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AULA 1 CRIATIVIDADE E GESTÃO DE IDEIAS PARA INOVAÇÃO Profª Sonia Regina Hierro Parolin 02 CONVERSA INICIAL Estamos dando início à aula sobre “Criatividade e gestão das ideias para a inovação”. A primeira aula aborda sobre “O que é criatividade?”, e trataremos, também, sobre o que não é criatividade… Teremos cinco temas com o objetivo de entender o funcionamento desse potencial do ser humano para que possamos, ao final do curso, compreender como a criatividade é uma das alavancas da inovação. Os temas são: conceitos de criatividade, a fisiologia do processo criativo, o perfil da personalidade criativa, os facilitadores e bloqueadores mentais à criatividade e a mudança do mindset (tensão psíquica). CONTEXTUALIZANDO Desde o fim do século XX, o tema “criatividade para a inovação” se consolidou como estratégico para a sobrevivência das empresas tanto em tempos de turbulência quanto para a competitividade global. A criatividade também vem sendo abordada no âmbito da gestão estratégica do conhecimento como de extrema importância para a inovação tecnológica empresarial (criatividade como uma das alavancas do conhecimento para a inovação). “Mais do que um fenômeno global, a gestão do conhecimento se consolidou, em fins do século passado, como fator crítico de sucesso para a criação eficaz de vantagens competitivas nas organizações” (Sbragia et al, 2006, p. 79). Essa constatação é ilustrada no caso da Matsushita Eletric Industrial Company (atual Panasonic), de Fábio Ferreira Batista (Batista, 2015), no qual descreve suscintamente o desafio enfrentado pela empresa, em 1985, quando o Departamento de Desenvolvimento de Produtos (DDP) da Matsushita trabalhava intensamente em uma nova máquina doméstica de fazer pão. A equipe enfrentava um problema: a máquina não batia a massa adequadamente. Houve algumas tentativas de resolver o problema, mas nada funcionou. A solução começou a surgir quando Ikuko Tanaka, engenheira e responsável pelo software da máquina, se propôs a aprender a bater massa de pão com o chefe dos padeiros do Osaka International Hotel e utilizar esse conhecimento para sanar o problema detectado. Ao final de um ano, a máquina foi relançada com sucesso! Como a criatividade foi aplicada nesse caso? 03 TEMA 1 – CONCEITOS DE CRIATIVIDADE Primeiramente, vamos entender o que é criatividade. E começar discutindo o que não é criatividade, comentando sobre a origem do tal “jeitinho brasileiro” (Guia dos quadrinhos, 2017). Walt Disney, em 1942, durante uma viagem pela América Latina, veio ao Brasil acompanhado de 18 artistas, na qual constatou que entre os brasileiros se contava muitas piadas de papagaio. Criou, então, o personagem “Zé Carioca” para um desenho animado e depois para histórias em quadrinho. O “Zé” tinha um jeitão cheio de ginga e conversa fácil, simpático, malandro, bom de “lábia”. Tido, inicialmente, como um herói (afinal, foi criado pelo Walt Disney!), andava sempre de guarda-chuva e vestia-se como um típico malando da Lapa da época (antigo bairro boêmio do Rio de Janeiro): chapéu, terninho, gravatinha borboleta e sapato impecavelmente engraxado. Várias versões da apresentação do personagem foram sendo introduzidas, porém, nada foi alterado em sua personalidade. E o “Zé Carioca” propagou um jeito de ser malandro associado ao jeito de ser do brasileiro. Há também a história da “lei de Gérson”, a lei da vantagem atribuída ao grande jogador de futebol Gérson de Oliveira Gomes, cuja habilidade com a bola nos pés fez dele um dos maiores meio-campistas de seu tempo. Com uma carreira irretocável, ele também ficou conhecido como o “canhotinha de ouro”. Interessante notar que que ele era lembrado pelos seus companheiros de time pelo apelido de papagaio, pois passava os jogos inteiros falando com os colegas, orientando-os ou estimulando-os para que fizessem melhor. Em 1976, Gérson foi