRARA, Lucrécia D´Aléssio. Olhar Periférico: informação, linguagem, percepção ambiental. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 1999.
4 Descrição de Albrecht Dürer, no princípio do século XIX, colhida em Lewis Mumford, A Cidade na História. Suas Origens, 
Transformações e Perspectivas. São Paulo: Martins Fontes/Ed. da Universidade de Brasília, 1982, p. 304, In: FERRARA, Lucrécia 
D´Aléssio. Olhar Periférico: informação, linguagem, percepção ambiental. 2. ed. São Paulo: EDUSP, 1999, p. 206.
10
Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura
São esses mestres do conhecimento que vão contribuir para uma fantástica expansão das 
funções comerciais das cidades, no momento em que o burguês, ajudando o rei a ocupar a sua 
expressão política, constitui o Estado Absolutista. A Europa se expande, sobretudo Portugal 
e Espanha. O desconhecido oceano é vencido pelos barinéis, naus e caravelas, e o mundo 
transoceânico é incorporado à Europa conquistadora.
 Saiba Mais
Para saber a diferença conceitual entre mar e oceano que, à primeira vista, pode 
nos parecer igual, veja a explicação em: 
http://www.alunosonline.com.br/geografia/diferenca-entre-mar-oceano.html 
As cidades do presente em nada se parecem a essas anteriores. A cidade, na 
contemporaneidade, é cheia de contradições e, nela, os homens vão construindo suas vidas 
nascendo, vivendo e morrendo. Essas cidades são pontos de partida para raciocinarmos e 
explorarmos a sua historicidade, pois elas passam por grandes transformações, e tornam-se 
tão importantes que se inserem, hoje, no universo dos estudos dos historiadores, sociólogos, 
antropólogos, arquitetos, literatos, geógrafos, semioticistas, levando-se em conta os grandes e 
pertinentes avanços da História Cultural, especificamente no nosso caso.
As transformações econômicas e sociais deixam na vida do 
cidadão marcas ou sinais que contam uma história não verbal 
pontilhada de imagens, de máscaras, que têm como significado 
o conjunto de valores, usos, hábitos, desejos e crenças que 
nutriram, através dos tempos, o cotidiano dos homens.5
A cidade é uma via de duas mãos, pois carrega os sinais e as marcas das transformações de 
cada época, gerando interpretações e características semelhantes e distintas ao mesmo tempo. 
São resíduos do passado que permanecem, e agregações do novo, que a embelezam ainda 
mais. A cidade pode ser lida como um palco de representações, de extremos, desencadeados 
pelo homem, que a inventou, e que a reinventa constantemente, às vezes, por grandes 
movimentos sociais, em notáveis acontecimentos históricos, embora sua constante reinvenção 
aconteça no cotidiano, num processo quase imperceptível, somente notável pelo olhar mais 
atento às transformações sociais.
Para saber mais sobre São Paulo, a cidade, foco de nosso 
objeto de estudo nesta unidade, assista ao vídeo em:
https://www.youtube.com/watch?v=NLMKl397uBw: 
5 FERRARA, Lucrécia, Op. Cit. , p. 202.
11
Figura 1 – A Favela de Paraisópolis e um dos condomínios do bairro do Morumbi, em São Paulo: contraste social
Fonte: Tuca Vieira/Folha Imagem
A cidade é, na realidade, um palco de contrastes. Nela, encontramos o carroceiro e, ao 
seu lado, no trânsito, um carro de luxo, assim como na imagem acima, uma favela ao lado de 
um condomínio de luxo, onde há uma piscina privada a cada residência. Se focarmos mais 
ainda nos contrastes, veremos uma casa da favela com três carros dentro, ou seja, mesmo 
dentro do espaço menos privilegiado, também há contrastes. Cidade é isso. É um espaço 
de complexidades e de convivências, que vamos ressaltar em exemplos de alguns autores, 
especificamente, na literatura.
Trazemos, inicialmente, um memorialista que observa a cidade em um cotidiano boêmio. 
