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TEORIA PSICOSSEXUAL DO
DESENVOLVIMENTO
INFANTIL
AULA 1
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Raquel Berg
CONVERSA INICIAL
Olá, seja bem-vindo(a)! Nesta disciplina trataremos sobre diversos temas. No primeiro
momento, falaremos sobre “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”. No segundo momento,
falaremos sobre “Minhas teses sobre o papel da sexualidade na etiologia das neuroses”,
“Esclarecimento Sexual das Crianças”, “Teorias Sexuais das Crianças”, “Organização Genital
Infantil” e “Algumas consequências na distinção anatômica dos sexos”. Na sequência, falaremos
sobre o Pequeno Hans, denominado “Análise de uma fobia em um menino de 5 anos”, “Leonardo da
Vinci e uma lembrança de sua infância” e “Duas mentiras contadas por crianças”. Adiante,
falaremos sobre “O caso Schreber”, “História de uma neurose infantil” (conhecida como Homem dos
Lobos) e “O retorno do Totemismo na Infância”. Depois, falaremos sobre “Algumas Reflexões sobre
a Psicologia do Escolar”, “Uma recordação de infância de Dichtung und Wahrhei”, “Uma criança é
espancada”, “Associações de uma criança de 4 anos de idade” e o material psíquicos dos contos de
fada. Por fim, faremos uma breve revisão sobre o conteúdo apresentado nas aulas anteriores dessa
disciplina e os principais conceitos que precisam ficar gravados, a primeira e a segunda tópica,
alguns conceitos de “O Ego e o Id”, Spitz com sua teoria sobre os organizadores psíquicos no
primeiro ano de vida, as hipóteses kleinianas e lacanianas sobre o desenvolvimento infantil e o tema
da morte enquanto objeto de investigação infantil.
Na aula de hoje, nos concentraremos em falar sobre os Três Ensaios. Esse texto foi escrito em
1905, porém ele passou por uma série de revisões feitas por Freud posteriormente, o que fez com
que o documento contenha alguns conceitos que só serão efetivamente trabalhados na obra
freudiana muitos anos depois. Em função disso, faremos uma breve explicação para cada uma
dessas terminologias apenas para esclarecer o significado delas dentro do contexto dos “Três
Ensaios”, embora uma explicação mais completa seja feita em outras disciplinas que irão tratar
diretamente dos textos fundamentais para cada um desses conceitos. É importante trazer aqui
também que esse texto ensaia a transição da primeira para a segunda tópica freudiana, na medida
que traz o conceito de pulsões e transcende a ideia de um consciente (cs), subconsciente (Pcpt) e
inconsciente (Ics) com representações e afetos. Nesse texto, Freud vai além da ideia de sexualidade
das histéricas e traz a diferenciação entre sexo e sexualidade, que não necessariamente envolve o
órgão sexual em si e que se constitui ao longo da infância, desde o nascimento até a puberdade e a
vida adulta. Como esse texto é denso e cheio de detalhes, separamos o primeiro ensaio ao longo dos
dois primeiros temas, o segundo ensaio nos temas 3 e 4 e o terceiro ensaio no Tema 5.
TEMA 1 – AS ABERRAÇÕES SEXUAIS EM FREUD
Segundo Freud (1905), há nos homens a existência do que ele chama de pulsão sexual, ao que
ele compara com a pulsão de nutrição que seria a fome. O equivalente dessa fome, na pulsão sexual,
Freud dá o nome de “libido” (que seria como uma energia que impulsiona o desejo). Segundo o autor,
a opinião popular da época acreditava que essa libido estaria ausente na infância, surgindo na
puberdade e direcionada ao ato sexual. No entanto, os estudos de Freud (1905) demonstraram a
existência de dois tipos de desvios dessa libido: referentes ao objeto sexual (de quem procede a
atração sexual) e ao alvo sexual (ato a que a libido conduz).
É importante destacar, aqui, que essa classificação de Freud não é mais utilizada pelos
profissionais da saúde. No último documento do DSM-5 (2013) e do CID-11 (2020), a nomenclatura
hoje utilizada para o que Freud chamou de perversões é “transtornos da preferência sexual” e
“transtornos parafílicos”, sendo que em ambos a homoafetividade deixou de ser considerada como
um transtorno, e a transexualidade (que não será tratada aqui) é considerada como um transtorno na
medida que gera sofrimento ao indivíduo, não sendo a mesma coisa que a não identificação com o
gênero de origem (ou seja, um homem que se percebe como mulher ou mulher que se percebe como
homem). Como o objetivo aqui é apresentar os textos de origem freudianos, manteremos as
terminologias apenas para facilitar na compreensão desse texto.
1.1 DESVIOS RELATIVOS AO OBJETO E AO ALVO SEXUAL
O desvio do objeto é quando o desejo não é pelo sexo oposto em idade madura, ou seja, de um
homem para uma mulher e vice-versa. Em seu primeiro exemplo, Freud (1905) aborda a
homoafetividade, a que ele chama naquele momento de “invertidos” (embora hoje vemos a
terminologia como inadequada para abordar o tema). Esse é um tema delicado na psicanálise, sobre
o qual iremos expor também no tópico “Na prática”. Freud (1905), naquela época, afirmava que a
comunidade homoafetiva podia tratar de sua condição sexual com naturalidade (ou seja, com a
mesma aceitação natural que um heterossexual tem de sua condição) ou com revolta (ou seja,
tratando de sua condição como se fosse uma patologia). Para o autor, a origem dessa condição
poderia surgir junto com o indivíduo, numa época remota de sua vida ou pouco antes da puberdade;
além disso, poderia persistir por toda a vida ou ocorrer apenas durante determinado tempo.
A princípio, a homossexualidade (termo que Freud usa nesse texto) foi considerada como
contendo dois elementos: o caráter inato e a “degeneração”, sendo esse último termo devendo ser
dissociado de sua forma pejorativa como um desvio grave da norma ou com baixa capacidade de
sobrevivência. Segundo o autor, entende-se como degenerado aqui apenas o desvio no caráter
sexual, uma vez que essa condição não tem qualquer relação com o desempenho laboral, intelectual
ou ético do indivíduo. Já o caráter inato pode ser somente para os que Freud chama como
“absolutos” (ou seja, aqueles que já nasceram com essa condição e que a escolha por outra pessoa
do mesmo sexo é a única opção possível), enquanto para o demais ele afirma a possibilidade de
aquisição durante a infância, como se a pessoa mantivesse a bissexualidade após a idade adulta.
No entanto, ele admite que possuía pouco material para considerar suas observações como
conclusivas.
Em um primeiro momento, Freud (1905) tentou usar do hermafroditismo como um protótipo
para explicar a existência da bissexualidade humana, mas foi infeliz nessa primeira tentativa. Depois,
avaliou os estudos que afirmavam que nos homoafetivos se teria um cérebro contrário ao corpo
presente (ou seja, um cérebro feminino em um corpo masculino ou um cérebro masculino em um
corpo feminino). No entanto, para Freud, seria como substituir o problema psíquico pelo problema
anatômico, o que segue sem resolver a questão. Por fim, o autor considerou a teoria de Kraft-Ebing
como a mais próxima de uma explicação razoável:
Segundo Kraft-Ebing (1895, 5], a disposição bissexual dota o indivíduo tanto de centros cerebrais
masculinos e femininos quanto de órgão sexuais somáticos. Esses centros começam a
desenvolver-se na época da puberdade, na maioria das vezes sob a influência das glândulas
sexuais, que independem deles na disposição [originária]. (Freud, 1905, p. 135)
Isso explicaria por que o comportamento e a organização psíquica de uma pessoa independem
de sua condição sexual: ou seja, uma mulher pode sofrer uma transformação psíquica que a torne
mais masculina, ou um homem pode se comportar exatamente como um homem heterossexual
normal.
Embora naquele momento se acreditasse que a homoafetividade fosse oposta ao normal, essa
explicação só poderia funcionar para uma parcela das pessoas, assim como o é para a
heterossexualidade (pois a pessoa vai contra seus desejos para buscar a aceitação social). Assim,
para Freud (1905), a melhor explicação seria a de que o objeto sexual não é o mesmo sexo, mas uma
conjugação dos caracteres de ambos os sexos eum reflexo especular da própria natureza bissexual.
O objetivo sexual dos invertidos é diverso, sendo menos relevante o órgão sexual em si, pois nos
homens heterossexuais também há o prazer intenso na relação sexual anal e masturbação, assim
como nas mulheres heterossexuais há também uma preferência com o contato bucal.
Por fim, e aqui devemos excluir que a homoafetividade seja um desvio, Freud (1905) inclui no
grupo dos desvios de objeto as pessoas que escolhem os animais e as crianças. Segundo o autor,
essas escolhas muitas vezes se dão com mais frequência em pessoas com mais oportunidades
para sucumbirem a esses comportamentos (como professores e camponeses), e a diferença entre
pessoas com esses comportamentos e as consideradas loucas é somente o grau de intensidade do
transtorno sexual. Embora Freud (1905) afirme nesse texto que os distúrbios sexuais nos loucos não
são diferentes dos distúrbios sexuais das pessoas consideradas sãs, é importante frisar que esses
dois últimos exemplos posteriormente foram enquadrados fora do grupo da normalidade, uma vez
que esse tipo de desvio sexual foge das regras e limites sociais, podendo ser comparado ao próprio
incesto.
1.2 DESVIOS RELATIVOS AO ALVO SEXUAL
Para Freud (1905), o objetivo ou alvo sexual normal é o sexo genital, que leva ao alívio da tensão
e a extinção temporária da pulsão (semelhante a quando comemos e saciamos nossa fome). A
sexualidade normal pode incluir o uso temporário de outras partes do corpo antes do início do coito
(conhecidas dentro das famosas “preliminares”: o beijo, as carícias etc.), e se distinguem dos
exemplos que serão dados a seguir quando elas se tornam o objetivo final que não o contato genital.
Existem dois tipos de perversões aqui, que na verdade podem ser consideradas como a mesma
coisa, pois terminam com o desvio do objetivo sexual em si: I) as transgressões ou o uso de outras
partes do corpo obter prazer, e; II) as demoras das preliminares. Melhor explicando:
I. As transgressões aqui são consideradas como um enfraquecimento do juízo, uma cegueira
lógica semelhante à obediência do paciente durante a hipnose (e que depois ele aprofunda em
seu texto “Psicologia das Massas”: a submissão que passa pela credulidade amorosa; a
substituição da figura de autoridade que deveria ter desembocado em um vínculo amoroso
com uma pessoa do outro sexo, mas que se transforma na obediência cega a uma figura
supervalorizada. Essa correlação se dá na medida que, em ambos os casos, ocorre a restrição
do objetivo sexual em si – a união de órgãos sexuais – para o desvio da libido para outros fins).
Alguns dos exemplos aqui são: o sexo oral, pois embora a pessoa não compartilhe da escova
de dentes do outro por asco, a libido rende o sentimento de asco em prol da obtenção de
prazer; o sexo anal, criando uma sensação [imaginária] semelhante em homens e mulheres –
ou seja, ambos os sexos se igualam nessa experiência; e o fetichismo, como a obtenção de
prazer por partes do corpo como pés e cabelos, ou mesmo o desejo por pessoas com defeitos
físicos específicos, peças de roupa ou objetos em particular, que por alguma razão do próprio
pervertido conservam uma relação com o objeto sexual. Ele se origina na primeira infância ou a
partir de uma conexão simbólica, e passa a ser um transtorno quando gera sofrimento ou dor
ao outro contra a sua vontade, além de colocar a saúde e a vida do indivíduo em risco.
II. Aqui, o excesso de preliminares criticadas por Freud inclui o tocar, o olhar (como no caso dos
voyeurs), o sadismo e o masoquismo (ter prazer em provocar dor no outro ou com o próprio
sofrimento ou dor). O sadomasoquismo será mais bem trabalhado em outros textos de Freud
(como “O problema econômico do masoquismo”, escrito em 1924), mas serve como um
modelo de esclarecimento da perversão. O masoquismo é oposto ao sadismo, mas sempre o
acompanha, pois na perversão, o objetivo sexual pode ocorrer nas formas ativa e passiva
conjuntamente no mesmo indivíduo, o que faz com que alguém que sente prazer em infligir dor
em seu objeto sexual também terá prazer em dores que virá a sofrer ele próprio durante suas
relações sexuais.
TEMA 2 – PERVERSÕES E PSICONEUROSES
A perversão é classificada como uma doença, um transtorno. Segundo Freud (1905), existem
perversões dos mais variados tipos, incluindo algumas muito distanciadas do normal (como
necrofilia e coprofagia), e que vão muito além de sentimentos como vergonha, repugnância, horror,
nojo ou dor. A perversão se caracteriza pela existência desses transtornos no âmbito sexual, mesmo
que em outros aspectos o indivíduo se apresente plenamente dentro da normalidade. A natureza
patológica da perversão está em sua relação com o normal, o que significa que ela se torna um
transtorno quando apresenta um grau mais elevado de fixação e exclusividade do comportamento.
Nas neuroses, a pulsão e o recalque são os principais responsáveis na formação dos sintomas:
na histeria, os sintomas são deslocamento de desejos, por associação; na neurose obsessiva e nas
fobias, os sintomas representam a autocensura por medo e nojo, e na paranoia ocorre a projeção
dos desejos recalcados sob a forma de alucinações. Nas cartas sobre as psiconeuroses de defesa, o
autor também comenta sobre a cronologia dessas psiconeuroses, ou seja, quando elas se
estabelecem. Se considerarmos que existe uma maturação do corpo humano em paralelo a essas
experiências, poderíamos estabelecer uma correspondência entre as experiências com o próprio
corpo e essas psiconeuroses. Com isso, Freud então cria o conceito de zonas erógenas.
As zonas erógenas se comportam como uma porção do aparelho sexual, e podem servir como
aparelhos subordinados aos órgãos genitais ou como substitutos deles quando há a formação
dessas psiconeuroses. Embora a maioria dos psiconeuróticos adoeça após a puberdade, o processo
de recalque se dá durante a infância e se estabelece com o retorno do recalcado, geralmente
associado com fatores externos tardios como limitação da liberdade, perigos em geral e
inacessibilidade do objeto sexual normal, os quais pervertem pessoas que, de outra forma, poderiam
ter sido normais. Assim, podemos dizer que a neurose é uma junção do genético com a experiência
prévia do indivíduo. Já as perversões podem se originar de características inatas ou surgir de
fetichismo, e se expressam desde cedo em crianças.
O conceito das zonas erógenas, embora já tenha surgido nas cartas a Fliess, é trabalhado pela
primeira vez aqui. De modo geral, significa qualquer parte do corpo suscetível de se tornar uma fonte
de excitação sexual: a boca, o ânus, o pênis ou a vagina, ou qualquer outra parte, já que na
psicanálise todo o corpo, pele e membros pode se tornar uma fonte potencial de prazer. Iremos
tratar em detalhes sobre as fases na sequência.
TEMA 3 – A SEXUALIDADE INFANTIL
A opinião popular julga erroneamente que a pulsão sexual está ausente nas crianças e só se
desenvolve na puberdade, e que muitas das doenças dos adultos surgem em consequência de
hereditariedade; ou que a presença de pulsões sexuais em crianças ocorre como casos excepcionais
de depravação precoce. Segundo Freud, nós nos esquecemos de grande parte do que nos acontece
na infância, restando apenas fragmentos (a amnésia infantil). Durante essa época, reagimos de
maneira vívida (com amor, raiva e tristeza) ao que nos acontece, e constituem o princípio da nossa
vida sexual. O esquecimento dessas experiências infantis ocorre como um processo semelhante ao
da amnésia neurótica em relação a eventos emocionalmente relevantes: mais do que isso, a
amnésia neurótica existe porque traços de memória, interligados entre si, foram recalcados,
misturando memórias recentes com memórias precoces. Assim, a amnésia neurótica não existe sem
a amnésia infantil.
As pulsões sexuais começam desde o nascimento e se desenvolvem durante a infância. Nesse
período, a formação de traumas associados à amnésia infantil faz com que asexperiências sejam
recalcadas, podendo ser futuramente uma fonte de sintomas dependendo das características
individuais. A educação está diretamente relacionada com a formação do recalque, pois é a principal
fonte para a criança aprender sobre as regras sociais e como deve se estabelecer sua sexualidade
nesse contexto. Como vimos antes, todo material recalcado necessita ser extravasado, podendo ser
por meio dos sonhos, dos sintomas, das fantasias e da sublimação, além do próprio sexo. A
sublimação é uma forma socialmente aceita e que se expressa na forma de talentos individuais para
os esportes, para as artes ou para a literatura, por exemplo.
3.1 AS MANIFESTAÇÕES INFANTIS DA SEXUALIDADE
Uma das primeiras manifestações da sexualidade infantil é o que Freud (1905) chama de
chuchar com deleite, que é o comportamento do infante de fazer o movimento de mamar sem estar
realmente se alimentando do leite materno. Outro comportamento é o chupar o dedo ou a chupeta,
às vezes acompanhado de segurar a própria orelha ou a orelha de outra pessoa. Esse
comportamento aparece na primeira infância e espera-se que se encerre na maturidade. Esse
chuchar (seja o peito, o dedo ou a chupeta) tem o objetivo de acalmar o bebê, de levá-lo ao sono ou a
uma reação semelhante ao orgasmo. O autor considera que as crianças que buscam o sugar como
uma forma de prazer autoerótico tendem a, quando adultos, dar uma importância erógena para os
lábios. Assim, o objetivo da pulsão sexual infantil é obter prazer, tranquilidade e satisfação por meio
de uma parte do corpo que for escolhida (erógena) para estimular essa sensação.
Assim como a zona labial (ou oral), a zona anal também pode atuar como uma via sexual. Um
exemplo disso são as crianças que seguram as fezes até que seu acúmulo provoque intensas
contrações musculares que provocam dor e prazer, como se fosse um comportamento
masturbatório do ânus. Sobre a masturbação, na psicanálise distinguem-se três fases de
masturbação infantil: uma pertencente à primeira infância, outra por volta dos quatro anos e uma
terceira na puberdade. A excitação sexual relativa da primeira infância, assim como as demais,
busca satisfação pela masturbação ou pela polução noturna, mas cada uma delas deve ter uma
separação marcada no desenvolvimento infantil.
A continuidade desse comportamento masturbatório ao longo da infância pode representar um
desvio de conduta e posteriormente se transformar em um transtorno. As crianças podem ter todo
tipo de irregularidades sexuais, já que barreiras como a vergonha, a repugnância e a moral ainda não
foram formados. Nesse sentido, são chamadas, portanto, de perverso-polimorfas. Laplanche e
Pontalis (2001, p. 342) esclarecem que a perversão faz parte do comportamento infantil e é
esperado como parte de sua interação com o ambiente. E, na medida que essa perversão está ligada
às pulsões parciais pertencentes às zonas erógenas durante o desenvolvimento infantil, se
apresenta, portanto, como uma disposição perverso-polimorfa.
As crianças, durante seus primeiros anos, têm muito prazer em expor seus corpos, com ênfase
nas suas partes genitais. Quando adquirem a capacidade de sentir vergonha, essas crianças passam
a exibir curiosidade pelas genitais de outras pessoas e pelas diferenças anatômicas entre os sexos.
Além disso, outra característica das crianças é a crueldade, pois o sentimento de piedade se
desenvolve somente mais tarde. Esse impulso de crueldade surge do desejo de domínio (sadismo
infantil), o que leva algumas crianças a um desejo de bater em animais e coleguinhas, e pode levar
ao prazer de apanhar nas nádegas, relacionado à passividade (masoquismo).
Entre três e cinco anos a criança chega no primeiro ápice sexual. Nesse momento, surge a
necessidade de fazer perguntas, e essa necessidade pode ser despertada por diversos motivos,
como a chegada de um novo bebê. Nesse sentido, a primeira dúvida costuma ser de onde vêm os
bebês (para as pessoas que têm filhos adotados, por exemplo, não é incomum a criança perguntar
sobre seu processo e como ela poderia ter se tornado filha daqueles pais sem ter sido gerada no
ventre da mãe). Ao perguntar sobre a origem dos bebês, a criança começa a compreender a própria
constituição sexual, a diferença anatômica dos sexos e o papel fertilizante do esperma. Segundo
Freud (1905), essa curiosidade pode ser comparada ao enigma da Esfinge (chamado de Complexo de
Édipo quando Freud for apresentar o caso do Pequeno Hans). Ao descobrir as diferenças sexuais
entre homens e mulheres, surge o complexo de castração (nas meninas se refere à frustração de não
ter pênis, e nos meninos se refere ao medo de perder seu pênis) e a inveja do pênis.
TEMA 4 – FASES E FONTES DO DESENVOLVIMENTO SEXUAL
Existem quatro fases de desenvolvimento sexual humano: a fase oral (que envolve o desejo de
incorporar o objeto), sádico-anal (que inicia a relação ativa e passiva), fálica e genital. Entre as fases
fálica e genital há o período de latência, pois na fase fálica há a organização genital infantil sob o
primado das pulsões parciais (e, nesse sentido, o falo é o único órgão genital), e na fase genital
constitui-se a genitalidade propriamente dita para os sexos. A escolha de um objeto é difásica, uma
entre as idades de dois a cinco anos (infantil) e outra no início da puberdade e que determinará o
resultado da vida sexual. Essas determinadas partes do corpo são escolhidas como zonas erógenas
principais por causa de sua relevância e determinadas idades: assim, a boca é o ponto de contato
afetivo e de nutrição com o corpo da mãe desde o nascimento; o ânus representa a fase quando a
criança precisa aprender a controlar seus esfíncteres e, com isso, controlar seu próprio corpo
(normalmente, após os dois anos), e a fase genital ocorre na puberdade e no término do
amadurecimento sexual, na adolescência. Nesse sentido, Freud amplia e traz a existência de dois
tipos de pulsões: sexuais e de autoconservação, como o amor e a fome. Dentro das pulsões sexuais,
estão inseridas as pulsões parciais, as quais estão ligadas a cada órgão de acordo com a idade, e
que se juntam para se tornarem pulsões totais somente na vida adulta. Posteriormente, em “Pulsões
e seus destinos”, Freud irá mudar essa divisão das pulsões para pulsões de vida e de morte, mas
isso é tema para uma outra aula.
