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AULA 1 
CRIATIVIDADE E GESTÃO DE 
IDEIAS PARA INOVAÇÃO
Profª Sonia Regina Hierro Parolin 
 
 
02 
CONVERSA INICIAL 
Estamos dando início à aula sobre “Criatividade e gestão das ideias para a 
inovação”. A primeira aula aborda sobre “O que é criatividade?”, e trataremos, 
também, sobre o que não é criatividade… Teremos cinco temas com o objetivo 
de entender o funcionamento desse potencial do ser humano para que possamos, 
ao final do curso, compreender como a criatividade é uma das alavancas da 
inovação. Os temas são: conceitos de criatividade, a fisiologia do processo 
criativo, o perfil da personalidade criativa, os facilitadores e bloqueadores mentais 
à criatividade e a mudança do mindset (tensão psíquica). 
CONTEXTUALIZANDO 
Desde o fim do século XX, o tema “criatividade para a inovação” se 
consolidou como estratégico para a sobrevivência das empresas tanto em tempos 
de turbulência quanto para a competitividade global. 
A criatividade também vem sendo abordada no âmbito da gestão 
estratégica do conhecimento como de extrema importância para a inovação 
tecnológica empresarial (criatividade como uma das alavancas do conhecimento 
para a inovação). “Mais do que um fenômeno global, a gestão do conhecimento 
se consolidou, em fins do século passado, como fator crítico de sucesso para a 
criação eficaz de vantagens competitivas nas organizações” (Sbragia et al, 2006, 
p. 79). 
Essa constatação é ilustrada no caso da Matsushita Eletric Industrial 
Company (atual Panasonic), de Fábio Ferreira Batista (Batista, 2015), no qual 
descreve suscintamente o desafio enfrentado pela empresa, em 1985, quando o 
Departamento de Desenvolvimento de Produtos (DDP) da Matsushita trabalhava 
intensamente em uma nova máquina doméstica de fazer pão. A equipe enfrentava 
um problema: a máquina não batia a massa adequadamente. Houve algumas 
tentativas de resolver o problema, mas nada funcionou. A solução começou a 
surgir quando Ikuko Tanaka, engenheira e responsável pelo software da máquina, 
se propôs a aprender a bater massa de pão com o chefe dos padeiros do Osaka 
International Hotel e utilizar esse conhecimento para sanar o problema detectado. 
Ao final de um ano, a máquina foi relançada com sucesso! Como a criatividade foi 
aplicada nesse caso? 
 
 
03 
TEMA 1 – CONCEITOS DE CRIATIVIDADE 
Primeiramente, vamos entender o que é criatividade. E começar discutindo 
o que não é criatividade, comentando sobre a origem do tal “jeitinho brasileiro” 
(Guia dos quadrinhos, 2017). 
Walt Disney, em 1942, durante uma viagem pela América Latina, veio ao 
Brasil acompanhado de 18 artistas, na qual constatou que entre os brasileiros se 
contava muitas piadas de papagaio. Criou, então, o personagem “Zé Carioca” 
para um desenho animado e depois para histórias em quadrinho. O “Zé” tinha um 
jeitão cheio de ginga e conversa fácil, simpático, malandro, bom de “lábia”. Tido, 
inicialmente, como um herói (afinal, foi criado pelo Walt Disney!), andava sempre 
de guarda-chuva e vestia-se como um típico malando da Lapa da época (antigo 
bairro boêmio do Rio de Janeiro): chapéu, terninho, gravatinha borboleta e sapato 
impecavelmente engraxado. Várias versões da apresentação do personagem 
foram sendo introduzidas, porém, nada foi alterado em sua personalidade. E o “Zé 
Carioca” propagou um jeito de ser malandro associado ao jeito de ser do brasileiro. 
Há também a história da “lei de Gérson”, a lei da vantagem atribuída ao 
grande jogador de futebol Gérson de Oliveira Gomes, cuja habilidade com a bola 
nos pés fez dele um dos maiores meio-campistas de seu tempo. Com uma carreira 
irretocável, ele também ficou conhecido como o “canhotinha de ouro”. 
Interessante notar que que ele era lembrado pelos seus companheiros de time 
pelo apelido de papagaio, pois passava os jogos inteiros falando com os colegas, 
orientando-os ou estimulando-os para que fizessem melhor. Em 1976, Gérson foi 
convidado a estrelar a propaganda de determinada marca de cigarros, em que ele 
afirma gostar de levar vantagem em tudo e convidava o espectador a levar 
vantagem também. Fora do contexto, o “gosto de levar vantagem em tudo” 
transformou-se em “lei de vantagem”, usada de forma pejorativa, antiética, 
significando uma regra para aqueles que querem levar vantagens sobre os 
demais. 
Tanto no jeito do Zé Carioca como na lei da vantagem, a criatividade do 
brasileiro foi associada à malandragem, ao jeito de buscar vantagens com 
soluções em detrimento de outros. Essa percepção disseminou-se amplamente 
em nosso país. 
Passada as décadas, hoje podemos afirmar que os personagens (não as 
pessoas a elas relacionadas) apresentam muito mais da astúcia do que da 
criatividade. E por quê? Vejamos a diferença entre ambos no dicionário. 
 