convidado a estrelar a propaganda de determinada marca de cigarros, em que ele afirma gostar de levar vantagem em tudo e convidava o espectador a levar vantagem também. Fora do contexto, o “gosto de levar vantagem em tudo” transformou-se em “lei de vantagem”, usada de forma pejorativa, antiética, significando uma regra para aqueles que querem levar vantagens sobre os demais. Tanto no jeito do Zé Carioca como na lei da vantagem, a criatividade do brasileiro foi associada à malandragem, ao jeito de buscar vantagens com soluções em detrimento de outros. Essa percepção disseminou-se amplamente em nosso país. Passada as décadas, hoje podemos afirmar que os personagens (não as pessoas a elas relacionadas) apresentam muito mais da astúcia do que da criatividade. E por quê? Vejamos a diferença entre ambos no dicionário. 04 Quadro 1 – Astúcia x criatividade Astúcia: Habilidade de enganar, esperteza, sagacidade. Qualidade de quem age de modo a buscar benefícios e vantagens às custas de outras pessoas. Pessoa ardilosa. Criatividade: Originalidade. Qualidade da pessoa criativa, de quem tem capacidade, inteligência e talento para criar, inventar ou fazer inovações. Capacidade de compor a partir da imaginação. Fonte: Dicionário Online de Português, 2017. Com as definições anteriores, queremos ressaltar que a criatividade da qual nos detemos é aquela que tem a ética como base. E assim, podemos retornar ao caso da engenheira Ikuko Tanaka, para exemplificarmos os conceitos de criatividade. Apresentamos dois conceitos de criatividade a seguir. Quadro 2 – Definições de criatividade A criatividade está relacionada às capacidades mentais de mudar, produzir ideias relevantes ou inusitadas e ver além da situação imediata. Envolve as capacidades cognitivas, produtivas e avaliativas da mente ou intelecto. (Kneller, 1965, p. 52-61). “[…] Podemos afirmar que a espécie humana tem capacidade inata e exclusiva de raciocinar construtivamente. Essa capacidade produz o que tranquilamente pode ser chamado de criatividade” (Predebon, 1997, p. 27). Fonte: Elaborado com base em Kneller, 1965; Predebon, 1997. A iniciativa da engenheira Ikuko Tanaka de aprender como bater a massa de pão com o chefe dos padeiros do Osaka International Hotel foi uma atitude inusitada no meio industrial, na época. As suas capacidades mentais foram impulsionadas pelo profundo empenho em resolver o problema da máquina. O DDP da Matsushita já trabalhava intensamente na nova máquina doméstica de fazer pão e seus pesquisadores sabiam que teriam sucesso com ela se resolvessem o problema da massa. Ao surgir a ideia de sair do espaço do Departamento para buscar uma solução fora do círculo, em que as opções já haviam se esgotado, a engenheira “viu além da situação imediata” e pôs-se a “raciocinar construtivamente” na busca de soluções, quando vislumbrou a oportunidade de aprender-fazendo com o padeiro. Ela foi fazer uma imersão, aprender os movimentos de amassar o pão com maestria para transpor esse conhecimento à nova máquina na Matsushita. Atualmente, esse comportamento de imersão da engenheira na situação-problema vem sendo adotado como uma 05 das etapas do Design Thinking no ambiente dos desafios para a inovação, e será tratado em próximas aulas. Com o exemplo anterior, pode-se enfatizar, portanto, que as capacidades mentais para a criatividade são percebidas pela sua materialidade expressa nas ações que evidenciam as capacidades de mudança e de produção, com visão além do imediatismo. A criatividade está relacionada às capacidades produtivas da mente e manifesta-se na materialidade, na concretude, ou seja, em ações, projetos e obras (artísticas, culturais, entre outras), ou seja, na atividade criativa. E qual a diferença entre criatividade e imaginação? Imaginar é criar? O devaneio é criatividade? Imaginar também é uma faculdade do ser humano muito presente nas mentes criativas, como na