A excitação sexual pode ter diversas origens: na repetição de um prazer já experimentado; pela
estimulação das zonas erógenas; como expressão de algumas pulsões como a crueldade. Essa
excitação pode ser adquirida pela agitação do corpo e na estimulação sensorial desse corpo (olhos,
ouvidos, pele e músculos), por isso as crianças também têm muita satisfação e necessidade em
praticar exercícios físicos. A tarefa intelectual também pode provocar prazer, pois toda atividade
praticada ou experimentada com intensidade pode gerar prazer e estimular a sexualidade. Mas é
importante frisar que a estimulação só ocorre dependendo da qualidade dos estímulos, do quanto a
criança está satisfeita em praticá-los (ou seja, não adianta forçar a criança a uma atividade que não
a faz feliz porque isso não a irá estimular adequadamente).
TEMA 5 – AS TRANSFORMAÇÕES DA PUBERDADE
Até antes da adolescência, as pulsões sexuais são autoeróticas. Com a chegada da puberdade,
um novo objetivo sexual aparece, pois um dos principais processos da puberdade é o
desenvolvimento dos genitais externos. Na adolescência, a pessoa passa a ter a capacidade de se
estimular sexualmente de três formas: externamente (p. ex., pela masturbação), internamente (p. ex.,
uso de substâncias) e mentalmente (p. ex., vídeos, filmes e sonhos). Essa excitação independe da
capacidade fértil do indivíduo e está diretamente relacionada com a libido (que já mencionamos
antes), que é a responsável pela geração de prazer e desprazer: prazer pela eliminação da tensão, e
desprazer porque cria mais desejo de prazer (semelhante ao uso de drogas: quanto mais usamos,
maisqueremos experimentar). A libido pode ser considerada como uma força quantitativamente
variável, com caráter qualitativo. Aqui, Freud (1905) estabelece que na infância há uma libido do ego,
ou libido narcísica (na medida que há um autoinvestimento) e depois surge uma libido do objeto.
Portanto, temos aqui dois tipos de libido (vale informar que, quando Freud escrever seu texto “Além
do princípio do prazer”, ele passará a trazer o conceito de libido como Eros, ligado às pulsões de
vida, em oposição às pulsões de morte).
5.1 A DIFERENCIAÇÃO ENTRE HOMENS E MULHERES
As disposições sexuais de meninos e meninas são percebidas na infância. E, embora seja
possível identificarmos diferenças entre eles, a atividade autoerótica é idêntica em ambos
(lembrando que, aqui, não estamos discutindo a concepção moderna de gênero, mas como se dá o
comportamento infantil com os órgãos sexuais, pênis e vagina/ clitóris). Com a puberdade, o
objetivo sexual deixa de ser autoerótico e focado na mãe e passa a ser em um outro diferente da
mãe.
As relações afetivas que permeiam a vida das crianças é que irão formar um modelo de suas
relações afetivas futuras – por meio do modelo que a criança concebe com a pessoa que cuida dela,
acaricia-a, beija-a, essa criança buscará no futuro um objeto sexual substituto dessa relação.
Quando a criança experimenta relações não saudáveis, como excesso de mimos ou privação de
afeto, isso pode desencadear futuramente comportamentos como ansiedade e carência afetiva
intensa, ou ser despertada sexualmente mais cedo. É claro que seria muito mais fácil para a criança
manter o direcionamento de seus impulsos sexuais para as pessoas que cuidaram dela; porém, a
barreira do incesto impede esse tipo de relação. O período de latência até a puberdade auxilia a
criança a impedir o desenvolvimento desse tipo de relação incestuosa e ajuda a criança a criar
moldes para o relacionamento com outras pessoas. Durante a escolha do objeto, que ocorre em
paralelo ao amadurecimento sexual, há também o desejo de independência em relação aos pais
(mas isso não ocorre em todos os jovens). Nos psiconeuróticos, o desligamento dos pais e o
impedimento incestuoso causam repúdio à sexualidade, e a escolha do objeto se mantém no
inconsciente, procurando sempre uma relação assexual e se mantendo apegado às suas antigas
relações infantis. As pessoas normais também sofrem influência do incesto, porém contornam essa
frustração ao buscarem uma pessoa madura com características de seu pai, mãe ou cuidador.
Durante a escolha do objeto, na adolescência, irá contar a atração sexual pela constituição
anatômica e psicológica antagônica, a repressão da sociedade, o desenvolvimento de uma relação
hostil com pessoas do mesmo sexo ou do sexo oposto, além de experiências infantis como divórcio,
morte etc. Ou seja, tudo que acontece na infância pode influenciar os relacionamentos futuros da
criança, muito embora eles não sejam determinantes (nem todo mundo que vivencia um luto ou um
trauma terá as mesmas escolhas objetais).
NA PRÁTICA
A proposta prática desse tema é vasta, mas aqui gostaríamos de trabalhar sobre o tema da
homoafetividade. Mais especificamente, a forma como as instituições psicanalíticas lidaram com
esse tema controverso durante o século XX. No texto “A psicanálise ‘no armário’, a autora comenta
que na década de 1920 era sabido que as sociedades de psicanálise recusavam candidatos às
escolas que fossem assumidamente gays ou que revelassem essa informação durante o processo
seletivo. Isso porque a homossexualidade era considerada uma doença, constando inclusive no DSM
(Manual Diagnóstico dos Transtornos Mentais) até 1973. E a autora continua, em referência à IPA
(Associação Psicanalítica Internacional):
Em circular enviada a todos os membros do secreto comitê, Ernest Jones relatava ter aconselhado
contra a admissão, pela Sociedade Holandesa de Psicanálise, de um membro que “se sabia
manifestamente homossexual”. Otto Rank e Freud discordavam da posição do colega, pois, para
eles, a homossexualidade não era razão suficiente para a rejeição. Por outro lado, porém, a
contratação não poderia tornar-se uma lei, “considerando os vários tipos de homossexualidade e
os diferentes mecanismos que a causam”. Já para os berlinenses Karl Abraham, Hanns Sachs e
Max Eitingon, esses indivíduos só deveriam ser admitidos se tivessem “outras qualidades a seu
favor”. (Oliveira, 2016, p. 39)
Com isso, conclui-se que o principal problema é o risco de apropriação e simplificação da teoria
psicanalítica (podendo ampliar essa simplificação para outros discursos que fazem parte do saber
histórico da humanidade) para discurso com viés preconceituoso, intolerante e parcial. Já
discutimos no caso Dora como ela sofria por se sentir reprimida intelectualmente, pela frustração de
sua condição como mulher na sociedade e, portanto, com o casamento como sua única opção. Da
mesma forma, Freud (1905) também comenta em seu texto sobre o risco de desenvolvimento de
psicopatologias em filhos de pais separados, algo que na época era considerado um desvio familiar.
Ayouch e Bulamah (2013) trouxeram uma série de exemplos ao longo da história da IPA, dentre
outras instituições ao redor do mundo, nas quais somente em 1992 foi possível que essa exclusão
caísse e as instituições finalmente aceitassem a presença de homossexuais. Assim podemos
concluir que modelos teóricos são protótipos que precisam ser constantemente revistos e
adaptados, ou como psicanalistas incorreremos no risco de nos colocarmos fora de contexto, fora
daquilo que é relevante, pertinente e adequado para a sociedade atual e para nossos clientes,
criando assim um falso problema, ou seja, uma questão que não pertence de fato à psicanálise e
que não deveria ser considerada um problema em si. Não é a homoafetividade que traz uma falha de
caráter ou social, ou mesmo fazendo parte de um erro genético; são as escolhas que fazemos, que
provocam dor e constrangimento no outro, que precisam ser vistas como um problema real, tanto do
ponto de vista da psicanálise quanto da sociedade como um todo.
FINALIZANDO
Nosso objetivo foi trazer de maneira detalhada o estudo de Freud “Três Ensaios sobre a Teoria
da Sexualidade”, emblemático para compreendermos o desenvolvimento psicossexual infantil e a
formação sexual de homens e mulheres. Embora alguns tópicos pretendam ser tratados somente
em outras aulas, como o Complexo de Édipo e o sadismo-masoquismo, alguns desses tópicos foram
mencionados aqui para que os alunos compreendam sua conexão com o tema desenvolvido na aula
de hoje uma vez que, ao longo da construção da teoria psicanalítica, Freud foi, aos poucos,
revisitando e aprofundando sobre cada um desses conceitos, até que fosse possível ter uma
proposta mais coerente sobre a estrutura do aparelho psíquico, a dinâmica das estruturas psíquicas
e dos principais transtornos, e sobre a prática clínica. Os conceitos mais importantes apresentados
aqui foram o conceito de libido, os tipos de desvios dessa libido (ao objeto e ao alvo), a natureza
bissexual da criança e sua disposição perverso-polimorfa, as fases do desenvolvimento (oral, anal,
fálica e genital), o período de latência, zonas erógenas/ pulsões parciais, as perversões e as
psiconeuroses no desenvolvimento infantil, a amnésia infantil como protótipo da amnésia neurótica,
a diferença entre pulsões sexuais e pulsões de autoconservação, o complexo de castração/ inveja
do pênis, o complexo de Édipo e a curiosidade infantil, a libido narcísica (ou do ego) versus libido do
objeto e a função da masturbação na infância, e a necessidade de contextualizar a teoria
psicanalítica na sociedade, enquadrando e ponderando temas dentro do período histórico em que
foram analisadas.
Esperamos que tenha aproveitado as discussões apresentadas aqui para conhecer um pouco
mais das origens da psicanálise, e o convidamos a continuar acompanhando as aulas para saber
mais sobre esse campo dosaber tão envolvente como é a psicanálise.
REFERÊNCIAS
APA. American Psychiatric Association. Diagnostic and statistical manual of mental disorders
DSM-5. Washington: APA, 2013.
AYOUCH, T.; BULAMAH, L. C. A homossexualidade dos analistas: história, política e
metapsicologia. Revista Percurso, n. 51, dezembro 2013, p. 115-126.
FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud
(1886-1899) – livro VII. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
v. 1, v. 2 e v. 3.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes,
2001. 552 p.
OLIVEIRA, A. A psicanálise “no armário”. Revista Psico. USP, n. 2/3, jul. 2016. p. 38-42.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1998. 874 p.
WHO. World Health Organization. ICD-11, 2022.
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
BIRMAN, J. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relumé-Dumará, 1991.
MEZAN, R. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 1980. 350 p.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TEORIA PSICOSSEXUAL DO
DESENVOLVIMENTO
INFANTIL
AULA 2
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Raquel Berg
CONVERSA INICIAL
Bem-vindos(as)!
Na aula de hoje, o primeiro texto trará um fechamento sobre o tema dos “Três Ensaios”,
apresentado em conteúdo anterior, e falaremos sobre a importância das fantasias na formação da
sexualidade infantil. Embora os “Três Ensaios” já tenha começado a ser idealizado nas cartas a
Fliess, após sua publicação em 1905, Freud continuou a revisá-lo, tendo concluído a última versão
em 1925, pouco antes de sua morte. Em função das constantes revisões, os “Três Ensaios” se
tornou um texto denso e em alguns pontos confuso, pois muitas informações foram inseridas sem
considerar a cronologia da própria obra psicanalítica, como pudemos observar quando Freud insere
sua teoria sobre o masoquismo e sobre o narcisismo infantil, tópicos que só serão tratados mais
tarde. Depois, falaremos sobre Esclarecimento Sexual das Crianças e sobre as Teorias Sexuais das
Crianças.
TEMA 1 – MINHAS TESES SOBRE O PAPEL DA SEXUALIDADE NA
ETIOLOGIA DAS NEUROSES
Nesse texto, Freud (1905) traz a importância do conhecimento sobre o fator sexual na etiologia
das neuroses. Originalmente, a hipótese freudiana sobre a importância do fator sexual surgiu no
estudo sobre as neurastenias. Antes de continuarmos, vamos fazer um breve esclarecimento sobre a
neurastenia e a diferenciação das neuroses. De acordo com Laplanche e Pontalis (2001, p. 295), a
neurastenia “compreende um quadro clínico centrado numa fadiga física de origem ‘nervosa’ e
sintomas dos mais diversos registros (...) cefaleias, dispepsia, prisão de ventre, parestesias
espinhais, empobrecimento sexual”. Segundo os autores, a neurastenia se enquadra no grupo das
neuroses atuais que, como o próprio nome diz, são neuroses cuja origem está no presente e não na
infância; elas são a expressão simbólica de insatisfações sexuais e, além da neurastenia, possuem a
neurose de angústia (baseada em sintomas como espera ansiosa crônica, acessos de angústia ou
equivalentes somáticos) e a hipocondria. As neuroses atuais se diferenciam das psiconeuroses,
sendo as últimas de origem infantil (neurose histérica, neurose obsessiva, fobias e paranoia).
Quando tratamos das neuroses atuais, aqui a neurastenia e a neurose de angústia, observou-se
como a questão sexual tinha uma grande importância e influência na origem dos sintomas. Como já
comentamos anteriormente, em uma sociedade como Viena do início do século XX, repressora e
machista, não era difícil compreender por que os transtornos se davam com mais frequência na
esfera sexual e em mulheres. Nesses transtornos atuais, a causa dos sintomas estava
frequentemente associada à masturbação frequente, polução noturna e ao coito interrompido. Já
nas psiconeuroses, em seus estudos com as histéricas, Freud (1905, p. 259) percebeu que os
sintomas “eram efeitos persistentes de traumas psíquicos, e de que, por circunstâncias especiais, as
somas de afeto a eles correspondentes tinham sido desviadas da elaboração consciente, com isso
facilitando para si um caminho anormal para a inervação somática”. Ou seja, ainda que houvesse
fatores sexuais envolvidos na formação do sintoma, o trauma desencadeante nem sempre tinha um
conteúdo sexual em si, e por meio do método catártico, era possível identificar como experiências
banais poderiam ter se conectado de alguma forma com a vida sexual do paciente e, com isso,
desencadeado a doença.
No entanto, ao longo dos estudos, Freud (1905, p. 260) percebeu que nem sempre as
lembranças suscitadas eram reais:
Desde então, aprendi a decifrar muitas fantasias de sedução como tentativas de rechaçar
lembranças da atividade sexual do próprio indivíduo (masturbação infantil). Esclarecido esse
ponto, caiu por terra a insistência do elemento “traumático” presente nas vivências sexuais infantis,
restando o entendimento de que a atividade sexual infantil (seja ela espontânea ou provocada)
prescreve o rumo a ser tomado pela vida sexual posterior à maturidade.
Essa mudança no entendimento de Freud significa que, se antes ele acreditava que a formação
das neuroses se dava por experiências traumáticas vividas na infância, agora ele passa a considerar
o desenvolvimento sexual infantil como o efetivo formador das neuroses. Além disso, ele traz o
conceito das fantasias (ficções mnêmicas) como construções feitas a partir de lembranças infantis
e que se transformam, na puberdade, em sintomas. Ou seja, os traumas sexuais infantis são
substituídos pelo “infantilismo da sexualidade” (Freud, 1905, p. 261). Segundo Laplanche e Pontalis
(2001), as fantasias representam roteiros imaginários, deformações de lembranças recalcadas por
processos defensivos. Na histeria e na neurose obsessiva, eles retornam na forma de sintomas no
corpo ou em comportamentos compulsivos, e na paranoia eles são projetados para fora como
delírios. Assim, Freud retoma sua concepção de que, para uma lembrança se tornar patogênica, ela
deveria parecer intolerável ao ego. E uma vez que a defesa seja bem-sucedida, as lembranças
intoleráveis são expulsas da consciência. Porém, uma vez que a lembrança inconsciente redobra
seus esforços e se modifica, ela consegue voltar sob a forma de sintomas.
Ao avaliar pessoas saudáveis, Freud (1905) percebeu que a experiência de sedução infantil não
diferia das pessoas doentes. O que era diferente era a reação dessas pessoas a essas experiências.
Assim, uma pessoa normal ou saudável, durante seu desenvolvimento sexual infantil, foi capaz de
ter uma certa dose de recalcamento sexual que se exteriorizou diante das experiências obtidas no
mundo real. Já os doentes não souberam lidar com essas experiências, sua consciência não teve a
habilidade adequada para lidar e recalcar as experiências aflitivas, mostrando aqui a importância da
terapia infantil e a relevância disso mesmo quando a criança parece lidar bem com desafios,
traumas e rupturas (como luto, bullying, violência doméstica, acidente etc.).
Em “Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade”, Freud (1905) trouxe que a sexualidade infantil
é variada e, por isso, chamada de perverso-polimorfa. A constituição saudável se dá a partir do
recalcamento de certas lembranças, certas pulsões parciais, bem como à subordinação dessas
pulsões parciais às zonas genitais. Quando há o desenvolvimento excessivo e compulsivo das
pulsões parciais, ocorre a perversão, e o excesso de recalcamento acarreta na neurose (pois a
perversão é o negativo da neurose). Assim, podemos concluir que “os sintomas representam a
atividade sexual do doente” (Freud, 1905, p. 264), pois a formação das doenças se dá quando
ocorrem perturbações nos processos sexuais, ou seja, quando há desvios na formação e no
direcionamento da libido. Nesse sentido, Freud (1905) associaas psiconeuroses à dependência
química, na medida em que a pessoa fica vulnerável à intoxicação e síndrome de abstinência.
TEMA 2 – ESCLARECIMENTO SEXUAL DAS CRIANÇAS
Esse texto foi escrito em 1907 como uma carta, na qual Freud pretendia elucidar se as crianças
deveriam ser esclarecidas sobre os fatores que envolvem a vida sexual, qual a melhor idade para
essa comunicação e como fazer isso. Como o próprio Freud (1907, p. 123) afirmou, fugir da questão
da sexualidade humana é estranho e incoerente, já que é a dúvida é comum e perfeitamente razoável
a partir de determinada idade:
Que propósito se visa atingir negando às crianças, ou aos jovens, esclarecimento desse tipo sobre
a vida sexual dos seres humanos? Será por medo de despertar prematuramente seu interesse por
tais assuntos, antes que o mesmo [sic] irrompa de forma espontânea? Será na esperança de que o
ocultamento possa retardar o aparecimento do instinto sexual por completo, até que este possa
encontrar seu caminho pelos únicos canais que lhe são abertos em nossa sociedade de classe
média? Será que acreditamos que as crianças não se interessarão pelos fatos e mistérios da vida
sexual, e não os compreenderão, se não forem impelidos a tal por influências externas? Será
possível que o conhecimento que lhes é negado não as alcançará por outros meios? Ou será que
se pretende genuína e seriamente que mais tarde elas venham a considerar degradante e
desprezível tudo que se relacione com o sexo, já que seus pais e professores quiseram mantê-las
afastadas dessas questões o maior tempo possível?
Para aqueles que têm filhos ou que convivem com crianças, já sabemos que esconder esse tipo
de informação é infrutífero. Nos tempos de Freud, as crianças podiam obter as informações sobre o
que diz respeito à vida sexual dos adultos com irmãos ou crianças mais velhas, nas bancas de
revista, nos livros e nas ruas, além da própria observação dos adultos sexualmente ativos. Hoje, além
dos exemplos dos tempos de Freud, esse acesso se dá também na televisão, na internet,
praticamente em qualquer lugar. E o próprio Freud (1907) comenta que omitir essa parte da vida das
pessoas não irá manter a pureza e a imaginação das crianças, pelo contrário, irá deixá-las ainda
mais curiosas. E de fato a orientação que damos a todos os pais em consultório é que precisam
tratar do tema com naturalidade, pois é com essa naturalidade que a criança irá entender a
dimensão que esse tema realmente precisa ter em sua vida. Para o autor, a sexualidade acompanha
o indivíduo desde seu nascimento. As crianças percebem que o pênis endurece e entendem como
cócegas, elas se satisfazem manipulando seus genitais, segurando as fezes ou chupando os dedos
– ou seja, estimulando as zonas erógenas, canalizando e satisfazendo suas pulsões parciais. Criar
mentiras de que não é nada cria insegurança e fantasias nocivas sobre o sexual, pois a criança tem
necessidade de entender o próprio corpo e as relações humanas em todos os espectros. Segundo o
autor, “a puberdade apenas concede aos genitais a primazia entre todas as outras zonas e fontes
produtoras de prazer, assim forçando o erotismo a colocar-se a serviço da função reprodutora”
(Freud, 1907, p. 125).
A curiosidade das crianças sobre o sexual começa desde muito cedo. Aqui, ao trazer o caso do
“Pequeno Hans” (que falaremos em conteúdo posterior), Freud comenta que o menino nunca havia
sido exposto à sedução de uma babá ou de uma irmã mais velha, mas desde cedo demonstrava
interesse pelo “pipi”. Perguntava à sua mãe se ela também tinha um “pipi” como o seu, e perguntava
várias vezes para se certificar da resposta. Depois, começou a fazer associações com as partes do
corpo dos animais, como as tetas da vaca como se fossem “pipis”. Após muito refletir sobre o
assunto, ele trouxe a primeira conclusão de que as vacas e os cavalos também tinham “pipis”, mas
as mesas e cadeiras não o tinham. Ao ver sua irmã tomando banho, ele pensou que ela também
poderia ter pipi, mas que ainda era muito pequeno e precisava crescer mais. Segundo o autor, esse
questionamento é comum entre as crianças, e isso não as torna com problemas patológicos ou com
uma sensualidade exacerbada, mas apenas crianças normais com curiosidades normais.
