Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.
left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

left-side-bubbles-backgroundright-side-bubbles-background

Crie sua conta grátis para liberar esse material. 🤩

Já tem uma conta?

Ao continuar, você aceita os Termos de Uso e Política de Privacidade

Prévia do material em texto

Indaial – 2018
EspEciais
Prof. Kleber Renan de Souza Santos
Profª. Ana Clarisse Alencar Barbosa
Prof. Arildo João de Souza
Prof. Fábio Roberto Tavares
Profª. Francieli Stano Torres
Profª. Graciela Márcia Fochi
Profª. Grazielle Jenske
Profª. Greisse Moser
Profª. Luciane da Luz
Prof. Lírio Ribeiro
Profª. Maquiel Duarte Vidal
Profª. Meike Schubert
Profª. Vânia Konell
Proª. Vera Lúcia Hofmann Pieritz
1a Edição
Tópicos
Elaboração:
Prof. Kleber Renan de Souza Santos
Profª. Ana Clarisse Alencar Barbosa
Prof. Arildo João de Souza
Prof. Fábio Roberto Tavares
Profª. Francieli Stano Torres
Profª. Graciela Márcia Fochi
Profª. Grazielle Jenske
Profª. Greisse Moser
Profª. Luciane da Luz
Prof. Lírio Ribeiro
Profª. Maquiel Duarte Vidal
Profª. Meike Schubert
Profª. Vânia Konell
Proª. Vera Lúcia Hofmann Pieritz
Copyright © UNIASSELVI 2022
Revisão, Diagramação e Produção:
Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech
Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI
Ficha catalográca elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI
Impresso por:
657
S237t Santos, Kleber Renan
Tópicos Especiais / Kleber Renan Santos et al. Indaial:
UNIASSELVI, 2018.
304 p. : il
ISBN 978-85-515-0131-3
1. Tópicos Especiais.
I. Centro Universitário Leonardo da Vinci.
Olá, acadêmico! Vamos iniciar os estudos do Livro Didático de Tópicos Especiais.
Este livro está dividido em três unidades e tem o intuito de apresentar e reforçar temas
no componente de Formação Geral, conforme orientação da Portaria Inep nº 239, de 10
de junho de 2015, art. 3º:
No componente de Formação Geral serão considerados os seguintes
elementos integrantesdoperl prossional: letramento crítico; atitude
ética; comprometimento e responsabilidades sociais; compreensão
de temas que transcendam ao ambiente próprio de sua formação,
relevantes para a realidade social; espírito cientíco, humanístico e
refexivo; capacidade de análise crítica e integradora da realidade; e
aptidão para socializar conhecimentos com públicos diferenciados e
em vários contextos.
A partir dessa orientação, queremos que você compreenda que aprender
a questionar é tão importante quanto buscar o saber, e que ao nal do estudo deste
livro você seja capaz de formular novas perguntas sobre a realidade humana e consiga
propor soluções responsáveis para os desaos prossionais que surgirem. Assim, este
livro traz conteúdos gerais para você estar bem preparado para o ENADE e também para
o que a vida lhe apresentar. São temas pertinentes, atuais, abrangentes e que fazem
parte da vida de todos nós. Vamos começar?!
Na primeira unidade, que vai tratar sobre cidadania e sociedade, seremos
conduzidos por ummundo intrínseco do comportamento humano em sociedade e suas
regras de conduta e participação social, política e econômica, na qual trabalharemos a
questão da ormação dos princípios morais e éticos dos homens que vivem e convivem
em sociedade, além de abordarmos questões pertinentes à democracia, à ética e à
cidadania. Desta orma, abordaremos a compreensão dos signicados dos princípios
norteadores da democracia, ética e cidadania, além de realizar uma refexão e uma
discussão sobre as questões ético-morais na relação indivíduo e sociedade.
Ainda nessa unidade vamos apresentar algumas denições e conceitos a
respeito dos problemas sociais ocasionados pela diversidade que gera diferenças
entre coisas e seres, que por consequência geram os mais diversos preconceitos,
desigualdades e confitos sociais. Vamos também identicar a necessidade e a
essencialidade da inclusão como uma forma de democratização das relações sociais,
principalmente na emancipação e na sutileza do trato com o outro, seja em relação aos
“iguais” ou entre iguais e dierentes, que de alguma orma ainda não oram incluídos no
contexto social. Relacionado à sociedade e suas relações, vamos trabalhar o conceito
de multiculturalismo, enfatizando as origens do surgimento do movimento e os campos
de conhecimento que acolhem os estudos multiculturais.
APRESENTAÇÃO
Para nalizar a Unidade 1, estudaremos a cultura e a arte como áreas que
interagem entre si e com as demais áreas de conhecimento. Estudar, pesquisar e refetir
sobre as dierentes culturas e suas maniestações artísticas possibilita a compreensão
da vida e das relações entre os sujeitos no meio social. A cultura, assim como a arte,
é dinâmica, vai mudando conforme o tempo e o espaço. A cultura e a arte devem ser
estudadas a partir de três concepções: erudita, popular e de massa.
Começamos a segunda unidade adentrando nos assuntos relacionados à Ciência,
Tecnologia e Sociedade. Veremos como se faz necessário entendermos os fundamentos
da ciência sob dierentes óticas e também analisar denições e pensamentos acerca da
tecnologia e algumas formas de interpretar a sociedade.
Muito próximodessa temática, avançaremos sobre as tecnologias da inormação
e comunicação como fator determinante no advento da sociedade da informação, das
transformações resultantes do processo da globalização demercados e dos avanços do
uso dos processos tecnológicos na vida cotidiana dos indivíduos.
Concluímos os estudos deste livro com a terceira unidade. Nela, vamos estudar
sobre as políticas públicas, sobre a vivência nos meios urbanos e rurais e a questão
ecológica, temas tão importantes para o desenvolvimento da sociedade como um todo.
Queremos evidenciar a importância das políticas públicas para a concretização
dos direitos e deveres do Estado em relação às pessoas que compõem a sociedade e,
assim como o Estado, gozam de seus direitos civis e políticos. Veremos que estamos
sujeitos ao conjunto de normas jurídicas e sociais, ormando assim ummarco regulatório
previamentexadonoquediz respeitoàdistribuiçãoharmônicadoselementosqueormam
os direitos, deveres e responsabilidades emprol do desenvolvimento educacional, político,
econômico e social. Nesta via demão dupla vamos perceber que a vida em sociedade está
ligada à política e não há ação social sem ação política, quer seja promovida pelo Estado
ou pela sociedade. Vamos ainda tratar sobre a saúde e sua gestão, a habitação e moradia
como direitos constitucionais e a segurança em âmbito nacional.
Esperamos que este estudo possa auxiliá-lo na compreensão de tantos temas
que compõem este livro de estudos, preparar-se bem para o ENADE e levar para a vida
as abordagens aqui feitas.
Bons estudos!
Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e
dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes
completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você
acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. Para utilizar
essa ferramenta, acesse as lojas de aplicativos e baixe um leitor de QR Code. Depois, é só
aproveitar essa facilidade para aprimorar os seus estudos.
GIO
QR CODE
Olá, eu sou a Gio!
No livro didático, você encontrará blocos com informações
adicionais –muitas vezes essenciais para o seu entendimento
acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender
melhor oque sãoessas informações adicionais epor que você
poderá se beneciar ao azer a leitura dessas inormações
durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais
e outras fontes de conhecimento que complementam o
assunto estudado em questão.
Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos
os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina.
A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um
novo visual – com um formato mais prático, que cabe na
bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada
também digital, em que você pode acompanhar os recursos
adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo
deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura
interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no
texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que
também contribui para diminuir a extração de árvores para
produção de folhas de papel, por exemplo.
Preocupados com o impactode ações sobre o meio ambiente,
apresentamos também este livro no formato digital. Portanto,
acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com
versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
Preparamos também um novo layout. Diante disso, você
verá frequentemente o novo visual adquirido. Todos esses
ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos
nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos,
para que você, nossa maior prioridade, possa continuar os
seus estudos com um material atualizado e de qualidade.
ENADE
LEMBRETE
Olá, acadêmico! Iniciamos agora mais uma
disciplina e com ela um novo conhecimento.
Com o objetivo de enriquecer seu conheci-
mento, construímos, além do livro que está em
suas mãos, uma rica trilha de aprendizagem,
por meio dela você terá contato com o vídeo
da disciplina, o objeto de aprendizagem, materiais complementa-
res, entre outros, todos pensados e construídos na intenção de
auxiliar seu crescimento.
Acesse o QR Code, que levará ao AVA, e veja as novidades que
preparamos para seu estudo.
Conte conosco, estaremos juntos nesta caminhada!
Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um
dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de
educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar
do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem
avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo
para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Conra,
acessando o QR Code a seguir. Boa leitura!
SUMÁRIO
UNIDADE 1 - CIDADANIAE SOCIEDADE............................................................................... 1
TÓPICO 1 - DEMOCRACIA, ÉTICAE CIDADANIA ..................................................................3
1 INTRODUÇÃO.......................................................................................................................3
2ADEMOCRACIAEM PAUTA ................................................................................................4
3AQUESTÃO DAÉTICA.........................................................................................................8
4 O PRINCÍPIO CONSTITUCIONALDACIDADANIA............................................................14
RESUMODOTÓPICO 1 ......................................................................................................... 17
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................. 19
TÓPICO 2 - SOCIEDADE EADIVERSIDADE........................................................................21
1 INTRODUÇÃO.....................................................................................................................21
2 CONCEITOS DE DIVERSIDADE CULTURALE DESIGUALDADE SOCIAL ........................21
3 DIVERSIDADE CULTURALE DESIGUALDADE SOCIAL.................................................. 22
4 INCLUSÃO ESCOLAR E SOCIALDADIVERSIDADE.........................................................31
5 INCLUSÃO ESCOLAR E SOCIALDADIVERSIDADE HUMANA.........................................31
6 CONSTRUÇÃO E RECONSTRUÇÃODO SABERAPRENDIDO .........................................37
RESUMODOTÓPICO 2........................................................................................................ 39
AUTOATIVIDADE................................................................................................................. 40
TÓPICO 3 - MULTICULTURALISMO: VIOLÊNCIA, TOLERÂNCIA/INTOLERÂNCIAE
RELAÇÕES DE GÊNERO...................................................................................................... 43
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................... 43
2 CONCEITUANDOMULTICULTURALISMO........................................................................ 43
3 SURGIMENTO DOMULTICULTURALISMO....................................................................... 45
4ÁREAS DE CONHECIMENTO QUEABRIGAMOMULTICULTURALISMO......................... 46
5MOVIMENTO FEMINISTA...................................................................................................47
5.1 FEMINISMO............................................................................................................................................ 47
5.2 A PRIMEIRA ONDA FEMINISTA........................................................................................................ 48
5.3 A SEGUNDA ONDA FEMINISTA ........................................................................................................49
5.4 A TERCEIRA ONDA FEMINISTA E O SURGIMENTO DOS ESTUDOS DE GÊNERO..................50
6 CONCEITUANDOGÊNERO ............................................................................................... 50
7 ESTUDOS DE GÊNERO ..................................................................................................... 54
RESUMODOTÓPICO 3........................................................................................................ 58
AUTOATIVIDADE................................................................................................................. 60
TÓPICO 4 - RESPONSABILIDADE SOCIAL: SETOR PÚBLICO, SETOR PRIVADO E
TERCEIRO SETOR ............................................................................................................... 65
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................... 65
2 SETOR PRIVADO .............................................................................................................. 65
3 TERCEIRO SETOR ............................................................................................................ 66
3.1 HISTÓRICO ........................................................................................................................................... 67
3.2 REALIDADE DAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS NO BRASIL ...........................................................68
4AS ORGANIZAÇÕES NÃOGOVERNAMENTAIS ................................................................70
RESUMODOTÓPICO 4.........................................................................................................73
AUTOATIVIDADE..................................................................................................................74
TÓPICO 5 - CULTURAEARTE.............................................................................................. 77
1 INTRODUÇÃO..................................................................................................................... 77
2 CULTURA........................................................................................................................... 77
3ARTE ..................................................................................................................................81
RESUMODOTÓPICO 5........................................................................................................ 88
AUTOATIVIDADE................................................................................................................. 89
UNIDADE 2 — POLÍTICA, TECNOLOGIA E GLOBALIZAÇÃO: OS IMPACTOS SOBREA
SOCIEDADE .......................................................................................................................... 91
TÓPICO 1 — CIÊNCIA, TECNOLOGIA, SOCIEDADE EAMBIENTE....................................... 93
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................... 93
2 CIÊNCIA............................................................................................................................ 93
3 TECNOLOGIA.....................................................................................................................95
4 SOCIEDADE ......................................................................................................................975 SOCIEDADE ENTRE CIÊNCIA E TECNOLOGIA ............................................................... 98
6 CIÊNCIA, TECNOLOGIA, SOCIEDADE EAMBIENTE (CTSA) – INTERPRETAÇÕES
SOBREANOVAFORMAÇÃO ..............................................................................................100
6.1 CTS SOB NOVAS ÓTICAS .................................................................................................................100
6.2 CTS SOB A ÓTICA DE MILTON SANTOS ......................................................................................100
6.3 CTSA SOB A ÓTICA DE WIEBE BIJKER ........................................................................................103
7 CARACTERIZANDO OMUNDOATUAL............................................................................105
RESUMODOTÓPICO 1 .......................................................................................................107
AUTOATIVIDADE................................................................................................................108
TÓPICO 2 - TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC)............................111
1 INTRODUÇÃO....................................................................................................................111
2 ASTECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC) COMO FATOR
DETERMINANTE NOADVENTO DASOCIEDADE DA INFORMAÇÃO..................................111
3 TECNOLOGIADA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO – TIC.............................................. 114
RESUMODOTÓPICO 2....................................................................................................... 118
AUTOATIVIDADE................................................................................................................ 119
TÓPICO 3 -AVANÇOSTECNOLÓGICOS ............................................................................ 121
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................... 121
2 TENDÊNCIAS ORGANIZACIONAIS DO SÉCULO XXI...................................................... 121
3 COMUNIDADESVIRTUAIS..............................................................................................122
3.1 REDES SOCIAIS.................................................................................................................................. 126
RESUMODOTÓPICO 3....................................................................................................... 127
AUTOATIVIDADE................................................................................................................128
TÓPICO 4 - GLOBALIZAÇÃO E POLÍTICA INTERNACIONAL............................................ 131
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................... 131
2 GLOBALIZAÇÃO: UMAPERSPECTIVAHISTÓRICA....................................................... 131
2.1 O TERCEIRO SETOR........................................................................................................................... 134
3 GLOBALIZAÇÃO: UMBALANÇO.....................................................................................134
AUTOATIVIDADE................................................................................................................135
4APOLÍTICA INTERNACIONAL ........................................................................................136
5 O ESTADOMODERNO E O LIBERALISMO.......................................................................136
6 O NEOLIBERALISMO EATERCEIRAVIA........................................................................137
7 TENDÊNCIASAOS GOVERNOS EÀPOLÍTICA INTERNACIONAL ..................................138
RESUMODOTÓPICO 4...................................................................................................... 140
AUTOATIVIDADE................................................................................................................ 141
TÓPICO 5 - RELAÇÕES DETRABALHO.............................................................................143
1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................143
2 ORIGEM/SIGNIFICADO DAPALAVRATRABALHO........................................................143
3ASMULHERES NO CONTEXTO DAREVOLUÇÃO INDUSTRIAL.....................................148
4 OTRABALHONOSTEMPOS CONTEMPORÂNEOS ........................................................149
4.1 AS POSSIBILIDADES DO TRABALHO INFORMAL.......................................................................150
4.2 RELAÇÕES DE TRABALHO E OS PROCESSOS LEGAIS NO BRASIL.......................................151
LEITURACOMPLEMENTAR ...............................................................................................153
RESUMODOTÓPICO 5.......................................................................................................155
AUTOATIVIDADE................................................................................................................156
UNIDADE 3 — POLÍTICAS PÚBLICAS................................................................................159
TÓPICO 1 — POLÍTICAS PÚBLICAS: EDUCAÇÃO.............................................................. 161
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................... 161
2 POLÍTICAPÚBLICAATUAL............................................................................................. 161
LEITURACOMPLEMENTAR ............................................................................................... 175
RESUMODOTÓPICO 1 .......................................................................................................178
AUTOATIVIDADE................................................................................................................ 179
TÓPICO 2 - POLÍTICAPÚBLICADE SAÚDE ...................................................................... 181
1 INTRODUÇÃO................................................................................................................... 181
2 CONCEITO DE SAÚDE .....................................................................................................183
3 SAÚDE: DIREITO DETODOS E DEVER DO ESTADO.......................................................186
4AS REDES DEATENÇÃO EM SAÚDE...............................................................................187
5 DIVERSOSATENDIMENTOS EM SAÚDE ........................................................................190
5.1 POLÍTICAS DE SAÚDE E PROGRAMAS ESPECÍFICOS ..............................................................191
RESUMODOTÓPICO 2.......................................................................................................195
AUTOATIVIDADE................................................................................................................196
TÓPICO 3 - HABITAÇÃO E SANEAMENTO ........................................................................199
1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................199
2 DIREITOÀMORADIA.......................................................................................................199
3 SANEAMENTO................................................................................................................ 207
4 SANEAMENTO BÁSICO.................................................................................................. 207
5 PRECARIZAÇÃO DO SANEAMENTO BÁSICO.................................................................212
6AVANÇOS NO SANEAMENTO..........................................................................................214
RESUMODOTÓPICO 3.......................................................................................................216
AUTOATIVIDADE................................................................................................................217TÓPICO 4 - TRANSPORTES E SEGURANÇA .....................................................................221
1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................221
2 CLASSIFICAÇÃO DOSTRANSPORTES ......................................................................... 223
2.1 TERRESTRES ..................................................................................................................................... 223
2.2 AQUAVIÁRIOS ................................................................................................................................... 225
2.3 AÉREO .................................................................................................................................................227
3 INFRAESTRUTURA ........................................................................................................ 228
RESUMODOTÓPICO 4...................................................................................................... 230
AUTOATIVIDADE................................................................................................................231
TÓPICO 5 - POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇAEMÂMBITO NACIONAL ............... 233
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................. 233
2ASEGURANÇAPÚBLICAEAS CONTRIBUIÇÕES COMUNITÁRIAS .............................234
3 SEGURANÇAPÚBLICAE JUSTIÇACRIMINAL............................................................. 235
4 SEGURANÇAPÚBLICAE O PAPELDO ESTADO ...........................................................240
RESUMODOTÓPICO 5...................................................................................................... 243
AUTOATIVIDADE...............................................................................................................244
TÓPICO 6 -VIDARURAL, URBANAE ECOLOGIA............................................................. 247
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................. 247
2VIDAURBANA ................................................................................................................ 247
3VIDARURAL ................................................................................................................... 249
4 SEMELHANÇAS OUDIFERENÇAS................................................................................. 252
5 ECOLOGIA....................................................................................................................... 255
6 ECOSSISTEMA ............................................................................................................... 256
6.1 ORGANIZAÇÃO DOS SERES VIVOS ...............................................................................................257
6.2 EXEMPLOS DE ECOSSISTEMAS................................................................................................... 260
6.3 DIVERSIDADE DO ECOSSISTEMA................................................................................................. 261
7 OS GRANDES BIOMAS ....................................................................................................261
7.1 FATORES QUE DETERMINAM OS BIOMAS.................................................................................... 261
RESUMODOTÓPICO 6...................................................................................................... 264
AUTOATIVIDADE............................................................................................................... 265
TÓPICO 7 - MEIOAMBIENTE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL ............................ 269
1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................. 269
2 QUESTÕESAMBIENTAIS – UMAREFLEXÃO SOCIOAMBIENTAL ................................ 269
3 SUSTENTABILIDADE: SURGIMENTO ............................................................................271
3.1 RELATÓRIO BRUNDTLAND OU “NOSSO FUTURO COMUM”....................................................273
3.2 AGENDA 21 .........................................................................................................................................273
3.3 CONFERÊNCIA DAS NAÇÕES UNIDAS SOBRE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL –
RIO+20 .................................................................................................................................................274
4 SUSTENTABILIDADE: CONCEITUAÇÃO ....................................................................... 274
4.1 OS PILARES DA SUSTENTABILIDADE...........................................................................................275
5AS FERRAMENTAS PARAAGESTÃO SUSTENTÁVEL....................................................277
5.1 PACTO GLOBAL .................................................................................................................................278
5.2 OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO DO MILÊNIO - ODM ......................................................279
5.3 PROTOCOLO DE KYOTO..................................................................................................................280
5.4 ABNT NBR 14064 – INVENTÁRIO DE EMISSÕES DE GASES DE EFEITO ESTUFA.............281
LEITURACOMPLEMENTAR .............................................................................................. 282
RESUMODOTÓPICO 7 ...................................................................................................... 286
AUTOATIVIDADE............................................................................................................... 287
REFERÊNCIAS................................................................................................................... 290
1
UNIDADE 1 -
CIDADANIA
E SOCIEDADE
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Apartir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• compreender dierentes conceitos de democracia, ética, cidadania e sociodiversidade;
• vericar os padrões de conduta moral ao longo do tempo e em diversas culturas;
• identicar a importância da responsabilidade social e os três setores: público, privado
e terceiro setor para uma sociedade equânime;
• entender a importância da cultura e da arte no desenvolvimento da sociedade.
Esta unidade está dividida em cinco tópicos. No decorrer dela, você encontrará autoa-
tividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – DEMOCRACIA, ÉTICA E CIDADANIA
TÓPICO 2 – SOCIODIVERSIDADE E INCLUSÃO
TÓPICO 3 – MULTICULTURALISMO: VIOLÊNCIA, TOLERÂNCIA/INTOLERÂNCIA E
RELAÇÕES DE GÊNERO
TÓPICO 4 – RESPONSABILIDADE SOCIAL: SETOR PÚBLICO, SETOR PRIVADO E
TERCEIRO SETOR
TÓPICO 5 – CULTURA E ARTE
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure
um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
CHAMADA
2
CONFIRA
A TRILHA DA
UNIDADE 1!
Acesse o
QRCode abaixo:
3
DEMOCRACIA, ÉTICA E CIDADANIA
1 INTRODUÇÃO
Entraremos no mundo do comportamento humano em sociedade e suas regras
de conduta e participação social, política e econômica, no qual trabalharemos a questão
da ormação dos princípios morais e éticos dos homens que vivem e convivem em
sociedade, além de abordarmos questões pertinentes à democracia e à cidadania.
Esses conceitos estão previstos na Portaria INEP nº 493 de 6 de junho de 2017,
em seu Art. 1º, que destaca:
O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (ENADE),
parte integrante do Sistema Nacional de Avaliação da Educação
Superior (SINAES), tem como objetivo geral avaliar o desempenho
dos estudantes em relação aos conteúdos programáticos previstos
nas diretrizes curriculares, às habilidades e competências para
atuação profssional e aos conhecimentos sobre a realidade
brasileiraemundial, bemcomosobreoutrasáreasdoconhecimento
(BRASIL, 2017, grios nossos).Amesma portaria, em seu Art. 5º, indica como reerência do perl do concluinte,
no âmbito da Formação Geral, as seguintes características:
I. ético e comprometido com as questões sociais, culturais e
ambientais;
II. humanista e crítico, apoiado em conhecimentos cientíco, social e
cultural, historicamente construídos, que transcendam o ambiente
próprio de sua ormação;
III. protagonista do saber, com visão do mundo em sua diversidade
para práticas de letramento, voltadas para o exercício pleno de
cidadania;
IV. proativo, solidário, autônomo e consciente na tomada de decisões
pautadas pela análise contextualizada das evidências disponíveis;
V. colaborativo e propositivo no trabalho em equipes, grupos e redes,
atuando com respeito, cooperação, iniciativa e responsabilidade
social.
E no Art. 6º é indicado que a prova ENADE avaliará se o concluinte desenvolveu,
no processo de formação, competências para:
I. azerescolhaséticas, responsabilizando-seporsuasconsequências;
II. ler, interpretar e produzir textos com clareza e coerência;
III. compreender as linguagens como veículos de comunicação e
expressão, respeitando as dierentes maniestações étnico-culturais
e a variação linguística;
TÓPICO 1 -UNIDADE 1
4
IV. interpretar dierentes representações simbólicas, grácas e
numéricas de um mesmo conceito;
V. formular e articular argumentos consistentes em situações
sociocomunicativas, expressando-se com clareza, coerência e
precisão;
VI. organizar, interpretar e sintetizar informações para tomada de
decisões;
VII. planejar e elaborar projetos de ação e intervenção a partir da
análise de necessidades, de ormacoerente, emdierentes contextos;
VIII. buscar soluções viáveis e inovadoras na resolução de situações-
problema;
IX. trabalhar em equipe, promovendo a troca de informações e a
participação coletiva, com autocontrole e fexibilidade;
X. promover, em situações de confito, diálogo e regras coletivas de
convivência, integrando saberes e conhecimentos, compartilhando
metas e objetivos coletivos.
Para tanto, abordaremos a compreensão dos signicados dos princípios
norteadores da democracia, ética e cidadania, além de realizar uma refexão e uma
discussão sobre as questões ético-morais, na relação indivíduo e sociedade.
2 A DEMOCRACIA EM PAUTA
Estamos vivendo em um país apresentado como democrático! Será que todos
nós compreendemos o sentido real da democracia e seus refexos na sociedade
brasileira? Em outros termos, o que realmente é este Estado Democrático de Direito em
que vivemos?
Neste sentido, Moisés (2010, p. 277) expõe que “o signicado mais usual da
democracia se refere aos procedimentos e aos mecanismos competitivos de escolha
de governos através de eleições”, ou seja, a democracia é compreendida habitualmente
somente como um processo de escolha dos nossos representantes legais em todas
as esferas, tanto local, municipal, estadual quanto federal, no qual a população dessas
esferas, por meio de seu voto, seleciona e elege o seu representante para legislar em
nome dessa mesma população. Assim, “podemos considerar que a democracia nada
mais é do que um sistema de governo, no qual o povo governa para sua própria
sociedade” (PIERITZ, 2013, p. 133, grios do original).
Deste modo, pode-se observar que a democracia pode ser exercida de duas
ormas distintas, pois ela pode ser direta ou indireta (Quadro 1). O conceito de democracia
é notoriamente o entendimento de toda massa populacional brasileira nos dias de hoje,
pois quando se indaga às pessoas com relação ao conceito de democracia, é este
conceito de escolha de nossos representantes legais, por intermédio do voto popular,
que aparece nos discursos da população de nosso país.
5
QUADRO 1 – FORMAS DE DEMOCRACIA
FONTE: Adaptado de Pieritz (2013, p. 133)
FORMAS DE DEMOCRACIA
Democracia
direta
Na qual o povo decide diretamente, por meio de referendo/plebiscito,
se aceita ou não determinadas questões políticas e administrativas de
sua localidade, Estado ou país.
Democracia
indireta
Nesta, o povo participa democraticamente, pormeio do voto, elegendo
seu representante político, ou seja, uma pessoa que o represente nas
diversas eseras governamentais, para tomar decisões cabíveis em
nome do povo que o elegeu.
Cunha (2011, p. 105) expõe que a democracia pode ser compreendida como
“método de organização social e política tendente à maior realização da liberdade e
da igualdade. [é um] Sistema político em que o povo constitui e controla o governo, no
interesse de todos”.
Outro fator que não podemos esquecer é que, quando falamos em democracia,
também falamos de Estado Democrático de Direito. Segundo Cunha (2011, p. 138), o
“Estado de direito [é aquele] que se organiza e opera democraticamente”. Nossa Carta
Magna de 1988, já em seu preâmbulo, instituiu um Estado Democrático de Direito,
ou seja, a Constituição da República Federativa do Brasil se organizou e deniu suas
normativas em prol de um Estado Democrático, no qual a democracia deverá ser a
base undamental da República Federativa do Brasil. Assim, segundo Pieritz (2013, p.
133), “este sistema de governo democrático possui ormatos dierentes nas diversas
sociedades, pois em cada uma existem regras e normas dierentes, e isto acontece por
causa da constituição dos princípios ético-morais de cada localidade”.
Vale salientar que a democracia vai muito além desse discurso sintético de
representação e de voto, pois Moisés (2010, p. 277, grios nossos) coloca-nos que:
existemoutrasperspectivasqueampliamacompreensãodoconceito,
incluindo tanto as dimensões que se referem aos conteúdos da
democracia, como também os seus resultados práticos esperados no
terreno da economia e da sociedade. Por uma parte, acompanhando a
abordagem minimalista de Schumpeter (1950) e a procedimentalista
de Dahl (1971), vários autores deniram a democracia em termos de
competição, participação e contestação pacífca do poder.
Neste sentido, no que tange à conotação que a democracia tem de competição,
participação e contestação pacíca do poder, pode-se expor que alar de democracia
também está atrelado ao conceito do “jogo de poderes”, principalmente a disputa e
concorrência decargos emtodas as esferas governamentais ounão, alémdacompetição
entre partidos políticos e outros grupos econômicos, políticos, culturais e sociais.
6
Além disso, não podemos esquecer um elemento fundamental da democracia,
que é a questão da “participação do povo”, em que cada cidadão brasileiro é
elemento fundamental no processo democrático do Brasil, pois direta ou indiretamente
é parte do processo democrático instaurado neste país. Ao proerir sua escolha,
independentemente do que for ou de que escolha fora feita, torna-se automaticamente
parte do Estado Democrático de Direito e integra-se ao sistema vigente de democracia
daquele determinado Estado.
Resumidamente, a Figura 1 apresenta o primeiro entendimento da denição e o
signicado da democracia e o Estado Democrático de Direito.
FIGURA 1 – DEMOCRACIA E O ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO
FONTE: Os autores
Maciel (2012, p. 73, grios do original) complementa expondo que a democracia
“tornou-se uma aspiração universal, por ser o regime de governo mais propenso a
garantir os direitos individuais, porém não se resume simplesmente ao ato de votar,
sendo que o direito à participação tornou-se uma atividade importante diante da
constituição da cidadania”.
Por conseguinte, pode-se expor que democracia denota participação direta ou
indireta da população em todos os espaços que necessitem do veredito do povo em prol
de objetivos comuns a ele mesmo. Assim, Beethan (2003, p. 110 apud MACIEL, 2012, p.
73, grios nossos) complementa expondo que:
7
O direito à participação pode ser tanto reativo quanto proativo. Em sua
forma reativa, a participação consiste na articulação coletiva de
respostas a políticas de desenvolvimento. Na orma proativa, ela invoca
a responsabilidade popular no desencadeamento da articulação de
políticas de desenvolvimento. No primeiro caso, os governos propõem e
oscidadãos reagem; no segundo, os cidadãos propõem e os governos
reagem. Em ambas as formas, o direito de participação assume
a lógica de colaborar com o desenvolvimento. “No coração da
democracia repousa, assim, o direito do cidadão de opinar nos assuntos
públicos e de exercer controle sobre o governo, empé de igualdade com
os demais”.
Deste modo, pode-se expor que um dos elementos da democracia é a
articulação coletiva do povo em prol de uma determinada demanda social, política,
cultural ou econômica. Para que se possa debater coletivamente os prós e contras, no
que tange aos assuntos pertinentes ao interesse coletivo, dando assim respostas a esta
mesma demanda.
Vale salientar que a não participação e a omissão também são formas de
participação, pois retratam a sua alienação, indiferença, contestação ou o seu
descontentamento em relação ao sistema vigente. Então, isto não quer dizer que
aquele cidadão que se omitiu ou apenas não quis participar não fez parte do processo
democrático de um país, pelo contrário, todo cidadão tem o direito de participar ou não,
mesmo que o voto no Brasil seja obrigatório, pois ao votar ele exprime a sua vontade,
ou o seu desejo.
Aqui ca claro que a população, ao exercer seu direito de participação de orma
proativa, demonstra seus direitos e responsabilidades perante os efeitos da decisão
coletiva. Entretanto, também existem quatro condições necessárias para que se possa
instaurar um regime governamental pautado na democracia.
QUADRO 2 – CONDIÇÕES BÁSICAS PARA O REGIME DEMOCRÁTICO
FONTE: Adaptado de Moisés (2010, p. 277)
Disponível em: <http://
rafaelsilva.over-blog.es/
article-objetivo-demo-
cracia-iv-124370354.
html>.
Direito dos cidadãos de ESCOLHEREMGOVERNOS pormeio de
eleições com a participação de todos os membros adultos da
comunidade política. A isso se dá o nome de sufrágio universal
(direito ao voto).
ELEIÇÕES regulares, livres, competitivas, abertas e signicativas.
GARANTIADEDIREITOS de expressão, reunião e organização, em
especial, de partidos políticos para competir pelo poder.
Acesso a fontes alternativas de INFORMAÇÃO sobre a ação
de governos e a política em geral.
Essas quatro condições mínimas para implantar um regime democrático são de
fundamental importância para que haja a participação democrática de um povo em prol
dos objetivos comuns do próprio povo, uma vez que a democracia vai muito além da
simples representação e de voto, ela se efetiva e concretiza-se com a participação, com
a competição e a contestação dos processos pacícos da busca do poder no Estado
Democrático de Direito.
8
Sucintamente, a Figura 2 apresenta a ampliação da compreensão do
entendimento do signicado da democracia, ou seja, o seu conceito ampliado:
FIGURA 2 – CONCEITO AMPLIADO DE DEMOCRACIA
FONTE: Os autores
Caro acadêmico, para colaborar com seus estudos, veja que a junção
das Figuras 1 e 2 proporciona o entendimento global do que é
democracia.
ATENÇÃO
3 A QUESTÃO DA ÉTICA
O tema que abordaremos neste momento é relativo à questão da ética, a qual
permeia constantemente nosso dia a dia, seja no âmbito amiliar, social ou prossional.
Aparentemente, compreendemos o seu signicado e seus eeitos, mas será que
realmente compreendemos o seu sentido real? Será que sabemos o que é certo ou
errado para nós na sociedade em que vivemos?
Neste sentido, Tomelin e Tomelin (2002, p. 89) expõem que “a ética é uma das
áreas da losoa que investiga sobre o agir humano na convivência com os outros [...]”.
Em outros termos, as nossas ações perante a sociedade em que vivemos são orientadas
9
por princípios éticos e morais, e esses princípios são norteadores de consciência moral
do certo e do errado, do bem e do mal.
Demodomais abrangente, a ética pode ser conceituada como a área da losoa
que investiga o agir humano, tanto aqueles com repercussão social, quanto aqueles sem
maiores impactos na sociedade, ou seja, não somente os atos relativos à convivência
com os outros, mas também consigo mesmo.
Assim, no que tange a esta problemática relativa à ética, Pieritz (2013, p. 3)
expõe que “a ética não é acilmente explicável, mas todos nós sabemos o que é, pois
está diretamente relacionada aos nossos costumes e às ações em sociedade, ou seja,
ao nosso comportamento, ao nosso modo de vida e de convivência com os outros
integrantes da sociedade”. E que esses valores éticos são construídos historicamente
pelos povos, de geração em geração.
O que são valores? Pedro (2014, p. 490) az um resgate etimológico da palavra
Axiologia, de origem grega, que signica estudo dos valores ou ciência do valor, e aponta
para um signicado, o da vivência do valor, independentemente do valor que or, pois
este é experienciado como um enômeno que se apresenta à consciência como tal e
como um acontecimento que nos é imediatamente dado.
Para a lósoa húngara Agnes Heller (1972, p. 4), “valor é tudo aquilo que az
parte do ser genérico do homem e contribui, direta ou mediatamente para a explicação
desse ser genérico”. Vejamos no Quadro 3 quais são os atributos dos valores humanos
na perspectiva de Heller:
OBJETIVAÇÃO
- que se expressa prioritariamente por intermédio do trabalho;
- que proporciona sair do subjetivo e passar para o real e
concreto.
SOCIALIDADE
- que se expressa com a convivência com o outro, em grupo;
- aprendizagem com o outro;
- assimilação de normas sociais.
CONSCIÊNCIA
- tomar ciência dos atos ou de alguma coisa;
- reconhecimento da realidade;
- descoberta de algo;
- capacidade de perceber as coisas.
UNIVERSALIDADE
- universal;
- o todo;
- fazer parte de um determinado grupo.
LIBERDADE - livre-arbítrio.
QUADRO 3 – ATRIBUTOS DOS VALORES HUMANOS
FONTE: Adaptado de Bonetti et al. (2010, p. 23)
10
FONTE: Os autores
QUADRO 4 – EXEMPLOS DOS VALORES E VIRTUDES HUMANOS
Portanto, os atributos dos valores humanos apresentados no Quadro 3 são
os elementos constitutivos do ser humano, do ser social, que formam os nossos
valores morais. Complementando, no Quadro 4 apresentamos mais exemplos
dos valores e virtudes do ser humano, que vive e convive em sociedade.
Amizade Justiça Obediência Respeito Simplicidade
Lealdade Compreensão Sinceridade Pudor Generosidade
Paciência Ordem Humildade Autoestima Liberdade
Deste modo, podemos expor que “todos nós possuímos princípios e valores que
oram e são constituídos por nossa sociedade. E, com relação a esses valores, cada um
de nós possui uma visão do que é certo e errado, do que é o bem e o mal” (PIERITZ,
2012, p. 57).
Não podemos nos esquecer de que “esta consciência moral é determinada por
um consenso coletivo e social, ou seja, o conjunto da sociedade é que formula e compõe
as normas de conduta que o regem. Como exemplo, temos a nossa Constituição Federal
e outras regras e normas de nossa sociedade” (PIERITZ, 2013, p. 4).
São estas regras e normativas jurídicas e sociais que determinam o nosso agir
em sociedade, e cada grupo social possui suas características, ou seja, não se pode
dizer que todos nós somos iguais, que todas as nações e Estados são iguais, porque não
somos, pois, independentemente do Estado, do país ou grupo social, omos moldando
nossos valores e princípios de orma dierente ao longo de nossa existência.
Agora, acadêmico, raciocine o seguinte: se é um fato que nossa consciência
moral é construída no seio de uma sociedade e com a infuência do meio e das
pessoas com as quais convivemos, há ainda outros fatores que concorrem para
a constituição da consciência moral, e esse elemento é chamado de Lei natural
– pelos jusnaturalistas – e tem caráter universal, pois perpassa as sociedades
políticas, é algo mais proundo que elas, constitui-se na própria natureza humana em
sua universalidade (ROHLING, 2012). Segundo Valls (2003, p. 8):
costuma-se separar os problemas teóricos da ética em dois
campos: num, os problemas gerais e undamentais (como liberdade,
consciência, bem, valor, lei e outros); e no segundo, os problemas
especícos, de aplicação concreta, como os problemas da ética
prossional, de éticapolítica, de ética sexual, de ética matrimonial,
de bioética etc.
11
Em outros termos, os problemas éticos permeiam todas as nossas ações em
sociedade. Neste sentido, vale salientar que “cada sociedade possui suas normas de
conduta comportamental e seus princípios morais, ou seja, cada grupo social constitui o
que é certo e errado, o que é o bem e omal para o seu povo, portanto, nem sempre o que é
certo para nós pode ser certo para um outro grupo social e vice-versa” (PIERITZ, 2013, p. 4).
Então, como desvelar esta situação? Como saber se estamos no caminho certo?
Se estamos fazendo certo ou errado? Ou se realmente estamos fazendo o bem ou o mal
a alguém? São muitas indagações!
Para auxiliar a refexão sobre essas questões, Finnis (lósoo e jurista australiano)
identica sete valores básicos, os quais são os seguintes:
I) vida; II) o conhecimento; III) o jogo; IV) a experiência estética; V)
a sociabilidade; VI) a razoabilidade prática; e, VII) a religião. Esses
valores, contudo, não são os únicos, pois existem, evidentemente,
muitos outros, os quais, segundo propõe o autor, são modos ou
combinações de modos de buscar – embora nem sempre com
sensatez – e de realizar – nem sempre exitosamente – uma das sete
ormas básicas de bem, ou alguma combinação delas (ROHLING,
2012, p. 163).
Neste sentido, podemos observar ainda que:
os problemas éticos se distinguem da moral pela sua característica
genérica, enquanto que a moral se caracteriza pelos problemas
da vida cotidiana. O que há de comum entre elas é fazer o homem
pensar sobre a responsabilidade das consequências de suas ações.
A ética faz pensar sobre as consequências universais, sempre
priorizando a vida presente e futura, local e global. Amoral faz pensar
as consequências grupais, adverte para normas culturalmente
ormuladas ou pode estar undamentada num princípio ético. A
ética pode, desta orma, pautar o comportamento moral (TOMELIN;
TOMELIN, 2002, p. 90).
Podemos expor que deste ponto de vista existem dierenças nítidas entre ética
e moral, sendo que a ética é generalista e a moral refete o comportamento socialmente
construído e legitimado pelo seu povo. Enm, Tomelin e Tomelin (2002, p. 89, grios
do original) complementam expondo que “a palavra ética provém do grego ethos e
signica hábitos, costumes, e se reere à morada de um povo ou sociedade. A palavra
moral provém do latim moralis e signica costume, conduta”. Logo, conorme Pieritz
(2012, p. 58, grios nosso):
A principal função da ética é sugerir qual o melhor comportamento
que cada pessoa ou grupo social tem ou venha a ter. Indicando o que
é certo ou errado, o que é bom ou mal. Porém, este comportamento
sempre partirá do ponto de vista dos princípios morais de cada
sociedade, ou seja, seu grupo social. A ética auxilia no esclarecimento
e na explicação da realidade cotidiana de cada povo, procurando
sempre elaborar seus conceitos conforme o comportamento
correspondente de cada grupo social.
12
Por conseguinte, “o ético transforma-se assim numa espécie de legislador do
comportamento moral dos indivíduos ou da comunidade” (VÁZQUEZ, 2005, p. 20), ou
seja, a ética está para regular o nosso comportamento em sociedade.
Complementando, Vázquez (2005, p. 21) coloca-nos que “a ética é teoria,
investigação ou explicação de um tipo de experiência humana ou orma de
comportamento dos homens [...]”, ou seja, “o valor de ética está naquilo que ela explica
– o fato real daquilo que foi ou é –, e não no fato de recomendar uma ação ou uma
atitude moral” (PIERITZ, 2013, p. 7, grio nosso).
Devemos compreender as diferenças conceituais de ética e moral, pois
“podemos armar que a ética estuda e investiga o comportamento moral dos seres
humanos. E esta moral é constituída pelos dierentes modos de viver e agir dos
homens em sociedade, que é formada por suas diretrizes morais da vida cotidiana,
transormando-se no decorrer dos tempos” (PIERITZ, 2013, p. 19).
Todavia, o que é amoral?
Segundo Aranha e Martins (2003, p. 301, grios do original), “a MORAL vem do
latimmos, moris, que signica ‘costume’, ‘maneira de se comportar regulada pelo uso’, e
de moralis, morale, adjetivo reerente ao que é ‘relativo aos costumes’”. Assim, a moral
é compreendida como um conjunto de regras de condutas socialmente admitidas em
determinadas épocas ou por um grupo de pessoas, ou seja, “a moralidade dos homens
é um refexo direto do modo de ser e conviver em sociedade, no qual o caráter, os
sentimentos e os costumes determinam o seu comportamento individual e social, que
oi ou está sendo perpetuado num espaço de tempo” (PIERITZ, 2013, p. 35). Ainda de
acordo com Pieritz (2013, p. 38):
A moral sugere, constantemente, a valorização de nossas ações
e de nossos comportamentos em sociedade, mas é a moral que
determina quais são os nossos direitos e deveres perante a sociedade
em que vivemos. Estes deveres são conectados ao nosso modo de
ser e conviver em sociedade, gerando certas responsabilidades com
relação a si próprio e aos outros, tais como:
• sentimentos;
• escolhas;
• desejos;
• atitudes;
• posicionamentos diante da realidade;
• juízo de valor;
• senso moral;
• consciência moral.
Sob estas concepções de ética e moral, apresentamos as suas principais
diferenças na Figura 3:
13
FIGURA 3 – DIFERENÇAS ENTRE ÉTICA E MORAL
FIGURA 4 – DIFERENÇAS ENTRE ÉTICA E MORAL
FONTE: Adaptado de Tomelin e Tomelin (2002, p. 89-90)
FONTE: Adaptado de Paulo Netto (apud BONETTI et al., 2010, p. 23)
Assim, podemos observar que existem dierenças concretas entre estes dois
conceitos, no entanto, ainda devemos compreender que:
14
Assim, concluímos que a moral:
Vem se constituindo historicamente, mudando no decorrer da
própria evolução do homem em sociedade. Em que seus hábitos e
costumes são constituídos por esta relação social, em que a essência
humana é pautada por estes princípios morais. E estes, por sua vez,
constituem o ser social que somos. E a ética nesta questão chega
para simplesmente regular e analisar estes preceitos morais (PIERITZ,
2013, p. 21).
Por conseguinte, segundo Pieritz (2013, p. 21, grio nosso), “a ética é precursora
da TRANSFORMAÇÃO SOCIAL dos diversos sistemas ou estruturas sociais. Sistemas
estes que imprimiam suas mudanças sociais, tais como: Capitalismo e Socialismo”.
Por m, Pieritz (2013, p. 21) expõe que “quando é constituída uma nova estrutura
social, a ética, os valores e princípios morais são modicados para constituir assim esta
nova concepção de sociedade”. Ou seja, historicamente, com as transformações sociais,
políticas e econômicas de um povo, automaticamente o sistema de valores morais e
éticos se transorma, para que assim seja possível constituir um novo padrão sócio-
histórico daquele determinado grupo.
Salientando ainda que nesse processo de transformação social devemos
respeitar a permanência de alguns valores socialmente construídos, como a
solidariedade, a igualdade e a fraternidade, para que todos possamos construir uma
sociedade mais justa, ética, democrática e cidadã.
4 O PRINCÍPIO CONSTITUCIONAL DA CIDADANIA
Noque tange às questões pertinentes à cidadania, partiremos de sua concepção
advinda do Título I – “Dos Princípios Fundamentais” da Constituição da República
Federativa do Brasil de 1988, a qual assim expressa:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união
indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-
se em Estado democrático de direito e tem como fundamentos:
I - a soberania;
II - a cidadania;
III - a dignidade da pessoa humana;
IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa;
V - o pluralismo político.
Parágrao único. Todo o poder emana do povo, que o exerce por
meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta
Constituição.
Neste sentido, podemos observar que um dos princípios undamentais da Carta
Magna brasileira é a cidadania, mas você sabe o seu signicado?
15
Vejamos: cidadania “é um conjunto de direitos e deveres que denotam e
undamentam as condições do comportamento de cadaindivíduo em relação à
sociedade, ou seja, a cidadania designa normas de conduta para o convívio social,
determinando nossas obrigações e direitos perante os outros integrantes da nossa
sociedade” (PIERITZ, 2013, p. 132). Neste sentido:
Ser cidadão é respeitar e participar das decisões da sociedade, para
melhorar suas vidas e a de outras pessoas. Ser cidadão é nunca
esquecer das pessoas que mais necessitam. A cidadania deve ser
divulgada através de instituições de ensino e meios de comunicação,
para o bem-estar e desenvolvimento da nação. A cidadania consiste
desde o gesto de não jogar papel na rua, não pichar os muros,
respeitar os sinais e placas, respeitar os mais velhos (assim como
todas as outras pessoas), não destruir teleones públicos, saber dizer
obrigado, desculpe, por favor e bom dia quando necessário [...], até
saber lidar com o abandono e a exclusão das pessoas necessitadas,
o direito das crianças carentes e outros grandes problemas que
enrentamos em nosso país. ‘A revolta é o último dos direitos a
que deve um povo livre para garantir os interesses coletivos: mas
é também o mais imperioso dos deveres impostos aos cidadãos’.
Juarez Távora - Militar e político brasileiro (WEB CIÊNCIA, 2009 apud
PIERITZ, 2013, p. 132).
Portanto, podemos observar que a cidadania possui três dimensões.
QUADRO 5 – DIMENSÕES DA CIDADANIA
FONTE: Adaptado de Pieritz (2013, p. 132-133)
DIMENSÕES DACIDADANIA
Cidadania
civil
São aqueles direitos advindos da LIBERDADE de cada indivíduo, por
exemplo:
• o livre-arbítrio para expressar nossos pensamentos;
• o direito de propriedade (venda e compra de um
imóvel, um bem ou serviço);
• entre outros.