dosartistas, por exemplo. O devaneio não induzido é o estado mental da pessoa que se deixa levar pela imaginação, pelas lembranças ou sonhos. Se, por um lado, a criatividade e a imaginação estão intimamente relacionadas com as artes, a publicidade e propaganda, por exemplo, para a inovação, a criatividade é o início do processo para concepção de novas ideias que necessitarão ser desenvolvidas, prototipadas, testadas, avaliadas para cumprirem sua finalidade de produção. Aqui temos outra importante distinção: criatividade e inovação. O conceito de Stoner e Freemann (1985, p. 311), adaptado com exemplos atualizados, diria que a criatividade é concebida como a geração de uma nova ideia, e inovação, como a transformação de uma nova ideia em uma nova empresa (Apple Computer), em um novo produto (celular), em um novo serviço (Netflix), em um novo processo (internet banking), ou em um novo método de produção (Indústria 4.0). Temos dois conceitos importantes: criatividade é a geração de uma nova ideia e inovação é a transformação de nova ideia em algo que traz retorno à empresa, ou seja, ganhos financeiros e competividade. E qual a diferença entre criatividade, invenção e inovação? Voltamos ao caso da máquina doméstica de fazer pão da Matsushita. Em algum momento, a ideia de desenvolver a máquina de pão foi acatada, transformada em um projeto no DDP, e os primeiros protótipos (primeiros exemplares da máquina) foram construídos para testagem das funcionalidades e dos resultados, ou seja, da qualidade dos pães. Os primeiros exemplares são considerados resultados de atividade inventiva, pois ainda estão sendo aperfeiçoados até alcançarem as funcionalidades pretendidas (os movimentos de amassar o pão aprendido pela engenheira com o chefe do Hotel). Quando o 06 protótipo foi finalizado e pôde ser detalhado em manuais etc., teve-se uma invenção e é ela que pode ser patenteada. Quando o projeto do protótipo foi transferido para o processo de fabricação, ou seja, quando a Matsushita passou a fabricar as novas máquinas de pão para vender, em se tratando de um novo produto que não existia no mercado, isso foi uma inovação em produto. Concluímos, então, que criatividade é uma atividade cognitiva, de geração de uma nova ideia. Invenção é uma ideia que se concretiza de uma descoberta, e que envolve alguma função tecnológica. Inovação é algo novo, útil, diferente, tem mercado potencial e tem como característica a criação de uma função de produção. Portanto, inovação requer criatividade. Invenção requer criatividade. Mas a criatividade pode existir sem invenção e inovação. Criatividade é geração de ideias; invenção envolve descoberta, a qual envolve uma função tecnológica, e inovação é algo novo que tem mercado. Para finalizar esse item, ressaltamos que, por ser uma capacidade da mente, a criatividade é aplicada em todas as circunstâncias de vida. Todas as pessoas são criativas por natureza. O que ocorre, segundo pesquisa de George Land e Beth Jarman, na década de 1970, é que no decorrer do tempo há um significativo declínio da criatividade nos seres humanos. Pesquisadores, por exemplo, aplicaram testes de criatividade utilizados pela Nasa na seleção de engenheiros e cientistas em 1.600 crianças de três a cinco anos de idade. Eles acompanharam essas crianças ao longo do seu crescimento para refazer a pesquisa com elas em idades avançadas (10 anos, 15 anos e após 25 anos). O resultado mostrou-se impressionante, como podemos ver na tabela a seguir. Tabela 1 – Resultados do teste de criatividade da Nasa Fonte: Derisso Filho, 2017. 