Prévia do material em texto
Nota do autor
Introdução: Folhas de Chá
1 Tudo se torna movimento e vida
2 Klex
3 Eu quero ler as pessoas
4 descobertas extraordinárias e mundos guerreiros
5 Um caminho próprio
6 pequenas manchas de tinta cheias de formas
7 Hermann Rorschach sente seu cérebro sendo dividido
8 As ilusões mais obscuras e elaboradas
9 seixos em um leito de rio
10 Uma Experiência Muito Simples
11 Provoca interesse e agitação em todos os lugares
12 A psicologia que ele vê é Sua psicologia
13 Bem no limiar para um futuro melhor
14 Os borrões de tinta vêm para a América
15 Fascinante, Impressionante, Criativo, Dominante
16 A Rainha dos Testes
17 Icônico como um estetoscópio
18 Os Rorschachs nazistas
19 Uma crise de imagens
20 O Sistema
21 pessoas diferentes veem coisas diferentes
22 Além de Verdadeiro ou Falso
23 Olhando para a Frente
24 O teste de Rorschach não é um teste de Rorschach
Apêndice: A Família Rorschach, 1922–2010
HERMANN R ORSCHACH ' S C HARACTER por Olga Rorschach-
Shtempelin
Agradecimentos
Sobre o autor
Caminhos distantes e distintos que poderiam nunca se cruzar. De um lado, a
busca pela verdade e, do outro, a possível mentira bem encenada. Rorschach e
Richthofen se encontram onde fatos, manchas e mentiras duelam.
Em 2002, quase todos os brasileiros ficaram sabendo de um crime
tenebroso e o nome de quem o orquestrou: Suzanne Von Richthofen, que
organizou o assassinato dos próprios pais com ajuda do namorado e do cunhado
(chamados de “irmãos Cravinhos”).
Foi um acontecimento impactante na época (e ainda é hoje), com enorme
repercussão midiática. Todos queriam entender os motivos dela para fazer aquilo
com os próprios pais. Muitos a rotularam de “psicopata” e poucos acreditavam
na versão de Suzane, que teria sido uma vítima manipulada pelo namorado e o
cunhado, que queriam a fortuna da abastada família Von Richthofen.
Eu mesmo, quando iniciei meus estudos de perícia facial e linguagem
corporal, me deparei inúmeras vezes com o caso de Suzane. Por exemplo, nesta
foto:
Em um momento típico da família, podemos entender um pouco do seu
estado de humor: na extrema direita, temos Manfred Albert von Richthofen (pai
de Suzane), com olhar austero, leve sorriso e, com postura relaxada, envolve a
esposa com o braço direito; à sua esquerda temos Marísia von Richthofen (mãe
de Suzane), em sua face vemos um
Grande e aberto sorriso, juntamente de contrações na região orbicular dos
olhos, uma face conhecida como “sorriso de felicidade genuína”; à esquerda
dela, de camiseta vermelha, vemos Andreas Albert von Richthofen (irmão de
Suzane), com sorriso similar ao da mãe, gesticulando energicamente; por fim, na
extrema esquerda do sofá, Suzane Von Richthofen. Repare primeiro na diferença
de sua postura comparada aos demais: ela está fechada, os ombros tensionados e
apoia os cotovelos nas pernas (uma postura sólida), na face vemos um leve
sorriso, não observamos contrações ao redor dos olhos, como na mãe e no irmão
(conhecido como “sorriso social”, ou seja, potencial indicador de ausência de
felicidade genuína, hipótese reforçada pelos outros elementos de sua linguagem
corporal neste momento).
Apesar dessa microanálise – e de quaisquer outras que poderiam surgir
com base em vídeos ou outras fotos da família Von Richthofen -, ainda restavam
grandes questões, como “Suzane é genuinamente má?” e “Ela pode voltar para a
sociedade?”.
Tais perguntas jamais poderiam ser respondidas usando a apenas a
observação de linguagem corporal de Suzane ou mesmo com outras técnicas de
entender o comportamento dela. Com o passar do tempo tais questões
continuavam ganhando peso, pois se aproximava o momento de Suzane solicitar
o cumprimento do restante da pena em liberdade. E ela tinha chances reais de
conseguir, pois como seria possível provar perante a justiça que aquela mulher
era um perigo para a sociedade? Como saber de verdade quem era Suzane Von
Richthofen?
A própria Suzane, condenada a 39 anos por assassinato, não cometeu
qualquer agressão física contra os pais. Não foi ela quem desferiu os golpes
mortais, portanto era cada vez mais possível que a interpretação de mandante do
crime acabasse virando coação a alguém obrigada a fazer o que fez, o que seria
favorável para o pedido de regime aberto feito por ela em 2017.
Então, para obter alguma evidência sobre o comportamento de Suzane,
para entender suas reais intenções, que o Ministério Público solicitou testes
psicológicos, o que culminou em Suzane realizar o famoso Teste de Rorschach, e
foi principalmente pelos resultados obtidos com esse teste, que ela teve seu
pedido de regime aberto negado.
Os resultados contidos no laudo psicológico, com base no teste de
Rorschach, diziam que Suzane tem personalidade egocêntrica, narcisista e é
alguém influenciável por condutas violentas. Com base nos testes, a promotoria
criminal recomendou que a detenta fosse mantida presa, ainda que em regime
prisional mais brando. Suzane fez o teste de Rorschach outra vez, e os resultados
foram similares, indicando personalidade extremamente perigosa.
Pare para pensar por um momento: e se não existisse tal teste? Como
seria possível entender as reais intenções dela? Quais seriam as consequências
para a sociedade de considerá-la mentalmente capaz de cumprir o restante da
pena em regime semiaberto?
O peso do teste de Rorschach na decisão é evidente. Não é à toa que até
hoje é um assunto que rende inúmeras discussões, e para realmente entender o
que há por trás daquelas singelas manchas de tinta é necessário muito estudo na
área da saúde mental. Por exemplo, as fichas reais do teste não são liberadas para
a mídia – o que vemos em filmes, revistas ou séries, são meras variações das
imagens originais. Portanto, pode ser que você nunca tenha visto as dez manchas
originais, e talvez não imagine o significado por trás delas e até mesmo o
histórico artístico da família de Rorschach, algo que influenciou seu pai, sua
mãe, e até mesmo o então jovem Hermann Rorschach a perseguir formas de
compreender o mundo que se assemelhassem a proporções e dimensões estéticas
de obras de arte (o que, conforme relatado, quase levou o jovem para a carreira
artística em vez da psiquiatria).
Fiquei fascinado com a ideia desse teste, queria saber cada vez mais sobre
ele, pois assim como muitas pessoas já tinha ouvido falar do teste das manchas
de tinta, já tinha visto em um ou outro desenho animado, em filmes, ou visto
designs de roupas com estampas similares aos borrões do teste de Rorschach.
Eu estava admirado com a ideia de um teste, aparentemente sem sentido
(alguns borrões sem padrão), ser capaz de quebrar todo o esquema racional que
alguém como Suzane seria capaz de inteligentemente montar para responder
positivamente a testes psicológicos e, assim, ser vista como uma personalidade
inofensiva (basta levar em conta que a própria mãe de Suzane era psiquiatra e
nunca teria emitido alguma opinião sobre a filha, julgando-a psicopática).
Foi exatamente nesse contexto que recebi este livro, tentando atentamente
perceber os detalhes que levaram o psiquiatra suíço Hermann Rorschach a criar
o seu conhecido método. Assim como seu teste, a história de sua vida nos revela
a mente por trás da vontade de entrar na mente alheia, nos mostra as dificuldades
enfrentadas, a maturidade muito precoce, as perdas familiares, decisões pessoais
e até mesmo o latente lado artístico de Hermann Rorschach.
Tais momentos, similares a borrões de tinta, ora complexos demais ora
simples demais para serem verdade, levam os leitores perspicazes por um
caminho instigante para compreender não só a mente de Rorschach, comotambém suas motivações para querer ler o interior das pessoas, bem como o
êxito em criar uma ferramenta capaz de fazê-lo.
Muitas dúvidas sobre a base teórica do teste, as aplicações, as controvérsias
e os sucessos estão disponíveis nesta obra para aqueles que, como Hermann
Rorschach, têm interesse em conseguir, ainda que brevemente, ter um vislumbre
muito verossímil do interior da mente humana alheia e, assim, realmente saber
com quem está lidando.
Boa leitura.
Vitor Santos.
Metaforando
O teste de Rorschach usa dez e apenas dez manchas de tinta, originalmente
criadas por Hermann Rorschach e reproduzidas em cartões de papelão. O que
quer que sejam, são provavelmente as dez pinturas mais interpretadas e
analisadas do século XX. Milhões de pessoas viram as cartas reais; a maioria de
nós viu versões das manchas de tinta em publicidade, moda ou arte. As manchas
estão por toda parte - e ao mesmo tempo um segredo bem guardado.
O Código de Ética da American Psychological Association exige que os
psicólogos mantenham os materiais de teste "seguros". Muitos psicólogos que
usam o Rorschach acham que revelar as imagens estraga o teste, até prejudica o
público em geral ao privá-lo de uma valiosa técnica de diagnóstico. A maioria
das manchas de Rorschach que vemos na vida cotidiana são imitações ou
remakes, em deferência à comunidade da psicologia. Mesmo em artigos
acadêmicos ou exposições em museus, os borrões costumam ser reproduzidos
em contorno, borrados ou modificados para revelar algo sobre as imagens, mas
não tudo.
O editor deste livro e eu tivemos que decidir se reproduziríamos ou não as
manchas de tinta reais: qual escolha seria mais respeitosa para psicólogos
clínicos, pacientes em potencial e leitores. Não há um consenso
claro entre os pesquisadores de Rorschach - sobre quase tudo a ver com o
teste - mas o manual para o sistema de teste de Rorschach mais moderno em uso
hoje afirma que "simplesmente ter exposição prévia às manchas de tinta não
compromete uma avaliação." Em qualquer caso, a questão é amplamente
discutível, agora que as imagens não têm direitos autorais e estão disponíveis na
Internet. Eles já estão facilmente disponíveis - um fato que muitos dos
psicólogos que se opõem à divulgação das imagens parecem querer ignorar. Por
fim, optamos por incluir algumas das manchas de tinta neste livro, mas não
todas.
É preciso enfatizar, porém, que ver as imagens reproduzidas online - ou aqui
- não é o mesmo que fazer o teste real. O tamanho dos cartões é importante
(cerca de 9,5 ″ × 6,5 ″), o espaço em branco, o formato horizontal, o fato de que
você pode segurá-los na mão e girá-los. A situação é importante: a experiência
de fazer um teste com apostas reais, ter que dizer suas respostas em voz alta para
alguém em quem você confia ou não confia. E o teste é muito sutil e técnico para
pontuar sem um treinamento extensivo. Não existe um Rorschach do tipo "faça
você mesmo", e você não pode experimentá-lo com um amigo, mesmo sem o
problema ético de descobrir lados de sua personalidade que ele talvez não queira
revelar.
Sempre foi tentador usar as manchas de tinta como um jogo de salão. Mas
todos os especialistas no teste desde o próprio Rorschach insistem que não é um.
Eles estão certos. O inverso também é verdadeiro: o jogo de salão, online ou em
outro lugar, não é o teste. Você pode ver por si mesmo a aparência das manchas
de tinta, mas não pode, sozinho, sentir como elas funcionam.
Desde sua divulgação oficial em 1921, na Suíça, o teste de Rorschach é o
mais complexo e importante instrumento psicométrico em todo o mundo; as
imagens que o compõem permaneceram as mesmas e se consolidaram como
uma proposta universal e atemporal para a avaliação da personalidade. A
criação, a trajetória e o estabelecimento metodológico do teste de Rorschach são
narrados no presente livro que o homenageia — Teste de Rorschach, de Damion
Searls —, publicado em 2017 nos Estados Unidos e extremamente aclamado
pela crítica internacional desde então.
A publicação desta obra atende a uma demanda do movimento rorschachista
nacional e internacional no sentido de revisitar estudos e abordagens sobre esse
instrumento, e sua tradução chega ao Brasil em um momento muito propício,
pois no ano de 2021 o uso das pranchas de Rorschach terá completado um
século. O centenário da publicação do método de Rorschach será comemorado
em muitas línguas e de diversas maneiras. Existem atualmente mais de 26
associações de estudiosos de Rorschach pelo mundo, e a comunidade
acadêmico-científica de estudos e prática do teste de Rorschach terá a
oportunidade de participar de inúmeras celebrações, incluindo eventos
científicos nacionais e internacionais.
Ao observar o passado, podemos visualizar aspectos futuros e entender
questões de nossa atualidade, por isso o teste de Rorschach pode ser mais bem
compreendido à medida que estudamos sobre seu criador e as várias
Vertentes do instrumento. Os trabalhos iniciais de Hermann Rorschach, feitos em
1917 com seus pacientes psiquiátricos, envolveram uma série de critérios e
preocupações para a elaboração do seu teste de percepção; desde então, foram
muitos os estudos e adaptações transculturais com esse instrumento em todo o
mundo. Inicialmente voltado para a análise clínica de pacientes psiquiátricos, o
teste de Rorschach também passou a ser usado, posteriormente, em diversos
campos da psicologia (jurídico, organizacional, hospitalar, entre outros).
A obra Teste de Rorschach pode ser considerada como uma das mais
importantes biografias de Hermann Rorschach na atualidade. Nela, a genialidade
de Searls encontra a de Rorschach, e isso resulta em uma publicação
enriquecedora, pioneira e autêntica. Além de escritor, Searls é tradutor das
línguas alemã, norueguesa, francesa e holandesa, e possui formação em filosofia
alemã e literatura norte-americana. Com esse currículo, não é de surpreender que
o autor seja capaz de abordar conceitos tão diversos sobre a humanidade. Ele
traduziu para o inglês cartas e informações originalmente em língua alemã,
obtidas a partir de diários e documentos dos familiares de Hermann Rorschach;
descobriu relatos antigos sobre o médico suíço e resgatou informações dos
arquivos originais de sua vida e obra, muitos deles deteriorados e quase
incompreensíveis. Além disso, ao descrever o percurso das pranchas de
Rorschach, principalmente na Europa e nos Estados Unidos, Searls propiciou
uma importante reflexão sobre o tema da avaliação psicológica em contexto
internacional no decorrer de praticamente um século de história. Embora a
escrita de Searls seja coloquial, esta versão brasileira foi adaptada para uma
formatação mais técnica e formal, além de levar em conta aspectos da cultura
brasileira, porém sem descaracterizar a proposta e a essência da versão original.
Em tempo, a obra de Searls não se propõe a responder ou ensinar
tecnicamente sobre as maneiras de aplicação, interpretação e análise do teste de
Rorschach para fins profissionais. Essa parte cabe aos manuais e guias de uso do
método no Brasil e também aos informes sobre ética e bioética em avaliação
psicológica, conforme preceitos dos conselhos brasileiros de psicologia. No
Brasil existem especificidades tangentes à história e à aplicação do teste de
Rorschach que não estão presentes na publicação de Damion Searls.
A diversidade e a multiculturalidade de nossa população propiciaram o estudo
de muitos métodos de Rorschach além dos indicados nesta obra: Sistema de
Bruno Klopfer, Sistema de Samuel Beck, Sistema Compreensivo, R-PAS
(Sistema de Avaliação da Performance no Rorschach) e a proposta da Avaliação
Terapêutica com o Rorschach de Stephen Finn. O processo de adaptação,
tradução e normatização desses sistemasno Brasil foi realizado por pioneiros,
muitas vezes autodidatas, e teve importante repercussão nacional e internacional
para a avaliação da personalidade. Os estudiosos brasileiros do teste de
Rorschach sempre foram pesquisadores extremamente engajados, que superaram
desafios e construíram importantes fundamentos éticos e profissionais na
avaliação psicológica. O Brasil historicamente influenciou os outros países da
América Latina com sua atuação em pesquisa com o teste de Rorschach e com a
formação de importantes instituições e associações de estudos com esse
instrumento, como são a ASBRo e a Sociedade Rorschach de São Paulo, tendo
também representação na IRS, na Asociación Latinoamericana de Rorschach
(ALAR) e na Society for Personality Assessment (SPA).
No Brasil, existem mais dois sistemas além dos já mencionados: o Sistema
da Escola de Paris e o Sistema Aníbal Cipriano da Silveira Santos. O primeiro,
ainda utilizado por muitos psicólogos e pesquisadores brasileiros, foi estudado
em pesquisas pioneiras, como a realizada em 1921 pela professor Helen
Antipoff, e influenciado pela interpretação psicanalítica. O segundo foi criado
em 1943 e deriva de teorias do modelo genético estrutural de personalidade,
epistemologia positivista, psicologia geral e evolutiva, psiquiatria e
neuropsicologia. A literatura brasileira sobre o uso do Rorschach é extensa, e há
um crescente entusiasmo e engajamento em pesquisas e prática sobre o processo
de avaliação psicológica com o uso do instrumento em benefício da população
na clínica, na escola, nas organizações e na área jurídica.
1
É preciso destacar que a psicologia brasileira possui regras e critérios
específicos sobre a utilização de instrumentos de avaliação psicológica, que
foram adequados à nossa população com base em pesquisas normativas. Eles
estabelecem que o teste de Rorschach somente pode ser aplicado por um
psicólogo, e as informações sobre sua correta aplicação são fornecidas pelo
Sistema de Avaliação de Testes Psicológicos (SATEPS]). Além disso, foram
elaboradas normas específicas sobre a divulgação de seus resultados em laudos e
instruções explícitas sobre conduta ética profissional em relação a esse método
de avaliação. É proibido e antiético divulgar informações sigilosas de testes de
Rorschach, orientar pessoas sobre como se submeter ao instrumento, publicar
respostas “certas” ou “erradas” sobre o processo de avaliação, utilizar protocolos
de Rorschach em pesquisas sem o consentimento prévio do avaliado ou indicar
informações de guias de Rorschach fora do contexto educacional. Ademais, aos
profissionais psicólogos e alunos de psicologia, existem cursos de
aperfeiçoamento, extensão, graduação e pós-graduação que instruem sobre a
aplicação do teste de Rorschach de modo adequado e ético.
O conhecimento e o treinamento prévios para uso desse instrumento são os
principais critérios para se realizar a avaliação da personalidade com uma
conduta ética e profissional
2
. Para aqueles que serão submetidos ao teste de
Rorschach, a melhor sugestão que se pode dar é comportar-se da forma mais
natural possível durante o exame, atendo-se às instruções dadas pelo avaliador e
não se iludir com “resultados prontos” obtidos em simulações feitas pela
internet, que são falsas ou descontextualizadas, confundem e sabotam a
naturalidade da pessoa durante a avaliação, podendo prejudicar o resultado, e são
facilmente detectadas pelos avaliadores.
Existe uma grande importância em se proporcionar à comunidade uma
desmistificação sobre o método de Rorschach e um conhecimento mais apurado
sobre a vida de Hermann Rorschach — questões pelas quais esta obra transita
em vários momentos. Os capítulos finais apresentam importantes aspectos sobre
o declínio histórico do uso do instrumento, principalmente nos Estados Unidos,
considerando o sucesso midiático que o teste teve naquele país e a popularidade
que granjeou entre os profissionais de saúde mental das décadas passadas. Os
desafios para a continuidade da avaliação da personalidade por meio do método
vêm sendo discutidos por rorschachistas de todo o mundo. Muitos dos temas
abordados nesta obra contribuem para o debate sobre questões éticas, científicas
e profissionais envolvendo a prática e o ensino do teste de Rorschach, e devem
ser considerados para futuros posicionamentos e estratégias de atuação com esse
instrumento no âmbito brasileiro e internacional, respeitando cada contexto.
Finalizando, Teste de Rorschach oferece uma visão abrangente da avaliação
da personalidade pelo método de Rorschach para que possamos dar continuidade
à divulgação responsável e cuidadosa desse formidável instrumento. Este livro é
um presente a todos os que se interessam pelo teste. É também uma obra de arte
e uma linda contribuição contemporânea à memória de Hermann Rorschach.
Novembro de 2019.
INTRODUÇÃO
FOLHAS DE CHÁ
Victor Norris havia chegado à rodada final de candidatura a um emprego
trabalhando com crianças pequenas, mas, sendo os Estados Unidos na virada do
século XXI, ele ainda precisava passar por uma avaliação psicológica. Em duas
longas tardes de novembro, ele passou oito horas no escritório de Caroline Hill,
uma psicóloga avaliadora que trabalhava em Chicago.
Norris parecia um candidato ideal em entrevistas, charmoso e amigável, com
currículo adequado e referências incontestáveis. Hill gostou dele. Suas
pontuações eram normais a altas nos testes cognitivos que ela aplicou a ele,
incluindo um QI bem acima da média. No teste de personalidade mais comum na
América, uma série de 567 perguntas sim-ou-não chamada Inventário
Multifásico de Personalidade de Minnesota, ou MMPI, ele foi cooperativo e de
bom humor. Esses resultados também voltaram ao normal.
Quando Hill mostrou a ele uma série de fotos sem legendas e pediu que ele
contasse a ela uma história sobre o que estava acontecendo em cada uma - outra
avaliação padrão chamada Teste de Apercepção Temática, ou TAT - Norris deu
respostas um tanto óbvias, mas inofensivas o suficiente. As histórias eram
agradáveis, sem ideias inadequadas e ele não sentia ansiedade ou outros sinais de
desconforto ao contá-las.
Quando a escuridão de Chicago caiu no final da segunda tarde, Hill pediu a
Norris que se mudasse da mesa para uma cadeira baixa perto do sofá em seu
escritório. Ela puxou a cadeira para a frente dele, tirou um bloco de notas
amarelo e uma pasta grossa e entregou a ele, um por um, uma série de dez
cartões de papelão da pasta, cada um com uma mancha simétrica. Ao entregar a
ele cada cartão, ela disse: "O que pode ser isso?"
ou “O que você vê?”
Cinco das cartas eram em preto e branco, duas tinham formas vermelhas
também e três eram multicoloridas.
Para este teste, Norris foi solicitado a não contar uma história, não para
descrever o que sentia, mas simplesmente para dizer o que viu. Sem limite de
tempo, sem instruções sobre quantas respostas ele deve dar. Hill ficou fora de
cena o máximo possível, permitindo que Norris revelasse não apenas o que viu
nas manchas de tinta, mas como abordou a tarefa. Ele estava livre para pegar
cada cartão, girá-lo, segurá-lo com o braço estendido ou de perto. Todas as
perguntas que ele fez foram desviadas: Posso virar o jogo?
Você decide.
Devo tentar usar tudo isso?
O que você quiser. Pessoas diferentes veem coisas diferentes.
Essa é a resposta certa?
Existem todos os tipos de respostas.
Depois de responder a todas as dez cartas, Hill voltou para uma segunda
passagem: “Agora vou reler o que você disse e quero que me mostre onde viu”.
As respostas de Norris foram chocantes: cenas sexuais elaboradas e violentas
com crianças; partes das manchas de tinta vistas como femininas sendo punidas
ou destruídas. Hill educadamente o mandou embora -
ele saiu de seu escritório com um aperto de mão firme e um sorriso, olhando-a diretamente nos olhos - então ela se virou para o bloco de notas em sua mesa,
com o registro de suas respostas. Ela sistematicamente atribuiu às respostas de
Norris os vários códigos do método padrão e categorizou suas respostas como
típicas ou incomuns, usando as longas listas do manual. Ela então calculou as
fórmulas que transformariam todas essas pontuações em julgamentos
psicológicos: estilo de personalidade dominante, índice de egocentrismo, índice
de flexibilidade de pensamento, constelação de suicídio. Como Hill esperava,
seus cálculos mostraram que as pontuações de Norris eram tão extremas quanto
suas respostas.
Se nada mais, o teste de Rorschach levou Norris a mostrar um lado de si
mesmo que de outra forma não mostraria. Ele tinha plena consciência de que
estava se submetendo a uma avaliação, para um emprego que desejava. Ele sabia
como queria aparecer nas entrevistas e que tipo de respostas brandas dar nos
outros testes. No Rorschach, sua personalidade se desfez. Ainda mais revelador
do que as coisas específicas que vira nas manchas de tinta era o fato de se sentir
livre para dizê-las.
Foi por isso que Hill usou o Rorschach. É uma tarefa estranha e em aberto,
em que não fica nada claro o que as manchas de tinta devem ser ou como se
espera que você responda a elas. Crucialmente, é uma tarefa visual, por isso
contorna suas defesas e estratégias conscientes de auto-apresentação. Você pode
gerenciar o que quer dizer, mas não pode gerenciar o que deseja ver. Victor
Norris não conseguia nem mesmo dizer o que queria dizer sobre o que tinha
visto. Nisso ele era típico. Hill havia aprendido uma regra prática na pós-
graduação que ela repetidamente viu confirmada na prática: uma personalidade
problemática pode muitas vezes mantê-la unida em um teste de QI e um MMPI,
se sair muito bem em um TAT e então desmoronar quando confrontada com
manchas de tinta . Quando alguém está fingindo saúde ou doença, ou suprimindo
intencionalmente ou não outros lados de sua personalidade, o Rorschach pode
ser a única avaliação a levantar uma bandeira vermelha.
Hill não informou que Norris foi um molestador de crianças no passado ou
no futuro - nenhum teste psicológico tem o poder de determinar isso. Ela
concluiu que o "controle da realidade de Norris era extremamente vulnerável".
Ela não poderia recomendá-lo para trabalhar com crianças e aconselhou os
empregadores a não contratá-lo. Eles não o fizeram.
Os resultados perturbadores de Norris e o contraste entre sua superfície
encantadora e o lado escuro oculto permaneceram com Hill. Onze anos depois
de aplicar o teste, ela recebeu um telefonema de um terapeuta que estava
trabalhando com um paciente chamado Victor Norris e tinha algumas perguntas
que gostaria de fazer a ela. Ele não precisou dizer o nome do paciente duas
vezes. Hill não tinha liberdade para compartilhar os detalhes dos resultados de
Norris, mas expôs as principais descobertas. O terapeuta engasgou. “Você
conseguiu isso de um teste de Rorschach? Levei dois anos de sessões para
chegar a essas coisas! Achei que o Rorschach fosse folhas de chá! ”
-
Apesar de décadas de controvérsia, o teste de Rorschach hoje é admissível
em tribunal, reembolsado por seguradoras médicas e administrado em todo o
mundo em avaliações de empregos, batalhas de custódia e clínicas psiquiátricas.
Para os apoiadores do teste, essas dez manchas de tinta são uma ferramenta
maravilhosamente sensível e precisa para mostrar como a mente funciona e
detectar uma série de condições mentais, incluindo problemas latentes que
outros testes ou observação direta não podem revelar. Para os críticos do teste,
tanto dentro quanto fora da comunidade psicológica, seu uso contínuo é um
escândalo, um embaraçoso vestígio de pseudociência que deveria ter sido
descartado anos atrás junto com o soro da verdade e a terapia do grito primário.
Na opinião deles, o incrível poder do teste é sua capacidade de fazer lavagem
cerebral em pessoas que de outra forma seriam sensatas para que acreditassem
nele.
Em parte por causa dessa falta de consenso profissional e mais por causa da
suspeita de testes psicológicos em geral, o público tende a ser cético em relação
ao Rorschach. O pai, em um recente caso de “bebê sacudido” bem divulgado,
que acabou sendo considerado inocente pela morte de seu filho, achou que as
avaliações a que foi submetido eram “perversas” e particularmente “ressentidas”
por receber o Rorschach.
“Eu estava olhando fotos, arte abstrata e dizendo a eles o que estava vendo.
Eu vejo uma borboleta aqui? Isso significa que sou agressivo e abusivo? É
insano." Ele insistiu que, embora "investisse na ciência", que ele chamava de
visão de mundo "essencialmente masculina", a agência de serviço social que o
avaliava tinha uma visão de mundo "essencialmente feminina" que "privilegiava
relacionamentos e sentimentos". O teste de
Rorschach não é essencialmente feminino nem um exercício de interpretação
artística, mas tais atitudes são típicas. Não produz um número definitivo como
um teste de QI ou um exame de sangue. Mas nada que tente compreender a
mente humana conseguirá.
As ambições holísticas do Rorschach são uma das razões pelas quais ele é
tão conhecido fora do consultório médico ou do tribunal. A Previdência Social é
um teste de Rorschach, de acordo com a Bloomberg, assim como o calendário de
futebol do Georgia Bulldogs ( Sports Blog Nation ) e os rendimentos de títulos
espanhóis: “uma espécie de teste de Rorschach do mercado financeiro, em que
analistas veem o que está em suas mentes o tempo ”( Wall Street Journal ). A
última decisão da Suprema Corte, o último tiroteio, o mais recente defeito no
guarda-roupa de uma celebridade. “O polêmico impeachment do presidente do
Paraguai, Fernando Lugo, está rapidamente se transformando em uma espécie de
teste Rorschach da política latino-americana”, no qual “as reações a ele dizem
mais do que o próprio evento diz”, diz um blog do New York Times . Um crítico
de cinema impaciente com a pretensão da arte chamou as Crônicas Sexuais de
uma Família Francesa um teste de Rorschach no qual ele falhou.
Esta última piada usa a essência do Rorschach na imaginação popular: é o
teste em que você não pode falhar.
Não há respostas certas ou erradas. Você pode ver o que quiser. Isso é o que
tornou o teste taquigrafia perfeita, desde os anos 60, para uma cultura
desconfiada da autoridade, comprometida com o respeito a todas as opiniões.
Por que deveria um meio de comunicação dizer se um impeachment ou uma
proposta de orçamento é bom ou ruim, e arriscar alienar metade de seus leitores
ou telespectadores? Basta chamá-lo de teste de Rorschach.
A mensagem subjacente é sempre a mesma: você tem direito à sua própria
parte, independentemente da verdade; sua reação é o que importa, seja expressa
em um like, uma votação ou uma compra. Esta metáfora para liberdade de
interpretação coexiste em uma espécie de universo alternativo do teste literal
dado a pacientes reais, réus e candidatos a emprego por psicólogos reais. Nessas
situações, existem respostas certas e erradas muito reais.
O Rorschach é uma metáfora útil, mas as manchas de tinta também parecem
boas. Estão na moda por motivos que nada têm a ver com psicologia ou
jornalismo - talvez seja o ciclo da moda de sessenta anos desde a última
explosão da febre do Rorschach nos anos cinquenta, talvez seja uma predileção
por esquemas de cores fortes em preto e branco que parecem bom com móveis
modernos de meados do século. Há alguns anos, Bergdorf Goodman encheu as
janelas da Quinta Avenida com monitores de Rorschach.Camisetas estilo
Rorschach foram recentemente vendidas na Saks por apenas $ 98. “ MINHA
ESTRATÉGIA ”, proclamava um splash de página inteira em InStyle : “Nesta
temporada, estou me sentindo muito atraída por roupas e acessórios que tenham
um senso de simetria. MINHA INSPIRAÇÃO : Os padrões das manchas de tinta
de Rorschach são fascinantes. ” O thriller de terror Hemlock Grove, o thriller de
clonagem de ficção científica Orphan Black e um reality show de loja de
tatuagem baseado no Harlem chamado Black Ink Crew estreou na TV com
sequências de crédito de Rorschachy. O vídeo de Melhor Canção # 1 da Rolling
Stone dos anos 2000 e o primeiro single a atingir o topo das paradas de vendas
pela Internet, "Crazy" de Gnarls Barkley, foi uma animação hipnotizante de
manchas preto e branco se transformando. Canecas e pratos Rorschach, aventais
e jogos de festa estão disponíveis em todos os lugares.
A maioria deles são manchas de tinta de imitação, mas os dez originais,
agora se aproximando de seu centésimo aniversário, perduram. Eles têm o que
Hermann Rorschach chamou de “ritmo espacial” necessário para dar às imagens
uma “qualidade pictórica”. Criados no berço da arte abstrata moderna, seus
precursores remontam à cerveja do século XIX que deu origem à psicologia
moderna e à abstração, e sua influência atinge a arte e o design dos séculos XX e
XXI.
Em outras palavras: três histórias diferentes se juntam na história do teste de
Rorschach.
Primeiro, há a ascensão, queda e reinvenção dos testes psicológicos, com
todos os seus usos e abusos.
Especialistas em antropologia, educação, negócios, direito e militares
também há muito tentam obter acesso aos mistérios de mentes desconhecidas. O
Rorschach não é o único teste de personalidade, mas durante décadas foi o
último: tão definidor da profissão quanto o estetoscópio para a medicina geral.
Ao longo de sua história, a forma como os psicólogos usam o Rorschach tem
sido um símbolo do que nós, como sociedade, esperamos que a psicologia faça.
Depois, há arte e design, de pinturas surrealistas a “Crazy” a Jay-Z, que
colocou uma pintura dourada de Andy Warhol chamada Rorschach na capa de
suas memórias. Essa história visual parece não ter relação com
o diagnóstico médico - não há muita psicologia nessas camisetas da Saks -
mas o visual icônico é inseparável do teste real. A agência que apresentou um
vídeo com o tema Rorschach para “Crazy” conseguiu o emprego porque o cantor
CeeLo Green se lembrou de ter feito o teste quando era uma criança
problemática. A controvérsia aumenta em torno do Rorschach por causa de sua
proeminência. É impossível traçar uma linha dura e rápida entre a avaliação
psicológica e o lugar dos borrões na cultura.
Finalmente, há a história cultural que levou a todos aqueles “testes de
Rorschach” metafóricos nas notícias: o surgimento de uma cultura individualista
da personalidade no início do século XX; suspeita generalizada de autoridade a
partir dos anos 60; polarização intratável hoje, com até mesmo fatos parecendo
depender do olhar de quem vê. Dos Julgamentos de Nuremberg às selvas do
Vietnã, de Hollywood ao Google, do tecido social centrado na comunidade da
vida do século XIX ao desejo de conexão no socialmente fragmentado XXI, os
dez borrões de Rorschach correram lado a lado, ou anteciparam, muito de nossa
história. Quando outro jornalista chama algo de teste de Rorschach, pode ser
apenas um clichê prático, da mesma forma que é perfeitamente natural para
artistas e designers recorrerem a padrões simétricos e marcantes de preto no
branco. Nenhum exemplo do Rorschach na vida cotidiana requer qualquer
explicação. Mas sua presença duradoura em nossa imaginação coletiva sim.
Por muitos anos, o teste foi anunciado como um raio-X da alma. Não é, e
originalmente não era para ser, mas é uma janela reveladora de como
entendemos nosso mundo.
-
Todas essas vertentes - psicologia, arte e história cultural - remetem ao
criador das manchas de tinta. “O
método e a personalidade de seu criador estão inextricavelmente
entrelaçados”, como escreveu o editor no prefácio de Psychodiagnostics, o livro
de 1921 que apresentou as manchas de tinta ao mundo. Foi um jovem psiquiatra
e artista amador suíço, brincando com um jogo infantil, trabalhando sozinho, que
conseguiu criar não apenas um teste psicológico de enorme influência, mas uma
pedra de toque visual e cultural.
Hermann Rorschach, nascido em 1884, era “um homem alto, magro, louro,
rápido de movimentos, gestos e fala, com uma fisionomia expressiva e viva”.
(Veja as fotos no encarte.) Se você acha que ele se parece com Brad Pitt, talvez
com um pouco de Robert Redford incluído, você não é o primeiro. Seus
pacientes tendiam a se apaixonar por ele também. Ele tinha o coração aberto e
simpático, talentoso, mas modesto, robusto e bonito em sua túnica branca de
médico, sua curta vida cheia de tragédia, paixão e descoberta.
A modernidade estava explodindo ao seu redor, da Europa da Primeira
Guerra Mundial e da Revolução Russa e de dentro da própria mente. Só na
Suíça, durante a carreira de Rorschach lá, Albert Einstein inventou a física
moderna e Vladimir Lenin inventou o comunismo moderno enquanto trabalhava
com os organizadores do trabalho nas fábricas de relógios suíças. Os vizinhos de
Lenin em Zurique, os dadaístas, inventaram a arte moderna, a arquitetura
moderna de Le Corbusier, a dança moderna de Rudolf von Laban.
Rainer Maria Rilke terminou suas Duino Elegies, Rudolf Steiner criou
escolas Waldorf, um artista chamado Johannes Itten inventou cores sazonais
(“Você é primavera ou inverno?”). Na psiquiatria, Carl Jung e seus colegas
criaram o teste psicológico moderno. As explorações de Jung e Sigmund Freud
da mente inconsciente estavam lutando pelo domínio, tanto entre uma rica
clientela neurótica quanto no mundo real dos hospitais suíços preenchidos com
capacidade muito além.
Essas revoluções se cruzaram na vida e na carreira de Hermann Rorschach,
mas apesar de dezenas de milhares de estudos sobre o teste, nenhuma biografia
completa de Rorschach foi escrita. Um historiador da psiquiatria chamado Henri
Ellenberger publicou um artigo biográfico de quarenta páginas de fonte
superficial em 1954, e que tem sido a base para quase todos os relatos de
Rorschach desde então: como gênio pioneiro, diletante desajeitado, visionário
megalomaníaco, cientista responsável e quase tudo entre. A especulação gira em
torno da vida de Rorschach há décadas. As pessoas podiam ver nele tudo o que
quisessem.
A verdadeira história merece ser contada, até porque ajuda a explicar a
relevância duradoura do teste, apesar das controvérsias que o cercaram.
Rorschach previu ele mesmo a maioria das controvérsias. Esta dupla biografia
do médico e suas manchas de tinta começa na Suíça, mas atinge o mundo todo, e
vai até o âmago do que estamos fazendo toda vez que olhamos e vemos.
1 Tudo se torna movimento e vida
Em uma manhã do final de dezembro de 1910, Hermann Rorschach, de 26
anos, acordou cedo. Ele atravessou a sala fria e empurrou a cortina do quarto
para o lado, deixando entrar a luz branca pálida que
vem antes do nascer do sol do norte - não o suficiente para acordar sua
esposa, apenas o suficiente para revelar seu rosto e o cabelo preto espesso
derramando sob Consolador. Tinha nevado durante a noite, como ele pensava
que aconteceria. O Lago Constança estava cinzento há semanas; o azul da água
estava a meses de distância, mas o mundo era lindo assim também, sem ninguém
à vista ao longo da costa ou no pequeno caminho em frente ao seu apartamentode dois quartos arrumado. A cena não estava apenas vazia de movimento
humano, mas sem cor, como um cartão-postal de um centavo, uma paisagem em
preto e branco.
Acendeu o primeiro cigarro da manhã, ferveu um pouco de café, vestiu-se e
saiu em silêncio enquanto Olga dormia. Foi uma semana mais movimentada do
que o normal na clínica, com o Natal chegando. Havia apenas três médicos para
cuidar de quatrocentos pacientes, então ele e os outros eram responsáveis por
tudo: reuniões de equipe, visitas aos pacientes duas vezes ao dia, organização de
eventos especiais. Ainda assim, Rorschach se permitiu desfrutar da caminhada
solitária da manhã pelo terreno da clínica. O caderno que ele sempre carregava
consigo ficou no bolso. Estava frio, embora nada comparado ao Natal que ele
passara em Moscou quatro anos antes.
Rorschach estava especialmente ansioso pelo feriado deste ano: ele e Olga se
reuniram; eles compartilhariam uma árvore como marido e mulher pela primeira
vez. A celebração clínica seria no dia 23; no dia 24, os médicos carregariam uma
pequena árvore acesa com velas de um prédio a outro, para os pacientes que não
pudessem participar da cerimônia comunal. No dia 25, os Rorschachs estariam
livres para voltar para a casa de sua infância e visitar sua madrasta. Ele tentou
tirar isso da cabeça.
A temporada de Natal no asilo significava canto em grupo três vezes por
semana e aulas de dança ministradas por um enfermeiro que tocava violão, gaita
e triângulo com o pé, tudo ao mesmo tempo.
Rorschach não gostava de dançar, mas pelo bem de Olga obrigou-se a ter
aulas. Um dever de Natal de que ele realmente gostava era dirigir peças de
teatro. Eles estavam encenando três este ano, incluindo um com imagens
projetadas - fotografias de paisagens e pessoas da clínica. Que surpresa seria
para os pacientes ver de repente rostos que conheciam na tela, maiores do que a
própria vida.
Muitos dos pacientes estavam longe demais para agradecer aos parentes os
presentes de Natal, então Rorschach escreveu pequenas notas em seu nome, às
vezes quinze por dia. No geral, porém, seus pacientes gostavam dos feriados
tanto quanto suas almas perturbadas permitiam. O conselheiro de Rorschach
costumava contar a história de uma paciente tão perigosa e indisciplinada que ela
havia sido mantida em uma cela por anos. Sua hostilidade era compreensível no
ambiente clínico restritivo e coercitivo, mas quando foi levada para uma festa de
Natal ela se comportou perfeitamente, recitando os poemas que havia
memorizado especialmente para 2 de janeiro, dia de Berchtold. Duas semanas
depois, ela foi liberada.
Ele tentou aplicar as lições de seu professor aqui. Ele tirou fotos de seus
pacientes, não apenas para seu próprio bem e para os arquivos dos pacientes,
mas porque eles gostavam de posar para a câmera. Ele deu a eles materiais de
arte: lápis e papel, papel machê, argila de modelagem.
Enquanto os pés de Rorschach esmagavam a neve no terreno da clínica, seus
pensamentos sobre novas maneiras de dar a seus pacientes algo para desfrutar,
ele naturalmente refletia sobre as férias de sua própria infância e os jogos que
tinha jogado então: corridas de trenó, conquistar o castelo , lebre e cães,
esconde-esconde e o jogo em que você derrama um pouco de tinta em uma folha
de papel, dobre-a ao meio e veja como fica.
-
Hermann Rorschach nasceu em novembro de 1884, um ano revelador. A
Estátua da Liberdade, oficialmente intitulada Liberdade Iluminando o Mundo,
foi apresentada ao embaixador dos EUA em Paris no Dia da Independência da
América. Temesvár, na Áustria-Hungria, tornou-se a primeira cidade da Europa
continental com postes elétricos, colocados não muito depois das de Newcastle,
na Inglaterra, e Wabash, Indiana. George Eastman patenteou o primeiro rolo
viável de filme fotográfico, que logo permitiria que qualquer pessoa fizesse fotos
com o “Lápis da Natureza”, capturando a própria luz.
Esses anos, de fotografia primitiva e filmes primitivos, são provavelmente a
era mais difícil da história para nós, hoje, ver : em nossa mente, tudo parece
rígido e frágil, preto e branco. Mas Zurique, onde Rorschach nasceu, era uma
cidade moderna e dinâmica, a maior da Suíça. Sua estação ferroviária data de
1871, a famosa principal rua comercial de 1867, os cais ao longo do rio Limmat
de meados do século. E novembro em Zurique são choques de laranja e amarelo
sob um céu cinza: folhas de carvalho e olmo, bordos vermelho-fogo farfalhando
ao vento. Naquela época, também, o povo de Zurique vivia sob um céu azul-
claro, caminhando por prados alpinos brilhantes pontilhados de genciana e
edelvais de um azul profundo.
Rorschach não nasceu onde sua família estava enraizada há séculos: Arbon,
uma cidade no Lago Constança cerca de 80 quilômetros a leste. Uma pequena
cidade chamada Rorschach fica a 6,5 quilômetros de Arbon,
na costa do lago, e deve ter sido o local de origem da família, mas os
Rorschachs podem rastrear seus ancestrais em Arbon até 1437, e a história dos
“Roschachs” lá remonta a outros mil anos, a 496 dC. Isso não era tão incomum
em um lugar onde as pessoas permaneceram por gerações, onde você era
cidadão de seu cantão (estado) e cidade, bem como do país. Alguns ancestrais
vagaram - um tio-avô, Hans Jakob Roschach (1764-1837), conhecido como "o
lisboeta", chegou até Portugal, onde trabalhou como designer e talvez tenha
criado um pouco do hipnotizante e repetitivo padrões para os azulejos que
cobrem a capital. Mas foram os pais de Hermann que realmente se separaram.
O pai de Hermann, Ulrich, um pintor, nasceu em 11 de abril de 1853, doze
dias depois de outro futuro pintor, Vincent van Gogh. Filho de um tecelão,
Ulrich saiu de casa aos quinze anos para estudar arte na Alemanha, viajando até
a Holanda. Ele voltou a Arbon para abrir um estúdio de pintor e em 1882 se
casou com uma mulher chamada Philippine Wiedenkeller (nascida em 9 de
fevereiro de 1854), de uma linha de carpinteiros e barqueiros com uma longa
história de casamento com Rorschachs.
A primeira filha do casal, Klara, nascida em 1883, morreu com seis semanas
de idade, e a irmã gêmea de Philippine morreu quatro meses depois. Depois
desses duros golpes, o casal vendeu o estúdio e mudou-se para Zurique, onde
Ulrich se matriculou na Escola de Artes Aplicadas no outono de 1884. Para
Ulrich se mudar para a cidade aos 31 anos, sem renda estável, era incomum em a
sóbria Suíça, mas ele e as Filipinas deviam estar ansiosos para ter o próximo
filho em um ambiente mais feliz. Hermann nasceu na Haldenstrasse, 278, em
Wiedikon (Zurique), às 22h do dia 8 de novembro. Ulrich foi bem na escola de
arte e conseguiu um bom emprego como professor de desenho e pintura no
ensino médio em Schaffhausen, uma cidade a cerca de 50 quilômetros ao norte.
No segundo aniversário de Hermann, a família estava estabelecida onde ele
cresceria.
Schaffhausen é uma pequena e pitoresca cidade repleta de edifícios e fontes
renascentistas, situada às margens do Reno, o rio que forma a fronteira norte da
Suíça. “Nas margens do Reno, prados se alternam com florestas cujas árvores se
refletem, como um sonho, na água verde-escura”, diz um guia da época. Os
números das casas ainda não haviam sido introduzidos, então cada prédio tinha
um nome - Palm Branch, Knight's House, a Fonte - e decorações distintas: leões
de pedra, fachadas pintadas, janelas salientes projetando-se como relógios cuco
gigantes, gárgulas, cupidos.
A cidade não ficou presa ao passado. O Munot, uma imponente fortaleza
circular em uma colina coberta de vinhedos com um fosso e uma grande vista,
datado do século XVI, havia sidorestaurado para o turismo no século XIX. A
ferrovia havia chegado e uma nova usina de eletricidade estava explorando a
abundante energia hídrica do rio. O Reno jorrava do Lago Constança nas
Cataratas do Reno próximas, baixo, mas grande o suficiente para ser a maior
cachoeira da Europa. O pintor inglês JMW Turner desenhou e pintou as cataratas
durante quarenta anos, mostrando a água maciça como uma montanha e as
próprias montanhas dissolvendo-se em redemoinhos de tinta e luz; Mary Shelley
descreveu estar na plataforma mais baixa, enquanto “o spray caía espesso sobre
nós ... olhando para cima, vimos ondas, e rochas, e nuvens, e o céu claro através
de seu véu cintilante e sempre em movimento. Esta foi uma nova visão,
superando tudo que eu já tinha visto. ” Como diz o guia: “Uma pesada montanha
de água se arremessa contra você como um destino sombrio; ela despenca, e
tudo o que era sólido se torna movimento e vida. ”
Depois que a irmã de Hermann, Anna, nasceu em Schaffhausen, em 10 de
agosto de 1888, a crescente família alugou uma nova casa em Geissberg, uma
subida íngreme de vinte minutos subindo a colina para fora da cidade a oeste,
onde o irmão de Hermann, Paul, nasceria ( 10 de dezembro de 1891). A casa era
mais espaçosa, com janelas maiores e telhado de mansarda, mais um castelo
francês do que um chalé suíço, e com florestas e campos para explorar nas
proximidades. Os filhos do senhorio tornaram-se companheiros de brincadeiras
de Hermann. Inspirados nas aventuras de Leatherstocking de James Fenimore
Cooper, eles representaram pioneiros e índios, com Hermann e seus amigos se
esgueirando por entre as árvores ao redor de uma pedreira próxima e fugindo
com Anna, a única “mulher branca” que eles tinham.