 
04 
Quadro 1 – Astúcia x criatividade 
Astúcia: 
Habilidade de enganar, esperteza, 
sagacidade. Qualidade de quem age 
de modo a buscar benefícios e 
vantagens às custas de outras 
pessoas. Pessoa ardilosa. 
Criatividade: 
Originalidade. Qualidade da pessoa 
criativa, de quem tem capacidade, 
inteligência e talento para criar, 
inventar ou fazer inovações. 
Capacidade de compor a partir da 
imaginação. 
Fonte: Dicionário Online de Português, 2017. 
 Com as definições anteriores, queremos ressaltar que a criatividade da qual 
nos detemos é aquela que tem a ética como base. E assim, podemos retornar ao 
caso da engenheira Ikuko Tanaka, para exemplificarmos os conceitos de 
criatividade. Apresentamos dois conceitos de criatividade a seguir. 
Quadro 2 – Definições de criatividade 
A criatividade está relacionada às capacidades mentais de mudar, produzir ideias 
relevantes ou inusitadas e ver além da situação imediata. Envolve as capacidades 
cognitivas, produtivas e avaliativas da mente ou intelecto. (Kneller, 1965, p. 52-61). 
 
“[…] Podemos afirmar que a espécie humana tem capacidade inata e exclusiva de 
raciocinar construtivamente. Essa capacidade produz o que tranquilamente pode ser 
chamado de criatividade” (Predebon, 1997, p. 27). 
Fonte: Elaborado com base em Kneller, 1965; Predebon, 1997. 
 A iniciativa da engenheira Ikuko Tanaka de aprender como bater a massa 
de pão com o chefe dos padeiros do Osaka International Hotel foi uma atitude 
inusitada no meio industrial, na época. As suas capacidades mentais foram 
impulsionadas pelo profundo empenho em resolver o problema da máquina. O 
DDP da Matsushita já trabalhava intensamente na nova máquina doméstica de 
fazer pão e seus pesquisadores sabiam que teriam sucesso com ela se 
resolvessem o problema da massa. Ao surgir a ideia de sair do espaço do 
Departamento para buscar uma solução fora do círculo, em que as opções já 
haviam se esgotado, a engenheira “viu além da situação imediata” e pôs-se a 
“raciocinar construtivamente” na busca de soluções, quando vislumbrou a 
oportunidade de aprender-fazendo com o padeiro. Ela foi fazer uma imersão, 
aprender os movimentos de amassar o pão com maestria para transpor esse 
conhecimento à nova máquina na Matsushita. Atualmente, esse comportamento 
de imersão da engenheira na situação-problema vem sendo adotado como uma 
 