07 A capacidade de respostas dessas pessoas quando eram crianças alcançou 98% de originalidade, sendo que, quando estavam com 15 anos, o percentual baixou incrivelmente para 12%. Os pesquisadores aplicaram o mesmo teste para outras 200 mil pessoas acima de 25 anos e os percentuais caíram muito mais, chegando aos 2%. A conclusão da pesquisa é que o ser humano aprende a “não ser criativo”. Vários são os motivos, como: bloqueios mentais, contexto sócio- econômico-afetivo, meio profissional etc. Contudo, o quadro pode ser revertido. Esse assunto nos leva ao próximo tema. TEMA 2 – FISIOLOGIA DO PROCESSO CRIATIVO A “fisiologia” estuda o funcionamento dos organismos tanto em relação à fisiologia vegetal quanto à fisiologia animal. A fisiologia do processo criativo aborda o funcionamento desse processo, o qual se refere à dinâmica do pensamento convergente e do pensamento divergente, introduzida pelo psicólogo Guilford, em 1955. Após essa teoria passar por um amadurecimento, tem-se o que segue: Pensamento convergente: refere-se à capacidade da mente de elaborar soluções, partindo de conhecimentos, experiências e informações, de raciocínios lógicos e dedutivos, além de técnicas e aprendizagens. Pensamento divergente: refere-se à capacidade de explorar mentalmente ideias ou soluções originais, com predomínio do intuitivo, do pensamento subjetivo e sensível; busca a novidade e a inovação relacionando os fatos com a mente aberta e ampliada (open mind); os erros são tidos como ensaios e tentativas para chegar às ideias ou soluções. Todas as pessoas possuem a capacidade cognitiva para o pensamento convergente e divergente no processo criativo. Quanto mais a pessoa desenvolve o pensamento convergente, mais capacidade tem de explorar o pensamento divergente na síntese criativa e maior a chance de ampliar o leque de ideias, com aprofundamento de informações, habilidades, deduções etc. O pensamento convergente é capaz de nutrir o pensamento divergente para a busca das novas ideias. Na prática, como essa dinâmica funciona? A dinâmica entre os pensamentos convergente e divergente no processo criativo é cíclica e traduz-se em sínteses criativas. Segundo Jairo Siqueira (2017), “o pensamento divergente tem o propósito de criar opções, abrir e explorar novos caminhos e gerar uma 08 grande quantidade e diversidade de ideias. O pensamento convergente tem o propósito de avaliar e selecionar as ideias ou conceitos mais promissores.” Na figura a seguir exemplificamos, de maneira didática, como a dinâmica ocorre. O ponto de partida é o problema, a situação-problema ou o desafio que se pretende explorar para encontrar novas ideias e soluções. A apresentação desse problema, desafio etc., é fruto do pensamento convergente, que elaborou adequadamente a pergunta desafiadora, ou delineou adequadamente a situação- problema. Nesse momento, a preparação é fundamental, com dados e informações que possam auxiliar a etapa seguinte, que é a da abertura. Nessa etapa, o pensamento divergente vai explorar todas as opções, com grande diversidade, com explosão de ideias. Nenhum julgamento ou verificação das ideias são feitos nessa fase, mas sim o uso de algumas técnicas e, após essa explosão de ideias, quando há um esgotamento natural do processo divergente, o processo do pensamento convergente é retomado para verificar e avaliar as ideias para que se opte por uma ou mais soluções ou ideias que sejam relevantes no momento. Figura 1 – Dinâmica entre pensamento convergente e divergente Essa dinâmica está na base do brainstorming, que será melhor detalhado na aula 3. Contudo, a dinâmica do pensamento convergente e divergente independe do uso de uma técnica específica; quanto mais a pessoa estiver envolvida com o tema, maior a propensão dessa dinâmica de produzir várias sínteses criativas. Em uma técnica específica, como o brainstorming, ao definir- se pelas opções e soluções, novos aprofundamentos e ideações surgirão 09 naturalmente. O plano de ação vai dirigir os esforços em direção à implementação das soluções para obter-se resultados e avaliá-los. TEMA 3 – PERFIL DA PERSONALIDADE CRIATIVA Algumas perguntas intrigantes: se a criatividade é natural no ser humano, como ocorreo declínio conforme a pesquisa de