Este foi o cenário das memórias mais felizes das crianças. Hermann gostava
de ouvir o rugido do oceano que nunca vira, em uma concha que um parente
missionário de seu senhorio trouxera do exterior. Ele construiu labirintos de
madeira para seus ratos brancos de estimação correrem. Quando contraiu
sarampo, aos oito ou nove anos, seu pai cortou encantadores bonecos de papel de
seda e Hermann os fez dançar em uma caixa com tampa de vidro. Em
caminhadas, Ulrich contou a seus filhos a história dos belos edifícios antigos e
fontes da cidade e o significado das imagens que eles exibiam; ele os levou para
caçar borboletas, leu para eles, ensinou-lhes os nomes das flores e árvores. Paul
estava se tornando um garotinho animado e gordinho, enquanto Hermann,
segundo um primo, “conseguia olhar para algo por muito tempo, absorto em seus
pensamentos. Ele era uma criança bem-comportada, quieta como o pai. ” Este
primo contou aos contos de
fadas de Hermann, de nove anos - João e Maria, Rapunzel, Rumpelstiltskin -
“dos quais ele gostava porque era um sonhador”.
A Philippine Rorschach, calorosa e enérgica, gostava de entreter os filhos
com canções folclóricas antigas e era uma excelente cozinheira: o pudim com
natas e fruta era o preferido das crianças, e todos os anos lançava um assado de
porco para todos os colegas do marido. Os próprios pais de Ulrich lutaram
amargamente, a ponto de Ulrich sentir que nunca se amaram; era importante para
ele criar um lar amoroso para seus filhos, o tipo que ele nunca teve. Com
Philippine ele fez. Você poderia brincar com ela - acender um foguete por baixo
de suas saias largas, como a prima de Hermann se lembrava de ter acontecido
uma vez - e ela também ria.
Ulrich também era respeitado e genuinamente apreciado entre colegas e
alunos. Ele tinha um pequeno problema de fala, provavelmente um ceceio, “que
ele poderia, no entanto, superar quando tentasse”. Isso o tornava incomumente
reservado, mas ele era gentil com os alunos durante os exames, fazendo sinais
com as mãos e com a cabeça e sussurrando encorajamento. “Ainda posso ver
esse homem modesto, tão pronto para ajudar, diante de meus olhos, mais de
meio século depois”, um aluno se lembra. Ou então ele passava meia hora
corrigindo o desenho de um aluno, fazendo pacientemente linha após linha,
apagando os esforços errados do aluno, “até que finalmente a imagem apareceu
diante de mim, não diferindo de forma alguma do modelo. Sua memória para
formas era surpreendente; suas falas eram absolutamente certas e verdadeiras ”.
Embora os artistas na Suíça não fossem treinados em universidades nem
recebessem educação em artes liberais, Ulrich era um homem amplamente culto.
Aos vinte anos, ele publicou uma pequena compilação de poesia, Wildflowers:
Poems for Heart and Mind, escrevendo ele mesmo muitos dos poemas. Sua filha
Anna alegou que ele sabia sânscrito - e se ele de alguma forma aprendeu ou
falava sânscrito falso para enganar as crianças e se divertir, diz a mesma coisa
sobre ele.
Em seu tempo livre, ele escreveu cem páginas “Esboço de uma Teoria da
Forma, de Ulr. Rorschach, Professor de Desenho. ” Esta não foi uma coleção de
notas de aula ou exercícios do ensino médio, mas um tratado, abrindo com
“Espaço e Distribuição Espacial” e “Tempo e Divisões Temporais”. “Luz e Cor”
eventualmente mudou para “as formas primárias, criadas por concentração,
rotação e cristalização”, e então Ulrich partiu em “um passeio orientador pelo
reino da Forma”: trinta páginas de uma espécie de enciclopédia do visual
mundo. A Parte II cobriu “As Leis da Forma” - ritmo, direção e proporção - que
Ulrich encontrou em tudo, desde música, folhas e o corpo humano até escultura
grega, turbinas modernas e exércitos. “Quem entre nós”, Ulrich meditou, “não
voltou com frequência e com prazer nossos olhos e imaginação para as formas e
movimentos em constante mudança das nuvens e da névoa?” O manuscrito
terminava discutindo a psicologia humana: nossa consciência também, escreveu
Ulrich, é governada pelas leis básicas da forma. Foi um trabalho profundo e
cuidadoso, de pouca utilidade prática.
Depois de três ou quatro anos na casa do Geissberg, os Rorschachs voltaram
para a cidade, para uma nova área residencial perto da fortaleza de Munot, mais
perto da escola das crianças. Hermann era ativo, um bom patinador no gelo, e
havia festas de trenó onde as crianças uniam seus trenós em uma longa fila e
desciam a colina ao redor do Munot em ruas largas para a cidade, antes que
houvesse muitos carros. Ulrich escreveu uma peça que foi encenada no terraço
da cobertura do Munot com Anna e Hermann como atores; outra vez, ele foi
contratado para projetar uma nova bandeira para um clube de Schaffhausen, e as
crianças procuraram flores silvestres para ele usar como modelos. Depois, eles
ficaram encantados ao olhar para a bandeira bordada com seu desenho nas cores
de suas papoulas e centáureas. Hermann, por sua vez, demonstrou desde muito
jovem habilidade em desenhar paisagens, plantas e pessoas. De esculturas em
madeira, recortes e costura a romances, peças de teatro e arquitetura, sua infância
foi criativa.
No verão de 1897, quando Hermann tinha 12 anos, sua mãe, Filipina,
contraiu diabetes. Em uma época anterior aos tratamentos com insulina, ela
morreu após quatro semanas acamada de uma sede terrível e constante. A família
ficou arrasada. Uma série de governantas se mudaram para ajudar, mas nenhuma
se encaixou. As crianças desprezavam especialmente uma mulher
ostensivamente religiosa que passava o tempo todo fazendo proselitismo.
Em uma noite, um pouco antes do Natal de 1898, Ulrich entrou na sala de
jogos das crianças com um anúncio a fazer: logo teriam uma nova mãe. E
nenhum estranho, mas tia Regina. Ulrich havia escolhido se casar com uma das
meias-irmãs mais novas das Filipinas, a madrinha de Hermann;Hermann e Anna
haviam
passado as férias com ela em Arbon, onde ela tinha uma pequena loja de
tecidos e tecidos. Ela viria a Schaffhausen no Natal, disse Ulrich, para uma
visita. Anna começou a gritar; o jovem Paul começou a chorar. Hermann, de
quatorze anos, ficava calmo e raciocinava com os irmãos: eles deviam pensar no
pai, isso não era vida para ele, sem um lar feliz para onde voltar no final do dia.
Naturalmente, ele não queria que essas empregadas transformassem seus filhos
em hipócritas hipócritas. Tudo, disse Hermann, ficaria bem.
O casamento ocorreu em abril de 1899, e um novo filho nasceu menos de um
ano depois. Ela se chamava Regina, igual à mãe, e se chamava Regineli. Os
irmãos deram as boas-vindas à sua nova meia-irmã “e passaram vários meses
pacíficos, amáveis e harmoniosos juntos”, nas palavras de Anna - “mas,
infelizmente, apenas alguns meses”.
Ulrich pode já ter tido sintomas mais graves do que um ceceio: sua mão
tremia na escola quando ele tirou o chapéu, a ponto de seus alunos zombarem de
sua paralisia. Após o nascimento de Regineli, ele começou a sofrer de fadiga e
tonturas, diagnosticadas como uma doença neurológica resultante de
envenenamento por chumbo quando ele era um pintor jornaleiro. Em poucos
meses, ele teve que desistir de seu ensino, e a família se mudou pela última vez,
para Säntisstrasse 5, onde Regina abriu uma loja no prédio para que pudesse
sustentar a família enquanto ficava em casa para cuidar de Ulrich. Hermann
começou a dar aulas de latim para ganhar algum dinheiro extra e voltava da
escola para casa todos os dias para ajudar a madrasta a cuidar do pai.
Os últimos anos de Ulrich foram preenchidos com o que seu obituário
chamou de “tormentos indescritíveis”: depressão, delírios e auto-recriminações
amargas e sem sentido. Hermann ficou com o pai a maior parte do tempo no
final e teve uma infecção pulmonar severa exacerbada pelo estresse e cansaço.
Quando Ulrich morreu, às quatro da manhã de 8 de junho de 1903, Hermann
estava doente demais para comparecer ao funeral. Seu pai foi enterrado no
cemitério entre o Munot e a escola de Hermann, a poucos passos de sua casa por
um caminho bonito e arborizado. Ele tinha cinquenta anos; Hermann tinha
dezoito anos, seus irmãos quatorze, onze e três. Assistir impotente à doença e à
morte do pai fez Hermann querer se tornar um médico, um neurologista. Mas
por enquanto ele era órfão, sua madrasta viúva, sem pensão, mãe solteira de
quatro filhos.
Os temores de Anna de uma madrasta malvada logo se provaram
justificados. Regina era rígida, severa ao ponto da crueldade. O primo de
Hermann mais tarde a descreveu como "só trabalho e sem ideais", pensando
apenas em como ganhar a vida: ela se casou tarde, aos 37 anos, "porque foi
vendedora por trinta anos e não sabia de mais nada". Enquanto Philippine
Rorschach foi o primogênito e a primeira esposa de seu marido, Regina era filha
de uma madrasta, uma segunda esposa e uma madrasta de três filhos obstinados
com personalidades muito diferentes da dela.
Ela brigava com frequência com Paul e tornava a vida miserável da curiosa e
extrovertida Anna, que agora sentia que a casa da família era "estreita e
restritiva, quase sem ar para respirar". Anna mais tarde descreveu Regina como
“como uma galinha com asas curtas que não pode voar. Ela não tinha asas de
imaginação. ” A casa sob seu regime miserável era mantida fria, com as mãos
das crianças às vezes ficando literalmente azuis. Eles não tinham tempo para
brincar, seu tempo livre era dedicado ao trabalho ou às tarefas domésticas.
Hermann, ainda no ensino médio, teve que crescer rápido. Quando Anna
relembrou sua infância, lembrou-se de Hermann como sendo “pai e mãe” para
ela. Ao mesmo tempo, era o principal sustentador de Regina, o dono da casa, que
ficava horas conversando com ela na cozinha. Ele compreendeu Regina e sua
incapacidade de demonstrar mais amor - “Temo que, em seu orgulho tímido, ela
nunca tenha sido capaz de se apegar a ninguém” - e exortou Anna e Paul a não a
criticarem muito. Eles deveriam perdoar o que pudessem e pensar na pequena
Regineli.
Tudo isso deixou Hermann pouco tempo para sua própria dor. Mais tarde, ele
admitiria para Anna: “Eu penso no pai e na mãe - nossa mãe verdadeira - muito
mais do que antes; Talvez eu não tenha sentido a morte prematura de meu pai há
seis anos tão profundamente quanto sinto agora. ” Também o deixou ansioso
para ir embora. Hermann viria a pensar em "toda essa luta, arranhão e
varrimento do chão, tudo que suga tanta vida e mata tanta vitalidade
infinitamente", como "a mentalidade de Schaffhausen". Como escreveu a Anna:
“Nenhum de nós pode sequer pensar em morar com mamãe por muito
tempo. Ela tem grandes e boas qualidades e merece os maiores elogios, mas - a
vida com ela exige muito silêncio, não é para pessoas como nós, que precisam de
liberdade para se mover. ”
Todos os três filhos de Ulrich e Philippine acabariam por viajar muito mais
longe do que seus pais, e Hermann foi o primeiro a partir. “Nós temos um talento
para viver, você e eu”, Hermann continuou para Anna: “Nós o herdamos do Pai
... e tudo o que temos que fazer é mantê-lo, temos que fazê-lo. Em Schaffhausen,
esse tipo de talento é completamente estrangulado, luta e se debate por um
momento e depois
morre. Mas, Deus sabe, é por isso que temos o mundo! Para que haja um
lugar onde nossos talentos se revelem. ”
Quando escreveu isso, Hermann já havia escapado. Mas seus anos em
Schaffhausen, embora repletos de turbulência, foram importantes para o
desenvolvimento de Hermann como pensador - e artista.
2 Klex
Em uma reviravolta do destino que parece bom demais para ser verdade, o
apelido de Rorschach na escola era "Klex", a palavra alemã para "mancha de
tinta". O jovem Blot Rorschach já estava mexendo na tinta, seu destino
anunciado?
Os apelidos eram importantes nas fraternidades alemãs e suíço-alemãs, às
quais os alunos ingressavam enquanto frequentavam a escola secundária de elite
de seis anos chamada Gymnasium. Um irmão da fraternidade fez um juramento
de amizade e fidelidade e foi membro vitalício, com as conexões que ali fazia
muitas vezes engraxando a roda de toda a sua carreira. Em Schaffhausen, a vida
social era dominada pela fraternidade de Scaphusia (o nome romano da cidade).
Os membros do Scaphusia, incluindo Rorschach, vestiam-se com orgulho de
azul e branco no terreno da escola, nos bares e nas trilhas para caminhadas. Eles
também tinham o novo nome que receberam para marcar sua nova identidade.
As iniciações de escafusia ocorreram em um bar local, na escuridão total,
exceto por uma única vela montada em um crânio humano. O iniciado,
conhecido como Raposa, um estudante do quarto ano de dezesseis ou dezessete
anos de idade, subiu em uma caixa cheia com o equipamento de esgrima do
clube, uma caneca de cerveja em cada mão, e respondeu a uma dura rodada de
perguntas. Na Suíça, o trote não era pior do que isso; nas universidades alemãs a
esgrima era com lâminas reais, resultando nas famosas cicatrizes de duelo de
Heidelberg que marcaram os rostos da elite alemã para o resto da vida. Quando o
Scaphusia Fox passou no teste, ele conseguiu seu “batismo de cerveja” - as duas
canecas derramadas sobre sua cabeça, ou descartadas como de costume - e um
nome: alguma piada interna óbvia sobre sua aparência física ou tendências. O
patrocinador da fraternidade de Rorschach era “Chimney” Müller, porque ele
fumava como um; O patrocinador de Chimney era “Baal”, um ricodemônio
mulherengo.
O novo nome de Hermann, Klex, significava que ele era hábil com caneta e
tinta, alguém que desenhava bem e com rapidez. Klexen ou klecksen também
significa "pintar, pintar pinturas medíocres" - um dos artistas favoritos de
Rorschach, Wilhelm Busch, foi o autor de um livro infantil ilustrado chamado
Maler Klecksel, algo como "Smudgy the Painter" - mas Rorschach estava sendo
elogiado como um bom artista, não provocado como mau. Outro Fox apelidado
de Klex, de outra fraternidade na mesma época, também desenhava bem e depois
se tornou arquiteto.
Portanto, "Klex" não significava "mancha de tinta" em Scaphusia, embora
talvez tenha feito uma mancha um pouco mais provável de vir à mente enquanto
Rorschach passeava pelo terreno de seu asilo uma década depois, tentando
imaginar maneiras de estabelecer uma conexão com seu pacientes
esquizofrênicos. De qualquer forma, o que importava era Klex Rorschach ser um
Klex: um artista, com uma sensibilidade visual.
-
Rorschach frequentou o Ginásio de Schaffhausen de 1898 a 1904 - desde o
ano após a morte de sua mãe até o ano após a morte de seu pai. Havia 170
alunos, quatorze na classe de Rorschach, e a escola era conhecida como a melhor
da região, atraindo alunos de outras partes da Suíça, até mesmo da Itália, junto
com professores de mentalidade liberal e inclinados à democracia da Alemanha
autoritária. O currículo era exigente, incluindo geometria analítica, trigonometria
esférica e cursos avançados em análise qualitativa e física. Os alunos lêem
Sófocles, Tucídides, Tácito, Horácio, Catulo, Molière, Hugo, Goethe, Lessing e
Dickens no original, e os mestres russos na tradução: Turgenev, Tolstoy,
Dostoyevsky, Chekhov.
Rorschach foi bem na escola, sem nunca parecer se esforçar muito. Ele foi
classificado como o primeiro da classe em todas as disciplinas; ele aprendeu
inglês, francês e latim, além de seu dialeto suíço nativo e alemão padrão e mais
tarde aprenderia italiano e russo fluente. Socialmente ele era reservado, um
craque nos bailes da escola, preferindo entregar seu cartão de visita e olhar, em
vez de arriscar as complexas figuras e manobras da dança popular da época, a
Torre Munot ("Mão direita, mão esquerda, uma, dois três"). Ele gostava de
trabalhar em um ambiente silencioso e se ressentia de interrupções. O melhor
amigo de Hermann na escola, um futuro advogado extrovertido chamado Walter
Im Hof, achava que “era meu papel destacá-lo um pouco”; outros concordaram
que socializar e beber festas com seus colegas fazia bem a Hermann. Mas
Hermann e seu irmão mais extrovertido, Paul, também pregavam peças, das
quais Hermann se lembraria
com prazer muito tempo depois. Ele entrava na natureza sempre que podia -
caminhando nas montanhas, remando nos lagos, nadando nu.
As preocupações financeiras eram uma preocupação constante. A maioria
dos colegas de classe de Rorschach vinha de famílias ricas e, em alguns casos,
bastante proeminentes. A International Watch Company, ainda hoje conhecida
como IWC Schaffhausen, foi fundada na cidade por um fabricante já rico, e a
filha do fundador, Emma Rauschenbach - futura esposa de Carl Jung - era uma
das herdeiras mais ricas da Suíça. Nesse meio próspero, Hermann Rorschach era
visivelmente pobre. Um colega pensou erroneamente que a madrasta de
Rorschach era uma “lavadeira” que “deve ter trabalhado muito, muito duro para
colocar o menino na escola”; a mãe patrícia do colega desprezava Rorschach e
sua família como sendo de classe baixa.
Outro colega disse que Rorschach parecia um caipira do campo, “mas” era
inteligente de qualquer maneira.
Ainda assim, Rorschach se recusou a permitir que suas circunstâncias
interferissem em sua independência.
Ele foi dispensado das taxas da fraternidade e foi nomeado bibliotecário do
grupo para que pudesse comprar novos livros quando necessário.
Ele também teve acesso a pelo menos um assunto para experimentos
científicos: ele mesmo. Tendo lido que o humor pode fazer suas pupilas
crescerem ou diminuírem, o adolescente Rorschach descobriu que poderia
contrair e dilatar suas pupilas à vontade. Em uma sala escura, ele se imaginou
procurando pelo interruptor de luz e suas pupilas ficariam visivelmente menores;
lá fora, sob o sol forte da tarde, ele poderia torná-los maiores. Em outro
experimento em mente sobre a matéria, ele tentou transpor o desconforto de uma
dor de dente em música, transformando as dores “latejantes” em notas baixas e
as dores “agudas” em notas altas.
Certa vez, curioso para saber quanto tempo era possível ficar sem comer e
ainda trabalhar, ele jejuou por 24 horas, serrando e rachando lenha o dia todo.
Ele descobriu que, se não trabalhasse, poderia jejuar por mais tempo. Isso foi na
época do segundo casamento de seu pai.
Não há recompensa em ser capaz de dilatar suas pupilas à vontade, exceto o
conhecimento de que você pode.
Esses exercícios eram explorações: Rorschach exercendo sua vontade sobre
si mesmo, como seu pai, que conseguia superar seu ceceio ou tremor “quando
tentava”. Ele estava testando seus limites, investigando como seus diferentes
“sistemas” - comida e trabalho, dor e música, mente e olho - se encaixavam e
podiam ser colocados sob controle consciente. Outra experiência que ele achou
instigante: Tenho uma memória musical bastante fraca, por isso, quando estou a
aprender uma música, posso confiar muito pouco nas imagens da memória
auditiva. Costumo usar a imagem ótica das notas como forma de lembrar a
melodia; outras vezes, quando eu era mais jovem, tendo aulas de violino, muitas
vezes acontecia que eu não conseguia imaginar o som de uma passagem, mas
ainda conseguia tocá-la de memória, ou seja, a memória de movimento era mais
confiável do que a auditiva. Também tenho usado com freqüência movimentos
de imitação dos dedos como uma forma de despertar memórias auditivas.
Rorschach estava imensamente interessado nessas transformações de um
tipo de experiência em outro.
Ele também estava interessado em se colocar no lugar dos outros, tornando
suas as experiências dele. Em 4 de julho de 1903, aos dezoito anos, Rorschach
deu a palestra que se esperava que os membros de Scaphusia fizessem a seus
pares: a sua foi chamada de “Emancipação das Mulheres”, um apelo implacável
pela igualdade total de gênero. As mulheres, argumentou ele, “não eram nem
física, intelectual ou moralmente inferiores por natureza aos homens”, não eram
menos lógicas e pelo menos tão corajosas. Eles não existiam para "fabricar
crianças", assim como os homens não eram apenas "um fundo de pensão para
pagar as contas das mulheres". Fazendo referência à história centenária do
movimento das mulheres e às leis e estruturas sociais em outros países, incluindo
os Estados Unidos, ele defendeu direitos plenos de voto e acesso à universidade
e profissões, especialmente medicina, uma vez que “as mulheres preferem
revelar seus doenças íntimas para outra mulher. ” Ele reforçou seus argumentos
com sagacidade e empatia, apontando que, embora os bluestockings
horrorizassem a geração mais velha, "um homem intelectual exibicionista
também é uma figura amarga e repelente". Quanto à alegada tagarelice das
mulheres, “a questão é se há mais bate-papo em um café klatsch ou em um bar”,
isto é, entre mulheres ou homens. Ele se perguntou se “nós” não éramos tão
ridículos quanto “eles” - tentando, como sempre fazia, se ver de fora.
Naturalmente, o filho de Ulrich contribuiu com várias obras de arte para o
álbum de recortes de Scaphusia.
Uma página de partitura de violino com gatos klexy brincando para cima e
para baixo na pauta em vez de notas era um trocadilho, já que música cacofônica
e estridenteé chamada de “música de gato” em alemão.
Um confronto direto entre duas pessoas em silhueta, com a legenda A
Picture Without Words, também foi assinado "Klex". As obras de arte de
Rorschach fora do álbum de Scaphusia incluíam um desenho a carvão finamente
detalhado de seu avô materno, datado de 1903 e copiado de uma pequena
fotografia. Rostos e gestos expressivos o interessavam mais do que objetos
estáticos ou texturas. Em uma foto, as roupas e os
móveis de um aluno são menos convincentes do que sua postura; a fumaça
do charuto não parece fumaça, mas se enrola como fumaça.
Outra das palestras de Scaphusia de Rorschach, “Poesia e Pintura”, clamava
por um melhor treinamento em como ver. À maneira atemporal de adolescentes
em todos os lugares, ele criticava sua escola: “Há uma falta de compreensão das
artes visuais entre as pessoas, mesmo entre a classe educada, uma deficiência
que pode ser atribuída à nossa educação ... Procura-se em vão pela arte cursos de
história em nosso currículo do Gymnasium , mas a criança pode pensar
artisticamente tanto quanto alguns adultos. ” Ele também deu três palestras sobre
Darwin e nossa relação com a natureza. Darwin não foi estudado na escola,
então as palestras estavam fazendo um verdadeiro trabalho educacional, e
novamente Rorschach se concentrou em ver.
Abordando a questão de saber se o darwinismo deveria ser ensinado às
crianças, Klex respondeu, de acordo com a ata da reunião, “decididamente pela
afirmativa. Pois somente através do tratamento preciso desses temas, adaptado à
compreensão da criança, o jovem aprende a 'ver a natureza'. Só assim sua
motivação para observar será estimulada. Só assim uma verdadeira alegria da
natureza será despertada nos olhos dos jovens
”. O que importava era como ver e ver com alegria. Rorschach encerrou sua
palestra apreciando outro artista:
“O grande discípulo de Darwin em solo alemão, Haeckel”. Ilustrando sua
palestra com fotos de Formas de arte na natureza de Haeckel , ele "chamou
atenção particular para como Haeckel, com seu método de observação natural,
possuía um olhar aguçado para as formas de arte na natureza."
Ernst Haeckel (1834–1919) foi um dos cientistas mais famosos do mundo.
Um biógrafo recente escreve que
“mais pessoas aprenderam sobre a teoria da evolução por meio de suas
volumosas publicações do que por meio de qualquer outra fonte”, incluindo o
próprio trabalho de Darwin; A Origem das Espécies vendeu menos de quarenta
mil exemplares em trinta anos, enquanto a popularização de Haeckel, O Enigma
do Universo, vendeu mais de seiscentos mil somente em alemão, além de ter
sido traduzido para as línguas do sânscrito para o esperanto. O próprio Gandhi
queria traduzi-lo para o gujarati, acreditando que era "o antídoto científico para
as guerras religiosas mortais que assolam a Índia". Além de popularizar Darwin,
as realizações científicas de Haeckel incluíram nomear milhares de espécies -
3.500 após apenas uma de suas expedições polares - predizer corretamente onde
fósseis do "elo perdido" entre o homem e o macaco seriam encontrados,
formular o conceito de ecologia e a embriologia pioneira . Sua teoria de que o
desenvolvimento do indivíduo remonta ao desenvolvimento da espécie -
“Ontogenia recapitula a filogenia” - foi enormemente influente tanto na biologia
quanto na cultura popular.
Haeckel também era um artista. Um aspirante a pintor de paisagens em sua
juventude, ele acabou combinando arte e ciência em obras luxuosamente
ilustradas. Darwin elogiou Haeckel em ambos os casos, chamando seu livro de
dois volumes inovador de "as obras mais magníficas que eu já vi" e sua História
Natural da Criação "um dos livros mais notáveis de nosso tempo".
Art Forms in Nature, que Rorschach usou para ilustrar sua palestra
Scaphusia, era um compêndio visual de estrutura e simetria em todo o mundo
natural, sugerindo harmonias entre amebas, águas-vivas, cristais e todos os tipos
de formas superiores. Publicado em livro em 1904, embora as cem ilustrações
tenham sido publicadas originalmente em dez conjuntos de dez entre 1899 e
1904, foi popular e influente tanto na ciência quanto na arte, criando uma
espécie de vocabulário visual para Art Nouveau enquanto sobrepunha essa visão
à natureza . O fato de as formas horizontalmente simétricas parecerem
“orgânicas” para nós é, em parte, um legado de sua maneira de ver. Art Forms in
Nature foi uma exibição doméstica na Europa de língua alemã e além; os
Rorschachs certamente possuíam pelo menos algumas das ilustrações. O
"Esboço de uma teoria da forma" de Ulrich, embora não mencione Haeckel pelo
nome, é praticamente um análogo em prosa ao livro de Haeckel, preenchido com
seu vocabulário de "formas".
Também central para a reputação de Haeckel foi sua cruzada contra a
religião. Provavelmente foi devido em grande parte ao ativismo anti-religioso
pessoal de Haeckel que o darwinismo se tornou a ciência ateísta definitiva, no
coração da disputa entre ciência e religião, embora geologia e astronomia e
outros campos do conhecimento contenham fatos igualmente não bíblicos. Isso
também admirava Hermann. Como seu pai, ele era um livre-pensador tolerante
em questões de fé, mas se recusava a ver o mundo natural com olhos
religiosos. Em uma de suas palestras sobre Darwin, de acordo com o
secretário Scaphusia, “Klex tentou rejeitar completamente o argumento contra o
darwinismo de que ele mina a moralidade cristã e o significado da Bíblia”.
Já trabalhando como tutor, Rorschach estava pensando em se tornar um
professor como seu pai, mas estava preocupado com a necessidade de ensinar
religião. Ele tomou a atitude incomum de escrever a Haeckel pedindo conselhos,
e o eminente anticristão respondeu: “Suas dúvidas parecem inadequadas para
mim ...
Leia minha Religião Monística, um compromisso com a igreja oficial.
Centenas de meus alunos fazem isso.
É preciso fazer as pazes diplomaticamente com a ortodoxia reinante (
infelizmente! ). ”
A abertura ousada do jovem de dezessete anos foi posteriormente exagerada
em algo mais. Nas lembranças de várias pessoas próximas a Rorschach, ele
perguntou a Haeckel se deveria estudar desenho em Munique ou seguir uma
carreira em medicina, e o grande homem aconselhou ciências. É improvável que
Rorschach tivesse colocado todo o seu futuro nas mãos de um estranho, e parece
ter havido apenas uma carta para Haeckel. No entanto, um mito fundador para a
carreira de Rorschach nasceu. Uma questão prática sobre o ensino havia se
transformado em uma escolha simbólica entre arte e ciência, e o artista-cientista
mais influente da geração anterior passara o bastão para o artista-psicólogo da
nova geração.
3 Eu quero ler as pessoas
“No que me diz respeito, toda aquela bolha na encosta da montanha pode
deslizar para o lago com um estrondo e o cheiro de enxofre, como Sodoma e
Gomorra faziam nos tempos antigos” - Rorschach não era fã de Neuchâtel, em
francês - falando na Suíça ocidental, onde passou vários meses depois de se
formar no colégio em março de 1904. Muitos suíços de língua alemã fizeram um
semestre antes de entrar na universidade para melhorar o francês; Rorschach
queria dar aulas de francês e também dar aulas de latim, para enviar dinheiro
para sua família. Ele estava desesperado para ir direto para Paris, mas sua rígida
madrasta recusou-se a permitir. Comparada a Schaffhausen, onde Rorschach se
sentia como “um verdadeiro
'estudioso'”, a Académie de Neuchâtel era entediante: “Não havia lugar mais
estúpido em que eu pudesse ter acabado do que aquela miscelânea sombria da
Alemanhae da França”.
A única vantagem da Académie era o curso de idioma de dois meses em
Dijon, na França. Lá, Rorschach fazia viagens ocasionais aos bordéis franceses
legais, dos quais era pobre demais para fazer uso. “Ago. 30 ”, ele rabiscou em
seu diário particular, com passagens-chave ainda ocultas em taquigrafia:“ Visita
à Maison de tolérance: lanternas vermelhas no beco estreito, casa escura e bonita
... as prostitutas por toda parte, [ ilegível
]; tu me paye un bock? Tu vas coucher avec moi? [Me compra uma cerveja?
Você vai dormir comigo?]. ”
Foi também em Dijon que os interesses de Rorschach mudaram de forma
decisiva. Inspirado pelos escritores russos que havia lido em Schaffhausen, ele
procurou os russos como companhia: “Todo mundo sabe que os russos aprendem
línguas estrangeiras com facilidade”, ele relatou a Anna e, o que é mais
importante para um jovem estrangeiro sozinho, “Eles gostam para conversar e
fazer amigos facilmente. ” Ele logo se interessou por um homem em particular,
um reformador político e “amigo pessoal” de Tolstoi. “Este bom sujeito já tem
cabelos grisalhos”, escreveu Rorschach, “e não à toa”.
Ivan Mikhailovich Tregubov, nascido em 1858, havia sido exilado da Rússia
e, como Rorschach, estava em Dijon para o curso de francês. Rorschach o
chamou de "uma alma muito profunda" e escreveu: "Espero tirar mais proveito
de conhecê-lo". Tregubov não era apenas um amigo pessoal de Tolstói, mas
também estava no centro de seu círculo íntimo, como líder dos dukhobors, a
seita extremamente pacifista com a qual Tolstói estivera envolvido por décadas.
Este foi o primeiro encontro de Rorschach com um movimento espiritual tão
tradicionalista. A Rússia há muito havia sido varrida por eles - de Velhos
Crentes, Flagelantes, Eremitas e Andarilhos a Saltadores, Bebedores de Leite e
Auto-Castradores - todos sem direitos civis até a Revolução de 1905 e mais ou
menos perseguidos ou reprimidos pela igreja czarista e Estado. Os dukhobors
eram um dos mais veneráveis desses grupos, datando de pelo menos meados do
século XVIII.
Em 1895, Tolstoi chamou os Dukhobors de “um fenômeno de extraordinária
importância”, tão avançados que eram “pessoas do século 25”; ele comparou sua
influência com o aparecimento de Jesus na terra. Em 1897, quatro anos antes da
concessão do primeiro Prêmio Nobel da Paz, Tolstoi escreveu uma carta aberta a
um editor sueco argumentando que o dinheiro do Nobel deveria ir para os
Dukhobors, e ele saiu de uma aposentadoria autoimposta para escrever seu
último romance, Ressurreição , para que ele pudesse dar todos os rendimentos
para a seita. Nesse ponto, Tolstoi não era apenas o autor de Anna Karenina e
Guerra e paz, mas um líder espiritual que defendia "a purificação da alma". Ele
inspirou pessoas ao redor do mundo a usar vestes brancas simples, tornar-se
vegetarianos e trabalhar pela paz - para se tornarem tolstoianos. O que ele
representou, para Rorschach e milhões de outros, não foi meramente
literatura, mas uma cruzada moral para curar o mundo.
Tregubov abriu os olhos de Rorschach. “Finalmente está ficando claro para
este jovem suíço”, escreveu ele de Dijon, descrevendo-se na terceira pessoa,
“para alguém que em geral não se importa com a política, o que a política
realmente significa - especialmente graças aos russos, que têm que estudar tão
longe de casa para encontrar a liberdade de que precisam ”. Em pouco tempo,
Rorschach escreveria: “Acho que veremos que a Rússia será o país mais livre do
mundo, mais livre do que a nossa Suíça”. Ele começou a aprender russo,
aparentemente dominando o idioma em dois anos sem fazer aulas.
Foi nesse contexto que Rorschach encontrou sua vocação. Ele já queria ser
médico, se pudesse - “Quero saber se não teria sido possível ajudar papai”, Anna
lembrou-se dele ter dito. Mas em Dijon ele aprendeu que
“Nunca mais quero ler apenas livros, como fiz em Schaffhausen. Eu quero
ler as pessoas ... O que eu quero é trabalhar em um hospício. Isso não é motivo
para não obter um treinamento completo de médico, mas o mais interessante da
natureza é a alma humana, e a maior coisa que uma pessoa pode fazer é curar
essas almas, almas enfermas ”. Sua busca pela psicologia estava enraizada não
principalmente em ambições profissionais ou intelectuais, mas em um impulso
tolstoiano de curar almas e uma afinidade com russos como Tregubov.
Quando Rorschach deixou a bolha na encosta da montanha, foi para
prosseguir seus estudos em uma escola de medicina psiquiátrica de classe
mundial com uma das maiores comunidades russas da Europa.
-
Rorschach finalmente conseguiu juntar dinheiro suficiente para ir para a
universidade. Como seu pai era cidadão de duas cidades suíças, Arbon e
Schaffhausen, Hermann pôde solicitar ajuda financeira de ambas: em termos
concretos, esse foi o maior presente que a mobilidade de seus pais lhe daria. No
outono de 1904, poucas semanas antes de seu vigésimo aniversário, Hermann
apareceu em Zurique com um carrinho de mão de pertences e menos de mil
francos em seu nome.
Ele tinha um metro e setenta e cinco de altura, era magro e atlético. Ele
tendia a andar rápida e decididamente, as mãos cruzadas atrás das costas, e a
falar baixinho e calmamente; ele era animado, sério, ágil com os dedos, tanto
para esboçar desenhos rápidos quanto para recortes meticulosos ou entalhes em
madeira. Seus olhos eram azul-claros, quase cinza, embora a cor esteja listada
como “marrom” ou “marrom-cinza” em alguns documentos oficiais, como seu
registro de serviço militar, o livreto que todo homem suíço guarda para o resto
da vida. Hermann seria declarado inapto para servir, como muitos jovens
supérfluos em um país com serviço militar universal. A razão apresentada foi a
visão deficiente: 20/200 no olho esquerdo.
Rorschach deixou sua cidade natal, Zurique, muito jovem para se lembrar de
ter morado lá, mas voltou para visitar seus pais. Em sua primeira carta a Anna
depois de chegar em 1904, Rorschach escreveu que “foi a duas exposições de
arte ontem, pensando novamente em nosso querido pai. Há alguns dias, também
procurei um banquinho onde me sentava com ele e o encontrei. ” Mas uma nova
vida substituiu as memórias em breve.
Ele havia planejado ficar em uma pousada administrada por um amigo da
família, ajudando nas tarefas em troca do aluguel, mas aceitou o conselho de um
colega de classe e mudou-se para um alojamento mais independente. Um
dentista e sua esposa estavam alugando dois quartos espaçosos e bem iluminados
no quarto andar da Weinplatz 3, a poucos passos do rio Limmat que atravessa o
centro de Zurique (e, por acaso, no local dos antigos banhos romanos do bairro
de Zurique vida anterior como “Turicum”). Rorschach alugou os quartos com
um colega estudante de medicina de Schaffhausen e um estudante de música.
Eles montaram um quarto e uma área de trabalho comuns e compartilharam
livros - dos quais “eu aproveito mais do que eles”, admitiu Rorschach. O
estudante de medicina Franz Schwerz acordava às 4 da manhã para ir para a aula
de anatomia e dormia às nove da noite, enquanto o músico saía à noite e nos fins
de semana; Rorschach poderia fazer seu trabalho pela manhã e à noite. Sua única
reclamação era que a janela de seu quarto ficava logo abaixo da torre da Igreja
de São Pedro, com o maior relógio de igreja da Europa; os sinos o acordaram.
Mas era barato, setenta e sete francos por mês, incluindo duas refeições por
dia, que Schwerz lembrava como deliciosas e enormes e que Rorschach disse à
sua madrasta eram "muito boas, quase exatamente como a comida caseira". (O
alojamento em Zurique geralmente custava quatro francos por dia, pelo menos, e
um almoçoem restaurante acessível custava um franco.) Os alunos eram
responsáveis por seu próprio almoço aos domingos, então, no sábado à noite,
compravam salsichas Schübling no açougue da esquina e assá-los no
apartamento na manhã seguinte, enchendo a escada do prédio com um cheiro
que abriu seu apetite. Havia pouco para fazer nos fins de semana a não ser
caminhar pelas ruas da cidade, com tempo bom ou ruim - eles não podiam pagar
por bares, filmes ou teatro. Os colegas de quarto muitas vezes “voltavam para
casa entediados e congelados, para cavar a salsicha número dois”.
Cada oportunidade de ganhar algum dinheiro extra era bem-vinda. Quando
Rorschach, um figurante no teatro estudantil, lembrou que o sindicato estudantil
estava patrocinando um concurso de pôsteres de teatro, ele fez uma caricatura de
um professor, acrescentando um verso rimado do livro infantil de Wilhelm
Busch sobre uma toupeira; duas semanas depois, dez francos tão necessários
chegaram pelo correio: terceiro prêmio.
Apesar de uma programação punitiva em uma das melhores escolas de
medicina do mundo - dez cursos em seu primeiro semestre de inverno (outubro
de 1904 a abril de 1905) e outros doze em seu primeiro semestre de verão (abril
a agosto de 1905) - Rorschach não guardou o nariz inteiramente para a pedra de
amolar. Seu melhor amigo na universidade, Walter von Wyss, lembrava de
Rorschach como um leitor voraz, curioso de tudo. Havia tempo para arte,
conversa e folhear as excelentes livrarias de usados em “Athens on the Limmat”,
como era chamada Zurique.
Rorschach costumava passar as longas tardes de sábado no Künstlergütli, o
único museu público de arte de Zurique, do outro lado do rio e subindo a
pequena colina em direção à universidade. Ele e seus amigos exploraram as
galerias de arte principalmente suíça, mas ainda não moderna: cenas camponesas
do suíço Norman Rockwell do século XIX, um pintor de gênero chamado Albert
Anker; cenas da natureza do neo-romântico Paul Robert; obras sentimentais
como Old Monk of the Hermitage de Carl Spitzweg. A coleção incluía a pintura
mais famosa do mestre realista Rudolf Koller, o excepcionalmente dinâmico St.
Gotthard Mail Coach e uma cena do rio do maior escritor de Zurique e poeta
favorito de Rorschach, Gottfried Keller.
Algumas obras apontaram o caminho para o futuro: Procissão de Ginastas
de Ferdinand Hodler , uma guerra de pesadelo do pioneiro da Art Nouveau e
proto-surrealista Arnold Böcklin, que havia sido um dos temas da palestra
“Poesia e Pintura” do colégio de Rorschach.
Nas conversas posteriores, Rorschach assumiu a liderança e perguntou aos
amigos como eles viam a arte. Ele gostava de comparar os diferentes efeitos que
cada peça tinha sobre cada pessoa. O Despertar da Primavera ultrajantemente
psicossexual de Böcklin , com seu sátiro peludo, tocador de cachimbo e pés de
cabra, uma mulher de topless em uma saia vermelha elevando-se sobre a
paisagem e um rio de sangue entre eles: O que pode ser isso?
Rorschach estava começando a categorizar as pessoas enquanto se orgulhava
de permanecer individual.
Depois de passar seus exames preliminares com louvor em abril de 1906 -
"Eu fui o único que os fez depois de quatro semestres", ele se gabou para Anna,
"os outros tinham cinco, seis, sete, oito, mas dois alunos de cinco semestres e Eu
obtive os melhores resultados ”- ele lançou um olhar frio sobre seus colegas de
classe: Fiquei especialmente feliz porque vinha fazendo muitas coisas
“diferentes” antes e durante os exames, embora trabalhasse muito. Tem um tipo
muito comum entre os estudantes de medicina, sabe: quem bebe cerveja, quase
nunca lê jornal, e sempre que quer falar alguma coisa respeitável fala só de
doenças e de professores; que se orgulha terrivelmente de si mesmo,
especialmente do emprego que planeja conseguir, que pensa antecipadamente
com carinho em uma esposa rica, um carro luxuoso e uma bengala com cabo de
prata; esse tipo acha muito desagradável quando outra pessoa faz as coisas “de
maneira diferente” e pode passar nos exames de qualquer maneira.
Muitos jovens sensíveis de 21 anos tiveram esses pensamentos, mas esta não
era uma carta que Rorschach teria escrito sem suas experiências em Dijon.
O sinal mais óbvio de sua “diferença” era o tempo que passava com os
exóticos estrangeiros na cidade.
Zurique estava cheia de russos, com a liberdade política da Suíça atraindo
incontáveis anarquistas e revolucionários. Vladimir Lenin viveu lá no exílio
entre 1900 e 1917 e preferiu Zurique a Berna por causa do
"grande número de jovens estrangeiros de mentalidade revolucionária em
Zurique", sem falar nas excelentes bibliotecas, "sem burocracia, catálogos finos,
estantes abertas , e o excepcional interesse do leitor ”: um modelo para a futura
sociedade soviética. Havia um bairro da “Pequena Rússia” perto da
Universidade de Zurique, com pensões, bares e restaurantes russos: como
disseram os respeitáveis suíços, os debates na Pequena Rússia eram quentes e as
refeições servidas frias.
Na época de Rorschach, metade dos mais de mil estudantes universitários
eram estrangeiros, muitos deles mulheres. Duas mulheres suíças haviam
estudado filosofia em Zurique na década de 1840, abrindo caminho para que as
mulheres estudassem medicina lá já na década de 1860. A primeira mulher a
obter um doutorado em medicina, em 1867, foi uma russa em Zurique:
Nadezhda Suslova. Enquanto isso, as universidades russas continuaram a excluir
mulheres até 1914, as universidades alemãs até 1908.
Esses estrangeiros, por sua vez, eram a maioria das alunas em Zurique,
porque os pais suíços não deixavam suas filhas bem-criadas se misturarem à
gentalha. Emma Rauschenberg, a herdeira de Schaffhausen e futura esposa de
Carl Jung, se formou primeiro em sua classe do ensino médio, mas não teve
permissão para estudar ciências na Universidade de Zurique: “Era simplesmente
impensável para a filha de um Rauschenbach até mesmo pensar em se misturar
com os grande variedade de alunos que se matricularam na
universidade ”, segundo um biógrafo recente de Carl Jung. “Quem poderia
prever quais ideias uma garota como Emma assimilaria por estar em tal
companhia ... Uma educação universitária a tornaria inadequada para o
casamento com um igual social.” No entanto, as mulheres russas se aglomeraram
em Zurique, enfrentando não apenas o sexismo de estudantes e professores
suíços, mas também protestos das poucas estudantes suíças de que essa "onda"
de "invasores semi-asiáticos" estava roubando lugares de moradores locais mais
merecedores e transformando o universidade em uma “escola de acabamento
eslava”.
Quando não eram caricaturadas como boçais ou revolucionárias de olhos
arregalados, as mulheres russas em Zurique eram frequentemente adoradas como
belezas. Um russo de cabelos negros chamado Braunstein era conhecido em
Zurique como “o anjo do Natal”; estranhos se aproximavam dela na rua para
pedir sua foto, mas ela sempre recusava. Quando alguns estudantes de química a
convidaram para a festa anual do departamento, eles endereçaram ao envelope o
nome de uma rua e "MnO " - a fórmula química do dióxido 2
de manganês, ou em alemão, Braunstein - e os zelosos carteiros não
descansaram até que a encontraram . Ela ainda recusou. Rorschach, que queria
desenhar o retrato dela, teve sucesso onde outros falharam, convidando ela e um
amigo para subir em seus quartos com a promessa de mostrar a eles uma carta
escrita à mão de Leão Tolstói. Ele falava um russo razoável, respeitava as
mulheres russas em um ambiente hostil e, provavelmente, sua aparência não
doía. Naquela tarde de sábado, a arte domuseu foi abandonada e um cavalete foi
montado na Weinplatz 3 em seu lugar.
Os russos em Zurique eram um grupo diversificado. Alguns eram jovens,
outros mais velhos; alguns realmente eram revolucionários, como uma colega de
classe que foi forçada a fugir pela Sibéria para o Japão, eventualmente
retornando de navio para a Europa pelo caminho mais longo, enquanto outros
eram
"completamente burgueses, modestos, trabalhadores e ansiosos para evitar a
política". Alguns eram ricos, como a paciente, estudante, colega e amante de
Jung, Sabina Spielrein, que veio para Zurique em 1904, como Rorschach.
Alguns eram pobres, incluindo a filha de um farmacêutico de Kazan, chamada
Olga Vasilyevna Shtempelin.
-
Como Hermann, Olga era a mais velha de três filhos, forçada pelas
circunstâncias a assumir o papel de chefe da família. Ela nasceu de Wilhelm
Karlovitch e Yelizaveta Matveyevna Shtempelin em 8 de junho de 1878, em
Buinsk, perto de Kazan, um centro de comércio no rio Volga e a "porta de
entrada para o leste" do império russo. Embora as escolas para meninas na
Rússia fossem para as filhas dos ricos, ela pôde estudar de graça no Instituto
Rodionov para Meninas de Kazan, um privilégio decorrente dos serviços de seu
bisavô nas forças armadas. Ela chegou a Berlim em 1902, tirou uma folga para
trabalhar e sustentar sua família e foi transferida para a escola de medicina de
Zurique em 1905. Ela seria lembrada por aqueles que a conheceram em Zurique
como a mais inteligente de sua classe.
No início de setembro de 1906, Rorschach deu a sua irmã Anna uma
descrição impressionante da formação e caráter de Olga. “Meus amigos russos
voltaram para casa” depois do semestre de verão, mas uma mulher que conheci
recentemente, cerca de dois meses atrás, está saindo agora. Muitas vezes pensei
que ela em particular é alguém que você deveria conhecer: ela está sozinha em
seu caminho pela vida, e uma vez, quando ela tinha vinte anos, ela teve que
sustentar sua família inteira por um ano e meio, com tutoria e cópia documentos:
pai doente, mãe e dois irmãos. Agora ela está no último ano da faculdade de
medicina, prestes a fazer vinte e seis anos, cheia de vida e de bom humor, e
quando se formar, ela quer ser médica em uma aldeia camponesa, longe de todas
as pessoas de classe alta, e curar camponeses doentes até que talvez alguns deles
a espancassem até a morte. Você já imaginou que existam vidas assim? - Esse
orgulho, essa coragem, é o que distingue as mulheres russas.
De espírito nobre, talentoso, histriônico: Hermann capturou a personalidade
de Olga desde o início. E
também não era totalmente confiável - ela era seis anos mais velha do que
Hermann, então, na verdade, estava prestes a fazer 28 anos.