Cidadania
política
Podemos considerar que a cidadania política se legitima quando os
homens exercem seu poder político de ELEGER e SER ELEITOS
para o exercício do poder político, independentemente da instituição
pública ou privada na qual venham exercer suas atribuições.
Cidadania
social
Compreendida como o conjunto de direitos concernentes ao
CONFORTO de cada cidadão, no que tange à sua vida econômica e
social, ou seja, do seu bem-estar social.
A cidadania expressa os direitos e deveres de todas as pessoas que vivem e
convivem em sociedade, seja na esera social, política ou civil, no que tange ao respeito a
si, ao próximo e ao patrimônio público e privado. Além de que a cidadania é participação
nos espaços públicos de discussão, a qual permeia as questões de democracia e ética
de toda a população daquele determinado grupo social, político ou econômico.
16
Deste modo, Maciel (2012, p. 29) expõe que hoje em dia a cidadania é “sinônimo
de participação que remete ao exercício da democracia para além das eleições. Somos
‘controladores’ da política, do orçamento, ou seja, das ações do Estado como um todo”.
Cada cidadão tem o dever e o direito de participar de todos os espaços democráticos do
seu município, Estado ou Federação.
Nesse sentido, tem-se a participação como um mecanismo do exercício da
cidadania, ou seja, “O conceito contemporâneo de cidadania transcende a simples
lógica da garantia de direitos legais. Segundo a concepção de Dallari (2004), a cidadania
expressa um conjunto de direitos que dá à pessoa a possibilidade de participar da
vida e do governo de seu povo” (MACIEL, 2012, p. 31). Portanto, a palavra de ordem é
“participar”, azer parte do processo democrático, pois, de acordo com Maciel (2012,
p. 32), quem não exerce sua cidadania “está excluído da vida social e da tomada de
decisões. A cidadania não signica apenas uma conquista legal de alguns direitos,
mas sim a realização destes direitos. Ela é construída e conquistada a partir da nossa
capacidade de organização, participação e intervenção social”.
Vale salientar que a cidadania é conquistada pela nossa participação nos
momentos das discussões e decisões coletivas, portanto a cidadania se dá pela
participação ativa de nossa vida em sociedade e na vida pública.
17
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• A compreensão do signicado mais usual da democracia denota que a democracia
é compreendida como um sistema de governo, no qual o povo governa para sua
própria sociedade.
• A democracia pode ser exercida de duas ormas distintas, pois ela pode ser direta ou
indireta.
• A democracia é compreendida popularmente como a escolha de nossos
representantes legais, por intermédio do voto popular.
• O Estado Democrático de direito, que é aquele Estado que se organiza e opera
democraticamente.
• A Constituição da República Federativa do Brasil se organizou e deniu suas
normativas em prol de um Estado Democrático, no qual a democracia deverá ser a
base fundamental da República Federativa do Brasil.
• A democracia também está atrelada ao conceito do “jogo de poderes”, principalmente
a disputa e concorrência de cargos em todas as esferas governamentais ou não.
• É importante relembrar que o elemento fundamental da democracia é a “participação
do povo”.
• A ética é uma das áreas da losoa que investiga o agir humano na convivência com
os outros.
• A ética está diretamente relacionada aos nossos costumes e às ações em sociedade,
ou seja, ao nosso comportamento, ao nosso modo de vida e de convivência com os
outros integrantes da sociedade.
• Todos nós possuímos princípios e valores que oram e são constituídos por nossa
sociedade. E, com relação a estes valores, cada um de nós possui uma visão do que
é certo e errado, do que é o bem e o mal.
• A consciência moral é determinada por um consenso coletivo e social, ou seja, o
conjunto da sociedade é que formula e compõe as normas de conduta que o regem.
• Os problemas éticos permeiam todas as nossas ações em sociedade.
RESUMO DO TÓPICO 1
18
• Existem dierenças nítidas entre ética e moral, sendo que a ética regula a moral,
a ética é generalista e a moral refete o comportamento socialmente construído e
legitimado pelo seu povo.
• A principal função da ética é sugerir qual o melhor comportamento que cada pessoa
ou grupo social tem ou venha a ter. Indicando o que é certo ou errado, o que é bom
ou mal.
• O valor da ética está naquilo que ela explica, o ato real daquilo que oi ou é, e não no
fato de recomendar uma ação ou uma atitude moral.
• Um dos princípios undamentais da Carta Magna brasileira é a cidadania.
• A cidadania designa normas de conduta para o convívio social, determinando nossas
obrigações e direitos perante os outros integrantes da nossa sociedade.
• A cidadania expressa os direitos e deveres de todas as pessoas que vivem e convivem
em sociedade, seja na esera social, política ou civil, no que tange ao respeito a si, ao
próximo e ao patrimônio público e privado.
• Cada cidadão tem o dever e o direito de participar de todos os espaços democráticos
do seu município, Estado ou Federação. A participação é compreendida como um
mecanismo do exercício da cidadania.
19
1 (ENADE-2010, Formação Geral, Questão 9) As seguintes acepções
dos termos democracia e ética oram extraídas do Dicionário Houaiss
da Língua Portuguesa.
2 (ENADE-2010, Formação Geral, Questão 2)
AUTOATIVIDADE
democracia.POL. 1governo do povo; governo em que o povo exerce
a soberania 2 sistema político cujas ações atendem aos interesses
populares 3 governo no qual o povo toma as decisões importantes
a respeito das políticas públicas, não de orma ocasional ou
circunstancial, mas segundo princípios permanentes de legalidade 4
sistema político comprometido coma igualdade ou coma distribuição
equitativa de poder entre todos os cidadãos 5 governo que acata a
vontade da maioria da população, embora respeitando os direitos e a
livre expressão das minorias.
ética. 1parte da losoa responsável pela investigação dos princípios
que motivam, distorcem, disciplinam ou orientam o comportamento
humano, refetindo especialmente a respeito da essência das normas,
valores, prescrições e exortações presentes em qualquer realidade
social. 2 p.ext. conjunto de regras e preceitos de ordem valorativa
e moral de um indivíduo, de um grupo social ou de umasociedade.
DicionárioHouaiss daLínguaPortuguesa. Rio deJaneiro: Objetiva, 2001.
Considerando as acepções acima, elabore um texto dissertativo, com até 15 linhas, acerca
do seguinte tema:Comportamentoéticonas sociedadesdemocráticas.
Em seu texto, aborde os seguintes aspectos:
a) conceito de sociedade democrática;
b) evidências de um comportamento não ético de um indivíduo;
c) exemplo de um comportamento ético de um uturo prossional comprometido com
a cidadania.
20
A charge acima representa um grupo de cidadãos pensando e agindo de modo
dierenciado, rente a uma decisão cujo caminho exige um percurso ético. Considerando
a imagem e as ideias que ela transmite, avalie as alternativas que seguem.
I- A ética não se impõe imperativamente nem universalmente a cada cidadão; cada um
terá que escolher por si mesmo os seus valores e ideias, isto é, praticar a autoética.
II- A ética política supõe sujeito responsável por suas ações e pelo seu modo de agir na
sociedade.
III- A ética pode se reduzir ao político, do mesmo modo que o político pode se reduzir à
ética, em um processo a serviço do sujeito responsável.
IV- A ética prescinde de condições históricas e sociais, pois é no homem que se situa a
decisão ética, quando ele escolhe os seus valores e as suas anidades.
V- A ética se dá de fora para dentro, como compreensão do mundo, na perspectiva do
fortalecimento dos valores pessoais.
Estão corretas:
a) ( ) I e II.
b) ( ) I e V.
c) ( ) II e IV.
d) ( ) III e IV.
e) ( ) III e V.
21
SOCIEDADE E A DIVERSIDADE
1 INTRODUÇÃO
Vamos iniciar o nosso tópico apresentando algumas denições e conceitos
a respeito dos problemas sociais ocasionados pela diversidade que gera diferenças
entre coisas e seres, que por consequência geram os mais diversos preconceitos,
desigualdades e confitos sociais.
Vamos reconhecer a necessidade e a essencialidade da inclusão como uma
forma de democratização das relações sociais, principalmente na emancipação e na
sutileza do trato com o outro, seja em relação aos “iguais” ou entre iguais e diferentes, o
que signica apenas uma concepção criada para dierenciar pessoas ou grupos sociais
que, de alguma orma, ainda não oram incluídos no contexto social.
2 CONCEITOS DE DIVERSIDADE CULTURAL E
DESIGUALDADE SOCIAL
A diversidade cultural e a desigualdade social, apesar de terem conceitos
distintos, desempenham uma ampla relação entre seus termos, isto é, quanto maior for
a diversidade cultural, maior será a desigualdade social.
Neste sentido, Gomes (2012, p. 678) arma que “a diversidade, entendida como
construção histórica, social, cultural e política das dierenças, realiza-se em meio às
relações de poder e ao crescimento das desigualdades e da crise econômica que se
acentuam no contexto nacional e internacional”.
A diversidade cultural brasileira se deu pelo processo de miscigenação entre
brancos, índios e negros e oi marcada por uma série de crenças, hábitos, costumes e
conceitos contraditórios, alimentando assim uma discussão permanente a respeito dos
direitos e deveres dos seres humanos. Principalmente no combate aos preconceitos
remanescentes e oriundos dessa relação, que perdurou por séculos, trazendo sérias
consequências a uma imensa população de oprimidos, incluindo-se aí os negros, os
índios, os pobres, os portadores de algum tipo de deciência, tipos de preerências,
relações e dierenças sexuais, doenças crônicas, dentre outras ormas de relações
consideradas por uma boa parte da sociedade como algo fora da normalidade e, por
esse motivo, não aceitável.
UNIDADE 1 TÓPICO 2 -
22
3 DIVERSIDADE CULTURAL E DESIGUALDADE SOCIAL
A diversidade no contexto cultural signica uma grande quantidade de coisas,
ações, pensamentos, ideias e pessoas que se diferenciam entre si dentro de grupos
sociais ou dentro de uma mesma sociedade, e os mesmos são passíveis de discussão,
apelos, protestos, discórdia e geralmente acabam em confitos, chegando até às
desigualdades sociais.
Por isso, a presença da diversidade no acontecer humano nem sempre
garante um trato positivo dessa diversidade. Os dierentes contextos
históricos, sociais e culturais, permeados por relações de poder e
dominação, são acompanhados de uma maneira tensa e, por vezes,
ambígua de lidar com o diverso. Nessa tensão, a diversidade pode ser
tratada de maneira desigual e naturalizada (GOMES, 2007, p. 19).
No entanto, existempontos devista convergentes e pontos devista divergentes,
ambos discriminatórios, um no sentido positivo e outro no sentido negativo, isto é,
no primeiro caso, trata-se daquilo que já foi estipulado pela sociedade como regras
relacionadas com bom senso; já no segundo caso, são ações que não condizem com
a ordem preestabelecida através das leis, normas e regras que regulam e inibem o que
podemos denir como procedimentos absurdos. Portanto, a desigualdade social tem os
seus princípios pautados nas tendências e nas dierenças de cada indivíduo. Vejamos:
A pobreza: é uma condição que faz parte de um determinado grupo de pessoas
que vivem à margem da sociedade, que são carentes dos recursos existentes, como
moradia, alimentação, situação nanceira etc. O que, na visão de alguns autores, é a
condição que mais degrada o ser humano e a que mais se aproxima e se identica como
um ator ou um elemento causal do desequilíbrio econômico e da desigualdade social.
Raça: trata-se da discriminação social, o que é muito presente nos dias de
hoje por alguns grupos inescrupulosos que agridem com palavras ou pela violência
ísica pessoas que não são da mesma etnia, não têm a mesma cor da pele, ou são de
dierentes religiões ou, até mesmo, por causa de seu comportamento sexual.
A discriminação racial diz respeito à raça/cor/fenótipo, que é um fator inerente
à pessoa. Tal discriminação é abominável, assim como a discriminação a decientes
ísicos ou idosos, pois tratam-se de aspectos involuntários e que, ademais, revelam a
riqueza multifacetada da ordem criada, da diversidade natural.
Outro tipo de discriminação é a avaliação dos atos e comportamentos, seja na
escolha de uma religião e suas práticas ou nas ações que envolvem a sexualidade, entre
outros aspectos do comportamento humano, pois nesses casos não se trata de aspectos
inerentes ou involuntários, mas de opções sobre as quais podemos [e devemos] fazer
juízos morais. Do contrário, por que estaríamos discutindo isso? Será que o ser humano,
com toda capacidade de raciocínio e refexão sobre si mesmo, reconhece a riqueza da
pessoa? Haveria alguma etnia “melhor” que outra?
23
Podemos citar como exemplo o que aconteceu com os judeus, conhecido
como o holocausto, ou o caso da África do Sul, que teve repercussão mundial, também
conhecido como segregação racial (Apartheid), que signica separação entre negros e
os brancos das classes dominantes.
Sugerimos que você assista ao lmeMandela, que ala sobre a vida do ex-
presidente da Árica do Sul e líder da luta contra o Apartheid. O lme tem
como diretor Justin Chadwick.
DICAS
Como podemos perceber, o preconceito, a discriminação e o descaso com
algumas pessoas têm ocasionado uma série de sofrimento e dor, principalmente para
aquelas que são rejeitadas por uma grande parte da sociedade, em que as mesmas são
julgadas e condenadas ao mesmo tempo, após serem classicadas como dierentes,
porém, diferentes no sentido tendencioso e pejorativo, e muitas vezes essas pessoas
são taxadas e rotuladas como pervertidas, no caso dos homossexuais, e rágeis, no caso
das mulheres. Vejamos:
Mulher: inelizmente, as estatísticas comprovam que apesar das várias leis
existentes, no caso especíco da Lei Maria da Penha, instituída para a proteção da
integridade da mulher brasileira contra casos de violência doméstica, ainda existem
casos absurdos de desrespeito à dignidade humana, não discriminando raça, religião
ou posição social.
Homossexualidade: é o comportamento sexual entre pessoas do mesmo sexo,
e para alguns indivíduos esse tipo de comportamento ere as normas de conduta
universal. No entanto, já existem projetosno Congresso Nacional que criminalizam
certas atitudes discriminatórias contra essa parcela da sociedade, o que signica um
avanço na busca de um espaço alternativo, o que é perfeitamente compreensivo em
uma sociedade cultural democrática.
De acordo comSilva (2007, p. 133), “[...] os dierentes grupos sociais, situados em
posições dierenciadas de poder, lutam pela imposição de seus signicados à sociedade
mais ampla”. Assim, é fundamental que percebamos as diferenças e desigualdades não
de orma natural, mas como uma construção histórica possível de ser desestabilizada
em sua orma rígida, para ser transormada em algo que possa ser identicado e
24
reconhecido como base para a construção de relações interpessoais mais democráticas
dentro da sociedade, isto é, devemos pensar e repensar o seu conceito histórico e a sua
trajetória utura, pois, de acordo com Gomes (2007, p. 22):
Adiversidadeculturalvariadecontextoparacontexto.Nemsempreaquilo
que julgamos como dierença social, histórica e culturalmente construída
recebe a mesma interpretação nas diferentes sociedades. Além disso, o
modo de ser e de interpretar omundo também évariado e diverso.
Por isso, a diversidade precisa ser entendida em uma perspectiva
relacional. Ou seja, as características, os atributos ou as ormas
‘inventadas’ pela cultura para distinguir tanto o sujeito quanto o
grupo a que ele pertence dependem do lugar por eles ocupado na
sociedade e da relação que mantêm entre si e com os outros.
Portanto, o caráter multicultural de nossas sociedades revela-se hoje temática
quase obrigatória nas discussões sobre sociedade e sobre educação. Porém, refetir
sobre a diversidade exige um posicionamento crítico diante de uma realidade cultural
e racialmente miscigenada, assunto que, apesar de já ter sido discutido anteriormente,
achamos prudente e viável inserir neste parágrao outra opinião, que conrma as
anteriores a respeito do processo de miscigenação.
“Não podemos esquecer que a sociedade é construída em contextos históricos,
socioeconômicos e políticos tensos, marcados por processos de colonização e dominação.
Estamos,portanto,noterrenodasdesigualdades,das identidadesedasdierenças” (GOMES,
2007, p. 22). E ainda segundo Gomes (2003, p. 73):
O reconhecimento dos diversos recortes dentro da ampla temática
da diversidade cultural (negros, índios, mulheres, portadores de
necessidades especiais, homossexuais, entre outros) coloca-nos
frente a frente com a luta desses e outros grupos em prol do respeito
à dierença. Coloca-nos também diante do desao de implementar
políticas públicas em que a história e a dierença de cada grupo
social e cultural sejam respeitadas dentro das suas especicidades,
sem perder o rumo do diálogo, da troca de experiências e da garantia
dos direitos sociais. A luta pelo direito e pelo reconhecimento das
diferenças não pode se dar de forma separada e isolada e nem resultar
em práticas culturais, políticas e pedagógicas solidárias e excludentes.
No entanto, a diversidade e a diferença dizem respeito não somente aos sinais
que podem ser vistos a olho nu, mas também àqueles que são construídos socialmente
ao longo de um processo histórico, tendo os seus pontos divergentes e convergentes,
que são construídos através das relações sociais e, principalmente, nas relações de
poder e de submissão, e para algumas pessoas, nem sempre esse posicionamento é
entendido dessa forma.
Como nos diz Carlos Rodrigues Brandão (1986 apud GOMES, 2007, p. 25), “por
diversas vezes, os grupos humanos tornam o outro diferente para fazê-lo inimigo”.
Aproundando essa refexão, tomamos como exemplo a Constituição Federal de 1988, que
trata no Artigo 5º dos Direitos e Deveres Individuais e Coletivos:
25
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer
natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes
no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à
segurança e à propriedade, nos termos seguintes:
I - homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações, nos
termos desta Constituição;
II - ninguém será obrigado a azer ou deixar de azer alguma coisa
senão em virtude de lei;
III - ninguém será submetido a tortura nem a tratamento desumano
ou degradante; [...] (BRASIL, 1988, s.p.).
Neste sentido, surgem algumas perguntas relacionadas à diversidade humana
e seus direitos: se “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza”,
tendo reconhecidas suas individualidades de homem e mulher como cidadãos, por
que tanto se discute sobre as “questões de gênero”? Será que essa ideologia propõe
a valorização da pessoa humana? Ou está disposta a trazer divisão, confusão de ideias
ou até mesmo a negação da ordem natural? Ao privilegiar determinados grupos em
detrimento de outros, não estaria contrariando a própria Constituição?
Acadêmico, são muitos os questionamentos, e conforme destacado na
apresentação deste livro, “aprender a questionar é tão importante quanto buscar
o saber”. Por isso, nosso propósito é estimular o seu raciocínio crítico sobre a realidade
em que vivemos, em um tempo de profundas e rápidas mudanças culturais, um tempo
de aumento do individualismo, da comunicação quase que exclusivamente on-line,
em que pouco se ouve, vê, toca ou sente. O diálogo é o caminho que nos une, revela
nossa capacidade de aprender com o próximo e permite que as dierenças avoreçam a
complementariedade promotora da paz.
Pensarna diversidade cultural é pensar emsociedade, que envolve pensamento,
ideia, ação emudanças, isto é, signica pensar não apenas no reconhecimento do outro,
mas pensar na relação entre o eu e o outro, pois, quando consideramos o outro estamos
também considerando a nossa história, o nosso grupo e o nosso povo, mas não apenas
como um simples padrão de comparação, e sim em sua totalidade.
FIGURA 5 – DIVERSIDADE CULTURAL
FONTE: Disponível em: <http://educacaobilingue.com/2010/01/17/indigena/>. Acesso em: 12 fev. 2014.
26
Nessa perspectiva, percebemos que “somos todos iguais como seres humanos.
Por isso devemos combater qualquer forma de discriminação e de arrogância, agindo
solidariamente uns com os outros” (AQUINO et al., 2002, p. 16). O ser humano veio ao
mundo não somente para compor ou contribuir para o povoamento da Terra, mas para
serútil, participativo, democrático, ético,moral e solidário para comos seus semelhantes.
Essas são as diversas opções existentes, que além de motivadoras, também
servem como estímulo na adaptação do ser humano, bem como no seu processo de
desenvolvimento pessoal rente às diversidades existentes no universo, que poderíamos
denominá-las como um conjunto de atos e fatos diferentes entre si que formam a
sociedade como um todo. Para Saji (2005, p. 13), “o tema diversidade é bastante amplo.
Sua abordagem vai desde denições restritas às questões de raça, etnia e gênero, até
as mais abrangentes, que consideram como diversidade qualquer diferença individual
entre as pessoas”.
AUTOATIVIDADE
Chegou a sua vez!
Escreva o seu conceito para Diversidade.
Assim, a diversidade az parte da natureza das coisas existenciais, sendo elas a
diversidade relacionada à situação socioeconômica, ou à diversidade cultural, em que as
mesmas foram se transformando em essência no decorrer dos tempos, principalmente
em se tratando das diferenças relacionadas às diferentes raças e suas manifestações
culturais, incluindo-se aí a sua descendência, que, por consequência, deixam de azer
parte da cultura original e passam a fazer parte de outra cultura produzida para atender
a uma demanda econômica. Como oi o caso da cultura da cana-de-açúcar, explorada
pelos grandes latiundiários, gerando um longo período de uma relação confitante e
tumultuada entre o poder daqueles grupos de exploradores e a submissão dos negros,
dos índios, das mulheres, das crianças e adolescentes.
27
Nenhum povo que passasse por isso como sua rotina de vida, através
de séculos, sairia dela sem car marcado indelevelmente. Todos
nós, brasileiros, somos carne da carnedaqueles pretos e índios
supliciados. Todos nós brasileiros somos, por igual, a mão possessa
que os supliciou. A doçura mais terna e a crueldade mais atroz aqui
se conjugaram para fazer de nós a gente sentida e sofrida que somos
e a gente insensível e brutal, que também somos. Descendentes de
escravos e de senhores de escravos, seremos sempre servos da
malignidade destilada e instalada em nós, tanto pelo sentimento
da dor intencionalmente produzida para doer mais, quanto pelo
exercício da brutalidade sobre homens, sobre mulheres, sobre
crianças convertidas em pasto de nossa úria (RIBEIRO, 1995, p. 120).
Então, caro acadêmico, existe uma diversidade de coisas dierentes e uma
diversidade de pessoas diferentes em todos os seus aspectos. A esse tipo de diversidade
denominamos de diversidade cultural, o que signica, na prática, o relacionamento
comunitário, ou melhor, o relacionamento em diferentes comunidades, podendo esse
relacionamento contribuir signicativamente no sentido cooperativo ou na geração de
confitos, que são chamados de confitos sociais.
Portanto, são essas dierenças quegeramoprincípio da desigualdade social, que
vão além das características humanas, ultrapassando o bom senso, descaracterizando o
princípio da igualdade e do amor ao próximo, modicando ou alterando outros princípios
considerados de grande importância para as questões relacionadas com o respeito, a
dignidade, a reciprocidade e as boas práticas das relações humanas no contexto social.
AUTOATIVIDADE
Qual o seu conceito para desigualdade social?
Acadêmicos! É preciso que haja um basta nesta triste trajetória de descaso
e discriminação entre os seres humanos, principalmente frear os impulsos daqueles
mais exaltados, que erem com palavras e atos e cada vez mais maculam a imagem
e obscurecem a identidade do indivíduo como pessoa e como cidadão com direitos e
deveres. Dessa orma, contribuindo para o desenvolvimento econômico e social. Isso é
cidadania, isso é respeito e é também uma forma de inclusão social.
28
Assim, a desigualdade signica não só a dierença existente entre pessoas ou
coisas que compõem o universo, mas signica também a dierença no tratamento e no
respeito para com o outro. Nesse caso, estamos nos referindo à desigualdade humana,
que na maioria das vezes está caracterizada pelo preconceito e pelos diversos tipos
de violências e pelas suas relações confitantes dentro do contexto social. Exemplo: a
desigualdade socioeconômica, as desigualdades raciais, a alta de segurança, a alta
de acesso à moradia, ao saneamento básico, dentre outras ormas de exclusão social.
Muitas vezes, essas dierenças são ocasionadas pela alta de oportunidade, excluindo
até o mais digno do ser humano, o que não deixa de ser uma orma preconceituosa de
relação e convivência social. Aquino et al. (2002, p. 34-35) armam que:
Toda vez que julgamos uma pessoa, um grupo ou mesmo um
povo sem conhecê-los, estamos usando de preconceito. [...]. O
termo preconceito signica o conjunto de opiniões ormadas
antecipadamente sobre o outro, sem levar em conta suas qualidades
ou suas capacidades. Os preconceituosos têm atitudes intolerantes
com as pessoas que são diferentes deles. Julgam-se superiores e,
por isso, desvalorizam e desrespeitam outras pessoas. Preconceito e
intolerância andam sempre juntos.
São atitudes que acontecem no dia a dia, por meio de atos, gestos
ou palavras que tentam diminuir, rebaixar os modos de ser, agir e
sentir dos outros. E, algumas vezes, elas ocorrem sem que as
percebamos com clareza, até senti-las na própria pele – por exemplo,
quando não somos aceitos por alguém ou por um grupo. Neste caso,
somos vítimas de um preconceito aberto, direto e explícito. E isso já
aconteceu com todos nós, de um modo ou de outro. Mas há também
o preconceito indireto, implícito, como as piadas de mau gosto, que
oendem as pessoas só por causa de sua raça, nacionalidade, sexo e
outras características.
Ainda com relação aos preconceitos, segundo a denominação de inclusão e
exclusão social, estas são pautadas e divididas em grupos ou classes sociais, que, por
sua vez, são classicadas hierarquicamente de acordo com o seu poder aquisitivo, sua
relação social, dierenças culturais, a cor da pele, sexualidade, etnia, deciências ísicas,
idade, crenças etc.
Portanto, a diversidadehumana (pessoas dierentes) deveria serum instrumento
de unicação dos seres, dierentemente das desigualdades sociais, que signicam que
nem todos têm as mesmas oportunidades, o que em grande parte se deve às diversas
formas de preconceito. Alguns deles, no modo de ver do seu praticante, lhe soam como
se isso osse uma espécie de elogio ao próximo. Exemplo: E aí, negão!? Essa expressão,
que parece simples, é uma orma disarçada de discriminação. “Algumas expressões
corriqueiras que alamos sem pensar são carregadas de preconceito” (AQUINO et al.,
2002, p. 44).
Aquino et al. (2002, p. 44) trazem mais exemplos: “é o caso de determinadas
expressõespreconceituosas, como: os negros que têm ‘almasbrancas’, os homossexuais
que parecem ‘pessoas normais’, os idosos que parecem ‘jovens’, os obesos que são
‘engraçados’, as pessoas pobres que são ‘limpas’. E assim por diante”.
29
Como sabemos, o descaso e as práticas discriminatórias em relação a essas
pessoas, que fazem parte, assim como todos nós, de um mesmo espaço planetário,
não deveriam existir, mesmo porque a dierença existente entre os seres de todas as
espécies az parte de um processo natural, ou melhor, da natureza das coisas existentes.
E os seres humanos vão além das dierenças, pois nós somos dotados de raciocínio e
discernimento para avaliar e distinguir o certo do errado, comportamento esse que deveria
ser institucionalizado pelas tradições, pelos valores éticos emorais, sem a necessidade de
uma imposição legal, como é o caso da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
No entanto, parece que pouco têm efeito as leis que reprimem essas práticas
discriminatórias, preconceituosas e racistas, visto que, inelizmente, parece existir
uma autorrejeição por parte de algumas pessoas ou grupos que ainda mantêm certos
padrões de comportamento que não mais condizem com a realidade dos padrões
atuais e universais, dos direitos constituídos e com o processo democrático, com
as leis de proteção às crianças, aos idosos, aos negros, às mulheres, aos indígenas,
aos decientes ísicos, entre outros. São seres humanos que sorem discriminação e
negação de direitos que estão incluídos na Declaração Universal dos Direitos Humanos,
conforme citado no parágrafo acima.
Nesta perspectiva, não se desconsidera que as dierenças existam
e estejam colocadas socialmente, porém, elas não signicam,
necessariamente, exclusão social. Por exemplo, a condição de raça,
gênero, religião, entre outras, não seria elemento de exclusão, mas
de dierenciação entre as pessoas, não as tornando ‘desiguais’. As
pessoas são diferentes umas das outras e isto nada tem a ver com
privilégios. Assim, racismos e preconceitos se fundamentam no
entendimento da diferença/diversidade como desigualdade. Nestes
termos, as pessoas e os grupos sociais têmodireito a ser iguais quando
a diferença os inferioriza e o direito a ser diferentes quando a igualdade
os descaracteriza (SANTOS, 2003 apud MARQUES, 2009, p. 68).
Para que possamos entender e discursar sobre o conceito de diversidade não
é tão ácil como parece, pois é preciso nos aproundarmos sobre o seu real signicado
e a sua real importância no equilíbrio natural e social, na relação homem-natureza, e
principalmente na relação entre seres humanos, tanto no que diz respeito à tolerância
e ao respeito mútuo entre seres da mesma espécie, bem como a compreensão e o
sentimento solidário, que são a base do princípio da igualdade.
Sem diversidade não há estímulos para pensar dierente, não há estímulos para
pensar no princípio da igualdade. Portanto, pensar dierente é o caminho para viver
e compreender o sentimento solidário que devemos ter. Apesar de que, no dia a dia,
relacionar-se com asinúmeras diferenças humanas e sociais do mundo atual nem
sempre traz harmonia.
Assim, seguindo o raciocínio de Aquino et al. (2002), o problema é o seguinte:
se todas as pessoas são únicas e especiais a seu modo, quem haveria de ser “mais” ou
“melhor” do que o outro? Em outras palavras, somos únicos como indivíduos, e por isso
30
somos diferentes, somos iguais como seres humanos. A isso se dá o nome de equidade.
Convém lembrar que ser igual não é ser idêntico. Ao contrário, somos semelhantes,
embora diversos. Anal de contas, em que nos dierenciamos uns dos outros?A resposta
é óbvia: em praticamente tudo. A começar pela nossa história de vida, passando pelas
características biológicas (raça, cor, sexo), até as de cunho social (escolaridade, condição
econômica, opções políticas etc.). Mesmo sendo únicos, continuamos a pertencer à
mesma espécie, à raça humana. Por essa razão, não há seres humanos “superiores”
ou “ineriores”. Cada um é especial a seu modo. Só teremos um convívio democrático e
pacíco se tratarmos o outro da mesma orma que gostaríamos de ser tratados.
Todos esses conceitos fazem parte de uma cultura geral, ou seja, da construção
e da desconstrução do processo de desenvolvimento humano, e da sua própria
sobrevivência. A cultura é, pois, “o conteúdo da construção histórica da humanidade
dos seres humanos, humanizando-os ou desumanizando-os” (SOUZA, 2002, p. 53). O
principal objetivo do nosso estudo é justamente conscientizar os nossos acadêmicos
rumo a uma refexão mais humanista a respeito das nossas ações e na superação
denitiva da desigualdade social, o que diz respeito ao cidadão e à relação com o meio
em que ele vive, em que o respeito pelas dierenças orma o espírito da academia e a
humanização social.
Com base no que foi dito e analisado até aqui, nos parece que o ponto de
partida para a solução, pelo menos de parte dos problemas raciais, das diferenças, da
exclusão e da inclusão social, pode estar na educação de base, ou seja, se o aluno
tiver uma educação inicial que o motive a ultrapassar essas barreiras. A partir daí ele
poderia formar uma base sólida para ingressar na faculdade melhor preparado, o que
sem dúvida é parte integrante para o seu desenvolvimento prossional e pessoal.
Vocêquerdescansarumpouco,semdeixarderefetir sobreoconteúdo?
Assista ao lme “O Visitante”, ele contribuirá com seus estudos.
Sinopse: Walter, solitário professor universitário, tem 62 anos e já não
encontra prazer na vida. Ao viajar a Nova York para uma conferência,
encontra o casal Tarek e Zainab, imigrantes sem documentos,
morando em seu apartamento. Eles não têm para onde ir, e Walter
acaba deixando que quem. Para retribuir, o talentoso Tarek ensina
Walter a tocar o tambor aricano e os dois cam
amigos. Quando a polícia prende o jovem e decide
deportá-lo, Walter faz de tudo para ajudá-lo, com
uma garra que hámuito não sentia. Surge então amãe de Tarek embusca
do lho e um improvável romance tem início.
FONTE: Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=1aSoTQbewiI>.
Acesso em: 9 set. 2017.
DICAS
31
4 INCLUSÃO ESCOLAR E SOCIAL DA DIVERSIDADE
Acadêmicos! Já compreendemos o caráter plural de nossas sociedades e as
complexas relações estabelecidas socialmente. Diante disso, percebemos que vivemos
em uma sociedade dividida em classes, em que a luta pela manutenção ou superação
das divisões sociais é constante.
Nesse sentido, lutamos em avor da inclusão escolar, em avor de currículosmais
inclusivos, abertos às dierenças sociais, psíquicas, ísicas, culturais, religiosas, raciais
e ideológicas, no intuito de respeitar o caráter plural da nossa sociedade, contribuindo
para ormar sujeitos autônomos, críticos e criativos, aptos a compreender como as
coisas são e por que são assim.
O principal objetivo é a possibilidade da mudança, da construção de uma
ordem social mais justa e menos excludente. Sendo isso um legado do presente para
as gerações futuras, o que pode ser uma prática aprendida e reproduzida a partir da
amília e da escola, que são os agentes ormadores de opinião, e que juntamente com a
sociedade esses agentes irão denir o sucesso ou o racasso no contexto social.
5 INCLUSÃO ESCOLAR E SOCIAL DA DIVERSIDADE
HUMANA
Acadêmico! A inclusão escolar tem sido mal interpretada tanto por parte da
escola, seja ela comum ou especial, quanto dos prossionais da educação. “O certo,
porém, é que os alunos jamais deverão ser desvalorizados e inferiorizados pelas suas
dierenças, seja nas escolas comuns, seja nas especiais” (MANTOAN, 2006, p. 190).
Ainda com base nesse raciocínio, “[...] a educação escolar não pode ser pensada
nem realizada senão a partir da ideia de uma formação integral do aluno – segundo
suas capacidades e seus talentos – e de um ensino participativo, solidário, acolhedor”
(MANTOAN, 2006, p. 9). Reverter o que historicamente oi construído é diícil, implica
em construir alternativas que possibilitem a emancipação social dos diferentes sujeitos,
azendo uma clara opção política por um compromisso contra as discriminações, as
desigualdades e o respeito à diversidade cultural.
O que, de acordo com Mantoan (2006, p. 9, grio do original), trata-se de um
trabalho de “‘ressignifcação’ do papel da escola com proessores, pais e comunidades
interessadas, bem como de adoção de formas mais solidárias e plurais de convivência.
Para terem direito à escola, não são os alunos que devemmudar, mas a própria escola!”.
E a autora continua: “O direito à educação é natural e indisponível. Por isso, não aço
acordos quando me proponho a lutar por uma escola para todos, sem discriminações,
sem ensino à parte para os mais e para os menos privilegiados”.
32
Dessa forma, a escola pode fazer o anúncio da construção de novos tempos na
educação, contribuindo para formar alunos não conformistas, e sim, questionadores,
reagentes e competentes, aptos a rejeitar valores celebrados pela nova ordem mundial,
como o egoísmo e o individualismo. Mantoan (2006, p. 14) nos coloca que, seja ou
não “uma mudança radical, toda crise de paradigma é cercada de muita incerteza e
insegurança, mas também demuita liberdade e ousadia para buscar outras alternativas,
novas formas de interpretação e de conhecimento [...] para realizar a mudança”.
Mudança essa que é direito expresso na Constituição Federal de 1988. A
Constituição respalda em seu artigo 206, inciso I, que o ensino será ministrado em
“igualdade de condições para o acesso e permanência na escola”. Portanto, temos que
entender que:
Ao garantir a todos o direito à educação e ao acesso à escola, a
ConstituiçãoFederalnãousaadjetivos.Poressa razão, todaescoladeve
atender aos princípios constitucionais sem excluir nenhuma pessoa
em decorrência de sua origem, raça, sexo, cor, idade ou deciência.
Apenas esses dispositivos já bastariam para que não se negasse a
qualquer pessoa, com ou sem deciência, o acesso à mesma sala de
aula que qualquer outro aluno (MANTOAN, 2006, p. 26-27).
Percebe-se então que os discursos precisam ser revistos, compreendendo
a diversidade humana como algo positivo, liberto de olhares preconceituosos,
possibilitando a valorização pela cultura do outro. Portanto, a inclusão:
[...] exige uma mudança de mentalidade e de valores nos modos
de vida e é algo mais profundo do que simples recomendações
técnicas, como se ossem receitas. Requer complexas refexões de
toda a comunidade escolar e humana para admitir que o princípio
fundamental da educação inclusiva é a valorização da diversidade,
presente numa comunidade humana (STRIEDER; ZIMMERMANN,
2011, p. 146).
E na sequência os autores continuam armando que a escola:
Foi e continua sendo um espaço de padronizações ao promover a
construção de conhecimentos com pouco signicado, ormalizado,
pronto, sem relação e sentido com a vida dos seres humanos que lá
estão, sejam alunos ou docentes. Ela é construtora de pensamentos,
ações e movimentos que denotam igualdade e repetição.
É importante a escola oportunizar vivências capazes de desconstruir
a realidade do igual, da repetição,para valorizar a diferença,
acreditando na diversidade da vida, das cores, sabores e movimentos
(STRIEDER; ZIMMERMANN, 2011, p. 148).
Assim, falar sobre inclusão escolar e/ou social é falar sobre a conscientização
humana na democratização das relações entre os povos e os demais indivíduos que
azem parte do contexto social como um todo, independentemente de credo, raça,
poder aquisitivo ou posição social, visto que fazemos parte de uma mesma sociedade e
33
as dierenças azem parte integrante do equilíbrio social e da própria espécie humana.
No entanto, ca aqui a indagação: quais as oportunidades que estão sendo oerecidas
pelos agentes sociais a essa massa de desamparados e excluídos do sistema social?
De acordo com texto publicado no livro “Ética e cidadania: construindo valores
na escola e na sociedade”, desenvolvido pelo Ministério da Educação, a escola pode e
deve ser um ponto de partida na formação de cidadão e cidadã comprometidos com a
construção dos valores éticos e morais, tanto no contexto escolar, como no âmbito das
relações sociais.
Aprender a ser cidadão e cidadã é, entre outras coisas, aprender
a agir com respeito, solidariedade, responsabilidade, justiça, não
violência; aprender a usar o diálogo nas mais dierentes situações
e comprometer-se com o que acontece na vida da comunidade e
do país. Esses valores e essas atitudes precisam ser aprendidos e
desenvolvidos pelos estudantes e, portanto, podem e devem ser
ensinados na escola.
Para que o(a)s estudantes possam assumir os princípios éticos, são
necessários pelo menos dois fatores:
- que os princípios se expressem em situações reais, nas quais o(a)
s estudantes possam ter experiências e conviver com a sua prática;
- que haja um desenvolvimento da sua capacidade de autonomia
moral, isto é, da capacidade de analisar e eleger valores para si,
consciente e livremente.
Outro aspecto importante desse processo é o papel ativo dos
sujeitos da aprendizagem, estudantes e docentes, que interpretam
e conferem sentido aos conteúdos com que convivem na escola, a
partir de seusvalores previamente construídos e de seus sentimentos
e emoções (LODI; ARAÚJO, 2006, p. 69).
Com relação aos agentes citados nos parágrafos anteriores, também
concordamos que a partir da inclusão escolar, principalmente no tocante à educação
básica, ela deveria ser um espaço voltado para a harmonização da convivência social
e não simplesmente uma mera reprodução de saberes. Em que, na maioria das vezes,
esses saberes são direcionados apenas para produzir agentes econômicos, dando
pouca ou quase nenhuma ênase às questões relacionadas à ética e às características
comportamentais do ser humano como uma orma de equilíbrio no convívio das
relações sociais, o que já é um processo discriminatório e de exclusão, ou, no mínimo,
uma forma de omissão do próprio sistema de ensino, principalmente com relação aos
índios e negros.
A luta travada em torno da educação do campo, indígena, do negro,
das comunidades remanescentes de quilombos, das pessoas com
deciência, tem desencadeado mudanças na legislação e na política
educacional, revisão de propostas curriculares e dos processos
de formação de professores. Também tem indagado a relação
entre conhecimento escolar e o conhecimento produzido pelos
movimentos sociais (GOMES, 2007, p. 32).
E na continuação o autor chega às seguintes conclusões:
34
A diversidade é muito mais do que o conjunto das diferenças.
Ao entrarmos nesse campo, estamos lidando com a construção
histórica, social e cultural das diferenças, a qual está ligada às
relações de poder, aos processos de colonização e dominação.
Portanto, ao alarmos sobre a diversidade (biológica e cultural) não
podemos desconsiderar a construção das identidades, o contexto
das desigualdades e das lutas sociais.
A diversidade indaga o currículo, a escola, as suas lógicas, a sua
organização espacial e temporal. No entanto, é importante destacar
que as indagações aqui apresentadas e discutidas não são produtos
de uma discussão interna à escola. São frutos da inter-relação entre
escola, sociedade e cultura e, mais precisamente, da relação entre
escola e movimentos sociais. Assumir a diversidade é posicionar-se
contra as diversas ormas de dominação, exclusão e discriminação. É
entender a educação comoumdireito social e o respeito à diversidade
no interior de um campo político (GOMES, 2007, p. 41).
Assim, é através dos movimentos sociais que podemos melhorar o sistema
educacional e corrigir as distorções sociais, que são frutos de um processo longo que
vemsearrastandoatravés dos tempos, emquepoucoouquasenada temsido feito como
forma de reparar ou pelo menos minimizar os seus efeitos negativos e na reparação dos
erros cometidos. Portanto, é de extrema necessidade a inserção e a interação de todos
os seres humanos, independentemente de suas características ou condições sociais.
Para Stainback (1999), a total inclusão de todos os membros da
humanidade, de quaisquer raças, religiões, nacionalidades, classes
socioeconômicas, culturas ou capacidades, em ambientes de
aprendizagem e comunidade, pode facilitar o desenvolvimento
do respeito mútuo, do apoio mútuo e do aproveitamento dessas
diferenças para melhorar nossa sociedade. É durante seus anos de
formação que as crianças adquirem o entendimento das diferenças,
o respeito e o apoio mútuos em ambientes educacionais que
promovem e celebram a diversidade humana.
Aconstruçãodesociedadeseescolas inclusivas,abertasàsdiferenças
e à igualdade de oportunidades para todas as pessoas, é um objetivo
prioritário da educação nos dias atuais. Nesse sentido, o trabalho
com as diversas ormas de deciências e uma ampla discussão sobre
as exclusões geradas pelas dierenças social, econômica, psíquica,
ísica, cultural, racial, de gênero e ideológica, devem ser oco de
ação das escolas. Buscar estratégias que se traduzam em melhores
condições de vida para a população, na igualdade de oportunidades
para todos os seres humanos e na construção de valores éticos
socialmente desejáveis por parte dos membros das comunidades
escolares é uma maneira de enrentar essas exclusões e um bom
caminho para um trabalho que visa à democracia e à cidadania
(ARAÚJO, 2007, p. 16-17).
Portanto, as mudanças comportamentais e as inclusões sociais relacionadas
com todos os povos não podem e não devem ser somente responsabilidade da amília
e das instituições de classes, mas também de responsabilidade das escolas inclusivas e
dos seus agentes sociais. Neste sentido, rearmamos que a inclusão escolar:
35
Só será viável se o professor e toda a comunidade escolar mudarem
seu jeito de lidar com a diferença, via aceitação de formas relacionais
de aetividade, de escuta e de compreensão, suspendendo juízos
de valores como pena, repulsa e descrença. Uma mudança como
desejo interior, porque algo interior nos diz que vale a pena mudar
(STRIEDER; ZIMMERMANN, 2011, p. 148).
E quando falamos em mudanças, estamos nos referindo a uma mudança
estrutural, em que todas as partes se relacionam, interagem e se complementam para
a harmonização do todo, que por sua vez é parte de uma estrutura maior, que podemos
chamar de estrutura social, que é composta, dentre outras, pela escola, amília, igreja,
governo com suas políticas públicas, instituições nanceiras, jurídicas e organizações
sociais propriamente ditas, as ONGs. Como podemos perceber, tudo isso constitui um
grande desao rumo a uma mudança signicativa. E, por estas e outras razões, nos
parece que a sociedade está caminhando no rumo certo.
AUTOATIVIDADE
Então, acadêmico, você acredita que ainda existe perspectiva e
esperança de dias melhores? Como podem ser superadas as barreiras
que afetam a harmonia entre os humanos?
Vejamos o que nos propõem os autores Assmann e Sung (2000, p. 103):
A esperança humana, da qual estamos falando, é um horizonte de
uturo tecido com desejo. Não o desejo de um único indivíduo, nem
o desejo de subir na ‘escada do sucesso’ segundo os parâmetros
da eciência do mercado regendo todos os aspectos da nossavida,
mas o desejo do reconhecimento mútuo e respeitoso entre pessoas
e grupos sociais, o desejo de uma vida mais digna e prazerosa para
todos\as. O desejo de um mundo onde caibam muitos e muitos
mundos.
E concluindo o seu pensamento:
É esse horizonte de esperança que nos mostra, nos revela, a
mesquinhez e a irracionalidade de uma sociedade centrada na
exclusão e insensibilidade, e a desumanidade de uma vida humana
voltada para negar a sua condição humana.
36
Horizonte de esperança não é algo que se toma dentre as ofertas
do mercado, nem pode ser produzido individualmente. Como
todo horizonte de compreensão, ele deve ser tecido no diálogo,
na construção de uma linguagem e esperanças comuns. Por isso,
um horizonte de esperança que nos abra e nos interpele para a
sensibilidade solidária só pode ser fruto de um desejo de dialogar
com os\as que estão dentro e fora da sociedade, do nosso mundo
(o mundo de cada um, o mundo de cada grupo social). Diálogo que
pressupõe o reconhecimentomútuo (ASSMANN; SUNG, 2000, p. 103).
O que Assmann e Sung (2000) nos esclarecem é que o ser humano precisa,
em primeiro lugar, conscientizar-se do seu papel na sociedade, e que isso não pode
ser uma ação única, mas sim uma ação conjunta, como um grande suporte em prol da
democratização solidária. Essa solidariedade deve trazer beneícios tanto para o indivíduo,
quando analisado separadamente, quanto na sua convivência em sociedade, ou seja, a
relação do indivíduo com ele mesmo ou no convívio social. E na sequência os autores
analisam commuita propriedade o resultado ocasionado por esse processo de interação:
Quando imergimos nesse horizonte, descobrimos algumas verdades
humanas básicas. A descoberta da minha condição humana não
se dá ora do reconhecimento da condição humana (da dignidade
humana) dos que estão ‘dentro e ora’ da sociedade. Eu não posso
me descobrir como pessoa humana se não ‘descobrir’ o\a outro\a,
o\a diferente, como participante da mesma condição humana. É o
reconhecimento do\a dierente como ‘igual’, isto é, coparticipante
da mesma condição humana, que me possibilita encontrar comigo
mesmo. Na década de 70 havia uma propaganda que mostrava um
menino e uma menina, cada um olhando dentro do short de banho
do\a outro\a. Acima do desenho, a rase: ‘Ah! Descobri a dierença!’
É a descoberta de que existe um sexo dierente na mesma espécie
humana, queme az descobrir que eu sou um ser sexuado, masculino
ou eminino (ASSMANN; SUNG, 2000, p. 104).
E para nalizar, os autores azem um breve resumo a respeito das relações de
convivência e de reciprocidade humana, principalmente para aqueles que possam ter
algumas diculdades para entender a complexidade a respeito da inclusão social e
escolar da diversidade humana.
Em resumo, tentar encontrar-se consigo mesmo e realizar-se como
ser humano negando o\a outro\a que lhe revela e lhe lembra as suas
angústias e medos inerentes à sua condição humana é um caminho
trágico, no sentido grego desse conceito, isto é, não como destino,
mas como tomada de consciência de um desao radical que parte da
nossa condição humana. Aúnica forma de nos realizarmos como seres
humanos é reconhecendo e assumindo a nossa condição humana.