Trata-se de Frederico Branco, quando resgata no capítulo “Bares da Vida”, na obra “Postais 
Paulistas”6, este universo. Nesse capítulo, podemos acompanhar o desenho de uma trajetória 
pessoal de crescimento, do autor e da cidade, por meio da leitura de diversas bebidas que 
são consumidas em momentos distintose em lugares diferentes. A cidade se transforma, 
e com ela o autor, as bebidas e os lugares. Símbolos, representações e imaginário em 
constante transformação e significado da sociedade e da história. Essas transformações, 
além de outras tantas que existem, podem ser observadas nas fotos abaixo, que retratam 
as várias fases da Avenida Paulista, em São Paulo, considerada pelos paulistanos o cartão 
postal da cidade em um concurso.
6 BRANCO, Frederico. Bares da Vida. In: Postais Paulistas. São Paulo: SENAC, 2002.
12
Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura
Figura 2 – Museu Paulista – USP
Foto: Jules Martin / Reprodução: José Rosael
1891 – Nesta pintura em aquarela, o pintor Jules Martin retrata a inauguração da Avenida 
Paulista, em 8 de dezembro de 1891. A iniciativa foi do empresário uruguaio Joaquim Eugênio 
de Lima que comprou os terrenos da região com o objetivo de criar um empreendimento 
imobiliário de alto luxo. A região era formada predominantemente por terrenos baldios 
cobertos por vegetação rasteira. Uma parte da Mata Atlântica original foi preservada, no atual 
Parque Tenente Siqueira Campos, conhecido como Parque Trianon.
Figura 3 – 1910 - São Paulo - Avenida Paulista
Fonte: Foto: Guilherme Gaensly
13
Figura 4 –1920 – Avenida Paulista 1920 (Fotos Antigas de cidades São Paulo)
Figura 5 – Avenida Paulista em 1952
14
Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura
Figura 6 – Avenida Paulista em 1976
A cidade é também personagem de quem a observa de forma mais visceral, mais profunda, de 
quem evita, por alguns momentos, o condicionamento que o filósofo alemão Walter Benjamin 
condenava, considerava como uma doença que impede a aproximação da cidade pelo cidadão.7 
As cidades apresentam-se como representações da cultura em suas múltiplas faces. Para 
compreendê-las, é necessário decodificarmos os significados que emergem das diversas 
expressões de linguagem que explicam o seu conteúdo e que vão nos dar o caminho para 
interpretá-las na sua arquitetura, nos transeuntes, nos sinais de trânsito, nos espaços públicos 
como praças, onde convivem crianças e idosos, e nas diferentes marcas de suas variadas 
identidades no tempo e no espaço. As cidades são experiências visuais, lugares saturados de 
significações, acumuladas através do tempo.
 Como vimos no exemplo da Avenida Paulista, as transformações, com a expansão territorial 
e a variedade das construções e da população, fazem surgir na cidade de São Paulo outros 
espaços, também repletos de novos e grandes significados e interpretações. Alguns desses 
locais são compostos por burgueses, como é o caso dos bairros de Higienópolis e Campos 
Elíseos, com praças e jardins bem cuidados, ruas de traçados perfeitos, onde encontramos 
imensas mansões, onde habitam os detentores do poder.
São Paulo cresce num ritmo tão grande, apagando no espaço de uma vida humana, o 
ambiente de uma geração anterior. O jovem de hoje não conhece a São Paulo de ontem. E o 
idoso de hoje se deslumbra e também se assusta com ela. As lembranças são mais duradouras 
que o cenário construído, e não encontram nele um apoio e um reforço. Os estudos históricos 
tornam-se, então, duplamente necessários, para que não caiam no esquecimento os lugares 
da vida passada e, para restituir profundidade, a experiência do ambiente urbano. Tudo isso 
ocorre também nos grandes centros mundiais, não podemos crer nem afirmar que em apenas 
um espaço urbano isso ocorra, e que essas vivências sejam únicas. São únicas para aqueles 
que ali circulam, mas são fenômenos inerentes a qualquer urbe.
7 BENJAMIN, Walter. O Flaneur. In: Charles Baudelaire. Um lírico no auge do capitalismo. Obras Escolhidas. Vol. III. São Paulo: 
Brasiliense, 1989.