 
05 
das etapas do Design Thinking no ambiente dos desafios para a inovação, e será 
tratado em próximas aulas. 
 Com o exemplo anterior, pode-se enfatizar, portanto, que as capacidades 
mentais para a criatividade são percebidas pela sua materialidade expressa nas 
ações que evidenciam as capacidades de mudança e de produção, com visão 
além do imediatismo. A criatividade está relacionada às capacidades produtivas 
da mente e manifesta-se na materialidade, na concretude, ou seja, em ações, 
projetos e obras (artísticas, culturais, entre outras), ou seja, na atividade criativa. 
E qual a diferença entre criatividade e imaginação? Imaginar é criar? O 
devaneio é criatividade? Imaginar também é uma faculdade do ser humano muito 
presente nas mentes criativas, como na dosartistas, por exemplo. O devaneio 
não induzido é o estado mental da pessoa que se deixa levar pela imaginação, 
pelas lembranças ou sonhos. 
Se, por um lado, a criatividade e a imaginação estão intimamente 
relacionadas com as artes, a publicidade e propaganda, por exemplo, para a 
inovação, a criatividade é o início do processo para concepção de novas ideias 
que necessitarão ser desenvolvidas, prototipadas, testadas, avaliadas para 
cumprirem sua finalidade de produção. Aqui temos outra importante distinção: 
criatividade e inovação. O conceito de Stoner e Freemann (1985, p. 311), 
adaptado com exemplos atualizados, diria que a criatividade é concebida como a 
geração de uma nova ideia, e inovação, como a transformação de uma nova ideia 
em uma nova empresa (Apple Computer), em um novo produto (celular), em um 
novo serviço (Netflix), em um novo processo (internet banking), ou em um novo 
método de produção (Indústria 4.0). 
Temos dois conceitos importantes: criatividade é a geração de uma nova 
ideia e inovação é a transformação de nova ideia em algo que traz retorno à 
empresa, ou seja, ganhos financeiros e competividade. 
E qual a diferença entre criatividade, invenção e inovação? 
Voltamos ao caso da máquina doméstica de fazer pão da Matsushita. Em 
algum momento, a ideia de desenvolver a máquina de pão foi acatada, 
transformada em um projeto no DDP, e os primeiros protótipos (primeiros 
exemplares da máquina) foram construídos para testagem das funcionalidades e 
dos resultados, ou seja, da qualidade dos pães. Os primeiros exemplares são 
considerados resultados de atividade inventiva, pois ainda estão sendo 
aperfeiçoados até alcançarem as funcionalidades pretendidas (os movimentos de 
amassar o pão aprendido pela engenheira com o chefe do Hotel). Quando o 
 
 
06 
protótipo foi finalizado e pôde ser detalhado em manuais etc., teve-se uma 
invenção e é ela que pode ser patenteada. Quando o projeto do protótipo foi 
transferido para o processo de fabricação, ou seja, quando a Matsushita passou 
a fabricar as novas máquinas de pão para vender, em se tratando de um novo 
produto que não existia no mercado, isso foi uma inovação em produto. 
Concluímos, então, que criatividade é uma atividade cognitiva, de geração 
de uma nova ideia. Invenção é uma ideia que se concretiza de uma descoberta, e 
que envolve alguma função tecnológica. Inovação é algo novo, útil, diferente, tem 
mercado potencial e tem como característica a criação de uma função de 
produção. 
Portanto, inovação requer criatividade. Invenção requer criatividade. Mas a 
criatividade pode existir sem invenção e inovação. Criatividade é geração de 
ideias; invenção envolve descoberta, a qual envolve uma função tecnológica, e 
inovação é algo novo que tem mercado. 
Para finalizar esse item, ressaltamos que, por ser uma capacidade da 
mente, a criatividade é aplicada em todas as circunstâncias de vida. Todas as 
pessoas são criativas por natureza. O que ocorre, segundo pesquisa de George 
Land e Beth Jarman, na década de 1970, é que no decorrer do tempo há um 
significativo declínio da criatividade nos seres humanos. Pesquisadores, por 
exemplo, aplicaram testes de criatividade utilizados pela Nasa na seleção de 
engenheiros e cientistas em 1.600 crianças de três a cinco anos de idade. Eles 
acompanharam essas crianças ao longo do seu crescimento para refazer a 
pesquisa com elas em idades avançadas (10 anos, 15 anos e após 25 anos). O 
resultado mostrou-se impressionante, como podemos ver na tabela a seguir. 
Tabela 1 – Resultados do teste de criatividade da Nasa 
 
Fonte: Derisso Filho, 2017. 
 