É isto que nos possibilita vivermos as alegrias da vida, mas também
os momentos tristes e angustiantes. Esse assumir a nossa condição
humana pressupõe o reconhecimento do(a) outro(a) que nos lembra
das nossas inseguranças. Este reconhecimento mútuo só é possível
se cultivarmos e vivermos a sensibilidade solidária e o horizonte de
esperança. Educar para a esperança é uma das chaves para educar
para a sensibilidade solidária (ASSMANN; SUNG, 2000, p. 104).
37
Estamos nos reerindo ao processo de educação e aprendizagem, e já cou
evidente que esse é o caminho. No entanto, é preciso levantar algumas bandeiras e
eliminaralgumasbarreiras, principalmenteasdodescaso, daarrogânciaeda intolerância,
que são ações que principiam e dão origem ao preconceito e à desigualdade social, que,
pelo visto, parece povoar e circular por quase todas as fases da questão educacional.
A começar pelas diculdades de acesso à educação de base, ou pela alta de espaço
adequado, não só em termos de locomoção e acesso, mas, principalmente, para aquelas
pessoas com certo grau de diculdades.
Com relação às diculdadesde acesso, estas parecemnão serprivilégio somente
daqueles com alguma deciência ísica, mas de todos aqueles motivados por razões
circunstanciais, sejam elas pela distância, pelas condições de transporte ou, ainda, pelo
descaso das autoridades, que deveriam ser os mentores, incentivando e facilitando o
acesso às escolas da rede pública e privada, oferecendo escolas e ensino de qualidade,
com proessores qualicados e comprometidos com o processo educacional. Isso
evitaria, pelo menos em parte, a desagregação, a degradação e o êxodo escolar, em que
o abandono ou o afastamento de alunos das salas de aulas podem ter diversos motivos,
muitos deles justicados pelas condições precárias de algumas escolas, bem como a
falta de compromisso e atitude das autoridades, a improbidade administrativa, o desvio
de verbas, dentre outras formas de descaso das autoridades públicas.
Observe, acadêmico, que ainda existe uma série de problemas a serem
resolvidos nas instituições escolares. De acordo comPrieto (2006, p. 33), “as instituições
escolares, ao reproduzirem constantemente omodelo tradicional, não têm demonstrado
condições de responder aos desaos da inclusão social e do acolhimento às dierenças,
nem de promover aprendizagens necessárias à vida em sociedade [...]”.
Acadêmicos, percebemos que os quemais sofremcomessa situação de penúria
são os menos aortunados, os que não possuem as mínimas condições de requentar
uma escola particular, ou os decientes ísicos, que, muitas vezes, além das condições
nanceiras, também lhes altam as condições principais ao acesso e permanência no
âmbito escolar.
6 CONSTRUÇÃO E RECONSTRUÇÃODO SABERAPRENDIDO
Assim, de acordo com o que oi aprendido até agora, podemos armar que a
diversidade, as dierenças, a identidade, a exclusão e a inclusão, quando reparadas na
sua desarmonia social, representam partes integrantes da vida em comunidade, em
que são introduzidas as mudanças necessárias ao desenvolvimento social e, ao mesmo
tempo, produzidas outras formas de relacionamentos, outras formas de diversidade,
ou até mesmo outras maneiras e meios de abordagens no processo de interação do eu
com o outro. Isso faz parte da natureza humana, ou seja, um estado em movimento, de
renovação e de mudanças.
38
Dessamaneira, a sociedade continuará a produzir saberes e realidades relativas,
seja em relação à diversidade existente, seja em relação ao comportamento humano na
convivência social, ou na interação da pessoa com ela mesma, com os outros, bem
como as abordagens relacionadas aos contrastes da vida cotidiana, caracterizadas
pelas desigualdades sociais. Portanto, essas verdades continuarão a ser questionadas,
até que outras verdades as sobreponham.
Assim, a exclusão e a inclusão social das dierenças são ormas de construção
e desconstrução de uma variedade de elementos históricos e atuais, distintos e
circunstanciais e que, muitas vezes, vão além da nossa compreensão.
Caros acadêmicos, de acordo com o que vimos, percebemos que uma das
verdades absolutas é que: sempre haverá o eu e o outro, e esse outro será sempre
dierente do eu, e essa dierença continuará sendo o o condutor responsável pela
diversidade cultural e pelos diversos tipos de confitos sociais, seja no sentido negativo
ou no sentido positivo.
39
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• A diversidade, no contexto cultural, signica uma grande quantidade de coisas,
ações, pensamentos, ideias e pessoas que se diferenciam entre si dentro de grupos
sociais ou dentro de umamesma sociedade, e osmesmos são passíveis de discussão,
apelos, protestos, discórdia e geralmente acabam em confitos, chegando até às
desigualdades sociais.
• É fundamentalque percebamos as diferenças e desigualdades, não de forma natural,
mas como uma construção histórica possível de ser desestabilizada em sua orma
rígida, para ser transormada em algo que possa ser identicado e reconhecido
como base para a construção de relações interpessoais mais democráticas dentro
da sociedade, isto é, devemos pensar e repensar o seu conceito histórico e a sua
trajetória futura.
• A desigualdade signica não só a dierença existente entre pessoas ou coisas que
compõem o universo, mas signica também a dierença no tratamento e no respeito
para com o outro. Nesse caso, estamos nos referindo à desigualdade humana, que
na maioria das vezes está caracterizada pelo preconceito e pelos diversos tipos de
violência e pelas suas relações confitantes dentro do contexto social.
• A diversidade humana (pessoas dierentes) deveria ser um instrumento de unicação
dos seres, dierentemente das desigualdades sociais, que signicam que nem todos
têm as mesmas oportunidades, o que em grande parte se deve às diversas formas de
preconceito, algumas delas no modo de ver do seu praticante.
• Falar sobre inclusão escolar e/ou social é falar sobre a conscientização humana
na democratização das relações entre os povos e os demais indivíduos que azem
parte do contexto social como um todo, independentemente de credo, raça, poder
aquisitivo ou posição social, visto que fazemos parte de uma mesma sociedade e as
dierenças azem parte integrante do equilíbrio social e da própria espécie humana.
40
AUTOATIVIDADE
1 (ENADE-2014, Pedagogia) Da visão dos direitos humanos e do
conceito da cidadania fundamentado no reconhecimento das
dierenças e na participação dos sujeitos decorre uma identicação
dos mecanismos e processos de hierarquização que operam na
regulação e produção de desigualdades. Essa problematização explicita os
processos normativos de distinção dos alunos em razão de características
intelectuais, ísicas, culturais, sociais e linguísticas, estruturantes do modelo
tradicional de educação escolar.
2 (IFC-2015) Sobre a Educação Inclusiva, marqueVpara as armativas
verdadeiras e F para as falsas:
FONTE: BRASIL, MEC: Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva, 2008, p.
6 (adaptado).
As questões sucintas no texto raticam a necessidade de novas posturas docentes, de
modo a atender à diversidade humana presente na escola. Nesse sentido, no que diz
respeito ao seu fazer docente frente aos alunos, o professor deve:
I- Desenvolver atividades que valorizem o conhecimento historicamente elaborado
pela humanidade e aplicar avaliações criteriosas com o m de aerir, em conceitos
ou notas, o desempenho dos alunos.
II- Instigar ou compartilhar as informações e a busca pelo conhecimento de forma
coletiva, por meio de relações respeitosas aceitas pelos diversos posicionamentos
dos alunos, promovendo o acesso às inovações tecnológicas.
III- Planejar ações pedagógicas extracurriculares, visando ao convívio com a
diversidade, selecionar e organizar os grupos, a m de evitar confitos.
IV- Realizar práticas avaliativas que evidenciem as habilidades e competências
dos alunos, instigando esforços individuais para que cada um possa melhorar o
desempenho escolar.
V- Utilizar recursos didáticos diversicados, que busquem atender às necessidades de
todos e de cada um dos alunos, valorizando o respeito individual e coletivo.
É CORRETO apenas o que se arma em:
a) ( ) I e II.
b) ( ) II e V.
c) ( ) II, III e IV.
d) ( ) I, II, IV e V.
e) ( ) I, III, IV e V.
41
( ) NaEducação Inclusiva,osalunoscomdeciênciatêmachancedeseprepararempara
a vida em sociedade, os proessores de melhorarem suas habilidades prossionais e
a sociedade passa a valorizar a igualdade para todos.
( ) Na Educação Inclusiva, o aluno com deciência tem a acilidade de construir
conhecimento como os demais e de demonstrar a sua capacidade cognitiva,
principalmente nas escolas que mantêm ummodelo conservador de atuação e uma
gestão autoritária e centralizadora.
( ) Na Educação Inclusiva, a escola se baseia na lógica do concreto e na repetição
alienante e descontextualizada das atividades.
( ) AEducação Inclusiva requer que os sistemas educacionaismodiquemnão apenas
as suas atitudes e expectativas em relação aos alunos com deciência, mas que
se organizem para construir uma real escola para todos, onde o currículo leve em
conta a diversidade e seja concebido com o objetivo de reduzir barreiras atitudinais
e conceituais e se pautar por uma ressignicação do processo de aprendizagem na
sua relação com o desenvolvimento humano.
Assinale a alternativa com a sequência correta.
a) ( ) V – F – F – V.
b) ( ) F – F – V – V.
c) ( ) V – V – F – V.
d) ( ) F – V – V – F.
42
43
TÓPICO 3 -
MULTICULTURALISMO: VIOLÊNCIA,
TOLERÂNCIA/INTOLERÂNCIA E RELAÇÕES DE
GÊNERO
1 INTRODUÇÃO
Neste tópico, vamos trabalhar o conceito de multiculturalismo, enfatizando as
origens do surgimento do movimento e os campos de conhecimento que acolhem os
estudosmulticulturais. Nesse sentido, temos como objetivo situar omulticulturalismo do
ponto de vista político (movimentos sociais multiculturais e políticas públicas) e teórico
(ciências multiculturalistas), visando oerecer conteúdo de base para a interpretação
desse campo de estudos.
No desenvolvimento deste tópico, também será abordado os temas tolerância/
intolerância e relações de gênero, discutindo de modo refexivo os conceitos de
feminismo e ideologia de gênero. O objetivo é apresentar diferentes pontos de vista
para os reeridos conceitos, e conduzir o acadêmico a uma refexão crítica da realidade,
de modo que possa – com embasamento crítico e sempre que possível cientíco –
compreender melhor esses temas.
2 CONCEITUANDO MULTICULTURALISMO
Como a própria etimologia da palavra nos sugere, o termo “multi” signica vários;
o termo “culturalismo” reere-se à cultura; e o suxo “ismo” está associado às posições
assumidas ou ideias aceitas sobre a possibilidade do conhecimento, ou seja, no caso do
multiculturalismo signica uma posição assumida sobre as dierentes relações entre as
várias culturas.
O ‘multiculturalismo’ é um termo polissêmico e existem, pelo menos,
dois sentidos diferentes em que este pode ser utilizado. Um primeiro
sentido é descritivo e reporta a um fato da vida humana e social, que é
a diversidade cultural étnica, religiosa que se pode observar no tecido
social, ou seja, um certo cosmopolitismo que atualmente é fácil de
ver em qualquer grande cidade da Europa e da América do Norte.
Um segundo sentido é prescritivo e está associado às chamadas
políticas de reconhecimento da identidade e/ou da dierença que os
poderes públicos prosseguem, ou deveriam prosseguir, segundo os
seus deensores, em nome dos gruposminoritários e/ou ‘subalternos’
(FERNANDES, 2011, p. 2, grios do original).
UNIDADE 1
44
Dito de outra orma, multiculturalismo signica a existência de grupos de
diversas culturas, assim como o embate político, econômico e social travado pelos
diferentes grupos sociais na luta pelo respeito à diversidade. Por isso, além de estudos
teóricos e empíricos, o termo implica na conquista de reivindicações das chamadas
minorias ou grupos marginalizados, como os negros, índios, mulheres, homossexuais e
outros tantos que buscam assegurar seus direitos sociais através de políticas públicas
de ação armativa.
FIGURA 6 – MULTICULTURALISMO, DIVERSIDADE E DESAFIO DO HOMEM PARA O SÉCULO XXI
FONTE: Disponível em: <http://fadivagrupo7.blogspot.com/>. Acesso em: 7 dez. 2017.
Omulticulturalismo é pluralista, porque as dierenças coexistem em ummesmo
país ou região. Ali convivem dierentes culturas, valores e tradições. Há o diálogo e
convivência pacíca entre as culturas diversas. No entanto, esta coexistência pacíca
não signica negar as dierenças entre as culturas, nem homogeneizá-las, mas
compreendê-las a partir de uma visão dialética sobre os termos igualdade e diferença,
na medida em que não se pode falar em igualdade sem levar em conta as diferenças
culturais,e não se pode relacionar a diferença como medida de valor.
Nesse sentido, entendemos que igualdade e diferença não são termos opostos.
Na verdade, a igualdade opõe-se à desigualdade, enquanto diferença opõe-se à
padronização, à homogeneização, à produção em série. O que o multiculturalismo quer
é lutar pela igualdade e pelo reconhecimento das diferenças.
Por esse motivo, um dos temas centrais do multiculturalismo tem sido o Direito
à Diferença e à Diminuição das Desigualdades, bandeira de luta de vários movimentos
sociais contemporâneos espalhados pelo mundo inteiro.
45
3 SURGIMENTO DO MULTICULTURALISMO
O termo multiculturalismo é relativamente recente e sua utilização ocorreu pela
primeira vez na Inglaterra, entre as décadas de 1960 e 1970. De acordo com Fernandes
(2006), o multiculturalismo surgiu na linguagem ocial do Canadá e na Austrália, para
designar as políticas públicas com o objetivo de valorizar e/ou promover a diversidade
cultural. Ainda nesse período, o autor destaca que outros países anglo-saxônicos, como
o Reino Unido, a Nova Zelândia e os EUA, também iniciam políticas públicas qualicadas
como multiculturais.
Países anglo-saxônicos são países cujos descendentes são provenientes
de povos germânicos (anglos, saxões e jutos). Esta denominação é
resultado da usão desses povos que se xaram ao sul e leste da Grã-
Bretanha, no século V.
NOTA
Tomando como base o caso dos Estados Unidos, o multiculturalismo surge
como movimento organizado na década de 1960, a partir dos primeiros movimentos
sociais, como: o negro, feminista, hippie, ambientalista, entre outros. No entanto,
para entender o motivo pelo qual esses movimentos surgiram, devemos resgatar o
aspecto da constituição histórica dos Estados Unidos, marcada por um longo processo
de colonização, que teve como base a eliminação e a opressão das diversas tribos
indígenas que ali estavam. Além disso, prezado acadêmico, devemos levar em conta
o processo de escravidão que ocorreu no país, no qual os negros serviram como base
para o desenvolvimento da nação.
Essas posturas dos colonizadores norte-americanos oram infuenciadas pelos
valores religiosos de igrejas protestantes, comuns à maioria dos colonos de origem
anglo-saxã. Esta infuência permeou o pensamento e as atitudes dos colonizadores
norte-americanos em relação aos demais grupos, desencadeando, mais tarde, uma
série de movimentos pela busca de justiça social.
O que queremos destacar neste momento é que, a exemplo do caso dos EUA, o
movimento multiculturalista surgiu em grande escala nas sociedades nas quais o direito
à diversidade cultural foi historicamente negado.
46
Segundo Silva (2000), o multiculturalismo teve início em países em que a
diversidade cultural era vista como umproblema para a construção da unidade nacional.
Muitas nações construíram suas identidades por intermédio de processos autoritários,
pela imposição de uma cultura, dita superior, a todos os membros da sociedade.
4 ÁREAS DE CONHECIMENTO QUE ABRIGAM O
MULTICULTURALISMO
Já entendemos que o multiculturalismo é, ao mesmo tempo, uma rede de
movimentos sociais em prol da armação dos grupos minoritários, historicamente
excluídos pela sociedade. Neste sentido, podemos compreender que omulticulturalismo
é um campo de estudos que aborda a problemática dos grupos de formamultidisciplinar.
Portanto, vamos tratar agora de alguns aspectos sobre o caráter cientíco do
multiculturalismo, que são os estudos multiculturais.
Prezados acadêmicos, vocês sabiam que os estudos multiculturais são
provenientes de várias áreas do conhecimento?
Pois bem, entre as áreas de conhecimento podemos destacar os campos da
Antropologia Cultural, Psicologia Social, História e Sociologia, que abordam diferentes
problemas relativos ao multiculturalismo. Algumas áreas se ocupam do ponto de vista
históricodomovimento, outras seocupamdagenealogiadosmesmos, outras seocupam
dos processos políticos e sociais que os movimentos promovem, e ainda, outras áreas
se ocupam de aspectos epistemológicos do estudo dos movimentos. Enm, há uma
variedade de estudos sobre o tema nas mais diferentes áreas disciplinares.
GENEALOGIA: estudo da origem das famílias.
EPISTEMOLOGIA: estudo do grau de certeza do conhecimento cientíco
em seus diversos ramos.
NOTA
Portanto,oestudodomulticulturalismorequerumacompreensão interdisciplinar
do contexto histórico, socioeconômico e cultural desses dierentes grupos sociais e da
sua diversidade cultural construída conorme seu tempo e suas condições humanas e
geográcas.
47
Abordagem Interdisciplinar: refere-se ao trabalho e estudo de
prossionais de diversas áreas do conhecimento ou especialidades
sobre um determinado tema ou área de atuação, implicando
necessariamente na integração dos mesmos para uma compreensão
mais ampla do assunto.
NOTA
Daí a complexidade em se abordar a temática do multiculturalismo em todas
as regiões do planeta, levando em consideração a diversidade e a história dos seus
diversos povos em cada um dos cinco continentes e seus dierentes países. No entanto,
o multiculturalismo já alcançou um elevado nível na discussão acadêmica. De acordo
com Sidekum (2003, p. 9), “esse alcance é a marca principal das últimas décadas do
século XX, consolidando-se, especialmente, pelos estudos comparados da cultura,
desenvolvidos pela antropologia cultural e pela psicologia aplicada, também conhecida
por psicologia social intercultural”.
5 MOVIMENTO FEMINISTA
O surgimento dos estudos atuais sobre a condição feminina, o Estudo de
Gênero só oi possível porque, ao longo do tempo, o movimento social de mulheres “ez
muito barulho”, denunciando as situações de opressão, preconceito e dominação que
sofreram. A amplitude do movimento feminista não pode e não deve ser reconhecida
apenas como um dos movimentos de luta das mulheres, porque muitas mulheres com
pers e histórias dierentes participaram. Se hoje o gênero representa uma categoria
de análise tão importante para as ciências humanas e sociais, é porque se ez legítimo
pelas tantas batalhas dos movimentos feministas, tornando-se fundamental para a
compreensão das relações humanas.
5.1 FEMINISMO
O eminismo é um conceito múltiplo, ele possui uma dimensão política, que se
refere aos movimentos de luta por direitos, e uma dimensão acadêmica, que se refere
aos estudos da condição feminina. Adimensão acadêmica, ou seja, o campo de pesquisa
e de conhecimento sobre as mulheres, pode ser considerada multidisciplinar, porque
ocorre em diferentes campos disciplinares, como: Antropologia, História, Educação,
Sociologia, Direito e vários outros.
48
O principal objetivo do movimento feminista não foi alcançar a igualdade entre
homens e mulheres, mas sim a equidade entre eles. Para assegurar a igualdade não
deve ser necessário que as mulheres assumam posturas “masculinas”. Elas devem
preservar suas identidades. Por isso a ideia de “equidade” e não igualdade.
Com relação ao Movimento Feminista, ele surgiu no século XVIII, na Europa,
especialmente na Inglaterra e França, mas logo repercutiu em outros países e se
desenvolveu de dierentes ormas e expressões até os dias atuais. Para dar uma ideia
de totalidade ao movimento, ele oi dividido em três grandes momentos, que explicam
as diferentes concepções e lutas do movimento.
5.2 A PRIMEIRA ONDA FEMINISTA
FONTE: Disponível em: <http://justicando.cartacapital.com.br/2017/09/14/historia-da-primeira-onda-e-
minista/>. Acesso em: 19 set. 2017.
Esseprimeiromomentodofeminismo,chamado“PrimeiraOndaFeminista”,
reere-se a um período extenso de atividade eminista ocorrido durante o século
XIX e início do século XX, no Reino Unido, na França e Estados Unidos, que tinha
o foco originalmente na promoção da igualdade nos direitos contratuais e de
propriedade para homens e mulheres, e na oposição de casamentos arranjados e
da propriedade de mulheres casadas (e seus lhos) por seus maridos. No entanto,
no mdo século XIX, o ativismo passou a se ocar, principalmente, na conquista de
poder político, especialmente odireito ao surágio (voto) por parte das mulheres.
Ainda assim, muitas eministas já aziam campanhas pelos direitos sexuais,
reprodutivos e econômicos das mulheres.
Na França do século XVIII, envolvidas pelo ideal de “Liberdade, Igualdade e
Fraternidade” da Revolução Francesa, mulheres de todas as classes sociais juntaram-
se ao movimento revolucionário. Elas acreditavam que, uma vez estabelecida a
democracia, seus direitos ao voto, à vida pública, ao divórcio e à emancipação social (já
que eram subordinadas ao pai ou marido) seriam assegurados. Muitas mulheres lutaram
nos fronts de batalha na revolução, e algumas morreram guilhotinadas, por defenderem
suas convicções depois que a Revolução se consolidou e lhes negou, de forma desleal,
seus direitos.
49
FONTE: Disponível em: <http://igualdadedegeneroeraca.blogspot.com/2011/09/movimento-feminista>.
Acesso em: 20 out. 2011.
As ativistas emininas zeram campanhas pelos direitos legais das
mulheres (direitos de contrato, direitos de propriedade, direitos ao voto), pelo direito
da mulher à sua autonomia e à integridade de seu corpo, pelos direitos ao aborto
e pelos direitos reprodutivos (incluindo o acesso à contracepção e a cuidados
pré-natais de qualidade), pela proteção de mulheres e garotas contra a violência
doméstica, o assédio sexual e o estupro, pelos direitos trabalhistas, incluindo a
licença-maternidade e salários iguais, e todas as outras formas de discriminação.
5.3 A SEGUNDA ONDA FEMINISTA
ASegundaOndaFeminista culminou comosmovimentos sociais emandamento
nos Estados Unidos, e o país oi, desta vez, a reerência do movimento para o restante
do mundo. A segunda onda se reere a um período da atividade eminista que teve início
na década de 60 e durou até o m da década de 80.
Disponível em: <http://www.veracruz.edu.br/palavradeprofes sor/2010/cinema1.htm>.
No livro, Friedan levanta a hipótese de que as mulheres seriam vítimas
de um sistema also de crenças, que exige que elas encontrem identidade e
signicado em suas vidas através de seus maridos e lhos; esse sistema az com
que a mulher perca completamente a sua identidade para a de sua amília.
50
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Feminismo>. Acesso em: 20 out. 2011.
Friedan, especicamente, localiza esse sistema nas comunidades
suburbanas de classe média pós-Segunda Guerra Mundial; ao mesmo tempo, o
boom econômico pós-guerra nos Estados Unidos levou ao desenvolvimento de
novas tecnologias que tornaram o trabalho das donas de casa menos diícil, mas
que frequentemente tinham o resultado de tornar o trabalho das mulheres menos
signicante e menos valorizado.
5.4 A TERCEIRA ONDA FEMINISTA E O SURGIMENTO DOS
ESTUDOS DE GÊNERO
De acordo com Grossi (2010), o movimento eminista e o movimento gay
merecem destaque como aqueles que de fato questionaram as relações “afetivo-
sexuais” no espaço privado. A partir de então, esses questionamentos começaram a
adentrar o espaço universitário e pesquisas passaram a ser desenvolvidas no interior de
várias disciplinas.
No Brasil, a partir dos anos 1970/80 começam a se desenvolver estudos sobre a
condição feminina, em que basicamente se discutia a opressão das mulheres em uma
sociedade patriarcal. Já a partir dos anos 1980 surgem os estudos sobre as mulheres,
pois: “[...] se percebe que não é possível alar de uma única condição eminina no Brasil,
uma vez que existem inúmeras dierenças, não apenas de classe, mas também regionais,
de classes etárias, de ethos, entre as mulheres brasileiras” (GROSSI, 2010, p. 3-4).
Nesse período, várias teses são desenvolvidas, porém, segundo Grossi (2010,
p. 4), a reerência utilizada para o reconhecimento das mulheres enquanto grupo está
ainda associada a uma “unidade biológica (vagina, útero, seios)”.
6 CONCEITUANDO GÊNERO
OconceitodegênerosurgenoBrasilatravésdepesquisadorasnorte-americanas,
que vão tratar as relações entre homens e mulheres de forma a negar as diferenças
biológicas como constituidoras das identidades dos seres humanos, e introduzir a
perspectiva de que somos construídos a partir de determinados mecanismos sociais.
Uma das pensadoras responsáveis por essa nova perspectiva é a autora Joan Scott. No
artigo intitulado “Gênero: uma categoria útil de análise histórica”, ela diz que:
51
O gênero torna-se uma maneira de indicar ‘construções sociais’ –
a criação inteiramente social de ideias sobre os papéis adequados
aos homens e às mulheres. É uma maneira de se referir às origens
exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e das
mulheres. O gênero é, segundo esta denição, uma categoria social
imposta sobre um corpo sexuado (SCOTT, 1990, p. 7).
Para a estudiosa Françoise Héritier (1996), o conceito de gênero é relacional,
ou seja, se constrói na relação entre homens e mulheres, haja visto que ninguém vive
só, pois todas as pessoas se relacionam desde que nascem, independente das regras
sociais e culturais.
Segundo Grossi (2010), papéis de gênero são as representações (tomadas
como representações de uma personagem no teatro) de cada sexo, ou seja, papéis
sexuais são as características atribuídas a cada sexo, de acordo com sua cultura. São
modelos do que é próprio e concernente a cada sexo. Sabe-se, através de relatos de
historiadores, que os papéis de gênero podem ser alterados dentro de uma mesma
sociedade, dependendo das situações.
Com relação à identidade de gênero, ela se orma, segundo Grossi (2010), a
partir da socialização de valores e comportamentos que são internalizados logo nas
primeiras fases da infância. Esses valores e comportamentos que são repassados são
dierentes para cada sexo e também variam de uma cultura para outra.
Um dos estudos da autora clássica de Antropologia, Margaret Mead (1979),
poderá ilustrar o que procuramos dizer até aqui. Essa autora procura nos azer refetir
como, nas dierentes sociedades, são construídos padrões de conduta, comportamento,
culturas, atribuindo-se valores a algumas coisas e a outras não, como idade e sexo,
ritmo de nascimento, maturação e velhice, a estrutura do parentesco consanguíneo.
Em seu livro “Sexo e Temperamento”, essa antropóloga aborda três grupos
diferentes emuma ilhadaNovaGuiné: osmontanhesesArapesh, os canibaisMundugumor
e os caçadores de cabeças de Tchambuli. A autora faz o estudo com estes três grupos
porque as dierenças de sexo azem parte da organização sociocultural dos mesmos,
ainda que estas diferenças sejam percebidas e dramatizadas de formas diferentes.
A partir dessa observação, a autora constata: ainda que, de uma forma geral, as
sociedades se organizem levando em conta as dierenças entre os sexos, não signica
dizer que essa organização esteja baseada em sistemas de oposição ou dominação.
Na visão do escritor argentino Jorge Scala, especialmente em seu livro intitulado
“Ideologia de Gênero: o neototalitarismo e a morte da amília” (2011), bem como em uma
entrevista sobre o tema (2012), o termo gênero é associado a uma ideologia e não a uma
teoria ou hipótese, pelo seguinte motivo:
52
Uma teoria é uma hipótese vericada experimentalmente. Uma
ideologia é um corpo fechado de ideias, que parte de um pressuposto
básico falso–quepor isto deve impor-seevitandotodaanálise racional
-, e então vão surgindo as consequências lógicas desse princípio
falso. As ideologias se impõem utilizando o sistema educacional
ormal (escola e universidade) e não ormal (meios de propaganda),
como zeram os nazistas e os marxistas (SCALA, 2012, s.p.).
O autor argumenta ainda que o fundamento da ideologia de gênero é falso.
Seu undamento principal e also é este: o sexo seria o aspecto
biológico do ser humano, e o gênero seria a construção social ou
cultural do sexo. Ou seja, que cada um seria absolutamente livre, sem
condicionamento algum, nem sequer o biológico -, para determinar
seu próprio gênero, dando-lhe o conteúdo que quiser e mudando
de gênero quantas vezes quiser. Agora, se isso fosse verdade, não
haveria dierenças entre homem e mulher – exceto as biológicas
-; qualquertipo de união entre os sexos seria social e moralmente
bom, e todas seriam matrimônio; cada tipo de matrimônio levaria a
um novo tipo de amília; o aborto seria um direito humano inalienável
da mulher, já que somente ela é que ca grávida; etc. Tudo isso é
tão absurdo, que só pode ser imposto com uma espécie de “lavagem
cerebral” global (SCALA, 2012, s.p.).
Para concluir sua explicação, Scala responde à seguinte pergunta: quais são,
então, as consequências para nossos lhos, para a próxima geração, caso a ideologia de
gênero seja incentivada nas escolas infantis?
Eu respondo com um fato real. Dei uma palestra sobre esta ideologia,
a todos os professores de uma cidade de 7.000 habitantes, numa
área rural da minha província. Gente simples e trabalhadora. Ao
concluí-la, uma proessora comentou em voz alta: ‘Agora eu entendo
porque há alguns dias meu lho de sete anos me perguntou: mamãe,
eu sou menino ou menina …? As pessoas formadas e maduras estão
imunes dessa ideologia, mas se a permitirmos penetrar nas crianças
desde tenra idade – cinema, rádio, TV, escola, revistas -, em muitos
casos, teremos que lamentar com o tempo tragédias de todo tipo
(SCALA, 2012, s.p.).
Vejamos o que nos apresenta o autor Dale O’Leary (1997, p. 1), em sua obra “A
agenda de gênero”.
Sem alarde ou debate, a palavra ‘sexo’ oi substituída pela palavra
‘gênero’. Nós costumávamos alar de ‘discriminação de sexo’, mas
agora é ‘discriminação de gênero’. Com certeza parece bastante
inocente. ‘Sexo’ possui um signicado secundário, subentendendo
relação sexual ou atividade sexual. ‘Gênero’ parece mais delicado
e renado. As militantes eministas aprenderam a partir de suas
derrotas. Quando elas não puderam vender sua ideologia radical para
as mulheres em geral, elas lhe deram uma nova roupagem. Agora
elas são bastante cuidadosas em revelar seus verdadeiros objetivos.
Elas pretendem alcançar seus ns não por uma conrontação direta,
mas através de uma mudança no signicado das palavras.
53
No decorrer de seu texto, O’Leary (1997) azmenção à Conerência da ONU sobre
População, realizada no Cairo, em 1994, e a Conferência sobre as Mulheres, realizada
em Pequim, em 1995, em que oi incluída na plataorma de ação destas conerências a
“perspectiva de gênero”. Sobre este tema, o autor faz os seguintes questionamentos:
Qual é a relação entre a “perspectiva de gênero” e o fato de que os
seus proponentes possuem uma extrema aversão a palavras como
mãe, pai, marido e esposa? Por que os defensores da Agenda de
Gênero reerem-se ao casamento e à amília em termos negativos?
Por que um documento da ONU sobre as mulheres não tem quase
nada de positivo a dizer sobre as mulheres que são mães de tempo
integral? Por que a ONUnão promovemais a “perspectiva damulher”?
(O’LEARY, 1997, p. 2).
Caro acadêmico, agora é com você. Diante das discussões apresentadas até o
momento, comovocê dene gênero? O quevocê pensa sobre o assunto?Você considera
que o objetivo da ideologia de gênero é promover a defesa da mulher? Promover a
defesa do homem? Defender a vida humana e as crianças? Lutar pela equidade entre
homens e mulheres? São muitas as indagações que precisam ser feitas para elucidar
seu pensamento, e para que de modo crítico e racional você possa chegar às suas
próprias conclusões.
Para complementar nossa conversa, leia atentamente a introdução do livro de Marilena Chauí
sobre “O que é ideologia” e tire suas próprias conclusões sobre os undamentos da “ideologia
de gênero”.
“Frequentemente, ouvimos expressões do tipo “partido político ideológico”, é preciso ter uma
“ideologia”, “alsidade ideológica”.
Essas expressões tomam a palavra ideologia para com ela signicar “conjunto
sistemático e encadeado de ideias”. Ou seja, conundem ideologia com
ideário.
Nossa tarefa, aqui, será desfazer a suposição de que a ideologia é um
ideário qualquer ou qualquer conjunto encadeado de ideias e, ao contrário,
mostrar que a ideologia é um ideário histórico, social e político que oculta
a realidade, e que esse ocultamento é uma forma de assegurar e manter a
exploração econômica, a desigualdade social e a dominação política.
FONTE: Chauí, M. O Que é Ideologia. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 2001.
Disponível em: <https://goo.gl/VMihTF>. Acesso em: 9 set. 2017.
DICAS
54
7 ESTUDOS DE GÊNERO
Especialmente nas três últimas décadas, os estudos de gênero passaram a
se preocupar com várias questões relativas ao universo das relações sociais. Observar
a realidade a partir da análise de gênero possibilitou novas interpretações sobre o
comportamento humano e a observação das desigualdades de gênero. Vejamos, a
seguir, alguns estudos de gênero e suas principais contribuições.
AconstruçãosocialdadesigualdadedeGênero (EducaçãoDiferenciada):
Os estudos compreendem que há uma educação diferenciada para meninos e meninas
desde o seu nascimento. Nessa educação, reproduzem-se idealizações e modelos de
papéis destinados a homens emulheres na sociedade. Por exemplo, osmeninos brincam
de bola e carrinho, enquanto as meninas brincam de boneca e casinha, deixando claro o
espaço que cada um ocupará dentro da sociedade. Por este motivo é que se organizam
papéis diferenciados para homens e mulheres.
Papéis femininos ou Feminilidades: De acordo com os estudos, os modelos
de eminino em nossa sociedade são criados a partir de símbolos antagônicos: Eva
e Maria, bruxa e ada, mãe e madrasta. Sendo que essas denições propõem o que
é bom para as mulheres e culpam-nas quando não correspondem a este padrão. A
sociedade espera que as mulheres cuidem da casa, dos lhos e do marido, que sejam as
guardiãs da moral da amília, que sejam meigas, atenciosas, maternais e rágeis. Outras
expressões de eminino são marginalizadas.
Papéis masculinos ou Masculinidades: Os estudos sobre masculinidade
tratam da construção da identidade masculina e das diferentes masculinidades.
Além disso, tratam do discurso sobre o masculino, a idealização dele e os padrões de
masculinidade. O que a sociedade espera do papel desempenhado pelos homens é
que sejam provedores, ortes e viris. Outras expressões de masculinidade também são
consideradas desviantes.
Violência de gênero: Os estudos apontam que a violência de gênero é
demonstrada no exercício de poder dos homens (na orma de espancamentos, insultos,
ameaças, estupros, assédio, assassinatos e outros) sobre as mulheres e demais
pessoas consideradas "ineriores" (homossexuais, crianças, idosos etc.). Esses estudos
demonstram uma série de situações em que as mulheres têm sido historicamente
violentadas em seus direitos, tanto no aspecto ísico, quanto psicológico.
Famílias: Muitos estudos reconhecem que há uma visão tradicional de
amília que não reconhece a existência de núcleos amiliares cheados somente por
mulheres ou a constituição de amílias compostas por "agrupamento". De igual orma,
são abordadas aqui as questões relativas aos papéis tradicionais desempenhados por
homens e mulheres dentro das estruturas familiares.
55
A imagem das mulheres nos meios de comunicação: Os estudos
demonstram que os meios de comunicação parecem dar às mulheres "visibilidade" e
"espaço para discussão", mas que reforçam constantemente o seu papel de "objeto de
consumo", de "utilidade pública" e "sexual". Por exemplo, nas propagandas de bebidas
alcoólicas.
A educação escolar: Os estudos reforçam que a educação escolar é
transmissora de valores, atitudes e preconceitos, reprodutora das desigualdades de
gênero e homoobia. Isso porque, no universo das instituições de ensino do nosso país,
assuntos como Gênero e Sexualidade têm sido tratados historicamente como tabus.
Quando se permite falar sobre esses temas, a escola tende a tratar a questão como uma
dimensão da vida adulta, ligada à constituição da amília e da reprodução, através de
uma perspectiva biológica. Desta orma, tanto o exercício da sexualidade por si, quanto
as orientações homoafetivas, neste espaço disciplinar, são negados. A escola tem
assumido, entre outros, o papel de vigiar os limites entre as identidadese os papéis de
gênero. Nesta unção, de acordo com Louro (1997), a norma a ser mantida e rearmada
pela instituição valoriza, prioritariamente, o modelo tradicional dos papéis de gênero e o
comportamento heterossexual, rearmando os padrões da moral dominante vigente na
sociedade, tomando por modelo as relações hierárquicas e desiguais entre os sexos e
o homem e a mulher branca heterossexual de classe média urbana e cristã. Os que são
diferentes deste modelo são considerados como tendo um comportamento "desviante".
Louro (1997, p. 36) destaca que “ninguém é essencialmente dierente, ninguém é
essencialmente o outro; a dierença é sempre constituída a partir de um dado lugar que
se toma como centro".
NoBrasil, osParâmetrosCurricularesNacionais (PCN) e aSecretaria deEducação
Continuada (SECAD/MEC) possuem a perspectiva de que os temas gênero, identidade
de gênero e orientação sexual devem ser considerados pela política educacional como
uma questão de direitos humanos. Por este motivo é que existe no Brasil uma agenda
de enrentamento ao sexismo e homoobia através do Plano Nacional de Políticas para
as Mulheres (PNPM) e do Programa Brasil sem Homoobia (BSH).
Por outro lado, a questão tornou-se tão polêmica a ponto de gerar a elaboração
de um projeto de lei (Projeto de Lei 7382/2010), que prevê a penalização pela
discriminação contra heterossexuais e determina que as medidas e políticas públicas
antidiscriminatórias atentem para essa possibilidade, ou seja, pune a “heterofobia”. No
momento, o projeto encontra-se em pedido de vista pela Comissão de Direitos Humanos
e Minorias (CDHM).
Público e Privado: Os estudos demonstram que, a partir da consolidação do
capitalismo, consolida-se também a ideologia de que existe uma esera pública e outra
privada. Esfera privada: Lugar próprio das mulheres, do doméstico, da subjetividade,
do cuidado, da honra. Esfera pública: Espaço dos homens, da objetividade, dos iguais,
da liberdade e do direito. Desta maneira, convencionou-se nas sociedades ocidentais
56
o espaço privado para a mulher, a casa, o cuidado com os lhos e marido; e o espaço
público ao homem, relações sociais, políticas e de trabalho. Essa “ordem” social criou
dierenças e justicou desigualdades sexuais ao longo da história, sendo que muitas
ainda permanecem nos dias de hoje.
A divisão sexual do trabalho: Os estudos demonstram que historicamente
a divisão sexual do trabalho enatiza para os homens a produção e a subsistência da
amília e para as mulheres a reprodução e a educação das crianças.
Acadêmico, sobre esses temas, refita as seguintes perguntas: O que você
entende por viver sem preconceito de gênero? E sem preconceito de sexo? Existe
diferença entre essas perguntas? Como você responderia cada uma delas?
Você deve ter percebido que nos últimos cinco ou dez anos houve, no Brasil,
uma evidente tendência ao uso do termo gênero – em referência aos papéis masculinos
e emininos das pessoas – em substituição ao termo sexo – reerente ao sexo biológico
– em muitos sites governamentais e não governamentais, quando da necessidade de
informar dados pessoais para cadastros. Já se deparou com isso?
Apesardeseremconceitosdierentes (sexoegênero),observequesãoperguntas
semelhantes, que nos remetem ao reconhecimento das diferenças entre homens e
mulheres e ao respeito para com ambos. No entanto, até pouco tempo não se fazia
esse questionamento, mesmo reconhecendo que hámanifestações de comportamento
aetivo ou sexual dierente do sexo de nascimento. Contudo, o momento delicado em
que a sociedade vivencia esse debate não pode motivar violência e intolerância e, muito
menos, a adoção do relativismo, teoria losóca que admite que todo conhecimento é
relativo. Pois se assim o fosse, perguntas como “de onde vim?”, “o que sou?” e “para onde
vou?” não seriam tão intrigantes quanto são para a única espécie capaz de raciocinar
sobre si mesma, o Homo sapiens.
Assim, o modo como o termo gênero vem sendo utilizado nos diversos meios
de comunicação apresenta uma ragilidade. Por exemplo, se o gênero representa o
comportamento social da pessoa e o sexo a determinação biológica, as duas perguntas
deveriam ser eitas. Agora, se só existe uma espécie humana e nesta se maniestam
apenas dois sexos (ou dois gêneros), estaria coerente discutir relações de gênero?
Odebate acerca do assunto é amplo, e para nós, brasileiros, a Constituição prevê,
no Art. 3º, inciso IV, que constituem objetivos fundamentais da República Federativa
do Brasil, dentre outros, promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça,
sexo, cor, religião, idade e quaisquer outras ormas de discriminação (BRASIL, 1988).
Portanto, já estaria respaldado o reconhecimento da diversidade humana e o combate
à discriminação de qualquer origem.
57
A produção foi sempre mais valorizada do que a reprodução, por este
motivo é que as atividades ditas reprodutivas, como as funções domésticas, são
desvalorizadas. De acordo comFaria (1997), reerindo-se ao trabalho dasmulheres
rurais no Brasil:
Carpir no sertão nordestino era uma tarefa dos homens e era
considerado umtrabalho pesado. Carpir no brejo paraibano era
tarefa das mulheres e era considerado trabalho leve. Como se
vê, no cultivo da cana o que caracterizava um trabalho como
leve ou pesado não era a orça ísica necessária para realizá-
lo, mas o valor social de quem o azia (FARIA, 1997, p. 14).
Nessesentido, adesigualdadesexual nãoé refetidacomoumproblemade
gênero, ela é naturalizada. Essa postura é quemantémo padrão de desvalorização
do trabalho eminino, e é o que explica porque muitas mulheres ainda ganham
menos que os homens, mesmo ocupando cargos iguais.
Por outro lado, após a expansão do capitalismo, quando as mulheres entram
nomercado de trabalho permanecem ainda com as atividades domésticas, o cuidado
com a casa e com os lhos. De acordo com o IBGE (2005):
O IBGE mostra que a crescente participação das mulheres
no mercado de trabalho não reduziu a jornada delas com os
aazeres domésticos. Pelo contrário, na aixa etária de 25 a 49
anos de idade, onde a inserção das mulheres nas atividades
remuneradas é maior e que coincide com a presença de lhos
menores, o trabalho doméstico ocupa 94% das mulheres.
Aumentando o tempo de trabalho da mulher em função da
dupla jornada de trabalho.
FONTE: Disponível em: <http://www.abed.org.br/congresso2012/anais/122f.pdf>. Acesso em: 2 jun. 2015.
Apartir da segundametade do século XX, com a expansão do capitalismo,
as mulheres entraram denitivamente no mercado de trabalho. Fato que, por um
lado, possibilitou a inserção da mulher no mundo do trabalho “produtivo” e no
espaço público, e por outro, lhe manteve a condição de trabalhadora doméstica,
pois ela continuou com a integralidade das atividades do lar. Ocorre, assim, o
acúmulo de funções, chamado de dupla jornada de trabalho. Além disso, do
ponto de vista do desenvolvimento do capitalismo, a contratação de mulheres
foi estrategicamente conveniente, pois a remuneração do trabalho feminino era
mais baixa do que a masculina, dada a sua condição histórica de inerioridade.
Por esse motivo, ainda nos dias de hoje, em alguns setores, o trabalho feminino é
menos valorizado do que o masculino.
Dupla Jornada de Trabalho:
FONTE: Disponível em: <https://www.aedb.br/seget/arquivos/artigos14/20320175.pdf>. Acesso em: 7
dez. 2017.
58
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• Omulticulturalismo signica a existência de grupos de diversas culturas, assim como:
o embate político, econômico e social travado pelos dierentes grupos sociais na luta
pelo respeito à diversidade.
• O termo “multiculturalismo” é recente, e sua utilização ocorreu pela primeira vez na
Inglaterra, entre as décadas de 1960 e 1970.
• A ideia de que os estudos multiculturais são multidisciplinares, na medida em que
são provenientes de diversos campos de conhecimento, como: Antropologia Cultural,
Psicologia Social, História, Sociologia, entre outros.
• O direito à diferença e a diminuição dasdesigualdades são temas centrais para o
multiculturalismo, bandeira de luta de vários movimentos sociais contemporâneos
espalhados pelo mundo inteiro.
• O conceito de cultura corresponde ao conjunto das regras sociais aceitas como
normas pela sociedade ou grupo que as compõe.
• O etnocentrismo é a maneira de ver os “outros” com base nos nossos padrões
culturais, com os nossos valores sociais, morais e éticos, e não os valores do outro.
• O relativismo cultural signica uma perspectiva mais ampla sobre o outro, uma
perspectiva que vê e compreende o outro a partir dos parâmetros e regras sociais do
outro.
• O eminismo como conceito múltiplo. Ele possui uma dimensão política, que se reere
aos movimentos de luta por direitos, e uma dimensão acadêmica, que se refere aos
estudos da condição feminina.
• O Movimento Feminista surgiu no século XVIII, na Europa, e foi dividido em três
grandes momentos, sendo a 1ª, a 2ª e a 3ª ondas feministas.
• A primeira onda eminista se reere a um período extenso de atividade eminista,
ocorrido durante o século XIX e início do século XX, na Europa. Sendo que o oco
original do movimento se concentrou na promoção da igualdade, nos direitos
contratuais e de propriedade para homens e mulheres.
59
• A segunda onda feminista tem como cenário de surgimento os Estados Unidos já
no século XX, na década de 1960, na medida em que o processo de industrialização
se acelera. O movimento feminista, neste momento histórico, luta por melhores
condições de trabalho e renda, além de questionar as relações na amília.
• Com a terceira onda feminista – a partir da década de 1980 –, vem a introdução da
discussão da desigualdade de gênero no meio acadêmico, momento em que surge o
conceito de gênero.
• O conceito de gênero surge no Brasil através de pesquisadoras norte-americanas,
que vão tratar as relações entre homens e mulheres de forma a negar as diferenças
biológicas como constituidoras das identidades dos seres humanos, e introduzir a
perspectiva de que somos construídos a partir de determinados mecanismos sociais.
• Existem pensamentos contrários à ideologia de gênero e outros avoráveis, a
depender do autor que se leva em consideração.
• Questionar é tão importante quanto buscar o saber, e que é preciso estimular o
pensamento crítico diante dos problemas cotidianos, de modo a desenvolver a
capacidade de propor soluções viáveis e sustentáveis.
• Avaliar criticamente a realidade à luz dos conhecimentos cientícos, éticos e morais
contribui para o reconhecimento da diversidade e o respeito à dignidade humana.
60
AUTOATIVIDADE
1 As mulheres frequentam mais os bancos escolares que os homens,
dividemseu tempo entre o trabalho e os cuidados coma casa, geram
renda familiar, porém, continuam ganhando menos e trabalhando
mais que os homens.
As políticas de beneícios implementadas por empresas preocupadas em acilitar a
vida das funcionárias que têm criança pequena em casa já estão chegando ao Brasil.
Acordos de horários fexíveis, programas como auxílio-creche, auxílio-babá e auxílio-
amamentação são alguns dos beneícios oerecidos.
FONTE: Adaptado de <http://www1.folha.uol.com.br>. Acesso em: 30 jul. 2013.
JORNADA MÉDIA DE TRABALHO POR SEMANA
NO BRASIL - (EM HORAS)
FONTE: Disponível em: <http://ipea.gov.br>. Acesso em: 30 jul. 2013.
Considerando o texto e o gráco, avalie as armações a seguir.
I- O somatório do tempo dedicado pelas mulheres aos afazeres domésticos e ao
trabalho remunerado é superior ao dedicado pelos homens, independentemente
do ormato da amília.
II- O ragmento do texto e dos dados do gráco apontam para a necessidade de
criação de políticas que promovam a igualdade entre os gêneros no que concerne
a tempo médio dedicado ao trabalho e remuneração recebida.