Olga personificou para Rorschach a imagem da Rússia que ele havia
formado em Dijon. Quando Tregubov voltou para a Rússia e Rorschach perdeu
contato com ele, o jovem estudante tomou medidas para localizá-lo:
“Caro conde Tolstoi”, escreveu ele em janeiro de 1906. “Um jovem que está
preocupado com um amigo seu espera que você o faça conceda-lhe alguns
minutos de seu tempo. " A secretária de Tolstoi atendeu e o contato com
Tregubov foi restabelecido. Nesse ínterim, Rorschach abriu seu coração para o
grande escritor: Aprendi a amar o povo russo,… seu espírito contraditório e
sentimentos genuínos… .Tenho inveja deles por serem tão alegres e também
porque choram quando estão tristes… .A capacidade de ver e moldar o mundo,
como o Mediterrâneo povos; pensar o mundo, como os alemães; mas sentir o
mundo, como os eslavos - esses poderes algum dia serão reunidos?
Russo, para Rorschach, significava sentimento : estar em contato com
emoções fortes e genuínas e ser capaz de compartilhá-las. E “para ser
compreendido, de coração, sem formalidades, truques e pilhas de palavras
eruditas”, escreveu ele a Tolstói: “é isso que todos nós procuramos”.
Ele estava longe de ser o único a escalar os russos para esse papel.
Romances e peças russos eram leitores surpreendentes, de Virginia Woolf a Knut
Hamsun e Freud; o balé russo foi o brinde de Paris; a imensidão física da Rússia,
sua combinação de civilização semieuropeia e alteridade épica, profundidade
espiritual e atraso político, inspirou admiração e ansiedade em todo o continente.
Por mais precisa que fosse ou não fosse essa visão de uma terra agitada por
paixões, ela emoldurava o desejo de Rorschach de ser, em suas palavras,
compreendido com o coração.
Foi Zurique que tornou possível a conexão cultural e pessoal cada vez mais
íntima de Rorschach com a Rússia. Ao mesmo tempo, a questão do que
significava ser entendido estava sendo investigada ao seu redor.
Os professores de Rorschach estavam lutando uma batalha sobre o próprio
significado da mente humana e seus desejos. A psiquiatria estava abrindo novos
caminhos na primeira década do século XX, e Zurique estava na encruzilhada.
4 descobertas extraordinárias e mundo guerreiro
A silhueta compacta do professor era reconhecível à distância. Ele saiu
correndo do hospital no último minuto para chegar ao pódio, onde estava um
metro e setenta, barbudo, intenso, ligeiramente inclinado para a frente. Seus
movimentos eram angulares e espasmódicos, e quando ele falou seu rosto estava
anormalmente animado, quase surpreendente. As palestras cobriam técnicas
clínicas e laboratoriais de maneira artesanal, com recurso frequente à estatística,
mas também enfatizavam repetidamente a importância do relacionamento
emocional com os pacientes. Consciente, profissional, às vezes exigente, ele
também era modesto e obviamente gentil. Às vezes era difícil lembrar que se
tratava de Eugen Bleuler, um dos psiquiatras mais respeitados do mundo, seus
métodos ensinados em salas de aula por toda a Europa e debatidos por alunos
ansiosos depois.
Outro conferencista do mesmo departamento era tudo menos modesto. Alto,
impecavelmente vestido, aristocrático na voz e nos modos, era neto de um ilustre
médico que, segundo rumores, era filho ilegítimo do grande Goethe. Ele exalava
uma mistura sedutora de confiança e sensibilidade, até vulnerabilidade, e chegou
cedo para se sentar em um banco no corredor onde qualquer um que quisesse
poderia vir e conversar. Suas palestras eram abertas a alunos e não alunos, e seu
alto calibre e amplo alcance envolvente os tornavam tão populares que
precisavam ser transferidos para um auditório maior. Em pouco tempo, ele
"conquistou seguidores femininos devotados e altamente visíveis", conhecidos
como as Senhoras de Casacos de Pele de Zurique, em homenagem ao bairro
mais rico da cidade, que "marcharam com equilíbrio e autoconfiança em todas as
suas palestras, conquistando os melhores assentos e assim ganhando a inimizade
dos alunos, que tinham que ficar na retaguarda. ” E isso foi antes de as senhoras
começarem a convidá-lo para grupos de discussão privados em suas casas. A
filha de uma dessas mulheres classificou a base de fãs do professor como
"groupies sedentas de sexo ou histéricas na pós-menopausa".
Em vez de oferecer estatísticas áridas e instruir futuros profissionais em
técnicas de laboratório, Carl Jung falou sobre a dinâmica familiar e histórias
humanas, muitas vezes casos de mulheres como as de sua audiência. Ele
insinuou, até mesmo disse abertamente, que suas próprias “histórias secretas”
continham a chave para mais verdade do que os médicos poderiam encontrar por
conta própria. A mensagem foi emocionante; sua visão penetrante às vezes
parecia quase mágica.
Esses foram os professores deRorschach, moldando não apenas sua própria
trajetória, mas o futuro da psicologia.
-
Zurique, na primeira década do século XX, esteve no centro de uma enorme
transformação na compreensão e no tratamento das doenças mentais. No início
do século, o campo estava profundamente dividido entre o respeito pela
experiência interior subjetiva e um esforço para alcançar respeitabilidade
científica, concentrando-se em dados objetivos e leis gerais. Havia cientistas
conhecidos como “psicopatologistas”, geralmente franceses, que se propunham a
explorar a mente, e outros, muitas vezes alemães, perseguindo a chamada
“psicofísica”, preferindo dissecar o cérebro. Essa divisão profissional e
geográfica coincidia, mas não inteiramente, com uma divisão institucional entre
psiquiatras, geralmente baseados em hospitais ou clínicas, e psicólogos, em
laboratórios universitários. Os psiquiatras tentaram curar os pacientes, os
psicólogos estudaram assuntos. Houve um cruzamento, e os maiores avanços na
psicologia muitas vezes vieram dos psiquiatras - Freud e Jung, por exemplo,
eram psiquiatras e médicos. Mas os psiquiatras eram médicos, com um médico;
os psicólogos eram cientistas pesquisadores, com doutorado.
Apesar dos avanços na neurologia e na classificação das doenças, um
psiquiatra do século XIX não podia fazer quase nada para ajudar as pessoas. Isso
era um tanto verdadeiro para a medicina em geral - sem antibióticos, sem
anestesia, sem insulina. Descrevendo um médico um pouco anterior, Janet
Malcolm observa que “a medicina na época de Chekhov não tinha o poder de
curar que só recentemente começou a exercer. Os médicos entendiam as doenças
que eram incapazes de curar. Um médico honesto teria achado seu trabalho
muito deprimente. ” A psiquiatria estava em situação ainda pior.
Fora da medicina, as próprias fronteiras entre a ciência e as humanidades
estavam sendo redesenhadas. O
objetivo da psicologia deveria ser definir cientificamente uma condição, com
listas de sintomas e leis de como as doenças progridem, ou compreender mais
humanisticamente um indivíduo único e seu sofrimento?
Em termos práticos: um jovem aspirante a psicólogo deveria estudar ciência
ou filosofia? Nos primeiros dias
- antes de Freud, antes da neurociência moderna - a psicologia era
geralmente classificada como um ramo da filosofia. Simplesmente não havia
outra maneira de compreender a mente. As doutrinas médicas também
coincidiam amplamente com os ensinamentos religiosos sobre virtude e pecado,
caráter e autocontenção. Os psiquiatras tentaram curar casos de possessão
demoníaca. Sua tecnologia mais avançada era o mesmerismo.
Rorschach era um estudante quando tudo isso estava começando a mudar.
Freud havia sintetizado uma teoria da mente inconsciente e impulsos sexuais que
reunia psicopatologia, psicofísica e uma psicoterapia nova e eficaz, ao mesmo
tempo reintegrando as humanidades nas ciências naturais e redefinindo a
distinção entre normalidade e doença. As fantasias aparentemente sem sentido
de pacientes psicóticos estavam sendo decifradas e curadas com métodos
baseados em suposições que pareciam incríveis para cientistas do cérebro
materialistas.
Quando Rorschach entrou na faculdade de medicina, porém, tudo o que
Freud tinha era um divã em Viena e uma gama restrita de neuróticos de classe
alta para clientes. A Interpretação dos Sonhos, publicada em 1899, vendeu 351
exemplares, no total, em seus primeiros seis anos de impressão. Em termos de
respeitabilidade científica e institucional, e dos recursos e reputação
internacional necessários para estabelecer a psicanálise como um movimento
duradouro, o lugar que importava era Zurique.
A faculdade de medicina da Universidade de Zurique era uma instituição
híbrida conectada ao Burghölzli: um laboratório, clínica psiquiátrica
universitária e hospital universitário inaugurado em 1870 e, na época de
Rorschach, amplamente considerado o melhor do mundo. Era uma grande
instalação administrada pelo cantão de Zurique, que abrigava, em sua maioria,
pacientes sem educação e de classe baixa que sofriam de esquizofrenia, sífilis
terciária ou outras demências de causas físicas. Mas sua direção estava ligada à
recém-fundada cadeira de psiquiatria da universidade.
Na maioria das universidades, professores de psiquiatria de prestígio eram
pesquisadores do cérebro, com pequenas clínicas e alguns casos de curta duração
para dar aulas. Mas qualquer professor de psiquiatria em Zurique, como escreve
o historiador John Kerr, estaria encarregado de mais de cem pacientes, a maioria
incuráveis. E eles eram locais, falando baixo alemão ou o dialeto de Zurique do
alemão suíço: o professor literalmente não conseguia entender a língua deles.
Não surpreendentemente, uma série de diretores de clínicas rapidamente
abandonou o barco e, enquanto o professor universitário ganhou estatura, o
Burghölzli logo se tornou “mais conhecido localmente pelo bordel situado no
outro lado de seu terreno” do que por seu hospital. Começou a melhorar com o
diretor Auguste Forel, mas até ele se aposentou mais cedo. Em 1898, ele passou
o cargo para um homem chamado Eugen Bleuler (1857–1939, o contemporâneo
exato de Freud).
Bleuler era de Zollikon, uma vila agrícola fora de Zurique, adjacente ao
Burghölzli. Seu pai e seu avô haviam participado da luta na década de 1830 para
conquistar direitos iguais para os agricultores e estabelecer a Universidade de
Zurique. Bleuler foi a segunda pessoa de sua aldeia a se formar na universidade
e a primeira a frequentar a escola de medicina. Ao longo de sua vida, ele
permaneceu profundamente consciente de sua aparência e origem rústica, e
também da luta de classes e da organização política que tornou sua carreira
possível. Crucialmente, ele falava a língua local, para que pudesse entender o
que seus pacientes diziam.
A sabedoria predominante era que o tipo de pessoa sob os cuidados de
Bleuler não tinha esperança. Nas palavras de Emil Kraepelin, o psiquiatra que
dera o nome de demência precoce ao que hoje se chama esquizofrenia:
“Sabemos agora que o destino de nosso paciente é determinado principalmente
pelo desenvolvimento da doença; raramente podemos alterar o curso da doença.
Devemos admitir abertamente que a grande maioria dos pacientes internados em
nossas instituições está perdida para sempre. ” Ainda mais brutalmente: “A
grande massa de pacientes não curados que se acumulam em nossas instituições
psiquiátricas pertence à demência precoce, cujo quadro clínico é marcado acima
de tudo pelo colapso mais ou menos abrangente da personalidade”. Eles
“pertenciam” à doença. Freud também disse que esses
pacientes eram inacessíveis. Mas Bleuler, nas trincheiras, aprendeu o
contrário. A linha entre doença mental e saúde não era tão difícil e rápida quanto
seus colegas universitários acreditavam, e ver os pacientes como uma “grande
massa” “acumulando-se” era parte do problema.
Antes de se tornar diretor do Burghölzli, Bleuler morou por doze anos no
maior asilo da Suíça, uma ilha-mosteiro-hospital (originalmente uma basílica do
século XII) chamado Rheinau, com seiscentos a oitocentos pacientes. Lá e no
Burghölzli, Bleuler mergulhou no mundo dos psicóticos gravemente, visitando
as enfermarias até seis vezes por dia e conversando com catatônicos indiferentes
por horas. Ele deu aos seus assistentes uma enorme carga de trabalho,
normalmente semanas de oitenta horas - rondas matinais antes das 8h30,
escrevendo histórias de casos após as rondas noturnas, muitas vezes até 10h00
ou 11h00 - e celibato monástico forçado eabstinência de álcool. Os médicos e a
equipe dormiam em grandes quartos compartilhados, com muito poucas
exceções. Eles não podiam reclamar, já que Bleuler trabalhava mais duro do que
qualquer um deles.
Por viver em contato tão próximo com seus pacientes, Bleuler percebeu que
eles tinham reações mais matizadas e menos compulsivas a seus ambientes do
que se pensava. Por exemplo, eles se comportaram de maneira diferente com
parentes diferentes ou com membros do sexo oposto. O determinismo biológico
não conseguia explicar completamente seus sintomas. Nem estavam condenados,
pelo menos não necessariamente - até mesmo a progressão dos casos mais
graves às vezes podia ser interrompida ou revertida, se os médicos
desenvolvessem bons relacionamentos pessoais com os pacientes. Bleuler
subitamente dispensava pacientes que pareciam gravemente doentes ou
convidava um paciente particularmente violento para um jantar formal em sua
casa. Ele foi pioneiro na terapia de trabalho e em outras “tarefas orientadas para
a realidade” - cortar lenha, cuidar de outros pacientes com tifo - para casos
crônicos há muito considerados sem esperança, resultando em curas que
pareciam quase milagrosas. Quando seus pacientes esquizofrênicos trabalhavam
nos campos, ele se juntava a eles, fazendo um trabalho que lhe era familiar desde
a juventude em Zollikon. Bleuler dedicou sua vida a estabelecer uma conexão
emocional com todas as pessoas sob seus cuidados. Tanto os pacientes quanto a
equipe costumavam chamá-lo de "pai".
Foi Bleuler quem chamou a doença de esquizofrenia - sua contribuição mais
conhecida para a ciência, junto com a invenção dos termos autismo, psicologia
profunda e ambivalência. Ele fez isso porque o rótulo anterior de Kraepelin,
demência precoce, significa "perda de mente de início precoce", algo biológico e
irreversível, enquanto "uma mente dividida" (o significado de esquizofrenia )
não está irremediavelmente perdida: ela ainda pode funcionar, viver poderes.
Bleuler também escreveu que queria um novo termo porque não há como usar
demência precoce como adjetivo. Em sua opinião, a doença não deveria ser um
objeto médico - um substantivo em latim - mas uma maneira entre muitas de
descrever um sofredor humano em particular.
Essa empatia pelos pacientes tinha raízes pessoais: quando Bleuler tinha
dezessete anos, sua irmã desenvolveu catatonia e foi hospitalizada perto de sua
aldeia em Burghölzli. A família ficou indignada com os neurologistas que
pareciam, como diziam os habitantes locais, mais interessados em microscópios
do que em pessoas e que não sabiam nem falar a língua dela. Bleuler decidiu, ou
em algumas versões da história que sua mãe o inspirou, tornar-se um psiquiatra
capaz de compreender verdadeiramente seus pacientes. Embora ele nunca tenha
escrito ou falado publicamente sobre a doença de sua irmã Anna-Paulina, sua
influência decisiva sobre ele é inegável. Um dos assistentes de Bleuler no
Burghölzli em 1907 e 1908 relembrou:
“Bleuler costumava nos dizer que mesmo os catatônicos mais graves podem
ser influenciados pela persuasão verbal. Ele deu sua própria irmã como exemplo
... Uma vez, Bleuler teve que fazer com que ela saísse do prédio enquanto ela
estava em um estado de intensa excitação. Ele se recusou a usar a força e ... falou
com ela por horas e horas, até que finalmente ela vestiu as roupas e saiu com ele.
Bleuler usou esse exemplo como prova de que a persuasão verbal era possível. ”
Ela morou com ele em seu apartamento no Burghölzli por quase trinta anos,
desde a morte de seus pais em 1898 até sua morte em 1926. Seu assistente
relembrou: “Eu podia vê-la andando monotonamente para a frente e para trás o
dia todo, de meu quarto, do outro lado do corredor. Os filhos de Bleuler eram
muito pequenos na época e não pareciam notar sua irmã. Sempre que queriam
subir em qualquer lugar, eles simplesmente a usavam como um objeto
inanimado, como uma cadeira. Ela não demonstrou nenhuma reação, nenhuma
relação emocional com as crianças ”. Bleuler viveu cara a cara com a
esquizofrenia extrema por décadas antes que o termo existisse, e durante toda a
sua carreira no Burghölzli ele teve um exemplo vivo da humanidade do
esquizofrênico bem ali na sala. Seus esforços pioneiros começaram em casa.
Claro, cada geração se propõe a corrigir os erros da anterior; psiquiatras
regularmente acusam seus predecessores de serem insensíveis ou pelo menos
equivocados. Na verdade, os psiquiatras antes de Bleuler,
de Forel a Kraepelin e o pai da psiquiatria centrada no cérebro, Wilhelm
Griesinger, eram médicos simpáticos e atenciosos também. Mas o Burghölzli era
realmente diferente. O assistente de Bleuler relembra:
“A maneira como olharam para o paciente, a maneira como o examinaram,
foi quase como uma revelação.
Eles não classificaram simplesmente o paciente. Eles pegaram suas
alucinações, uma por uma, e tentaram determinar o que cada uma significava e
exatamente por que o paciente tinha esses delírios em particular ...
Para mim, isso era totalmente novo e revelador. ” A transformação em
direção ao cuidado centrado no paciente não começou no Burghölzli, ou
terminou lá, mas Bleuler orientou gerações de psiquiatras, tanto estudantes
quanto assistentes, incluindo seu filho Manfred, Carl Jung e Sabina Spielrein,
dois dos chefes posteriores de Rorschach, e Rorschach ele mesmo. Se é
impensável hoje que um psiquiatra seja incapaz de falar a língua de seu paciente,
isso se deve em grande parte a Eugen Bleuler.
-
Carl Jung chegou ao Burghölzli em dezembro de 1900, para trabalhar como
assistente de Bleuler. Ele começou a se tornar a figura proeminente, então
proeminente, que transformaria repetidamente o campo da psicologia nas
décadas seguintes.
A partir de 1902, Jung e o outro médico assistente do Burghölzli, Franz
Riklin, desenvolveram o primeiro método experimental para revelar padrões no
inconsciente: o teste de associação de palavras. Os indivíduos leram uma lista de
uma centena de palavras de alerta e foram solicitados a dizer a primeira coisa
que lhes veio à cabeça, enquanto o médico cronometrava suas respostas com um
cronômetro; então, eles examinaram a lista novamente e foram solicitados a se
lembrarem de suas respostas iniciais. Quaisquer aberrações -
longos atrasos, lapsos de memória durante a segunda rodada, non sequiturs
surpreendentes, ficar "preso" e respostas repetidas - poderiam ser explicadas
apenas por atos inconscientes de memória e repressão, uma espécie de buraco
negro oculto puxando e distorcendo as respostas da pessoa em direção desejos
ocultos ou provocando fintas na direção oposta. Jung chamou esses centros
ocultos de "complexos". O teste descobriu, empiricamente, que a maioria deles
era sexual.
Com isso, os médicos do Burghölzli fizeram uma descoberta “inédita e
extraordinária”. Independentemente de Freud - e fazendo algo totalmente
diferente de deixar um neurótico divagar em um divã -, eles conseguiram
produzir provas concretas de processos inconscientes em funcionamento, tanto
em pessoas
“normais” quanto em doentes mentais. Eles reconheceram imediatamente
que seus resultados haviam confirmado Freud, e em pouco tempo o teste de
associação de palavras estava sendo incorporado à psicanálise, à medida que os
médicos improvisavam palavras-estímulo para seguir certas linhas de
pensamento ou usavam os complexos que encontravam como pontos de partida
para a terapia. O método tinha um enorme potencial em criminologia. Jung e
Riklin criaram o teste psicológico moderno.
O que irrompeu a seguir no Burghölzli foi nada menos do que uma orgia de
testes, commédicos cronometrando, interpretando sonhos e psicanalisando seus
pacientes, suas esposas, seus filhos, uns aos outros, a si próprios. Eles saltaram
sobre todos os sinais do inconsciente que puderam encontrar: cada lapso de
língua ou caneta, lapso de memória, melodia cantarolada distraidamente.
Durante anos, “foi assim que nos conhecemos”, escreveu Bleuler. Seu filho mais
velho, Manfred (nascido em 1903), e a mais velha de Jung, Agathe (nascida um
ano depois), ambos se lembraram de ter se sentido sob total observação
psicanalítica quando crianças. Publicações sobre o experimento de associação de
palavras incluíram resultados anônimos de Bleuler, a esposa de Bleuler, sua mãe
e irmã e o próprio Jung.
Bleuler ficou emocionado com as descobertas de Freud e imediatamente quis
usá-las para ajudar os profundamente psicóticos, não apenas os pacientes
particulares que sofrem de complexos sexuais. Em pouco tempo, ele achou os
resultados convincentes o suficiente para estender a mão para Freud. Ele
aproveitou a oportunidade de uma resenha de um livro de 1904 para falar o mais
veementemente que pôde, dizendo que os Estudos de Freud sobre a histeria e a
interpretação dos sonhos “abriram um novo mundo” - um endosso poderoso de
um dos principais psiquiatras da Europa. Em seguida, escreveu pessoalmente a
Freud: “Prezado Colega de Honra! Nós aqui no Burghölzli somos fervorosos
admiradores das teorias freudianas em psicologia e patologia. ” Como parte da
auto-análise violenta no Burghölzli, ele até enviou a Freud vários de seus
próprios sonhos, pedindo dicas sobre como interpretá-los.
A notícia da admiração fervorosa de Bleuler foi uma das cartas mais
encorajadoras que Freud jamais receberia, e o primeiro sinal que Freud viu da
aceitação de sua teoria nos círculos acadêmicos. Pode ter sido o que o inspirou a
encerrar seu hiato plurianual de escrever e produzir as três grandes obras que
publicaria em 1905 ( Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade, Piadas e sua
Relação com o Inconsciente e Uma Análise de um Caso de Histeria ) Freud
gritou para seus amigos: "Um reconhecimento absolutamente impressionante do
meu ponto de vista ... Basta pensar: um professor titular oficial de psiquiatria e
meus
estudos † † † de histeria e sonho, sempre invocado com nojo e ódio até
agora!" (Três cruzes foram marcadas a giz nas portas da frente das casas de
camponeses para afastar o perigo e o mal - Freud as usava em suas cartas para
indicar ironicamente coisas horripilantes e diabólicas.) Ele escreveu a Bleuler:
“Estou confiante de que logo venceremos a psiquiatria”.
Esse “nós” esquivou-se de algo que Freud conhecia perfeitamente bem:
Bleuler, no auge da psiquiatria profissional em Zurique, era muito mais
importante para as idéias freudianas do que vice-versa. Ao tornar o Burghölzli a
primeira clínica psiquiátrica universitária do mundo a usar métodos de
tratamento psicanalítico, Bleuler e seus assistentes foram os que trouxeram
Freud para a medicina profissional. Zurique, onde Rorschach estava estudando,
substituiu Viena como o epicentro da revolução freudiana.
Em 1906, o Burghölzli estava totalmente envolvido nas controvérsias em
torno das idéias de Freud - o que Freud chamou de “dois mundos em guerra” da
psiquiatria acadêmica e da psicanálise. Com os estudos de associação de
palavras de Jung-Riklin oferecendo provas aparentemente inflexíveis das teorias
de Freud, os antifreudianos atacaram. Gustav Aschaffenburg, o psiquiatra
alemão que ensinou Riklin a fazer os testes de associação de palavras, fez uma
denúncia feroz contra Freud em uma convenção psiquiátrica e depois a publicou.
Bleuler falara em defesa de Freud em 1904, dois anos antes, mas desde então
ousara fazer algumas perguntas difíceis. A teoria de Freud parecia extrema,
escreveu Bleuler - tudo estava enraizado na sexualidade? Onde estava a
evidência em que o trabalho anterior de Freud foi tão rico? Certamente Freud
não estava generalizando não cientificamente sobre a natureza humana a partir
de um único caso? Bleuler achou produtivo ter seus pontos de vista desafiados;
não Freud, que descartou todas as dúvidas razoáveis de Bleuler como resistência
à grande verdade e voltou sua atenção para o colega mais jovem de Bleuler.
Foi Jung, não Bleuler, quem respondeu a Aschaffenburg em 1906 - uma
crítica devastadora que muito contribuiu para o avanço da reputação de Freud.
Jung já havia passado por cima da cabeça de Bleuler para escrever a Freud,
escorregando em sua primeira carta que ele havia “publicado o caso que
primeiro chamou a atenção de Bleuler para a existência de seus princípios,
embora naquela época com vigorosa resistência de sua parte”. O oposto estava
mais perto da verdade. Jung aproveitou a oportunidade de seu primeiro encontro
pessoal com Freud em 1907 para abrir outro fosso entre os dois homens mais
velhos e persuadir Freud de que ele era o homem de Freud em Zurique.
As cartas de Jung a Freud variaram cada vez mais de maliciosas a
abertamente traidoras, repetindo o espírito pedante e mesquinho de seu chefe e a
total incompetência em psicanálise: “As virtudes de Bleuler são distorcidas por
seus vícios e nada vem do coração”; A palestra de Bleuler “foi terrivelmente
superficial e esquemática”; “A verdadeira e única razão ” para as objeções de
Bleuler “é minha deserção da multidão da abstinência” ; “Eu admiro a maneira
como você atura Bleuler. A palestra dele foi horrível, você não acha?
Você recebeu o grande livro dele? ” Este foi o livro sobre esquizofrenia - a
obra vitalícia de Bleuler. “Ele fez coisas realmente ruins com isso.”
Se Bleuler é injustamente esquecido hoje, é em grande parte porque Jung o
tirou da história - nunca o mencionou pelo nome em suas memórias, indo tão
longe a ponto de dizer que os psiquiatras de Burghölzli se preocupavam apenas
com rótulos, com "a psicologia do mental paciente não desempenhando nenhum
papel
". Foi Jung, disse Jung, que foi levado a descobrir as histórias individuais de
seus pacientes: Por que um paciente acreditava em uma coisa e o outro em outra,
e de onde vêm essas crenças particulares e específicas?
Se um paciente pensava que era Jesus e outro dizia: “Eu sou a cidade de
Nápoles e devo fornecer macarrão ao mundo”, então de que adiantaria colocar os
dois sob o rótulo de “delirantes”? A acusação de Jung de que Bleuler “preferia
fazer diagnósticos comparando sintomas e compilando estatísticas” a “aprender
a língua de cada paciente” foi um golpe particularmente baixo, dada a história do
dialeto suíço no Burghölzli.
O que muitas vezes foi visto como um dueto de atração, repulsa e interesse
próprio entre Freud e Jung foi na verdade um triângulo: Jung vendeu-se muito a
Freud porque queria deslocar Bleuler; à medida que Bleuler se tornava menos
confiável, a necessidade de Freud por Jung se intensificava; A irritação de Jung
sob a autoridade de Bleuler desencadeou a luta pelo poder com Freud. Bleuler se
sai melhor nessas disputas, às vezes hesitante e sem imaginação, mas com o
mínimo de ego e a maior disposição para aprender com os outros. No entanto, a
estrela de Bleuler caiu com a ascensão de Jung.
Por trás das diferenças intelectuais havia um conflito de classes básico:
enquanto os Bleulers viviam modestamente, comiam na sala de jantar do
hospital e compartilhavam suas vidas com a irmã catatônica de Eugen, Jung em
1903 havia se casado com uma das mulheres mais ricas da Suíça. Os Jungs
saíram de seu apartamento no Burghölzli diretamente no andar de baixo da casa
dos Bleulers e tinham refeições particulares preparadas por seus criados quando
não estavam desfrutando de um dos bons restaurantes de
Zurique. Jung pediu umasérie de licenças não remuneradas para continuar
seu trabalho ou viajar - agora ele podia pagá-las - e Bleuler aprovou todas, cada
vez mais relutantemente com o passar dos anos e as obrigações de dirigir um
grande hospital o afastaram de seus próprios trabalhar. O crescente desdém de
Jung pelo trabalhador Bleuler era um sinal de sua própria sorte crescente.
Ambos os homens se desentenderam com Freud dentro de alguns anos e
continuaram a brigar um com o outro por décadas - "vinte anos de inimizade
ativa" que, "enquanto ambos ainda estavam no Burghölzli, variava de uma
observação velada ocasional a invectivas abertamente hostis, muitas vezes antes
de médicos chocados ou pacientes assustados. ” Qualquer psiquiatra de Zurique
precisava navegar em um campo minado em constante mudança de “mundos em
guerra”, onde até a recusa em tomar partido seria considerada uma traição por
ambas as partes. Esse era o dilema que Bleuler agora precisava enfrentar. Ele
sentia que a autoridade absoluta era inimiga do debate e do progresso científicos:
“Este 'você está conosco ou contra nós'
é, em minha opinião, necessário para as comunidades religiosas e útil para os
partidos políticos, mas considero prejudicial para a ciência”, ele disse a Freud
diretamente. Buscando a pluralidade, ele se juntou a organizações criadas em
oposição ao campo fechado de Freud. Freud discordou, enquanto a maioria dos
cientistas pesquisadores criticou Bleuler por ter apoiado Freud em tudo.
-
Rorschach naturalmente não teria sabido das intrigas reveladas apenas nas
cartas particulares de Freud, Jung e Bleuler. No início de 1906, enquanto Freud
transferia sua lealdade de Bleuler para Jung, Rorschach era um estudante
universitário do segundo ano fazendo seus exames preliminares e assistindo a
palestras de Jung, que mais tarde disse que nunca conheceu Rorschach
pessoalmente. Ainda assim, Rorschach não pôde deixar de estar ciente das rixas
entre esses pioneiros e das questões em jogo.
Como estudante e pelo resto de sua vida, Rorschach respeitou as idéias de
Freud e preservou certo ceticismo em relação a elas. Ele continuaria a usar a
psicanálise, embora permanecesse claro sobre suas limitações. Em uma palestra
posterior para um público geral de médicos longe de Zurique, ele ofereceu
explicações confiáveis de como a psicanálise funcionava e o que ela podia ou
não fazer; enquanto isso, ele também brincou que "em Viena, eles vão explicar a
rotação da Terra psicanaliticamente em breve".
Rorschach usou o teste de associação de palavras em pacientes e em casos
criminais durante anos, mesmo depois de Jung o ter deixado para trás, e também
se inspirou no trabalho posterior de Jung. O livro de Jung, Transformações e
símbolos da libido , de 1912 , viria a definir a “Escola de Zurique”, que estendia
as explorações psicanalíticas a uma enorme gama de fenômenos culturais, desde
mitos e religiões gnósticas à arte e ao que viria a ser chamado de inconsciente
coletivo. Jung rejeitou a compreensão literalista de Freud dos impulsos sexuais,
considerando-os, em vez disso, mais miticamente e simbolicamente a “energia
vital”
compartilhada pela sexualidade, pelo fogo, pelo Sol. Rorschach também era
“fascinado pelo pensamento arcaico, pelos mitos e pela construção de
mitologias”, segundo Olga. “Ele buscou os traços dessas idéias antigas em vários
pacientes, procurou analogias e encontrou, nas ilusões de um fazendeiro suíço
doente que levava uma vida de eremita, alusões surpreendentes ao mundo dos
deuses egípcios.”
Tal como aconteceu com as idéias de Freud, Rorschach usou as de Jung sem
cair inteiramente sob seu domínio. Jung tomou partido: embora reconhecesse
que certamente havia causas fisiológicas para a doença mental, ele logo apontou
que a maioria de seus pacientes tinha cérebros intactos, ou pelo menos que não
havia maneira de conectar seus distúrbios psicológicos ao cérebro. “Por esta
razão”, disse Jung em janeiro de 1908 em uma palestra na Prefeitura de Zurique,
“abandonamos totalmente a abordagem anatômica em nossa Clínica de Zurique
e nos voltamos para a investigação psicológica de doenças mentais”. Quer
Rorschach tenha assistido ou não a essa palestra em particular, ele absorveu sua
mensagem. Ele pagou suas dívidas na área científica, fazendo pesquisas
anatômicas sólidas sobre a glândula pineal no cérebro, mas concordou que o
futuro da psiquiatria residia em encontrar maneiras de interpretar a mente, não
apenas dissecar o cérebro.
Mas Rorschach estava mais próximo em espírito do terceiro grande pioneiro,
que era constitucionalmente incapaz de “abandonar totalmente” tanto a
abordagem interpretativa quanto a anatômica. Se uma doença é biológica,
argumentou Bleuler, então talvez deva ser tratada independentemente de quais
possam ser os delírios ou "história secreta" do paciente. Rorschach também
continuaria a acreditar que a psicologia se apoiava em uma base fisiológica - no
caso dele, a natureza da percepção.
Rorschach compartilhava da origem social modesta de Bleuler, seu interesse
humano por pessoas que sofrem de doenças mentais graves e uma capacidade,
que seus colegas muitas vezes não tinham, de respeitar e aprender com os outros,
mesmo enquanto encontrava seu próprio caminho. Enquanto Freud via as
mulheres como seres com psicologias misteriosas muito diferentes da "nossa", e
Jung muitas vezes escrevia sobre o interesse predominante das mulheres em
domesticidade e tendência a usar a emoção em vez do intelecto,
Rorschach - o campeão dos direitos das mulheres no ensino médio - e
Bleuler não compartilhavam de nenhum desses preconceitos e, mais importante,
nunca construíram suas teorias em torno deles.
Ambos rejeitaram com naturalidade a psicologia paranormal. Freud e Jung -
assim como William James, Pierre Janet, Théodore Flournoy e outros psicólogos
proeminentes da época - frequentavam sessões espíritas e estudavam médiuns
espirituais, não como um hobby, mas porque era onde esperavam ter acesso ao
"subliminar ”Reino que logo será chamado de inconsciente. Rorschach,
como Bleuler, entendeu essas práticas nos termos que usaríamos hoje. Quando
sua irmã Anna zombou de sua avó por se voltar para o espiritualismo, Hermann,
na faculdade de medicina, respondeu que “se um velho está chateado e se volta
para os espíritos, ela o faz apenas porque as pessoas não a querem mais. Ela
tenta se comunicar com fantasmas porque ela não tem mais ninguém vivo que
seja próximo a ela. Essa é uma situação de tragédia real e profunda, e nada para
ficar com raiva. ”
Rorschach nunca trabalhou no Burghölzli, mas devido à natureza simbiótica
da Universidade de Zurique e do hospital Burghölzli, ele pôde ter um clínico de
classe mundial como consultor acadêmico. Ele se tornou um Bleuleriano o
suficiente para fazer a promessa de abstinência do álcool, em janeiro de 1906, e
mantê-la pelo resto da vida. Bleuler foi a exceção entre os psiquiatras
universitários de sua época no apoio, aplicação e ensino das ideias de Freud, mas
a independência de Zurique de Viena foi crucial: Rorschach era o único lugar no
mundo onde a psicanálise era levada a sério e aberta a um maior refinamento e
exploração. Ele estudou com os inventores do primeiro teste psicológico do
inconsciente do mundo. Provaria ser um cenário ideal.
-
Em 1914, quando Rorschach era psiquiatra, Johannes Neuwirth, soldado de
um batalhão de bicicletas do exército suíço, foi enviado à clínica de Rorschach
para avaliação. Neuwirth saiu de licença de dez dias, pagou 2.900 francos em
dívidas pelos negócios de seu padrasto e, na quinta-feira, 3 de dezembro, dois
dias antes de seu retorno ao trabalho, desapareceu repentinamente. A polícia oencontrou em uma taverna seis dias depois, curvado sobre um prato de comida
com uma cerveja grande na frente dele, comendo devagar e com calma. Depois
de um tempo, o policial disse: "Neuwirth, por que você não voltou ao serviço no
sábado?" Neuwirth ergueu os olhos e disse, hesitante e envergonhado: “Tenho de
ir agora”.
Ele foi com o policial de boa vontade e queria reunir-se à sua tropa
imediatamente - ele gostava de servir no exército. Quando perguntado que dia
era, ele disse “quinta-feira” e se recusou a acreditar que já era quarta-feira, 9; ele
parecia confuso em geral. Transferido para o hospital, Neuwirth disse que sua
bicicleta havia capotado na neve na noite do dia 3 e ele havia caído na ponte
perto da estação ferroviária. Ele não se lembrou de mais nada até que o policial
falou com ele na taverna. “Foi como se eu estivesse acordando de um sonho.
Eles me acusaram de querer fugir, mas se eu quisesse, teria feito com 2.900
francos no bolso, não depois de ter pago tudo em contas ”.
Depois de obter uma longa história da formação, saúde física e
circunstâncias familiares de Neuwirth, Rorschach usou o experimento de
associação de palavras de Jung-Riklin, associação livre freudiana e hipnose -
uma das especialidades de Bleuler - para ajudar Neuwirth a lembrar o que havia
acontecido. O teste de associação de palavras não revelou nada do que havia
acontecido no próprio incidente, mas revelou complexos que explicam por que o
ataque de Neuwirth havia assumido a forma que tinha (hostilidade para com seu
padrasto, desejando que seu pai ainda estivesse vivo para que “tudo fosse como
estava ”). A livre associação freudiana levou o paciente de volta a um estado de
dissociação, o que demonstrou como ele havia agido: ele imediatamente
começou a ter alucinações e depois não conseguia se lembrar de nada além da
primeira coisa que vira. A hipnose funcionou melhor para descobrir os fatos do
que acontecera, como Rorschach esperava; ele o deixara para o fim para que
pudesse comparar os resultados dos diferentes métodos. Sob hipnose, Neuwirth
revelou que havia deixado a bicicleta perto da estação, sentou-se em um banco
do parque, voltou ao negócio do padrasto, não conseguiu encontrar o caminho de
casa, teve o que parecia ser um ataque epiléptico. Sua história sempre foi
consistente, mas ele se lembrava de tudo acontecer em um único dia.
Após a hipnose, Rorschach foi capaz de interpretar as visões associadas
livremente e os resultados da associação de palavras para juntar grande parte da
história. “Foi especialmente importante para mim”, resumiu ele, “mostrar,
usando o material recuperado na hipnose posteriormente, que as chamadas
'associações livres' são realmente determinadas ” , não aleatórias, mas sim
produtos de “memórias inconscientes. ” Cada técnica tinha uma função
importante. Rorschach concluiu que uma análise completa teria sido a melhor de
todas, para fornecer mais detalhes não revelados sob hipnose e para provar que
todos os aspectos do caso, em suas palavras, “se fundiram em uma imagem
unificada”.
Mas não houve tempo para uma análise completa. O que ele precisava era de
um método que pudesse funcionar em uma única sessão, produzindo “uma
imagem unificada” imediatamente. Teria que ser estruturado, com coisas
específicas para responder, como os prompts em um teste de associação de
palavras; desestruturado, como a tarefa de dizer tudo o que vem à cabeça; e,
como a hipnose, capaz de contornar nossas defesas conscientes para revelar o
que não sabemos que sabemos, ou não queremos saber. Rorschach tinha três
valiosas técnicas à sua disposição, de suas três principais influências, mas o teste
do futuro teria que combiná-las todas.
5 Um caminho próprio
Na primavera de 1906, como estudante-doutor em Zurique, tendo acabado
de passar nos exames preliminares, Rorschach não estava em posição de
imaginar tal síntese, muito menos de criá-la. Ele estava faminto por experiência,
mas não tinha permissão para fazer muito por conta própria além de exames
oftalmológicos, exames físicos e autópsias. Ao escrever para Anna, porém, ele
estava emocionado por finalmente estar praticando medicina: “Trabalho de
verdade com pacientes de verdade, um vislumbre de minha carreira futura!” Ele
podia “na maior parte apenas olhar. Mas há muito para ver. ” Após duas semanas
de sua primeira residência, trabalhando mais de cinquenta horas por semana:
“Acho que nunca vou esquecer esses quatorze dias”.
Ele tinha tantas histórias para contar. Um menino de dezesseis anos caiu de
um telhado de vidro e os médicos pensaram que ele poderia ser salvo, "mas três
dias depois seu cérebro estava na mesa de demonstração anatômica."
Uma velha com um rosto amarelo ceroso nos foi mostrada; ela não abriu os
olhos nenhuma vez e, dois dias depois, vi pessoalmente seu corpo sendo
dissecado. Um jovem com a mão terrivelmente inchada foi dopado e operado e,
ao acordar, percebeu, com um gemido que jamais esquecerei, que não tinha mais
a mão direita. Um estudante de 21 anos foi colocado em exibição: ele fez
incisões no local do antebraço onde você sente o pulso - ele queria se matar.
Uma menina de uns dezoito anos, que tinha uma doença venérea grave, teve que
se mostrar diante de 150 de nós alunos, e assim por diante, assim vai todos os
dias, e tudo porque os pobres não têm dinheiro para se sustentar admitidos como
reformados. Essa é a tragédia das clínicas.
Ele ficou chocado com a reação de seus colegas de classe, que bebiam
cerveja e bengalas com cabo de prata:
“Pense em como os tipos de alunos que descrevi antes reagem a tudo isso.
Temos que ser frios quanto a isso, é assim que as coisas são; mas para ser
grosseiro sobre isso, para se tornarem idiotas morais, não, os médicos não
precisam fazer isso. ”
Essas experiências, por mais emocionantes que fossem, certamente não o
fizeram se sentir compreendido de coração. A realidade de ver dezenas de
pacientes por dia mais horas intermináveis de consulta “expôs todos os tipos de
ideais à luz fria do dia”, escreveu ele a Anna. “O médico encontra mais
desconfiança do que gratidão, mais grosseria do que compreensão.” Naquela
primavera, ele colocou um livrinho em seu quarto em Zurique para os visitantes
escreverem seus nomes; seis meses depois, e com trinta nomes no livro - "nem
um pouco" de todos os visitantes - a única coisa que ele tinha a dizer era que ele
precisava ir embora. Esse padrão foi uma constante na vida de Rorschach. Anos
mais tarde, depois de “dois meses ocupado sendo extrovertido”, ele escreveria a
um amigo que “estava farto disso e estava faminto por algo mais íntimo. O
homem não vive apenas de extroversão. ”
“Já conheço gente demais aqui”, escreveu ele a Anna, de Zurique, na carta
de 1906, descrevendo pela primeira vez Olga Shtempelin. "Você sabe o que isso
significa? Eles vêm e o convidam para sair e vêm novamente e ocupam o único
tempo que você tem para ficar sozinho do jeito que você precisa estar. Eles
lançam uma sombra sobre a sua liberdade. ” Olga estava de partida para a Rússia
e, apesar de todo o seu interesse pelas pessoas, Rorschach estava “pronto para se
mudar e deixar irem os dispensáveis”.
Ele passou o resto da faculdade de medicina alternando estudos no exterior,
viagens e uma série de empregos de curta duração em toda a Suíça, com seu
tempo em Zurique. Estudantes de medicina avançados costumavam passar
semestres em universidades diferentes com especialidades diferentes e
substituídos por médicos em prática privada durante os verões, mas Rorschach
acabou com uma gama mais ampla de experiência do que a maioria - em parte
devido à sua determinaçãopessoal de ser "diferente" de seus colegas de classe
privilegiados e em parte porque precisava do dinheiro de qualquer emprego que
pudesse encontrar.
Ele inicialmente foi para Berlim por um semestre, sua primeira fuga da Suíça
desde Dijon. “Berlim com seus milhões de habitantes me deixará ficar mais
sozinho do que Zurique”, escreveu ele a Anna. A princípio, ele encontrou o que
pensava que queria: “Estou em total solidão aqui ... Fiquei totalmente sozinho
todos os primeiros dias e ainda estou na maior parte do tempo - felizmente.” Ele
morava em um quarto típico de
Berlim, no quarto andar, com uma janela e vista para muitas outras, com
vista para um pequeno pátio - “uma pequena pedra e um pouco de grama” - com
uma árvore “que me dá muito prazer, ”Se não os outros tipos de cidade lotados
no edifício. As noites eram passadas em casa ou vagando pelas ruas, sempre
lotadas até quase o amanhecer. Ele gostava de teatro, circo, cinema.
Mas o caos da metrópole moderna não era para ele. No início dos anos 1900,
Berlim era uma das maiores cidades do mundo e de crescimento mais rápido, sua
população quintuplicando em 60 anos para dois milhões de pessoas, sem contar
outro milhão e meio nos novos subúrbios que circundam a cidade. Os bondes
funcionavam até as 3 da manhã - algumas filas funcionavam a noite toda nos fins
de semana - e os bares ficavam abertos até o amanhecer. A construção perpétua
só aumentava o barulho e a confusão: caminhar apenas cem degraus pela
movimentada Friedrichstrasse na virada do século era enfrentar o que um
cronista descreveu como um “sopro cacofônico de buzinas no trânsito, melodias
de tocadores de órgão, gritos de vendedores de jornais, sinos dos leiteiros de
Bolle, vozes de vendedores de frutas e vegetais, súplicas roucas de mendigos,
sussurros de mulheres fáceis, o rugido baixo dos bondes e seus guinchos contra
os velhos trilhos de ferro e milhões de passos arrastando, tropeçando, batendo.
Ao mesmo tempo, um caleidoscópio de cores ... luzes de néon, luzes elétricas
brilhantes de escritórios e fábricas ... lanternas penduradas em carroças puxadas
por cavalos e automóveis, iluminação de arco, lâmpadas, lâmpadas de carboneto.
” Mesmo comparada a Viena, Paris e Londres, Berlim era vista como
especialmente fluida, indeterminada e instável, um lugar que "sempre estava se
tornando e nunca é". Como um de seus principais jornais, que se
autodenominava “o jornal mais rápido do mundo”, disse sobre a Potsdamer Platz
em 1905: “A cada segundo uma nova imagem”.
Muitos recém-chegados encontraram liberdade e possibilidades em Berlim,
mas o coração de Rorschach estava de volta à Suíça, ou talvez já com Olga. Suas
percepções de Berlim eram claramente pouco caridosas:
“Em alguns anos, Berlim terá muito mais habitantes do que todo o nosso
país, mas o que importa é a qualidade, não a quantidade”, escreveu ele a seu
irmão Paul, de quinze anos. “Fique feliz por você não ser um berlinense. Há
velhos aqui que provavelmente nunca viram uma cerejeira em suas vidas. Não
vejo um gato ou uma vaca há dois meses. ” Ele encorajou Paul a “desfrutar de
nosso bom ar suíço e de nossas montanhas e espero que você se torne
verdadeiro, livre e honesto, com uma experiência real de vida, não como os tipos
que vejo aqui todos os dias”. Ele achou as pessoas "frias" e "chatas", a sociedade
"desprezível"
e toda a experiência "idiota".
O pior de tudo foi a conformidade dos alemães, que Rorschach considerava
menos livres do que até os russos sob o czar. Por acaso, ele apareceu em Berlim
durante um dos mais famosos incidentes de obediência irrefletida à autoridade
na história da Alemanha: em 16 de outubro de 1906, quatro dias antes da
chegada de Rorschach, um errante que comprou diferentes peças do uniforme de
capitão da Guarda Prussiana em diferentes as lojas da cidade vestiram as roupas
e tornaram-se um novo homem. Ele comandou soldados, prendeu o prefeito da
cidade de Köpenick e confiscou o tesouro da cidade, alegando agir sob as ordens
do cáiser, enquanto todos obedeciam seu uniforme sem questionar. Histórias
sobre o “Capitão de Köpenick”
encheram a imprensa antes e depois de sua prisão em 26 de outubro; ele se
tornou um herói popular. Os alemães “adoram o uniforme e o Kaiser”, escreveu
Rorschach a Anna de Berlim, “e pensam que são as maiores pessoas do universo
quando, na verdade, são apenas os melhores burocratas”.
A Rússia continuou a atrair Rorschach. Anna Semenoff, outra russa que
estudava medicina em Berlim e Zurique, o convidou para visitar Moscou em
julho de 1906, antes do início de seu semestre em Berlim, mas a política
interferiu. A Rússia foi convulsionada por sua primeira revolução do século XX,
deflagrada por uma guerra desastrosa com o Japão, e Rorschach não se sentia
confortável se colocando em perigo, já que ainda era o principal sustentador de
sua família. Quando Semenoff voltou a Berlim e renovou seu convite para as
férias de Natal, Rorschach aceitou. Em dezembro de 1906, ele viajou de Berlim
a Moscou.