George Land e Beth Jarman? Se o quadro pode ser revertido, como fazê-lo? A essa pergunta, respondemos que os exercícios e as técnicas de estímulo à criatividade são excelentes auxiliares nesse processo. Para entender o perfil da personalidade criativa, precisamos discutir um pouco o que ocorre em torno das pessoas que mantêm em alta seu nível de criatividade. Enquanto a pesquisa de George Land e Beth Jarman demonstraram o declínio da criatividade e alguns motivos que conduzem a esse quadro, Howard Gardner fez o caminho inverso e nos aponta boas pistas sobre como manter a criatividade ao analisar a vida de sete pessoas altamente criativas em seus campos de domínio. Após a pesquisa, Gardner sintetizou em três os componentes que interferem na atividade criativa, que podem ser generalizados para todas as pessoas: 1. Indivíduo que cria. 2. Relação do indivíduo com o trabalho em que está empenhado. 3. Relação entre o indivíduo e as outras pessoas do seu mundo. Ele considera que “toda a atividade criativa se origina, primeiro, da relação entre o indivíduo e o mundo objetivo do trabalho e, segundo, dos laços do indivíduo e os outros seres humanos” (Gardner, 1996, p. 11-12). Veja a representação gráfica desses componentes na figura a seguir. Figura 2 – Componentes que interferem na atividade criativa, por Gardner Fonte: Elaborado com base em Gardner, 1996, p. 10. 010 Vamos interpretar a figura retomando a experiência da engenheira Ikuko Tanaka de aprender como bater a massa de pão com o chefe dos padeiros do Osaka International Hotel. Foi uma atitude inusitada no meio industrial, na época. Não temos informações sobre a história da sua vida e, para extrairmos as reflexões da experiência, vamos utilizar o caso denominando-a somente de “engenheira”. A segurança íntima da engenheira ao propor aprender a bater a massa de pão com o chefe dos padeiros do hotel traz em si a manutenção da criatividade natural na infância como aquele mestre que guia suas ações, sem temor do ridículo ou do julgamento precipitado das pessoas à sua volta. Nesse ponto, temos o primeiro componente: o indivíduo, que tem a criança interior como o seu mestre. Seu envolvimento e comprometimento com o desenvolvimento da nova máquina de pão impulsionou, naturalmente, o seu desejo de aprender aquela nova habilidade, ter domínio da técnica para compreender e transpor ao mecanismo que o DDP deveria desenvolver para simular os movimentos das mãos ao amassar a massa do pão. E foi o que ela fez: não recuou diante desse impulso, auxiliado pela manutenção “da sua criança interior como seu mestre”, o que a ajudou na convicção de que essa seria a melhor opção e fez com que ela obtivesse a aprovação da empresa para dedicar-se a essa experiência. Temos, por fim, o último componente. A segurança íntima da engenheira em propor à empresa a solução já citada várias vezes, inusitada até então, nos leva a deduzir que, na sua infância, a relação familiar e com seus professores era de segurança e de suporte, de incentivo e abertura. Na fase adulta, a pessoa transpõe essa segurança na relação com as demais pessoas no seu contexto. Resumindo, a liberdade criativa natural na criança leva-a ao brincar com alto grau de envolvimento e imersão na imaginação. A preservação dessa condição considera a qualidade do contexto familiar e dos relacionamentos dos indivíduos na infância (relacionamentos com pais, grau de permissividade, por exemplo). A área de domínio, de maior expressividade das pessoas (exemplos: capacidade relacional em Gandhi, alto grau de empatia em Freud, a lógica em Einstein) interferem na atividade criativa em seu campo de domínio, com picos e vales na produtividade durante a vida. Na maturidade, as pessoas em torno de outras pessoas interferem na atividade criativa. O perfil da personalidade criativa é decorrente da relação desses três componentes (indivíduo, seu trabalho e as pessoas do seu contexto) e a atitude criativa, resultante dessa relação, aponta para comportamentos que podem ser 011 observados e desenvolvidos. Citamos sete tipos de comportamento (Ader, 2010, p. 10): 1. Ter um espírito de procura contínua de novas soluções e alternativas: que significa ter curiosidade, buscar a investigação, buscar fontes diferentes para inspiração e, principalmente, o desejo de mudança. 