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Inovação e Competitividade Créditos Centro Universitário Senac São Paulo – Educação Superior a Distância Diretor Regional Luiz Francisco de Assis Salgado Superintendente Universitário e de Desenvolvimento Luiz Carlos Dourado Reitor Sidney Zaganin Latorre Diretor de Graduação Eduardo Mazzaferro Ehlers Diretor de Pós-Graduação e Extensão Daniel Garcia Correa Gerentes de Desenvolvimento Claudio Luiz de Souza Silva Luciana Bon Duarte Roland Anton Zottele Sandra Regina Mattos Abreu de Freitas Coordenadora de Desenvolvimento Tecnologias Aplicadas à Educação Regina Helena Ribeiro Coordenador de Operação Educação a Distância Alcir Vilela Junior Professor Autor Inserir nome Revisor Técnico Inserir nome Técnico de Desenvolvimento Inserir nome Coordenadoras Pedagógicas Ariádiny Carolina Brasileiro Silva Izabella Saadi Cerutti Leal Reis Nivia Pereira Maseri de Moraes Otacília da Paz Pereira Equipe de Design Educacional Alexsandra Cristiane Santos da Silva Ana Claudia Neif Sanches Yasuraoka Angélica Lúcia Kanô Anny Frida Silva Paula Cristina Yurie Takahashi Diogo Maxwell Santos Felizardo Flaviana Neri Francisco Shoiti Tanaka Gizele Laranjeira de Oliveira Sepulvida Hágara Rosa da Cunha Araújo Janandrea Nelci do Espirito Santo Jackeline Duarte Kodaira João Francisco Correia de Souza Juliana Quitério Lopez Salvaia Jussara Cristina Cubbo Kamila Harumi Sakurai Simões Katya Martinez Almeida Lilian Brito Santos Luciana Marcheze Miguel Mariana Valeria Gulin Melcon Mônica Maria Penalber de Menezes Mônica Rodrigues dos Santos Nathália Barros de Souza Santos Rivia Lima Garcia Sueli Brianezi Carvalho Thiago Martins Navarro Wallace Roberto Bernardo Equipe de Qualidade Ana Paula Pigossi Papalia Josivaldo Petronilo da Silva Katia Aparecida Nascimento Passos Coordenador Multimídia e Audiovisual Ricardo Regis Untem Equipe de Design Audiovisual Adriana Mitsue Matsuda Caio Souza Santos Camila Lazaresko Madrid Carlos Eduardo Toshiaki Kokubo Christian Ratajczyk Puig Danilo Dos Santos Netto Hugo Naoto Takizawa Ferreira Inácio de Assis Bento Nehme Karina de Morais Vaz Bonna Marcela Burgarelli Corrente Marcio Rodrigo dos Reis Renan Ferreira Alves Renata Mendes Ribeiro Thalita de Cassia Mendasoli Gavetti Thamires Lopes de Castro Vandré Luiz dos Santos Victor Giriotas Marçon William Mordoch Equipe de Design Multimídia Alexandre Lemes da Silva Cristiane Marinho de Souza Emília Correa Abreu Fernando Eduardo Castro da Silva Mayra Aoki Aniya Michel Iuiti Navarro Moreno Renan Carlos Nunes De Souza Rodrigo Benites Gonçalves da Silva Wagner Ferri Inovação e Competitividade Aula 01 Destruição criativa e vantagem competitiva Objetivos Específicos • Conhecer, de forma introdutória, a evolução conceitual da relação entre ciência, tecnologia e inovação, identificando os fatores que compelem as empresas a inovarem. Temas Introdução 1 O conceito de inovação 2 Tipos de inovação 3 A inovação estratégica 4 Manual de Oslo Considerações finais Referências Maikel Maciel Trennepohl Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 Introdução As organizações têm enfrentado um cenário mundial repleto de desafios, que exige delas uma atitude diferente e a busca constante pela diferenciação. As diversas funções de uma empresa, desde seus processos produtivos até o marketing e o relacionamento com o mercado, têm passado por profundas transformações. E, no cerne dessas mudanças profundas, está a inovação. A competitividade das empresas está fortemente atrelada aos seus aspectos de inovação e é por meio de um conjunto diferente de conhecimentos, ferramentas e competências que a competitividade pode ampliá-la. A inovação não consiste apenas na abertura de novos mercados; ela pode também significar novas formas de servir a mercados já estabelecidos e maduros (TIDD; BESSANT; PAVIT, 2008). Pense em empresas como a Amazon, que transformou o modo de vender viagens, música e livros, ou no e-Bay, que trouxe o leilão para a casa de pessoas comuns, ou, ainda, a urna eletrônica, famosa invenção brasileira, que permitiu que o Brasil tivesse a eleição mais informatizada do mundo, e, consequentemente, a apuração de votos mais rápida também. Nesse novo cenário de mudanças aceleradas e de tantas incertezas, a capacidade de renovar, incrementar e melhorar seus produtos por novas atualizações é o que diferencia a empresa de seus concorrentes. Nesse cenário de alta competitividade, as habilidades de destruir e renovar o conhecimento e aprimorar e aprofundar a ciência irão definir o sucesso de uma organização, de um setor ou de um país. Vamos, então, descobrir a importância que a inovação tem para o profissional da administração! 1 O conceito de inovação O conceito de inovação remete, em primeiro plano, ao sentido da mudança, mas esse conceito deve ser ampliado quando tratamos de organizações. As organizações precisam continuamente inovar. Segundo Pearson (2012), a empresa que não inovar, mais cedo ou mais tarde, irá sofrer as consequências dessa decisão – a inovação é, portanto, uma questão de sobrevivência para a organização! A evolução ocorrida nas últimas décadas inaugurou uma nova etapa do desenvolvimento humano, refletido nitidamente no ambiente organizacional. A velocidade das transformações ocorridas resultou em novos entrantes nos mercados maduros (como o automotivo e o aéreo) e também criou mercados inteiramente novos (como de Tecnologia da Informação e mídia). As empresas, então, passaram a buscar a diferenciação de seus concorrentes, surgindo fortemente a necessidade da inovação. Mais do que nunca, inovar significa quebrar regras, paradigmas e renovar o conhecimento até então dominante. Nesse ambiente de constante transformação, essa condição tem cada vez mais importância. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 Quando se fala em inovação, é primordial falar de Joseph Schumpeter. O professor Schumpeter realizou importantíssimos estudos na década de 1950 e é, hoje, considerado por muitos estudiosos como o pai da inovação. Ele cunhou dois importantes conceitos: o de destruição criativa e o de ciclo econômico (PEARSON, 2012). Segundo Pearson (2012), a destruição criativa é o processo de destruir constantemente velhos modelos e substitui-los por novos. Quando uma inovação prevalece fortemente em um setor, este se torna líder dentro da economia, empresas são criadas e muitos empregos gerados, e, após um período de prosperidade, esse líder dá lugar a outro, gerando, assim, os chamados ciclos econômicos, também representados por ondas. É crucial, portanto, abrir mão daqueles conhecimentos que já existem, combinando o novo e o velho de diferentes formas. Tidd, Bessant e Pavit (2008) dão alguns exemplos: as linhas aéreas de baixo custo, a compra de seguros por modalidade de linha direta, entre outros. Você sabia que, além da urna eletrônica, o Brasil tem outras diversas invenções registradas e que fazem sucesso no mundo todo? Gostaria de conhecê-las? Então, visite a Midiateca da disciplina e confira; você provavelmente já teve contato com todas elas. 2 Tipos de inovação A inovação pode ser separada em diferentes categorias de classificação. Pearson (2012) apresenta os principais tipos de inovação, os quais são classificados da seguinte forma: segundo a área de negócio impactada; segundo o grau do impacto provocado; segundo a relação com as necessidades do mercado; e segundo o grau de controle que a empresa exerce sobre o processo. Outros autores, como Tidd, Bessant e Pavit (2008), apresentam os tipos de inovação de forma mais genérica: inovação de produto; inovação de processo; inovação de posição; e inovação de paradigma. Nesta aula, vamos focar nos tipos apresentados por Pearson, os quais também alcançam os tipos propostos pelos outros autores. É importante, inicialmente, diferenciar a inovação de produtoda inovação de processo. A inovação de produto é a apresentação de um bem ou serviço, novo ou melhorado, quanto aos seus usos ou às suas características. A inovação de processo é a apresentação de um método de trabalho, ou de produção, que seja significativamente melhorado ou inteiramente novo (PEARSON, 2012). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 2.1 Classificação segundo a área do negócio Um documento amplamente utilizado e que serve de guia para assuntos de inovação é o Manual de Oslo. Esse manual está na sua terceira edição, desde 2005, e evoluiu a ponto de considerar as inovações do setor de serviço (que não são de ordem tecnológica); portanto, o manual trata, também, de inovações de marketing e inovações organizacionais. Pearson (2012) explica as diferenças desses dois tipos de inovação. A inovação de marketing é a introdução de um método cuja diferenciação está na concepção do produto ou da embalagem, no posicionamento do produto no mercado, na sua precificação ou na forma de sua promoção. Portanto, visa abrir novos mercados ou aumentar as vendas do produto por meio de um reposicionamento da empresa, sempre buscando atender ou superar as expectativas dos clientes e consumidores. A inovação organizacional é a introdução de um novo método organizacional nas práticas da empresa, na sua forma de relacionamento com o público externo ou no próprio local de trabalho. Figura 1 – Tipos de inovação segundo o Manual de Oslo Inovações de produto Inovações de processo Inovações de marketing Inovações organizacionais Inovações tecnológicas Inovações não tecnológicas Fonte: Pearson (2012, p. 78). A inovação organizacional é, muitas vezes, chamada de inovação da gestão; por sua vez, a inovação de marketing é chamada inovação de negócios. As inovações mais tradicionais (inovações tecnológicas) são, principalmente, em produto e processo. 2.2 Classificação segundo o grau de impacto A segunda forma de classificação da inovação está relacionada ao grau de impacto provocado, que podemos considerar ser relativo ao grau de novidade envolvido na inovação. Nessa classificação, os tipos de inovação dizem respeito à inovação incremental e à inovação radical. Existem desde inovações de pequenas melhorias incrementais até mudanças radicais, que podem transformar inteiramente a forma que utilizamos as coisas. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 Tidd, Bessant e Pavit (2008) lembram que as mudanças são comuns nos negócios, mas, muitas vezes, são tão radicais que podem mudar a própria base da sociedade, por exemplo, o uso da energia a vapor na Revolução Industrial, e, mais recentemente, as inovações nas tecnologias de comunicação e informação. Entende-se inovação incremental como aquela que introduz melhorias ou desenvolvimento gradual de um produto, processo ou uma prática organizacional. O conjunto de inovações incrementais ocorridas ao longo do tempo é chamado de melhoria contínua. Inovação radical é aquela que introduz mudanças profundas em produtos, processos e serviços e resulta em algo completamente novo, podendo, inclusive, criar novos mercados ou novos setores na economia (PEARSON, 2012). O exemplo citado por Pearson (2012) facilita o nosso entendimento. Figura 2 – Inovações incrementais x inovações radicais Motor 1.6 Motor 2.0 Videocassete de 4 cabeças Videocassete de 6 cabeças Hambúrguer Hambúrguer com queijo Inovações incrementais Motor comum Motor flex Videocassete DVD player Lanchonete comum Delivery Inovações radicais O exemplo enfatiza que a inovação pode ser sensivelmente percebida ou inteiramente transformadora, criando novos mercados e negócios. Você conhece o Manual de Oslo? Por que ele é tão importante? O Manual de Oslo é, talvez, a mais importante publicação da área de inovação. Esse manual é uma edição conjunta da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e do Gabinete de Estatísticas da União Europeia (Eurostat) e seu objetivo é estabelecer diretrizes internacionais para a coleta e a intepretação de dados sobre inovação. Para saber mais sobre ele, visite a Midiateca da disciplina. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 2.3 Classificação segundo a relação com o mercado Outra classe de inovação é aquela que considera as expectativas e as necessidades do consumidor final. Pearson (2012) apresenta alguns conceitos interessantes que relacionam a inovação e a necessidade do mercado: market pull e technology push. Uma inovação é market pull quando o mercado demanda tal inovação, por exemplo, melhorias em um celular que já existe e que tem forte apelo no mercado consumidor. Portanto, geralmente, são inovações incrementais. Por outro lado, uma inovação é techology push quando sai de uma pesquisa, geralmente com cunho científico, e busca fascinar o mercado com uma inovação completamente inovadora. Nesse caso, geralmente, as inovações são radicais. 2.4 Classificação segundo o grau de controle sobre o processo Um tipo mais recente de inovação é aquele que classifica os conceitos de open innovation (inovação aberta) e close innovation (inovação fechada). A inovação fechada pode ser considerada aquela inovação realizada dentro dos limites da empresa, que exigem dela a manutenção de profissionais qualificados, o domínio de todo o processo de pesquisa e o desenvolvimento (desde a concepção até a comercialização), além de manter o pioneirismo, sendo a primeira a lançar o produto, e, também, a obrigação de arcar com proteção da propriedade intelectual dessa inovação (PEARSON, 2012). A inovação aberta é um modelo inverso ao da inovação fechada e pode ser considerado um fenômeno novo da sociedade e das organizações. Nesse modelo, as empresas acompanham as mudanças ocorridas no mercado de trabalho, em que profissionais trabalham dinamicamente, muitas vezes cooperando em projetos especiais, e que, não necessariamente, querem passar a vida na mesma empresa. Esses profissionais são facilmente encontrados em áreas de tecnologia, na indústria do entretenimento e mídia, e, mais recentemente, nas áreas sociais e culturais. Pearson (2012, p. 81) cita, ainda, que a inovação aberta trabalha com as seguintes ideias: • o conhecimento interno e externo são aproveitados da mesma maneira, portanto, o conhecimento gerado pode ser vendido ou licenciado, da mesma forma que a empresa pode comprar ou usar uma inovação mediante a licença de propriedade intelectual da empresa parceira; • a ampliação de mercado da empresa pode ser facilitada pela troca de conhecimento e pelo estabelecimento de parcerias. A P&D de novos produtos e a comercialização da inovação podem ser feitas fora da empresa – é possível trabalhar com produtos criados e desenvolvidos por outras empresas; • o foco do sucesso da inovação pode estar no modelo de negócio, e não mais no pioneirismo da empresa em lançar a inovação no mercado. Portanto, o lucro e o Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 bom resultado serão alcançados pelas empresas que utilizarem melhor os recursos (internos e externos) acessíveis. A inovação aberta, portanto, tem transformando-se rapidamente no modelo predominante das organizações, visto a facilidade de relacionar diferentes conhecimentos em prol de objetivos comuns, acelerando o processo de geração de ideias e produtos e possibilitando a criação imediata de novos negócios e mercados. 3 A inovação estratégica A inovação estratégica é caracterizada pelo rápido processo de mudanças das tecnologias, dos mercados, das necessidades dos consumidores e, até mesmo, do empoderamento de grupos e países em desenvolvimento. No cerne da inovação, existe a convergência de conhecimentos distintos e de negócios diversos; como exemplo, cita-se a combinação de mídia, telefonia, sistemas embarcados, computação e internet. Saber reinventar-se para atenderàs necessidades é o foco da inovação estratégica. Govindarajan e Trimble (2006) mostram que a inovação estratégica pode redefinir clientes potenciais e, não raro, pode significar o redesenho da arquitetura da cadeia de valor de um setor ou de uma empresa. Esses autores estudaram profundamente o papel da inovação estratégica e a relacionaram com outros tipos de inovação, concluindo que esses outros tipos exigem diferentes métodos gerenciais ao longo de três importantes dimensões: diferenças em despesas, prazo de maturação e grau de incerteza. Ou seja, as inovações estratégicas quase sempre requerem os investimentos mais elevados, por períodos de tempos mais prolongados, e com os resultados mais incertos e indecifráveis, não havendo garantia de que a inovação irá prevalecer e atingir o mercado. Quando os setores se tornam maduros e as empresas ficam ultrapassadas, o crescimento nos mercados já instituídos acontece, geralmente, por meio da aquisição de concorrentes, o que pode, muitas vezes, inviabilizar a expansão da empresa. Nesse caso, desenvolver a competência de alcançar a inovação estratégica torna-se fundamental para o negócio. A inovação estratégica pode conduzir ao crescimento e à inovação disruptiva no setor, conforme verificamos na Figura 3. Figura 3 – A inovação estratégica pode gerar crescimento disruptivo Crescimento e renovação disruptivos Crescimento rápido Maturidade Lançamento Fonte: Govindarajan e Trimble (2006, p. 9). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 As empresas que buscam o caminho da inovação estratégica obtêm resultados expressivos por meio do crescimento e da renovação disruptiva, alcançando curvas de ciclo de vida completamente novas (GOVINDARAJAN; TRIMBLE, 2006). Por meio da inovação estratégica, as empresas conseguem promover mudanças e transformações importantes, mantendo-se à frente de concorrentes e dificultando a chegada de novos entrantes no mercado, alcançando, em muitos casos, o lucro constante como novo modelo de negócio. 4 Manual de Oslo O Manual de Oslo é a fonte internacional mais importante de diretrizes para a coleta e o uso de dados sobre as atividades de inovação. O manual está na sua terceira edição e foi atualizado para ter em conta os progressos realizados na compreensão do processo de inovação, a experiência adquirida com o curso anterior de pesquisas de inovação, a extensão do campo de investigação a outros setores da indústria e as últimas revisões de classificações de padrão internacional. Elaborado pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD), o Manual de Oslo visa estabelecer um ponto de referência para pesquisas sobre inovação. A definição do Manual estabelece uma distinção entre inovação “nova” e “melhorada”. O documento sugere, também, que as melhorias que são puramente ideias criativas ou melhorias estéticas não devem ser consideradas inovação. A lição básica do extenso trabalho do Manual de Oslo é a de que “inovação” não é simples de ser definida com precisão. Inovação é, portanto, claramente uma noção muito mais ampla do que a P&D e, portanto, é influenciada por uma vasta gama de fatores, alguns dos quais podem ser influenciados, por exemplo, pela política. A inovação pode ocorrer em qualquer setor da economia, incluindo os serviços do governo, como saúde ou educação. No entanto, a medida de desempenho atual aplica-se muito fortemente à inovação empresarial, embora a inovação também seja importante para o setor público. Considera-se a aplicação e a extensão da metodologia de inovação no setor público e o seu uso, também, para os objetivos sociais do mundo (OECD, 2005). Considerações finais Lidamos com um mundo em constante transformação e a inovação é o melhor sinônimo da palavra mudança; portanto, inovar significa quebrar regras, paradigmas e renovar o conhecimento Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 10 até então existente. Um dos maiores autores da área foi Joseph Schumpeter, que cunhou dois importantes conceitos: a destruição criativa, como sendo o processo de destruir constantemente velhos modelos e substitui-los por novos; e os ciclos econômicos, que significam a alternância de empresas ou de tecnologias, oriundas dos frutos gerados pela inovação. As inovações podem ser classificadas nos seguintes tipos: segundo a área do negócio – inovação de produto, de processo, de marketing ou organizacional; segundo o grau de impacto que provocam – inovação incremental ou radical; segundo sua relação com as necessidades do mercado – especialmente definidas nas categorias market pull (puxada pelo mercado) ou technology push (empurrada pela demanda); segundo o grau de controle sobre o processo – inovação fechada (maior controle sobre o processo) ou aberta (menor controle). Frente a esse último e novo modelo (inovação aberta), o que está surgindo no mundo dos negócios é um modelo híbrido, que combina a inovação aberta e a inovação fechada. O conhecimento gerado e adquirido pela inovação aberta associa-se ao conhecimento gerado dentro da empresa, e, assim, ela pode inovar com recursos de fora, buscando ajustá-los e combiná-los com seus recursos internos. A inovação estratégica significa a busca da organização por combinar o domínio distinto de tecnologias para atender necessidades de mercados e consumidores, muitas vezes redesenhando a arquitetura da cadeia de valor. A inovação estratégica pode, portanto, conduzir ao crescimento e à inovação disruptiva no setor da empresa; assim, nesse caso, desenvolver a competência de alcançar a inovação estratégica torna-se fundamental para o negócio. Referências ACADEMIA PEARSON. Criatividade e inovação. Pearson, 2012. GOVINDARAJAN, V.; TRIMBLE, C. Os 10 mandamentos da inovação estratégica: do conceito à implementação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. ORGANIZAÇÃO PARA A COOPERAÇÃO E DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO (OECD). Manual de Oslo: Proposta de Diretrizes para a Coleta e Interpretação de dados sobre Inovação Tecnológica. 3. ed. 2005. TIDD, J.; BESSANT, J.; PAVITT, K. Gestão da inovação. Porto Alegre: Bookman, 2008. Inovação e Competitividade Aula 02 Inovação como um processo de gestão Objetivos Específicos • Avaliar a importância do tema “inovação” dentro das tarefas da administração de uma empresa. Temas Introdução 1. A inovação como processo para a organização 2 Modelo de processo de inovação 3 Consequências da visão parcial do processo de inovação Considerações finais Referências Maikel Maciel Trennepohl Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução Um dos grandes desafios das organizações em todo o mundo é gerenciar o processo por trás de uma inovação. As inovações acontecem em seus mais diferentes tipos, mas, o que permite o seu nascimento e a sua aplicação prática é o correto uso do processo de gestão que segue antes, durante e após o nascimento da inovação. Nesta aula, iremos acompanhar como o processo de gestão é capaz de oferecer à empresa condições para desenvolver e implementar a inovação na sua forma mais abrangente, forma esta que permeia todos os passos, desde a busca de oportunidades e ameaças até a sua implementação e sustentabilidade. Portanto, inovar é, também, saber fazer uso prático do conhecimento e das ideias que nascem a todo instante, e o sucesso da inovação é desenvolver e explorar conhecimentos, além de alcançar mercados e tornar-se importante para a sociedade, para as empresas e para o mundo. Tidd, Bessant e Pavit (2008) lembram que é fácil obter sucesso com uma inovação uma única vez, mas, que repetir a inovação continuamente é muito mais difícil – depende muito mais do que apenas de sorte e de um mercado receptivo. Conheceremos os estágios do modelo de processo de inovação e as influências contextuais importantes no processo de inovação. Vamos começar, então? 1. A inovação como processo paraa organização As organizações desenvolvem variados processos para viabilizar suas atividades, desde a linha de produção, passando pelos processos administrativos, até seus processos de venda, faturamento e atendimento ao cliente, por exemplo. Quanto aos processos relacionados à inovação, estes podem ser variados, sendo que cada empresa, dentro do seu contexto, desenvolve seus processos, adaptando-se às circunstâncias do seu negócio. Tidd, Bessant e Pavit (2008) explicam que, independentemente da natureza, da escala ou do grau de novidade da inovação, as organizações inovadoras possuem, geralmente, processos básicos recorrentes quanto à inovação. Esses autores ainda comentam que há dois fatores centrais a respeito da inovação: a inovação é um processo, não um evento isolado, e precisa ser gerenciada como tal; a inovação pode ser gerenciada – pois as influências sobre esse processo podem ser manipuladas para atingir o resultado. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 Assim, a organização precisa criar e desenvolver práticas que estejam alinhadas e integradas, a fim de alcançar habilidades competitivas diferenciadas, como o aperfeiçoamento de processos melhorados ou a introdução de novos produtos no mercado, bem antes da concorrência. Para ilustrar bem a importância da necessidade de realizar uma gestão eficiente quanto ao processo de inovação, Tidd, Bessant e Pavit (2008) lembram que várias empresas conseguiram desenvolver habilidades de gestão de partes do processo de inovação, mas falharam em outras partes. Como exemplo, algumas empresas são notadamente reconhecidas na área de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento) e inovação tecnológica, mas fracassam em relacionar a inovação ao consumidor final ou em introduzi-la no mercado. Por exemplo, o setor farmacêutico, que investe bilhões de dólares em novas descobertas, mas nem sempre consegue introduzir o produto no mercado; ou o setor de alimentos, que investe em novas formulações para novos sabores e texturas ou cria produtos inteiramente novos, mas nem sempre consegue agradar o consumidor final. Figura 1 – Inovação como processo A inovação como processo deve ser a forma dominante para a gestão das organizações e nunca deve ser vista como uma sequência linear de atividades isoladas, tampouco deve representar um modelo engessado dentro das empresas. A inovação parte, geralmente, de algumas situações, como um impulso tecnológico, em que melhorias do produto realizadas no P&D acharam seu caminho até o mercado, ou o caminho inverso, em que alguma necessidade de mercado gerou novas soluções – nesse caso, a necessidade dá origem à invenção. Assim, a inovação deve ser vista como um conjunto de fenômenos complexos, norteados pela incerteza, pelo alto risco e o caos. No entanto, apesar dessa natureza não linear da inovação, é possível estabelecer um modelo de processo básico de gestão da inovação, o qual utilizaremos nesta aula, baseado nos estudos de Tidd, Bessant e Pavit (2008). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 2 Modelo de processo de inovação Muitas organizações pautam seus processos em velhos e conhecidos padrões internos. A utilização do “jeito de fazer as coisas aqui” pode ser potencialmente nociva quando a empresa está inserida no contexto da busca por novas soluções ou pela necessidade de entrar em novos mercados, visando aumentar sua abrangência. É urgente e necessário entender o momento que práticas devem ser destruídas ou atualizadas a fim de permitir que novas sejam criadas. Uma organização alcança o sucesso no processo de inovação quando consegue compreender e reconhecer quais práticas podem colaborar na melhor gestão da inovação. Tidd, Bessant e Pavit (2008) recordam que o sucesso real de uma inovação não é aquele que ocorre uma única vez e de curto prazo, mas sim aquele que surge por meio de crescimento sustentado na adaptação contínua. Portanto, o sucesso é relacionado, de forma mais abrangente, a todo o processo de inovação e à sua capacidade de oferecer vantagens para o crescimento sustentável da organização, conforme percebemos na Figura 2. Figura 2 – Modelo de processo de inovação Aprender Buscar Selecionar (Adquirir, Executar, Lançar, Sustentar) Implementar Fonte: Tidd, Bessant e Pavit (2008, p. 109). Esse modelo sugerido por Tidd, Bessant e Pavit (2008) é um modelo simplificado, mas de grande utilidade, especialmente porque focaliza nos principais aspectos da gestão do processo de inovação, como veremos a seguir, em cada fase desse modelo. 2.1 Fase de procura A primeira fase do modelo é a fase da procura (da busca) e envolve a captação de sinais de mudança que se apresentam como necessidades do mercado ou dos consumidores e usuários finais ou como oportunidades tecnológicas identificadas pela organização. A inovação Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 surge por meio da relação entre diferentes fatores, como a pressão da concorrência, políticas estabelecidas e constante mudança nas necessidades de usuários finais. Para que compreenda o ambiente em que está inserida, é de extrema importância que a organização mantenha um aparato amplo e aprimorado de ferramentas por meio do qual será capaz de identificar, selecionar e processar as informações provenientes desse ambiente revolto e desordenado (TIDD; BESSANT; PAVIT, 2008). Portanto, é fundamental que a organização mantenha a clara compreensão dos fatores que modelam a seleção desse ambiente, os quais devem estar fortemente alinhados às suas estratégicas corporativas. 2.2 Fase de seleção A fase da seleção é primordial para que a inovação tenha o alcance e a amplitude que a empresa deseja. Essa seleção deve estar vinculada às estratégias gerais da organização e associada à competência técnica ou mercadológica da empresa. Tidd, Bessant e Pavit (2008) afirmam que o objetivo dessa fase é interpretar tais competências na forma de um conceito de inovação que possa ser aumentado dentro da organização. Três tipos de informação alimentam essa fase: • Fluxo de sinais disponíveis. • Base tecnológica atual. • Consistência com o negócio geral. O primeiro é o fluxo de sinais possíveis sobre tecnologias e mercados disponíveis para a empresa atuar. Esses sinais chegam rapidamente e a todo instante, e devem ser interpretados pela organização, sempre considerando o risco e o retorno possíveis. O segundo é a base tecnológica atual da empresa, é aquilo que ela sabe fazer bem e com competência. Essa competência pode estar centrada em pessoas ou sistemas ou em produtos e equipamentos específicos, sendo, geralmente, o “segredo” da empresa, aquilo que ela é capaz de fazer de forma melhor do que as concorrentes. O fato mais importante nessa fase é reconhecer a situação atual da empresa versus aquilo que ela está propondo mudar. O terceiro mantém um vínculo muito próximo com a estratégia do negócio, afinal, mesmo as empresas que tenham a fase dois muito bem estabelecida podem buscar desenvolver novas áreas de competência. A proposta de mudança deve estar atrelada à melhoria de todo o negócio – é fundamental alinhar a estratégia geral do negócio à estratégia de inovação. Em outras palavras, a empresa deve buscar selecionar as inovações mais adequadas à sua base de competência. Como exemplo, a Microsoft, famosa pelo seu sistema operacional Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 Windows, está encontrando dificuldades em entrar no segmento móvel e de nuvem, tendo que enfrentar concorrentes consolidados no segmento, como IBM, Apple, Google e Amazon (WHARTON, 2015), mostrando, claramente, a dificuldade em adaptar-se a um negócio que nunca foi a sua principal competência técnica ou mercadológica. 2.3 Implementação Realizada a etapa da seleção e tomada a decisão por qual estratégia seguir, é necessário transformar o planejamento em implementação– uma mudança no processo, um novo serviço ou produto, uma modificação no modelo de negócio. A fase de implementação é determinante para a construção do conhecimento em torno da inovação. Há um alto grau de incertezas e riscos nas etapas iniciais da implementação, pois, muitas vezes, não é conhecida a demanda de mercado, a legislação e a reação da concorrência; além disso, a viabilidade técnica ainda está em plena construção. À medida que a fase de implementação avança, as incertezas são substituídas por conhecimento, e, ao final, a inovação deve alcançar o contexto desejado, como o lançamento de um produto em um mercado interno ou externo, e o conhecimento adquirido, q u e é utilizado para o aperfeiçoamento daquela inovação, ou, ainda, que servirá de aprendizagem para novas implementações, conforme podemos perceber na Figura 2. 2.3.1 Aquisição de conhecimento Essa fase é marcada pela combinação de conhecimentos já existentes e novos, que estão dentro ou fora da organização, visando oferecer uma solução para o problema (TIDD; BESSANT; PAVIT, 2008). Essa fase envolve o conhecimento tecnológico (por meio da P&D) e a transferência de tecnologia. Existe um claro propósito de adquirir conhecimento, visando ao adequado ambiente para a execução do projeto da inovação. Segundo Tidd, Bessant e Pavit (2008), o grande desafio de gerenciar essa fase é o de criar condições para que a criatividade floresça e contribua para a inovação mais eficaz, além de usar e abusar do conceito de ideação, explorando as mais variadas ideias e possíveis soluções para o problema que a inovação pretende resolver. O Design Thinking é um importante conceito que apoia a ideação, o processo de desenvolvimento e a comunicação das novas ideias. Você sabe o que é Design Thinking? Esse conceito foi criado pelo CEO da empresa Ideo e propõe caminhos para pensar o produto fora dos modelos tradicionais. Quer conhecer um pouco mais a respeito do Design Thinking? Então, visite a Midiateca da disciplina e acesse o site indicado; após a leitura, reflita sobre a importância de conhecer modelos que ajudam na concepção de produtos e processos inovadores. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 Para muitos negócios, especialmente as pequenas empresas ou startups, há uma grande dificuldade em gerar pesquisa e desenvolvimento internos, em função dos recursos limitados inerentes aos pequenos negócios. Mesmo assim, essas empresas podem desenvolver e gerar inovação tecnológica por meio de parcerias e alianças estratégicas. Elas devem manter uma rede externa de contatos e relacionamentos capazes de contribuir para seus projetos inovadores, sendo que a habilidade de cada empresa em manter e adquirir esse conhecimento externo será sempre determinante no sucesso de alcance da inovação. 2.3.2 Execução do projeto A parte central do modelo de processo de inovação está na execução do projeto. É nessa fase que é despendida a maior parte do tempo e dos custos relativos ao desenvolvimento da inovação. Tidd, Bessant e Pavit (2008) recordam que muito do processo de execução do projeto consiste na combinação de diferentes conhecimentos de grupos e indivíduos que possuem experiências diversas. Além disso, essa fase é caracterizada por uma série de situações imprevistas nas áreas técnicas e de mercado, que são gradualmente conhecidas à medida que o projeto é testado e validado. Um fator de grande importância e que deve ser considerado na fase de execução do projeto de inovação é a interação entre as atividades de marketing e funções técnicas. Por exemplo, no desenvolvimento de um produto, são consideradas diversas atividades, como o marketing, o design, o desenvolvimento e a fabricação, o controle de qualidade, retornando novamente para o marketing. É importante que, no processo de execução, seja considerado o envolvimento de usuários ou daqueles que serão impactados pela inovação. Muitas inovações acabam fracassando, pois a organização não consegue interagir com o público-alvo da inovação e acaba por criar especificações inadequadas às necessidades dos usuários finais (TIDD; BESSANT; PAVIT, 2008). 2.3.4 Lançando a inovação A preparação do mercado em que o produto será introduzido é o foco da fase de lançamento da inovação. À medida que são definidas as soluções técnicas do produto ou processo, é fundamental investir na preparação do mercado antes do lançamento. De acordo com Tidd, Bessant e Pavit (2008), esse processo consiste, muitas vezes, na coleta de informações sobre as necessidades reais ou a antecipação das necessidades do consumidor final e a introdução dessas informações no processo de desenvolvimento do produto. É, portanto, a fase de teste da inovação, e o objetivo, aqui, é atender completamente às expectativas do público-alvo, pois somente quando o mercado-alvo toma a decisão de adotar a inovação é que o processo da inovação é completado (TIDD; BESSANT; PAVIT, 2008). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 Por outro lado, o sucesso do lançamento de inovações internas (de processo) demanda cuidados na gestão das mudanças, e a organização deve dirigir esforços no processo de comunicação e colaboração dos seus trabalhadores, buscando minimizar a resistência às mudanças (especialmente em casos de troca ou atualização de sistemas e de renovação tecnológica da empresa). 2.3.5 Aprendizagem e reinovação O ciclo precisa se reiniciar, e o estímulo para isso é o lançamento da inovação. A última fase do processo é a reinovação; então, podemos entender que, quando a mudança ou introdução de um produto ou processo falhar, é possível aprender o que é preciso melhorar para a próxima vez. Em muitos casos, quando há sucesso no lançamento da inovação, produtos são continuamente melhorados e novas gerações são aprimoradas, como é o caso do famoso celular Iphone, da empresa Apple, que alcança recorde de vendas a cada nova geração lançada no mercado. Na visão de Tidd, Bessant e Pavit (2008), a importância do aprendizado é identificar as lições aprendidas, sejam de sucesso ou fracasso, e usá-las para gerar ou melhorar novas gerações da inovação. Dessa forma, é primordial que as organizações tenham a capacidade de absorver e compreender o conhecimento adquirido com o processo de inovação, tornando possível a retroalimentação de informação mais o conhecimento, gerando, assim, valor agregado ao seu negócio. 3 Consequências da visão parcial do processo de inovação O processo de inovação deve ser visto além da mera invenção. O processo de inovação, de modo geral, pode ser entendido como a aceitação do produto ou processo pelo público-alvo (ou mercado-alvo). É importante ressaltar que o modelo mental não pode ser restrito ou limitado, caso contrário, a abordagem da gestão do processo de inovação também será limitada. Tidd, Bessant e Pavit (2008) salientam a importância de conseguir lidar com fatores essenciais na condução da inovação pelo desenvolvimento tecnológico e mercadológico, necessário para atingir o sucesso da sua adoção. São consequências da visão parcial do processo de inovação: • ver a inovação apenas como um produto ou processo sem compreender a relação entre ambos – visão parcial da inovação; • ver a inovação como um processo de P&D, em que o empurrão tecnológico justifica prover recursos e fundos somente para a pesquisa, sem focar na necessidade do usuário; • ver a inovação apenas como grande e de ruptura sem perceber ou entender o potencial da inovação incremental; Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 • ver a inovação como uma mudança simples e isolada em vez de percebê-la como parte de um sistema mais abrangente. Uma vez que a organização compreende o resultado dessa visão parcial, deve agir no sentido de minimizar seus riscos, cabendo a ela aperfeiçoar seu processo continuamente para não sofrer as consequências de decisões erradas. Ainovação deve ser compreendida como uma estratégia de todo o negócio, responsável pelo crescimento e pela sustentabilidade da organização. Considerações finais O processo de gestão da inovação é amplo e complexo e deve ser tratado como um fator estratégico para o sucesso do negócio da empresa. O processo de inovação pode ser entendido por meio de um modelo que considera as seguintes fases: a busca, a seleção, a implementação (que contém a aquisição, a execução, o lançamento e a sustentação) e, finalmente, a aprendizagem. A fase de busca é aquela que analisa os cenários externo e interno para identificar oportunidades e ameaças para a mudança. A seleção é a definição da visão estratégica de como a organização pode desenvolver-se melhor, por meio da escolha do caminho certo. A fase de implementação não pode ser considerada um evento isolado e, como diz respeito a traduzir o potencial da ideia em algo novo, deve dar atenção aos seus subprocessos. A aquisição do conhecimento irá possibilitar o desenvolvimento da inovação. A execução dos projetos exige da organização alta capacidade de organização para atingir objetivos e resolver problemas. O lançamento da inovação no mercado-alvo e a atenção ao seu processo de adoção e introdução devem ser acompanhados com muito cuidado pela empresa. A sustentação da adoção da inovação pelo mercado a longo prazo deve ser seguida de perto pela organização, buscando sempre corrigir eventuais desvios por meio da reinovação e da melhoria da inovação. Por fim, a aprendizagem possibilita à organização aprender e melhorar continuamente seu processo, por meio da construção de uma sólida base de conhecimentos e experiências, alimentando, dessa maneira, todo o processo, levando a empresa a melhorar continuamente seus produtos, serviços e suas inovações. Toda organização deve conhecer profundamente o seu processo de inovação, pois este se torna uma oportunidade para mudanças e melhorias ou para o aperfeiçoamento dos produtos e processos já existentes. Esse desafio é inerente a toda a organização e deve ser sempre orientado por uma visão estratégica, tendo a participação e o compromisso da alta direção como fatores determinantes para sua implementação. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 10 Referências TIDD, J.; BESSANT, J.; PAVITT, K. Gestão da inovação. Porto Alegre: Bookman, 2008. WHARTON. University of Pennsylvania. O desafio de Nadella é reinventar a produtividade e a Microsoft. Disponível em: <http://www.knowledgeatwharton.com.br/article/o-desafio-de- nadella-e-reinventar-produtividade-e-microsoft/>. Acesso em: 21 fev. 2015. Inovação e Competitividade Aula 03 Modelo de estratégia de inovação Objetivos Específicos • Identificar um dos modelos conceituais de inovação. Temas Introdução 1. Estratégias racionalista e incrementalista 2 Análise competitiva na inovação Considerações finais Referências Maikel Maciel Trennepohl Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução As empresas de todos os lugares buscam, diariamente, encontrar a estratégia mais adequada para o seu modelo de negócio. Definir e implantar uma estratégia de inovação empresarial está na pauta de muitos executivos de hoje, mas, dado o cenário complexo e incerto, é imprescindível que a organização adote a estratégia mais certa para o seu negócio. Portanto, mobilizar tecnologias e definir os objetivos da estratégia empresarial estão na agenda dos executivos. As incertezas inerentes ao futuro e as dificuldades encontradas no presente devem estar no plano estratégico de toda organização, em especial daquelas que praticam a inovação no seu dia a dia. Para maximizar a participação da empresa no atual cenário competitivo, os líderes devem considerar as implicações de suas estratégias para a gestão da empresa, com especial foco na aprendizagem corporativa e com a noção de que a prática gerencial é dificilmente replicável. Tidd, Bessant e Pavitt (2008) preveem que, sob condições de mudanças e de alta complexidade dos negócios – portanto, as condições para a gestão da inovação –, não há uma “receita de bolo” que seja aplicável facilmente para a prática da gestão eficaz, sendo esta, portanto, uma das razões para as variações em formas de gestão. Vamos, então, analisar os principais tipos de abordagens estratégicas, a relação entre tecnologia e análise competitiva, e, finalmente, a avaliação da estrutura proposta por Michael Porter. 1. Estratégias racionalista e incrementalista Os estudos acerca da estratégia empresarial passaram a ganhar força no fim da década de 1950. A partir de então, grandes nomes surgiram no campo da estratégia; em especial, três autores foram muito importantes, pois ajudaram a construir os pilares dos estudos de estratégia. Esses autores influenciaram, por meio de seus modelos, sendo eles: a teoria racionalista, sendo Igor Ansoff o seu principal estudioso, pai da famosa Matriz de Ansoff; a teoria incrementalista, representada pelo professor Henry Mintzberg; e o conhecido modelo das cinco forças competitivas, do professor de Harvard, Michael Porter. A estratégia de inovação tecnológica pode, tipicamente, adotar duas abordagens: a abordagem racionalista e a abordagem incrementalista, como veremos a seguir. 1.1 Estratégia racionalista O modelo de estratégia racionalista tem influência na prática militar. Essa abordagem estratégica facilita a definição do cenário competitivo em que a organização está inserida, a Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 visualização de mudanças que estão à frente e ajuda a empresa a ter foco no longo prazo, garantindo que as ações e os objetivos sejam coerentes, mesmo nas empresas que estão geograficamente espalhadas ou especializadas por funções. Entretanto, Tidd, Bessant e Pavitt (2008) ressaltam que os objetivos corporativos são diferentes dos militares; também é difícil fazer uma análise realista da empresa. Por exemplo, um objetivo empresarial seria estabelecer um diferencial para o cliente, melhor do que a concorrência, ao invés de mobilizar recursos para acabar com o inimigo. A estratégia racionalista incorre em dois desafios, que afetam diretamente a atuação dos administradores de empresas, os quais são difíceis de gerenciar ou influenciar: • o cenário externo é complexo e envolve leis, regulamentações, concorrentes, consumidores, investidores e meio ambiente; • o cenário econômico e social muda rapidamente, novas tecnologias são introduzidas diariamente, mudanças sociais, políticas, técnicas e econômicas acontecem a todo instante. Essa estratégia está muito atrelada às forças e fraquezas da organização. Os gestores de empresa, muitas vezes, divergem a respeito, pois, geralmente, têm uma visão parcial dos acontecimentos dos cenários externos e da forma como as mudanças rápidas influenciam o seu negócio. Dessa forma, as forças e fraquezas de uma organização são difíceis de identificar antes da experiência prática, especialmente em áreas de rápida mudança e de novas tecnologias (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). 1.2 Estratégia incrementalista O modelo de estratégia incrementalista preconiza que é impossível alcançar todo o conhecimento relativo às mudanças e complexidades, pois as pessoas e empresas são limitadas em termos de habilidade para tais previsões. As empresas não conseguem ter conhecimento de tudo que está acontecendo, visto a rapidez e intensidade das mudanças. A empresa deve, então, buscar adaptar suas estratégias frente às mudanças, aos novos conhecimentos, às novas informações, revendo suas decisões constantemente diante de novos cenários que surgem a todo instante. A estratégia incrementalista preconiza maior cuidado da gestão empresarial, com mais foco nos objetivos, mensurando as mudanças e ajustando o objetivo à medida que sua estratégia é colocada em prática. Dois exemplos são apresentadospor Tidd, Bessant e Pavitt (2008, p. 136) para facilitar o entendimento de como essa estratégia é utilizada. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 Figura 1 – Exemplo de estratégia incrementalista Estratégia de um(a) Médico(a) Sintoma → diagnóstico → tratamento → diagnóstico → tratamento de ajuste → cura (para médicos tratando pacientes). Estratégia de um(a) Engenheiro(a) Design (conceito) → desenvolvimento → teste → ajuste de design � retestagem → operação (para engenheiros fazendo inovações de produto e processo). Portanto, conforme entendemos pelos exemplos, existe um ciclo de ajustes e testes que acontece no decorrer do desenvolvimento da estratégia. Assim como o médico precisa passar por um processo até entender como tratar e curar o paciente, também as empresas precisam desenvolver seus processos para que inovações saiam da fase de design e conceito até sua produção ou operação. Tidd, Bessant e Pavitt (2008) defendem a abordagem incremental como sendo a mais útil, pela existência de complexidade e incertezas no processo de inovação. No entanto, consideram válidos os objetivos originais da teoria racionalista para o planejamento estratégico. 2 Análise competitiva na inovação Para entendermos como funciona o ambiente competitivo das organizações, é importante conhecer o modelo de avaliação de fatores estratégicos, muito utilizado entre as empresas, conhecido como Análise SWOT - sigla do inglês para Strengths (forças), Weaknesses (fraquezas), Opportunities (oportunidades) e Threats (ameaças). A Análise SWOT é um sistema de avaliação da empresa que busca posicionar ou validar a posição estratégica de uma organização no ambiente em que ela está inserida. Quando a empresa utiliza esse sistema, está criando inputs para o estabelecimentos de metas e objetivos. As metas e os objetivos, por sua vez, determinarão a escolha da estratégia – que é um meio para atingir os fins. Como parte dos objetivos, esse sistema procura focar nas ações estratégicas, buscando identificar os riscos e resolvê-los. Por meio do diagnóstico da empresa, fortalece os pontos Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 positivos, identificando oportunidades, e auxilia a identificar as ameaças, mostrando os pontos que precisam de melhorias. Identifica, também, os elementos da gestão e facilita o estabelecimento de prioridades de ação da organização. A Análise SWOT pode ser dividida em duas partes, para facilitar a análise de cenários, conforme a Figura 2. Figura 2 – Análise SWOT Força In te rn a Ex te rn a Oportunidade Fraqueza Ameaça Ambiente interno (forças e fraquezas): as forças e fraquezas são relacionadas a fatores internos e são determinantes para a posição atual da empresa. A análise dessas variáveis ajuda a empresa a identificar vantagens e desvantagens internas em relação à concorrência. Como resultado da sua aplicação, podem existir melhorias de processos, padronização e integração de atividades, eliminação de desperdícios e otimização de funções. Ambiente externo (oportunidades e ameaças): as oportunidades e ameaças estão relacionadas a fatores externos e são variáveis que devem ser monitoradas e acompanhadas pela empresa, visto que ela não tem controle sobre tais variáveis. As ameaças são os riscos que a empresa corre e que podem surgir como obrigações legais, riscos ambientais e insurgências locais. As oportunidades são os aspectos positivos, que permitem o crescimento da vantagem competitiva e que podem surgir com a identificação de um novo mercado ou o desenvolvimento de um novo produto por meio de inovação. A abordagem trazida pela Análise SWOT procura situar as atividades tecnológicas da organização em um contexto da concorrência entre indústrias, por meio de uma análise sistemática dos fatores que influenciam uma empresa. Hoje, a análise SWOT é uma das abordagens mais dominantes no campo da estratégia, amplamente estudada e divulgada por corporações do mundo todo. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 2.1 As forças dominantes da competição Porter (1989) analisou especificamente o setor industrial de produtos semelhantes e concluiu que há cinco forças que influenciam diretamente as empresas. Em setores maduros e consolidados, é sempre mais difícil alcançar lucratividade, o que leva a inovação a influenciar diretamente os resultados da empresa. As cinco forças relacionadas são: • poder de barganha dos compradores ou clientes; • poder de barganha dos fornecedores; • ameaça de produtos substitutos; • novos entrantes (competidores); • concorrência entre empresas estabelecidas. A Figura 3 apresenta o desenho do modelo das cinco forças de Porter (1989). Figura 3 – As cinco forças da competição (modelo de Porter) Novos entrantes Poder dos fornecedores Poder dos compradores Produtos substitutos Concorrência Fonte: Adaptado de Porter (1989, p. 45). Em um cenário de alta competitividade, existem ameaças e oportunidades de mudanças tecnológicas que influenciam os resultados da organização. Por meio de economias de escala reduzida (por exemplo, setores têxtil e gráfico), a ameaça de novos entrantes pode ser potencialmente aumentada, assim como a entrada de Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 produtos substitutos também pode ameaçar fortemente setores estabelecidos (por exemplo, a substituição de embalagens de lata por embalagens de plástico). Quanto ao poder dos fornecedores sobre os compradores, pode ser aumentado quando há inovações que são estratégicas e essenciais para a produção ou o processo do comprador, por exemplo, os fabricantes de microprocessadores para celulares. Também pode ser diminuído por inovações que reduzem a dependência tecnológica de fornecedores, por meio de desenvolvimentos de novos materiais (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). Para Tidd, Bessant e Pavitt (2008), a rivalidade competitiva proporciona o incentivo ideal primordial para a inovação. Por meio de intensa competição, empresas podem estabelecer monopólio através da inovação ou destruir monopólios estabelecidos por meio da imitação. Os autores ainda identificam que, na perspectiva de Porter, a estratégia voltada para a inovação deve tentar afastar a ameaça às empresas estabelecidas, que também pode ocorrer via entrantes em potencial, com novos produtos e nova abordagem tecnológica. Para registrar uma patente, a empresa deve submeter seu processo ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). O INPI é um órgão do governo brasileiro cuja finalidade e responsabilidade é zelar e regulamentar a propriedade industrial e intelectual de pessoas e organizações, sejam patentes, marcas, assinaturas, convenções e tratados ou desenhos industriais. O registro no INPI é uma segurança para o proprietário daquela inovação ou descoberta. Para saber mais, acesse e navegue pelo site: <http:// www.inpi.gov.br/>. Porter (1989) ainda estudou profundamente outras estratégias genéricas de mercado que devem ser analisadas pelas empresas, e sua escolha irá influenciar diretamente na atuação da organização no ambiente empresarial. Essas estratégias genéricas de mercado para as empresas são: • liderança de custo total; • diferenciação de produto; • foco no custo; • foco na diferenciação. Dessa forma, a escolha da estratégia de produto irá replicar diretamente na escolha tecnológica da empresa, especialmente tratando-se de prioridade para o desenvolvimento de processo e produto. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 Tidd, Bessant e Pavitt (2008) reforçam a análise de Porter de que, em mercados de bens duráveis – como eletroeletrônico, eletrodoméstico e automotivo –, há uma seleção de produtos que apresentam retornos distintos entre o preço e o desempenho. Esses produtos geralmente são dirigidos a públicos segmentados de mercado específicoe demandam diferentes escolhas no balanço entre a inovação de processo e de produto. Porter (1989) insiste que essas escolhas são relevantes e importantes e conclui: empresas que ficam “emperradas” entre custo e qualidade do produto terão, consequentemente, lucros mais baixos. 2.2 Acompanhamento da inovação e liderança No modelo de Porter (1989), ainda existe uma forte relação entre estratégias de mercado, que se apresentam, geralmente, sob duas formas: a liderança da inovação e o acompanhamento da inovação. • Liderança da inovação – quando a empresa é pioneira, dominando a liderança tecnológica do seu setor. A liderança é possível por meio do uso intensivo de criatividade e alto risco atrelado às ações de inovação. A empresa deve estabelecer fortes vínculos com fontes de novos conhecimentos (como institutos de pesquisa, universidades e centros de estudos) e estar atenta ou até antecipada às necessidades dos consumidores e clientes. • Acompanhamento da inovação – quando as empresas seguem ou imitam (aprendizagem) as experiências da líder da inovação. Muitas empresas seguem as tendências das líderes de inovação e alcançam sucesso em produzir ou implementar a inovação imitada. Conseguem analisar e investigar a concorrência por meio da engenharia reversa (testar e desmontar o produto da concorrente para conhecê-lo) e por meio do controle de custos de fabricação. Tidd, Bessant e Pavitt (2008) lembram que a distinção entre os líderes inovadores e os “acompanhantes” não é fácil de identificar na prática. Os primeiros são pioneiros no lançamento dessas inovações e costumam gastar grandes quantias de recursos em P&D (pesquisa e desenvolvimento), continuando esse investimento após o sucesso da inovação, buscando levar incrementações à inovação pioneira. Já as empresas acompanhantes, que imitam a empresa pioneira, costumam optar entre duas estratégias: aprimorar competências diferentes da P&D, por exemplo, canal de vendas, logística e suporte; ou desenvolver projetos novos e melhorias do produto, para competir com a empresa líder inovadora. 2.3 A estratégia de inovação em empresas pequenas As pequenas empresas, assim como as grandes, também têm preocupações com seus processos, com o desenvolvimento de competências técnicas e gerenciais, sua trajetória Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 tecnológica, sua posição de mercado e inserção em mercados emergentes. As pequenas empresas devem preocupar-se com as mudanças tecnológicas que afetam seus negócios, como os avanços rápidos da Tecnologia da Informação, os novos meios de comunicação com o público (como as redes sociais) e novas tendências na relação entre empresas e parceiros. Essa relação é estabelecida por meio de um modelo de inovação aberta, no qual ideias e processos, internos e externos, são compartilhados para a melhoria de produtos, em que a cooperação é a palavra de ordem. Tidd, Bessant e Pavitt (2008, p. 147) apresentam as características das pequenas empresas, quando comparadas com as grandes. São elas: • Forças organizacionais – as pequenas empresas desenvolvem, com facilidade, novos processos de comunicação, têm rápida tomada de decisão, receptividade às novidades e time altamente comprometido, assim, não costumam precisar de estratégias formais para garantir a coordenação e a alta governança, como as utilizadas nas grandes empresas. • Objetivos semelhantes – desenvolver competências tecnológicas que dificultem a imitação e, ao mesmo tempo, atendam ou superem as expectativas dos clientes frente ao oferecido pelas empresas concorrentes. • Setores diferenciados – alguns setores são mais bem atendidos por pequenas empresas do que outros setores, como máquinas, instrumentos e programas, enquanto sua participação é menor em setores como o químico, eletrônico e de transportes. • Fraqueza tecnológica – as empresas menores, geralmente, possuem dificuldade em gerenciar sistemas sofisticados, em conseguir aporte financeiro de risco (apesar de que as empresas de tecnologia conhecidas como startups têm alcançado ótimos resultados em captação de risco) e planejamento de longo prazo. Esses fatores são predominantes nos pequenos negócios. Por outro lado, com o advento da cooperação entre empresas e da inovação aberta, as pequenas empresas podem fortalecer suas habilidades e melhorar suas ineficiências, criando um ambiente que propicia forte crescimento e consolidação rápida da sua marca e das suas inovações no mundo. Considerações finais A estratégia da inovação costuma ter diferentes abordagens: a estratégia racionalista e a estratégia incrementalista são as mais conhecidas. A racionalista tem influência na prática militar e relaciona o cenário competitivo de forma mais restritiva, enquanto a estratégia incrementalista aborda aspectos mais abrangentes do cenário competitivo. O modelo das cinco forças de Porter é importante para o entendimento do ambiente e do cenário amplo e complexo no qual as empresas estão inseridas. As forças (relacionamento com compradores, Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 10 com fornecedores, produtos substitutos, novos entrantes, concorrência entre empresas estabelecidas) influenciam a estratégia que a empresa adota para sua atuação no mercado. A inovação envolve complexidade e mudança, seja na tecnologia da empresa, na sua organização ou em seu cenário econômico. Por conseguinte, as oportunidades e ameaças tecnológicas são normalmente difíceis de serem identificadas, as estratégias de inovação são difíceis de definir e os resultados são difíceis de prever (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). Existem alguns requisitos básicos para o sucesso na implantação de uma estratégia de inovação empresarial: a posição da empresa em termos de inovação (produto ou processo) se comparada a seus concorrentes; os caminhos tecnológicos que surgem para a empresa e as consequentes oportunidades que são trazidas juntas; e os processos da organização, que permitem integrar o conhecimento estratégico e a aprendizagem gerada dentro os limites da organização, que podem ser beneficiados e aplicados na busca por soluções inovadoras. Referências PORTER, M. E. A vantagem competitiva das nações. Rio de Janeiro: Campus, 1989. TIDD, J.; BESSANT, J.; PAVITT, K. Gestão da inovação. Porto Alegre: Bookman, 2008. Inovação e Competitividade Aula 04 Ambiente Nacional e Competitivo Objetivos Específicos • Identificar características do macroambiente no qual atua a empresa. Temas Introdução 1 Competitividade na indústria Considerações finais Referências Maikel Maciel Trennepohl Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução No fim da década de 1980, Michael Porter, professor da Universidade de Harvard, era considerado o maior especialista em estratégia e competitividade do mundo. Ele lançou uma teoria a respeito da competitividade nacional, a qual se tornou, rapidamente, um sucesso no mundo corporativo e acadêmico. Porter estudou e analisou dez países com forte liderança mundial (Alemanha, Cingapura, Coreia do Sul, Dinamarca, Estados Unidos, Itália, Japão, Reino Unido, Suécia e Suíça) e propôs um modelo com os atributos mínimos que deveriam existir em um país para que este tivesse uma indústria forte e competitiva globalmente. Essa teoria levou ao modelo conhecido como “diamante”, pois era o núcleo central que sustentava os atributos necessários para a criação dessa vantagem competitiva. Os quatro atributos que moldam o ambiente competitivo de uma nação, segundo Porter, são: • condições de fatores; • condições de demanda; • indústrias relacionadas e de suporte; • rivalidade, estrutura e estratégia das empresas. A aplicação da teoria de Porter é percebida, hoje, em diversos países e diferentes tipos de indústrias. A inovação é tida como fator importante para o alcance da competitividade, e a sua influência estárelacionada ao lançamento de novos produtos, sendo a inovação umas das responsáveis pela manutenção da liderança das empresas em suas indústrias. Para uma indústria ser bem-sucedida ao longo do tempo, todos os elementos do diamante devem interagir e reforçar um ao outro. Veremos, então, cada um dos atributos relacionados por Porter no seu modelo de diamante, identificando as características do macroambiente em que as empresas atuam. 1 Competitividade na indústria Quando analisamos a teoria de Porter, estamos analisando as implicações das suas ideias para os governos de países em desenvolvimento e para as empresas. Para compreender o modelo proposto pelo autor, é fundamental perceber que a competição internacional acontece entre empresas, e não entre países e nações, e que a competição varia muito em um mesmo país, dependendo do setor ou segmento da indústria, e que nenhuma nação alcança o sucesso em todos os tipos de indústria. As indústrias alcançam sucesso por meio de grupos, o que caracteriza uma vocação de um país para aquele tipo de indústria – dificilmente, uma empresa isolada terá sucesso global. Esses grupos costumam fortalecer a “marca” do país por meio daquele tipo de produto ou inovação. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 Por exemplo, a Alemanha domina a indústria automobilística de ponta, com suas famosas marcas de carros de luxo e esportivos; a Coreia do Sul é referência em tecnologias de consumo, como televisores e computadores; e a França é uma referência em vinhos e espumantes de alta qualidade. Por meio do desenvolvimento da inovação e da implementação de novas tecnologias, as empresas podem criar vantagem competitiva em suas indústrias. Assim, a teoria da vantagem competitiva, simbolizada pelo diamante de Porter, contribui para orientar as empresas e os governos sobre como manterem-se competitivos, e, portanto, torna-se relevante para o desenvolvimento dos países. Se quiserem manter essa vantagem competitiva, as empresas precisam inovar e melhorar constantemente seu desempenho, visando, assim, explorar oportunidades que surgem a todo instante. Porém, a manutenção da posição da indústria depende de realizar mudanças constantemente, reformulando seu processo produtivo, promovendo ajustes na organização, revendo investimentos em instalações e renovando o conhecimento. Essas mudanças são puxadas por diversos setores que exercem forte pressão sobre a indústria. Porter, após realizar um estudo em dez países diferentes, propôs um modelo padronizado que avalia a posição competitiva de uma indústria em nível nacional ou global. Esse modelo estabelece quatro fatores para a indústria em um país. Esses fatores determinam o ambiente que irá dificultar ou favorecer a manutenção da vantagem competitiva e pode ser analisado em regiões específicas. Esses fatores são: (a) Condições de fatores; (b) Condições de demanda; (c) Indústrias correlatas e de apoio; e (d) Estratégia, estrutura e rivalidade entre empresas. A partir da Figura 1, conheceremos cada determinante da vantagem competitiva nacional, proposta por Porter. Esses determinantes devem interagir e fortalecer um ao outro, visando fortalecer uma indústria e torná-la competitiva globalmente. Figura 1 – Modelo de Diamante Estratégia, estrutura e rivalidade das empresas Condições de fatores Condições de demanda Indústrias correlatas e de apoio Fonte: Porter (1989, p. 88). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 O modelo de diamante é uma simbologia a um quadrilátero em que os quatro fatores se unem, representando a interação entre os fatores. Michael Porter concluiu em seus estudos que é necessária uma boa articulação dos fatores que formam o diamante, além de um ambiente determinante de negócios, para um país ser globalmente competitivo e manter uma indústria intensiva em conhecimento (PORTER, 1989). 1.1 Clusters industriais Economistas explicam que clusters são oportunidades para pequenas empresas alcançarem economias de escala, geralmente uma situação possível em grandes empresas. Clusters são concentrações geográficas de empresas e organizações que estão interligadas em um setor específico. Os clusters englobam uma série de indústrias conectadas e outras entidades importantes para a concorrência. Eles incluem, por exemplo, fornecedores de insumos especializados, tais como componentes, máquinas e serviços e fornecedores de infraestrutura especializada. Clusters também estendem-se frequentemente desde os canais de distribuição até os clientes, em sentido de formação da cadeia, e lateralmente, para os fabricantes de produtos complementares e indústrias relacionadas por habilidades, tecnologias ou insumos comuns. Finalmente, muitos aglomerados incluem instituições governamentais e outras organizações – como universidades, agências regulatórias, prestadores de formação profissional e associações comerciais (PORTER, 1998). Clusters de alta tecnologia costumam estar próximos de universidades de prestígio, podendo pegar carona em projetos de pesquisas dessas universidades. Por exemplo, o Vale do Silício está perto da Universidade de Stanford; clusters semelhantes de alta tecnologia estão reunidos em torno do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), perto de Boston, nos Estados Unidos, e há, também, cluster de alta tecnologia ao redor da Universidade de Cambridge, na Inglaterra. Outro exemplo é a indústria crescente de vinhos na região da Califórnia e o plantio de flores na Holanda, chegando a tornar-se o produto mais importante de exportação daquele país. Cada vez mais, a competitividade das regiões metropolitanas depende do desenvolvimento de clusters industriais ou concentrações geográficas de empresas e instituições em setores econômicos conexos. A proximidade física das organizações envolvidas incentiva a interação e promove o intercâmbio de ideias e experiências. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 Um olhar sobre as economias bem-sucedidas também destaca a importância do desenvolvimento de clusters industriais inovadores, caracterizados por um alto nível de interação entre as empresas, permitindo-lhes, assim, como um grupo, aprender sobre a evolução das condições econômicas, adaptar-se a elas e beneficiar-se dessas condições. A natureza interativa de clusters estimula a inovação e a aprendizagem econômica. Clusters estimulam a competitividade regional de três maneiras: • aumentando a produtividade dos negócios; • aumentando a sua capacidade de inovação, que sustenta futuros ganhos de produtividade; • estimulando a criação de novas empresas, as quais irão expandir e fortalecer o cluster. Espera-se que as empresas que fazem parte de um cluster operem de forma mais eficiente quando adquirem todas as condições necessárias de operação, tais como acesso à informação, tecnologia e instituições, coordenação com as empresas relacionadas do cluster, e, assim, possam medir o seu desempenho com outras empresas, de modo a melhorar continuamente suas operações e atividades. Clusters industriais são também encontrados no Brasil. Florianópolis, por exemplo, está criando um importante polo de empresas de tecnologia, no qual empresas atuam em forte parceria, sendo que, em 2014, a área de Tecnologia da Informação ultrapassou 1 bilhão de reais em receitas, tendo ultrapassado o turismo como maior fonte de arrecadação de impostos. Outro exemplo é Ribeirão Preto, que conta com 69 empresas no aglomerado de produtos odontológicos, que empregam 2,5 mil pessoas. 1.2 Condições de fatores Toda nação é proprietária daquilo que, na linguagem da teoria econômica, é chamado de fatores de produção. Eles representam os diferentes recursos e insumos disponíveis para qualquer indústria, como a terra cultivável, o trabalho, o capital e a infraestrutura (PORTER, 1989). Os fatores de produção tornam-se fundamentais para a conquistada vantagem competitiva por uma nação. Porter explica (1989) que os fatores fundamentais na maioria das indústrias não são herdados, mas criados dentro do país e diferem muito entre países e tipos de indústrias. Os fatores costumam ser principalmente de dois tipos: • os fatores adiantados; • os fatores especializados. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 Fatores adiantados são aqueles que exigem grandes investimentos de forma continuada, especialmente em capital humano e físico. São de difícil obtenção em mercados globais e bastante escassos, mas necessários para conseguir vantagem competitiva de produtos de valor agregado e tecnológico. Por exemplo, desde a década de 1950, o Japão tem tido uma alta taxa de formandos em engenharia, o que explica o sucesso de muitas empresas japonesas em desenvolvimento de projetos de novos produtos. Nesse caso, os fatores adiantados, como a alta qualidade de mão de obra japonesa, são necessários para alcançar uma vantagem competitiva superior, com tecnologia de produção protegida por propriedade intelectual e produtos de grande diferenciação tecnológica (PORTER, 1989). Os fatores especializados consideram riscos elevados e presumem que existe uma base de recursos adiantados bem estabelecida, portanto, esses fatores são limitados a um número ainda mais restrito de empresas, e, às vezes, são limitados a uma única empresa. Esses fatores especializados são importantes para conquistar novos mercados e agregar valor às inovações. São geralmente criados pelo governo, em parcerias, e também pelo setor privado. São utilizados mecanismos para impulsionar e estimular o desenvolvimento desses fatores, como órgãos especializados com infraestrutura, instituições de ensino e centros de pesquisa governamentais e privados. No Brasil, a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP) tem realizado um papel importante e fundamental na promoção da inovação para setores competitivos do país. A FINEP está vinculada ao Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação e é uma empresa pública brasileira de fomento e apoio científico e tecnológico. Tem papel atuante para o desenvolvimento de inovações no Brasil, por meio do apoio às instituições científicas e tecnológicas (ICTs) e a cooperação com empresas privadas. Descubra mais sobre suas linhas de ação e seus programas acessando a Midiateca da disciplina. Esses mecanismos visam ao aperfeiçoamento continuado dos fatores especializados, oferecendo ao país condições de competitividade nacional e global. Portanto, tanto as instituições privadas quanto as públicas devem somar os esforços para melhorar a indústria do país, tornando-a competitiva frente aos concorrentes internacionais. Porter defende que é a ausência, e não a abundância de um fator, que torna a indústria de um país competitiva. Ele chamou essa ausência de desvantagem seletiva de fator, a qual leva as empresas do país a compensarem suas deficiências através de grandes esforços realizados, e que, frequentemente, leva as empresas ao desenvolvimento de inovações que suprem a Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 ausência dos fatores naturais (PORTER, 1989). Pode-se concluir, então, que Porter defende a ideia de que as condições necessárias para alcançar a vantagem competitiva são decorrentes de investimentos sustentados ao longo do tempo, e não de investimentos “herdados” da natureza, como os recursos naturais; ou seja, um país que detenha grandes quantias de terras e recursos naturais não é sinônimo de vantagem competitiva, mas sim aquele que investe em fatores adiantados e especializados. 1.3 Condições de demanda O segundo vértice do diamante de Porter é representado pelas condições de demanda. Porter explica que é a qualidade de uma indústria, e não o tamanho da mercado interno (demanda), que irá aferir a uma indústria uma posição de destaque na competição global. Alguns pontos são ressaltados quanto às características das condições de demanda interna: • a composição da demanda; • a sofisticação dos compradores; • os mecanismos de transferência aos mercados estrangeiros. Em um país, os sofisticados e exigentes compradores internos demandam de empresas locais que estas entreguem produtos e serviços de forma mais rápida e com melhor qualidade. Dessa forma, as empresas alcançam maior vantagem competitiva em relação às indústrias concorrentes no exterior. Portanto, se os países pressionam suas empresas locais a inovarem constantemente para atender aos seus compradores, também os países ganham vantagem competitiva comparativamente a outras nações (PORTER, 1989). Porter argumenta que, para uma nação desenvolver uma indústria competitiva internacionalmente, é relevante o grau de exigência e sofisticação dos compradores locais, pois, assim, essas indústrias locais serão pressionadas a inovarem, buscando atender às exigências por melhores serviços e produtos de maior qualidade, impulsionando sua indústria para padrões que a tornam altamente competitiva. Porter enfatiza a qualidade ao invés do tamanho da demanda. Por isso, algumas indústrias que representam um segmento de menor tamanho, mas percentualmente importante em um país, podem ser mais competitivas do que uma indústria de segmento grande, mas de menor importância para aquele país. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 Figura 2 – A importância da qulidade Nos estudos de Porter, foi dada relevância às exportações realizadas por empresas da Europa, do Japão e dos Estados Unidos que buscaram mercados externos frente à saturação de seus mercados locais e regionais. Para que pudessem sobreviver e buscar maior crescimento, a solução foi a exportação. Uma vez que o mercado interno está saturado, a indústria somente irá se beneficiar se houver crescimento e demanda por seus produtos e serviços no exterior. Porter explica que: [...] a saturação precoce ou abrupta força as indústrias a continuar inovando e aperfeiçoando. Um mercado saturado cria pressões intensas para a redução dos preços, introduz novos aspectos, melhora o desempenho do produto e proporciona outros incentivos para que os compradores substituam produtos antigos por versões mais novas. A saturação intensifica a rivalidade local, forçando a redução de custos e eliminando firmas mais fracas. O resultado é, com freqüência, o aparecimento de um número menor de rivais locais, porém mais fortes e mais inovadores. (PORTER, 1989, p.114). Portanto, a saturação precoce do mercado interno torna-se vantagem competitiva somente se a composição da demanda interna convergir para o atendimento a produtos e serviços de maior desempenho exigidos e almejados em mercados internacionais. 