Foi o mês mais emocionante de sua vida. Ele veria o lugar que chamou de “a
terra de possibilidades ilimitadas” pela primeira vez com seus próprios olhos. O
relatório expansivo e brilhante que ele enviou à irmã após seu retorno estava
cheio de descrições maravilhosamente sensoriais de Moscou - o panorama da
torre do Kremlin, o silêncio total de 25 mil trenós movendo-se pela cidade,
motoristas de trenó congelados
"descongelando o geleiras de suas barbas ”em fogueiras no meio das ruas.
Ele compareceu a eventos culturais, desde o Teatro de Arte de Moscou, “que as
pessoas dizem ser o melhor do mundo”, à Grande Ópera, a palestras, encontros
de seitas, encontros políticos; ele viu seu velho amigo Tregubov novamente. Os
russos o ajudaram a sair de si mesmo. Um ditado comum dizia que São
Petersburgo era a cabeça da Rússia, Moscou seu coração, e Rorschach
concordava: “Você pode ver e entender mais sobre a vida russa em duas semanas
em Moscou do que em um ano em Petersburgo”.
A viagem para a Rússia também ocorreu quando Rorschach conscientemente
atingiu a idade adulta. Ele originalmente queria partir de Berlim “refazendo os
passos de nosso pai”, escreveu em seu relatório a Anna:
“Mas é melhor buscar um caminho próprio; se o filho não tiver coragem
suficiente para encontrar seu próprio caminho, ele sempre poderá seguir o de
outra pessoa mais tarde. ” Deste ponto em diante, Hermann mencionou seu pai
apenas raramente em suas cartas, exceto em torno de marcos familiares cruciais.
Ele lamentou a perda de seu pai de maneira produtiva, tornando-se um médico
para ele enquanto continuava a perseguir as paixões por viagens e arte que
herdou de Ulrich.
A Rússia satisfez a necessidade de horizontes mais amplos que Rorschach
sem dúvida teria encontrado alguma outra maneira de cumprir, mesmo que
nunca tivesse conhecido Tregubov em Dijon. Ninguém relê Guerra e paz
durante o período exaustivo de dois meses de exames finais da faculdade de
medicina, como Rorschach faria em 1909, apenas por interesse na cultura russa -
isso é o que alguém faz que se recusa a ser definido por seu imediato meio
ambiente, que busca uma vida intelectual e emocional em outro lugar.
-
Depois da Rússia, a Europa Ocidental foi uma decepção. Rorschach deixou
Berlim no início de 1907
“desapontado e um pouco deprimido”, e seu semestre seguinte não foi muito
melhor. “Bern não é ruim”, escreveu ele a Anna, “embora um pouco vulgar e
fracassado, e as pessoas aqui são em sua maioria bastante grosseiras e rudes, a
ponto de até eu, que não sou a pessoa mais refinada do mundo depois todos,
estou surpreso. ” Ele passou o resto de 1907 e todoo ano de 1908 em Zurique ou
trabalhando como médico substituto em outro lugar, mas sentiu claramente que a
vida de estudante e a Suíça tinham pouco mais a oferecer a ele.
Pelo menos sua irmã saiu. No início de 1908, depois de passar dois anos
como governanta no oeste de língua francesa da Suíça, Hermann ajudou a
encontrar um emprego como governanta na Rússia, e Anna aproveitou a chance
de ver a "terra de possibilidades ilimitadas" que ouvira muito sobre. Nos meses
seguintes, suas cartas foram quase vertiginosas de empolgação em nome dela:
página após página ajudando Anna com a gramática russa, rotas de trem e
horários, quanta bagagem levar e como passar pela alfândega.
A viagem de Anna foi uma segunda visita vicária de Hermann à Rússia.
Preso na Suíça, ele pôde ver os pontos turísticos que ela descreveu, transpondo
as imagens escritas em movimento: “Quando li sua primeira carta, realmente
vaguei por Moscou com você de uma forma muito visual”. As lembranças de sua
própria viagem ressurgiram enquanto ele lhe dava conselhos, enchendo-a de
perguntas e sugestões de que ela visse o teatro de Moscou, a ópera, o Teatro
Bolshoi, Tregubov, Tolstoi, tudo e todos. Rorschach pediu que ela lhe enviasse
reproduções de pinturas russas e a encorajou a comprar uma câmera para ajudá-
la a ver: “Faça isso.
Mesmo que custe o salário de um mês, você terá tanto prazer com isso que
certamente valerá o preço. Em seus últimos dias de sedentarismo, é realmente
maravilhoso ter fotos de lugares de sua vida anterior - tudo fica muito mais vivo
em sua memória. Além disso, você vê melhor os lugares quando tem uma
câmera. ” Ele começou aconselhando-a: “Posso facilmente enviar-lhe algumas
instruções, mas você só aprenderá depois de tirar sua quinquagésima foto”, mas
em pouco tempo ele estava pedindo um conselho: “Estou enviando uma das
minhas fotos , mas tem problemas. É tão marrom e sem ar. O que há de errado
nisso, você sabe?
Subexposto ou superexposto? Subdesenvolvido ou superdesenvolvido? ”
Depois de ser “pai e mãe” para Anna após a morte de seus pais, ele estava
assumindo o papel de irmão mais velho. “Eu poderia ir até ele com toda e
qualquer pergunta”, Anna sentiu. “Como estudante de medicina e jovem médico,
ele me apresentou os segredos de onde vem a vida e deu à minha alma faminta
muito para se alimentar.” Entre todos os outros conselhos e instruções, Hermann
havia enviado à irmã de 18 anos uma descrição do "mercado de carne" das
prostitutas de rua de Berlim: "Elegante da cabeça aos pés, em veludo e seda, com
maquiagem, pó de arroz, sobrancelhas desenhadas a lápis e rímel, delineador
vermelho. - Eles andam assim, mas os homens que olham para eles com seus
olhos sem vergonha, zombeteiros e luxuriosos ficam ainda mais tristes de ver, e
a coisa toda é culpa deles. ”
Depois que Anna começou a ter suas próprias experiências sexuais, ele
continuou a apoiá-lo: “É chocante que muitos homens vejam as mulheres como
objetos sexuais. Não sei o quanto você pensou sobre este último assunto, mas
espero que tenha pensado sobre isso sozinho. Segure firme a convicção de que a
mulher também é um ser humano, que pode ser independente e que pode e deve
se aprimorar e se completar por conta própria. Perceba também que deve existir
igualdade entre homens e mulheres. Não em disputas políticas, mas na esfera
doméstica e, acima de tudo, na vida sexual. ” Ele achava que sua irmã tinha tanto
direito de saber sobre sexo quanto ele.
Como todos faziam, aliás: “A questão da cegonha é a mais delicada da vida
da criança”, aconselhou-a quando ela era governanta. “Claro que você nunca
deve dizer nada sobre uma cegonha!” Ela deve mostrar à
criança flores sendo fecundadas, um animal grávido, o nascimento de um
bezerro ou gatinhos. “Não é um grande passo a partir daí.”
Anna ansiava por conhecer o mundo mais amplo, e ele estava feliz em dar
isso a ela, enquanto esperava aprender pelo menos o mesmo com ela. “Você
provavelmente saberá mais sobre as condições russas do que eu em breve”,
escreveu ele. Os homens "vêem um país apenas quando outras pessoas estão por
perto, onde relações sociais e mentiras e tradições e costumes etc. são barragens
que bloqueiam nossa visão da vida real", mas são as mulheres que "têm muito
melhor", porque têm acesso à vida privada e familiar. “Você está bem no meio de
um ambiente muito diferente agora. É assim que alguém conhece um país,
conhece-o de verdade.
Aproveite e olhe realmente para as pessoas lá. E escreva para mim sobre
isso. É você quem precisa me contar sobre as famílias de oficiais russos, não sei
nada sobre eles. ”
Rorschach ardia de curiosidade sobre o que não podia ver diretamente e
estava convencido desde o início de que pessoas diferentes - especialmente as de
sexos diferentes - têm perspectivas distintas, mas comunicáveis.
O conhecimento exigia proximidade e distância: “Você só aprende a amar
sua própria pátria quando vai para o exterior”, ele escreveu a ela uma vez. Ele
queria explorar todos os aspectos da natureza humana que pudesse, então ele
precisava de Anna. “Você tem que me escrever o máximo que puder espremer da
cabeça e da caneta, ok? ... Como são as pessoas? Como é o campo e as pessoas?
Escreva-me muito e muito! ”
Ele também queria manter seu vínculo com sua irmã. “Sabe, Annali”,
escreveu ele em 1908, “o que realmente quero é que nos escrevamos muito, que
fiquemos perto de todos os muitos países e montanhas e fronteiras que nos
separam, ou até cresceremos mais perto, acho que vamos. ” Eles fizeram. Exceto
por um breve retorno à Suíça em 1911, Anna ficou na Rússia até meados de
1918, passando pela guerra e pela revolução e perdendo a maior parte de seus
pertences no caos. As cartas de Hermann para ela depois de 1911
se perderam, mas seu coração sem dúvida permaneceu na Rússia com a irmã
- e com Olga.
-
Os anos após Olga conhecer Hermann, no verão de 1906, foram uma época
de estudos e viagens para ela também, mas no início de 1908 a bela russa e o
belo russófilo eram um casal. Ele tinha opiniões fortes, sentimentos fortes, mas
os mantinha sob controle; viveu as explosões de emoção alheias, e em Olga
encontrou alguém que o abasteceu com fartura. Mais tarde, ele disse que ela lhe
mostrou o mundo - deu-lhe uma maneira de viver nele. Ela era até sinestésica,
uma habilidade que fascinava Hermann - aos quatro anos, ela havia desenhado
sete pinturas de arcos em cores diferentes para que pudesse ver e lembrar os dias
da semana. De sua parte, ela estava menos do que extasiada com a Suíça e os
costumes suíços, mas os aceitava bem o suficiente e estava tão ansiosa quanto
Hermann para encontrar alguma estabilidade.
Olga retornou à Rússia no final de julho de 1908, com Hermann
acompanhando-a até Lindau, uma atraente cidade fronteiriça alemã na margem
oriental do Lago de Constança. Ela tinha trinta anos, ele vinte e quatro.
Se Rorschach estava ansioso para ouvir de volta de Anna, suas cartas
sobreviventes para Lola, como Olga era chamada pela família e amigos, eram
desesperadas: “Meu amor, minha querida Lolyusha, faz tanto tempo que não
recebo nada de você, mais mais de 24 horas já. Escreva Lola escreva. É
terrivelmente chato e vazio aqui para mim ... Estou sentado aqui depois do
almoço, fumando e pensando em você. O correio da tarde estará aqui em uma
hora. Mas não veio nada pelo correio da manhã, vai haver alguma coisa hoje? Eu
quero saber como minha garota está !! ” Mais tarde, com um lápis diferente:
“Agora são quatro e não recebi nenhum correio hoje!”
Olga estava ocupada trabalhando com pacientes de cólera em sua cidade
natal, Kazan, e no final de novembro ela se mudoupara uma cidade menor e
mais pobre, mais de quinhentos quilômetros mais ao leste.
“Ela não se sente bem lá”, relatou Hermann. "Tudo o que ela vê em todos os
lugares é sujeira e aspereza ...
Ela está sozinha." Deixado para trás em Zurique, Rorschach passou outro
verão trabalhando, em Kriens perto de Lucerna e em Thalwil no Lago de
Zurique, e continuou a coletar histórias para compartilhar com Anna: Quatro
pessoas morreram comigo, mas eram todos velhos abandonados, dilapidados a
ponto de, bem, morrer. O médico também não poderia salvá-los. Por outro lado,
fui capaz de trazer um nascimento difícil a um final feliz, um parto pélvico
muito difícil em que tive que arrancar o bebê com uma corda. A parteira parou
ali e falou sobre os “casos raros e milagrosos” em que essas crianças foram
trazidas vivas ao mundo. Ela já estava preparada para dar a ele um batismo de
emergência na parte traseira, já que o povo era católico, mas eu consegui tirar o
bebê vivo afinal, então agora está vivo e não precisa mais de um batismo na
parte traseira .
Caso contrário, ele se dedicou ao resto de seu trabalho acadêmico, estudando
todas as noites durante o outono e o inverno com um amigo. “Estou farto de toda
esta escola e praticamente tenho escaras de tanto ficar sentado”, escreveu ele; ele
mal podia esperar para “finalmente, finalmente! ser feito com as coisas da
escola. ” Em 25 de janeiro de 1909, ele declarou: “Não há nada me mantendo na
Suíça, exceto nossas montanhas”. Exatamente um mês depois, ele passou nos
exames finais.
Rorschach agora podia praticar medicina, mas suas opções profissionais
eram limitadas. Ele poderia trabalhar em uma clínica universitária por um salário
baixo - impossível em sua situação financeira - ou então trabalhar em um asilo
mais isolado, com um salário um pouco melhor e experiência psiquiátrica mais
prática, mas sem carreira universitária. Ele conseguiu um emprego no asilo em
Münsterlingen, tendo conhecido seu diretor em 1907 enquanto estava internado
em um hospital próximo. Começaria em agosto.
Primeiro, porém, ele queria se reunir com Olga, conhecer sua família e
estabelecer as bases para uma mudança permanente para a Rússia. Ele esperava
poder ganhar o suficiente em um ano na Rússia para pagar suas dívidas, o que
levaria seis anos ou mais na Suíça.
Imediatamente após seus exames finais, ele partiu para visitar Anna em
Moscou, depois viajou para Kazan.
Hermann foi capaz de aperfeiçoar seu russo falado e trabalhar. Ele observou
casos em uma clínica neurológica e depois passou quatro semanas navegando na
burocracia para obter permissão para visitar o grande asilo de Kazan, que
abrigava mais de 1.100 pacientes e montanhas de material de caso inexplorado.
“Se a ciência não está muito avançada aqui”, disse ele a Anna, “pelo menos
os arquivos estão em ordem”.
Ele viu "uma estranha mistura de povos entre os pacientes: russos, judeus,
colonos alemães, pagãos siberianos", embora "os médicos aqui não estejam
preocupados com as questões interessantes da psiquiatria racial", pelo que ele
parece ter se referido à hereditariedade de doença mental, bem como diferenças
raciais ou étnicas na psicologia. Ele se sentia confiante de que poderia
facilmente encontrar um emprego na Rússia e se sentiu “muito tentado a
trabalhar no asilo de Kazan mais tarde”, ou em um dos muitos na Rússia como
ele.
Ele apreciou "como as pessoas são infinitamente mais livres, mais abertas,
mais naturais e mais honestas umas com as outras". Em outro lugar, ele
escreveu: “Gosto da vida russa. As pessoas são diretas e você pode progredir
rapidamente (se não precisar lidar com as autoridades). ”
Infelizmente, ele precisava, e a burocracia irritantemente opaca e arbitrária
que encontrou tornou impossível para ele obter credenciamento para exercer a
profissão na Rússia. “Esta espera! Na Rússia, você simplesmente tem que
aprender a esperar ... O principal aborrecimento é que é tão difícil obter uma
resposta clara ... Vou precisar fazer os mesmos desvios ”de outro colega suíço,
que passou oito meses em St.
Petersburgo em vão. Ele também precisaria voltar ao trabalho escolar que
ficara tão feliz em deixar para trás: literatura, geografia e história, desta vez em
russo. Embora entendesse a necessidade de pular esses obstáculos - se um
paciente delirante acreditasse que era o czar X ou o conde Y, o médico precisava
saber do que o paciente estava falando - ele ainda não apreciava a perspectiva.
Pessoalmente, também foi um período difícil. “Kazan não é uma cidade
grande como Moscou, mas apenas uma pequena cidade muito grande, e você
sente isso em tudo, incluindo as pessoas”, escreveu Hermann. Era maior do que
Zurique, mas provinciano, embora tivesse um parque conhecido como Suíça
Russa, uma espécie de espelho da Pequena Rússia de Zurique. Hermann ajudava
Olga a estudar para seus próprios exames, todos os vinte e três, enquanto a mãe
de Olga o lembrava demais de sua própria madrasta: opressora de se estar por
perto e “sem compreensão”. Ele e Olga planejavam se casar na Rússia, mas no
final não tinham dinheiro suficiente “e obviamente não queríamos nos casar a
crédito. Eu queria muito fazer a cerimônia, já que Olga está fora de casa por
mais cinco meses ou mais e nunca se sabe o que pode acontecer.
Eu queria dar a ela, pelo menos. "
Rorschach ficou cinco meses na Rússia antes de retornar à Suíça, não mais
como estagiário de uma série de médicos ou como candidato às autoridades, mas
como psiquiatra experiente. A essa altura, ele já havia se ressentido um pouco
com a terra natal de Olga. Ele ficou surpreso ao encontrar o livro profundamente
misógino de Otto Weininger, Sex and Character traduzido para o russo e
amplamente lido lá, uma vez que, como ele havia escrito anteriormente para
Anna,
nenhuma sociedade humana trata as mulheres com tanto respeito como na
Rússia ... Com a gente, é o suficiente para o homem na maioria dos casos se uma
mulher não for muito estúpida, não terrivelmente feia e não tão pobre quanto um
rato de igreja; quanto ao que ela realmente é, ele não se preocupa muito com
isso. Isso não é o caso na Rússia, pelo menos não entre os intelectuais ... .Na
Rússia, as mulheres, especialmente as mulheres mais intelectuais, são uma força
que quer ajudar a sociedade como um todo, e pode ajudar, e não ajuda, eles don'
t apenas varrer o chão e lavar a roupa das crianças.
Ele esperava que um livro “tentando provar que a Mulher não vale
absolutamente nada e o Homem é tudo”
“só seria motivo de riso” ali - ele mesmo o descartou como “a mais besteira
mais bizarra” de alguém “logo declarado insano”. Em vez disso, foi um sucesso.
Como suas primeiras experiências como estudante-médico, que expôs todos
os tipos de ideais à fria luz do dia, a jornada de Rorschach em 1909 trouxe seu
retrato romantizado da Rússia à realidade. Ele começou a insistir, ainda mais
áspero do que em Berlim, que o princípio de direitos iguais para todos havia
surgido nas famílias suíças e que " é verdade e continua sendo verdade que nós,
ocidentais, estamos em um nível cultural
muito mais elevado" do que as “massas semi-asiáticas” na Rússia. Quando
Anna considerou se casar com um oficial russo, Hermann se opôs fortemente:
além do fato de que ela estava interessada em um oficial, não
"um médico ou engenheiro ou algo assim", ele a avisou que "você teria que
se tornar um russo, e isso não é bom ... Pense bem: você é cidadão de um país
livre, a república mais antiga do mundo! E a Rússia é a única monarquia
absoluta do mundo, exceto por alguns estados africanos ... Você estaria levando
as crianças ao estado mais reacionário de qualquer lugar,em vez do mais
avançado, e seus filhos podem até acabar no mais reacionário dos exércitos, o
russo. ”
Quanto a ele, “Eu mesmo voltarei para a Rússia algum dia, mas minha pátria
continuará sendo a Suíça, e posso lhe dizer que os acontecimentos dos últimos
anos me tornaram mais patriota do que antes. Se nossa Suíça estivesse em
perigo, eu lutaria ao lado de todo mundo por nossa antiga liberdade, nossas
montanhas. ”
Em julho de 1909, ele voltou a assumir seu novo emprego em
Münsterlingen, Suíça - mas não antes de um último incidente enlouquecedor: ser
parado na fronteira e forçado a pagar um suborno para sair da Rússia.
6 pequenas manchas de tinta cheias de formas
Um pintor de 24 anos, sempre que vê torres de igreja, tem o pensamento
obsessivo de que um objeto pontiagudo semelhante existe dentro de seu corpo.
Ele tem uma aversão aos arcos pontiagudos de estilo gótico e sente-se acalmado
pelo estilo rococó, mas também pensa que olhar para as linhas rococós fluindo
arejadas faz suas células nervosas assumirem voltas e reviravoltas
correspondentes. Quando ele caminha sobre um tapete estampado, ele sente cada
forma geométrica em que pisa pressionando um hemisfério de seu cérebro.
JE, um esquizofrênico de quarenta anos, sente-se transformado em imagens
que vê nos livros. Ele adota as poses das pessoas retratadas, transforma-se em
animais ou mesmo em objetos inanimados, como as letras grandes da página de
rosto. Quando ele olha para a lâmpada acima de sua cama, às vezes sente que foi
transformado no filamento da lâmpada: miniaturizado, rígido, inserido na
lâmpada e brilhando.
LB desenha um dos espíritos com que costuma alucinar, uma figura humana,
mas se esquece de desenhar qualquer braço. Quando o Dr. Rorschach aponta isso
para ela, ela coloca o papel na frente dela e diz "Upsy!"
e levanta os braços, olhando para o espírito o tempo todo. Aí ela diz: “Olha
agora, os braços estão aí agora”.
Estes foram alguns dos pacientes de Rorschach em Münsterlingen. Quando
ele mesmo montou uma coleção de casos psiquiátricos, ele o fez visualmente,
tirando fotos de centenas de seus pacientes e encadernando-os em livretos que
organizou por diagnóstico: "Doenças nervosas", "Imbecilidade", "Depressão
maníaca",
"Histeria , ”“ Dementia Praecox: Hebephrenia ”(agora chamada de
esquizofrenia desorganizada),“ Dementia Praecox: Catatonia ”,“ Dementia
Praecox: Paranoia ”e“ Casos Forenses ”. Rorschach entendido por olhar e ver,
conectado às pessoas por fotografá-las e desenhá-las. Alguns de seus esboços de
pacientes nos arquivos da clínica capturaram seus gestos característicos com
tanta perfeição que os pacientes que ainda estavam vivos eram reconhecíveis
pelos esboços décadas depois. Os rostos nas fotos ocasionalmente gritam ou
olham fixamente para a câmera, algumas cabeças até saindo de caixas trancadas
que prendem seus corpos, mas muitos dos pacientes mostram sinais de harmonia
com o jovem médico que tirou a foto.
-
A Clínica Münsterlingen, onde Rorschach trabalhou de 1º de agosto de 1909
a abril de 1913, é um pacífico complexo de edifícios às margens do Lago de
Constança, construído no local de um mosteiro fundado em 986 pela filha de
Eduardo I da Inglaterra. O mosteiro foi demolido no século XVII e reconstruído
como uma igreja barroca quatrocentos metros subindo a colina, mais tarde
reaproveitado como um hospital. Algumas das paredes do antigo claustro ainda
estão de pé, perto do lago, uma linha baixa de pedra que separa nada do nada em
um círculo de edifícios dos séculos XIX e XX. Uma atraente brochura de 1913
para uma nova ala para aposentadas femininas prometia um edifício “em estilo
senhorial, rodeado por um lindo jardim, localizado diretamente no lago, com
uma vista magnífica de nossos belos arredores”. Os pacientes "sem condições de
pagar as instalações privadas naturalmente caras para uma doença de longa
duração"
receberiam um "nível apropriado de tratamento e cuidados de acordo com os
requisitos modernos da psiquiatria."
Enterrado nos relatórios anuais centenários da clínica está um mundo de
detalhes do mundano ao de partir o coração: curas, mortes, tentativas de fuga
(uma em 1909, por uma janela ao longo da hera, depois sobre a parede externa
para o lago; quatro em 1910 ), alimentações forçadas (972 vezes no total, para
dez pacientes).
O número de horas de terapia do trabalho ao longo do ano: lavrando,
carregando carvão, marcenaria, trabalho doméstico, jardinagem e cestaria para
os homens; cozinhar, lavar, passar, trabalho de campo, trabalho doméstico e
“artesanato feminino” para as mulheres. O preço da carne bovina (aumentando).
“Também no ano passado”, relatou a gerência em 1911, “não fomos capazes
de evitar o uso de equipamentos de contenção mecânica”: luvas de couro para
pacientes que, de outra forma, arrancariam sistematicamente tudo em que
tocassem e, em alguns casos, banheiras cobertas. “Quando vemos que tais
pacientes, apesar de grandes doses de sedativos, perturbam o sono dos outros nos
dormitórios com seu barulho e agitação constante, incomodam seus colegas
pacientes acordados e são tão turbulentos que quebram tudo o que podem
alcançar em seus quartos de isolamento em pedaços e manchar a si mesmos e ao
quarto com restos de comida, excrementos e coisas do gênero, não podemos
mais evitar a conclusão de que a permanência forçada em um banho é uma
verdadeira bênção para esses pacientes e aqueles ao seu redor. ” O relatório
oficial de 1909 listava quatrocentos pacientes, 60 por cento mulheres, nem
metade com esquizofrenia e um número significativo com depressão maníaca,
entre uma variedade de outros diagnósticos. Esses eram os pacientes de
Rorschach descritos em massa, não vistos como indivíduos.
A equipe médica em Münsterlingen consistia do diretor, Ulrich Brauchli, e
dois assistentes: Rorschach e um russo, Dr. Paul Sokolov, que falava alemão e
russo com Rorschach em semanas alternadas para prática do idioma enquanto
Olga permanecia no exterior. A equipe também incluía um gerente de clínica, um
gerente assistente e uma dona de casa, mas não havia outras assistentes sociais,
terapeutas, assistentes ou secretárias, de modo que os três médicos eram
responsáveis por tudo. Ou melhor, Rorschach e Sokolov eram. “O diretor é
muito preguiçoso”, Rorschach reclamou, “e na verdade muito rude e sem tato,
mas pelo menos ele é fácil de se conviver”. Brauchli foi um ex-assistente de
Eugen Bleuler e diretor de Münsterlingen desde 1905; Rorschach o conheceu em
1907, enquanto trabalhava no hospital no alto da colina. Eles nunca foram
profundamente próximos, mas suas relações eram cordiais, e a visão de
Rorschach sobre seu chefe era basicamente positiva. “É totalmente natural: ele é
preguiçoso, nós fazemos todo o trabalho para ele e ele fica sentado ao sol, ou
seja, ele é o diretor; quando ele está fora, todos nós recebemos o que merecemos,
ou seja, nós somos os diretores e podemos sentar e tomar sol ”.
Rorschach mudou-se para um pequeno apartamento enquanto Olga
permaneceu na Rússia, tratando de surtos de tifo e cólera. “Por fim”, escreveu
ele, “pela primeira vez, estou em uma posição em que estou ganhando dinheiro e
tenho um emprego estável - todos os meus desejos foram realizados, exceto que
Olga não está aqui”. Ela chegou seis meses depois, e os Rorschach finalmente se
casaram em uma cerimônia civil em Zurique em 21 de abril de 1910. Eles
colaram três fotos em um álbum de fotos - uma foto de casamento e duas fotos
de seu apartamento com vista para o lago - e escreveram “May 1, 1910
”embaixo. Olga descreveu Münsterlingen como “uma pequenacidade muito
bonita. Temos dois quartos atraentes à beira do lago com muitas flores. ”
Hermann trabalhou até as sete; depois, à noite, faziam caminhadas, liam ou
passeavam de barco no lago, com passeios diurnos aos domingos. “Nossa vida
aqui tem pouca diversão, esta é uma pequena cidade fora do caminho, mas
Hermann e eu não precisamos de nenhuma.”
Seis meses depois de aparecer diante de um magistrado de Zurique,
Hermann e Lola se casaram novamente em uma cerimônia da Igreja Ortodoxa
Russa em Genebra. Depois de três dias de turismo, eles viajaram de barco para
Montreux e de trem e a pé para Spiez, Lago Thun e Meiringen: a mesma rota
que o amado Leo Tolstoy de Rorschach havia feito aos 28 anos em 1857, uma
jornada crucial em A trajetória de Tolstói como escritor e pessoa. O itinerário era
popular - foi por isso que Tolstoi o escolheu - mas os Rorschach quase
certamente o escolheram para que pudessem estender seu casamento russo-suíço
em uma peregrinação russo-suíça. Na volta, eles ficaram “bastante aliviados” por
Brauchli estar saindo de férias. “Lola e eu estamos indo bem, muito bem,
estamos apaixonados”, escreveu Hermann a Anna algumas semanas depois. “É
quase como se estivéssemos vivendo em uma ilha, apenas para nós mesmos,
completamente imperturbáveis.”
O lago de Constança havia recuado dramaticamente, continuou ele, e logo
ficaria totalmente escuro por causa do céu de inverno. Rorschach estava
morando a poucos passos de sua costa por mais de um ano. Ele tinha acabado de
fazer vinte e seis anos.
-
O círculo de atividades dos Rorschachs foi se ampliando gradualmente.
“Hoje há uma feira para os pacientes, alguns deles pacientes de Hermann”,
escreveu Olga a Anna em um mês de agosto: “Todos os tipos de carrosséis,
teatros de fantoches, galerias de tiro e assim por diante.” Hermann acrescentou:
“Um carrossel, uma pista de dança, um zoológico, todos os tipos de coisas. Os
pacientes gostaram muito. É uma pena que essas coisas tenham que acabar à
noite. ” Em outros anos, haveria músicos visitantes da Güttingen Music Society
e, a partir de 1913, um grande navio de carga equipado especialmente para levar
mais de cem pacientes em uma viagem através do lago; provou ser tão popular
que eles esperavam poder repetir a ocasião todos os anos.
O mesmo álbum de fotos que contém a foto do casamento dos Rorschachs
contém dezenas de fotos desses eventos de asilo. Hermann era um fotógrafo
ávido e parecia gostar do desafio da fotografia cândida tanto quanto das
festividades que queria documentar. Ele era um generalista e curioso; seguir
apenas sua trajetória científica seria perder muito do que tornou seu trabalho
possível. Repetidamente, ele tirou fotos de sua casa e de passeios de barco perto
de Münsterlingen, a terra do lago e o lago da terra, os reflexos de luz e sombra
no céu e na água. Ele deu material de arte a seus pacientes - não câmeras, mas
papel, tinta, argila. Talvez você não pudesse ter uma conversa com um
esquizofrênico, mas havia outras maneiras de atrair uma pessoa.
Depois do primeiro Natal reunidos na nevada Münsterlingen, Hermann e
Lola preencheram seus dias jogando xadrez, tocando música - Hermann em seu
violino trazido de Schaffhausen, Lola em um violão que Hermann deu a ela no
Natal. Hermann agradeceu a Anna pelo presente “perfeito” de um livro de
Gogol. Os Rorschachs haviam enviado a ela um calendário alpino “para dar a ela
algo de sua terra natal todos os dias” -
ideia de Olga; ela sabia o que era sentir saudade de casa. No ano anterior,
Hermann sem Olga havia enviado de forma mais pedante o Fausto de sua irmã
Goethe , “que provavelmente você ainda não leu. É a coisa mais magnífica que
já foi escrita no mundo. ”
Depois do ano novo veio o carnaval. Rorschach projetou um programa de
canções, peças, bailes de máscaras e danças. Conforme os anos passavam e as
demandas de seu tempo aumentavam, as festas de fim de ano começavam a
parecer mais uma chatice, mas no começo ele se dedicou a participar.
6 O prédio dos Rorschachs visto do lago.
Embora a arte-terapia, a terapia dramática e coisas semelhantes não fossem
desconhecidas, as diversões que Rorschach encenava pareciam a Olga e a outros
mais entretenimento do que tratamento. Ainda assim, a maneira como Rorschach
descreveu como esperava que seus pacientes reagissem às projeções gigantescas
dos slides na festa de Natal sugere que ele pensava que isso lhes traria algum
benefício. Ele até pegou um macaco, de uma trupe de jogadores viajantes, e o
trouxe em suas rondas por alguns meses em outro esforço do gênero. Alguns dos
casos graves, geralmente totalmente sem resposta, adoravam as caretas do
macaco e reagiam quando ele saltava maliciosamente sobre suas cabeças e
brincava com seus cabelos. Mesmo que não curando diretamente, tais atividades
deram a Rorschach pelo menos acesso indireto às mentes de seus pacientes.
Quando não estava ocupado fazendo experiências com macacos e fotografia,
Rorschach publicou onze artigos baseados em seu trabalho em Münsterlingen:
alguns eram freudianos, alguns junguianos e alguns revelaram interesses
próprios. Como um diretor posterior da Münsterlingen resumiu: “Por um período
de três anos, esta produção científica é surpreendente, especialmente quando
você considera que Rorschach também revisou um grande número de livros,
escreveu histórias de casos volumosas, trabalhou muito tempo organizou
atividades para os pacientes, escreveu canções e rimas humorísticas para o
carnaval, pegou um macaco, foi jogar boliche na aldeia e, não menos importante,
concluiu uma rigorosa monografia científica
sobre um caso de tumor de glândula pineal, abrindo mão das férias para
investigar os tumores microscopicamente no Brain Anatomy Institute em
Zurique. ”
Um dos artigos de Rorschach analisou o desenho de um paciente que,
"embora pareça tão simples, na verdade tem um significado muito complicado".
Outra era sobre um pintor de parede com ambições artísticas. Entre as vinte
e quatro páginas manuscritas das anotações do caso de Rorschach nos arquivos
de Münsterlingen, há uma fotografia do homem: vestindo um avental
esvoaçante, ascot e boina, com uma pequena flor saindo da boca e olhos fixos.
Ele havia copiado uma pequena xilogravura da história da Bíblia da Última Ceia,
exceto que em sua versão João se aninha com Cristo; todos recebem cabelos
longos e femininos, exceto Judas; e Cristo recebe um estranho halo na forma de
um gorro usado por mulheres com trajes folclóricos típicos locais. O paciente
provavelmente fez sua pintura por instigação de Rorschach, pois Rorschach
reconheceu que, dadas suas capacidades reduzidas, era impossível psicanalisá-lo
por meio da psicoterapia, da interpretação dos sonhos ou do teste de associação
de palavras. Apenas algo visual pode ser analisado.
Aqueles que conheciam Rorschach disseram que ele tinha uma capacidade
maravilhosa de se conectar com seus pacientes, ajudando-os de todos os modos a
ressurgir de suas conchas de paranóia ou loucura catatônica.
Não foram poucas as pacientes que se apaixonaram por seu belo médico, e
Rorschach era adepto de se libertar de suas garras sem ferir seus sentimentos.
Ele pegava a mão da paciente, distraía-a e escorregava para fora de seu braço. E
assim, do Carnaval à Feira de Verão, ao Natal e ao Ano Novo e por aí, o
calendário de Münsterlingen de Rorschach avançou.
-
O tempo de Hermann no lago com Olga foi, para ele, um aprendizado de
visão. Em uma carta de aniversário para Paul, que estava prosperando em
Zurique agora que havia saído de casa, Hermann escreveu: “Estou feliz quevocê
e eu estejamos muito mais próximos este ano do que há cinco aniversários, não
acha? Desde que você saiu, você se tornou um homem de verdade e um bom
amigo com notável rapidez. Não foi tão rápido para mim. Tive de me casar para
aprender a ver o mundo de maneira adequada. ” Hermann sempre deu a Olga
crédito por seu próprio desenvolvimento.
Ainda havia rixa entre Hermann e sua madrasta. “Mamãe não me deu nada,
nada! como presente de casamento, um costume que existe em todo o mundo!
Olga ficou especialmente magoada: 'Não é o presente que importa para mim, é o
amor!' “Hermann e Olga evitavam visitas a Schaffhausen sempre que podiam.
Mas eles convidaram sua meia-irmã Regineli, de dez anos, para visitar
Münsterlingen por duas semanas, onde ela se descontrolou - uma pausa bem-
vinda do regime em casa. Eles viram muito Paul, que, “apesar de tudo o que
passou em Schaffhausen, ainda é tão bonzinho que por um tempo até sentiu
saudades de casa”.
Paul “naturalmente se sente muito livre” agora, Hermann relatou, “embora
ele não esteja abusando de sua liberdade” - ele até pediu o conselho de seu irmão
mais velho sobre prometer abstinência vitalícia de álcool.
(Ainda não, disse Hermann, dando como motivo apenas que não era seguro
beber água em muitos países.) Hermann e Olga também visitaram a família
extensa de Rorschach em Arbon, a apenas quinze milhas de Münsterlingen, onde
Olga foi calorosamente recebida; ela estava curiosa para ver como os
“camponeses”
viviam na Suíça em comparação com a Rússia.
Rorschach também escrevia para jornais suíços e alemães. Tendo testado as
águas enquanto estava na Rússia
- publicando um artigo em Frankfurt e outro em Munique - ele agora
escrevia pequenos ensaios sobre alcoolismo ou sobre "Transformações Russas".
Ele entrou na arena da literatura, serializando sua tradução da novela psicológica
de Leonid Andreyev, O Pensamento, ao longo de um mês em um jornal suíço.
Andreiev foi considerado um dos principais escritores russos contemporâneos, e
O Pensamento, tão amplamente lido nos círculos psiquiátricos quanto pelo
público em geral, era uma mistura genuinamente assustadora de Poe e
Dostoievski, inspirando-se na psicologia e na experiência de Andreiev como
repórter judicial . A história é lançada como a confissão em primeira pessoa de
um assassino implacável, Kerzhentsev, que matou seu melhor amigo. Ele
descreve seus planos para escapar impune do crime alegando insanidade, mas há
mais do que alguns indícios de que ele é mais louco do que pensa. A ideia do
título, que o narrador revela na terceira pessoa, é que talvez “Dr. Kerzhentsev é
realmente louco. Ele pensou que estava simulando uma loucura, mas ele é
realmente louco. Ele está louco agora. ”Andreyev nos mostra a falta de
confiabilidade de Kerzhentsev
para consigo mesmo e recria a mesma incerteza em nós; o assassino confessa
na esperança desesperada de que médicos ou juízes possam resolver sua crise
existencial para ele.
Por que Rorschach - único entre seus colegas psiquiatras - escrevendo para
jornais? Para ganhar um pouco de dinheiro extra, para começar, uma estratégia
da qual ele logo desistiu. “Escrever para os jornais não traz muita coisa”, ele
reclamou para Anna. “Não tenho nenhum desejo real de escrever para os jornais
alemães e nenhuma oportunidade real de escrever para os russos.” Mais do que
renda, esses artigos deram a Rorschach uma saída para interesses criativos fora
dos limites da psicologia.
Olga diria mais tarde que o segredo do sucesso do marido era “sua constante
movimentação entre diferentes atividades. Ele nunca trabalhava por horas
seguidas em uma coisa ... Longas conversas sobre um único assunto o cansavam,
mesmo que ele achasse interessante. ” Então, novamente, esta não pode ser toda
a história. Rorschach era um anotador “fanático”, para começar, com seus
trechos manuscritos de livros de outras pessoas, escritos em uma garatuja
ultrarrápida, às vezes totalizando 240 páginas por livro. Ele não tinha dinheiro
para comprar livros e morava longe das bibliotecas centrais; ele também parecia
compreender e reter melhor o material copiando fisicamente as palavras de um
livro. (As páginas são quase ilegíveis - o processo de transcrição provavelmente
foi mais útil para ele do que reler as páginas.) Quaisquer que sejam suas
motivações, é quase impossível imaginar Hermann fazendo esse trabalho nas
explosões de meia hora que Olga parece estar descrevendo.
Rorschach buscou outra linha secundária com Konrad Gehring, um amigo
próximo de Schaffhausen, três anos mais velho que Rorschach, que trabalhava
como professor em Altnau, o vilarejo vizinho de Münsterlingen. Ele e a esposa
costumavam visitar Hermann e Olga. Foi com Konrad Gehring, em 1911, que
Rorschach conduziu seus primeiros experimentos com manchas de tinta.
-
O borrador de tinta geralmente considerado o principal predecessor de
Rorschach é Justinus Kerner (1786-1862), um poeta romântico alemão e médico.
Algumas de suas realizações abrangentes foram no que hoje chamaríamos de
medicina: ele foi o primeiro a descrever o botulismo, a intoxicação alimentar
bacteriana, e o primeiro a sugerir suas propriedades terapêuticas para os
músculos - o botox. Ele também foi uma figura importante na tradição romântica
da psiquiatria. Sua autobiografia descreve o crescimento ao lado de um asilo de
loucos que ele podia ver de sua janela, em uma pequena cidade que ostentava a
torre onde o histórico Doutor Fausto praticava magia negra. Ele tratou casos de
possessão demoníaca com uma mistura de magnetismo e exorcismo; foi o
primeiro biógrafo de Franz Anton Mesmer, o inventor do mesmerismo; e
escreveu a vidente enormemente influente de Prevorst: revelações sobre nossa
vida interior e as incursões do mundo espiritual em nossa (1829), descrevendo
seus experimentos com uma mulher que teve visões místicas, viu o futuro e
falava línguas secretas. A Vidente de Prevorst foi considerada o primeiro estudo
de caso psiquiátrico do tamanho de um livro, e a dissertação de Jung era sobre
uma médium espírita que afirmava ser a reencarnação da Vidente de Kerner.
Jung também descobriu que Nietzsche havia inconscientemente plagiado Kerner
em Assim Falava Zaratustra ; Hermann Hesse chamou Kerner de
“curiosamente talentoso, o autor de um livro em sua juventude que parece ter
captado e reunido todos os raios radiantes do espírito romântico”.
Mais tarde na vida, Kerner reuniu uma série do que chamou de
Klecksographien ("blotograms"), que ele então legendou ou combinou com
poemas decididamente sombrios - três poemas do "Mensageiro da Morte", vinte
e cinco "Imagens do Hades" e onze mais "Inferno Imagens ”e assim por diante.
A confecção de manchas de tinta era uma espécie de prática espiritual e
espiritualista para Kerner. Ele sentiu que as imagens eram “incursões do mundo
espiritual”, como os poderes da Vidente. As manchas se formavam -
magicamente, inconscientemente, inevitavelmente - enquanto ele
simplesmente os “tentava” do mundo oculto para o nosso, onde então inspiravam
seus poemas. A certa altura, ele chamou seus borrões de
"daguerreótipos do mundo invisível".
A proximidade geográfica entre Kerner e Rorschach e sua formação comum
em psiquiatria tornaram muitos historiadores da psiquiatria e da arte incapazes
de resistir a assumir uma conexão entre eles. Mas bem depois de desenvolver seu
teste, Rorschach foi questionado se ele tinha ouvido falar de Kerner, que
"aparentemente fez experimentos com borrões, obviamente de um tipo
necromântico e não científico", e ele respondeu: "Já ouvi falar dos experimentos
de Kerner, mas ficaria muito grato se você pudesse me encontrar o livro
relevante.Talvez algumas coisas substantivas estejam por trás da
necromancia, afinal. ” Ele estava ciente do trabalho de Kerner em um sentido
geral, mas não influenciou o seu próprio.
Em qualquer caso, a “klexografia” era uma brincadeira infantil bastante
comum. O próprio Kerner brincava com manchas de tinta quando criança; o
jovem Carl Jung tinha “enchido um caderno inteiro de manchas de tinta e me
divertido dando-lhes interpretações fantásticas”. Thoreau também tentou. Uma
mulher russa no círculo de Rorschach lembrou-se de um jogo que costumava
jogar quando jovem, em que você escreve seu nome e sobrenome com tinta,
dobra o papel ao meio e "vê o que sua alma diz" e especula que talvez esse jogo
tenha dado ele sua ideia.
Na psicologia propriamente dita, manchas de tinta foram ocasionalmente
usadas antes como uma forma de medir a quantidade de imaginação de alguém,
especialmente de crianças em idade escolar. Um psiquiatra francês chamado
Alfred Binet foi o primeiro a ter a ideia, em 1895. Para Binet, a psicologia de
uma pessoa consistia em dez capacidades, incluindo memória, atenção, força de
vontade, sentimentos morais, sugestionabilidade e imaginação. Cada capacidade
poderia ser medida com seu próprio teste - por exemplo, a capacidade de alguém
de reproduzir uma forma geométrica complicada testava o quão boa ou ruim era
sua memória. Quanto à imaginação: “Depois de perguntar sobre a quantidade de
romances que a pessoa costuma ler, o tipo de prazer que sente deles, seu gosto
por teatro, música, jogos, etc., pode-se proceder a experimentos diretos. Pegue
uma mancha de tinta de formato estranho em uma folha de papel branca:
algumas pessoas não verão nada ali; para outros com uma imaginação visual
viva (Leonardo da Vinci por exemplo), a pequena mancha de tinta estará cheia
de formas, e pode-se notar o tipo e a quantidade de formas que a pessoa vê. ” Se
um sujeito viu uma ou duas coisas, ele não teve muita imaginação; se ele viu
vinte, ele tinha muito. A questão era quantas coisas você poderia encontrar em
um borrão aleatório, não o que um borrão cuidadosamente projetado poderia
encontrar em você.
De Binet, a ideia de medir a imaginação com manchas de tinta se espalhou
para uma série de educadores e pioneiros de testes de inteligência americanos -
Dearborn, Sharp, Whipple, Kirkpatrick. Chegou também à Rússia, onde um
professor de psicologia chamado Fyodor Rybakov, sem saber do trabalho dos
americanos, incluiu uma série de oito manchas em seu Atlas do Estudo de
Psicologia Experimental da Personalidade (1910). Foi um americano, Guy
Montrose Whipple, que chamou sua versão de "teste de borrão de tinta" em seu
Manual de Testes Mentais e Físicos (também 1910) - é por isso que os cartões de
Rorschach viriam a ser chamados de "borrões de tinta" quando os psicólogos
americanos os pegou, embora as imagens finais de Rorschach usassem tinta, não
apenas tinta, e não fossem simplesmente borradas.
Rorschach conhecia o trabalho de Binet e estava familiarizado com a
inspiração do próprio Binet - Leonardo da Vinci, que em seu "Tratado sobre a
pintura" descreveu jogar tinta na parede e olhar as manchas em busca de
inspiração. Mas ele desconhecia os seguidores russos e americanos de Binet.
Ainda assim, os primeiros testes de borrão de tinta de Rorschach foram
semelhantes a esses esforços em alguns aspectos. As formas específicas não
eram realmente o ponto, com Dearborn produzindo 120 borrões para um estudo,
100 para outro. No último, ele os colocou em uma grade de dez por dez e pediu
aos participantes que gastassem quinze minutos escolhendo e classificando quais
dez manchas mais se pareciam com a 101ª mancha. Ele estava estudando
reconhecimento de padrões, não interpretação.
Da mesma forma, os primeiros borrões de Rorschach não eram
padronizados: novos borrões eram feitos de fresco a cada vez, com tinta de
caneta-tinteiro em papel branco normal, vários borrões por página, às vezes até
uma dúzia. Os pacientes e os alunos de Gehring com idades entre 12 e 15 anos
viram os borrões, então Rorschach e Gehring marcaram-nos com notas do que
foi visto onde, ou então os próprios pacientes e alunos desenhariam o que viram.
Isso não era muito diferente das outras expressões visuais que Rorschach
encorajava seus pacientes a fazer: os desenhos, as pinturas. Às vezes
mastigavam ou molhavam jornais, amassavam em cabeças com botões no lugar
dos olhos e davam as cabeças ao Dr. Rorschach, que as envernizava e guardava.
Uma dessas cabeças de papel, com um grande botão ciclópico no meio, causou
uma impressão especialmente poderosa na esposa de Gehring. Ela estava cética
em relação às manchas de tinta no início, até que viu a análise perspicaz que
Hermann foi capaz de dar das respostas das pessoas. Quando Gehring testou os
borrões em seus alunos, não obteve grandes resultados - seus garotos do interior
não viram muito. Os pacientes de Rorschach viram muito mais.
Esses primeiros experimentos foram simplesmente mais um caminho de
exploração entre muitos, e Rorschach os abandonou sem hesitação quando os
Gehrings se mudaram. Eles não eram o teste de Rorschach que viria, embora
alguém se pergunte sobre aquelas interpretações perspicazes que tanto
impressionaram a Sra. Gehring. Ainda assim, Rorschach estava mostrando às
pessoas manchas de tinta em conexão com pesquisas sobre a natureza da
percepção, não a medição da imaginação; ele já estava
interessado no que as pessoas viram e como, não apenas o quanto. Mas em
1912 ainda faltavam peças cruciais no pensamento de Rorschach, e outras
abordagens para estudar a percepção pareciam muito mais promissoras.
7 Hermann Rorschach sente seu cérebro sendo fatiado
Frau BG, uma paciente esquizofrênica em Münsterlingen, apaixonada por
um dos enfermeiros, pensou que ele estava tentando atacar seus órgãos sexuais
com uma pequena faca. Às vezes, ela via flutuadores como pequenas facas
girando no ar diante de seus olhos e, quando o fazia, sentia um corte violento
abaixo da cintura. Ela também estendeu essas idéias a outros tipos de alucinação.