15
O desenvolvimento da percepção da existência de uma linguagem, o seu entendimento 
e a sua aprendizagem se revelam no cotidiano urbano, e são considerados de fundamental 
importância para a compreensão desse fenômeno. A cidade deixa de ser somente um lugar 
onde se habita para adquirir um sentido maior, uma significação mais subjetiva da história 
pessoal de cada sujeito e do conjunto da sociedade.
Esse significado de maior amplitude só pode ser conhecido por meio da leitura dos signos 
urbanos, do seu reconhecimento e da sua compreensão. Não é por outro motivo que a autora 
já citada, Lucrécia Ferrara, passa também em sua obra por uma análise de Walter Benjamin, 
quando comenta sobre a narrativa de lembranças, método que proporciona a construção de 
uma leitura das imagens que a cidade apresenta, levando à compreensão do fenômeno urbano 
e de suas acentuadas transformações.
Movidos por todas essas reflexões, lançamos o nosso olhar de historiadores sobre as representações 
da cidade pelo viés da literatura, que pode ser definida em uma palavra: representação. O historiador 
não deve encarar a obra literária somente como um veículo de conteúdo, pois a importância e o 
valor dado ao texto literário não estão exatamente na confrontação que dele se pode fazer com 
a realidade exterior. Mas sim na forma como a realidade é perquirida, analisada, aprofundada, 
questionada, interpretada e recriada. Assim, as transformações daqueles elementos não literários 
em expressões estéticas criam olhares que se lançam sobre o objeto, ou seja, uma outra forma de 
observá-lo e de se criar uma relação com o real.
O arqueólogo e historiador francês Paul Marie Veyne, especialista em história da antiguidade 
romana, em sua obra “Como se Escreve a História”, nos diz que:
[...] o historiador passou a agir como um romancista ao tecer 
um fio de narração aos fatos por ele escolhidos, diferenciando-
se do verdadeiro romancista, enquanto relator de eventos 
reais, acontecidos, em contraposição de uma narrativa 
substancializada na imaginação sobre o mundo sentido8.
Atenção
Aceitar e empregar a literatura como fonte, ao lado das demais 
consideradas tradicionais significa buscar um novo método, pois se trata 
de uma linguagem específica, que o historiador só pode conduzir por 
meio de códigos e metodologias próprios para uma leitura do contexto 
possível para a ciência histórica.
Segundo o intelectual russo Lev Vigotski, que direcionou seus estudos e escritos para diversas 
áreas, como a psicologia social, a pedagogia etc., em sua obra “Psicologia da Arte”9, aponta:
A arte é o social em nós, e se o seu efeito se processa em um indivíduo 
isolado, isto não significa, de maneira nenhuma, que suas raízes e 
essência sejam individuais. [...] O social existe até onde há apenas um 
homem e as suas emoções. [...] A refundição das emoções fora de 
nós realiza-se por força de um sentimento social que foi objetivado, 
levado para fora de nós, materializado e fixado nos objetos 
externos da arte, que se tornaram instrumentos da sociedade.10
8 VEYNE, Paul. Como se Escreve a História. Brasília: UnB, 1995.
9 VIGOTSKI, Lev S. Psicologia da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
10 Op. Cit., p. 315.
16
Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura
Sendo produção artística, a literatura ilustra, aclara e reforça os valores de uma cultura, não 
se prestando a apresentar a confirmação de um saber que podia adquirir de outras maneiras 
como, por exemplo, por meio de uma pesquisa histórica. A literatura toma para si princípios 
e leis diferentes dos existentes da realidade exterior, que já é inventariada. Além do mais, 
o artista/escritor está sempre superando os sistemas de classificação, com os quais uma 
sociedade apresenta suas significações provisórias do mundo. A literatura não reproduz a 
realidade exterior, mas sim a transforma, dá um caráter imaginário, ficcional, exprimindo o 
que nela está reprimido ou latente.
Para obter uma melhor análise e interpretação das obras de arte, Vigotski se voltou também 
à literatura, não deixando de lado considerações sobre arquitetura, artes plásticas, e música, 
ressaltando que todas essas linguagens têm em comum a contradição entre conteúdo e forma. 