O autor também traz que as mentiras sobre esse assunto podem abalar a confiança das
crianças nos adultos, e faz com que queiram esconder seus desejos e temores mais íntimos, pois
não sentem que podem confiar nas pessoas que estão ao seu redor. Em uma carta que Freud (1907)
compartilhou em sua carta, ele trouxe o exemplo de uma menina órfã que pedia para a tia lhe dizer
de onde vinham os bebês, já que a explicação da cegonha não lhe parecia convincente. Segundo o
autor, a tentativa de enganar a curiosidade de uma criança, usar da religião ou de outros artifícios só
irá contar para a formação de neuroses ou tornar a criança um futuro adolescente revoltado.
Outro exemplo que o autor trouxe em seu texto foi o raciocínio de uma criança que não
acreditava que as cegonhas traziam os bebês porque o ser humano é um animal e a cegonha não
carrega os filhotes dos demais animais (embora alguns desenhos infantis ilustrem as cegonhas
como realmente entregando todos os filhotes de animais). Por fim, Freud (1907) aconselha em seu
livro que as escolas introduzam o tema em suas grades, em vez de tratarem do tema como um
assunto proibido, pecaminoso.
TEMA 3 – TEORIAS SEXUAIS DAS CRIANÇAS
E, dando continuidade ao texto anterior, algumas das teorias sexuais das crianças estudadas
por Freud (1908) trouxeram hipóteses interessantes sobre a origem dos bebês. Algumas das fontes
dos estudos aqui apresentados são da observação direta das crianças, do que fazem e o que dizem,
dos relatos dos pacientes neuróticos quando se recordam de suas experiências infantis, e dos
sonhos apresentados nessas consultas, que também apresentam um vasto conteúdo sobre essas
teorias. Entende-se que não necessariamente as lembranças e sonhos irão representar com
fidedignidade as experiências passadas, mas o formato como essas recordações surgem
esclarecem muito sobre como se procedeu as pressões educacionais, as exigências culturais e
familiares e, com isso, o processo de recalque. Segundo o autor, ademais, todas as pessoas passam
por essa experiência porque não é possível impedir ou prevenir uma criança de passar pelo interesse
na sexualidade. No caso das pessoas saudáveis, essa passagem se dá de forma mais ou menos
tranquila, e nos neuróticos e psicóticos, essa experiência se dá de forma distorcida, degenerada, “à
custa de dispendiosas formações substitutivas, isto é, do ponto de vista prático trata-se de um
fracasso” (Freud, 1908, p. 192).
A curiosidade das crianças pelo aspecto sexual não surge de modo espontâneo, mas a partir de
alguma surpresa – o nascimento de outra criança, por exemplo – que a faz temer pelo amor de seus
pais e das outras pessoas.
Essa rivalidade faz com que a criança queira saber como a nova criança chegou para poder
desejar que ela seja devolvida caso ameace as relações de afeto (ou seja, a chegada de um novo
irmão pode fazer a criança mais velha querer saber de onde vêm os bebês para poder devolver o
irmão que está competindo pela atenção dos pais). Quando essa rivalidade é atenuada pelo carinho
dos pais ou pela relação nova que se estabelece entre os irmãos, a pergunta continua como tentativa
de compreender sua própria origem. E, na medida em que as respostas a essa pergunta sobre de
onde vêm os bebês é evasiva ou permeada de mitos e fantasias, a criança não se dá por convencida
e segue na empreitada de descoberta desse segredo e, consequentemente, da própria sexualidade.
Conta Freud (1908) que uma criança ouviu de sua babá que os bebês eram retirados da água e
levados por cegonhas; imediatamente, a criança foi até o lago mais próximo de sua casa e olhou
dentro da água para tentar ver se conseguia achar crianças no fundo.
Ao referenciar o caso do Pequeno Hans, Freud(1908) trouxe que Hans, ao ver sua mãe grávida,
percebeu que a história da cegonha não era condizente com o fato do bebê estar dentro da barriga
de sua mãe. De fato, as crianças continuam a observar o comportamento dos adultos a respeito do
tema para checar a veracidade das informações. A primeira teoria infantil é de que todas as pessoas,
inclusive as mulheres, possuem um pênis. No Pequeno Hans, o menino acreditava que o pênis de
sua irmã recém-nascida era muito pequeno, por isso não era possível vê-lo ainda. Assim, o principal
temor dos meninos seria então o complexo de castração, o medo de perder o pênis. As meninas,
embora tenham o clitóris no lugar do pênis, esse representa um pênis propriamente dito em todos os
quesitos exceto a forma, podendo ser estimulado desde cedo pela menina, e na puberdade essa
sexualidade precisa ser parcialmente reprimida para que as características masculinas do impulso
sexual cedam para que surja a figura da mulher.
A segunda teoria sexual diz respeito a como os bebês saem da barriga de suas mães. Em um
primeiro momento, a conclusão lógica das crianças é a saída pelo ânus, como um excremento,
conectando o erotismo anal à atitude feminina. A terceira teoria sexual envolve a visão da criança de
seus pais em uma relação sexual, que lhe leva a uma concepção sádica do coito. Junto a isso tem-
se as hipóteses sobre o casamento e como se dá a suposta perda de pudor entre o casal – pessoas
urinando uma na frente da outra, mostrando seus traseiros, misturando sangue – e o desafio de
acreditar que os próprios pais sejam praticantes dos mesmos métodos que os pais de outras
crianças (a famosa dificuldade da criança e do adulto aceitarem que suas mães precisaram fazer
sexo para que elas fossem concebidas). Essas hipóteses são demonstradas em brincadeiras e jogos
infantis, ou em sintomas tardios de fobias ou sintomas correlatos.
TEMA 4 – ORGANIZAÇÃO GENITAL INFANTIL
Muito embora esse texto tenha sido escrito somente em 1923, ele constitui um acréscimo aos 3
Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade de 1905. Em uma breve recapitulação, Freud (1923) comenta
que nos “Três Ensaios” ele trouxe a perspectiva bifásica da sexualidade infantil (ou bissexual), as
teorias sexuais das crianças e o desfecho da sexualidade após a vivência das zonas erógenas e das
pulsões parciais, por volta dos 5 anos. Daí em diante, até a puberdade, a criança entra no período de
latência até chegar à fase genital. Além disso, é na infância que se dá a escolha de objeto, escolha
essa que se concretiza quando a criança entra na fase genital.
Nos meninos, suas teorias sexuais são baseadas no seu próprio pênis, e é pela comparação
com o pai, com a mãe, com animais e objetos inanimados que esse menino começa a construir suas
hipóteses sexuais. A exibição do corpo nu e a agressividade infantil também são formas de testar a
curiosidade sexual, e é a percepção das mulheres e da sua falta de pênis que a criança inicia seus
primeiros temores – o complexo de castração. Porém, “o significado do complexo de castração só
pode ser corretamente apreciado se sua origem na fase da primazia fálica também for levada em
consideração” (Freud, 1923, p. 159-60). Em consequência do complexo de castração derivam a
depreciação das mulheres e a disposição patológica ao homossexualismo. Para a criança, a
castração ou perda do pênis representa uma mutilação, uma punição, sobre a qual muitas pessoas
inclusive usam para fazer as crianças obedecerem (não é incomum ouvir adultos dizendo a crianças
desobedientes que eles tirarão o “pipi” delas se não passarem a obedecê-los). Com esse raciocínio,
conclui-se que as mulheres foram punidas com a perda do pênis por terem descumprido alguma
regra.
Depois, quando a criança se dá conta de que as mães são capazes de gerar bebês, aceita-se a
falta do pênis e começa a hipótese de que o bebê, de alguma forma, substitui esse pênis perdido.
Ainda na fase anal, anterior à fálica, a criança não diferencia o masculino do feminino, mas entre o
ativo e o passivo, entre ter um pênis ou ser castrado; na fálica, o feminino volta a ter algum respeito e
o útero passa a representar o valor do feminino. Por isso, em terapia, quando uma mulher que não
pode ter filhos diz se sentir castrada, desprovida de ser mulher na completude, podemos
compreender essas afirmações como uma nova elaboração da perda do pênis e o encontro de um
substituto tardio.
TEMA 5 – ALGUMAS CONSEQUÊNCIAS NA DISTINÇÃO DOS SEXOS
Esse texto é uma continuação dos textos anteriores, agora com a discussão sobre o
desenvolvimento sexual nas mulheres. Tanto nos “Três Ensaios” quanto no estudo sobre as teorias
sexuais infantis, Freud afirma que suas hipóteses são para o desenvolvimento sexual infantil dos
homens. Em um primeiro momento, ele tentou estabelecer uma analogia entre o desenvolvimento
sexual feminino como análogo ao masculino (usando, por exemplo, o clitóris como um órgão
análogo ao pênis): isso se mostrou em diversos textos, nos quais Freud tentou definir que, assim
como o vínculo do homem era para com sua mãe, o vínculo da mulher era para com seu pai – o que
alguns tentaram chamar de Complexo de Electra (nome dado por Jung, com base na mitologia grega
na qual Electra, filha de Agamenon, pediu ao irmão que matasse sua mãe para vingar a morte do
pai). No entanto, com o tempo, Freud percebeu que a sexualidade feminina não poderia
simplesmente ser uma cópia da sexualidade masculina, tanto que no texto do capítulo anterior Freud
declarou que “infelizmente, podemos descrever esse estado de coisas apenas no ponto em que
afeta a criança do sexo masculino; os processos correspondentes na menina não conhecemos”
(Freud 1925, p. 275).
Segundo Strachey (1925), depois dos estudos com as histéricas, Freud nunca mais se deteve
para o desenvolvimento feminino, até 1924 com o texto “A dissolução do complexo de Édipo”. Freud
tentou estabelecer o seio como o primeiro objeto sexual de ambos os sexos e protótipo para todo o
modelo de relação posterior, e aqui ele cria o protótipo de uma fase pré-edipiana para explicar como
se dá o desenvolvimento sexual feminino, como se no caso das mulheres houvesse uma mudança
no órgão sexual principal e no objeto de amor, o que altera como se dão o complexo de Édipo, o
complexo de castração e a construção do superego. O superego, que vocês verão mais a fundo em
outras disciplinas, faz parte da segunda tópica (ou segunda teoria do aparelho psíquico, composta
de id, ego e superego), na qual o superego é responsável pela censura do ego, pela consciência
moral e pela formação de ideais, que são a interiorização das regras e exigências parentais, sociais).
No resumo da construção sexual dos meninos, Freud resumiu da seguinte forma: o seio da mãe
é o primeiro objeto sexual que canalizou sua libido para o prazer de ser alimentado e cuidado. Ao
mesmo tempo, o pai surge como um rival, o que precisa ser afastado ou substituído. O Complexo de
Édipo ocorre durante a fase fálica e se conclui com o complexo de castração; durante esse período,
o autoerotismo e o narcisismo se constituem, o menino desenvolve uma capacidade ativa e passiva
(masculina e feminina) e, com isso, aprende a também amar o pai e desejar o lugar da mãe como
objeto de amor do pai (não é incomum vermos meninos começarem apegados às mães e
posteriormente tentarem se identificar com os pais).
Nas meninas, Freud (1925) considera o processo um pouco mais complexo. Quando entram na
fase fálica, diferentemente dos meninos que se envolvem na masturbação e se encaminham para o
Complexo de Édipo, as meninas percebem que seu órgão sexual é diferente dos meninos, que é
“inferior”; nesse momento, elas caem vítimas da inveja do pênis. No menino, a percepção da falta de
pênis nas meninas causa estranheza, mas ele não se preocupa com isso até o momento que se vê
diante do complexo de castração. A partir daí, ele poderá ter desprezo pelo feminino ou horror à
condição. Já nas meninas, elas percebemdesde o início que não possuem um pênis, mas desejam
tê-lo. Esse desejo se torna uma ferida narcísica, e a cicatriz dessa ferida produz um sentimento de
inferioridade.
Em um primeiro momento, ela acredita que essa falta é uma punição individual, depois ela
percebe que a diferença é universal e passa a compartilhar com os homens um sentimento de
desprezo pelas mulheres e o desejo de ser também um homem. Freud (1925) também associa a
inveja do pênis ao ciúme, na medida em que o ciúme é o medo da perda do objeto de prazer,
remetendo à masturbação e ao medo simbólico da castração. Pela falta do pênis, Freud conclui que
as mulheres se encontram mais afastadas que os homens da masturbação, sendo o clitóris um local
de eliminação parcial da libido. Esse afastamento auxilia as meninas a se afastarem das
características masculinas e desenvolverem a feminilidade. A menina também diminui seu vínculo
com a mãe, na medida em que essa mãe é considerada a responsável por ter produzido uma criança
sem todos os atributos necessários, e na vida adulta a menina vai substituir o desejo do pênis pelo
desejo de um filho, fazendo-a tomar, por fim, o pai como objeto de amor.
Portanto, Freud conclui que nas meninas o complexo de Édipo é uma formação secundária, pois
“enquanto, nos meninos, o complexo de Édipo é destruído pelo complexo de castração, nas meninas
ele se faz possível e é introduzido através do complexo de castração (Freud, 1925, p. 285). Além
disso, enquanto nos homens o complexo de Édipo é destruído pelo complexo de castração e
substituído pelo superego, nas meninas Freud levanta que talvez o complexo de Édipo não seja de
todo destruído, o que explicaria um senso de justiça e uma percepção sobre a ética diferente dos
homens, e uma maior pessoalidade e vínculo emocional em comparação com o masculino. E
considerando que tanto a formação masculina quando feminina são constructos teóricos, nada
impede que parte dessas formações se dê tanto em homens quanto em mulheres.
NA PRÁTICA
A questão sobre como abordar o tema da sexualidade é antigo, e embora Freud tenha trazido
essa discussão na época, ainda hoje ela é pertinente para os pais que são questionados por seus
filhos, em algum momento, sobre sua origem, como trata a brincadeira abaixo:
Figura 1 – Origem dos bebês
Créditos: Tatyana Vyc/Shutterstock.
Figura 2 – Origem dos bebês
Créditos: Anna-Kharchenko/Shutterstock.
Figura 3 – Origem dos bebês
Créditos: ayelet-keshet/Shutterstock.
Para a experiência prática, trarei um pouco da minha própria experiência na maternidade. Meu
filho mais velho tinha 2 anos e meio quando fiquei grávida novamente. Um pouco mais cedo que a
idade de Hans quando sua mãe ficou grávida novamente. Lembro-me de que sua curiosidade era
entender como o irmão tinha entrado ali, ele queria ver se alguém o tinha colocado ali, mas não
conseguia entender como um bebê de tamanho normal poderia entrar dentro de mim. Ele me
perguntava se eu havia engolido o bebê ou empurrado por baixo, mas ainda assim não entendia
como poderia ter passado um bebê pela minha boca ou pela minha vagina, já que a cabeça dele não
passava por nenhum dos dois buracos. Depois que explicamos como eram feitos um bebê, ele
queria entender como o papai guardava os bebês, como ele os fazia, e depois quis entender como
ele mesmo poderia fazer os dele.
Ambos os meus filhos, em diferentes momentos, também quiseram entender as diferenças
sexuais entre homens e mulheres. Por um tempo, acreditavam que os pênis das mulheres ficavam
escondidos dentro das vaginas, como nas tartarugas cujos pênis ficam escondidos dentro dos
cascos. Depois, quiseram saber se o xixi e o cocô das mulheres saíam pelo mesmo lugar como nas
aves, e depois quiseram entender se as meninas que conheciam ficariam como as mamães e os
meninos, como os papais. Tive, mais recentemente, um grande desafio para explicar a questão de
gênero para as crianças, pois eles queriam entender se casais homossexuais podiam fazer seus
próprios filhos e se os homens trans podiam passar a engravidar.
Por fim, tive que explicar como vinham as crianças adotadas (disse meu filho em um momento:
“papai não está aqui e eu aprendi na escola que para fazer um bebê precisa do papai e da mamãe.
Como poderei ter um irmão sem ele aqui?”; em outro momento, ele viu uma criança com cor de pele
diferente dos pais e dos irmãos e perguntou se era possível escolher como queria nascer), o que me
deu um novo desafio para explicar sobre crianças adotadas, madrastas e padrastos. Infelizmente,
esse tópico veio acompanhado das histórias infantis (pois ambos queriam saber se todas as
madrastas eram malvadas como nos contos de fada). Também quiseram saber se podiam
encomendar irmãos e pais pela internet, o que foi uma conversa divertida e que mostra o quanto as
crianças se aprofundam para tentar entender esse tema, desde cedo.
FINALIZANDO
Nosso objetivo foi trazer de maneira detalhada a sequência dos estudos e publicações que
foram feitas a partir dos “Três Ensaios”, emblemático para compreendermos o desenvolvimento
psicossexual infantil e a formação sexual de homens e mulheres. Alguns dos tópicos trazidos hoje
foram como se dão a neurose atual e as psiconeuroses na formação sexual infantil, a importância
das fantasias de sedução, a característica intrínseca de todo ser humano de ter a perversão em sua
constituição (o perverso-polimorfo). Também comentamos as principais dúvidas das crianças sobre
a origem dos bebês, as diferenças entre homens e mulheres/entre o feminino e o masculino de todo
ser vivo, a questão das pequenas mentiras contadas por adultos para esconder a questão sexual,
como se dá a organização genital e como se forma o complexo de Édipo/complexo de castração em
meninos e meninas, suas diferenças e semelhanças.
Esperamos que tenham aproveitado as discussões apresentadas aqui para conhecer um pouco
mais das origens da psicanálise, e convidamos a todos a continuar acompanhando as aulas para
saber mais sobre esse campo do saber tão envolvente como é a psicanálise.
REFERÊNCIAS
BIRMAN, J. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relumé-Dumará, 1991.
FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud
(1886-1899) – livro VII e IX. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
v. 1; v.2; v. 3.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes,
2001.
MEZAN, R. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 1980.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1998.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TEORIA PSICOSSEXUAL DO
DESENVOLVIMENTO
INFANTIL
AULA 3
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Raquel Berg
CONVERSA INICIAL
Bem-vindos(as)!
Na aula de hoje, falaremos sobre os textos “análise de uma fobia em um menino de cinco anos”,
“Leonardo Da Vinci e uma lembrança de sua infância” e “Duas mentiras contadas por crianças”. O
texto do Pequeno Hans tem sua importância no contexto da formação psicossexual infantil pelo fato
de trazer de modo aprofundado a questão do Complexo de Édipo e do Complexo de Castração,
associados à fobia que o menino desenvolve por cavalos. Já o texto sobre Leonardo da Vinci segue
com os questionamentos de Freud a respeito da sexualidade infantil e do narcisismo. Para a prática,
falaremos do desafio do desmame e do desfralde de meninos e meninas.
TEMA 1 – ANÁLISE DE UM MENINO DE CINCO ANOS: DESCRIÇÃO
O caso do Pequeno Hans (que Freud inicialmente chamou de Pequeno Herbert) foi baseado no
relato do pai desse menino. Freud chegou a ver a criança somente uma vez, porém, o
acompanhamento e as observações foram compartilhados pelo pai, que realizou toda a análise
juntamente com Freud. A partir desse estudo, Freud concluiu que na observação das crianças somos
capazes de identificar impulsos e desejos sexuais que depoisaparecem na análise de adultos,
especialmente de forma distorcida nos neuróticos. Para que o tratamento fosse possível, Freud
havia dado um desafio aos pais, que era o de evitar a coerção na educação da criança, a menos que
isso fosse inevitável. E, à medida que Hans cresceu, observou-se que o menino evoluiu de modo
satisfatório e feliz. Embora a maior relevância desse estudo seja a análise da fobia, nesse primeiro
tópico apresentaremos Hans e como ele se enquadra nas características comportamentais das
crianças em geral, incluindo nas de hoje em dia.
Os relatos começaram quando a criança tinha três anos de idade. Nessa época, o menino já
demonstrava um vivo interesse pelo seu “pipi”. Em um momento, ele perguntou à mãe se ela tinha
um “pipi” e ela confirmou; depois, ele viu uma vaca sendo ordenhada e concluiu que ela tinha vários
“pipis”. O menino também passou a querer se tocar frequentemente. Um dia, ao ver ele com esse
comportamento, a mãe ameaçou cortar o pênis fora se ele continuasse a fazer aquilo. E, ao
perguntar como ele depois poderia fazer xixi, ele respondeu que seria com o bumbum. Embora a
resposta parecesse não ter culpa, esse foi o momento quando se iniciou o complexo de castração.
Com três anos e meio, Hans foi passear no zoológico e viu um leão na jaula, e gritou que estava
vendo o “pipi” do leão. Para Freud (1909), além dessa contestação mostrar que as crianças também
observam os animais como provedores de informações que os adultos muitas vezes tentam omitir,
também mostra a capacidade de pensamento abstrato e derivação de conhecimento (se eu tenho
um pipi, aquilo que vejo em um leão também pode ser um pipi). Depois, ao ver uma locomotiva,
perguntou-se onde estava o pipi dela, pois tinha a impressão de que ela estava fazendo xixi. Depois,
concluiu que animais têm pipi, mas objetos não têm, fazendo então uma diferenciação entre objetos
animados e inanimados.
Com três anos e nove meses, Hans perguntou a seu pai se ele tinha pipi e o pai confirmou.
Depois, ao observar a mãe sem roupa, Hans comentou que achava que ela teria um pipi como o de
um cavalo, pois ela era maior que ele. Uma das experiências marcantes na vida de Hans foi o
nascimento da irmã. Hans, em um primeiro momento, acreditava que a irmã seria trazida pela
cegonha. Porém, depois de ver o médico na casa, além de recipientes com água e sangue, Hans
começou a questionar da veracidade da história da cegonha. Depois, começou a sentir ciúmes da
irmã, ciúmes esses demonstrados nos comentários sobre o fato do bebê não ter dentes, e começou
a ter sonhos e fantasias de que duas amigas suas tinham se tornado suas filhas.
Hans, desde pequeno, também tinha dificuldade de evacuação. Tomava remédios
frequentemente e precisou ter a alimentação alterada, com poucos efeitos. Por isso, durante a
análise clínica, Freud também identificou a relação de Hans com o “lumf” (nome dado ao cocô) e sua
relação de prazer e nojo ao ver o próprio “lumf” ou o de outras pessoas, e como isso poderia ter
relação com o nascimento de crianças, pois ambos poderiam sair do ânus (o que era sua conclusão
lógica, já que a mãe não tinha “pipi”).