Sempre que olhava pela janela e via um trabalhador cortando a grama, sentia os
golpes da foice em seu próprio pescoço, algo que achava irritante, pois sabia
perfeitamente que a foice não poderia alcançá-la.
O caso dela lembrou Rorschach de um sonho que ele próprio teve, em
Zurique. Anos depois, o sonho permaneceu vívido em sua mente:
No meu primeiro semestre clínico, assisti pela primeira vez a uma autópsia e
observei com toda a conhecida ansiedade de um jovem estudante. Eu estava
especialmente interessado na dissecção do cérebro, conectando-o a todos os
tipos de reflexões sobre onde os pensamentos e sentimentos estavam localizados,
fatiando a alma, etc. O falecido tinha sido vítima de derrame e o cérebro foi
dissecado em fatias transversais. Naquela noite, tive um sonho em que senti meu
próprio cérebro sendo cortado em fatias transversais. Uma fatia após a outra se
desprendeu da massa dos hemisférios e caiu para a frente, exatamente como
acontecera na autópsia. Essa sensação corporal (infelizmente, não tenho uma
expressão mais precisa à minha disposição) era muito clara, e a imagem dessa
experiência onírica em minha memória ainda hoje é bastante vívida; tem a
qualidade - fraca, mas mesmo assim clara e perceptível através dos sentidos - de
uma percepção vivida e experimentada.
Certamente seria possível fazer perguntas freudianas sobre o conteúdo desse
sonho, mas os interesses de Rorschach estavam em outro lugar. Ninguém, eleapontou, jamais poderia sentir seu próprio cérebro sendo cortado em pedaços;
Frau BG também nunca havia sido cortada no pescoço. E, no entanto, a
“percepção vivida e experimentada” era real. E a sensação no sonho não veio
apenas depois de ver a autópsia - eles tiveram, ele sentiu, “uma relação muito
mais próxima e íntima, quase como se a percepção visual tivesse sido traduzida,
transposta ou transformada em uma sensação corporal. ” O fato maravilhoso é
que ver algo pode fazer uma pessoa sentir algo, até mesmo algo impossível de
sentir. Uma sensação pode se transformar em outra.
Rorschach vinha prestando atenção a essas experiências há anos. Havia as
dores de dente que ele havia transposto para notas agudas e graves quando
adolescente, e a memória muscular que o fazia se lembrar de uma melodia de
violino movendo os dedos. Quando criança, ele jogou um jogo em que um grupo
de crianças disse a um menino que arrancariam um de seus dentes, então agarrou
o dente e inesperadamente beliscou a panturrilha do menino, o que o fez gritar e
pensar que eles tinham arrancado um dente. O menino sentiu a dor não onde
estava, mas onde esperava sentir. Como médico, Rorschach percebeu como era
difícil fazer uma criança dizer exatamente onde estava ferida, porque a dor não
tinha uma localização precisa. E em Münsterlingen, havia o mesmo tipo de
experiência por toda parte, se você soubesse onde procurá-los: “Nós, que
moramos no Lago de Constança, há muito tempo localizamos qualquer zumbido
que ouvimos no ar, na expectativa de ver o dirigível do Zeppelin entrar em vista.
”
Rorschach percebeu que um fato sobre a percepção estava por trás de todas
essas experiências. As sensações podiam ser separadas de sua localização
original e sentidas em outro lugar, um processo chamado relocalização. Nunca
voamos como um pássaro, mas podemos sonhar em voar porque fizemos
headstands ou saltamos de um palheiro para um palheiro. O corte de seu cérebro
no sonho "parecia cortar o cabelo, as fatias caíam para frente da mesma forma
que um braço cansado cai para o lado de uma pessoa, em outras palavras, essas
eram qualidades conhecidas localizadas em um lugar incomum." A relocalização
era o que tornava possíveis sensações impossíveis.
As sensações também podem mudar de espécie, não apenas de localização.
Uma beliscada na panturrilha pode ser sentida como uma dor no dente, mas uma
experiência puramente visual - BG vendo moscas volantes ou HR assistindo a
uma autópsia - pode se transformar em uma sensação corporal não visual.
Rorschach tinha uma longa história de olhar pinturas e prestar atenção ao
que sentia e, como artista, experimentou o inverso: as sensações corporais
voltando às percepções visuais. “Se eu tento evocar em minha mente uma
determinada imagem”, escreveu ele, “minha memória visual muitas vezes é
incapaz de fazê-lo, mas se eu alguma vez desenhei o objeto e me lembro de um
único traço da caneta no desenho, mesmo a mais ínfima linha, a imagem da
memória que procuro aparece imediatamente. ”
O corpo de Rorschach poderia ativar sua visão: "Quando, por exemplo, não
consigo evocar a pintura de Schwind A cavalgada de Falkenstein como uma
imagem de memória, mas sei como o cavaleiro está segurando seu braço direito
('sabendo' aqui como uma imagem mental não perceptiva), Posso copiar
voluntariamente a posição deste braço, na minha imaginação ou na realidade, e
isso imediatamente me dá uma memória visual da imagem que é muito melhor
do que sem esse auxílio. ” Isso era, ele reiterou, exatamente o mesmo que
acontecia com seus pacientes esquizofrênicos: ao segurar seu braço da maneira
certa, ele “invocou alucinatoriamente, por assim dizer, os componentes
perceptivos da imagem visual”.
O que Freud havia descrito nos sonhos realmente acontecia em todas as
nossas percepções, acordados ou adormecidos, sãos ou insanos. Na teoria de
Freud, as imagens bizarras nos sonhos são “condensadas” ou combinadas a partir
de várias experiências. Alguém em um sonho pode se parecer com meu chefe,
me lembrar de minha mãe, falar como meu amante e dizer algo que ouvi um
estranho dizer em um café enquanto eu estava conversando com um amigo, e o
sonho é sobre todos esses relacionamentos ao mesmo tempo .
Rorschach percebeu que nossos corpos fazem o mesmo que nossas mentes
sonhadoras: misturam as coisas, a panturrilha e o dente, o braço e a memória da
pintura, o homem no gramado e o corte no pescoço. “Assim como a psique pode
separar, combinar e condensar vários elementos visuais sob certas circunstâncias
(principalmente sob a influência de desejos inconscientes)”, escreveu Rorschach,
“deve ser capaz de redefinir de forma semelhante outras percepções sensoriais
nas mesmas circunstâncias”. As sensações
"podem ser 'condensadas' da mesma forma que as percepções visuais são
condensadas nos sonhos."
Diante de uma paciente como BG, Rorschach foi atraído não tanto para
decifrar sua “história secreta”, como diria Jung, mas para compartilhar sua
maneira de ver e sentir. O que tornou essas sensações irreais possíveis, seja uma
foice alucinada no pescoço, formas de um tapete pressionando o cérebro ou
transformando-se no que você viu em um livro?
Foi enquanto estudava as transformações da percepção que Rorschach usou
pela primeira vez manchas de tinta.
-
Rorschach estava longe de ser o primeiro psicólogo a explorar a conexão
entre ver e sentir. No século XIX,
"estética" era um ramo da psicologia e estética era uma palavra científica -
que significa "relacionada à sensação ou percepção" - junto com seus irmãos
anestésicos (uma substância que tomamos e não sentiremos), sinestésicos
(combinando os sentidos) e cinestésico (a sensação de movimento). Havia uma
tradição de estética psicológica nesse sentido, bastante distinta da psiquiatria de
Freud ou Bleuler - até que Rorschach, com seu treinamento em Zurique,
alucinando pacientes e interesse pela experiência visual, uniu os dois.
A figura-chave nessa tradição foi Robert Vischer (1847-1933), que em 1871
escreveu uma dissertação de filosofia com o objetivo de explicar como podemos
responder a formas abstratas. Por que sentimos elegância em duas linhas
arqueadas, ou equilíbrio, ou forças convergentes - como podemos sentir alguma
coisa quando nos deparamos com formas aparentemente vazias e inanimadas?
“O que um arco-íris resplandecente, o firmamento acima ou a terra abaixo têm a
ver com a dignidade de minha humanidade? Posso amar tudo que vive, tudo que
rasteja e voa; tais coisas são semelhantes a mim; mas meu parentesco com os
elementos é muito remoto para exigir qualquer tipo de compaixão de minha
parte. ” Uma resposta possível é que, quando ouvimos música ou vemos formas
abstratas, somos lembrados de outra coisa: nossas reações baseiam-se em uma
associação de idéias. Mas Vischer rejeitou essa linha de pensamento porque
reduzia as obras de arte ao seu conteúdo, tema ou mensagem. A música não nos
lembra apenas de nossa mãe nos colocando para dormir, ou alguma outra
imagem ou evento concreto - nós reagimos a isso como música.
A única explicação viável, argumentou Vischer, é que podemos sentir a
emoção de uma coisa sem vida porque colocamos a emoção nela primeiro.
“Com um investimento intuitivo de nossa parte”, escreveu ele,
“nós involuntariamente lemos nossas emoções” nessas formas desumanas.
Não apenas nossas emoções, nós mesmos: “Temos a capacidade maravilhosa de
projetar e incorporar nossa própria forma física” a esses arco-íris, essas linhas
harmoniosas ou conflitantes. Perdemos nossa identidade fixa, mas ganhamos a
capacidade de nos conectar com o mundo: "Parece que simplesmenteme adapto
e me apego ao objeto enquanto uma mão agarra a outra, e ainda assim sou
misteriosamente transplantado e magicamente transformado neste Outro."
Somos a nós mesmos, reencontrados no mundo, a quem reagimos, sentindo as
coisas externas como partes de nós.
A ideia de Vischer de um vaivém entre projetar o self e internalizar o mundo
- o que ele chamou de
“continuação direta da sensação externa em uma interna” - influenciou
gerações de filósofos, psicólogos e teóricos estéticos. Para descrever seu novo
conceito radical, ele usou a palavra alemã Einfühlung,
literalmente "sentimento". Quando as obras psicológicas influenciadas por
Vischer começaram a ser traduzidas para o inglês no início do século XX, a
língua precisava de um novo termo para essa nova ideia, e os tradutores
inventaram a palavra empatia.
É muito chocante perceber que a empatia mal tem cem anos, mais ou menos
a mesma idade dos raios X e dos testes do detector de mentiras. Falar sobre um
“gene de empatia” é estimulante por causa do atrito entre os aspectos atemporais
da condição humana e a ciência de ponta, mas, na verdade, “empatia” é a parte
inovadora do termo: os genes foram descobertos primeiro. O que a palavra
empatia descrevia não era novo, é claro, e as idéias de “simpatia” e
“sensibilidade” tinham histórias longas e intimamente relacionadas, mas a
“empatia” reformulava a relação entre o eu e o mundo de uma nova maneira.
Também é surpreendente que o termo tenha sido inventado não para falar sobre
altruísmo ou atos de bondade, mas para explicar como podemos desfrutar de
uma sonata ou de um pôr-do-sol. Empatia, para Vischer, era ver com
criatividade, remodelar o mundo para nos encontrarmos refletidos nele.
Na tradição inglesa, o empatizador exemplar nesse sentido foi o poeta
romântico John Keats, que podia até entrar na vida das coisas. Um crítico
recente resume o “dom de Keats para entrar imaginativamente em objetos
físicos”:
A maneira como ele se içou, parecendo “corpulento e dominante” quando
conheceu a descrição de Spenser de “ baleias marinhas ”; ou imitou a “patada”
de um urso dançarino, ou a rápida agitação dos socos de um boxeador como
“dedos batendo” em uma vidraça. Ou aqueles famosos momentos de atenção
imaginativa e empatia. “Se um Pardal se aproxima da minha janela, eu participo
de sua existência e procuro no cascalho.” Ou simplesmente comer uma nectarina
madura: “Desceu com polpa macia, lamacenta, gosmenta - todo o seu delicioso
embonpoint derreteu-se na minha garganta como um grande morango
beatificado.” Ou até mesmo entrar no espírito de uma bola de bilhar, para que
pudesse sentir "uma sensação de deleite com sua própria forma redonda, lisa,
volubilidade e a rapidez de seus movimentos".
Esses exemplos se encaixariam perfeitamente nas experiências de
Rorschach. Keats, aliás, era um estudante de medicina, acompanhou os últimos
avanços da neurologia e até mesmo integrou a neurociência em sua poesia. O
psiquiatra suíço pode ter sido muito menos efusivo do que o romântico inglês,
mas por trás da reserva de Hermann estava um John Keats, deleitando-se com a
volubilidade do mundo e a rapidez de seus movimentos - "o transbordamento de
ouro do mundo", como Rorschach costumava dizer, citando sua linha de poesia
favorita.
Vischer teve o mesmo tipo de experiências, também antecipando a de
Rorschach. “Quando observo um objeto estacionário”, escreveu Vischer, “posso
sem dificuldade me colocar dentro de sua estrutura interna, em seu centro de
gravidade. Eu posso pensar do meu jeito ”, me sentir“ comprimido e modesto
”quando vejo uma estrela ou flor e“ experimentar uma sensação de grandeza
mental e amplitude ”de um edifício, água ou ar. “Muitas vezes podemos observar
em nós mesmos o curioso fato de que um estímulo visual é experimentado não
tanto com os nossos olhos, mas com um sentido diferente em outra parte do
nosso corpo.
Quando atravesso uma rua quente sob o sol forte e coloco um par de óculos
azul-escuro, tenho a impressão momentânea de que minha pele está esfriando. ”
Não há evidência férrea de que Rorschach leu Vischer, mas ele quase certamente
o fez, sem dúvida leu obras influenciadas por ele e, em qualquer caso, percebia o
mundo de maneira semelhante.
Décadas antes da Interpretação dos sonhos de Freud, Vischer estava
traçando a mesma atividade criativa da mente que Freud descreveria, mas na
direção oposta. Visto que Freud queria chegar ao conteúdo psicológico
subjacente dos sonhos, partindo de sua superfície bizarra e aparentemente sem
sentido, ele precisava saber como esse conteúdo subjacente estava sendo
“condensado” ou de outra forma transformado. Então ele poderia seguir o sonho
rio acima, por assim dizer, até a fonte. Vischer, ao contrário, valorizou essas
transformações por direito próprio, como base para a empatia, a criatividade e o
amor. Freud se preocupava com a forma como o processo funcionava, Vischer
com as belas formas que ele poderia criar: “Cada obra de arte se revela para nós
como uma pessoa que se sente harmoniosamente como um objeto semelhante.”
É por isso que Freud levou à psicologia moderna e Vischer levou à arte
moderna. A psicologia do inconsciente e a arte abstrata, duas ideias inovadoras
do início do século XX, foram, na verdade, primas próximas, com um ancestral
comum no filósofo Karl Albert Scherner, a quem Vischer e Freud creditaram
como a fonte de sua ideia-chave. Vischer chamou o livro de Scherner de 1861, A
Vida do Sonho, uma “obra profunda, sondando febrilmente as profundezas
ocultas ... da qual deduzi a noção que chamo de 'empatia' ou
'sentimento dentro'”; em The Interpretation of Dreams, Freud citou Scherner
longamente, elogiando a
"correção essencial" de suas idéias e descrevendo seu livro como "a tentativa
mais original e abrangente de explicar o sonho como uma atividade especial da
mente".
Vischer levou à arte abstrata por meio de Wilhelm Worringer (1881–1965),
cuja dissertação de história da arte de 1906, Abstraction and Empathy, tinha um
argumento tão simples quanto o título: a empatia é apenas metade da história.
Worringer argumentou que a empatia do estilo Vischer produz arte realista, o
produto do esforço para corresponder com o mundo externo. Um artista pode se
sentir em casa no mundo, sentir as coisas, colocar-se nelas e então descobrir que
está lá por meio de sua conexão com elas. Certas culturas vigorosas e confiantes,
na opinião de Worringer, eram particularmente propensas a produzir tais artistas,
como a Grécia e Roma clássicas ou a Renascença.
Outros indivíduos ou culturas, entretanto, acham o mundo perigoso e
assustador, e sua profunda necessidade psíquica é encontrar um lugar de refúgio.
O “impulso mais poderoso” de tal artista, escreveu Worringer, é
“arrancar o objeto do mundo externo de seu contexto natural” de caos e
confusão. Esses artistas podem representar uma cabra como um triângulo com
duas linhas curvas para chifres, ignorando sua forma complexa real, ou retratar
uma onda do oceano na geometria atemporal de uma linha em zigue-zague, não
tentando copiar os detalhes arbitrários de sua aparência real. Isso é o oposto do
realismo clássico: abstração.
Para Worringer, então, a empatia tinha um “contra-pólo” na ânsia de
abstração; a empatia era apenas “ um pólo do sentimento artístico humano”, não
mais válido ou mais estético do que o outro. Alguns artistas criam estendendo a
mão, sentindo o mundo, e outros virando as costas, afastando-se (a palavra
abstração vem do latim ab-trahere, afastar). Pessoas diferentes têm necessidades
diferentes, e sua arte deve satisfazer essas necessidades, quase por definição -
caso contrário,não haveria razão para fazê-lo.
Enquanto os artistas do início do século XX viam as idéias de Worringer
como uma importante justificativa, Carl Jung reconheceu o insight da teoria
psicológica de Worringer. Em seu primeiro ensaio promovendo uma teoria dos
tipos psicológicos, Jung citou Worringer como um “paralelo valioso” para sua
própria teoria de introversão e extroversão: a abstração é introvertida, afastando-
se do mundo; a empatia é extrovertida, entrando no mundo. Mas seria necessário
Rorschach - um artista e psiquiatra estudando a psicologia da percepção - para
reunir totalmente os fios.
-
Rorschach poderia praticar medicina em Münsterlingen, mas precisava
escrever uma dissertação para receber seu MD. Os alunos geralmente recebiam
tópicos de dissertação de seus professores, mas quando chegou a hora,
Rorschach propôs cinco idéias de sua autoria a seu orientador, Bleuler.
A mistura era típica de sua formação na Escola de Zurique: hereditariedade,
criminologia, psicanálise, literatura. Ele pensou que poderia estudar se uma
predisposição à psicose poderia ser rastreada através da história familiar de um
paciente, usando material de arquivo em Münsterlingen ou em sua cidade natal,
Arbon; ele propôs um estudo psicanalítico de um professor acusado de ofensas à
moralidade e outro de um paciente catatônico que ouvia vozes. Ele estava
interessado em trabalhar com Dostoievski e epilepsia, mas esperava aprofundar
o assunto em Moscou. No final, ele escolheu sua ideia mais original, dizendo a
Bleuler que “ficaria muito satisfeito se algo pudesse resultar disso”.
A dissertação de Rorschach, que ele terminou em 1912, teve como objetivo
definir os caminhos fisiológicos que tornam possível a empatia no sentido de
Vischer. “On 'Reflex Hallucinations' and Related Phenomena”
pode ser um título entorpecente em inglês, mas o assunto era nada menos do
que a conexão entre o que vemos e como sentimos.
Reflexhalluzination era um termo técnico psiquiátrico inventado na década
de 1860 para precisamente a classe de fenômenos que Rorschach achou
fascinante em seus pacientes e em si mesmo, junto com sinestesia, memórias
proustianas desbloqueadas por certos cheiros e qualquer outro exemplo de
percepção involuntária induzida por um estímulo. John Keats sentir-se
cutucando o cascalho quando olhou para um pardal foi uma alucinação reflexa,
se você quiser colocar dessa maneira, embora "percepção cruzada sensorial" ou
"alucinação induzida" possa ser uma tradução mais vívida.
Depois de abrir sua dissertação com a revisão seca obrigatória da literatura,
Rorschach apresentou quarenta e três exemplos vívidos e numerados de
cruzamentos entre visão e audição, entre visão ou audição e sensações corporais,
e entre outros pares de sentidos, começando com o sonho de seu cérebro fatiado
como exemplo 1.
Ele rapidamente descartou as associações simples que acontecem o tempo
todo (quando você ouve seu gato miando, você o visualiza em sua mente), da
mesma forma que Vischer rejeitou associações. Embora as alucinações reflexas
envolvessem associações - Rorschach reconheceu que havia uma razão para BG
sentir a foice do trabalhador em seu pescoço, não em uma parte menos simbólica
de seu corpo - tais associações eram secundárias. O que tornou o caso
interessante foi a transformação de um tipo de percepção em outro.
Os principais exemplos de Rorschach não eram cruzamentos entre ver e
ouvir, o foco da maioria dos estudos de sinestesia; em vez disso, ligaram a
percepção externa à percepção corporal interna. Eles envolviam
cinestesia, nossa sensação de movimento. Ele descreveu como, "quando
movo meu dedo para frente e para trás com o braço estendido na escuridão total
e olho nessa direção, acredito que posso ver meu dedo se movendo, embora seja
completamente impossível", então a percepção do movimento deve desencadear
um fraco percepção visual, paralela àquela conhecida por experiência. Aprender
uma música ou uma língua estrangeira - ou aprender uma palavra quando criança
- ele também descreveu como a criação de uma ligação entre som e movimento,
"um paralelo acústico-cinestésico", até que o aluno se sentiu mexer a boca para
dizer a palavra sempre que ela ouviu e vice-versa.
Esses paralelos podem operar em ambas as direções. Um paciente
esquizofrênico em Solothurn, A. von A., costumava olhar pela janela e se ver
parado na rua. Seu duplo “copiava” cada movimento que ele fazia - ou seja, os
movimentos do paciente se transformavam em uma percepção visual de seu
duplo, “viajando para trás ao longo do mesmo caminho de alucinação reflexo”
de uma esquizofrênica que sentia os movimentos de outras pessoas em seu
próprio corpo.
Ao vincular visão e movimento ao longo do caminho da empatia, Rorschach
usou o trabalho de um obscuro psicofísico norueguês, John Mourly Vold, cujo
tratado de dois volumes sobre os sonhos havia ultrapassado Freud
completamente e focado na cinestesia. Mourly Vold descreveu experimentos
intermináveis em que partes do corpo de uma pessoa que dormia eram amarradas
ou presas com fita adesiva, e os sonhos resultantes analisados quanto à
quantidade de movimento que continham e de que tipo. Rorschach tentou alguns
desses experimentos consigo mesmo. (Um sonho resultante foi pisar no pé de
um paciente com o mesmo sobrenome de seu chefe.) É difícil imaginar duas
teorias mais completamente estranhas uma à outra do que a de Freud e de
Mourly Vold, mas Rorschach as integrou: “Mourly Vold's a análise dos sonhos
de forma alguma exclui a interpretação psicanalítica dos sonhos ... Os aspectos
Mourly-Vold são parte do material de construção, os símbolos são os
trabalhadores, os complexos são os supervisores da construção e a psique
sonhadora é o arquiteto da estrutura que chamamos de Sonhe."
Rorschach estava se esforçando para lançar esses mecanismos como
universais. Apenas no final de sua dissertação ele reconheceu que talvez nem
todos tivessem as habilidades que ele tinha: “Meu relato sobre processos
alucinatórios reflexos pode parecer subjetivo para alguns leitores, por exemplo,
tipos auditivos, uma vez que foi escrito por alguém que é principalmente um tipo
motor, secundariamente um tipo visual. ”
Ele não definiu o que queria dizer com esses "tipos", mas percebeu
claramente, embora desconfortavelmente, que diferentes pessoas tendiam a
experimentar diferentes tipos de "paralelos". Como seus próprios dons de
mimetismo, habilidade artística realista e empatia eram a base de suas novas
idéias psicológicas, ele relutava em admitir que talvez fossem especiais para ele.
Como muitas dissertações, a de Rorschach acabou sendo menos que
definitiva. Ele foi forçado a encurtar drasticamente o produto final e admitiu na
própria dissertação, duas vezes, que dada “a coleção relativamente pequena de
exemplos” era “naturalmente impossível” chegar a quaisquer conclusões finais.
Mas, prestando tanta atenção a percepções específicas, em todas as suas
transformações escorregadias, ele estava começando a ver os processos
subjacentes a elas - estabelecendo as bases para uma síntese muito mais
profunda da psicologia e da visão.
8 As ilusões mais obscuras e elaboradas
Em 1895, rumores inquietantes começaram a circular em torno de
Schwarzenburg, um vilarejo nas montanhas no centro da Suíça. Um homem
chamado Johannes Binggeli, casado, sessenta e um anos de idade, era o chefe de
uma comunidade de verdadeiros crentes chamada Irmandade da Floresta. Ele era
um místico, um pregador e autor de vários panfletos ditados a ele pelo Espírito
Santo. Alfaiate de profissão, às vezes era contratado pormoradores locais, mas
geralmente apenas para prever os números vencedores da loteria. A Irmandade,
com noventa e três membros fortes, manteve-se em grande parte para si mesma.
Então, uma mulher da Irmandade foi presa por ocultar o nascimento de seu
filho e chamou Binggeli como pai. Dois anos antes, ela não conseguia urinar há
oito dias e Binggeli disse que seu Water Gate estava enfeitiçado, que ele
removeu ao fazer sexo com ela. Ela foi curada, mas seu relacionamento sexual
continuou. Outros membros da congregação começaram a contar histórias sobre
Binggeli usando relações sexuais para expulsar demônios de mulheres e
meninas. As autoridades descobriram que havia uma seita esotérica dentro da
Irmandade da Floresta, que adorava Binggeli como "a Palavra de Deus feita
carne mais uma vez". O pênis de Binggeli era o “Veio de Cristo” e sua urina,
“Gotas do Céu” ou “Bálsamo do Céu”, tinha propriedades curativas: seus
adoradores bebiam ou aplicavam externamente para lutar contra doenças
ou tentações. Dizia-se que ele era capaz de expelir urina vermelha, azul ou
verde à vontade e às vezes a usava como vinho para a comunhão.
Descobriu-se que Binggeli cometeu incesto com sua filha repetidamente
entre 1892 e 1895: de seus três filhos ilegítimos, pelo menos um, provavelmente
dois, eram dele. Depois de sua prisão, ele afirmou várias vezes que não tinha
feito isso; que ele tinha, mas apenas em um sonho, para protegê-la de demônios
em forma de gato e de camundongo; que a lei não se aplicava a ele porque ele
não era constituído como os outros seres humanos. Binggeli foi considerado
louco e enviado para o asilo próximo de Münsingen por quatro anos e meio, de
julho de 1896 a fevereiro de 1901.
Em abril de 1913, Rorschach foi transferido para Münsingen. Ulrich
Brauchli, chefe de Rorschach em Münsterlingen, fora promovido a diretor da
nova, maior e mais prestigiosa instituição perto de Berna, e o substituto de
Brauchli, um certo Hermann Wille, não era nada agradável de se trabalhar.
Rorschach seguiu Brauchli, enquanto Olga, ganhando dinheiro e perseguindo
sua própria carreira como médica, teve que ficar em Münsterlingen por três
meses até o fim de seu cargo. Eles foram separados novamente, embora por
apenas 120 milhas desta vez.
Rorschach encontrou o arquivo do paciente de Binggeli em Münsingen e
ficou fascinado. Pesquisando mais, ele descobriu que a Irmandade da Floresta de
Binggeli cresceu a partir de um movimento anterior e mais amplo, os
Antonianers, fundados por Antoni Unternährer na era napoleônica e
sobrevivendo até o século XX
na Europa e na América. Esses movimentos religiosos provavelmente
despertaram seu interesse pela seita Dukhobor, que ele havia descoberto por
meio de Ivan Tregubov. Rorschach rastreou Binggeli pessoalmente e foi visitá-lo
em seu retiro nas montanhas, onde ele agora vivia com um pequeno grupo de
crentes, incluindo sua segunda esposa, sua filha e o filho que também era seu
neto. Binggeli “já estava com oitenta anos”, escreveu Rorschach, “senil e
asmático. Ele era um homenzinho anão com uma cabeça grande, torso grande e
braços e pernas curtos "que" sempre usava o traje tradicional do folk
Schwarzenburg com botões de metal brilhantemente polidos, sete de cada lado "-
esses objetos de metal brilhantes, junto com seu relógio corrente, desempenhou
um papel fundamental em seus delírios. Rorschach foi capaz de “convencê-lo,
sem muitos problemas, a se deixar ser fotografado”.
Este foi o início de um projeto sobre a atividade da seita suíça que, o mais
tardar em 1915, Rorschach tinha certeza de que seria a obra de sua vida. Ele
havia levado seus estudos fisiológicos da percepção o mais longe que pôde,
então ampliou seu foco para as formas culturais de ver - e deu rédea solta à sua
ampla curiosidade.
Quando não estava ocupado tratando de pacientes, ele reunia material sobre
outros cultos fálicos arcaicos na Suíça e gradualmente montou um surpreendente
corpo de pesquisa, sintetizando a psicologia da religião com sociologia,
psiquiatria, folclore, história e psicanálise.
Ele descobriu que a atividade da seita sempre apareceu nas mesmas regiões,
ao longo das fronteiras de raça ou simpatias políticas - isto é, nas primeiras
zonas de guerra. Ele fez um mapa colorido à mão mostrando que as áreas de
atividade da seita correspondiam a altas concentrações de tecelões e especulou
sobre o porquê.
Historicamente, ele rastreou a atividade da seita nessas regiões de cultos
protestantes anteriores aos valdenses do século XII e Irmãos do Espírito Livre do
século XIII, a heresias e movimentos separatistas ainda anteriores, todos
deixando traços claros na região até os dias atuais . Psicologicamente, ele
argumentou ao longo das linhas junguianas que os delírios esquizofrênicos
exploram as mesmas fontes psíquicas dos antigos sistemas de crenças, e ele
notou semelhanças entre as imagens e ideias de toda essa história de seitas com
as de mitos e filosofias que remontam aos antigos gnósticos. Ele mostrou, por
exemplo, que os ensinamentos dos antonianos do século XVIII correspondiam,
em detalhes, aos dos adamitas do primeiro século.
Sociologicamente, ele argumentou que, ao fundar uma seita, um líder
carismático era menos importante do que um grupo receptivo de seguidores -
uma comunidade pode fabricar um líder de quase qualquer pessoa, se a
necessidade for forte o suficiente, e quando seitas foram importadas de outro
lugar, elas tendiam morrer rapidamente, a menos que a comunidade já esteja
preparada. Ele distinguiu entre seguidores ativos e passivos, bem como entre
líderes histéricos, cujas mensagens eram determinadas por complexos pessoais, e
os líderes esquizofrênicos mais poderosos, cujas doutrinas tocavam
profundamente em mitologias arquetípicas.
Suas palestras e ensaios sobre o tema das seitas, tanto acadêmicas quanto
não-acadêmicas, foram alguns de seus escritos mais animados - igualmente
interessantes como biografia, estudo de caso, história, teologia e psicologia. Ele
tinha planos de “um livro grosso” para responder a uma série de questões: Por
que um esquizofrênico pode fundar uma comunidade e outro não? Por que um
esquizofrênico reconstitui as idéias do homem primitivo, enquanto um neurótico
segue superstições locais? E como essas várias coisas se relacionam com as
respectivas populações?
Por que as seitas estão sempre onde há indústrias têxteis? Quais raças são
portadoras das seitas indígenas locais e quais se unem apenas às importadas?
Tudo com numerosos paralelos mitológicos, etnológicos, religiosos, históricos e
outros!
Este era o pensador Rorschach, não o médico Rorschach. Como Freud, Jung
e outros pioneiros de seu tempo, ele queria fazer mais do que tratar pacientes: ele
queria reunir cultura e psicologia para explorar a natureza e o significado da
crença individual e comunitária.
Como parte da Escola de Zurique, Rorschach acreditava na interação entre a
psicologia individual e a cultura e resistia a afirmar que uma psicologia universal
se aplicava a todos. O que pode parecer um desvio radical na carreira de
Rorschach foi parte de seu esforço ao longo da vida para compreender as
maneiras específicas pelas quais pessoas diferentes veem as coisas de maneira
diferente.
-
À medida que ampliava o foco de seu trabalho, Rorschach estava mais uma
vez impaciente para deixar a Suíça. Ele havia enfrentado a burocracia de
Moscou novamente, desta vez com mais sucesso: o embaixador suíço confirmou
que Rorschach poderia fazer o primeiro exame médico estatal russo oferecidoem 1914. Em dezembro de 1913, ele e Olga deixaram Münsingen para um
ambiente cosmopolita onde Era de conhecimento comum que a psicologia e a
arte eram inextricáveis: a Rússia.
Foi uma época estimulante para ir. A cultura russa estava na chamada Idade
da Prata, saturada com influências recíprocas de arte, ciência e crença oculta. A
ciência russa, especialmente em uma era de turbulência revolucionária e
movimentos culturais abrangentes, era menos especializada e segregada do que
no Ocidente. Como Alexander Etkind, o maior historiador da psicanálise na
Rússia, escreveu: “Poetas decadentes, filósofos morais e revolucionários
profissionais desempenharam um papel tão importante na história da psicanálise
na Rússia quanto os médicos e psicólogos”; do outro lado, nas palavras de John
Bowlt, um importante historiador cultural da Rússia modernista, "Nenhuma
apreciação desse 'tempo histérico e espiritualmente atormentado' pode ser
completa" sem referência a ambas as figuras artísticas -
Chekhov e Akhmatova, Fabergé e Chagall, Diaghilev e Nijinsky, Kandinsky
e Malevich, Stravinsky e Mayakovsky - e ao “extraordinário progresso nas
ciências russas”, da engenharia de foguetes à psicologia behaviorista de Pavlov.
Rorschach recebeu uma oferta de emprego em uma clínica particular de elite
nos arredores de Moscou, a Kryukovo, administrada pelos principais
psicanalistas da Rússia e cheia de escritores e artistas. Em muitos aspectos, esse
era o cenário ideal para o Rorschach. Era uma clínica privada para pacientes
voluntários com doenças nervosas, como era típico na Rússia na época, e muito
diferente dos hospitais lotados aos quais estava acostumado. Fundadas por
médicos sem salários de universidades ou hospitais estaduais, essas instituições
tornaram-se parcialmente empresas comerciais, o que significava que pagavam
bem - e pelo menos se concentravam em vender seus serviços aos pacientes, não,
como acontece com os "hospícios"
ingleses, para famílias que simplesmente queria pacientes trancados. A
clínica ficava em um ambiente rural, para aproveitar as propriedades curativas da
“vida natural e saudável”, e os pacientes eram tratados com humanidade e bem.
Os psiquiatras eram livres para combinar teorias, experimentar novas terapias e
adotar uma abordagem holística: "curar pela atmosfera psicológica íntima e de
apoio e pela 'personalidade' do médico, em vez de confiar em qualquer teoria
dada", nas palavras de um médico lá, Nikolai Osipov.
Os médicos Kryukovo eram generalistas e intelectuais públicos. Osipov, por
exemplo, mais tarde se tornaria um conhecido especialista em Tolstói e também
conferencista sobre Dostoievski e Turguêniev. Quanto aos pacientes, incluíam
importantes figuras culturais, entre eles o proeminente poeta simbolista russo
Alexander Blok e o grande ator Mikhail Chekhov, sobrinho do dramaturgo - o
sanatório dava tratamento preferencial a escritores, médicos e parentes do
falecido Anton Chekhov. Depois de anos encenando peças amadoras em um
remanso da Suíça e traduzindo Andreyev em seu tempo livre, Rorschach se viu
em um centro cultural.
Percorrendo a Idade da Prata russa havia uma série de temas próximos ao
coração de Rorschach: sinestesia, loucura, arte visual como autoexpressão. O
movimento, o elemento-chave nas alucinações reflexas que Rorschach havia
estudado, era visto aqui como “a característica básica da realidade”, nas palavras
do romancista moderno Andrei Bely; os teóricos do balé russo consideram o
movimento o aspecto mais importante de toda grande arte.
Dentro da psicologia, as distinções sectárias que pareciam tão importantes na
longínqua Europa ocidental desapareceram. Um folheto publicitário de 1909
para o Kryukovo proclamava que os pacientes receberiam
"hipnose, sugestão e psicanálise", bem como "psicoterapia em seu sentido
adequado", o que significa a chamada terapia racional, uma técnica desenvolvida
por outro suíço, Paul Dubois, que por um tempo foi mais proeminente e popular
do que o método de Freud (tanto quanto uma abordagem semelhante, agora
chamada de terapia cognitivo-comportamental, é hoje). Nenhuma linha de
batalha foi traçada entre os diferentes campos.
E a inspiração para a psiquiatria russa foi Tolstoi, o sábio e humanista
curador da alma que também inspirou Rorschach. Uma das razões pelas quais a
psicanálise foi tão bem recebida na Rússia foi que ela se mesclou com as
tradições locais de introspecção, “purificação da alma”, reflexões existenciais
sobre as questões profundas da vida humana e respeito pelo mundo interior das
pessoas. Se a mistura de ideais e interesses intelectuais de Rorschach -
generalista, não sectário, amplamente humanista, literário, visual - parecia
idiossincrática no contexto da Europa Ocidental, era o padrão para os psiquiatras
russos.
Freud havia brincado em uma carta de 1912 a Jung que “parece haver uma
epidemia local de psicanálise” na Rússia, mas na verdade não era uma relação de
mão única, uma “epidemia” se espalhando da Europa para o interior. Os russos
foram psicanalistas proeminentes tanto na Rússia quanto no Ocidente. Osipov,
colega de Rorschach em Kryukovo, publicou o primeiro jornal de psicanálise em
qualquer lugar e fez parte do conselho do jornal de Freud. Mesmo as idéias
supostamente “europeias” não eram não-russas. Freud chamou o mecanismo
psíquico de reprimir material psicológico inaceitável de "censura", uma alusão
explícita à censura política russa: em sua definição, o "instrumento imperfeito do
regime czarista para prevenir a penetração de influências ocidentais
estrangeiras". Muitos dos pacientes de Freud eram eslavos, muitas vezes russos,
incluindo o “Homem dos Lobos”, o paciente exemplar cujo caso ele escolheu
como tema de seu estudo de caso mais importante. O primeiro paciente
psicanalítico de Jung, que exerceu a maior influência em sua própria vida e obra,
foi a russa Sabina Spielrein. A lista continua. Se a história da psiquiatria é a
história não apenas de seus médicos e teóricos, mas também de seus pacientes,
então é em grande parte um conto da cultura russa.
A abordagem psicanalítica de Rorschach surgiu de sua experiência no
tratamento de russos, mais obviamente porque o Kryukovo era onde ele tinha
pacientes que podia psicanalisar - ao contrário dos psicóticos nos asilos suíços
ou de casos criminais que precisavam de avaliação rápida, como Johannes
Neuwirth. Mas ele também passou a ver a psicanálise como intrinsecamente
ligada a aspectos da cultura russa. Em uma palestra que proferiu posteriormente
para um público geral sobre o assunto, ele disse que as neuroses russas e suíças
funcionavam mais ou menos da mesma maneira, embora houvesse certas
"diferenças quantitativas" entre as populações, mas que a psicanálise era mais
eficaz nos eslavos. pacientes do que os de origem alemã. Não só eram "a maioria
deles bons auto-observadores (ou auto-devoradores, como dizem, já que essa
auto-observação muitas vezes se transforma em um vício verdadeiramente
atormentador e devorador)", mas eles podiam se expressar mais livremente, "não
inibidos por todos os tipos de preconceitos. ” Os russos eram
"muito mais tolerantes com as doenças do que outras pessoas", sem "o
desprezo que nós, suíços, tantas vezes sentimos junto com a nossa pena".
Aqueles com doenças nervosas poderiam procurar tratamento em uma
instituição sem medo de “estigma prejudicial” ao serem liberados. A ideia da
Rússia pela qual ele se apaixonou por meio de Olga - a capacidade “russa” de
expressar seus sentimentos - agora se transferia para a percepção de seus
pacientes e moldava sua práticapsiquiátrica.
-
Os meses de Rorschach no Kryukovo no início de 1914 foram um divisor de
águas na arte russa, que redefiniu o poder das imagens visuais. O futurismo
russo estava em pleno vigor e Rorschach o testemunhou em primeira mão.
Provavelmente em 1915, ele redigiu um ensaio intitulado “The Psychology of
Futurism”, cuja abertura jornalística definiu bem o cenário: “O futurismo, como
se apresenta hoje para um mundo atônito, parece à primeira vista uma mistura
colorida de imagens e esculturas incompreensíveis , de manifestos agudos e sons
inarticulados, de arte barulhenta e ruído artístico, de uma vontade de poder e
uma vontade de ilogicidade. Apenas um tema comum é distinto: uma
autoconfiança ilimitada e uma condenação talvez ainda mais ilimitada de tudo o
que veio antes, um grito de guerra contra todos os conceitos que até hoje
moldaram o curso da cultura, da arte e da vida diária. ”
O futurismo era uma panela de pressão modernista em que tudo parecia se
despedaçar ou se dissolver ao mesmo tempo. Uma explosão de energia na
literatura, pintura, teatro e música, sua versão russa continha um enxame de
submovimentos, cliques e estratégias de branding, incluindo Cubo-Futurismo,
Ego-Futurismo, Everythingism, Centrífuga e o Mezanino da Poesia com
excelente nome. Isso foi discutido na imprensa quase diariamente enquanto
Rorschach estava na Rússia, e em janeiro e fevereiro de 1914 o principal
futurista italiano, FT Marinetti, deu palestras bem divulgadas e frequentadas em
Moscou. O movimento saiu às ruas com desfiles em que artistas “passeavam
com rostos pintados no meio da multidão, recitando poesia futurista”. Quando
uma menina deu uma laranja a um poeta que desfilava, ele começou a comê-la.
“Ele está
comendo, ele está comendo”, sussurrou a multidão atônita, como se os
futuristas fossem marcianos; uma turnê nacional logo se seguiu.
As explorações dos futuristas repercutiram em muitos dos interesses de
Rorschach. O compositor e pintor Mikhail Matyushin, seguidor de Ernst
Haeckel, estudou formas fortuitas de madeira flutuante, escreveu teorias de cor e
tentou expandir a capacidade visual humana, em parte com exercícios destinados
a regenerar nervos ópticos perdidos na parte de trás da cabeça e o solas dos pés.
Nikolai Kulbin, a quem Rorschach ouviu palestra, era um artista e médico que
publicou livros e artigos científicos sobre percepção sensorial e testes
psicológicos. Ele tinha esse slogan psicológico como lema: “O eu não conhece
nada, exceto seus próprios sentimentos e, ao projetar esses sentimentos, cria seu
próprio mundo”. O poeta Aleksei Kruchenykh defendeu "ver as coisas dos dois
lados" e "objetividade subjetiva": "Que um livro seja pequeno, mas ... tudo do
próprio escritor, até a última mancha de tinta." Os futuristas publicaram obras
sinestésicas como Intuitive Colors e tabelas de correspondências entre cores e
notas musicais; manifestos sobre como neologismos e equívocos “geram
movimento e uma nova percepção da palavra”; um poema em que o poeta está
no cinema e, com um esforço especial, começa a ver a imagem de cabeça para
baixo. Essas e outras figuras-chave são mencionadas ou citadas no ensaio
Futurismo de Rorschach.
Ele reconheceu que o futurismo parecia louco e ilógico, mas afirmou que “já
passou o tempo em que qualquer movimento, qualquer ação, pode ser
considerado 'louco'. [...] Não existe absurdo absoluto. Mesmo nos delírios mais
obscuros e elaborados de nossos pacientes com demência precoce, existe um
significado oculto. ” Ele traçou o paralelo entre Futurismo e esquizofrenia em
termos da Escola de Zurique, justificando a aplicabilidade mais ampla da teoria
psicanalítica: “Conexões inimagináveis até agora foram forjadas com a
elaboração da psicologia profunda em que Freud foi pioneiro ... Não apenas
sintomas neuróticos e sistemas delirantes e sonhos, mas também mitos, contos
de fadas, poemas, obras musicais, pinturas - todos provaram ser acessíveis à
pesquisa psicanalítica. ” Como resultado, “Mesmo se decidirmos descrever o
futurismo como loucura e absurdo, ainda temos a obrigação de encontrar sentido
nesse absurdo.”
Rorschach levava o futurismo a sério e encontrou sentido nele específico o
suficiente para criticar. Na análise mais original de seu ensaio sobre o Futurismo,
ele argumentou que os futuristas entenderam mal como as imagens geram uma
sensação de movimento. Ele observou que normalmente apenas cartunistas,
como seu velho favorito Wilhelm Busch, tentam apresentar o movimento
mostrando um objeto em vários estados ao mesmo tempo, por exemplo, dando a
um pianista vigoroso vários braços e mãos. As esculturas ou pinturas de
Michelangelo, em contraste, são dinâmicas - elas fazem você sentir o
movimento. Os futuristas, com suas dúzias de cães de patas, cometeram o erro
de tentar uma abordagem como a de Busch, mas Rorschach foi
extraordinariamente firme: para um artista que aspira a mais do que desenhos
animados, “não há outra maneira de lidar com o movimento” do que o método
de Michelangelo; “A única maneira séria de representar o movimento em um
objeto é influenciando o senso cinestésico de quem vê.” A estratégia futurista é
“impossível” porque compreende mal a relação entre empatia - o termo
hineinfühlen de Vischer -
e visão: “Não há necessidade de consultar os filósofos e psicólogos, mas
simplesmente os fisiologistas.
Múltiplas pernas uma ao lado da outra não despertam uma ideia de
movimento, ou apenas de uma forma muito abstrata, assim como um ser humano
não pode ter empatia com um milípede ao longo de caminhos cinestésicos ”.
Imagens visuais, pelo menos se forem boas, produzem estados mentais - elas
“despertam uma ideia” no visualizador. Em um ponto em seu rascunho de
ensaio, entre os X, Rorschach inseriu sem explicação uma citação russa:
X
Uma pintura - os trilhos sobre os quais a imaginação do espectador deve
rolar, de acordo com a representação do artista.
X
Na Suíça, Rorschach e Gehring usaram manchas de tinta para avaliar a
imaginação do espectador, tratando-a como uma quantidade mensurável. Aqui
estava uma visão de imagens mudando a imaginação do espectador
- levando-o, como sobre trilhos, em uma nova direção.
Independentemente de seus argumentos específicos, um psiquiatra
escrevendo sobre “a psicologia do futurismo” em 1915, engajado com a arte de
vanguarda de maneiras inteiramente consistentes com sua teoria e prática
psiquiátrica, estava à frente de seu tempo. Freud admitiria abertamente que era
um filisteu em relação à arte moderna; Jung escreveria um ensaio sobre Joyce e
um sobre Picasso, ambos superficiais e desdenhosos, e seria amplamente
ridicularizado, nunca mais se aproximando do assunto. Havia outros psiquiatras
mais atentos à arte e artistas que estudavam psicologia, mesmo fora da Rússia - o
surrealista
alemão Max Ernst, por exemplo, tinha extenso treinamento universitário em
psiquiatria. Mas Rorschach era uma figura com conhecimento único para superar
a divisão disciplinar.
Além do futurismo, as ideias da Europa Ocidental e da Rússia estavam se
unindo na década de dezenove para criar arte abstrata. As figuras geralmente
creditadas como os primeiros artistas modernos puramente abstratos são o
holandês Piet Mondrian, o russo Kazimir Malevich, o emigrado russo em
Munique Wassily Kandinsky e a suíça Sophie Taeuber. A abstração e empatia de
Worringer era um ponto de referência compartilhado. O ensaio de Rorschach
sobre o Futurismo acaba de ser anterior ao evento decisivo no nascimento da arte
moderna na Suíça: a criação do Dadaísmo emum cabaré de Zurique em
fevereiro de 1916. Sophie Taeuber participou, junto com seu futuro marido Hans
(Jean) Arp; na Escola de Artes e Ofícios de Zurique, onde Ulrich Rorschach
havia estudado uma geração antes, Taeuber ensinou o que Arp chamou de
"bando de garotas correndo para Zurique de todos os cantões da Suíça, com o
desejo ardente de bordar coroas de flores sem fim em almofadas", e “conseguiu
trazer a maioria deles para abraçar a praça.”