61
2 O conceito de eminismo possui uma perspectiva política, que se
reere ao movimento social em prol de políticas de reconhecimento
e uma perspectiva acadêmica, que se refere aos estudos feministas.
Com relação ao conceito de feminismo e à atuação do movimento
eminista, classique V para as sentenças verdadeiras e F para as alsas:
3 O feminismo é um movimento social e um campo de estudos
cujo objetivo é deender a igualdade entre os sexos. Na história
do feminismo, convencionou-se dividir o movimento em três
momentos: primeira, segunda e terceira onda eminista. Classique
V para as sentenças verdadeiras e F para as alsas:
III- No fragmento de reportagem apresentado, ressalta-se a diferença entre o tempo
dedicado pormulheres e homens ao trabalho remunerado, sem alusão aos afazeres
domésticos.
É correto o que se arma em:
a) ( ) I, apenas.
b) ( ) III, apenas.
c) ( ) I e II, apenas.
d) ( ) II e III apenas.
e) ( ) I, II e III.
( ) O eminismo é ummovimento social e um campo de conhecimento que tem como
objetivo defender a igualdade entre homens e mulheres, seja do ponto de vista
jurídico, político ou econômico.
( ) O movimento eminista está dividido historicamente em três "ondas", sendo que
a primeira onda refere-se ao feminismo do século XVIII, e tem como referências
países como França e Inglaterra.
( ) Os estudos eministas têm como objetivo denunciar as desigualdades biológicas
entre homens e mulheres, no sentido de garantir direitos apenas para as mulheres.
( ) Os estudos eministas podem ser classicados como multidisciplinares, pois são
desenvolvidos a partir de várias áreas de estudos.
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) V – V – F – V.
b) ( ) F – V – F – F.
c) ( ) F – F – V – F.
d) ( ) F – V – F – V.
62
( ) Uma das autoras mais importantes da Segunda Onda Feminista é Betty Friedan. Ela
cou conhecida por escrever o livro "A Mística Feminina". Nele, a autora enobrece a
vida vazia das donas de casa de classe média nos Estados Unidos, destacando que
a identidade da mulher deve ser exclusiva da amília.
( ) Na Segunda Onda, a revolucionária Olímpia de Gouges, em 1791, escreveu uma
declaração muito importante, argumentando que as mulheres deveriam ter os
mesmos direitos que os homens, podendo participar da vida política, governando
e formulando leis.
( ) A Segunda Onda Feminista culminou com os movimentos sociais em andamento
nos Estados Unidos. Esse momento do feminismo começa na década de 1960 e
dura até o m da década de 1980.
( ) ATerceira Onda Feminista inicia na década de 1990, com o objetivo de compreender
os problemas femininos de um ponto de vista mais amplo, e não apenas do ponto
de vista das "mulheres brancas de classe média-alta", como fez a segunda onda.
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) F – F – V – V.
b) ( ) F – V – F – F.
c) ( ) V – F – V – F.
d) ( ) V – V – F – V.
4 (ENADE - 2017, FORMAÇÃO GERAL, questão 1).
TEXTO 1
Em 2001, a incidência da sílis congênita – transmitida da mulher para o eto durante
a gravidez – era de um caso a cada mil bebês nascidos vivos. Havia uma meta da
Organização Pan-Americana de Saúde e da Unicef de essa ocorrência diminuir no Brasil,
chegando, em 2015, a cinco casos de sílis congênita por 10 mil nascidos vivos. O país
não atingiu esse objetivo, tendo se distanciado ainda mais dele, embora o tratamento
para sílis seja relativamente simples, à base de antibióticos. Trata-se de uma doença
para a qual a medicina já encontrou a solução, mas a sociedade ainda não.
FONTE: Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br>. Acesso em: 23 jul. 2017 (adaptado).
TEXTO 2
O Ministério da Saúde anunciou que há uma epidemia de sílis no Brasil. Nos últimos
cinco anos, foram 230 mil novos casos, um aumento de 32% somente entre 2014 e
2015. Por que isso aconteceu?
Primeiro, ampliou-se o diagnóstico com o teste rápido para sílis realizado na unidade
básica de saúde e cujo resultado sai em 30 minutos. Aí vem o segundo ponto, um dos
mais negativos, que oi o desabastecimento, no país, da matéria-prima para a penicilina.
63
O Ministério da Saúde importou essa penicilina, mas, por um bom tempo, não esteve
disponível, e isso ez com que mais pessoas se inectassem.O terceiro ponto é a
prevenção. Houve, nos últimos dez anos, uma redução do uso do preservativo, o que
aumentou, e muito, a transmissão.
A incidência de casos de sílis, que, em 2010, era maior entre homens, hoje recai sobre
as mulheres. Por que a vulnerabilidade neste grupo está aumentando?
As mulheres ainda são as mais vulneráveis a doenças sexualmente transmissíveis
(DST), de uma orma geral. Elas têm diculdade de negociar o preservativo com o
parceiro, por exemplo. Mas o acesso da mulher ao diagnóstico também é maior, por
isso, é mais ácil contabilizar essa população. Quando um homem az exame para a
sílis? Somente quando tem sintoma aparente ou outra doença. E a sílis pode ser uma
doença silenciosa. A mulher, por outro lado, vai fazer o pré-natal e, automaticamente,
az o teste para a sílis. No Brasil, estima-se que apenas 12% dos parceiros sexuais
recebam tratamento para sílis.
FONTE: Entrevista com Ana Gabriela Travassos, presidente da regional baiana da Sociedade
Brasileira de Doenças Sexualmente Transmissíveis. Disponível em: <http://www.agenciapatricia-
galvao.org.br>. Acesso em: 25 jul. 2017 (adaptado).
TEXTO 3
Vários estudos constatam que os homens, em geral, padecem mais de condições
severas e crônicas de saúde que as mulheres e morrem mais que elas em razão de
doenças que levam a óbito. Entretanto, apesar de as taxas de morbimortalidade
masculinas assumirem um peso signicativo, observa-se que a presença de homens
nos serviços de atenção primária à saúde é muito menor que a de mulheres.
GOMES, R.; NASCIMENTO, E.; ARAUJO, F. Por que os homens buscam menos os serviços de saúde do que as
mulheres? As explicações de homens com baixa escolaridade e homens com ensino superior. Cad. Saúde
Pública [on-line], v. 23, n. 3, 2007 (adaptado).
A partir das inormações apresentadas, redija um texto acerca do tema: Epidemia de
síflis congênita no Brasil e relações de gênero
Em seu texto, aborde os seguintes aspectos:
• A vulnerabilidade das mulheres às DSTs e o papel social do homem em relação à
prevenção dessas doenças.
• Duas ações, especicamente voltadas para o público masculino, a serem adotadas
no âmbito das políticas públicas de saúde ou de educação, para reduzir o problema.
5 (ENADE – 2017, FORMAÇÃO GERAL, questão 2).
64
A pessoa trans precisa que alguém ateste, conrme e comprove que ela pode ser
reconhecida pelo nome que escolheu. Não aceita que se autodeclare mulher ou homem.
Exige que um prossional de saúde diga quem ela é. Sua declaração é o que menos
conta na hora de solicitar, judicialmente, a mudança dos documentos.
FONTE: Disponível em: <http://www.ebc.com.br>. Acesso em: 31 ago. 2017 (adaptado).
No chão, a travesti morre
Ninguém jamais saberá seu nome
Nos jornais, fala-se de outra morte
De tal homem que ninguém conheceu
FONTE: Disponível em: <http://www.aminoapps.com>. Acesso em 31 ago. 2017 (adaptado).
Usava meu nome ocial, eminino, no currículo porque diziam que eu estava cometendo
um crime, que era falsidade ideológica se eu usasse outro nome. Depois fui pesquisar
e descobri que não é assim. Inelizmente, ainda existe muita desinormação sobre os
direitos das pessoas trans.
FONTE: Disponível em: <http://www.brasil.elpais.com>. Acesso em: 31 ago. 2017 (adaptado).
Uma vez o segurança da balada achou que eu tinha, por engano, mostrado o RG do
meu namorado. Isso quando insistem em não colocar meu nome social na minha cha
de consumação.
FONTE: Disponível em: <http://www.brasil.elpais.com>. Acesso em: 31 ago. 2017 (adaptado).
Com base nessas falas, discorra sobre a importância do nome para as pessoas
transgêneras e, nesse contexto, proponha umamedida, no âmbito das políticas públicas,
que tenha como objetivo facilitar o acesso dessas pessoas à cidadania.
65
TÓPICO 4 -
RESPONSABILIDADE SOCIAL: SETOR PÚBLICO,
SETOR PRIVADO E TERCEIRO SETOR
1 INTRODUÇÃO
Nosso tempo apresenta enormes desaos éticos que decorrem da diversidade
cultural das sociedades contemporâneas, do consumismo, do individualismo, do
hedonismo, do desprezo ao próximo e à natureza, gerando um quadro de crise que tem
sérias implicações sobre a ética, sobre os valores e sobre a responsabilidade social.
Podemos notar um triplo aspecto nesta crise: primeiro, o agravamento da
desigualdade social, com crescente pobreza e miséria de uma parte considerável da
população mundial. A desigualdade hoje se mostra tão grande que pode até levar à
desumanização de uma parte considerável das pessoas, com os laços de cooperação e
solidariedade atingindo níveis tão baixos como nunca vistos antes na história de nossa
espécie.
Em segundo lugar, vemos uma crise do sistema de trabalho, com o desemprego,
a perda dos postos de trabalho para a automação, e a exclusão social, que colocam o
problema ético de como construir uma sociedade que não gere destituídos dela.
Em terceiro lugar, vemos a crise ecológica, com os níveis de consumo atuais
esgotando os recursos naturais e degradando a natureza a ponto de comprometer a
sobrevivência dos seres vivos, o que nos chama a atenção para a necessidade de uma
nova ética em nossa relação com a natureza.
2 SETOR PRIVADO
Toda a realidade relatada anteriormente vem acompanhada do entendimento
de que cada setor da sociedade tem suas responsabilidades.
O setor privado, por mais óbvio que seja, não deveria ter participação do
setor público. Esse setor também é conhecido como ‘iniciativa privada’ e tem papel
preponderante na economia e desenvolvimento de um país.
UNIDADE 1
66
3 TERCEIRO SETOR
Tradicionalmente, as organizações são pensadas e divididas a partir de uma
lógica política administrativa que dirige a organização, partindo de dois pontos: de
ordem pública ou de ordem privada. As organizações que estão fora desses dois grupos,
que não apresentam objetivo meramente lucrativo ou não (apenas) desempenham
funções públicas, são as organizações sociais, ou seja, todas as organizações residuais
são denidas nesse guarda-chuva, o que abarca um conjunto muito heterogêneo
de tipos e práticas. Não podemos aqui confundir com o terceiro setor do ponto de
vista econômico, ou também conhecido como setor terciário, que se caracteriza por
desenvolver as atividades de comércio da produção industrial, e por serviços, como
transportes, telecomunicações e energia.
“A expressão ‘terceiro setor’ pode considerar-se também adequada na medida
em que sugere uma terceira forma de propriedade entre a privada e a estatal, mas se
limita ao não estatal enquanto produção, não incluindo o não estatal enquanto controle”
(BRESSER-PEREIRA; GRAU, 1999, p. 16).
Pode-se notar que existe um problema de denição conceitual sobre o que
abrange o terceiro setor. “[...] o conceito de terceiro setor descreve um espaço de
participação e experimentação de novos modos de pensar e azer sobre a realidade
social. É um campo marcado por uma irredutível diversidade de atores e ormas de
organização” (CARDOSO, 1997 apud BRESSER-PEREIRA; GRAU, 1999, p. 37).
É importante levar em conta que a Organização Social é um tipo especíco de
ator dentro do terceiro setor. Apesar disso, algumas características podemser apontadas
como típicas das Organizações Sociais (BRESSER-PEREIRA; GRAU, 1999), que aqui são
listadas:
• iniciativas privadas que buscam suprir uma utilidade de ordem pública, ou seja, seus
ns são públicos;
• constituído em grande parte por voluntários. Isso quer dizer que alguns membros
devem trabalhar sem remuneração;
• sem ns lucrativos (o que não quer dizer que não haverá salário para algunsmembros,
mas sim que o objetivo não é enriquecer);
• deve ser ormalmente constituída. Isso não signica que deve necessariamente ser
uma instituição legalizada, mas sim possuir regras, procedimentos que assegurem a
existência e atuação da organização;
• a gestão é própria, não deve ser realizada por grupos externos;
• passar por processo de regulamentação nesses últimos anos.
Assim, pode-se armar que o terceiro setor não é público nem privado. Ele se
situa num entremeio, preenchendo lacunas do Estado atravésde uma atuação na esfera
privada. Assim, as organizações visam prestar serviços com ns de atender demandas
67
sociais em áreas como saúde, educação, cultura etc. Seu ormato típico não é da
Organização Não Governamental (ONG), e sim do setor estatal e do setor privado, que
visam suprir as falhas do Estado e do setor privado no atendimento às necessidades da
população, numa relação conjunta. Entretanto, algumas organizações estão evitando
tal denominação, motivos explicados por Fischer e Falconer (1998, p. 4):
Esta característica pode ser observada quando se analisa a
adoção do termo ONG – Organização Não Governamental – pelas
entidades brasileiras. O termo oi adotado mais por infuência dos
nanciadores internacionais do que por uma tendência espontânea
das organizações brasileiras. Até, pelo contrário, muitas entidades
atualmente não aceitam esta denominação por considerá-la
restritiva, ou mesmo porque ela omite princípios e valores que lhe
são mais caros do ponto de vista ideológico, ou que, na sua opinião,
expressam com mais clareza sua missão institucional.
De fato, a imagem das Organizações Sociais colou nas ONGs, mas elas são, na
verdade, múltiplas e assumem vários ormatos. Uma das críticas a essas organizações
seria sobre uma atuação que serviria apenas a ns privados, não abrangendo a dimensão
social da questão. Outro ponto seria sobre o enriquecimento de algumas organizações,
que obtinham lucro irregularmente. Entretanto, as organizações sociais se apresentam
como uma alternativa que, quando considerados todos os seus preceitos, funcionam
efetivamente junto à população.
3.1 HISTÓRICO
O surgimento das Organizações Sociais acontece no contexto de crise do
último quarto do século XX, a partir da proposta de Estado mínimo nos anos 1980 pelo
neoliberalismo, que signica a maior redução possível do Estado na economia, o que
signicou um corte nos programas destinados ao apoio da população. Na década de
1990 essa proposta começa a se mostrar irreal e se inicia um retorno do Estado a uma
posição mais atuante.
O contexto oi agravado pela abertura do capitalismo na década de 1990 e pela
globalização. O processo de globalização e o fortalecimento das estruturas capitalistas
no mundo, com o fracasso dos sistemas socialistas, aumentam a competitividade entre
as empresas, que a partir deste momento não concorrem apenas com as nacionais,
mas com aquelas situadas em outras partes do mundo.
Assim, o Estado nacional teve diculdade em proteger as empresas nacionais e
os seus trabalhadores, o que levou à crise. “Esta crise levou o mundo a um generalizado
processo de concentração de renda e a um aumento da violência sem precedentes,
mas também incentivou a inovação social na resolução dos problemas coletivos e na
própria reorma do Estado” (BRESSER-PEREIRA; GRAU, 1999, p. 15).
68
Uma dessas inovações refere-se justamente ao fortalecimento do controle
social através do público não estatal. Isso a tal ponto que se pode armar que o século
XXI é o momento em que o público não estatal torna-se chave para a manutenção
da vida social. Outro ponto que fortalece é a visão dessas organizações como espaço
possível para a prática da cidadania, tornando eetiva a democracia participativa.
No Brasil, existem algumas particularidades sobre o histórico dessas
organizações. Na verdade, desde o período militar, em meados do século XX, o Estado
brasileiro realizou intervenção maciça na economia. Na década de 1990 esse modelo
começou a ser criticado, algumas críticas em direção do desvio da unção do papel do
Estado, outras em direção do gasto gerado por essa atuação. Na década de 1990 surge,
de fato, uma reação a essa conjuntura: “Só emmeados dos anos 90 surge uma resposta
consistente com o desao de superação da crise: a ideia da reorma ou reconstrução do
Estado, de orma a resgatar sua autonomia nanceira e sua capacidade de implementar
políticas públicas conjuntamente com a sociedade” (BRASIL, 1997a, p. 8).
Desta forma, o Estado inicia um processo de repensar o desenvolvimento. Ele
toma para si outros papéis, o de promotor e regulador do desenvolvimento, deixando
de se responsabilizar diretamente, como o fazia antigamente. Nesse sentido, por um
lado, ele deixa a unção de prestador direto de serviços sociais, principalmente saúde e
educação, para assumir a sua regulação. Por outro lado, enquanto promotor, ele oferece
subsídios a esses novos atores que assumirão essa atuação direta (BRASIL, 1997b).
Nesse contexto, surgem as Organizações Sociais, gura undamental para o
processo da reformadoEstado. O Estado, naverdade, fomenta esse novo ator.Ainda está
em curso essa troca de atores, da saída do Estado para a ocupação das Organizações
Sociais, que foi impulsionada pela regularização da sua atuação promovida na última
década.
3.2 REALIDADE DAS ORGANIZAÇÕES SOCIAIS NO BRASIL
Possuir um título de Organização Social no Brasil, atualmente, garante o
recebimento de beneícios do Estado, que abrangem dotações orçamentárias, isenções
scais, subsídios etc. Reiterando que as Organizações Sociais devem atender a uma
demanda especíca da comunidade.
Elas se fazem presentes atualmente na gestão de hospitais, santas casas,
museus, institutos de fomento à pesquisa, de projetos voltados a algumas áreas
especícas (saúde e cultura, esporte, no caso de alguns estados), manutenção de
grupos (como a Fundação Orquestra Sinônica do Estado de São Paulo).
69
FIGURA 7 – OBJETIVOS DE DESENVOLVIMENTO DO MILÊNIO – ODM
FONTE: Disponível em: <http://www.odmbrasil.gov.br/os-objetivos-de-desenvolvimento-do-milenio>.
Acesso em: 7 dez. 2017.
Essas Organizações Sociais realizam a gestão do espaço público e querem
melhorar a vida das pessoas, e, por consequência, a sociedade como um todo.
O espaço continua sendo público, ou seja, do Estado, mas quem administra os
recursos, os negócios e as pessoas? Isso signica dizer que a associação de um museu
faz desde a gestão dos funcionários que ali trabalham até o controle da bilheteria,
programação cultural, peças e curadoria das peças.
O Estado de São Paulo foi pioneiro na implantação do sistema na área de saúde.
A seleção envolve uma convocatória pública exigindo a experiência mínima na área de
gerenciamento. Esse método visa garantir que entidades sólidas assumam a frente das
instituições e o sucesso do modelo.
O trabalho e o estudo são compreendidos como essenciais para humanizar o
indivíduo.Alémdisso, otrabalhoprincipal éaquelequeprovêosmeiosdevida.Jáoestudo
é responsável pelo desenvolvimento humano. São eles que transformam as pessoas e
a sua realidade (SCHERER-WARREN, 2000). Nesse sentido, há um intenso investimento
na educação dentro dos acampamentos, não nanceiro, mas de conhecimento humano
através de parcerias com universidades e capacitação constante dos professores.
Assim, o Movimento Sem-Terra amplia sua dimensão de atuação:
O objetivo material imediato (a terra) ‘não basta’, como dizem, deve
vir acompanhado de lutas pelos direitos sociais (a cidadania plena) e
em direção à construção de uma sociedade mais justa (a socialista).
Para atingir este objetivo é que a educação, considerada como um
direito essencial, deve se desenvolver como um processo que inclui
educação ormal (ensino undamental) e inormal (participação
no movimento, nas mobilizações, em ações de solidariedade etc.),
incluindo neste processo todas as gerações e gêneros (SCHERER-
WARREN, 2000, p. 48).
70
Segundo avaliação da experiência de São Paulo pelo Banco Mundial em 2006
(apud CAMARGO et al., 2013), a solução gerou uma experiência de modernização
positiva em relação ao modelo anterior, mais produtiva e barata. Entretanto, há muitas
críticas na proposta, a primeira seria o desvio de unção, com alta probabilidade de as
organizações passarem a atuar para ns privados; segundo, que há pouca transparência
na sua atuação em relação à disponibilidade de inormações (CAMARGO et al., 2013).
Isso não apenas por parte das organizações, como também a postura do próprio Estado.
4 AS ORGANIZAÇÕES NÃO GOVERNAMENTAISNo Brasil, as Organizações Não Governamentais (as ONGs) surgem no país no
contexto da entrada da sociedade civil de orma orgânica, quer dizer, da sua participação
eetiva nos rumos do país através da política. Isso acontece nas últimas décadas do
século XX, ou seja, pouco mais de 20 anos.
Entretanto, qual seria de fato o espaço ocupado pelas ONGs em relação à
sociedade civil na atualidade? Elas atuam politicamente? “[...] no Brasil, temas como
direitos humanos, meio ambiente e fome têm tido como porta-voz, em grande parte,
um conjunto de ONGs, que toma a iniciativa diante do Estado, propondo políticas
diretamente ao Poder Executivo ou pressionando o Congresso Nacional para aprovações
de leis” (PINTO, 2006, p. 654).
Exercendo o papel de pressionar governantes, as ONGs tratam de temas
relativos a grupos e questões não trabalhadas sistematicamente, entre outras formas
de atuação política. Como exemplo, podemos citar a questão do meio ambiente. Dentro
das plataformas dos partidos, recentemente a discussão surgiu, e mesmo assim algo
ainda raso, que não compreende o problema de forma profunda.
É interessante pensar que quem começa com as discussões ambientais são as ONGs. Na
Amazônia, não se sabe ao certo o número de ONGs que atuam. As inormações variam de
1.000 a 100.000. Abaixo, seguem os símbolos de algumas delas.
IMPORTANTE
71
Outros temas relativos a grupos minoritários no país, como sobre as mulheres,
direitos homoaetivos, indígenas, moradores de rua, são sistematicamente trabalhados
e elaborados pelas ONGs. É bom esclarecer que as vozes desses grupos não são
substituídas pelas ONGs, mas elas servem como intermediadoras na realização de
projetos e sistematização das demandas, já que possuem uma preocupação maior em
termos de organização que os movimentos sociais (PINTO, 2006). Dentro das ONGs
também atuam indivíduos pertencentes a essas minorias, não existe uma ronteira, mas
uma integração.
No que concerne às formas como as ONGs se movem no espaço
público, vale chamar a atenção para o potencial de construção
de redes, abrangendo os espaços locais, regionais e globais,
como também as potencialidades de incluir, nessas redes, desde
organizações internacionais, como as do sistema ONU e fundações
nanciadoras, até grupos semimarginalizados em bairros da perieria
das grandes cidades. A noção de rede em relação às ONGs pode
ser pensada de duas formas: uma é a rede entre ONGs incluindo
também os movimentos sociais, na qual cada organização é ponto
de transmissão para outras, maiores ou menores, locais ou globais.
Outra forma de pensar a rede é como um espaço tridimensional
onde as ONGs funcionam não apenas como pontos de transmissão,
mas como pontos nodais, que acumulam e distribuem informações,
acumulam poder, credenciam-se como representantes fazendo a
ligação entre o Estado e a sociedade em geral (PINTO, 2006, p. 658).
Dessa forma, as ONGs adquirem poder, conseguem estabelecer pontes entre
diferentes grupos. Por um lado, isso é positivo, pois elas conseguem fazer ressoar as
vozes daqueles que pouco seriam ouvidos e colocar suas demandas aos governos.
Por outro lado, esse poder pode ser perigoso, quando as populações apoiadas por
essas ONGs passam a depender de sua atuação, ou seja, as ONGs podem desenvolver
territórios de domínio, não estimulando a prática da cidadania e a busca dos direitos por
si mesmo, mas uma dependência de sua atuação.
O fato é que as ONGs possuem na realidade brasileira contemporânea uma
atuação política real e que conseguem pressionar o governo por uma atuação mais
social. O espaço signica uma atuação política potencial, mas não existem limites das
ações. Elas “não podem ser vistas de maneira simplista, como substitutas de partidos
políticos, do Estado ou mesmo dos movimentos sociais. Suas ações têm limites, entre
eles o fato de serem fragmentadas, atingirem o conjunto da sociedade de forma limitada
e dependerem de nanciamentos pontuais” (PINTO, 2006, p. 667).
O diretor Sergio Bianchi desenvolve uma crítica sobre a atuação das ONGs
no Brasil. Busque e assista!
DICAS
72
O que se espera de uma sociedade que se vê desaada pelos seus indivíduos é
que ela seja capaz de:
• orientar as pessoas e os recursos materiais e nanceiros para a promoção humana;
• manter uma atitude crítica rente às propostas políticas vigentes;
• vivenciar o espírito de partilha e ajuda mútua na comunidade educativa;
• realizar campanhas comunitárias diante das situações emergentes.
A participação ativa e eetiva das pessoas na vida política e social é um grande
desao, pois tem como objetivo externar a cidadania que todos almejam. O que ainda
vemos é que conceitos como cidadania, os direitos e deveres do cidadão, algo que
deveria estar entranhado em nossas vidas, não são tão conhecidos, muito menos
praticados em nossa sociedade. São só conceitos.
73
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• Tradicionalmente, as organizações são pensadas e divididas a partir de uma lógica
política administrativa que dirige a organização, partindo de dois pontos: de ordem
pública, ou de ordem privada.
• O surgimento das Organizações Sociais acontece no contexto de crise do último
quarto do século XX.
• Exercendo um papel de pressão, as ONGs tratam de temas relativos a grupos e
questões não trabalhadas sistematicamente, entre outras ormas de atuação política.
• A participação ativa e eetiva das pessoas na vida política e social é um grande
desao, como orma de externar a cidadania que todos almejam.
74
AUTOATIVIDADE
1 Os direitos humanos são compartilhados por todos os indivíduos,
contudo, a chargemostra a violação deles em um período especíco
da história brasileira: a ditadura militar. A personagem, através de
uma ala irônica, narra atos que aconteceram na época. A partir
desse contexto, analise as sentenças a seguir:
I- A charge mostra a violação do direito à vida por conta das perseguições e mortes
ocorridas.
II- Segundo a charge, os direitos humanos são respeitados universalmente em todos
os períodos da história.
III- A charge mostra um contexto histórico de grandes liberdades para o indivíduo se
expressar, apesar das perseguições narradas.
IV- A charge mostra a violação do direito à liberdade, tanto pela perseguição aos
indivíduos como pela censura da imprensa e intelectuais.
FONTE: Disponível em: <http://historianovest.blogspot.com/2010/07/charges-declaracao-dos-direitos-hu-
manos.html>. Acesso em: 3 fev. 2014
75
2 Com os protestos de junho de 2013, veio à tona a insatisfação
popular quanto aos rumos como a política no Brasil está sendo
gestada. Entretanto, deve-se ter conhecimento dos espaços e
atores políticos para além do governo que aproximam a sociedade
civil de uma ação mais contundente. Sobre o tema, associe os itens, utilizando
o código a seguir:
Agora, assinale a alternativa CORRETA:
a) ( ) Somente a sentença IV está correta.
b) ( ) As sentenças I e III estão corretas.
c) ( ) As sentenças I e IV estão corretas.
d) ( ) As sentenças II, III e IV estão corretas.
I- Conerências de Políticas Públicas.
II- Organização Social.
III- Organização Não Governamental (ONG).
( ) Cuidam de grande parte de temas reerentes às minorias, ou seja, os indígenas, as
mulheres, os homoafetivos.
( ) Debatem políticas públicas, sendo imprescindível a participação popular.
( ) Realizam a gestão de espaços públicos, como hospitais, museus.
Agora, assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA:
a) ( ) III - I - II.
b) ( ) I - II - III.
c) ( ) II - III - I.
d) ( ) III - II - I.
76
77
CULTURA E ARTE
1 INTRODUÇÃO
A cultura e a arte são áreas que interagem entre si e com as demais áreas
de conhecimento. Estudar, pesquisar e refetir sobre as dierentes culturas e suas
maniestações artísticas possibilita a compreensão da vida e das relações entre os
sujeitos nomeio social. A cultura, assim como a arte, é dinâmica, vai mudando conforme
o tempo e o espaço. A cultura e a arte devem ser estudadas a partir de três concepções:
erudita,popular e de massa.
A cultura erudita é aquela proveniente de estudos, pesquisas e que geralmente
está associada às instituições acadêmicas, por se tratar de um processo de legitimação.
A arte está associada a esta área, pois envolve a compreensão de conhecimentos
artísticos, históricos, losócos e sociais. Assim, a arte erudita, também conhecida como
a de vanguarda, é concebida conhecendo lugares como galerias de arte, exposições e
museus, bem como toda a estrutura e dinâmica de mediação que ocorrem entre os
locais e o espectador, propondo humanização dos sentidos.
Já a cultura de massa surge com as novas tecnologias e com os meios de
comunicação, como: jornais, televisão, rádio, cinema, música, internet, entre outros.
A cultura de massa tem relação com o consumismo, devido à infuência que a mídia
exerce. A arte está relacionada à cultura de massa, devido à tecnologia utilizada e à
grande quantidade de signos criados.
E, por último, a cultura popular, que está relacionada ao que pertence à maioria
do povo e que não é ensinada necessariamente em espaços formais de educação.
É a denição de várias áreas de conhecimento, como: olclore, dança, música, esta,
literatura, arte, artesanato etc. O conhecimento da cultura popular é passado de geração
a geração.
Desta forma, caro acadêmico, convidamosvocêparaprimeiramente compreender
a cultura e a arte e como essas áreas de conhecimento interagem com o meio social.
2 CULTURA
A cultura é um aspecto social mutante em constante questionamento, pois é
considerada por muitos pesquisadores como representação da intervenção da sociedade
nos ambientes, sendo por isso diícil de conceituar. Para José Luiz dos Santos (2006, p. 45):
UNIDADE 1 TÓPICO 5 -
78
Cultura é uma construção histórica, seja como concepção, seja como
dimensão do processo social. Ou seja, a cultura não é algo natural,
não é decorrência de leis ísicas e biológicas. Ao contrário, a cultura
é produto coletivo da vida humana. Isso se aplica não apenas à
percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância
que passa a ter. Aplica-se ao conteúdo de cada cultura particular,
produto da história de cada sociedade. Cultura é um território bem
atual das lutas sociais por um destino melhor. É uma realidade e uma
concepção que precisam ser apropriadas em favor do progresso
social e da liberdade, em avor da luta contra a exploração de uma
parte da sociedade por outra, em favor da superação da opressão e
da desigualdade.
Nesta perspectiva, a cultura é avaliada como um movimento humano que
acontece a partir da convivência em grupo e da interação social. Portanto, é necessário
percebermos as especicidades de cada grupo cultural, para assim observar e descobrir
os signos existentes em busca da identidade de cada povo.
São os valores culturais que identicam um povo, uma comunidade e cada
pessoa. É através da cultura que se pode observar e caracterizar a história de vida, os
costumes, as crenças e os hábitos de um determinado grupo social.
José Luiz dos Santos (2006, p. 7) descreve que a cultura é uma preocupação do
mundo atual, buscando “entender os caminhos que conduziram os grupos humanos às
suas relações presentes e suas perspectivas de futuro”. O autor, quando relata cultura e
diversidade, descreve que:
O desenvolvimento da humanidade está marcado por contatos
e confitos entre modos dierentes de organizar a vida social, de
se apropriar dos recursos naturais e transformá-los, de conceber
a realidade e expressá-la. A história registra com abundância as
transformações por que passam as culturas, mais frequentemente
por ambos os motivos. Por isso, ao discutirmos sobre cultura,
temos sempre em mente a humanidade em toda a sua riqueza e
multiplicidade de ormas de existência. São complexas as realidades
dos agrupamentos humanos e as características que os unem e
dierenciam, e a cultura as expressa.
Nesse sentido, Eduardo David de Oliveira (2006, p. 155) se maniesta dizendo
que “o homem é um ser cultural. A cultura é construída, orjada de acordo com os
acontecimentos da história e criada a partir das contingências, sempremuito singulares,
das comunidades humanas”.
A compreensão de cultura é extremamente complexa, pois recebe novas
denições com o passar do tempo, mas a partir da segunda metade do século XX cria-
se uma concepção ampliada de cultura, como descreve Marilena Chauí (2008, p. 57):
79
A partir de então, o termo cultura passa a ter uma abrangência que
não possuía antes, sendo agora entendida como produção e criação
da linguagem, da religião, da sexualidade, dos instrumentos e das
formas do trabalho, das formas da habitação, do vestuário e da
culinária, das expressões de lazer, da música, da dança, dos sistemas
de relações sociais, particularmente os sistemas de parentesco ou
a estrutura da amília, das relações de poder, da guerra e da paz, da
noção de vida e morte. A cultura passa a ser compreendida como
o campo no qual os sujeitos humanos elaboram símbolos e signos,
instituem as práticas e os valores, denem para si próprios o possível
e o impossível, o sentido da linha do tempo (passado, presente e
uturo), as dierenças no interior do espaço (o sentido do próximo
e do distante, do grande e do pequeno, do visível e do invisível), os
valores como o verdadeiro e o falso, o belo e o feio, o justo e o injusto,
instauram a ideia de lei, e, portanto, do permitido e do proibido,
determinam o sentido da vida e da morte e das relações entre o
sagrado e o profano.
Na perspectiva de cultura como aprendizagem de saberes cotidianos é
undamental que se traga a posição de Waldenyr Caldas (1986, p. 13), ao dizer que o
pensamento humano cria o modo de vida, os costumes e as regras, dizendo que a
cultura:
Quando aplicada ao nosso estilo de vida, ao convívio social, nada tem
a ver com a leitura de um livro ou aprender a tocar um instrumento,
por exemplo. Na realidade, o trabalho do antropólogo, estudioso da
cultura humana, começa pela investigação de culturas, ou seja, pelo
modo de vida, padrões de comportamento, sistema de crenças, que
são características de cada sociedade. Noutras palavras, pode-se
dizer que nenhuma sociedade, nenhum povo, seja ele atrasado ou
desenvolvido, primitivo ou civilizado, jamais agirá de forma idêntica
aos demais. Poderá haver, isto sim, algumas semelhanças.
A cultura pode ser entendida como importante agente para debater o estar
e ser no mundo, que é entendido como um movimento que está intimamente ligado
a tudo e a todos os aspectos sociais, culturais, históricos e losócos. Segundo José
Luiz dos Santos (2006, p. 8), “cada realidade cultural tem sua lógica interna, que
devemos conhecer para que façam sentido suas práticas, costumes, concepções e as
transformações pelas quais passam”.
80
AUTOATIVIDADE
Analise e responda esta questão da prova ENADE 2007:
Jornal do Brasil, 3 ago. 2005.
Tendo em vista a construção da ideia de nação no Brasil, o argumento da
personagem expressa:
a) ( ) A armação da identidade regional.
b) ( ) A ragilização do multiculturalismo global.
b) ( ) O ressurgimento do undamentalismo local.
d) ( ) O esacelamento da unidade do território nacional.
e) ( ) O ortalecimento do separatismo estadual.
Cada povo, cada região tem suas especicidades culturais que compreendem
a sua orma de pensar e de agir, evidenciando a diversidade cultural existente. A partir
da diversidade cultural compreende-se a identidade cultural de cada povo. Para Oliveira
(2006, p. 84): “a identidade se constrói com relação à alteridade. Com aquilo que não sou
eu. É diante da diferença do outro que a minha diferença aparece”. Diferentes nações,
etnias, identidades regionais, comunidades ou outros tipos de grupos sociais organizam
e dão sentido à sua existência.
OBrasil, por exemplo, apresenta umadiversidade cultural ampla, pois é resultado
de umamiscigenação étnica e cultural, principalmente dos povos indígenas, aricanos e
europeus. Esta miscigenação se dá devido ao processo histórico que ocorreu no Brasil.
Assim, a educação no Brasil estabeleceu,nas diretrizes e bases da educação
nacional, a obrigatoriedade do estudo da história e cultura aro-brasileira e indígena no
currículo escolar da educação básica. A lei tem como propósito o conhecimento desses
dois grupos étnicos, tais como o estudo da história da África e dos africanos, a luta dos
81
negros e dos povos indígenas no Brasil, a cultura negra e indígena brasileira, o negro e
o índio na ormação da sociedade nacional, resgatando as suas contribuições nas áreas
social, econômica e política, pertinentes à história do Brasil.
Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), em seu documento, também
descrevem sobre Pluralidade Cultural, explicando que o estudo das dierentes
culturas deve contribuir para a formação de uma nova mentalidade, onde toda forma
de discriminação e exclusão seja superada, proporcionando ao povo brasileiro “uma
vivência plena de sua cidadania” (BRASIL, 1997, p. 13).
Tal perspectiva vem ao encontro da necessidade de ampliar o conhecimento
cultural, com o propósito de banir aspectos de enxergar apenas a sua cultura especíca.
A partir da concepção de que o ser humano apenas considera o seu modo de vida como
o “mais correto” e “melhor”, assim, ele age em uma lógica do etnocentrismo. De acordo
com Meneses (1999, p. 13):
Etnocentrismo é um preconceito que cada sociedade ou cada
cultura produz, ao mesmo tempo em que procura incutir, em seus
membros, normas e valores peculiares. Se sua maneira de ser e
proceder é a certa, então as outras estão erradas, e as sociedades
que as adotam constituem ‘aberrações’. Assim, o etnocentrismo
julga os outros povos e culturas pelos padrões da própria sociedade,
que servem para aferir até que ponto são corretos e humanos os
costumes alheios. Desse modo, a identicação de um indivíduo com
sua sociedade induz à rejeição das outras.
Por meio do conhecimento da diversidade cultural é possível distanciar
pensamentos etnocêntricos que promovemopreconceito. Entende-se que conhecendo
a cultura do outro em um contexto de diversidade pode-se identicar e valorizar cada
movimento cultural de forma a promover uma vivência plena com respeito e ética social.
Entende-se que conhecendo a cultura do outro em um contexto de diversidade se pode
identicar e valorizar cada movimento cultural, de orma a distanciar preconceitos e
desigualdades.
3 ARTE
“A ciência descreve as coisas como são; a arte, como são sentidas,
como se sente que são”. (Fernando Pessoa, 1986)
Desde a pré-história o ser humano está cercado de enômenos artísticos, como
desenho, gravura, pintura, dança, escultura, música, literatura, entre outros. Atualmente,
percebe-se uma grande variedade de práticas artísticas que permeiam o universo
cultural, que circundam entre as várias linguagens artísticas, como: artes visuais, artes
cênicas, dança e música. Ao refetir sobre a arte, alguns questionamentos surgem: O
que é arte? Que tipo de arte conhecemos? A arte tem alguma função?
82
O homem primitivo, por exemplo, precisou criar objetos que correspondessem
às suas necessidades de sobrevivência, representando por meio de desenhos nas
cavernas os seus anseios para suas caçadas. A partir da concepção de arte primitiva,
Marilena Chauí (2008, p. 403) questiona sobre o “que dizem os desenhos nas paredes
da caverna”. A autora arma que “o mundo é visível, e para ser visto é que o artista dá
a ver o mundo”. Com isso, a arte inicialmente teve aspecto de utilidade, mas com o
passar do tempo, os utensílios e as representações começaram a ser criados pelo prazer
em si, desvinculando da ideia unicamente de utilidade. Assim, a arte surge com novas
compreensões, como cita Marilena Chauí (2003, p. 406-407):
A distinção entre artes da utilidade e artes da beleza acarretou uma
separação entre técnica (o útil) e arte (o belo), levando à imagem da
arte como ação individual espontânea, vinda da sensibilidade e da
fantasia do artista como gênio criador. Enquanto o técnico é visto
como aplicador de regras e receitas vindas da tradição ou da ciência,
o artista é visto como dotado de inspiração, entendida como uma
espécie de iluminação interior e espiritual misteriosa, que leva o
gênio a criar a obra.
O belo para a arte passa a ser concebido pela experiência artística. A partir da
abordagem do belo ou juízo do gosto, a arte também é estudada por uma disciplina
losóca que é conhecida como estética. A palavra estética é a tradução da palavra
grega aesthesis, que signica conhecimento sensorial, experiência e sensibilidade. A
estética estuda as sensações que a arte provoca no ser humano, desde sensações boas
até sensações que causam desconorto, inquietude, afição etc.
A partir das maniestações artísticas criadas desde a pré-história até
a contemporaneidade, percebe-se que diferentes povos culturais criam suas
particularidades artísticas, como é o caso, por exemplo, das culturas indígenas. Os
povos indígenas, devido aos saberes ancestrais, se apropriam de elementos da sua
etnia para conceber o belo por meio das manifestações culturais. A pintura corporal dos
povos indígenas tem representação ritualística, desta orma, cada sociedade assume
um signicado artístico dierente, como é o caso da pintura corporal na atualidade, que
é representada pela tatuagem, e esta tem apenas o signicado de decorar.
A arte tem inúmeras possibilidades de denição, pois se compreende como uma
maniestação dinâmica, onde são atribuídos conceitos no tempo e espaço.
A arte é muitas coisas. Uma das coisas que a arte é, parece, é uma
transformação simbólica do mundo. Quer dizer: o artista cria um
mundo outro – mais bonito ou mais intenso ou mais signicativo, ou
mais ordenado – por cima da realidade imediata [...]. Naturalmente,
esse mundo do outro que o artista cria ou inventa nasce de sua
cultura, de sua experiência de vida, das ideias que ele tem na cabeça,
enm, de sua visão de mundo [...] (GULLAR, 1982 apud CHAUÍ, 2003,
p. 271).
83
A palavra arte deriva do latim ars, artis, que signica prossão ou habilidade
natural ou adquirida. Também corresponde ao termo grego tékhne, “técnica”, que
signica “toda atividade humana submetida a regras em vista da abricação de alguma
coisa” (CHAUÍ, 2003, p. 275). Este conceito também se tem na cultura greco-romana,
que signicava oício. Assim, a primeira denição da arte estava ligada ao propósito de
azer ou produzir. A segunda denição de arte é compreendida como conhecimento,
visão ou contemplação, isto signica que a obra pode retratar aspectos históricos,
sociais e educativos. Já a terceira denição está ligada à arte como expressão, que é
uma experiência com o sensível.
A partir dessas abordagens, percebe-se que é diícil um conceito denitivo para
responder o que é arte, pois a arte se transorma, se modica de acordo com o contexto
cultural no qual está inserida.
A obra Mona Lisa, criada pelo artista do Renascimento Leonardo da Vinci, é
tida como um exemplo de obra de arte que é conhecida por grande parte da população
mundial. Seu misterioso sorriso é pesquisado e admirado por muitos.
FIGURA 8 – LEONARDO DA VINCI. MONA LISA. 1503–1507
Óleo sobre madeira de álamo, color. 77 cm x 53,5 cm. Museu do Louvre, Paris.
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Mona_Lisa#/media/File:Mona_Lisa,_by_Leonardo_da_
Vinci,_from_C2RMF_retouched.jpg>. Acesso em: 20 maio 2015.
84
Séculos depois de Leonardo daVinci, o artista domovimento artístico Dadaísmo,
Marcel Duchamp, atuou como um dos maiores expoentes da vanguarda artística
do século XX. Duchamp reproduziu a obra original Mona Lisa em cartões postais,
desenhando na imagem um bigode e escrevendo embaixo da mesma: L.H.O.O.Q. A obra
do artista Duchamp não se trata de uma ofensa à obra original, mas uma brincadeira
irônica com reverência aos antigos mestres da pintura.
FIGURA 9 – MARCEL DUCHAMP. MONA LISA (L.H.O.O.Q). 1919. READY-MADE CERTIFICADO
Lápis sobre produção otográca. Color; 17,8 cm x 12 cm. Coleção privada.
FONTE: Disponível em: <http://museuhoje.com/app/v1/br/arte/55-marcelduchamp>. Acesso em: 20maio 2015.
Foicom o princípio de repensar o sentido de arte do seu tempo que Duchamp
colocou em questão o que seria arte. Isso leva a pensar que conceituar arte não é
denitivo, uma vez que cada um pode conceber a obra de uma orma.
Chauí (2003, p. 403) descreve que “a obra de arte dá a ver, a ouvir, a sentir,
a pensar, a dizer. Nela e por ela, a realidade se revela como se jamais a tivéssemos
visto, ouvido, sentido, pensado ou dito”. Assim, para a autora (2003, p. 407), as artes na
atualidade tornam-se:
85
Trabalho da expressão e mostram que, desde que surgiram
pela primeira vez, foram inseparáveis da ciência e da técnica.
Assim, por exemplo, a pintura e a arquitetura da Renascença são
incompreensíveis sem a matemática e a teoria da harmonia e das
proporções; a pintura impressionista, incompreensível sem a ísica e
a óptica, isto é, sem a teoria das cores etc. A novidade está no fato
de que, agora, as artes não ocultam essas relações, os artistas se
reerem explicitamente a elas e buscam nas ciências e nas técnicas
respostas e soluções para problemas artísticos.
Nesta abordagem, a arte parte para a construção de um sentido novo (a obra)
e o institui como parte da cultura. Segundo Chauí (2008, p. 329), “o artista é um ser
social que busca exprimir seu modo de estar no mundo na companhia dos outros seres
humanos, refete sobre a sociedade, volta-se para ela, seja para criticá-la, seja para
armá-la, seja para superá-la”.
A obra Guernica, pintada pelo artista do Cubismo, Pablo Picasso, propaga o
sentido da arte enquanto expressão, pois revela na obra o sentido da dor, do belo, do
terrível, do sublime, ou seja, mostra pormeio da arte o sentido da cultura e da história na
vida em sociedade. Essa obra retratou o bombardeio que a cidade espanhola Guernica
sofreu por aviões alemães.
FIGURA10 – PABLO PICASSO. GUERNICA. 1937
Pintura a óleo. 349 cm x 776 cm. Museu Nacional Centro de Arte Reina Soa.
FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Guernica_%28quadro%29#/media/File:Mural_del_Ger-
nika.jpg>. Acesso em: 20 maio 2015.
Nota-se que a arte é uma ciência do conhecimento que representa um elo entre
o passado, o presente e o futuro, pois demonstra o pensar, o agir e todos os aspectos
culturais existentes desde o homem primitivo até o homem contemporâneo.
86
A arte pertence à cultura erudita, que são as artes desenvolvidas a partir de um
conhecimento acadêmico, são aquelas que estão dentro de lugares como galerias de
arte e museus, mas também, a arte faz parte da cultura popular, e este conhecimento
popular é reconhecido como patrimônio cultural. Para Suíse Monteiro Leon Bordest:
O patrimônio cultural de um povo é ormado pelo conjunto dos
saberes, azeres, expressões, práticas e seus produtos, que remetem
à história, à memória e à identidade de um povo. A preservação
do patrimônio cultural signica, principalmente, cuidar (reproduzir
sempre e os manter vivos) dos bens aos quais esses valores estão
associados, ou seja, cuidar de bens representativos da história
e da cultura de um lugar ou de um grupo social. A Constituição
brasileira de 1988, em seus artigos 215 e 216, ampliou a noção de
patrimônio cultural ao reconhecer a existência de bens culturais
de natureza material e imaterial e, também, ao estabelecer outras
formas de preservação – como o registro e o inventário – além do
tombamento, instituído pelo Decreto nº 25, de 30 de novembro
de 1937, que determina especialmente a proteção de edicações,
paisagens e conjuntos históricos urbanos. O patrimônio imaterial
cuida da preservação dos bens culturais de natureza imaterial, como
os oícios e saberes artesanais, as maneiras de pescar, caçar, plantar,
cultivar e colher, de utilizar plantas como alimentos e remédios, de
construir moradias, mas também manifestos através das danças
e músicas, incluindo também os modos de vestir e falar, os rituais
e festas religiosas e populares, as relações religiosas, sociais e
familiares que revelam os múltiplos aspectos da cultura cotidiana de
uma comunidade (apud IPHAN/MinC, 2012).
Nos dias atuais a arte contemporânea está associada à indústria cultural,
apropriando-se da tecnologia e das intererências da mídia, azendo parte da cultura
de massa. Os meios de comunicação, como a televisão, otograa, cinema, internet,
rádio e redes sociais azem com que o conhecimento artístico seja divulgado commaior
acilidade e rapidez, de orma acessível a grande parte da população.