Aos quatro anos, começou a apresentar as relações de objeto: ao ver as filhas de um casal de
amigos dos seus pais, as chamava de “minhas meninas”; ao encontrar seu primo, ficava abraçando-o
e dizendo como gostava desse primo (numa demonstração de afeto homossexual); ao ver uma
vizinha de sete anos no pátio, ficava admirando-a pela janela todos os dias. Durante uma viagem,
quis dormir com uma das amigas. Quando lhe disseram que não podia, pediu para que ela dormisse
com seus pais; e quando novamente disseram que não, ele decidiu que iria dormir com ela e com os
pais dela, em uma demonstração que queria que ela fizesse parte da família, como “um adulto
apaixonado” (Freud, 1909, p. 25), que ruborizava ao encontrar a amada.
Para todos aqueles que já conviveram com uma criança em idade pré-escolar ou que está nos
primeiros anos da escola, sabemos como é comum as crianças trazerem o relato de novas
namoradas ou namorados, e como os pais se divertem ao verem a relação de amor que algumas
vezes se estabelece entre essas crianças, com cartas apaixonadas, presentes e encontros
familiares. Também não é incomum as crianças andarem de mãos dadas como os adultos fazem, e
darem beijos e abraços de carinho, embora saibamos que uma disputa de brinquedos pode ser o
suficiente para uma ruptura drástica da relação. Tanto nos meninos quanto nas meninas também é
comum vermos o interesse pelos órgãos genitais, e como é desafiador nos consultórios quando as
crianças decidem mostrar seus próprios genitais e ver os genitais das outras crianças, e isso é
interpretado pelos pais como tentativa de abuso sexual ou algo do gênero, embora saibamos que
nessa fase a criança não tem entendimento sobre o ato sexual em si, nem capacidade de efetuá-lo
mesmo que queira. Além disso, é importante enfatizar que, nessa idade, as demonstrações de afeto
também podem ocorrer entre meninos ou entre meninas, e essa demonstração de
homossexualidade não representa qualquer demonstração de tendência futura da criança (assim
como gostar de rosa ou de azul também não demonstra qualquer tendência de gênero), apenas
mostra a disposição de todo ser humano para amar homens e mulheres sem distinção – fato esse
que se confirma na vida adulta de todas as pessoas pela capacidade de ter amigos e amigas, e pelo
fato de amarmos pais e familiares. A interpretação do comportamento sexual, até determinada
idade, se dá muito mais por parte dos adultos, pois nas crianças não há uma compreensão de tudo o
que implica as escolhas sexuais.
TEMA 2 – O CASO CLÍNICO DO PEQUENO HANS
Hans começou a desenvolver o temor de sair de casa, sendo que isso veio depois do
nascimento de sua irmã. Ao ser questionado sobre o motivo de ter medo de sair, o menino explicou
que, na verdade, tinha medo de que um cavalo o mordesse. O pai acreditava que esse
comportamento poderia ter se dado pelo excesso de amor da mãe pelo menino, ou por causa de sua
excessiva preocupação com pênis, ou mesmo pela possibilidade de ter visto alguém nu na rua, um
tipo de exibicionista. Segundo o pai, tudo começara quando Hans acorda chorando porque tinha tido
um pesadelo, sonhara que a mãe tinha ido embora e ele não a teria mais para acariciá-lo (ou seja, um
sonho de ansiedade). Depois, durante um passeio com a babá, começou a chorar e disse que queria
voltar para casa para ver a mamãe. Quando sua mãe o levou para passear, o menino começou a
chorar e disse que tinha medo de que um cavalo o mordesse. À noite, colocou a mão no pipi e a mãe
o advertiu, mas ele o fez mesmo assim e depois se desculpou. Esse é o início da fobia.
Quando o médico da família examinou o menino, concluiu que a ansiedade se devia apenas à
masturbação. No entanto, a extração de prazer pela masturbação (seja no adulto ou na criança) não
pode ser tirada como a causa em si de uma neurose, seja ela qual for. Freud (1909) combinou com o
pai que ele diria ao menino, usando o método da sugestão, que deveria esquecer os medos, que sua
mãe voltaria a levá-lo para a cama e que os seres femininos não tinham “pipi”. Hans aceitou as
informações, teve um breve período de calma e logo voltou a ter sua fobia.
Depois de um tempo, Hans deixa de acreditar que todos os cavalos poderiam morder, mas
apenas os brancos. Depois, perceberam que isso se relacionava com um dia no qual ele tentou
colocar a mão na boca de um cavalo branco e o pai de sua amiga disse que se colocasse a mão na
boca do cavalo, o cavalo morderia. Na mesma época, o pai esclareceu que não podia pôr a mão na
boca do cavalo, assim como não poderia colocar a mão no “pipi”, criando a associação entre as
proibições. Hans concordou com o pai que o seu medo se devia provavelmente ao hábito da
masturbação, mas a fobia não desaparece com isso, pois a causa estava ligada à fantasia de
castração, ou seja, o temor de perder os dedosestaria associada ao medo de perder o pênis. O
cavalo aqui comparece como animal totêmico. Quando Hans conhece Freud, o médico pede que o
menino desenhe um cavalo. Ao desenhar, o menino desenha um grande facho na boca desse cavalo,
que Freud associa na hora ao fato de o pai do menino ter um bigode, e lhe pergunta se o menino
tinha medo de seu pai ou achava que ele não gostava dele por também amar sua mãe. Hans
confirma, e aqui se apresenta uma ambivalência, no sentido de que o menino gostava de seu pai,
mas tinha medo de que ele pudesse ir embora por causa do desejo de querer ficar sozinho com a
mãe. O pai surge como um obstáculo na relação com a mãe, que levou ao desenvolvimento de uma
fobia, associada ao sentimento ambíguo de amor e medo desse pai. Freud também associa o medo
fóbico à visão do sangue que saíra da mãe no nascimento da irmã, além de suas hipóteses sobre o
coito (que ele traz no sonho da girafa grande e da girafa amarrotada que ele precisava tirar do local e
se sentar em cima, fazendo referência ao ato sexual dos pais e à necessidade de tirar a girafa
amarrotada – a mãe – debaixo da girafa grande e se sentar em cima como uma demonstração de
posse).
Hans depois passa a ter medo de cavalos que puxavam carroças, e dizia que tinha medo de que
a carroça fosse se desvincular do cavalo e quebrar. Essa associação era feita a uma área de
depósito na qual passavam cavalos com carroças e eles tinham que fazer um contorno para passar
pelos portões e sair. Aqui, Freud (1909) entende que a fobia evolui, como se ele entendesse que a
mãe estava se desvinculando dele e se aproximando do pai. Depois, Hans estabelece uma conexão
entre um encanador e a banheira da irmã, e com isso Freud conclui que a fobia estava se resolvendo,
pois Hans estava encontrando um lugar para si e compreendendo o contexto no qual se dava as
relações sexuais.
TEMA 3 – LEONARDO DA VINCI
Freud se detém no estudo da vida de Leonardo da Vinci para trabalhar o conceito das fantasias,
trazendo também um consistente estudo que depois daria as bases para a psicanálise da arte.
Leonardo da Vinci é uma figura única para a história. Viveu no século XV, foi cientista, inventor,
anatomista, pintor, dentre tantos outros. Segundo Freud (1910, p. 73): “Leonardo da Vinci (1452 –
1519) foi admirado, até mesmo pelos seus contemporâneos, como um dos maiores homens da
renascença italiana [...] Era um gênio universal, ‘cujos traços se podia apenas esboçar, mas nunca
definir’)”. Seus trabalhos mais conhecidos foram as pinturas de Monalisa e A última ceia, seu estudo
anatômico O homem vitruviano, além dos protótipos de helicóptero, tanque de guerra e da calculadora.
Sua vida afetiva era tratada com muita discrição, e nunca se soube ao certo se ele era heterossexual,
homossexual ou simplesmente desinteressado nas questões sexuais de modo geral, o que acabou
por criar especulações em diversos estudiosos como o próprio Freud.
Leonardo da Vinci teve uma vida desafiadora. Apreciava as coisas boas da vida, era um homem
eloquente e agradável, de belas feições e que sabia aproveitar a vida, segundo relato de
historiadores. No entanto, pouco compreendido por seus contemporâneos, que acreditavam que ele
desperdiçava o tempo criando projetos impossíveis de serem executados, sendo que ele poderia
dedicar melhor o tempo para a arte e para fazer fortuna com o talento que possuía para a pintura.
Depois que precisou sair da Itália e fugir para a França, seu talento foi diminuindo à medida que
vivenciava decepções.
Segundo Freud (1910), quando estudamos personagens como Leonardo da Vinci, nos
perguntamos como a questão da sexualidade se encaixa em sua vida, já que ela se apresenta de
maneira muito peculiar em comparação com as outras pessoas. Ao estudar os neuróticos, o autor
supõe que seu instinto de saber já tinha uma força excessiva e supremacia tal, desde a primeira
infância, que foi capaz de substituir uma grande parcela de sua vida sexual. Assim, “uma pessoa
desse tipo poderia, por exemplo, dedicar-se à pesquisa com o mesmo ardor com que uma outra se
dedicaria ao seu amor, e seria capaz de investigar em vez de amar” (Freud, 1910, p. 86). Ou seja, a
intensificação do desejo de saber substituiria de modo intenso o próprio desejo sexual e poderia,
desde a infância, substituir por completo os impulsos sexuais tão comuns, e essa atrofia se
completaria na vida adulta pelo impulso dominante do conhecimento e da arte. Para aqueles que já
tiveram um contato com pessoas excessivamente inteligentes e sagazes, a percepção sobre a
eventual falta de interesse delas nas questões sexuais, ou a presença de um interesse temporário,
muitas vezes gera dúvida sobre sua sexualidade devido a essa falta de interesse no sexual, que fica
canalizada quase que na totalidade na investigação e na necessidade de saber.
Assim, ao analisarmos essas crianças superinteligentes, Freud diz que a curiosidade infantil é
guiada pelo instinto supremo de investigar, seja referente às questões sexuais, seja referente a
qualquer outra questão que ela vivencie em seu cotidiano. Assim, a criança tem prazer em fazer
perguntas, e ela as faz de maneira repetitiva e para diferentes pessoas apenas para se certificar de
que as respostas são condizentes entre si e a ajudam a esclarecer o funcionamento do mundo. É
difícil e desafiador respondermos a todas as perguntas, e hoje inclusive nos deparamos com uma
quantidade infinita de desenhos infantis e programas dedicados a responder a cada uma dessas
perguntas, o que poderia esclarecer em partes a ligação quase que imediata que as crianças fazem
com a internet e com os programas infantis que podem ser assistidos na televisão.
A maioria das crianças, segundo Freud (1910), ou ao menos as crianças com intelecto dentro ou
acima da normalidade, passa pela fase das pesquisas sexuais infantis. Em geral, a curiosidade surge
por alguma experiência externa que ameaça seus interesses egoístas, como o nascimento de um
irmão ou irmã. Quando as crianças recebem respostas e não se satisfazem, passam elas mesmas a
investigar e ligar os fatos, criando assim suas hipóteses. Nessa fase, criam hipóteses inclusive sobre
o ato sexual, como algo violento e hostil. Quando a criança se sente fracassada em suas hipóteses,
ela abandona essa primeira tentativa de independência intelectual e desenvolve um caráter posterior
mais depressivo com relação à sua própria capacidade de inteligência, conectado à repressão sobre
poder falar desse tema. Quando então termina esse período de repressão, o impulso de pesquisa
pode ter três diferentes destinos: no primeiro, a pesquisa e o desejo de saber passa a participar do
destino da sexualidade, e pode ser recalcada pela influência religiosa na inibição do sexo (criando os
primórdios da neurose); no segundo, o desenvolvimento intelectual é forte o suficiente para resistir
ao recalque primário, prevenindo a própria repressão sexual, e retorna mais tarde sob o formato de
um desejo compulsivo de estudar e pesquisar, que pode inclusive substituir o ato sexual em si e
erotizar o próprio pensamento. O terceiro, mais raro, escapa tanto à inibição do pensamento quanto
à compulsão de saber, e ainda que o sexo esteja inibido, a libido não é recalcada, simplesmente
sublima desde suas origens para a curiosidade, e se fortalece com a maturidade. E esse terceiro é o
modelo que Freud acredita estar mais em sintonia com Leonardo.
Nesse sentido, responderia um pouco porque temos a impressão de que as crianças nos dias de
hoje parecem ser mais inteligentes que as crianças de gerações anteriores – ou seja, possivelmente
as primeiras hipóteses sexuais não foram frustradas, mas respondidas adequadamente, e essa
tentativa de independência intelectual passou a representar não uma frustração, mas um primeiro
sucesso e conexão de prazer com o aprendizado.
TEMA 4 – UMA REFLEXÃO SOBRE AS MEMÓRIAS DE LEONARDO
Segundo Strachey (1910), uma parte importante desse estudo foi a lembrança [oufantasia] de
Leonardo de ter sido visitado por uma ave de rapina enquanto era um bebê, possivelmente um
abutre, que pousou no seu berço e colocou a cauda em sua boca. Freud associa, em um jogo de
palavras, o abutre com a mãe, e discute a figura materna com as mães-deusas andrógenas no Egito
antigo. Descreve Freud (1910, p. 90):
Parece que já era meu destino preocupar-me tão profundamente com abutres; pois guardo como
uma das minhas primeiras recordações que, estando em meu berço, um abutre desceu sobre mim,
abriu-me a boca com sua cauda e com ela fustigou-me repetidas vezes os lábios.
Essa foi uma recordação estranha de Leonardo da Vinci sobre sua infância. Do ponto de vista da
psicanálise, poderíamos inicialmente sugerir que essa cauda representa um pênis que foi
introduzido na boca do bebê, como uma fantasia homossexual passiva. No entanto, considerando
que essa recordação se origina de um período muito precoce, parece ser mais plausível acreditar
que essa recordação se assemelha à lembrança da experiência com o seio materno, com o ato de
sugar. Considerando que ambas as hipóteses estão interligadas, esclareceria que talvez a
homossexualidade não se trate do ato sexual em si, mas da atitude emocional envolvida.
Freud (1910) também associa a figura do abutre à figura da mãe, tal como os antigos egípcios
associam a figura materna aos abutres. Embora tenhamos em nossa sociedade uma associação
negativa com a figura do abutre, como um animal de rapina que simplesmente come animais
mortos, para muitas culturas ele tem um significado diferente. Para os egípcios, o abutre simboliza a
mãe; em muitas culturas, ele simboliza a conexão entre a vida e a morte, o renascimento e a
paciência diante de eventos desagradáveis da vida. Assim, ao rever a figura do abutre, Freud (1910)
também interpreta como a figura da mãe verdadeira de Leonardo que, sozinha e com poucos
recursos, teve que cuidar dessa criança e alimentá-lo. Inclusive, em alguns símbolos egípcios, é
possível encontrar personagens femininos com um pênis, como é o caso de Ísis e Hanthor (Freud,
1910). Não seria estranho supor que, mais tarde, o interesse de Leonardo por pássaros tinha relação
com seus próprios interesses sexuais.
Aqui, Freud também traz a questão da homossexualidade de Leonardo no sentido de um pai
fraco e uma mãe forte que amava seu filho, provocando um retorno ao autoerotismo; com isso, os
rapazes que Leonardo escolhia mais tarde eram, na verdade, substitutos dele mesmo durante a
infância, “meninos que ele ama da maneira que sua mãe o amava quando ele era uma criança
(Freud, 1910, p. 106), fazendo referência ao narcisismo e à figura de Narciso, o qual, segundo a lenda
grega, preferia sua imagem à de qualquer outra.
No entanto, na história há apenas indícios de uma sexualidade não transformada de Leonardo,
de uma predisposição homossexual. Leonardo apenas escolhia como discípulos homens belos,
mesmo que não tivessem nenhum talento, e cuidava deles como uma mãe cuidava de seus filhos.
Nenhum deles chegou a seguir os passos do mestre depois de sua morte, e nenhuma evidência foi
encontrada de que Leonardo tivesse qualquer relação sexual com algum deles.
Outra interpretação de Freud a esse trecho do abutre poderia ser pela possibilidade de sua mãe
biológica ter-lhe beijado na boca – associando com o trecho “e fustigou muitas vezes sua cauda
contra meus lábios” (Freud, 1910, p. 113). A relação sexual com essa mãe pode ser interpretada com
a obra Monalisa, no qual seu sorriso provoca efeitos fortes e controversos, pois ao mesmo tempo
que o sorriso de Monalisa parece terno e sedutor, também parece frio e opressivo, como se
representasse o contraste da vida erótica feminina, entre a reserva e a sedução, como uma sereia,
que encanta e destrói os homens que se apaixonam por ela. Assim, a Monalisa poderia ser
interpretada como a mulher ideal, concretizada e possuída por Leonardo, que em alguma instância
poderia ter sido a réplica de um sorriso que vira em sua mãe.
A questão da homossexualidade não esclarecida de Leonardo vinha com a mesma intensidade
com a questão de sua posição a respeito da religião. Embora Leonardo da Vinci tivesse sido
denunciado mais de uma vez por heresia, não deixava claro em nenhum momento qual era sua real
opinião sobre o Cristianismo. Alguns de seus trabalhos nos fazem concluir que ele talvez fosse
contrário ao beatismo e à santificação, pois em todos os seus quadros ele representa os apóstolos,
Jesus e Deus como figuras humanas, que tinham carne e osso e desprovidas de uma divindade
intrínseca. Em seus estudos sobre geologia, Leonardo pôs em dúvida a existência do dilúvio, e
durante sua vida sempre explicitou os erros contidos no relato da Criação. Isso, sem dúvida, o
afastou das questões religiosas, assim como já tinha se afastado das questões sexuais.
TEMA 5 – DUAS MENTIRAS CONTADAS POR CRIANÇAS
Freud (1913) traz nesse texto o relato de duas mentiras e como elas foram responsáveis pelo
desenvolvimento posterior de neurose. O autor comenta, aqui, que em geral as mentiras contadas
por crianças são apenas reproduções do comportamento de mentir por parte dos adultos, e por isso
devemos ter muita cautela quando tomamos a decisão de mentir – “faça o que eu falo, mas não
faça o que eu faço” talvez reproduza aqui a inconsistência que leva às crianças à angústia.
Na primeira história, a paciente conta que quando tinha sete anos pediu ao pai dinheiro para
comprar tinta para suas pinturas. O pai negou o pedido. Depois, a menina pediu dinheiro como
contribuição para a compra de uma coroa para um funeral, o pai lhe deu o dinheiro. Ela extraiu uma
parte do valor, fez a doação e depois comprou as tintas. No fim do dia, durante o jantar, seu pai lhe
perguntou o que havia feito com uma parte do dinheiro, ela fingiu não entender a pergunta, porém
seu irmão a delatou e contou ao pai que ela havia comprado as tintas. O pai a censurou e, depois do
ocorrido, ela deixou de ser uma criança feliz e brincalhona e passou a ser acanhada e tímida. Quando
adulta, ela noivou e, quando sua mãe decidiu comprar o enxoval, a moça sentiu raiva, e explicou esse
sentimento como se o dinheiro fosse dela e ninguém mais tivesse o direito de gastá-lo com qualquer
coisa. Depois, durante o casamento, a moça tinha dificuldade de pedir dinheiro ao marido, insistia
que precisava de uma separação entre o dinheiro dela e o dinheiro dele, e quando ele eventualmente
deixava de lhe dar algo, ela ficava sem nada e não tinha coragem de cobrar os valores. Freud (1913)
chegou a se oferecer para lhe dar dinheiro quando faltasse, mas ela não conseguiu pedir a ele, pois
não se sentia no direito de fazer essa espécie de pedido a um outro, fosse ele quem fosse. A moça
trouxe depois mais dois exemplos de experiências que teve quando criança e como se sentira na
relação com o dinheiro, mostrando a Freud uma dificuldade de lidar com o controle, e esse erotismo
anal mal resolvido representava sua dificuldade em lidar com a questão financeira, com o gastar e o
reter.
A segunda história conta sobre uma moça que se apresentava enferma, mas que tinha sido
outrora alguém saudável e feliz. Quando criança, conta que um dia um colega lhe disse que tiveram
gelo ao jantar, e ela replicou que eles tinham gelo todos os dias, pois não havia entendido o que o
colega queria dizer e interpretou o comentário como uma competição sobre o que cada um poderia
ter a seu dispor durante as refeições. Depois, recebeu o desafio de fazer um círculo perfeito, e em
segredo usou um compasso para fazer o círculo. Ao se gabar para um vizinho de seu círculo, a
professora a chamou e pediu que confessasse a mentira, mas a menina não o fez. Depois, a
professora conversou com o pai da menina e eles concluíram que ela apenas deveria ser
acompanhada para que não mentisse novamente. Nesse caso, assim como no anterior, a menina
amava o pai e queria vangloriá-lo, e o comportamento de exibição de poder e a mentira refletiamesse amor que não poderia sofrer qualquer abalo.
Com isso, Freud conclui que as histórias das crianças não podem, em um primeiro momento,
ser interpretadas como reflexo do caráter das crianças, mas antes como a expressão de seus
anseios e que podem, caso sejam tratadas de forma inadequada, se tornar sintomas neuróticos.
NA PRÁTICA
A primeira proposta aqui é referente ao estudo do Pequeno Hans. No exemplo, trazemos aqui a
experiência com o desfralde das crianças. Alguns dos desafios que os pais recorrentemente
enfrentam com seus filhos são o desmame e o desfralde. No processo de amamentação, embora os
profissionais orientem que o seio seja oferecido somente enquanto a criança tem fome, é comum as
mães deixarem a criança permanecer um pouco mais como uma forma de reforçar o vínculo. Porém,
uma vez que a criança percebe o prazer do chuchar para além do processo de alimentação, a criança
anseia por ficar cada vez mais tempo nesse seio, em uma conexão escravizadora com a mãe.
