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Direitos Humanos Direitos dos Imigrantes e Orientações para o Atendimento Enap, 2023 Fundação Escola Nacional de Administração Pública Diretoria de Desenvolvimento Profissional SAIS - Área 2-A - 70610-900 — Brasília, DF Fundação Escola Nacional de Administração Pública Diretoria de Desenvolvimento Profissional Conteudista/s Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania - MDHC (Conteudista, 2020). Equipe revisora: Clarissa Teixeira Araujo do Carmo (Coordenadora-Geral, 2023). Carlos Alberto Ricardo Júnior (Coordenador, 2023). Organização Internacional para as Migrações (2023). Curso desenvolvido no âmbito da Diretoria de Desenvolvimento Profissional – DDPRO 3Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Sumário Módulo 1 – Introdução às migrações internacionais Unidade 1: Quem são os migrantes internacionais? ........................................... 7 Unidade 2: Qual é a dimensão das migrações internacionais? ........................11 Unidade 3: A situação jurídica das pessoas migrantes .....................................15 Unidade 4: Onde encontrar dados sobre as migrações internacionais? .........17 Glossário .......................................................................................................................... 19 Referências ..................................................................................................................... 21 Módulo 2 – Os migrantes no direito internacional 22 Unidade 1: O que são os instrumentos internacionais de direitos humanos? ................................................................................................. 22 Unidade 2: Os direitos humanos dos migrantes ................................................ 24 Unidade 3: Desafios na proteção dos direitos humanos dos migrantes .........26 Unidade 4: O princípio da não devolução ........................................................... 27 Unidade 5: O direito de solicitar refúgio ............................................................. 31 Unidade 6: A proibição da expulsão coletiva ...................................................... 32 Glossário .......................................................................................................................... 34 Referências ...................................................................................................................... 35 Módulo 3 – Direitos dos imigrantes na legislação brasileira 36 Unidade 1: Os migrantes na Constituição Federal de 1988 ..............................37 Unidade 2: A Lei de Migração ............................................................................... 38 2.1 Princípios orientadores da Lei de Migração ................................................. 38 2.2 Garantias da Lei de Migração ......................................................................... 40 Unidade 3: A Lei de Refúgio .................................................................................. 45 Unidade 4: Os apátridas na legislação brasileira ............................................... 48 Unidade 5: O enfrentamento ao tráfico de pessoas e ao trabalho escravo ...50 Unidade 6: A regularização migratória no Brasil ............................................... 55 Unidade 7: Naturalização ..................................................................................... 64 Glossário .......................................................................................................................... 68 Referências ...................................................................................................................... 69 4Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Módulo 4 – Vulnerabilidades em contexto migratório Unidade 1: O conceito de vulnerabilidade .......................................................... 71 Unidade 2: Fatores individuais ............................................................................. 74 Unidade 3: Fatores familiares .............................................................................. 75 Unidade 4: Fatores comunitários ......................................................................... 76 Unidade 5: Fatores estruturais ............................................................................ 77 Unidade 6: O Modelo de Determinantes da Vulnerabilidade de Migrantes ...78 Unidade 7: Na origem, em trânsito e no destino ............................................... 80 Unidade 8: Vulnerabilidade à violência, exploração e abuso ...........................82 8.1 Violência contra mulheres e meninas em contextos de mobilidade ........ 82 8.2 Exploração laboral ........................................................................................... 83 8.3 Tráfico de pessoas ........................................................................................... 84 Unidade 9: Proteção a migrantes em situação de vulnerabilidade .................86 Unidade 10: Princípios orientadores na assistência a imigrantes em situação de vulnerabilidade ........................................................................... 88 Glossário .......................................................................................................................... 90 Referências ..................................................................................................................... 91 Módulo 5 – Atendimento a imigrantes Unidade 1: Documentação .................................................................................... 92 Unidade 2: Acesso à saúde .................................................................................... 98 Unidade 3: Assistência social e moradia ........................................................... 101 Unidade 4: Acesso à educação ............................................................................ 103 Unidade 5: Trabalho e renda .............................................................................. 107 Unidade 6: Assistência jurídica e acesso à justiça ...........................................109 Unidade 7: Reunião familiar e soluções duradouras .......................................113 Glossário ........................................................................................................................ 115 Referências .................................................................................................................... 116 Módulo 6 – Direitos específicos Unidade 1: Introdução: Além do trabalhador migrante .................................117 Unidade 2: Migração e direitos da criança ........................................................ 118 Unidade 3: Migração e direitos das pessoas com deficiência .........................122 Unidade 4: Migração e direitos indígenas ......................................................... 123 Unidade 5: Migração e igualdade racial ............................................................ 125 Unidade 6: Migração e direitos das mulheres .................................................. 126 Unidade 7: Migração e direitos LGBTQIA+ ........................................................ 128 Unidade 8: Migrantes idosos .............................................................................. 129 Glossário ........................................................................................................................ 131 Referências .................................................................................................................... 133 5Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Olá! O curso Direitos dos imigrantes e orientações para o atendimento foi desenvolvido em 2020 pela Enap, em parceria com Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania (MDHC), estando alinhado à competência da Enap de capacitação e de desenvolvimento de servidores para a ética e a cidadania, assim como à missão do MDHC. O curso poderá contribuir para que os direitos das pessoas migrantes, refugiadas eapátridas sejam efetivamente conhecidos e respeitados no Brasil, e para que agentes públicos estejam orientados a atender essas pessoas de forma humanitária, acolhedora, inclusiva e livre de qualquer discriminação; ampliando, desse modo, a equidade social e a cidadania. O conteúdo foi estruturado em 6 módulos, a saber: Módulo 1 – Introdução às migrações internacionais Módulo 2 – Os migrantes no Direito internacional Módulo 3 – Direitos dos imigrantes na legislação brasileira Módulo 4 – Vulnerabilidades em contexto migratório Módulo 5 – Atendimento a imigrantes Módulo 6 - Direitos Específicos O objetivo do curso é oferecer conhecimento sobre a questão migratória internacional contemporânea, com destaque para o fluxo migratório direcionado ao Brasil, conforme os princípios e os instrumentos normativos internacionais e nacionais para a promoção, proteção e garantia de direitos humanos de pessoas migrantes, refugiadas e apátridas. Direitos autorais: As informações e opiniões emitidas nesta publicação são de exclusiva e inteira responsabilidade do(s) autor(es), não exprimindo, necessariamente, o ponto de vista da Escola Nacional de Administração Pública (Enap). É permitida a reprodução deste texto e dos dados nele contidos, desde que citada a fonte. Reproduções para fins comerciais são proibidas. Desejamos a você um ótimo curso! 6Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Módulo 1 Introdução às migrações internacionais A migração abarca uma grande variedade de situações. Os contextos de migração e deslocamento forçado podem ser traumáticos, tanto pelas condições no país de origem que levam à migração (guerras, conflitos, desastres naturais, perseguição)) quanto pelas condições da travessia que podem ser difíceis e inseguras, com riscos de violência, exploração e abuso. Situações traumáticas dão-se, também por eventos ocorridos na chegada ao país de destino, incluindo o medo de deportação ou de impedimento à entrada no país, a falta de meios de subsistência, adiscriminação e a xenofobia. Como aponta Cançado Trindade: Os testemunhos dos migrantes falam de sofrimentos no abandono das suas casas, por vezes com separação ou desagregação das famílias, perda de propriedade ou bens pessoais, arbitrariedade e humilhações de parte de autoridades de fronteira ou forças de segurança, gerando um sentimento permanente de injustiça. É importante também ter em mente que, apesar das dificuldades que podem caracterizar os processos migratórios, estes também têm um imenso potencial para beneficiar tanto os migrantes quanto às sociedades de acolhida e de origem. Nesse sentido, o desenvolvimento de capacidades para a acolhida de migrantes contribui para promover esse potencial. Assim, é preciso fortalecer as capacidades no atendimento a migrantes de maneira a promover a migração segura, ordenada e digna, que beneficie a todos (migrantes, comunidades de acolhida e comunidades de origem). Para você começar a se familiarizar com o assunto, sugerimos que escute os episódios do podcast “Rádio Orinoco”, que exploram os diálogos interculturais entre pessoas do Brasil e da Venezuela que vivem em Roraima. https://open.spotify.com/episode/6XEDH0zqiIqZWyRkHacupS 7Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 1: Quem são os migrantes internacionais? Identificar quem são os migrantes internacionais. Segundo a Organização Internacional para as Migrações (OIM), migrante é um termo guarda-chuva, sem definição específica no âmbito do Direito Internacional, que reflete o entendimento comum de uma pessoa que se move do seu local habitual de residência, dentro de um país ou por fronteiras internacionais, de forma temporária ou permanente, por uma variedade de razões. O termo inclui grupos bem definidos de pessoas, como trabalhadores migrantes(pessoas cuja situação jurídica é claramente definida), vítimas do tráfico de pessoas e migrantes contrabandeados, assim como aqueles cuja situação ou tipo de movimento não está especificamente definido no Direito Internacional, tais como estudantes internacionais. Assim, segundo essa definição, um migrante é qualquer pessoa que está se movimentando ou já se movimentou por uma fronteira internacional ou dentro de um Estado, saindo do seu lugar habitual de residência, independentemente: • Da situação jurídica da pessoa; • Se o deslocamento foi voluntário ou involuntário; • De quais foram os motivos para esse deslocamento; • Da duração da sua estadia. Isso deixa em evidência a grande diversidade de situações que as migrações representam. Eu sou migrante, mas ninguém espera que eu arrisque minha vida num barco avariado ou a cruzar um deserto num caminhão para encontrar trabalho fora do meu país. A migração segura não pode limitar-se à elite global. — António Guterres, secretário-geral da ONU. 8Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública A migração pode ocorrer dentro das fronteiras de um país ou através de fronteiras. Nesse último caso, trata-se de migrações internacionais. Essas migrações abarcam uma enorme quantidade de situações, desde trabalhadores que mudam de país por motivos laborais, estudantes de intercâmbio, pessoas que precisam migrar para fugir da fome ou de contextos de violência e conflito, diásporas, etc. As motivações são diversas e, na maioria das vezes, a migração responde a vários motivos interconectados. Esses deslocamentos podem ser voluntários ou involuntários, ou ainda uma mistura complexa entre ambas as situações. Migrantes venezuelanos esperam transporte para embarcar em voo da estratégia de interiorização do governo federal, em Boa Vista - RR. Créditos: Cláudia Giovannetti. O conceito de refugiado possui uma definição estabelecida no Direito Internacional para determinado conjunto de pessoas que precisam de proteção internacional. Especificamente, o conceito surgiu na Convenção relativa ao Estatuto dos Refugiados, conhecida como Convenção de 1951. É considerada refugiada a pessoa que, temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, se encontre fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país. Na América Latina, pela Convenção de Cartagena de 1984, e, no Brasil, pela Lei Nº 9.474, DE 22 DE JULHO DE 1997 (Lei de Refúgio), o termo também inclui pessoas que tenham fundado temor de retornar ao seu país devido a uma grave e generalizada violação de direitos humanos. 9Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública A Convenção das Nações Unidas relativa ao Estatuto dos Refugiados foi formalmente adotada em 28 de julho de 1951 para resolver a situação dos refugiados na Europa após a Segunda Guerra Mundial. Esse tratado global define quem vem a ser um refugiado e esclarece os direitos e deveres entre os refugiados e os países que os acolhem. https://www.acnur.org/portugues/convencao-de-1951/ Apátridas são pessoas que não são consideradas nacionais por nenhum Estado, segundo a sua legislação, ou seja, são pessoas sem nacionalidade específica l. Pessoas apátridas não são necessariamente migrantes. Essas pessoas podem ter nascido em situação de apatridia e permanecido nessa situação, mesmo sem ter se movimentado. No entanto, muitas vezes as situações de apatridia estão relacionadas à migração, por exemplo, quando filhos de migrantes não são reconhecidos nem pelo país que confere nacionalidade aos seus pais, nem pelo país em que nasceram. A apatridia pode resultar em situações de vulnerabilidade e em obstáculos significativos ao acesso a direitos. Por esses motivos, vários países no mundo, inclusive o Brasil, comprometeram-se a tomar medidas para eliminá-la. Por vezes, pessoas que se veem obrigadas a abandonar o seu local de origem ou de residência, porque temem pelas suas vidas, não chegam a cruzar uma fronteira internacional. Os motivos para esse tipo de deslocamento podem ser diversos,como é o caso de conflitos armados, situações de violência generalizada, violações de direitos humanos, desastres naturais ou provocados por ação humana, entre outros.Migrantes nessas situações são considerados pessoas em situação de deslocamento interno – elas não são migrantes internacionais, mas, em muitos casos, uma situação de deslocamento interno pode estar relacionada a uma situação de deslocamento internacional. Por fim, o conceito de diáspora refere-se a migrantes ou descendentes de migrantes cuja identidade e sentido de pertencimento, de forma real ou simbólica, foram marcadas pela sua experiência e histórico de migração. Eles mantêm vínculos com seus lugares de origem e entre si, com base em um sentimento de ter uma história compartilhada, identidadeou experiências compartilhadas no local de destino. Assista ao vídeo “Rostos familiares, lugares inesperados: uma diáspora africana global” para saber mais sobre a temática. https://www.acnur.org/portugues/convencao-de-1951/ https://www.youtube.com/watch?v=g1BceeLjIRo https://www.youtube.com/watch?v=g1BceeLjIRo 10Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Vídeo 1 – “Rostos familiares, lugares inesperados: uma diáspora africana global” Duração: 31:52 Fonte: ONU Brasil - Documentário da cineasta e antropóloga cultural Dra. Sheila S. Walker que conta como centenas de milhares de africanos foram arrancados de sua terra natal durante anos ao longo da escravidão. https://www.youtube.com/watch?v=g1BceeLjIRo https://www.youtube.com/watch?v=g1BceeLjIRo 11Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 2: Qual é a dimensão das migrações internacionais? Indicar a dimensão das migrações internacionais. Antes dos impactos causados pela pandemia da COVID-19 nos fluxos migratórios, o número de migrantes internacionais vinha crescendo de forma consistente nas duas últimas décadas. Em 2020, segundo os dados do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais das Nações Unidas, os migrantes internacionais somavam cerca de 281 milhões de pessoas. Esse número equivale a 3,6% da população mundial. Se o conjunto de migrantes internacionais fosse a população de um país, este seria o quinto mais populoso do mundo. Desses migrantes, estima-se que 264,4 milhões são refugiados e 4,1 milhões são solicitantes de refúgio. Calcula-se que cerca de 89,4 milhões de pessoas estão em situação de deslocamento forçado, interno ou internacional. De acordo com o Relatório Global sobre Deslocamentos Internos de 2023, no ano de 2022 verificaram-se cerca de 32,6 milhões de deslocamentos internos relacionados a desastres, sendo a maioria relacionados a fenômenos meteorológicos, tais como enchentes (19,2 milhões de deslocamentos) e tempestades (9,9 milhões de deslocamentos). Os deslocamentos relacionados a desastres, em 2022, foram 41% superiores à média anual dos últimos 10 anos. O impacto econômico positivo das migrações também é considerável. As remessas – o dinheiro enviado pelos migrantes às suas famílias e comunidades no país de origem – estão estimadas em cerca de 702 bilhões de dólares apenas no ano de 2020. No mesmo ano, segundo o World Migration Report (2022), o Brasil foi o país que mais enviou remessas na América Latina e Caribe, com 1,6 bilhões de dólares Para alguns países, as remessas recebidas têm um impacto ainda maior no PIB e na vida das comunidades. A América do Sul acolhe mais de 10,9 milhões de migrantes internacionais, que compõem cerca de 2,5% da população do continente. O gráfico a seguir representa como estão distribuídos esses migrantes pelos diferentes países. Assim, vê-se que a Argentina (2,28 milhões é o principal local de residência dos migrantes internacionais que vivem na região, seguida pela Colômbia (1, 91 milhões) e Chile (1,65 milhões). O Brasil aparece em 6º lugar, depois do Peru (1,22 milhões), com cerca de 1,08 milhões de migrantes internacionais. 12Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Gráfico sobre migrantes internacionais na América Latina. Fonte: Elaboração própria com dados da UN-DESA: Divisão de População das Nações Unidas, Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais, 2021. No entanto, de forma geral, quase todos os países do continente tiveram mais emigrantes do que imigrantes em 2020, isto é, em quase toda a América do Sul, o número de pessoas que foram viver fora de seus países de nacionalidade (emigrantes) é maior do que o número de pessoas de outras nacionalidades que vieram viver nesses países (imigrantes), como se pode ver no gráfico a seguir. No caso do Brasil, os brasileiros que emigraram em 2020 foi maior do que oss imigrantes que o país recebeu. Exceções a essa tendência são a Argentina e o Chile, que receberam mais imigrantes em 2020 do que os argentinos e chilenos que emigraram. 13Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 20 principais países de migração na América Latina. Fonte: OIM (2019). "World Migration Report 2020". https://publications.iom.int/system/files/pdf/wmr_2020.pdf. Acesso em: 9 nov. 2020. As tendências de deslocamentos internos na região provocados por desastres e conflitos são também expressivas na região. Enquanto El Salvador e Colômbia tiveram, em 2020, centenas de milhares de pessoas forçosamente deslocadas de seus locais de residência por conflitos, na maioria dos demais países, os deslocamentos forçados deram-se principalmente por consequência de desastres. O Brasil foi o 3º país com mais pessoas afetadas por deslocamentos forçados devido a desastres naturais em 2020, quando cerca de 358 mil pessoas foram obrigadas a abandonar seus locais habituais de residência por essa razão. https://publications.iom.int/system/files/pdf/wmr_2020.pdf 14Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Deslocamentos internos por desastres e conflitos na América Latina. OIM (2019). "World Migration Report 2020". https://publications.iom.int/system/files/pdf/wmr_2020.pdf. Acesso: 9 nov. 2020. Agora, assista ao vídeo: "Crise do Clima: Panamá", para saber mais: Vídeo 2 – "Crise do Clima: Panamá". Duração: 05:50 Fonte: TV Folha - “Como as mudanças climáticas estão forçando indígenas a abandonarem suas ilhas.” 22 abr. 2018. https://publications.iom.int/system/files/pdf/wmr_2020.pdf https://www.youtube.com/watch?v=NR0yj4iVub4&list=PLEU7Upkdqe7E93XqZVZSMfGjEuuP68pdh&index=1 https://www.youtube.com/watch?v=NR0yj4iVub4&list=PLEU7Upkdqe7E93XqZVZSMfGjEuuP68pdh&index=1 15Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 3: A situação jurídica das pessoas migrantes Reconhecer a situação jurídica das pessoas migrantes. Ao longo do processo migratório, a situação jurídica da pessoa pode ser alterada. Ela pode, por exemplo, chegar ao país com um visto de turista e depois pedir uma autorização de residência, ou começar um processo de naturalização no seu país de destino. Naturalização é o processo pelo qual uma pessoa migrante internacional solicita a nacionalidade do país de residência. Por vezes, os migrantes permanecem durante algum período (ou mesmo durante toda a sua estadia) sem ter uma autorização formal para residir ou trabalhar no país. A situação jurídica é um aspecto importantíssimo da experiência das pessoas migrantes, uma vez que pode impactar o acesso a direitos, a serviços e à cidadania no país de residência. No entanto, é importante saber que as pessoas migrantes têm direitos inalienáveis, que são independentes da sua situação jurídica. O conjunto de instrumentos de direitos humanos que abordaremos no Módulo 2 protege a todas as pessoas sem discriminação alguma, o que significa que nenhuma pessoa pode ser discriminada por causa da sua nacionalidade ou de sua situação migratória. No Brasil, as pessoas migrantes têm também garantidos os seus direitos pela Constituição Federal de 1988, pela Lei de Migração, entre outras referências. O Módulo 3 apresentará esses direitos, além de abordar as principais formas de regularizaçãomigratória no Brasil. Por fim, alguns migrantes têm também direitos específicos, a exemplo das crianças migrantes. Abordaremos esse tema no Módulo 6. E os migrantes ilegais? A expressão "migrantes ilegais" disseminou-se ao longo dos últimos anos, fazendo uma referência difusa a pessoas que, presumidamente, não têm autorização para estar em um determinado país. A expressão passou a estar associada a uma forte carga negativa, gerando um estigma, e, por vezes, é inclusive entendida como uma situação 16Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública inalterável. Apesar da sua ampla disseminação, a expressão é incorreta: nenhuma pessoa pode ter a sua existência declarada ilegal. Assim, a forma correta de referir-se à situação da pessoa migrante no país onde se encontra é situação administrativa regular ou irregular. Migrantes em situação irregular podem estar em uma ou mais das seguintes situações. Em muitos casos, os migrantes internacionais transitam entre situações administrativas regulares ou irregulares, por exemplo devido a mudanças na sua situação pessoal, na legislação do país de acolhida, na situação do país de origem, por força de tratados bilaterais entre ambos os países, entre vários outros motivos. Assista aos dois vídeos a seguir: “Histórias de Venezuelanos no Brasil - 1” e “Histórias de Venezuelanos no Brasil - 2”. Vídeo 3 – “Histórias de Venezuelanos no Brasil - 1”. Duração: 01:50. Fonte: OIM, 16 out. 2019. Vídeo 4 – “Histórias de Venezuelanos no Brasil - 2”. Duração: 01:55. Fonte: OIM, 16 out. 2019. https://www.youtube.com/watch?v=9ZHhxFOArus&feature=emb_logo https://www.youtube.com/watch?v=vfKHZ02y_0w&feature=emb_logo https://www.youtube.com/watch?v=vfKHZ02y_0w&feature=emb_logo https://www.youtube.com/watch?v=9ZHhxFOArus&feature=emb_logo https://www.youtube.com/watch?v=vfKHZ02y_0w&feature=emb_logo 17Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 4: Onde encontrar dados sobre as migrações internacionais? Identificar dados sobre as migrações internacionais. Caso você queira pesquisar mais sobre migrações internacionais, há várias fontes de dados que podem ser consultadas. A seguir, você encontra alguns lugares por onde começar. No Brasil, os dados sobre migrantes internacionais são compilados pela Polícia Federal e trabalhados pelo Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra) da Universidade de Brasília (UnB). O OBMigra, que é fruto de uma parceria entre a UnB e o governo federal, lança, todos os anos, um relatório com os dados atualizados sobre migrações internacionais no Brasil. Como agência líder no tema das migrações, a Organização Internacional para as Migrações publica vários dados e resultados de pesquisas sobre migrações. A OIM consolida informações de várias fontes diferentes no Portal de Dados sobre Migrações. Nos países em que essa organização atua, são aplicadas também as Pesquisas de Monitoramento de Deslocamentos (DTM). A OIM é a única organização a consolidar e monitorar os dados de migrantes desaparecidos durante o trajeto migratório por meio do Projeto”Migrantes Desaparecidos” (Missing Migrants Project). Também produz, junto a diversos parceiros, dados sobre tráfico de pessoas. A organização conta ainda com uma biblioteca virtual de livre acesso. A nível internacional, a Organização das Nações Unidas (ONU) publica diversos dados sobre migrações. A principal referência são os dados da Divisão de População, do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais (UN-DESA), que consolida as informações nacionais fornecidas por todos os Estados-membros da ONU. Os dados podem ser acessados livremente. Outras agências das Nações Unidas produzem dados e estudos sobre temas relacionados à migração. O Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR) monitora e consolida os dados sobre refugiados, solicitantes de refúgio, pessoas em situação de deslocamento interno e apátridas, incluindo informações sobre os seus trajetos. https://portaldeimigracao.mj.gov.br/pt/publicacoes-obmigra/publicacoes-do-obmigra https://migrationdataportal.org/ https://migrationdataportal.org/ https://missingmigrants.iom.int/ https://www.iom.int/counter-trafficking https://publications.iom.int/ https://www.un.org/en/development/desa/population/migration/data/estimates2/estimates19.asp https://www.un.org/en/development/desa/population/migration/data/estimates2/estimates19.asp https://www.un.org/en/development/desa/population/migration/data/estimates2/estimates19.asp https://www.unhcr.org/figures-at-a-glance.html 18Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF) publica pesquisas e dados sobre crianças migrantes, destacando-se o relatório A Child is a Child, de 2017. A Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) dedicou o seu relatório anual de 2018 aos desafios para a educação de crianças e adultos migrantes e refugiados. Para encontrar os dados mencionados acima clique nos links das referidas instituições: 1. Observatório das Migrações Internacionais (OBMigra): • https://portaldeimigracao.mj.gov.br/pt/dados/1715- obmigra 2. Organização Internacional para as Migrações (OIM): • https://brazil.iom.int/pt-br/dados-e-informacoes 3. Divisão de População, Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU (UN-DESA): • https://news.un.org/pt/tags/desa 4. Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR): • https://www.acnur.org/portugues/publicacoes/ 5. Fundo das Nações Unidas para a Infância (UNICEF): • https://www.unicef.org/brazil/painel-de-dados https://www.unicef.org/publications/index_95956.html https://unesdoc.unesco.org/ark:/48223/pf0000265996_por https://portaldeimigracao.mj.gov.br/pt/dados/1715-obmigra https://portaldeimigracao.mj.gov.br/pt/dados/1715-obmigra https://brazil.iom.int/pt-br/dados-e-informacoes https://www.un.org/en/development/desa/population/migration/data/estimates2/estimates19.asp https://www.un.org/en/development/desa/population/migration/data/estimates2/estimates19.asp https://news.un.org/pt/tags/desa https://www.unhcr.org/figures-at-a-glance.html https://www.acnur.org/portugues/publicacoes/ https://www.unicef.org/brazil/painel-de-dados 19Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Glossário Verbete Palavra associada Definição/Significado Migrante Migração Um termo guarda-chuva, sem definição no âmbito do Direito Internacional, que reflete o entendimento comum de uma pessoa que se move do seu local habitual de residência, seja dentro de um país ou através de fronteiras internacionais, de forma temporária ou permanente, por uma variedade de razões. O termo inclui um número de categorias bem definidas de pessoas, tais como trabalhadores migrantes, pessoas cujos tipos particulares de movimento são legalmente definidos, tais como migrantes que cruzaram fronteiras por intermédio do contrabando de migrantes, assim como aqueles cuja situação ou tipo de movimento não estão especificamente definidos no Direito Internacional, tais como estudantes internacionais. Refugiado/a Uma pessoa que se encontra fora do seu país de origem e que: Temendo ser perseguida por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas, se encontra fora do país de sua nacionalidade e que não pode ou, em virtude desse temor, não quer valer-se da proteção desse país. Não tem nacionalidade e se encontra fora do país no qual tinha a sua residência habitual, não pode ou, devido ao referido temor, não quer voltar a ele. Devido à grave e generalizada violação de direitos humanos é obrigada a deixar o seu país de nacionalidade, para buscar refúgio em outro país. 20Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Verbete Palavra associada Definição/Significado Diáspora Migrantes ou descendentes de migrantes cuja identidade e sentido de pertencimento, real ou simbólico, foram marcados pela sua experiência migratória ehistória. Essas pessoas mantêm vínculos com seu lugar de origem e entre membros da diáspora, com base em um sentido compartilhado da história, identidade ou experiências mútuas no país de destino. Apátrida Uma pessoa que não é considerada sua nacional por nenhum Estado, conforme a sua legislação. Emigrante Uma pessoa que se move do seu país de nacionalidade ou residência habitual para outro país, o qual se torna efetivamente o seu novo país de residência habitual. 21Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Referências UNHCR - The UN Refugee Agency. 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Acesso em: 09 nov. 2020. Os migrantes no direito internacional Neste módulo, serão apresentados alguns dos principais instrumentos de direitos humanos e conceitos importantes para a garantia dos direitos dos migrantes, como o princípio da não devolução, o direito a pedir refúgio e a proibição das expulsões coletivas. Esses instrumentos e conceitos são fruto de um desenvolvimento do Direito Internacional de Direitos Humanos que tem ao menos sete décadas. O Brasil foi parte ativa na construção desse marco internacional de direitos humanos e, ao longo dos anos, os legisladores no país incorporaram vários desses desenvolvimentos no direito doméstico brasileiro. A Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017), por exemplo, internaliza vários importantes conceitos do Direito Internacional dos Direitos Humanos e do Direito Internacional dos Refugiados. Unidade 1: O que são os instrumentos internacionais de direitos humanos? Identificar os instrumentos internacionais de direitos humanos. Antes de entrarmos no tema dos direitos dos migrantes, é importante entender o que são os instrumentos internacionais de direitos humanos e como eles funcionam. Os instrumentos internacionais de direitos humanos são o marco normativo que orienta a atuação dos países em termos de direitos humanos. Eles são fruto da cooperação dos Estados para a construção conjunta de normas, às quais os países aderem de forma voluntária. Assim, surgem do diálogo, das negociações e da cooperação entre os países, que escolhem se comprometer com os acordos alcançados. A participação dos Estados nos diversos instrumentos internacionais de direitos humanos resulta em um compromisso assumido frente aos seus próprios cidadãos, Módulo 2 https://publications.iom.int/system/files/pdf/global_migration_indicators_2018.pdf 23Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública às pessoas sob sua jurisdição e à comunidade internacional. Em geral, esses instrumentos são acordos formais que geram obrigações para os países que aderem a eles (MAZZUOLI, 2015). O direito internacional dos direitos humanos inspirou as constituições e a construção democrática em muitos Estados nas últimas décadas, inclusive no Brasil e na América Latina (TRINDADE, 1996). No caso brasileiro, a Emenda Constitucional nº 45, de 30 de dezembro de 2004, reforça esse compromisso ao estabelecer que tratados e convenções internacionais de direitos humanos aos quais o país tenha aderido passam a ser equivalentes às emendas constitucionais, quando aprovados por maioria qualificada no Congresso Nacional. Outras leis brasileiras incorporam princípios do Direito Internacional e mencionam a adesão aos direitos previstos nos instrumentos internacionais de direitos humanos. Além dos instrumentos internacionais, o direito internacional consuetudinário (também referido como “costume internacional") cria obrigações para os Estados, na medida em que representam normas que são de prática geral e consistente por parte dos mesmos. Ou seja, práticas comuns que são aceitas e estabelecidas de tal maneira que são consideradas obrigações legais Para que um costume possa ser considerado como tal é preciso que se verifiquem dois elementos: a prática reiterada e consistente pelos Estados, e a aceitação da prática pelos Estados. Esse conjunto de fatores cria a obrigação do país de obedecer a determinado costume, que pode ser regional ou internacional. Os instrumentos internacionais de direitos humanos estabelecem que os direitos humanos são inerentes a todos os seres humanos, independentemente de gênero, etnia, idioma, nacionalidade, situação migratória ou qualquer outra condição. A seguir, estudaremos alguns instrumentos internacionais de direitos humanos e sua relação com a migração. 24Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 2: Os direitos humanos dos migrantes Reconhecer os direitos humanos dos migrantes. A Declaração Universal dos Direitos Humanos é o mais importante dos instrumentos de direitos humanos. Ela estabelece, no artigo 1º, que todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Conheça um pouco mais sobre os direitos garantidos na Declaração no vídeo: Vídeo 5 – “Há 70 anos: adotada a Declaração Universal dos Direitos Humanos”. Duração: 06:03 Fonte: ONU Brasil (2018). O artigo 2º esclarece que a Declaração protege a todas as pessoas sem distinção alguma de origem nacional; incluindo, portanto, a situação migratória.O mesmo artigo explicita que nenhuma distinção pode basear-seno status político, jurídico ou internacional do país ou território de naturalidade da pessoa em questão. Art. 1º. Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade. Art. 2º. Todos os seres humanos podem invocar os direitos e as liberdades proclamados na presente Declaração, sem distinção alguma, nomeadamente de raça, de cor, de sexo, de língua, de religião, de opinião política ou outra, de origem nacional ou social, de fortuna, de nascimento ou de qualquer outra situação. Além disso, não será feita nenhuma distinção fundada no estatuto político, jurídico ou internacional do país ou do território da naturalidade da pessoa, seja esse país ou território independente, sob tutela, autônomo ou sujeito a alguma limitação de soberania. Art. 3º. Todo o indivíduo tem direito à vida, à liberdade e à segurança pessoal. https://www.ohchr.org/EN/UDHR/Pages/Language.aspx?LangID=por https://www.youtube.com/watch?v=SJy1M4iYiMo https://www.youtube.com/watch?v=SJy1M4iYiMo 25Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública As obrigações dos Estados não se limitam a seus cidadãos, abarcando todas as pessoas sob a sua jurisdição, ou seja, os países têm obrigações de proteger os direitos humanos em relação aos seus nacionais e a qualquer pessoa que esteja em seu território. Também não dependem da situação administrativa da pessoa migrante, pois mesmo que ela não esteja em posse de uma autorização de residência, um visto ou qualquer outra forma de regularização da sua situação no país, seus direitos humanos devem ser garantidos. Nas Américas, essa situação foi reafirmada na Convenção Americana de Direitos Humanos, também conhecida como Pacto de San José da Costa Rica, de 1969. No seu preâmbulo, a Convenção explicita que "os direitos essenciais da pessoa humana não derivam do fato de ser ela nacional de determinado Estado, mas sim do fato de ter como fundamento os atributos da pessoa humana". Decreto Nº 678, de 6 de novembro de 1992, que promulga a Convenção Americana sobre Direitos Humanos (Pacto de São José da Costa Rica), de 22 de novembro de 1969. https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d0678.htm http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/sanjose.htm http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/sanjose.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto/d0678.htm 26Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 3: Desafios na proteção dos direitos humanos dos migrantes Indicar os desafios na proteção dos direitos humanos dos migrantes. Ainda existem muitos desafios para a plena garantia dos direitos humanos das pessoas migrantes ao longo de todo o ciclo migratório. Por exemplo, migrantes em situação administrativa irregular podem estar mais vulneráveis à discriminação, à exploração e ao abuso. As violações dos direitos humanos dos migrantes por vezes incluem situações de detenção arbitrária ou garantias insuficientes de acesso ao devido processo legal. Agora, assista ao vídeo em que homens com diferentes histórias e origens se amontoam em pequenos grupos à espera de um sinal, entre matas e plantações no norte da Sérvia: Vídeo 6 – "Especial Um Mundo de Muros – Sérvia e Hungria". Duração: 11:45 Fonte: TV Folha (2017). Além de os direitos humanos serem garantias inerentes a todas as pessoas, existem algumas obrigações dos Estados que são específicas à proteção dos não nacionais. Entre elas, destacam-se a obrigação de não devolução (também conhecida como non-refoulement), o direito a solicitar refúgio e a proibição da expulsão coletiva de migrantes. https://www.youtube.com/watch?v=lt_nt4UUmbM 27Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 4: O princípio da não devolução Conceituar o princípio da não devolução O princípio da não devolução (non-refoulement) foi descrito pela primeira vez na Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados de 1951 e, ao longo do tempo, passou a ser incorporado em outros instrumentos internacionais de direitos humanos. Hoje em dia, a obrigação de não devolução é considerada uma norma peremptória (jus cogens) tanto em nível regional quanto internacional, criando,portanto, obrigações a todos os Estados. Em sua redação original, o princípio da não devolução se referia especificamente a refugiados e foi definido da seguinte maneira: “Nenhum Estado-parte pode expulsar ou devolver (‘refouler') um refugiado de qualquer maneira para as fronteiras de territórios onde a sua vida ou liberdade possa estar ameaçada devido à sua raça, nacionalidade, participação em um grupo social específico ou opinião política" (Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados, Artigo 33). Apesar de o princípio da não devolução surgir originalmente como uma proteção aos refugiados, com o desenvolvimento do Direito Internacional, esse princípio passa a constituir-se uma obrigação dos Estados com respeito a todos os não nacionais. Segundo a OIM (2014), isso ocorre porque o princípio da não devolução é considerado essencial para a proteção dos direitos humanos, em especial: + Direito à vida O princípio da não devolução impede um Estado de devolver qualquer pessoa a um país onde o seu direito à vida possa estar ameaçado por situações como a imposição da pena de morte ou o risco de execuções extrajudiciais. A proteção do direito à vida também tem uma vinculação especial com questões de saúde, em especial quando uma pessoa precisa de tratamento de saúde o qual ela não poderá acessar caso seja retornada para outro país. Segundo a Corte Interamericana de Direitos Humanos, "a expulsão ou devolução de uma pessoa poderia considerar-se violatória das obrigações 28Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública internacionais, dependendo das circunstâncias concretas da pessoa em particular, nos casos em que essa medida leve à afetação ou deterioro grave da saúde da mesma, ou inclusive possa resultar na sua morte". + Direito à proteção contra a tortura e o tratamento cruel, desumano e degradante A proibição da tortura e do tratamento cruel, desumano e degradante é garantida em muitos instrumentos internacionais e regionais de direitos humanos. Essa proibição é absoluta, ou seja, não admite nenhuma exceção. Por isso, a devolução de qualquer pessoa a um país onde ela possa estar sujeita à tortura ou a qualquer tipo de tratamento desumano e degradante também é absolutamente proibida. Assim como ocorre com o direito à vida, o direito à proteção contra o tratamento cruel, desumano e degradante tem uma vinculação especial com questões de saúde. Dessa maneira, uma pessoa com condições graves de saúde não pode ser retornada a um país onde a falta de acesso a um tratamento de saúde do qual necessita implique na sua exposição a uma situação cruel, desumana ou degradante. + Proteção contra a escravidão e o trabalho forçado A proteção contra a escravidão e o trabalho forçado também pode ser acionada para justificar a aplicação do princípio de não devolução, mas é comum que esses casos também possam ser contemplados pela proteção contra o tratamento cruel, desumano e degradante. Perceba que aqui as proteções se somam. + Direito ao devido processo legal O risco de obstáculos flagrantes ao direito ao devido processo legal pode levar à proibição de devolução de uma pessoa a outro Estado. Esse risco é particularmente importante onde existe a possibilidade de que a pessoa em questão seja condenada à pena de morte. Assim como ocorre com a proteção contra a escravidão e o trabalho forçado, esse aspecto tende a ser contemplado pelo direito à vida e à proteção contra a tortura e outras formas de tratamento cruel, desumano e degradante. + Liberdade de pensamento, consciência e religião O direito à liberdade de pensamento, consciência e religiãotambém pode ser protegido pelo princípio da não devolução, embora a proteção desse direito em situações de devolução frequentemente esteja relacionada com o direito à vida e à proteção contra a tortura e outros tipos de tratamento cruel, desumano e degradante. + Proibição dos desaparecimentos forçados A Convenção Internacional para a Proteção de Todas as Pessoas contra os Desaparecimentos Forçados explicita, de maneira similar a outras 29Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública obrigações de não devolução, que "nenhum Estado-parte pode devolver (‘refouler’), entregar ou extraditar uma pessoa para outro Estado em que existam motivos substanciais para acreditar que ela possa estar em risco de ser submetida a desaparecimento forçado”. + Proteções específicas para crianças e adolescentes Além de todas as proteções listadas anteriormente, que também se aplicam as crianças e adolescentes o princípio da não devolução protege direitos específicos das crianças e dos adolescentes migrantes. Assim, um Estado não pode devolver uma criança ou um adolescente a um país onde haja exposição a um risco de dano irreparável. Crianças e adolescentes só podem ser retornados a outro país quando isso obedecer estritamente ao seu superior interesse. Igualmente, os Estados são proibidos de retornar qualquer criança ou adolescente às fronteiras de um Estado no qual haja risco de recrutamento para participação em conflitos armados. Esse recrutamento inclui não apenas a participação como combatentes, mas também em todo tipo de prestação de serviços para grupos armados que impliquem uma participação indireta nas hostilidades, incluída a prostituição. É importante notar que essa proteção não se aplica apenas nos casos em que o recrutamento é feito por parte do Estado, mas também quando é feito por parte de atores não estatais. Assim, o princípio proíbe os Estados de devolver qualquer pessoa a um território ou país no qual a sua vida, integridade física, dignidade ou liberdade possam estar ameaçadas, ou no qual ela corra o risco de ser submetida à tortura ou ao tratamento cruel, desumano ou degradante. O caráter obrigatório do princípio de não devolução significa, ainda, que nenhuma exceção pode ser invocada para justificar o descumprimento dessa obrigação ou a limitação da sua aplicação. Também é importante notar que, pelo caráter absoluto do princípio da não devolução, preocupações com a segurança nacional, mesmo que legítimas, não podem ser invocadas para limitar a sua aplicação, sendo necessário nesses casos encontrar soluções alternativas que incluam tanto a segurança nacional quanto a plena proteção dos direitos humanos da pessoa em questão. Essa característica deriva da proibição absoluta das violações de direitos que a não devolução visa evitar, como as situações de perseguição, as ameaças à vida e à dignidade, a tortura, os desaparecimentos forçados, entre outros. 30Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Assim, o princípio da não devolução é uma obrigação dos Estados com relação a todos os não nacionais, sejam eles refugiados, solicitantes de refúgio, migrantes com situação regular ou irregular, pessoas em trânsito pelo país, solicitantes de refúgio cujo pedido foi indeferido, entre outros. Essa obrigação não está vinculada à condição migratória da pessoa no país, portanto, não gera uma obrigação de que o migrante faça um pedido de refúgio e nem dependa do reconhecimento desse pedido. A proteção independe da situação migratória da pessoa no país, da sua capacidade ou intenção de obter o estatuto de refugiado, ou da maneira como a pessoa cruzou fronteiras (IOM, 2014). O princípio da não devolução está presente em vários instrumentos internacionais de direitos humanos, dos quais um grande número de Estados é parte, e é reconhecido como um dos pilares do Direito Internacional dos Direitos Humanos e do Direito Internacional dos Refugiados. Em nível regional, foi incluído explicitamente no artigo 22.8 do Pacto de San José: 8. Em nenhum caso o estrangeiro pode ser expulso ou entregue a outro país, seja ou não de origem, onde seu direito à vida ou à liberdade pessoal esteja em risco de violação em virtude de sua raça, nacionalidade, religião, condição social ou de suas opiniões políticas. Vale a pena mencionar ainda que a redação do Pacto de San José utiliza a palavra estrangeiros, e não refugiados, com o objetivo de ampliar a proteção a todas as pessoas que são não nacionais de um Estado; incluindo, portanto, migrantes, refugiados, pessoas em trânsito, etc. Também está proibida a devolução de uma pessoa a um terceiro país que possa vir a enviá-la a outro onde ela estaria exposta a essas violações de direitos. A obrigação de não devolução inclui a não devolução indireta. Da mesma maneira, os Estados têm a obrigação de não rejeitar em suas fronteiras qualquer pessoa que, como consequência dessa rejeição, possa estar exposta a qualquer das violações de direitos que tratamos anteriormente. A rejeição de qualquer pessoa não nacional nas fronteiras de um Estado só pode ocorrer após uma análise cuidadosa, que indique não haver risco de violações de direitos da pessoa em questão no caso de ela ser devolvida ao país de origem. Embora essa situação não seja equivalente a uma obrigação de admissão da pessoa no país, em alguns casos, a admissão pode ser inevitável. 31Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 5: O direito de solicitar refúgio Identificar o direito de solicitar refúgio. O direito de buscar e receber refúgio está previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos, que garante a toda a pessoa sujeita à perseguição o direito a buscar e receber refúgio em outros países (artigo 14). Esse direito foi articulado em detalhe na Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados, de 1951, a qual define a condição jurídica de refugiados e estabelece a proteção internacional dessas pessoas. Enquanto noção de proteção, no entanto, o direito a buscar refúgio é mais antigo e remonta a épocas muito anteriores à Segunda Guerra Mundial. Este direito, além do direito de deixar um país (art. 13) e do direito à nacionalidade (art. 15), pode ser traçado diretamente aos eventos do Holocausto. Muitos países cujos redatores trabalharam na Declaração Universal dos Direitos Humanos estavam cientes de que haviam rejeitado muitos refugiados judeus, possivelmente condenando-os à morte. Além disso, muitos judeus, roma (ciganos) e outros perseguidos pelos nazistas não conseguiram fugir da Alemanha para salvar suas vidas. O direito a buscar refúgio, tal como definido tanto na Declaração Universal dos Direitos Humanos quanto na Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados e em outros instrumentos, não é irrestrito, não podendo ser utilizado por pessoas que cometeram atividades contrárias aos fins e princípios das Nações Unidas ou que pretendem evadir um processo existente por crime de direito comum (artigo 14). Cabe ainda lembrar que toda pessoa tem direito a solicitar refúgio e a ter o seu pedido analisado de maneira individual e de boa-fé, mas isso não implica automaticamente em um reconhecimento da condição de refugiado. O reconhecimento pode acontecer ou não, dependendo se a pessoa que o solicita cumpre os critérios da definição de refugiado. 32Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 6: A proibição da expulsão coletiva Reconhecer a proibição da expulsão coletiva. Embora todos os Estados possam decidir sobre a admissão de não nacionais no seu território, e essa decisão inclua a possibilidade de definir sobre expulsão de não nacionais, tal capacidade encontra alguns limites no Direito Internacional dos Direitos Humanos. O Pacto de San José explicitamente proíbe a expulsão coletiva de migrantes, no artigo 22.9: 9. É proibida a expulsão coletiva de estrangeiros. A expulsão coletiva é a retirada compulsória de um grupo de migrantes, sem passar pela devida apreciaçãodos casos individuais de cada um dos migrantes do grupo. Muitos termos podem ser usados pelos Estados para se referirem às expulsões: deportação, repatriação, "remoção", entre outros. Diversos instrumentos internacionais e regionais proíbem explicitamente a expulsão coletiva, e esta também está relacionada com o princípio da não devolução, uma vez que para esse princípio ser respeitado é preciso fazer uma avaliação individual dos possíveis riscos para cada uma das pessoas de um grupo. Portanto, não se justifica a expulsão coletiva pelo fato de todas as pessoas de um mesmo grupo estarem no país sem autorização de residência, visto ou outra forma de regularização migratória: cada uma tem sempre o direito a que o seu caso seja considerado individualmente. Na América Latina, também se entende que a proibição da expulsão coletiva deriva do direito ao devido processo legal, garantido por diversos instrumentos de direitos humanos. Nesse sentido, ao considerar a expulsão de um grupo de migrantes, é obrigatório analisar, com a necessária boa-fé e diligência, todas as circunstâncias individuais que podem apontar contra a expulsão de cada um dos indivíduos do grupo. 33Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Também vale a pena notar que, no sistema interamericano, a expulsão não pode ser feita sem a devida análise individual com a justificativa de que o grupo em questão tenha características homogêneas de nacionalidade, raça, grupo étnico ou quaisquer outras, dado que o artigo 22.9 não coloca esse requisito. Em vista disso, a proibição se refere sempre à expulsão (ou não admissão) sem a necessária consideração de todas as características individuais de cada uma das pessoas do grupo. É importante esclarecer que a proibição da expulsão coletiva não impede a expulsão de várias pessoas ao mesmo tempo, sempre que cada um dos membros do grupo tenha tido o seu caso considerado e decidido de maneira individual. PACTO GLOBAL PARA UMA MIGRAÇÃO SEGURA, ORDENADA E REGULAR O Pacto Global para uma Migração Segura, Ordenada e Regular é o primeiro acordo negociado entre governos, elaborado sob os auspícios das Nações Unidas, que abrange as dimensões da migração internacional de forma holística e ampla. Apresenta uma oportunidade significativa para melhorar a governança da migração, enfrentar os desafios associados à migração atual e fortalecer a contribuição dos migrantes e da migração para o desenvolvimento sustentável. O Pacto Global é enquadrado de forma consistente com a meta 10.7 da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, por meio da qual os Estados-membros se comprometem a cooperar internacionalmente para facilitar a migração segura, ordenada e regular. O Pacto Global, adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas em 2018, é um documento não vinculante (também conhecido como soft law), que respeita o direito soberano dos Estados de determinar quem entra e permanece no seu território e demonstra o compromisso com a cooperação internacional em matéria de migração. Esse instrumento está ancorado no Direito Internacional e apresenta diversos objetivos que são parte do Direito Internacional Consuetudinário (costumes internacionais). Em 2023, o Brasil retornou ao Pacto Global, que contém compromissos já contemplados pela Lei de Migração brasileira, como a garantia do acesso de pessoas migrantes a serviços básicos. O Pacto Global define 23 objetivos e 10 princípios que podem ser consultados na página da OIM Brasil: Pacto Global para Migração | OIM Brasil (iom.int) https://brazil.iom.int/pt-br/pacto-global-para-uma-migracao-segura-ordenada-e-regular https://brazil.iom.int/pt-br/pacto-global-para-uma-migracao-segura-ordenada-e-regular 34Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Glossário Verbete Palavra associada Definição/Significado Não devolução É a proibição de que os Estados extraditem, deportem, expulsem ou, de qualquer outra maneira, retornem uma pessoa a um país onde há motivos fundamentados para acreditar que ela corra o risco de ser submetida à tortura ou outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes, de ser submetida ao desaparecimento forçado, ou de sofrer outro tipo de dano irreparável. Expulsão coletiva Qualquer medida que obrigue pessoas não nacionais, enquanto grupo, a sair de um país, exceto quando essa medida é tomada em base a uma avaliação razoável e objetiva do caso particular de cada um dos indivíduos em um grupo. Tortura Um ato por meio do qual a dor ou o sofrimento severo, seja físico ou mental, é infligido a uma pessoa com o propósito de obter dela ou de uma terceira pessoa uma informação ou confissão, punindo-a por um ato que ela ou uma terceira pessoa possa ter cometido ou está sob suspeita de ter cometido; ou por qualquer motivo baseado na discriminação de qualquer tipo, quanto essa dor ou sofrimento é infringida por ou promovida por ou com o consentimento de uma autoridade pública ou outra pessoa agindo em nome do Estado. Não inclui a dor e o sofrimento que emergem apenas de sanções legais, inerentes ou acidentais. Tratamento cruel, desumano e degradante Um ato por meio do qual a dor ou o sofrimento severo, seja físico ou mental, é infligido a uma pessoa. 35Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Referências CORTE INTERAMERICANA DE DIREITOS HUMANOS. Parecer Consultivo OC 21-14. Disponível em: http://www.corteidh.or.cr/docs/opiniones/seriea_21_por.pdf. Acesso em: 9 nov. 2020. MAZZUOLI, V. O. Curso de direito internacional público. São Paulo: Editora Thomson Reuters Revista dos Tribunais, 2015. IOM. International Migration Law Unit. IML information note on the principle of non-refoulement. Genebra, 2014. Disponível em: https://www.iom.int/files/live/ sites/iom/files/What-We-Do/docs/IML-Information-Note-on-the-Principle-of-non- refoulement.pdf. Acesso em: 9 nov. 2020. TRINDADE, C. A. A. Direito internacional e direito interno: sua interação na proteção dos direitos humanos. Instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos. Centro de Estudos da Procuradoria Geral do Estado de São Paulo. São Paulo, 1996. TRINDADE, C. A. A. Uprootedness and the protection of migrants in the International Law of Human Rights. Revista Brasileira de Política Internacional, Brasília, v. 51, n. 1, pp. 137-168, 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0034- 73292008000100008. Acesso em: 9 nov. 2020. http://www.corteidh.or.cr/docs/opiniones/seriea_21_por.pdf https://www.iom.int/files/live/sites/iom/files/What-We-Do/docs/IML-Information-Note-on-the-Principle-of-non-refoulement.pdf https://www.iom.int/files/live/sites/iom/files/What-We-Do/docs/IML-Information-Note-on-the-Principle-of-non-refoulement.pdf https://www.iom.int/files/live/sites/iom/files/What-We-Do/docs/IML-Information-Note-on-the-Principle-of-non-refoulement.pdf https://doi.org/10.1590/S0034-73292008000100008 https://doi.org/10.1590/S0034-73292008000100008 36Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Direitos dos imigrantes na legislação brasileira Neste módulo, serão apresentados os direitos dos imigrantes na legislação brasileira e o processo de construção de um marco legal sobre migrações. A Lei de Migração entende os fenômenos migratórios dentro de um paradigma de direitos e adequa o marco legal das migrações à Constituição federal de 1988 e aos direitos fundamentais que ela garante, assegurando o devido processo legal migratório no Brasil. Em consonância com os compromissos que o Brasil assumiu em razão de sua participação em diversos instrumentos internacionais de direitos humanos, a nova lei repudia explicitamente as expulsões coletivas e incorpora o princípio da não devolução (non-refoulement) na sua compreensão mais atual no contexto do Direito Internacional. Assim, é absolutamente proibida qualquer devolução de qualquer pessoa a qualquer país onde a sua vida e dignidade possam estar em risco. Apenas depois de uma análise sobre possíveisriscos à vida e à dignidade, e garantido o seu direito a ampla defesa, o imigrante pode eventualmente ser enviado a outro país de maneira compulsória. A Lei de Migração introduz também algumas proteções para as crianças migrantes como a possibilidade de autorização de residência para crianças separadas e desacompanhadas e a realização de análise de proteção, além do acionamento do sistema de proteção da infância. Há ainda elementos de reconhecimento e proteção das pessoas apátridas, assim como a possibilidade de que elas possam adquirir a nacionalidade brasileira, em linha com o objetivo de erradicação da apatridia assumido em Estatuto correspondente. Muitos desafios, no entanto, permanecem. Por exemplo, os documentos de que as pessoas migrantes dispõem, com frequência, são desconhecidos pelos brasileiros, o que pode constituir um obstáculo ao acesso a direitos. Esses obstáculos, por sua vez, podem contribuir para reforçar uma situação de vulnerabilidade em contexto migratório. Conheça a Lei de Migração: L13445 (planalto.gov.br) Módulo 3 https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/lei/l13445.htm 37Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 1: Os migrantes na Constituição Federal de 1988 Identificar os direitos dos migrantes na Constituição Federal de 1988. A promulgação da Constituição Federal em 1988 representou um marco na garantia de direitos não apenas para os brasileiros, mas para todos os residentes no país, inclusive migrantes, refugiados e apátridas. Em vários pontos, o texto constitucional afirma a garantia dos direitos de todos, em particular no artigo 5º: Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (...)." A Constituição permite também o acesso à naturalização aos migrantes provenientes de países de língua portuguesaapós um ano de residência, e aos migrantes de qualquer nacionalidade que a solicitem após quinze anos de residência no país - em ambos os casos, desde que não tenham condenação penal. Permite ainda o acesso dos migrantes a cargos, empregos e funções públicas (artigo 37, inciso I), e às carreiras de ensino nas universidades (artigo 207, parágrafo 1º). Garante o acesso à assistência social, à saúde e à educação. Apesar dos direitos e das garantias trazidos a migrantes, refugiados e apátridas pela Constituição Federal, o marco normativo das migrações vigente à época (a Lei nº 6.815/1980, conhecida como Estatuto do Estrangeiro) ficou defasado frente a esses direitos fundamentais garantidos pela Constituição de 1988 e pelos diversos instrumentos internacionais firmados desde então. Em 2017, com a aprovação da Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017), o marco normativo das migrações passou a acompanhar o texto constitucional na garantia dos direitos dos migrantes. 38Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 2: A Lei de Migração Identificar as principais diretrizes da Lei de Migração. A nova Lei de Migração (Lei nº 13.445/2017) foi sancionada em 24 de maio de 2017, depois de um longo processo de construção. Essa lei representa, em muitos aspectos, uma mudança de paradigma em comparação à legislação anterior (Estatuto do Estrangeiro), ao tratar a migração a partir de um enfoque de direitos. Também introduz uma nova terminologia, que utiliza os termos “migrante”, “imigrante” e "visitante" em substituição a termos antes usados no ordenamento jurídico brasileiro, como "estrangeiro" ou "alienígena". Por isso, os termos "estrangeiro" e "alienígena", que enfatizam uma percepção de não pertencimento da pessoa ao Brasil, estão caindo em desuso e devem ser evitados. Define-se como imigrante o nacional de outro país, ou apátrida, que se estabelece no Brasil de forma temporária ou definitiva. É importante ressaltar que a definição do imigrante, segundo a lei, é independente da situação migratória. 2.1 Princípios orientadores da Lei de Migração A Lei de Migração é pautada nos direitos humanos das pessoas que migram - uma perspectiva marcadamente diferente do anterior Estatuto do Estrangeiro. Assim, o artigo 3º estabelece, como primeiro princípio orientador da política migratória brasileira, a universalidade, indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos. Art. 3º A política migratória brasileira rege-se pelos seguintes princípios e diretrizes: I - universalidade, indivisibilidade e interdependência dos direitos humanos; II - repúdio e prevenção à xenofobia, ao racismo e a quaisquer formas de discriminação; III - não criminalização da migração; http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2015-2018/2017/Lei/L13445.htm 39Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública IV - não discriminação em razão dos critérios ou dos procedimentos pelos quais a pessoa foi admitida em território nacional; V - promoção de entrada regular e de regularização documental; VI - acolhida humanitária; VII - desenvolvimento econômico, turístico, social, cultural, esportivo, científico e tecnológico do Brasil; VIII - garantia do direito à reunião familiar; IX - igualdade de tratamento e de oportunidade ao migrante e a seus familiares; X - inclusão social, laboral e produtiva do migrante por meio de políticas públicas; XI - acesso igualitário e livre do migrante a serviços, programas e benefícios sociais, bens públicos, educação, assistência jurídica integral pública, trabalho, moradia, serviço bancário e seguridade social; XII - promoção e difusão de direitos, liberdades, garantias e obrigações do migrante; XIII - diálogo social na formulação, na execução e na avaliação de políticas migratórias e promoção da participação cidadã do migrante; XIV - fortalecimento da integração econômica, política, social e cultural dos povos da América Latina, mediante constituição de espaços de cidadania e de livre circulação de pessoas; XV - cooperação internacional com Estados de origem, de trânsito e de destino de movimentos migratórios, a fim de garantir efetiva proteção aos direitos humanos do migrante; XVI - integração e desenvolvimento das regiões de fronteira e articulação de políticas públicas regionais capazes de garantir efetividade aos direitos do residente fronteiriço; XVII - proteção integral e atenção ao superior interesse da criança e do adolescente migrante; XVIII - observância ao disposto em tratado; XIX - proteção ao brasileiro no exterior; XX - migração e desenvolvimento humano no local de origem, como direitos inalienáveis de todas as pessoas; 40Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública XXI - promoção do reconhecimento acadêmico e do exercício profissional no Brasil, nos termos da lei; e XXII - repúdio a práticas de expulsão ou de deportação coletivas. A migração é abordada a partir de uma perspectiva de direitos humanos, incorporando importantes desenvolvimentos do Direito Internacional como a universalidade, indivisibilidade e interdependência dos Direitos Humanos, a não discriminação, a garantia do direito à reunião familiar, a proteção integral e atenção ao superior interesse da criança migrante, a observância do disposto em tratado e o repúdio às práticas de expulsão e deportação coletivas. Os princípios e as diretrizes também respondem à realidade da migração enquanto fenômeno social complexo. Assim, afirmam a não criminalização da migração, a não discriminação em razão dos critérios ou procedimentos de entrada no território nacional e a promoção da entrada regular e da regularização documental. Promovem ainda uma perspectiva da migração enquanto vetor de desenvolvimento, ao vincular a migração ao desenvolvimento do Brasil, mas também ao promover a cooperação internacional com Estados de origem, trânsito e destino, a integração e desenvolvimento das regiões de fronteira e ao entender a migração e o desenvolvimento humanono local de origem como direitos inalienáveis de todas as pessoas. A lei ainda promove o fortalecimento da integração dos povos da América Latina. Além do mais, a nova Lei de Migração abarca o fenômeno migratório a partir de diferentes perspectivas, incluindo não apenas os migrantes internacionais que vêm ao Brasil, inclusive os apátridas, mas também as comunidades de emigrantes brasileiros em outros países e as pessoas que vivem nas fronteiras do Brasil (residentes fronteiriços). No entanto, neste curso focaremos apenas nas pessoas que a lei define como "imigrantes", ou seja, os migrantes internacionais que se estabelecem no Brasil. 2.2 Garantias da Lei de Migração A nova Lei de Migração trouxe diversos avanços em relação à legislação anterior. Entre eles, a desvinculação dos vistos e das autorizações de residência do modo de entrada do migrante no território nacional. Ou seja, é possível buscar a regularização migratória mesmo após uma entrada não autorizada no Brasil. Por meio da figura da acolhida humanitária, a Lei de Migração brasileira permite o estabelecimento de residência no Brasil de imigrantes que deixaram os seus países de origem por motivos de grave ou iminente instabilidade institucional, conflitos 41Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública armados, calamidades de grandes proporções, desastres ambientais, grave violação de direitos humanos ou de direito internacional humanitário (artigo 14 e artigo 30). O imigrante que que ingressa no país com o visto por acolhida humanitária ou aquele que deseja solicitar a autorização de residência com fins de acolhida humanitária pode ser registrado com a apresentação dos documentos de que dispuser, assim como ocorre com os solicitantes de refúgio, apátridas e solicitantes de asilo (artigo 20). Até junho de 2023, a autorização de residência por acolhida humanitária estava regulamentada para pessoas afetadas pelo conflito na Síria; para nacionais haitianos e apátridas afetados por calamidade de grande proporção, por desastre ambiental ou pela situação de instabilidade institucional no Haiti; para nacionais afegãos, apátridas e pessoas afetadas pela situação de grave ou iminente instabilidade institucional, de grave violação de direitos humanos ou de direito internacional humanitário no Afeganistão; e para nacionais ucranianos e apátridas que tenham sido afetados ou deslocados pela situação de conflito armado na Ucrânia, nos termos de Portarias Interministeriais. O campo de M'Béra, localizado na Mauritânia, na fronteira com o Mali, onde a população da região de Hodh El Chargui recebeu assistência humanitária por causa de uma grande seca em 2017. (C) OIM/Sibylle Desjardins 42Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública A migração motivada por desastres ambientais tem ganhado importância no debate internacional sobre migrações. Um dos grandes desafios é a falta de um respaldo legal que proteja os migrantes ambientais, já que estes não se encaixam na definição de refugiado, embora muitas vezes estejam em situação de migração forçada internacional. Através da acolhida humanitária, a Lei de Migração prevê uma hipótese para a regularização migratória dessas pessoas no Brasil. A Lei de Migração garante o direito à convivência familiar através da concessão de visto e autorização de residência por reunião familiar (artigo 14 e artigo 30) e de garantias como a impossibilidade de expulsão de um migrante que tenha filho brasileiro ou outra pessoa brasileira sob sua tutela (artigo 55, inciso II, alínea a), ou cujo cônjuge ou companheiro resida no Brasil (artigo 55, inciso II, alínea b). Com a nova lei, as hipóteses previstas para a concessão de visto e autorização de residência vinculadas a critérios objetivos ampliam-se. A garantia do direito à convivência familiar para as pessoas migrantes e membros das suas famílias consolidou-se no Direito Internacional ao longo das últimas décadas, assim como na legislação interna de vários países, que passam a introduzir em seus marcos normativos a possibilidade de regularização migratória por reunião familiar. No caso da legislação brasileira, também foram ampliadas, de forma importante, as garantias em casos de retirada compulsória. Isso inclui, por exemplo, a previsão de ampla defesa em casos de repatriação, deportação, expulsão ou extradição, sendo parte da construção de um devido processo legal migratório. Outro aspecto positivo é a reafirmação da garantia de assistência jurídica integral gratuita para os migrantes que necessitarem, por meio da Defensoria Pública da União (DPU). Deportação, Repatriação, Expulsão e Extradição são quatro palavras para a mesma coisa? Veja a diferença entre cada um dos termos utilizados pela nova Lei de Migração para os casos de retirada compulsória de um migrante do território nacional: 43Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Conceito A que se refere Deportação Medida administrativa para casos de situação migratória irregular (artigo 50). Repatriação Medida administrativa para casos de impedimento de ingresso no território nacional (artigo 49). Expulsão Medida administrativa para casos de sentença transitada em julgado, referente a: crimes de genocídio, crime contra a humanidade, crime de guerra ou agressão; ou crime comum passível de pena privativa de liberdade, consideradas a gravidade e possibilidade de ressocialização (artigo 54). Extradição Medida de cooperação internacional com outro Estado para cumprimento de pena em outro país ou para responder a processo penal (artigo 81). É importante ressaltar que a Lei de Migração oferece garantias de ampla defesa em todos esses casos, além de destacar o princípio da não devolução (non-refoulement) e a proibição da deportação ou expulsão coletivas, dois temas cuja importância é amplamente reconhecida no Direito Internacional. Cabe ainda notar que a lei não permite a prisão por razões migratórias, também conhecida como detenção administrativa de migrantes, ou seja, um imigrante não pode ser detido pelo fato de ter entrado de forma irregular no Brasil. Assim, o artigo 49, parágrafo 4º da Lei de Migração incorpora o princípio da não devolução na forma como este é entendido atualmente no Direito Internacional, incluindo as proteções a refugiados e apátridas, crianças, adolescentes, pessoas em deslocamento forçado por crise humanitária e qualquer pessoa que possa vir a estar exposta a riscos à sua vida e dignidade, tais como tortura e outros tratamentos desumanos e degradantes. Art. 49, § 4º. Não será aplicada medida de repatriação à pessoa em situação de refúgio ou de apatridia, de fato ou de direito, ao menor de 18 (dezoito) anos desacompanhado ou separado de sua família, exceto nos casos em que se demonstrar favorável para a garantia de seus direitos ou para a reintegração a 44Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública sua família de origem, ou a quem necessite de acolhimento humanitário, nem, em qualquer caso, medida de devolução para país ou região que possa apresentar risco à vida, à integridade pessoal ou à liberdade da pessoa. Mais adiante, o artigo 62 volta a reforçar essa proteção ao estabelecer o impedimento da repatriação, deportação ou expulsão quando tais medidas possam vir a colocar em risco a vida ou integridade da pessoa, incluindo tanto imigrantes quanto visitantes. Acompanhando o entendimento do princípio da não devolução no Direito Internacional, a Lei de Migração estende essa proteção que já estava garantida aos refugiados (pela Lei nº 9.474/1997) a todos os imigrantes e visitantes. Portanto, isso é uma obrigação do Estado brasileiro com relação aos não nacionais, independentemente da sua situação migratória, do tempo da sua estadia, ou de onde se encontrem no território nacional. De maneira similar, estão proibidas as práticas de repatriação, deportação ou expulsão coletivas (artigo 61), que ficam definidas como todas aquelas que não consideram, coma devida atenção, a situação de cada pessoa de maneira individual (artigo 61, parágrafo único). 45Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 3: A Lei de Refúgio Identificar as principais diretrizes da Lei de Refúgio. No Brasil, a Lei nº 9.474/1997 define os mecanismos para a implementação da Convenção Relativa ao Estatuto dos Refugiados, de 1951, incluindo o previsto no Protocolo adicional a essa convenção, de 1967, e os avanços regionais em matéria de refúgio, em especial a Declaração de Cartagena, de 1984. Ela reflete, desse modo, várias décadas de desenvolvimento na compreensão do que é o refúgio, desde as suas origens no pós-Segunda Guerra Mundial, até a consolidação da experiência regional com migrações forçadas na segunda metade do século XX. Por meio dessa lei, o Brasil define o conceito de refugiado da seguinte maneira: Art. 1º Será reconhecido como refugiado todo indivíduo que: I - devido a fundados temores de perseguição por motivos de raça, religião, nacionalidade, grupo social ou opiniões políticas encontre-se fora de seu país de nacionalidade e não possa ou não queira acolher-se à proteção de tal país; II - não tendo nacionalidade e estando fora do país onde antes teve sua residência habitual, não possa ou não queira regressar a ele, em função das circunstâncias descritas no inciso anterior; III - devido a grave e generalizada violação de direitos humanos, é obrigado a deixar seu país de nacionalidade para buscar refúgio em outro país. No Brasil, a autoridade responsável por receber o pedido de refúgio é a Polícia Federal e, uma vez recebido, o pedido é analisado pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare), que deverá decidir pelo deferimento ou indeferimento do pedido. Para pedir refúgio no Brasil, é necessário já estar no país! 46Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública A solicitação de reconhecimento da condição de refugiado no Brasil pode ser feita com os documentos de que a pessoa dispuser - um direito garantido pela Lei de Refúgio e pela Lei de Migração (artigo 20). A solicitação pode ser feita na ausência de qualquer documentação. Assista ao vídeo a seguir e veja como pedir refúgio pela primeira vez, usando o Sistema de tramitação de processos de refúgio do Conare, o Sisconare: Vídeo 7 – "Pedir refúgio pela primeira vez usando o SISCONARE" Duração: 01:29 Fonte: Pedir refúgio pela primeira vez usando o SISCONARE - YouTube. Uma vez apresentado o pedido de refúgio à Polícia Federal, o solicitante tem acesso a um documento de identificação que, enquanto aguarda a decisão do Conare, o autoriza a residir no país e a acessar direitos e políticas públicas garantidas aos imigrantes, como obter uma Carteira de Trabalho, e utilizar a rede pública de saúde, de educação e de assistência social. Para conhecer as etapas do processo de refúgio, consulte o site do Ministério da Justiça e Segurança Pública, órgão que preside o Conare: Etapas do processo de refúgio – Ministério da Justiça e Segurança Pública (www.gov.br) Esse documento de identificação é conhecido como Protocolo de Solicitação de Refúgio e é o principal documento de identificação do solicitante e a comprovação de que é solicitante de refúgio. . Em muitas regiões, já estásendo emitido outro documento de identificação: o Documento Provisório de Registro Nacional Migratório (DPRNM), em formato de cédula. Trata-se de documento de identificação complementar - que não substitui - o protocolo de refúgio. Conforme mencionado, é o protocolo - e não o DPRNM - que atesta a condição de solicitante de refúgio. Uma vez reconhecida como refugiada, a pessoa passa a ter acesso à Carteira de Registro Nacional Migratório (CRNM) e aos direitos garantidos a refugiados reconhecidos, tais como a reunificação familiar e a emissão de passaporte. Um dos grandes mitos que persistem no Brasil sobre os refugiados é a percepção de que eles são fugitivos, ilegais ou terroristas. Essas percepções não poderiam estar mais equivocadas. Os refugiados são pessoas que precisaram buscar https://youtu.be/NyOHIbr0K2k https://www.youtube.com/watch?v=NyOHIbr0K2k&t=2s https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/seus-direitos/refugio/o-que-e-refugio/etapas-do-processo-de-refugio https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/seus-direitos/refugio/o-que-e-refugio/etapas-do-processo-de-refugio 47Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública proteção internacional, pois as circunstâncias do seu país de origem fizeram com que temessem por sua vida e dignidade, em função de perseguições ou violações de direitos humanos (artigo 1º da Lei de Refúgio). Para obter mais informações sobre o tema, acesse o arquivo PDF “Não cabe em mim a alegria de poder dizer que sou Baha'i.pdf” Ou acesse: “Não cabe em mim a alegria de poder dizer que sou Baha'i” https://articulateusercontent.com/rise/courses/xjj6dpGY2NWZKPa9I0dXP6WewlUoy9zj/HLJpTojCmA9PJIeI-N%25C3%25A3o%2520cabe%2520em%2520palavras%2520a%2520minha%2520felicidade%2520em%2520poder%2520falar%2520que%2520sou%2520Bahai.pdf https://sur.conectas.org/en/i-cannot-find-the-words-to-express-how-happy-i-am-to-be-able-to-say-that-i-am-a-bahai/ https://sur.conectas.org/en/i-cannot-find-the-words-to-express-how-happy-i-am-to-be-able-to-say-that-i-am-a-bahai/ 48Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 4: Os apátridas na legislação brasileira Identificar as diretrizes dos apátridas na legislação brasileira. Outra importante novidade da Lei de Migração é o seu compromisso com a erradicação da apatridia que, em linha com os compromissos internacionais assumidos pelo Brasil enquanto Estado, parte da Convenção sobre o Estatuto dos Apátridas, promulgada pelo Decreto nº 4.246/2002. A proteção do apátrida e a redução da apatridia estão detalhados no artigo 26, mas a Lei de Migração aborda a situação dos apátridas em várias ocasiões, incluindo a seguinte definição: Artigo 1º, parágrafo 1º, inciso VI - apátrida: pessoa que não seja considerada como nacional por nenhum Estado, segundo a sua legislação, nos termos da Convenção sobre o Estatuto dos Apátridas, de 1954, promulgada pelo Decreto nº 4.246/2002, assim reconhecida pelo Estado brasileiro. Todos os direitos garantidos aos imigrantes que possuem nacionalidade de algum país são também garantidos aos imigrantes apátridas na Lei de Migração (artigo 26, parágrafo 4º). Além do seu direito a pedir o reconhecimento da situação de apatridia, a lei também volta a reforçar o direito dessas pessoas pedirem refúgio no Brasil, assim como acolhida humanitária. Para ter mais informações sobre o tema, assista ao vídeo: Vídeo 8 – “Este é o sonho da minha vida se tornando realidade" Duração: 01:30 Fonte: ONU Brasil. 19/11/2018. Assim como acontece com a solicitação de acolhida humanitária e de refúgio, a solicitação de reconhecimento da condição de apátrida também pode ser feita com https://youtu.be/oGIiXZ8nA3o 49Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública os documentos de que o imigrante dispuser (artigo 20) e deve ser apresentada à Polícia Federal. A solicitação de reconhecimento da condição de apátrida é analisada pelo Departamento de Migrações da Secretaria Nacional de Justiça (DEMIG/SENAJUS) do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Uma vez reconhecida a condição de apátrida, o imigrante será consultado sobre o seu interesse em adquirir a nacionalidade brasileira, tendo então a opção de se naturalizar. Caso não deseje adquirir imediatamente a nacionalidade brasileira, terá acesso à autorização de residência permanente. 50Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 5: O enfrentamento ao tráfico de pessoas e ao trabalho escravo Reconhecer o enfrentamento ao tráfico de pessoas e ao trabalho escravo no Brasil. No Brasil, a Lei nº 13.344/2016 estabelece as medidas de proteção, prevenção e repressão ao tráfico de pessoas. Esse normativo introduz a definição do crime de tráfico de pessoas no Código Penal, revogandoa definição anterior, cujo escopo se restringia ao tráfico para fins de exploração sexual. Dessa forma, a legislação brasileira passou a adequar-se à definição mais ampla contida no Protocolo de Palermo. No Direito Internacional, o Protocolo de Palermo é a principal referência na proteção, prevenção, repressão e punição do tráfico de pessoas. Esse protocolo conceituou o crime de tráfico de pessoas, abordando a questão do consentimento, que é irrelevante na definição da vítima quando sob ameaça, uso de força, coação, rapto, fraude, engano, abuso de autoridade ou situação de vulnerabilidade, assim como em servidão por dívida para fins de exploração. Ou seja, mesmo que a vítima tenha concordado com algum elemento do tráfico (por exemplo, ser deslocada do local A ao local B), não se pode considerar que há consentimento quando uma pessoa concorda sob ameaça, fraude ou outras violências. Dessa maneira, a pessoa continua a ser vítima de tráfico de pessoas e deve ser protegida como tal. Assim, ao Código Penal foi adicionado o artigo 149-A-, que define o tráfico de pessoas da seguinte maneira: Art. 149-A. Agenciar, aliciar, recrutar, transportar, transferir, comprar, alojar, ou acolher pessoa, mediante grave ameaça, violência, coação, fraude ou abuso, com a finalidade de: 51Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública I - Remover-lhe órgãos, tecidos ou partes do corpo; II - Submetê-la a trabalho em condições análogas à de escravo; III - Submetê-la a qualquer tipo de servidão; IV - Adoção ilegal; ou V - Exploração sexual. O tráfico de pessoas inclui, portanto, três etapas: + Atividade • O aliciamento consiste no recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou acolhimento. • No caso de crianças vítimas de tráfico, basta que se verifique o deslocamento e a finalidade de exploração, para que a criança seja reconhecida como vítima. + Meio • Pode ser feito por meio do uso de ameaça, uso da força ou outras formas de coação, rapto, fraude, engano, abuso de autoridade ou de situação de vulnerabilidade ou recebimento de pagamento ou benefícios. + Finalidade • As formas de exploração podem ser várias, incluindo o trabalho em situação análoga à escravidão, exploração sexual, adoção ilegal ou remoção de órgãos. • No caso de crianças vítimas de tráfico, basta que se verifique a atividade e a finalidade de exploração, para que a criança seja reconhecida como vítima. O trabalho escravo é definido, no artigo 149 do Código Penal, como aquele em que uma pessoa é submetida a trabalhos forçados ou a uma jornada exaustiva, quer sujeitando-a a condições degradantes de trabalho, quer restringindo, por qualquer meio, sua locomoção, em razão de dívida contraída com o empregador ou representante. O trabalho escravo pode ser uma das modalidades de exploração no âmbito do tráfico de pessoas, porém esse crime não é equivalente ao tráfico de pessoas. 52Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Agora, assista ao vídeo: Vídeo 9 – "Ciclo do trabalho escravo contemporâneo". Duração: 04:35 Fonte: Escravo, Nem Pensar! - 25/11/2014. A Lei nº 13.344/2016 também estabelece, entre seus princípios, a promoção e garantia dos direitos humanos e a atenção integral às vítimas diretas e indiretas, independente de nacionalidade. Os artigos 4º ao 6º tratam da prevenção, repressão, e proteção e assistência às vítimas. A prevenção se dá a partir de políticas intersetoriais, campanhas socioeducativas e de conscientização, incentivo à participação da sociedade civil e a projetos de prevenção (artigo 4º). A repressão inclui medidas de cooperação entre órgãos do sistema de justiça – inclusive a cooperação internacional – assim como a integração de políticas e a formação de equipes conjuntas de investigação (artigo 5º). O artigo 6º define a proteção e assistência às vítimas, incluindo: (...) I - assistência jurídica, social, de trabalho e emprego e de saúde; II - acolhimento e abrigo provisório; III - atenção às suas necessidades específicas, especialmente em relação a questões de gênero, orientação sexual, origem étnica ou social, procedência, nacionalidade, raça, religião, faixa etária, situação migratória, atuação profissional, diversidade cultural, linguagem, laços sociais e familiares ou outro status; IV - preservação da intimidade e da identidade; V - prevenção à revitimização no atendimento e nos procedimentos investigatórios e judiciais; VI - atendimento humanizado; VII - informação sobre procedimentos administrativos e judiciais. https://youtu.be/Q1T9qRb9B8E 53Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O tráfico de pessoas pode ser interno - quando a vítima é traficada dentro do próprio país -, ou internacional - quando a vítima é traficada através de fronteiras. Ou seja, independe da nacionalidade, sendo o fator determinante o deslocamento. No caso de uma pessoa imigrante traficada para o Brasil, a proteção inclui a possibilidade de regularização migratória por autorização de residência específica para vítimas de tráfico de pessoas, bem como a possibilidade de reunião familiar. Os procedimentos de autorização de residência à pessoa que tenha sido vítima de tráfico de pessoas, de trabalho escravo ou de violação de direitos agravada por sua condição migratória foram regulados pela Portaria nº 87, de 23 de março de 2020, emitida pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Em 2022, foi lançada uma nova campanha "Brasil Sem Tráfico Humano", que incluiu cards com informações explicando o que é o tráfico de pessoas e onde buscar ajuda. Também foi desenvolvido vídeo, explicando a diferença entre tráfico de pessoas e contrabando de migrantes. Campanha Brasil Sem Tráfico Humano. Fonte: CNJ/OIM. Julho de 2022. 54Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Entenda um pouco mais sobre tráfico de pessoas acessando a Lei Nº 13.344, de 6 de outubro de 2016, que dispõe sobre prevenção e repressão ao tráfico interno e internacional de pessoas e sobre medidas de atenção às vítimas; altera a Lei nº 6.815, de 19 de agosto de 1980, o Decreto-Lei nº 3.689, de 3 de outubro de 1941 (Código de Processo Penal), e o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal); e revoga dispositivos do Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 (Código Penal). https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/ l13344.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/l13344.htm https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2016/lei/l13344.htm 55Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 6: A regularização migratória no Brasil Indicar as formas de regularização migratória no Brasil. No Brasil, há dois instrumentosde regularização: os vistos e as autorizações de residência. Embora ambas permitam ao imigrante se estabelecer no Brasil e garantam acesso ao mesmo conjunto de direitos, há algumas diferenças importantes entre elas. O visto é o documento que dá ao seu titular a expectativa de ingresso no território brasileiro (artigo 6º, Lei de Migração), ou seja, é um documento que deve ser solicitado antes de o interessado chegar ao Brasil. Por ser solicitado e recebido antes da chegada no território brasileiro, o visto é concedido por representações diplomáticas brasileiras no exterior (artigo 7º, Lei de Migração) como consulados e embaixadas, e é regulamentado e gerido pelo Ministério das Relações Exteriores - MRE. O visto sempre possui um fundamento para sua emissão, podendo, portanto, ser emitido para fins de turismo, trânsito, visita, estudos, acolhida humanitária, exercício de atividade religiosa ou laboral, etc. Quando o fundamento que respalda sua emissão implicar residência - ainda que provisória - no país, o imigrante portador do visto deve efetuar o seu registro em até 90 dias após a chegada no Brasil, via de regra, na Polícia Federal. O registro é, portanto, a solicitação de conversão do visto em autorização de residência,a qual terá o mesmo fundamento legal que o visto. Todos os migrantes também devem manter atualizados os seus dados de contato junto à Polícia Federal. Assim, a realização do registro junto à Polícia Federal gera uma autorização de residência, e, no momento do atendimento, o imigrante já recebe o número de Registro Nacional Migratório (RNM). A autorização de residência pode ser por prazo determinado (conhecida como temporária)temporária ou por prazo indeterminado (também chamada de permanente) e é requerida no território nacional, tendo validade neste (artigo 30, Lei de Migração). A regulamentação e a gestão das autorizações de residência são feitas pelo DEMIG/SENAJUS/MJSP, que delega à Polícia Federal a capacidade de decidir sobre a maioria das hipóteses previstas a partir de critérios previstos em regulamento. Isso quer dizer que, para os casos já em portarias específicas, a Polícia Federal pode diretamente conceder a autorização de residência. Para situações não contidas em portarias específicas, sugere-se solicitar apoio à DPU, a outros órgãos públicos ou a organizações da sociedade civil, para buscar a regularização migratória. https://servicos.dpf.gov.br/sismigra-internet/faces/publico/solicitarAlteracaoEndereco/solicitarAlteracaoEndereco.seam 56Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Embora possam ser cobradas taxas pela autorização de residência (artigo 32, Lei de Migração), também está garantida a isenção para migrantes com poucos recursos, condição de "hipossuficiência econômica" (artigo 4º, inciso XII, Lei de Migração). Os pedidos de autorização de residência são entregues à Polícia Federal, exceto nos casos de autorização de residência para trabalho, que devem ser dirigidos ao Conselho Nacional de Imigração (CNIg). É importante também notar que, embora várias hipóteses de autorização de residência já estejam regulamentadas, algumas ainda restam pendentes de regulamentação. Para solicitar uma autorização de residência junto à Polícia Federal, é necessário, primeiramente, preencher um formulário on-line do Sistema de Registro Nacional Migratório (SISMIGRA) e solicitar o agendamento na unidade da Polícia Federal mais próxima. O formulário está disponível em português, inglês, espanhol, francês, alemão, árabe e italiano. No dia agendado, o imigrante deve comparecer à Polícia Federal com o formulário preenchido e a documentação necessária conforme o tipo de autorização de residência a ser requerida. O mesmo sistema também é utilizado para renovações e alterações. Página do SISMIGRA. Fonte: Polícia Federal. https://servicos.dpf.gov. br/sismigra-internet/home.seam. Acesso em: 9 nov. 2020. A documentação necessária para requerer autorização de residência normalmente inclui fotos 3x4, documento oficial de identificação, certidão de nascimento (quando o documento de identificação não inclui os dados de filiação), certidão de antecedentes criminais no Brasil, declaração de ausência de antecedentes penais no país de origem ou em outros países, comprovante de pagamento das taxas correspondentes ou declaração de hipossuficiência econômica. https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/imigracao/autorizacao-residencia/formularios/capa https://servicos.dpf.gov.br/sismigra-internet/home.seam https://servicos.dpf.gov.br/sismigra-internet/home.seam 57Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Em geral, a autorização de residência não pode ser concedida a pessoa condenada criminalmente no Brasil ou no exterior por sentença transitada em julgado (Lei 13.445/2017, artigo 30, parágrafo 1º), desde que a conduta esteja tipificada na legislação penal brasileira. São exceções: • As pessoas condenadas por condutas que caracterizem infração de menor potencial ofensivo; • As pessoas que buscam autorização de residência para tratamento de saúde, acolhida humanitária ou reunião familiar; • As pessoas beneficiárias de tratado em matéria de residência e livre circulação, como é o caso do Acordo de Residência do Mercosul, incorporado ao ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto nº 6.975, de 07 de outubro de 2009. Assim, a existência de antecedentes criminais não exclui automaticamente a possibilidade de obter autorização de residência no Brasil. Imigrantes nessa situação podem solicitar apoio da DPU, de órgãos públicos ou de entidades da sociedade civil para orientação sobre regularização migratória, caso necessário. Contudo, de acordo com o tipo de autorização de residência requerida, pode ser necessário apresentar documentos específicos. A lista de documentos necessários para cada tipo de autorização de residência pode ser acessada no site da Polícia Federal. A autorização de residência com base no Acordo de Residência do Mercosul surgiu antes da nova Lei de Migração, a partir do tratado integrado pelos países que compõem o Mercosul e pelos Estados associados, promulgado no Brasil mediante o Decreto nº 6.975/2009. O acordo é um marco importante para a região e serviu de base para outras formas de autorização de residência previstas na Lei de Migração. Essa autorização de residência pode ser solicitada por imigrantes nacionais dos países do Mercosul e associados: Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Equador, Paraguai, Peru e Uruguai. A Portaria Interministerial nº 19/2021 amplia essa autorização de residência a todos os países limítrofes do Brasil que não sejam parte ativa do Mercosul: Venezuela, https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/imigracao/autorizacao-residencia/documentos https://www.gov.br/pf/pt-br/assuntos/imigracao/autorizacao-residencia/documentos 58Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Guianas e Suriname. Ela inclui algumas inovações importantes, como a flexibilização documental para imigrantes indígenas e para crianças imigrantes indocumentadas, reconhecendo as dificuldades desses dois grupos no acesso à documentação necessária para o pedido de residência. Pessoas indígenas dos países contemplados pela portaria podem fazer o requerimento de autorização de residência com a apresentação de autodeclaração dos dados de filiação. Já as crianças imigrantes menores de 9 anos podem requerer a autorização de residência, apresentando apenas a certidão de nascimento original, desde que acompanhadas dos pais. Também é importante mencionar que as crianças e adolescentes imigrantes desacompanhados ou separados que se encontrem no Brasil têm direito a autorização de residência, independentemente da sua idade ou nacionalidade. Criança ou adolescente desacompanhado é aquele que está separado de ambos os genitores e de outros parentes, e não está aos cuidados de um adulto legalmente responsável. . Já a criança ou adolescente separado é aquele que está separado de ambos os pais, mas acompanhado de outros membros da família extensa e não está aos cuidados de um adulto a quem incumba essa responsabilidade, ou seja, que detenha o poder familiar nos termos do Estatuto da Criança e do Adolescente. Ainda, criança ou adolescente indocumentado é aquele que não possui documentação válida comprobatória de sua identidade ou filiação, independentemente de estar acompanhado, desacompanhado ou separado. A Resolução nº 232, de 28 de dezembro de 2022, do Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente estabelece os procedimentos para proteção de crianças e de adolescentes nessas três condições e para a solicitação de regularização migratória, a qual pode ser feita por guardião, pela Defensoria Pública da União ou outro órgão de proteção. A Portaria nº 197, de 6 de março de 2019, estabelece os procedimentos para solicitação dessa autorização de de residência cujo prazo será objeto de avaliação em cada caso, devendo ser fixado até a data em que a criança ou o adolescente atinja a maioridade. . Ao atingir a maioridade, e, tendo interesse em permanecer no país, a pessoa imigrante deverá comparecer à unidade da Polícia Federal, no 59Enap Fundação Escola Nacional de AdministraçãoPública prazo de cento e oitenta dias, a fim de formalizar o pedido de alteração do prazo de residência para indeterminado. Nesse processo de regularização migratória, a DPU desempenha um papel importante de acompanhamento, incluindo a possível representação da criança para fins de regularização migratória e a realização de entrevista e de análise de proteção. A DPU ou outros órgãos de proteção podem atuar como representantes legais de crianças desacompanhadas, separadas e indocumentadas para fins de regularização migratória no Brasil, incluindo tanto os pedidos de autorização de residência quanto as solicitações de reconhecimento da condição de refugiado ou de apátrida. Esse conjunto de normas busca dar resposta a alguns dos desafios específicos enfrentados por crianças imigrantes desacompanhadas e separadas. Antes da nova Lei de Migração, não estava prevista a possibilidade de regularização migratória da criança sem a presença de um responsável legal. Em outras palavras, a regularização migratória estava vinculada à guarda, criando um obstáculo à regularização migratória. A partir de então, desvincula-se a regularização migratória da guarda, ao atribuir à DPU a possibilidade de representar a criança para fins de regularização migratória, independentemente da definição do exercício de guarda. Estabelece-se, ainda, os procedimentos para a análise das necessidades de proteção dessas crianças. Por isso, a DPU e outros órgãos de proteção devem ser acionados em todos os casos de regularização migratória de crianças desacompanhadas, separadas e indocumentadas, ainda que elas queiram se acolher a uma forma de regularização migratória diferente da prevista na Portaria nº 197/2019, ou que queiram pedir refúgio. Em resumo, o visto gera uma expectativa de direito de entrada no país, mas, a partir do momento em que a pessoa deseja estabelecer residência, ela deve requerer uma autorização de residência, independentemente da forma pela qual entrou no país, devendo cumprir os requisitos elencados na legislação vigente. As pessoas que aguardam decisão sobre o reconhecimento de uma condição específica - como solicitantes de reconhecimento da condição de refugiado ou de 60Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública apátrida - recebem um documento de identificaçãoprovisório. Via de regra, esse documento tem validade de 01 ano, devendo ser renovado sucessivamente até decisão proferida pela instância competente. Por sua vez, as pessoas que se beneficiam de uma autorização de residência com fundamento legal previsto em normativo específico recebem um documento de identificação definitivo, desde que cumpridos os requisitos documentais, uma vez que não se aguarda decisão futura. O documento terá, contudo, prazo de validade de até 2 anos (quando a natureza da autorização de residência for temporária) ou de 9 anos (quando a natureza da autorização de residência for permanente). A alteração de um prazo para o outro depende de condições diferentes em cada caso, podendo ser necessário comprovar que o imigrante dispõe de meios de vida no Brasil, não possui antecedentes criminais, entre outros. A Portaria Interministerial nº 3/2018, no artigo 6º, lista alguns documentos que podem ser utilizados para a comprovação dos meios de vida, tais como contrato de trabalho em vigor, a declaração de imposto de renda, entre outros. Hipótese de autorização de residência (artigo 30) Critérios de elegibilidade Referência Acordo de Residência Mercosul Nacionais de países-membros do Mercosul ou associados. Decreto nº 6.975/2009 Reunião Familiar Filhos, pais, cônjuges ou companheiros, irmãos (quando dependentes economicamente) de migrante estabelecido/a ou de brasileiro/a. Portaria Interministerial nº 12/2018 Interesse da Política Migratória Nacional Nacionais de países fronteiriços não pertencentes/ativos no Mercosul. Portaria Interministerial nº 19/2021 Interesse da Política Migratória Nacional Nacionais do Senegal com pedido de refúgio até a data de publicação da portaria. Portaria Interministerial nº 10/2019 Interesse da Política Migratória Nacional Nacionais de Cuba que tenham integrado o programa Mais Médicos para o Brasil. Portaria Interministerial nº 4/2019 61Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Hipótese de autorização de residência (artigo 30) Critérios de elegibilidade Referência Interesse da Política Migratória Nacional Nacionais da República Dominicana, que tenham processo de reconhecimento da condição de refugiado em trâmite no Brasil Portaria Interministerial n°5/2019 Criança desacompanhada ou separada Criança ou adolescente desacompanhada ou separada no território nacional ou fronteiras de qualquer nacionalidade. Portaria Interministerial nº 197/2019 Acolhida Humanitária Pessoas afetadas pelo conflito armado na Síria. Portaria Interministerial nº 9/2019 Acolhida Humanitária Nacionais do Haiti e apátridas residentes no Haiti. Portaria Interministerial nº 37/2023 Acolhida Humanitária Nacionais afegãos, apátridas e pessoas afetadas pela situação no Afeganistão Portaria Interministerial n° 24/2021 Acolhida Humanitária Nacionais ucranianos e aos apátridas que tenham sido afetados ou deslocados pela situação de conflito armado na Ucrânia Portaria Interministerial n° 36/2023 Tratamento de saúde Nacionais de qualquer país com intenção de realizar tratamento de saúde no Brasil e um acompanhante. Portaria Interministerial n° 8 /2018 Estudo Nacionais de qualquer país matriculados em instituições de ensino brasileiras para estudo ou estágio. Portaria Interministerial n° 7/2018 Trabalho Nacionais de qualquer país contratados no Brasil. Resolução Normativa nº 2/2017 do CNIg 62Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Hipótese de autorização de residência (artigo 30) Critérios de elegibilidade Referência Férias-trabalho Nacionais de países que disponham de tratado com o Brasil para residência por férias-trabalho. Portaria Interministerial nº 3/2018 Realização de investimento Realização de investimento de pessoa física em pessoa jurídica no país. Resolução Normativa nº 13/2017 do CNIg Beneficiários de tratado Nacionais de países com os quais o Brasil possuitratado vigente em matéria de residência. De acordo com o tratado Detentores de oferta de trabalho Nacionais de qualquer país que detenham oferta de trabalho no Brasil. Resolução Normativa nº 2/2017 CNIg Caso especial para concessão de autorização de residência associada às questões laborais Pessoa que solicitou reconhecimento da condição de refugiado antes de 21/11/2017 e que possui contrato de trabalho vigente anterior a essa data Resolução conjunta CNIG CONARE n° 1/2018 e Resolução Conjunta CNIG CONARE n°2/2020 Refugiados, asilados e apátridas Refugiados, asilados e apátridas reconhecidos pelo Brasil ou em processo de avaliação de solicitação. Lei nº 9.474/1997 Vítimas de tráfico de pessoas Nacionais de qualquer país que sejam vítimas de tráfico de pessoas, trabalho escravo ou de violação de direito agravada por sua condição migratória Portaria nº 87/2020 do Ministério da Justiça e Segurança Pública Liberdade provisória ou cumprimento de pena Nacionais de qualquer país em situação de liberdade provisória ou cumprimento de pena no Brasil. Pendente de regulamentação específica 63Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Hipótese de autorização de residência (artigo 30) Critérios de elegibilidade Referência Pessoa que já teve a nacionalidade brasileira Pessoa que já tenha possuído a nacionalidade brasileira e não deseje ou não reúna os requisitos para readquiri-la Portaria Interministerial n° 18/2018 Uma vez que a Lei de Migração é bastante recente, nem todas as formas de regularização migratória previstas na lei estão, atualmente, regulamentadas. Nas hipótesesem que a regulamentação esteja pendente, há notícias de solicitações por via judicial. Por isso, é importante se manter atualizado sobre esse tema. 64Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 7: Naturalização Diferenciar os tipos de naturalização. A obtenção da nacionalidade brasileira, por intermédio do processo de naturalização, pode dar-se de diversas maneiras: a naturalização ordinária, a naturalização extraordinária e a naturalização provisória. Há ainda a possibilidade, para imigrantes portugueses que cumpram determinadas condições, de solicitar o Estatuto de Igualdade de Direitos e Obrigações Civis e Gozo de Direitos Políticos, que é regido por um tratado bilateral entre o Brasil e Portugal. Esse tratado foi incorporado ao ordenamento jurídico brasileiro pelo Decreto nº 70.391, de 12 de abril de 1972. A pessoa que solicitar a naturalização poderá, quando cabível e por meio de requerimento fundamentado, requerer a tradução ou a adaptação deseu nome à Língua Portuguesa. Em todos os casos, a naturalização (assim como o Estatuto de Igualdade de Direitos) deve ser solicitada à Polícia Federal, que encaminhará o pedido ao Ministério da Justiça e Segurança Pública para análise. A pessoa que obtiver a naturalização ou o Estatuto de Igualdade de Direitos passa a ter, como seu principal documento de identificação, a carteira de identidade (RG). Desde novembro de 2020, os pedidos devem ser feitos exclusivamente pelo sistema Naturalizar-se, do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Para ter acesso à plataforma, é necessário ter uma conta Gov.br. A naturalização ordinária pode ser solicitada por qualquer imigrante que resida no Brasil há pelo menos quatro anos, prazo que pode ser reduzido nos casos em que a pessoa: • Tenha filho ou filha brasileira; • Tenha cônjuge ou companheiro ou companheira brasileira; • Seja reconhecida no Brasil como apátrida. https://www.gov.br/mj/pt-br/assuntos/seus-direitos/migracoes/naturalizacao/naturalizar-se 65Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Para solicitar a naturalização, a pessoa deve ainda ter capacidade civil segundo a lei brasileira, ser capaz de comunicar-se em língua portuguesa e não possuir condenação penal ou estar reabilitada, nos termos da lei. Nesse caso, é a única modalidade de naturalização que exige do interessado a comprovação de que é capaz de se comunicar em língua portuguesa. + Para comprovar o domínio do idioma, a pessoa poderá apresentar: 1) Certificado de proficiência em língua portuguesa para estrangeiros obtido por meio do exame Celpe-Bras, realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira - INEP; 2) Certificado de conclusão de curso de educação superior ou pós- graduação, realizado em instituição educacional brasileira, credenciada pelo Ministério da Educação; ou realizado em instituição educacional de países de língua portuguesa, desde que legalizado no Brasil. O cursoPode ser realizado na modalidade a distância, desde que aprovado pelo Ministério da Educação; 3) Certificado de aprovação no Exame de Ordem, realizado pelo Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil; 4) Certificado de conclusão, histórico escolar e programa, com aproveitamento satisfatório, de curso de língua portuguesa direcionado a imigrantes, realizado em instituição de educação superior credenciada pelo Ministério da Educação. Poderá ser realizado na modalidade a distância, desde que o aluno, previamente identificado, seja submetido a pelo menos uma avaliação presencial no estabelecimento responsável ou, no caso de discente domiciliado em local diverso da sede, em instituição de educação superior à sede conveniadae também credenciada pelo Ministério da Educação 5) Comprovante de conclusão do ensino fundamental ou médio por meio do Exame Nacional para Certificação de Competências de Jovens e Adultos - ENCCEJA; 6) Nomeação para o cargo de professor, técnico ou cientista decorrente de aprovação em concurso promovido por universidade pública brasileira; 7) Histórico escolar ou documento equivalente que comprove conclusão em curso de ensino fundamental, médio ou supletivo, realizado em instituição de ensino brasileira, reconhecido pela Secretaria de Educação competente; ou realizado em instituição educacional de países de língua portuguesa, desde que legalizado no Brasil.O curso pode ser realizado na modalidade a distância, desde que aprovado pelo Ministério da Educação; ou 66Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 8) Diploma de curso de medicina revalidado por instituição de educação superior pública após aprovação obtida no Exame Nacional de Revalidação de Diplomas Médicos Expedidos por Instituições de Educação Superior Estrangeira - REVALIDA aplicado pelo INEP. Esses documentos são dispensados às pessoas naturais de países cujo idioma oficial é o português. Já a naturalização extraordinária pode ser solicitada por pessoas de qualquer nacionalidade que tenham residência no Brasil há pelo menos 15 anos ininterruptos e que não tenham condenação penal. Por se tratar de naturalização extraordinária, a pessoa interessada resta dispensada da apresentação de certificado de sua capacidade de comunicação em Língua Portuguesa. A naturalização provisória contempla os casos de crianças que tenham se mudado para o Brasil antes de completarem os 10 anos de idade. Ela deverá ser requisitada por intermédio do seu representante legal e pode vir a converter-se em naturalização definitiva assim que a criança completar a maioridade. Para isso, ela deve pedir a naturalização definitiva entre os 18 e os 20 anos de idade. Tipo de naturalização Casos Requisitos Ordinária • Qualquer imigrante que possua autorização de residência por prazo indeterminado por pelo menos 4 anos; • Imigrantes que tiverem autorização de residência por prazo indeterminado há pelo menos 1 ano e que tiverem filhos/as ou cônjuge brasileiro/a; • Apátridas com situação reconhecida pelo Brasil; • imigrantes originários de países de língua portuguesa e que tiverem autorização de residência por prazo indeterminado há pelo menos 1 ano. • Ter capacidade civil. • Ser capaz de comunicar-se em língua portuguesa. • Não possuir condenação penal ou estar reabilitada nos termos da lei. 67Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Tipo de naturalização Casos Requisitos Extraordinária Qualquer imigrante que resida no Brasil há pelo menos 15 anos ininterruptos. Não possuir condenação penal. Provisória Crianças que se mudaram para o Brasil com menos de 10 anos de idade. Deve ser solicitada pela pessoa que é representante legal da criança. 68Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Glossário Verbete Palavra associada Definição / Significado Imigrante Pessoa nacional de outro país ou apátrida que trabalha ou reside e se estabelece temporária ou definitivamente no Brasil. Acolhida humanitária Hipótese de visto ou autorização de residência para pessoas apátridas ou nacionais de qualquer país em situação de grave ou iminente instabilidade institucional, de conflito armado, de calamidade de grande proporção, de desastre ambiental ou de grave violação de direitos humanos ou de Direito Internacional Humanitário, ou em outras hipóteses, na forma de regulamento. Deportação Medida administrativa para casos de situação migratória irregular. Expulsão Medida administrativa para casos de sentença transitada em julgado, referente a: crimes de genocídio, crime contra a humanidade, crime de guerra ou agressão ou crime comum passível de pena privativa de liberdade, consideradas a gravidade e possibilidade de ressocialização. Repatriação Medida administrativa para casos de impedimento de ingresso no território nacional. Extradição Medida de cooperação internacional com outro Estado para cumprimento de pena em outro país ou para responder a processo penal. Residentefronteiriço Pessoa nacional de país limítrofe ou apátrida que conserva a sua residência habitual em município fronteiriço de país vizinho. Visto É o documento emitido por representações do Brasil no exterior que dá ao seu portador a expectativa de ingresso em território nacional. Exame Celpe-Bras O Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para Estrangeiros (Celpe-Bras) é o exame brasileiro oficial para certificar proficiência em português como língua estrangeira. 69Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Referências OIM. Organização Internacional para as Migrações; CNJ. Conselho Nacional de Justiça. Brasil sem Tráfico Humano. Brasília: OIM; CNJ, 2022. Disponível em: https://brazil. iom.int/pt-br/brasil-sem-trafico-humano. Acesso em: 5 jun. 2023. VELHO, C.; DIAS, J.; ROCHA, M. O combate ao tráfico de pessoas e a adequação da legislação nacional às normas internacionais. In: SCAMPINI, S. F (org.). Tráfico de pessoas. Brasília: Ministério Público Federal, 2017. v. 2. https://brazil.iom.int/pt-br/brasil-sem-trafico-humano https://brazil.iom.int/pt-br/brasil-sem-trafico-humano 70Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Vulnerabilidades em contexto migratório Neste módulo, será abordado o conceito de vulnerabilidade em contexto migratório, entendendo que as situações de vulnerabilidade emergem de um complexo conjunto de fatores que interagem entre si de maneira não determinista. É importante compreender que a vulnerabilidade é complexa, não devendo ser tratada como uma característica inerente ao migrante ou ao refugiado. Partindo do Modelo de Determinantes da Vulnerabilidade de Migrantes da OIM, serão considerados vários âmbitos nos quais os fatores de risco para a vulnerabilidade podem surgir, são eles: individuais, familiares, comunitários e estruturais. Essas quatro dimensões se articulam entre si e nenhuma delas consegue abarcar a vulnerabilidade de maneira isolada. Igualmente importante, os fatores que fortalecem a resiliência dos migrantes e contribuem para a superação de situações de vulnerabilidade também se articulam nesses quatro âmbitos e, portanto, todos devem ser levados em conta ao construir respostas programáticas que visem a proteção dos migrantes. Também será considerada a vulnerabilidade a partir dos trajetos e momentos relacionados ao ciclo migratório, levando em consideração a existência de fatores de risco na origem, em trânsito e no destino. Logo, as ações de proteção devem também estar presentes ao longo de todo o ciclo migratório e não apenas no destino desejado pelos migrantes. Além disso, será abordada a proteção aos migrantes em situação de vulnerabilidade a partir da proteção de direitos humanos, a proteção legal, a proteção física e a proteção social. O marco internacional de direitos humanos e a legislação brasileira garantem aos migrantes uma série de direitos que oferecem proteção nesses âmbitos. No entanto, pode ser um desafio considerável encontrar respostas para a proteção de migrantes em situação de vulnerabilidade na prática. Módulo 4 71Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 1: O conceito de vulnerabilidade Conceituar o termo vulnerabilidade. A ONU Migração, no Protocolo de Assistência a Migrantes em Situação de Vulnerabilidade, define vulnerabilidade da seguinte forma: Em um contexto migratório, a vulnerabilidade significa a capacidade limitada para evitar, resistir, lidar com ou recuperar-se de danos. Esta capacidade limitada é o resultado de uma interação específica de características e condições individuais, familiar ou domiciliar, comunitários e estruturais. Assim, migrantes em situação de vulnerabilidade estão em risco exacerbado de violência, exploração e abuso, não conseguindo usufruir plenamente de seus direitos humanos e precisando de atenção particular. É importante entender que o conceito de vulnerabilidade deve servir para promover a plena realização dos direitos dessas pessoas e que o fato de uma pessoa se encontrar em uma situação de vulnerabilidade não significa que ela seja inerentemente vulnerável. Como explicam Carmo e Guizardi (2018), o conceito de vulnerabilidade se constrói nos sistemas de saúde e assistência social no Brasil visando a consolidação dos direitos de cidadania: O ser humano vulnerável, por outro lado, é aquele que, conforme conceito compartilhado pelas áreas da saúde e da assistência social, não necessariamente sofrerá danos, mas está a eles mais suscetível uma vez que possui desvantagens para a mobilidade social, não alcançando patamares mais elevados de qualidade de vida em função da sua cidadania fragilizada. Assim, ao mesmo tempo, o ser humano vulnerável pode possuir 72Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública ou ser apoiado para criar as capacidades necessárias para a mudança da sua condição. Logo, a compreensão das vulnerabilidades deve estar ancorada em uma percepção da pessoa como sujeito de direitos e plenamente capaz de realizar o seu potencial, de maneira a não promover uma perspectiva de tutela ou assistencialismo que, muitas vezes, restringe direitos em vez de promovê-los. Dentro dessa perspectiva, a situação de vulnerabilidade não é um sinal de "fraqueza", mas sim da existência de desigualdades que podem expor algumas pessoas a situações de maior risco de violações dos seus direitos. Os quatro tipos de fatores que impactam a vulnerabilidade são: fatores individuais, familiares, comunitários e estruturais. Esses fatores constam no Modelo de Determinantes da Vulnerabilidade de Migrantes, desenvolvido pela OIM. É importante destacar que a situação migratória não é o único fator determinante de vulnerabilidade. Migrantes em distintas situações migratórias, entre eles solicitantes de refúgio, refugiados e migrantes em situação regular ou irregular podem se encontrar em situação de vulnerabilidade. Esse ponto é importante pois muitos migrantes em situação de vulnerabilidade também podem precisar de formas específicas de proteção legal, mesmo que não se encaixem na definição de refugiado. Para dar apenas alguns exemplos, esse pode ser o caso das crianças migrantes desacompanhadas ou separadas, das vítimas de tráfico de pessoas, ou dos sobreviventes de tragédias ambientais. Além disso, um migrante que tenha saído de seu país de origem sem nenhuma condição de vulnerabilidade pode se tornar vulnerável no decorrer do percurso migratório ou mesmo quando já se encontra no país de destino. Por sua vez, refugiados podem chegar ao país em situações extremamente vulneráveis relacionadas com múltiplos fatores, como a situação em seu país de origem ou como consequência do que a pessoa possa ter sofrido ao estar exposta à perseguição e a um ambiente de generalizada violação de direitos humanos. No entanto, o refugiado não é inerentemente vulnerável, pois nas suas comunidades de acolhida, com o apoio adequado, ele tem todo o potencial que necessita para superar situações de vulnerabilidade. A legislação brasileira contempla o refúgio, a apatridia e a acolhida humanitária. Esta última permite oferecer proteção a pessoas que são obrigadas a abandonar o seu país de origem e buscar acolhimento no Brasil devido a motivos que não estão incluídos na definição do refúgio, mas que mesmo assim necessitam de proteção, 73Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública tais como as pessoas que vêm de países afetados por catástrofes ambientais ou grave instabilidade institucional. O marco de proteção aos direitos humanos se aplica a todas as pessoas sem qualquer tipo de discriminação. Entretanto, no caso de migrantes em situação de vulnerabilidade, a aplicação desse marco pode ser mais difícil de compreender e, em alguns casos, os fluxos de identificação e referenciamento podem inclusive não existir. Ao analisar os fatores de vulnerabilidade, é importante lembrar que a análise da situação de vulnerabilidade se faz de maneira individual,avaliando como os fatores interagem entre si naquele determinado contexto. 74Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 2: Fatores individuais Identificar os fatores individuais. Os fatores individuais são aqueles relacionados aos indivíduos, tais como seu status socioeconômico, suas características emocionais, psicológicas e cognitivas individuais, suas crenças e atitudes, sua história de vida e condições de saúde, assim como idade, etnia, identidade de gênero, orientação sexual, entre outros. Essas características são essenciais para a compreensão da construção de situações de vulnerabilidade, assim como para o fortalecimento das capacidades de resiliência dos indivíduos. Eles não devem ser compreendidos de maneira isolada, pois alguns desses fatores podem ser de risco ou protetivos de acordo com o contexto. Por exemplo, o domínio de certo idioma pode ser um fator protetivo em contextos nos quais esse idioma permite à pessoa se comunicar plenamente e acessar serviços; a situação contrária pode ser um fator de risco, quando a pessoa não consegue se comunicar. Por outro lado, alguns fatores geralmente são protetivos ou de risco em praticamente todos os contextos. Um exemplo é a literacia (capacidade de ler), que costuma ser um fator protetivo, enquanto o analfabetismo é quase sempre um fator de risco. 75Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 3: Fatores familiares Identificar os fatores familiares. Esses fatores se referem às circunstâncias familiares em que os indivíduos estão inseridos, tais como o papel e a posição de cada um dos membros dentro da família e as histórias e experiências familiares. As famílias são, muitas vezes, a primeira opção das pessoas quando precisam de apoio, especialmente as crianças, os jovens e os idosos. Todos os membros de uma família têm direitos e a forma como estes são respeitados dentro da família e no contexto social em que se inserem afeta de maneira importante os riscos aos quais os indivíduos estão expostos e a sua capacidade de construir resiliência. Assim, o contexto familiar pode incluir tanto fatores de risco quanto de proteção contra a violência, a exploração e o abuso. A violência ou a desigualdade de tratamento entre membros da família, por exemplo, são fatores de risco, enquanto um ambiente acolhedor solidário e uma distribuição equitativa de recursos são fatores de proteção. Outros exemplos de fatores relacionados à família incluem o seu tamanho e a estrutura, históricos de violências, as histórias migratórias, os meios de subsistência de que a família dispõe e as dinâmicas entre os membros. 76Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 4: Fatores comunitários Identificar os fatores comunitários. Os fatores comunitários dizem respeito às sociedades em que os indivíduos e famílias se inserem, com suas características econômicas, culturais e sociais. É importante notar que, assim como ocorre com os fatores familiares, alguns fatores comunitários podem afetar grupos da comunidade de maneira diferente, o que torna alguns grupos mais vulneráveis do que outros. Por exemplo, se em uma comunidade os meninos e meninas têm acesso desigual à educação e as meninas não podem estudar, então as meninas estão expostas a um fator de risco por conta da falta de acesso à educação, mas para os meninos no mesmo exemplo, o acesso à educação é um fator protetivo. Alguns fatores de risco e de proteção podem se aplicar a todos os membros de uma comunidade, de maneira que é a comunidade como um todo que se torna mais ou menos vulnerável. Um exemplo é a exposição a fatores ambientais como enchentes, desertificação e contaminação ambiental, que podem ameaçar as formas de vida e os meios de subsistência da comunidade como um todo, além de resultar em experiências traumáticas. Cada um dos membros de uma comunidade tem direitos e a maneira como estes são respeitados define como os fatores comunitários podem representar riscos ou proteção para os demais membros. Todas as comunidades têm uma combinação de fatores de risco e de proteção. Alguns exemplos desses fatores podem incluir a existência de oportunidades educacionais de qualidade, de assistência em saúde, de equipamentos de assistência social e psicológica, e a maneira como esses recursos são divididos entre os membros da comunidade. Logo, a desigualdade também é de grande relevância para entender como esses fatores podem vir a representar risco ou proteção individual. 77Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 5: Fatores estruturais Identificar os fatores estruturais. Esse conjunto de fatores se refere, de maneira ampla, às condições históricas, sociais, geográficas, políticas, econômicas, sociais e culturais em diferentes níveis que conformam o ambiente nos quais os indivíduos, as famílias e as comunidades estão inseridos. Fatores estruturais, de forma geral, são relativamente estáveis e difíceis de alterar. Exemplos desses fatores de risco incluem estruturas herdadas de um passado de colonização, a existência de leis discriminatórias ou de um estado de direito frágil. Fatores protetivos podem incluir, por exemplo, uma sólida cultura de respeito pelos direitos humanos, de manutenção da paz e políticas para a diminuição das desigualdades sociais entre grupos. 78Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 6: O Modelo de Determinantes da Vulnerabilidade de Migrantes Conceituar o Modelo de Determinantes da Vulnerabilidade de Migrantes. No Modelo de Determinantes da Vulnerabilidade de Migrantes da OIM, a vulnerabilidade em contexto migratório é o resultado da interação de um conjunto de fatores de risco e proteção em vários níveis, incluindo os fatores individuais, familiares, comunitários e estruturais que acabamos de ver. Esse modelo leva em conta como a interação de fatores afeta os riscos de sofrer violência, exploração e abuso ao longo de todo o ciclo migratório, mas também as capacidades de resiliência dos migrantes. Assim, a presença de um fator de risco não implica automaticamente que o imigrante estará em uma situação de vulnerabilidade. Muitas vezes, a situação de vulnerabilidade é o produto da atuação simultânea de vários fatores de risco, ao mesmo tempo em que os fatores protetivos são insuficientes. Igualmente, mesmo quando existem múltiplos fatores de risco, a situação de vulnerabilidade pode não vir a ocorrer devido à presença de vários fatores protetivos que fortaleçam a capacidade de resiliência dos migrantes. O propósito do Modelo de Determinantes da Vulnerabilidade dos Migrantes é facilitar uma análise significativa de como múltiplos fatores se interseccionam de maneira dinâmica para influenciar a vulnerabilidade e a resiliência, de maneira a encontrar melhores soluções para a proteção dos direitos humanos dos migrantes. 79Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Modelo de determinantes da vulnerabilidade da OIM. Fonte: IOM Handbook on Protection and Assistance for Migrants Vulnerable to Violence, Exploitation and Abuse (2018). Disponível em: https://publications.iom.int/system/files/pdf/avm_handbook.pdf. https://publications.iom.int/system/files/pdf/avm_handbook.pdf 80Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 7: Na origem, em trânsito e no destino Identificar a situação de vulnerabilidade por meio do ciclo migratório. Os fatores que levam a uma situação de vulnerabilidade podem ocorrer ao longo de todo o ciclo migratório. Eles podem ser parte do que leva o migrante a sair do seu país de origem, mas podem também ocorrer durante o trânsito e no destino. Situações de vulnerabilidade associadas a múltiplos fatores podem ocorrer ao longo de todo o ciclo migratório, mesmo que os fatores associados sejam diferentes. Também é importante lembrar que as situações de vulnerabilidade podem se formar mesmo nos casos de migrantes que iniciaram o seu processomigratório de forma completamente voluntária. Há pessoas que podem não ter um pedido da condição de refugiado, mas que estão, no entanto, vulneráveis e precisam de proteção como resultado das condições no seu país de origem ou da maneira em que elas são levadas a migrar. (UN SG Report A/70/59, parágrafo. 35). Ao longo de todo este curso, fomos discutindo a multiplicidade de situações que estão relacionadas à migração e os muitos motivos que levam as pessoas a migrar. Entre esses motivos, é importante destacar que existem fatores que levam as pessoas a migrar porque elas estão impossibilitadas de exercer plenamente os seus direitos nos seus países de origem ou de residência habitual. Esses motivos podem ser muitos, como os desastres ambientais; as degradações ambientais e as mudanças climáticas; a falta de acesso à educação e saúde; a discriminação por motivos de gênero, raça ou orientação sexual; o recrutamento de crianças por parte de grupos armados, entre muitos outros. Migrantes em situação de deslocamento forçado estão em maior risco de sofrer violações de direitos humanos ao longo do seu ciclo migratório. Nos trajetos utilizados pelos migrantes, outros fatores de risco podem emergir, principalmente se os migrantes estão obrigados ou são induzidos a utilizar formas 81Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública perigosas de transporte. Em alguns casos, os migrantes fazem uso de coiotes para facilitar a sua travessia de fronteiras, que podem vir a colocá-los em situações de grande perigo. Alguns podem ser vitimizados por redes de tráfico de pessoas durante o trajeto. Podem também enfrentar períodos sem acesso a condições adequadas de alimentação, água ou atendimento médico, por exemplo. Práticas como o fechamento de fronteiras, expulsão ou não admissão coletiva ou arbitrária podem colocar em grave risco a segurança e a saúde dos migrantes, além de expô-los a situações de violações de direitos humanos. Alguns fatores de risco emergem no destino. Situações que podem vir a causar vulnerabilidades na comunidade de acolhida incluem a dificuldade no acesso à documentação e à regularização migratória em geral, a xenofobia e o racismo, obstáculos no acesso à justiça e a serviços básicos. As barreiras linguísticas podem ser outro fator de risco importante, assim como a falta de locais de referência onde buscar ajuda. 82Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 8: Vulnerabilidade à violência, exploração e abuso Identificar a vulnerabilidade à violência, exploração e abuso em contexto migratório. Vamos conhecer, nesta unidade, a vulnerabilidade à violência, exploração e abuso em contexto migratório. 8.1 Violência contra mulheres e meninas em contextos de mobilidade A violência contra a mulher é entendida como toda violência que é direcionada contra uma pessoa por causa do seu gênero. No Brasil, a referência mais conhecida para a compreensão desse conceito é a Lei Maria da Penha (Lei nº 11.340/2006), que pretende enfrentar a violência doméstica e familiar contra as mulheres e meninas. Apesar de a Lei Maria da Penha ser a referência mais conhecida no Brasil, a violência contra a mulher não ocorre apenas no âmbito doméstico ou das relações íntimas. Ela ocorre toda vez que uma violência é direcionada contra mulheres e meninas por causa do seu gênero. Segundo o UNFPA, o Fundo de População das Nações Unidas (2017), "a violência contra mulheres e meninas é uma das violações de direitos humanos mais prevalentes no mundo. Ela não conhece barreiras sociais, econômicas ou nacionais". No contexto das migrações, a violência contra a mulher deve ser entendida de maneira transversal; ela pode ser uma das motivações que levam mulheres e meninas a migrar, inclusive a buscar proteção internacional como refugiadas. A violência contra a mulher pode ocorrer também durante o trajeto: segundo o Migration Policy Institute (2017), mais da metade das mulheres migrantes em algumas rotas migratórias relataram ter sofrido violência sexual e muitas delas adotam alguma estratégia anticoncepcional durante o trajeto para evitar uma 83Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública gravidez resultante de estupro. Na chegada ao destino, as mulheres podem também estar expostas a esse tipo de violência. Agora, assista ao vídeo da UNFPA Brasil sobre o Dia Internacional da Juventude: Violência de Gênero e Migração. Vídeo 10 – "Dia Internacional da Juventude: Violência de Gênero e Migração”. Duração: 01:43 Fonte: UNFPA Brasil (2018). 8.2 Exploração laboral A exploração laboral consiste em situações de trabalho forçado, servidão por dívida, jornadas exaustivas ou em condições degradantes e pode incluir violência, maus- tratos, restrição de liberdade, retenção de documentos e recusa de pagamento. + Trabalho forçado É aquele exigido sob ameaça de sanção física ou psicológica e para o qual o trabalhador não tenha se oferecido ou não deseje permanecer espontaneamente. Ocorre quando a pessoa é coagida a trabalhar através do uso de violência ou intimidação, física ou psicológica, ou até mesmo por meios mais sutis como a servidão por dívidas, a retenção de documentos de identidade ou ameaças de denúncia às autoridades de imigração. + Jornada exaustiva É toda forma de trabalho, de natureza física ou mental que, por sua extensão ou por sua intensidade, acarrete violação de direito fundamental do trabalhador, notadamente os relacionados à segurança, saúde, descanso e convívio familiar e social. Ocorre em casos de expediente desgastante que supera as horas extras e coloca em risco a integridade física do trabalhador, de maneira que o intervalo entre jornadas é insuficiente para o descanso e recuperação. + Servidão por dívida É a limitação ao direito fundamental de ir e vir ou de encerrar o contrato de prestação do trabalho em razão de dívida imputada pelo empregador ou preposto ou da indução ao endividamento com terceiros. Inclui https://www.youtube.com/watch?v=ZZCqAhgs55Q&feature=emb_logo https://www.youtube.com/watch?v=ZZCqAhgs55Q&feature=emb_logo https://youtu.be/ZZCqAhgs55Q https://youtu.be/ZZCqAhgs55Q 84Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública a fabricação de dívidas ilegais referentes a gastos com transportes, alimentação, aluguel e ferramentas de trabalho. Serviços e itens são cobrados de maneira abusiva e descontados do salário do trabalhador. + Condição degradante É qualquer forma de negação da dignidade humana pela violação de direito fundamental do trabalhador, notadamente os dispostos nas normas de proteção do trabalho e de segurança, higiene e saúde no trabalho. Inclui um conjunto de elementos irregulares que caracterizam a precariedade do trabalho e das condições de vida sob a qual o trabalhador é submetido, por exemplo o alojamento precário, a falta de assistência médica, péssimas condições de alimentação, falta de saneamento básico e água potável, maus-tratos e violência. A exploração laboral não ocorre apenas em lugares remotos nem está restrita apenas a um setor produtivo. Ela pode ocorrer no campo, em indústrias, no espaço doméstico, entre outros. Por isso, é importante conhecer como se caracteriza esse tipo de exploração, para saber identificá-la e ativar os canais de denúncia. Confira dois exemplos de exploração laboral: • Leitura: Domésticas das Filipinas são escravizadas em São Paulo. • Vídeo: #NãoSomosEscravosdaModa – Luedji Luna. Fonte: MPTPGT (2018). Caso haja suspeita de uma situação de exploração laboral, é possível denunciar e solicitar uma fiscalização para avaliar a existência de irregularidades. A fiscalização deve ser solicitada à Superintendência Regional do Trabalho. Denúncias podem ser feitas no Disque Direitos Humanos – Disque 100 ou encaminhadas ao Ministério Público do Trabalho, de forma presencial ou on-line no site: https://mpt.mp.br/. 8.3 Tráfico de pessoas Situações de vulnerabilidade e tráfico de pessoas também estão relacionadas,porém não são equivalentes. Redes de tráfico de pessoas podem aliciar, nos locais de origem, pessoas que não estão em situação de vulnerabilidade, mas a existência de uma situação de vulnerabilidade prévia é um fator de risco, assim como a desigualdade entre homens e mulheres, a baixa escolaridade, a falta de acesso à informação sobre o tráfico de pessoas, entre muitos outros. Outros fatores de risco incluem a situação de indocumentação, como não possuir documento de identidade ou certidão de nascimento. https://www.youtube.com/watch?v=X8aLv19wnBg&list=PLFOKa-Ofll2eqZlTqov8rvqVMrjnp3F75&index=17 https://mpt.mp.br/ 85Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Mulheres, crianças e adolescentes são as principais vítimas do tráfico de pessoas. Crianças e adolescentes são geralmente recrutados por pessoas adultas, que oferecem de forma enganosa melhores condições de vida. No caso das adolescentes, outra forma de recrutamento pode ser fingir interesse em iniciar uma relação amorosa ou ofertas de trabalho como modelo ou babá em outros lugares. No entanto, é muito importante compreender que o tráfico de pessoas não abarca apenas situações de tráfico de mulheres e meninas para a exploração sexual – esta era a única situação reconhecida pela lei brasileira como tráfico de pessoas até 2016, de maneira que por vezes ela pode permanecer no imaginário social como a única situação associada ao tráfico de pessoas. Na maioria das vezes, o aliciador não trabalha isoladamente, mas em uma rede que pode incluir transportadores, fornecedores de documentação falsa, encobridores de lugares de exploração, entre outros. Ao chegar ao lugar de destino, diferentes formas de exploração começam a operar para impedir que a vítima consiga sair do lugar. Saiba mais lendo a reportagem da Polícia Federal sobre a desarticulação do esquema criminoso de tráfico internacional de pessoas: • https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/pf- desarticula-esquema-de-trafico-internacional-de-pessoas- na-bahia-e-mais-tres-estados/ Leia também sobre o combate ao tráfico internacional de pessoas e ao trabalho escravo: • https://exame.com/brasil/pf-deflagra-operacao-contra- trafico-de-pessoas-e-trabalho-escravo/ • https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/ direitos-humanos/audio/2021-05/pf-faz-operacao-de- combate-ao-trafico-de-pessoas-e-trabalho-escravo O crime quase nunca é percebido pelas vítimas, que frequentemente relatam o acontecido como má sorte ou desgraça. Assim, é importante conhecer os elementos que caracterizam o tráfico de pessoas para poder identificar narrativas que possam indicar essas situações. https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/pf-desarticula-esquema-de-trafico-internacional-de-pessoas-na-bahia-e-mais-tres-estados/ https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/pf-desarticula-esquema-de-trafico-internacional-de-pessoas-na-bahia-e-mais-tres-estados/ https://www.correio24horas.com.br/noticia/nid/pf-desarticula-esquema-de-trafico-internacional-de-pessoas-na-bahia-e-mais-tres-estados/ https://exame.com/brasil/pf-deflagra-operacao-contra-trafico-de-pessoas-e-trabalho-escravo/ https://exame.com/brasil/pf-deflagra-operacao-contra-trafico-de-pessoas-e-trabalho-escravo/ https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2021-05/pf-faz-operacao-de-combate-ao-trafico-de-pessoas-e-trabalho-escravo https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2021-05/pf-faz-operacao-de-combate-ao-trafico-de-pessoas-e-trabalho-escravo https://agenciabrasil.ebc.com.br/radioagencia-nacional/direitos-humanos/audio/2021-05/pf-faz-operacao-de-combate-ao-trafico-de-pessoas-e-trabalho-escravo 86Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 9: Proteção a migrantes em situação de vulnerabilidade Indicar os diferentes tipos de proteção a migrantes em situação de vulnerabilidade. O termo "proteção" costuma ser utilizado para "descrever as ações que têm como objetivo manter a segurança e o bem-estar dos indivíduos, de acordo com os direitos reconhecidos.” Essa proteção está codificada nos diversos instrumentos internacionais de direitos humanos, assim como na legislação nacional relevante, mas pode encontrar obstáculos como a falta de mecanismos de implementação adequados aos casos de migrantes vulneráveis, independente da sua situação migratória. Os tipos de proteção importantes para migrantes em situação de vulnerabilidade incluem a proteção de direitos humanos, a proteção legal, a proteção física, a proteção social e a proteção humanitária. A proteção dos direitos humanos é a obrigação dos Estados de respeitar, proteger e cumprir o conjunto de direitos humanos. Portanto, consiste na obrigação de: ➊Respeitar os direitos humanos e não interferir com o pleno usufruto destes direitos (por exemplo, banindo as práticas de detenção arbitrária ou expulsão coletiva, entre outras). ➋Proteger todas as pessoas na sua jurisdição contra violações de direitos que possam ser cometidas por indivíduos ou entes privados (por exemplo, combatendo o trabalho escravo e tráfico de pessoas). ➌Cumprir as suas obrigações com respeito a estes direitos de maneira positiva, isso é, implementando medidas para a plena realização dos direitos humanos. A proteção legal se dá através do Estado de Direito e da construção de um marco legal no direito interno que busque proteger os indivíduos de violações aos seus direitos, além de construir as condições para o pleno acesso à justiça e ao devido 87Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública processo legal. No Brasil, a proteção legal de migrantes vulneráveis se dá de diversas maneiras. Como exemplos, além das proteções previstas na Constituição e na Lei de Migração, citamos o acesso à assistência jurídica gratuita através da Defensoria Pública da União. A Defensoria Pública da União, o Ministério Público Federal e a Defensoria Pública Estadual podem atuar na proteção legal de imigrantes, dentro das suas atribuições legais. Essa proteção não se limita a questões estritamente ligadas à migração. A proteção física inclui as medidas para manter a integridade física das pessoas e dos seus bens, prevenindo situações de dano ou perigo. Ela pode incluir, por exemplo, o abrigamento ou o acesso a programas de proteção para vítimas de tráfico de pessoas. Já a proteção social inclui o apoio aos indivíduos, famílias e comunidades em questões relacionadas ao seu bem-estar, prevenindo, gerindo e superando riscos nessa área, buscando reduzir a pobreza, a exclusão social e a desigualdade. No Brasil, a seguridade social está descrita na Constituição e não diferencia brasileiros e imigrantes, de maneira que os imigrantes podem acessar todos os direitos relativos à saúde, à previdência e à assistência social (capítulo II, artigo 194). Pessoas que trabalham na assistência a migrantes têm um importante papel na garantia da proteção a migrantes em situação de vulnerabilidade, em especial a proteção social e física. No âmbito da Operação Acolhida, força-tarefa que atende imigrantes venezuelanos especialmente em Roraima e Amazonas, medidas estão em prática para garantir a proteção de migrantes vulneráveis em diversos aspectos. A proteção legal se dá através da regularização migratória e da presença e atuação da Defensoria Pública da União, principalmente em casos de crianças separadas e desacompanhadas. A proteção física é garantida pelo Exército Brasileiro através da instalação de infraestruturas e da presença nos espaços da Operação. Por fim, a proteção social é garantida pela presença de uma equipe de assistentes sociais capazes de analisar e encaminhar os casos mais vulneráveis para o pedido de benefícios sociais. 88Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 10: Princípios orientadores na assistência a imigrantes em situação de vulnerabilidade Reconhecer os princípios orientadores na assistência a imigrantes em situaçãode vulnerabilidade. Os seguintes princípios devem orientar a assistência a migrantes em situação de vulnerabilidade: ➊ Enfoque em direitos humanos O enfoque nos direitos humanos dos imigrantes deve permear todos os aspectos da assistência. Isso equivale a dizer que todas as ações realizadas no âmbito da assistência devem se preocupar ativamente com a garantia dos direitos humanos dos migrantes e tomar as precauções necessárias para que eles não sejam desrespeitados ou colocados em segundo plano. ➋ Evitar um dano maior Devido aos riscos associados, ao estado de fragilidade e vulnerabilidade das vítimas e à possibilidade de aumentar o trauma, deve-se evitar toda ação que possa causar maior dano. É necessário reconhecer que a maneira de prestar assistência pode resultar em impactos negativos involuntários e atuar para evitar essas situações. Por exemplo, expor uma pessoa sobrevivente de uma situação traumática a gatilhos de trauma ou pedir-lhe que relate a sua história mais de uma vez e/ou em condições inadequadas pode resultar em um impacto muito negativo sobre a sua saúde mental. Toda a atuação na assistência deve evitar a revitimização. ➌ Livre acesso a serviços Os imigrantes que necessitem devem ter livre acesso aos serviços disponíveis. O acesso aos serviços públicos é garantido pela legislação brasileira. ➍ Confidencialidade e direito à privacidade Todos os dados obtidos no contexto da assistência devem ser tratados com confidencialidade e com respeito à privacidade. Dados pessoais não devem ser divulgados e o imigrante deve ser informado sobre o tratamento dos seus dados pessoais. Qualquer divulgação só pode ser 89Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública feita com o consentimento informado do imigrante e este consentimento pode ser retirado a qualquer momento. A confidencialidade se aplica aos dados pessoais do imigrante e da sua família. ➎ Assistência e tratamento personalizados, contínuos e integrais Reconhecer e respeitar a individualidade dos imigrantes e prover cuidado e assistência personalizados. ➏ Autodeterminação e participação Reconhecer o direito e a necessidade do imigrante de participar na tomada de decisões na maior medida possível. ➐ Consentimento informado O imigrante deve sempre ser plenamente informado e consentir com qualquer assistência fornecida. Isso deve ser feito tendo atenção às diferenças linguísticas, culturais e aos possíveis desafios na comunicação com a pessoa imigrante. O consentimento da pessoa imigrante a qualquer tipo de assistência fornecida pode ser revisto por ela a qualquer momento. ➑ Não discriminação Por qualquer motivo como gênero, etnia, idade, nacionalidade, situação migratória, tempo de estadia no país, entre outros. ➒ Sensibilidade ao gênero A assistência deve ser feita de forma sensível às desigualdades entre homens e mulheres, de maneira a não as exacerbar. Isso implica considerar os impactos que cada ação pode vir a ter sobre essas desigualdades, mesmo quando se trate de ações que não estão pensadas especificamente para atuar na redução de desigualdades. ➓ Superior interesse da criança Todas as ações envolvendo crianças e adolescentes devem ser tomadas considerando o seu superior interesse. O superior interesse da criança é um direito da criança e um princípio orientador de todas as ações que envolvam crianças. Esse conceito se articula com outros direitos e princípios e não pode ser invocado para justificar a limitação dos direitos da criança ou ações que possam provocar maior dano. A interpretação do superior interesse da criança é individual e coletiva, ou seja, refere- se ao superior interesse de cada criança – em sua situação particular – assim como do grupo de crianças. 90Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Glossário Verbete Palavra associada Definição / Significado Vulnerabilidade Em um contexto migratório, a vulnerabilidade é a capacidade limitada para evitar, resistir, enfrentar ou recuperar-se do dano. Essa capacidade limitada é o resultado da interação específica de características e condições individuais, familiares, comunitárias e estruturais. Proteção Todas as atividades que visam à obtenção do pleno respeito pelos direitos do indivíduo de acordo com a letra e espírito dos conjuntos legislativos relevantes (direitos humanos, Direito Internacional Humanitário, Direito Internacional dos Refugiados) Tráfico de pessoas O recrutamento, transporte, transferência, alojamento ou acolhimento de pessoas recorrendo-se à ameaça, ao uso da força ou a outras formas de coação, ao rapto, à fraude, ao engano, ao abuso de autoridade, à situação de vulnerabilidade ou à entrega ou aceitação de pagamentos ou benefícios para obter o consentimento de uma pessoa que tenha autoridade sobre outra para fins de exploração. A exploração pode incluir a exploração da prostituição de outros ou diferentes formas de exploração sexual, o trabalho forçado, a escravidão ou práticas análogas à escravidão, a servidão, a remoção de órgãos e a adoção ilegal. 91Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Referências CARMO, M. E.; GUIZARDI, F. L. O conceito de vulnerabilidade e seus sentidos para as políticas públicas de saúde e assistência social. Cadernos de Saúde Pública, v. 34, n. 3. Brasília, 2018. Disponível em: https://doi.org/10.1590/0102-311x00101417. Acesso em: 9 nov. 2020. UNHCR - The UN Refugee Agency. Figures at a Glance. UNHCR - The UN Refugee Agency, 2019. Disponível em: http://www.unhcr.org/figures-at-a-glance.html. Acesso em: 9 nov. 2020. IOM. International Organization for Migration. Glossary on Migration, n. 34. Genebra, 2019. IOM. International Organization for Migration. IOM handbook: on protection and assistance for migrants vulnerable to violence, exploitation and abuse. Genebra, 2018. Disponível em: https://publications.iom.int/system/files/pdf/avm_handbook. pdf. Acesso em: 9 nov. 2020. OHCHR; GLOBAL MIGRATION GROUP. Principles and guidelines, supported by practical guidance, on the human rights protection of migrants in vulnerable situations. Genebra. [s. d.]. RUIZ, Suely. Protocolo de assistência a migrantes em situação de vulnerabilidade. Brasília: OIM - Brasil, 2018. Adaptado. TRINDADE, C. A. A. Uprootedness and the protection of migrants in the International Law of Human Rights. Revista Brasileira de Política Internacional v. 51, n. 1. Brasília, 2008. Disponível em: https://doi.org/10.1590/S0034-73292008000100008. Acesso em: 9 nov. 2020. UNHCR. United Nations High Commissioner for Refugees. Convention and protocol relating to the status of refugees. Genebra, 1951. Disponível em: http://www. unhcr.org/3b66c2aa10. Acesso em: 9 nov. 2020. UN. United Nations. International migrant stock 2019. Department of Economic and Social Affairs, 2019. VIDAL, E. M.; TJADEN, J. D. Global Migration Indicators. IOM's Global Migration Data Analysis Centre: Berlim, 2018. Disponível em: https://publications.iom.int/system/ files/pdf/global_migration_indicators_2018.pdf. Acesso em: 09 nov. 2020. https://doi.org/10.1590/0102-311x00101417 http://www.unhcr.org/figures-at-a-glance.html https://publications.iom.int/system/files/pdf/avm_handbook.pdf https://publications.iom.int/system/files/pdf/avm_handbook.pdf https://doi.org/10.1590/S0034-73292008000100008 http://www.unhcr.org/3b66c2aa10 http://www.unhcr.org/3b66c2aa10 https://publications.iom.int/system/files/pdf/global_migration_indicators_2018.pdf https://publications.iom.int/system/files/pdf/global_migration_indicators_2018.pdf 92Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Atendimento a imigrantes Neste módulo, será abordada a importância da documentação para assegurar a qualidade de vida aos imigrantes. Além disso, serão expostos os direitos que os imigrantes possuem à saúde, à assistência social, à moradia, à educação, ao trabalho, à renda, à assistência jurídica e à reunião familiar. Unidade 1: Documentação Reconhecer a importânciada documentação para a qualidade de vida dos imigrantes. A documentação é um aspecto muito importante para a qualidade de vida dos imigrantes e o acesso a direitos. O principal documento de identificação dos migrantes no Brasil é chamado Carteira de Registro Nacional Migratório (CRNM). Esse documento é padrão, independente da hipótese utilizada pelo migrante para a regularização migratória no Brasil. A CRNM é produzida pela Polícia Federal (Decreto nº 9.199/2017, artigo 58). Carteira de Registro Nacional Migratório. https://portaldeimigracao.mj.gov. br/images/portarias/PORTARIA_N%C2%BA_11.264_DE_24_DE_JANEIRO_ DE_2020.pdf. Portaria nº 11.264, de 24 de janeiro de 2020. Entre as diferentes formas de regularização migratória no Brasil, podem ser citados os vistos temporários (solicitados fora do Brasil) e as autorizações de residência (requeridasno Brasil), assim como a solicitação de reconhecimento da condição de refugiado e a solicitação de reconhecimento da condição de apátrida. Módulo 5 https://portaldeimigracao.mj.gov.br/images/portarias/PORTARIA_N%C2%BA_11.264_DE_24_DE_JANEIRO_DE_2020.pdf https://portaldeimigracao.mj.gov.br/images/portarias/PORTARIA_N%C2%BA_11.264_DE_24_DE_JANEIRO_DE_2020.pdf https://portaldeimigracao.mj.gov.br/images/portarias/PORTARIA_N%C2%BA_11.264_DE_24_DE_JANEIRO_DE_2020.pdf 93Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Todos os imigrantes, uma vez que tenham a sua situação migratória estabelecida no Brasil, recebem a CRNM. Para tal, é importante saber que todos os imigrantes devem realizar o seu registro junto à Polícia Federal, inclusive os que entram no país portando um visto temporário (Decreto nº 9.199/2017, artigo 62). A exceção são os solicitantes de reconhecimento da condição de refugiado que receberão um documento de identificação provisório enquanto seu pedido é analisado pelo governo brasileiro Saiba Mais sobre o Decreto nº 9.199/2017 em http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/decreto/D9199.htm No caso de solicitantes de reconhecimento da condição de refugiado, o protocolo recebido tem validade de um ano e funciona como documento de identificação até que o Comitê Nacional para os Refugiados (Conare) decida sobre a solicitação de reconhecimento da condição de refugiado. Esse documento pode ser em formato de cédula, o Documento Provisório de Registro Nacional Migratório (DPRNM). Caso essa decisão não ocorra antes da data de vencimento do protocolo de solicitação, este poderá ser renovado na Polícia Federal por mais um ano. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/decreto/D9199.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2015-2018/2017/decreto/D9199.htm 94Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Você conhece o Protocolo de Refúgio? Veja um modelo do documento: Modelo de protocolo de refúgio. Fonte: https://www.justica.gov.br/seus-direitos/refugio/ integracao-local. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Acesso em: 9 nov. 2020. O Protocolo de Refúgio e o DPRNMé são os documentos de identificação do solicitante de refúgio, e é válidos em todo ono território nacional, para as pessoas que estão nessa situação. Por isso, esses documentos deveráão ser aceitos em todas as ocasiões em que solicitarem um documento de identificação, como na abertura de conta bancária, na realização de contrato de aluguel, na matrícula em um curso superior, numa viagem dentro do território brasileiro, entre outros. https://www.justica.gov.br/seus-direitos/refugio/integracao-local https://www.justica.gov.br/seus-direitos/refugio/integracao-local 95Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública 📌 Você sabia? Caso queira comprovar a veracidade de um protocolo de refúgio, você pode utilizar os mecanismos de verificação incluídos na parte inferior do documento: Protocolo com a verificação destacada Também há relatos de pessoas que têm dificuldade de acessar certos direitos por conta da palavra "Provisório" no DPRNM, como por exemplo em uma contratação para um emprego por tempo indeterminado. Vale lembrar que "Provisório" não diz respeito ao tempo de estadia da pessoa no Brasil. Para acesso a direitos básicos, não há diferença entre migrantes irregulares ou regulares, ou autorizações de residência provisórias ou definitivas, por tempo determinado ou indeterminado. 96Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Modelo atual de documento provisório. Fonte: https://portaldeimigracao.mj.gov.br/images/portarias/PORTARIA_N%C2%BA_11.264_ DE_24_DE_JANEIRO_DE_2020.pdf. Portaria nº 11.264, de 24 de janeiro de 2020. De posse da CRNM ou de algum dos protocolos provisórios, o imigrante pode exercer atos da vida civil normalmente, além de conseguir acessar sem restrição serviços, programas e benefícios vinculados aos sistemas públicos. Importante lembrar que, mesmo que não tenham esses documentos, os direitos básicos devem ser garantidos, de preferência identificando o imigrante com o documento que dispuser. Por conta dos prazos de validade e hipóteses definidas para a regularização migratória no Brasil, pode ser necessário encaminhar a mesma pessoa para a regularização migratória mais de uma vez. Isso pode se dar por vários motivos, entre eles o fim do prazo de residência ou o surgimento de uma hipótese de regularização migratória mais vantajosa para o imigrante. Assim como os brasileiros, os imigrantes podem solicitar o CPF na Receita Federal e, para isso, devem apresentar a CRNM, DPRNM, Certificado de inscrição consular ou o protocolo de que disponham. São aceitos também documentos de viagem admitidos em acordos internacionais, que se aplica aos documentos de identificação do país de origem de Estados Partes do MErcosul e Estados associados. Para imigrantes em trânsito ou residentes no exterior, é possível emitir com passaporte, documento de identificação do país de origem ou outros documentos de viagem admitidos em tratado (Instrução Normativa SRFB nº 2.034 em junho de 2021). Para fazer a inscrição no CPF, o imigrante pode se dirigir às agências do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal ou dos Correios e deverá pagar uma taxa de R$7,00 ou apresentar a Declaração de Hipossuficiência Econômica, em igual modelo à apresentada junto à Polícia Federal para fins de regularização migratória. Os menores de 16 anos deverão apresentar também o documento de identificação de um dos pais ou de outro responsável legal que detenha sua guarda. É possível fazer a inscrição no CPF de forma virtual, gerando um protocolo de atendimento no site da Receita Federal e fazendo o encaminhamento dos documentos por e-mail. O imigrante pode também solicitar a carteira de trabalho digital. O procedimento para obtenção por via digital exige que a pessoa tenha CPF e uma conta Gov.br e https://www.gov.br/pt-br/servicos/inscrever-no-cpf https://www.gov.br/pt-br/servicos/inscrever-no-cpf https://www.gov.br/pt-br/servicos/obter-a-carteira-de-trabalho 97Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública acesso a um meio digital (celular, computador).Em todos os casos, a CTPS emitida para imigrantes tem a mesma validade do documento de regularização migratória e pode ser renovada quando a CRNM for renovada. O Cartão Nacional de Saúde também pode ser obtido por todos os imigrantes que residam no Brasil. Para solicitar o cartão, o imigrante pode se dirigir à Secretaria de Saúde do município ou a qualquer unidade de saúde do SUS. Será necessário apresentar um documento de identificação e o CPF. Uma vez feito o cadastro, também será possível acessar o Portal de Saúde do Cidadão. A pessoa também pode fazer um pré-cadastro através do portal. Caso a pessoa não possua documentos migratórios, o cadastro deve ser feito apenas com o CPF e o documento de identificação que o imigrante dispuser. Se a pessoa não tiver CPF, o cadastro deve ser feito ainda assim, constando como incompleto e o atendimento não deve ser negado em razão da condição migratória.De qualquer maneira, é importante lembrar que ninguém será impedido de receber atendimento de saúde por não portar ou ter um cartão do SUS. Já o cadastramento no CadÚnico deve ser feito pelo responsável pela unidade familiar através da apresentação do CPF nos Centros de Referência de Assistência Social (CRAS). Os demais membros da família devem apresentar qualquer um dos seguintes documentos de identificação: certidão de nascimento, certidão de casamento, CPF, carteira de identidade (RG), carteira de registro nacional migratório (CRNM), carteira de trabalho ou título de eleitor. A pessoa que será registrada como responsável pela unidade familiar deve ser maior de 16 anos e preferencialmente mulher. Embora não sejam documentos indispensáveis, a apresentação de comprovante de endereço, comprovante de matrícula escolar das crianças de 4 a 17 anos e carteira de trabalho agilizam a inclusão da família em programas sociais. Caso a pessoa não tiver CPF, o cadastro deve ser realizado, constando como incompleto e a família orientada a realizar a inscrição. Qualquer atendimento que não exija o cadastro completo deve ter seguimento normalmente, independente da condição migratória da pessoa. A abertura de conta bancária também é garantida pela nova Lei de Migração. No entanto, às vezes os imigrantes podem encontrar obstáculos para a abertura de conta, inclusive por desconhecimento acerca dos documentos de que eles dispõem. Por regulamentação, as instituições financeiras têm autonomia para definir a documentação necessária para identificação de clientes, sendo hábeis para essa identificação qualquer documento reconhecido pela legislação vigente no País (Instrução Normativa BCB n°2 de 3 de agosto de 2020). Via de regra, a CRNM, DPRNM e protocolos devem ser aceitos normalmente, sendo a sua recusa uma violação dessa norma. Em alguns casos, agências bancárias podem aceitar passaporte ou documento do país de origem, de forma discricionária. http://mds.gov.br/assuntos/cadastro-unico/o-que-e-e-para-que-serve/como-se-cadastrar 98Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 2: Acesso à saúde Identificar o direito de acesso à saúde dos imigrantes. No Brasil, a saúde é direito de todos e dever do Estado (Constituição federal, artigo 196). O SUS pode, portanto, ser acessado por todos os imigrantes no Brasil, independente da sua nacionalidade, condição migratória ou tempo de estadia. Assim como os brasileiros, os imigrantes podem ser atendidos gratuitamente em todos os equipamentos de saúde da rede pública, como ter acesso às consultas, aos exames, à internação, aos programas de vacinação e aos remédios disponibilizados nas farmácias populares da rede pública e todos os outros serviços de que a rede pública dispõe. Em caso de urgência ou emergência, a pessoa deve ser atendida independente da sua situação migratória e documentação. Igualmente, tal como descrita na Constituição federal, a saúde pública no Brasil tem um componente de participação da comunidade (artigo 198, inciso II). Imigrantes podem integrar as iniciativas de participação comunitária no sistema público de saúde em igualdade com os demais membros da comunidade. Também não existe impedimento à participação de imigrantes nos processos seletivos para profissionais de saúde, desde que cumpridos os requisitos. A contratação de imigrantes no SUS pode, de fato, fortalecer o acesso à saúde de parte da população imigrante, além de enriquecer o Sistema como um todo. Particularmente, destaca- se o papel que agentes comunitários de saúde imigrantes podem ter na promoção do acesso à saúde de outros imigrantes e na superação de barreiras linguísticas e culturais entre os imigrantes e os serviços. Saiba mais com a leitura recomendada: Agentes de saúde estrangeiros atendem uma crescente população imigrante em São Paulo. https://epoca.globo.com/saude/noticia/2018/01/agentes-de-saude-estrangeiros-atendem-uma-crescente-populacao-imigrante-em-sao-paulo.html https://epoca.globo.com/saude/noticia/2018/01/agentes-de-saude-estrangeiros-atendem-uma-crescente-populacao-imigrante-em-sao-paulo.html https://epoca.globo.com/saude/noticia/2018/01/agentes-de-saude-estrangeiros-atendem-uma-crescente-populacao-imigrante-em-sao-paulo.html 99Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Além de o acesso à saúde estar garantido a todas as pessoas que se encontrem no território brasileiro, ele também é uma das hipóteses de concessão de visto e autorização de residência previstas na nova Lei de Migração (artigo 14, inciso I, alínea b e artigo 30, inciso I, alínea b). Para acessar essa hipótese de regularização migratória, o imigrante deve comprovar que dispõe de meios próprios para custear o tratamento de saúde e que o tratamento necessário tem indicação médica. No caso de tratamento feito pelo SUS, será possível dispensar a comprovação de meios de subsistência (Portaria Interministerial nº 3, de 27 de fevereiro de 2018). Essa hipótese de regularização migratória prevê, ainda, que nos casos em que o tratamento necessário seja decorrente de uma situação provocada por traumas ou condições de saúde ocorridas já no Brasil e que impossibilitem a remoção do paciente para o país de origem – por representar riscos à sua saúde ou integridade física – é possível flexibilizar a exigência documental e substituir alguns dos documentos necessários por relatório médico que explicite o impedimento de retorno ao país de origem, incluindo prova de que o paciente está sob responsabilidade médica (Portaria Interministerial nº 3, de 27 de fevereiro de 2018, anexo I). Os vistos e as autorizações de residência para tratamento de saúde podem incluir o paciente e um acompanhante, caso necessário. Os imigrantes que buscarem atendimento de saúde no Brasil após um agravo ou trauma ocorridos no território nacional não podem ser removidos ao país de origem caso a remoção possa resultar risco à vida ou integridade física do paciente ou ameaçar à saúde pública. Essas pessoas têm direito a concluir o tratamento médico no Brasil, ou seja, a situação migratória em que se encontra a pessoa no momento do atendimento não é obstáculo para que o tratamento prossiga. Pode ser necessário que as equipes de saúde forneçam relatório médico para que o imigrante possa concluir o pedido de autorização de residência para tratamento de saúde. Além da possibilidade de regularização migratória para tratamento de saúde, o acesso à saúde é também uma consideração importante na admissão ao território nacional, em particular no caso de crianças, conforme o princípio de não devolução e o seu entendimento no Direito Internacional e na legislação brasileira. O conceito também tem interpretação relacionada à saúde, em particular no caso de crianças. Na compreensão da Corte Interamericana de Direitos Humanos, o princípio de não devolução impede a devolução de crianças a países em que elas possam estar privadas de um tratamento médico indispensável à sua saúde ou expostas a 100Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública condições de insuficiência de serviços alimentares ou sanitários. Nesses casos, uma das possibilidades de autorização de entrada no território nacional é a admissão excepcional (Lei nº 13.445/2017, artigo 40), ainda pendente de regulamentação. Assim, saúde pode ser um dos fatores que motiva a migração, como contemplado na legislação brasileira através da hipótese de regularização migratória por tratamento de saúde. Porém, o nexo entre migração e saúde inclui outras questões igualmente complexas, como pode ser a incidência de questões de saúde mental entre migrantes, em especial aqueles que viveram situações de migração forçada, incluindo o refúgio. Agora, assista ao vídeo: "Pieter Ventevogel (ACNUR) sobre saúde mental dos refugiados". Vídeo 11 – "Pieter Ventevogel sobre saúde mental dos refugiados" Duração: 02:29 Fonte: ACNUR (2017). Os profissionais de saúde também desempenham um papel importanteno enfrentamento ao tráfico de pessoas. Em algumas ocasiões, a identificação de vítimas pode ser feita por profissionais de saúde. Em outros casos, a vítima precisará acessar serviços de saúde durante o processo de assistência. Diagnosticar as necessidades de saúde de uma vítima de tráfico de pessoas é complexo, já que o processo de tráfico geralmente leva a efeitos cumulativos de danos à saúde. A maioria das vítimas de tráfico de pessoas são expostas a riscos para a saúde antes, durante e, inclusive, após o período de exploração. A Organização Internacional para as Migrações disponibiliza um Manual para a Assistência às Vítimas de Tráfico de Pessoas, direcionado a profissionais de saúde. Você pode consultar o manual na bibliografia deste curso ou através do link. https://www.youtube.com/watch?v=xyQp0a2WeXQ https://www.youtube.com/watch?v=xyQp0a2WeXQ https://youtu.be/xyQp0a2WeXQ https://publications.iom.int/system/files/pdf/guia_para_profissionais_da_saude.pdf https://publications.iom.int/system/files/pdf/guia_para_profissionais_da_saude.pdf 101Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 3: Assistência social e moradia Identificar o direito de assistência social e moradia dos imigrantes. O imigrante tem direito a acessar os programas de inclusão social no Brasil por meio da inserção do Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal (CadÚnico), em conformidade com os critérios de cada programa. Essa previsão já existia antes da Lei de Migração e a nova lei reforça a possibilidade de inclusão de imigrantes e refugiados na assistência social. O atendimento aos imigrantes está garantido em todos os níveis de proteção, respondendo às demandas apresentadas, inclusive em casos de abrigamento emergencial e acomodações de médio e longo prazo. Algumas localidades dispõem de abrigos específicos para imigrantes em situação de vulnerabilidade. Onde esses abrigos específicos não estão disponíveis, os imigrantes poderão acessar os abrigos existentes de acordo com seu perfil. A partir de 2014, a expansão e o reordenamento do Serviço de Acolhimento para Adultos e Famílias passou a contemplar a migração e, em especial, os migrantes em situação de vulnerabilidade. A Portaria nº 70 do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, de 11 de junho de 2014, incluiu novos critérios de partilha do cofinanciamento federal por meio do Piso de Alta Complexidade II – PAC II. Entre os serviços aos quais os imigrantes podem acessar na proteção social básica, destacam-se o Benefício de Prestação Continuada e o Programa Bolsa Família. Cabe lembrar que nenhum dos dois está condicionado ao tempo de residência no Brasil. Assim como ocorre com os brasileiros, os critérios de concessão estão relacionados aos aspectos de vulnerabilidade social. Por vezes, podem surgir dúvidas com respeito ao acesso dos imigrantes ao Benefício de Prestação Continuada (BPC), já que a redação do Decreto nº 6.214/2007 estipula que o benefício é exclusivo para brasileiros natos ou naturalizados e portugueses residentes no Brasil. 102Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública No entanto, a Constituição federal e a Lei Orgânica da Assistência Social não restringem o benefício por motivo de nacionalidade ou situação migratória, determinando que a concessão obedecerá a critérios de vulnerabilidade social. Em 2017, de forma unânime, o Superior Tribunal Federal decidiu sobre a questão, estipulando que o BPC deve ser concedido a imigrantes residentes no Brasil que atendam aos requisitos estabelecidos para a concessão. Assim como acontece com outros direitos sociais, os imigrantes também têm o direito ao acesso igualitário à moradia no Brasil. No entanto, não é raro que imigrantes e refugiados encontrem obstáculos consideráveis no acesso à moradia, em particular devido a uma dificuldade para cumprir as exigências praticadas para o aluguel, como apresentar um fiador (que por vezes deve ter um imóvel na mesma cidade), realizar o pagamento de seguros-fiança com altos custos, ou mesmo para cumprir requisitos para obter crédito imobiliário no caso de compra de imóvel. 103Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 4: Acesso à educação Identificar o direito de acesso à educação dos imigrantes. O acesso à educação é garantido aos imigrantes no Brasil em todos os níveis e a Lei de Migração assegura o direito dos imigrantes à educação pública, vedada a discriminação em razão da nacionalidade e da condição migratória. No caso das crianças imigrantes, a educação é um direito fundamental garantido pela Convenção dos Direitos da Criança, pela Constituição federal e pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei nº 8.069/1990), que não estabelecem nenhuma diferença entre crianças no acesso à educação com base na nacionalidade, situação migratória ou tempo de residência no país, e que determinam o acesso igualitário à educação básica gratuita dos 4 aos 17 anos de idade. Portanto, todas as crianças imigrantes nas idades de escolaridade obrigatória podem fazer a matrícula em estabelecimentos da rede escolar, independente da sua nacionalidade, condição migratória e de que documentos possuam. Agora, assista ao vídeo: "#EducaçãoEmMovimento: migração, deslocamento e educação: construir pontes, não muros”. Vídeo 12 – "#EducaçãoEmMovimento: migração, deslocamento e educação: construir pontes, não muros" Duração: 03:26 Fonte: UNESCO (2018). A criança imigrante não precisa apresentar documentos como o histórico escolar ou traduções para efetivar a sua matrícula na rede escolar. De fato, como estabelece a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (Lei nº 9.394/1996, artigo 24, inciso II), a classificação de série do aluno, incluindo o aluno imigrante, pode ser feita mediante avaliação realizada pela escola para a determinação da série adequada. https://www.youtube.com/watch?v=jjDXwSyj_1I https://www.youtube.com/watch?v=jjDXwSyj_1I https://youtu.be/jjDXwSyj_1I https://youtu.be/jjDXwSyj_1I 104Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Além de garantir o acesso à educação, a escola tem também a obrigação de cumprir o direito da criança imigrante à não discriminação, incluindo por motivos de nacionalidade, idioma, religião, situação migratória, entre outras. O princípio da não discriminação deve ser respeitado dentro do ambiente escolar e em sala de aula, o que quer dizer que a criança não pode ser excluída do processo educativo em razão de barreiras linguísticas, culturais ou de qualquer outro tipo. A escola deve ser inclusiva e contemplar as necessidades e potencialidades específicas dessas crianças. Agora assista ao vídeo: "Quem não é migrante? Migração e educação em São Paulo". Vídeo 13 – "Quem não é migrante? - Migração e educação em São Paulo (SP)". Duração: 04:08 Fonte: Escravo, Nem Pensar! (2018). Caso ocorram situações de violência discriminatória entre alunos (bullying) por nacionalidade, etnia, religião ou condição migratória, entre outros motivos, é possível solicitar à escola que desenvolva soluções de proteção e prevenção contra a violência. Assim como ocorre com qualquer criança no Brasil, as crianças imigrantes também podem recorrer ao Conselho Tutelar, à Defensoria Pública Estadual e à Defensoria Pública da União para garantir os seus direitos de acesso à educação em condições igualitárias e não discriminatórias. O ensino fundamental e médio pode também ser acessado por imigrantes adolescentes e adultos que não tenham completado os estudos nas idades previstas para sua realização. Nesses casos, a Educação de Jovens e Adultos (EJA) se apresenta como uma modalidade de ensino alternativa, que permite retornar à escola e terminar as séries necessárias em tempo reduzido (em cada ano letivo, podem ser cursadas até duas séries nessa modalidade). A inscrição na EJA pode ser feita diretamente nas escolas que oferecem essa modalidade, com matrículas duas vezes ao ano:• Primeiro semestre: janeiro a fevereiro. • Segundo semestre: junho a julho. Para realizar a matrícula na EJA, a pessoa interessada deve apresentar um documento de identificação com foto (CRNM, passaporte ou a carteira de trabalho), CPF e histórico escolar. https://www.youtube.com/watch?v=TgfOl1dpwo0 https://youtu.be/TgfOl1dpwo0 https://youtu.be/TgfOl1dpwo0 105Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Agora, assista ao vídeo: "Haitianos: migração e educação em São Paulo (SP)". Vídeo 14 – "Haitianos: migração e educação em São Paulo (SP)" Duração: 04:53 Fonte: Escravo, Nem Pensar! (2018). Imigrantes que não tiveram acesso ao ensino regular na idade própria ou não possuem histórico escolar podem certificar as suas competências através do Exame Nacional para a Certificação de Competências para Jovens e Adultos (Encceja), de maneira gratuita e voluntária. A inscrição para o exame ocorre várias vezes por ano e é informada através da página do Inep, responsável pela realização da prova. Imigrantes que tenham completado os seus estudos de ensino fundamental e médio em outros países podem solicitar o reconhecimento dos seus estudos no Brasil. No caso dos ensinos fundamental e médio, a revalidação é feita pelas Secretarias Estaduais de Educação, que devem ser procuradas diretamente para a realização do trâmite. No geral, será preciso apresentar: ➊Tradução do histórico escolar e diploma, de preferência por tradutor público juramentado ou escola de língua estrangeira idônea, cujo tradutor tenha o curso de Letras com diploma registrado no MEC. ➋Estar de posse do histórico escolar relativo aos estudos realizados anteriormente no Brasil. ➌Documento de identificação e CPF. Pode ser também necessário apresentar um comprovante de residência no estado em que se solicita a revalidação do diploma. Da mesma maneira, os imigrantes podem acessar cursos universitários no Brasil e realizar a matrícula com os documentos que mencionamos antes (CRNM ou Protocolo de Residência ou de Refúgio). Várias universidades brasileiras dispõem de políticas de promoção do acesso ao ensino superior para refugiados e imigrantes. Esses processos incluem a disponibilização de vagas remanescentes, o processo seletivo facilitado e o estabelecimento de cotas. https://www.youtube.com/watch?v=TN3QSzObLSs https://youtu.be/TN3QSzObLSs http://www.inep.gov.br/ 106Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Saiba mais com a leitura recomendada: UFPR abre 10 vagas para migrantes e refugiados. A Lei nº 12.711/2012, conhecida como Lei de Cotas, dispõe sobre o ingresso no ensino superior de alunos provenientes de escolas públicas (artigo 1º) e alunos autodeclarados pretos, pardos e indígenas e por pessoas com deficiência (artigo 3º). O direito a acessar a política de ação afirmativa para o ingresso no ensino superior também é garantido a imigrantes que cumpram os requisitos especificados, já que a Lei de Cotas não estipula a nacionalidade brasileira como um requisito de acesso. Vale mencionar a existência de projetos que promovem a integração de imigrantes por meio do ensino de português como língua de acolhimento em diversas localidades do país, oferecendo a possibilidade de aprender o idioma de maneira gratuita e utilizando uma metodologia própria, adaptada à realidade de imigrantes e refugiados. Cursos de português como língua de acolhimento são oferecidos gratuitamente por diversas universidades no país, assim como algumas ONGs e organizações da sociedade civil. No caso de cursos oferecidos por universidades reconhecidas pelo MEC, a conclusão do curso pode ser utilizada como comprovante de domínio do idioma para pedidos de naturalização. https://www.plural.jor.br/noticias/vizinhanca/ufpr-abre-10-vagas-para-migrantes-e-refugiados/ https://www.plural.jor.br/noticias/vizinhanca/ufpr-abre-10-vagas-para-migrantes-e-refugiados/ 107Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 5: Trabalho e renda Identificar os direitos laborais dos imigrantes. Os imigrantes, refugiados e solicitantes de refúgio no Brasil têm garantidos todos os seus direitos laborais. De fato, a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) garante igualdade de direitos e condições dignas de trabalho, sem fazer discriminação por nacionalidade, condição migratória ou tempo de estadia no país. Isso significa que os imigrantes estão protegidos contra a exploração laboral, independente da sua condição migratória. O imigrante pode ser encaminhado à participação em programas de qualificação profissional, quando for esse o caso, e ao cadastro no Sistema Nacional de Emprego (Sine). Para o processo de contratação em uma empresa, o imigrante terá de apresentar a Carteira de Trabalho, a CRNM ou protocolo de solicitação de residência ou refúgio e o CPF. Alguns documentos que costumam ser apresentados pelos trabalhadores brasileiros, como o título de eleitor e o certificado de reservista, devem ser dispensados para os trabalhadores imigrantes. Ao enviar os dados do trabalhador para o eSocial, pode ser informado o tipo de visto ou autorização de residência. Atualmente, o número do CRNM ou protocolo não é um campo obrigatório, sendo obrigatório informar apenas o CPF. Por vezes, o sistema informático das empresas não está adaptado ao tipo de numeração dos documentos apresentados pelos migrantes. Esses sistemas podem ser ajustados para permitir a contratação, quando necessário. Confira o passo a passo para a contratação de imigrantes nesta Cartilha. A revalidação de diplomas permanece como um dos grandes obstáculos à integração laboral de imigrantes em postos de trabalho compatíveis com a sua qualificação. No Brasil, a revalidação é realizada por instituições públicas de ensino superior através de regras próprias estabelecidas por cada uma delas, incluindo o valor das taxas a serem cobradas. Para fazer a revalidação do diploma, em geral será necessário apresentar ao menos o diploma original e histórico escolar apostilados de acordo com as normas da Convenção de Haia, um processo que deve ser feito no país de origem. https://brazil.iom.int/sites/default/files/Publications/OIM - Folder Contrata%C3%A7%C3%A3o de Migrantes.pdf 108Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública A Plataforma Carolina Bori reúne informações sobre os processos de reconhecimento de diplomas disponíveis em várias universidades brasileiras, além de incluir um processo simplificado de revalidação ou reconhecimento de diplomas. Podem ser consultados na plataforma os cursos que já foram reconhecidos por cada universidade e se alguma universidade já reconheceu o diploma de que o imigrante dispõe. Embora o processo de revalidação de diplomas normalmente exija o pagamento de taxas, vários estados do Brasil aprovaram leis que determinam a isenção de taxas de revalidação de diplomas para refugiados e imigrantes em situação de vulnerabilidade ou acolhida humanitária. Algumas universidades também adotaram a mesma isenção de forma autônoma. Imigrantes e refugiados também podem se registrar como Microempreendedores Individuais (MEI) para trabalhar por conta própria nas profissões incluídas na categorização do MEI. Assim como os brasileiros, os imigrantes inscritos como Microempreendedores Individuais podem se registrar no Registro Nacional de Pessoas Jurídicas (CNPJ). Os imigrantes e refugiados empreendedores também podem acessar linhas de crédito e microcrédito no Brasil, em conformidade com as normativas de cada serviço. http://plataformacarolinabori.mec.gov.br/usuario/acesso 109Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 6: Assistência jurídica e acesso à justiça Reconhecer o direito de assistência jurídica dos imigrantes. O acesso à justiça pode ser definido como "a capacidade das pessoas de fazer pleno uso dos processos legais existentes, desenhados formal ou informalmente para proteger os seus direitos de acordo com critérios subjetivos de equidade e justiça".Inclui, portanto, todas as esferas nas quais uma pessoa pode entrar em contato com o Sistema de Justiça, incluindo os procedimentos de regularização migratória e outras questões tais como decisões de admissão no território, processos de retirada compulsória ou situações de conflito com a lei. A Lei de Migração garante o pleno acesso à assistência jurídica, inclusive à assistência jurídica gratuita para os imigrantes que dela necessitarem. Nesse contexto, a Defensoria Pública da União (DPU) tem um papel de destaque na defesa dos direitos dos imigrantes e pode ser procurada para questões relacionadas à regularização migratória e ao acesso a direitos como educação, saúde, assistência social, entre outros. Saiba mais com a leitura recomendada: O trabalho da DPU na defesa dos direitos dos migrantes venezuelanos. Especialmente em algumas localidades, o acesso à assistência jurídica oferecida pela DPU pode encontrar obstáculos significativos, uma vez que a Defensoria tem uma presença limitada no território nacional. Assim, é importante saber que além da DPU, vários projetos de extensão universitária e organizações não governamentais oferecem assessoria jurídica solidária a migrantes e refugiados no Brasil. Ao pedir a regularização migratória no Brasil, é comum que o migrante deva apresentar um comprovante de antecedentes penais e uma declaração de ausência de antecedentes penais em qualquer país ao longo dos últimos 5 anos. No entanto, a existência de antecedentes não é necessariamente um impedimento para a regularização migratória no Brasil. Segundo a Lei de Migração, a regularização migratória é possível para pessoas que: a. Tenham antecedentes por condutas de menor potencial delitivo. https://www.conjur.com.br/2018-nov-06/tribuna-defensoria-trabalho-dpu-defesa-direitos-migrantes-venezuelanos https://www.conjur.com.br/2018-nov-06/tribuna-defensoria-trabalho-dpu-defesa-direitos-migrantes-venezuelanos 110Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública b. Sejam beneficiárias de tratado de livre circulação e residência. c. Busquem residência no Brasil por reunião familiar, acolhida humanitária ou tratamento de saúde. Nesses casos, se for necessário, a assistência jurídica pode ser procurada para auxiliar o processo de regularização migratória. Embora muitas hipóteses de regularização migratória estejam regimentadas e possam ser solicitadas diretamente na Polícia Federal, em alguns casos, pode ser preciso recorrer ao Sistema de Justiça para solicitar uma autorização de residência. Isso pode se dar nos casos em que uma hipótese de autorização de residência está pendente de regulamentação ou quando a regulamentação existente não abrange algum caso específico. É o caso também quando a pessoa tem motivos fundamentados para solicitar uma flexibilização documental. Nesse último contexto, a Associação de Juízes Federais (Ajufe) recomenda que "a exigência documental de migrantes em situação de vulnerabilidade deve ser relativizada diante das circunstâncias do caso concreto e da dificuldade de obtenção de documentos no país de origem". A pessoa que precisar de assistência jurídica para a regularização migratória pode procurar a Defensoria Pública da União, além de advogados particulares, inclusive aqueles que oferecem assistência jurídica solidária (pro bono). A regularização migratória e a guarda de uma criança não são a mesma coisa, nem estão diretamente vinculadas. Mesmo quando uma criança solicita a autorização de residência por reunião familiar – ou é listada como dependente de um ou uma solicitante de refúgio –, esse ato não garante a guarda à pessoa adulta que apresenta o pedido. Assim sendo, entende-se que geralmente é suficiente a presença do pai ou da mãe (não sendo necessário que estejam ambos) para solicitar a regularização migratória da criança; na ausência de ao menos um dos progenitores, a DPU deve ser acionada para representar a criança para propósitos de regularização migratória. Isso ocorre porque se entende que a regularização migratória é parte da proteção integral da criança imigrante. Essa regularização não constitui um obstáculo para uma posterior determinação da guarda. Igualmente, ela não impede o retorno da criança que se encontre em situação de sequestro internacional quando essa for a solução que responda ao seu superior interesse. 111Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública É importante lembrar que crianças migrantes que não estejam acompanhadas dos pais devem também buscar a regularização da guarda, além da regularização migratória. Para isso, a pessoa adulta que a acompanha pode solicitar assistência jurídica da Defensoria Pública Estadual para o processo de determinação da guarda. Como vimos em diversos âmbitos até aqui, a nova Lei de Migração representou um avanço importante nos direitos dos imigrantes. Isso também é certo no caso dos imigrantes em conflito com a lei, inclusive aqueles em cumprimento de pena. Segundo a Lei de Migração (artigo 30, inciso II, alínea h), é permitida a regularização migratória da pessoa que esteja em liberdade provisória ou em cumprimento de pena no Brasil, autorizando também a essas pessoas o acesso à carteira de trabalho e aos demais documentos. É importante lembrar que a Convenção de Viena garante o direito à assistência consular do país de origem e que a jurisprudência regional da Corte Interamericana de Direitos Humanos reforça a importância de que se garanta a assistência consular. A nova Lei de Migração prevê a autorização de residência para cumprimento de pena no Brasil, permitindo à pessoa imigrante em conflito com a lei ter acesso à carteira de trabalho e facilitar o seu acesso à progressão de regime, pena alternativa à prisão, entre outros. Enquanto a regulamentação dessa hipótese de autorização de residência estiver pendente, o acesso a essa forma de regularização migratória deve ser obtido por decisão judicial. A pessoa imigrante condenada por crimes no Brasil pode ser alvo de medida de retirada compulsória. No entanto, é importante lembrar que mesmo nesses casos não se pode em nenhuma hipótese devolver uma pessoa a um país onde ela possa vir a estar sujeita à tortura ou a outras penas cruéis, desumanas e degradantes, ou a qualquer das violações de direitos humanos contra as quais o princípio de não devolução oferece proteção. A nova Lei de Migração oferece garantias de ampla defesa em todos os casos em que um imigrante possa estar sujeito a processos de remoção compulsória do território nacional. A lei também destaca o princípio de não devolução (non-refoulement) e a proibição da deportação ou expulsão coletivas. Segundo o Enunciado nº 5 do Fonadirh, em todos os casos, o princípio de não devolução oferece proteção a todos os não nacionais, inclusive às pessoas em trânsito pelo Brasil, assim como os brasileiros naturalizados. 112Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Cabe ainda notar que a lei não tem previsão de prisão por razões migratórias, ou seja, um imigrante não pode ser penalizado pela forma que entra no país ou por permanecer no país sem regularização migratória, por exemplo. Nesse sentido, a Associação dos Juízes Federais (Ajufe), de acordo com o Enunciado nº 2 do Fonadirh, esclarece que não se admite a prisão de imigrantes para fins de deportação ou expulsão. 113Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 7: Reunião familiar e soluções duradouras Reconhecer o direito à reunião familiar dos imigrantes. Os imigrantes têm garantido o seu direito à reunião familiar. Esta pode se dar através da vinda ao Brasil dos membros da família que ficaram no país de origem, através de vistos de reunião familiar, autorizações de residência por reunião familiar ou outras formas de regularização migratória. A reunificação familiar pode ter um impacto muito positivo, em especial para imigrantes em situações vulneráveis. Agora, assista ao vídeo: Congolês conta como foi sagapara trazer sua família ao Brasil. Vídeo 15 – " Congolês conta como foi saga para trazer sua família ao Brasil". Duração: 05:12 Fonte: TV Folha (2016). Por vezes, no entanto, os imigrantes podem perder contato com os membros de suas famílias durante o processo migratório. Isso pode ocorrer em diversos momentos durante o ciclo migratório e pode levar a uma necessidade de apoio para o reestabelecimento de laços familiares. Instituições de assistência a migrantes desempenham um papel importante no reestabelecimento de laços familiares, por meio de variadas formas de busca, inclusive em contato e colaboração com embaixadas e consulados dos países de origem e organizações da sociedade civil, entre outros. Quando o imigrante expressa a vontade de retornar ao seu país de origem, a orientação para a assistência consular também se faz importante, assim como o apoio para garantir o contato com as representações diplomáticas do país de origem. A assistência consular pode variar de país a país, mas em alguns casos, os consulados podem apoiar no reestabelecimento de laços familiares e no auxílio ao retorno, https://www.youtube.com/watch?v=9YX6ADUcTbQ https://www.youtube.com/watch?v=9YX6ADUcTbQ https://youtu.be/9YX6ADUcTbQ https://youtu.be/9YX6ADUcTbQ 114Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública inclusive assumindo custos de transporte. A assistência consular também pode fornecer apoio com a documentação necessária para o retorno e a garantia de assistência no país de origem. É importante ter em mente que, no caso de pessoas refugiadas ou solicitantes de refúgio, o retorno ao país de origem implica, em geral, na perda da condição de refúgio, já que é assumido o fim do temor de voltar ao país de origem que justificava a condição de refúgio. Pessoas com a condição de refugiado reconhecida ou solicitantes de refúgio podem, no entanto, retornar ao seu país de origem por breves períodos e manter a sua condição reconhecida no Brasil, desde que obtenham autorização prévia do Conare. Para tal, é essencial ter em mente que todo retorno ao país de origem deve ser absolutamente voluntário e acompanhado de avaliações para determinar a existência de possíveis riscos. Também se deve garantir que o imigrante se encontra em condições de saúde adequadas para realizar a viagem. O retorno e reintegração voluntários também podem ser apoiados por organismos não governamentais ou internacionais, como a Organização Internacional para as Migrações - OIM, que tem um programa de apoio ao retorno e reintegração voluntária para migrantes em situação de grande vulnerabilidade. Para solicitar o apoio do programa, os migrantes podem contatar diretamente o escritório da organização em Brasília. Consulte o site do programa. https://reintegracaobrasil.com/ 115Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Glossário Verbete Palavra associada Definição/Significado Assistência ao retorno e reintegração voluntários Apoio administrativo, logístico e econômico, incluindo a assistência à reintegração para migrantes que não podem ou não querem permanecer no país de destino ou de trânsito e que decidem retornar ao país de origem. CRNM Carteira de Registro Nacional Migratório, também conhecida como RNM. Integração Um processo de dois sentidos de adaptação mútua entre as pessoas migrantes e as sociedades nas quais elas vivem, em que as pessoas migrantes são incorporadas à vida social, econômica, cultural e política da comunidade de acolhida. Implica um conjunto de responsabilidades compartilhadas entre a pessoa migrante e as comunidades, e incorpora outras noções relacionadas, tais como a coesão social e a inclusão social (GLOSSÁRIO OIM, 2019). 116Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Referências BRASIL. Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário. O papel da assistência social no atendimento aos migrantes. Ministério do Desenvolvimento Social e Agrário: Brasília, 2016. Disponível em https://www.mds.gov.br/webarquivos/ publicacao/assistencia_social/Guia/guia_migrantes.pdf. Acesso em 5 jun 2023. CATHY, Z.; BORLAND, R. Assistência às vítimas de tráfico de pessoas: guia para profissionais da saúde. Organização Internacional para as Migrações: Genebra, 2017. ITCC. Instituto Terra, Trabalho e Cidadania. De estrangeiras a migrantes: os 15 anos de luta do Projeto Estrangeiras. Instituto Terra, Trabalho e Cidadania: São Paulo, 2016. IOM. International Organization for Migration. IML Information note on Access to Justice: a migrant’s right. International Migration Law Unit: Genebra, 2019 SOUZA, A. B. G. O Ministério Público Federal e os direitos do preso estrangeiro. Ministério Público Federal: Brasília, 2018. https://www.mds.gov.br/webarquivos/publicacao/assistencia_social/Guia/guia_migrantes.pdf https://www.mds.gov.br/webarquivos/publicacao/assistencia_social/Guia/guia_migrantes.pdf 117Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Direitos específicos Neste módulo, serão abordados os direitos específicos de alguns grupos de migrantes, tais como crianças, pessoas com deficiência, indígenas, mulheres, LGBTQIA+ e idosos. Também será apresentada a relação entre migração e igualdade racial. Todos esses direitos devem ser levados em conta na assistência a migrantes. Unidade 1: Introdução: Além do trabalhador migrante Reconhecer as diferentes situações dentro do conjunto de trabalhadores migrantes. Por muito tempo, a palavra imigrante remetia principalmente à ideia do trabalhador que partia para buscar melhores oportunidades econômicas em outro país. Muitas vezes, ela ainda é retratada como se referindo apenas aos trabalhadores que buscam oportunidades laborais em outros países, às vezes descritos por uma falsa oposição aos refugiados. Muitos já terão ouvido a seguinte descrição: "o refugiado é obrigado a sair do seu país, enquanto o migrante sai buscando melhores oportunidades econômicas". Isso é uma falsa oposição: as situações que levam as pessoas a migrar são muito variadas e incluem por vezes a migração forçada, assim como a migração por busca de melhores oportunidades laborais, em meio a um grande leque de outras motivações e contextos. É também importante lembrar que a migração pode ter como pano de fundo diversas motivações interconectadas e, por isso, muitas vezes é difícil estabelecer uma diferença clara entre migrações forçadas ou não. Igualmente, dentro do conjunto de trabalhadores migrantes, uma série de situações podem coexistir: assim como o grupo de migrantes, o grupo de trabalhadores migrantes é muito diverso. A nova Lei de Migração contempla essa diversidade de várias maneiras e deve ser levada em conta no atendimento a migrantes. Módulo 6 118Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 2: Migração e direitos da criança Relacionar a migração e os direitos da criança. Os direitos das crianças, incluídas as crianças migrantes, são objetos de um instrumento próprio de direitos humanos: a Convenção dos Direitos da Criança (CDC), de 1989, é o instrumento internacional de direitos humanos mais ratificado a nível mundial, ou seja, com o maior número de Estados que aderiram a ela. No Brasil, a Convenção inspirou a redação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), referência para os direitos da criança na legislação nacional. A Convenção define uma criança como "todo ser humano menor de dezoito anos, a não ser que, pela lei aplicável à criança, a maioridade seja atingida antes" (artigo 1º). No ECA, "considera-se criança, para efeitos desta lei, a pessoa até doze anos de idade incompletos, e adolescente aquela entre doze e dezoito anos de idade" (artigo 2º). Ambos reconhecem a criança como sujeito de direitos e protegem a todas, sem distinção alguma de nacionalidade ou condição migratória. Agora, assista ao vídeo A Viagem de Kahuany. Vídeo 16 – "A viagem de Kuarahy". Duração: 04:01 Fonte: OIM. Em todas as questões relacionadas às criançasmigrantes, é preciso ter em consideração primordial a sua condição de criança. O marco normativo e institucional de proteção à infância tem sempre prioridade em relação a outros marcos normativos, por exemplo, à legislação migratória. A Convenção conta com quatro princípios orientadores que, além de serem direitos definidos em artigos específicos, são transversais à interpretação de todos os temas relacionados aos direitos da criança. São eles: + O superior interesse da criança • Deve ser encarado como um direito substantivo da criança que o seu superior interesse seja uma consideração primordial em todos os https://youtu.be/SjhpADTbvzs 119Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública assuntos que lhe digam respeito. • Ao mesmo tempo, é também um princípio interpretativo, o que implica que sempre se deve escolher a interpretação que satisfaça o maior interesse da criança. • Igualmente, é uma norma de procedimento, ou seja, todos os processos de tomada de decisões devem incluir uma avaliação das possíveis repercussões para a criança, sem prejuízo das garantias processuais. + A não discriminação • Os direitos de todas as crianças devem ser respeitados e assegurados sem discriminação de nenhum tipo, incluindo por etnia, religião, gênero, idioma, opinião política, nacionalidade, origem, classe social, situação migratória, estrutura familiar, entre muitos outros exemplos. • A responsabilidade dos Estados pelos direitos das crianças abarca todas as crianças na sua jurisdição, independente de nacionalidade ou situação migratória; • A não discriminação se refere à criança e se amplia a seus pais, representantes legais e membros da família. + O direito à vida, à sobrevivência e ao desenvolvimento • Todas as crianças têm o direito a estarem vivas, a sobreviverem e a se desenvolverem da melhor maneira possível. • Esse direito e princípio é de particular importância no caso das crianças migrantes, na garantia do seu acesso ao território e permanência, em particular no que diz respeito ao princípio de não devolução. • Ele está também relacionado ao acesso a necessidades básicas como a saúde, o abrigamento, a alimentação, entre outros. + O direito a ser escutada • O direito a ser escutada é ao mesmo tempo individual e coletivo, ou seja, de cada criança e do conjunto de crianças. • É um processo participativo, e não um ato pontual. Portanto, implica o desenvolvimento de mecanismos de escuta e participação das crianças nos assuntos que sejam relevantes para elas. • Deve levar em consideração, reconhecer e respeitar as formas de comunicação próprias das crianças, inclusive as não verbais, por exemplo, as brincadeiras, a linguagem corporal e facial, o desenho, a pintura, o teatro e qualquer outra maneira que possa ser usada pela criança para expressar compreensão e opinião. • Há a obrigação de proteger a criança de eventuais consequências negativas que possam se derivar da expressão da sua opinião e narrativas. • Deve ocorrer em ambiente amigável para a criança. 120Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Por serem transversais a todos os temas relacionados aos direitos da criança, os quatro princípios também devem orientar a interpretação dos direitos da criança migrante, incluídas nesse conceito todas as pessoas menores de 18 anos. O superior interesse da criança tem como objetivo assegurar a garantia de todos os direitos previstos na Convenção, além do desenvolvimento físico, mental, espiritual, moral, psicológico e social da criança. Assim, a interpretação dada ao superior interesse não deve resultar em um obstáculo ao acesso aos outros direitos da criança. A Lei de Migração inclui a proteção integral e atenção ao superior interesse da criança e do adolescente migrante como um dos seus princípios (artigo 3º, inciso XVII). Esse princípio é também mencionado ao estabelecer que uma criança ou adolescente migrante separado ou desacompanhado só poderá ser devolvida ao seu país de origem ou a um terceiro país se a devolução se mostrar favorável à garantia dos seus direitos. Um dos grandes desafios suscitados pela proteção dos direitos da criança é a compreensão da criança como sujeito de direitos, e não apenas como dependente dos pais, ou seja, os direitos da criança não são uma extensão ou continuação dos direitos dos pais. Assim, a criança migrante também tem garantidos os seus direitos humanos, os seus direitos enquanto criança e os seus direitos enquanto migrante. Agora, assista ao vídeo: Quero começar minha vida novamente: usar crianças-soldado é crime. Duração: 01:01 Fonte: ONU Brasil (2019). A criança e o adolescente podem fazer pedidos de refúgio independentes e têm direito a ter os seus pedidos considerados, levando em consideração a sua condição de criança. Crianças que estão sob ameaça de recrutamento para conflitos armados podem pedir refúgio no Brasil, mesmo que o recrutamento seja feito por grupos paraestatais. A criança migrante que se encontre em situação de risco para a sua integridade física ou emocional requer proteção toda vez que: • Manifeste ter sido vítima de violência ou apresente lesões físicas visíveis ou dano psicológico que possam indicar situações de violência. https://www.youtube.com/watch?time_continue=61&v=iiSttg-LENo https://www.youtube.com/watch?time_continue=61&v=iiSttg-LENo 121Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública • Manifeste necessitar e não estar recebendo algum tipo de atenção em saúde, inclusive se o trajeto migratório foi longo e arriscado para a sua integridade física e psíquica. • Manifeste ou mostre sinais de estar desarraigada, sem comunicação ou sem recursos e querer reunir-se com sua família. • Manifeste ou mostre sinais de precisar de outros tipos de proteção. 122Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 3: Migração e direitos das pessoas com deficiência Relacionar a migração e os direitos das pessoas com deficiência. No Brasil, as pessoas com deficiência possuem plena capacidade legal, de maneira que podem realizar todos os procedimentos relativos à regularização migratória em condições de igualdade e sem discriminação alguma. Elas ainda são protegidas pela Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência. Pessoas imigrantes com deficiência podem também acessar todas as políticas públicas de inclusão social da pessoa com deficiência. Aquelas que cumpram os requisitos podem acessar o Benefício de Prestação Continuada (BPC). Segundo o Estatuto da Pessoa com Deficiência (2015): Art. 2º. Consideram-se pessoas com deficiência aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física, mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. Para os imigrantes com deficiência, o processo migratório pode ser particularmente desafiador, especialmente em contextos de migração forçada. Por vezes, a deficiência pode ser consequência de eventos ocorridos ao longo do processo migratório, como acidentes ou doenças. Pessoas com deficiência podem estar mais vulneráveis ao abuso e à exploração durante o processo migratório; elas também sofrem com o risco de serem excluídas do acesso a serviços, particularmente em contextos de crise, se não houver uma consideração adequada aos aspectos de acessibilidade, visando à redução das barreiras ao acesso dos imigrantes com deficiência aos serviços. Igualmente, é importante notar que para alguns imigrantes, viver com uma deficiência pode ser uma importante motivação para migrar: por exemplo, para obter serviços médicos ou de reabilitação aos quais não têm acesso no seu país de origem ou para participar em um mercado laboral que possa ser mais inclusivo, entre muitos outros motivos. 123Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 4: Migração e direitos indígenas Relacionar a migração e os direitosindígenas. Os direitos dos povos indígenas no Brasil são garantidos pela Constituição federal, sem prejuízo da aplicação dos demais artigos, nos artigos 231 e 232; também promulgada atualmente no Brasil pelo Decreto Presidencial nº 10.088 de 2020 a Convenção nº 169 da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela Lei nº 6.001/1973 conhecida como Estatuto do Índio. A legislação brasileira reconhece o princípio da não discriminação e o direito dos povos indígenas à livre escolha dos seus meios de vida e subsistência, além do acesso à educação, saúde, justiça, assistência social e aos demais serviços. Segundo a Funai (s.d.), no Brasil, os critérios utilizados para a definição de indígena se baseiam em dois elementos principais: 1. A autodeclaração e a consciência da sua identidade indígena. 2. O reconhecimento dessa identidade por parte do grupo de origem. Os povos indígenas transfronteiriços são os que habitam territórios atravessados pelos limites dos Estados nacionais e cuja mobilidade, ainda que cruze fronteiras internacionais, é produzida dentro de áreas territoriais ancestrais e das fronteiras étnicas onde esses povos exerceram e exercem o direito consuetudinário. Os povos indígenas são protegidos por instrumentos específicos, tais como a Declaração das Nações Unidas sobre os Direitos dos Povos Indígenas, a Declaração sobre os Direitos das Pessoas Pertencentes a Minorias, a Convenção nº 169 da OIT e a Convenção Americana sobre os Direitos dos Povos Indígenas. Neles, destacam-se o respeito ao caráter pluricultural dos povos indígenas, o reconhecimento da sua personalidade jurídica, o direito a manter os seus sistemas específicos de família e organização social e o direito à sua cultura, idioma e tradições. 124Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Nenhum dos direitos dos imigrantes no Brasil está restrito a não indígenas. Indígenas migrantes devem ter seus direitos fundamentais protegidos pela legislação migratória e pela legislação indigenista. Um desafio importante é a superação de visões assimilacionistas que, embora superadas pela Constituição federal, podem continuar a fazer parte do imaginário social brasileiro. Como apontado por Yamada e Torelly no estudo Aspectos jurídicos da atenção aos indígenas migrantes da Venezuela para o Brasil (2018), ao pensar o acolhimento, atendimento e acompanhamento dos fluxos migratórios indígenas, a proteção da identidade indígena e o direito à autonomia devem ser entendidos como direitos fundamentais, no sentido de garantir o respeito às formas diferenciadas de vida e organização de cada povo indígena, assim como o esforço para superar visões, ideários e práticas assimilacionistas. Síntese das recomendações na assistência a indígenas migrantes. Yamada e Torelly (2018). OIM. Aspectos jurídicos da atenção aos indígenas migrantes da Venezuela para o Brasil. Disponível em: https://publications.iom.int/books/aspectos- juridicos-da-atencao-aos-indigenas-migrantes-da-venezuela-para-o-brasil. 125Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 5: Migração e igualdade racial Relacionar a migração e igualdade racial. Migrantes podem se encontrar particularmente expostos à discriminação, seja por dinâmicas de opressão relacionadas à sua etnia, religião ou origem. O racismo, assim como todas as formas de discriminação, é um dos fatores estruturais que podem contribuir para a vulnerabilidade em contexto migratório. Segundo a Convenção Internacional para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Racial, discriminação racial significa: Qualquer distinção, exclusão, restrição ou preferência, baseadas em raça, cor, descendência, origem nacional ou étnica que têm por objetivo ou efeito anular ou restringir o reconhecimento, gozo ou exercício num mesmo plano (em igualdade de condição), de direitos humanos e liberdades fundamentais no domínio político, econômico, social, cultural ou em qualquer outro domínio de vida pública. No Brasil, a Política Nacional de Promoção da Igualdade Racial (Decreto nº 4.886/2003) pressupõe que o combate às desigualdades raciais e a promoção da igualdade racial devem ser considerados no conjunto das políticas de governo, portanto, incluindo a migração. A PNPIR reconhece o peso do racismo contra a população negra e afrodescendente no Brasil, enfocando esforços na superação do racismo contra esse grupo. As ações de proteção contra o racismo, as ações afirmativas para a efetivação da igualdade de oportunidades e as políticas de promoção da igualdade racial podem ser acessadas também pela população imigrante, em especial pela população imigrante negra e indígena. 126Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 6: Migração e direitos das mulheres Relacionar a migração e os direitos das mulheres. As mulheres compõem cerca de 48% do total de migrantes internacionais no mundo. Mulheres migram sozinhas ou acompanhadas de suas famílias por muitos motivos, incluindo a busca de condições de vida mais igualitárias ou para escapar de violações dos seus direitos humanos nos países de origem. Gráfico com a proporção de homens e mulheres entre migrantes internacionais em 2000, 2005, 2010, 2015 e 2020. Fonte: OIM (2022). "World Migration Report 2022".https://publications.iom.int/books/world-migration-report-2022 127Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Gráfico com a proporção de homens e mulheres entre migrantes internacionais. Fonte: OIM (2019). "World Migration Report 2020". https://publications.iom.int/system/files/pdf/wmr_2020.pdf. As violações dos direitos humanos das mulheres no país de origem são capazes de gerar uma reivindicação de proteção internacional como refugiada, já que pode ser considerada perseguição por pertencimento a um determinado grupo social. As mulheres e as meninas migrantes podem estar mais expostas à discriminação, à violência, ao tráfico de pessoas e ao abuso sexual durante o ciclo migratório. Assim como ocorre nos demais casos, todos os direitos garantidos às mulheres no Brasil protegem também as mulheres imigrantes. Ou seja, elas têm acesso a todas as políticas públicas intersetoriais que buscam promover a igualdade, implementar oportunidades de projeção econômica e social e garantir proteção contra a violência. Igualmente, as mulheres e as meninas imigrantes têm direito a acessar os serviços públicos de saúde caso queiram recorrer às hipóteses de interrupção de gravidez admitidas no Direito brasileiro: gravidez decorrente de estupro, risco à vida da mulher ou anencefalia do feto. Uma vez que a legislação pode variar entre países, a mulher imigrante que relate a necessidade de buscar esse serviço de saúde deve ser informada das hipóteses existentes segundo a legislação brasileira. https://publications.iom.int/system/files/pdf/wmr_2020.pdf 128Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 7: Migração e direitos LGBTQIA+ Relacionar a migração e os direitos LGBTQIA+. As pessoas LGBTQIA+ no Brasil têm garantidas uma série de direitos e proteções sociais que também incluem as pessoas imigrantes sem discriminação alguma em razão da sua nacionalidade ou situação migratória. Em diversas ocasiões, o STF já se pronunciou no sentido de reforçar que ninguém pode sofrer restrições aos seus direitos por causa da orientação sexual. Nesse contexto, a Lei de Migração é clara ao estipular que as proteções e garantias relativas à reunião familiar protegem a cônjuges e companheiros sem discriminação alguma, incluindo todas as famílias de maneira igualitária. O direito ao uso do nome social está garantido nos documentos da administração federal, incluindo a CRNM. O sistema utilizado pela Polícia Federal (SISMIGRA) está adaptado à garantia desse direito e permite a realização do agendamento utilizando o nome social. A violação dos direitos humanos das pessoas LGBTQIA+ no país de origem pode ser uma importante motivação que as leva a migrar.Atualmente, as relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo são criminalizadas em 72 países, incluindo diversas formas de perseguição como prisão, punições corporais e inclusive pena de morte. Essas perseguições podem ocorrer pelo Estado ou por parte de grupos paraestatais. Segundo um levantamento realizado pelo Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública, o Brasil recebeu ao menos 369 solicitações de refúgio motivadas pela perseguição por orientação sexual, tendo deferido a maioria (143) das cerca de 170 que foram analisadas. Isso permite dizer que o país tem um histórico sólido de reconhecimento da necessidade de proteção internacional de pessoas com um fundamentado temor de perseguição devido à sua orientação sexual ou identidade de gênero. 129Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Unidade 8: Migrantes idosos Identificar os direitos dos migrantes idosos. A migração de pessoas idosas, segundo alguns autores, pode ser pensada em relação com as fases do ciclo de vida e as necessidades específicas das pessoas idosas. Elas podem incluir, por exemplo, a migração após a aposentadoria, a migração para reunir-se com familiares que haviam migrado antes ou a migração motivada pela busca do acesso a serviços de saúde que podem estar indisponíveis ou ser de mais difícil acesso no local de origem. Por outro lado, os migrantes idosos podem ser pessoas que migraram em fases anteriores da vida e vivem o processo de envelhecimento no país de destino. Cabe ainda mencionar que a migração pode ser um projeto familiar intergeracional; por vezes, migrantes em idade ativa se estabelecem primeiro em um lugar, para depois trazer os seus pais idosos e/ou filhos pequenos. Assim, em muitos casos, os avós e netos migram juntos em um momento posterior, para reunir-se com seus familiares. Isso pode criar situações particulares em termos de guarda das crianças, podendo estar temporária ou definitivamente sob a responsabilidade dos avós. Os imigrantes idosos no Brasil têm acesso aos direitos garantidos aos idosos brasileiros, tais como o acesso a bens culturais e às políticas de integração na comunidade, a proteção contra a discriminação, o direito ao acesso ao transporte público, o atendimento preferencial nos estabelecimentos públicos, comerciais, de prestação de serviços, entre outros. As pessoas imigrantes idosas residentes no Brasil têm direito ao acesso ao Benefício de Prestação Continuada, à Aposentadoria e à Aposentadoria Rural, sempre que cumprirem os requisitos de cada benefício. Pessoas idosas que tenham exercido sua profissão no Brasil e desejem retornar aos seus países de origem podem se beneficiar dos acordos internacionais em matéria de previdência social que o Brasil mantém com diversos países. Entre eles, estão incluídos os acordos Iberoamericano (do qual são parte a Argentina, Bolívia, Brasil, Chile, El Salvador, Equador, Espanha, Paraguai, Peru, Portugal e Uruguai) e do Mercosul (do qual são parte a Argentina, Paraguai e Uruguai), ambos multilaterais. https://www.inss.gov.br/orientacoes/assuntos-internacionais/acordos-internacionais/ https://www.inss.gov.br/orientacoes/assuntos-internacionais/acordos-internacionais/ 130Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública O Brasil tem ainda acordos bilaterais em matéria de previdência com a Alemanha, Bélgica, Cabo Verde, Canadá, Chile, Coreia, Espanha, Estados Unidos, França, Grécia, Itália, Japão, Luxemburgo, Portugal e Suiça. Outros Acordos de Previdência Social foram assinados pelo Brasil mas ainda esperam a ratificação pelo Congresso Nacional para entrar em vigor. Esses acordos incluem tanto os segurados quanto os seus dependentes e, em geral, cobrem: • Aposentadoria por invalidez. • Prestações decorrentes por acidente de trabalho e doenças profissionais. • Aposentadoria por tempo de serviço. • Aposentadoria por idade. • Pensão por morte. • Reabilitação profissional. A pessoa imigrante idosa que queira retornar ao seu país de origem, inclusive beneficiando-se de um dos acordos internacionais em matéria de previdência, pode também solicitar assistência para o retorno e a reintegração voluntária, como mencionamos. Esse apoio pode ser buscado nas representações consulares do país de origem ou em organizações internacionais, como a OIM. 131Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Glossário Verbete Palavra associada Definição/Significado Assimilacionismo O assimilacionismo é uma política de perspectiva unidirecional de integração por meio da qual um grupo social ou étnico (geralmente uma minoria) adota as práticas culturais de outra – geralmente do grupo étnico ou social majoritário. Assimilacionismo envolve a absorção da língua, tradições, valores, moral e comportamento, geralmente levando a parte assimilada a se tornar menos distinguível socialmente em relação às outras partes da sociedade (GLOSSÁRIO OIM, 2019). Indígena De acordo com a Convenção nº 169 da OIT sobre Povos Indígenas e Tribais, povos indígenas são: a) Povos tribais em países independentes, cujas condições sociais, culturais e econômicas os distingam de outros setores da coletividade nacional e que estejam regidos, total ou parcialmente, por seus próprios costumes ou tradições ou por legislação especial. b) Povos em países independentes, considerados indígenas pelo fato de descenderem de populações que habitavam o país ou uma região geográfica pertencente ao país na época da conquista ou da colonização ou do estabelecimento das atuais fronteiras estatais e que, seja qual for sua situação jurídica, conservam todas as suas próprias instituições sociais, econômicas, culturais e políticas, ou parte delas. Na legislação brasileira, é todo indivíduo de origem e ascendência pré-colombiana que se identifica e é identificado como pertencente a um grupo étnico cujas características culturais o distinguem de outros setores da coletividade nacional. Os critérios utilizados consistem na autodeclaração e consciência de sua identidade indígena, somada ao reconhecimento dessa identidade por parte do grupo de origem. 132Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Verbete Palavra associada Definição/Significado Criança A Convenção dos Direitos da Criança define uma criança como todo ser humano com menos de 18 anos de idade, a não ser que pela lei aplicável a maioridade seja atingida antes. Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, criança é a pessoa de 12 anos de idade incompletos. Adolescente Segundo o Estatuto da Criança e do Adolescente, adolescente é a pessoa entre 12 anos e 18 anos de idade. Uma vez que o Brasil é parte da Convenção dos Direitos da Criança, a definição da Convenção também é aplicada ao Brasil, de maneira que os adolescentes também estão protegidos por ela. Pessoa com deficiência Considera-se pessoa com deficiência aquela que tem impedimento de longo prazo de natureza física, mental ou sensorial, o qual, em interação com uma ou mais barreiras, pode obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em igualdade de condições com as demais pessoas. LGBTQIA+ Um acrônimo para as pessoas lésbicas, gays, bissexuais, travestis, transexuais, queer intersex e assexuais. 133Enap Fundação Escola Nacional de Administração Pública Referências ACNUR. Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados. Perfil das solicitações de refúgio relacionadas à orientação sexual e à identidade de gênero (OSIG), 2018. Disponível em: https://datastudio.google.com/u/0/ reporting/11eabzin2AXUDzK6_BMRmo-bAIL8rrYcY/page/1KIU. Acesso em: 9 nov. 2020. CAMPOS, M. B.; BARBIERI, A. F. Considerações teóricas sobre as migrações de idosos. Revista Brasileira de Estudos de População, Rio de Janeiro, v. 30, 2013. GFMD. Global Forum on Migration and Development. Rights of migrant women: a child rights perspective. Child rights Bridging Paper, 2017.IPPDH. Instituto de Políticas Públicas e Direitos Humanos. Protección de niños, niñas y adolescentes en contextos de migración. Buenos Aires, 2019. QUAIS os critérios utilizados para a definição de indígena? Fundação Nacional do Índio. (s.d.) Disponível em: http://www.funai.gov.br/index.php/todos-ouvidoria/23- perguntas-frequentes/97-pergunta-3. Acesso em: 18 jan. 2020. UN. United Nations. International migrant stock 2020. Department of Economic and Social Affairs, 2020. YAMADA, E.; TORELLY, M. (orgs.). Aspectos jurídicos da atenção aos indígenas migrantes da Venezuela para o Brasil. OIM: Brasília, 2018. 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Unidade 2: Os direitos humanos dos migrantes Unidade 3: Desafios na proteção dos direitos humanos dos migrantes Unidade 4: O princípio da não devolução Unidade 5: O direito de solicitar refúgio Unidade 6: A proibição da expulsão coletiva Glossário Referências Direitos dos imigrantes na legislação brasileira Unidade 1: Os migrantes na Constituição Federal de 1988 Unidade 2: A Lei de Migração 2.1 Princípios orientadores da Lei de Migração 2.2 Garantias da Lei de Migração Unidade 3: A Lei de Refúgio Unidade 4: Os apátridas na legislação brasileira Unidade 5: O enfrentamento ao tráfico de pessoas e ao trabalho escravo Unidade 6: A regularização migratória no Brasil Unidade 7: Naturalização Glossário Referências Vulnerabilidades em contexto migratório Unidade 1: O conceito de vulnerabilidade Unidade 2: Fatores individuais Unidade 3: Fatores familiares Unidade 4: Fatores comunitários Unidade 5: Fatores estruturais Unidade 6: O Modelo de Determinantes da Vulnerabilidade de Migrantes Unidade 7: Na origem, em trânsito e no destino Unidade 8: Vulnerabilidade à violência, exploração e abuso 8.1 Violência contra mulheres e meninas em contextos de mobilidade 8.2 Exploração laboral 8.3 Tráfico de pessoas Unidade 9: Proteção a migrantes em situação de vulnerabilidade Unidade 10: Princípios orientadores na assistência a imigrantes em situação de vulnerabilidade Glossário Referências Atendimento a imigrantes Unidade 1: Documentação Unidade 2: Acesso à saúde Unidade 3: Assistência social e moradia Unidade 4: Acesso à educação Unidade 5: Trabalho e renda Unidade 6: Assistência jurídica e acesso à justiça Unidade 7: Reunião familiar e soluções duradouras Glossário Referências Direitos específicos Unidade 1: Introdução: Além do trabalhador migrante Unidade 2: Migração e direitos da criança Unidade 3: Migração e direitos das pessoas com deficiência Unidade 4: Migração e direitos indígenas Unidade 5: Migração e igualdade racial Unidade 6: Migração e direitos das mulheres Unidade 7: Migração e direitos LGBTQIA+ Unidade 8: Migrantes idosos Glossário Referências