 
07 
A capacidade de respostas dessas pessoas quando eram crianças 
alcançou 98% de originalidade, sendo que, quando estavam com 15 anos, o 
percentual baixou incrivelmente para 12%. Os pesquisadores aplicaram o mesmo 
teste para outras 200 mil pessoas acima de 25 anos e os percentuais caíram muito 
mais, chegando aos 2%. A conclusão da pesquisa é que o ser humano aprende a 
“não ser criativo”. Vários são os motivos, como: bloqueios mentais, contexto sócio-
econômico-afetivo, meio profissional etc. Contudo, o quadro pode ser revertido. 
Esse assunto nos leva ao próximo tema. 
TEMA 2 – FISIOLOGIA DO PROCESSO CRIATIVO 
A “fisiologia” estuda o funcionamento dos organismos tanto em relação à 
fisiologia vegetal quanto à fisiologia animal. A fisiologia do processo criativo 
aborda o funcionamento desse processo, o qual se refere à dinâmica do 
pensamento convergente e do pensamento divergente, introduzida pelo psicólogo 
Guilford, em 1955. Após essa teoria passar por um amadurecimento, tem-se o 
que segue: 
 Pensamento convergente: refere-se à capacidade da mente de elaborar 
soluções, partindo de conhecimentos, experiências e informações, de 
raciocínios lógicos e dedutivos, além de técnicas e aprendizagens. 
 Pensamento divergente: refere-se à capacidade de explorar mentalmente 
ideias ou soluções originais, com predomínio do intuitivo, do pensamento 
subjetivo e sensível; busca a novidade e a inovação relacionando os fatos 
com a mente aberta e ampliada (open mind); os erros são tidos como 
ensaios e tentativas para chegar às ideias ou soluções. 
Todas as pessoas possuem a capacidade cognitiva para o pensamento 
convergente e divergente no processo criativo. Quanto mais a pessoa desenvolve 
o pensamento convergente, mais capacidade tem de explorar o pensamento 
divergente na síntese criativa e maior a chance de ampliar o leque de ideias, com 
aprofundamento de informações, habilidades, deduções etc. O pensamento 
convergente é capaz de nutrir o pensamento divergente para a busca das novas 
ideias. 
Na prática, como essa dinâmica funciona? A dinâmica entre os 
pensamentos convergente e divergente no processo criativo é cíclica e traduz-se 
em sínteses criativas. Segundo Jairo Siqueira (2017), “o pensamento divergente 
tem o propósito de criar opções, abrir e explorar novos caminhos e gerar uma 
 
 
08 
grande quantidade e diversidade de ideias. O pensamento convergente tem o 
propósito de avaliar e selecionar as ideias ou conceitos mais promissores.” 
Na figura a seguir exemplificamos, de maneira didática, como a dinâmica 
ocorre. O ponto de partida é o problema, a situação-problema ou o desafio que se 
pretende explorar para encontrar novas ideias e soluções. A apresentação desse 
problema, desafio etc., é fruto do pensamento convergente, que elaborou 
adequadamente a pergunta desafiadora, ou delineou adequadamente a situação-
problema. Nesse momento, a preparação é fundamental, com dados e 
informações que possam auxiliar a etapa seguinte, que é a da abertura. Nessa 
etapa, o pensamento divergente vai explorar todas as opções, com grande 
diversidade, com explosão de ideias. Nenhum julgamento ou verificação das 
ideias são feitos nessa fase, mas sim o uso de algumas técnicas e, após essa 
explosão de ideias, quando há um esgotamento natural do processo divergente, 
o processo do pensamento convergente é retomado para verificar e avaliar as 
ideias para que se opte por uma ou mais soluções ou ideias que sejam relevantes 
no momento. 
Figura 1 – Dinâmica entre pensamento convergente e divergente 
 
 Essa dinâmica está na base do brainstorming, que será melhor detalhado 
na aula 3. Contudo, a dinâmica do pensamento convergente e divergente 
independe do uso de uma técnica específica; quanto mais a pessoa estiver 
envolvida com o tema, maior a propensão dessa dinâmica de produzir várias 
sínteses criativas. Em uma técnica específica, como o brainstorming, ao definir-
se pelas opções e soluções, novos aprofundamentos e ideações surgirão 
 