No exemplodado pelo autor em seu referido livro em relação à análise literária, conteúdo e 
material surgem como sinônimos, entendidos como a realidade imediata, as situações da vida 
cotidiana e que servem de base para a obra artística. Segundo Vigotski:
[...] devemos entender por material tudo que o poeta usou como 
já pronto – relações do dia-a-dia, histórias, casos, o ambiente, os 
caracteres, tudo o que existia antes da narração e pode existir 
fora e independente dela, caso alguém narre usando suas próprias 
palavras para reproduzi-lo de modo inteligível e coerente.11
A obra literária considerada obra de arte, que age sobre seus leitores, é aquela que 
dramatiza as contradições e exacerba-as, leva-as às últimas consequencias, ou seja, 
representa-as, e oferece, assim, um princípio de respostas a perguntas ainda não 
claramente formuladas, seja na ficção ou na realidade. Ela libera possibilidades subjacentes 
a certas situações, joga com essas possibilidades, dá-lhes vida e, assim, tenta explorar as 
virtudes inerentes a uma época ou espaço. As obras literárias que melhor traduzem os 
movimentos sociais e históricos não são as que retratam de forma escrupulosamente exata 
os acontecimentos anteriores, mas sim aquelas que exprimem o que falta a um grupo 
social, e não aquilo que ele possui plenamente.
A literatura fala ao historiador e ao leitor sobre a história que não ocorreu, sobre as 
possibilidades que não vingaram, sobre os planos que não se concretizaram. Desde Heródoto, 
historiador grego da antiguidade clássica, tal afirmação já era posta. Podemos, portanto, 
pensar numa história dos desejos não consumados, dos possíveis sonhos não realizados, das 
ideias não vingadas.12
Ocupa-se o historiador, portanto, da realidade, enquanto o escritor é atraído pela 
possibilidade. Cabe ao historiador levantar esse excedente de sentidos que estão fixados 
no romance. O método de apreensão de dados históricos por meio da literatura se faz, 
segundo o historiador e crítico literário americano Domenick Lacapra13, entre a união do 
autor, do texto e do contexto, ou seja, usar a linguagem para interpretar contextos como 
representação de uma experiência histórica. É a forma de notar como se apresentou uma 
dada realidade.
11 Op. Cit., p. 177.
12 SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão. São Paulo: Brasiliense, 1995.
13 LACAPRA, Domenick. História e Romance. In: RH, Revista de História da UNICAMP, nº 2/3. Campinas: UNICAMP, 1991.
17
Trazemos como exemplo concreto o romance de Maria José Dupré, “Éramos Seis”14, 
publicado pela primeira vez na década de 1940. A autora relata em sua obra a trama de um 
núcleo familiar constituído de seis pessoas: pai, mãe e quatro filhos, que viviam na cidade de 
São Paulo, na Avenida Angélica, na primeira metade do século XX.
Figura 7 – Avenida Angélica, por volta de 1959, vista de uma janela do edifício Santo André, 
que � ca na esquina da Rua Piauí, em frente ao Parque Buenos Aires
 Saiba Mais
O enredo do romance de Maria José Dupré acontece numa avenida muito 
conhecida dos paulistanos, a Avenida Angélica, hoje até discutida na mídia pela 
mudança da permissão de quilometragem. O local descrito pela autora existia 
realmente, ou seja, a casa da família Lemos, personagens principais da trama. 
Hoje, nesse local, ergueu-se um edifício, resposta à grande verticalização da 
cidade. Um pouco mais abaixo, na mesma rua, existe hoje, na esquina com a 
Alameda Barros, um restaurante, chamado Angélica Grill, inaugurado em 1996. 
No mesmo local onde existia o palacete do Dr. Aguiar de Barros e dona Maria 
Angélica, que dá nome à Avenida. Esse palacete foi inspirado no Palácio de 
Chalottenburg, na Alemanha. 