2. Motivação intrínseca para realizar um progresso significativo: que significa ter energia interior suficiente para superar os desafios sem desistir no meio do caminho; não se deixar desanimar pelas pressões externas, julgamentos precipitados e desanimadores de outras pessoas; e, principalmente, saber acolher as adversidades com a mente aberta. 3. Originalidade na utilização de novos enfoques e de novos métodos: que significa saber utilizar o conhecimento (pensamento convergente) relacionando-o a elementos sem relação aparente (pensamento divergente); e, principalmente, compreender como a contribuição das demais pessoas é crucial ao processo criativo. 4. Vontade e flexibilidade de adaptação às necessidades do meio: significa que ser criativo não é sair por aí quebrando regras e normas irresponsavelmente e que a flexibilidade não significa abrir mão de valores que se deseja preservar; principalmente, significa que adaptar-se às necessidades do meio é compreender o ponto de equilíbrio na atitude criativa. 5. Inconformismo com a situação existente: que significa uma inquietude saudável com relação à situação existente, uma firme sensação interna de que aquilo pode ser melhorado e, principalmente, uma certeza íntima de que existe novas formas resolver aquela situação ou aquele problema. 6. Formação profunda numa área de conhecimento: alcançar o domínio em sua área de atuação, de forma a levar a pessoa à superação da técnica rumo ao virtuosismo, ao original naquele campo de atuação e, principalmente, à certeza de que o conhecimento é cíclico e que sempre devemos e podemos aprender mais. 7. Desejos de encontrar formas de melhorar: que significa uma atitude, a proatividade, a prontidão da ação e, principalmente, uma certeza íntima de que pode contribuir com algo para a mudança. Comportamentos dessa natureza auxiliam o adulto a preservar a liberdade criativa natural de sua criança interior, a conquistar maior segurança nos 012 relacionamentos que interferem na atividade criativa e a empenhar-se no aprimoramento do seu campo de domínio, quer profissional, quer em outras áreas em que sua aptidão se manifesta. Entretanto, o indicativo das pesquisas de George Land e Beth Jarman para um acentuado declínio da criatividade na fase adulta das pessoas é sinal de que as questões do contexto social (relação familiar e tipo de educação escolar) resultaram em bloqueios mentais à criatividade. Esse é o tema do próximo item, ao par dos fatores facilitadores da criatividade. TEMA 4 – FACILITADORES E BLOQUEADORES INDIVIDUAIS À CRIATIVIDADE Os facilitadores individuais, mentais, são decorrentes dos sete tipos de comportamento para a atividade criativa que apresentamos no item anterior. Para mantê-los e sustentá-los no dia a dia, precisamos de autoconhecimento, desenvolvimento do self, percepção ampliada, desejo de transformação, flexibilidade e comunicação, elementos que sustentam o potencial criativo nas pessoas. Figura 3 – Facilitadores individuais da criatividade O que significa cada um desses elementos facilitadores mentais da criatividade? Autoconhecimento: ou conhecimento de si mesmo, fruto da introspecção, da viagem interior para conhecer suas atitudes mentais, suas tendências, gostos, afinidades, valores etc. O exercício do autoconhecimento facilita – com fator equilibrante do ser – conhecer melhor nossa energia criativa, que é transformadora e inesgotável. Combater a falsa crença de que“não sou criativo” faz parte do autoconhecimento. 