 
09 
naturalmente. O plano de ação vai dirigir os esforços em direção à implementação 
das soluções para obter-se resultados e avaliá-los. 
TEMA 3 – PERFIL DA PERSONALIDADE CRIATIVA 
Algumas perguntas intrigantes: se a criatividade é natural no ser humano, 
como ocorreo declínio conforme a pesquisa de George Land e Beth Jarman? Se 
o quadro pode ser revertido, como fazê-lo? A essa pergunta, respondemos que 
os exercícios e as técnicas de estímulo à criatividade são excelentes auxiliares 
nesse processo. 
Para entender o perfil da personalidade criativa, precisamos discutir um 
pouco o que ocorre em torno das pessoas que mantêm em alta seu nível de 
criatividade. Enquanto a pesquisa de George Land e Beth Jarman demonstraram 
o declínio da criatividade e alguns motivos que conduzem a esse quadro, Howard 
Gardner fez o caminho inverso e nos aponta boas pistas sobre como manter a 
criatividade ao analisar a vida de sete pessoas altamente criativas em seus 
campos de domínio. Após a pesquisa, Gardner sintetizou em três os componentes 
que interferem na atividade criativa, que podem ser generalizados para todas as 
pessoas: 
1. Indivíduo que cria. 
2. Relação do indivíduo com o trabalho em que está empenhado. 
3. Relação entre o indivíduo e as outras pessoas do seu mundo. 
Ele considera que “toda a atividade criativa se origina, primeiro, da relação 
entre o indivíduo e o mundo objetivo do trabalho e, segundo, dos laços do 
indivíduo e os outros seres humanos” (Gardner, 1996, p. 11-12). Veja a 
representação gráfica desses componentes na figura a seguir. 
Figura 2 – Componentes que interferem na atividade criativa, por Gardner 
 
Fonte: Elaborado com base em Gardner, 1996, p. 10. 
 
 
010 
Vamos interpretar a figura retomando a experiência da engenheira Ikuko 
Tanaka de aprender como bater a massa de pão com o chefe dos padeiros do 
Osaka International Hotel. Foi uma atitude inusitada no meio industrial, na época. 
Não temos informações sobre a história da sua vida e, para extrairmos as 
reflexões da experiência, vamos utilizar o caso denominando-a somente de 
“engenheira”. 
A segurança íntima da engenheira ao propor aprender a bater a massa de 
pão com o chefe dos padeiros do hotel traz em si a manutenção da criatividade 
natural na infância como aquele mestre que guia suas ações, sem temor do 
ridículo ou do julgamento precipitado das pessoas à sua volta. Nesse ponto, temos 
o primeiro componente: o indivíduo, que tem a criança interior como o seu mestre. 
Seu envolvimento e comprometimento com o desenvolvimento da nova 
máquina de pão impulsionou, naturalmente, o seu desejo de aprender aquela 
nova habilidade, ter domínio da técnica para compreender e transpor ao 
mecanismo que o DDP deveria desenvolver para simular os movimentos das 
mãos ao amassar a massa do pão. E foi o que ela fez: não recuou diante desse 
impulso, auxiliado pela manutenção “da sua criança interior como seu mestre”, o 
que a ajudou na convicção de que essa seria a melhor opção e fez com que ela 
obtivesse a aprovação da empresa para dedicar-se a essa experiência. 
Temos, por fim, o último componente. A segurança íntima da engenheira 
em propor à empresa a solução já citada várias vezes, inusitada até então, nos 
leva a deduzir que, na sua infância, a relação familiar e com seus professores era 
de segurança e de suporte, de incentivo e abertura. Na fase adulta, a pessoa 
transpõe essa segurança na relação com as demais pessoas no seu contexto. 
Resumindo, a liberdade criativa natural na criança leva-a ao brincar com 
alto grau de envolvimento e imersão na imaginação. A preservação dessa 
condição considera a qualidade do contexto familiar e dos relacionamentos dos 
indivíduos na infância (relacionamentos com pais, grau de permissividade, por 
exemplo). A área de domínio, de maior expressividade das pessoas (exemplos: 
capacidade relacional em Gandhi, alto grau de empatia em Freud, a lógica em 
Einstein) interferem na atividade criativa em seu campo de domínio, com picos e 
vales na produtividade durante a vida. Na maturidade, as pessoas em torno de 
outras pessoas interferem na atividade criativa. 
O perfil da personalidade criativa é decorrente da relação desses três 
componentes (indivíduo, seu trabalho e as pessoas do seu contexto) e a atitude 
criativa, resultante dessa relação, aponta para comportamentos que podem ser 
 