14 DUPRÉ, Maria José. Éramos Seis. São Paulo: Ática, 1994.
18
Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura
Figura 6 – Palacete de Dona Angélica e Dr. Aguiar de Barros, onde hoje se encontra o restaurante Angélica Grill
Figura 7 – Fachada do Restaurante Angélica Grill
Maria José Dupré foi um dos nomes mais populares da literatura brasileira. Nasceu em 
Botucatu, São Paulo, em 1905. Aprendeu a ler com a mãe e com o irmão, e, ainda menina, 
estudou música e pintura. Veio para a capital paulista, cursou a Escola Normal Caetano de 
Campos, onde se formou professora. Casou-se com o engenheiro Leandro Dupré, e estreou 
na literatura em 1941 com “O Romance de Teresa Bernard”. A literata sempre escreveu para 
crianças. Publico, em 1943, o romance que trabalharemos, com uma esfuziante apresentação 
do escritor Monteiro Lobato, autor da famosa obra do Sítio do Picapau Amarelo, e criador do 
personagem Jeca Tatu.
O sucesso da autora se estabeleceu rápido, em virtude também da grande quantidade de 
obras que escreveu, tanto para o público adulto, quanto para crianças e jovens. Apesar dessas 
várias publicações, foi esse romance que a projetou efetivamente no ramo editorial. Foi essa 
obra traduzida para muitas línguas, e até transformada em filme na Argentina e em telenovela 
no Brasil. A escritora morreu em 1984.
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A trama central criada por Maria José Dupré, nessa obra, foi apresentar a trajetória 
de uma família urbana de classe média. A construção do dia a dia dos personagens que 
constituem o núcleo familiar da trama está ligada diretamente ao próprio cotidiano da 
cidade e, em alguns momentos de tensão, ao do próprio país. A tessitura literária que 
foi desenvolvida trouxe para a produção do romance brasileiro o drama de uma história 
sem pré-determinação, onde o inesperado se transformou em um elemento fundamental 
da vida da família Lemos. As experiências vividas pelos seis integrantes da narrativa (o 
pai, o senhor Júlio; a mãe, Dona Eleonora, ou simplesmente Lola; Julinho; Alfredo; 
Carlos e Isabel) são acompanhadas pelo olhar atento da narradora e personagem central, 
Lola. As representações das diferentes experiências vivenciadas por eles são filtradas 
pelo olhar atento, carregado de ternura, da mãe, que vai memorizá-los mais tarde. O 
romance “Éramos Seis” foi considerado um livro clássico, que vem, desde que foi lançado, 
emocionando variadas gerações de leitores. Para o casal Lemos, tão fundamental quanto 
o sonho da casa própria, era a educação dos filhos que ocupava o universo dos seus 
devaneios, e era plano de vida edificado pelos membros da família.
Nesse enredo, a autora descortina memórias e fixa temporalidades. As lembranças de tia 
Emília trazem a história da memória dos pioneiros de São Paulo, das famílias ricas, em que a 
sua é uma delas. A memória sobre os barões do café e a burguesia industrial, que emergiram 
do centro urbano com o processo da urbanização. A cidade de São Paulo se desodorizava e se 
valorizava, com profundas e grandes transformações. 
A narradora não deixa de apresentar também a evolução econômica da família na relação 
com as mudanças da cidade. Novas casas comerciais, que elevavam as concorrências, novas 
moradias, com arquitetura arrojada, de estilo europeu, novos postos de trabalho como as 
mecânicas de automóveis (onde um dos filhos foi trabalhar), que proliferaram com a mão de 
obra necessária, com o aceleramento da indústria automobilística. São Paulo é uma cidade que 
passou por várias mudanças no breve período de sua história como cidade importante: três 
cidades construídas e destruídas num século, como diz Benedito Lima de Toledo, em sua obra 
“Três Cidades em um Século”15, na qual o autor trabalha o desenvolvimento dessa cidade. Os 
sujeitos alterando a cidade e sendo alterados também por ela.
Relações sutis de um processo normal. Loteria, inflação, juros, concorrência, seguro de 
vida, a rua se transformando com novas edificações, novos valores, entre os ricos na Avenida 
Paulista, e o conceito do nu na arte. O trabalho da personagem principal de Éramos Seis, 
Lola, é uma contraposição ao não trabalho das outras vizinhas, que passeavam de automóvel 
e tomavam chá ou café com bolo às tardes, em confeitarias elegantes, que despontavam na 
arlequinal cidade, e visitavam umas às casas das outras.A nossa narradora fazia os bolos, e 
vivia disso, assim como do tricô. 