Não há registro de qualquer contato direto entre Rorschach e os dadaístas,
mas ele certamente acompanhou os desenvolvimentos na arte moderna da
Europa Ocidental. Ele havia feito um cartoon satirizando o expressionismo no
colégio; mais tarde, ele usaria o artista expressionista austríaco Alfred Kubin
para ilustrar suas teorias sobre introversão e extroversão. De maneira mais geral,
ele traria seus insights sobre arte e psicologia da Rússia para sua prática
psiquiátrica na Suíça.
-
A “questão crônica” de Hermann e Olga sobre onde se estabelecer
continuava a puxar o casal em direções opostas. Hermann descobriu em 1914,
como havia feito em 1909, que por mais que se sentisse atraído pela cultura
russa, a realidade da vida ali era diferente. Olga gostava da imprevisibilidade da
vida na Rússia; Hermann considerou isso caótico. Olga descartou as ambições de
Hermann como "um anseio europeu por
'conquistas'", dizendo "ele tinha uma espécie de medo de sucumbir à magia
da Rússia". E o que ela percebia como uma companhia calorosa às vezes parecia
muito intrusivo para o introvertido Hermann, que já havia reclamado com Anna
sobre a cultura russa excessivamente social - “É muito difícil trabalhar em casa
aqui; portas abertas e visitas o dia todo. ” Anna mais tarde lembrou que as
intermináveis conversas que alguém se via tendo na Rússia deixavam Hermann
com "um grande desejo de ficar sozinho": para todos os pacientes interessantes
em Kryukovo, eles ocupavam tanto de seu tempo e energia que "ele não tinha
tempo livre para escrever suas observações ou trabalhar nelas. Ele me disse que
se sentia como um pintor diante de uma paisagem maravilhosa, sem papel ou
tinta. ” Ela achava que Hermann nunca mais quisesse morar no exterior depois
daquela experiência.
Uma longa série de brigas familiares noturnas finalmente terminou às 2 da
manhã de uma manhã de maio de 1914. Hermann havia vencido. Era impossível
conseguir um emprego no mundialmente famoso Burghölzli, mas ele conseguiu
um emprego no Waldau, em Bolligen, nos arredores de Berna, um dos dois
únicos outros hospitais psiquiátricos universitários na Suíça de língua alemã. Ele
escreveu da Rússia para um colega no Waldau, dizendo que “depois de nossas
intermináveis andanças ciganas, sentimos uma forte necessidade de finalmente
nos estabelecermos”. Era uma carta ansiosa: “Você poderia fazer a gentileza de
me dar algumas informações sobre os quartos que estão sendo oferecidos em
Waldau? Qual o tamanho deles - quantos passos? Quantas janelas? E a entrada,
quantas escadas e corredores? Os quartos estão todos juntos? Seria possível uma
vida de casado confortável lá? ” A resposta que recebeu deve ter sido bastante
reconfortante.
Ele deixou a Rússia e foi para a Suíça em 24 de junho de 1914, para nunca
mais voltar.
Olga planejava ficar em Kazan cerca de seis semanas antes de seguir seu
marido, mas assim que ele voltou ao Ocidente, o arquiduque Franz Ferdinand foi
morto a tiros em Sarajevo, em 28 de junho, e no final das seis semanas de Olga a
Grande Guerra havia começado. Ela permaneceu na Rússia por mais dez meses,
até a primavera de 1915. Essa longa separação - a quarta, pelo menos - foi por
escolha, bem como pelas circunstâncias. Olga não estava pronta para desistir de
seu sonho de ficar na Rússia e ainda não tinha coragem de deixar sua terra natal,
especialmente em um momento de necessidade. Sem ela, as preocupações de
Hermann sobre o apartamento eram discutíveis, e o "pequeno, mas agradável,
novo apartamento de três cômodos no quarto andar do prédio da clínica central"
estava bem - Rorschach chamou de "meu pombal", um sótão perfeito para
solidão e dureza trabalhar.
O futuro colega para quem Rorschach escrevera da Rússia era Walter
Morgenthaler (1882–1965), que Rorschach conhecia desde seus dias em
Münsterlingen. Quando Rorschach chegou ao Waldau, Morgenthaler estava
ocupado pesquisando histórias de casos para encontrar desenhos de pacientes
para sua coleção crescente, incentivando os pacientes a desenhar o quanto
quisessem e promovendo sistematicamente sua
atividade artística, dando-lhes papel e pedindo-lhes que desenhassem e
designando tópicos específicos (um homem, uma mulher e uma criança; uma
casa; um jardim). Morgenthaler relembrou o relacionamento de Rorschach com
os pacientes exatamente nestas linhas: “Filho de um professor de desenho e
também um desenhista muito bom, ele tinha um interesse vital nos desenhos dos
pacientes. Ele tinha um dom incrível para fazer os pacientes desenharem. ”
Rorschach descobriu, por exemplo, que um paciente catatônico, que passava
a maior parte do dia deitado ou sentado rigidamente na cama, havia sido um bom
desenhista antes de adoecer. Rorschach estendeu em seu cobertor não apenas um
bloco de desenho e um punhado de lápis de cor, mas uma grande folha de bordo
com um besouro rastejante amarrado a ela com fita adesiva. Não apenas
materiais de arte, mas algo para se olhar; não apenas um objeto, mas a vida em
movimento. No dia seguinte, radiante de deleite, Rorschach mostrou a
Morgenthaler e seu chefe o desenho colorido extremamente preciso do besouro
na folha do paciente. Embora esse paciente não se movesse por meses, ele agora
lentamente começou a desenhar mais, depois teve aulas de pintura, melhorou
ainda mais e acabou recebendo alta.
Rorschach estava entusiasmado com a pesquisa de Morgenthaler sobre arte e
doença mental, e com razão: Morgenthaler estava trabalhando em um estudo
pioneiro sobre arte e doença mental. Um de seus pacientes era um
esquizofrênico chamado Adolf Wölfli, hospitalizado desde 1895, que se tornou
um artista visual, escritor e compositor, produzindo um grande corpo de
desenhos em 1914. Em 1921, Morgenthaler publicaria o inovador A Mental
Patient as Artist (1921), que influenciaria todos os surrealistas - André Breton
agrupou Wölfli com Picasso e o místico russo Gurdjieff como inspirações
importantes, chamando a arte de Wölfli de
"uma das três ou quatro obras mais importantes do século XX" - para Rainer
Maria Rilke, que pensou em seu caso, “algum dia nos ajudará a obter novos
insights sobre as origens da criatividade”. Wölfli se tornaria o artista marginal
paradigmático do século.
Rorschach provavelmente viu Wölfli em suas rondas e ajudou Morgenthaler
a tratá-lo. Ele procurou material visualmente interessante nos arquivos Waldau
para Morgenthaler e prometeu que “uma das primeiras coisas que ele faria”
depois de deixar o Waldau seria começar uma coleção de desenhos de pacientes
como o de Morgenthaler. Essa partida estava se aproximando: quando Olga
finalmente voltou para a Suíça, os Rorschach decidiram que o apartamento era
muito pequeno, afinal, assim como o salário. Eles se mudaram novamente, para
Herisau, no nordeste da Suíça.
Os anos de peregrinação de Hermann, de 1913 a 1915, o ajudaram a
imaginar uma psicologia mais holística e humanística. A descoberta de Binggeli
levou seu interesse pela percepção em uma direção antropológica, mostrando-lhe
um caminho para o cerne escuro da crença individual e coletiva, onde a
psicologia encontra a cultura. A cultura russa deu-lhe um modelo de ligação
entre arte e ciência. E os futuristas eWölfli mostraram a ele como as
explorações psicológicas podem estar intimamente ligadas à arte. Essa
compreensão mais profunda do poder das imagens visuais logo levaria à sua
descoberta.
9 seixos em um leito de rio
Herisau fica em uma paisagem de altas colinas, verões ensolarados de Sound
of Music com caminhadas alpinas e flores silvestres pontilhando os prados dando
lugar a primeiros outonos, invernos frios sombrios com fortes nevascas e longas
e úmidas fontes. Tem uma das maiores elevações de qualquer cidade na Suíça, e
"mesmo quando St. Gallen" - a gloriosa cidade monastério a cerca de 8
quilômetros de distância - "está sob uma névoa profunda, muitas vezes temos sol
e ar puro aqui", escreveu Rorschach para seu irmão. Seus parentes em Arbon
estavam próximos, cerca de quinze milhas ao norte; em um dia claro, Rorschach
podia ver o Lago Constança da colina onde morava. O Säntis, o pico mais alto
da região e seu destino para caminhadas, ficava à mesma distância ao sul, visível
pela janela do segundo andar de Rorschach - ele sempre parecia escolher
apartamentos no andar de cima. “É especialmente bonito aqui no inverno, no
final da primavera e no final do outono”, escreveu Rorschach sobre sua nova
casa. “O outono é provavelmente a nossa época mais bonita, com uma visão
clara ao longe.”
Rorschach viveu em Herisau por mais tempo do que em qualquer outro
lugar, exceto Schaffhausen. Foi onde ele criou sua família, seguiu sua carreira e
sua vocação. O Krombach, o hospital psiquiátrico do cantão, ficava em uma
colina a oeste da cidade. Inaugurado em 1908, não muito antes da chegada de
Rorschach em 1915, foi o primeiro asilo na Suíça construído usando o sistema
de pavilhões: edifícios em um ambiente semelhante a um parque, separados para
limitar a propagação de infecções, bem como para benefícios terapêuticos. Atrás
do prédio da administração, havia três edifícios para homens e três para
mulheres, e uma capela no meio. Na época de Rorschach, o hospital construído
para 250 pacientes comportava cerca de 400, a
maioria deles gravemente psicótica. Era principalmente uma instituição de
custódia - menos educadamente, uma instalação de detenção - em vez de um
local de tratamento.
Os médicos e a equipe viviam em Krombach ao lado dos pacientes,
relativamente isolados nos arredores pitorescos. A população de Herisau rondava
os quinze mil, cada vez mais provenientes de fora do cantão e do país,
predominantemente trabalhadores têxteis; St. Gallen produziu metade dos
bordados do mundo em 1910. Herisau tinha um cinema e algumas amenidades,
mas não muito a oferecer, especialmente após o colapso da indústria têxtil após a
Primeira Guerra Mundial. O cantão, Appenzell Ausserrhoden, era rural e
amplamente conservador, com uma população famosa por ser reservada para
estranhos. Rorschach se identificava mais com os berneses estereotipadamente
lentos e introvertidos do que com os Appenzellers, mas se dava bem com os
locais, respeitando-os sem tentar ser um deles.
Foi um enorme alívio para Hermann e Olga que suas “perambulações
ciganas” tivessem chegado ao fim.
Eles tinham finalmente um grande apartamento, com cerca de trinta metros
de comprimento e cheio de janelas, formando um arco em torno da frente do
prédio da administração; uma pintura que Hermann fez mais tarde mostrou os
quartos arejados com vista no verão. Quando a van da mudança chegou, estava
quase vazia, mas Hermann poderia escrever ao irmão, logo depois: “Estamos
sentados em alguns de nossos móveis, pode imaginar? É uma experiência real. ”
O diretor do asilo era Arnold Koller, um médico pouco inspirador, mas
administrador diligente. Ele administrou com eficiência a construção do
Krombach - em retrospecto, o ponto alto de sua carreira - e suas reminiscências
escritas à mão descrevem a vida lá. “Uma vez que a instituição funcionava
bem”, admitiu,
“sua direção não exigia muito trabalho”. Como outro aluno de Bleuler,
Koller defendia uma compreensão pessoal do bem-estar físico e mental dos
pacientes, mas era um homem tenso, rígido e moralista: seu filho lembra de ter
contado uma mentira e seu pai respondendo: “Prefiro que você morra a continue
fazendo isso."
Koller também se preocupava profundamente com orçamentos e custos;
Rorschach o chamava de “um tanto tacanho e estatístico nato”, e a cada ano
como um relógio ele ficava um pouco louco por ter que escrever e analisar os
números do ano - “Semana de Estatísticas”, ele a chamava. Janeiro de 1920:
“Acabo de terminar o trabalho mais desagradável do ano institucional: as
estatísticas de 1919. Depois de dias e dias de absoluta imbecilidade, estou
lentamente voltando à consciência.” Janeiro de 1921: “Ainda estou sofrendo de
um caso de demência estatística, capaz apenas de resolver os assuntos mais
necessários ... Estou ansioso pelo próximo livro de Freud, mas há algo além do
princípio do prazer que faz a vida valer a pena? O que Freud vai dizer?
Eu sei de uma coisa que está além do princípio do prazer - estatísticas! ”
Rorschach manteve as aparências, escrevendo notas de boas-vindas sempre
que o diretor e sua família voltavam de suas viagens, com desenhos charmosos e
pequenos poemas descrevendo o que acontecera durante as quatro semanas em
que estiveram fora. O filho de Koller, Rudi, lembrou-se vividamente das notas
quarenta anos depois e lembrou de Rorschach como extraordinariamente
talentoso, mas modesto, nunca se apresentando, “a alma de toda a instituição” -
isso de acordo com o filho de seu diretor. O menino tinha seis ou sete anos
quando teve uma forte dor no apêndice enquanto o pai estava fora; Rorschach
sentou-se ao lado dele, tirou sua aliança de casamento e hipnotizou Rudi com
ela: falou com ele, colocou-o para dormir e, quando o menino acordou, sua dor
havia sumido.
Os dias de trabalho de Rorschach começaram com uma reunião matinal com
Koller, após a qual ele saiu em suas rondas, tratando de pacientes masculinos e
femininos agudos. Gritos terríveis encheram os corredores; um dia, Hermann
apareceu em seu apartamento com as roupas rasgadas de cima a baixo por um
paciente. O
dia de Ano Novo de 1920 não foi auspicioso: “Mais ou menos exatamente à
meia-noite, um paciente tentou se estrangular”. Os principais tratamentos eram
banhos de um dia inteiro, de que os pacientes gostavam, e sedativos, além de
terapia de trabalho, como fazer saquinhos de papel ou separar os grãos de café;
se um catatônico quisesse deixar a tarefa designada “para ficar contra a parede”,
ele ou ela estava livre para fazê-lo.
Havia trabalho manual para quem pudesse fazê-lo - jardinagem, carpintaria e
encadernação. Os médicos faziam suas refeições com suas famílias. Olga
costumava ficar na cama lendo até meio-dia ou uma hora; às vezes ela
cozinhava, com menos frequência quando finalmente tinham dinheiro para
contratar uma criada. A equipe do hospital lavava a roupa. Hermann trabalhou
até tarde.
Seu salário ainda era baixo e a clínica precisava desesperadamente de um
terceiro médico - em 1916, Rorschach era pessoalmente responsável por 300
pacientes; mais tarde, para 320. Mas a permissão para um assistente voluntário
não remunerado foi concedida apenas em 1919; O próprio Rorschach quase não
foi contratado, porque Olga era médica e Koller temia que seus superiores, que
haviam recusado firmemente outra contratação, pensassem que ele estava
tentando apresentar-lhes um fato consumado. Um Rorschach
inconfundivelmente irritado escreveu a Morgenthaler em Berna:
Como você pode ver pelo longo períodode leitura de que precisei para os
livros que você me emprestou, ainda tenho muito pouco tempo para mim.
Acabei de enviar um poema épico ao comitê de supervisão, que, usando copioso
material estatístico - o locus minoris resistentiae de Appenzeller [local de menor
resistência à invasão de toxinas ou bactérias] - prova que Herisau está em último
lugar, em todos os lugares, talvez em toda a Europa, re: número de médicos, e
que a adição de um terceiro médico seja simplesmente indispensável.
Tenho muitos votos a favor, mas um membro do conselho aparentemente
chegou à conclusão bizarra de que “estávamos artificialmente forçando um
número tão alto de pacientes a fim de extorquir um terceiro médico”. Que visão!
Rorschach teve pouco estímulo intelectual. Ele ajudou a fundar a Sociedade
Psicanalítica Suíça e serviu como vice-presidente, mas as reuniões ocasionais
dificilmente eram suficientes. “É uma pena que eu more tão longe, ou
poderíamos ter conversado sobre isso pessoalmente há muito tempo”, ele
escreveu a Morgenthaler sobre um tópico; a outro amigo e colega em Zurique:
“Aqui nas províncias eu só vislumbro novas publicações por acaso, se é que as
vejo.” Enquanto seus amigos diziam ter inveja da paz e tranquilidade rural de
Herisau, Rorschach invejava seus colegas que lidavam com "pessoas
interessantes, não como os Appenzellers daqui, tão lisas como seixos no leito de
um rio".
Rorschach poderia continuar a trabalhar em seus projetos anteriores,
especialmente seus estudos de seitas, e manter-se profissionalmente conectado a
outros psiquiatras e psicanalistas da Suíça, pelo menos por correio.
Mas o que viria a seguir? Tendo prometido a Morgenthaler que coletaria
desenhos de pacientes, Rorschach achou impossível fazê-lo. Ele atribuiu o
fracasso à variação cultural, escrevendo com pesar para Morgenthaler que “se
você colocar um pedaço de papel na frente de um Bernês, ele começará a
desenhar depois de um tempo, sem dizer uma palavra, mas um Appenzeller
sentará lá na frente de uma folha de papel em branco e balbuciar sobre todas as
coisas que se poderia desenhar ali, sem fazer uma única marca! ” Os novos
pacientes de Rorschach eram melhores em falar sobre fotos do que em fazê-las.
-
A Grande Guerra estava ocorrendo durante os primeiros anos dos
Rorschachs em Herisau, e até mesmo a Suíça neutra sentiu os efeitos: rivalidade
nacionalista entre suíços-franceses e suíços-alemães, serviço militar como não-
combatentes, inflação galopante. Tendo acabado de retornar à Suíça quando a
guerra estourou, Rorschach tentou ser voluntário em um hospital militar com
Morgenthaler. Sem sucesso: “O que você está pensando?” seu superior no
Waldau havia explodido. "Você não entende que é seu dever ficar aqui mesmo?"
Morgenthaler se lembrou da reação sombria de Rorschach: pendurar a
cabeça de mau humor por dias, ainda mais quieto do que o normal, então
tristemente observando que "agora é dever dos alemães matar tantos franceses
quanto possível, e o dever dos franceses de matar tantos alemães, enquanto é
nosso dever sentar aqui bem no meio e dizer 'bom dia' para nossos pacientes
esquizofrênicos todos os dias. ”
Depois de se mudar para Herisau, Rorschach pôde servir. Ele e Olga se
ofereceram como voluntários por seis semanas, ajudando a transportar 2.800
pacientes mentais dos asilos franceses em territórios ocupados pelos alemães
para a França, entre outras tarefas não combatentes. Ele também acompanhou os
eventos da guerra de sua distância analítica usual. Desprezando a necessidade de
evitar sentimentos anti-alemães escrevendo para seu irmão em francês, ele foi
igualmente repelido pelos suíços pró-alemães que oportunisticamente mudaram
de tom no final da guerra: “Houve uma reversão repentina entre os alemães em
Suíça já em outubro [1918]: quanto mais loucos por Kaiser eles eram antes, mais
eles amontoavam maldições sobre ele depois ... Foi pior do que toda a sua
arrogância anterior. Nunca esquecerei a impressão nojenta que essa psicologia de
multidão causou enquanto eu viver. ”
De maior preocupação foram os eventos na Rússia. Histórias chocantes
estavam chegando à Suíça em 1918, de tiroteios na Rússia, execuções, fome,
toda a intelectualidade sendo morta. Os Rorschachs estavam desesperados para
receber notícias de Anna, ainda em Moscou, e dos parentes de Olga. Anna
voltou para a Suíça em julho, mas demorou mais dois anos para receber notícias
da família de Olga em Kazan, e as notícias não eram boas: o irmão de Olga “mal
sobreviveu” a um surto de tifo, após o qual não houve mais notícias.
A propaganda pró-bolchevique, “desafiando toda a verdade, humanidade e
bom senso”, desgostou Rorschach igualmente na Suíça e na Rússia, e ele
direcionou seus artigos de jornal ocasionais para uma direção mais política, com
artigos criticando a ingenuidade procomunista ocidental. Ele desabafou ainda
mais abertamente em suas cartas: “Você já leu ou ouviu falar do panfleto de
Gorki em que ele condena Tolstoi e Dostoievski por sua mensagem pequeno-
burguesa de que o povo deveria 'apenas sofrer'? Você já viu um pântano tão
fétido! Pelo menos Judas Iscariotes saiu e se enforcou. Eu me pergunto quais
sonhos Gorky tem à noite! ”
Como sempre, ele dirigiu sua atenção mais aguda às questões de percepção:
Estou apenas começando a ver como é possível obter tantos relatos
contraditórios de testemunhas oculares da Rússia ... O principal é que faz uma
grande diferença se um observador está vendo a Rússia pela primeira vez ou se
soube dela nos dias anteriores, e também se ele
conhece alguém que possa descrever a Rússia anterior ou apenas vê a massa
amorfa do povo, que na verdade não é um povo, apenas uma massa ... Quem
chega à Rússia pela primeira vez agora e não sabia disso antes simplesmente não
verá nada.
A ênfase no termo-chave é de Rorschach. Poucos meses depois: “O que você
acha desses partidos comunistas surgindo em todos os lugares? Há algo aqui
para o qual estou cego, ou eles são os cegos? Por mais que tente usar a
psicologia e a história para abordar a questão, não consigo respondê-la. ”
A situação financeira dos Rorschachs também piorou durante a guerra. Eles
continuaram a enviar tudo o que puderam para os parentes na Rússia, incluindo
coisas básicas como sabão; em certa ocasião, o presente que deram a um ente
querido em Herisau foi uma vela. “Pelo menos sempre recebemos carvão
suficiente durante esses anos”, escreveu ele a Paul em 1919, “e este ano não
deveria ser pior. Esperançosamente, quando você visitar, você não terá que
congelar conosco. Em qualquer caso, congelamos mais durante nossos invernos
em Schaffhausen. ”
Como em outras ocasiões, Rorschach tirou o melhor proveito de seus
problemas financeiros. Ele não ligava para roupas ou bebia álcool; seu único
vício eram os cigarros. Sem dinheiro para uma biblioteca pessoal ou apoio de
Koller, ele pegou emprestado a maior parte de seus livros e diários, tomando
suas notas extensas e fazendo seus trechos intermináveis. Ele também
transcreveu móveis: quando tinha de ir a Zurique a negócios, ia à cidade,
passava muito tempo olhando de perto as lojas de móveis e brinquedos, depois
voltava para Herisau e recriava o que tinha visto. “Estou constantemente na
marcenaria, para que pelo menos alguma coisa nova entre na casa”, escreveu ele
a Paul. “Em breve, passarei para coisas de aparência mais impressionante”,
como estantes de livros, mas por enquanto ele estava construindo “um conjunto
completo para o pequeno: uma mesa, três cadeirase uma pia construída, pintada
no estilo de casa de fazenda”.
Pois Rorschach era agora um pai. Sua grande alegria em Herisau foi o
nascimento de seus dois filhos, Elisabeth (Lisa) em 18 de junho de 1917, e
Ulrich Wadim (a grafia alemã de “Vadim”) em 1º de maio de 1919: “um nome
suíço genuíno e um russo genuíno nome ”, disse ele a Paul,“ por várias razões
que você pode facilmente imaginar ”. O menino se chamava Wadim, mas espero
que ele não se torne muito russo: já que seu aniversário, 1º de maio, foi o feriado
da Revolução Russa, Hermann brincou com seu irmão: “Espero que ele não se
torne um bolchevique raivoso, embora tenhamos que perceber que algum dia
nossos filhos pensarão nas lutas mundiais de pontos de vista completamente
diferentes dos nossos ”.
Anna conseguiu sair da Rússia em agosto de 1918 e se casou logo depois;
Hermann veria Paul novamente em 1920, em uma visita do Brasil, onde ele
havia escapado da guerra e se tornado um comerciante de café de sucesso. Paul
também era casado e trouxe sua nova esposa, uma francesa chamada Reine
Simonne, em sua visita a Herisau. Hermann achou profundamente gratificante
ver seus irmãos transando com parceiros que amavam.
Como nos anos de Münsterlingen, Hermann e Lola visitavam Arbon quando
podiam e Schaffhausen quando era preciso. Regineli continuou a morar com sua
mãe em Schaffhausen, mas Hermann a convidou para ir a Herisau para estadias
prolongadas. Mais tarde, ela se lembrou de Hermann lendo muito para ela em
Herisau; foi ao pé do Säntis, em uma viagem com seu irmão, que uma vez ela
ouviu o som de um sino de igreja tocando no ar - sua primeira grande
experiência, ela disse décadas depois, a única vez em sua vida que ela sentiu em
contato com o infinito, o eterno.
O escritório de Rorschach tornou-se a sala de jogos das crianças, quando ele
não estava atendendo pacientes nem escrevendo. Seu primo lembra-se dele como
um “excelente pai” que “ajudou muito na educação dos filhos, quase mais do
que a mãe”. Ele esbanjou em Lisa e Wadim as coisas físicas que raramente se
dava, transformando-as em todos os tipos de brinquedos, quadros e livros
ilustrados; Lisa se lembrou de um pequeno desenho de uma fruta que ela
pensava ser tão real que lambeu até ficar borrada. Para o Natal de um ano, seus
planos incluíam esculpir “4 galinhas, 1 galo, 5 pintos, peru e peru, pavão, 4
gansos, 4 patos, 1
galpão e 2 meninas” para Lisa. Arte não apenas para, mas também para seus
filhos: “Espero enviar alguns desenhos de Lisa”, escreveu ele a Paul. “Estou
produzindo uma biografia inteira dela em fotos!”
-
Mas nem tudo estava bem na família. Os Kollers moravam lá embaixo com
três meninos, e o mais novo, Rudi, apenas quatro anos mais velho que Lisa,
lembrava do casamento dos Rorschach como “muito, muito explosivo”. Sophie
Koller, esposa do diretor e grande amiga de Hermann, ouvia lutas barulhentas no
andar de cima e tinha medo de Olga. Ela achava que Hermann também tinha
medo de Olga. O fato de Hermann ficar acordado para trabalhar, digitando até
tarde da noite, levaria a repetidas discussões: “Lá vai ele fazendo barulho de
novo”, Olga se enfurecia. Regineli testemunhou brigas, lágrimas, acusações,
convulsões - um dia, não muito depois do nascimento de Lisa, ele chegou tarde
em casa e Olga perdeu a paciência. "Foi terrível."
Durante as brigas, Olga era conhecida por jogar pratos, xícaras e cafeteiras, a
ponto de a parede da cozinha dos Rorschach ficar permanentemente manchada
de café.
Essas impressões externas de Olga, por mais negativas que sejam, revelam
mais do que suas próprias reminiscências posteriores, que idealizaram
consistentemente seu casamento. O que outras pessoas lembravam era uma
mulher tempestuosa, impulsiva, voluptuosa e dominadora, e era isso que
Hermann amava nela. Descrições de Olga como uma russa "meio asiática" -
"Arranque um russo e você encontrará um bárbaro", uma frase de efeito comum,
foi aplicada a Olga - apenas mostram que os suíços eram amplamente incapazes
de respeitar o forasteiro com o qual Hermann se casou e amavam. Como um
médico preso em Herisau sem permissão para praticar, ela deve ter se sentido
muito mais isolada do que ele. E apesar de toda a sua suposta teimosia, o par
acabou voltando para a Suíça; seus filhos foram batizados de protestantes, não
de ortodoxos russos como ela desejava.
Se Hermann achou que era um casamento ruim, ele nunca deixou
transparecer. Ele sempre falava bem de Olga com Regineli, por exemplo, e
tentava explicar o comportamento de Olga, assim como fazia com a madrasta.
Ele amava Olga por tirá-lo de sua concha, por “dar-lhe filhos”, pela vida que
sentia ter vivido plenamente por meio dela. A wallflower de Schaffhausen e
planejadora de eventos em Münsterlingen e Herisau quase nunca dançava,
mesmo nas festas em que Olga em seu vestido preto dançava junto com um
paciente após o outro. Depois das brigas, Hermann e Olga caminhavam
ostensivamente de braços dados pelo manicômio.
Suas discussões sobre o horário de trabalho de Hermann também devem ter
tido dois lados. Ele trabalhou muito, o que Olga viu como uma ambição
“ocidental”, anti-social e equivocada; uma das criadas disse mais tarde que
sentiu que Hermann fazia coisas pelas crianças, como brinquedos e presentes
para elas, com mais frequência do que com elas.
Às vezes, Rorschach achava seu emprego no asilo satisfatório. Em um
passeio de barco com a família, depois de alguns anos em Herisau, ele disse que
sentia que significava algo para seus pacientes - ele não era apenas um médico,
mas uma verdadeira ajuda emocional e espiritual para eles, e isso era
gratificante. Ele e Olga deram palestras de slides sobre a Rússia nas noites de
inverno e, junto com outras oportunidades de desenvolvimento pessoal para a
equipe (aulas de costura e bordado para atendentes femininas, marcenaria para
homens), Rorschach foi o pioneiro em cursos de treinamento médico para
pessoal de enfermagem. com
“Lições sobre a natureza e o tratamento das doenças mentais” em 1916.
Nada parecido jamais acontecera em uma clínica suíça.
Ele estava ativo novamente encenando peças, para as quais projetou e
construiu adereços, mais notavelmente cerca de 45 bonecos para uma peça de
sombras de carnaval em fevereiro de 1920. Essas criações caprichosas
- com cerca de dez a vinte centímetros de altura, feitas de papelão cinza com
dobradiças - retratadas os médicos, funcionários e pacientes, incluindo o próprio
Rorschach. Eles fizeram sucesso com todos na platéia, de acordo com o diário de
Rorschach, e mostraram sua capacidade de ver e capturar o movimento: “Ele
podia cortar instantaneamente uma silhueta de papelão e dar-lhe juntas móveis
que permitiam uma reprodução surpreendente do movimento característico da
figura , como o de quem toca violino ”ou tirando o chapéu barroco, lembrou um
amigo. Ainda assim, depois de ter visto o teatro de Moscou e trabalhado com
alguns dos maiores atores do século em Kryukovo, Rorschach sabia muito bem
que as produções do asilo dificilmente correspondiam. Ao contrário de
Münsterlingen, a maioria dos pacientes de Herisau estava incapacitada demais
até para assistir às apresentações, quanto mais para participar. Em uma carta a
um amigo, ele escreveu: “Minha esposa gostaria de ver de novo como é um
teatro de verdade - ela se esqueceu quase totalmente”.
Rorschach tentou colocar uma face positiva em seus deveres de horas extras,
mas ele se ressentia cada vez mais das exigências de seu tempo e da pouca
satisfação artística que proporcionavam. Já emsetembro de um ano, ele
escreveria: “Meu trabalho extra de inverno vai recomeçar em breve: teatro, etc.,
não exatamente divertido. Vou ter que ir até a marcenaria para consertar ”; “Com
o passar dos anos, fica um pouco cansativo.”
Os Rorschachs não podiam tirar férias, por causa de dinheiro e demandas de
trabalho. Só em 1920 ele, Olga e os filhos teriam suas primeiras férias de
verdade em família, em Risch, no lago de Zug. “É muito bom para nós”,
escreveu Hermann: “Desenhei muito durante as férias, então pelo menos Lisa
será capaz de se lembrar melhor da experiência”. Caso contrário, Hermann fazia
caminhadas ao redor do Säntis por alguns dias ou viajava a negócios para dar
palestras em Zurique e em outros lugares. Uma dessas viagens foi fatídica.
-
Em meados de 1917, enquanto visitava a Clínica Universitária em Zurique,
Rorschach conheceu um estudante de medicina polonês de 25 anos chamado
Szymon Hens por cerca de quinze minutos; eles se encontraram brevemente
mais uma vez, mais tarde naquele ano. Eugen Bleuler era o conselheiro de Hens
também, e havia dado a ele trinta tópicos de dissertação para escolher. As
galinhas haviam colhido manchas de tinta.
As galinhas usaram oito manchas pretas grosseiras para medir a imaginação
de seus assuntos - quanto eles tinham ou quão pouco. Embora ele tenha
conectado certas respostas ao histórico do sujeito ou personalidade individual,
ele o fez superficialmente, puramente pelo conteúdo: um cabeleireiro viu " a
cabeça de uma mulher, usando uma peruca " , o filho de um alfaiate de onze
anos viu " um manequim de alfaiate para coletes adequados ” , e isso mostrou
que empregos ou empregos dos pais“ tiveram uma forte influência na
imaginação ”. Na maioria das vezes, Hens apenas contava o número de
respostas, que os próprios sujeitos tinham que escrever (vinte borrões, limite de
tempo de uma hora). Não havia muito mais que ele pudesse fazer, já que estava
testando mil crianças em idade escolar, cem adultos normais e cem pacientes
mentais no Burghölzli - um empreendimento enorme. Mais tarde, Hens disse que
“suas namoradas” o ajudaram a coletar os resultados. Embora sua dissertação
tenha terminado com algumas ideias sugestivas para pesquisas futuras, suas
próprias conclusões foram muito limitadas, por exemplo: “Os doentes mentais
não interpretam as manchas de forma diferente de indivíduos saudáveis de forma
a permitir o diagnóstico (pelo menos neste momento) . ”
Rorschach estava em Herisau havia dois anos, com seus pacientes difíceis de
tratar, lisos como seixos. Seu artigo sobre Johannes Neuwirth, o desertor que ele
havia analisado em 1914, foi publicado em agosto de 1917, com a clara
implicação de que um teste ideal de alguma forma combinaria e substituiria o
teste de associação de palavras, associação livre freudiana e hipnose. A
dissertação de Hens, Um teste de imaginação sobre crianças em idade escolar,
adultos normais e os doentes mentais usando borrões sem forma, foi publicada
em dezembro de 1917, embora Rorschach certamente tenha visto o texto ou
ouvido falar sobre o experimento antes, por meio de Bleuler ou do próprio Hens.
Tudo veio junto.
10 Uma Experiência Muito Simples
Rorschach percebeu o quão mais profundo um experimento de borrão de
tinta poderia ir, mas a primeira coisa que ele precisava eram imagens melhores.
Ele sabia que havia algumas fotos nas quais você podia sentir seu caminho, que
produziam reações psicológicas e até físicas no visualizador, e outras que não.
Ele começou a fazer dezenas, provavelmente centenas, de seus próprios borrões,
testando os bons em todos que conseguia encontrar.
Mesmo os primeiros esforços de Rorschach em Herisau foram mais
realizados do que parecem, com composições relativamente complexas e um
senso de design Art Nouveau. Rascunhos sucessivos então simplificaram e
esclareceram as manchas, ao mesmo tempo que as tornavam cada vez mais
difíceis de definir. As imagens pairavam entre a falta de sentido e o significado,
bem na fronteira entre tudo muito óbvio e não óbvio o suficiente.
A comparação com os borrões de Hens e Kerner torna a qualidade de
Rorschach mais fácil de ver. Tentando interpretar uma das manchas das Galinhas
sente forçado: Bem, você poderia dizer que ele se parece com uma coruja, mas
não realmente ... Hens mesmo escreveu, na primeira página do seu dissertação:
“O
indivíduo normal sabe tão bem quanto o experimentador que o o borrão não
pode ter a pretensão de ser nada além de um borrão, e as respostas solicitadas só
podem depender de vagas analogias e 'interpretações' mais ou menos
imaginativas das imagens ”. Uma mancha de Rorschach, porém, pode realmente
ser dois garçons servindo potes de sopa, com uma gravata borboleta no meio.
Você pode sentir as respostas chegando até você a partir da imagem. Tem algo
aí.
No outro extremo, a clexografia de Justinus Kerner é inequívoca. Ele até
adicionou legendas. Comparados com suas manchas, os de Rorschach são
sugestivos - alguns mais, outros menos - e ricamente abertos à interpretação.
Eles têm relações de primeiro plano / plano de fundo pouco claras, espaços em
branco potencialmente significativos, coerência questionável de modo que um
visualizador tem que integrar a imagem em um todo (ou não); eles podem ser
vistos como humanos ou desumanos, animais ou não animais, esqueléticos ou
não esqueléticos, orgânicos ou inorgânicos. Eles têm um mistério à medida que
se esforçam no limite do inteligível.
Enquanto elaborava os borrões, Rorschach trabalhou para eliminar qualquer
sinal de habilidade e habilidade artística. Os borrões não tinham que parecer
"feitos" de forma alguma; sua impessoalidade era crucial para o modo como
funcionavam. Em seus primeiros rascunhos, ainda era óbvio onde Rorschach
havia usado um pincel, a espessura do pincel e assim por diante, mas logo ele
tinha formas que pareciam ter se feito sozinhas.
Suas imagens eram claramente simétricas, mas detalhadas demais para
serem meras manchas dobradas. As cores aumentaram o mistério: como
entraram em uma mancha de tinta? As imagens de Rorschach pareciam cada vez
mais diferentes de qualquer coisa vista antes, na vida ou na arte. Depois de
“passar muito tempo usando imagens que eram mais complicadas e estruturadas,
mais agradáveis e esteticamente refinadas”, ele escreveu mais tarde, “Eu as
larguei” no interesse de produzir resultados melhores e mais reveladores.
Era especialmente importante que não parecessem um quebra-cabeça, um
teste, porque os pacientes paranóicos de Rorschach tinham reações repentinas a
qualquer indício de segundas intenções. Não poderia haver nomes ou números
em uma imagem, uma vez que os pacientes prestariam muita atenção ao que eles
significariam, ignorando a própria imagem. Os cartões não podiam ter uma
borda, porque na Suíça isso provavelmente faria um esquizofrênico lembrar um
aviso de morte com borda preta. Rorschach sabia de Münsterlingen como
contornar as suspeitas dos pacientes; uma grande vantagem do método da
mancha de tinta, ele percebeu logo no início, era que podia ser “conduzido como
um jogo ou como um experimento, sem afetar os resultados. Freqüentemente,
mesmo esquizofrênicos que não respondem, não dispostos a se submeter a
qualquer outro experimento, realizarão essa tarefa de bom grado ”. Foi divertido!
Rorschach não concebeu originalmente os borrões como um “teste”: ele o
chamou de experimento, uma investigação sem julgamentos e aberta sobre a
maneira de ver das pessoas.
A escolha de tornar as manchas simétricas pode parecer inevitável, mas foi
umadas decisões ou intuições cruciais de Rorschach, com consequências
importantíssimas. As manchas de tinta anteriores em psicologia não precisavam
ser simétricas: as de Alfred Binet eram apenas “manchas de tinta de formato
estranho em uma folha de papel branca”; apenas dois dos quinze borrões de
Whipple eram simétricos, apenas dois dos oito de Rybakov. Mas os borrões de
Rorschach eram, e ele expôs os argumentos para o porquê: “A simetria das
imagens tem a desvantagem de as pessoas verem uma quantidade
desproporcional de borboletas etc., mas as vantagens superam em muito as
desvantagens. A simetria torna a forma mais agradável aos olhos e, portanto,
torna o sujeito mais disposto a realizar a tarefa. A imagem é igualmente
adequada para assuntos destros e canhotos. Também incentiva a visualização de
cenas inteiras. ”
Rorschach poderia ter escolhido usar simetria vertical em uma linha central
horizontal, evocando uma paisagem com horizonte ou uma piscina reflexiva, ou
mesmo simetria em uma diagonal. Em vez disso, ele usou simetria horizontal ou
bilateral. Talvez ele tenha se lembrado de Formas de arte na natureza de
Haeckel que isso é o que parece orgânico e natural, ou lembrado do ensaio de
Vischer sobre empatia que “a simetria horizontal sempre apresenta um efeito
melhor do que a simetria vertical por causa de sua analogia com nosso corpo”.
Seja consciente ou intuitivamente, ele trabalhou com a simetria de tudo o que
mais nos interessa: outras pessoas, seus rostos, nós mesmos. A simetria bilateral
cria imagens às quais reagimos emocionalmente, psicologicamente.
Outra escolha fundamental foi usar vermelho. Como qualquer pintor,
Rorschach sabia que o vermelho e outras cores quentes chegam ao observador
enquanto o azul e as cores frias retrocedem: nas manchas de tinta, o vermelho
confrontaria o candidato de forma mais agressiva do que qualquer outra cor,
exigindo que reagíssemos ou suprimisse uma reação. O vermelho parece mais
brilhante ao olho humano do que outras cores na mesma saturação - o efeito
Helmholtz-Kohlrausch; também parece mais saturado do que outras cores com o
mesmo brilho. Ele interage com a dicotomia claro / escuro melhor do que
qualquer outra cor, parecendo escuro em contraste com o branco e claro em
contraste com o preto. (Os antropólogos descobririam em 1969 que algumas
línguas têm apenas dois termos de cores - para preto e branco - mas que qualquer
língua com um terceiro termo usa vermelho: vermelho é cor como tal.) Manchas
de tinta anteriores em psicologia não tinham usado cor, mas Rorschach usou a
cor com mais cor, assim como a simetria bilateral é o tipo mais significativo de
simetria.
A ruptura mais definitiva de Rorschach com seus predecessores foi parar de
usar manchas de tinta para medir a imaginação. Quando Rorschach leu na
primeira página da dissertação de Hens que ver as coisas em uma mancha de
tinta sem forma "requer o que chamamos de 'imaginação'", que "a mancha não
pode reivindicar ser nada além de uma mancha" sem interpretações "mais ou
menos imaginativas" 'das imagens ”, toda a sua vida o preparou para dizer: Não.
Uma mancha não é apenas uma mancha, pelo menos não se for boa. As
imagens têm um significado real. A própria imagem restringe a forma como
você a vê - como nos trilhos -, mas sem tirar toda a sua liberdade: pessoas
diferentes veem de maneira diferente, e as diferenças são reveladoras. Rorschach
aprendera isso com seus amigos do museu de arte de Zurique, com todos os seus
esforços para interpretar as pessoas como um médico e como um ser humano.
O problema mais óbvio em medir a imaginação de um sujeito contando as
respostas - embora não fosse óbvio para Hens ou para Alfred Binet e seus
sucessores - era que algumas respostas são imaginativas e outras não. Uma
resposta pode ser perceptiva, vendo algo realmente ali na imagem; pode ser
louco, mas não é o mesmo que imaginativo. Os delírios parecem reais para a
pessoa que os possui. Ninguém olhou para uma mancha e tentou ver algo que
não estava lá, Rorschach percebeu; eles tentaram “dar uma resposta que chegue
o mais perto possível da verdade da imagem. Isso vale tanto para a pessoa
imaginativa quanto para qualquer outra pessoa. ” Ele descobriu que não fazia
diferença se ele dizia ou não a um sujeito para “usar sua imaginação”. Um
esquizofrênico originalmente imaginativo "produziria, é claro, delírios
diferentes, mais ricos e mais coloridos do que um paciente originalmente sem
imaginação", mas quando um psicótico tomava seus delírios pela realidade, isso
"provavelmente [não tinha] nada a ver com a função da imaginação. ”
Duas respostas a suas manchas de tinta que Rorschach ouviu logo no início
provaram o ponto. No que seria a Carta VIII do teste final, uma mulher de 36
anos viu “ Um motivo de conto de fadas: um tesouro em dois baús de tesouro
azuis enterrados sob as raízes de uma árvore, com um fogo embaixo, e dois
animais míticos que o guardam. ”Um homem viu“ Dois ursos, e a coisa toda é
redonda, então é o poço dos ursos em Berna.
”
A pessoa imaginativa integrou as formas e cores em uma imagem completa;
sua resposta foi brincalhona, dita com prazer. A segunda resposta, em contraste,
foi o que Rorschach chamou de “confabulação”: agarrar-se a parte da imagem e
ignorar ou desconsiderar o resto. O homem viu a forma redonda como um poço
de urso não porque ursos estivessem dentro dela - as formas de urso estão na
verdade ao redor da borda do cartão - mas porque seus pensamentos ficaram
presos em ursos e tudo agora tinha que ser sobre ursos. Ele não conseguia mais
ver a forma redonda no contexto, ou conectá-la a qualquer outra coisa na
imagem. (Um exemplo mais recente de confabulação é ver o Cartão V como “
Barack Obama com George Bush nas costas
” porque “ É um choque de duas forças, e toda a imagem pode parecer uma
águia, sendo a águia o símbolo do país. "O simbolismo da águia não significa
realmente que partes da águia se parecem com presidentes.) Rorschach
descreveu o tom de uma resposta confabulada como não de jogo criativo, mas de
conquista de um problema, e sua lógica é estranhamente literal, apesar de não
fazer sentido . As associações da mulher aos contos de fadas eram literárias e
criativas, sua resposta imaginativa, mas ao mesmo tempo sua percepção era
muito mais coerente e claramente fundamentada na imagem do que a da
confabuladora.
Em suma, mais uma coisa encontrada em um borrão não deve simplesmente
contar como mais um ponto na pontuação da imaginação de uma pessoa. O que
importava era como as pessoas viam o que viam - como recebiam informações
visuais e como as entendiam, interpretavam e se sentiam a respeito. O que eles
poderiam fazer com isso. Como isso os fez sonhar.
Em sua dissertação, Rorschach se concentrou na mecânica da percepção em
um sentido fisiológico relativamente estreito, explorando cruzamentos entre as
vias de ver ou ouvir e as sensações corporais. Mas a percepção incluiu muito
mais, até a interpretação do que foi percebido. Interpretações de imagens
casuais são um tipo de percepção - os itálicos são de Rorschach.
-
Enquanto estava projetando e criando os borrões de tinta, Rorschach também
teve que descobrir o que ele estava projetando para fazer seu experimento. Ele
queria estudar a percepção no sentido mais amplo, mas o que isso significava
que ele deveria perguntar às pessoas? E o que ele deve prestar atenção nas
respostas?
De acordo com sua ênfase na percepção sobre a imaginação, ele pediu que as
pessoas não o que eles encontraram, ou imaginada, ou poderia ver, mas o que se
vê. Suapergunta era: “O que é isso?” ou “O que pode ser isso?” Com imagens
tão sugestivas como as dele, havia coisas que realmente poderiam ser.
As respostas das pessoas começaram a revelar mais do que Rorschach
pensava ser possível: inteligência superior ou inferior, caráter e personalidade,
distúrbios de pensamento e outros problemas psicológicos. As manchas de tinta
o deixavam distinguir entre certos tipos de doença mental que eram difíceis de
diferenciar de outras maneiras. O que começou como um experimento parecia
ser, na verdade, um teste.
Ele sempre insistia que havia inventado o teste “empiricamente”,
simplesmente tropeçando no fato de que diferentes tipos de pacientes, e não
pacientes com diferentes tipos de personalidade, tendiam a responder de certas
maneiras. É claro que ele não conseguiu descobrir o que um determinado tipo de
resposta significava antes de começar a notá-lo como algo distinto. Assim que
começou, ele deve ter suspeitado de antemão pelo
menos algumas das conexões que iria encontrar. Mas seu talento era
perceber um padrão, depois prestar atenção nele, considerar casos limítrofes,
talvez fazer novas manchas para destacar suas características distintivas e, em
seguida, tentar tudo de novo.
O teste completo ganhou vida em questão de meses. Não restaram notas ou
rascunhos datados, nem cartas de Rorschach para ninguém entre o início de 1917
e o verão de 1918, de modo que nunca se saberá exatamente quais foram os
estágios intermediários. Em sua primeira carta sobrevivente de 1918, em 5 de
agosto, Rorschach disse a um colega que ele tinha "um experimento com
'clexografia' em mãos há muito tempo ...
Bleuler sabe disso." Naquele mesmo mês, ele escreveu o experimento,
descrevendo os dez borrões finais em sua sequência final com o processo de
teste e o esquema básico de interpretação dos resultados no local. Este ensaio,
que ele esperava publicar em um jornal, tinha 26 páginas datilografadas, mais 28
amostras de resultados de testes. Mais tarde, ele expandiria essa estrutura, mas
nunca a mudaria.
Rorschach decidiu que havia quatro aspectos importantes nas respostas das
pessoas. Primeiro, ele anotou o número total de respostas dadas no teste como
um todo e se o sujeito “rejeitou” algum cartão, recusando-se a responder. Essas
foram medidas grosseiras. Ele descobriu que indivíduos normais nunca
rejeitavam cartas -
"No máximo, neuróticos bloqueados por complexos específicos rejeitarão
um." O número de respostas pode implicar uma habilidade básica ou
incapacidade de realizar a tarefa, ou pode sugerir mania (muitas respostas) ou
depressão (poucas), mas revelou pouco sobre como a pessoa estava vendo as
cartas.