1.4 Indústrias correlatas e de apoio As indústrias correlatas e de apoio, segundo Porter, são aquelas que compartilham atividades na cadeia de valores. Essas empresas participam mutuamente de atividades como assistência técnica, comercialização, distribuição, manufatura e desenvolvimento tecnológico (PORTER, 1989). Um exemplo que ilustra a relação das indústrias correlatas são as fabricantes Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 de tablets e notebooks, pois tais indústrias utilizam muitas das mesmas tecnologias e canais de distribuição, portanto, a assistência técnica e a oferta de peças de reposição são fornecidas, muitas vezes, pelas mesmas empresas ou pelos mesmos canais de fornecedores. Segundo Porter (1989), a relação estreita entre as indústrias e os fornecedores de classe mundial colabora para o surgimento da vantagem competitiva. Por meio do fluxo de intercâmbio em pesquisas e projetos de desenvolvimento, quando empresas trabalham colaborando para solucionar problemas, surgem resultados eficientes e de forma mais rápida. Além disso, os próprios fornecedores da cadeia de valor podem ser importantes canais para a transferência deconhecimento e informação de uma indústria para outra. Esse processo leva ao surgimento, mais rapidamente, de inovações dentro de toda a indústria nacional. A aproximação de fornecedores dos seus clientes pode facilitar e fortalecer ainda mais as vantagens competitivas das indústrias correlatas e de apoio. Outra vantagem para toda a cadeia é que a coordenação e a constante interação entre as indústrias levam a melhorias no processo de inovação e no aperfeiçoamento de novas tecnologias. Nesse sentido, o trabalho das indústrias correlatas de um país, que apresentem produtos complementares ou que coordenem conjuntamente as atividades dentro da cadeia de valor, tende a facilitar o surgimento de tecnologias, a sinergia dos canais de distribuição, a assistência técnica compartilhada e a inserção de inovações no mercado. 1.5 Estratégia, estrutura e rivalidade de empresas O quarto quadrante do modelo de diamante, de Porter, refere-se, de maneira geral, a diversos fatores, que são congruentes na análise da competitividade nacional. Um segmento de indústrias pode relacionar sua vantagem competitiva ao padrão de rivalidade entre as empresas e às circunstâncias e à conjuntura em que estas são administradas, planejadas ou criadas. Esses fatores são definitivos para o processo de inovação daquelas indústrias e para o sucesso global de suas iniciativas. A vantagem competitiva de uma nação é, na verdade, um resultado da harmonia entre estratégias, metas e o cenário competitivo local, que pode variar conforme a conjuntura de cada nação. No cenário global de alta competitividade, as indústrias pressionam umas às outras para inovar e melhorar continuamente, e, como resultado, acabam competindo fortemente no seu país. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 10 Porter (1989) comenta que a rivalidade interna se sobressai à rivalidade com os competidores externos quando a busca pela melhoria e pela inovação, e não a eficiência estática, é assumida como ingrediente essencial da vantagem competitiva em uma indústria. Como qualquer rivalidade, a rivalidade interna percebida pelas indústrias de uma nação cria pressões sobre as empresas para que melhorem e inovem constantemente seus produtos, processos e serviços. As indústrias concorrentes locais pressionam-se mutuamente para reduzir custos, melhorar qualidade e serviços e criar inovações tecnológicas. Embora as indústrias nem sempre preservem vantagens por períodos mais duráveis, a pressão dos competidores rivais estimula e intensifica a inovação, tanto pelo temor e receio de ficar para trás quanto pelo entusiasmo para adiantar-se às concorrentes. Dessa forma, a rivalidade entre empresas, dada a estrutura existente naquela indústria local, tende a fortalecer as empresas e, consequentemente, a fazer com que estas alcancem vantagem competitiva. Essas empresas acabam fortalecendo-se para competir globalmente, sendo incomum observar uma indústria exportadora competindo internacionalmente com grandes players que não tenham dominado e superado concorrentes nacionais antes. Por exemplo, a empresa BRF, de alimentos, no Brasil, que se tornou a maior empresa de alimentos do Brasil e está, atualmente, entre as dez maiores empregadoras do país. Porter concluiu que um conjunto de metas se faz importante no ambiente de competitividade das indústrias e que essas metas estão relacionadas diretamente a metas da empresa, dos indivíduos e à prioridade e ao prestígio nacional. Vejamos: • Metas das empresas - as metas das indústrias variam bastante de um país para o outro. Essas metas são bastante afetadas e influenciadas pela motivação dos proprietários e herdeiros, pela estrutura de propriedade, pela natureza da direção empresarial e processos de incentivos habituais para diretores. • Metas dos indivíduos - os indivíduos de nações diferentes divergem em relação à sua forma de desenvolver e aplicar novos conhecimentos. Em muitas indústrias com estrutura interessante, há a necessidade de investimentos constantes para melhorar as capacidades dos trabalhadores. Porter argumenta que os países que dispõem de trabalhadores que invistam em suas próprias carreiras tendem a ser mais bem-sucedidos e devem ser reforçados por práticas de promoção que estimulem o desempenho e esforço dos colaboradores, como planos de carreira e sistemas de remuneração, como os sistemas de participação de resultados. • Prioridade e prestígio nacional – Porter atribuiu um caráter e prestígio de propriedade nacional às indústrias conseguem empregar em suas nações, a ponto de até mesmo tornarem-se referências internacionais, como é o caso da indústria aeronáutica brasileira, representada fortemente pela Embraer. Dessa forma, a estratégia da indústria, sua estrutura e a rivalidade das suas competidoras definem e completam o último quadrante do diamante de Porter. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 11 Considerações finais O ambiente nacional e competitivo pode ser entendido como um conjunto de fatores que relacionam-se e interferem diretamente na vida das empresas e dos países. O autor que estudou profundamente o assunto é Michael Porter, professor americano da Universidade de Harvard. Porter estudou e analisou dez países de forte liderança mundial no fim da década de 1980 e, como resultado de seus estudos, desenvolveu um modelo, mundialmente conhecido como Modelo de Diamante. Uma forma importante de arranjo de empresas industriais são os clusters industriais. Clusters são concentrações geográficas de empresas e organizações que estão interligadas em um setor específico. Os clusters englobam uma série de indústrias conectadas e outras entidades importantes para a concorrência. Esse modelo apresenta quatro quadrantes: (i) condições de fatores, (ii) condições de demanda, (iii) indústrias correlatas e de apoio, (iv) estratégia, estrutura e rivalidade das empresas. Quanto às condições de fatores, estão divididos em fatores naturais (terra cultivável, trabalho e capital), fatores adiantados (capital humano e físico) e fatores especializados (mecanismos de estímulo à inovação, órgãos especializados, centros de pesquisa). Quanto às condições de demanda, entende-se que a qualidade de uma indústria, e não o tamanho do mercado interno (demanda), é que irá aferir à indústria uma posição de destaque no cenário de competição internacional. É por meio da exigência de compradores internos que as empresas são levadas a desenvolver e entregar melhores produtos e melhores serviços. Quanto às indústrias correlatas e de apoio, refere-se às empresas que compartilham as atividades e operações da cadeia de valor. São estrategicamente importantes para o desenvolvimento local das indústrias e reforçam a vantagem competitiva, muitas vezes levando um setor inteiro a ser referência mundial. O conceito está fortemente atrelado à capacidade de as empresas combinarem esforços para desenvolver, juntas, soluções, canais de venda e distribuição, além de assistência aos clientes de mercados internos e clientes estrangeiros. Quanto ao último quadrante, de estratégia, estrutura e rivalidade de empresas, entende-se o cenário global de alta competitividade, em que as indústrias pressionam umas às outras para inovar e melhorar continuamente, e, como resultado, acabam competindo fortemente no seu país. Assim, a combinação de estratégia da indústria, de estrutura e de rivalidade das indústrias competidoras define o ambiente competitivo nacional. Esses quadrantes são, portanto, fundamentais para o entendimento do cenário de uma indústria e para a compreensão da competitividade entre empresas e entre nações. A inovação está fortemente presente nesse contexto, visto ser uma das forças capazes de impulsionar as indústrias para o alcance de melhores padrões de competitividade local e internacional. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 12 ReferênciasBRASIL. Ministério Do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Exemplos de clusters bem-sucedidos no Brasil e na Europa. Disponível em: <http://www.desenvolvimento. gov.br/sitio/interna/noticia.php?area=2¬icia=11965>. Acesso em: 8 abr. 2015. PORTER, M. E. A vantagem competitiva das nações. Rio de Janeiro: Campus, 1989. ______. Clusters e a Nova Economia da Competição. Harvard Business Review. Cambridge, nov.-dez, 1998. Inovação e Competitividade Aula 05 Trajetórias Tecnológicas Objetivos Específicos • Identificar processos evolutivos da tecnologia dentro da empresa. Temas Introdução 1 As cinco principais trajetórias tecnológicas 2 Competências centrais das organizações 3 Rotas tecnológicas para pequenas empresas e startups Considerações finais Referências Maikel Maciel Trennepohl Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução A maioria das tecnologias que conhecemos hoje surgiram do resultado de melhorias de produtos, que foram aperfeiçoados ao longo do tempo. No entanto, para que as empresas realizem essas melhorias, é necessário manter um olhar atento quanto às oportunidades de inovação. Por exemplo, o chip eletrônico alcançou uma melhoria significativa de preço-desempenho graças ao conhecimento que foi continuamente melhorado nas últimas décadas. É necessário, além de conhecimento, que as empresas desenvolvam continuamente novas competências, portanto, devem sempre buscar aprender e explorar novos caminhos para a inovação. Tidd, Bessant e Pavitt (2008) reforçam que os processos de aprendizagem das empresas são dependentes de novos caminhos, com direções de busca fortemente condicionadas por competências acumuladas para o desenvolvimento e a exploração da base existente de produtos. As perguntas que conduzem esse texto, apoiadas nos estudos de Tidd, Bessant e Pavitt (2008), e que esperamos poder responder ao fim da aula, são as seguintes: de onde provêm as tecnologias da empresa; como elas contribuem para a vantagem competitiva; quais as principais medidas de estratégia de inovação; onde estão as possíveis ameaças e oportunidades; e como se pode lidar com elas? Dessa forma, as empresas devem manter o radar e a vigilância sobre novas tecnologias, buscando sempre explorar novos caminhos e novas trajetórias tecnológicas. 1 As cinco principais trajetórias tecnológicas Um grande desafio das organizações é a definição do caminho tecnológico que a empresa deve seguir. Ainda mais difícil é definir um modelo que integre a mudança tecnológica à análise estratégica, que dê conta da diversidade setorial e empresarial de forma eficaz (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). Vamos conhecer, a seguir, as principais trajetórias tecnológicas, cada uma delas com sua natureza e fontes de inovação distintas, bem como diferentes implicações para a gestão da inovação e para a estratégia tecnológica, conforme apresentado por Tidd, Bessant e Pavitt (2008, p. 191): 1. Empresas dominadas pelo fornecedor: a primeira trajetória refere-se às empresas dominadas pelo fornecedor, em que a mudança técnica é geralmente oriunda de insumos de produção e de fornecedores de máquinas. As escolhas das organizações refletem os custos de insumos e as oportunidades para acumulação tecnológica inerente àquela empresa são bastante simples, predominando, dessa forma, melhorias de processos produtivos e melhoria Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 da utilização dos insumos associados àquele produto. Esse tipo de trajetória tecnológica é comum nos seguintes setores: agricultura, serviços e manufatura tradicional. 2. Empresas intensivas em escala: a segunda trajetória tecnológica remete às empresas intensivas em escala, em que existe forte presença do design; e a acumulação tecnológica é dada por meio da construção e operação de sistemas de produção e/ou produtos complexos. Tidd, Bessant e Pavitt (2008) lembram que, devido a vantagens econômicas promissoras de aumento de produção em escala, combinadas com a complexidade de produtos e/ou sistemas de produção, os riscos de fracasso associados a mudanças radicais são potencialmente bastante caros. O uso do design é a principal fonte de tecnologia, sendo bastante comum seu uso interno pelas empresas para a melhoria de processos e produtos, assim como pelos departamentos de engenharia de produção. Os setores mais comuns desse tipo de trajetória tecnológica são: extração e processamento de matérias-primas, automóveis e projetos em engenharia civil de larga escala. 3. Empresas de base científica: a terceira trajetória tecnológica é promovida por ser bastante influenciada por empresas de base científica, quando a acumulação tecnológica surge em laboratórios de pesquisa e desenvolvimento (P&D), por pesquisa acadêmica, e dependente de conhecimento. Nesse tipo de trajetória tecnológica, é comum as empresas buscarem horizontalização para mercados de produtos novos e que sejam tecnologicamente relacionados. Portanto, as medidas estratégicas para a inovação nesse caso são monitorar e explorar os resultados advindos da pesquisa básica. Setores tipicamente essenciais são aqueles de produtos químicos e de eletrônicos. 4. Empresas intensivas em informação: a quarta trajetória tecnológica é das empresas intensivas em informação cujo principal objetivo é projetar e operar complexos sistemas de processamento de informação, especialmente aqueles sistemas que provisionam serviços, como os sistemas logísticos para operação de grandes centros de distribuição ou estoques. Os principais setores atendidos são os setores de serviços: turismo, telecomunicações, varejo, logística e financeiro. As principais medidas de estratégia de inovação são o desenvolvimento e a execução de complexos sistemas de informação e aperfeiçoamento de serviços radicalmente novos ou de serviços relacionados (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). 5. Fornecedores especializados: a quinta trajetória tecnológica é a de fornecedores especializados, correspondendo àquelas empresas geralmente pequenas e especializadas em oferecer insumos de alto desempenho e em desenvolver produtos de alta tecnologia agregada, especialmente na forma de componentes, máquinas, instrumentos e softwares. Os fornecedores especializados acumulam competências para combinar as competências tecnológicas com as necessidades de clientes, agregando valor ao desempenho e confiabilidade. Os fornecedores especializados são bons em acompanhar as necessidades de clientes por meio da experiência de usuários mais avançados. Esse tipo de trajetória tecnológica é encontrado especialmente entre fabricantes de maquinaria, instrumentos e desenvolvedores de programas de softwares. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 As trajetórias tecnológicas supracitadas atuam diretamente sobre a forma de gestão das organizações. Aderente a essas trajetórias, é notável o papel cada vez mais expressivo da Tecnologia da Informação (TI) sobre as atividades das organizações. Tidd, Bessant e Pavitt (2008) destacam três aspectos da revolução da tecnologia de informação que são importantes para estratégias de inovação no futuro. São eles: • a natureza cada vez mais sistêmica das atividades tecnológicas e econômicas aumenta a importância da integração de sistemas, o que reflete no crescimento de alianças tecnológicas externas; • a diminuição dos custos de desenvolvimento de produto, via simulação e criação de protótipos virtuais, pode combinar conhecimentos básicos para revolucionar diferentes áreas de pesquisa; • com o crescimento da importância dos softwares em atividades de distribuição, a tradicional distinção entre alta, média ou baixa tecnologia está desaparecendo, o que leva a entendermos que a aplicação da tecnologia para resolver problemas de logística de entrega de flores, por exemplo, é tão relevante quanto o uso de tecnologias para bancosou para o varejo. Portanto, a inovação para a vantagem competitiva vai além de avanços científicos de pesquisa, sendo que o uso adequado da TI é um grande potencial para a competividade das empresas. A competitividade das organizações torna-se evidentemente possível com o uso da Tecnologia da Informação, haja vista os baixos custos marginais de reprodução das tecnologias e o baixo esforço para sua obtenção quando comparados aos modelos anteriores de tecnologia, como a fabricação de chips, considerada atividade de larga escala, realizada por produtores bem estabelecidos. Nesse cerne, surgem as startups, empresas recém-nascidas na era da tecnologia, que utilizam, na sua maioria, Tecnologia da Informação como base para seus modelos de negócios. Você sabia que o Brasil mantém um importante programa para o desenvolvimento da indústria de software e serviços em TI? O Governo Federal, por meio do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação, criou o Programa Estratégico de Software e Serviços em TI, também conhecido como “TI MAIOR”. Esse programa é baseado em pesquisa, desenvolvimento tecnológico e inovação, com forte diretriz de integração e articulação de programas, políticas, incentivos, ferramentas, mecanismos de fomento e ações já existentes. Visite a Midiateca da disciplina e confira a importância cada vez maior da área de Tecnologia da Informação no Brasil. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 2 Competências centrais das organizações A organização que se mantém competitiva tem, geralmente, alguma competência empresarial, que é a marca da sua diferenciação. Tidd, Bessant e Pavitt (2008) comentam que a visão empresarial centrada em competências possui grandes implicações para organizações de Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), métodos de alocação de recursos e de determinação estratégica. Para entendermos o processo evolutivo da organização, é necessário analisar quais habilidades e capacidades a empresa detém. Essas competências podem ser definidas como: • competências tecnológicas de base; • competências centrais distintivas. A competência tecnológica de base é aquela que está disponível para todas as organizações, acessível a todos os concorrentes e, portanto, improvável de ser uma fonte de vantagem competitiva sustentável e distintiva. É o caso, por exemplo, de sistemas de informação, em que a TI é uma tecnologia de base, disponível para todos. A competência central distintiva é aquela que, geralmente, é única e difícil de imitar. São competências críticas e essenciais para a empresa desenvolver inovação. Por exemplo, a empresa Cisco é fornecedora de equipamentos de TI, portanto, para a Cisco, a TI é uma tecnologia central e uma fonte de vantagem competitiva. É importante a distinção entre empresas em que a TI é uma estratégia central e uma fonte de vantagem competitiva distintiva de empresas em que a TI é uma tecnologia de base, exigindo grandes mudanças, mas disponível a todos os concorrentes. Para reforçar esses conceitos, tomemos o exemplo de Tidd, Bessant e Pavitt (2008), que apontam que em indústrias de produtos complexos (como a de automóveis), a tecnologia de base pode representar boa parte das funções de inovação e pode, também, ser fonte de mudança revolucionária. Quanto ao uso da TI, devido às grandes oportunidades para a melhoria de desempenho que oferecem os avanços da Tecnologia de Informação, as empresas, atualmente, não têm escolha senão adotá-las, assim como aconteceu no passado, quando todas as fábricas não puderam evitar o uso da eletricidade como fonte de energia. A noção de competências centrais está certamente relacionada ao aumento de conexões com fontes externas de conhecimento, assim como o maior gasto em P&D devido à maior complexidade dos produtos. Por todas essas razões, as competências centrais podem ser entendidas como competências distribuídas, pois estão distribuídas (TIDD; BESSANT; PAVIT, 2008): • entre áreas técnicas diferentes; • entre diferentes lugares e localizações dentro da empresa – nos laboratórios, departamentos de compras, na engenharia de produção, área de P&D, no design industrial; Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 • entre os objetivos estratégicos da empresa, que incluem, além da vantagem distintiva nos negócios existentes, também a exploração e a criação de novas tecnologias. O desenvolvimento e a sustentabilidade de competências centrais é outra preocupação dentro do processo evolutivo tecnológico das organizações, e o desafio está em identificar e desenvolver essas competências. Por exemplo, para uma empresa como a Audi, o desempenho funcional de um produto, a avaliação do design, o desenvolvimento e a fabricação de um motor de combustão compacto de alto desempenho são alvos tecnológicos estratégicos para a empresa. Mas, para que a Audi alcance sucesso nos seus projetos, ela deve combinar competências tecnológicas de diversos e diferentes campos de conhecimento, que mudam e crescem significativamente ao longo do tempo. Há poucos anos, exigia conhecimento em mecânica, dinâmica, materiais, transferência de calor, fluxos e fluídos. Hoje, além desses conhecimentos, exige domínio de eletroeletrônica, sistemas embarcados, técnicas de simulação e mobilidade tecnológica. Então, para definir a competência tecnológica da empresa, é preciso combinar duas tarefas: a primeira é identificar e desenvolver os conhecimentos em prol da tecnologia; a segunda é identificar e explorar as novas competências que surgem, visando melhorar continuamente o produto ou a inovação, alcançando novos mercados e garantindo que a capacidade funcional da inovação não se torne ultrapassada. Nesse sentido, o desenvolvimento de um novo produto pode permitir o surgimento de novas competências; ou seja, uma competência tecnológica existente pode precisar de competências comerciais novas para atingir um novo mercado, ou, ao contrário, uma nova competência pode ser necessária para atender a um cliente que já existe (TIDD; BESSANT; PAVIT, 2008). Portanto, a chave é buscar um equilíbrio entre a exploração de competências atuais e a exploração e a evolução de novas competências. Tidd, Bessant e Pavit (2008) reforçam que a importância do surgimento de novas oportunidades e o potencial comercial que trazem emergem de um processo incremental de aprendizagem e de posicionamento estratégico, acompanhado de um longo processo de tentativas e erros, que pode levar ao surgimento de novas tecnologias. A elaboração de tecnologias passa por um processo também de validação da ideia dentro da organização, seguido da criação de protótipos e da criação e experimentação de diferentes modelos de negócio, evidenciando, assim, que a visão de mercado para tecnologias novas não é resultado da visão de uma pessoa, mas de um processo evolutivo dentro da organização para o aprendizado e o domínio de novos caminhos tecnológicos. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 3 Rotas tecnológicas para pequenas empresas e startups As pequenas empresas e as empresas startups (empresa recém-criada com um projeto inovador) costumam ser menos diversificadas em produtos ou competências, sendo mais especializadas e focadas em um produto inovador que, muitas vezes, revela-se bastante promissor para o mercado. Ultimamente, há um crescente interesse por empresas pequenas que apresentam grande potencial de mercado. Muitas dessas empresas, que nasceram pequenas, rapidamente alcançaram sucesso e tornaram-se “superestrelas”; há, também, as que já nascem como empresas de base tecnológica (também chamadas de startups) e rapidamente ganham destaque. Figura 1 – Equipe de uma startup Essas empresas têm expressivo índice de crescimento baseado na vantagem de uma grande invenção. Além desses casos, é importante considerar a existência de outras duas classes de pequena empresa, menos “encantadoras”, mas degrande importância para a economia como um todo: os fornecedores de insumos e as empresas cujas fontes de inovação são seus fornecedores. Baseados em Tidd, Bessant e Pavit (2008), vamos conhecer as rotas tecnológicas para essas pequenas empresas: • Superestrelas: são as empresas que, hoje, são grandes, mas que surgiram de pequenas ideias e iniciativas e alcançaram expressivo índice de crescimento. Um dos maiores desafios apresentados aos líderes das “superestrelas” é realizar a transição de um perfil “inovador” original e “inovação” original para uma nova gestão e nova linha de produto. As inovações originais são, geralmente, protegidas por patentes e outras vantagens; quanto ao perfil do inovador, pense sobre o que acontecerá ao Facebook depois de Mark Zuckerberg. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 • Empresas de Base Tecnológica (EBT) ou startups: também conhecidas como startups, são empresas que surgiram recentemente de grandes empresas ou de um laboratório, em áreas como biotecnologia, eletroeletrônica, softwares embarcados e tecnologias aplicadas. Muitas dessas empresas surgem de programas governamentais, por meio de incubadoras, aceleradoras e laboratórios experimentais. Essas empresas, geralmente, suprem nichos de produtos especializados e são especializadas em alguma técnica essencial para grandes empresas, serviço ou subsistema específico. A dificuldade encontrada por empresas de base tecnológica é manter o potencial de crescimento e conseguir desenvolver novos produtos e novas competências gerenciais. • Fornecedores especializados: já descritos anteriormente nesta aula, são empresas que projetam, desenvolvem e fabricam insumos e máteria-prima voltados à manufatura. Realizam pouco P&D, mas, mesmo assim, mostram-se como potenciais fontes de desenvolvimento de inovações pela forte parceria com seus clientes. • Empresas dominadas pelo fornecedor: são empresas que dependem de seus fornecedores para suas inovações, geralmente incapazes de manter tecnologias como fonte de vantagem competitiva estratégica. Um número crescente de pequenas empresas depende de obter competências tecnológicas que as capacitem a selecionar, comprar, instalar e manter sistemas de TI que as auxiliem a aumentar sua competitividade, sendo este um dos vieses para a independência e o crescimento orgânico da pequena empresa. Um dos grandes desafios das empresas é levarem uma inovação original além do limite de sua patente e criarem um caminho que possam trilhar por muitos anos, mesmo após perderem seus direitos de exploração. Um caso clássico que revolucionou o mercado é o da Nespresso, marca da gigante Nestlé, que inovou o conceito de tomar um café expresso. No entanto, com o fim da patente de cápsulas, empresas lançaram genéricos do café da Nespresso e atrapalharam a empresa na sua manutenção de mercado. Visite o site, a seguir, da reportagem “Todos querem ser um Nespresso” e reflita sobre o papel da empresa de inovar constantemente, mesmo quando ela domina um setor, mas que precisa estar atenta a novas oportunidades. Como a Nespresso vai garantir sucesso com seu modelo a partir da perda da patente? Visite a Midiateca da disciplina e leia a reportagem “Todos querem ser um Nespresso”. Assim, as pequenas empresas também têm papel importante na inovação, sendo, hoje, grandes impulsionadoras de tecnologias, muitas vezes ameaçando grandes players do mercado e tornando o ambiente ainda mais competitivo. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 Considerações finais As empresas são, portanto, limitadas em suas escolhas estratégicas para a inovação, seja por seus conhecimentos acumulados ou por oportunidades que são capazes de enxergar. As trajetórias tecnológicas são, então, definidas em cinco itens: as dominadas pelo fornecedor; as intensivas em escala; as empresas de base científica; as empresas intensivas em informação; e os fornecedores especializados. A TI é notavelmente importante para o desenvolvimento da trajetória da organização. Há, principalmente, três aspectos da TI importantes para as atividades das organizações: a crescente importância da tecnologia para a geração de alianças; a simulação facilitando a diminuição de custos para desenvolver produtos; um crescente uso de software em atividades- meio, em negócios que não são exclusivamente tecnológicos (como a distribuição de flores). As competências centrais das organizações são, principalmente, de duas formas: as competências tecnológicas de base e as competências centrais distintivas. Enquanto na primeira há amplo acesso por parte das empresas e esta torna-se uma improvável fonte de vantagem competitiva, na segunda, há um foco no desenvolvimento de competências únicas, exclusivas e de difícil imitação. As competências centrais distintivas estão cada vez mais abrangendo diferentes áreas técnicas dentro das empresas, em diferentes localizações, e podem alcançar diversos objetivos estratégicos, que, além de incluir a vantagem distintiva nos negócios existentes, pode facilitar a criação de novas tecnologias. No caso de pequenas empresas, estas costumam ser menos diversificadas em produtos ou competências, sendo mais especializadas e focadas em um produto inovador que, muitas vezes, revela-se bastante promissor para o mercado. Especial atenção tem-se dado ao conceito das startups, empresas recém-nascidas, com forte viés tecnológico e que têm surgido com muita força no mundo todo, acelerando a inovação de produtos e projetos inovadores, além de possibilitarem e estimularem fortemente o empreendedorismo. Referências PACHECO, Paula. Todos querem ser um Nespresso. Jornal O Estado de São Paulo. Disponível em:<http://economia.estadao.com.br/noticias/geral,todos-querem-ser-um-nespresso- imp-,583033>. Acesso em: 11 abr. 2015. TIDD, J.; BESSANT, J.; PAVITT, K. Gestão da inovação. Porto Alegre: Bookman, 2008. Inovação e Competitividade Aula 06 Fatores organizacionais e P&D Objetivos Específicos • Identificar fatores de sucesso na gestão de atividades de P&D. Temas Introdução 1 O posicionamento das atividades de P&D 2 Localizando atividades de P&D – global versus local 3 Alocação de recursos de P&D 4 A P&D em pequenas empresas Considerações finais Referências Maikel Maciel Trennepohl Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução Empresas que querem e buscam inovar precisam assegurar o efetivo aprendizado e a integração das suas áreas e atividades. Portanto, é de extrema importância a integração para o aprendizado estratégico. Essa integração acontece vigorosamente em departamentos de P&D (Pesquisa e Desenvolvimento), nos quais há cientistas e engenheiros, biólogos e sociólogos, gestores e técnicos, com suas funções e divisões especializadas, todos em prol dos mesmos objetivos de inovação. A estratégia da inovação terá sucesso se conseguir, ao mesmo tempo, integrar as diversas áreas e competências e criar aprendizado que gere conhecimento, e que, consequentemente, reflita em melhorias e inovações para a organização e ultrapasse limites corporativos, departamentais e funcionais. Na literatura de gestão, possivelmente, a área mais conhecida e na qual há mais probabilidade de interfaces é a área de P&D das empresas. Assim, nesta aula, vamos aprofundar nossos estudos nos seguintes tópicos: • a localização de P&D e outras atividades tecnológicas; • o papel da P&D e funções relacionadas à alocação de recursos financeiros; • as tarefas estratégias de inovação em pequenas e grandes empresas. Existe uma atenção crescente quanto à necessidade de desenvolver pesquisa de base, e, principalmente, pesquisa aplicada, por parte das empresas. Cada vez mais, os laboratórios e departamentos de pesquisa e desenvolvimento das organizações estão interagindo com atores externos, compartilhando informação e conhecimento e desenvolvendo produtose processos mais sustentáveis, econômicos e em menor espaço de tempo. É responsabilidade das áreas de P&D atuarem ativamente como prospectores de tecnologias, estando atentas às oportunidades de desenvolvimento, buscando sempre aperfeiçoar o radar tecnológico da empresa. O papel da P&D é cada vez mais estratégico e de vital importância para a manutenção da estratégia empresarial como um todo, e, especialmente, em apoiar a empresa no seu posicionamento de mercado. 1 O posicionamento das atividades de P&D Um grande papel da área de P&D é construir um ambiente aberto à mudança, no qual há aprendizado contínuo. No entanto, o propósito das atividades de tecnologia das empresas e a sua natureza podem variar bastante. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 Tidd, Bessant e Pavitt (2008) relacionam as atividades de P&D em dois diferentes níveis. Quadro 1 – Níveis das atividades de P&D na organização Nível empresarial - as perspectivas de tempo são longas; - o feedback de aprendizagem é lento; - as conexões internas são frágeis; - as conexões com fontes externas de conhecimento são fortes; - os projetos são relativamente baratos. Nível da unidade de negócio - as perspectivas de tempo são curtas; - o feedback de aprendizagem é rápido; - as conexões internas (com produção e marketing) são fortes; - os projetos são onerosos. Fonte: Adaptado de Tidd, Bessant e Pavitt (2008, p. 226). Essas premissas de posicionamento da P&D influenciam o modo de operação da empresa e, consequentemente, os resultados dos projetos de pesquisa. No nível empresarial, os projetos de pesquisa e desenvolvimento visam, geralmente, à construção de conhecimento, o desenvolvimento de recursos humanos e técnicos e a construção do posicionamento tecnológico da organização, com um olhar mais a longo prazo. No nível da unidade de negócio, esses projetos de pesquisa têm um foco claro na implementação de objetivos comerciais em desenvolvimento de produto, com especial atenção para custo, qualidade e tempo de desenvolvimento, geralmente com um olhar de curto a médio prazos para atender demandas pontuais de mercado e/ou de cliente. Equilibrar as atividades de curto e longo prazos é um desafio da empresa para manter- se inovadora. Ao mesmo tempo em que precisa lançar melhorias e novas plataformas para satisfazer clientes atuais, também deve olhar a longo prazo, acompanhando as mudanças constantes do mercado. Um método prático adotado para definir o local onde as atividades de P&D serão desempenhadas é o seguinte (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008): • P&D de suporte para negócios já existentes, sejam produtos, processos ou divisões, deve ser alocada em divisões estabelecidas; • P&D de suporte para novos negócios, sejam produtos, processos ou divisões, deve, a princípio, ser alocada em laboratórios centrais, e, depois, transferida para as divisões (recém-criadas ou já estabelecidas) para exploração; • P&D de suporte à produção estrangeira deve ser alocada perto daquela produção estrangeira e estar voltada, principalmente, para a adaptação de processos e produtos às condições locais. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 Existe, atualmente, uma grande disputa entre os países para hospedar centros de P&D de empresas estrangeiras, considerando-se os benefícios que geram, seja o emprego criado, o conhecimento ou a oportunidade de gerar tecnologias nacionais. O Governo Federal lançou, recentemente, um programa que pretende atrair investimentos de multinacionais estrangeiras em P&D. O programa, chamado Innovate in Brazil, apoia investidores com interesse em instalar centros de pesquisa e desenvolvimento no Brasil em quatro setores estratégicos: energias renováveis; Tecnologia da Informação e Comunicação; petróleo e gás; e saúde. O programa, gerido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC) e pela Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (Apex-Brasil), mapeou mais de 150 empresas com potencial de investimento. Para saber mais, visite a Midiateca da disciplina! Um aspecto importante da P&D corporativa que deve ser analisado quanto ao posicionamento da área refere-se à forma como é desenvolvida: se de forma centralizada, descentralizada ou com colaboração externa, haja vista a crescente tendência de a P&D criar “alianças estratégicas” com organizações externas à empresa. Tidd, Bessant e Pavitt (2008, p. 230) identificam quatro conjuntos de fatores que influenciarão o equilíbrio adequado quanto à forma de desenvolvimento da área de P&D: 1. a principal trajetória tecnológica da empresa. A organização precisa identificar qual a melhor forma de equilibrar suas atividades de P&D, portanto, deve ter claramente definidas as trajetórias tecnológicas que quer alcançar. Iniciativas corporativas em indústria de base são importantes quando aplicáveis diretamente ao desenvolvimento tecnológico (como no caso da indústria química e farmacêutica). Por outro lado, os laboratórios corporativos são menos importantes quando aplicados a setores complexos de produtos e produção (como no caso do transporte aéreo e automotivo), em que os esforços estão mais em P&D e design; 2. o grau de maturidade da tecnologia. Algumas inovações, como a nanotecnologia e a optoeletrônica, mostram que, após o surgimento de tecnologias fundamentais, há um estágio de “incubação” de longo período, em que há muitas tentativas, muitos erros e muita aprendizagem. É importante que, durante esse período, a empresa consiga isolar os processos de aprendizagem da pressão comercial imediata, amadurecendo as tecnologias em seus laboratórios corporativos; 3. estilo estratégico corporativo. O laboratório corporativo de P&D terá pouca importância na empresa cujo objetivo estratégico é o desempenho financeiro e o curto prazo para produtos já existentes. Essas empresas que têm a visão de curto prazo e orientação meramente mercadológica acabam perdendo oportunidade surgida com o desenvolvimento e a exploração de tecnologias novas; 4. conexões com novas tecnologias de base científica. As chamadas “novas ciências”, como a biologia molecular, nanotecnologia, sistemas embarcados, entre outras, têm gerado novas formas de pesquisa básica. Geralmente, são empresas geradas Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 em universidades e que, por terem reduzido seus custos de experimentação técnica, podem atingir grandes avanços tecnológicos. Essas empresas acabam sendo bastante atraentes para as grandes empresas estabelecidas, que podem explorar essas oportunidades por meio da colaboração externa. 2 Localizando atividades de P&D – global versus local Com a globalização de mercados, investimentos e transações financeiras, a globalização das atividades de P&D também é algo relevante para a estratégia de empresas e de países. A globalização do P&D das empresas colabora para o surgimento de habilidades especializadas e também para a criação de inovações em nível mundial. Um bom exemplo de que a globalização é fundamental para a estratégia da organização é a 3M, que mantém mais de 30 centros de pesquisa ao redor do mundo, inclusive no Brasil (3M, 2014). Tidd, Bessant e Pavit (2008, p. 235) fazem uma análise do que chamam de “tecnoglobalismo”, ou seja, a globalização das atividades tecnológicas, a respeito das atividades de P&D das multinacionais ao redor do mundo, e sugerem: 1. a concentração geográfica de P&D em um único lugar, para o lançamento de produtos, facilita a resolução de problemas imprevistos, visto que a proximidade entre parceiros permite ações rápidas e dirigidas; além do que, a integração da P&D com produção e marketing é facilitada por meio de contatos pessoais e diretos; 2. quando os gestores decidem sobre a internacionalização de sua P&D, devem considerar que podem se tornar parte de redes de conhecimento globais, pois é cada vez mais práticoestabelecer laboratórios relativamente pequenos em países estrangeiros para tornar-se parte do ecossistema de inovação local, beneficiando- se do conhecimento de novas práticas e novos mercados; 3. quando os gestores decidem sobre a internacionalização de sua P&D, devem analisar a complexidade e a dificuldade de obtenção de conhecimento apenas dentro dos limites nacionais e locais, além do custo de mobilização do quadro de pessoal técnico para o lançamento de inovações. Por isso, muitas empresas costumam concentrar os maiores desenvolvimentos de produtos ou processos em um país, geralmente, onde há acesso a um mercado líder. Quando analisamos a organização da inovação em caráter global, é fundamental entender a diferença entre duas estratégias: a estrutura de base especializada e a estrutura de base integrada – em rede (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). Na estrutura de base especializada, a empresa cria centros de excelência globais, que são responsáveis, globalmente, por desenvolver um produto, processo ou uma tecnologia específicos. A vantagem da especialização global é que facilita o alcance de recursos críticos e a coordenação para o alcance da inovação, além do fato de que as economias de escala podem ser alcançadas. Essa estrutura permite a alocação próxima a um conglomerado de inovação global, no qual há forte interação com agentes locais de inovação. Como desvantagem, pode haver um isolamento do centro de pesquisa das necessidades globais e consequente transferência de tecnologia para outros centros espalhados pelo mundo. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 Na estrutura de base integrada, as diferentes unidades ou os centros de inovação da empresa ao redor do planeta irão contribuir para o desenvolvimento de projetos de tecnologia. A vantagem desse modelo é que é possível integrar diferentes competências e perspectivas internacionais, com forte aprendizado e troca de experiências de centro para centro, que se localizam em lugares diversos do mundo. Como desvantagem, a manutenção dessa estrutura demanda alto custo de coordenação, além da duplicação de esforços. Na prática, é bastante comum encontrar-se uma combinação dessas duas estruturas. Tidd, Bessant e Pavit (2008, p. 237) apresentam os principais fatores de influência na decisão de onde alocar o centro de P&D, por ordem de importância: 1. disponibilidade de competências essenciais ao desenvolvimento do projeto; 2. a credibilidade internacional, dentro da organização, do gestor da área de P&D que coordena o projeto; 3. a relevância de fontes externas de conhecimentos mercadológicos e tecnológicos, que servem como informação de clientes, fornecedores e novas tecnologias; 4. a relevância de custos internos de transação, como engenharia e produção; 5. o custo e a dificuldade de realocação de pessoal interno para atender ao projeto. Portanto, são esses fatores que definem se o projeto de implementação de um centro de P&D será ou não viável para ser implementado pela multinacional em outro país. 3 Alocação de recursos de P&D A prática de avaliar as possíveis contribuições de investimentos tecnológicos para o resultado da organização está diretamente relacionada à forma que os gestores alocam recursos para as atividades tecnológicas. Tidd, Bessant e Pavit (2008, p. 240) discorrem sobre três categorias de P&D que as empresas devem financiar cujos critérios e objetivos são diferentes para sua seleção. Construção de conhecimento: é considerada a pesquisa de baixo custo, em estágio inicial, que serve para manter a organização atenta a novas oportunidades ou ameaças. Serve mais como um investimento em manter a “vigilância tecnológica”, sendo que a empresa procura estar atenta a possíveis inovações e para avaliar quais os riscos de não dominar aquela tecnologia. Não deve ser aplicada nenhuma análise mercadológica nesse caso e existe forte relação com o meio acadêmico e especialistas. É comum a contratação de bolsistas em áreas de P&D que têm forte vínculo com a universidade e podem contribuir para identificar essas demandas “ocultas e desconhecidas” por parte da empresa. Posicionamento estratégico: essas atividades de P&D ficam entre a construção, que é base de conhecimento e o investimento comercial, sendo um importante elo entre essas duas fases. Geralmente, envolvem P&D aplicada, demandam demonstração de que são exequíveis (visando reduzir incertezas) e costumam ser uma aposta da alta gestão de que a empresa Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 conseguirá transformar a competência técnica em investimentos lucrativos na fase comercial. Nessa fase de posicionamento estratégico é que são, geralmente, criados os programas que a P&D deve desenvolver. Nesse estágio, há muitas indefinições e dúvidas e, portanto, a análise mercadológica deve ser ampla. A organização deve considerar diversas possibilidades de aplicação para suas inovações. É comum relacionar e comparar os programas de P&D às “opções de ações” existentes no mercado financeiro, em que uma empresa pode negociar a opção de comprar uma ação por um preço específico sem data específica – em antecipação ao aumento de seu valor futuro. Nessa fase, os custos são mais elevados do que aqueles aplicados em construção de conhecimento, mas menores do que os de investimentos comerciais em larga escala. Investimento comercial: é a etapa de desenvolvimento, produção e marketing propriamente dita. Demanda gastos elevados e gera constante atenção para a relação de custos e benefícios de manter-se os projetos de inovação. É muito forte o uso de marketing para identificar oportunidades de melhorias do consumidor ou usuário final. Prazos longos na etapa comercial costumam comprometer o resultado financeiro da empresa e, devido aos montantes de recursos destinados, é comum haver um monitoramento do desenvolvimento para atender às expectativas. No Quadro 2, é possível entender resumidamente as principais características quanto às três categorias de alocação de recursos. Quadro 2 – Critérios para avaliar a alocação de recursos de P&D Objetivo Atividade técnica Análise de mercado Natureza de risco Alianças externas Construção de conhecimento Pesquisa básica e monitoramento Nenhuma Pequena = custo da P&D Concessão de pesquisa e bolsistas Posicionamento estratégico Pesquisa aplicada, focada, e desenvolvimento exploratório Ampla Pequena = custo da P&D Contrato de P&D e garantias Investimento comercial Engenharia de desenvolvimento e produção Específica Grande = custo total de lançamento Controle majoritário ou joint venture Fonte: Adaptado de Tidd, Bessant e Pavitt (2008, p. 241). É papel da alta gestão entender e avaliar constantemente o impacto que cada fase de alocação de recursos terá sobre a estratégia de investimento da organização para a P&D, visando garantir que o processo seja bom para o resultado da empresa. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 4 A P&D em pequenas empresas Nas pequenas empresas, é normal que os processos organizacionais que integram funções de marketing, produção e alocação de recursos sejam completamente diferentes e menores do que aqueles empregados nas grandes empresas. Como nas pequenas empresas essas funções são menores e menos especializadas, é comum que sejam propensas a estarem mais integradas; portanto, mantêm distância física e operacional menores. O Quadro 3 apresenta as principais diferenças entre pequenas e grandes empresas quanto ao formato das atividades fundamentais de inovação que são executadas. Quadro 3 – Tarefas estratégicas em grandes e pequenas empresas Tarefa estratégica Grande empresa Pequena empresa Integrar tecnologia com produção e marketing - Design organizacional - Processos organizacionais para os fluxos de conhecimento - Responsabilidades da alta gestão Monitorar e assimilar novo conhecimento técnico- P&D própria e redes externas - Periódicos comerciais e técnicos - Serviços de assessoria - Consultores - Fornecedores e clientes Julgar os benefícios da aprendizagem com investimentos em tecnologia - Julgamentos baseados em procedimentos e critérios formais - Julgamentos baseados em qualificações e na experiência da alta gestão Combinar estilo estratégico com oportunidades tecnológicas - Design organizacional deliberado Qualificações de gestores e colaboradores Fonte: Adaptado de Tidd, Bessant e Pavitt (2008, p. 251). Em geral, nas grandes empresas, o procedimento formal e preconcebido é o principal meio de integração de conhecimento e de realização e execução de tarefas. O design organizacional existente é geralmente rígido e formal. Nas pequenas empresas, os gestores seniores, geralmente sócios ou proprietários- investidores, é que desempenham papel relevante na adoção de tarefas estratégicas relativas à inovação, dadas suas experiências, responsabilidades e redes de contatos externos. A área de P&D nas duas condições é bastante diferente. Enquanto na grande empresa a área é geralmente um departamento, com estrutura, investimentos e equipe qualificada e dedicada, na pequena empresa, a P&D é, geralmente, uma função de um colaborador sênior, ou, ainda, comumente, de um dos sócios ou gestores. Portanto, seu nível de habilidade (gerencial e técnica) determinará se a inovação alcançará o sucesso comercial e se se tornará uma vantagem tecnológica da organização. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 Considerações finais As empresas mantêm-se competitivas, em grande parte, à função desenvolvida pelas suas áreas de P&D. São a pesquisa e o desenvolvimento de produtos e processos que sustentam a manutenção da competitividade e da existência da organização. A correta relação entre P&D e atividades de inovação a ela relacionadas na empresa não é meramente uma fórmula pronta. Quanto ao posicionamento das atividades da P&D, este está dividido em dois níveis: o nível empresarial e o nível da unidade de negócio. No empresarial, os projetos visam à construção de conhecimento e o desenvolvimento de recursos em longo prazo. Na unidade de negócio, há uma preocupação com a implementação de produtos em curto prazo. Em relação à forma como é desenvolvida a P&D, consideram-se quatro conjuntos de fatores: a principal trajetória tecnológica da empresa; o grau de maturidade da tecnologia; o estilo estratégico corporativo e as conexões com novas tecnologias de base científica. Um aspecto importante da definição das atividades de P&D refere-se à localização das atividades – de forma global ou local. Quando analisamos a organização da inovação em caráter global, é fundamental entender a diferença entre duas estratégias: a estrutura de base especializada e a estrutura de base integrada – em rede. Na estrutura de base especializada, a empresa cria centros de excelência globais, que são responsáveis, globalmente, por desenvolver um produto, processo ou uma tecnologia específicos. Na estrutura de base integrada, as diferentes unidades ou os centros de inovação da empresa, ao redor do planeta, irão contribuir para o desenvolvimento de projetos de tecnologia. A prática de avaliar as possíveis contribuições de investimentos tecnológicos para o resultado da organização está diretamente relacionada à forma que os gestores alocam recursos para as atividades tecnológicas. São três as principais categorias de P&D que as empresas devem financiar: a construção do conhecimento, o posicionamento estratégico e os investimentos comerciais em tecnologia. A diferença do desenvolvimento da P&D em grandes e pequenas empresas, além das estruturas físicas de laboratórios e equipes, está, também, nas tarefas estratégicas desempenhadas nos dois tipos de organizações. Enquanto na grande empresa há formalidade e design organizacional bem definido, na pequena empresa, é a equipe sênior (geralmente, sócios gestores) que determinará o alcance da inovação no mercado e o sucesso para a empresa. Referências TIDD, J.; BESSANT, J.; PAVITT, K. Gestão da inovação. Porto Alegre: Bookman, 2008. 3M. A Culture of Innovation. Disponível em: <http://solutions.3m.com/3MContentRetrievalAPI/ B l o b S e r v l e t ? l m d = 1 3 4 9 3 2 7 1 6 6 0 0 0 & l o c a l e = e n _ W W & a s s e t Ty p e = M M M _ Image&assetId=1319209959040&blobAttribute=ImageFile.