013 Desenvolvimento do self: ou a busca pela autorrealização, que é intensificada pela satisfação que se obtém ao canalizar a energia criativa na transformação de algo, nas atitudes criativas que promovem as mudanças para melhor. Percepção ampliada: própria do pensamento divergente na busca de novas alternativas, novas associações e, inclusive, perceber nuanças antes não visualizadas. Desejo de transformação: já abordado anteriormente, que significa a atitude proativa, a prontidão da ação e a certeza íntima de que pode contribuir com algo para a mudança. Comunicabilidade: disposição e facilidade em se comunicar e transmitir suas ideias para as demais pessoas. Flexibilidade: já abordada anteriormente, não significa quebrar regras irresponsavelmente, mas sim requer compreender o ponto de equilíbrio na atitude criativa. A conjugação dos comportamentos criativos nas atitudes do dia a dia são os facilitadores mentais que nos conduzirão à criatividade. Se voltarmos a analisar a experiência da engenheira, encontraremos esses elementos nas suas atitudes. Os bloqueadores individuais, mentais, são em maior número, infelizmente. E são muito fortes, pois muitos deles são frutos da formação familiar e da formação escolar. Lembramos de outro personagem das histórias infantis, estrelados na TV americana em 1960: a hiena Hardy, parceira do leão Lippy. O Hardy ficou marcado pela sua postura sempre pessimista e pela sua tradicional frase, aqui transcrita na versão em português: “Oh vida, oh céus, oh azar… isso não vai dar certo!” O Hardy nunca achava que alguma ideia do Lippy poderia dar certo… mas nunca o abandonava e sempre estava ao seu lado em todas as circunstâncias. Os desenhos eram assistidos pelas crianças da época (os adultos de hoje) com a mesma frequência que assistiam aos desenhos do Zé Carioca. Então, era uma mistura de linguagem subliminar entre “levar vantagem na malandragem” e que, se tivessem alguma ideia melhor, “nunca daria certo.. oh! céus!”. Bloqueios implantados nas mentes infantis, com reflexos na vida adulta. E como estão os desenhos de hoje? Melhor irmos adiante. Portanto, quais são os maiores bloqueadores, inibidores ou obstáculos individuais da criatividade? Veja o quadro a seguir. 014 Quadro 3 – Bloqueadores, inibidores ou obstáculos da criatividade Hábitos arraigados: maneira de agir adquirida pela repetição frequente de um ato, uso ou costume, de tal forma internalizada que temos muita dificuldade de abandoná-la ou nem vemos motivos para isso. Conformação social: pessoa vive conforme um contexto sócio-político-cultural sem questioná-lo, sem observar se os seus comportamentos e valores são fruto da influência desse contexto. A pessoa se conforma com a situação vivida, sem muito esforço para transformá-la. Indução e manipulação: forma de raciocínio em que a pessoa é movida somente por ganhos ou vantagens materiais. Vontade limitada: a pessoa tem baixa motivação para sustentar um desafio e quer logo chegar ao final da tarefa, resolvendo rapidamente os problemas voltados à criatividade. Ignorância: no sentido de ignorar que as pessoas podem aprender mais e mais, negar-se ao aprendizado constante. Fonte: Elaborado com base em Mirshawka Júnior. Hábitos arraigados, conformação social, indução e manipulação, vontade limitada e ignorância sobre o próprio potencial são alguns dos principais bloqueadores da criatividade. Todos eles podem ser combatidos por nós ao nos esforçarmos por adotar os comportamentos apontados no item anterior para aumentarmos nossa capacidade criativa. A existência de qualquer um desses bloqueadores em mais alto grau na engenheira, por exemplo, teria sido suficiente para inibi-la na sua experiência com o chefe do hotel. Transpor as barreiras, os bloqueios individuais à criatividade, não é uma tarefa trivial, ou seja, não é nada fácil e requer tempo e empenho. Além disso, exige mudança no nosso modelo mental, como abordaremos a seguir. TEMA 5 – A MUNDANÇA DO MINDSET: TENSÃO PSÍQUICA Segundo Peter Senge, em sua obra A quinta disciplina, “os modelos mentais referem-se aos mapas do mundo que guardamos a longo tempo na nossa memória e as percepções de curto prazo que as pessoas constroem com base no seu raciocínio cotidiano.” Tudo o que armazenamos na nossa memória e percepções, mesmo que se mantenham no nível inconsciente, interferem na maneira de pensar, de agir e até de sentir, formando nosso modelo mental. 