Em segundo lugar, Rorschach anotou para cada resposta se ela descreveu a
mancha de tinta inteira ou se concentrou em uma parte. O cartão de chamada V,
um morcego, era uma resposta inteira (W); ver ursos de cada lado da Carta VIII,
ou uma mulher levantando os braços na parte central da Carta I, foi uma
resposta de Detalhe (D). Ver algo em um pequeno detalhe quase nunca percebido
ou interpretado, como dizer que os cantos superiores externos na Carta I eram
maçãs, era diferente: uma resposta de Pequeno Detalhe (Dd). O
caso raro, mas revelador, de interpretar o espaço em branco em um cartão
tem seu próprio código. Rorschach prestou atenção aos ritmos de W, D e Dd
como a abordagem característica do sujeito ou “forma de apreender as coisas”:
se eles tendiam a se mover de todo para parte, de parte para todo, ou se prendiam
em um ou outro.
Terceiro, Rorschach categorizou cada resposta de acordo com a propriedade
formal da imagem em que se baseou. A maioria das respostas, naturalmente,
baseava-se em formas: ver um morcego em uma mancha em forma de morcego,
um urso em uma parte de uma mancha em forma de urso. Ele chamou essas
respostas do formulário (F).
Outras respostas foram sobre a cor: um quadrado azul visto como um
miosótis, uma forma vermelha como um brilho vermelho . Chamar uma área
azul de “ o céu ” seria uma resposta de Cor, mesmo sem dizer explicitamente “ o
céu azul ” , porque tal resposta se baseava na cor do borrão, não na forma. Essas
respostas de cor pura (C), com a forma não desempenhando nenhum papel, eram
raras entre os participantes normais do teste. Ainda mais anormal era separar
completamente a cor da forma, dizendo sobre uma mancha vermelha: “ Isso é
vermelho. ”Mais comuns foram as respostas Color-Form (CF), baseadas
principalmente na cor, mas levando em consideração a forma (uma mancha cinza
como" uma rocha " , mesmo se a forma não fosse especialmente pedregulho, ou
um respingo de vermelho como" sangue ”), Ou respostas Form-Color (FC),
principalmente com base na forma, mas com a cor desempenhando um papel
secundário (“ uma aranha roxa ”ou“ uma bandeira azul ”para uma forma
retangular azul).
As respostas que descreviam formas que se moviam nas cartas, como “ ursos
dançando ” em vez de apenas ursos, ou “ dois elefantes se beijando ” ou “ dois
garçons se curvando um para o outro ” , eram respostas de movimento (M).
Essa era a menos óbvia das categorias de Rorschach - por que deveria fazer
diferença se os ursos estavam dançando ou não? Mas a dissertação de Rorschach
era toda sobre a interação entre ver e sentir o movimento no mundo. Sua
especialidade como artista era perceber e capturar o movimento, desde seus
fantoches de sombra com dobradiças até seus esboços de gestos em arquivos de
pacientes. Na versão de 1918 do teste, Rorschach escreveu que geralmente via as
pessoas se moverem ou começarem a se mover quando davam uma resposta de
Movimento, por exemplo, curvando-se ligeiramente para a frente ao ver os dois
garçons se curvando. Nesse estágio, ele pensava na resposta do Movimento
como essencialmente uma alucinação reflexa.
Quase todas as respostas a uma mancha de tinta eram baseadas na Forma,
Cor e / ou Movimento, embora Rorschach ocasionalmente encontrasse uma
resposta abstrata que não era nenhuma das anteriores, como “
Vejo uma força do mal. ”
Por fim, Rorschach prestou atenção ao conteúdo das respostas - o que as
pessoas viram nos cartões.
“Qualquer coisa que você possa imaginar, é claro”, como Rorschach
colocou, “e, com os esquizofrênicos, muita coisa você não pode”.
Ele ficou tão fascinado e encantado como qualquer outra pessoa pelas
respostas inesperadas, criativas e às vezes bizarras dadas por pacientes e não
participantes do teste. Mas o que ele focalizou principalmente foi se uma
resposta era “boa” ou “ruim” - se poderia ser razoavelmente dito para descrever
a forma real do borrão.
Ele prestou atenção ao que as pessoas viam principalmente como uma forma
de avaliar o quão bem viam.
Uma resposta de formulário seria marcada como F + para um formulário
bem visto, F– para o oposto, F para o inaceitável.
E logo no início, em seu manuscrito de agosto de 1918, isso levantou uma
questão que continuaria a perseguir o Rorschach: quem decide o que é razoável?
“É claro que precisa haver muitos testes de sujeitos normais com vários tipos de
inteligência, a fim de evitar qualquer arbitrariedade pessoal ao julgar se uma
resposta F é boa ou ruim. Terá então que classificar muitas respostas como
objetivamente boas que não subjetivamente chamaria de boas. ” Tendo acabado
de inventar o teste, Rorschach não tinha dados que o permitissem distinguir
objetivamente entre o bem e o mal - nenhum conjunto de normas. Estabelecer
uma linha de base quantitativa para a qual as respostas eram comuns entre os
participantes normais do teste e quais eram incomuns ou únicas seriaum de seus
primeiros objetivos, porque a porcentagem de formulários bem ou mal vistos de
alguém (F +% e F–%) era uma medida crucial de seu funcionamento cognitivo.
Havia apenas algumas categorias de conteúdo que Rorschach considerou
significativas por si só, como ver figuras humanas, animais ou anatomia
(anotadas como H, A, Anat.). Fazia diferença se uma pessoa ficasse presa a um
certo tipo de resposta ou tivesse uma ampla gama. Em geral, porém, o conteúdo
era secundário.
Rorschach prestou atenção principalmente aos aspectos formais das manchas
que produziram a resposta: Detalhe e Todo; Movimento, cor e forma.
O registro escrito do teste de Rorschach de um sujeito, conhecido como
“protocolo”, listava todas as respostas que a pessoa deu e atribuiu a ela códigos.
Como respostas à Carta VIII, por exemplo, “ Dois ursos polares ” seria
codificado como uma resposta bem vista da Forma Animal sobre um Detalhe
comumente interpretado, ou seja, as figuras vermelhas ao lado, com a cor
irrelevante (D F + A). “ As chamas do Purgatório e dois demônios saindo ” seria
uma resposta do Movimento sobre um Detalhe (DM). “ Um tapete
” seria o Todo como uma Forma mal vista, já que a mancha realmente não se
parece com um tapete (WF–). "
A ressurreição dos tumores colossais das veias da cabeça vermelha, marrom
e azul " , uma resposta que Rorschach ouviu de um paciente esquizofrênico
superexcitado de 40 anos em Herisau sofrendo de sérios delírios não
sistemáticos, foi uma resposta de cor inteira (WC), com, desnecessário dizer,
outras questões.
Depois de codificar as respostas, Rorschach calculava algumas pontuações
básicas, como quantos F's, C's e M's havia, a porcentagem de respostas ruins (F–
%), a porcentagem de respostas dos animais (A%). É isso.
Os resultados do teste foram cerca de uma dúzia de letras e números.
Rorschach inventou outros testes visuais em 1917-1918 e os usou para
complementar ou confirmar suas descobertas, mas aos poucos os abandonou por
desnecessários à medida que sua experiência com o teste aumentava.
Cor: um gato com a cor de um sapo - ou sapo em forma de gato - e um galo
/ esquilo, para testar se a forma ou a cor desempenham um papel mais
importante na percepção do sujeito. Os epilépticos, principalmente com
demência, viram sapo e galo, confirmando a ênfase na cor revelada no teste do
borrão.
Movimento: Rorschach copiou, sem machado ou engaste, a imagem de
Ferdinand Hodler de um lenhador, que estava em notas de cinquenta francos
desde 1911 e era universalmente conhecida na Suíça. Ele então o segurou contra
uma janela e traçou a imagem ao contrário. Ele mostrou às pessoas as duas
imagens e perguntou: “O que o homem está fazendo?” e "Qual dos dois você
acha que está desenhado corretamente?" Pessoas que deram muitas respostas de
Movimento não tiveram dificuldade com a primeira pergunta e não conseguiram
responder à segunda, aparentemente capazes de sentir cada imagem igualmente
bem. Aqueles que deram poucas ou nenhuma resposta M responderam a ambas
as perguntas facilmente. A imagem de Hodler mostra um lenhador canhoto,
como a imagem acima à direita, mas pessoas destras normais disseram que
combinava com eles porque se sentiam na ação como uma imagem espelhada de
si mesmos (vice-versa para os canhotos).
Forma: de acordo com Rorschach, um esquizofrênico pode chamar o borrão
da Austrália abaixo de “ África, mas não da forma certa ” , porque o borrão é
preto e os negros vêm da África. Ele também fez uma mancha na Itália que os
esquizofrênicos chamavam de “ Rússia ”
[em alemão, Russl e ] porque era preto-lamparina [ Lampen russ ].
Em seu ensaio de 1918 delineando o teste, Rorschach descreveu resultados
típicos para dezenas de diferentes subvariedades de doenças mentais, sempre
tendo o cuidado de afirmar quando faltava um número suficiente de casos em
Herisau para generalizar com segurança. Ele insistiu que esses perfis típicos,
embora possam parecer arbitrários, surgiram na prática. Um maníaco-depressivo
em fase depressiva, escreveu ele, não dará respostas de movimento ou respostas
de cor, não verá nenhuma figura humana e tenderá a começar com
pequenos detalhes antes de passar para o todo (o reverso do padrão normal),
dando poucas respostas inteiras em geral. Pessoas com depressão esquizofrênica,
por outro lado, rejeitarão mais cartões, darão ocasionalmente respostas de Cor,
muitas vezes darão respostas de Movimento e verão uma porcentagem muito
menor de Animais e significativamente mais formas pobres (F–% = 30–40 )
Porque? Rorschach se recusou a especular, mas apontou que esse diagnóstico
diferencial - ser capaz de dizer a diferença entre depressão maníaco-depressiva e
depressão esquizofrênica, “na maioria dos casos com certeza” - foi um
verdadeiro avanço médico.
Especialmente com descobertas de psicose, os resultados do teste podem ser
convincentes o suficiente para substituir o que ele tinha diante de seus olhos.
Quando alguém sem sintomas psicóticos produzia resultados tipicamente
psicóticos, Rorschach investigava mais a fundo e frequentemente descobria que
eles tinham hereditariedade psicótica, sofriam na família imediata ou haviam
apresentado sintomas recentemente. Às vezes, eles estavam em remissão há
anos. Mesmo se não, ele pode diagnosticar esquizofrenia latente.
Rorschach pensava em geral que as manchas de tinta revelavam qualidade,
não quantidade - o tipo de psicologia que uma pessoa tinha, não o grau em que
essas tendências eram expressas. O teste pode detectar uma disposição
esquizofrênica independentemente de os sintomas serem fortes, fracos ou mesmo
inexistentes. Em pouco tempo, ele estava se debatendo com a questão ética de
como contar a um sujeito que seu teste mostrava esquizofrenia ou psicose latente
- uma doença mental invisível, talvez totalmente insuspeitada. Mas a
recompensa valeu a pena: “Talvez em breve cheguemos ao ponto em que
possamos julgar se a esquizofrenia latente existe ou não em todos os casos.
Pense em quanto do medo da insanidade que amarga a vida das pessoas, seremos
capazes de libertar o mundo se isso acontecer! ”
Em nenhum momento Rorschach tentou usar uma única resposta para impor
um perfil psicológico. Ele descobriu, por exemplo, que certos tipos de respostas
eram dados quase exclusivamente por esquizofrênicos ou por pessoas talentosas
no desenho, mas não foi tentado a concluir que o desenho deve estar relacionado
ou semelhante à doença. “Naturalmente”, escreveu ele, as respostas que parecem
semelhantes “serão qualitativamente muito diferentes” quando vierem de
diferentes tipos de pessoas.
Desde o início, o experimento do borrão de tinta foi multidimensional:
convocou e, portanto, testou muitas habilidades e capacidades diferentes ao
mesmo tempo. Isso significava, de forma tranqüilizadora, que o teste foi
amplamente autocorretivo. Rorschach descobriu que se você retestasse um
esquizofrênico ao longo do tempo, haveria "interpretações muito diferentes das
cartas, mas o F–%, o número de respostas de movimento, forma e cor, W e Dd e
assim por diante, permaneceriam mais ou menos o mesmo - assumindo, é claro,
que a condição do paciente não mudou significativamente. ” Com dez cartões e
espaço para várias respostas em cada cartão, uma ou duas respostas
especialmente criativas ou bizarras dificilmente mudariam o registro geral. Uma
cobra bigoduda dançando balé na lua não significava que você era louco.
As partituras trabalharam juntas para dar uma imagem da psicologia do
sujeito. Muitas respostas incomuns ou bizarras (F–) podem ser um sinal de alta
inteligência e grande criatividade ou podem implicar em defeitos graves e uma
incapacidade dever o que todo mundo vê. Mas o teste como um todo poderia
distinguir entre os dois. O primeiro tipo de pessoa tenderia a ter um grande
número de respostas do Todo, respostas de Movimento e formas bem vistas (W,
M, F +), o segundo tipo de pessoa um número baixo de todos os três.
Da mesma forma, as respostas completas podem ser um bom ou mau sinal.
Rorschach encontrou um
“homem inteligente, altamente educado e de bom humor” que realizou uma
integração criativa de cada mancha de tinta: um protocolo de todas as respostas
completas bem vistas (WF +), doze no total. A Carta II era “ esquilos dançando
no toco de uma árvore ” , a Carta VIII “ um lustre fantástico. "Isso significava
algo muito diferente do protocolo completo de outro participante do teste, um
esquizofrênico desorganizado apático de 25 anos que deu uma resposta por carta,
a maioria delas F– ( Borboleta. Borboleta. Tapete. Tapete animal. Mesma coisa.
Tapete ...).
Essas interações entre diferentes tipos de resposta explicavam porque
administrar o teste não era fácil. Nunca houve um decodificador simples para o
significado de uma determinada resposta. Pior ainda, Rorschach não conseguiu
explicar por que o teste funcionou. Ele derivou suas correlações tão empírica ou
instintivamente quanto fez seus borrões, com base em nenhuma teoria
preexistente do que Movimento e Cor significavam, ou por que prestar atenção a
eles em primeiro lugar. Suas interpretações de qualquer protocolo único eram
holísticas e muitas vezes pareciam idiossincráticas. Tudo isso era a fraqueza ou a
força do teste: o que o tornava subjetivo e arbitrário, ou rico e multifacetado.
Quando Rorschach apresentou uma editora de livros, ele colocou da seguinte
maneira: “Trata-se de um experimento muito simples, que - para não mencionar
por enquanto suas ramificações teóricas - tem uma gama muito ampla de
aplicações. Permite não apenas o diagnóstico individual de perfis de doenças
psicológicas, mas também um diagnóstico diferencial: se alguém é
neurótico, psicótico ou saudável. Com indivíduos saudáveis, ele fornece
informações de longo alcance sobre o caráter e a personalidade da pessoa; com
os doentes mentais, os resultados nos permitem ver seu antigo caráter, que em
sua maioria ainda está por trás de uma psicose. ” Era também um novo tipo de
teste de inteligência, no qual “o nível de educação de alguém, ou memória boa
ou ruim, nunca esconde seu verdadeiro nível de inteligência”. As manchas de
tinta
“permitiam conclusões não sobre a 'inteligência geral' de uma pessoa, mas
sobre os numerosos componentes psicológicos individuais que constituem as
várias inteligências, predisposições e talentos da pessoa.
Principalmente nesse sentido, o avanço teórico não é insignificante ”.
“Acredito poder dizer com segurança que o experimento despertará
interesse”, concluiu ele com um toque de falsa modéstia. “Eu gostaria de
perguntar se você gostaria de publicá-lo.”
11 Provoca interesse e agitação em todos os lugares
No domingo, 26 de outubro de 1919, uma jovem animada chamada Greti
Brauchli veio visitar Hermann, Olga e as crianças em Herisau. Ela era filha de
Ulrich Brauchli, o ex-chefe de Rorschach, e Rorschach havia testado seus
primeiros borrões com ela em Münsterlingen em 1911 e 1912, quando ela era
adolescente.
Agora ela estava na casa dos vinte anos, noiva para se casar, esquerdista
demais para o gosto do pai. O
experimento do borrão de tinta também havia entrado em ação.
Rorschach visitou o Brauchlis em Münsingen no início de outubro e mostrou
a Ulrich o teste. "Ele entendeu!" Rorschach observou com alegria depois: Ulrich
Brauchli foi uma das primeiras pessoas "que realmente entendeu o experimento
e tinha algo a dizer sobre ele". Quando Greti chegou a Herisau, Rorschach estava
se preparando para apresentar sua experiência a um público profissional em uma
palestra para a Associação Suíça de Psiquiatria em Freiburg, Alemanha. Ele
marcou um encontro com Greti no museu em St. Gallen, em 29 de outubro, para
testar os borrões nela. Não era frequente encontrar assuntos tão atenciosos para
seu experimento.
Ele interpretou rapidamente o teste e enviou os resultados pelo correio, e
Greti ficou pasma. “Obrigado pelo seu relatório! Não estou surpreso, mas estou
surpreso de ver como você estava certo sobre tudo, pelo menos até onde eu
posso dizer (todos nós sabemos quantas vezes as autodescrições psicológicas
estão erradas). ”
Ela ficou especialmente impressionada com a descoberta de seus lados "que
muito poucas pessoas sabem -
como você fez isso?" E ela estava cheia de perguntas, sobre seus resultados e
também sobre os mistérios mais profundos: “Você acha que os fatos psicológicos
são dados inalteráveis que as pessoas simplesmente têm que trabalhar com suas
vidas inteiras e aceitar o que são? A pessoa permanece a mesma,
psicologicamente falando, ou é possível mudar e se desenvolver por meio do
autoconhecimento e da vontade? Parece-me que temos que ser capazes, senão a
pessoa é uma coisa morta, um fato fixo, não um ser criador vivo. ”
Rorschach escreveu uma resposta calorosa explicando como ele havia
chegado a suas conclusões. A atenção de Greti aos Pequenos Detalhes revelou a
tendência ao pedantismo que ela costumava manter tão bem escondida; suas
muitas respostas de Movimento mostraram uma rica imaginação que ela não
sabia que tinha; os sentimentos de “vazio e aridez” sobre os quais ela lhe falara
na carta eram provavelmente um efeito colateral de sua supressão da
imaginação, em vez de ser devido à depressão. Ela perguntou qual era a
diferença entre o que ele chamou de "adaptação afetiva fácil" e sua "forte
capacidade empática", e ele explicou que se conformar com as emoções dos
outros não é o mesmo que empatia no sentido forte, a capacidade de entrar e
compartilhar a experiência dos outros: "Aqueles com deficiência intelectual
podem adaptar seus sentimentos aos dos outros também, até mesmo os animais
podem, mas apenas uma pessoa inteligente com uma vida interior própria tem
empatia ... Em certas circunstâncias, pode aumentar quase para um sentimento
de identidade com a pessoa pela qual você tem empatia ou o que quer que esteja
sentindo, por exemplo, com bons atores que aprendem muito com os outros. ”
Como de costume, ele descobriu que a capacidade de se sentir melhor nas
mulheres: “Adaptabilidade emocional mais a capacidade de empatia são
atributos primordialmente femininos. A combinação resulta em uma empatia
carregada de sentimento. ”
Uma combinação ainda mais rica é "se a psique em adaptação também é
capaz de introversão - então será uma caixa de ressonância que ressoará muito
mais fortemente com tudo o que acontece". Greti tinha tudo.
À grande questão de Greti, ele respondeu que os estados psicológicos não
são permanentes. “Provavelmente a única coisa impossível de mudar
trabalhando sobre si mesmo é como a introversão e a extroversão de alguém se
relacionam, embora a relação mude ao longo da vida por causa de uma espécie
de processo de
amadurecimento. Esse processo não termina aos vinte anos, mas continua,
especialmente entre trinta e trinta e cinco anos e novamente por volta dos
cinquenta. ” Isso foi dias antes de seu trigésimo quinto aniversário.
Ele também percebeu que as perguntas de Greti eram mais do que teóricas:
seu noivo precisava de ajuda.
Rorschach o conheceu em Münsingen em 2 de novembro, ao voltar da
conferência, anotando em seu diário:
“ Pastor Burri , o noivo de Greti: modesto, quieto, lento, mas inteligente e
animado apesar de sua lentidão”.
Agora que Rorschach havia dito a Greti que as pessoas podiam mudar, ela
encorajouseu futuro marido a vê-lo para fazer psicanálise. E depois de duas
cartas nervosas, Hans Burri, ou como Rorschach gostava de chamá-lo em
particular, “meu clérigo neurótico compulsivo”, iniciou a terapia.
Rorschach acalmou os temores de Burri de ser “influenciado” ou
“manipulado” na terapia, dizendo que não era assim que funcionava: “Uma
análise nunca deve ser uma manipulação direta e qualquer manipulação indireta
vem da própria alma do paciente. Assim, você não está realmente sendo
influenciado, mas revelando seu destino. ” Preocupado a princípio com o
conflito entre a psicanálise e suas crenças religiosas, Burri começou a sentir que
Rorschach respeitava seus pontos de vista e os de outros também: mesmo
quando discutiam as seitas Binggeli e Unternährer, Burri observou que
Rorschach nunca foi desdenhoso ou sarcástico.
Em seu papel de terapeuta, Rorschach não era ameaçador e simpático. Mas
ele se recusou a discutir muito com Burri por escrito: a terapia real, ao contrário
de compartilhar ideias com Greti, tinha de acontecer pessoalmente. Ele disse a
Burri para começar a escrever seus sonhos, baseando-se nos insights de sua
dissertação para lhe dizer como: “Esta é uma técnica que você pode achar útil
para reter e lembrar seus sonhos: Quando você acordar, fique deitado
completamente imóvel e repasse o sonho em sua mente. Só então escreva
imediatamente. As cinestesias são provavelmente as portadoras de nossos
sonhos, e elas são instantaneamente frustradas por inervações reais assim que
nos movemos fisicamente. ” Os métodos de Rorschach não eram classicamente
freudianos - as sessões às vezes eram cinco vezes por semana, mas nem sempre;
ele frequentemente falava e interrompia, em vez de ficar sentado em silêncio e
impassível; depois de cada sessão, o pastor ficava para um café ou chá e um
bate-papo, acompanhado por Olga, a quem Greti agradecia por correio por sua
hospitalidade. Mas os princípios básicos eram freudianos. A diferença era a nova
ferramenta que Rorschach tinha à sua disposição.
Quando Burri começou a viajar para Herisau para fazer terapia, em janeiro,
Rorschach aplicou-lhe um teste de borrão de tinta. As setenta e uma respostas de
Burri - um número enorme - apontaram os muitos problemas de que ele estava
sofrendo: automonitoramento excessivo, incapacidade de mostrar emoções,
meticulosidade pedante, ninhada constante, fantasias compulsivas, dúvidas
atormentadoras, uma incapacidade resmungona de terminar qualquer coisa, falta
de calor em sua abordagem da vida ... Após cinco meses, Burri fez o teste do
borrão novamente, e os resultados mostraram o quanto ele havia “mudado no
decorrer da análise; seu 'espasmo reflexivo' de monitorar de forma consciente e
compulsiva cada pensamento e experiência desapareceu. ” Burri era mais
adaptável; sua “abordagem emocional e relacionamento eram mais estáveis”; seu
acesso à sua vida interior era “mais livre e poderoso”, com respostas mais
originais e mais do que o dobro de respostas de Movimento do que antes.
Embora o "tipo de inteligência de Burri tenha mudado o mínimo", como
Rorschach lhe assegurou que não mudaria, sua supressão compulsiva de
impulsos internos "mudou completamente".
A pergunta de Greti fora respondida no mundo real - as pessoas podem
mudar, podem curar - e Rorschach encerrou o tratamento, tendo alcançado
resultados quase milagrosos pelos quais Burri e Greti sempre seriam gratos.
Greti escreveu para ele: “Obrigada por tudo. Seu tratamento com ele foi um
sucesso, foi a melhor coisa para ele, e você pode imaginar como isso me deixa
feliz! ” Quatro meses depois, os Burris convidaram os Rorschachs para seu
casamento.
Enquanto Rorschach estava usando as manchas de tinta a serviço da
psicanálise, sua prática terapêutica - e o questionamento inteligente de pessoas
como os Burris - também aprofundou sua compreensão do teste.
“Aprendi muito com você”, escreveu Rorschach a Hans Burri ao
compartilhar os resultados de seu segundo teste. Seu conselho a Burri sobre
como lembrar dos sonhos acabaria entrando em seu livro sobre o experimento
quase palavra por palavra. Isso foi possível porque ele ainda não tinha
conseguido publicá-lo.
-
Em fevereiro de 1920, quando escreveu sua proposta sobre o “experimento
muito simples”, Rorschach estava tentando publicar o teste há um ano e meio.
Este arremesso não foi o seu primeiro, nem seria o último.
Haveria mais um ano e meio de atrasos antes que o teste fosse publicado.
O principal problema eram as imagens. E, como sempre, dinheiro. Seria caro
imprimir as manchas de tinta, especialmente as coloridas. Na primeira submissão
de Rorschach da versão de 1918 a um jornal, ele sugeriu
imprimir apenas uma mancha colorida e várias manchas em preto e branco,
talvez muito reduzidas em tamanho. O editor era um apoiador de longa data e
amigo de Rorschach, mas sugeriu que Rorschach pagasse por ele mesmo; isso
era impossível. Em seguida, deu a Rorschach o nome de uma fundação que
poderia ajudar a financiar a publicação, mas também não deu em nada. Como os
editores continuaram a hesitar, Rorschach sugeriu reduzir o tamanho em até um
sexto, ou imprimir todos os borrões pequenos em uma única folha, ou substituir
as cores por hachuras diferentes, ou mesmo produzir uma versão em que os
compradores colorissem no imagens próprias. “Essas medidas primitivas são
todas!” ele escreveu.
Essa luta cada vez mais frustrante pela publicação atormentou a vida
profissional de Rorschach por três anos.
Também aprofundou e enriqueceu o teste. Enquanto Rorschach enviava carta
após carta, telegrama após telegrama, para seus possíveis editores e colegas mais
bem relacionados - tom profissional, depois suplicante, depois ameaçador,
depois desesperado - sua compreensão das manchas de tinta continuava a
crescer. Ele se tornou mais proficiente no novo método e ganhou uma visão
sobre o que estava por trás dele.
Enfrentando a pressão para alterar o teste de várias maneiras, ele percebeu o
que poderia comprometer e onde deveria estabelecer limites. Em janeiro de
1920, ele estava "feliz por não ter sido impresso em sua forma de 1918 - toda a
obra se tornou uma coisa muito maior hoje, e mesmo que os fatos básicos do
rascunho de 1918 não precisem ser alterados, ainda há muito a acrescentar. A
escassez de papel [durante a guerra] em 1918 e meu desejo de dizer o máximo
possível no menor espaço possível tornaram essa versão pior de várias maneiras.
” Ainda assim, a hora havia chegado. “Já estou trabalhando no experimento há
anos: algo precisa ser publicado já.”
Um efeito dos atrasos foi dar a Rorschach tempo para coletar uma amostra
maior de resultados. No outono de 1919, ele havia testado 150 esquizofrênicos e
100 não pacientes com imagens idênticas - pois, é claro, como ele apontou, os
resultados só podiam ser tabulados quando a mesma série de testes era usada. O
número logo cresceu para 405 casos - uma amostra de bom tamanho que
tornou as descobertas de seu livro mais convincentes e o deixou definir as
respostas “originais” quantitativamente, como aquelas que ocorrem no máximo
uma vez a cada cem testes. Ele estava começando a mudar de um julgamento
subjetivo de boas e más respostas para uma medida mais objetiva de se uma
resposta era comum ou incomum. Como ele disse em um ponto em uma palestra
- provavelmente exagerando um pouco para o efeito, e invocando uma tradição
local de Appenzell para seu público em St. Gallen:
Subjetivamente, sinto sobre a Prancha 1, por exemplo, que a única resposta
boa são Dois passistas de Ano Novo com casacos esvoaçantes, um de cada ladoe no meio um corpo feminino sem cabeça, ou com a cabeça inclinada para a
frente. Mas as respostas mais comuns são: uma borboleta, uma águia, um corvo,
um morcego, um besouro, um caranguejo e uma caixa torácica. Nenhuma dessas
respostas parece bem vista para mim, subjetivamente, mas como pessoas
normais inteligentes as deram muitas vezes, tenho que contá-las como respostas
boas e normais - todas exceto o caranguejo.
Também em 1919, Rorschach começou a verificar a precisão dos resultados
do teste da única maneira que podia: fazendo diagnósticos cegos. Na verdade,
ele é creditado por ter cunhado o termo diagnóstico cego para avaliação de teste
na ausência de contato pessoal. Rorschach encontrou pessoas que podiam
administrar testes de borrão de tinta, enviar-lhe os protocolos para pontuar e
interpretar sem saber mais nada sobre o assunto, e então dizer se suas
interpretações estavam certas ou erradas, começando com seu amigo mais
próximo, Emil Oberholzer, um ex-assistente de Bleuler, que havia trabalhado em
consultório particular em Zurique. Ele mencionou em sua proposta de livro de
1920 que “os experimentos de controle foram os seguintes: eu diagnostiquei
pessoas inteiramente desconhecidas para mim - saudáveis, neuróticas e
psicóticas
- com base unicamente em protocolos de teste. A taxa de erro foi inferior a
25 por cento e, de longe, a maioria desses erros teria sido evitada se eu soubesse,
por exemplo, o sexo e a idade do sujeito, que intencionalmente decidi não ser
informado ”.
Rorschach sempre foi um pouco ambivalente sobre diagnósticos cegos. Ele
os via como úteis apenas para experimentos de controle e treinamento de
examinadores e, embora considerasse publicar vários deles, também se
preocupava com o fato de "parecerem tanto com um truque de prestidigitação de
mágico ou algo assim". Ao mesmo tempo, essa era a única maneira de expandir
significativamente sua gama de cobaias, além dos esquizofrênicos em seu asilo.
“Onde em Herisau devo conseguir o material de que preciso”, lamentava ele a
certa altura, “os grandes artistas, os virtuoses, os tipos altamente produtivos, etc.,
sem falar nos indivíduos equilibrados? !!? Em Herisau! ”
Esses diagnósticos cegos fizeram mais do que qualquer outra coisa para
conquistar seus colegas, incluindo Eugen Bleuler. A palestra de Rorschach na
conferência da Associação Suíça de Psiquiatria em novembro de 1919 foi dada a
um público esparso e cético. Vários psiquiatras lá o acusaram de ser "muito
esquemático", embora ele tenha notado em seu diário que, quando conseguiu
explicar o teste pessoalmente, eles mudaram
de idéia. Destemido, o homem que certa vez escrevera para Haeckel pedindo
conselhos sobre carreira e Tolstoi para um discurso entregou seus borrões ao
principal psiquiatra da Europa e lhe ensinou como usá-los.
Bleuler já estava intrigado: ele sabia sobre as manchas de tinta de Rorschach
desde pelo menos 1918 e, na viagem de trem de volta da conferência de 1919,
disse a Rorschach que “as galinhas realmente deveriam ter explorado essas
coisas também, mas ele ficou preso à imaginação”. Quinze anos depois de testar
Freud em todos no Burghölzli, Bleuler começou a fazer testes de borrão a torto e
a direito, enviou a Rorschach dezenas de protocolos para diagnóstico cego e
ficou maravilhado com as interpretações de Rorschach. Entre esses protocolos
estavam testes de todos os seus filhos em junho de 1921 - um deles, o futuro
psiquiatra Manfred Bleuler, publicaria um ensaio em 1929 investigando se os
irmãos produzem resultados mais semelhantes entre si do que os não-irmãos
(eles fazem). Como Rorschach escreveu a um colega: “Você pode facilmente
imaginar como estou ansioso para ouvir seu relatório sobre o resultado dos
diagnósticos cegos”, e o cartão-postal de Bleuler dez dias depois não poderia ter
sido mais encorajador: o experimento foi um sucesso.
“Surpreendentemente positivo com relação aos diagnósticos, e as
observações e conceitos psicológicos talvez sejam ainda mais valiosos”,
escreveu Bleuler. “As interpretações manteriam seu valor mesmo se os
diagnósticos estivessem ausentes ou errados”. O mentor de Rorschach
“confirmou seus resultados em todos os pontos essenciais”.
Os diagnósticos cegos eram quase tudo que Rorschach tinha que trabalhar,
exceto seus pacientes de asilo porque, embora ele estivesse ansioso para entrar
em prática privada, ele estava nervoso sobre fazer a mudança com uma família
crescente para sustentar. Ele deu dicas para seu irmão no Brasil sobre “um certo
plano, mas é tão arriscado, e infelizmente ainda tão presunçoso, que não tenho
como revelá-lo ainda”. Em 1919, após suas duas grandes palestras sobre seitas,
ele escreveu a um colega que “a história da 'klexografia'
teve novos desenvolvimentos” e “Recentemente, dei duas palestras em
Zurique sobre meus sectários. Todas as coisas escuras, você vê! Manchas negras
e almas negras. Mas o que está começando a parecer o mais sombrio de tudo,
apesar de tudo, é a vida sob o jugo da clínica. Talvez eu jogue fora também
algum dia. ”
Alguns meses depois, ele escreveu em seu diário: “08/11. Trinta e cinco
anos. Esperançosamente, meu último na clínica. ”
Como psicanalista em tempo integral, ele poderia ganhar mais dinheiro e ter
mais tempo livre, além do que ele via como recompensas intrínsecas. “Uma
análise que vai bem é algo tão estimulante, interessante e vivo que é difícil
pensar em um prazer intelectual e espiritual maior”, mesmo que “aquele que vai
mal seja comparável apenas aos tormentos do inferno”. Mas ele também queria
ver uma variedade maior de pacientes
"para o bem dos experimentos com manchas de tinta".
-
Enquanto ele lentamente ganhava acesso a mais assuntos, Rorschach ficou
fascinado por como as manchas de tinta pareciam não apenas diagnosticar
doenças, mas revelar a personalidade. Em seu manuscrito de 1918, apenas um
dos vinte e oito protocolos que Rorschach apresentou era de um não paciente;
em seu livro final, treze dos vinte e oito casos seriam de sujeitos normais.
Questões de introversão e extroversão, empatia e apego estavam cada vez mais
se destacando, como mostram suas cartas a Greti. As chaves para a
personalidade, Rorschach decidiu, eram Movimento e Cor.
Em fevereiro de 1919, ele havia vinculado as respostas do Movimento ao
âmago do self: quanto mais M's, maior a "vida interior psíquica" da pessoa. O
número de M's era proporcional à "energia introvertida, tendência a meditar e -
veja com cautela - inteligência" da pessoa.
Pessoas que deram mais M's não se moveram literalmente com mais rapidez
e facilidade; pelo contrário, eles internalizaram o movimento, eles se moveram
por dentro, ou lentamente, muitas vezes sendo desajeitados ou desajeitados na
prática. Rorschach disse que o máximo de M's que recebeu em um teste de
borrão foi de uma catatônica “completamente mergulhada em seu nirvana de
introversão. Ele passou o dia todo com a cabeça baixa sobre a mesa, dia após
dia, sem se mover o dia todo; nos mais de três anos que o conheço, ele teve um
total de dois dias responsivos, caso contrário, ele não falou uma palavra, ano
após ano. Para ele, todas as manchas estavam cheias de movimento. ” Em sua
dissertação, Rorschach descreveu o sentimento de movimento a partir de
sensações visuais como uma habilidade humana natural, embora reconhecendo
que variava em pessoas diferentes. Agora ele havia descoberto que essas
diferenças eram mensuráveis e significativas.
À medida que as respostas de movimento se tornavam mais cruciais,
Rorschach percebeu que codificá-las era "o problema mais complicado de todo o
experimento". Adificuldade era que “ um pássaro em vôo ” ou “
um vulcão em erupção ” não eram verdadeiras respostas de movimento,
porque um pássaro é naturalmente descrito como estando em vôo, um vulcão
como em erupção. Estas foram apenas frases de efeito, “enfeites
retóricos” ou associações, ao invés de qualquer coisa realmente sentida. E
assim como “ céu ” poderia ser uma resposta de cor mesmo sem mencionar
“azul”, uma resposta poderia ser codificada M mesmo se não mencionasse
movimento, contanto que Rorschach pensasse que a resposta envolvia sentir um
movimento.
Um exemplo que ele deu mais tarde foi que, “com base na minha
experiência”, ver o Cartão I como “ Dois passadores de Ano Novo com
vassouras debaixo do braço ” é uma resposta do Movimento. A forma não se
parece muito com essas figuras, disse Rorschach, então uma pessoa daria essa
resposta "apenas se ela se sentisse na forma, o que sempre ocorre com uma
sensação de movimento".
O que tornou algo uma resposta M foi a identificação empática, sentimento:
“A questão é sempre: o sujeito está realmente tendo empatia com o movimento?
“Mas para responder a essa pergunta, o examinador tinha que contornar as
palavras do sujeito e o que ele estava sentindo por dentro. A ideia inicial de
Rorschach, de que quando uma pessoa dava uma resposta de movimento, você
podia vê-la se mover, era, ele percebeu, muito simplista. Um colega que
trabalhou com Rorschach certa vez descreveu passar horas debatendo com ele se
uma única resposta a um único cartão deveria ser codificada como M.
Rorschach também começou a dar às respostas de cores um significado
psicológico mais profundo. Ele havia mencionado em seu manuscrito de 1918
que mais M's normalmente correspondiam a menos C's e vice-versa, mas sua
principal distinção era entre as respostas do Movimento e da Forma estática.
Nesse ponto, ele tinha muito pouco a dizer sobre as respostas de cores, exceto
em suas listas de resultados de testes típicos para diferentes variedades de
doenças mentais. Nenhum de seus trabalhos anteriores prestou muita atenção às
cores, de qualquer tipo. Agora ele percebeu que as relações entre Forma,
Movimento e Cor eram muito mais complexas.
As respostas das cores pareciam estar ligadas à emoção ou sentimento.
Rorschach usou a palavra afeto para significar reações emocionais, sejam
sentimentos ou expressões de sentimento. A “afetividade” de uma pessoa era seu
modo de sentir, como ela era “afetada” pelas coisas. Rorschach descobriu que
indivíduos com um “afeto estável” - uma reação calma e uniforme, ou
insensibilidade, ou em casos patológicos, depressão -
consistentemente deram poucas ou nenhuma resposta de cor. Indivíduos com
um afeto “lábil” ou volátil -
reações fortes, até mesmo histéricas ou hipersensibilidade, possivelmente
mania ou demência - deram muitas respostas de Cor.
Mais uma vez, Rorschach falhou em fundamentar esse insight em qualquer
teoria, além da sabedoria popular quase universal de que reagimos
emocionalmente à cor. Ele afirmou apenas que havia notado a correlação na
prática. Ele também encontrou surpreendentemente muitos participantes do teste
que ficaram surpresos ou enervados com a cor das manchas de tinta,
especialmente em uma mancha colorida após uma série de manchas em preto e
branco. Essas pessoas hesitavam, “em uma espécie de estupor”, às vezes
incapazes de dar qualquer resposta. Rorschach chamou isso de “choque de cor” e
afirmou que era um sinal de neurose: uma tendência de reprimir a estimulação
que, de outra forma, seria demais.
A maioria das pessoas ainda dava principalmente respostas de Forma -
descrever a forma da mancha de tinta era a resposta padrão, não especialmente
diagnóstica ou reveladora. Mas essas respostas também interagiram com os
outros tipos de resposta. Afinal, todas as respostas M eram formas em
movimento. Rorschach também descobriu que mais respostas C foram com uma
percepção pior de F (mais F–, menos F +), e vice-versa. Isso fazia sentido para
ele: quanto mais as emoções de uma pessoa interferiam, menos ela era capaz de
ver racionalmente o que realmente estava ali. “A cor”, observou ele
incisivamente em seu diário, “é inimiga da forma”. Apenas “um único grupo de
normais combina uma boa visualização da forma com emoções instáveis”, ele
descobriu: “neuróticos e artistas”.
As pessoas geralmente integram suas reações emocionais mais ou menos
bem em suas vidas conscientes, é claro, e o teste rendeu informações sobre isso
também, por meio da diferença entre as respostas C, FC e FC.
As raras respostas C puro eram sinais de afeto fora de controle, afirmava
Rorschach, e tendiam a ser dadas apenas por doentes mentais “ou notoriamente
esquentados e hiperagressivos, 'normais' irresponsáveis. ”CF, com o C superando
o F, significava a mesma coisa em um grau menor:“ instabilidade emocional,
irritabilidade, sensibilidade e sugestionabilidade ”. As respostas do FC -
baseadas principalmente na forma, mas incorporando a cor, como “ uma aranha
roxa ” ou “ uma bandeira azul ” - foram um tipo de reação intelectual e
emocional combinada. Uma resposta do FC reagiu à cor, mas manteve o
controle.
As respostas de cores das pessoas normais eram principalmente FCs com
formas bem visíveis. Uma forma mal vista em uma resposta de FC, por outro
lado, indicou que a pessoa pode querer se conectar emocionalmente, mas ser
intelectualmente incapaz de: “Quando uma pessoa normal quer me dar um
presente, ela procura algo que eu gostaria; quando um maníaco dá um presente,
ele dá algo de que gosta.
Quando uma pessoa normal diz algo, ela tenta ajustar ao nosso interesse; um
maníaco graciosamente diz
coisas que só interessam a ele. Essas duas pessoas maníacas parecem
egocêntricas porque seu desejo de harmonia emocional é frustrado por uma
capacidade cognitiva inadequada. ”
No final de 1919, Rorschach reuniu Movimento, Cor e Forma em um único
sistema psicológico. Se as respostas de cor indicavam instabilidade emocional,
então as respostas de movimento eram sinais de estabilidade: fundamentação
pensativa e reflexiva. E se M significa introversão, C significa extroversão.
Uma pessoa reagiria, ou reagiria de forma exagerada, ao mundo exterior -
como evidenciado por uma resposta de cor - se o mundo exterior fosse o que
importava para ela.
Havia, portanto, tipos predominantes de movimento, com "inteligência
individualizada, maior capacidade criativa, mais vida interior, estabilidade
emocional, pior adaptação à realidade, movimentos medidos, estranheza física e
falta de jeito", e tipos predominantes de cor, com "inteligência estereotipada,
maior capacidade de copiar, vida mais voltada para o exterior, instabilidade
emocional, melhor adaptação à realidade, movimentos inquietos, habilidade e
agilidade. ” Basicamente, introvertidos e extrovertidos. Mas uma pessoa que dá
quase todas as respostas da Forma, com incomumente poucos M ou C, não tinha
nenhum conjunto de habilidades: essa seria uma personalidade limitada, pedante
e possivelmente obsessiva. Muitos M's e C's significavam uma personalidade
expansiva e equilibrada que Rorschach chamou de "ambiequal".
Rorschach agora tinha uma fórmula: a proporção entre M e C era o “tipo de
experiência” de uma pessoa - a maneira geral com que ela vivencia o mundo.
Fazer o teste de bom ou mau humor pode alterar o número de respostas M e C,
mas não a proporção entre elas, o que "expressa diretamente a mistura de
tendências introvertidas e extrovertidas unidas em uma determinada pessoa".
Essa proporção era emgrande parte fixa, embora mudasse naturalmente ao longo
da vida, como Rorschach dissera a Greti. Na medida em que as manchas de tinta
estavam sendo usadas para testar a personalidade, não para diagnosticar doenças
mentais, o Tipo de Experiência tornou-se o resultado mais importante do teste.
Mesmo assim, Rorschach não estava tentando classificar as pessoas. Jung
tinha discutido anteriormente introversão e extroversão, mas Rorschach
modificado a terminologia de Jung para enfatizar diferentes capacidades da
psique, não diferentes tipos de pessoa: ele escreveu sobre “introdução versivas ”
e “Extra tensiva ” tendências, não introvertido ed ou extrovertido ed
personalidades. A pessoa do tipo Movimento não era necessariamente
introvertida, mas tinha a capacidade de ser introvertida; o tipo Cor tinha “o
desejo de viver no mundo fora de si mesmo”, quer ele agisse com base nesse
desejo ou não. Essas habilidades não se anulavam - quase todos podiam se voltar
tanto para dentro quanto para fora, embora a maioria das pessoas tendesse a usar
uma ou outra abordagem na maioria das situações. Rorschach repetidamente
insistiu que a linha média de seus vários gráficos, separando mais M de mais C,
"não representa uma fronteira nítida entre dois tipos inteiramente diferentes: é,
ao contrário, uma questão de mais ou menos ... Psicologicamente, os tipos não
podem ser dito ser contrastante, não mais do que se pode falar de movimento e
cor como opostos. ”
Ainda assim, o tipo de experiência revelou “não como a pessoa vive ou o
que ela está se esforçando para ...
não o que ela experimenta, mas como ela experimenta”.
Rorschach pode não ter se lembrado conscientemente de sua carta da
juventude a Tolstói, mas ele realizou seu sonho. “A capacidade de ver e moldar o
mundo, como os povos mediterrâneos; pensar o mundo, como os alemães; sentir
o mundo, como os eslavos - esses poderes algum dia serão reunidos? ” As
respostas de movimento foram como infundimos vida nas manchas de tinta
(vendo nelas o que colocamos); As respostas do formulário são como pensamos
as manchas de tinta (processamos intelectualmente); As respostas de cor foram
como sentimos as manchas de tinta (reagimos a elas emocionalmente).
Rorschach havia encontrado uma maneira de reunir esses poderes em dez cartas.
Embora admitisse que "é sempre ousado tirar conclusões sobre a maneira
como uma pessoa experimenta a vida a partir dos resultados de um
experimento", ele estava ganhando confiança e ambição e, à medida que os
atrasos na publicação se arrastavam entre 1919 e 1920, ele se deixou ser cada
vez mais ousado. Ele generalizou que “os introvertidos são cultos ; extratensivos
são civilizados. Ele chamou toda a sua era de extrovertida (científica e
empirista), mas sentiu que o pêndulo estava voltando para os “antigos caminhos
gnósticos da introversão”, rejeitando o “raciocínio disciplinado” para a
antroposofia e o misticismo. Os bestiários medievais que ele lia em seu tempo
livre pareciam-lhe "belos exemplos de pensamento introvertido, sem se importar
com a realidade - mas a maneira como as pessoas falavam sobre os animais
naquela época, falam sobre política hoje!"
Ele brincou que "se você conhece o tipo de experiência de uma pessoa
educada, pode adivinhar com alguma certeza seu filósofo favorito: introversos
extremos juram por Schopenhauer, ambiequals expansivos de Nietzsche,
indivíduos limitados por Kant e extratensivos por alguma autoridade da moda,
ou a Ciência Cristã e tais coisas." Ele conjeturou que as sensações de movimento
estavam ligadas às primeiras lembranças da
infância, incluindo as dele. Ele vinculou diferentes tipos de experiência a
psicoses particulares, alegando que psicóticos introvertidos alucinam sensações
corporais ou vozes de dentro, enquanto os extrovertidos ouvem vozes de fora.
Depois que um missionário da Costa do Ouro da África deu uma palestra e uma
apresentação de slides em Herisau, os Rorschachs o convidaram, e Hermann
sugeriu que os borrões pudessem ser usados para investigar "a psicologia dos
primitivos". Ele refletiu sobre a filosofia da cor, afirmando que o azul era “a cor
favorita daqueles que controlam suas paixões” (sua cor favorita é o azul de
genciana). E ele se aventurou a analisar as artes visuais.
Rorschach tinha se tornado amigo do primo de Oberholzer, Emil Lüthy, um
psiquiatra formado como artista que visitava regularmente Herisau de Basel nos
fins de semana e logo se tornou o homem em que Rorschach mais confiava sobre
questões artísticas. Antes de deixar a medicina e retornar definitivamente à arte
em 1927, Lüthy aplicou o teste do borrão em mais de cinquenta artistas e
enviaria a Rorschach alguns dos protocolos mais interessantes que ele já
receberia. Juntos, eles produziram uma tabela de várias escolas artísticas e os
tipos de experiência que eles representavam - com Rorschach adicionando sua
advertência típica: “Na verdade, cada artista representa uma individualidade
própria”. Rorschach e Lüthy mais tarde se corresponderiam sobre o
desenvolvimento de um teste diagnóstico baseado puramente na cor.