O café, principal símbolo da riqueza de São Paulo na época, é também símbolo de trocas, 
de experiências, de encontros alegres, mas também é servido nos momentos de sofrimento, 
de morte. O significado do café para a vida das pessoas no romance aparece com clareza 
durante o sofrimento do filho mais velho, onde a mãe promete, caso este se recupere de sua 
enfermidade, permanecer cinco anos sem beber café e, se necessário for, o resto da vida. O 
café em troca da saúde de um ente querido. O chá e o café são representações e estilos de 
lugares sociais nessa São Paulo.
15 TOLEDO, Benedito Lima de. São Paulo: Três cidades em um século. São Paulo: Duas Cidades, 1981.
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Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura
A autora nos conduz aos caminhos da memória, narrado pela principal personagem, no 
próprio título com que rotula a obra. Éramos seis. O tempo verbal utilizado já está no passado. 
Éramos, não somos. Quantos se perderam, e como foi, eis como o chamado despertou à 
leitura, e esta, à memória do que foi narrado. Cada momento tem seu próprio tempo, que 
se embrica no tempo da construção da modernidade da cidade, e envolve cada sujeito, onde 
ele vive, sonha e sofre. Há uma temporalidade, que vem de fora, que vai se ajustando a cada 
outra época, e aí vai surgir outro processo. É nesta confluência de eixos, de temporalidades 
diferentes, que vão emergir conflitos e tensões. Ao interpretá-los, descobrem-se os cruzamentos 
de inúmeras e diferentes durações de tempo e, assim, vai-se compreender melhor o vivido.
Ao abstrair a construção e a desconstrução da cidade de São Paulo, através do modo 
de viver de determinados personagens sociais no seu cotidiano, configurou-se como algo 
fundamental para problematizar os processos sociais que sequestraram aos sujeitos o papel de 
fazer história. Estudar a família revela para o historiador importantes vestígios que recuperam 
trajetórias de vida, de pessoas, num espaço dinâmico em transformação.
As relações de vizinhança na obra vão possibilitar visualizar uma teia de relações fundamentais 
para o situar-se na cidade, relações essas muitas vezes decisivas para a sobrevivência. A 
personagem dona Genu, a vizinha, simboliza o socorro, para a vida e para a morte. Por outro 
lado, o contraste com o campo e a cidade, importante diálogo para o historiador, tão bem 
colocado na obra de Williams16, é percebido no romance por meio da personagem Clotilde, 
irmã de Lola, como o espaço desconhecido, apreciado no diálogo da página 166, que vai nos 
revelar esta tensão:
No interior onde vivia, ia à casa de amigas, ia visitar doentes, ia à igreja, ia 
entregar doces. E, assim, corria a vida; tão simples, sem complicações 
e sem correrias e problemas. Tudo lentidão e paz. Para que pressa?
Em São Paulo, todo mundo corria, todo mundo andava de 
pressa, para chegar na hora. Todo mundo vivia afobado.
Corre, que o bonde vem vindo.
Não tem lugar neste bonde, temos que esperar outro.
Então chegaremos atrasados.
Quem é a vizinha da esquina? 
Não sei.
Não sabe? Pois não são vizinhos?
Somos. Faz mais de três anos que vieram morar aí, mas não sei 
quem são. 
Deus me livre e guarde! Viver assim, sem conhecer ninguém, é 
pior que viver no deserto.
O espaço doméstico simboliza o espaço do trabalho feminino. A mãe é subordinada. É a 
provedora. O pai é o símbolo da autoridade. O senhor Júlio conduzia com rigor a sua família, 
exigindo disciplina e obediência dos filhos e da mulher. Sustentava a casa com o seu trabalho 
honesto, e controlava a economia das despesas caseiras, mas gastava com jogo, mulheres e 
bebida. Quando chegava embriagado, era um terror. A família sofria, e a mãe contemporizava. 