Algumas mães, por dificuldade em cortar esse vínculo, acabam depositando a responsabilidade no
outro para interromper esse ciclo (no médico, no pai ou em algum problema externo), ou
simplesmente buscam argumentos científicos pouco embasados para justificar sua permissão em
deixar a criança continuar seu seio para além da nutrição. Inclusive, não é incomum que o abandono
do seio acabe se dando pela própria criança, quando se vê constrangida socialmente por manter o
comportamento de vínculo inadequado com a mãe.
Já o desfralde representa outro grande desafio na vida de pais e filhos. Pois a criança, para
aprender a ficar sem a fralda, precisa ser acompanhada de perto por seus pais até que seja capaz de
controlar seus esfíncteres por si mesma. Nas escolas com poucos recursos, é comum encontrarmos
crianças que ficam assadas porque não conseguiram tirar as fraldas, e seus professores não lhe
ajudam a trocar para ficarem limpas. Ocorre também que, porque a criança passou por uma
experiência desagradável de desfralde, ela precise segurar ao máximo a defecação, podendo até
ficar doente pela dificuldade de evacuar. Outra coisa que observamos com frequência são as
crianças que, durante o desfralde, descobrem que suas mães estão grávidas de novo. Quando têm
essa descoberta, boa parte regride e o desafio de desfralde precisa ser postergado até que a criança
se sinta confiante de novo para tentar tirar as fraldas.
O controle do xixi é adquirido mais rápido que o controle do cocô, talvez porque a criança urine
mais vezes, talvez porque o aprendizado da urina é acompanhado pela experiência de prazer e, uma
vez que a criança dessa idade também começa a se masturbar e se interessar pelos órgãos genitais,
o controle sobre esses órgãos também seja uma preocupação mais imediata que o controle anal. Os
meninos também costumam apresentar mais dificuldade em controlar as fezes que as meninas, em
partes talvez porque o ânus também represente um tabu na masculinidade, algo da ordem do
feminino que o menino também precisa lidar, diferentemente da menina.
Também ocorre de crianças desmamarem e desfraldarem sem qualquer dificuldade ou esforço
dos pais, mas embora muitos aleguem que tenham essa experiência com os filhos, o fato é que
poucos realmente experimentam dessa sorte.
FINALIZANDO
Na aula de hoje, apresentamos dois casos que foram precursores dos estudos sobre o
narcisismo, o complexo de Édipo e o complexo de castração, que foram o Pequeno Hans e o estudo
sobre Leonardo da Vinci. Embora os estudos sobre Leonardo sejam escassos, a ausência do desejo
pelo sexo representa um mistério e um tabu, explicado por Freud pela via da sublimação pelo
intelecto, e o narcisismo enquanto escolha de figuras (no caso, os pupilos de Leonardo) que apenas
refletissem a imagem de si mesmo e a figura da mãe esclarecem, em partes, como se dá a escolha
objetal quando não é feita apenas pelo genital complementar.
Esperamos que tenham aproveitado as discussões apresentadas aqui para conhecer um pouco
mais das origens da psicanálise, e convidamos a todos a continuar acompanhando as aulas para
saber mais sobre esse campo do saber tão envolvente como é a psicanálise.
REFERÊNCIAS
FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud
(1886-1899) – livro X, XI e XII. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana. v. 1, v. 2 e v. 3.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes,
2001. 552 p.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1998. 874 p.
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
BIRMAN, J. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relumé-Dumará, 1991.
MEZAN, R. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 1980. 350 p.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TEORIA PSICOSSEXUAL DO
DESENVOLVIMENTO
INFANTIL
AULA 4
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Raquel Berg
CONVERSA INICIAL
Neste momento, trataremos primeiramente do caso Schreber, emblemático para a compreensão
do narcisismo intermediário. Também veremos o Homem dos Lobos, conhecido como história de
uma neurose infantil, e sua importância para a compreensão da metáfora paterna. Por fim, falaremos
do retorno do totemismo na infância e como a questão totêmica é emblemática para a compreensão
da importância do objeto sexual na constituição individual e social.
TEMA 1 – CASO SCHREBER
O caso Schreber foi, na verdade, uma análise de Freud com base em um texto intitulado
Memórias de um doente dos nervos. Ou seja, Freud nunca chegou a atender esse rapaz, e toda a
análise se dá em função da interpretação do livro de memórias de Daniel Paul Schreber. Como
referencia Strachey, Freud faz alusão à história clínica de Schreber baseado apenas na idade do
rapaz quando ele caiu enfermo e foi internado. Depois, Freud teve acesso aos relatórios médicos de
Schreber enquanto este esteve internado e muitas informações confirmaram suas hipóteses iniciais
a respeito da psicopatologia apresentada pelo paciente.
Aparentemente, Schreber teve uma vida saudável até o momento em que sua esposa ficou
doente, com uma crise de paralisia. Duas semanas mais tarde, ele foi internado. Pelo que se
compreende, esse livro de memórias teve o objetivo de apresentar uma série de contestações e
argumentos jurídicos para comprovar que Schreber poderia sair do asilo no qual se encontrava.
A cronologia abaixo pretende esclarecer a sequência dos fatos:
1842   Schreber nasce em Leipzig
1861   Seu pai morre aos 53 anos
1877   Seu irmão mais velho se suicida aos 38 anos
1878   Schreber se casa
Aparecimento da primeira doença
1884   Apresenta-se como candidato ao Reichtag, sendo que já ocupava um importante cargo
judiciário, e é internado em um asilo
1885   Recebe alta do asilo
1886   É nomeado juiz em Leipzig
Aparecimento da segunda doença
1893   Recebe a notícia de que será nomeado no Tribunal de Apelação, toma posse como juiz
presidente e volta a ser internado
1894   É transferido para outros dois asilos
1900   Escreve o livro com o propósito de receber alta
1902   Recebe a alta esperada
1903   Publica seu livro de memórias
Schreber provinha de uma família instruída e, como podemos observar, de forma muito rápida
se tornou um importante jurista. No entanto, como ele próprio relata, seus distúrbios nervosos se
deram duas vezes: a primeira quando se apresentou como candidato a um importante cargo de juiz;
a segunda, quando foi nomeado presidente do senado, em 1893. Houve ainda uma terceira vez,
depois que ele escreveu o livro. Segundo Schreber, a doença o acometeu em função do grande fardo
que ambos os cargos representavam. Assim que recebeu a primeira proposta, foi internado e
diagnosticado com hipocondria. Depois da alta, conseguiu passar oito anos com a esposa, tendo
como única frustração a impossibilidade de ter filhos. Ao saber de sua possívelindicação para o
cargo de presidente do senado, teve dois ou três sonhos de que sua doença poderia retornar. Certa
manhã, prestes a acordar, teve a ideia de que, “afinal de contas, deve ser realmente muito bom ser
mulher e submeter-se ao ato da cópula” (Freud, 1911, p. 24). Schreber escreve que certamente teria
rejeitado a ideia se estivesse plenamente consciente.
Depois de ser nomeado presidente, teve torturantes acessos de insônia e voltou para o asilo,
onde passou a ter ideias hipocondríacas, como a de que seu cérebro estava amolecendo e que
morreria cedo. Depois, começou a apresentar delírios persecutórios, sensibilidade à luz e ao barulho,
além de ilusões visuais e auditivas. Schreber acreditava que estava morto e em decomposição e que
seu corpo vinha sendo submetido a diversos horrores em nome do sagrado. O paciente ficava tão
preocupado com esses pensamentos e ilusões que permanecia paralisado por horas em estupor
alucinatório e desejava estar morto para se livrar daquela condição. Por isso, pedia que lhe
ministrassem cianureto, que já estava prescrito para ele. Essas ideias delirantes foram
gradativamente assumindo um caráter místico e religioso, como se estivesse em comunicação
direta com Deus, fosse um joguete de demônios e possivelmente já estivesse vivendo em outro
mundo. Após ser transferido para outro asilo, a psicose aguda com caráter alucinatório se
transformou na estrutura delirante da paranoia.
Quando avaliado, Schreber mostrava que, apesar da paranoia, sua inteligência permanecia
intacta, calma e sua memória se mantinha excelente em diversos campos além do jurídico. Em um
relatório de 1900, o médico afirmou que, embora os assuntos relacionados a seus delírios não
pudessem ser tratados com o paciente, em todos os outros aspectos o senhor presidente se
mostrava perfeitamente saudável: convivia com outras pessoas em perfeita harmonia, gentileza, tato
e decoro; sabia debater sobre diversos tópicos como política, arte, literatura; mostrava ótimo
discernimento e julgamento sobre tópicos cotidianos; expunha um julgamento ético diferenciado e
em momento algum introduzia de forma inadequada tópicos relacionados a seus transtornos.
Nesse período, Schreber decidiu escrever seu livro de memórias com o objetivo de ser
readmitido no trabalho, pois, em sua argumentação, seus delírios e alucinações não interferiam em
nada em sua capacidade cognitiva para executar sua função. Com isso, ele conseguiu restaurar seus
direitos civis. A decisão que devolveu sua liberdade resumia o sistema delirante de Schreber da
seguinte forma: “Acreditava que tinha a missão de redimir o mundo e restituir-lhe o estado perdido
de beatitude” (Freud, 1911, p. 27). Ele argumentou que fora convocado pelo próprio Deus para essa
missão. Deus, ao se sentir atraído por seus nervos, lhe enviara mensagens que nenhum outro ser
humano haveria recebido antes.
A parte mais essencial de sua missão é que ele deveria se transformar em mulher. Não que
Schreber desejasse fazê-lo, mas ele deveria se tornar uma por uma missão divina, mesmo que
prezasse por sua masculinidade e repudiasse a ideia em um primeiro momento. Ele acreditava que
tinha sido escolhido por ser o humano mais notável que já estivera na Terra, pois vivera diversos
desafios, como a destruição de seus órgãos internos, que se reconstituíram, algo impossível a outro
ser humano. Ou seja, Schreber interpretou que Deus seria uma figura que se cativara por ele e,
portanto, tentava criar uma conexão, por meio de raios divinos que se instalaram em cada parte do
corpo de Schreber e restauraram as partes destruídas para que ele pudesse alcançar a imortalidade
e se tornar um Redentor. Essa conexão se confirmava por alguns fenômenos como árvores que
possuíam antigas almas humanas e pássaros falantes, a interrupção de frases, a dificuldade de
defecação e outros fenômenos em seu corpo, como o crescimento de seios, a que ele chamava de
emasculação. Ao mencionar a emasculação, Schreber afirmava que Deus desejava se apoderar de
seu corpo e tomá-lo como o de uma prostituta, uma rameira.
TEMA 2 – DISCUSSÃO DO CASO SCHREBER
O tema da paranoia já fora discutido nos textos freudianos em 1895, no Rascunho H. Nessa
carta, Freud (1895) lança mão de sua hipótese e elenca dois pontos principais na análise da
paranoia: 1) é uma neurose de defesa; 2) seu mecanismo principal é a projeção, provocando assim
os delírios e as alucinações (diferente da histeria e da neurose obsessiva). Em outra carta, o
Rascunho K, Freud (1895) segue em sua análise sobre a paranoia e amplia a discussão ao introduzir
a hipótese de que a paranoia acarreta o retorno ao autoerotismo primitivo. Ao apresentar um estudo
sobre a paranoia feminina, em 1906, Freud associa esse transtorno a um homossexualismo
passivo primitivo. Strachey também comenta que Freud apresentou outros artigos intitulados Um
caso de paranoia que contraria a teoria psicanalítica da doença, em 1915, a Seção B de Alguns
mecanismos neuróticos no ciúme, na paranoia e no homossexualismo, em 1922, e Uma neurose
demonológica do século XVII, em 1923, porém nenhum deles será tratado neste texto porque apenas
trazem a confirmação das constatações feitas no artigo do caso Schreber.
Mas a grande relevância desse estudo está além da análise da paranoia em si, pois ele traz
também uma discussão sobre a construção metapsicológica de Freud a respeito do
desenvolvimento psicossexual infantil, como a questão do narcisismo. Nesse sentido, Freud (1911)
apresenta, nos Três Ensaios, um processo que seria intermediário entre o autoerotismo e o amor
objetal: o narcisismo. No narcisismo, o individuo reúne energias para conseguir um objeto de amor,
começando por si próprio, e somente depois migra para o amor por um objeto. Uma vez que o
narcisismo implica o homossexualismo, a paranoia de Schreber apenas confirma que o retorno ao
self resultaria em uma relação narcísica e uma suscetibilidade a essa fase de seu desenvolvimento.
Além disso, Freud (1911) traz o exame de como se formam os sintomas, algo que ele já fizera
em estudos anteriores. Assim, o processo de recalque acontece em três fases: o estabelecimento de
um ponto de fixação, o recalque propriamente dito e o retorno do recalcado ao ponto de fixação. O
caso é nomeado como psicose associada a esquizofrenia: em ambas há uma clivagem do ego e,
segundo Freud (1911), a principal vantagem dos delírios é que, diferentemente das neuroses ‒ que
escondem a origem dos traumas sob a forma de sintomas ‒, nas psicoses o delírio apresenta de
[1]
forma distorcida e explícita a causa dos sintomas. Além disso, Freud interpreta esse caso dentro do
viés do narcisismo, no sentido de que a influência homossexual dos médicos que cuidaram de
Schreber pode ter favorecido a criação de fantasias, cuja origem primária seria a sedução pelo pai. A
defesa a essa ligação homossexual – o complexo paterno – se deu pelos delírios e pela negação
deles.
TEMA 3 – O HOMEM DOS LOBOS
Intitulado como uma neurose infantil, o Homem dos Lobos se trata de um dos mais importantes
casos de Freud, muito embora ele tenha parado de atender o paciente. Em 1910, depois de passar
pelo psiquiatra Kraepelin (como o fez também Schreber), um jovem russo muito rico procurou Freud
para lhe ajudar com seus sintomas. Após pegar gonorreia aos 18 anos, ficou completamente
incapacitado e dependente de outras pessoas. Os 10 anos antes do início da doença foram
saudáveis, mas na infância (em torno dos 4 anos) o rapaz teve uma fobia de animal que depois se
transformou em uma neurose obsessiva de cunho religioso. Como ele desenvolvera uma
característica de “entrincheiramento” por trás de uma amável apatia, Freud precisou estabelecer um
vínculo com o paciente antes de dar início ao tratamento. Depois de algum tempo, Freud comunicou
ao rapaz que o atenderia por determinado tempo e, independentemente de ter ou não uma melhora,
a terapia seria encerrada. Logo que Freud informou sobre o prazo de término,houve uma aparente
evolução e as sessões tiveram início.
Em seu histórico familiar, consta que os pais se casaram jovens, sua mãe passou a ter dores
abdominais e o pai entrou em depressão, o que o fez se ausentar de casa. O rapaz tinha uma irmã e
uma babá, uma mulher simples que cuidava dele como se fosse seu próprio filho. Em dado
momento, o menino sentiu um terrível medo de uma borboleta, o que lhe fez sair correndo,
assustado. Passou a ter medo também de besouros e lagartos, embora também gostasse de matá-
los e cortá-los em pedaços. Essa mesma ambiguidade ocorria com cavalos, pois o menino gostava
dos equinos, mas tinha medo quando eles batiam as patas no chão. Isso se evidenciava até na sua
relação com o sagrado, pois ora rezava, fazia o sinal da cruz diversas vezes e beijava os santos, ora
recordava blasfêmias e pensamentos que, para ele, eram inspiração do diabo.
Em recordação da sua infância, desenvolvendo assim as fantasias primárias, ele dizia se
lembrar de quando sua irmã sugeriu que eles mostrassem seus traseiros; em outro momento, ela
teria segurado o pênis dele e dito estar fazendo o mesmo que a babá fazia com o jardineiro.
Apaixonou-se pela irmã, que rejeitou a relação incestuosa. Passou, então, a se envolver com criadas.
A irmã, que se destacara muito intelectualmente, viajou. Depois de experiências que davam a
entender que ela estava entrando em um processo de demência precoce, envenenou-se e morreu.
O paciente demonstrava falta de ânimo, depressão, ficara internado em sanatórios e fora
diagnosticado com insanidade maníaco-depressiva. Quando melhorou, voltou para a Rússia, mas
com a Revolução de 1917 ele perdeu tudo, adoeceu e voltou para Berlim. Surgiu, então, o relato do
sonho que deu o título a essa história:
Sonhei que era noite e que eu estava deitado na cama (Meu leito tem o pé da cama voltado para
a janela: em frente da janela havia uma fileira de velhas nogueiras. Sei que era inverno quando tive o
sonho, e de noite). De repente, a janela abriu-se sozinha e fiquei aterrorizado ao ver que alguns lobos
brancos estavam sentados na grande nogueira em frente da janela. Havia seis ou sete deles. Os
lobos eram muito brancos e pareciam-se mais com raposas ou cães pastores, pois tinham caudas
grandes, como as raposas, e orelhas empinadas, como cães quando prestam atenção a algo. Com
grande terror, evidentemente de ser comido por lobos, gritei e acordei. (Freud, 1914, p. 41)
No momento, o sonho parecia muito real e a babá precisou acalmá-lo até que pudesse voltar a
dormir. O desenho a seguir é a representação do Homem dos Lobos, no livro de Freud (1914, p. 42):
Crédito: Jefferson Schnaider.
O paciente se perguntou por que tivera essa ideia: se tinha sido motivada pela história de
Chapeuzinho Vermelho, por causa das ovelhas que viviam nas vizinhanças; por uma história contada
por seu avô; ou pela história do lobo e dos sete cabritinhos. Em determinado momento, o rapaz
associou a árvore com lobos à árvore de Natal, na qual os lobos ocupavam o lugar dos presentes.
Depois, ao saber que teria um novo tutor, imaginou-o na figura de um leão que poderia devorá-lo.
Na adolescência, reviveu o sonho dos lobos com um professor que o censurara de sobrenome Wolf
(“lobo”, em inglês e alemão).
TEMA 4 – DISCUSSÃO DO CASO DOS LOBOS
Em diversos textos posteriores, Freud (1914) faz menções a esse caso clínico, trazendo, por
exemplo, que o psicanalista deveria publicar sonhos ocorridos na infância de seus pacientes,
principalmente daqueles que foram testemunhas de um ato sexual. O caso do Homem dos Lobos é
apresentado no texto A ocorrência, em sonhos, do material oriundo dos contos de fada”, de 1913;
depois, em Fausse reconnaissance [‘déjà raconté’] no tratamento psicanalítico e em Recordar, repetir e
elaborar, ambos de 1914; no artigo metapsicológico Repressão, de 1915; em Inibições, sintomas e
ansiedade, de 1926, em que o autor inclusive compara a fobia de Hans por cavalos com a fobia do
jovem russo por lobos; e em Análise terminável e interminável, em 1937. Algumas contribuições
desse texto dizem respeito à primitiva organização oral da libido, incluindo o comportamento de
incorporação e de identificação para a constituição de um ideal do ego, além do sentimento de culpa
e a disposição à depressão. O ideal do ego, em um primeiro momento na constituição da segunda
tópica, é apresentado como uma espécie de sinônimo do superego. No entanto, no texto do
narcisismo Freud introduz uma diferenciação para explicar que o ideal do ego é uma instância
narcísica, resultante da convergência entre o narcisismo e a identificação paterna, e posteriormente
da convergência entre os substitutos dos ideais internos e os ideais coletivos, associados a um
verdadeiro delírio de grandeza.
Freud retoma novamente os impulsos femininos primários e sua tese sobre a ocorrência da
bissexualidade em ambos os sexos, como um Complexo de Édipo “invertido”. Na verdade, o que ele
apresenta nesse texto é a ideia do recalque ocorrendo em diversos momentos (trazendo aqui a
noção da temporalidade psíquica como distinta da temporalidade cronológica), com a cena
originária como o ponto inicial da formação do trauma, juntamente com as fantasias originárias que
remontam à própria história. Essa teoria da sedução, ou seja, a fantasia do coito constitui a base do
amor edipiano: quando não há a transferência do amor para o objeto, esse amor retorna sob a forma
de autoerotismo e reinvestimento no ego. Posteriormente, esse investimento é projetado para fora,
criando assim as ilusões. O momento em que o sintoma deixa de ser uma fobia e uma neurose
obsessiva e passa a apresentar delírios e alucinações, isso acompanha o próprio desenvolvimento
do indivíduo, seu amadurecimento psicossexual, por isso Freud vai revendo o diagnóstico à medida
que acompanha o Homem dos Lobos.
Nesse caso, ao tomar conhecimento da história dos lobos na árvore, Freud conclui que
possivelmente esse sonho tenha relação com seu pai, que o organiza e o ameaça e que pode
copular com ele por trás, como fizera com a mãe, com uma ameaça de castração: “uma ocorrência
real – datando de um período muito prematuro – olhar – imobilidade – problemas sexuais –
castração – o pai – algo terrível” (Freud, 1914, p. 46).
TEMA 5 – O RETORNO DO TOTEMISMO NA INFÂNCIA
Esse tópico faz parte do item 4 do texto Totem e tabu, de 1914. De modo geral, aplica-se ao
contexto porque em todas as sociedades há regras e proibições, como é o caso do tabu do incesto.
Além disso, o surgimento do totem se relaciona com o modelo do sagrado, que em muitas
sociedades está diretamente associado à religião, estabelecendo costumes e regras que as tornam
mais avançadas do que os agrupamentos animais. A maioria das pessoas se depara com essas
regras já na infância e aprende, nas aulas que recebem de seus pais, familiares ou líderes religiosos,
como se portar em sociedade. Assim, esse tópico visa explicitamente tratar não do desenvolvimento
psicossexual do ponto de vista do amadurecimento biológico, mas da construção de valores a que
as crianças são submetidas desde que nascem.