 
011 
observados e desenvolvidos. Citamos sete tipos de comportamento (Ader, 2010, 
p. 10): 
1. Ter um espírito de procura contínua de novas soluções e alternativas: 
que significa ter curiosidade, buscar a investigação, buscar fontes 
diferentes para inspiração e, principalmente, o desejo de mudança. 
2. Motivação intrínseca para realizar um progresso significativo: que 
significa ter energia interior suficiente para superar os desafios sem desistir 
no meio do caminho; não se deixar desanimar pelas pressões externas, 
julgamentos precipitados e desanimadores de outras pessoas; e, 
principalmente, saber acolher as adversidades com a mente aberta. 
3. Originalidade na utilização de novos enfoques e de novos métodos: 
que significa saber utilizar o conhecimento (pensamento convergente) 
relacionando-o a elementos sem relação aparente (pensamento 
divergente); e, principalmente, compreender como a contribuição das 
demais pessoas é crucial ao processo criativo. 
4. Vontade e flexibilidade de adaptação às necessidades do meio: 
significa que ser criativo não é sair por aí quebrando regras e normas 
irresponsavelmente e que a flexibilidade não significa abrir mão de valores 
que se deseja preservar; principalmente, significa que adaptar-se às 
necessidades do meio é compreender o ponto de equilíbrio na atitude 
criativa. 
5. Inconformismo com a situação existente: que significa uma inquietude 
saudável com relação à situação existente, uma firme sensação interna de 
que aquilo pode ser melhorado e, principalmente, uma certeza íntima de 
que existe novas formas resolver aquela situação ou aquele problema. 
6. Formação profunda numa área de conhecimento: alcançar o domínio 
em sua área de atuação, de forma a levar a pessoa à superação da técnica 
rumo ao virtuosismo, ao original naquele campo de atuação e, 
principalmente, à certeza de que o conhecimento é cíclico e que sempre 
devemos e podemos aprender mais. 
7. Desejos de encontrar formas de melhorar: que significa uma atitude, a 
proatividade, a prontidão da ação e, principalmente, uma certeza íntima de 
que pode contribuir com algo para a mudança. 
Comportamentos dessa natureza auxiliam o adulto a preservar a liberdade 
criativa natural de sua criança interior, a conquistar maior segurança nos 
 
 
012 
relacionamentos que interferem na atividade criativa e a empenhar-se no 
aprimoramento do seu campo de domínio, quer profissional, quer em outras áreas 
em que sua aptidão se manifesta. 
Entretanto, o indicativo das pesquisas de George Land e Beth Jarman para 
um acentuado declínio da criatividade na fase adulta das pessoas é sinal de que 
as questões do contexto social (relação familiar e tipo de educação escolar) 
resultaram em bloqueios mentais à criatividade. Esse é o tema do próximo item, 
ao par dos fatores facilitadores da criatividade. 
TEMA 4 – FACILITADORES E BLOQUEADORES INDIVIDUAIS À CRIATIVIDADE 
Os facilitadores individuais, mentais, são decorrentes dos sete tipos de 
comportamento para a atividade criativa que apresentamos no item anterior. Para 
mantê-los e sustentá-los no dia a dia, precisamos de autoconhecimento, 
desenvolvimento do self, percepção ampliada, desejo de transformação, 
flexibilidade e comunicação, elementos que sustentam o potencial criativo nas 
pessoas. 
Figura 3 – Facilitadores individuais da criatividade 
 
 
O que significa cada um desses elementos facilitadores mentais da 
criatividade? 
 Autoconhecimento: ou conhecimento de si mesmo, fruto da 
introspecção, da viagem interior para conhecer suas atitudes mentais, 
suas tendências, gostos, afinidades, valores etc. O exercício do 
autoconhecimento facilita – com fator equilibrante do ser – conhecer 
melhor nossa energia criativa, que é transformadora e inesgotável. 
Combater a falsa crença de que“não sou criativo” faz parte do 
autoconhecimento. 
 