Havia a hierarquização do poder familiar: pai, mãe, filho mais velho, e a filha, era sempre a 
última nessa hierarquia. O homem podia não trabalhar, era o caso do filho Alfredo. A mulher, 
16 Williams, Raymond. O Campo e a Cidade. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.
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não, pois a mãe tinha dupla e tripla jornada. Uma mãe resignada, devotada, que pensava 
somente na felicidade dos filhos. Por outro lado, o espaço da casa se revelou conflitivo. 
Se configurou num campo tenso de lutas e de valores; negações de costumes e tradições 
relacionadas ao casamento. É o caso de Isabel, a rebeldia na adolescência e depois da morte do 
pai. Havia uma racionalidade do trabalho e a negação de posições políticas conservadoras. É o 
caso de Alfredo, o filho que se rebelava e se voltava para a ideologia do Partido Comunista. O 
aburguesamento da cidade acontecia com o aburguesamento dos sujeitos. É o caso de Julinho, 
o filho que buscou seu futuro no casamento; e a retidão do caráter dos sujeitos na educação 
rígida e no comportamento social, o caso de Carlos, o filho mais bem-comportado.
A questão da moradia apareceu como algo fundamental para uma família trabalhadora. A 
casa representa o privado, o abrigo, o direito, o espaço da cidadania17. O significado da casa, 
como símbolo de união dos filhos, mas ao mesmo tempo, a casa como espaço da tristeza, da 
morte, da solidão.
A vivência de experiências inesperadas no cotidiano da família é apresentada com o 
surgimento das revoluções e da guerra. O envolvimento de Alfredo em reuniões do Partido 
Comunista; Carlos participando como soldado na Revolução de 1930. Os antagonismos de 
valores presentes no cotidiano dos sujeitos sociais em são Paulo, nas décadas de 1920 e 1930 
são bem explicitados nas relações da família com a cidade, nos seus novos comportamentos 
sociais derivados do progresso trazido pela modernidade. Talvez, propositadamente, a autora 
não questiona a própria construção da categoria revolução.
A cidade e as inclusões e exclusões – a cidade produz loucos. A cidade precisa controlar os 
desajustados, os doentes e os loucos. A família também produz, e ao mesmo tempo, precisa 
cuidar dos seus loucos. O espaço reservado para eles foi construído, são os territórios da 
exclusão, longe da família, e longe da cidade. Os que não têm dinheiro, não podem mandar 
seus loucos para o hospício. O caso da cunhada de Dona Candoca revelou as características 
da loucura: não falava, não saía de casa, não reconhecia as pessoas, falava sozinha, cantava. 
São representações da cidade, que de forma sutil, confundem-se com as questões familiares. 
As relações de parentesco configuram-se como essenciais no processo de constituição 
familiar. Dinheiro emprestado por tia Emília; empréstimos de roupas e joias para eventos 
importantes; alimentos; presentes; solidariedade nas necessidades como trabalho, o cuidar dos 
netos por parte dos avós etc.
A família vai diminuindo, e a cidade vai crescendo. A família vai se desestruturando, e a 
cidade vai se estruturando. São ecos e ruídos de um passado e de um presente que vão se 
entrelaçando nas tramas da vida, entre a ficção e o real. Chartier salienta que as representações 
e as ações estão sempre conectadas, e que estas são basicamente as formas de funcionamento 
de uma sociedade, sobretudo quando se pensa estudar a história cultural18.
Destino triste de uma frágil, mas forte mulher, que sonhou, suportou e sobreviveu às derrotas 
e agruras de uma vida inteira de sofrimento. A morte ceifou-lhe duas vidas, o marido e o filho 
Carlos; Julinho e Isabel casam-se e nas suas vidas não há espaço para ela. São gerações 
diferentes, onde a pacata e conformada Lola não desejava ser um estorvo. Não queria que 
a carga da sua pobreza empanasse o brilho da riqueza de seus filhos e netos. Era como 
transformar um céu brilhante em nuvens sombrias.