O modelo do totemismo, segundo Freud (1914), envolve a crença de que há algo de
supersticioso em uma classe de objetos eleitos para representarem crenças e costumes e em uma
figura (ou algumas figuras) que estabelece com o homem um vínculo mutuamente benéfico (pois o
totem não mata o ser humano e este, em troca, reconhece e enaltece a grandeza desse totem). Além
disso, essa relação é íntima e inteiramente especial. Freud (1914) traz seu exemplo de totemismo
para a religião católica, mas é possível derivá-lo, em diferentes graus, para outras religiões além da
cristã, como a judaica, a muçulmana e a budista. Mesmo as religiões politeístas indígenas e
africanas e a antiga Grécia possuíam modelos de deuses fortes, poderosos, mas benevolentes com
os homens enquanto se mantivessem seguidores e fiéis.
A necessidade de criação de tabus, conforme explicado notexto, se dá porque algumas
condições, como comer e beber ou não colocar a mão no fogo, não precisam ser explicadas para as
pessoas. O comportamento inicial sobre uma fruta é comê-la, assim como a reação inicial ao sentir
o calor do fogo queimando é retirar a mão. No entanto, o incesto não faz parte do modo natural luta-
fuga-acasalamento. Pelo contrário, é bastante comum que o abuso sexual de crianças (meninos e
meninas) se dê principalmente pelo pai, depois por outros membros da família e por fim por
estranhos e pessoas distantes. Quando uma pessoa como essas é presa, a “lei dos presídios” então
submete o estuprador, pedófilo e incestuoso aos mais variados graus de degradação e violência,
para deixar claro que, embora a maioria daquelas pessoas esteja fora da lei, o incesto e o abuso de
vulneráveis precisam ser mantidos como comportamentos inaceitáveis e passíveis de punição com
violência e morte.
No desenvolvimento psicossexual infantil, vemos com frequência as crianças se sentirem mais
semelhantes aos animais que aos adultos mais velhos. Isso porque as crianças ainda não
apresentam sinais de arrogância ou escrúpulo (de modo geral), são desinibidas e curiosas. Quando a
criança começa a desenvolver sua concepção de mundo e absorver as regras, ela se afasta do
universo animal, podendo desenvolver fobias de animais que até então despertavam interesse e
simpatia. Os contos infantis auxiliam no surgimento dessas fobias, como pudemos observar
anteriormente no caso do Homem dos Lobos, e é esse medo que se combina com as fantasias
originárias para o complexo de castração. Em um exemplo apresentado no texto, Freud comenta que
um menino, Arpad, tentou urinar no galinheiro e uma galinha tentou bicar seu pênis. Um ano depois,
quando o menino retornou ao galinheiro, sentiu-se transformado em uma galinha, cacarejando e
interessado apenas no próprio galinheiro. Precisou de tempo até recuperar a fala, mas seguiu
interessado apenas em assuntos sobre galinhas e apresentava um comportamento ambivalente em
relação a elas: desejava matá-las todas, dançava com prazer em volta dos corpos representados por
brinquedos, mas depois se abaixava e as beijava, em uma demonstração de intenso afeto. Portanto,
a relação ambígua com a galinha se deu em reação ao medo de castração, ao medo de que a galinha
comesse o pênis do menino.
A história da relação totêmica remonta à ideia da horda primeva, na qual antigamente o homem
mais forte possuía todas as mulheres. Uma vez que outro homem se tornasse o mais forte, ele
rapidamente matava o anterior e assumia a posição de líder e responsável por todas as mulheres. A
criação do totem se deu a partir do momento em que todos os filhos se juntaram e mataram seu pai,
tomaram-lhe juntos o lugar de líderes e decidiram que a regra mudaria. Na sequência, surgiu o tabu
do incesto e a figura do totem, simbolizando a figura do pai morto que não deve ser esquecido como
uma referência a um tempo que não deve, sob hipótese nenhuma, retornar.
Crédito: Tomacco/Shutterstock.
Com o passar do tempo, a força deu lugar à inteligência, estabelecendo aqui uma analogia entre
os neuróticos e os primitivos: os primeiros são, acima de tudo, inibidos em suas ações e seu
pensamento é substituto constante do ato; já os homens primitivos, de pouco ou nenhum
conhecimento, são desinibidos e seu pensamento se transforma rapidamente em ação. “No princípio
foi ato”, diz Freud (1914), e com essa frase concluímos que a formação da neurose ainda segue
como um processo mais adaptado que a resposta comportamental ao desejo, a falta de reflexão e o
bloqueio que são tão prezados e cultivados nas sociedades modernas.
NA PRÁTICA
Propomos uma análise do filme Uma mente brilhante. Lançado em 2001, conta a biografia de
John Nash, desde seu ingresso na universidade. De início, Nash decide se isolar dos amigos e
colegas em busca de uma ideia original. Após um companheiro sugerir que ele o fizesse fora do
quarto, o cientista vai então buscar respostas no movimento dos pombos de um parque, de uma
equipe de futebol e no roubo de uma carteira. Depois, durante uma conversa em um bar, Nash
encontra a inspiração de que precisava, iniciando o que mais tarde ele chamou de Teoria dos Jogos.
O reconhecimento de seu trabalho só ocorre depois que ele consegue ajudar o Pentágono a decifrar
códigos russos. Torna-se então professor e conhece uma aluna com quem se casa e vem a ter um
filho. Depois de a família ser perseguida por estranhos, Nash começa a desenvolver paranoia e entra
em um quadro esquizofrênico. No fim do filme, Nash conquista o Nobel em Economia e aprende a
lidar com seu transtorno.
Nem sempre é possível que o paciente conquiste o mesmo resultado de Nash, pois o
prognóstico depende da idade quando o transtorno surgiu e das características associadas. No livro
Memórias de uma esquizofrênica, de Sechehaye (1950), a personagem apresenta o primeiro sintoma
muito mais cedo que Nash, o que representa uma dificuldade extra no sentido de compreender o
desafio entre ilusão e realidade. É bem verdade que as crianças, até determinada idade, têm
dificuldade em distinguir sonho e realidade e não é incomum ouvir relatos de crianças que dizem ter
brincado por horas quando, na verdade, estavam apenas dormindo. Além disso, ocorre também a
existência de amigos imaginários e personagens fantásticos que as crianças garantem ver e
interagir e por isso a dificuldade em se trabalhar o “ponto de virada”, quando deixamos de confundir
ilusão e fato e passamos a compreender o entorno ou nos deixar levar por delírios e alucinações.
FINALIZANDO
Nesta etapa, trouxemos inicialmente o caso Schreber, uma história baseada no livro de
memórias do próprio paciente e que trouxe uma mudança significativa na metapsicologia freudiana
ao introduzir o conceito de narcisismo, uma etapa que ficaria entre o autoerotismo e o amor objetal.
Depois, falamos do Homem dos Lobos, um caso que representou uma grande dificuldade
diagnóstica para Freud, com seu complexo de castração associado a delírios com lobos e com a
cena primeva, além da presença particular de lendas e mitos nos contos de fada infantis, nos sonhos
e nos temores. Por fim, trouxemos o texto sobre o totemismo na infância.
Esperamos que tenham aproveitado as discussões apresentadas aqui para conhecer um pouco
mais das origens da psicanálise e convidamos a todos a continuar acompanhando o conteúdo para
saber mais sobre esse campo do saber tão envolvente que é a psicanálise.
Leitura complementar
BIRMAN, J. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relumé-Dumará, 1991.
MEZAN, R. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 1980.
REFERÊNCIAS
FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud
(1886-1899) – livro I, XII, XIII e XVII. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
GARCIA-ROZA, L.A. Introdução à metapsicologia freudiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
v1-3.
LAPLANCHE, J & PONTALIS, J.B. Vocabulário da psicanálise. 4.ed. São Paulo: Martins Fontes,
2001.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1998.
SECHEHAYE, M. A. Memórias de uma esquizofrênica. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1950.
 O termo está sendo utilizado com o sufixo "ismo" conforme o uso do próprio autor em seus
textos, pois a homossexualidade foi considerada, até a década de 1980, como uma doença (ou seja,
posterior à publicação dos "Três Ensaios sobre a Teoria da Sexualidade") sendo caracterizada por
Freud como perversão.
[1]
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TEORIA PSICOSSEXUAL DO
DESENVOLVIMENTO
INFANTIL
AULA 5
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Raquel Berg
CONVERSA INICIAL
Bem-vindo(a)!
Nesta aula, especificamente, trataremos dos textos referentes à questão das crianças nas
escolas e sua relação com seus professores, as fantasias primitivas e como elas compõem a
formação edipiana, assim como os contos de fada no imaginário infantil e nasreferências de mundo
adulto que as crianças aprendem por meio das histórias que escutam.
TEMA 1 – ALGUMAS REFLEXÕES SOBRE A PSICOLOGIA DO ESCOLAR
O artigo “Algumas reflexões sobre a psicologia do escolar” foi escrito por Freud em 1914,
quando o colégio onde estudou completava 50 anos de existência. No texto, Freud recorda sobre a
questão da subjetividade do tempo e como algumas coisas permanecem em nós mesmo depois de
muitos anos. Quando estamos na escola, aprendemos a obedecer a autoridade dos professores, a
pedir licença para ir ao banheiro e a respeitar os colegas. Mesmo depois de adultos e mais velhos,
muitos desses aprendizados permanecem conosco, como quando dizemos “sentido” para um militar
aposentado e ele ainda se sente impelido a obedecer e seguir. Ao mesmo tempo, perceber a
mudança física nas pessoas à medida que o tempo passa, perceber que envelhecemos e que, ao
mesmo tempo em que nos recordamos das pessoas como eram, percebemos as diferenças
temporais, nos mostram como a percepção do tempo e a passagem cronológica são coisas muito
diferentes.
Além disso, Freud (1914) também se pergunta no artigo o quanto a personalidade de seus
professores o influenciou nas escolhas profissionais futuras, talvez até muito mais do que o próprio
conhecimento em si. Na própria história da psicanálise, pudemos observar o quanto Charcot foi uma
parte importante na estruturação da teoria psicanalítica, tanto quanto – ou talvez até mais – que a
própria proposta em si. Para aqueles que já leram algum livro da série Harry Potter, podemos atestar
também como Dumbledore e os outros professores foram fundamentais para que Harry, o
protagonista desses livros, formasse a própria personalidade e fizesse suas próprias escolhas
dentro do mundo bruxo. Fora dos livros, observamos com frequência, durante as sessões de
orientação vocacional, como é comum os jovens escolherem suas profissões não por causa do
mercado de trabalho ou porque o conteúdo lhes agrada, mas pela projeção de poderem vir a se
tornar um professor como aquele que teve durante sua infância e adolescência. Poucas crianças,
inclusive, seguem para carreiras cujos modelos de profissionais são pessoas chatas, intolerantes,
sem graça ou detestadas pelos demais alunos. E como muitos depois desistem do caminho que
começaram a trilhar pelo fato de que as motivações iniciais eram limitadas a uma só referência.
Essa figura do professor (ou tutor) funciona como a figura da imago, nome dado pelo próprio Freud
(1914) para definir o que é essa figura: são como substitutos de pai, mãe, irmãos ou de outras
pessoas importantes para a vida das crianças. Tal é a importância dessas figuras para o
desenvolvimento psicossexual infantil que muitos relacionamentos posteriores poderão inclusive
arcar com essa herança deixada pela imago. A imago é tão importante que, quando uma criança tem
uma figura paterna ou materna ausente ou inexistente, por exemplo, a imago pode surgir como um
substituto para a formação dos complexos. À medida que acompanhamos os textos freudianos,
observamos inúmeros relatos de pacientes que contam que, quando crianças, tiveram a cena da
fantasia primária (fantasia “ilusória” sexual entre os pais) com a presença da babá no lugar da mãe,
por exemplo.
As atitudes das pessoas umas para com as outras é fundamental para a formação do
comportamento posterior, seja afetivo ou profissional; inclusive, para os pré-julgamentos que se
estabelecem quando conhecemos alguém (como aquela sensação de que não gostamos de alguém
sem saber o porquê, ou sentimos uma simpatia imediata sem nenhum motivo aparente). Quando há
a figura da imago, ela se torna uma opção de identificação, de referência daquele que poderá
posteriormente ser um modelo de profissional, de pai ou mãe, de cônjuge ou de indivíduo social.
Segundo a explicação de Freud (1914, p. 249):
Na segunda metade de nossa infância, dá-se uma mudança na relação do menino com o pai –
mudança cuja importância não pode ser exagerada. De seu quarto de criança, o menino começa a
vislumbrar o mundo exterior e não pode deixar de fazer descobertas que solapam a alta opinião
que tinha sobre o pai e que apressam o desligamento de seu primeiro ideal. Descobre que o pai
não é o mais poderoso, sábio e rico dos seres; fica insatisfeito com ele, aprende a criticá-lo, a
avaliar o seu lugar na sociedade; e então, em regra, faz com que ele pague pesadamente pelo
desapontamento que lhe causou. Tudo que há de admirável, e de indesejável na nova geração é
determinado por esse desligamento do pai.
Quando refletimos sobre o trecho acima, nos damos conta de que com os professores
recebemos informações que nos fazem refletir sobre o que nossos pais dizem, nos trazem
argumentos para concordar ou discordar dos pais e nos auxiliam para que tenhamos nossas
próprias opiniões formadas. Por isso, é comum, quando recebemos um questionamento de pais
sobre qual escola seria a mais adequada para nossos filhos, a resposta em maior sintonia com essa
visão freudiana é que os pais encontrem uma escola cujos valores sejam os mais próximos dos
valores da família, pois a divergência de valores é que pode, com o passar do tempo, criar um
conflito interno na criança, na medida em que aquilo que é dito em casa é diferente do que é dito na
escola, obrigando a criança a contrabalançar cada informações nova e ter dificuldade, inclusive, de
se sentir segura com as informações que recebe, pois elas não convergem. Da mesma forma,
quando há sinergia entre os valores da escola e da família, fica mais fácil o reconhecimento dos pais
pelos professores, pois essa relação será repetida por cada criança.
TEMA 2 – UMA RECORDAÇÃO DE INFÂNCIA DE DICHTUNG UND
WAHRHEIT
No texto “Uma recordação de infância de Dichtung und Wahrheit” (1917), Freud continua a
abordagem do tema da imago, que na verdade depois será absorvida por Jung para tratar também
do “protótipo inconsciente de personagens que orienta seletivamente a forma como o sujeito
apreende o outro [...] é assim que a imago de um pai terrível pode muito bem corresponder a um pai
real apagado” (Laplanche; Pontalis, 2001, p. 234-235). Para Freud, quando nos recordamos de
determinados fatos da infância, temos dificuldade de discernir o que realmente vimos ou ouvimos e
o que nos foi contado posteriormente por outras pessoas. No relato de Goethe sobre sua infância
(Dichtung Und Wahrhei), ele conta que seus vizinhos, um dia, estavam quietos e sérios ao lado de sua
casa, e Goethe decidiu diverti-los jogando seus pratinhos e brinquedos para que quebrassem. As
crianças começaram a rir e estavam se divertindo bastante, e quando os brinquedos acabaram,
Goethe decidiu ir até a cozinha pegar pratos e panelas para jogar e quebrar, continuando a “diversão”.
Em um dado momento, um adulto o interrompeu e o fez recolher os objetos quebrados, e esse
momento de recolher os objetos quebrados durante bastante tempo ficou gravado em sua memória,
mesmo sendo uma memória muito antiga. Assim, vemos que em alguns casos podemos nos
recordar de uma ou outra informação muito antiga, de quando éramos bebês ou crianças muito
pequenas, mas essas lembranças são escassas e geralmente dependem de uma série de
associações para que se tornem relevantes o suficiente para serem recordadas. No caso de Goethe,
embora a travessura recordada por ele tivesse causado prejuízos domésticos, a impressão de
inocência liga-se a essa lembrança porque possivelmente ela se fixou como uma advertência para
não esticar seu domínio em demasia, ou aplicar suas habilidades em situações inadequadas. As
crianças, inclusive, são recorrentemente capazes de gravar situações nas quais fizeram uma
travessura e foram advertidas, e conseguem derivar essa experiência para experiências semelhantes
com colegas e compartilhar o aprendizado, apropriando-se da lição para mostrar seu
amadurecimento.
O texto relata ainda que um paciente de Freud (1917) lhe trouxe que, aos 27 anos, tinha conflitos
com sua mãe,os quais repercutiam em sua capacidade de amar e de levar uma vida independente.
Quando esse rapaz começou a se recordar de sua infância, lembrou de que era uma criança
desobediente, que gostava de desafiar a autoridade de sua mãe. Quando ela ficou grávida e ele
ganhou um irmão, ficou gravemente enfermo e sua mãe teve que cuidar dele, ao qual se dedicou
tanto que ele se recordava dessa época como “a melhor época de sua vida”, pois tinha constantes
atenção e afeição da mãe. Quantas vezes não nos deparamos com a experiência clínica de ver
clientes (adultos e crianças) que, no fundo, gostariam de retornar ao ventre materno, onde se
sentiam aquecidos, eram alimentados e ficavam com suas mães 100% do tempo literalmente. Desse
modo, quando esse paciente chegou ao consultório de Freud, resgatou lembranças de quando era
criança e os sentimentos que teve por seu irmão – com o qual tinha ótimo relacionamento – e por
essa mãe – que era uma fanática religiosa. Depois, em um acesso de raiva, quando soube que
ganhara um irmão, o paciente pegou os pratos da mãe e os arremessou longe, tal como o fez
Goethe.
No caso de Goethe, Freud (1917) refaz a genealogia de sua família e resgata o momento em que
um de seus irmãos falece ainda criança. No enterro, Goethe não derramou lágrimas, embora esse
jovem irmão fosse seu constante companheiro de bagunças, e quando sua mãe depois pergunta se
ele não sentia falta desse irmão, Goethe pega diversos papéis e mostra à mãe que ele estava
tentando ensinar esse irmão, assumindo como que uma posição de pai ou de imago da outra
criança. Com a morte, Goethe parecia aborrecido, mas ao arremessar os pratos ele possivelmente
pode extravasar o sentimento de raiva que sentia, tal como o paciente de Freud arremessara os
pratos ao saber do nascimento do irmão. Aliás, não é incomum nós arremessarmos objetos ou
quebrarmos coisas para nos sentirmos melhor quando estamos com raiva ou tristes por algum
motivo. As crianças, quando quebram objetos sabem, inclusive, o que estão fazendo, e sabem que
esse comportamento irá gerar uma reação dos pais, com consequente castigo. Quando continuam a
fazer traquinagens, normalmente há um objetivo de desafio e um sentimento de rancor que precisa
ser demonstrado.
Ainda em outro relato, um paciente conta a Freud que se recordou de quando era criança e que
seu pai chegou a ele, rindo, e lhe disse que ele teria um irmão. Pouco tempo depois, o menino jogou
diversas coisas na rua – escovas, sapatos, roupas. Depois, ele se lembra de ter estado com os pais
em um hotel e começado a fazer tanto barulho que seu pai precisou bater-lhe para parar. De acordo
com Freud (1917), quando as lembranças de um paciente surgem na sequência, ainda que não
façam parte de um mesmo momento ou com um mesmo grupo de pessoas, elas precisam ser
entendidas como tendo alguma relação do ponto de vista psíquico, ou não seriam apresentadas
simultaneamente.
Ainda que, em determinado momento, as crianças muito pequenas criem o hábito de jogar
coisas para os pais buscarem, esse comportamento é diferente do comportamento que
descrevemos acima, de jogar objetos pela janela. No primeiro caso, o ato de jogar coisas e esperar
que os adultos busquem, envolve um comportamento de formação de vínculo seguro, um
comportamento natural das crianças em uma fase específica e que faz com que elas queiram
“testar” o amor dos pais por meio do jogar e de receber de volta. No segundo exemplo, trata-se de
um comportamento de extravasar a raiva, jogar sem ter o objetivo de que aqueles objetos voltem.
Hoje em dia, quando sentimos raiva de algo, bater em algo como simbologia de extravasar a raiva
que sentimos é terapêutico, perfeitamente saudável e adequado, inclusive aconselhável quando o
sentimento de raiva nos consome por mais tempo do que deveria.
Por fim, ao concluir a história de Goethe, Freud (1917) comenta que se pudesse interpretar e
adicionar comentários para Goethe, ele provavelmente diria que foi por causa da morte do irmão; que
ele poderia ter todo o amor de sua mãe e se tornar o homem bem-sucedido que foi, pois com a
concorrência eliminada, ele receberia todo o amor de que precisava para se sentir autoconfiante.
Talvez poderíamos pensar que o amor que os meninos recebem de suas mães seja o que, em partes,
os faça serem bem-sucedidos na vida adulta, enquanto as meninas ainda enfrentam o desafio de
conquistarem, por si sós, o empoderamento e a independência. Esta é uma questão para refletirmos.
TEMA 3 – UMA CRIANÇA É ESPANCADA
O artigo “Uma criança é espancada” (1919) resgata um pouco do que já vimos nos textos sobre
os Três ensaios, apresentados anteriormente, assim como em O homem dos lobos (1918 [1914]). O
texto apresenta uma análise clínica detalhada de um tipo de perversão e os processos envolvidos no
recalque, sobre o qual Freud também trata em outros textos, como “Recalque” e “O inconsciente”.
Para Freud, muitas pessoas que iniciam o tratamento para neurose obsessiva e histeria trazem, em
algum momento, o relato de recordações fantasiosas relacionadas ao espancamento quando
crianças. É importante enfatizar aqui que estamos tratando de fantasias, algo da ordem do
imaginário, e embora muitas crianças da época de Freud tivessem testemunhado o espancamento
em suas escolas, a fantasia de espancamento surge bem antes disso. Para o autor, desde cedo as
crianças competiam em suas escolas para acessar livros de ficção e contos que contivessem
situações nas quais as crianças eram malcomportadas e, por essa razão, recebiam como castigo
espancamento e maus-tratos. Imaginar essas cenas muitas vezes trazia uma mistura de sensações,
com prazer e desagrado surgindo ao mesmo tempo. Nas escolas, o fato de as crianças verem os
espancamentos novamente suscitava nelas a mesma sensação de repugnância e gozo; em uma
pequena parcela dessas crianças, surgia exclusivamente o gozo ou a repugnância. Aliás, até hoje é
comum, nas escolas, as crianças se reunirem ao presenciarem uma briga ou alguma criança
apanhar de outra(s). Apesar de muitas alegarem que sentem medo de intervir no momento de
violência, quando observamos mais atentamente o comportamento dessas crianças, percebemos
um certo prazer nelas em ver a dor, associado ao asco por aquela situação – o ver e não ver,
sadismo e masoquismo.