A arte na atualidade ou arte contemporânea, que surgiu mais intensamente a
partir de 1960, busca romper com aspectos tradicionais da arte. A arte contemporânea
passa a ser pensada como integrante da vida e do mundo, em que é concebida em
lugares ormais e inormais, buscandoaparticipaçãodopúblico.Temcomocaracterística
a apropriação de materiais e objetos encontrados no cotidiano. Neste sentido, a obra
tem um tempo de duração determinado.
A artista canadense Jana Sterbak ez uma exposição, em 1987, causando
polêmica pormostrar que o corpo humano, pormais bemvestido e arrumado que esteja,
não passa de carne e osso.
87
FIGURA 11 – JANA STERBAK, VANITAS. VESTIDO DE CARNE PARA ALBINO ANORÉXICO.1987
FONTE: Disponível em: <http://performatus.net/jana-sterbak/>. Acesso em: 20 maio 2015.
A arte contemporânea proporcionou aos artistas maior liberdade de criação,
sendo que ampliou o conceito das linguagens artísticas do que pode ou não ser
considerado como arte. Desta forma, podemos dizer que a arte contemporânea é uma
arte conceitual, pois a ideia proposta pelo artista é mais importante que o objeto em si,
valorizando a experiência que irá causar no público. Desta orma, pode-se pensar a arte
na atualidade como uma área do conhecimento em uma relação com a natureza, com
a realidade urbana e com o mundo tecnológico. Com isso surgem diferentes linguagens
contemporâneas que se articulam, como a pintura, gravura, escultura, desempenho,
happening, instalação, assemblage, ready-made, otograa, literatura, video-art, body-
art, land-art etc.
88
RESUMO DO TÓPICO 5
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• Estudar, pesquisar e refetir sobre as dierentes culturas e suas maniestações
artísticas possibilita a compreensão da vida e das relações entre os sujeitos no meio
social. A cultura e a arte devem ser estudadas a partir de três concepções: erudita,
popular e de massa.
• A cultura, assim como a arte, é dinâmica, vai mudando conforme o tempo e espaço,
e são duas áreas de conhecimento de diícil denição, porém elas interagem entre si
e com as demais áreas de conhecimento.
• A cultura é considerada como ummovimento humano decorrente da convivência em
grupo e da interação social. Portanto, é necessária a percepção das especicidades
de cada grupo cultural, para com elas observar e descobrir os signos existentes em
busca da identidade de cada povo.
• É por meio do conhecimento e da valorização da cultura que se pode observar
e caracterizar a história de vida, os costumes, as crenças e os hábitos de um
determinado grupo social a m de distanciar preconceitos e desigualdades.
• A arte tem sua denição a partir de três concepções: do azer, do conhecimento e da
experiência com o sensível. A arte pode ser representada por meio das artes visuais,
artes cênicas, música e dança.
89
AUTOATIVIDADE
1 (ENADE – 2008, questão 1) O lósoo alemão Friedrich Nietzsche
(1844-1900), talvez o pensador moderno mais incômodo e
provocativo, infuenciou várias gerações e movimentos artísticos. O
Expressionismo, que teve orte infuência desse lósoo, contribuiu
para o pensamento contrário ao racionalismo moderno e ao trabalho mecânico
através do embate entre a razão e a antasia. As obras desse movimento deixam
de priorizar o padrão de beleza tradicional para enfocar a instabilidade da vida,
marcada por angústia, dor, inadequação do artista diante da realidade. Das
obras a seguir, a que refete esse enoque artístico é:
A B C
Homem idoso na poltrona. Rem-
brandt van Rijn – Louvre, Paris.
Disponível em: <http://www.
allposters.com>.
Figura e borboleta.Milton
Dacosta.
Disponível em: <http://www.
unesp.br>.
O grito. Edvard Munch, Oslo.
Disponível em: <http://members.
cox.net>.
C D
Menino mordido por um lagarto.
Michelangelo Merisi (Caravaggio),
National Gallery, Londres.
Disponível em: <http://vr.theatre.ntu.
edu.tw>.
Abaporu. Tarsila do Amaral.
Disponível em: <http://tarsilado
amaral.com.br>.
90
91
POLÍTICA, TECNOLOGIA
E GLOBALIZAÇÃO: OS
IMPACTOS SOBRE A
SOCIEDADE
UNIDADE 2 —
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Apartir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• compreender os undamentos e concepções sobre Ciência, Tecnologia e Sociedade;
• ampliar a percepção acerca das relações entre Ciência, Tecnologia e Sociedade;
• conceber as tecnologias da informação e comunicação como fator determinante no
advento da sociedade da inormação;
• contribuir para o debate sobre a sociedade da inormação;
• compreender as práticas de inovação, as comunidades virtuais e seus impactos e
conhecer novidades tecnológicas existentes;
• compreender o processo político, social e histórico contemporâneo;
• refetir sobre relações de trabalho.
Esta unidade está dividida em cinco tópicos. No decorrer dela, você encontrará autoa-
tividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – CIÊNCIA, TECNOLOGIA, SOCIEDADE E AMBIENTE
TÓPICO 2 – TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO (TIC)
TÓPICO 3 – AVANÇOS TECNOLÓGICOS
TÓPICO 4 – GLOBALIZAÇÃO E POLÍTICA INTERNACIONAL
TÓPICO 5 – RELAÇÕES DE TRABALHO
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure
um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
CHAMADA
92
CONFIRA
A TRILHA DA
UNIDADE 2!
Acesse o
QRCode abaixo:
93
TÓPICO 1 —
CIÊNCIA, TECNOLOGIA, SOCIEDADE E
AMBIENTE
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, para adentrarmos nos assuntos relacionados à Ciência,
Tecnologia e Sociedade é necessário entendermos os fundamentos de cada tema, e,
somente então, relacionarmos com o todo. Desta forma, convidamos você a discutir
ciência sob dierentes óticas, analisar denições e pensamentos acerca da tecnologia e
interpretar a sociedade.
Abordaremos algumas relações sobre ciência e tecnologia, tratando do contrato
de neutralidade dessa parceria; trataremos ainda do processo de análise da evolução
da sociedade sob algumas perspectivas; para, assim, analisar a entrada da participação
da sociedade nas discussões da já vencida parceria ciência e tecnologia. Somente
então abordaremos a nova ormatação da CTS (Ciência, Tecnologia e Sociedade) com
embasamento nas discussões levantadas pelo trabalho dos pesquisadores Milton
Santos e Wiebe Bijker. E para nalizar, algumas considerações acerca de modernidade,
pós-modernidade e globalização.
2 CIÊNCIA
Entender eventos, situações ou fatos novos é sempre uma tarefa fácil paravocê?
Se osse designado para a incrível tarea de deender um determinado episódio, como
você procederia? Essas indagações fazem-se necessárias para que ampliemos nossos
horizontes sobre o fato de que as pessoas constroem formas próprias para compreender
a realidade, seja observando pelo viés cultural, histórico, geográco, ambiental.
A mitologia, a arte, a religião e até mesmo a ciência são observadas quando o
oco é explicar as situações que cercam os seres humanos. Você, com certeza, já deve
ter ouvido sobre Isaac Newton! Não se recorda? E sobre Isaac Newton e a história da
maçã que caiu sobre a cabeça dele, originando assim a teoria da gravidade? Ficou mais
ácil, não? Pois bem, é desta orma que a sociedade explica situações do cotidiano:
apoiando-se em diferentes pensamentos para defender o que acontece ao seu redor.
Quando contrapomos a ciência natural à ciência humana podemos perceber
o jogo de confitos, pois, conorme Omnés (1996), a ciência é capaz de explicar a
realidade, bastando para isso princípios, regulamentos e normas. De qualquer maneira,
94
tais confitos são indissociáveis da epistemologia e da política, uma vez que ocorre
a tentativa de autoridade de uma ciência sobre a outra. Desta forma, a realidade é
comumente explicada pela ciência.
A ciência apresenta características que a azem singular; é cumulativa, ou seja,
não se costumadescartar inormações oudados obtidos; é computável, permite odevido
registro de tais inormações ou dados, e, apesar dessas características a ciência não é
irrevogável, o que signica que ela é contestável. Segundo Abbagnano (2000), além de
utilizar sua própria linguagem, é baseada em métodos e fundamentos epistemológicos,
o que faz com que seja clara e objetiva.
Diversos são os métodos utilizados para explicar o cotidiano através da ciência.
Severino (2007, p. 102) nos diz que um método cientíco pode ser “um conjunto de
procedimentos lógicos e de técnicas operacionais que permitem o acesso às relações
causais constantes entre os enômenos”. Já para Omnés (1996, p. 272), é “um conjunto
de regras práticas que permitem garantir a qualidade da correspondência entre a
representação cientíca e a realidade”.
Nessa mesma perspectiva, Omnés (1996) também propõe que o método deve
cumprir ainda algumas etapas que visam diminuir a distância entre a cienticidade do
conhecimento e a proposta de explicação do mesmo, que seriam:
FIGURA 12 – ETAPAS PARA EXPLICAÇÃO DO COTIDIANO ATRAVÉS DA CIÊNCIA
FONTE: Adaptado de Omnés (1996)
• EMPÍRICA OU EXPLORATÓRIA
• análise dos fatos e determinação de regras baseadas na experiência.
Etapa 1
Etapa 2
Etapa 3
Etapa 4
• CONCEPÇÃO OU PERCEPÇÃO
• apropriação de conceitos e criação de princípios.
• ELABORAÇÃO
• indicação das consequências dos princípios.
• CONSTATAÇÃO OU COMPROVAÇÃO
• aprovação ou não das hipóteses propostas.
95
Faz-se de suma importância a compreensão sobre ciência e o conhecimento
gerado por ela. Porém, não se pode deixar de lembrar que o conhecimento cientíco
avança pelo campo da prática e não só pelo patamar teórico.
3 TECNOLOGIA
O que surge no seu pensamento ao ouvir a palavra tecnologia? Porventura
seriam máquinas sosticadas, ou, quem sabe, computadores de última geração?
Exatamente, esses são sinônimos de tecnologia, mas convidamos você a aproundar
seus conhecimentos ainda mais. Veja, pelo menos, outras três vertentes possíveis para
a utilização dessa palavra, segundo Ferreira (2004):
1. Linguagem peculiar a um ramo determinado do conhecimento, teórico ou prático.
2. Conjunto dos processos especiais relativos a uma determinada arte ou indústria.
3. Aplicação dos conhecimentos cientícos à produção em geral.
Por mais simplicadas que sejam estas três conceituações, elas permitem a
análise inicial acerca da discussão sobre tecnologia.
Vamos iniciar falando sobre o conjunto de processos utilizados em uma
determinada área, neste estamos alando de teoria e prática aliadas a m de atingir
um objetivo. Isso nos az inerir que o conhecimento cientíco não ocorre somente
na academia, mas também no ambiente de trabalho, ou seja, não só há produção de
conhecimento cientíco no ambiente acadêmico, mas nas prestadoras de serviço, as
quais testam a teoria promovida pela ciência, agora no campo da prática.
Há de se destacar uma situação relevante nas questões tecnológicas, no
âmbito de país, a capacidade de produção de tecnologia também diferencia
os países desenvolvidos dos em desenvolvimento.
IMPORTANTE
Você consegue perceber, nessa explanação inicial, a ação do ser humano em
tudo o que se refere à tecnologia? Normalmente, quando se fala nesse assunto, logo
se pensa em tecnologia de ponta, sondas espaciais, nanotecnologia, enm; porém, a
própria transformação das peles de animais em roupas, dos elementos da natureza em
utensílios domésticos, o uso do ogo, entre outros ao longo da história, são exemplos de
tecnologia. E, sim, a tecnologia está presente desde muito cedo na vida do ser humano.
96
Maiorcomplexidadeháquandoanalisamosatecnologiadopontodevistatécnico,
pois incluímos o campode atuação da atividade humana e aumentamos os dados acerca
do que vem a ser tecnologia. Como já exposto,a tecnologia está em todos os meios, seja
cientíco, cultural, social; com isso, raticamos as colocações de que em todas as ações
humanas há técnica e, portanto, a tecnologia está amplamente disseminada, como
preconiza Abbagnano (2000). Outrossim, é relacionada às implicações sobre todo esse
conhecimento desenvolvido; segundo Dias e Silveira (2005), o uso, o aproveitamento e
os resultados são de acordo com o objetivo para o qual foi desenvolvida e o meio em
que está inserida.
FIGURA 13 - A PRIMEIRA RODA
FONTE: Disponível em: <http://waz.com.br/blog/2013/08/26/cinco-tecno logias-que-mudaram-o-mundo/>.
Acesso em: 15 maio 2015.
Pode-se perceber que a técnica está tão enraizada entre a natureza e o ser
humano que, para Santos (2006), é quase impossível separá-la, pois o homem já não
se vê mais sem o uso de tecnologia, que acilita, medeia e auxilia em muitos processos.
Talvezpossa surgiraí um atordepreocupação: substituição (emdemasia) dos elementos
naturais por processos articiais. Fica a deixa para você pesquisar e analisar o que se
apresenta de prós e contras nessas questões.
Agora, partimos para a análise do último item sobre tecnologia, esse pode ser
traduzido como tecnocracia, ou seja, o uso do conhecimento cientíco nos demais
meios, porém, com a divulgação exclusiva a partir do que a ciência e a técnica propõem
como resultado. Nesse último, tal ação elimina as demais análises feitas a partir da
concepção política, ideológica e social, o que, por sua vez, pode causar o determinismo
tecnológico. Não se esqueça, tais ações terão refexo direto nas questões relacionadas
à sobreposição das ciências humanas e às ciências da natureza.
97
Pelo que oi apresentado nesta breve explanação, pode-se perceber que as ações
são interligadas e que agem como reação em cadeia. Nesse processo, faz-se necessário
entenderasociedadecomoagente integranteemediadordetodososprocessosdescritos.
4 SOCIEDADE
Ao entender a importância de discutir a sociedade como parte integrante de todo
o processo relacionado à tecnologia, se abre precedentes para muitas indagações. As
discussõesseriam inúmeras,poishaverianecessidadedeabriralinhamentosnomaisamplo
sentido a m de ajustar as arestas para que se orme o conhecimento acerca do assunto.
Seja no âmbito político, econômico, social, cultural, ambiental, az-se necessário apurar o
contexto em que ocorrem, a m de compreender seu impacto. Lembrando que a ciência
humana apresenta grande diversidade de pressupostosmetodológicos e epistemológicos,
e estes serão abordados, através de alguns autores e suas perspectivas, a seguir.
FIGURA 14 – PERSPECTIVAS DE TEORIAS E SEUS AUTORES SOBRE SOCIEDADE
• Auguste Comte (1898): teoria do positivismo. Cita três etapas para a evolução
da humanidade: teológica, metafísica e positiva.
• Lewis Henry Morgan (1978): mudança social através da integração com a
descoberta das forças motoras.
• Osvald Spengler (1932): propõe que as evoluções ocorrem de maneira cíclica
e que têm período para iniciar e para encerrar.
• Karl Marx (1867): a mudança na sociedade só ocorre impulsionada pelo
confito entre as dierentes classes sociais.
• Edmund Husserl (1859): apregoava que a sociedade necessitava apenas
de análise no âmbito da consciência e que o mundo exterior poderia ser
desconsiderado nesta análise.
A Sociedade como Organismo.
A teoria dos ciclos históricos.
O materialismo histórico e a mudança social.
Fenomenologia
FONTE: Adaptado de Tello e Mainardes (2012)
• Heidegger e Jean-Paul Sartre (1905): apresentaram correntes losócas que
analisavam a relação entre o homem e o mundo, considerando homem um
ser independente e, portanto, capaz de denir suas próprias ações.
Existencialismo
98
Pode-se perceber que cada autor defende uma linha de pensamento, ora
especíca, ora compartilhada por outro autor, porém, divergentes; no entanto, nas
propostas de conceituação sobre sociedade, cada um nas suas perspectivas defende
seus pontos de vista. Vejamos, por exemplo, Comte, em cuja teoria ez uso de leis e
métodos das ciências naturais, entendendo a sociedade como um grande organismo
vivo, interligado e interdependente. O principal conceito defendido por Comte era
de que a sociedade evoluía apenas em uma direção, ou seja, sua postura rente às
mudanças era conservadora. Com base nesta teoria surgiram outras, nesta mesma
linha de pensamento, denominadas como Neopositivismo.
Por outro lado, Spengler entendia que a sociedade evoluía em ciclos que se
encerravam em grandes períodos, citando como exemplos as sociedades babilônica,
egípcia, romana.
Marx, por sua vez, deendia a ideia de que a sociedade, como capitalista,
começara a dividir as classes sociais e tal divisão proporcionava observar a evolução da
sociedade num viés de produtividade e capitalismo.
Husserl tinha grande preocupação com a essência dos objetos e não com o
materialismo. Desta orma, considerava mais importante a experiência da consciência
do que os demais fatores materiais ou ideias.
Michel Foucault defendia a ideia de que o saber estava fortemente ligado ao
poder, e propunha uma genealogia para analisar a sociedade com a ideia de que o saber
estaria presente nas relações humanas e nas instituições disciplinadoras.
Assim, diversas são as teorias acerca da evolução da sociedade, que não se
encerram e tampouco foram todas apresentadas, mas que permitem dar-nos base para
analisar, no contexto da sociedade atual, a implicação da sociedade nas práticas atuais.
Acertadamente, podemos inferir que nenhum fator até aqui estudado age sozinho ou
de maneira isolada, é no conjunto da obra que a sociedade evolui, a ciência melhora e a
tecnologia se adapta (BAZZO, 2010).
5 SOCIEDADE ENTRE CIÊNCIA E TECNOLOGIA
Já vimos a denição de tecnocracia, pela qual a ciência passa a ter razão sobre
tudo e todos. Pois bem, esta visão apresenta um modelo de progresso linear, pelo qual
o desenvolvimento social é apenas consequência do desenvolvimento proposto pela
ciência, que, por sua vez, geraria o desenvolvimento tecnológico e, somente então,
chegaria no desenvolvimento social.
99
FIGURA 15 – O PROGRESSO DO PONTO DE VISTA DA TECNOCRACIA
FONTE: Adaptado de Auler e Delizoicov (2006)
Quando se trata do modelo linear apresentado, a perspectiva é de que tanto a
ciência quanto a tecnologia determinam as ações e melhorias, e a sociedade, por sua
vez, somente as recebe sem possibilidade de interação. Nesse modelo, a relação entre o
desenvolvimento cientíco e o social é casual, o que é ortemente criticado; outro ator
de desagrado nesse modelo, conorme Bourdieu (1983a), é da neutralidade da ciência.
Segundo ele, esse fator é tido como “utopia de interesses”, ou seja, coloca a ciência
como melhor explicação da real condição da sociedade.
Conforme pudemos observar, a tecnocracia, ou seja, a decisão de manter
apenas uma vertente entre ciência, tecnologia e sociedade não é neutra, pois age sobre
interesses políticos. O movimento ciência e tecnologia, ainda nos anos 1960 e 1970, oi
duramente criticado por promover, além do já exposto, problemas ambientais, além da
aplicação da tecnologia bélica, por exemplo, nas guerras mundiais.
Foi a partir das décadas de 1960 e 1970 que o movimento de neutralidade
da dupla ciência e tecnologia perdeu orça e a sociedade passou a exercer seu papel
de analisar criticamente a parceria entre as duas frentes e participar das discussões
técnico-cientícas propostas pelo, agora, grupo (ANGOTTI; AUTH, 2001, AULER; BAZZO,
2001). A partir desse movimento, outras rentes oram incorporadas às discussões sobre
o que seria conhecimento cientíco e tecnológico, bem como suas evoluções.
Como fora visto, mais precisamente após a II Guerra Mundial, a parceria entre
ciência e tecnologia passou por profundas mudanças, principalmente por começar a
levar em conta o bem-estar social. O primeiro avanço foi no sentindo de considerar o
desenvolvimento tecnológico um dos impulsionadores do progresso. A ciência, de certa
maneira, também passou por mudanças, ganhando a cada período maiorimportância.
Passemos, agora, a analisar algumas reações entre a parceria da ciência, da tecnologia
e da sociedade, que se deu após essas grandes adequações e modicações.
100
6 CIÊNCIA, TECNOLOGIA, SOCIEDADE E AMBIENTE (CTSA) –
INTERPRETAÇÕES SOBRE A NOVA FORMAÇÃO
Sob a nova ótica de formação, agora com o criticismo social, ciência e tecnologia
passamaterumaconotaçãodiferenteemenos isolada.OensinodeCiênciascomenfoque
ciência, tecnologia, sociedade e ambiente (CTSA) a partir de questões sociocientícas
(QSC), “temporobjetivo a emancipação dos sujeitos ao azer comque eles problematizem
a ciência e participem de seu questionamento público, engajando-se na construção de
novas ormas de vida e de relacionamento coletivo” (MARTINEZ, 2012, p. 55).
Para o reerido autor, as questões sociocientícas e a perspectiva CTSA “têm
em comum o objetivo de focar o ensino de Ciências na formação para a cidadania dos
estudantes no ensino básico e superior, bem como nos processos de formação cidadã
mais amplos abrangidos na sociedade”.
Para contextualizar esta temática, convido-o para analisarmos, juntos, duas
interpretações, baseadas nos lósoos Wiebe Bijker e Milton Santos.
6.1 CTS SOB NOVAS ÓTICAS
Ao debater o tema CTS, procuramos trazer para a conversa a contribuição dos
seguintes pesquisadores: Wiebe Bijker e Milton Santos.
WiebeBijker (1951- ) é umconstrutivista social que trabalhouvisando estabelecer
novas bases teóricas e metodológicas entre a CTS. O elo para esta nova parceria seria
a sociedade e, no momento em que assume este ponto de vista, começa a trabalhar
com o também construtivista social Trevor Pinch. Ambos envolvidos na divulgação de
documentos que debatem o relacionamento entre ciência e tecnologia, e destacando a
importância da essência social (BENAKOUCHE, 2005).
Outro pesquisador que traremos para a discussão é Milton Santos (1926-2001),
um geógrafo brasileiro que, por sua vez, tratou das questões relacionadas à CTS sob a
ótica da informação.
6.2 CTS SOB A ÓTICA DE MILTON SANTOS
Milton Santos traz à luz a discussão do meio ambiente e sua relação com CTS,
portanto, na visão desse pesquisador já poderíamos usar o conceito CTSA. Ele aborda
questões como o espaço e a sucessão de relacionamento entre o homem e a natureza,
bem como a da organização humana. Dessa forma, faz uma interessante análise sobre
a divisão do espaço geográco. Para entender melhor, trazemos um trecho do texto
“A natureza do espaço”, que trata sobre as considerações do autor sobre meio natural,
meio técnico e meio técnico-cientíco-inormacional.
101
Omeio natural
Quando tudo era meio natural, o homem escolhia da natureza aquelas suas
partes ou aspectos considerados undamentais ao exercício da vida, valorizando,
diferentemente, segundo os lugares e as culturas, essas condições naturais que
constituíam a base material da existência do grupo.
Esse meio natural generalizado era utilizado pelo homem sem grandes
transformações. As técnicas e o trabalho se casavam com as dádivas da natureza,
com a qual se relacionavam sem outra mediação.
O que alguns consideram como período pré-técnico exclui uma denição
restritiva. As transformações impostas às coisas naturais já eram técnicas, entre as
quais a domesticação de plantas e animais aparece como um momento marcante:
o homem mudando a Natureza, impondo-lhe leis. A isso também se chama técnica.
Nesse período, os sistemas técnicos não tinham existência autônoma. [...]. A
harmonia socioespacial assim estabelecida era, desse modo, respeitosa da natureza
herdada, no processo de criação de uma nova natureza. Produzindo-a, a sociedade
territorial produzia, também, uma série de comportamentos, cuja razão é a preservação
e a continuidade do meio de vida. Exemplo disso são, entre outros, o pousio, a rotação
de terras, a agricultura itinerante, que constituem, ao mesmo tempo, regras sociais e
regras territoriais, tendentes a conciliar o uso e a “conservação” da natureza: para que
ela possa ser outra vez utilizada. Esses sistemas técnicos sem objetos técnicos não
eram, pois, agressivos, pelo fato de serem indissolúveis em relação à Natureza que, em
sua operação, ajudavam a reconstituir.
Omeio técnico
O período técnico vê a emergência do espaço mecanizado. Os objetos que
ormam o meio não são, apenas, objetos culturais; eles são culturais e técnicos ao
mesmo tempo. Quanto ao espaço, o componentematerial é crescentemente formado
do “natural” e do “articial”. Mas, o número e a qualidade de arteatos variam. As áreas,
os espaços, as regiões, os países passam a se distinguir em unção da extensão e
da densidade da substituição, neles, dos objetos naturais e dos objetos culturais, por
objetos técnicos.
Os objetos técnicos, maquínicos, juntam à razão natural sua própria razão,
uma lógica instrumental que desaa as lógicas naturais, criando, nos lugares atingidos,
mistos ou híbridos confitivos. Os objetos técnicos e o espaçomaquinizado são lócus de
ações “superiores”, graças à sua superposição triunfante às forças naturais. Tais ações
são, também, consideradas superiores pela crença de que ao homem atribuem novos
poderes, o maior é a prerrogativa de enfrentar a Natureza, natural ou já socializada,
vinda do período anterior, com instrumentos que já não são prolongamento do seu
102
FONTE: Santos (2006, p. 157-161)
corpo, mas que representam prolongamentos do território, verdadeiras próteses.
Utilizando novos materiais e transgredindo a distância, o homem começa a fabricar
um tempo novo, no trabalho, no intercâmbio, no lar. Os tempos sociais tendem a se
superpor e contrapor aos tempos naturais. [...].
Omeio técnico-científco-inormacional
O terceiro período começa praticamente após a Segunda Guerra Mundial,
e sua rmação, incluindo os países de terceiro mundo, vai realmente dar-se nos
anos 70. É a ase a que R. Richta (1968) chamou de período técnico-cientíco,
e que se distingue dos anteriores pelo fato da profunda interação da ciência e da
técnica, a tal ponto que certos autores preferem falar de tecnociência para realçar a
inseparabilidade atual dos dois conceitos e das duas práticas.
Essa união entre técnica e ciência vai dar-se sob a égide do mercado. E o
mercado, graças exatamente à ciência e à técnica, torna-se ummercado global. A ideia
de ciência, a ideia de tecnologia e a ideia de mercado global devem ser encaradas
conjuntamente, e desse modo podem oferecer uma nova interpretação à questão
ecológica, já que as mudanças que ocorrem na natureza também se subordinam a
essa lógica.
Neste período, os objetos técnicos tendem a ser ao mesmo tempo técnicos
e inormacionais, já que, graças à extrema intencionalidade de sua produção e de
sua localização, eles já surgem como inormação; e, na verdade, a energia principal
de seu funcionamento é também a informação. Já hoje, quando nos referimos às
maniestações geográcas decorrentes dos novos progressos, não é mais de meio
técnico que se trata. Estamos diante da produção de algo novo, a que estamos
chamando de meio técnico-cientíco-inormacional.
Da mesma forma como participam da criação de novos processos vitais e da
produção de novas espécies (animais e vegetais), a ciência e a tecnologia, junto com
a informação, estão na própria base da produção, da utilização e do funcionamento
do espaço e tendem a constituir o seu substrato. [...].
Podemos então alar de uma cienticização e de uma tecnicização da
paisagem. Por outro lado, a informação não apenas está presente nas coisas, nos
objetos técnicos, que formam o espaço, como ela é necessária à ação realizada sobre
essas coisas. A informação é o vetor fundamental do processo social e os territórios
são, desse modo, equipados para facilitar a sua circulação. [...].
Os espaços assim requalicados atendem, sobretudo, aos interesses dos atores
hegemônicos da economia, da cultura e da política e são incorporados plenamente às
novas correntes mundiais. O meio técnico-cientíco-inormacional é a cara geográca
da globalização.
103
Após esta leitura, você conseguiu identicaros aspectos importantes da relação
entre CTS(A) que Milton Santos aborda? Como você pôde ver, essa questão é analisada
na perspectiva de que as relações foram sendo estabelecidas ao longo do tempo e
de maneira dialética. O autor destaca questões que merecem ser reanalisadas, como:
a necessidade de determinar as características do mundo atual (como modernidade,
pós-modernidade e globalização), assim como a história das relações entre CTSA. Outro
ponto que merece ser revisitado são as relações entre CTSA em uma lógica de mercado,
ou seja, buscar refexões sobre o sistema produtivo como um todo.
6.3 CTSA SOB A ÓTICA DE WIEBE BIJKER
Um dos principais incentivadores do movimento construtivista social foi Wiebe
Bijker. Para entendermos melhor suas ideias e ideais, compartilharemos um pequeno
trecho do artigo “Tecnologia é Sociedade: contra a noção de impacto tecnológico”, de
Benakouche (1999, p. 11-13), que aborda os principais vieses deste pesquisador.
Sustentando que os vários elementos envolvidos no processo de inovação
tecnológica constituem uma teia contínua (“seamless web”), Bijker pretende dar
conta dessa realidade através da elaboração de uma teoria que:
a) explique tanto a mudança quanto a estabilidade das técnicas;
b) seja simétrica, ou seja, possa ser aplicada tanto às técnicas que dão certo como
às que alham;
c) considere tanto as estratégias inovadoras dos atores como o caráter limitador das
estruturas; e, nalmente
d) evite distinções a priori entre o social, o técnico, o político ou o econômico.
Diantedetal agenda,propõeousodealgunsconceitosbásicoseoperacionais,
postos inclusive à prova nos vários estudos de caso que realizou, dentre os quais
se destacam os de grupos sociais relevantes, estrutura tecnológica (“technological
frame”), fexibilidade interpretativa (“interpretative fexibility”) e estabilização ou
echamento (“closure”).
Os “grupos sociais relevantes” são aqueles mais diretamente relacionados
ao planejamento, desenvolvimento e diusão de um arteato dado; na verdade,
seria na interação entre os diferentes membros desses grupos que os artefatos são
constituídos. Nesse processo, os atores não agem aleatoriamente, mas segundo
padrões especícos, isto é, agem a partir das “estruturas tecnológicas” às quais
estão ligados; esta noção – central, neste quadro analítico-descritivo – é ampla o
suciente para incluir teorias, conceitos, estratégias, objetivos ou práticas utilizadas
na resolução de problemas ou mesmo nas decisões sobre usos, pois não se aplica
104
apenas a grupos prossionais especializados, mas a dierentes tipos de grupos
sociais. Segundo Bijker, existiriam dierentes graus de inclusão nessas estruturas,
isto é, de envolvimento.
Na medida em que os grupos atribuem dierentes signicados a um mesmo
arteato, sua construção supõe um exercício de negociações entre esses mesmos
grupos, onde o uso da retórica é um recurso poderoso, ou seja, é objeto de uma
“fexibilidade interpretativa”. Quando esta atividade de ajustes se estabiliza e um
signicado é xado ou aceito, diz-se que o arteato atingiu o estágio de “echamento”.
É justamente a prática da fexibilidade interpretativa que retira dos arteatos sua
obturacidade; é ela que explica porque os mesmos não têm uma identidade ou
propriedades intrínsecas, as quais seriam responsáveis por seu sucesso ou o
seu fracasso, seus “impactos” positivos ou negativos. Em outras palavras, o não
reconhecimento da importância desse processo é que leva à crença equivocada
do determinismo da técnica. Assim é que tudo, numa tecnologia dada, do seu
planejamento a seu uso, estaria sujeito a variáveis sociais e, portanto, estaria aberto
à análise sociológica. No entanto, pode-se perguntar: ao se adotar essa perspectiva
não se corre o risco de se cair num reducionismo social? Não, respondem os
pesquisadores identicados com a mesma. O reconhecimento da existência de
estruturas tecnológicas evitaria esse risco: namedida emque asmesmas infuenciam
a ação dos diferentes grupos sociais relevantes, essas estruturas seriam justamente
as pontes que ligam tecnologia e sociedade, levando à constituição de conjuntos
sociotécnicos (BIJKER, 1995).
Após esta leitura, você pode traçar os principais pontos elencados pelo autor?
Se você citou a questão da importância de debater as ações dos conceitos
CTSA em conjunto, com o enoque nas ações sociais, ez uma excelente leitura. Wiebe
Bijker foi um dos grandes defensores da participação da sociedade nas discussões
relacionadas à ciência, e como consequência, demonstra em todos os seus discursos o
repúdio à parceria entre sociedade e tecnologia.
A partir das colocações proporcionadas pelos dois autores é possível elencar
pontos que merecem ser revistos, como a forma com que as comunicações de massa
são disponibilizadas e utilizadas pela sociedade, assim como a importância da tecnologia
no cotidiano e a dependência tecnológica.
105
7 CARACTERIZANDO O MUNDO ATUAL
Ao caracterizar o mundo atual, faz-se necessário observar três vertentes
singulares: modernidade, pós-modernidade e globalização. É importante analisar esses
três pontos para que se possa avançar nos estudos sobre CTSA. Vamos lá?
O que vem a ser a modernidade? Para muitos, o conceito de modernidade
refere-se a ideias bastante controversas, compreendendo desde pequenas práticas a
formas de perceber, conceber e viver o mundo. Para melhor situá-lo, relembramos três
grandes eventos: Revolução Industrial, Revolução Francesa e Revolução Cientíca.
A pós-modernidade ainda é complexa e a ideia não é amplamente aceita por
todos os cientistas e pensadores. As dúvidas e diferenças surgiram por volta de 1970
e 1990, mas ainda assim pode-se vericar duas linhas de discursos, quando o termo é
pós-modernidade: a da continuidade e a do rompimento.
FIGURA 16 – PRINCIPAIS CARACTERÍSTICAS DOS CONCEITOS DE MODERNIDADE, PÓS-MODERNIDADE E
GLOBALIZAÇÃO
FONTE: Adaptado de David Harvey (2003)
Agora, quando o assunto é globalização, o termo é mais conhecido, tendo
em vista que é assunto atual e amplamente divulgado e trabalhado na mídia. Como
todo conceito, esse também apresenta seus prós e contras, pois está fortemente
ligado à maneira como foi apreendido pela sociedade. O marco inicial da globalização
é racamente indicado, como no período da Revolução Tecnocientíca, porém, viu-
se nesse uma importante ferramenta de longo alcance, com ligações para diferentes
partes do mundo.
106
A globalização está amparada, principalmente, nos avanços tecnológicos,
assim como nas relações sociais e econômicas, no mercado da conectividade e da
virtualidade. A compressão da globalização, conhecida como compressão tempo-
espaço, é abordada como sendo a responsável por alterar a forma de comunicação
entre as pessoas, como a teleonia móvel (HARVEY, 2003). Porém, como tudo tem seu
outro lado, assim também é na globalização, podendo proporcionar tanto a inclusão
como a desigualdade social.
Uma importante observação precisa ser feita sobre esse ponto: deve-se cuidar
para que os avanços tecnológicos não venham a causar o determinismo tecnológico,
o que ocasionaria o mesmo pensamento de que a ciência e a tecnologia são neutras.
Nesse momento, o que se deve buscar é usar a tecnologia como ferramenta e não
como base.
107
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• A ciência, como orma de explicar a realidade, apresenta as seguintes características:
linguagem própria; conhecimento acumulável, registrável e reutável; e articulação
entre procedimentos metodológicos e fundamentos epistemológicos.
• A tecnologia, como sinônimo de técnica, nos permite pensar das tecnologias mais
simples até as mais avançadas, como roupa, erramentas e celulares; e, quando
falamos em tecnocracia, podemos entender como ideologização da técnica.
• A sociedade pode ser analisada e interpretada de diversas formas e são vários os
autores que apresentam algum parecer sobre o tema sociedade.
• A ciência e a tecnologia apresentam um modelo de crescimento e evoluçãolinear.
• O movimento que engloba ciência, tecnologia e sociedade está baseado em uma
visão mais crítica sobre a parceria entre ciência e tecnologia, o que permitiu inserir
outros pontos para debate das questões sociais, políticas, culturais e econômicas
acerca da ciência e das tecnologias.
• Há várias interpretações acerca das relações CTS(A), e as de Milton Santos e Wiebe
Bijker são duas delas.
• Os conceitos demodernidade, pós-modernidade e globalização são importantes para
a discussão acerca de ciência, tecnologia e sociedade, mas apresentam concepções
e interpretações bastante controversas.
108
AUTOATIVIDADE
1 Leia a charge a seguir:
2 Com reerência à comunicação de massa, identique a opção
correta.
FONTE: Disponível em: <http://www2.uol.com.br/laerte/tiras/>. Acesso em: maio 2015.
A análise da charge nos remete ao enômeno da insegurança no emprego, vivido,
nos dias atuais, por muitas pessoas. Esta insegurança também está atrelada ao
desenvolvimento de novas tecnologias, o que, por sua vez, tornou-se mais evidente nos
últimos anos. Com base nos eeitos nocivos, é correto armar que:
a) ( ) Produz sensação de apreensão quanto à continuidade utura de um cargo e/ou
de um papel dentro do ambiente de trabalho.
b) ( ) O maior aumento da insegurança no trabalho ocorreu em meados dos anos de
1990, entre os trabalhadores que exercem atividades manuais.
c) ( ) Trata-se de um enômeno recente causado por proundas alterações no
contexto do mercado de trabalho.
d) ( ) Os estudos apontam que a insegurança no emprego é restrita ao ambiente de
trabalho, não afetando a saúde e a vida pessoal dos empregados.
a) ( ) A comunicação de massa engendra um tipo de comunicabilidade do “entre nós”,
que se reporta aos telespectadores, ouvintes e aos brasileiros, em geral, gerando
a ilusão de pertencerem a uma comunidade.
b) ( ) A comunicação de massa caracteriza-se pela divisão entre a gura do emissor
e a do receptor autorizado e pela negligência do monopólio comunicativo e do
cerceamento de práticas populares.
109
c) ( ) A comunicação de massa undamenta-se na premissa de que tudo pode ser
mostrado e dito, não estabelecendo critérios sobre quem pode dizer e quem
pode ouvir.
d) ( ) O receptor autorizado tem um espaço da ala para opinar e contradizer, não
sendo necessário que suas unções sejam denidas na estrutura do campo
comunicativo.
e) ( ) Na comunicação de massa, o espaço social sui generis é transformado em
um espaço social heterogêneo, em que emissor e receptor têm papéis bem
denidos.
110
111
TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E
COMUNICAÇÃO (TIC)
UNIDADE 2 TÓPICO 2 -
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, ao falarmos das tecnologias da informação e comunicação
como fator determinante no advento da sociedade da informação, estamos a falar
das transformações resultantes do processo da globalização de mercados e dos
avanços do uso dos processos tecnológicos na vida cotidiana dos indivíduos. Desse
mosaico de transormações exercidas pelos meios tecnológicos na vida cotidiana dos
indivíduos emerge o conceito de sociedade da inormação. Sob este prisma, o que
iremos apresentar nas próximas páginas busca assinalar as tecnologias da inormação
e comunicação como fator determinante no advento da sociedade da informação.
Portanto, esperamos que este tópico possa contribuir, de certa forma, para inseri-lo no
debate sobre a sociedade da inormação e que sirva de erramenta para expandir o seu
horizonte pensante.
2 AS TECNOLOGIAS DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO
(TIC) COMO FATOR DETERMINANTE NO ADVENTO DA
SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO
Nos últimos anos do século XX omundovem adquirindo uma nova conguração,
fundamentada nas tecnologias da informação e da comunicação. A sociedade pós-
industrial vem sorendo modicações de orma acelerada, reestruturando o capitalismo,
na medida em que todas as economias do planeta passam a interdepender umas das
outras, em escala global.
Diante disso, observa-se que as grandes organizaçõesmundiais passam por um
processo de descentralização e interconexão das empresas, exemplos desse processo
são: o aumento do capital rente ao trabalho, com o declínio do sindicalismo e crescente
desemprego e a incorporação massiva da mulher no mundo do trabalho.
112
FIGURA 17 – SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO
FONTE: Disponível em: <http://webquests.edufor.pt/webquest/soporte_horizontal_w.php?id_activida-
d=2826&id_pagina=1>. Acesso em: maio 2015.
Com o crescente aumento do uso das Tecnologias da Informação e de
Comunicação nos diversos setores da atividade humana, bem como a sua integração às
facilidades das telecomunicações, tornou-se evidente a possibilidade de ampliar cada
vez mais, tanto o acesso à informação, quanto o desenvolvimento de novos meios que
proporcionem de orma rápida sua distribuição no campo das pesquisas cientícas. As
atividades tradicionais, como a leitura, a escrita, o correio, o comércio, a publicidade ou o
ensino, em atividades realizadas em ambientes virtuais, passam agora a ser capturadas
por esses novos dispositivos tecnológicos de informática, cada vez mais avançados.
Esse processo, que teve a sua origem no m dos anos 1960 e início dos anos
1970, não foi, por si só, responsável pela nova forma de organização social. Centrado
na ideia de informação e comunicação, o uso das TIC resultou da interação de três
processos independentes: revolução da tecnologia da inormação; da economia (crise
econômica do capitalismo e do estatismo e a consequente reestruturação de ambos);
e apogeu de movimentos sociais e culturais, tais como a armação das liberdades
individuais, dos direitos humanos, do eminismo e do ambientalismo (CASTELLS, 2001).
Na escala societária, as Tecnologias de Inormação e Comunicação (TIC)
constituíamum limiar sobre o qual se sucediamos acontecimentos políticos,militares ou
cientícos, tornando-se desta orma uma expressão de competição global, cuja lógica
encontrava-se inserida dentro de uma economia inormacional/global; e uma nova
cultura, a cultura da virtualidade real, em que a sociedade e a cultura estão subjacentes
à ação e às instituições sociais em ummundo interdependente. A interação entre esses
processos e as reações por eles desencadeadas fez surgir uma nova estrutura social
dominante, a sociedade em rede.
Na época atual, as chamadas Tecnologias de Inormação e Comunicação (TIC)
constituem ferramentas indispensáveis no processo de fortalecimento e integração das
nações na nova cadeia global. Segundo Castells (2001), esse processo oi de extrema
113
importância, pois seu papel conferiu uma dinâmica e formação de redes das diversas
esferas da atividade humana. Esta nova lógica preponderante de redes, sobre a qual a
nova sociedade se assenta, transormou todos os domínios de vida social e econômica.
Por intermédio da tecnologia, redes de capital, de trabalho, de
informação e de mercados conectaram funções, pessoas e locais
valiosos ao redordomundo, aomesmotempoemquedesconectaram
as populações e territórios desprovidos de valor e interesse para
a dinâmica do capitalismo global. Seguiram-se exclusão social e
não pertinência econômica de segmentos de sociedades, de áreas
urbanas, de regiões e de países inteiros, constituindo o que chamo
de ‘o Quarto Mundo’. A tentativa desesperada de alguns desses
grupos sociais e territórios para conectar-se à economia global e
escapar da marginalidade levou a uma situação que chamo de ‘a
conexão perversa’, quando o crime organizado em todo o mundo
tirou vantagem de sua condição para promover o desenvolvimento
da economia do crime global. O objetivo é satisfazer o desejo proibido
e ornecer mercadorias ilegais à contínua demanda de sociedades e
indivíduos abastados (CASTELLS, 1999, p. 411).
A m de compreender o surgimento das novas ormas de organização social por
conta das tecnologias informacionais, devemos observar os resultados dessa “revolução
tecnológica na estrutura social”, a saber:
• informação e conhecimento estão profundamente inseridos na cultura das
sociedades;
• as novas tecnologias da informaçãoagregam processos de produção, distribuição e
direção, permitindo diferentes tipos de atividades interligadas de acordo com omodo
organizativo que se ajusta melhor à estratégia da empresa ou à história da instituição.
Três conceitos surgem dessa transformação fundamental do modo em que o sistema
de produção opera e, juntos, formam as bases atuais da nova economia e forçarão a
redenição da estrutura ocupacional, além do sistema de classes da nova sociedade:
articulações entre as atividades; redes que conguram as organizações; e fuxos de
atores deproduçãoedemercadorias; fexibilidade e adaptabilidade sãonecessidades
undamentais para a direção de organizações, pois complexidade e incerteza são
características essenciais do novo meio ambiente organizacional;
• as novas tecnologias de comunicação têm um impacto direto sobre os meios de
comunicação e sobre a formação de imagens, representações e opinião pública
em suas sociedades, resultando em uma tensão crescente entre globalização e
individualização no universo dos audiovisuais;
• as fontes de poder na sociedade e entre as sociedades são alteradas pelo caráter
estratégico das tecnologias e da informação na produtividade da economia e na
ecácia das instituições sociais. A habilidade de promover a mudança tecnológica
está relacionada diretamente com a habilidade de uma sociedade para difundir e
intercambiar informações e relacioná-las com o restante do mundo.
114
3 TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO – TIC
Desde os primórdios da humanidade, o homem sempre sentiu a necessidade de
se comunicar com os outros homens. As novas tecnologias vêm efetuando mudanças
sociais drásticas nos diversos segmentos da sociedade. As chamadas Tecnologias da
Inormação e Comunicação (TIC) têm se apresentado como um ator decisivo na nova
organização social, sem precedentes na história.
O próprio capitalismo passa por um processo de profunda
restauração, caracterizado por maior fexibilidade de gerenciamento;
descentralização das empresas e sua organização em redes tanto
internamente quanto em suas relações com outras empresas;
considerável fortalecimento do papel do capital vis-à-vis o trabalho,
com o declínio concomitante da infuência dos movimentos de
trabalho; incorporação maciça das mulheres na orça de trabalho
remunerada, geralmente em condições discriminatórias; intervenção
estatal para desregular os mercados de forma seletiva e desfazer
o estado do bem-estar social com diferentes intensidades e
orientações, dependendo da natureza das forças e instituições
políticas de cada sociedade; aumento da concorrência econômica
global em um contexto de progressiva dierenciação dos cenários
geográcos e culturais para acumulação e a gestão de capital
(CASTELLS, 1999, p. 21).
Primeiramente, para melhor compreender o conceito de Tecnologias da
Informação e Comunicação - TIC e o seu papel nas sociedades atuais, de forma a dar
uma “robustez” mais ampla às nossas refexões, aremos um pequeno aporte histórico
sobre o conceito de tecnologia em Manuel Castells. Neste sentido, segundo arma o
autor (1999, p. 24):
Para dar os primeiros passos nessa direção, devemos levar a
tecnologia a sério, utilizando-a como ponto de partida desta
investigação; devemos localizar esse processo de transormação
tecnológica revolucionária no contexto social em que ele ocorre e
pelo qual está sendo moldado; e devemos lembrar que a busca pela
identidade é tão poderosa quanto a transormação econômica e
tecnológica no registro da nova história.
O termo tecnologia provém do verbo grego tictein, que signica "técnica, arte,
oício", juntamente com o suxo "logia", que signica "estudo", portanto, o conhecimento
prático que almeja alcançar um determinado m concreto.
O Dicionário de Sociologia, de Alan Johnson (1997), indica a palavra “tecnologia”
como o repositório acumulado de conhecimento cultural sobre ambientes ísicos e seus
recursosmateriais, comvistas a satisazer desejos e vontades. Contudo, segundo arma
Johnson (1997), tecnologia não pode ser conundida com a ciência, na medida em que
ela consiste de conhecimentos práticos sobre como usar recursos materiais, ao passo
que a ciência consiste de conhecimento abstrato e teorias sobre como o processo do
conhecimento se constrói.
115
Na sociedade industrial, o conceito de tecnologia esteve associado à forma
de produto, passando, portanto, a não mais designar a forma de produção, ou seja,
concentra-se nos produtos, nos processos, nos equipamentos e nas operações.
Assim, na visão de Masi (1999), esta lógica, em que a tecnologia se torna uma
ferramenta indispensável nas relações de produção, obrigou o mundo da produção
industrial a sofrer grandes mudanças, tanto no processo de regulamentação da
empresa, como na organização do trabalho, de forma a responder aos imperativos que
a própria tecnologia trouxe para o apereiçoamento das condições de vida do homem.
Nesse sentido, para Masi (1999, p. 158), as principais transormações provocadas por
esses imperativos são as seguintes:
• Um intervalo de tempo mais curto exigido pelo processo produtivo
para levar até o m a realização de um produto.
• Um aumento da necessidade de capital para a produção.