015 Como os modelos mentais interferem no processo criativo? Eles é que sustentam as ideias arraigadas, os hábitos, as crenças e os paradigmas difíceis de superar, pois, inúmeras vezes, são os modelos mentais que inclusive impedem as pessoas de terem consciência dessa interferência. Algumas barreiras e bloqueios individuais à criatividade são difíceis de romper, pois se sustentam nos modelos mentais negativos. Seu rompimento requer tempo e empenho, autoconhecimento e resiliência. Ao romper alguns desses modelos e percepções, a capacidade criativa se amplia, alterando o modelo mental, ou o mindset. Quando Gardner estudou as vidas das personalidades criativas, ele identificou os modelos mentais positivos que foram sustentados desde a infância por essas pessoas. Modelos mentais negativos têm consequências e impactos negativos no processo criativo. Surge, então, a “tensão criativa”, que não quer dizer, nesse caso, estresse ou ansiedade, mas sim, a energia que precisamos ter para vencer os modelos mentais e ter clareza sobre a realidade em que vivemos, bem como alcançar a nova visão sobre onde desejamos chegar. Isso requer perseverança e paciência. A engenheira empenhou-se por vários meses em seu projeto, desde aprender a amassar o pão até transpor o movimento de amassar para a nova máquina, com introdução de novas tecnologias e procedimentos. A “tensão criativa”, nesse caso, está relacionada à experiência sustentada pela vontade, pois ela carregava consigo a certeza de que daria certo. Bastava comprovar e isso não era tarefa fácil de se fazer… O rompimento de alguns modelos mentais e percepções arraigadas ampliam a capacidade criativa. O que não quer dizer romper com valores culturais ou áreas de domínio, por exemplo. Gandhi preservou os valores culturais do seu povo e preservou seu ideal de libertação da Índia pela não violência. Sabendo o que se quer preservar, todo o resto pode mudar. FINALIZANDO Nessa primeira aula abordamos “O que é criatividade?” e, também, o que não é criatividade. Contextualizamos o tema explorando o caso da empresa Matsushita Eletric Industrial Company, sobre a solução encontrada pela engenheira Ikuko Tanaka para a nova máquina doméstica de fazer pão. O caso é 016 normalmente estudado na esfera da Gestão do Conhecimento, evidenciando a criatividade como alicerce do conhecimento para a inovação. Refletimos sobre o pensamento convergente e divergente na síntese criativa, sobre os perfis da personalidade criativa e os comportamentos que podem ser estimulados. Elencamos, ainda, os elementos facilitadores e bloqueadores mentais à criatividade e a mudança do modelo mental. A próxima aula será sobre o processo criativo em si, considerando que o conceito de criatividade já foi apreendido. 017 REFERÊNCIAS ADER – AGENCIA DE DESAROLLO ECONÓMICO REGIONAL DE LA RIOJA (Coord.). Manual de Criatividade Empresarial. Faro: Universidade do Agrave; CRIA – Centro Regional para a Inovação do Algarve, 2010. Disponível em: <http://www.cria.pt/media/1366/manual-creatividade-portugues_pt_web.pdf>. Acesso em: 14 set. 2017. BATISTA, F. F. Caso empresa Matsushita Eletric Industrial Company. 2015. Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/observatorio/casoteca/105- casoteca/casos-de-gestao-do-conhecimento/132-a-criacao-do-conhecimento-organizacional-o-caso-da-matsushita-electric-industrial-company>. 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