Muitos dos relatos de espancamento dos pacientes de Freud provinham de pacientes que nunca
tinham sido espancados, ou sequer sofrido alguma violência na escola, o que não os impedia de
imaginar a cena de espancamento. Freud (1919, p. 197) pergunta:
Quem é a criança que estava sendo espancada? A que estava criando a fantasia, ou uma outra?
Era sempre a mesma criança, ou às vezes era uma diferente? Quem estava batendo na criança?
Uma pessoa adulta? Se era, quem? Ou a criança imaginava-se a si mesma batendo em outra? Nada
do que foi apurado pôde esclarecer todas essas perguntas; apenas a resposta hesitante: “Nada
mais sei sobre isto: estão espancando uma criança”.
Então, Freud (1919) se depara com o seguinte desafio: uma criança é espancada, no sonho de
seus pacientes, mas não há maiores informações sobre isso. O sonho não pode ser sádico, pois
para isso o agressor deveria ser o próprio paciente. Provavelmente, um adulto está batendo na
criança, então concluímos que possivelmente seja o pai. Então, o pai está batendo na criança. Se
pensarmos que a fantasia sofre adaptações, poderíamos dizer que há várias respostas para essa
questão: primeiro, o pai poderia, de fato, estar batendo na própria criança, como um desejo
masoquista. Como o nome do pai não é mencionado, poderíamos pensar que esse adulto que bate
também pode ser um professor. Se a criança estiver assistindo ao espancamento, pode-se supor
uma espécie de satisfação masturbatória no ato de olhar, uma excitação sexual que se conecta ao
ver meninos sendo espancados.
Contudo, se a recordação é tão antiga que os pacientes sequer recordam exatamente da cena,
podemos pensar que a cena também remontaa um complexo parental, conectado ao desejo de se
ligar à mãe e à punição por esse desejo. É possível ainda associá-lo à chegada de um irmão e o
desejo de ver o pai batendo nesse irmão, o que reconheceria inconscientemente a exclusividade do
amor do pai pela criança que assiste a outra apanhar. A criança, desde pequena, aprende que
apanhar significa perder o amor do outro e ser humilhada. Assim, imaginar um rival apanhando ajuda
a trazer prazer e conforto, na medida que se apresenta como uma forma de “compensação” por não
ser possível que essa criança se reproduza com seu pai ou com sua mãe.
A perversão, aqui representada pelo sadomasoquismo, se mostra então não mais como um fato
isolado na vida do indivíduo, ou como um transtorno ao lado das neuroses e psicoses, mas como um
fator constitutivo no desenvolvimento psicossexual infantil, do mesmo modo como as zonas
erógenas, que posteriormente darão as bases para a formação do psiquismo neurótico. A perversão
leva a criança a uma relação com o objeto incestuoso de amor, ligando a cena da criança sendo
espancada como também sendo uma fantasia primitiva, ao lado da fantasia da cena primária, ou
seja, a cena de sexo entre os pais. A perversão, no desenvolvimento saudável, dá lugar à moral e ao
desenvolvimento sexual genital das crianças. Quando essa perversão se dá de modo anormal, ela
cria bases para que, no futuro, caso o indivíduo não consiga direcionar sua libido para as zonas
genitais e estabelecer uma relação de amor objetal, essas tentativas são abandonadas e a psique
retorna para o modelo pervertido infantil e lá permanece para o resto da vida.
Assim, o espancamento de uma criança envolve uma nova experiência no Complexo de Édipo,
que leva a criança a recalcar a lembrança de forma que o que resta é: “uma criança é espancada”. O
recalque, aqui, faz parte da operação na qual o ego mantém no inconsciente representações
(pensamentos, imagens, sons) ligadas a uma pulsão que, se satisfeitas, poderiam gerar prazer sob
um aspecto e desprazer intenso em outro (Laplanche; Pontalis, 2001). Assim, o recalque é um
processo de defesa, ou a base para a constituição dos mecanismos de defesa.
TEMA 4 – ASSOCIAÇÕES DE UMA CRIANÇA DE 4 ANOS DE IDADE
Trata-se de uma carta de 1920 que Freud recebeu de uma mãe americana, com informações
muito importantes a respeito do desenvolvimento infantil. Ela conta que sua filha de 4 anos estava
ouvindo uma conversa entre sua mãe e uma prima, e esta prima contou que iria se casar em breve. A
criança então comentou: “Se Emily se casar, vai ter um bebê” (Freud, 1920, 281). A mãe ficou muito
surpresa e perguntou à sua filha como ela sabia disso, ao que a menina respondeu que quando
alguém se casava, logo vinha um bebê. A mãe, ainda incrédula, perguntou como a criança poderia
saber algo como aquilo, e a menina continuou. Disse que, na verdade, ela sabia uma porção de
coisas, como o fato de que as árvores nasciam do chão. A mãe achou estranha a associação, e ficou
novamente surpresa que a menina já tivesse esse tipo de informação. A menina então concluiu que
sabia que Deus tinha criado o mundo. A mãe não acreditou, e concluíram que provavelmente, dito
tudo isso, a menina já sabia que os bebês nasciam de suas mães, fazendo associação entre as
mães e a mãe-Terra. Ao dizer que sabia que Deus tinha criado o mundo (Father, em inglês, que
corresponde a Deus e à palavra “pai”), estava também fazendo associação ao fato de que sabia que
o pai dela tinha criado os filhos e dado a possibilidade à mãe de engravidar, assim como Deus criou
as bases para que a mãe-natureza criasse o que temos no mundo.
Para Freud, esse relato mostrou que as crianças, mesmo quando não recebem as informações
de seus pais a respeito das questões sexuais humanas, investigam e chegam às próprias
conclusões, que depois são verbalizadas tão corretamente que poderíamos acreditar que alguém
lhes explicou como realmente se dá a origem dos bebês. Para quem tem mais de um filho, percebe
como é comum a criança mais velha querer saber como a mãe ficou grávida, por onde a criança irá
sair, quanto tempo o bebê ficará dentro da mãe, se poderá retornar depois para dentro da mãe, se
será possível escolher entre um irmão ou uma irmã, e como serão seus gostos. Depois, as crianças
compartilham no ambiente escolar todos esses conhecimentos e experiências e, muitas vezes, cabe
às professoras mediar as conversas e esclarecer todas essas dúvidas, além de muitas outras que, às
vezes, as crianças sequer levam a seus pais.
TEMA 5 – O MATERIAL ORIUNDO DOS MITOS E CONTOS DE FADA
Sabemos como os contos de fada influenciam (poderíamos até dizer que moldam) o
pensamento infantil. Tanto que para aqueles que acompanham filmes da Disney como Frozen e
Encanto, sabemos o quanto as figuras das princesas fazem parte do imaginário infantil feminino. Da
mesma forma, ao humanizarem personagens heroicos como os da Marvel, cria-se nos meninos e
meninas protótipos do que eles mesmos gostariam de ser quando adultos: a Mulher Maravilha ou o
Homem-Aranha. Os filmes de hoje fazem adaptações na aparência, no comportamento e nas
ambições dos personagens, de modo que as crianças se identifiquem com suas histórias.
Na época freudiana, as histórias comumente traziam mensagens, como o faziam as passagens
bíblicas, sobre regras e valores aprendidos oralmente. Assim, o conto da menina de sapatinhos
vermelhos traz a mensagem de que a falta de cuidado da mãe, o desejo da menina de apenas usar
sapatinhos vermelhos, implicou em uma alta punição para a menina; Cinderela se manteve boa, e por
isso foi recompensada pela fada com uma oportunidade para conhecer o príncipe; e, Elza
compreendeu a importância do amor para controlar seus próprios impulsos. Da mesma forma,
contos como a história de Jonas e a baleia, na qual Jonas foi punido por Deus até cumprir sua
obrigação de advertir uma cidade que agia fora dos princípios divinos, os egípcios foram punidos por
não aceitarem libertar os judeus da escravidão, e Jó, ao final, foi recompensado por Deus por ter
mantido sua fidelidade, embora tivesse perdido seu dinheiro e sua família enquanto era testado por
Deus e pelo Diabo.
Os contos, muito mais do que se proporem a contar uma história que de fato aconteceu,
permanecem no imaginário social porque passam uma mensagem a respeito das crenças e valores
de uma dada cultura. Na história de uma das pacientes, Freud (1913) conta como ela se via em um
quarto de madeira, com apenas uma escada íngreme. No alto da escada ela podia ver um
homenzinho pequeno e calvo, que dançava e se portava de maneira estranha. Depois, a paciente se
deu conta que estava descrevendo Rumpelstizchen, um dos contos dos irmãos Grimm (Freud, 1913,
p. 305).
O segundo sonho apresentado aqui é o do “homem dos lobos”, que Freud (1913) reconta nesse
texto. De forma resumida, ele traz o relato do rapaz que, quando criança, sonhara que a janela de seu
quarto se abrira e, do lado de fora e em cima de uma grande nogueira, estavam seis ou sete lobos
brancos sentados, olhando para ele. Os lobos brancos se pareciam com cães pastores ou raposas,
tinham caudas grandes e orelhas empinadas, como se estivessem observando algo. Aterrorizado,
com medo de ser devorado pelos lobos, o menino gritou e acordou. Aqui, a única ação do sonho foi a
janela se abrir, pois de resto tudo estava imóvel. Quando se lembra do que poderia estar associado, o
paciente se recorda de um livro de contos de fadas de sua irmã. Ela sabia que o menino tinha medo
da imagem, por isso ela sempre pegava o livro e mostrava a imagem ao irmão, até que ele chorasse
para ela parar. Pela descrição que o rapaz fizera da figura do livro, Freud acreditava que se tratava do
livro de “Chapeuzinho Vermelho”. Ao tentar analisar o sonho, o paciente se lembrou de que nas
vizinhanças havia ovelhas, e que o proprietário decidiu vaciná-las, porém, depois disso, muitas delas
morreram. Sobre os lobos estarem na árvore, o rapaz se lembrou de umahistória de seu avô na qual
um lobo velho queria se vingar de um alfaiate que lhe cortara a cauda. Esse lobo levou a matilha para
atacar o alfaiate que, assustado, subiu em uma árvore. O velho lobo sugeriu que os demais subissem
em suas costas para pegar o rapaz e vingá-lo. Mas o alfaiate, ao reconhecer o lobo que ele havia
enfrentado, gritou para que pegassem o lobo cinzento pela cauda. O velho lobo, assustado pela
lembrança da perda da cauda, fugiu e os lobos desmoronaram (remontando ao ditado “Gato
escaldado tem medo de água fria”). Ao interpretar o sonho, Freud conclui que o lobo é um
representando paterno que remonta ao complexo de castração, e que os contos de fada serviram
para a formação da fobia. Isso também ocorreu com uma paciente que relatou que seus filhos
tinham medo do avô porque ele dizia que iria cortar as barrigas deles como na história da
Chapeuzinho Vermelho.
NA PRÁTICA
Propomos aqui, como prática, seguir falando sobre os contos e cantigas. A história da “Cabra
cabriola” tem origem portuguesa, e chegou ao Brasil entre os séculos XIX e XX. Segundo a lenda,
uma cabra de aspecto monstruoso espreita as casas em busca de crianças desobedientes e
malcriadas. Isso se assemelha ao que antigamente se dizia sobre o “homem do saco”, um homem
com aspecto empobrecido e cruel que levava as crianças desobedientes para fazer sabão. Muito
dessa história desapareceu com o passar dos anos, quando as crianças começaram a ter medo de
mendigos e a agredi-los por causa desse medo. Além disso, inúmeras histórias e lendas de bruxas
contam como elas roubam as crianças desobedientes para comerem, a exemplo da história de João
e Maria. A cantiga Boi-da-cara-preta também traz uma toada para assustar e intimidar crianças:
Boi, boi, boi
Boi da cara preta
Pega essa menina que tem medo de careta
Não, não, não
Não a coitadinha
Ela está chorando
E também é bonitinha (Domínio público, S.d.)
Para aqueles que já estudaram as mensagens transmitidas nas cantigas de roda, como a
música “Ciranda, cirandinha”, há uma mensagem explícita sobre a fragilidade das relações amorosas
e conjugais que não se constituem sobre bases sólidas (“O anel que tu me deste era vidro e se
quebrou/O amor que tu me tinhas era pouco e se acabou”). Há também as histórias de Esopo, como
a da lebre e da tartaruga (na qual elas disputam uma corrida e a tartaruga vence porque persiste,
embora a lebre fosse mais rápida), que antropomorfiza os animais (ou seja, lhes dá características
humanas) para passar mensagens a respeito de como devemos nos comportar em sociedade.
Esses contos, quando retirados de seu contexto original, tornam-se desconexos e até mesmo
preconceituosos, como podemos observar nas histórias de Monteiro Lobato, que foram escritas em
uma época na qual não havia discussões sobre questões étnicas, ou as histórias de princesas, como
a Branca de Neve e a Bela Adormecida, que, à primeira vista, parecem ser absurdas por se tratar de
jovens moças que se casaram com o primeiro rapaz que conheceram. No entanto, se considerarmos
que na época medieval o casamento costumava ser a única escolha e que elas não tinham recursos
disponíveis, embora fossem ricas, e que sofriam de ameaças e coação, o matrimônio com o primeiro
príncipe que lhes aparecia passa a ser, sem dúvida, a escolha mais inteligente para uma moça nessa
situação.
FINALIZANDO
Nesta aula, abordamos como a escola e os professores desempenham um papel fundamental
na construção psicossocial e psicossexual das crianças e jovens, vindo a representarem verdadeiras
imagos, ou seja, substitutos das figuras parentais; a simbologia de uma recordação de infância de
Goethe, e o que tal recordação nos diz sobre as fantasias e sobre recordar momentos que, embora
pareçam irrelevantes, podem ser cruciais para nossa formação; a fantasia do espancamento infantil
e como essa fantasia se constitui com a fantasia da cena primitiva para compor o complexo de
Édipo e o complexo de castração; as associações de uma criança de 4 anos de idade, e como ela já
mostra, nessa idade, que não acredita em tudo que lhe dizem, chegando a suas próprias conclusões
com base na observação do ambiente.
Por fim, falamos da importância dos contos de fada, dos mitos e das cantigas como formadores
sociais presentes no imaginário infantil, com base nas mensagens subjacentes a cada uma das
histórias, as quais transmitem mensagens sobre o que se espera das crianças na sociedade quanto
a comportamento e valores.
Esperamos que você tenha aproveitado as discussões aqui apresentadas para conhecer um
pouco mais sobre as origens da psicanálise. Convidamos você a continuar acompanhando as aulas
para saber mais sobre esse campo do saber tão envolvente que é a psicanálise.
REFERÊNCIAS
FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud
(1886-1899): livro XIII. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
v. 1.
_____. Introdução à metapsicologia freudiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. v. 2.
_____. Introdução à metapsicologia freudiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. v. 3.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes,
2001.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1998.
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR
BIRMAN, J. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relumé-Dumará, 1991.
MEZAN, R. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 1980.
 
 
 
 
 
 
 
 
 
TEORIA PSICOSSEXUAL DO
DESENVOLVIMENTO
INFANTIL
AULA 6
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
Profª Raquel Berg
CONVERSA INICIAL
Olá! Seja bem-vindo a mais uma etapa da nossa jornada do conhecimento sobre teoria
psicossexual do desenvolvimento infantil. Nesta aula, falaremos a respeito de ego e id e como eles
foram fundamentais para compreendermos como se dá a constituição psíquica e sexual. Nesse
sentido, trataremos um pouco acerca das diferenças da primeira e da segunda tópicas dentro do
contexto do ego e do id, além dos conceitos de id, ego e superego.
Na sequência de nossa reflexão, faremos uma apresentação de como ocorre o desenvolvimento
humano do ponto de vista biológico, os três organizadores psíquicos de Spitz dentro desse contexto
do desenvolvimento no primeiro ano de vida. Por fim, abordaremos brevemente os conceitos
kleinianos e lacanianos sobre a formação psicossexual infantil, como se conectam com a teoria
freudiana e como estendem a visão a respeito do desenvolvimento das crianças e o papel da
psicanálise na análise do sintoma infantil.
TEMA 1 – O EGO
O texto do ego e id foi um dos grandes marcos da teoria freudiana. Até então, o conceito de
inconsciente vinha como um pilar da metapsicologia psicanalítica juntamente com os de
subconsciente e consciente, e essa tríade compunha a constituição do aparelho psíquico segundo a
primeira tópica freudiana. O inconsciente era descrito como a forma pela qual determinadas
informações eram apreendidas e ficavam “escondidas” na mente, só podendo ser resgatadas por
hipnose ou no relato dos sonhos. A necessidade de se escrever esse texto e, posteriormente, lançar
a segunda tópica, se deu pelo fato de que no ego também há um inconsciente, do mesmo modo
como no inconsciente residem uma parte do superego e do ego, assim como o id.
Posto que essa segunda tríade compartilha de mais de um lugar, Freud decide criar o segundo
modelo e mantém, de alguma maneira, ainda a existência do primeiro. Vale retomar que o primeiro
foi constituído a partir do texto de Freud sobre o “Projeto para uma Psicologia Científica” de 1895;
nele, Freud (1977, v. XIX) “importa” o conhecimento que já possui em neuroanatomia, as descobertas
de Wundt, Golgi, Ramon e Cajal, e com isso cria sua hipótese de como os pensamentos e as
emoções se constituem para além da questão motora, do “arco reflexo”. Nesse texto de 1895, Freud(1977, v. XIX) também projeta como poderia funcionar o recebimento de novas informações e o
modo pelo qual estas se inserem no conhecimento já adquirido, e como, a partir disso, se formam os
sintomas “a partir de uma força recalcada que se esforça em abrir caminho até a atividade, mas
mantida sob controle por uma força repressora e, estruturalmente, um ‘inconsciente’ a que se opõe
um ‘ego’” (Freud, 1977, v. XIX, p. 17).
No entanto, se analisarmos mais a fundo esse trecho do texto “Interpretação dos Sonhos” de
1900 (1977, v. XIX), observamos que o autor tenta seguir com o primeiro modelo, mas algumas
inconsistências começam a surgir, como a contraposição entre inconsciente e ego, que até então
não eram instâncias do mesmo conjunto.
Com isso, o termo inconsciente passa a ter dois sentidos: um mais descritivo, que confere uma
qualidade específica a um estado mental; e outro, dinâmico, que atribui uma função a esse estado
mental. Depois, essas qualidades atribuídas a conceitos que existiram desde o início da psicanálise
e permaneceram até os últimos textos terão pontos de vista tópicos e dinâmicos. Nesse sentido,
Strachey (Freud, 1977, v. XIX, p. 17) comenta, em seu texto introdutório do “Ego e o Id”:
Desde o início, porém, uma outra noção, mais obscura, já se achava envolvida (como era
claramente demonstrado pelos diagramas pictóricos): a noção de ‘sistemas’ da mente. Isto
implicava uma divisão topográfica ou estrutural da mente baseada em algo mais que função, uma
divisão em partes às quais era possível atribuir em certo número de características e métodos de
operação diferenciantes [sic].
Assim, em 1900 já começava a se esboçar algo que depois viria a se tornar a segunda tópica,
mas somente mais tarde Freud efetivamente pôde dar estrutura a essa segunda proposta de
aparelho psíquico. O texto “Além do princípio do prazer”, de 1920, foi o marco da transição entre as
tópicas, quando a noção do inconsciente pareceu ser insuficiente para tratar dos conceitos de ego,
superego e id. Com a transição, Freud foi capaz de apresentar novos avanços em sua teoria. O id
passa a ter dois empregos principais: um, com o mesmo significado de inconsciente, pois se trata de
uma parte da mente; e outro, como uma instância diferenciada dos demais e que representa o
indivíduo em sua totalidade.
Já o ego aparece com duas construções: uma antes (evocando as pulsões do ego de recalque
sexual e de autoconservação) e outra depois do conceito de narcisismo (pulsões de vida e de
morte). O ego passa a corresponder a algo que está entre as instâncias inconscientes e pré-
conscientes (Ics-Pcs) e inclui atividades, como censura, teste de realidade (se o que estamos vendo
é real e compartilhado com outros) etc., e autocrítica. Assim:
Pode haver uma ‘instância psíquica especial’ cuja tarefa é vigiar o ego real e medi-lo pelo ego ideal
ou ideal de ego – ele parecia utilizar indiscriminadamente os termos [...] Atribuiu um certo número
de funções a essa instância, inclusive a consciência normal, a censura do sonho e certos delírios
paranoicos. (Freud, 1977, v. XIX, p. 21)
Essa “instância psíquica especial”, que Freud depois a chama de superego, posteriormente
passa a ser responsável por alguns estados patológicos de luto. O autor a assemelha ao ideal do
ego, sendo que o superego é o que vai prevalecer e permanecer depois. Esse superego (Freud, 1923,
p. 22) age como “o veículo do ideal do ego pelo qual o ego se mede”. Ele é derivado das catexias
objetais infantis e é o que toma o lugar do Complexo de Édipo (pois nesse mecanismo há “a
substituição de uma catexia objetal por uma identificação e introjeção do amor anterior” (Freud,
1977, v. XIX, p. 22), o que para o autor explica a existência da bissexualidade, na medida em que
depende de com quem ocorre a identificação por substituição do amor).