• Maior especialização e denição de unções, operações, processos
e materiais, com uma consequente rigidez que impede conversões
de uma operação para outra.
• Maior necessidade de mão de obra especializada.
•Maior exigência de organização de todas as atividades
especializadas envolvidas, o que resulta na posterior exigência de
outros especialistas: os especialistas em organizações.
• A necessidade de planejamento, em face do tempo e dos capitais
empregados,da rigidezdosprocessos,dasexigênciasorganizacionais
e da instabilidade do mercado em relação aos sistemas industriais
que utilizam tecnologias avançadas.
Já no século XX, a tecnologia passa a ser descrita como um campo
do conhecimento que, além de usar o método cientíco, cria e/ou transorma
processos materiais. Assim, segundo Masi (1999), a tecnologia passa a ser o motor
do desenvolvimento da sociedade, elevando o padrão de vida de uma determinada
sociedade, reduzindo desta forma as desigualdades. Nesse sentido, na visão de Masi
(1999, p. 159), a tecnologia passa a ser:
uma nova orma de racionalidade uncional que modica os
modelos educacionais, ‘os sistemas de especulação, tradição e
razão’; revolucionando os transportes e as comunicações, cria
novos tipos de relações sociais (onde, por exemplo, as relações de
parentesco são substituídas por ligações de trabalho e prossionais)
e de interdependência econômica. A tecnologia, enm, modica
a percepção (também estética, como testemunham as novas
tendências das artes gurativas) do espaço e do tempo.
116
Na visão de Castells (2001, p. 49), a tecnologia corresponde:
(ao) uso de conhecimento cientíco para especicar as vias de se
azer as coisas de uma maneira reproduzível. Entre as tecnologias
da informação incluo, como todo o conjunto convergente de
tecnologias em microeletrônica, computação (software e hardware),
telecomunicações/radiodiusão, e optoeletrônica. Além disso,
dierentemente de alguns analistas, também incluo nos domínios
da tecnologia da informação a engenharia genética e seu crescente
conjunto de desenvolvimento e aplicações.
Com base nessa citação, torna-se claro que a tecnologia não determina a
sociedade, nem a sociedade escreve o curso da transformação tecnológica. Portanto,
para Castells (2001), a tecnologia e a sociedade são categorias interdependentes,
na medida em que a sociedade não pode ser entendida ou representada sem suas
“erramentas tecnológicas”. Nesse sentido, para Castells (2001), a tecnologia é uma
condicionante, e não determinante, da sociedade.
Por conseguinte, a relação entre tecnologia e sociedade está marcada pela
presença do papel do Estado, podendo estimular ou constranger ambientes de inovação
tecnológica, organizando as forças sociais dominantes emdeterminado tempo e espaço.
Em grande medida, o grau de tecnologia existente numa sociedadeé a representação
de sua capacidade coletiva de controle sobre o meio político, isto é, de determinação
sobre o formato das instituições, ou seja, do próprio Estado, no sentido de que este
permita o melhor desenvolvimento das iniciativas e o uso das tecnologias a favor dos
indivíduos. Desta eita, “o processo histórico em que esse desenvolvimento de orças
produtivas ocorre assinala as características da tecnologia e seus entrelaçamentos com
as relações sociais” (CASTELLS, 2001, p. 31).
Sob esta ótica, a tecnologia não pode ser vista como uma “ferramenta” que
busca resolver problemas imediatos que se apresentam numa determinada sociedade,
mas sim como ummeio integrante e compatível com a sociedade em que está inserida.
Para o sociólogo espanhol Manuel Castells Oliván, o suposto dilema do determinismo
tecnológico é falso. Portanto, não se trata de perguntar se a tecnologia determina
comportamentos na sociedade ou se a sociedade é quem controla a tecnologia.
Como diz Castells (2001, p. 25), “a tecnologia é a sociedade e a sociedade não pode
ser entendida ou representada sem suas ferramentas tecnológicas”. Isso não impede
de admitir que no começo é uma parte da sociedade que dá o start, para depois os
outros se apropriarem das inovações. Foi o que aconteceu nos EUA, quando um setor
especíco da sociedade introduziu essas novas ormas de produção, comunicação,
gerenciamento e vida (CASTELLS, 2001).
Nessamedida, tanto a informação comoo conhecimento criamumnovo sistema
baseado num complexo integrado de rede global de interação, em que a produtividade
e a competitividade das suas unidades dependem basicamente de sua capacidade de
gerar, processar e aplicar de orma eciente a inormação baseada no conhecimento.
117
Sem dúvida, informação e conhecimento sempre foram elementos
cruciais no crescimento da economia, e a evolução da tecnologia
determinou em grande parte a capacidade produtiva da sociedade
e os padrões de vida, bem como formas sociais de organização
econômica [...]. A emergência de um novo paradigma tecnológico
organizado em torno de novas tecnologias da informação, mais
fexíveis e poderosas, possibilita que a própria inormação se torne
o produto do processo produtivo. Sendo mais preciso: os produtos
das novas indústrias de tecnologia da informação são dispositivos de
processamento da informação. Ao transformarem os processos de
processamento da informação, as novas tecnologias da informação
agem sobre todos os domínios da atividade humana e possibilitam
o estabelecimento de conexões innitas entre dierentes domínios,
assim como entre os elementos e agentes de tais atividades
(CASTELLS, 2001, p. 88).
Assim, para Castells (2001), o que caracteriza a atual revolução tecnológica não
é a centralização do conhecimento e da aplicação, senão o uso da informação para
a gestão de todo o processamento da informação e gerenciamento, num processo
de retroalimentação eterno, promovendo a passagem de três estágios das novas
tecnologias de telecomunicações nas últimas décadas, quais sejam: a automação das
tareas, as experiências de usos e a reconguração das aplicações. “Nos dois primeiros
estágios, os avanços tecnológicos se caracterizam pelo learn by using, isto é, pelo
aprender usando. No último, são os usuários que aprenderam a tecnologia fazendo, o
que acabou resultando na conguração das redes e na descoberta de novas aplicações”
(CASTELLS, 2001, p. 51).
Desta feita, seria incorreto falar de uma Sociedade Informacional, implicando
uma inadequada “homogeneidade das formas sociais” em qualquer lugar do globo sob o
novo sistema. Não se trata de reduzir os povos daTerra ao novo paradigma informacional,
mas, segundo o pensador espanhol, poderíamos alar de uma sociedade inormacional
assim como alamos da “sociedade urbano-industrial, cujas características são bem
denidas e algumas de suas principais estão diundidas mundialmente” (CASTELLS,
1999, p. 38).
118
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• As novas tecnologias da informação e comunicação têm um impacto direto na vida
social dos indivíduos.
• Os novos dispositivos de informação constituem verdadeiras fontes de poder nas
sociedades, e são alterados de acordo com o caráter estratégico da produtividade da
economia e na ecácia das instituições sociais.
• O termo tecnologia provém do verbo grego tictein, que signica criar, produzir,
signicando, portanto, o conhecimento prático que almeja alcançar um determinado
m concreto.
• O que caracteriza a renovação tecnológica não é a centralidade do conhecimento e
nem da informação.
• Tecnologia não pode ser confundida com ciência, na medida em que ela consiste
de conhecimentos práticos sobre como usar recursos materiais, ao passo que
a ciência consiste de conhecimento abstrato e teorias sobre como o processo do
conhecimento se constrói.
• A expressão Tecnologias da Inormação e Comunicação – TIC reere-se ao conjunto
de recursos tecnológicos capazes de produzir e disseminar informações, ou seja,
erramentas que permitem arquivar e manipular inormações em orma de textos,
imagens e sons, permitindo, desta forma, que nos comuniquemos uns com os outros.
• São cinco os elementos que caracterizam o novo paradigma das tecnologias da
informação e comunicação.
119
AUTOATIVIDADE
1 (ENADE - 2011) Exclusão digital é um conceito que diz respeito às
extensas camadas sociais que caram à margem do enômeno
da sociedade da inormação e da extensão das redes digitais. O
problema da exclusão digital se apresenta como um dos maiores
desaos dos dias de hoje, com implicações diretas e indiretas sobre os mais
variados aspectos da sociedade contemporânea.
Nessa nova sociedade, o conhecimento é essencial para aumentar a produtividade e a
competição global. É fundamental para a invenção, para a inovação e para a geração
de riqueza. As tecnologias de inormação e comunicação (TICs) proveem uma undação
para a construção e aplicação do conhecimento nos setores públicos e privados. É
nesse contexto que se aplica o termo exclusão digital, reerente à alta de acesso às
vantagens e aos beneícios trazidos por essas novas tecnologias, por motivos sociais,
econômicos, políticos ou culturais.
Considerando as ideias do texto acima, avalie as armações a seguir.
I- Um mapeamento da exclusão digital no Brasil permite aos gestores de políticas
públicas escolherem o público-alvo de possíveis ações de inclusão digital.
II- O uso das TICs pode cumprir um papel social, ao prover informações àqueles que
tiveram esse direito negado ou negligenciado e, portanto, permitir maiores graus de
mobilidade social e econômica.
III- O direito à informação diferencia-se dos direitos sociais, uma vez que esses estão
ocados nas relações entre os indivíduos e, aqueles, na relação entre o indivíduo e
o conhecimento.
IV- O maior problema de acesso digital no Brasil está na decitária tecnologia existente
em território nacional, muito aquém da disponível na maior parte dos países de
primeiro mundo.
É correto apenas o que se arma em:
a) ( ) II e IV.
b) ( ) I e II.
c) ( ) III e IV.
d) ( ) I, II e III.
e) ( ) I, III e IV.
120
[...] A cibercultura não seria pós-moderna, mas estaria inserida perfeitamente na
continuidade dos ideais revolucionários e republicanos de liberdade, igualdade e
fraternidade. A diferença é apenas que, na cibercultura, esses “valores” se encarnam em
dispositivos técnicos concretos. Na era dasmídias eletrônicas, a igualdade se concretiza
na possibilidade de cada um transmitir a todos; a liberdade toma orma nos softwares
de codicação e no acesso a múltiplas comunidades virtuais, atravessando ronteiras,
enquanto a raternidade, nalmente, se traduz em interconexão mundial.
O desenvolvimento de redes de relacionamento pormeio de computadores e a expansão
da internet abriram novas perspectivas para a cultura, a comunicação e a educação. De
acordo com as ideias do texto acima, a cibercultura:
a) ( ) Representa umamodalidade de cultura pós-moderna de liberdade de comunicaçãoe ação.
b) ( ) Constituiu negação dos valores progressistas deendidos pelos lósoos do
Iluminismo.
c) ( ) Banalizou a ciência ao disseminar o conhecimento nas redes sociais.
d) ( ) Valorizou o isolamento dos indivíduos pela produçãode softwaresde codicação.
e) ( ) Incorporavaloresdo Iluminismoao avorecerocompartilhamentode inormações
e conhecimentos.
2 (ENADE – 2011) A cibercultura pode ser vista como herdeira
legítima (embora distante) do projeto progressista dos lósoos
do século XVII. De fato, ela valoriza a participação das pessoas
em comunidades de debate e argumentação. Na linha reta das
morais da igualdade ela incentiva uma forma de reciprocidade essencial nas
relações humanas. Desenvolveu-se a partir de uma prática assídua de trocas de
inormações e conhecimentos, coisa que os lósoos do Iluminismo viam como
principal motor do progresso.
121
TÓPICO 3 -
AVANÇOS TECNOLÓGICOS
1 INTRODUÇÃO
Caro acadêmico, ao falarmos de avanços tecnológicos, se torna importante
compreendermos sobre as práticas de inovação, compreender comunidades virtuais e
seus impactos e conhecer um pouco das novidades tecnológicas existentes.
A tecnologia az parte do nosso dia a dia e vem se expandindo cada vez mais.
Neste tópico, queremos apenas trazer algo sobre as novas tecnologias, mas que
antenado nos noticiários, todos os dias temos o lançamento de uma nova tecnologia.
2 TENDÊNCIAS ORGANIZACIONAIS DO SÉCULO XXI
Muitas pessoas não conseguem trabalhar sem seu laptop ou smartphone. Além
disso, para muitos é impossível imaginar o dia sem o Google ou, para outros, mensagens
de texto,WhatsApp ou Facebook para car em contato comuma grande rede de colegas.
Em apenas uma década a tecnologia mudou muito a forma como trabalhamos e nos
comunicamos. E na próxima década, com o aumento da velocidade das conexões da
internet, haverá mudanças mais profundas para o trabalho do que qualquer coisa vista
até o momento. Todas as informações serão mais fáceis de visualizar e analisar.
As empresas enfrentam mudanças mais abrangentes e com maior alcance em
suas implicações do que qualquer coisa desde a Revolução Industrial moderna, que
ocorreu no início de 1900 (BALTZAN; PHILLIPS, 2012). Para auxiliar na compreensão e
infuência das tecnologias em nosso modo de vida, observe as inormações das guras
a seguir, nelas consta uma nova tecnologia que já vem sendo utilizada por empresas e
pela educação, chama-se: comunidades virtuais.
UNIDADE 2
122
FIGURA 18 – COISAS QUE VAMOS DIZER PARA NOSSOS NETOS
FONTE: Baltzan e Phillips (2012)
FIGURA 19 – COMO SEREMOS LEMBRADOS POR NOSSOS NETOS
FONTE: Disponível em: <https://goo.gl/JJh21n> Acesso em: 13 dez. 2017.
3 COMUNIDADES VIRTUAIS
Você já ouviu falar em comunidade virtual? Também encontramos com o nome
de grupo virtual, mas perante a bibliograa vamos trabalhar com comunidade virtual.
123
As comunidades virtuais são redes virtuais de comunicação interativa,
organizadas em interesses compartilhados. Ao analisarmos o passado, na origem das
primeirascivilizações,oserhumanoeranômade,viviadacaça,pescaecoletadeprodutos
na natureza. Com o passar dos anos o ser humano aprendeu a se organizar em grupos,
assim nascendo as primeiras comunidades, as quais deram origem às civilizações. Esses
grupos humanos deniram ormas de expressar valor moral e cultural, de acordo com
cada época. Com as novas tecnologias constituíram-se grupos de sujeitos ligados por
vínculos não ormalizados, com características comuns, ormando-se as comunidades
virtuais (MUSSOI; FLORES; BEHAR, 2007).
As comunidades virtuais se constituem de grupos de pessoas interconectadas
em busca da inteligência coletiva.
NOTA
FIGURA 20 – PRINCÍPIOS DA CIBERCULTURA
FONTE: Os autores
124
Uma comunidade virtual é uma inteligência coletiva em potencial. Um grupo
humano se interessa em constituir-se como comunidade virtual para aproximar-se do
ideal do coletivo inteligente, mais imaginativo, mais capaz de aprender e inventar. A
virtualização ou desterritorialização das comunidades no ciberespaço são condições
para haver inteligência coletiva em grande escala. A inteligência coletiva é o terceiro
princípio da cibercultura. O ciberespaço é a erramenta de organização de comunidades
de todos os tipos, o melhor uso do ciberespaço pode ser alcançado ao se colocar
em sinergia os saberes, as imaginações e as energias espirituais daqueles que estão
conectados a ele. A cibercultura é a expressão da aspiração de construção de um
laço social, fundado sobre a reunião em torno de centros de interesses comuns, no
compartilhamento de informações, na cooperação e nos processos de colaboração
(MUSSOI; FLORES; BEHAR, 2007).
Quer conhecer mais sobre a Cibercultura? Então leia o livro de Pierre Lévy.
Cibercultura. Rio de Janeiro: Editora 34, 1999.
DICAS
Para estimular sua leitura e aprofundar o conceito de cibercultura, trazemos
alguns trechos do livro de Pierre Lévy (1999, p. 11).
Pensar a cibercultura: esta é a proposta deste livro. Em geral me
consideram um otimista. Estão certos. Meu otimismo, contudo, não
promete que a Internet resolverá, em um passe de mágica, todos
os problemas culturais e sociais do planeta. Consiste apenas em
reconhecer dois fatos. Em primeiro lugar, que o crescimento do
ciberespaço resulta de um movimento internacional de jovens
ávidos para experimentar, coletivamente, ormas de comunicação
dierentes daquelas que as mídias clássicas nos propõem. Em
segundo lugar, que estamos vivendo a abertura de um novo espaço
de comunicação, e cabe apenas a nós explorar as potencialidades
mais positivas deste espaço nos planos econômico, político, cultural
e humano.
O reerido autor apresenta a contextualização dos princípios da cibercultura no
mundo atual, e conclui que o programa da cibercultura é o universal sem totalidade,
ou seja, possui uma relação profunda com a ideia de humanidade e se abastece da
diversidade cultural.
A interconexão para a interatividade é supostamente boa, quaisquer
que sejam os terminais, os indivíduos, os lugares e momentos que ela
coloca emcontato.As comunidadesvirtuais parecemserumexcelente
meio (entre centenas de outros) para socializar, quer suas nalidades
sejam lúdicas, econômicas ou intelectuais, quer seus centros de
125
interesse sejamsérios, rívolos ou escandalosos.A inteligência coletiva,
enm, seria o modo de realização da humanidade que a rede digital
universal felizmente favorece, sem que saibamos a priori em direção
a quais resultados tendem as organizações que colocam em sinergia
seus recursos intelectuais. Em resumo, o programa da cibercultura é o
universal sem totalidade (LÉVY, 1999, p. 132).
As comunidades virtuais podem ter diversidade de pessoas, como de assuntos.
Para educação, uma comunidade virtual cria uma relação de professor-aluno que
dialogam e estabelecem regras juntos. O professor, nesta situação, é o mediador,
orientador, instigador do processo.
Pallo e Pratt (2004) apresentam técnicas instrucionais centradas no aluno
para que o professor tenha sucesso nas interações das comunidades:
• Acesso e habilidade: o professor deve utilizar apenas tecnologias que sirvam aos
objetivos da aprendizagem; a tecnologia deve ser mantida em um nível simples, para
que seja transparente ao aluno; o proessor deve se certicar de que o aluno tenha
habilidade necessária para usar a tecnologia.
• Abertura: sempre comece a atividade com apresentação; use atividades de
aprendizagem que levem em consideração a experiência e a resolução de problemas.
• Comunicação: deixe claro ao aluno as diretrizes para a comunicação, incluindo a net
etiqueta; exemplique como realizar uma boa comunicação; estimule a participação;
acompanhe os alunos que não participam.
• Comprometimento: explique suas expectativas em relação à utilização do tempo;
explique a realização de trabalhos, prazos de entrega e meios pelos quais a
avaliação será elaborada; crie uma agenda de publicação junto aos alunos; apoie o
desenvolvimento de boas habilidades de gerenciamento de tempo.
• Colaboração: trabalhecom estudos de caso, trabalhos em pequenos grupos,
simulações e utilização do pensamento crítico; aça com que os alunos enviem seus
trabalhos para a comunidade, para maior interação com os demais colegas; aça
perguntas abertas para estimular a discussão.
• Refexão: coloque regras quanto ao tempo de postagem da mensagem; estimule
os alunos a refetir, escrever o-line e depois transcrever para a comunidade; aça
perguntas abertas e estimule a refexão sobre o material utilizado.
• Flexibilidade: varie as atividades para atender todos os estilos de aprendizagem e
oerecer um interesse adicional; negocie as diretrizes da atividade com os alunos,
assim promovendo maior engajamento; use a internet como uma erramenta e um
recurso de ensino e estimule os alunos a buscar referências que possamcompartilhar.
Analisando ao nosso redor, temos diversas formas de comunidades virtuais,
e você deve conhecer muitas delas. Veremos no próximo subtópico essas ormas,
conhecidas por redes sociais.
126
3.1 REDES SOCIAIS
As redes sociais podem ser vistas como uma tecnologia commenos seguidores
para a sua utilização como uma ferramenta de trabalho, mas não deve ser, devido ao
número de assinantes dessa tecnologia. Esses sites permitem que o usuário faça várias
atividades, tais como: postar um perl, otos, vídeos, chat, blog, e se conectar com seus
pares através de boletins individuais, grupos privados e fóruns.
Quais são os aspectos críticos que denem uma tecnologia de rede social?
Tradicionalmente, os traços dessas ferramentas incluem a criação de um login no site,
que ornece uma página de perl, em que muitas vezes você pode adicionar otos e
outros conteúdos. Você pode se conectar com outras pessoas que conhece ou pode
encontrar novas pessoas através do site, tornando-se o seu "amigo". Este título serve
para designar, no site,que duas pessoas estão ligadas de alguma forma. Isso proporciona
a capacidade de receber atualizações em suas páginas "de amigos", comunicar-se com
eles através de e-mail no local/comentários/chat, e criar grupos especícos no site em
torno de temas ou conteúdo. A seguir, veremos algumas novidades tecnológicas.
Alguns sites que você deve acessar para car dentro das atualidades
tecnológicas:
<http://www.cienciahoje.pt/3445>
<http://olhardigital.uol.com.br/home>
<http://noticias.r7.com/tecnologia-e-ciencia>
<http://revistapesquisa.apesp.br/>
<http://www2.uol.com.br/sciam/>
<http://www.abc.org.br/centenario/>
<http://www.scielo.org/php/index.php?lang=pt>
DICAS
127
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• Algumas tendências para as empresas perante as tecnologias.
• O que são comunidades virtuais e para que servem.
• O que é cibercultura e seus princípios.
• O que são redes sociais.
128
AUTOATIVIDADE
1 (ENADE – 2014) O trecho da música “Nos bailes da vida”, de Milton
Nascimento, “todo artista tem de ir aonde o povo está”, é antigo, e
a música, de tão tocada, acabou por se tornar um estereótipo de
tocadores de violões e de roda de amigos emVisconde de Mauá, nos
anos de 1970. Em tempos digitais, porém, ela cou mais atual do que nunca. É
fácil entender o porquê: antigamente, quando a informação se concentrava em
centro de exposição, veículos de comunicação, editoras, museus e gravadoras,
era preciso passar por uma série de curadores, para garantir a publicação de
um artigo ou livro, a gravação de um disco ou a produção de uma exposição.
O mesmo unil, que poderia ser injusto e deixar grandes talentos de ora,
simplesmente porque não tinham acesso às ferramentas, às pessoas ou às
ontes de inormação, também servia como ltro de qualidade. Tocar violão ou
encenar uma peça de teatro em um grande auditório costumava ter um peso
muito maior do que fazê-lo em um bar, um centro cultural ou uma calçada. Nas
raras ocasiões em que esse valor se invertia, era justamente porque, para uso
do espaço “alternativo”, havia mecanismos de seleção tão ou mais rígidos que
o espaço ocial.
A partir do texto acima, avalie as asserções a seguir e a relação entre elas.
I- O processo de evolução tecnológica da atualidade democratiza a produção e a
divulgação de obras artísticas, reduzindo a importância que os centros de exposição
tinham nos anos de 1970.
PORQUE
II- As novas tecnologias possibilitam que artistas sejam independentes, montem seus
próprios ambientes de produção e disponibilizem seus trabalhos, de forma simples,
para um grande número de pessoas.
A respeito dessas asserções, assinale a opção correta.
a) ( ) As asserções I e II são proposições verdadeiras, e a II é uma justicativa correta da I.
b) ( ) As asserções I e II são proposições verdadeiras, mas a II não é uma justicativa
correta da I.
c) ( ) A asserção I é uma proposição verdadeira, e a II é uma proposição alsa.
d) ( ) A asserção I é uma proposição alsa, e a II é uma proposição verdadeira.
e) ( ) As asserções I e II são proposições alsas.
129
2 (ENADE – 2013) Uma revista lançou a seguinte pergunta em um
editorial: “Você pagaria um ladrão para invadir sua casa?”.As pessoas
mais espertas diriam provavelmente que não, mas companhias
inteligentes de tecnologia estão, cada vez mais, dizendo que
sim. Empresas como a Google oferecem recompensas para hackers que
consigam encontrar maneiras de entrar em seus softwares. Essas companhias
frequentemente pagam milhares de dólares pela descoberta de apenas um
bug, o suciente para que a caça a bugs possa ornecer uma renda signicativa.
As empresas envolvidas dizem que os programas de recompensa tornam seus
produtos mais seguros. “Nós recebemos mais relatos de bugs, o que signica
que temos mais correções, o que signica uma melhor experiência para nossos
usuários”, armou o gerente de programa de segurança de uma empresa. Mas
os programas não estão livres de controvérsias. Algumas empresas acreditam
que as recompensas devem apenas ser usadas para pegar cibercriminosos,
não para encorajar as pessoas a encontrar as falhas. E também há a questão
de double-dipping, a possibilidade de um hacker receber um prêmio por ter
achado a vulnerabilidade e, então, vender a informação sobre o mesmo bug
para compradores maliciosos.
Considerando o texto acima, inere-se que:
a) ( ) Os caçadores de alhas testam os softwares, checam os sistemas e previnem
os erros antes que eles aconteçam e, depois, revelam as falhas a compradores
criminosos.
b) ( ) Os caçadores de alhas agem de acordo com princípios éticos consagrados no
mundo empresarial, decorrentes do estímulo à livre concorrência comercial.
c) ( ) A maneira como as empresas de tecnologia lidam com a prevenção contra
ataques dos cibercriminosos é uma estratégia muito bem-sucedida.
d) ( ) O uso das tecnologias digitais de inormação e das respectivas erramentas
dinamiza os processos de comunicação entre os usuários de serviços das
empresas de tecnologia.
e) ( ) Os usuários de serviços de empresas de tecnologia são beneciários diretos dos
trabalhos desenvolvidos pelos caçadores de falhas contratados e premiados
pelas empresas.
130
131
TÓPICO 4 -
GLOBALIZAÇÃO E POLÍTICA
INTERNACIONAL
UNIDADE 2
1 INTRODUÇÃO
Os elementos que compõem o repertório da civilização ocidental em termos
de instituições, códigos jurídicos, leis, estatutos reguladores e pacicadores, por
muito tempo encontraram-se centrados em avorecer o poder político e os sistemas
econômicos, os quais, no momento presente, encontram-se em situação de crise e
mal-estar dos indivíduos, e a alternativa diante deste cenário tem sido a retomada das
ormas de viver e azer, dos costumes, valores, relações e vínculos de interdependência
e reciprocidade no interior das comunidades.
Vivemos em um momento de crises e impasses, isso encontra-se diretamente
relacionado com as matrizes e modelos teóricos que legitimavam o crescimento
econômico equilibrado (crença no mercado autorregulado), o modelo de organização
política (Estado neoliberal), o sistema monetário internacional (baseado no padrão-
ouro) e o equilíbrio de poder na geopolíticainternacional (hegemonia norte-americana
e europeia).
Sem sombra de dúvidas, representamos uma civilização centrada no otimismo
do progresso e do trabalho capitalista, e cada vez mais é reconhecida a armação
do individualismo. À medida que avança o processo de conquista da propriedade e
da individualização dos sujeitos, faz-se necessário cada vez mais constituir normas
e um conjunto de outros valores éticos, sociais e de regulamentação que garantam
equidade e paz nas relações dos indivíduos. Bem, você deve estar se perguntando:
como chegamos a este estado?! Ao longo dos próximos dois subtópicos procuramos
apresentar elementos para que se compreenda o processo político, social e histórico
desse quadro.
2 GLOBALIZAÇÃO: UMA PERSPECTIVA HISTÓRICA
Trata-se de um enômeno de organização e circulação política, econômica,
comercial e cultural, que foi praticado pelas mais diversas sociedades e desde os mais
antigos mercadores (enícios) da antiguidade, que se organizavam em caravanas por
terra e expedições de navegadores por mares e oceanos.
132
FIGURA 21 – GLOBALIZAÇÃO
FONTE: Disponível em: <http://queconceito.com.br/wp-content/uploads/Globaliza ção.jpg>. Acesso em: 7
dez. 2017.
Alguns autores situam o enômeno no nal do século XV e ao longo do século
XVI, quando se dá início às grandes navegações que partiam do continente europeu em
direção a regiões como a América, África, Oceania e Ásia.
A globalização também é apresentada como sendo resultante das concepções e
direitos/deveres que existiam no interior da Revolução Francesa e da Revolução Industrial
inglesa do século XVIII, ao desenvolvimento do capitalismo em escala mundial, bem
como uma continuidade da lógica civilizacional que tem sido designada pormodernidade
(concentração da população nas cidades, industrialização da produção, racionalização do
pensamento, laicidade do Estado), que se acentuará ao longo do século XIX.
As possibilidades de atuação da economia, em favor dos interesses demercado,
oram potencializadas pelo espírito capitalista, que estava amparado na livre circulação
demercadorias das doutrinas do “deixe ir, deixe vir e tudo se autorregulará”. Esta órmula
e lei oram responsáveis por conerir ao sistema nanceiro a dinâmica da “oerta e da
procura” de produtos, a transitoriedade e a futuação de preços, de lucros e de taxas
de impostos, que por sua vez atribuíram ampla independência, liberdade nas relações
comerciais e na prestação de serviços.
O mercado preocupou-se, também, em perceber o potencial de consumo/
mercado, passando a intercambiar produtos entre as regiões que não eram capazes de
produzi-los. A esta prática pode-se exemplicar com os produtos ingleses e ranceses,
que eram negociados com produtos e as populações dos países indianos, americanos,
africanos.
133
Resumidamente, o mercado atendia às demandas de economia (comércio,
circulação e consumo de produtos); o Estado, por sua vez, atendia a necessidades de
serviços junto à população (serviços educacionais, inraestrutura, habitação, saúde e lazer).
A globalização, que se apresenta ao nosso momento histórico, ganhou ênfase
no nal dos anos de 1980, quando oi reconhecido o m do cenário da Guerra Fria, com
as experiências da URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e oi deseito o
muro de Berlim, que separava a Alemanha Oriental (comunista/socialista) da Alemanha
Ocidental (capitalista).
Ocorreu também a ormação da OMC: Organização Mundial do Comércio (que
conta coma adesão demais de 150 países) e os blocos econômicos daUNIÃOEUROPEIA,
NAFTA, MERCOSUL, APEC, ASEAN, entre outros. Na América Latina estruturou-se a
CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), órgão para pensar o
desenvolvimento econômico, social e sustentável. Esta articulação de países indica um
ortemovimento de regionalização das relações econômicas e políticas, assim como das
relações sociais e culturais entre os mesmos, e por sua vez, dos conceitos de fronteira,
espaço, nação, Estado, entre outros.
Ianni (1994) oi categórico quando refetiu que a ábrica global é tanto metáora
quanto realidade, altamente determinada pelas exigências da reprodução ampliada do
capital.
No âmbito da globalização, os interesses de mercado revelam-se ávidos por
processosquesejamcapazesdepromovercadavezmais a concentraçãoecentralização
do capital, para tanto articulam em torno de si empresas, mercados, forças produtivas,
centros decisórios, alianças, estratégias e planejamentos de corporações, que se
estendem e ultrapassam províncias, nações e continentes, ilhas e arquipélagos, mares
e oceanos (IANNI, 1994).
Os Estados, em vez de desaparecer, adquirem uma nova lógica de operação,
em que seu poder é limitado rente à expansão das orças transnacionais que reduzem
a capacidade dos governos de controlar os contatos entre as sociedades e os
indivíduos, por sua vez são orçados a impulsionar as relações transronteiriças. Nessa
perspectiva, os problemas políticos nem sempre são resolvidos de orma adequada e
satisfatoriamente, então, eis que se faz necessário buscar a cooperação com outras
nações e agentes não estatais a m de atender tais demandas (KEOHANE; NYE, 1989).
134
2.1 O TERCEIRO SETOR
O terceiro setor ganhou espaço de constituição e atuação a partir dos anos
de 1990. E instalou-se como alternativa em meio ao setor público/estatal (primeiro
setor) e o setor privado/industrial/mercado (segundo setor), no sentido de intermediar,
gerenciar e prestar serviços de interesse público em situações e contextos que os dois
outros setores não atingem/alcançam.
Por meio dessa formulação e composição de setores, cria-se um vácuo de
poder e ação que favorece a constituição de organizações, coletividades internacionais
e transnacionais, governamentais e não governamentais, que se propõem a apresentar
decisões políticas e ações sociais.
O terceiro setor constitui uma espécie de sociedade civil de caráter jurídico. Os
órgãos que compõem o terceiro setor podem ser sociedades, associações, fundações,
institutos, ONGs (Organismos Não Governamentais), OSCIPs (Organização da Sociedade
Civil de Interesse Público). As ONGs que compõem uma associação civil de direito privado,
sem ns lucrativos ou econômicos, encontram-se pautadas nas normas e legislações da
Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição Federal. Essas associações
recebem doações de empresas e pessoas ísicas que procuram deduzir impostos que
devem ser pagos ao governo federal, para tanto precisam atuar em atividades que se
caracterizam como: entidades de interesse público, como fundos de direitos da criança e
do adolescente; instituições de ensino e pesquisa; e atividades culturais e audiovisuais.
Entre as críticas que são eitas à modalidade, encontram-se as situações em
que se caracterizam espaços que favorecem a atuação de grupos que se utilizam de
verbas públicas em nome de grupos privilegiados.
3 GLOBALIZAÇÃO: UM BALANÇO
A globalização pode apresentar sua face mais bem-sucedida, que reside no
fato de que foi capaz de favorecer a intercomunicação entre povos e as pessoas das
mais diferentes e inusitadas regiões do planeta, diminuir as fronteiras no campo dos
transportes e promover intercâmbios nas atividades de comunicação e informações.
A formação dos grupos regionais é capaz de conferir aos seus membros uma
melhor possibilidade de negociação e barganhas no jogo das relações que se dão no
cenáriomundial. Por outro lado, quando interpretadas nas relações internas, em especial
com os membros que compõem o grupo do qual fazem parte, evidenciam-se realidades
sociais, culturais, condições de produção e capacidade de consumo desigual, de forte
dependência tecnológica e vulnerabilidades política e econômica (a exemplo disso
pode-se considerar o grupo NAFTA, que é composto pelos países: Canadá, Estados
Unidos da América e México).
135
Todavia, acabou por prevalecer o caráter de azer com que as relações políticas,
os governos, os grupos sociais e movimentos culturais fossem colocados a favor
dos interessesda economia. Acabou-se por padronizar cada vez mais os processos
de produção, os desejos de consumo, os estilos de vida e as culturas, anulando cada
vez mais as dierenças, identidades, as especicidades, as tradições locais e regionais,
qualquer tipo de fronteiras e valores morais tradicionais.
Os modelos ideais de globalização que foram postulados garantiam que os
indivíduos se abrissem a uma imensa variedade e riqueza de itens, tanto materiais
como imateriais. Munidos desses itens, a vida ganharia uma dinâmica e a criatividade
dos ares de liberdade, que por sua vez contagiariam com imensa alegria e colocariam
em movimento o ambiente cultural e intelectual dos hábitos, dos costumes, das
mentalidades de todos e a todos em toda ace da Terra (BERMAN, 1986).
A partir das formulações de produção, trabalho e economia postuladas pelos
teóricos do século XIX, gerou-se uma espécie de novomodelo antropológico de homem,
o Homo economicus, que tem como centro e modo de vida os princípios da economia,
que se revela pelos aspectos de um comportamento de individualismo exacerbado,
competição desenfreada e o consumismo sem sentido, numa espécie de busca pelo ter
e ter cada vez mais, e obtido a qualquer custo.
AUTOATIVIDADE
1 (ENADE – 2014) Com a globalização da economia social por meio das
organizações não governamentais, surgiu uma discussão do conceito
de empresa, de sua forma de concepção junto às organizações
brasileiras e de suas práticas. Cada vez mais é necessário combinar
as políticas que priorizam modernidade e competitividade com incorporação dos
setores atrasados mais intensivos de mão de obra. A respeito desta temática, avalie
as armações a seguir:
I- O terceiro setor é uma mistura dos dois setores clássicos da sociedade, o público
representado pelo Estado, e o privado representado pelo empresariado em geral.
II- É o terceiro setorqueviabiliza o acesso da sociedade à educação e ao desenvolvimento
de técnicas industriais, econômicas, nanceiras, políticas e ambientais.
III- A responsabilidade tem resultado na alteração do perl corporativo e estratégico
das empresas, que têm reormulado a cultura e a losoa que orientam as ações
institucionais.
136
Está correto o que se arma em:
a) ( ) I, apenas.
b) ( ) II, apenas.
c) ( ) I e III, apenas.
d) ( ) II e III, apenas.
e) ( ) I, II e III.
4 A POLÍTICA INTERNACIONAL
A política ganhou um caráter internacional a partir do século XVIII, quando do
surgimento do Estado Moderno, em que o sistema capitalista irá se instalar a m de
obter condições e avorecimentos para expandir seus alcances em termos de matérias-
primas, rentes de investimento e mercado consumidor. Ela pode ser identicada
ainda quando da vigência do regime de Colonialismo, que vigorou na era das grandes
navegações, quando Espanha e Portugal estabeleciam e organizavam politicamente
suas colônias de exploração nos continentes americano e aricano.
5 O ESTADO MODERNO E O LIBERALISMO
Surge no contexto em que ocorre o enraquecimento do Antigo Regime
(marcado pelas monarquias), das aristocracias, do clero, da Igreja Católica como um
todo, diante do fortalecimento crescente do Estado moderno, da burguesia comercial,
do liberalismo e do capitalismo.
O Estado moderno possuía como principal intento reestruturar os governos de
orma laica/secular, de orma a estabelecer regulação política, jurídica e institucional
das relações entre religião e política, Igreja e Estado, ou seja, conerir emancipação do
Estado e do ensino público dos poderes eclesiásticos e de toda referência e legitimação
religiosa. Nesse contexto, caberia ao Estado garantir a neutralidade emmatéria religiosa
(ou a concessão de tratamento estatal isonômico às dierentes agremiações religiosas),
a tolerância religiosa e as liberdades de consciência, de religião (incluindo a de escolher
não ter religião) e de culto (CASANOVA, 1994).
A busca por um novo/outro conjunto de valores morais, o exercício de métodos
sosticados de pensar e sentir, a racionalidade desprendida de uma matriz religiosa
dogmática, o reconhecimento da subjetividade inerente às relações humanas, a defesa
da liberdade de pensar e agir conforme uma ética particular/interiorizada, tudo isto
vai reorçar a crítica aos resquícios que ainda persistiam do mundo eudal, do Antigo
Regime e dos sistemas monárquicos que perduraram ao longo dos séculos XVII e XVIII.
137
O Estado Moderno e o Liberalismo concatenam todo um processo histórico, com
múltiplas determinações: a ideia moderna de indivíduo (que não se restringe ao ideário
liberal) e que surgiu em meio a mudanças proundas e que abrangiam as mais diversas
relações humanas, tais como religião, política, economia, trabalho, amília, ideias, artes:
tudo convergindo e reforçando mutuamente para produzi-la.
O Imperialismo que surgiu oi uma ormação de governo e política, que se
praticou muito no século XIX, e oi exercido pelos países europeus para com os países
de regiões como a África, América e Ásia, de onde obtinham matérias-primas para
empreender sua produção industrial, consolidavam relações comerciais e mercados
consumidores e exerciam infuência/dominação cultural.
6 O NEOLIBERALISMO E A TERCEIRA VIA
O neoliberalismo orjou-se a partir dos elementos já existentes no interior do
liberalismo clássico do século XVIII, porém, agora privilegiou os ideais econômicos, em
especial os princípios de liberdade de empreendimento, de propriedade e de lucro, em
detrimento das demandas/necessidades políticas e sociais (legitimidade, direitos e
serviços) dos indivíduos.
Dentre as críticas que são eitas ao neoliberalismo tem-se as políticas que
promovem a redução da intererência/regulação do Estado nas atividades econômicas/
nanceiras, permitindo o livre uncionamento do mercado, inclusive na distribuição da
riqueza; assim como na promoção de bem-estar, em prol da privatização por grupos
privados na oferta de serviços de saúde, educação, cultura, pensões, entre outros.
No contexto de política econômica, os governos deveriam atuar no sentido de
favorecer mudanças tecnológicas e a rentabilidade das empresas, favorecendo cada
vez mais o mercado livre e a redução da taxa de acumulação.
As principais experiências de governos neoliberais podem ser identicadas
com o caso da Inglaterra, sob o governo da primeira ministra Margareth Thatcher, e
dos Estados Unidos, com o presidente Ronald Reagan; do ditador Augusto Pinochet, no
Chile; e em termos de bases teóricas, a Escola de Chicago, liderada pelos economistas
Milton Friedman e George Stigler.
A ‘terceira via’ oi apresentada como alternativa rente às crises que emergiam
das políticas neoliberais, que propõe uma espécie de humanização do capitalismo,
nos aspectos do maleício do Estado neoliberal e da sociedade de livre mercado. Na
qual estariam engajados tanto dirigentes políticos de países ricos e representantes de
empresas transnacionais, que em meio às crises econômicas se dedicariam a amenizar
os impactos sociais, as injustiças, revoluções e caos, no sentido de manter a paz e
coesão social.
138
Anthony Giddens (2001), um dos principais estudiosos e deensores da ‘terceira
via’, a explica como sendo uma estratégia de âmbito mais global, a m de avorecer e
melhorar as sociedades burguesas e democráticas, uma perspectiva de que os Estados/
governos devem se reormar e a sociedade civil se qualicar/educar no sentido de os
indivíduos exercerem a cidadania para participar e decidir diante das demandas de
caráter coletivo.
Os deensores da ‘terceira via’ interpretam que grande parte dos problemas que
acometem os países pobres e subdesenvolvidos não são ruto da economia global ou
das práticas de exploração das nações ricas, e sim das condições internas das próprias
sociedades.
A terceira via pode ser observada quando partidos políticos de esquerda, ou
de cunho social, trabalhista e democrático, procuram ajustar suas políticas aos moldes
neoliberais e, por outro lado, criar modos particulares de amenizar os problemas sociais
e os riscos de degradação sociopolíticade seus países, em meio ao capitalismo que se
torna cada vez mais global e ao mercado que se faz cada vez mais onipresente, ambos
processos de pouca probabilidade de reversão.
7 TENDÊNCIAS AOS GOVERNOS E À POLÍTICA
INTERNACIONAL
Existem impasses que se abatem sobre as mais diversas nações e países do
globo, tais como governos e os sistemas políticos altamente burocratizados e quase
falidos, e incapazes de conseguirem proporcionar justiça e bem-estar social, envolvidos
em redes profundas de corrupção.
O estudioso Ladislau Dowbor procura azer uma síntese da trajetória e do perl
do conceito de governo, levando em consideração o caráter que este apresentou em
termosdeprincípiosna responsabilidadepela administração, na relaçãocomoscidadãos
e no atributo que norteia os espaços, os processos e as instâncias que compõem um
governo.
Observe com atenção o quadro a seguir, que faz as devidas distinções e
estabelece comparações e refexões.
139
QUADRO 6 – EVOLUÇÃO DO CONCEITO DE GOVERNO - LADISLAU DOWBOR
FONTE: World Public Sector Report (2005, p. 7)
ADMINISTRAÇÃO
PÚBLICA
NOVA GESTÃO
PÚBLICA
GOVERNANÇA
PARTICIPATIVA
PRINCÍPIOS
ORIENTADORES
Cumprimentode
leiseregras
Efciênciae
resultados
Responsabilidade,
transparênciae
participação
RESPONSABILIDADE
DA ADMINISTRAÇÃO
SUPERIOR
Políticos Clientes Cidadãos,atores
RELAÇÃO CIDADÃO-
ESTADO
Obediência Credenciamento Empoderamento
ATRIBUTO-CHAVE Imparcialidade Profssionalismo Participação
Estabelecendo relação com o quadro geral dos modelos econômicos que
infuenciarameconguraramossistemaspolíticos,pode-sesituarosmodelosde liberalismo
à estrutura de governo denominada de ‘administração pública’, modelo de governo que
vigorou ao longo do neoliberalismo na categoria de ‘nova gestão pública’ como que sendo
pertencente à terceira via, identicado também como ‘governança participativa’.
Nesse contexto de mudanças de modelos de Estado/governo, cada vez mais o
Estado é chamado a ampliar os investimentos em recursos humanos e infraestrutura
local, sendo de responsabilidade do Estado proteger os grupos vulneráveis e o meio
ambiente, aproximar o Estado da população, criar meios e políticas que avoreçam a
inclusão e participação efetiva dos cidadãos, reduzir as oportunidades de corrupção,
garantir estabilidade macroeconômica, avorecer parcerias entre o setor público e o
privado, gerir os processos de privatização, ortalecer redes industriais emnível nacional,
regional e internacional; apoiar as exportações, entre outros.
Acesse a página do professor da Universidade de São Paulo/USP Ladislau
Dawbor. Aprofunde seus conhecimentos sobre política, governo, economia,
tecnologia e sociedade com as dicas e sugestões de livros, artigos e lmes lá
indicados. Disponível em: <http://dowbor.org/>. Acesso em: 4 jun. 2015.
DICAS
140
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• A globalização consiste em um enômeno antigo em meio às sociedades que
procuravam intercambiar produtos, tecnologias e informações, porém, ganhou forte
impulso ao nal da década de 1980, quando ocorreu a queda do Muro de Berlim e do
m da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS).
• O enômeno da mundialização das relações nanceiras e da globalização avoreceu
alguns grupos regionais que buscam tanto favorecer como proteger os processos
industriais que existem no interior dos paísesmembros, e neste contexto os governos
desempenham papel fundamental.
• Dentre os desaos que ocorrem no interior dos grupos econômicos está a
heterogeneidade das bases produtivas, a vulnerabilidade econômica, instabilidades
políticas e a diversidade sociocultural de cada país membro.
• A terceira via consiste em uma união de representantes de órgãos políticos e
nanceiros que pretendem apresentar soluções no sentido de amenizar e humanizar
os impactos do sistema neoliberal em meio à sociedade e às populações.
• O perl de Estado/governo que se az necessário no cenário político atual é o de um
governo capaz de proteger os grupos vulneráveis e o meio ambiente, criar meios
e políticas que avoreçam a inclusão e participação eetiva dos cidadãos, reduzir a
corrupção, garantir estabilidade macroeconômica, gerir os processos de privatização,
ortalecer redes industriais em nível nacional, regional e internacional.
141
AUTOATIVIDADE
1 (ENADE – 2014) Ideais liberais e métodos democráticos vieram,
gradualmente, se combinando num modo tal que, se é verdade que
os direitos de liberdade deram início à condição necessária para
a direta aplicação das regras do jogo democrático, é igualmente
verdadeiro que, em seguida, o desenvolvimento da democracia se tornou o
principal instrumento para a defesa dos direitos de liberdade.
De acordo com a orientação teórica expressa no texto acima, avalie as armações a
seguir.
I- Liberalismo e democracia, doutrinas políticas distintas, exercem grande infuência
no ordenamento político das sociedades atuais.
II- Liberalismo e democracia são doutrinas políticas que surgiram em momentos
diferentes e convergiram para dar origem à democracia liberal.
III- Liberalismo é uma doutrina política incongruente com o ideal igualitário, que
caracteriza a tradição democrática.
É correto o que se arma em:
a) ( ) I, apenas.
b) ( ) III, apenas.
c) ( ) I e II, apenas.
d) ( ) II e III, apenas.
e) ( ) I, II e III.
142
143
RELAÇÕES DE TRABALHO
1 INTRODUÇÃO
Um indivíduo/trabalhador, consciente de si e de seu azer prossional,
geralmente pergunta-se sobre aspectos inerentes ao oício, tais como: saber azer,
técnica, matéria-prima e energia, os meios de produção, o produto, custo, margem de
lucro, jornada de trabalho, remuneração, condições de trabalho, comércio, consumo,
categoria de trabalho, reconhecimento e valor/sentido social e a realização, a satisfação/
sentido pessoal, os âmbitos e as instituições que intermedeiam seu azer prossional.
2 ORIGEM/SIGNIFICADO DA PALAVRA TRABALHO
Ao pensar e refetir sobre relações de trabalho, parece que se toca em uma
questãoqueé responsável porcausarentusiasmoe resistência aos indivíduos, aomesmo
tempo as pessoas se sentem dispostas e se dedicam a certa atividade e, por outro lado,
recuam diante das condições, regramentos e normatizações em que precisarão estar
alinhadas e adequadas. Percebe-se, também, uma espécie de um relutar diante do fato
da exploração do homem pelo próprio homem, no sentido de obter e gerar riqueza.