 
013 
 Desenvolvimento do self: ou a busca pela autorrealização, que é 
intensificada pela satisfação que se obtém ao canalizar a energia criativa 
na transformação de algo, nas atitudes criativas que promovem as 
mudanças para melhor. 
 Percepção ampliada: própria do pensamento divergente na busca de 
novas alternativas, novas associações e, inclusive, perceber nuanças 
antes não visualizadas. 
 Desejo de transformação: já abordado anteriormente, que significa a 
atitude proativa, a prontidão da ação e a certeza íntima de que pode 
contribuir com algo para a mudança. 
 Comunicabilidade: disposição e facilidade em se comunicar e transmitir 
suas ideias para as demais pessoas. 
 Flexibilidade: já abordada anteriormente, não significa quebrar regras 
irresponsavelmente, mas sim requer compreender o ponto de equilíbrio na 
atitude criativa. 
A conjugação dos comportamentos criativos nas atitudes do dia a dia são 
os facilitadores mentais que nos conduzirão à criatividade. Se voltarmos a analisar 
a experiência da engenheira, encontraremos esses elementos nas suas atitudes. 
 Os bloqueadores individuais, mentais, são em maior número, infelizmente. 
E são muito fortes, pois muitos deles são frutos da formação familiar e da 
formação escolar. Lembramos de outro personagem das histórias infantis, 
estrelados na TV americana em 1960: a hiena Hardy, parceira do leão Lippy. O 
Hardy ficou marcado pela sua postura sempre pessimista e pela sua tradicional 
frase, aqui transcrita na versão em português: “Oh vida, oh céus, oh azar… isso 
não vai dar certo!” O Hardy nunca achava que alguma ideia do Lippy poderia dar 
certo… mas nunca o abandonava e sempre estava ao seu lado em todas as 
circunstâncias. Os desenhos eram assistidos pelas crianças da época (os adultos 
de hoje) com a mesma frequência que assistiam aos desenhos do Zé Carioca. 
Então, era uma mistura de linguagem subliminar entre “levar vantagem na 
malandragem” e que, se tivessem alguma ideia melhor, “nunca daria certo.. oh! 
céus!”. Bloqueios implantados nas mentes infantis, com reflexos na vida adulta. E 
como estão os desenhos de hoje? Melhor irmos adiante. 
Portanto, quais são os maiores bloqueadores, inibidores ou obstáculos 
individuais da criatividade? Veja o quadro a seguir. 
 
 
014 
Quadro 3 – Bloqueadores, inibidores ou obstáculos da criatividade 
 
Hábitos arraigados: maneira de agir adquirida pela 
repetição frequente de um ato, uso ou costume, de tal 
forma internalizada que temos muita dificuldade de 
abandoná-la ou nem vemos motivos para isso. 
 
 
Conformação social: pessoa vive conforme um 
contexto sócio-político-cultural sem questioná-lo, sem 
observar se os seus comportamentos e valores são fruto 
da influência desse contexto. A pessoa se conforma 
com a situação vivida, sem muito esforço para 
transformá-la. 
 
 
Indução e manipulação: forma de raciocínio em que a 
pessoa é movida somente por ganhos ou vantagens 
materiais. 
 
 
Vontade limitada: a pessoa tem baixa motivação para 
sustentar um desafio e quer logo chegar ao final da 
tarefa, resolvendo rapidamente os problemas voltados à 
criatividade. 
 
 
Ignorância: no sentido de ignorar que as pessoas 
podem aprender mais e mais, negar-se ao aprendizado 
constante. 
 