Segundo o autor, o ego é uma instância ligada à consciência que regula as descargas de
excitações para o mundo externo, a linguagem e as necessidades do indivíduo. Sobre isso,
Laplanche e Pontalis (2001, p. 124, grifo do original) afirmam:
[O ego] instância que Freud, na sua segunda teoria do aparelho psíquico, distingue o id do
superego. Do ponto de vista tópico, o ego está numa relação de dependência tanto para com as
reivindicações do id, como para com os imperativos do superego e exigências da realidade.
Embora se situe como mediador, encarregado dos interesses da totalidade da pessoa, a sua
autonomia é apenas relativa.
Do ponto de vista dinâmico, o ego representa eminentemente, no conflito neurótico, o polo
defensivo da personalidade; põe em jogo uma série de mecanismos de defesa, estes motivados
pela percepção de um afeto desagradável (sinal de angústia).
Do ponto de vista econômico, o ego surge como um fator de ligação dos processos psíquicos;
mas, nas operações defensivas, as tentativas de ligação da energia pulsional são contaminadas
pelas características que especificam o processo primário; assumem um aspecto compulsivo,
repetitivo, desreal.
TEMA 2 – O ID E O SUPEREGO
Embora uma parte do ego seja consciente, outra está ligada ao inconsciente, e é essa que
tentamos acessar e trazer à consciência na análise para compreender a origem dos sintomas. As
percepções recebidas pelo ambiente e as sensações e sentimentos oriundos de dentro são
cuidadosamente avaliados pelo ego antes de se tornar conscientes. Para entender um pouco melhor
esse funcionamento do ego, precisamos também compreender o id e o superego.
O inconsciente é um princípio originário que, quando não consegue expressão ou satisfação de
suas pulsões, forma o sintoma, que se situa na “zona” compartilhada entre o id e o ego inconsciente.
Nesse inconsciente está a fonte originária das pulsões, conceito de natureza quantitativa em que o
somático (a libido) e o psíquico (as representações) se encontram. Segundo Laplanche e Pontalis
(2001, p. 219), “os seus conteúdos [do id], expressão psíquica das pulsões, são inconscientes, por
um lado hereditários e inatos e, por outro, recalcados e adquiridos”.
O id é uma força interna desconhecida e indomável; poderíamos compará-lo à “Raposa de Nove
Caudas”, entidade que vive dentro de Naruto (série de mangá). Essa raposa é uma Bijū, uma das
bestas com caudas ou bestas de chacras, que possui grande poder, mas obriga Naruto a ficar
constantemente acordado (ou seja, com a censura ativa) ou pode tomar conta do corpo do jovem
ninja e destruir tudo o que está em sua volta. Ao mesmo tempo, quem acompanha a série percebe
que a raposa também representa, em alguma medida, a personalidade do garoto, da mesma forma
que o id constitui o polo pulsional da personalidade e que precisa ser controlado pelo ego e pelo
superego. Apesar de em um primeiro momento a teoria freudiana classificar o id como sendo uma
organização caótica, depois conclui que, na verdade, há alguma organização, especialmente quando
observamos que as próprias pulsões são divididas em pulsões de vida e de morte.
Já o superego é uma instância de julgamento, de censura. Ele provoca o sentimento de culpa, a
moralidade e o que é o ideal – sendo o sucessor do narcisismo e herdeiro do Complexo de Édipo
(estabelecido, portanto, durante e após a fase anal). Autores como Klein e Spitz consideram a
existência de um superego precoce ou primário, precursor de um superego final, e que já estaria
presente desde a fase oral, quando a criança esboça comportamentos sádicos com o seio materno
e introjeta objetos “bons” e “maus”.
O ego é corporal, é a projeção do corpo em sua totalidade e o que constitui nosso caráter. Sem
ele, seríamos como os animais, que respondem a seus desejos e necessidades, reagem no modo de
ataque ou figa e contêm seus impulsos quando há a censura de outro animal do bando como um
líder ou uma fêmea. O ego nos coloca em um patamar diferenciado em relação aos animais, pois
medeia nossos julgamentos e cria formas alternativas de lidar com o sofrimento e com aquilo que é
recalcado. Segundo Freud(1977, v. XIX), o ego existe desde a fase oral. Nessa fase, o ego é um ego
fraco que, diante das exigências pulsionais, sujeita-se a elas ou tenta recalcá-las. Já no narcisismo,
esse ego assume as características do objeto e tenta forçar o id a reconhecer o ego como também
um objeto de amor – há aqui a transformação da libido do objeto em libido narcísica, o que leva a um
abandono dos objetos sexuais e uma espécie de sublimação, já que o indivíduo se basta consigo
mesmo.
Quando o complexo de castração e o Complexo de Édipo ocorrem, o superego, como um
herdeiro desse Édipo, interrompe o ego e o força a redirecionar o investimento para objetos externos
– “você não pode ser autossuficiente; busque outro para satisfazê-lo”, diz esse superego, “mas com
algumas regras e restrições – você deveria ter essas características, como seu pai ou sua mãe, e
não deveria ter essas outras características, pois essas pertencem somente a seus pais ou figuras
parentais relevantes”.
Esse superego, portanto, é o contraponto direto do id. À medida que o indivíduo cresce, esses
representantes do que o superego permite ou não permite vão sendo substituídos por outras figuras,
como professores, amigos ou outras figuras colocadas em posição de autoridade (padres, médicos,
policiais etc.).
TEMA 3 – O DESENVOLVIMENTO INFANTIL GLOBAL E OS
ORGANIZADORES PSÍQUICOS DE SPITZ
De forma didática, podemos falar sobre desenvolvimento infantil sob três diferentes
perspectivas: cognitiva, motora e afetiva. O amadurecimento de cada uma dessas funções ocorre
em paralelo e foi analisado por diversos autores. Piaget (1932), com relação ao desenvolvimento
cognitivo, estabeleceu a existência de quatro fases principais: sensório-motor (de 0 a 2 anos), pré-
operatório (de 2 a 7 anos), operatório-concreto (até 12 anos) e operatório-formal (a partir de 12
anos). Já o desenvolvimento motor tem, de modo geral, as características conforme indica o Quadro
1:
Quadro 1 − Características do desenvolvimento infantil
Marcos do desenvolvimento (alguns exemplos) Idade
Aprende a olhar para uma pessoa, demonstra prazer e desconforto, adquire a capacidade de erguer a cabeça,
aprende a diferenciar dia e noite, emite sons, reconhece quando falam com ela, faz gestos com as mãos e a
cabeça, usa ao menos uma palavra com sentido, diferencia familiares de estranhos, imita gestos e brincadeiras,
arrasta ou engatinha
Até 1
ano
Anda sozinho e cai raramente, combina duas ou três palavras, distancia-se da mãe, leva alimentos à boca com as
próprias mãos, corre e sobe ou desce degraus
De 1
a 2
anos
Diz o próprio nome e nomeia objetos como sendo seus, veste-se com auxílio, usa frases e começa a ter controle
dos esfíncteres
De 2
a 3
anos
Reconhece mais de duas cores, brinca com outras crianças e imita pessoas de seu cotidiano
De 3
a 4
anos
Veste-se sozinha, alterna momentos cooperativos com agressivos, é capaz de expressar preferências e ideias
próprias
De 4
a 6
anos
Fonte: elaborado com base em Brasil, 2002.
Com base nas constatações sobre os marcos do desenvolvimento infantil, Spitz (1979)
desenvolveu sua teoria sobre a existência de três organizadores psíquicos, que ocorrem
basicamente no primeiro ano de vida da criança:
O primeiro organizador é chamado de estágio pré-objetal e ocorre até três meses. Durante esse
período, o sorriso e o choro surgem como as primeiras formas de se relacionar com outras
pessoas, em especial a mãe ou o cuidador. Dessa relação, vêm os primeiros processos de
pensamento associados às experiências de prazer e desprazer. Nessa fase, a boca serve tanto
para a alimentação quanto para conectar o bebê a seu objeto de prazer, a mãe. A oralidade
antecede todas as funções que se desenvolvem, como olfato, visão, audição, paladar e tato. A
partir do rosto da mãe, a criança também desenvolve a memória, que no início se dá quando o
objeto reaparece exatamente como estava antes (ou seja, se a mãe colocar óculos, por
exemplo, é comum o bebê se assustar e pensar que a mãe foi embora; somente depois a
criança compreende que a pessoa com óculos à sua frente ainda é sua mãe).
O segundo organizador é chamado de estágio precursor do objeto e ocorre entre três e oito
meses: nesse estágio, o tônus muscular permite à criança segurar a cabeça e permanecer
sentada, além de pegar e soltar objetos por vontade própria. Surgem o medo de estranhos e a
compreensão de ordens e proibições, e a criança passa a ser capaz de imitar alguns
comportamentos dos pais.
O terceiro organizador psíquico é o estágio do objeto real. Nessa etapa, a criança explicita sua
preferência pela mãe, surge a compreensão de palavras como “não”, “tchau” e “passear”, e os
primórdios da comunicação e da fala, ainda que somente a mãe compreenda o que ela lhe diz.
O não é o primeiro conceito abstrato adquirido.
TEMA 4 – A TESE DE MELANIE KLEIN
Esse estudo de Spitz foi inspirado, em grande medida, pelos trabalhos de Winnicott, seguidor da
teoria kleiniana. Melanie Klein foi uma autora pós-freudiana cuja principal proposta de mudança foi a
de que as estruturas infantis passariam por duas posições principais: a esquizoparanoide e a
depressiva. A primeira ocorre durante os quatro primeiros meses de vida e se constitui como uma
modalidade na qual as pulsões agressivas coexistem com as de prazer, sendo ambas igualmente
forte e fundidas. Além disso, o objeto é parcial (o principal objeto parcial é o seio) e clivado entre
bom e mau, estando aqui presente um sentimento constante e persecutório de angústia pelo medo
do objeto mau.
Os processos psíquicos predominantes nessa posição são a introjeção e a projeção, com a
recusa no reconhecimento da realidade que envolva o objeto mau e o controle absoluto sobre ele. A
inveja dessa fase é uma expressão oral-sádica dos impulsos destrutivos que operam desde o
nascimento; têm uma base constitucional e se apresentam pelo impulso invejoso de tomar e
estragar o objeto. Alguns dos principais mecanismos de defesa aqui são: idealização, o que deixa o
objeto certo tempo fora do alcance do ataque invejoso; confusão, na qual há falha da clivagem
primária entre o bom e o mau objeto; fuga da mãe para outras pessoas; dispersão dos sentimentos
de amor e gratidão para outra pessoa que não é a mãe; depreciação do objeto e ingratidão;
autodepreciação; introjeção voraz do peito, de tal modo que ele fica totalmente possuído na mente
do bebê e o sujeito se confunde com ele; o provocar inveja nos outros; o abafar do amor e
intensificar o ódio, mostrados na forma de indiferença ao que causaria inveja; retração, com o
afastamento material ou afetivo para não ter a oportunidade de sentir inveja; reforço de
independência, com o sujeito exagerando sua autossuficiência; e acting out, no qual o desejo se
realiza mediante uma ação cujo sentido permanece inconsciente.
Já a posição depressiva, que no desenvolvimento normal se dá no segundo trimestre do
primeiro ano de vida, instaura-se após a posição esquizoparanoide e tem como principal
característica a percepção da mãe como figura total, e não apenas como um objeto parcial (o seio
materno), levando assim a uma aproximação entre o objeto fantasioso interno e o objeto externo,
pois o ego tem maior capacidade de integrar e sintetizar os objetos.
As pulsões de prazer e ódio se combinam, e o objeto é amado e odiado simultaneamente,
criando um sentimento de ambivalência com relação ao objeto. Nesse momento, a angústia infantil
também sofre uma mudança, pois se antes o medo de perda do objeto provocava o sadismo infantil,
na posição depressiva esse sadismo é alterado para uma inibição da agressividade e uma reparação
do objeto pelos danos causados das fantasias onipotentes. Com isso, a relação com a mãe deixa de
ser exclusiva, e a criança começa a se aproximar e a se identificar com outras pessoas, o que
Melanie Klein chama de Complexo de Édipo precoce.
Para que o ego da criança possa se estabelecer de forma saudável, é fundamental que ela ame
e sejaamada, pois a integração de seu ego depende das relações com o objeto materno. A falta de
segurança quanto ao amor do outro gera desintegração e fragmentação, que estão intimamente
ligadas ao medo da morte. Embora o brincar tenha sido mais profundamente explorado por
Winnicott, Klein já observara em seus estudos que o brincar infantil representa suas experiências,
traduz os sentimentos da criança e a auxilia, como uma espécie de projeção, a elaborar e dar conta
desse mundo, principalmente daquilo que não é dito.
Nas consultas com crianças, Klein muitas vezes verbalizava a seus pequenos pacientes
situações e medos que, de alguma forma, não eram possíveis de ser verbalizados em palavras, mas
que apareciam nas brincadeiras mesmo que as crianças não fossem capazes de compreender por
que estavam brincando daquilo. Para aqueles que já trabalharam com crianças adotadas, por
exemplo, é comum vermos nos desenhos e brincadeiras elas expressarem que, de alguma forma,
sabem de sua condição, e pela falta de informação sentem medo e insegurança. O brincar e os
desenhos aqui surgem como uma tentativa de elaboração da informação omitida, e o papel do
terapeuta é ajudar a criança e a família a traduzirem tal informação de maneira a dar mais segurança
à criança e, com isso, reintegrar seu ego.
TEMA 5 – CONTRIBUIÇÕES LACANIANAS
Ao longo de nossa jornada do conhecimento nesta disciplina, vimos muitos conceitos novos.
Basicamente, o que precisamos compreender no desenvolvimento das crianças é que toda análise
de um sintoma infantil precisa considerar o contexto que elas se inserem, sua família, escola. É na
interação com a psicologia, a pediatria e a pedagogia que podemos ser capazes de compreender os
sintomas infantis. Segundo Manonni (1964, p. 196), “minha experiência ensinou-me que as
diferentes formas de reeducação, tão preciosas quando são empregadas com conhecimento de
causa, de nada servem quando a criança não está apta a beneficiar delas como indivíduo autônomo
e responsável”. Assim, a intervenção psicanalítica precisa encontrar o momento certo para ter efeito,
ou o sintoma, a “palavra amordaçada”, apenas seguirá seu curso e poderá até erguer defesas
obsessivas contra as tentativas de tratamento.
A terapia infantil é diferente da terapia com adultos, das técnicas rígidas que executamos ao
trabalhar com psiconeuroses. É diferente do trabalho pedagógico, do trabalho assistencial e de
reeducação, pois o sintoma, como cita a autora, tem “uma função biológica como medida defensiva
e razão de ser social” (Manonni, 1964, p. 204). É também diferente do atendimento médico, pois se o
pediatra toma muitas vezes o sintoma “ao pé da letra”, o analista considera o sintoma da criança
como estando inserido na “ideia fantasma” desse corpo – pois a imagem do corpo, como
representação especular de um eu-pele, tem papel fundamental na gênese da personalidade
(Andrade, 1984) – e na representação mitológica do sintoma familiar (ou seja, o não dito familiar se
transforma em mito no imaginário infantil).
As crianças, por serem em demasiado sensíveis ao ambiente no qual se encontram e atentas às
necessidades das pessoas que amam, muitas vezes introjetam as preocupações e os sintomas dos
adultos e projeta em seus próprios sintomas, e esses sintomas só podem ser reparados quando a
angústia que foi mobilizada tiver sido libertada, pôde encontrar um caminho de liberação saudável.
Ou seja, ao tratarmos uma criança,
tratar-se-á, em relação com a própria história dos pais, de fazer compreender a estes, a gênese das
dificuldades do filho, sem chamar a atenção para a culpabilidade, valorizando os pais no seu papel
de pais, a criança na sua condição de indivíduo, deixando ao mesmo tempo aparecer os mal-
entendidos. (Manonni, 1964, 215-216)
A construção da imagem do corpo, na teoria lacaniana, tem relação direta com o estádio do
espelho. O estádio do espelho, assim, é um equivalente do momento precoce do Complexo de Édipo,
enquanto este ainda se encontra no narcisismo (ou seja, no momento intermediário entre o
autoerotismo e o amor objetal após o Édipo).
No estádio do espelho, a criança inicialmente vê sua imagem e pensa ser outra criança
(semelhante a alguns animais que pensam estarem vendo, no espelho, apenas um outro da mesma
espécie); depois, ela entra em um período transitório, no qual tem dificuldade de compreender o que
significa aquela imagem que vê no espelho, semelhante ao que observamos em alguns cachorros
com inteligência superior. Por fim, passa a compreender que a imagem projetada é a dela, sendo
como o principal sinal dessa mudança a sua capacidade de observar um detalhe em seu rosto
refletido no espelho e tocar não o espelho, mas o próprio rosto. Ao alcançar essa fase, ela atravessa
a ordem simbólica, que surge com a aquisição da linguagem, como estrutura, e a intervenção do pai
ou do Nome do Pai (do ponto de vista freudiano, o Complexo de Édipo e o complexo de castração),
como lei associada ao real e ao imaginário. O real, aqui, constitui o que subsiste fora da
simbolização, e o imaginário é da ordem do inconsciente, que se expressa por meio do simbólico a
partir das experiências vividas pelo indivíduo.
NA PRÁTICA
A prática que traremos aqui será sobre a morte. Quando falamos desse tema com as crianças, o
processo é totalmente diverso daquele encontrado com adultos. Em geral, elas têm dificuldade de
compreender esse conceito, por demais objetivo e subjetivo ao mesmo tempo; mais precisamente, a
dificuldade reside na ideia de que alguém pode partir e nunca mais voltar.
Em meio à pandemia e nos hospitais, muitos pais se veem diante do desafio de tratar do
assunto com seus filhos, especialmente quando as crianças vivem diretamente as experiências de
perdas. Uma criança de três anos, por exemplo, ainda está em processo de desenvolvimento, e sua
compreensão a respeito da morte precisa ser discutida várias e várias vezes para que ela apreenda
um conceito que só o seria muito mais tarde. Tal como na investigação sobre “de onde vêm os
bebês?”, a criança que vivencia o luto também se encontra impelida a descobrir “o que é a morte?”.
Em um exemplo apresentado no hospital, uma criança associou a morte do irmão a um brinquedo
que quebrou, pois ambos não seriam restaurados, não podiam ser substituídos e, de alguma forma,
ela teria que aprender como lidar com aquela nova condição.
Um menino de 13 anos, à beira da morte por causa de um câncer, tentava compreender como
poderia aproveitar a vida que lhe restava e aprender algo novo se não lhe restava mais tempo. Além
disso, ele se preocupava sobre como poderia explicar à irmã mais nova por que não estaria com ela
no próximo aniversário, sem com isso criar uma dor que fosse insuportável na menina. E, estando
completamente fora do que se espera para uma criança de sua idade, decidiu chamar os pais e lhes
dizer que deveriam parar de brigar, que deveriam parar de se culpar e culpar os médicos pela
condição que ele se encontrava, pois isso não resolvia nada, eles sofreriam mais e o menino não
conseguiria partir em paz. Quando os pais se desculparam e lhe prometeram que aprenderiam a
conviver e que cuidariam bem da irmã, o menino se foi.
O amor que as crianças enfermas recebem nos leitos de hospital também é fundamental para a
continuidade do desenvolvimento psicossexual. Permitir a elas ter os mesmos hábitos de uma
criança saudável, usar roupas de sua idade, ser abraçadas e não viver em uma bolha (como
literalmente ocorreu com um menino americano que viveu 12 anos em uma bolha para não se
contaminar) são alguns dos exemplos. No passado, os bebês que nasciam eram levados para uma
sala isolada a fim de permitir à mãe um pouco de descanso. Depois, os pediatras observaram entre
as crianças uma expressiva diferença no sorriso e na capacidade de reagir ao outro quando eram
levadas para os berçários e quando podiam ficar ao lado das mães.
Outros experimentos que colocavam macacos de pelúcia perto de filhotes órfãosgeravam um
desenvolvimento superior em comparação com filhotes privados de qualquer contato físico. Assim,
o desenvolvimento psicossexual infantil é diretamente influenciado por questões genéticas e pelo
amor que recebemos.
FINALIZANDO
Nesta aula, fizemos uma breve apresentação sobre o texto “O ego e o id”, apresentamos a teoria
dos organizadores psíquicos de Spitz, as contribuições kleinianas e lacanianas para os estudos a
respeito de crianças. Por fim, na atividade prática trouxemos o tema da morte como o correlato para
as investigações infantis acerca da origem dos bebês.
Esperamos que você tenha aproveitado as discussões propostas aqui para conhecer um pouco
mais das origens da psicanálise e convidamos a continuar explorando esse campo do saber tão
envolvente como é a psicanálise.
REFERÊNCIAS
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crítica. São Paulo: EPU, 1984. p. 55-60.
BIRMAN, J. Freud e a interpretação psicanalítica. Rio de Janeiro: Relumé-Dumará, 1991.
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FREUD, S. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud
(1886-1899) – livro X, XI e XII. Rio de Janeiro: Imago, 1977.
GARCIA-ROZA, L. A. Introdução à metapsicologia freudiana. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995.
v. 1-3.
KLEIN, M. Inveja e gratidão. Rio de Janeiro: Imago, 1974.
_____. Psicanálise de crianças. Rio de Janeiro: Imago, 1932.
_____. Temas de psicanálise aplicada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1969.
LAPLANCHE, J.; PONTALIS, J. B. Vocabulário da psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2001.
MANONNI, M. A criança atrasada e a mãe. São Paulo: Martins Fontes, 1964.
MEZAN, R. Freud: a trama dos conceitos. São Paulo: Perspectiva, 1980.
PIAGET, J. O juízo moral na criança. São Paulo: Summus, 1932.
ROUDINESCO, E.; PLON, M. Dicionário de psicanálise. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro:
Jorge Zahar, 1998.
SPITZ, R. A. O primeiro ano de vida. São Paulo: Martins Fontes, 1979.
WINICOTT, D. O brincar e a realidade. Rio de Janeiro: Imago, 1975.

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