-
Enquanto Rorschach se aprofundava no significado das manchas de tinta,
começava a se espalhar a palavra sobre suas descobertas. Rorschach não era
professor, mas estudantes, geralmente Bleuler, vinham para Herisau como
voluntários não remunerados, atraídos mais pela possibilidade de trabalhar com
o Dr.
Rorschach do que pelo asilo de Koller. Considerando todas as coisas, eles
deram a Rorschach menos ajuda e apoio do que ele era obrigado a dar a eles.
Mas seus interesses e atividades começaram a influenciar sua forma e
apresentação do teste.
Hans Behn-Eschenburg começou como médico assistente voluntário em
agosto de 1919. Rorschach apresentou a Behn tanto as idéias de Freud quanto as
suas: “Quem quisesse trabalhar com Rorschach em seu experimento de percepto-
diagnóstico tinha primeiro de submeter sua própria pessoa ao 'procedimento, '”A
esposa de Behn-Eschenburg relembrou. “Rorschach elaborou um psicograma
que ele iria mostrar a você e discutir com você com muita franqueza. Só depois
que isso fosse feito, ele o iniciaria no trabalho com o experimento dele. ” Behn
então começou a usar os borrões para sua própria dissertação.
Behn aplicou o teste de Rorschach a centenas de crianças e adolescentes,
produzindo resultados preliminares fascinantes quando analisados por idade e
sexo. “O décimo quarto ano é um período notável de crise”, escreveu Rorschach
em uma síntese das descobertas de Behn. A personalidade dos adolescentes
torna-se mais extremada, as meninas geralmente mais extrovertidas e os meninos
mais introversão; então, no ano seguinte, suas personalidades se contraem
dramaticamente, meninos mais do que meninas, e eles se tornam neuróticos,
"preguiçosos demais para ser depressão e ansiosos demais para ser preguiça de
verdade". Ainda assim, ele concluiu: “Mesmo quando esses resultados são
derivados de 250 testes, as diferenças individuais são tão grandes, mesmo nessa
idade, que é necessário haver muito mais material antes que tais conclusões
possam ser tomadas como fatos.”
Os atrasos na publicação de Rorschach e as perguntas mais simples que
Behn estava tentando responder significavam que a dissertação de Behn seria o
primeiro relato publicado da descoberta de Rorschach, e Rorschach estava
preocupado que fosse inatacável e causasse uma boa impressão. Quando Behn
não se mostrou à altura da tarefa, Rorschach escreveu ele mesmo seções inteiras
da dissertação. Apesar da frustração e perda de tempo envolvida, o trabalho de
Rorschachcom Behn exigiu declarações mais fortes sobre o valor científico e
humano de sua realização do que ele ofereceria em outro lugar. Ele escreveu
uma longa carta falando sobre como Behn deveria discutir o experimento do
borrão de tinta: O experimento é muito simples, tão simples que a princípio
provoca balançar a cabeça em todos os lugares - interesse e balançar a cabeça,
como você mesmo já viu várias vezes. Sua simplicidade contrasta com as
perspectivas incrivelmente ricas que abre. Esse é outro motivo para balançar a
cabeça, e você nunca pode interpretar mal o balançar de cabeça de outra pessoa.
Portanto, sua dissertação deve ser muito mais completa, precisa, definitiva e
clara do que algo sobre outro tópico que não corre esses riscos ... Sinto-me na
obrigação de apelar para seus sentimentos e espero que leve a sério aquele de as
melhores coisas que uma pessoa pode possuir é a consciência de ter dado ao
arsenal científico algo realmente novo.
Por meio desse desvio, Rorschach revelou como se sentia em relação ao seu
próprio trabalho.
Uma pressão diferente vinha de Georg Roemer, que conheceu Rorschach em
dezembro de 1918 como voluntário no hospital regional de Herisau e foi o
primeiro assistente voluntário em Krombach, de fevereiro a maio de 1919.
Roemer trabalhou no sistema escolar na Alemanha e pressionava pela adoção do
teste como
forma de medir a aptidão acadêmica. Rorschach reconheceu que isso
significaria um triunfo intelectual significativo e, possivelmente, recompensas
financeiras reais, mas sua reação foi cautelosa: Eu também acho que o
experimento pode ser muito bem-sucedido como um teste de aptidão. Mas
quando imagino algum jovem, que talvez tenha sonhado em ir para a
universidade desde muito cedo, ser impedido de fazê-lo por ter sido reprovado
no experimento, naturalmente me sinto um pouco como se não pudesse respirar.
Portanto, devo dizer: o experimento pode ser adequado para esse tipo de teste.
Mas para decidir se é ou não, primeiro teria que ser investigado minuciosamente
por acadêmicos usando uma amostra muito grande, sistematicamente,
estatisticamente, seguindo todas as regras de variância e fatorando em
correlações. Acho que quando isso acontecer, provavelmente será possível fazer
um teste de aptidão diferenciado. Não: médico ou não, advogado ou não, etc.,
mas sim, se alguém decidir ser médico, deve ingressar em medicina teórica ou
prática, se advogado, deve ser advogado comercial ou advogado de defesa, etc.
etc….
Além disso, o experimento certamente precisaria ser combinado com outros
testes….
Acima de tudo, a base teórica da experiência teria que ser estabelecida muito
mais profundamente, porque é errado tomar medidas tão decisivas com base em
um teste sem um fundamento teórico extremamente sólido.
Além disso, a dissertação do Dr. Behn mostra que não se deve aplicar este
teste muito cedo - meninos de quinze a dezesseis anos, por exemplo, têm
resultados visivelmente ruins ... e outros estudos de dezessete a vinte anos, talvez
indivíduos mais velhos também são necessários para determinar quando seus
resultados se estabilizam em um nível adulto ... Tudo isso requer um trabalho
extensivo.
Com Roemer se esforçando - até mesmo fazendo sua própria série de
borrões em segredo - Rorschach aqui insistiu na devida diligência e, no processo,
antecipou a maioria das objeções que seu teste enfrentaria no século seguinte.
Ele reconheceria em outro lugar que “o sujeito sendo pego de surpresa no
experimento é a base para objeções sérias”, especialmente se o teste tivesse
consequências reais: isso seria como enganar as pessoas para testemunharem
contra si mesmas. Ainda assim, ele esperava que o teste fosse usado para as
forças do bem: “Que o teste descubra mais talentos latentes verdadeiros do que
carreiras e ilusões mal orientadas; pode libertar mais pessoas do medo da psicose
do que sobrecarrega com tais medos; que isso dê mais facilidade do que
sofrimento! ”
Roemer inundou Rorschach com cartas durante anos, gerando longas
respostas sobre a teoria por trás do experimento da mancha de tinta e sua relação
com Jung, Freud e Bleuler e vários outros pensadores.
Rorschach desenvolveu ideias novas e outras que manteve fora de seu livro
por uma questão de simplicidade ou porque não foram totalmente elaboradas;
Roemer mais tarde reivindicaria o crédito por eles. Muitas das madrugadas de
Hermann datilografando, a causa de suas brigas com Olga, foram gastas
escrevendo suas longas respostas às perguntas de Roemer. Mas Rorschach o
encorajou: “Acho suas perguntas extremamente interessantes, por favor,
continue enviando.”
O colega mais jovem de quem ele se aproximou era de fora de sua área.
Martha Schwarz foi médica voluntária em Herisau por sete meses. Sua
dissertação tinha se especializado em cremação - muito longe da psiquiatria -
mas ela era uma pessoa culta, tendo hesitado muito entre a medicina e a
literatura. Rorschach reconheceu seus amplos interesses e não apenas deu dicas
sobre como se ajustar a Herisau, mas logo começou a dar-lhe trabalho
psiquiátrico; ele a testou com as manchas de tinta, e em pouco tempo ela estava
administrando testes para ele. Ele chamou um deles de “uma das descobertas
mais interessantes que já tive”
e parece tê-lo usado como Caso 1 em seu livro. Ela também fez exames
físicos minuciosos dos pacientes, algo geralmente negligenciado na época, e
disse a Rorschach: “Sabe, um médico tem uma relação completamente diferente
com os pacientes se ele conhece o corpo do paciente”.
Outro aluno, Albert Furrer, que aprendeu o teste com Rorschach na
primavera de 1921, começou a testar atiradores de elite do exército. Rorschach
percebeu o humor da situação: “Alguém que conheço está fazendo o
experimento no quartel aqui em Herisau, testando atiradores muito bons e muito
ruins !!! Vivemos em uma época de fome de teste! ” Mas fazia sentido dar aos
atiradores de elite um teste de percepção - como eles veem os detalhes, como
examinam um campo visual ambíguo, o grau em que impõem uma interpretação
sobre o que percebem. Um atirador de elite precisava da capacidade de controlar
seu afeto - suprimir qualquer reação física a sentimentos ou emoções - e quando
Furrer testou Konrad Stäheli, um atirador campeão mundial (quarenta e quatro
medalhas individuais e sessenta e nove no total de medalhas em campeonatos
mundiais, incluindo três ouro e um bronze nas Olimpíadas de 1900), seus
resultados mostraram esse controle em um grau verdadeiramente dramático.
Houve outras descobertas também: a revisão de Rorschach dos resultados dos
soldados o fez perceber "o quão fortemente o serviço militar muda o tipo de
experiência de uma pessoa, suprimindo o M e promovendo o C", o que
"despertou algumas dúvidas sobre minha visão de que o tipo de experiência é
relativamente constante." Ainda assim, Rorschach suspirou: "O
fato de que os talentos foram as primeiras coisas a serem testadas, nada
menos que a pontaria, realmente é um tanto cômico."
Nenhum desses desdobramentos importaria tanto se ele pudesse finalmente
publicar o teste. Mas mesmo com os editores hesitando, Rorschach estava
começando a apreciar o valor único de seu próprio conjunto de imagens e
percebendo que precisava insistir para que fossem publicadas, em cores e na
íntegra. “O objetivo não é ilustrar o livro, mas permitir que qualquer pessoa
interessada no trabalho faça experimentos com essas imagens ... e é
extremamente importante que estejam com minhas imagens.”Anteriormente, ele havia modestamente convidado os leitores a fazerem os
seus próprios e encorajado Behn-Eschenburg e Roemer a fazer uma série de
manchas de tinta, mas a deles não funcionou. Emil Lüthy foi o único que ele
continuou a encorajar, mas Lüthy desistiu - como um verdadeiro artista, ele
reconheceu que fazer manchas de tinta realmente sugestivas de forma e
movimento era muito mais difícil do que parecia.
Rorschach havia realizado algo impossível de replicar e, por fim, admitiu o
fato: “Tentar a experiência com novas placas pode exigir muito trabalho;
claramente a relação entre movimento e reações de cor em minha série funciona
especialmente bem e, afinal, não é tão fácil de recriar. ”
Mesmo depois de seu ensaio de 1918 e palestras de 1919, ele foi incapaz de
escrever seu manuscrito final até que soubesse se o livro seria para um público
psiquiátrico, educacional ou popular, e se ele seria capaz de publicá-lo com
imagens em tamanho real ou reduzido ou não. Ele pediu ajuda ao pastor e
psicanalista Oskar Pfister, o cofundador da Sociedade Psicanalítica Suíça, que
também estava incentivando Rorschach a publicar uma versão curta e popular de
seus estudos de seita. Quando o editor que Pfister recomendou também falhou,
foi o colega de Rorschach do Waldau, Walter Morgenthaler, quem finalmente
encontrou um lar para o livro: com o próprio editor de Morgenthaler, Ernst
Bircher.
Naquela época, a barragem estava cheia a ponto de estourar. Rorschach
havia delineado a estrutura do livro em uma carta a Morgenthaler quatro dias
antes, e ele o escreveu rapidamente - 267 páginas manuscritas, um rascunho de
280 páginas datilografado, entre abril e junho de 1920, durante "a longa
primavera úmida de Herisau".
No final de 1919, ele havia meditado que as idades de 33 a 35 eram “anos de
uma disposição quase certa para a introversão profunda” - uma época da vida em
que as pessoas se voltam para dentro, cavam fundo. Ele mencionou Cristo, Buda
e Agostinho, todos se afastando do mundo aos trinta e três anos, junto com os
fundadores da seita suíça que ele estudou, Binggeli e Unternährer, ambos os
quais tiveram suas visões místicas exatamente nessa idade. “Na tradição
gnóstica”, observou ele, “o homem está pronto para uma verdadeira volta para o
interior apenas quando completa trinta e três anos”. Não teria escapado a ele que
seus próprios anos de trinta e três a trinta e cinco se estendiam do final de 1917 a
1920, exatamente quando ele estava desenvolvendo o teste do borrão. Essa fase
estava chegando ao fim e era hora de deixar uma marca externa no mundo.
No entanto, meses se passaram sem que Rorschach soubesse se Bircher
poderia imprimir as placas afinal, depois mais meses de negociações de contrato
e mais meses de espera após a assinatura do contrato, com Rorschach esperando
que o livro fosse lançado a qualquer dia. A primeira carta de Bircher para
Rorschach foi endereçada ao “Dr. O. Rohrbach ”- não é um bom sinal.
Rorschach escreveu para seu irmão no Brasil, dizendo o quanto precisava de
conselhos práticos de um empresário, mas sem sucesso.
Muito depois da data de publicação contratada, Bircher escreveu para dizer
que o livro de Rorschach poderia ter que ser publicado em uma fonte diferente
dos outros livros da série, uma vez que o volume de Morgenthaler ainda estava
sendo impresso e o tipo de metal ainda estava em uso. Em outras palavras,
Bircher ainda nem havia começado. Rorschach poderia processar, mas isso só
atrasaria ainda mais tudo. Dois meses depois, Bircher disse que havia tantos “F”
maiúsculos no livro de Rorschach que as impressoras haviam acabado. (“F” é
menos comum em alemão do que em inglês, mas o livro de Rorschach estava
cheio deles: “Form” é abreviado como “F” e “Color” em alemão é Farbe,
abreviado “Fb.”) A primeira seção do Rorschach o livro teria de ser impresso,
por fim, apenas por esse motivo: para liberar o tipo.
Tudo isso atrasou a pesquisa de Rorschach também, porque enquanto as
manchas de tinta estavam na editora, na empresa de litografia e na impressora,
nem ele nem seus colegas tinham imagens para usar. Justamente quando ele teve
acesso a uma gama crescente de pacientes particulares e colegas que poderiam
fornecer protocolos para o diagnóstico às cegas, sua coleta de dados foi
interrompida. Ele se contentava com conjuntos de “séries paralelas” onde podia,
mas precisava usar os borrões de tinta reais na maioria dos casos, então suas
cartas do período são cheias de apelos para devolver seu único conjunto. Apesar
de implorar ao editor para imprimir as imagens mais cedo, ou pelo menos
enviar-lhe as provas, ele não conseguiu uma coleção até abril de 1921, e isso
com erros; nenhuma imagem aceitável chegou até maio de 1921.
As cartas de Rorschach a Bircher durante o processo de impressão revelam
muitos aspectos do teste que Rorschach considerou importantes. Uma carta
explicava que se os tamanhos das imagens tivessem que ser
reduzidos, o arranjo das formas no espaço total do cartão deveria
corresponder exatamente às relações nos originais, porque “as imagens que não
satisfazem essas condições de ritmo espacial são rejeitadas por um grande
número de assuntos de teste. ” Até mesmo os minúsculos respingos de tinta nas
bordas das formas tiveram que ser incluídos, porque “há cobaias que tendem a
interpretar principalmente esses minúsculos detalhes, uma qualidade com grande
significado diagnóstico”. Foi aqui também que Rorschach insistiu que não havia
numeração na frente dos cartões, porque "o menor sinal de intencionalidade,
mesmo um número, é suficiente para afetar adversamente muitos sujeitos de
teste com doenças mentais." Ao corrigir as provas, ele observou que uma certa
cor azul-escuro era muito fraca e que as reproduções precisavam mostrar “as
menores dissolvências da tinta e da tinta”; ele rejeitou outra página com o
comentário: “Nenhum pontilhado que afete o contorno muito fortemente”.
É impossível saber o quanto os atrasos com Bircher foram direta ou
indiretamente culpa de Morgenthaler, mas ele costumava dar conselhos a
Rorschach que mostravam certa incompreensão, por exemplo, encorajando-o a
publicar as imagens em tamanho reduzido. E para o bem ou para o mal, quando
Rorschach quis dar a sua obra principal o título não exatamente cativante
Método e resultados de um experimento em percepção-diagnóstico
(Interpretação de formas fortuitas), foi Morgenthaler quem o dissuadiu. As
manchas de tinta eram "mais do que um mero experimento", argumentou
Morgenthaler em agosto de 1920, e eram
"muito mais do que apenas percepção-diagnóstico". Sua sugestão:
Psicodiagnósticos.
Rorschach recusou a princípio. Um termo tão abrangente “iria longe demais,
me parece”; diagnosticar a psique parecia “quase místico”, especialmente neste
estágio inicial, antes de extensos experimentos de controle com indivíduos
normais. “Prefiro dizer muito pouco no início do que muito”, objetou ele, “e não
apenas por modéstia”. Quando Morgenthaler insistiu que precisava aprimorar o
título - ninguém gastaria um bom dinheiro para "um experimento em percepção-
diagnóstico" - Rorschach "infelizmente" cedeu, embora continuasse a pensar que
o novo título soava "extremamente arrogante", e ele usou sua longa e prosaica
descrição original como subtítulo. Talvez Morgenthaler estivesse certo e o livro
precisasse de um marketing melhor, mas Rorschach não queria soar como um
vendedor ambulante.
-
Psychodiagnostics foi publicado em meados de junho de 1921 em uma
edição de 1.200 exemplares. Emil Oberholzer, amigo de Rorschach, foi o
primeiroa ler o manuscrito, e sua resposta foi imensamente encorajadora,
especialmente para alguém que trabalhava fora da universidade e sem apoio
oficial: “Acho que esta pesquisa e seus resultados são as descobertas mais
importantes desde as publicações de Freud … .Na psicanálise, as categorias
formais há muito foram vistas como inadequadas, por razões parcialmente
intrínsecas e, em qualquer caso, novos métodos são o que trazem o progresso. E
cada avanço produtivo é invariavelmente incrivelmente simples. ” Oskar Pfister,
que tentara publicar o livro e o trabalho da seita de Rorschach, enviou outra
resposta gratificante. Com sua metáfora estendida dos livros de Rorschach como
seus filhos, sua carta é escrita com a bonomia levemente bufante característica
do bom pastor, mas brilha com admiração:
Caro doutor,
Tendo podido prestar serviço obstétrico na entrada do seu filho recém-
nascido no mundo, já comecei a amá-lo. Ele é um garotinho vigoroso e de olhos
brilhantes, de rara linhagem, erudito e intransigente, capaz de ver através das
coisas tanto original quanto profundamente. Diante dos fatos e ao contrário das
teorias neuróticas compulsivas, é a própria humanidade pura, sem maneirismos
pomposos ou presunção bombástica. O
pequenino será muito falado e atrairá a atenção do grande mundo acadêmico
para seu pai, que há muito a merecia. Meus mais profundos e sinceros
agradecimentos por este precioso presente, e espero que sua irmãzinha, com seu
conhecimento das seitas, também me faça uma visita em breve! Afetuosamente
seu, Pfister.
Depois de todos os atrasos, as manchas de tinta estavam espalhadas pelo
mundo. Roemer, agora chefe de consultoria empresarial e de carreira de uma
organização estudantil alemã, trouxe de volta uma montanha de protocolos dos
figurões da organização, cuja conformidade divertia Rorschach: “Todos eles
futuros ministros, políticos e organizadores, por assim dizer. Cada sombra do
espectro, dos burocratas mais brandos aos Napoleões mais agressivos. E cada
um deles - extrovertido. Eles devem ter que ser, na política ?! ”
Roemer testou incansavelmente ex-soldados e aposentados em estado de
choque, adaptando-se mal à
aposentadoria; ele tinha planos de testar Albert Einstein naquele inverno, e o
famoso general da Primeira Guerra Mundial Erich Ludendorff, até mesmo os
chefes da República de Weimar.
As primeiras respostas ao teste foram amplamente positivas. Na primeira
apresentação do teste em conferência de Rorschach após a publicação, em
novembro de 1921, Bleuler levantou-se em uma sessão de discussão para
declarar que havia confirmado a abordagem de Rorschach com pacientes e não
pacientes.
Rorschach caminhou até Morgenthaler depois, radiante: "Bem, conseguiu -
estamos fora de perigo agora!"
Segundo ele: “Bleuler agora se expressou publicamente e com bastante
clareza sobre o valor do método.
Surgiram vários comentários, até agora todos bons, apenas muito bons; Eu
gostaria de uma controvérsia ocasional, já que tenho tão poucas oportunidades
para uma verbal. ” Qualquer coisa seria melhor do que seu trabalho solitário em
Herisau.
A controvérsia viria em breve. Depois de algumas revisões em periódicos de
psicologia que eram em grande parte resumos, a primeira que entrou em mais
detalhes foi decididamente de dois gumes. A revisão de 1922
de Arthur Kronfeld começou chamando Rorschach de "um espírito
engenhoso, um psicólogo com excelente intuição, mas com precisão
experimental / metodológica verdadeiramente limitada". Ele achou os insights de
Rorschach sobre o caráter e a percepção totalmente convincentes. Mas a
abordagem numérica de Rorschach para pontuar o teste era “necessariamente
muito grosseira e aproximada”, enquanto as interpretações de Rorschach iam
muito além dos resultados reais do teste, por mais que ele tentasse “espremer”
suas descobertas das respostas das pessoas. O teste era quantitativo e subjetivo
demais. Ludwig Binswanger, um importante pioneiro do que seria conhecido
como psicologia existencial, que conhecia Rorschach, elogiou seu trabalho mais
altamente - como claro, perspicaz, objetivo, meticuloso, original. Mas ele
também criticou fortemente sua falta de sustentação teórica, uma falta que o
próprio Rorschach sentia profundamente.
Eventualmente, não seria suficiente argumentar que as manchas de tinta
funcionaram sem explicar como e por quê.
No mundo da psicologia acadêmica alemã, o teste já havia recebido uma
rejeição geral. Em abril de 1921, na primeira convenção da Sociedade Alemã de
Psicologia Experimental após a guerra, Roemer deu uma palestra sobre o teste
do borrão - modificado por ele, usando seus próprios borrões, destinado a testes
educacionais. O poderoso e popular William Stern, que uma geração antes fora
um dos primeiros psicólogos acadêmicos a revisar a Interpretação dos Sonhos de
Freud (ele a odiava), levantou-se para dizer que nenhum teste isolado poderia
apreender ou diagnosticar a personalidade humana. A abordagem de Rorschach -
na verdade, de Roemer - “era artificial e unilateral, suas interpretações
arbitrárias, suas estatísticas insuficientes”. O próprio Rorschach nunca alegou
que seu teste deveria ser usado isoladamente, como Roemer sabia por sua
correspondência, e ficou profundamente irritado com o fato de Roemer ter agido
como seu porta-voz, “propondo modificações desnecessárias antes mesmo de
meu livro ser publicado”. Ele pediu a Roemer que recuasse: “Múltiplas séries
diferentes de manchas de tinta só podem levar à confusão! E
especialmente com Stern !!! ” Até Stern se tornou “mais acessível” depois de
ler uma cópia do livro real de Rorschach, Rorschach pensou, mas o estrago
estava feito, e o teste do borrão nunca teve ampla aceitação na Alemanha.
Rorschach já estava olhando para além da Europa, no entanto. Um médico
chileno voluntário em Herisau planejava traduzir o psicodiagnóstico para o
espanhol, mas Rorschach sabia que “a América do Norte obviamente seria muito
mais significativa. Eles estão quase tão interessados em psicologia profunda lá
quanto em testes de aptidão vocacional. ” Freud, Rorschach continuou, estava
“fazendo praticamente nada mais em Viena além de dar 'análises de ensino' aos
americanos” que queriam entrar em prática.
“Naturalmente, seria muito vantajoso se os americanos assumissem o
assunto.” Enquanto isso, "tanto o English Psychoanalytic Journal quanto os
jornais psicanalíticos americanos estão planejando longas revisões".
Finalmente, Rorschach queria usar o experimento da mancha de tinta a
serviço dos interesses antropológicos mais evidentes em seu trabalho seita. Em
psicodiagnóstico, a única diferença racial ou étnica sobre a qual ele tinha
material para generalizar era aquela entre o suíço bernês introvertido, lento de
fala e bom para desenhar, e os appenzellers extrovertidos, espirituosos e
fisicamente mais ativos (menos M's, mais C's). Mas ele continuou a acompanhar
a pesquisa etnográfica e relacionada à seita, revisando-a para o diário de Freud, e
ele e Oberholzer discutiram a perspectiva de testar as populações chinesas. Ele
entrou no quarto de hotel de Albert Schweitzer depois de uma palestra e testou-o
- "um dos perfis mais racionalistas" e "o caso mais selvagem de repressão
colorida" que Rorschach já viu - após o que Schweitzer aparentemente
concordou em ter africanos em suas comunidades missionárias. Rorschach -
testado por um conterrâneo africano.
“Há muito mais ainda no experimento”, escreveu Rorschach em uma longa
carta a Roemer no dia em que a editora finalmente lhe enviou seu livro, “sem
mencionar a questãode uma base teórica mais ou menos aceitável. E certamente
existem outros fatores ocultos nos resultados que têm um valor tão rigoroso,
cabe a nós encontrá-los. ”
Na época em que Psychodiagnostics foi publicado em 1921, o livro não era
apenas preliminar, mas já estava um ano desatualizado - um congelamento
particular do pensamento de Rorschach da primavera de 1920.
Teria sido um trabalho muito diferente se escrito um ou dois anos antes ou
mais tarde. Mas uma coisa foi inegavelmente duradoura. Foi publicado em duas
partes: o livro e uma caixa separada contendo as manchas de tinta. No início as
imagens ficavam em folhas de papel, para o comprador montar; nas edições
posteriores, as imagens seriam impressas diretamente em cartões de papelão.
Eram os mesmos dez borrões que ainda são usados hoje.
12 A psicologia que ele vê é seu psicopata
Rorschach estava gradualmente construindo uma clínica privada em Herisau,
dando uma ou duas horas de psicanálise por dia para clientes com uma variedade
de questões e complexos. Um paciente, “impulsivo e infantil, embora tenha mais
de quarenta anos”, quase fez Rorschach se perguntar se valia a pena: “Nunca
mais vou enfrentar um neurótico desses, ele pode praticamente devorar você”.
Este era um colega que havia feito o teste do borrão e achou a experiência
poderosa o suficiente para pedir a Rorschach que o aceitasse para terapia.
Rorschach concordou relutantemente com um período de teste de quatro
semanas, mas, ele escreveu, “Eu deveria ter prestado mais atenção ao meu
experimento”: O paciente interpretou o animal vermelho no Cartão VIII como
“Europa, no touro que a carregava sobre o Bósforo”. O fato de ele ter
confabulado Europa a partir da forma de touro já é um forte sinal; o fato de
haver duas respostas de cor em sua resposta é ainda mais forte
- [o estreito do Bósforo se refere ao azul, e] o “touro” é para ele a paixão
mais vermelha. Mas eu não tinha ideia na época de que toda uma gama de
conteúdos determinantes era importante em sua resposta, só percebi mais tarde.
O touro é o próprio homem, e há fantasias masoquistas em jogo, uma sensação
de vitimização e os mais insanos delírios de grandeza: ele está “carregando toda
a Europa nas costas”, está tudo aí. Bem, pelo menos nesse aspecto aprendi
alguma coisa.
Ao usar o teste do borrão em uma gama mais ampla de pessoas, ele estava
começando a se afastar do que havia escrito em Psicodiagnóstico : que o teste
“não sonda o inconsciente”. Ele estava começando a pensar que o que as pessoas
viam nas manchas, não apenas como viam, poderia ser revelador: “O conteúdo
das respostas também pode ser significativo”.
Rorschach parece ter percebido que, se quisesse que seus insights fizessem
parte da linha principal do pensamento psicológico do século XX, ele precisava
estabelecer as conexões entre o experimento do borrão de tinta e a psicanálise. A
reunião dos dois daria ao teste pelo menos uma espécie de sustentação teórica,
ao mesmo tempo que estendia sua importância além de seu “psicodiagnóstico”
idiossincrático, e enriqueceria o pensamento freudiano com novos insights
formais e visuais.
Modelos mentais como o de Freud são conhecidos como “psiquiatria
dinâmica” porque focalizam processos emocionais e mecanismos mentais, os
“movimentos” subjacentes da mente, ao invés de sintomas e comportamentos
observáveis. Em 1922, Hermann Rorschach estava praticando uma psiquiatria
verdadeiramente dinâmica, rastreando os movimentos sutis de uma mente
perceptora. Ele havia dominado seu instrumento.
Naquele ano, Rorschach colocou uma dessas performances virtuosas no
papel. Oberholzer havia enviado a ele um protocolo para diagnóstico às cegas,
informando apenas o sexo e a idade do paciente (homem, quarenta anos). A
análise de Rorschach, escrita como uma palestra para a Sociedade Psicanalítica
Suíça intitulada "O Teste de Interpretação da Forma Aplicada à Psicanálise",
primeiro percorreu o protocolo do paciente em grande detalhe por vinte páginas,
dando conselhos sobre como codificar cada resposta e como proceder chegar a
uma interpretação. Esse conselho dificilmente foi fácil de seguir, uma vez que
Rorschach estava perfeitamente sintonizado em como os ritmos das respostas de
um paciente revelavam sua abordagem do mundo: em que prestavam atenção, o
que ignoravam, o que reprimiam, como se moviam. Ele exigiu um certo ritmo
equilibrado em sua própria análise, também: "Até agora, prestamos muita
atenção às características introvertidas de nosso paciente e negligenciamos o
lado extrovertido."
O paciente de Oberholzer deu respostas de Movimento mais tarde do que o
normal na sequência de dez cartas. Portanto, concluiu Rorschach, o homem tinha
uma capacidade de empatia (ele podia dar respostas M), mas estava suprimindo-
a neuroticamente (ele inicialmente evitou as respostas M, mesmo em cartas que
eram propícias a elas). As respostas de cor inicialmente ousadas e vigorosas do
paciente foram seguidas por
respostas equívocas, que para Rorschach indicavam uma luta consciente para
controlar suas próprias reações emocionais, em vez de repressão inconsciente
delas. Rorschach também notou que as primeiras respostas do homem a cada
carta não eram originais e frequentemente vagas, mas que ele finalmente chegou
a respostas genuinamente originais, “definitivas e convincentes”. Na Carta II, ele
viu “ Dois palhaços ” , depois “ Mas também pode ser uma ampla avenida
ladeada por belas árvores escuras ” , depois “ Aqui está o vermelho: é um poço
de fogo exalando fumaça. ”Era alguém que“ raciocinava indutivamente melhor
do que dedutivamente, concretamente melhor do que abstratamente ”, e
continuou tentando até encontrar algo com o qual estava satisfeito. Ao mesmo
tempo, o homem nunca parecia notar Detalhes comuns e normais, indicando que
ele carecia de adaptabilidade básica, "o raciocínio rápido do homem prático que
pode compreender o essencial e dominar qualquer situação."
A chave para a psicologia do homem era que ele olhava constantemente para
o meio das cartas. No Cartão III, ele viu o que muitas pessoas veem - dois
homens de cartola fazendo uma reverência um ao outro - mas depois
acrescentou: “ É como se aquela coisa vermelha no meio fosse um poder
separando os dois lados, impedindo-os de se encontrarem. “Outra carta“ dá-me,
no geral, a impressão de algo poderoso no meio, ao qual todo o resto se apega.
”Outro:“ Esta linha branca no meio é interessante; é uma linha de força em
torno da qual tudo o mais é organizado. “Essas respostas, embora impossíveis
de classificar, estiveram no cerne da interpretação de Rorschach. Ele não apenas
percebeu o padrão, mas o investigou - qual era a relação com a linha média em
cada resposta? O centro agarrou-se às outras partes ou as partes circundantes
agarraram-se ao centro?
O paciente era um neurótico introvertido, concluiu Rorschach,
provavelmente com comportamentos obsessivo-compulsivos e atormentado por
ideias de inadequação e autodesconfiança; foram esses sentimentos que o
fizeram controlar suas emoções com tanta firmeza.
Este paciente tipicamente resmunga consigo mesmo, insatisfeito com suas
realizações; ele se desequilibra facilmente, mas depois se recupera, devido à
necessidade de se empenhar. Ele tem pouca relação emocional plena e livre com
o mundo ao seu redor e mostra uma tendência bastante forte de seguir seu
próprio caminho. Seu humor dominante, seu afeto subjacente habitual, é bastante
ansioso, deprimido e passivamente resignado, embora tudo isso possa ser e seja
controlado sempre que possível, devido à sua boa capacidade intelectual e
adaptabilidade.
Sua inteligência é,em geral, boa, perspicaz, original, mais concreta do que
abstrata, mais indutiva do que dedutiva. Ainda assim, há uma contradição aqui,
no sentido de que o assunto exibe um senso bastante fraco para o óbvio e o
prático. Ele, portanto, fica preso e preso em detalhes triviais e subordinados. A
autodisciplina emocional e intelectual e o domínio são aparentes, entretanto.
Tudo isso por causa das manchas de tinta. Oberholzer confirmou as
descrições específicas de Rorschach da personalidade do paciente e suas
especulações mais amplas: a relação do paciente com a “linha central de poder”,
por exemplo, combinava com o que a análise havia revelado sobre sua relação
com o pai. “Eu mesmo não poderia ter dado uma caracterização melhor do
paciente, embora o tenha sob análise por meses”, escreveu Oberholzer.
O ensaio de Rorschach de 1922 propôs como sua trindade Forma,
Movimento e Cor poderia ser integrada à teoria freudiana. Quais tipos de
respostas lançam luz sobre o inconsciente? Rorschach argumentou que as
respostas da Forma mostraram poderes conscientes em ação: precisão, clareza,
atenção, concentração. As respostas de movimento, por outro lado, forneceram
“uma visão profunda do inconsciente”, assim como as respostas de cor de uma
maneira diferente. Respostas abstratas, como “ Algo poderoso no meio ” ,
emergiram das profundezas da psicologia da pessoa, bem como o conteúdo
manifesto dos sonhos, que podem revelar o funcionamento interno da mente
quando interpretados e analisados adequadamente.
Em outras palavras, fazia diferença “se um paciente interpreta a parte
vermelha de um cartão como uma ferida aberta ou a vê como pétalas de rosa,
xarope ou fatias de presunto”. Mas não havia fórmula para quanta diferença isso
fez - "quanto o conteúdo de tais interpretações pertence ao consciente e quanto
ao inconsciente". Às vezes, um respingo de sangue é apenas um respingo de
sangue. E às vezes Europa em um touro não era apenas Europa em um touro.
Rorschach insistiu que o significado do conteúdo foi
“determinado principalmente por relações que existem entre propriedades
formais e conteúdo” - a prevalência de Movimento ou Cor, Todo ou Detalhe,
respostas respondendo a uma ou outra parte do campo visual. Rorschach
suspeitou que outro paciente tinha "idéias de refazer o mundo" não simplesmente
porque o homem viu deuses gigantescos nas manchas de tinta, mas porque ele
"deu várias interpretações abstratas nas quais a linha central e o meio da imagem
provocaram respostas que são variações do mesmo tema. ”
Ninguém mais que usou o teste juntou forma e conteúdo como Rorschach
fez. Georg Roemer, por exemplo, sentiu que “o teste de Rorschach deve ser
liberado de sua rigidez formal e reconstruído como um teste simbólico baseado
em conteúdo”. Ele fez várias séries de suas próprias imagens - o tipo "mais
complicado e
estruturado, mais agradável e esteticamente refinado" que Rorschach rejeitou
especificamente - mas enquanto Rorschach reconheceu que eram valiosas até
certo ponto, ele insistiu que não eram substitutos para o coisa real:
Minhas imagens parecem desajeitadas perto das suas, mas tive que fazê-las
assim, depois de ser forçado a descartar muitas imagens anteriores que eram
menos úteis ... É realmente uma pena que você não coletou dados com meus
cartões. Simplesmente não funciona simplesmente assumir que as possibilidades
M de minhas cartas são o dobro das suas, ou o que quer que seja. Existem tantas
nuances ...
Não há como evitar o teste com minha série primeiro, para obter uma base
segura do tipo de experiência e o número de respostas M e C.
Depois, um teste com sua série pareceria um alívio estético, por assim dizer,
e provavelmente seria mais revelador de complexos.
Em outras palavras, o “teste simbólico baseado no conteúdo” de Roemer
seria muito parecido com a associação livre freudiana, com o psiquiatra capaz de
prestar atenção ao que as pessoas dizem, independentemente das propriedades
visuais e formais das manchas de tinta. As pessoas podiam se associar
livremente às imagens de Roemer, assim como poderiam com qualquer outra
coisa. Mas se Rorschach quisesse associações livres de seus pacientes, ele
poderia simplesmente conversar com eles. Se ele quisesse descobrir complexos
inconscientes, ele poderia fazer um teste de associação de palavras. As dez
manchas de tinta, com seu equilíbrio único de movimento, cor e forma, fizeram
mais; Os borrões de Roemer, notavelmente sem movimento, não.
Em primeiro e último lugar, o que importava na psiquiatria dinâmica de
Rorschach era o movimento. Em seu ensaio de 1922, ele descreveu seu ideal de
saúde mental em termos explicitamente dinâmicos: “uma mistura livre de
respostas de Movimento, Forma e Cor parece ser característica de pessoas que
estão livres de
'complexos'. ”Novamente:“ O essencial é uma rápida transição de
Movimento para Cor, o mais heterogêneo possível de uma mistura de
interpretações intuitivas, combinatórias, construídas e abstratas do todo,
arrancando facilmente a primeira flor colorida e, em seguida, retornando o mais
rápido possível para movimentos ... e dicção lúdica ou pelo menos fácil,
acolhendo todas essas coisas com os braços abertos. ”
Rorschach até mesmo apontou que os insights são dinâmicos. Para ter um
insight, uma pessoa precisa “tanto ter a intuição como, então, apreendê-la e
mantê-la como um todo; isto é, ele deve ser capaz de mudar rapidamente da
expansividade para a constrição ”(ênfase adicionada). Sem foco, qualquer
lampejo de intuição permaneceria “esboçado, aforístico, um castelo no ar
impossível de se adaptar à vida real”; uma personalidade excessivamente
racional ou rígida paralisa totalmente a intuição. Essas verdades bem conhecidas
“obviamente não foram uma contribuição nova”, observou Rorschach. “A
novidade é que podemos acompanhar o conflito entre reprimir o consciente e o
inconsciente reprimido por meio do teste”, vendo em ação como o
hipercriticismo compulsivo de um paciente sufocou suas intuições produtivas e
sua vida interior livre. O teste da mancha de tinta deu mais do que resultados
estáticos - permitiu que Rorschach rastreasse os processos dinâmicos da mente.
-
Suas próprias interpretações inimitáveis, junto com os esforços desajeitados
de seguidores como Behn-Eschenburg e Roemer, devem ter feito Rorschach se
perguntar se alguém mais seria capaz de usar as manchas de tinta
adequadamente. Ao mesmo tempo, um novo trabalho importante de Carl Jung
não lhe deixou escolha a não ser confrontar de frente como sua própria visão
poderia ser generalizada para um teste universalmente aplicável - ou não.
Os Tipos psicológicos de Jung , publicado em 1921 um mês antes do
psicodiagnóstico, postulava duas atitudes humanas básicas, introversão e
extroversão. Jung acrescentou quatro funções psicológicas principais: julgar o
mundo através do pensamento versus sentimento e perceber o mundo através da
sensação versus intuição. Essas categorias podem parecer familiares - a
abordagem de Jung seria mais tarde popularizada como o teste de Myers-Briggs.
Questões sobre como julgamos e percebemos o mundo também foram,
obviamente, centrais para o experimento do borrão de tinta. Mas a importância
dos Tipos psicológicos de Jung para o Rorschach era mais profunda do que isso.
Jung escrevia sobre introversão e extroversão desde 1911 e, embora
Rorschach tivesse adotado e modificado os termos para o teste do borrão, as
ideias de Jung também haviam mudado. Depois de ler Tipos psicológicos,
Rorschach reclamou que "Jung está agoraem sua quarta versão de introversão -
sempre que ele escreve qualquer coisa, o conceito muda novamente!" No final,
suas definições convergiram, e a declaração de Rorschach em Psychodiagnostics
de que seu conceito de introversão tinha "quase nada em comum com o de Jung,
exceto o nome" era enganosa, porque se referia apenas às versões da teoria de
Jung publicadas antes de 1920, quando Rorschach foi escrevendo seu livro.
Como Rorschach, Jung rejeitou a classificação estática e insistiu que as
pessoas reais são sempre uma mistura de tipos. Jung descreveu como partes do
self compensavam outras partes - conscientemente
introvertidos ou tipos pensantes, por exemplo, teriam um inconsciente
marcado por extroversão ou sentimento. Em descrições longas e perspicazes de
interações do mundo real, ele mostrou como as pessoas de um tipo se
comportam de maneiras que são interpretadas ou mal interpretadas por outras
através das lentes de seus próprios tipos. As categorias de Jung não pretendiam
rotular o comportamento, mas ajudar a compreender a complexidade das
situações humanas reais.
O ponto principal, porém, é que as pessoas são diferentes. Quando Jung foi
questionado por que havia dito que havia quatro tipos, exatamente esses quatro,
cada um na forma extrovertida ou introvertida, ele disse que o esquema era o
resultado de muitos anos de experiência psiquiátrica pessoal: é assim que as
pessoas são.
O problema, escreveu Jung no epílogo de Tipos psicológicos, era que
qualquer teoria da mente "pressupõe uma psicologia humana uniforme, assim
como as teorias científicas em geral pressupõem que a natureza é
fundamentalmente uma e a mesma". Infelizmente, isso não é verdade: não é
nenhuma psicologia humana uniforme. Depois de se referir a "Liberté, Égalité,
Fraternité" e aludir ao socialismo e à Revolução Comunista na Rússia - alusões
que certamente chamaram a atenção de Rorschach - Jung levantou a objeção
decisiva de que oportunidades iguais para todos, liberdade igual, renda igual, até
justiça total para todos tipo faria algumas pessoas felizes e outras infelizes. Se eu
governasse o mundo, deveria dar ao Sr. X duas vezes mais dinheiro do que o Sr.
Y, já que dinheiro significa muito mais para ele? Ou não, já que o princípio da
igualdade importa para o Sr. Z? E quanto às pessoas que precisam rebaixar
outras pessoas para se sentirem bem consigo mesmas - como suas necessidades
devem ser satisfeitas? Nada do que legislarmos “jamais será capaz de superar as
diferenças psicológicas entre os homens”. O mesmo ocorre com a ciência, e em
qualquer diferença de opinião: “Os partidários de ambos os lados atacam uns aos
outros puramente externamente, sempre buscando as fendas na armadura do
oponente. Brigas desse tipo geralmente são infrutíferas. Teria um valor
consideravelmente maior se a disputa fosse transferida para o domínio
psicológico, do qual surgiu em primeiro lugar. A mudança de posição logo
mostraria uma diversidade de atitudes psicológicas, cada uma com seu próprio
direito à existência ”. Cada visão de mundo "depende de uma premissa
psicológica pessoal".
Nenhum teórico “percebe que a psicologia que ele vê é a sua psicologia e,
além disso, está a psicologia de seu tipo. Ele, portanto, supõe que só pode haver
uma explicação verdadeira ... a saber, aquela que concorda com seu tipo. Todas
as outras visões - eu quase poderia dizer todas as outras sete visões - que, à sua
maneira, são tão verdadeiras quanto as dele, são para ele meras aberrações ”pelas
quais ele sente“ uma aversão viva, mas muito compreensível ”.
O projeto de Tipos psicológicos havia começado com um caso de visões
incompatíveis: enquanto Freud pensava que, em última análise, tudo girava em
torno de sexo, e Alfred Adler pensava que, em última análise, tudo girava em
torno de poder, o trabalho de Jung “surgiu originalmente da minha necessidade
de definir as maneiras pelas quais minha perspectiva diferia de Freud e Adler ...
Ao tentar responder a essa pergunta, me deparei com o problema dos tipos; pois
é o tipo psicológico de uma pessoa que, desde o início, determina e limita o
julgamento de uma pessoa. ” No livro, Jung conseguiu uma dança delicada em
torno de suas próprias limitações. Mesmo que todo o seu projeto implicasse uma
espécie de visão olímpica de todos os diferentes tipos, ele repetidamente admitia
sua própria parcialidade. Ele disse abertamente que o desejo por uma teoria total
e abrangente era um fato de sua própria psicologia; que Freud estava tão certo, à
sua maneira, quanto Jung estava à sua maneira; que Jung levou anos para
reconhecer a existência e o valor de outros tipos que não os seus; que sua
discussão de tipos diferentes do seu era inadequada.
Como Jung sabia perfeitamente bem, ver pelos olhos de outra pessoa é quase
impossível. “É um fato constante e avassaladoramente aparente em meu trabalho
prático”, escreveu ele - um fato já confirmado por todas as seções de
comentários na internet, pode-se acrescentar - “que as pessoas são virtualmente
incapazes de compreender e aceitar qualquer ponto de vista que não seja seus
próprios ... Cada homem está tão aprisionado em seu tipo que é simplesmente
incapaz de compreender completamente outro ponto de vista ”.
A grandeza dos Tipos Psicológicos resulta do poder intuitivo e analítico de
Jung combinado com seu esforço de décadas para sair de si mesmo, apesar de
tudo.
Rorschach reconheceu as apostas fundamentais do livro, e isso o deixou
mais curto de uma forma que nada mais fizera. Com sua formação junguiana,
Rorschach foi naturalmente convidado a revisar a obra e, em abril de 1921, ele
concordou. Mas quanto mais ele estudava, menos certeza tinha sobre como
incorporar seus insights.
Reconhecidamente, o livro é um monstro, com literalmente centenas de
páginas sobre Vedas indianos, poesia épica suíça, Escolástica medieval, Goethe e
Schiller e tudo o mais que pudesse ser mostrado para expressar os dois pólos da
experiência humana. “Estou lendo Jung com uma mistura de sentimentos”,
escreveu
Rorschach em junho: “Há muito que está certo, definitivamente muito, mas
embutido em uma arquitetura muito estranha”. Cinco meses depois:
Agora estou lendo Tipos de Jung pela terceira vez e ainda não consigo me
obrigar a começar a revisão que devo escrever ... Em qualquer caso, preciso
retificar significativamente meu julgamento anterior sobre ele. Há realmente
uma quantidade incrível no livro e ... por enquanto não vejo como culpar a
estrutura dedutiva que ele apresenta em contraste com o pensamento de Freud ...
Estou roendo o livro, mas assim que começo a colocar algo juntos, fico
desconfiado de minhas próprias idéias.
Uma de suas reclamações sobre o isolamento em Herisau era que “Eu
realmente quero ter uma longa conversa com alguém sobre Jung em algum
momento. O livro tem muitas coisas boas, e é extremamente difícil dizer onde a
especulação sai do caminho. ” Em janeiro de 1922, ele ainda lutava: “Tenho que
concordar com Jung, que distingue as atitudes conscientes das inconscientes e
diz que quando o consciente é extrovertido, o inconsciente é
compensatoriamente introvertido. Essa terminologia é obviamente hedionda,
essas formulações brutalmente esmagadas juntas, mas claramente a ideia de
compensação é muito significativa. ” Se nada mais, Jung já havia defendido o
que Rorschach pensava ser sua própria posição contrastante: "A maioria dos
casos tem aspectos introversivos e extratensivos, cada tipo é na verdade uma
mistura dos dois."
Tipos psicológicos estavam forçando Rorschach a repensar suas idéias - e
sua própria psicologia. “A princípio pensei