Conta-se com todo um processo e imaginário histórico para que isso ocorra,
no sentido de que as relações de trabalho se encontram forjadas em meio a elementos
religiosos, sociais, econômicos e políticos, e procura-se apresentar as principais
concepções e dinâmicas que o homem atribuiu ao trabalho ao longo de sua jornada
histórica, bem como as possibilidades do momento presente e vislumbrar tendências
que as relações de trabalho podem trilhar.
Albornoz (2008) apresentaqueaexpressãotrabalhocontémmuitos signicados,
tais como esorço, adiga, sorimento, labuta, castigo, realização, sacriício; que existem
muitas expressões, nas mais dierentes línguas, como labor e operare no italiano,
travailler no francês,work no inglês; bem como comporta correlações entre as mesmas,
como no caso da palavra latina arvum, que signica terreno arável, que surgiu da noção
do alemão arbeit, que signica trabalho.
Na Grécia antiga, pode ser associada à noção de poiesis, que signicava o azer,
a abricação, o que o ser humano produz tanto material: uma obra de arte executada
por um artista, escultor, ceramista; como não material: instituições sociais, reerências
culturais etc.
UNIDADE 2 TÓPICO 5 -
144
A expressão trabalho, tal como é escrita e utilizada na língua portuguesa, deriva
da expressão latina tripalium, que ao longo da Idade Média era o nome dado a um
instrumento de tortura que apresentava três paus reunidos, utilizado pelos camponeses
e servos para bater o trigo, as espigas demilho, e para desar e esapar o linho; certa vez
oi adaptado e utilizado como instrumento de tortura (ALBORNOZ,2008).
O missionário católico Raimundo Lélio (1232-1315), que atuou entre os povos
catalães no século XIII, oi o responsável por reabilitar a expressão e concepção
‘trabalho’, que oi amplamente diundida na sociedade moderna industrial e capitalista
(GANDILLAC, 1995). A concepção de trabalho também é identicada na denominação
de tripalium, que oi extraída do latim e designava um instrumento de tortura reservado
aos escravos. Lélio a substituiu pela expressão treballan, que é oriunda do idioma
catalão, que designa a habilidade em elaborar a matéria bruta, transformando-a em
obra, realização e propriedade humana, e dignicadora do próprio homem.
Labor e trabalho são expressões muito utilizadas e até sinônimos, porémArendt
(2007) nos propõe que se aça distinção entre elas. Por labor a autora relaciona o ato de
trabalhar, que está na labuta, numa lógica de estar em curso, na disposição de verbo no
gerúndio, está ocorrendo, não comporta a noção de produto nal. Por trabalho designa
as atividades feitas com as mãos, a noção de produto, trata-se de um trabalho que é
apresentado como acabado.
Os estudiosos são unânimes ao apresentar que a palavra trabalho deve ser
identicada e compreendida ainda nas sociedades ágraas (sociedade sem escrita),
quando ocorreu a passagem das atividades de caça, coleta e pesca à prática da
agricultura e na domesticação dos animais.
Durante muitos séculos, a moral e a ética do “trabalho” e da “conquista”
permaneceram, em grande parte, como um fato circunscrito ao universo rural, ao lavrar e
semear a terra, colher e armazenar alimentos, domesticar e tratar animais, construir pontes,
moinhos, celeiros, castelos, palácios, igrejas, minerais, metais preciosos, entre outros.
As concepções foram alteradas, inclusive as mais antigas, quando reunidas nos
livros da Bíblia Sagrada, em que o trabalho não émais visto como um indício damaldição
de Deus a Adão e Eva, com a expulsão do paraíso, sendo que teriam que ganhar o pão
com o suor do próprio rosto. Os gregos distinguiam entre esforço do trabalho na terra, a
fabricação do artesão que servia ao usuário, e a atividade livre do cidadão que discutia
os problemas da cidade. De modo muito semelhante na Idade Média, trabalhar com as
mãos era sinônimo de ser escravo ou servo, um indício de que o indivíduo pertencia aos
grupos inferiores da sociedade.
A partir da reforma protestante, empreendida pelo teólogo Martinho Lutero
(1483-1546), a concepção de trabalho oi proundamente reormulada no sentido de
que o trabalho, como vocação, conduziria os indivíduos à salvação da alma. João
Calvino (1509-1564), teólogo rancês, apresentava a noção de que o trabalho, o êxito
145
e a prosperidade material em vida deveriam ser compreendidos como uma forma de
conquistar a benevolência de Deus. Ambas as teorias avoreceram o contexto no qual
implantavam-se políticas de mercantilismo e capitalismo.
O sociólogo Max Weber (1864-1920) deendeu, em seus estudos, que os valores
religiosos do protestantismo avoreceram e coincidiam com o espírito do capitalismo, no
sentido de que superavam a moral católica de renúncia ao mundo material, do acúmulo
de bens nanceiros e ao lucro, na vida religiosa de devoção contemplativa e de renúncia
ao mundo material.
A noção de vocação para o trabalho foi associada também à ideia de amor
ao próximo, e quanto mais intensa a atividade prossional, maior a aproximação da
salvação. Por outro lado, a falta de vontade de trabalhar passou a ser compreendida
como ausência do estado de graça e do não merecimento da salvação de Deus. Assim,
estava autorizado que todo indivíduo empreendesse a busca pela riqueza material,
podendo realizar grandes ações e assim galgar sua própria salvação.
Uma das principais alterações que a modernidade realizou foi a de apropriar-se
da concepção positiva de trabalho e mudar o ambiente de realização do mesmo, que
do interior das casas ou no interior das corporações de oício passou a ser realizado em
cidades, no interior dos espaços das fábricas.
Foi nesta época que surgiram as noções de divisão de trabalho, na qual cada
indivíduo, com a ração/parte que desempenha, na sua especialidade, contribui à soma
de trabalho coletivo, que por sua vez gera a riqueza de cada nação, o que se tornaria
uma espécie de consciência e interesse coletivo e comum a todo indivíduo. É nesse
momento que a mudança de percepção da noção de trabalho passa a ocorrer, no
sentido de que as pessoas passam a trabalhar para poder consumir, e não mais para
produzir algo.
A partir do século XVIII, os economistas Adam Smith (1723-1790) e David
Ricardo (1772-1823) reorçam os valores de atividades produtivas e de riqueza material,
e defendem que o trabalho é o grande responsável pela riqueza social, o que por sua
vez supervalorizou a ideia de homem operário, Homo economicus, que produz riqueza,
que contribui para que o sistema econômico continue a alcançar seus objetivos e
lançar novas possibilidades de investimentos e lucratividade. Foi nesse contexto que o
estudioso alemão Karl Marx (1818-1883) deendeu que a essência do homemé o trabalho
e não a sua vida espiritual. Passou a observar mais de perto a relação do homem e do
trabalho, ao ponto de analisar dimensões peculiares e subjetivas da relação do homem
com o trabalho e a mercadoria, e se engajar ativamente em azer o processo de crítica
e denúncia das contradições que envolviam trabalhadores, proprietários dos meios de
produção e burgueses comerciantes, abrangendo o sistema capitalista como um todo.
146
No entanto, a perspectiva de Marx era a de que o exercício crítico, através
da intelectualidade, não era suciente, para ele o mundo não se transorma com o
pensamento e leis, o mundo deveria ser transormado pela práxis, na organização
dos trabalhadores e na realização de atos revolucionários. A divisão do trabalho era
responsável pela alienação do homem na sociedade capitalista, que por sua vez se
revelava em face à perda da totalidade e da dignidade humana. Caberia ao proletariado a
responsabilidade pelo ato de fazer a revolução e transformar a sociedade, tomar o poder
e abolir a relação capitalista de produção. Em meio ao campo de luta e revoluções, os
trabalhadores deveriam estar conscientes de si e de sua classe/categoria e empreender
as revoluções que ossem necessárias a m de desazer o quadro de desigualdade,
injustiças e exploração que o trabalho avorecia. Marx deendia a superação do sistema
capitalista pelo comunismo, numa espécie de sociedade associativa em que o livre
desenvolvimento individual seria a condição do livre desenvolvimento de todos (MARX;
ENGELS, 2010).
Segundo Abbagnano (2000), a relação do trabalho com a existência humana
passa a ser lugar-comum na cultura contemporânea. Mesmo ora do âmbito marxista, o
caráter penoso atribuído ao trabalho não é atribuído ao trabalho em si, mas às condições
sociais em que ele é realizado nas sociedades industriais.
O trabalho passa a ser visto como parte fundamental da natureza humana. O
trabalho é ainda hoje visto como um valor social, sendo o trabalhador um personagem
social merecedor de respeito, admiração e dignidade pelas obras que faz a si, a seus
familiares e semelhantes.
A nova concepção que oi atribuída ao trabalho combina com os valores das
mudançasno interiorda fabricaçãodeprodutos. Ohomem, reconhecendoqueo trabalho
não era mais motivo de sofrimento e castigo, mas sim uma atividade que o tornaria
socialmente reconhecido, sentiu-se motivado e disposto a se dedicar e doar a m de
preencher as oportunidades e a demanda da manufatura e indústria nascente, bem
como o campo das invenções de máquinas e técnicas e o próprio sistema capitalista,
que estavam exigindo.
Trabalho, geralmente, pode ser denido como atividade coordenada de caráter
ísicoou intelectual, necessáriaaqualquertarea, serviçoouempreendimento,ocupação,
oício, exercício de prossão. Um aspecto que distingue o trabalho humano do trabalho
dos outros animais está no ato de que o trabalho e esorço humanos são atribuídos
àintencionalidade, além da operação instintiva e programada que é reconhecida nas
atividades dos animais. No homem é percebido o grau de especialização, complexidade,
tanto das atividades, como dos meios dos quais ele se utiliza para realizar o trabalho.
A produção artesanal, produção familiar em espaços domésticos ou pequenas
ocinas, como alaiates, ceramistas, sapatarias, na qual importa azer um bom trabalho,
umproduto único, commaestria e arte de fazê-lo. O trabalhador encontrava-se livre para
147
organizar seu trabalho, a seleção de sua matéria-prima, o começo, a forma, a técnica, o
ritmo, os detalhes, o acabamento, a entrega. Não ocorre a distinção de trabalho e lazer,
divertimento e cultura, ambos se fundem.
A Europa viveu seu momento de desenvolvimento industrial ainda no século
XIX, na América Latina ocorreu somente na segunda metade do século XX, realidades
nas quais o processo de aprimoramento da produção acabou por se modicar, não
seguindo a lógica de fases e processos que ocorreram na Europa. O quadro industrial
dessa região apresenta-se ora como que ainda na segunda revolução industrial, e ora
na produção que se utiliza de tecnologia de ponta e robotização, em especial a migração
e empregabilidade no setor de serviços. Ao mesmo tempo, encontram-se inúmeros
desaos em termos de dependência em relação a tecnologias e desigualdades no que
diz respeito ao acesso ao emprego.
NoséculoXIX, pode-sefalarqueaproduçãocapitalista, que introduziuamáquina
a vapor e a modernização dosmétodos de produção, desintegrou costumes e introduziu
novas formas de organização da vida social. A transição da produção artesanal para a
manuatureira e desta para a produção abril, a migração do campo para a cidade; o m
da servidão; o desmantelamento da amília patriarcal; a introdução do trabalho eminino
e infantil.
A individualização da produção, a programação das atividades, linhas de
montagem,produçãoemsérie eoconsumoemmassa (ordismoetaylorismo) almejavam
articular o acesso a matérias-primas, à mão de obra, ao fácil escoamento da produção e
obter maiores margens de lucros entre os custos e a comercialização da produção, que
por sua vez acarretam deslocamentos que desperdiçavam tempo signicativo na vida
dos trabalhadores, além da produção de poluição e impactos ao meio ambiente.
A maquinização e a mecanização da produção conferiram ao trabalhador
a percepção da perda do saber fazer, a perda da noção de produtor. Diante disso, o
trabalhador se sentiu pressionado a se adaptar para poder operar as máquinas
que estavam sendo introduzidas nos espaços de trabalho. A separação, divisão
e especialização da produção zeram com que o produtor não conseguisse mais
reconhecer a totalidade do produto depois de pronto. Mudanças da concentração da
população em relação às atividades econômicas e oportunidades de trabalho, assim
como o trabalho na indústria, acabaram por concentrar a população em determinadas
regiões e cidades, tornando-as superpovoadas.
O que Marx procurou denir como ‘alienação’ encontrava-se nascente nesses
processos, e depois poderia ainda ser vericada em situações como a do consumo dos
produtos que estavam sendo produzidos/consumidos, no contexto industrial em que a
produção se dava em grande escala e para consumo em massa. Trabalhadores como
alaiates, costureiras, sapateiros, eram os testemunhosmais expressivos desse processo.
148
Diante da refexão de Arendt (2007), podemos armar que, desde o século XIX,
o Homo faber oi perdendo sua aura e passou a ser valorizado o “princípio da elicidade”.
De ato, o progresso da civilização não produziu uma sociedade de indivíduos políticos
ou de trabalhadores que amam seu oício, e sim uma sociedade de consumidores, de
indivíduos isolados e desenraizados, uma cultura de massa imersa em utilidade. E a
construção da identidade deixou de ser pautada em atividades criativas e produtivas, à
medida que o trabalho se tornou apenas ummeio de satisfazer necessidades ou desejos
de consumo.
3 AS MULHERES NO CONTEXTO DA REVOLUÇÃO
INDUSTRIAL
As mulheres participaram da produção de utensílios, alimentos e mercadorias
desde os tempos mais remotos, que envolviam desde as atividades no interior da casa,
amília e comunidade. A alimentação, o artesanato e a educação das crianças oram
inseridos no interior dos espaços de trabalho com fortes projetos a partir da Revolução
Industrial. Osmaiores problemas surgem quando asmulheres passam a ser empregadas
no interior das indústrias modernas, em meio a longas jornadas de trabalho, com a
presença de maquinários, em que os salários pagos às mulheres eram inferiores.
A gradual introdução das mulheres no campo de trabalho favoreceu amudança
de hábitos e costumes por parte dasmesmas. O fato de trabalhar no interior das fábricas
exigia novos comportamentos, posturas e até uma indumentária que avorecesse a
realização das atividades e evitasse possíveis acidentes de trabalho. Os vestidos longos
e rodados, os chapéus e demais acessórios ofereciam risco de acidentes se usados nos
espaços de trabalho em meio às máquinas.
As roupas que deveriam ser usadas no interior das indústrias precisavam ser
justas, retas e que cobrissem o corpo o máximo possível. A condição e imposição
do meio de trabalho foram responsáveis por depreciar a feminilidade, fragilidade e
sensibilidade damulher e avorecer uma postura rígida, tenaz e ereta. Foi neste contexto
que a estilista rancesa Coco Chanel (1883-1971) começa a projetar roupas com design
mais favorável às atividades no interior das fábricas e empresas, nas quais se destacam
cortes e precisão geométrica das roupas e modelos ajustados ao corpo, ausentes de
babados, volumes, acessórios, entre outros.
149
1º de Maio: Dia do Trabalhador, Dia do Trabalho ou Dia Internacional
dos Trabalhadores
Esta data, que é comemorada em diversos países, como Brasil,
Portugal, Austrália, Angola, França, Suécia, Moçambique, é resultante
de uma greve geral de trabalhadores que ocorreu no ano de 1886,
no interior de Chicago, nos Estados Unidos da América. A paralisação
foi responsável por envolver diversos parques industriais da cidade.
Dentre as causas da paralisação encontrava-se a redução da jornada de
trabalho. A presença dosmanifestantes na rua se estendeu por diversos
dias e acabou por ser reprimida com violência pelas tropas do governo,
causando inúmeras mortes.
ATENÇÃO
A partir dos anos de 1990 o toyotismo, idealizado pelo engenheiro-mecânico
Taiichi Ohno (1912-1990), tornou-se tendência no interior dos sistemas produtivos.
Esse rearranjo produtivo apresenta, como princípios, a otimização da produção em
todas as ases e a integração de todos os setores no interior dos espaços produtivos;
no campo deliberativo requer a descentralização da tomada de decisões; produção de
itens dierenciados; ormação de alianças e redes de atividades empresariais; por parte
dos indivíduos requer trabalho em equipe, proporciona a participação nos resultados,
subcontratação e exige qualicação constante.
4 O TRABALHO NOS TEMPOS CONTEMPORÂNEOS
O homem contemporâneo possui uma relação com o trabalho, que foi instaurada
aindano século XIX equeganhoudesenvolvimento e aprofundamento ao longodo século
XX. Trata-se da produção industrial, tecnológica e a prestação de serviços no interior de
grandes cidades. O espaço primordial de realização dos indivíduos torna-se o espaço no
interior das cidades, os espaços das indústrias e o âmbito público das relações.
A era industrial deixou de cumprir sua ‘grande promessa’: abulosas realizações
materiais e intelectuais. O sonho de sermos senhores independentes de nossas vidas
terminou quando despertamos para o ato de que todos nos tornamos peças ínmas da
máquina burocrática, com nossos pensamentos, sentimentos e gostos manipulados pelo
governo, pela indústria e pelas comunicações demassa que controlam tudo (FROMM, 1987).
Uma das questões cruciais de tal processo diz respeito à passagem do regime
ordista (século XIX) ao regime chamado de produção toyotista. A técnica tornoucada
vez mais fragmentado o processo de trabalho e, consequentemente, independente dos
indivíduos, bem como aleatório com quem o az, em que já não importa como cada
um o az; importa sim que cada indivíduo mantenha-se submetido ao todo, mantenha
os laços, as passagens, o fuxo do processo, com o mínimo de intererência criativa,
inovação que possa tornar os fuxos ainda mais ecientes.
150
Trabalhar emumamesmaempresa pormuitos anos, serhomenageado e receber
condecorações de três, cinco, dez, 15, 20 anos de empresa, faz parte da geração anterior
à qual nos encontramos e que tende a se tornar cada vez mais raro. Especialmente no
ramo do terceiro setor.
No interior das grandes organizações descortinam-se tendências à rotatividade,
à terceirização, cooperativas de trabalho, atividades autônomas, grupos de voluntariado,
economia solidária, entre outras. No panorama atual de sistemas de governos, grupos
empresariais e relações de trabalho, cadencia-se a internacionalização dos processos
de produção e comercialização e a mercantilização/nanceirização das relações
econômicas e sociais, no sentido de que reorçam o sistema capitalista e o poder do
mercado, dimensões em que a noção de competição e propriedade prevalecem como
moral e nalidade última, o que por sua vez acaba por ragilizar as estruturas de Estado,
as relações sociais e culturais entre os indivíduos.
A tecnologia da informação, a descoberta e desenvolvimento de novos
materiais, as mudanças e oscilações nas estruturas de mercado e a capacidade de
competitividade e as relações intra e interpessoais parecem ser os elementos que mais
permeiam as relações de trabalho. No interior dessas novas tendências identica-se a
busca dos indivíduos em vivenciar experiências que aliem trabalho, moradia, realização
de projetos pessoais, formação continuada, vivências familiares, sociais e de lazer.
4.1 AS POSSIBILIDADES DO TRABALHO INFORMAL
O trabalho inormal é o que ocorre nas experiências de trabalho artesanal e
prestação de serviços, em que envolve intensa dedicação de mão de obra, de caráter
temporário, geralmente apresenta pouco montante de capital envolvido e acaba
apresentando acordos à parte das legislações trabalhistas; o que por sua vez acaba
não concorrendo como linhas de nanciamentos, seja de bancos ou governos; como
exemplo, pode-se relacionar as práticas de trabalho no ramo do vestuário e alimentação.
Comoeconomia solidária, pode-se entender as atividades que ocorremde forma
coletiva e em estruturas suprafamiliares, articuladas em associações, cooperativas,
empresas autogestadas, grupos de produção, clubes de trocas etc., cujos participantes
tanto podem ser trabalhadores dos meios urbano e rural.
Os envolvidos nas atividades de economia solidária exercem orte controle e
gerenciamento das atividades e dos resultados. Realizam atividades econômicas de
produção de bens, de prestação de serviços, de undos de crédito (cooperativas de
crédito e os undos rotativos populares), de comercialização (compra, venda e troca de
insumos, produtos e serviços) e de consumo solidário. As atividades econômicas devem
ser permanentes ou principais, ou seja, a razão de ser da organização.
151
4.2 RELAÇÕES DE TRABALHO E OS PROCESSOS LEGAIS NO
BRASIL
O trabalho livre e assalariado ganhou espaço após a abolição da escravidão
aplicada aos trabalhadores negros no Brasil em 1888 e com a gradual vinda dos
imigrantes europeus. As condições impostas eram ruins, acabaram por gerar no interior
do país as primeiras discussões sobre leis trabalhistas. Os imigrantes traziam consigo a
experiência do movimento operário e sindical no interior dos países europeus, o que por
sua vez avoreceu a estruturação de organizações de trabalhadores, círculos operários,
sindicatos e demais frentes de representação.
No nal do século XIX surgem as primeiras normas trabalhistas, por meio do
Decreto nº 1.313, de 1891, que regulamentou o trabalho dos menores de 12 a 18 anos. Em
1912, oi undada a Conederação Brasileira do Trabalho (CBT), durante o 4º Congresso
Operário Brasileiro. Dentre as causas defendidas pela Confederação estavam: a jornada
de trabalho de oito horas, xação do salário-mínimo, indenização para acidentes,
contratos coletivos ao invés de individuais.
No cenário internacional do pós-1ª Guerra Mundial, em 1919, surge a Organização
InternacionaldoTrabalho (OIT), órgão internacionalqueporsuavez impulsionoua ormação
de um Direito do Trabalho. O surgimento deste órgão, naquele momento histórico, visava
intermediar o confito entre o capital e o trabalho, e que era visto como uma das principais
causas dos desajustes sociais e econômicos, inclusive motivadores de guerras.
Caro estudante, procure saber mais sobre a atuação da Organização
Internacional do Trabalho-OIT. Trata-se do órgão responsável pelas
convenções e recomendações que norteiam as questões relacionadas
ao trabalho em nível internacional.
Disponível em: <http://www.oitbrasil.org.br/content/apresenta%C3%A7%-
C3%A3o>. Acesso em: 3 jun. 2015.
DICAS
A política trabalhista brasileira se consolida, de ato, após a Revolução de 30,
quando Getúlio Vargas cria o Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio. A Constituição
de 1934 foi a primeira a tratar de Justiça do Trabalho e Direito do Trabalho, assegurando a
liberdade sindical, salário-mínimo, jornada de oito horas, repouso semanal, érias anuais
remuneradas, proteção do trabalho feminino e infantil e igualdade salarial.
152
Conheça o site do Ministério do Trabalho e Emprego - MTE. Lá você encontrará
resoluções sobre o funcionamento das centrais sindicais, leis e convenções ao
exercício das prossões, orientações sobre os trâmites contratuais e demissionais,
seguro-desemprego, trabalho temporário, políticas de microcrédito, trabalho de-
cente, entre outros.
MTE. Ministério do Trabalho e Emprego. Disponível em: <http://portal.mte.gov.br/
portal-mte/>. Acesso em: 3 jun. 2015.
DICAS
NoBrasil de 1964, comogolpemilitar e a instalação da ditadura, ocorreram fortes
medidas de repressão à classe trabalhadora, com o Decreto nº 4.330, as intervenções
atingiram sindicatos em todo o Brasil. Este decreto é conhecido como a lei antigreve,
que impôs tantas regras para realizar uma greve que, na prática, elas caram proibidas.
Depois de anos sofrendo cassações, prisões, torturas e assassinatos, em 1970
um novo movimento sindicalista se reestrutura no interior do Estado de São Paulo, no
chamado ABCD paulista. No ano de 1978 ocorre uma grande greve em São Bernardo do
Campo (SP) e que ganhou aderência de trabalhadores de todo o país.
Após o m da ditadura militar, em 1985, e em meio às mudanças no cenário
econômico,comapromulgaçãodaConstituiçãode1988,asconquistasdostrabalhadores
oram restabelecidas; por exemplo, a Lei nº 7.783/89, que restabelecia o direito de greve
e a livre associação sindical e prossional, a aposentadoria rural; Fundo de Amparo ao
Trabalhador (FAT); Beneício de Prestação Continuada (BPC); Programa de Erradicação
do Trabalho Inantil (PETI); bolsa escola e, ulteriormente, bolsa amília, entre outros.
153
ATERCEIRIZAÇÃO DE POSTOS DETRABALHO
Grupos de empresários e empregadores apresentam argumentos no sentido
de que a geração de emprego formal, e até a abertura de empresas, no Brasil, são
dicultadas diante dos custos que as leis trabalhistas acabam acarretando. Alegam que
em torno de 67% do salário consiste em tributos, que são pagos ao governo, que procura
atender a leis de descanso remunerado, 13º salário, FGTS, adicionais em casos de horas
extras, insalubridade e trabalho noturno. E diante deste cenário é que ganham espaço
as ideias de terceirização no interior dos postos de trabalho.
Terceirização é o processo pelo qual uma empresa deixa de executar uma ou
mais atividades realizadas por trabalhadores diretamente contratados e as transferem
para outra empresa. A terceirização se realiza de duas ormas, não excludentes. Na
primeira, a empresa deixa de produzir bens ou serviços utilizados em sua produção
e passa a comprá-los de outra– ou outras empresas –, o que provoca a desativação,
parcial ou total, de setores que anteriormente funcionavam no interior da empresa.
A outra orma é a contratação de uma ou mais empresas para executar, dentro
da “empresa-mãe”, tarefas anteriormente realizadas por trabalhadores contratados
diretamente. Essa segunda forma de terceirização pode referir-se tanto a atividades-
m como a atividades-meio. Entre as últimas podem estar, por exemplo, limpeza,
vigilância, alimentação. Tem-se observado também que vem ocorrendo o processo de
quarteirização, a contratação de uma empresa pela empresa-mãe, que deverá gerir as
relações com o conjunto das empresas terceiras contratadas no interior da mesma.
O processo de terceirização da produção e da prestação de serviços no Brasil, e
emquasetodosospaísescapitalistas,desenvolveu-secomopartedorearranjoprodutivo,
iniciado na década de 70 do século XX, a partir da terceira Revolução Industrial, e que se
prolonga até os dias de hoje. São mudanças importantes na organização da produção e
do trabalho e, no caso especíco da terceirização, na relação entre empresas.
A adoção deste processo oi intensicada e disseminada no âmbito da
reestruturação produtiva que marcou os anos 90. A partir do ano 2000, a economia
brasileira iniciou um lento processo de recuperação, com taxas de crescimento positivas,
porémocenário domercadodetrabalho já éodadifusãogeneralizadadaterceirizaçãoda
mão de obra. Se, inicialmente, as empresas precisaram enxugar os custos para garantir
sua sobrevivência, o processo de terceirização não apresentou retrocesso diante da
melhora do cenário econômico, tendo permanecido como um elemento undamental da
mudança do processo produtivo e do mercado de trabalho brasileiros.
LEITURA
COMPLEMENTAR
154
Em nível internacional destaca-se que as atividades mais atingidas pela
terceirização, em suas diferentes formas, são aquelas próprias da Tecnologia da
Inormação (TI), o que inclui o trabalho de programadores, de processamento de dados
e de desenvolvimento de softwares. O avanço rápido e constante nesses processos
tecnológicos acilita a troca de dados, a execução de projetos e a entrega de produtos,
independentemente do local onde o trabalho é executado.
A maior preocupação constatada a partir das fontes de informação sobre os
Estados Unidos é a possibilidade de demissão em massa de trabalhadores americanos
qualicados emdecorrência de processos de terceirização nos quais as contratantes são
empresas americanas. Nesse caso, o mais comum tem sido a adoção do international
outsourcing (compradocomponenteouserviçoemoutropaís), dooshoring (realocação
da empresa em outro país) ou ainda do on-site oshoring (contratação de trabalhadores
estrangeiros imigrantes ou de trabalhadores em seus países de origem). Os países
europeus, quando comparados com os Estados Unidos, demandam menos serviços
terceirizados e adotam algumas barreiras culturais que dicultam a transerência de
atividades de um país para outro.
Dentre os setores mais vulneráveis à terceirização no continente, tem-se que
a maioria está relacionada à área de TI, que atuam nos ramos de desenvolvimento
de softwares, processamento de dados, vendas, serviços de atendimento ao cliente,
pesquisa, desenvolvimento e designs, nanças, recursos humanos e gerenciamento.
Estima-se que os trabalhadores indianos da área de computação, por exemplo, recebam
entre 1/5 e 1/10 do que é pago a um americano pela mesma função.
No Brasil os ramos de atividades que mais registram processos de terceirização
são o setor público, no interior das unidades de governo, o setornanceiro, como bancos,
os setores elétrico, químico, de petróleo e petroquímico e da construção civil.
Diantedas ormasmais explícitasdeprecarizaçãodascondiçõesdetrabalhoede
vulnerabilidade da condição do trabalhador que resultam dos processos de privatização,
tem-se um novo relacionamento sindical entre empregador e empregado, que aponta
a desmobilização dos trabalhadores para reivindicações e greves, eliminação das ações
sindicais e trabalhistas que reclamam pelos direitos sociais.
Texto adaptado deDIEESE. Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos
Socioeconômicos. O processo de terceirização e seus eeitos sobre os trabalhadores no
Brasil. Convênio SE/MTE nº 04/2003, Processo nº 46010.001819/2003-27.
FONTE: Disponível em: <http://portal.mte.gov.br/data/les/FF8080812BA5F4B7012BAAF91A9E060F/
Prod03_2007.pdf>. Acesso em: 2 jun. 2015.
155
RESUMO DO TÓPICO 5
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• A palavra trabalho tem origem nas práticas e atividades das mais antigas sociedades,
comporta muitas diferenças de escrita, em especial na forma como as sociedades
concebiam e ao valor moral que atribuíram à mesma.
• No interior da forma de produção artesanal o trabalhador detém o conhecimento de
todas as fases de produção, pode atender à vontade pessoal de quem procura pelo
produto, o produto consiste em um exemplar único e o artesão acompanha também
o processo de comercialização do produto.
• No interior do processo de produção de forma manufaturada se dá a especialização
e divisão de funções, a produção passa a ocorrer fora do local de moradia dos
responsáveis pela produção, o que por sua vez favorece os primórdios das grandes
indústrias.
• No interior dos modos organização industrial do século XVIII e XIX prevaleceram os
modelos ordista e taylorista, que se caracterizam pelo perl de produção organizada
em linhas de produções, em série e consumo em grande escala, e obedecem à
organização e administração cientíca.
• O toyotismo consiste numa orma de organização no interior de empresas e processos
produtivos que contempla a descentralização do poder e formação de redes de
trabalho, a dierenciação da produção, orte controle da produção e qualicação
constante dos trabalhadores.
• A terceirização pode ocorrer de diferentes formas: pela contratação de uma empresa
que subcontrata trabalhadores para exercer unções no interior de uma empresa-
mãe, como também quando uma empresa passa a comprar parte dos processos e
dos produtos de outra empresa para compor o seu produto nal.
156
AUTOATIVIDADE
1 Karl Marx (1818-1883), pensador alemão que se dedicava a denunciar
as contradições no interior do sistema capitalista, ao longo de sua
vida precisou mudar-se por diversas vezes de país, pois o teor de
suas ideias acabava por lhe render inimigos de orte infuência
e poder político. Além disso, também passou por problemas com renda, sendo
socorrido pelo amigo e colega/escritor F. Engels. Pergunta-se: no que consistiam
as principais ideias e teorias de Marx?
2 (ENADE – 2014) O debate sociológico acerca das novas relações de
trabalho e consumo no capitalismo se intensicou desde a segunda
metade do século XX, especialmente a partir de um novo modelo de
acumulação, marcado pela “fexibilização dos processos produtivos”.
Como aponta David Harvey a este respeito, a acumulação fexível “é marcada por
um conronto direto com a rigidez do ordismo. Ela se apoia na fexibilidade dos
processos de trabalho, dos mercados de trabalho, dos produtos e dos padrões de
consumo”. E, ainda, mais importante do que isso é a redução aparente do emprego
regular, em favor do crescente uso do trabalho em tempo parcial, temporário ou
subcontratado.
I- A ideia principal estava em explicar, denunciar e combater as contradições que
estavam disarçadas e camufadas no interior do regime comunista.
II- Argumentava que a divisão do trabalho era responsável por alienar o trabalhador,
assim como, por lhe extorquir a sua dignidade.
III- Deendia que estaria única e exclusivamente nas mãos do proletariado conduzir a
revolução que substituiria o capitalismo pelo comunismo.
IV- As teorias de Marx apresentavam que o proletariado deveria azer a revolução e
transformar a sociedade, tomar o poder e abolir a relação capitalista de produção.
Agora, assinale a alternativa correta:
a) ( ) As sentenças I, II e III estão corretas.
b) ( ) Somente as sentenças III eIV estão corretas.
c) ( ) Somente as sentenças II e III estão corretas.
d) ( ) As alternativas II, III e IV estão corretas.
FONTE: HARVEY, D. A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 1992.
157
De acordo com a armação acima, a acumulação fexível:
I- Gerou cada vez mais trabalho especializado, responsável pelo aumento da
racionalidade do processo produtivo.
II- Pode ser considerada uma expansão do princípio ordista de produção.
III- Aumentou a precarização das relações de trabalho no capitalismo contemporâneo.
IV- Implica crescente heterogeneidade dos mercados de trabalho e dos padrões de
consumo.
É correto apenas o que se arma em:
a) ( ) I e II.
b) ( ) I e III.
c) ( ) II e III.
d) ( ) II e IV.
e) ( ) III e IV.
158
159
POLÍTICAS PÚBLICAS
UNIDADE 3 —
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
PLANO DE ESTUDOS
Apartir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de:
• conhecer e analisar as principais características das políticas públicas do Brasil;
• refetir sobre a organização do sistema educacional brasileiro;
• caracterizar os pilares de alicerce do desenvolvimento sustentável;
• refetir sobre o contexto de desenvolvimento sustentável;
• retratar as erramentas de gestão socioambiental para a sustentabilidade;
• conhecer as ações nacionais de segurança e deesa pública;
• refetir sobre como o aumento populacional e o avanço tecnológico impactam sobre os ecos-
sistemas;
• perceber a importância do sistema de transportes no desenvolvimento econômico do país;
• conhecer as políticas nacionais para a habitação e o saneamento;
• identicar os modos de vida urbano e rural, sua organização social, semelhanças e dierenças
e sua interdependência;
• destacar as características que identicam o meio urbano e o meio rural.
Esta unidade está dividida em sete tópicos. No decorrer dela, você encontrará autoati-
vidades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado.
TÓPICO 1 – POLÍTICAS PÚBLICAS: EDUCAÇÃO
TÓPICO 2 – POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE
TÓPICO 3 – HABITAÇÃO E SANEAMENTO
TÓPICO 4 – TRANSPORTES E SEGURANÇA
TÓPICO 5 – POLÍTICAS PÚBLICAS DE SEGURANÇA EM ÂMBITO NACIONAL
TÓPICO 6 – VIDA RURAL, URBANA E ECOLOGIA
TÓPICO 7 – MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL
Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure
um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações.
CHAMADA
160
CONFIRA
A TRILHA DA
UNIDADE 3!
Acesse o
QRCode abaixo:
161
TÓPICO 1 —
POLÍTICAS PÚBLICAS: EDUCAÇÃO
UNIDADE 3
1 INTRODUÇÃO
Quando alamos em políticas públicas, estamos nos reerindo aos direitos e
deveres do Estado para com as pessoas que compõem a sociedade e, assim como o
Estado, gozam de seus direitos civis e políticos. Estamos também sujeitos ao conjunto
de normas jurídicas e sociais, ormando assim ummarco regulatório previamente xado
no que diz respeito à distribuição harmônica dos elementos que ormam os direitos,
deveres e responsabilidades em prol do desenvolvimento educacional, econômico e
social. A vida em sociedade está ligada à política e não há ação social sem ação política,
quer seja promovida pelo Estado ou pela sociedade (RAMOS, 2014).
2 POLÍTICA PÚBLICA ATUAL
O termo política possui várias denições, as quais denotam a organização e o
estudo das ações a serem realizadas para o bem-estar da população. Percebemos que
a política é algo complexo, mas que se bem administrado ou exercido, poderá ter eeitos
positivos junto à população.
Asprimeiras refexões sobre o que é política surgiramnaGrécia antiga,
com os lósoos, a quem eram atribuídos os dons do pensamento,
das ideias e, consequentemente, do conhecimento.
Pode-se citar Sócrates e dois de seus principais sucessores, Platão
e Aristóteles, como sendo os primeiros a tratarem das questões da
ética e da política. A Grécia era considerada o berço da democracia,
ainda que nemtodos os seus iluminadosviamnomodelo democrático
a melhor maneira de conduzir o povo. Ao aproximar-se das leituras
sobre a vida e obra desses pensadores, percebe-se, por conclusão,
que para eles a solução para os problemas da sociedade deve
passar, necessariamente, pela educação. Passados mais de dois
mil anos, continua-se lutando pelos mesmos direitos à igualdade
e combatendo-se os mesmos problemas relacionados à ética e à
moral, sem as quais não se exercita a verdadeira política (RAMOS,
2014, p. 9).
Portanto, “o cotidiano (político) é construído por aqueles que interagem nesse
contexto. Fazer política é interagir nos acontecimentos e participar criticamente da sua
história” (RAMOS, 2014, p. 9).
“A política sempre está ligada ao exercício do poder em sociedade, seja em nível
individual, quandosetratadasaçõesdecomando, seja emnível coletivo, quandoumgrupo
(ou toda sociedade) exerce o controle das relações de poder emuma sociedade” (SANTOS,
162
2012, p. 2). Assim, as políticas públicas são de responsabilidade do Estado, com base em
organismos políticos e entidades da sociedade civil, que derivam de normatizações, ou
seja, se estabelece um processo de tomada de decisões – nossa legislação. Ao iniciarmos
nossos estudos sobre a organização da educação no Brasil, precisamos ter em mente
que a educação é intencional, principalmente no que diz respeito ao sistema escolar. Os
atores que permitem discussões sobre um determinado problema da sociedade são: a
sociedade civil organizada; os servidores públicos e os políticos.
As etapas ou ases do processo da política distinguem-se de acordo
com o entendimento de cada autor, mas comumente podem se
classicar como:
• Identicação do problema: é a primeira etapa e consiste na
identicação, ou levantamento do problema a ser considerado
como oco da política pública.
• Agenda: é a etapa em que se denem os ocos de atuação do
governo. É o conjunto de problemas e demandas que comporão o
plano de ação. A formação da Agenda de Governo consiste numa
fase tumultuada e competitiva, com os envolvidos dedicados na
conquista de espaço para os interesses que defendem.
• Tomada de decisão: adoção da política, em consenso (de comum
acordo), as partes decidem sobre os diversos aspectos, ou ocos,
que a política abrangerá.
• Implementação: é a etapa em que as decisões deixam de ser
intenções e passam a ser intervenções na realidade.
• Monitoramento,Avaliação,Ajustes:sãoetapasdeacompanhamento
do processo de ormulação/elaboração da política, oerecendo
inormações para possíveis ajustes na direção dos resultados
esperados (RAMOS, 2014, p. 14-15).
Com base nesses argumentos, a educação no contexto brasileiro está prevista,
é regida (legislada) por normas jurídicas que compelem os cidadãos e o poder público a
cumpri-las. De acordo com Motta (1997, p. 75), a educação é a:
[...] manifestação cultural que, de maneira sistemática e intencional,
orma e desenvolve o ser humano. [...] A educação é a ação exercida
pelas gerações adultas sobre as gerações que não se encontram
ainda preparadas para a vida social; tem por objetivo suscitar e
desenvolver na criança certo número de estados ísicos, intelectuais
e morais reclamados pela sociedade política no seu conjunto e pelo
meio especial que a criança, particularmente, se destina.
Estes princípios e ns aparecem no texto da Constituição Federal de 1988 e
posteriormente são rearmados na Lei de Diretrizes e Bases - LDB, Lei 9.394, de 20 de
dezembro de 1996, direcionando a educação brasileira, e que em seu Art. 2˚ trata “Dos
Princípios e Fins da Educação Nacional” (BRASIL, 1996).
Desta forma, a LDB 9.394/96 regulamentou o que foi tratado sobre educação
na Constituição Federal abordando a educação escolar. O Título V trata dos Níveis e
das Modalidades de Educação e Ensino; em seu Capítulo I, demonstra a composição
dos níveis escolares, ormada pela Educação Básica; Educação de Jovens e Adultos;
Educação Prossional; Educação Superior e Educação Especial.
163
Educação Básica é formada de três etapas: Educação Infantil, Ensino
Fundamental e Ensino Médio. Conorme a LDB, são nalidades
da Educação Básica ‘[...] desenvolver o educando,assegurar-lhe
a ormação comum indispensável para o exercício da cidadania
e fornecer-lhe meios para progredir no trabalho e em estudos
posteriores’ (art. 22).
As modalidades importam em atendimentos afeitos a peculiaridades
que podem dizer respeito a uma população especíca ou a objetivos
de formação mais especializada ou complementar. No primeiro caso,
encontramos a educação de jovens e adultos e a educação especial.
No segundo caso, a educação prossional.
A educação de jovens e adultos (EJA) enseja a escolarização
daqueles que não tiveram acesso ou continuidade de estudos no
Ensino Fundamental ou Médio. Contempla cursos de EJA e exames
supletivos. Os cursos e os exames são acessíveis para estudantes
maiores de 15 anos (Ensino Fundamental) e de 18 anos (Ensino
Médio).
A educação especial destina-se aos educandos portadores de
necessidades especiais e deve estar contemplada em todas as
etapas da educação. A legislação estabelece a sua oferta preferencial
na rede regular de ensino e em classes comuns, embora possibilite a
oferta desta modalidade em classes e escolas especiais.
Pode-se identicar a inserção da educação prossional na Educação
Básica de três modos: ensino técnico - concomitante, integrado
ou sequencial ao Ensino Médio, inclusive EJA; ormação inicial e
continuada de trabalhadores articulada ao Ensino Fundamental ou
Médio, inclusive EJA; preparação básica para o trabalho no Ensino
Fundamental e Médio, inclusive EJA (FARENZENA, 2010).
Como podemos ver, a preocupação em fortalecer a educação como um direito,
um currículo integrado, é o ponto de partida para assegurar os direitos undamentais da
sociedade. Para que essa proposta ocorresse na educação brasileira tivemos mudanças
signicativas, principalmente a partir da LDB – Lei de Diretrizes e Bases da Educação, Lei
no 9.394, de 1996, que marcou a educação e fez com que gerasse muito investimento,
tanto no sentido intelectual, como nanceiro. Um dos princípios da LDB é a valorização
do prossional da educação escolar, a qual deende que:
A ormação dos prossionais da educação, de modo a atender às
especicidades do exercício de suas atividades, bem como aos
objetivos das diferentes etapas e modalidades da educação básica,
terá como fundamentos:
I– a presença de sólida formação básica, que propicie o conhecimento
dos undamentos cientícos e sociais de suas competências de
trabalho;
II– a associação entre teorias e práticas, mediante estágios
supervisionados e capacitação em serviço;
III– o aproveitamento da ormação e experiências anteriores, em
instituições de ensino e em outras atividades (BRASIL, 1996, art. 61).
Apartirdaí,muitos acordose reormas oramrealizadosnaeducação, priorizando
a qualidade da mesma. O Plano Nacional de Educação para o decênio 2011-2020 indica
algumas diretrizes que demonstram esse interesse, enfatizando amelhoria da qualidade
de ensino, a ormação para o trabalho, a valorização dos prossionais da educação, entre
164
outras que indiretamente também enfocam a formação docente. Dentre as 20 metas
traçadas do PNE para até 2020, seis (da 13 até a 18) pretendem aumentar a qualidade do
ensino com base na ormação inicial e principalmente continuada, em dierentes níveis.
AUTOATIVIDADE
(IFRN – Concurso Público – GrupoMagistério – Políticas e Gestão Escolar
2012) A concepção curricular que articula o Ensino Médio à ormação
técnica, além de estabelecer o diálogo entre os conhecimentos
cientícos, tecnológicos, sociais, humanísticos, habilidades relacionadas
ao trabalho e de superar o conceito da escola dual e fragmentada, pode representar,
em essência, a quebra da hierarquização de saberes e colaborar, de forma efetiva,
para a educação brasileira como um todo, no desao de construir uma nova
identidade para essa última etapa da educação básica. A proposta curricular a que
esse enunciado se refere é:
a) ( ) Currículo integrado.
b) ( ) Currículo tecnicista.
c) ( ) Currículo tradicional.
d) ( ) Currículo prossionalizante.
Para atualizar a temática da Educação em nosso país, a leitura a seguir trata dos
trâmites da implantação do Sistema Nacional de Educação (SNE). Assim, com o objetivo
de efetivar a implantação do SNE, o Decreto de 26 de abril de 2017, da Presidência da
República, convoca a 3ª Conferência Nacional de Educação, prevista para ocorrer em
Brasília no ano de 2018, conorme detalhes do texto a seguir.
[...] O PRESIDENTE DA REPÚBLICA, no uso das atribuições que lhe
conerem o art. 84, caput, incisos IV e VI, alínea "a", da Constituição,
DECRETA:
Art. 1º Fica convocada a 3ª Conferência Nacional de Educação -
CONAE, a ser realizada na cidade de Brasília, Distrito Federal, com
o tema "A Consolidação do Sistema Nacional de Educação - SNE
e o Plano Nacional de Educação - PNE: monitoramento, avaliação
e proposição de políticas para a garantia do direito à educação de
qualidade social, pública, gratuita e laica".
§ 1º A União, sob a orientação do Ministério da Educação - MEC e
observadoodispostonoart.8ºdaLeinº 13.005,de25de junhode2014,
promoverá a realização da CONAE, a ser precedida de conferências
municipais, distrital e estaduais, articuladas e coordenadas pelo
Fórum Nacional de Educação - FNE, nos termos do art. 6º da Lei nº
13.005, de 2014.
165
§ 2º A etapa nacional da 3ª CONAE, a ser realizada em 2018, será
precedida pelos seguintes eventos:
I- conerências livres, a serem realizadas no ano de 2017;
II- conferências municipais ou intermunicipais, a serem realizadas
até o nal do segundo semestre de 2017; e
III- conerências estaduais e distrital, a serem realizadas até o nal do
segundo semestre de 2018.
Art. 2º As conferências nacionais de educação serão realizadas com
intervalo de até quatro anos entre elas, com o objetivo de avaliar a
execução do PNE vigente e subsidiar a elaboração do PNE para o
decênio subsequente.
Art. 3º São objetivos especícos da CONAE:
I- acompanhar e avaliar as deliberações da CONAE de 2014, vericar
seus impactos e proceder às atualizações necessárias;
II- avaliar a implementação do PNE, com destaque especíco ao
cumprimento das metas e das estratégias intermediárias, sem
prescindir de uma análise global do plano e;
III- avaliar a implementação dos planos estaduais, distrital e
municipais de educação, os avanços e os desaos para as políticas
públicas educacionais.
Art. 4º O tema central da 3ª CONAE será dividido nos seguintes eixos
temáticos:
I- O PNE na articulação do SNE: instituição, democratização,
cooperação federativa, regime de colaboração, avaliação e regulação
da educação.
II- Planos decenais e SNE: qualidade, avaliação e regulação das
políticas educacionais.
III- Planos decenais, SNE e gestão democrática: participação popular
e controle social.
IV- Planos decenais, SNE e democratização da Educação: acesso,
permanência e gestão.
V- Planos decenais, SNE, Educação e diversidade: democratização,
direitos humanos, justiça social e inclusão.
VI-Planosdecenais, SNEepolíticas intersetoriais dedesenvolvimento
e Educação: cultura, ciência, trabalho, meio ambiente, saúde,
tecnologia e inovação;
VII- Planosdecenais, SNEevalorizaçãodosprossionais daEducação:
formação, carreira, remuneração e condições de trabalho e saúde.
VIII- Planos decenais, SNE e nanciamento da educação: gestão,
transparência e controle social.
Art. 5º As diretrizes gerais e organizativas para a realização da CONAE
serão elaboradas pelo MEC e coordenadas pelo FNE, observado o
disposto no art. 8º da Lei nº 13.005, de 2014 [...]
(Este texto não substitui o original publicado no Diário Ocial da União
- Seção 1 - 27/04/2017, Página 19).