Fonte: Elaborado com base em Mirshawka Júnior. 
Hábitos arraigados, conformação social, indução e manipulação, vontade 
limitada e ignorância sobre o próprio potencial são alguns dos principais 
bloqueadores da criatividade. Todos eles podem ser combatidos por nós ao nos 
esforçarmos por adotar os comportamentos apontados no item anterior para 
aumentarmos nossa capacidade criativa. A existência de qualquer um desses 
bloqueadores em mais alto grau na engenheira, por exemplo, teria sido suficiente 
para inibi-la na sua experiência com o chefe do hotel. 
Transpor as barreiras, os bloqueios individuais à criatividade, não é uma 
tarefa trivial, ou seja, não é nada fácil e requer tempo e empenho. Além disso, 
exige mudança no nosso modelo mental, como abordaremos a seguir. 
TEMA 5 – A MUNDANÇA DO MINDSET: TENSÃO PSÍQUICA 
Segundo Peter Senge, em sua obra A quinta disciplina, “os modelos 
mentais referem-se aos mapas do mundo que guardamos a longo tempo na nossa 
memória e as percepções de curto prazo que as pessoas constroem com base no 
seu raciocínio cotidiano.” Tudo o que armazenamos na nossa memória e 
percepções, mesmo que se mantenham no nível inconsciente, interferem na 
maneira de pensar, de agir e até de sentir, formando nosso modelo mental. 
 
 
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Como os modelos mentais interferem no processo criativo? 
Eles é que sustentam as ideias arraigadas, os hábitos, as crenças e os 
paradigmas difíceis de superar, pois, inúmeras vezes, são os modelos mentais 
que inclusive impedem as pessoas de terem consciência dessa interferência. 
Algumas barreiras e bloqueios individuais à criatividade são difíceis de 
romper, pois se sustentam nos modelos mentais negativos. Seu rompimento 
requer tempo e empenho, autoconhecimento e resiliência. Ao romper alguns 
desses modelos e percepções, a capacidade criativa se amplia, alterando o 
modelo mental, ou o mindset. 
Quando Gardner estudou as vidas das personalidades criativas, ele 
identificou os modelos mentais positivos que foram sustentados desde a infância 
por essas pessoas. Modelos mentais negativos têm consequências e impactos 
negativos no processo criativo. 
Surge, então, a “tensão criativa”, que não quer dizer, nesse caso, estresse 
ou ansiedade, mas sim, a energia que precisamos ter para vencer os modelos 
mentais e ter clareza sobre a realidade em que vivemos, bem como alcançar a 
nova visão sobre onde desejamos chegar. Isso requer perseverança e paciência. 
A engenheira empenhou-se por vários meses em seu projeto, desde aprender a 
amassar o pão até transpor o movimento de amassar para a nova máquina, com 
introdução de novas tecnologias e procedimentos. A “tensão criativa”, nesse caso, 
está relacionada à experiência sustentada pela vontade, pois ela carregava 
consigo a certeza de que daria certo. Bastava comprovar e isso não era tarefa 
fácil de se fazer… 
O rompimento de alguns modelos mentais e percepções arraigadas 
ampliam a capacidade criativa. O que não quer dizer romper com valores culturais 
ou áreas de domínio, por exemplo. Gandhi preservou os valores culturais do seu 
povo e preservou seu ideal de libertação da Índia pela não violência. Sabendo o 
que se quer preservar, todo o resto pode mudar. 
FINALIZANDO 
Nessa primeira aula abordamos “O que é criatividade?” e, também, o que 
não é criatividade. Contextualizamos o tema explorando o caso da empresa 
Matsushita Eletric Industrial Company, sobre a solução encontrada pela 
engenheira Ikuko Tanaka para a nova máquina doméstica de fazer pão. O caso é 
 
 
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normalmente estudado na esfera da Gestão do Conhecimento, evidenciando a 
criatividade como alicerce do conhecimento para a inovação. 
Refletimos sobre o pensamento convergente e divergente na síntese 
criativa, sobre os perfis da personalidade criativa e os comportamentos que 
podem ser estimulados. Elencamos, ainda, os elementos facilitadores e 
bloqueadores mentais à criatividade e a mudança do modelo mental. 
A próxima aula será sobre o processo criativo em si, considerando que o 
conceito de criatividade já foi apreendido. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
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(Coord.). Manual de Criatividade Empresarial. Faro: Universidade do Agrave; 
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Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/observatorio/casoteca/105-
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14 set. 2017. 
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<https://celsofdf.wordpress.com/tag/o-declinio-da-criatividade/>. Acesso em: 14 
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