17 MATTA, Roberto da. A Casa e a Rua. Espaço, Cidadania, Mulher e Morte no Brasil. Rio de Janeiro: Rocco, 1997.
18 Chartier, Roger. A História Cultural: Entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL, 1990.
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Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura
A casa tão sonhada durante uma vida inteira, não tem mais valor, sentido, ou objetivo. Só 
lhe restou rememorar.Reminiscências de uma vida. Tempos de guerra, tempos de paz. Às 
vezes, os filhos e os netos fazem uma visita onde hoje ela mora, num pequeno quarto, numa 
pensão de freiras. Julinho é negociante, está rico e é feliz com a família que constituiu no Rio 
de Janeiro. Isabel casou-se com o homem que escolheu. Trabalha, luta e ajuda o marido. Não 
é mais uma menina, é uma mulher, e é feliz. Alfredo tem o que quer; sem responsabilidade, 
sem ter que pensar no futuro, vive ao sabor da aventura, de terra em terra. Está na guerra 
do Pacífico Sul, “[...] se lembra de mim e me escreve. É feliz, mas meu coração me diz que 
eu não o verei mais”. Carlos foi o único que não escolheu, foi escolhido. “É o mais feliz dos 
quatro, tenho certeza. Tem tudo”.
A trajetória da cidade que se constrói com grandes mazelas é representada na figura altiva 
e forte da mulher Lola, que construiu vidas, a elas se dedicou e, hoje, vive a tristeza da solidão. 
Não tem mais família, a não ser a distância, e, ao rememorar, entrelaça o público e o privado, 
a cidade e a família.
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Material Complementar
Sites:
O melhor entendimento sobre o conceito de cidade, a diversidade de espaços urbanos 
diferenciados e alguns deles até cooptados pela narrativa literária, leva-nos a compreender 
as relações existentes entre espaço urbano e cidade. Para isso, leia o artigo que se 
encontra no site 
http://goo.gl/h4QDfs
Para um melhor entendimento sobre a força e os significados da imagem icônica de 
Che Guevara e a sua trajetória histórica, leia o artigo que se encontra no site de Alberto 
Bonnet. Faça um texto sobre um exemplo de reapresentação de um símbolo forte 
imagético, de sua escolha.
Artigo disponível em: https://pormaopropria.wordpress.com/2012/10/09/che-a-viagem-de-uma-imagem/
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Unidade: A representação da cidade sob o olhar da Literatura
Referências
BENJAMIN, Walter. O Flaneur. In: Charles Baudelaire. Um lírico no auge do capitalismo. 
Obras Escolhidas, Vol. III. São Paulo: Brasiliense, 1989.
BRANCO, Frederico. Bares da Vida. In: Postais Paulistas. São Paulo: SENAC, 2002.
Chartier, Roger. A História Cultural: Entre práticas e representações. Lisboa: DIFEL, 1990.
CRUZ, Heloisa de Faria. São Paulo em Papel e Tinta: Periodismo e vida urbana (1890-
1915). São Paulo: EDUC, 2000.
DUPRÉ, Maria José. Éramos Seis. São Paulo: Ática, 1994.
FERRARA, Lucrécia D´Aléssio. Olhar Periférico: informação, linguagem, percepção 
ambiental. São Paulo: EDUSP, 1999.
LACAPRA, Domenick. História e Romance. In: RH, Revista de História da UNICAMP, nº 
2/3. Campinas: UNICAMP, 1991.
MATTA, Roberto da. A Casa e a Rua. Espaço, Cidadania, Mulher e Morte no Brasil. Rio de 
Janeiro: Rocco, 1997.
MORSE, Richard. Formação Histórica de São Paulo. São Paulo: DIFEL, 1970.
MUNFORD, Lewis. A Cidade na História: Suas origens, transformações e perspectivas. 
São Paulo: Martins Fontes, 1991.
SEVCENKO, Nicolau. Literatura como Missão. São Paulo: Brasiliense, 1995.
TOLEDO, Benedito Lima de. São Paulo: Três cidades em um século. São Paulo: Duas 
Cidades, 1981.
VEYNE, Paul. Como se Escreve a História. Brasília: UnB, 1995. 
VIGOTSKI, Lev S. Psicologia da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1999.
Williams, Raymond. O Campo e a Cidade. São Paulo: Cia. das Letras, 1988.
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Anotações

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