Conforme a leitura anterior, observa-se que em 2017 deveria ter ocorrido
Conferências Municipais e Intermunicipais com o tema: “A consolidação do Sistema
Nacional de Educação – SNE e o Plano Nacional de Educação – PNE, voltado para o
monitoramento, avaliação e proposição de políticas para a garantia do direito à educação
de qualidade social, pública, gratuita e laica”. Assim, as conferências municipais
166
deveriam discutir e ornecer subsídios sobrea eetivação da implantação SNE e do PNE,
em preparação às conferências estaduais e a Nacional, prevista para o ano de 2018.
No entanto, devido ao turbulento momento político enrentado no Brasil, apenas duas
capitais (Belo Horizonte/MG e São Paulo/SP) realizaram o evento naquele ano, e dois
terços das capitais brasileiras não tem sequer a previsão de data para organizá-las.
Até a conclusão deste livro, em janeiro de 2018, a última atualização sobre a implantação do Plano
Nacional de Educação, prevista pelo Projeto de Lei Complementar PLP 413/2014, foi o Parecer do
Relator, Dep. Glauber Braga (PSOL-RJ), pela aprovação deste, e do PLP 448/2017, apensado, como
substitutivo. O parecer foi apresentado em 22/dez./2017 à Comissão de Educação. Portanto, o
projeto encontra-se ainda em tramitação no Congresso Nacional.
Para acompanhar a tramitação na íntegra, acesse: <http://www.camara.gov.br/proposicoesWeb/
chadetramitacao?idProposicao=620859>. Maiores inormações também estão disponíveis no site
do MEC: <http://pne.mec.gov.br/sistema-nacional-de-educacao>.
CNTE defende a instituição do SNE de forma articulada entre os entes federados
A Confederação Nacional dos Trabalhadores em
Educação (CNTE) divulgou em setembro (2017),
a nota pública: Análise do documento da SASE/
MEC sobre Sistema Nacional de Educação. O
documento analisa o texto — Instituir um Sistema
Nacional de Educação: agenda obrigatória para o
país — disponibilizado peloMinistério da Educação
(MEC), em junho para amplo debate nacional.
Na nota, a entidade posiciona-se em acordo com vários pontos do texto apresentado pelo MEC, pelo
fato do seu conteúdo exprimir conceitos referendados nas duas Conferências Nacionais de Educação
(CONAEs), e por absorver propostas das entidades educacionais, como a CNTE, apresentadas ao
longo do processo histórico do debate sobre o Sistema Nacional de Educação (SNE).
Para a Confederação, as graves fragilidades resultantes da ausência de um SNE estão em destaque
no documento, como: I) ausência de referenciais nacionais de qualidade, capazes de orientar a
ação supletiva para a busca da equidade; II) a descontinuidade de ações; III)
a fragmentação de programas; e IV) a falta de articulação entre as esferas
de governo são fatores que, de fato, não contribuem para a superação das
históricas desigualdades econômicas e sociais do país.
A CNTE entende que o texto do MEC rearma a educação como
um direito inalienável e que realiza um diagnóstico dos avanços
e desaos para garantia desse direito, num contexto histórico e
político, apresentando uma proposta de instituição do SNE realizado
por um conjunto articulado de quatro dimensões, levando a uma
nova forma de organização da Educação Nacional: alterações na Lei
de Diretrizes e Bases; regulamentação do artigo 23 da Constituição
Federal (CF) ou a Lei de Responsabilidade Educacional; adequação
das regras de nanciamento e dos sistemas de ensino às novas regras
nacionais instituição do SNE.
NOTA
167
Para o presidente da entidade, Roberto
Franklin de Leão, o Brasil possui leis que
estruturam o sistema, como a lei que estipula
o piso nacional salarial dos professores e a
própria LDB. Destaca que precisamos de mais
uma legislação nacional para organização da
educação nacional, a m de que as políticas
sejam mais orgânicas, como é o SNE, que
"respeita a diversidade e as diferenças
do federalismo brasileiro, considerando a
qualidade e distanciando-se da centralização
da gestão da educação".
Entretanto, mesmo em consenso sobre vários pontos apresentados no documento do MEC, a CNTE
rearma a necessidade de um olhar especial na regulamentação do Custo Aluno-Qualidade e do
piso salarial dos prossionais da educação, conjugada com as diretrizes nacionais de carreira; na
autonomia das escolas e de seus prossionais; no apereiçoamento e ortalecimento dos espaços de
participação; no estabelecimento de critérios para as ações distributivas e supletivas da União e dos
estados, via regulamentação do art. 23, V, da CF; na regulamentação das receitas para a educação e
na denição das normas vinculantes para a organização dos sistemas de ensino.
Redação SASE/MEC com informações da CNTE.
FONTE: Disponível em: <http://pne.mec.gov.br/mais-destaques/410-cnte-defende-a-instituicao-do-
sne>. Acesso em: 7 dez. 2017.
Outro documento importante são os Parâmetros Curriculares Nacionais. Sua
história começa a partir da década de 1980, com as mudanças econômicas e sociais de
nível mundial e a abertura da política nacional. A partir desse momento, as discussões
políticas passaramaprivilegiaro temadademocracia. Combasenesse tema, as refexões
propiciaram a instauração e consolidação de um governo e de um regime democrático.
Em decorrência dos debates e dada a importância da democracia, a Assembleia
Nacional Constituinte, em 1988, institui o Estado Democrático de Direito, regulamentado
pela Constituição da República Federativa do Brasil, denominada Constituição Cidadã. Ela
estabelece como princípios undamentais: “I - a soberania; II - a cidadania; III - a dignidade
da pessoa humana; IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V - o pluralismo
político” (BRASIL, 1988, Título 1).
168
FIGURA 22 – CONSTITUIÇÃO CIDADÃ DE 1988
FONTE: Disponível em: <http://www.mundoeducacao.com/upload/conteudo _legenda/8e426990caf-
5533da936acd858c65f32.jpg>. Acesso em: 7 dez. 2017.
O artigo 5º dispõe sobre os direitos e deveres individuais e coletivos, segundo
o qual “todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza” (BRASIL,
1988, Título II - Dos Direitos e Garantias Fundamentais). Desse modo, no artigo 6º, são
indicados os direitos dos cidadãos; constam como “direitos sociais a educação, a saúde,
o trabalho, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à
inância, a assistência aos desamparados, na orma desta Constituição” (BRASIL, 1988,
Capítulo II - Dos Direitos Sociais).
A deesa do exercício da cidadania na escolarização está deliberada no artigo
205: “a educação, direito de todos e dever do Estado e da amília, será promovida e
incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da
pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualicação para o trabalho”
(BRASIL, 1988).
Para a disseminação da educação cidadã, outros documentos são produzidos a
partir de reuniões e pactos mundiais, como a Declaração Mundial sobre Educação para
Todos, ocorrida em Jomtien – Tailândia.
Em 1990, reuniram-se representantes dos seguintes países: Indonésia, China,
Bangladesh,Brasil, Egito,México,Nigéria, Paquistãoe Índia, paradiscutir sobrea satisação
das necessidades básicas de aprendizagem, considerando que todo cidadão tem direito
à educação, e ainda, que a educação avoreça “o progresso social, econômico e cultural,
a tolerância e cooperação internacional” (UNESCO, 1998, s.p.). Para suprimir os problemas
da educação, melhorar a qualidade e disponibilidade, a Declaração traça objetivos como
medidas necessárias à educação para todos. Assim, os países citados comprometeram-
se emcooperar e responsabilizar-se comasmetas construídas.Apartir desse documento,
cada país construiu planos e metas para alcançar os objetivos educacionais.
169
Você imagina quais foram as metas traçadas no encontro mundial que
resultou na Declaração Mundial sobre Educação para Todos?
As nalidades traçadas são: 1 Satisazer as necessidades básicas de
aprendizagem; 2 Expandir o enfoque; 3 Universalizar o acesso à educação
e promover a equidade; 4 Concentrar a atenção na aprendizagem; 5
Ampliar os meios de e o raio de ação da educação básica; 6 Propiciar
um ambiente adequado à aprendizagem; 7 Fortalecer as alianças; 8
Desenvolver uma política contextualizada de apoio; 9 Mobilizar os
recursos; e 10 Fortalecer a solidariedade internacional (UNESCO, 1998).
ATENÇÃO
Ao encontro desse documento, o governo brasileiro inicia discussões a respeito
da educação nacional e a construção de políticas de educação, que discorrem sobre a
atualização de processosformativos, processos de avaliação, a formação docente, a
relação aluno-proessor, a gestão escolar, o currículo escolar e a criação de projetos,
de reformas e de planos. O PCN é um documento norteador formulado a partir dessas
políticas de educação.
Assim, em 1995, a elaboração dos PCN – Parâmetros Curriculares Nacionais
é iniciada, sendo concluída somente em 1997, no governo do presidente Fernando
Henrique Cardoso. Fique atento, acadêmico, ao estudo desse documento, pois as
políticas de educação têm objetivos traçados, como toda a prática docente possui.
O objetivo dos PCN (BRASIL, 1997a) é estabelecer à equipe pedagógica uma
reerênciacurriculareapoionaelaboraçãodocurrículoedoprojetopedagógico.Conorme
os PCN, esse documento é o resultado de um trabalho que contou com a participação de
um grupo de especialistas ligado ao Ministério da Educação (MEC), produzido a partir de
estudos e do contexto das discussões pedagógicas atuais, no decurso de seminários e
debates com professores que atuam em diferentes graus de ensino.
FIGURA 23 – CONSTRUÇÃO DOS PARÂMETROS CURRICULARES NACIONAIS – PCN
FONTE: Disponível em: <http://www.educacaopublica.rj.gov.br/bibliot eca/portugues/img/0056.jpg>.
Acesso em: 7 dez. 2017.
170
Caro acadêmico, a Educação Infantil também tem documentos norteadores do currículo,
que são: Referencial Curricular Nacional para Educação Infantil – RECNEI e Parâmetros
Nacionais de Qualidade para a Educação Infantil. O primeiro documento pretende orientar
o professor, além de discutir conceitos importantes como educar e cuidar, entre outros. O
RECNEI está dividido em unidades, que são: Introdução, Formação Pessoal
e Social e Conhecimento de Mundo, Identidade e Autonomia das crianças
e Movimento, Música, Artes Visuais, Linguagem Oral e Escrita, Natureza
e Sociedade e Matemática. Já o segundo documento está disponível em
dois volumes e apresenta recomendações para promover a igualdade de
oportunidades educacionais.
Para conhecer melhor os documentos, respectivamente, acesse:
<http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pd/rcnei_vol1.pd>;
<http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Educinf/eduinfparqualvol1.
pd>.
NOTA
O documento dos PCN consiste em uma referência nacional para o Ensino
Fundamental e Médio. Sua elaboração é de primeiro nível de concretização curricular,
seguido de propostas curriculares dos Estados e municípios, que poderão ser utilizadas
como recurso para adaptações ou elaborações curriculares realizadas pelas Secretarias
de Educação (BRASIL, 1997a).
O texto dos PCN tem unção denidora do currículo mínimo, orienta práticas
pedagógicas e organiza a estrutura escolar. Estabelece o plano curricular indicando
conteúdos, objetivos, práticas educativas e sugestões de avaliação. Como é um
documento de nível nacional, tenta abranger e ter aplicabilidade em todo o território
nacional, de maneira homogênea (BARBOSA; FAVERE, 2013).
Os PCN do Ensino Fundamental, do primeiro ao nono ano, são compostos de
módulos divididos em: Volume 1: Introdução; Volume 2: Língua Portuguesa; Volume 3:
Matemática; Volume 4: Ciências Naturais; Volume 5: História e Geograa; Volume 6: Arte;
Volume 7: Educação Física; Volume 8: Apresentação dos Temas Transversais e Ética;
Volume 9: MeioAmbiente e Saúde; eVolume 10: Pluralidade Cultural e Orientação Sexual.
Já os PCN do Ensino Médio são assim distribuídos: Bases legais; Linguagens,
Códigos e suas tecnologias; Ciências da natureza, Matemática e suas tecnologias;
Ciências humanas e suas tecnologias.
171
Uma das preocupações centrais dos PCN é o tema da cidadania, da formação
cidadã. Mais do que o ensino de conteúdos básicos, hoje, na escola, a aprendizagem
da cidadania é legitimada e indispensável. A disseminação dessa aprendizagem
transita em documentos ociais, em autores que escrevem sobre educação e em
projetos pedagógicos das escolas. Os PCN defendem que o fundamento da sociedade
democrática é reconhecer o sujeito de direito (BRASIL, 1997b).
Com base na Constituição de 1988 e na LDB, os Parâmetros Curriculares
Nacionais propõem uma educação comprometida com a cidadania, sendo pautados
em princípios que devem orientar a educação escolar: dignidade da pessoa humana,
igualdade de direitos, participação e corresponsabilidade pela vida social. Conforme
os PCN, “a educação para a cidadania requer, portanto, que questões sociais sejam
apresentadas para a aprendizagem e a refexão dos alunos” (BRASIL, 1997b, p. 25). Os
conteúdos dos PCN, de acordo com Barbosa (2000, p. 71), partem:
do princípio de que os conteúdos de ordem cognitiva veiculados
pela escola – de forma fragmentada, em razão da especialização do
conhecimento de cada área – não seriam sucientes para atender às
demandas da atualidade em relação ao perl ideal do novo homem,
para que este homem pudesse inserir-se no mundo do trabalho,
exercer a sua cidadania e participar na construção do bem comum.
A educação deveria voltar-se, a partir de então, para a formação
integral dos alunos. Foi, assim, proposta a ampliação da concepção
de conteúdo escolar, que deveria agora incorporar o ensino de
hábitos, atitudes, valores, normas e procedimentos que pudessem
contribuir para o desenvolvimento e socialização dos alunos.
A inclusão dos temas transversais é um assunto novo, possível na sociedade
atual,visandoumanovaformaçãocomparadaaformaçõesanteriores, trazendoassuntos
de fora, da sociedade, para dentro da escola. Assim, além de objetivos cognitivos, os
PCN traçam objetivos morais e atitudinais.
Os PCN foram elaborados com a contribuição de um professor espanhol, César
Coll.Apropostabrasileirapretendeu implantarumareformacurricular,dardirecionamento
ao trabalho do professor, bem como o que se deve esperar do aprendizado do aluno, ou
seja, o que deve conter no currículo escolar (BARBOSA; FAVERE, 2013).
Os PCN pretendem atender às deliberações da Constituição Federal de 1988
e assim xar conteúdos mínimos para o ensino, construindo uma ormação básica e
respeitando as especicidades regionais.
Citando Barreto (2000, p. 35), “o governo ederal passa pela primeira vez, em
meados dos anos noventa, a azer ele próprio prescrições sobre currículo, que vãomuito
além das normas e orientações gerais que caracterizaram a atuação dos órgãos centrais
em períodos anteriores”.
172
A gura acima nos indica uma organização que atualmente deve ser planejada
em seu conjunto, ou seja, projetando essa prática para o trabalho do professor, em
que “esta é uma oportunidade preciosa para uma nova práxis dos educadores, sendo
primordial que ela aborde os saberes e seus tempos, bem como os métodos de trabalho,
na perspectiva das refexões antes tecidas” (BRASIL, 2004, p. 18).
Com o intuito de transformar a realidade educacional, o documento defende
que “faz-se necessária uma proposta educacional que tenha em vista a qualidade da
ormação a ser oerecida a todos os estudantes” (BRASIL, 1997a, p. 27).
A intenção dos PCN é que o proessor tenha um auxílio em sua ação de refexão
sobre o cotidiano da prática pedagógica, que continuamente esse cotidiano transforma-
se e exige novas competências docentes. Nesse sentido, com esse documento se prevê
que seja possível:
- rever objetivos, conteúdos, formas de encaminhamento das
atividades, expectativas de aprendizagem e maneiras de avaliar;
- refetir sobre a prática pedagógica, tendo em vista uma coerência
com os objetivos propostos;
- preparar um planejamento que possa de fato orientar o trabalho em
sala de aula;
- discutir com a equipe de trabalho as razões que levam os alunos a
terem maior ou menor participação nas atividades escolares;
- identicar, produzir ou solicitar novos materiais que possibilitem
contextos mais signicativos de aprendizagem;
- subsidiar as discussões de temas educacionais com os pais e
responsáveis (BRASIL, 1997a, p. 12).
Aproposta apresentada pelos PCNnão temumaconcepção rígida de currículo; é
fexível, com o objetivo de considerar a diversidade brasileira e respeitando a autonomia
do professor e equipe pedagógica.
Acadêmico, apresentamosaqui uma imagem disponibilizada em outro
documento importante do MEC, “Ensino Fundamental de Nove anos”, que contribui para
percebermos a organização desse nível de ensino:
FIGURA 24 – ENSINO FUNDAMENTAL DE NOVE ANOS
FONTE: Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/seb/arquivos/pdf/Ensfund/noveanorienger.pdf>.
Acesso em: 5 dez. 2017.
Ensino Fundamental
Anos Iniciais Anos Finais
1º ano 2º ano 3º ano 4º ano 5º ano 6º ano 7º ano 8º ano 9º ano
173
Assim, temos que dar continuidade na denição e redenição das práticas e das
ações, que devem ser realizadas com a mesma rapidez e complexidade com que ocorre
o processo de transformação, não só no Brasil, mas em escala mundial.
A importância que adquirem, nessa nova realidade mundial, a ciência
e inovação tecnológica tem levado os estudiosos a denominar
a sociedade atual de sociedade do conhecimento, sociedade
técnico-informacional ou sociedade tecnológica, o que signica
que o conhecimento, o saber e a ciência assumem papel muito
mais destacado do que anteriormente. Na atualidade, as pessoas
aprendem na fábrica, na televisão, na rua, nos centros de informação,
nos vídeos, no computador, e cada vez se ampliam os espaços de
aprendizagem (LIBÂNEO, 2012, p. 62-64, grios do autor).
A instituição escolar já não é considerada o único meio ou o meio mais eciente
e ágil de socialização dos conhecimentos técnico-cientícos e de desenvolvimento de
habilidades cognitivas e competências sociais requeridas para a vida prática.
A tensão em que a escola se encontra não signica, no entanto, seu m como
instituição socioeducativa ou o início de umprocesso de desescolarização da sociedade.
Indica, antes, o início de um processo de reestruturação dos sistemas educativos e da
instituição tal como a conhecemos. A escola, hoje, precisa não apenas conviver com
outras modalidades de educação não ormal, inormal e prossional, mas também,
articular-se e integrar-se a elas, a mde ormar cidadãosmais preparados e qualicados
para um novo tempo. Para isso, o ensino escolar deve contribuir para:
a) Formar indivíduos capazes de pensar e aprender permanentemente (capacitação
permanente) em um contexto de avanço das tecnologias de produção e de
modicação da organização do trabalho, das relações contratuais capital/trabalho e
dos tipos de empregos.
b) Prover ormação global que constitua um patamar para atender à necessidade
de maior e melhor qualicação prossional, de preparação tecnológica e de
desenvolvimento de atitudes e disposições para a vida numa sociedade técnico-
informacional.
c) Formar cidadãos éticos e solidários.
Assim, pensar o papel da escola nos dias atuais sugere levar em conta questões
relevantes. Aprimeira, e talvez amais importante, é que as transformaçõesmencionadas
representam uma reavaliação que o sistema capitalista faz de seus objetivos.
No entanto, quando o autor Libâneo (2012) az o alerta de que o ensino escolar
deve contribuir para ormar indivíduos capazes de pensar e aprender permanentemente
dentro do contexto tecnológico e das relações capital/trabalho, poderia, aí, ser
acrescentado o termo “harmonização das relações trabalhistas”. O que quer dizer que a
educação pode e deve ter uma relação próxima e signicativa com o capitalismo, uma
vez que o desenvolvimento educacional deixou de ser estável, isto é, com hora e local
predeterminados. Hoje, a informação e o conhecimento não têm fronteira, eles estão
174
em toda parte, principalmente nas organizações produtoras de bens e serviços. Ainda
segundo o autor, “a escola deixou de ser o único meio de socialização do conhecimento”.
Seguindo a mesma linha de raciocínio com relação ao capital/trabalho, Liedke (2002, p.
345-346) arma que:
No limiar do século 21, os avanços da tecnologia microeletrônica e da
racionalização das técnicas organizacionais do processo de trabalho,
orientados por conceitos como produção fexível, produção enxuta
e especialização fexível, em um contexto de competição capitalista
global, colocam em xeque a centralidade do trabalho. Decorridos três
séculos de predomínio da sociedade industrial, o trabalho passa a
assumir um conteúdo crescentemente intelectual, em contraposição
ao conceito de trabalho ísico, manual. Aumenta a importância da
informação, do trabalho imaterial, em contraposição ao conceito
convencional de trabalho, centrado na ideia de transformação da
natureza. Para alguns estudiosos, teria chegado o momento, na
história da humanidade, de separarem-se, novamente, os conceitos
de trabalho, emprego e identidade social e individual. Outras formas
de socialização, de construção das identidades sociais e individuais
deverão voltar-se para atividades de cunho comunitário, como
escolas, clínicas, clubes de bairro, manutenção de inraestrutura
nas cidades, envolvendo várias formas de trabalho voluntário
(KUMAR, 1985: CACCIAMALI, 1996). Estudos recentes apontam
para a importância de políticas voltadas ao estímulo das atividades
intensivas em mão de obra, ao mesmo tempo em que defendem
a necessidade de diminuição da jornada de trabalho semanal
(MATTOSO, 1996; ANTUNES, 1996). Mais do que simples especulação,
os desaos são amplos e incertas as alternativas. Porém, parece
certo que as formas precárias de ocupação da força de trabalho
(trabalho temporário, desregulamentação do trabalho, rebaixamento
dos salários) estão longe do conceito aristotélico de trabalho humano
como obra criativa, livre da esfera da necessidade.
No entanto, a Revolução Tecnológica vai além do enômeno relacionado com a
dinâmica da informação e comunicação, pois ela é também o objeto de dinamização dos
saberes, conceitos e dos valores individuais e sociais. Sendo assim, essas tecnologias
têm se mostrado ecientes e fexíveis em todos os aspectos da vida cotidiana, seja
no âmbito das relações sociais, econômicas e educacionais, principalmente por
oferecerem uma gama de alternativas que podem e devem ser utilizadas na busca de
soluções e na melhoria dos métodos e das formas de ensinar e aprender. Isto porque,
como sabemos, não existe uma homogeneidade regional, isto é, as políticas públicas
não conseguem equacionar ou resolver os problemas relacionados à distribuição dos
meios e recursos necessários ao desenvolvimento do indivíduo, do processo educativo
e do desenvolvimento econômico, onde todos esses conceitos azem parte da cadeia
produtiva como um todo, pois um país só se desenvolve com educação, emprego e
distribuição equitativa de renda, o que vai ao encontro dos princípios da igualdade.
175
Universidade pra quê?A força e o futuro da UERJ
Ana Karina Brenner, Bruno Deusdará,
Guilherme Leite Gonçalves e Lia Rocha
Como professor aposentado da UERJ somo-me a estes e estas colegas no
protesto, na reação e na esperança acerca do que o atual governo sem legitimidade
democrática está fazendo com esta universidade que se conta entre as melhores do
país. Na agenda do atual governo liderado pelo PMDB, ciência, pesquisa, ormação e
inclusão social não fazem parte de sua agenda. Colocam a universidade no item de
gastos e encargos, quando deveria signicar um alto investimento em avor das novas
gerações e do uturo do país, portanto, merecer um tratamento prioritário. Uma nação
eita de ignorantes está condenada a se transormar num país pária, perder o passo da
história e sequestrar o futuro dos jovens. Mas tudo isso se inscreve dentro do programa
da dominação imperial que nos quer recolonizar e azendo-os apenas exportadores de
commodities. Para isso não se precisa de ciência, de tecnologia, nem de um projeto
nacional, apenas de espírito subserviente e venal. Recusamos este destino unesto,
pois em termos de futuro, quando o que vai contar mesmo será uma economia e uma
tecno-ciência montada sobre o ator ecológico. Aí surgiremos como uma das potências
reitoras, não para dominar, mas para podermos, com os bens e serviços que a Mãe
Terra nos galardoou, ser a mesa posta para as fomes e as sedes do mundo inteiro. É o
sentido secreto e providencial de sermos geogracamente grandes e ecologicamentericos. Precisamos resgatar a UERJ, o hospital Pedro Ernesto e outras frentes de ensino
e pesquisa distribuídos pelo Estado do Rio de Janeiro, com seu protagonismo histórico
e com seu alto sentido social, especialmente, para os mais penalizados pela nossa
sociedade injusta e excludente. E vamos triunar, porque nada resiste ao que é bom,
justo, digno e ecologicamente responsável. Parabéns aos autores e autoras deste
corajoso texto, urdido de sã indignação e de justa esperança. Leonardo Bo
[...]
A universidade moderna nasceu de um projeto destinado a desenvolver as
qualidades humanas e a cultura pormeio de um programa de formação, que combinava
ensino e pesquisa com base no conhecimento cientíco. Esse projeto, no entanto, tinha
umvício de origem: era inacessível às classes populares; servia apenas à reprodução das
elites. Sofria, assim, de ummal-estar que, dentre outras, produziu as revoltas estudantis
de 1968. A partir desse momento, as políticas universitárias se voltaram para articular
ormação e inclusão social, conhecimento cientíco e igualdade.
LEITURA
COMPLEMENTAR
176
A UERJ é resultado de um amadurecimento histórico dessa nova universidade.
Criada em 1950, destaca-se pelo pioneirismo: primeira universidade pública do Brasil
a oerecer ensino superior noturno, permitindo a qualicação dos trabalhadores;
segunda instituição universitária a possuir um hospital das clínicas voltado para o
ensino; primeira a implantar o sistema de cotas para negros, indígenas e estudantes
oriundos de escolas públicas.
Nos últimos 10 anos, o número de cursos de doutorado quase dobrou, passando
de 23 para 43. Em 2016, a UERJ possuía 26.767 estudantes presenciais, dos quais 9.900
cotistas e ainda 7.266 alunos de Educação a Distância. Além do Hospital Universitário
Pedro Ernesto e da Policlínica Piquet Carneiro, ela conta com 714 projetos, 253 cursos
e 34 programas de extensão, que levam à sociedade conhecimento e tecnologias de
ponta, envolvendo cerca de 3 milhões de pessoas, entre prossionais, estudantes e
comunidade atendida.
Nos últimos anos, a UERJ conquistou o regime de trabalho de Dedicação
Exclusiva, assegurando um plano de carreira com capacidade de atrair os melhores
quadros acadêmicos. Tal regime é estruturante da carreira docente, garantidor da
qualidadedapesquisa, do compromisso comaformaçãodeestudantes epesquisadores,
e do desenvolvimento tecnológico a partir da xação de docentes em uma única
instituição.
Hoje, no entanto, todo esse patrimônio corre risco.
Ciência, formação e igualdade social não fazem parte da agenda do PMDB. A
Universidade lhe é estranha. Em seu programa para o Brasil, “Uma ponte para o futuro”,
ela é tratada tão somente como encargo ou despesa, desconsiderando sua importância
como investimento na construção e preservação do patrimônio cientíco e tecnológico
de uma nação. Ao assim concebê-la, atribui à educação superior a responsabilidade de
produzirdesajustescal quandoé, naverdade, potencial de desenvolvimento econômico
e de geração de emprego. Mas, então, qual é o projeto do PMDB para a Universidade?
Desde o golpe parlamentar, em 2016, o GovernoTemer tem realizado signicativos
cortes em políticas sociais, entre elas o ensino superior. Só o MEC soreu corte de R$ 4,3
bilhões. Assim, 15% dos gastos de custeio e 40% das despesas de capital, aprovados pelo
Congresso para as universidades ederais, caram congelados. No Rio de Janeiro ocorre
ato semelhante. Para dar apenas um exemplo, no nal de 2016, o Governo Pezão reduziu
o orçamento da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio de Janeiro em mais de 30%.
Em agosto de 2017, professores e servidores técnico-administrativos da
UERJ encontram-se com quatro meses de salários atrasados (mesma situação das
outras universidades estaduais UEZO e UENF). Também atrasadas estão as bolsas de
estudantes e residentes. O consco de salários e bolsas é um consco do orçamento
da universidade, e mina as condições de reprodução das forças necessárias ao trabalho
e à continuidade do patrimônio intelectual, cientíco e democrático adquirido ao longo
177
das décadas. Um exemplo dos eeitos neastos dessa crise é a saída orçada de alguns
docentes do regime de dedicação exclusiva. Obrigados a acumular atividades paralelas,
muitos desses prossionais não retornarão ao regime após esse período.
O resultado da política universitária de Pezão e Temer, cujo não pagamento
dos salários da UERJ é a expressão mais vil, são vários: evasão de estudantes, uga de
cérebros, destruição da pesquisa de ponta, eliminação do legado intelectual, extermínio
da formação e da cultura. Em outras palavras, a depredação do resultado de décadas de
investimento material e humano.
Nós, da Universidade, entendemos que docência, pesquisa, cultura e formação
se relacionam com o futuro. Nossa resistência é a garantia de que o projeto de
universidade pública, de qualidade, gratuita, cadavezmais plural e inclusiva, permaneça.
UERJ Resiste!
FONTE: Disponível em: <https://leonardobo.wordpress.com/2017/08/11/universidade-pra-que-a-orca-e-
-o-futuro-da-uerj/>. Acesso em: 9 set. 2017.
178
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você adquiriu certos aprendizados, como:
• Avida em sociedade está ligada à política e não há ação social sem ação política, quer
seja promovida pelo Estado ou pela sociedade.
• As políticas públicas são de responsabilidade do Estado, com base em organismos
políticos e entidades da sociedade civil, que derivam de normatizações, ou seja, se
estabelece um processo de tomada de decisões, nossa legislação.
• A criação de documentos nacionais norteadores oi possível a partir da década de
1980, com a abertura política e com a instituição de um Estado democrático, com a
Constituição Federal de 1988, como é o caso dos Parâmetros Curriculares Nacionais.
• A LDB 9.394/96 regulamentou o que foi tratado sobre educação na Constituição
Federal, abordando a educação escolar. O objetivo dos PCN é estabelecer à equipe
pedagógica uma reerência curricular e apoio na elaboração do currículo e do projeto
pedagógico.
• Os PCN têm unção denidora do currículo mínimo, orientam práticas pedagógicas e
organizam a estrutura escolar.
• Uma das preocupações centrais dos PCN é o tema da cidadania, que deve resultar
em uma formação cidadã.
179
AUTOATIVIDADE
1 Para retomar o que aprendemos até o momento, aponte as
características principais e o contexto histórico no qual oram
construídos os PCN:
2 (IFRN – Concurso Público – Grupo Magistério – Políticas e Gestão
Escolar 2012)
A partir do que estabelece a Lei nº 9.394/1996, analise as armativas a seguir.
I- A educação prossional técnica de nível médio articulada, segundo essa lei, será
desenvolvida nas formas integrada e concomitante.
II- A educação de jovens e adultos deverá ser oferecida, preferencialmente, articulada
à educação prossional.
III- As instituições de educação prossional e tecnológica oerecerão cursos regulares
e cursos especiais, abertos à comunidade.
IV- Na educação prossional técnica de nível médio, a preparação geral para o trabalho
e, acultativamente, a habilitação prossional, poderão ser desenvolvidas nos
próprios estabelecimentos de Ensino Médio ou em cooperação com instituições
especializadas em educação prossional.
V- A educação prossional técnica de nível médio, por ter total autonomia pedagógica,
prescinde de organizar cursos seguindo as orientações contidas nas diretrizes
curriculares nacionais estabelecidas pelo Conselho Nacional de Educação.
Das armativas acima, estão corretas, apenas:
a) ( ) I, II, III e IV.
b) ( ) II, III, IV e V.
c) ( ) I e V.
d) ( ) II e IV.
180
181
POLÍTICA PÚBLICA DE SAÚDE
1 INTRODUÇÃO
Olá, acadêmico! Seja bem-vindo ao estudo que faremos sobre o Sistema de
Saúde brasileiro. Este tema levará você a refetir sobre a realidade da saúde pública
em nosso país e os seus desaos para assegurar o atendimento a todo cidadão com
dignidade e em igualdade de condições.
O acesso universal, integral e equânime à assistência em saúde é um
direito detodos e um dever do Estado, garantido pela Constituição.
Contudo, para além das obrigações do governo, a saúde também
é uma responsabilidade coletiva, que implica na participação da
população nos processos de melhoria e no progresso da qualidade
de serviços (SCHMIDT, 2015, p. 12).
A gestão do sistema nacional de saúde é bastante complexa, se pensarmos
em atingir de forma equânime todas as pessoas que dependem do serviço público
num contexto com desigualdades e desaos sociais aos governos. Concorda Zetzsche
(2014, p. 3) ao dizer que “Cuidar da saúde signica manter a nação em condições de
progresso e trabalho, com uma população saudável e menores índices de adoecimento
e transmissão de doenças”.
O sistema de saúde brasileiro engloba uma rede de serviços prestados por
instituições públicas e privadas aos cidadãos que se utilizam de uma multiplicidade
de atendimentos. Considerado exemplo de política pública pelo acesso universal à
população,demandaaindamaiorparticipaçãodasociedadenosconselhoseconferências
municipais de saúde para o efetivo controle social na administração pública.
O ortalecimento da política pública de saúde depende, sobretudo, de
investimentos que assegurem as ações e programas que impulsionem os indicadores
de saúde a um nível avorável; é undamental a melhora da inraestrutura, com a
ampliação emodernização dos locais de atendimento, qualidade dos serviços oferecidos
e capacidade técnica dos prossionais contratados para a gestão.
Competência administrativa, visão política e gerencial, proundo
conhecimento da história do país e de sua dinâmica social, visão
epidemiológica e crítica, e visão ontológica – visão de respeito e
reconhecimento do ser humano – (alvo dos programas e políticas de
saúde) são requisitos mais que necessários àquele ou àquela que vai
trabalhar em gestão de saúde, quer seja de caráter público ou privado
(ZETZSCHE, 2014, p. 4).
UNIDADE 3 TÓPICO 2 -
182
A saúde para os brasileiros, segundo a pesquisa do Instituto de Pesquisas
Dataolha (2014), é considerada o serviço público mais importante; mas diariamente
o usuário se depara com problemas, como a alta de médicos, las de espera nas
emergências e nos hospitais, demora para realização de cirurgias e hospitais sem
recursos nanceiros.
FIGURA 25 – IMPORTÂNCIA DA SAÚDE PÚBLICA
FONTE: Disponível em: <http://portal.cfm.org.br/images/PDF/apresentao-integra-datafolha203.pdf>.
Acesso em: 6 jun. 2015.
59%
17%
8%
7%
5%
3%
1%
0,4%
0,3%
46%
25%
9%
11%
3%
3%
1%
1%
‐
Usuário
do SUS
Não
usuário
p ç g g , p
 O usuário do SUS dá maior importância para a Saúde.
A partir dessa refexão, podemos enatizar a importância da política pública de
saúde no contexto social brasileiro e a necessidade de gestão técnica com prossionais
habilitados. A relevância do tema oi abordada no Exame Nacional do Estudante –
ENADE (2013) e propomos que você leia e responda.
A questão da saúde no Brasil é complexa e dependente da atuação
dos vários agentes que a compõem. Cada um desses agentes, governo,
organizações e sociedade, tem suas responsabilidades sobre a
qualidade da saúde no Brasil. Ao governo cabe desenvolver políticas e
realizar investimentos adequados, dentro de um planejamento ao longo do tempo;
às organizações compete executar essas políticas, como também prestar serviços
à população com qualidade; e a sociedade, por seu lado, deve aderir às ações
preventivas promovidas pelo governo e pelas organizações, assim como deve ter
uma postura ativa, autônoma e corresponsável, em relação à sua qualidade de vida.
FONTE: Disponível em: <le:///C:/Users/Win8/Desktop/16_TEC_GESTAO_HOSPITALAR.pd>. Acesso em: 3
maio 2015.
AUTOATIVIDADE
183
FONTE: Disponível em: <http://www.ivancabral.com>. Acesso em: 23 ago. 2013.
Considerando a gura e o trecho acima, redija um texto dissertativo sobre o
papel e (ou) unções do gestor hospitalar no contexto da qualidade da saúde no Brasil.
2 CONCEITO DE SAÚDE
Temos como conceito de saúde, segundo a Organização Mundial de Saúde
(USP, 2015, s.p.): “Saúde é um estado de completo bem-estar ísico, mental e social, e
não consiste apenas na ausência de doença ou de enfermidade”.
Essa concepção de saúde induz a novas condutas quanto à promoção de saúde
e prevenção de doenças. O indivíduo é inserido numa rede de cuidados permanentes,
visando maior qualidade de vida, mesmo que aconteça a doença. A vida mais saudável
demanda novos hábitos, que incluem a alimentação adequada, lazer, convívio social,
esportes e atividade ísica como práticas diárias.
Mesmo o doente crônico aprende a convivermelhor com a doença, tornando-se
menos dependente da assistência médica, adquirindo hábitos que ajudam na melhora
do estado de saúde. É o que Zetzsche (2014, p. 13) dene como “comportamentos mais
saudáveis e que desenvolva o seu autocuidado, possibilitando que, desta forma, acabe
vivendo mais e melhor depois de seu adoecimento, por mais incrível que isto pareça, à
primeira vista”. Neste contexto, percebe-se que a população está adotando um estilo
de vida mais saudável, com atitudes de prevenção para a saúde ísica e mental; este
movimento se estende a outros ambientes, como exemplo, no trabalho e na educação,
visto que a qualidade de vida está diretamente relacionada ao modo como as pessoas
vivem.
184
As cidades devem oferecer espaços coletivos, parques, praças, centros de
convivência,paraqueacomunidadeusufruadequalidadedevida,oquecomprovadamente
vem reduzindo os custos em serviços médicos e assistenciais nos municípios.
FIGURA 26 – SAÚDE PÚBLICA
FONTE: Disponível em: <http://brubrinq.com.br/cknder/userles/images/pra%C3%A 7a_playground2.jpg>.
Acesso em: 12 jan. 2018.
Essa é uma realidade possível, de acordo com Zetzsche (2014, p. 9):
[...] a amplitude do escopo de ações em saúde vai abranger
intervenções e estratégias nos mais variáveis setores, como meio
ambiente, sustentabilidade, manejo agrícola, controle de endemias
e pandemias, denição dos níveis aceitáveis de desenvolvimento e
qualidade de vida, saneamento básico, manejo de recursos hídricos e
naturais, ambientes de trabalho, acesso ao lazer, educação, moradia,
entre tantos outros, pois é nestas boas condições de vida que a
saúde é mais fácil de se obter e de se conservar.
A transformação social, a partir da saúde, busca incutir nas pessoas atitudes
rente a atores de infuência negativa, por exemplo, a mídia com a demasiada
publicidade de produtos alimentícios industrializados, que não trazem beneícios à
saúde e contribuem para a obesidade e sobrepeso; ou ainda, o álcool e cigarro, que
levam a problemas comportamentais e aetam a amília.
[...] a obesidade na população brasileira está se tornando bem mais
frequente do que a própria desnutrição infantil, sinalizando um
processo de transição epidemiológica que deve ser devidamente
valorizado no plano da saúde coletiva. As doenças [...] estão
relacionadas, em grande parte, com a obesidade e com práticas
alimentares e estilos de vida inadequados (IBGE, 2008, s.p.).
185
Além dos problemas decorrentes da vida moderna que afetam a saúde da
população, temos ainda doenças epidemiológicas como dengue, malária e tuberculose,
por exemplo, e que causam a morte de milhões de pessoas no mundo todo e são
decorrentes da miséria, da precariedade no abastecimento de água potável, do
saneamento básico e pela falta de acesso aos serviços públicos de saúde e educação. A
globalização fortaleceu esse processo de disseminação de doenças ao redor do mundo,
principalmente pelo contingente de populações imigratórias.
Visando contribuir com seu conhecimento, refita e responda à atividade
a seguir, que trata sobre o tema de orma a azer refetir a partir das considerações
apresentadas, compreender as relações entre saúde pública e as desigualdades sociais
e suas terríveis consequências para a humanidade.
(ENADE–2013 – Formação Geral) A Organização Mundial de Saúde
(OMS) menciona o saneamento básico precário como uma grave
ameaça à saúde humana. Apesar de disseminada no mundo, a falta
de saneamentobásico ainda é muito associada à pobreza, afetando,
principalmente, a população de baixa renda, que é mais vulnerável devido à
subnutrição e, muitas vezes, à higiene precária. Doenças relacionadas a sistemas de
água e esgoto inadequados e a deciências na higiene causam a morte de milhões
de pessoas todos os anos, com prevalência nos países de baixa renda (PIB per capita
inerior a US$ 825,00). Dados da Organização Mundial de Saúde (OMS) apontam
que 88% das mortes por diarreia no mundo são causadas pela falta de saneamento
básico. Dessas mortes, aproximadamente 84% são de crianças. Estima-se que 1,5
milhão de crianças morram a cada ano, sobretudo em países em desenvolvimento,
em decorrência de doenças diarreicas. No Brasil, as doenças de transmissão feco-
oral, especialmente as diarreias, representam, em média, mais de 80% das doenças
relacionadas ao saneamento ambiental inadequado (IBGE, 2012).
Com base nas inormações e nos dados apresentados, redija um texto dissertativo
acerca da abrangência, no Brasil, dos serviços de saneamento básico e seus impactos
na saúdedapopulação. Emseu texto,mencione as políticas públicas já implementadas
e apresente uma proposta para a solução do problema apresentado no texto acima.
FONTE: Disponível em: <http://download.inep.gov.br/educacao_superior/enade/provas/2013 /16_TEC_
GESTAO_HOSPITALAR.pdf>. Acesso em: 6 maio 2015.
AUTOATIVIDADE
186
3 SAÚDE: DIREITO DE TODOS E DEVER DO ESTADO
AConstituição da República Federativa de 1988 dispõe em seu art. 196: “A saúde
é direito de todos e dever do Estado, garantido mediante políticas sociais e econômicas
que visem à redução do risco de doença e de outros agravos e ao acesso universal e
igualitário às ações e serviços para sua promoção, proteção e recuperação”.
No Brasil, temos um sistema de saúde garantido pela Constituição Federal, que
se constitui no Sistema Único de Saúde – SUS. Para Campos et al. (2006, p. 531 apud
ZETSZCHE, 2014, p. 87), o SUS é:
[...] o arranjo organizacional do Estado Brasileiro que dá suporte
à eetivação da política de saúde no Brasil, e traduz em ação os
princípios e diretrizes desta política. Compreende um conjunto
organizado e articulado de serviços e ações de saúde, e aglutina o
conjunto das organizações públicas de saúde existentes nos âmbitos
estadual, municipal e nacional, e ainda os serviços privados de saúde
que o integram funcionalmente para prestação de serviços aos
usuários do sistema, de forma complementar, quando contratados
ou conveniados para tal m. O SUS oi instituído com o objetivo de
coordenare integraras ações das três esferas degoverno epressupõe
a articulação de subsistemas verticais (de vigilância e assistência
à saúde) e subsistemas de base territorial – estaduais, regionais e
municipais – para atender de maneira funcional às demandas por
atenção à saúde.
Historicamente, a população brasileira era desassistida de assistência médica
e, quando acometida de doença, recorria às crenças e à medicina natural; o auxílio ao
povo era feito pelas Santas Casas de Misericórdia. Somente a partir da industrialização
no país e dos movimentos sindicalistas é que o Estado passa a atuar na área da saúde,
com a criação das caixas de aposentadoria e pensão, mas que permitiam somente aos
contribuintes o acesso à assistência médica, enquanto a maior parcela da população
cou à margem deste direito. Durante o período militar, a iniciativa privada passa a ter
participação no sistema com os convênios e planos de saúde.
Essas medidas contribuíram para a Reorma Sanitária que levou à criação do
SUS, que, segundo Arouca (1998 apud ZETZSCHE, 2014, p. 79):
[...] nasceu na luta contra a ditadura, como temaSaúde eDemocracia,
e estruturou-se nas universidades, no movimento sindical, em
experiências regionais de organização de serviços. Esse movimento
social consolidou-se na 8ª Conferência Nacional de Saúde, em 1986,
na qual, pela primeira vez, mais de cinco mil representantes de todos
os segmentos da sociedade civil discutiram um novo modelo de
saúde para o Brasil. O resultado foi garantir na Constituição, por meio
de emenda popular, que a saúde é um direito do cidadão e um dever
do Estado.
187
Posteriormente, em 1990, foi promulgada a Lei Orgânica do SUS, com as Leis
nº 8.080 e nº 8.142, que têm como base de sustentação os princípios norteadores do
Sistema Único de Saúde brasileiro:
• Princípio da Universalidade: estabelece a todos o direito de atendimento pelo Sistema
Único de Saúde.
• Princípio da Integralidade: relaciona dois aspectos do SUS, o primeiro reere-se à
compreensão do ser humano biopsicossocial que requer um atendimento em sua
integralidade; e o segundo aspecto integra as ações do Sistema Único de Saúde
para o atendimento integral entre os dierentes níveis de complexidade de atenção à
saúde.
• Princípio da Igualdade: possibilita as mesmas condições de acesso ao Sistema Único
de Saúde neste país, onde ninguém pode solicitar um atendimento dierenciado, seja
um pedido por apadrinhamento político, ou pelo nível social, raça, gênero.
Na visão de Cony (2014, s.p.), o SUS pode ser considerado como direito humano:
“[...] é a maior conquista do povo brasileiro em política pública e é um sistema que é
referência em saúde para o mundo, sob a ótica gravada na Constituição de que o SUS
é um direito de todos e um dever do Estado e evoluindo para a compreensão de que é
um direito humano”.
4 AS REDES DE ATENÇÃO EM SAÚDE
O funcionamento do Sistema Único de Saúde conjuga uma rede de serviços
denominada Rede de Atenção à Saúde, que classica os atendimentos em níveis de
atenção primária, secundária e terciária, conorme a exigência do serviço que será
prestado ao usuário. A rede compreende-se em âmbito estadual e regional, numa
articulação interederativa, em que serviços de saúde são executados em uma região
de Saúde determinada por um espaço geográco de municípios limítroes, que segundo
o Decreto nº 7.508/2011, será “delimitado a partir de identidades culturais, econômicas e
sociais e de redes de comunicação e infraestrutura de transportes compartilhados [...]”.
Trata-se de uma organização complexa, que identica os diversos atendimentos por
meio de um Mapa da Saúde, que segundo decreto, faz a distribuição “[...] de recursos
humanos e de ações e serviços de saúde ofertados pelo SUS e pela iniciativa privada,
considerando-se a capacidade instalada existente, os investimentos e o desempenho
aferido a partir dos indicadores de saúde do sistema”.
A Rede de Atenção à Saúde (RAS) atua a partir da Unidade Básica de Saúde
ou USF – Unidade de Saúde da Família, onde inicia o trabalho junto à comunidade. As
consultas são realizadas pelo médico generalista e, se for necessário, encaminha aos
médicos especialistas que integram o setor de atenção secundária.
188
AUnidadeBásica deSaúde realiza os atendimentos emnível de atençãoprimária
“[...] enfatizando a função resolutiva dos cuidados primários sobre os problemas mais
comuns de saúde e a partir do qual se realiza e coordena o cuidado em todos os pontos
de atenção” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2010, p. 4 apud ZETZSCHE, 2014, p. 32).
A pesquisa do Instituto Dataolha (2014) mostra com que objetivo o usuário
busca o atendimento na Unidade de Saúde.
FIGURA 27 – NECESSIDADES NA SAÚDE PÚBLICA
FONTE: Disponível em: <http://portal.cfm.org.br/images/PDF/apresentao-integradatafolha203.pdf>.
Acesso em: 6 jun. 2015.
Quando precisam de atendimento de saúde do SUS, o primeiro local procurado é o
Posto de Saúde para a maior parcela dos usuários (48%). No entanto, 49% usam
algum serviço de emergência como porta de entrada.
49% utilizam
atendimento de
emergência como
porta de entrada
No setor de atenção secundária, adentramos em Policlínicas de especialidades,
Ambulatórios e Centros de Atenção Psicossocial (CAPS). Do setor terciário azem
parte os hospitais especializados, Unidades de Tratamento Intensivo (UTIs), Centros
de Hemodiálise, entre outros. Os encaminhamentos eitos aos usuários são ormais,
por meio de referências e contrarreferências, que

Mais conteúdos dessa disciplina