>. Acesso em: 12 abr.2015. Inovação e Competitividade Aula 07 Alianças e inovação Objetivos Específicos • Avaliar a necessidade de alianças interempresas para viabilizar inovações tecnológicas Temas Introdução 1 Redes de relacionamento 2 Razões para colaboração interempresas Considerações finais Referências Roseli Jenoveva Neto Professora Autora Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução Reforçando o entendimento sobre inovação, podemos dizer que é a transformação de uma ideia ou de uma invenção levada ao mercado e que resulte em melhoria de desempenho ou retorno econômico. Nesta aula, vamos conhecer como as diferentes formas e estruturas de alianças empresariais podem propiciar o acesso aos conhecimentos relacionados com as tecnologias ou conhecimentos de mercado para viabilizar inovações. No entendimento de Tidd, Bessant e Pavit (2008, p. 305), “[...] quase todas as inovações exigem algum tipo de arranjo cooperativo para o seu desenvolvimento ou comercialização [...]”. Existe uma crescente percepção de que a inovação está fortemente associada ao aumento da competitividade. As demandas do mercado exigem o aumento da capacidade empresarial para desenvolver tecnologias em tempo e custo menores. Encontrar todas as competências necessárias dentro da empresa é cada vez menos viável, então, a solução pode estar na formação de redes de colaboração: “[...] levar qualquer ideia inovadora adiante depende de muitos tipos de insumos vindos de diferentes pessoas e perspectivas” (BESSANT; TIDD, 2009, p. 104). Pare para refletir, olhe ao seu redor, quantas inovações estão ao seu alcance: o telefone celular, o laptop, internet, caixa eletrônico. Pense! Como essas tecnologias conectam-se em redes de colaboração e como fazem parte das nossas vidas. Vamos começar! 1 Redes de relacionamento Na afirmação de Bessant e Tidd (2009), cada vez mais, o processo de inovação trata de conexões entre empresas, desenvolvendo e fazendo uso de redes cada vez mais amplas. As empresas inteligentes sempre reconheceram a importância de ligações e conexões, aproximando-se de clientes ou consumidores para melhor compreender suas necessidades, cooperando com fornecedores para que disponibilizem soluções inovadoras, criando vínculos com colaboradores, centros de pesquisa e até concorrentes, com vistas à construção e operação de sistemas em inovação. As redes de relacionamento, também denominadas networking, têm, como finalidade, constituir e manter a colaboração entre empresas, profissionais, instituições de pesquisa e desenvolvimento tecnológico, instituições de ensino, entre outros. Neste estudo, iremos focar nas redes de relacionamento mais voltadas para o processo de inovação. Poucas áreas de negócios permitem que uma única empresa detenha todos os elementos necessários para transformar uma ideia em um negocio viável (KOULOPOULOS, 2011). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 Em tempos de operações globalizadas e de infraestruturas tecnológicas de alta velocidade, povoadas por pessoas com grande capacidade de mobilização, construir e gerenciar redes e conexões tornou-se a exigência vital para a inovação. Não se trata tanto de criação de conhecimento, e sim de fluxo de conhecimento. Até mesmo os grandes nomes da pesquisa e desenvolvimento, percebem que não podem dar conta de todos os campos de conhecimento de que precisam e estão procurando, em vez disso organizar redes abrangentes de relacionamentoscom outros participantes, em todo o globo. (BESSANT; TIDD, 2009, p. 105). Para ilustrar a complexidade de alguns setores, o referido autor cita um setor muito conhecido por todos – o setor hoteleiro. Trata-se de um setor que envolve uma rede de fornecedores, prestadores de serviços, sistema de informações – como check in, serviço de quarto, internet, canais de filmes, transporte, necessidades individuais, serviço de comunicação, recepção, check out. A ideia, nesse caso, seria pensar como desenvolver alianças pensando em inovações centradas no cliente, integrando todas essas atividades e as informações de que o serviço hoteleiro necessita para atender ao cliente de forma personalizada. É importante ressaltar que a aplicação da inovação centrada no cliente se estende a muitos outros setores. Figura 1 – Reunir para conquistar Complementando o exemplo da indústria hoteleira, lembramos-nos da indústria de cinema, na qual cada filme é produzido por equipes diferentes – diretor, produtor, atores, estúdios, produtores de efeitos especiais e música –, sendo altamente dinâmica e especialmente boa para um exemplo de rede. A formação de alianças empresariais vem ampliando-se e apresentando bons resultados, sendo uma importante estratégia de melhorar e ampliar a capacidade de atender às demandas e ganhar vantagem competitiva. Essa complexa interação gira em torno do conhecimento e do modo como ele circula, combina-se e posiciona-se para promover a inovação. A ideia do inventor solitário trilhando Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 seu próprio caminho é um mito, começando pelo grande esforço e pelos diferentes recursos necessários para viabilizar a inovação. Embora ideias individuais, paixão e energia sejam elementos essenciais, a maioria dos empreendedores bem-sucedidos reconhece a necessidade de intensa atividade em redes para coletar recursos dos quais necessitam, por meio de complexas redes de relacionamentos (BESSANT; TIDD, 2009). Seja qual for o objetivo da criação de uma rede, especialmente a operação de uma rede de inovação, não é fácil. Inicialmente, exige-se um novo conjunto de habilidades gerenciais. Há uma grande diferença, por exemplo, entre as exigências de uma rede de inovação que trabalha na fronteira tecnológica, em que questões sobre gerenciamento de propriedade intelectual e riscos são fundamentais, e outra em que há um plano de trabalho de inovação preestabelecido. Mas um dos desafios essenciais está em construir confiança e compartilhar informação. Alguns dos diferentes tipos de redes podem estar relacionados em termos de “[...] quão radical é a meta de inovação em relação à atual atividade de inovações [e] semelhança entre empresas participantes” (BESSANT; TIDD, 2009, p. 118). Ao fazer essa distinção, percebe-se que diferentes tipos de redes possuem diferentes questões a resolver. Na sequência, passaremos a descrever algumas formas de colaboração e algumas razões por que as empresas colaboram. 2 Razões para colaboração interempresas As razões mais comuns de colaboração interempresas estão relacionadas com desenvolvimento de um produto que atenda a mudanças nas necessidade de clientes e mercado. A colaboração por meio das alianças é um meio de ter acesso e aprender sobre o mercado, a tecnologia e/ou obter vantagem. Segundo Tidd, Bessant e Pavitt (2008), nenhuma forma de colaboração é ideal em qualquer sentido genérico. As considerações estratégicas é que determinarão o que é possível e o que é desejável. As empresas colaboram tendo em vista algumas razões, apresentadas por Tidd, Bessant e Pavitt (2008, p. 305): • Para reduzir o custo tecnológico ou de entrada no mercado; • Para reduzir o risco de desenvolvimento; • Alcançar economias de escala; • Para reduzir o tempo gasto para desenvolver e comercializar novos produtos; • Para promover aprendizagem compartilhada. Os autores sugerem que, para fins de análise, convém agrupar as alianças interempresas em três grupos: tecnológicos, de mercado e empresariais. As razões tecnológicas estão relacionadas a custo, tempo e complexidade de desenvolvimento. Convém ressaltar que os custos não se constituem como fator mais importante que incide em uma decisão de adquirir tecnologia externa. Os fatores mais determinantes são a busca por vantagem competitiva, Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 expansão de mercado e aumento de oferta de produtos. Destaca-se que a colaboração poderia ser usada mais como uma oportunidade de aprendizagem do que para minimizar custos. A aliança entre Philips e Sony para o desenvolvimento, a produção e a comercialização do compact disc (CD) é um bom exemplo de múltiplos objetivos das alianças estratégicas. A Philips desenvolveu o protótipo do CD em 1978, após seis anos de trabalho. Em 1979, estabeleceu aliança com a Sony pela sua capacidade de produção e acesso ao mercado japonês. Em 1982, o CD foi lançado no mercado japonês e, em 1983, na Europa e nos Estados Unidos. Em resumo, as principais razões para a colaboração entre a Philips e a Sony foram o acesso a tecnologias complementares, o estabelecimento de padrões internacionais, a entrada em mercados internacionais e a economia de escala. 2.1 Tipos de colaboração das alianças Segundo Trott (2012), alianças estratégicas são as ferramentas do século XXI. Há algum tempo, a utilização da ferramenta era restrita a grandes e empresas multinacionais. Atualmente, pode ser uma oportunidade viável para pequenas e médias empresas. Você sabia que, desde 448 a.C., diversas cidades gregas formaram alianças na luta contr os persas? a As alianças podem ser caracterizadas de diferentes maneiras e serão definidas de acordo com as necessidades dos parceiros, não existindo uma forma ideal. As diferentes formas e estruturas de alianças são redes de inovação, licenciamento, consórcios, aliança estratégica, joint ventures e terceirização. As alianças horizontais são motivadas pela necessidade de conhecimento complementar, tecnológico ou de mercado. As alianças verticais são mais motivadas pela necessidade de redução de custo. Outra maneira de analisar as alianças é em termos estratégicos e táticos. Enquanto alianças estratégicas são constituídas por empreendimentos conjuntos formais e redes de inovação e oferecem estruturas mais apropriadas de aprendizagem, a terceirização e o licenciamento são do tipo tático (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). A seguir, vamos detalhar um pouco mais os tipos de colaboração interempresarial mais praticados. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 2.1.1 Redes de inovação Ainda há pouco conhecimento sobre redes; não se tem uma definição clara do que seja uma rede de inovação, pois existem muitos modelos, muitas estruturas. Considera-se que as redes de inovação podem oferecer muitos benefícios (aprendizagem) e poucas desvantagens, além de serem geralmente constituídas para longa duração. Elas podem existir em qualquer nível: global, nacional, regional, setorial, organizacional ou individual. Veja o exemplo a seguir em nível global da Nike (TROTT, 2012, p. 239): Empresas de gestão de marcas como a Nike são com frequência considerada como empresas de rede. Isso acontece porque a Nike possui e administra a marca e se apoia em uma rede estabelecida de relacionamentos para produzir e distribuir seus produtos. Ela não tem a propriedade de todas as fábricas utilizadas para a confecção de seu tênis ou e todos os pontos de venda em que seus produtos são comercializados; realiza pesquisa, projetos e desenvolvimentos, mas tem uma rede de fabricantes na Ásia, na Índia e na América do Sul. Existem as parcerias que produzem os modelos inovadores de calçados e outras parcerias que podem produzir sapatos com custos mais baixos. Um exemplo em nível regional (estadual) é a Rede PRONIT. Trata-se de uma rede catarinense que trabalha na articulação e implementaçãode projetos de trabalho em rede para a implementação e capacitação dos núcleos de inovação tecnológica (NITs) nas instituições de ciência e tecnologia (ICTs) do estado. Diversas instituições integram o projeto, como: IEL/SC, UFSC, IF-SC, EMPRAPA, ACATE, EPAGRI, FUNDAÇÃO CERTI, FURB, INSTITUTO STELA, SENAI/SC, SOCIESC, UDESC, UNESC, UNISUL, UNIVALI, UNIVILLE, UNOCHAPECÓ e UNOESC. O projeto conta com financiamento da FINEP, da FAPESC e do CNPq. O desenvolvimento do linux – é um caso de inovação em rede? O sistema operacional de computador Linux foi largamente desenvolvido por uma rede de programadores voluntários, muitas vezes referida como “comunidade Linux”, iniciada em 1991. Este é provavelmente um dos poucos exemplos de uma organização virtual formada por um grupo de programadores voluntários. Em 2004, o Linux começou a entrar no mercado de consumo quando a Hewlett- Packard lançou seu primeiro notebook com base Linux, o que ajudou a reduzir o custo da unidade. Saiba mais detalhes na página 334 do livro de Tidd, Bessant e Pavitt, de 2008. De acordo com Tidd, Bessant e Pavitt (2008), qualquer que seja o nível, um dos atributos mais importantes é o grau e o tipo de interação entre os atores. As redes de inovação abrangem, principalmente, empresas inovadoras, além de outros atores, como governo, universidades, centros de pesquisa e agentes financeiros (DE PELEGRIN et al. 2007). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 2.1.2 Licenciamento e transferência de tecnologia O licenciamento e a transferência de tecnologia, de modo geral, referem-se ao repasse do conhecimento científico e tecnológico para a empresa contratante. O termo “tecnologia” pode significar um produto tecnológico, um processo tecnológico, uma patente ou um software. Em troca, ocorre o pagamento de taxas e de royalties sobre as vendas. Teoricamente, o licenciamento oferece vantagens em relação ao desenvolvimento interno, principalmente ao baixar custos de desenvolvimento de produto. Assim, a transferência e o licenciamento de tecnologia são alternativas para que as empresas possam internalizar a inovação tecnológica em seu processo produtivo, mantendo-se competitivas. Em contrapartida, os possíveis inconvenientes poderão estar em cláusulas restritivas impostas pelo licenciante, mas depende muito da natureza tecnológica e do mercado. Pesquisas demonstram que os fatores mais importantes para o licenciamento estão relacionados à rapidez (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). 2.1.3 Consórcio de pesquisa Consiste em um grupo de empresas trabalhando em um projeto. Pode ser definido como colaborações multiempresariais – entre concorrentes ou entre empresas não concorrentes. Por exemplo: companhias de petróleo e fabricantes de automóveis pesquisando para reduzir emissões tóxicas do escapamento dos carros. Convém ressaltar que nem sempre as opiniões são convergentes em relação ao direcionamento dos objetivos e resultados das pesquisas; nesse caso, poderia ser sobre a formulação do combustível x a eficiência dos motores. Estudos empíricos confirmam que o aumento da capacidade tecnológica das empresas está associado ao aumento da participação em consórcios (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). 2.1.4 Alianças estratégicas Constituem-se, normalmente, em um acordo entre duas ou mais empresas para o codesenvolvimento de uma nova tecnologia ou produto. Enquanto os consórcios tendem a concentrar-se em questões mais básicas de pesquisa, alianças estratégicas envolvem projetos de desenvolvimento, duração flexível, visam acesso a novos mercados ou a adquirir competências por meio de aprendizagem organizacional (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). De acordo com Trott (2012), uma aliança estratégica é um acordo entre dois ou mais parceiros feito para compartilhar conhecimentos e recursos, o que pode ser benéfico para todas as partes envolvidas. Lentamente, os negócios estão começando a ampliar suas perspectivas, abrindo mão da tradicional posição do “eu sozinho”, em que as empresas concorrem individualmente umas com as outras. O desenvolvimento de telefones celulares, de tratamento contra doenças como a AIDS, de fabricação de aeronaves e carros, tudo está dominado por batalhas de concorrência global entre grupos empresariais. Até a IBM Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 abandonou a estratégia do “eu sozinho” e juntou-se à Cisco Systems, a fim de desenvolver sistemas de segurança, e à japonesa Toshiba, para desenvolver telas de cristal líquido (LCD). 2.1.5 Terceirização Inicialmente, a terceirização foi restrita às funções de negócios periféricas e bastante motivada por uma lógica de redução de custos (terceirização tradicional), mas, agora, transformou-se em movimento que inclui o núcleo competitivo das organizações (terceirização estratégica). É chamada de terceirização estratégica na medida em que busca vantagens competitivas a partir da abertura de todas as funções de negócio, incluindo as competências centrais que promovam vantagem competitiva a quem oferece a melhor solução desejada, interna ou externa. Em contraste com a terceirização tradicional, não há limites de proteção em torno de atividades centrais, na esperança de que as organizações possam maximizar sua capacidade de inovação ao serem uma parte ativa da rede econômica (TROTT, 2012). Tal estratégia não é isenta de riscos: não somente o risco de vazamento de informação comercialmente relevante, quando as firmas trabalham em colaboração com múltiplos parceiros, mas também em relação ao próprio conhecimento técnico. Há o perigo de que as organizações que buscam a terceirização estratégica possam perder a capacidade de reconhecer novas oportunidades de negócios para si mesmas (TROTT, 2012). De acordo com Terra (2012), o relacionamento para a inovação não se compra, constrói-se. Não se trata de terceirizar cérebros, mas de interligar a estratégia de inovação às necessidades dos clientes e demandas de mercado de forma muito mais ampla do que qualquer empresa sozinha. Quadro 1 – Colaboração externa Danone: Para ser a líder em alimentos funcionais, por que não colaborar com o concorrente? Com mais de 900 pesquisadores internos e colaborações científicas com diversos institutos na França, Argentina e nos Estados Unidos, a Danone possui 80% dos seus projetos de pesquisa e desenvolvimento focados em alimentos funcionais. A parceria mais interessante talvez seja com a Yakult – empresa japonesa na área de probióticos. Em conjunto, as duas empresas pesquisam novos métodos de análise da composição da flora intestinal. Qual o objetivo da colaboração entre as concorrentes? É garantir a liderança em um mercado mundial e ultrapassar a rival de ambas, a Nestlé. Fonte: Terra (2012, p. 221). Até agora, discutimos a respeito da colaboração interempresas como um meio de ter acesso a novos conhecimentos tecnológicos ou de mercado ou formas de obter vantagens e manter a competitividade. Mas, naturalmente, a colaboração é uma atividade arriscada e nem sempre consegue atingir os objetivos. É uma atividade complexa, pois as empresas têm diferentes expectativas em relação às alianças, além de outras diferenças Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 em relação aos interesses dos parceiros, diferença cultural etc. Além disso, também é uma boa oportunidade de aprender novas competências, absorver novos conhecimentos e desenvolver novos relacionamentos. Como já foi ressaltado nesta aula, inovação não é uma atividade individual, requer a interação de múltiplos participantes. Então, precisamos desenvolver habilidades com redes. De acordo com Bessant e Tidd (2009), três tarefas são recomendadas: Achar – quem selecionar e por que – por exemplo, fontes complementares de conhecimento, financiamento, acesso a mercados essenciais etc. Formar – como será o relacionamento de trabalho com os parceiros? O que interessa? Que tiposde contratos serão necessários? Como serão construídos a confiança e o gerenciamento de processos essenciais de tomada de decisão, resolução de conflitos, compartilhamento de riscos e benefícios? Desempenhar – como reter e desenvolver relacionamento em longo prazo? Como sustentar o relacionamento desde o projeto inicial? Como finalizar o relacionamento? Atuar dentro de uma rede de inovação não é tarefa fácil, exige desafios, um conjunto de habilidades gerenciais e depende muito do ponto de partida. Considerações finais O assunto sobre as alianças interempresas, redes de colaboração e parcerias para a inovação está sendo bastante estudado ultimamente. Nesta aula, foram identificadas diferentes formas de colaboração. Muitas empresas, de pequeno a grande porte, perceberam que já não conseguem se manter competitivas e inovadoras contando somente com seus talentos internos e trabalhando de forma isolada. Essencialmente, empresas colaboram para reduzir custo e gerar valor. As redes de colaboração permitem adquirir e alavancar capacidades tecnológicas em menor tempo, compartilhando custos e riscos. Além disso, possibilitam maximizar receitas com a criação de novos negócios, atender necessidades de clientes, oportunidades de mercados e obtenção de vantagens competitivas. Referências BESSANT, J.; TIDD. J. Inovação e empreendedorismo. Porto Alegre: Bookman, 2009. DE PELLEGRIN, I. et al. Redes de inovação: construção e gestão da cooperação pró-inovação. Revista de Administração da Universidade de São Paulo, v. 42, n. 3, 2007. Disponível em: <http://www.rausp.usp.br/download.asp?file=V4203313.pdf>. Acesso em: 7 dez. 2015. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 10 KOULOPOULOS, T. M. Inovação com resultado. São Paulo: Editora Gente e Editora Senac, 2011. TERRA, J. C. Dez mandamentos da gestão da inovação: uma abordagem para a transformação organizacional. Rio de Janeiro: Elsevier, 2012. TIDD, J.; BESSANT, J.; PAVITT, K. Gestão da inovação. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2008. TROTT, P. Gestão da inovação e desenvolvimento de novos produtos. Tradução: Patricia Lessa Flores da Cunha. Revisão técnica: Paulo Antonio Zavislak. 4. ed. Porto Alegre: Bookman, 2012. Inovação e Competitividade Aula 08 Intraempreendedorismo Intrapreneurship Objetivos Específicos • Identificar a importância do fator humano em empresas altamente inovadoras. Temas Introdução 1 O que é um empreendimento corporativo? Considerações finais Referências Roseli Jenoveva Neto Professora Autora Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução O objetivo desta aula, cujo tema é intraempreendedorismo, é identificar a importância do fator humano em empresas altamente inovadoras. As discussões sobre inovação estão na pauta de preocupações dos mais diversos tipos de organizações, tendo em vista que a capacidade de uma organização de gerar inovações é considerada a principal fonte de vantagem competitiva sustentada no longo prazo. Convém ressaltar a importância do fator humano nesse contexto, pois são as pessoas que empreendem, aprendem, compartilham conhecimento e experiência, que inovam, logicamente apoiadas pela tecnologia, por recursos financeiros etc. Contudo, é a partir do conhecimento das pessoas que podemos falar em inovação organizacional, aprendizagem organizacional, empreendimento corporativo etc. Bem, a partir disto, vamos tratar do tema desta aula, cujo nome parece complicado, intrapreneurship ou intraempreendedorismo, que surge como uma boa alternativa a ser adotada pelas organizações. Trata-se, justamente, da criação de um ambiente organizacional que propicie a valorização das ideias e dos projetos dos funcionários da empresa. Para iniciar, vamos relembrar a diferença de conceitos entre um empreendedor e um intraempreendedor. Um empreendedor (entrepreneur) é um empreendedor que, por meio de suas habilidades, cria um negócio próprio e está disposto a assumir a plena responsabilidade pelo seu sucesso ou fracasso. Por outro lado, é intraempreendedor (intrapreneur) um empreendedor dentro de uma organização já constituída. Um empreendedor corporativo é alguém que utiliza sua habilidade para gerar novas ideias para o negócio de outra pessoa. A principal distinção entre um empreendedor e um intraempreendedor é que o primeiro tem a liberdade de agir, enquanto o intraempreendedor depende de aprovação interna da empresa. O empreendedor corporativo idealiza o início e a implementação de práticas inovadoras dentro de uma organização. O intrapreneur é o revolucionário que batalha por mudanças e renovação por dentro do sistema. O intraempreendedorismo (intrapreneurship) visa à valorização de ideias, conhecimentos e experiências (know-how), para que fiquem retidos na organização e sejam transformados em vantagem competitiva, caso contrário, poderão se perder ou parar na concorrência. Veja o Quadro 1 sobre as variações do termo empreendedorismo. Quadro 1 – Derivações e variações do termo empreendedorismo Derivações e variações do termo empreendedorismo Palavra comum Derivações Empreendedorismo Entrepreneurship Processo Empreendedor Espírito Empreendedor Empreendedor Entrepreneur Unternehmer (alemão) Executivo/Empresário Intraempreendedor Intrapreneur Entrepreneur Corporativo Empreendedor Corporativo Empreendimento Enterprise Negócio Empresa Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 Intraempreendendo Intrapreneuring Empreendendo Internamente Empreendendo em uma organização Intraempreendedorismo Intrapreneurship Empreendedorismo Corporativo Corporate entrepreneurship Fonte: Bueno (2005, p. 67 apud SCHMITZ; AGUIAR, 2009). A decisão de iniciar um novo empreendimento, para o empreendedor, começa, em geral, com o desejo de ganhar independência. A necessidade de independência, em vez de sucesso, na maioria das vezes é a motivação para os empreendedores, ao passo que o empreendedorismo corporativo é a capacidade da empresa de inovar sistematicamente, criar novos produtos, processos, serviços ou novos negócios. São mudanças no modelo econômico da era da manufatura para o modelo econômico da era da inovação empreendedora. Agora que já conhecemos bem as diferenças, vamos nos aprofundar nesse tema. 1 O que é um empreendimento corporativo? Uma organização que procura aplicar suas competências em um novo mercado ou negócio ou que adquire novas competências para responder a uma inovação potencialmente disruptiva possui três opções, segundo Tidd, Bessant e Pavitt (2008): 1. tentar mudar as competências dentro da estrutura e dos processos organizacionais – o objetivo da gestão da mudança, nessa opção, consome tempo e os resultados são incertos; 2. adquirir uma organização que possui competências necessárias – esta opção exige uma compra adequada, é cara e os resultados, variáveis. Em muitos casos, a organização adquirida leva tempo para integrar-se, e, em outros, pessoas-chave ficam perdidas no processo; 3. desenvolver uma organização à parte dentro dela mesma, com diferentes estruturas, processos e culturas – esta opção é geralmente chamada de empreendedorismo corporativo ou de empreendimento corporativo interno, para distingui-lo do empreendimento principal. A inovação revolucionária ou disruptiva ocorre quando os novos produtos têm um impacto tão grande sobre o sistema produtivo que podem tornar as bases tecnológicas existentes obsoletas, criar novos mercados e até alterar o comportamento da sociedade. Pode-se citar como exemplos de inovação tecnológica revolucionária a televisão e telefonia celular, os computadores pessoais e a internet. Christensen (2003) distingue “inovações de ruptura” de “inovações de sustentação”, como sendo, respectivamente, inovação radical e incremental. Inovações sustentadoras direcionam-se para clientes existentes. Inovações disruptivas tendem a oferecer melhorias além das demandas (TIDD; BESSANT; PAVITT,2008; TROTT, 2012). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 Na literatura, são encontradas diversas nomenclaturas para referir-se ao tema empreendedorismo, como empreendedor (entrepreneur) (intrepreneur), intraempreendedor (intrapreneur), intrapreneurship, empreendedor corporativo, empreendimento corporativo (Corporate Ventures). Então, vamos entender um pouco mais! Empreendimentos corporativos (Corporate Ventures) são negócios criados pela empresa, à parte, do restante da corporação, geralmente com produtos diferentes dos existentes. Os indivíduos que atuam dentro da organização de forma dependente, renovando ou inovando, são empreendedores corporativos. O intraempreendedorismo parte do princípio de que a empresa cria as condições para que funcionários empreendedores, que se destacam, possam encontrar o ambiente que acolha e propicie a experimentação de soluções inovadoras e criativas. Gifford Pinchot cunhou o termo intraempreendedorismo (ou empreendedorismo interno) em 1978, o qual se refere à capacidade dos funcionários de atuar como donos da empresa. Intrapreneurship é o empreendimento aplicado dentro da organização, são pessoas que trabalham na empresa agindo como se fossem os proprietários. Qualquer que seja o termo, percebemos a presença do fator humano nesse processo. Na Credicard, a cultura de empreendedorismo já deu origem a duas outras empresas, a Redecard, que era uma divisão responsável pela venda de máquinas e rede de telefonia para comunicação dos cartões de crédito, e a Orbital, processadora de cartões. A Credicard, hoje, é responsável apenas pela parte nobre do negócio – o relacionamento com os clientes. Mas tem de dar retorno, e tem que estar alinhado com o negócio central da empresa. Roberto Lima, presidente da Credicard. (COHEN, 2004). Um empreendimento corporativo é diferente das atividades de P&D convencional e de desenvolvimento de produtos, tanto em seus objetivos quanto em termos de organização. Vejam as diferenças, de acordo com Tidd, Bessant e Pavitt (2008): 1. um empreendimento corporativo procura explorar competências tecnológicas e de mercado existentes, lembrando que a função principal de um novo empreendimento é aprender novas competências. Na prática, a divisão pode ser menos evidente. Por exemplo, espera-se que a equipe técnica da 3M utilize 15% de seu tempo explorando ideias externas aos projetos existentes e, em âmbito corporativo, isso se traduz em uma meta de, no mínimo, 25% das vendas provenientes de produtos com menos de cinco anos de existência; 2. A gestão das atividades de P&D, a natureza e o propósito das atividades tecnológicas das empresas variam bastante, e as atividades de P&D também variam entre as empresas. A questão é: o posicionamento de interesse é em uma divisão? Em uma unidade de negócio? Na corporação como um todo? Até pouco tempo atrás, um método prático adotado para decidir onde as atividades de P&D deveriam ser desempenhadas era “P&D como suporte para os negócios já existentes (como produtos, processos ou divisões) e deveria ser alocada em divisões já estabelecidas” (TIDD; BESSAN; PAVITT, 2008, p. 226). 3. O que dizer das 170.000 inovações implementadas em seis anos pela Tupy Fundições? Essa marca impressionante ajudou a empresa a aumentar suas vendas, aproximadamente, em 17% ao ano e foi um dos motivos que levaram a empresa catarinense a classificar-se em primeiro lugar no Ranking de Empreendedorismo Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 Corporativo, criado pelo Instituto Brasileiro de Intra-Empreendedorismo (ibie), publicado com exclusividade pela Revista Exame. (COHEN, 2004). A organização e a gestão mais eficaz de um novo empreendimento dependerão de duas dimensões: (1) a importância estratégica do empreendimento para o desenvolvimento corporativo; e (2) sua proximidade em relação aos negócios e às tecnologias centrais, conforme descrevem Tidd, Bessant e Pavitt (2008). Em geral, quem está familiarizado com a avaliação de propostas relacionadas às linhas de negócios consegue escalar posições dentro da empresa. Algumas perguntas podem auxiliar a avaliar a relevância de um novo empreendimento. Os autores supracitados sugerem um roteiro com as seguintes questões: • O empreendimento manteria nossa capacidade de competir em novas áreas? • Ajudaria a criar novos nichos defensáveis? • Ajudaria a identificar para onde não devemos ir? • Até que ponto poderia colocar a empresa em risco? • Como e quando a empresa poderia deixar o empreendimento? A segunda dimensão é a proximidade com habilidades e capacidades existentes (essa é mais difícil). Qualquer que seja o motivo principal para a criação de um novo empreendimento, a proposta deveria identificar possíveis oportunidades, inserindo tecnologias, produtos e mercados existentes. Tidd, Bessant e Pavitt (2008) sugerem uma lista de verificação com as seguintes questões: • Quais as capacidades-chave exigidas para o empreendimento? • Onde, como e quando a empresa irá adquirir as capacidades, e a que custo? • Como essas novas capacidades afetarão as atuais? • Onde e como poderiam ser exploradas? • Quem mais pode ser capaz de fazer isso, talvez melhor? A avaliação de um novo empreendimento ao longo dessas duas dimensões ajudará a determinar a organização e a gestão do empreendimento. 1.1 Razões para empreender de modo corporativo Quando a empresa tenta entrar em um novo mercado ou tenta desenvolver uma nova tecnologia, nesses casos, é provável que seja necessário um empreendimento corporativo. Um empreendimento corporativo é uma organização independente ou um sistema projetado para ser compatível com as necessidades de um negócio novo, de alto risco, mas, possivelmente, de grande crescimento. O termo “intraempreendedorismo” é, algumas vezes, usado para descrever tais atividades empreendedoras dentro da organização, mas não é suficiente para promover o comportamento empreendedor dentro de uma organização. Precisa mais do que isso: é indispensável que o resultado seja demonstrado em forma de negócio desejado, aceito Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 e aprovado pela organização. Isso sugere a necessidade de objetivos estratégicos claros para o empreendimento corporativo, e mais, estruturas e processos organizacionais adequados para atingir esses objetivos. Existe uma diversidade de motivos para o estabelecimento de empreendimentos corporativos e Tidd, Bessant e Pavitt (2008) sugerem alguns: fazer crescer o negócio, explorar recursos pouco utilizados, pôr pressão nos fornecedores internos, livrar-se de atividades não centrais, satisfazer ambições dos gestores, diluir o risco e o custo do desenvolvimento de produtos, combater exigências cíclicas das atividades principais, diversificar o negócio e desenvolver novas competências tecnológicas ou de mercado. 1. Fazer crescer o negócio: o desejo de atingir e manter as taxas de crescimento esperadas é provavelmente a razão mais comum para o empreendimento corporativo, particularmente quando os negócios centrais estão amadurecendo. Em geral, o esforço é para analisar novos ou adaptados produtos, processos ou técnicas, e uma ênfase relativamente pequena é colocada na expansão do negócio considerado como um todo. 2. Novas maneiras de explorar recursos pouco utilizados: inclui recursos humanos e tecnológicos. Geralmente, uma empresa em que os recursos existentes são pouco utilizados tem duas escolhas – desfazer-se e terceirizar o processo ou gerar contribuição adicional a partir de clientes externos. 3. Pôr pressão competitiva nos fornecedores internos: esse é um motivo comum, tendo em vista o momento atual para terceirização. Quando uma atividade de negócio é separada – uma escolha precisa ser feita – ou o negócio existe a fim de ser exposto à realidade da competição comercial ou apenas para aprender-se com ele. 4. Livrar-se de atividadesnão centrais: é comum ouvir falar dos benefícios do foco estratégico – o que promove a diminuição de investimentos em atividades que podem ser terceirizadas. No entanto, esse processo pode enfraquecer a diversidade de habilidades, que poderá ser interessante em um ambiente competitivo em constante mudança. 5. Satisfazer ambições dos administradores: à medida que uma atividade de negócio passa por seu ciclo de vida, ela exigirá diferentes estilos de administração para a obtenção de ganhos efetivos. Isso pode significar que a equipe precisará mudar em função das fases de concepção e crescimento, crescimento e maturidade, ou entre maturidade e declínio. 6. Diluir o risco e o custo do desenvolvimento de produtos: neste caso, duas situações são possíveis: (1) quando a tecnologia ou a experiência necessita ser mais desenvolvida antes de ser aplicada no negócio principal; ou (2) quando o volume de vendas de um produto à espera de desenvolvimento precisa vender para um público-alvo mais amplo do que os grupos de consumidores existentes para ser justificado financeiramente. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 7. Aprender sobre o processo de empreendimento: empreender é uma atividade de alto risco em função do nível de incerteza. Para que um exercício de aprendizado seja realizado, é fundamental que metas e objetivos sejam escolhidos para ser estabelecidos, inclusive com cronograma de revisão. Caso contrário, pode ocorrer a perda de entusiasmo dos gestores empreendedores e a desvalorização de possíveis oportunidades. 8. Desenvolver novas competências tecnológicas ou de mercado: crescimento e diversificação são, geralmente, baseados na exploração das competências existentes em novos mercados de produtos, mas um empreendimento corporativo pode também ser utilizado como uma oportunidade para aprender novas competências. O aprendizado organizacional implica quatro dimensões: aquisição de conhecimento, interpretação da informação, distribuição da informação e memória organizacional. 1.2 Gerenciamento de empreendimentos corporativos Um empreendimento corporativo raramente é o resultado de um ato espontâneo ou acidental. O processo necessita ser gerenciado e o desafio dos gestores é criar um ambiente que incentive e apoie o empreendedorismo e que identifique e apoie potenciais empreendedores. Essencialmente, o processo é simples e consiste em identificar uma oportunidade para um novo empreendimento, avaliar essa oportunidade e, na sequência, oferecer recursos apropriados para apoiar o novo empreendimento. De acordo com Tidd, Bessant e Pavitt (2008, p. 455), existem seis estágios, distribuídos entre definição e desenvolvimento. Estágio de definição: 1. Estabelecer um ambiente que encoraje a geração de novas ideias e a identificação de novas oportunidades. 2. Selecionar e avaliar oportunidades para novos empreendimentos e selecionar administradores para implementar o programa de empreendedorismo. 3. Desenvolver um plano de negócio para o novo empreendimento e iniciar as operações. Estágio de desenvolvimento: 4. Monitorar o desenvolvimento do empreendimento e do processo de empreendedorismo. 5. Lutar pelo novo empreendimento, de modo que ele cresça e se torne institucionalizado dentro da corporação. 6. Aprender a partir de experiências, a fim de melhorar o processo de empreendedorismo como um todo. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 Identificação dos empreendimentos corporativos: A criação de um ambiente que seja encorajador e contundente à atividade empreendedora é o estágio mais importante, mas, também, o mais difícil. O empreendedorismo deve ser responsabilidade de uma corporação inteira, e o comprometimento da alta gestão demonstrado por meio da disponibilização de recursos e da implementação de processos apropriados. Desenvolvimento de empreendimentos corporativos: Tendo identificado o potencial para um novo empreendimento, é necessário convencer a alta gestão de que a oportunidade de negócio é tecnicamente viável e, ao mesmo tempo, comercialmente atrativa, e que, por esse motivo, justifica seu desenvolvimento e investimento. Convém ressaltar que empreendedores corporativos enfrentarão barreiras e, para superá-las, precisam ter habilidades políticas e sociais. Destacam-se dois tipos de habilidades: o conhecimento técnico necessário para desenvolver o produto, processo ou conhecimento base; e a competência administrativa necessária para comunicar e vender aos mercados. 1.3 Aprendizagem por meio de empreendimentos internos De acordo com Tidd, Bessant e Pavitt (2008), aproximadamente metade de todos os novos empreendimentos corporativos sobrevive e torna-se departamento nas organizações, o que sugere que o empreendedorismo pode ser uma estratégia interessante para a diversificação. Em geral, um empreendimento atingirá a lucratividade dentro de dois ou três anos, podendo variar a lucratividade por conta de algumas falhas. Os autores citam quatro fatores para caracterizar as empresas que obtêm sucesso de maneira consistente no empreendimento corporativo: 1. Distinguir decisões ruins e má sorte em relação à avaliação de empreendimentos malsucedidos. 2. Mensurar o progresso do empreendimento frente ao cronograma de eventos previamente estabelecido, e, se necessário, redirecioná-lo. 3. Encerrar um empreendimento quando necessário em vez de fazer mais investimentos. 4. Enxergar o empreendimento como um processo de aprendizagem e aprender a partir de falhas, bem como de sucessos. Existem duas causas principais para o fracasso de empreendimentos internos: inversão estratégica e o surgimento de armadilhas. A inversão estratégica ocorre em função de um conflito entre as escalas de tempo do novo empreendimento e da organização controladora. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 Figura 1 – Estratégias Um empreendimento interno pode ser estabelecido por várias razões: para apoiar uma estratégia de diversificação, em função de uma tomada de decisão de risco da alta gestão, um excesso de caixa ou um declínio na linha de negócio principal da empresa. Qualquer que seja a razão, é pouco provável que os ambientes interno e externo permaneçam estáveis ao longo de toda a vida do novo empreendimento. O surgimento de armadilhas pode afetar o sucesso de um empreendimento. À medida que um empreendimento se expande, pode levar a disputas internas e o sucesso pode levar à inveja, por exemplo, resultando em tentativas de prejudicar o empreendimento. Em particular, divisões de novos empreendimentos são altamente visíveis e representam uma concentração de despesas, portanto, estão mais expostas à opinião dos gestores de modo geral. Na prática, um novo empreendimento não terá um período indefinido para que possa se legitimar e, na maioria dos casos, a administração corporativa estabelecerá objetivos altos para crescimento e retorno financeiro, a fim de compensar o risco e a incerteza inerentes ao novo empreendimento. De acordo com Tidd, Bessant e Pavitt (2008), existem algumas formas de contribuir para evitar problemas: Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 10 • fazer com que os gerentes corporativos fiquem cientes dos benefícios, em longo prazo, das operações do empreendimento; • especificar, de maneira clara, funções, procedimentos, limites e recompensas da administração do empreendimento; • estabelecer um número limitado de empreendimentos com orçamentos independentes; • estabelecer e manter recursos múltiplos de patrocínio para empreendimentos. Sendo assim, é fundamental definir o propósito de um novo empreendimento, a fim de aplicar as estruturas financeiras e organizacionais adequadas. Quando o motivo principal é o aprendizado, os sistemas e as estruturas para apoiar o novo empreendimento precisam ser estabelecidos, em vez de simplesmente tirar vantagemdo rápido crescimento das vendas. As empresas podem organizar e gerenciar novos empreendimentos a fim de maximizar a exploração do conhecimento. Considerações finais Esta aula foi dedicada a identificar a importância do fator humano em empresas inovadoras. Os motivos que podem ser destacados para uma empresa criar um empreendimento corporativo são melhorar a competitividade por meio da exploração de competências já existentes ou a exploração de mercado de algum produto mais atrativo. Um empreendimento corporativo exige um plano de negócio consistente e um empreendedor interno (determinado e motivado) que identifique e defenda o novo empreendimento, consiga levantar os recursos, forme a equipe, gerencie e avalie o empreendimento. Existe uma vasta literatura sobre empreendedorismo, mas, em relação ao intraempreendedorismo ou empreendedorismo corporativo, a literatura ainda é escassa. Em geral, o que se espera do empreendedor corporativo, como de qualquer empreendedor, é que seja altamente motivado, tenha visão do negócio, saiba tomar decisões, saiba explorar e aproveitar as oportunidades, que seja determinado, dinâmico, otimista, saiba liderar e formar equipes, tenha bom relacionamento (networking), conhecimento do negócio e habilidade em planejamento e alto nível de habilidade política e social. Ele tem a vantagem de possuir, à disposição do projeto, os recursos da empresa controladora, mas precisa lidar com as políticas e os processos internos da empresa. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 11 Referências COHEN, David. O Ranking da inovação. Revista Exame, 18 jun. 2004. Disponível em: <http:// exame.abril.com.br/revista-exame/edicoes/820/noticias/o-ranking-da-inovacao-m0051745>. Acesso em: 6 jul. 2015. DORNELAS, J. C. A. Empreendedorismo corporativo: como ser empreendedor, inovar e se diferenciar em organizações estabelecidas. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. SCHMITZ, F. R.; AGUIAR, A. R. Empreender por necessidade ou por vontade? Um estudo de caso. In: LAPOLLI, E. M. et al. (Orgs.). Capacidade empreendedora: Teoria e casos práticos. 1. ed. Florianópolis: Pandion, 2009. TIDD, J.; BESSANT, J.; PAVITT, K. Gestão da inovação. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2008. TROTT, P. Gestão da inovação e desenvolvimento de novos produtos. Tradução: Patricia Lessa Flores da Cunha. Revisão técnica: Paulo Antonio Zavislak. 4. ed. Porto Alegre: Bookman, 2012. Inovação e Competitividade Aula 09 Inovações disruptivas Objetivos Específicos • Identificar o que são e qual a importância das inovações disruptivas no Modelo de Christensen. Temas Introdução 1 O modelo de inovação disruptiva 2 Inovações sustentáveis e geração de crescimento 3 Os dois tipos de disrupção Considerações finais Referências Professor Autor Maikel Maciel Trennepohl Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução Inovações são realizadas constantemente por empresas do mundo todo. Algumas dessas inovações visam à melhoria – pequena ou grande – de um produto ou processo já existente. Outras são inovações mais significativas, que podem mudar radicalmente um mercado e que são introduzidas com grande impacto na vida das pessoas. O conceito de inovação disruptiva estabelece a maneira pela qual um novo serviço ou novo produto pode transformar um mercado existente — e, afinal, substitui e redefine a situação atual existente, introduzindo uma nova conveniência e simplicidade ao cliente. O conceito também é análogo às circunstâncias de sustentação, quando a concorrência implica fazer melhores produtos – que podem ser vendidos por mais dinheiro para os clientes atraentes. Algumas inovações têm impacto tão profundo na vida das pessoas, na sociedade e no mundo em geral que são chamadas de inovações disruptivas, ou seja, quando o desafio é comercializar um produto mais simples e conveniente, que é vendido por menos dinheiro e requer um conjunto novo ou pouco atraente ao cliente. As inovações disruptivas costumam estar atreladas às inovações radicais e partem, geralmente, de empresas estreantes, também chamadas de startups. O propósito desta aula é aprofundar nosso conhecimento a respeito do modelo de inovação disruptiva, a fim de entender como os construtores de crescimento podem moldar as suas estratégias para que eles escolham caminhos revolucionários que possam seguir e implementar com sucesso. O modelo que estudaremos nesta aula tenta responder por que as empresas líderes em seus mercados podem ser surpreendidas e perder a sua liderança para empresas muito menores e com menos controle de mercado? Bons estudos! 1 O modelo de inovação disruptiva O pai do modelo da inovação disruptiva é o professor Clayton M. Christensen, da Escola de Negócios da Universidade de Harvard, que introduziu o termo em seu livro “O dilema da Inovação”, de 1997. Os elementos do modelo de inovação disruptiva são apresentados a seguir (CHRISTENSEN; RAYNOR, 2003). 1.1 Primeiro elemento Em todo mercado, há uma taxa de melhoramento que clientes podem utilizar ou absorver. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 Por exemplo, a indústria automobilística oferece, continuamente, melhorias de motorização e de tecnologias embutidas nos automóveis, porém, as pessoas não conseguem utilizar todas essas tecnologias disponíveis. Fatores como tráfego, limite de velocidade e questões de segurança nos restringem de usar tantas tecnologias. Clientes que se localizam na linha “mais exigente” talvez nunca estejam satisfeitos com o melhor disponível em tecnologias; por outro lado, aqueles clientes na linha inferior, “menos exigentes”, podem estar muito satisfeitos com pouca tecnologia. 1.2 Segundo elemento Em todo mercado ou segmento, existem trajetórias distintas de melhorias que as empresas inovadoras proporcionam à medida que elas introduzem produtos novos e melhorados. Dessa forma, entende-se que esse ritmo de progresso tecnológico pode traduzir a habilidade dos clientes de qualquer camada da sociedade na utilização das novas tecnologias. Assim, a empresa cujos produtos encontram-se adequadamente posicionados e que está alinhada com as necessidades atuais de seus clientes, provavelmente superará o que esses mesmos clientes estarão aptos a usar no futuro. Isso acontece porque essas empresas desenvolvem produtos vendidos com margens de lucro maiores para clientes ainda não satisfeitos nas camadas de maior demanda do mercado. Para exemplificar, voltemos ao ano de 1983, quando as pessoas começaram a utilizar os computadores pessoais com editores de texto. Os datilógrafos daquela época tinham que parar a digitação para permitir ao chip 286 da Intel (bastante popular àquela época) processar as palavras digitadas, ou seja, a nova tecnologia não era suficientemente boa. Porém, hoje, os processadores oferecem muito mais velocidade do que a atual necessidade dos clientes – embora ainda exista uma pequena quantidade de clientes insatisfeitos na camada alta do mercado e que necessita de chips ainda mais rápidos. 1.3 Terceiro elemento É a distinção entre a inovação incremental e a inovação disruptiva. Uma inovação sustentável (incremental) ampara a demanda de clientes das camadas mais altas da sociedade com produtos de melhor performance do que os disponíveis anteriormente. Algumas Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 inovações incrementais são melhorias introduzidas ano após ano pelas empresas; outras são realmente inovadoras e sobressaem-se aos produtos concorrentes. Não importa o quão difícil tecnologicamente é a inovação, as empresas estabelecidas no mercado, geralmente, vencem as batalhas das tecnologias incrementais. Isto porque essa estratégia subentende fazer um produto melhor, vendido com margens de lucro maiores para os seus melhores clientes. Assim, os competidores estabelecidos têm uma forte motivação para lutarcom a concorrência por batalhas de produtos incrementais, além dos recursos disponíveis, para vencer a briga. As inovações disruptivas, em contraste, não objetivam fazer produtos melhores para clientes estabelecidos em mercados existentes. Pelo contrário, elas irrompem e redefinem aquela trajetória por meio da introdução de novos produtos e serviços que não concorrem com os tradicionais produtos disponíveis no mercado. As tecnologias disruptivas oferecem outros benefícios, pois, tipicamente, representam produtos mais simples, convenientes e mais baratos, direcionados a clientes novos ou menos exigentes. Christensen e Raynor (2003, p. 34) explicam que, uma vez que um produto “disruptivo” ganha destaque em um novo mercado ou em mercados de menor demanda, o seu ciclo de melhoramentos incrementais é iniciado. E, devido ao ritmo de progresso tecnológico rapidamente superar as habilidades dos clientes em utilizar a nova tecnologia, uma tecnologia anterior evolui para cruzar com as necessidades dos clientes das camadas mais altas ou de maior demanda. Quando isso acontece, os “disruptores” estão em um caminho que, certamente, acabará por esmagar as empresas estabelecidas. Essa distinção é importante para empreendedores inovadores que buscam criar novos negócios em expansão. Considerando que os atuais líderes da indústria quase sempre triunfam em batalhas de inovação incremental, as chances de inovação disruptiva favorecem as empresas estreantes (ou startups). Os professores Christensen e Raynor (2003) desenvolveram o modelo de inovação disruptiva baseado nos elementos críticos de disrupção. Vamos analisá-los por meio da Figura 1. Figura 1 – Modelo de inovação disruptiva Performance Performance que pode ser absorvida pelos clientes Tempo Inovação Disruptiva Tra jetó ria de per form anc e p res ent e No va traj etó ria de per form anc e Client es ma is exig entes Client es me nos e xigent es } Fonte: Christensen e Raynor (2003, p. 33). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 Um exemplo de inovação disruptiva utilizado por Christensen e Raynor em seus estudos é a invasão das miniusinas na indústria de aço dos Estados Unidos, nas décadas de 1980 e 1990. Essas miniusinas entraram no mercado dominado pelas gigantescas Usinas Integradas, focadas na produção de barras de apoio para concreto, haja vista a insatisfação com a qualidade produzida por essa tecnologia na época. Como esse segmento representava pequenas margens (7%), as Usinas Integradas não viram problemas em abandoná-lo e focar em produtos com maior valor agregado e maior lucratividade. Como os grandes líderes da época não se preocuparam em atacar as miniusinas de aço, estas estabeleceram-se em mercados menos lucrativos e desenvolveram tecnologias de produção que as tornaram competitivas também em mercados maiores. O grande impulsionador da superação das miniusinas sobre as grandes é sua vantagem de ter os custos 20% menores do que as usinas estabelecidas, podendo, assim, entrar em mercados de camadas mais lucrativas e ameaçando diretamente as Usinas Integradas, que não as consideravam uma ameaça anteriormente (CHRISTENSEN; RAYNOR, 2003). As miniusinas continuaram atacando os mercados de maior lucratividade das Usinas Integradas. A sequência repetiu-se até que a miniusina líder da época, a Nucor, atacou o negócio de chapa de aço, o maior e mais lucrativo segmento do negócio das Usinas Integradas, e, então, iniciou uma revolução nesse mercado. 2 Inovações sustentáveis e geração de crescimento As inovações sustentáveis são tão importantes e atrativas, comparadas às inovações disruptivas, que as melhores empresas sustentáveis ignoram sistematicamente as ameaças e oportunidades disruptivas até o ponto em que podem perder espaço para a concorrência da ameaça de empresas entrantes. A estratégia de tecnologias sustentáveis não é um caminho viável para construir o novo crescimento dos negócios. Se uma empresa entrante cria e pretende vender um produto melhor para um mercado já estabelecido, visando reter os clientes de seus competidores, esses competidores estarão motivados a entrar em uma batalha, ao invés de fugir dela. Esse conselho serve até mesmo para quando o entrante é uma grande corporação com tanto recurso quanto o da empresa dominante do setor, ou até superior. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 Exemplo disso é o que aconteceu com as empresas IBM, Kodak e Xerox no negócio de fotocopiadora de alta velocidade, nos anos 1970 e 1980. A IBM e a Kodak eram muito maiores do que a Xerox na época, e mesmo assim elas falharam na briga com a Xerox na tentativa de criar uma competitiva tecnologia sustentável. Resultado do que aconteceu: a empresa que superou a Xerox foi a Canon – e a vitória começou com uma estratégia de uma copiadora de mesa, produto considerado disruptivo na época. Um exemplo mais recente de inovação sustentável é o que tem acontecido no mercado de aviação. Alguns anos atrás, a Airbus entrou no mercado de fabricação de avião comercial, desafiando seriamente a Boeing. Mas, para isso, precisou de subsídios maciços dos governos europeus. Nesse momento, o crescimento mais rentável no mercado de aeronaves vem de empresas com estratégias disruptivas, como a brasileira Embraer ou a canadense Bombardier, cujos jatos regionais estão atingindo mercados de nível superior de forma bastante rápida e agressiva. A inovação disruptiva é um terreno bastante fértil para empresas do mundo todo. Acesse a Midiateca da disciplina e saiba mais sobre o assunto. Um exemplo de como a inovação disruptiva pode ser um termo relativo é o caso do uso da internet para a compra de computadores e periféricos. Christensen e Raynor (2003, p. 41) explicam que, durante os anos 1990, investidores colocaram bilhões de dólares em empresas da internet, convencidas do seu potencial disruptivo. A empresa Dell Computer, antes do advento da internet, vendia computadores diretamente aos clientes por correio ou por telefone. Esse negócio era bastante manual, pois dependia de um funcionário para atender e processar o pedido do cliente no outro lado da linha e customizá-lo conforme o cliente desejava. No entanto, para a Dell, a internet era uma tecnologia sustentável, pois ela já fazia a venda customizada para seus clientes. Com a internet, tudo ficou melhor: a empresa produziria mais rapidamente e aumentaria sua lucratividade. A estratégia da Dell era diferente de outra empresa concorrente no setor, chamada Compaq, cujo modelo de negócio consistia em vender seus computadores exclusivamente por meio de lojas físicas. Para a Compaq, a internet surgia muito mais como uma inovação disruptiva e que poderia ameaçar o seu crescimento. O negócio de venda de computadores pela internet só não derrubou os gigantes da área porque empresas como a Dell a utilizaram como uma inovação sustentável e, até hoje, estão no mercado de venda de computadores pela internet. Assim, os entrantes do setor de venda de informática pela internet nunca prosperaram. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 3 Os dois tipos de disrupção Christensen e Raynor (2003) também contribuíram, com seus estudos, para a classificação da disrupção. Os autores identificaram dois tipos: new-market e low-end, que estudaremos mais profundamente nesta aula. 3.1 Disrupção new-market Nesse tipo de disrupção, são consideradas a criação de novos valores e novos atributos ao produto, além da busca por novos consumidores e novos mercados. As empresas dominantes já estabelecidas não se sentem ameaçadas porque não enxergam nem percebem que podem perder espaço para seus concorrentes. As empresas que introduzem inovações disruptivas vão ganhando força e melhoram o desempenho e a capacidade de reter novos clientes, que são trazidos pelas diferentes características desse novo produto. Nas inovaçõesdisruptivas new-market são consideradas inovações aqueles produtos que os clientes não adquiriram pela sofisticação ou pelo preço diferenciado. Nesse caso, podemos identificar esses clientes como não consumidores. Geralmente, apresentam desempenho mais baixo no início, mas trazem novos atributos. Como exemplo de disrupção new-market, estão os telefones celulares que, no início, traziam qualidade inferior aos telefones fixos em termos de voz e conexão; no entanto, mostraram-se atrativos por sua mobilidade, característica importante, que trouxe conveniência às pessoas. 3.2 Disrupção low-end A principal característica desse tipo de disrupção é o baixo custo. Sendo assim, o público- alvo da disrupção low-end são consumidores pouco atrativos para as empresas dominantes do setor. As grandes empresas estabelecidas têm a preocupação principal de atender (ou continuar atendendo) consumidores exigentes, ganhando cada vez mais espaço no seu segmento. Como essas empresas estão muito focadas em atender ou superar as expectativas de seus clientes, acabam desenvolvendo produtos e serviços que, muitas vezes, são superiores à média de mercado e com desempenho acima das necessidades dos seus clientes. Assim, com o foco das empresas dominantes em clientes conquistados e em aumento da fatia de mercado, as empresas entrantes podem focar seus esforços em oferecer produtos um pouco inferiores aos encontrados no mercado, mas, ainda assim, bons para atender às necessidades dos clientes e, como característica principal, têm a vantagem do menor custo ou de maior conveniência. Estes são atributos bastante atrativos para um grande público- alvo, que é, então, explorado por esses entrantes. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 Quando inovações tipo low-end desenvolvem produtos com aceitável desempenho, mesmo sendo tais produtos inferiores aos encontrados no mercado, geralmente conseguem entregar alguns bons atributos, como maior facilidade de uso, conveniência e, principalmente, menor preço. Como exemplo de inovação low-end, podemos citar as chamadas gratuitas por internet (Skype, WhatsApp etc.). 3.3 Síntese da disrupção low-end e new-market Christensen e Raynor (2003, p. 49) apresentam algumas questões em seus estudos que ajudam a empresa a identificar se existe potencial disruptivo na inovação. Para o caso das inovações de disrupção new-market, colocam as seguintes questões: Uma grande parte da população sem acesso a recursos financeiros, recursos físicos ou conhecimento de informações sobre o produto não permite que o consumidor utilize o produto, precisando de ajuda de um terceiro ou intermediário? Para o consumidor utilizar o produto, ele precisa ir a um local específico e inconveniente? E concluem: [...] se a tecnologia pode ser desenvolvida de modo a que uma grande população de pessoas menos qualificadas ou menos abastadas podem começar a possuir e usar, em um contexto mais conveniente, algo que era historicamente disponível apenas para pessoas mais habilidosas ou mais afluentes em um local inconveniente centralizado, então há potencial para moldar a ideia em uma disrupção New-market. (CHRISTENSEN; RAYNOR, 2003, p. 50). Para o caso das inovações de disrupção low-end, os autores colocam as seguintes questões: Existem consumidores interessados em produtos e serviços menos sofisticados (mas ainda com bom desempenho) se pudessem pagá-los por um preço menor? Podemos criar modelos de negócio que alcancem lucros atrativos, com desconto de preços, e que levem a conquistar estes consumidores low-end? (CHRISTENSEN; RAYNOR, 2003, p. 50). Muitas vezes, as inovações que permitem a disrupção low-end são melhorias que reduzem os custos indiretos, permitindo a uma empresa ganhar retornos atrativos em margens brutas menores, juntamente com melhorias nos processos de fabricação ou processos de negócios, que ajudam a acelerar os ganhos de escala e produtividade da organização. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 Quadro 1 – Diferença entre inovações sustentadoras e disruptivas Inovações sustentadoras Inovações disruptivas Low-end New-market Desempenho Melhoria do desempenho nos atributos mais valorizados pelos clientes mais exigentes do setor Desempenho muito bom com base nos critérios tradicionais de avaliação do desempenho do segmento inferior do mercado dominante Baixo desempenho nos atributos tradicionais, mas melhorias em novos atributos — simplicidade e conveniência Clientes-alvo Os consumidores mais lucrativos que estejam dispostos a pagar pela melhoria do desempenho Consumidores mais do que satisfeitos no segmento inferior do mercado dominante Consumidores que anteriormente não tinham poder aquisitivo ou habilidades para comprar e usar o produto Modelo de negócio Melhoria ou preservação das margens de lucro mediante a exploração dos processos e da estrutura de custos existentes Capacidade para gerar retornos atraentes a preços mais baixos Lucrativo a preços unitários mais baixos, inicialmente com volumes de produção menores Fonte: Adaptado de Christensen e Raynor (2003). O quadro apresenta três perspectivas: o desempenho, os clientes-alvo e o modelo de negócio. São demonstradas as principais características e diferenças entre as inovações sustentadoras (ou sustentáveis) e as inovações disruptivas, em seus dois tipos: low-end e new-market. Percebe-se que, dependendo da perspectiva, uma inovação pode ser mais atrativa do que a outra. Embora sejam diferentes, ambos os tipos de inovações disruptivas – new-market e low- end – criam o mesmo dilema preocupante para as empresas estabelecidas. A disrupção tipo new-market induz essas empresas estabelecidas a ignorarem os atacantes (as empresas estabelecidas), e a disrupção tipo low-end motiva as empresas estabelecidas a fugirem do ataque (CHRISTENSEN; RAYNOR, 2003). Mesmo assim, existem, ainda, diversas inovações disruptivas híbridas, combinando os dois tipos de inovações. Uma questão muito importante levantada pelos autores é o papel que os gestores desempenham na liderança de novas oportunidades de negócio. Os gestores são os responsáveis por efetivar e legitimar uma estratégia disruptiva que nasce na empresa. Devem estar sempre atentos à interface entre os tipos de inovações (sustentáveis e disruptivas), visto que daí surgem as oportunidades de novos produtos e serviços que poderão se transformar nos novos negócios da organização. É importante, ainda, que a alta gestão incentive uma cultura de inovação dentro da organização, criando um processo contínuo de longo prazo de busca por inovações disruptivas. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 10 Considerações finais Inovações disruptivas definem uma teoria: é um modelo conceitual de causa e efeito que torna possível prever adequadamente os resultados das batalhas pela competição, em diferentes circunstâncias. As empresas dominantes sentem-se ameaçadas quando atacadas por pequenos competidores, porque estratégias disruptivas consistem em concorrentes buscando fazer o que sabem fazer melhor e mais urgentemente: satisfazer seus clientes mais importantes e investindo onde há mais oportunidades de lucros. Os dados do modelo de inovação disruptiva são apresentados por cinco elementos, que acabam direcionando para o modelo das inovações disruptivas versus inovações sustentáveis. Uma inovação sustentável (incremental) ampara a demanda de clientes das camadas mais altas da sociedade com produtos de melhor performance em relação aos disponíveis anteriormente. As inovações disruptivas, em contraste, não objetivam fazer produtos melhores para clientes estabelecidos em mercados existentes. Pelo contrário, elas irrompem e redefinem aquela trajetória por meio da introdução de novos produtos e serviços que não concorrem com os tradicionais produtos disponíveis nomercado. Christensen e Raynor (2003) também contribuíram, com seus estudos, para a classificação da disrupção em dois tipos: new-market e low-end. As inovações disruptivas new-market podem ser entendidas como inovações para os clientes que não adquiriram o produto pela sofisticação ou pelo preço diferenciado; portanto, podemos identificá-los como não consumidores. Na disrupção low-end, a principal característica é o baixo custo. Sendo assim, o público-alvo são consumidores pouco atrativos para aquelas empresas dominantes do setor. As inovações disruptivas têm grande impacto nas empresas dominantes. Essas empresas desenham seus processos continuamente, buscando atender a inovações incrementais, sempre motivadas pelo crescimento do mercado dominado, assim, raramente defendem novos segmentos ou novos mercados. Acabam abrindo espaço para competidores que enxergam oportunidade de negócio em mercados de baixa demanda, que precisam de produtos com preços atraentes. Esse fato representa o foco central dos estudos de Christensen e Raynor (2003), conforme o modelo de inovação disruptiva estudado nesta aula. Referências CHRISTENSEN, Clayton M. O crescimento pela inovação: como crescer de forma sustentada e reinventar o sucesso. Rio de Janeiro: Campus, 2003. ______; RAYNOR, Michael E. A Solução do Inovador. HBR Press, 2003. NÓBREGA, Clemente. Categorizando a inovação (Inovação disruptiva-sabe o que é?). Época Negócios, 14 abr. 2008. Disponível em: <http://colunas.revistaepocanegocios.globo.com/ ideiaseinovacao/2008/04/14/categorizando-a-inovacao-inovacao-disruptiva-sabe-o-que-e/>. Acesso em: 12 nov. 2015. Inovação e Competitividade Aula 10 Segmentação de novos mercados Objetivos Específicos • Avaliar quais clientes são possíveis e necessários para uma organização em determinado momento. Temas Introdução 1 Entendendo a necessidade dos clientes 2 Alcançando crescimento por meio dos “não consumidores” 3 Os clientes como canais disruptivos Considerações finais Referências Maikel Maciel Trennepohl Professor Autor Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução O que têm em comum o site Airbnb – que tira do sério associações hoteleiras –, os aplicativos como Easy Taxi e 99Taxis – que tomaram o lugar das empresas de radiotáxi –, os serviços como o Netflix – que jogaram para a irrelevância as videolocadoras –e o Google – que fez milhões de pessoas esquecerem que precisavam de listas telefônicas? Essas empresas criaram novos mercados, atendendo a um público que queria pagar menos (ou ter de graça) um serviço ou produto que fosse tão bom quanto o que se encontrava no mercado. E quem são os melhores clientes para esses produtos? A definição de quais clientes a empresa deve atender depende tanto de uma profunda análise da empresa quanto do macroambiente competitivo. Depende, também, das necessidades não atendidas e das oportunidades que nem sempre são evidentes, mas que podem representar grande potencial para o produto ou serviço que a empresa pretende oferecer. Para a empresa definir o seu público-alvo, ela tem que ser capaz de responder a perguntas como: em quais clientes devemos focar? Que base de clientes representa a maior oportunidade de crescimento para o nosso negócio? O nosso potencial de crescimento será maior se seguirmos os maiores mercados? Como podemos prever qual competidor atenderá qual grupo de clientes? Se analisarmos profundamente essas questões e compararmos as estratégias de negócios sustentáveis versus negócios disruptivos, perceberemos que a estratégia disruptiva oferece uma probabilidade muito maior de sucesso em construir novos negócios de alto crescimento. Nesta aula, vamos aprofundar nossa discussão sobre as seguintes perguntas: quais clientes iniciais têm maior chance de se tornarem a base sobre a qual a empresa vai construir um negócio de sucesso? E como alcançar esses clientes? Entendendo essas questões, a empresa poderá avaliar quais clientes são possíveis e necessários para a organização atingir os resultados desejados. Bons estudos! 1 Entendendo a necessidade dos clientes Alguns clientes podem estar dispostos a aceitar produtos melhorados, mas, nem sempre, estão dispostos a pagar um preço premium por esse produto. A chave para o sucesso com os esses clientes é criar um modelo de negócios que seja atrativo em termos de retorno financeiro, oferecendo preços menores exigidos por esse público. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 Para entender a dificuldade de criar estratégias para atender às necessidades de clientes, começaremos com alguns exemplos. Na década de 1990, um número grande de empresas percebeu que havia uma demanda crescente por computadores pessoais nos lares da classe média. Como o custo dos computadores era considerado alto por esses consumidores, as empresas viram uma oportunidade de desenvolver um dispositivo que poderia acessar a internet e operar as funções mais básicas de um computador, custando cerca de 200 dólares. Um número grande de empresas tentou desbravar esse mercado – como a gigante de software Oracle –, mas acabaram falhando. Outro tipo de comportamento de consumo acontece quando as pessoas estão tentando obter algo, mas são incapazes de conseguir realizar elas mesmos porque os produtos disponíveis são muito caros ou muito complicados de usar. Dessa forma, acham que esse produto ou serviço é inconveniente, caro ou não satisfaz todas as suas necessidades. Esse tipo de consumidor mostra-se como uma grande oportunidade de crescimento para as empresas. A disrupção em novos mercados é uma inovação que permite a uma grande população de “não consumidores” – que não tem acesso financeiro ou que é incapaz de utilizar os recursos de alguns produtos e serviços – comprar ou utilizar esses produtos e serviços disruptivos. Um exemplo interessante de disrupção de novo mercado é apresentado por Christensen e Raynor (2003). Os autores relatam a entrada da Sony no mercado de rádios, na década de 1960, com o desenvolvimento de produtos que utilizavam transistores. Essa tecnologia substituiu, pouco a pouco, o uso dos grandes tubos de vácuo de rádio, fundamentais para o desenvolvimento de televisão, rádio, telefone e outras formas de reprodução de som. A Sony focou sua estratégia em um público “não consumidor” desses produtos, que era a geração de adolescentes. A substituição dos tubos por transistores representou muito mais eficiência, economia e possibilitou uma série de outras aplicações. Assim, a Sony conquistou rapidamente consumidores do mundo todo com seus novos produtos – os pequenos e resistentes rádios portáteis –, estabelecendo-se como uma marca de inovação e com ótima reputação pela qualidade de seus produtos. Entre os produtos mais conhecidos desenvolvidos por essa empresa estão o Walkman e o Discman. Poucas empresas alcançaram tanto prestígio no mundo tecnológico como a japonesa Sony, criada na década de 1940 por Akio Morita e Masaru Ibuka, dois entusiastas de tecnologias apaixonados pela inovação. Visite a Midiateca e conheça a interessante história do nascimento dessa empresa. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 Focar nos clientes que eram considerados “não consumidores” funcionou de forma mágica para a Sony por alguns motivos: • primeiro porque o ponto de referência desses consumidores era não possuir nem televisão nem rádio, então, esses clientes ficaram encantados com produtos mais simples e, às vezes, esquisitos. Portanto, a barreira de performance que a Sony teve que desbravar era relativamente simples e fácil. Isso acarreta um investimento muito menor em P&D, anterior à comercialização, se comparado ao que fizeram os fabricantes de tubos de vácuo de rádio para comercializar uma tecnologia semelhante. O mercado estabelecido representava uma barreira muito maior a ser vencida, visto que os clientes apenas adotariamprodutos eletrônicos quando se tornassem superiores em performance aos modelos existentes no mercado; • segundo porque as vendas da Sony cresceram a níveis significativos antes mesmo que as empresas de tubos de vácuo sentissem qualquer ameaça, uma vez que elas continuaram focando seus esforços em atender clientes, agora com vendas de televisores coloridos, obtendo uma ótima margem de lucro – estavam melhorando cada vez mais, ao mesmo tempo em que estavam sendo lentamente ultrapassadas pelas tecnologias disruptivas. Parecia não haver uma crise que fizesse a Sony parecer uma real ameaça. Mas, quando a crise chegou, os fabricantes de tubos de vácuo não poderiam simplesmente trocar uma tecnologia por outra e conquistar os mesmos clientes de seus produtos tradicionais; • por fim, a Sony havia criado um modelo de negócio utilizando canais renegados pelos fabricantes de tubos de vácuo, como a empresa RCA e sua associadas, que vendiam por meio de lojas específicas de tubos de vácuos. Mesmo com investimentos maciços na nova tecnologia, a RCA e seus colegas falharam porque trataram a inovação disruptiva dos transistores como uma inovação para o mercado secundário, o que se revelou um grande erro, quando o mercado inteiro passou a comprar e adotar os modernos aparelhos da Sony. Além desses exemplos, Christensen e Raynor (2003) ainda comentam sobre as inovações disruptivas da angioplastia, que, na década de 1980, fez frente aos procedimentos de cirurgia cardíaca conhecidos como “bypass”, e também o caso do surgimento mais recente de energia solar versus a energia elétrica convencional, que poderia beneficiar até dois bilhões de pessoas que vivem no Sul da Ásia e na África e que são “não consumidores”, mas representam um mercado de grandes oportunidades. E você ou seu grupo de amigos, interessam-se por tecnologias? Você conhece alguns entusiastas da inovação, como esses empreendedores que criaram a Sony? Reflita sobre como os produtos dessas empresas tecnológicas influenciam o nosso dia a dia. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 2 Alcançando crescimento por meio dos “não consumidores” Por meio dos exemplos apresentados, Christensen e Raynor (2003) definem padrões para a inovação disruptiva em novos mercados. Os gestores podem usar esses padrões como um modelo para encontrar os clientes ideais e as melhores aplicações para suas inovações disruptivas, ou podem usá-lo para dar forma às ideias nascentes e transformá-las em planos de negócios, visando gerar novo crescimento no mercado. Os elementos desse modelo são: 1. os clientes-alvo estão buscando resolver seus problemas, mas, por causa da falta de dinheiro ou de habilidades, não há possibilidade de adquirir uma solução (produto ou serviço) para o seu problema, mesmo que ela seja uma solução simples e barata; 2. esses clientes vão comparar inovações disruptivas com “nada”, pois não tiveram acesso a outros produtos. Como resultado, eles ficam encantados com os produtos disruptivos, mesmo que não sejam tão bons quanto os produtos dominantes no mercado. O obstáculo necessário para encantar esses novos consumidores é bastante modesto; 3. a tecnologia que permite a disrupção pode ser um pouco sofisticada, mas os disruptores preparam-se para que o uso e a compra desses produtos sejam simples, convenientes e infalíveis. São produtos com as características mais simples possíveis e que geram novo crescimento, pois permitem que pessoas com menor poder aquisitivo e menos experiência comecem a consumi-los; 4. a inovação disruptiva cria toda uma nova cadeia de valor. Os novos consumidores, tipicamente, compram produtos por meio de novos canais e usam os produtos de formas novas e interessantes. A história está cheia de exemplos de empresas que usaram a abordagem de inovação disruptiva para lançar produtos, conforme o modelo apresentado. Empresas como Microsoft, Oracle, Cisco e Toyota, e as brasileiras Embraer, Natura e Cacau Show, são exemplos de organizações que alcançaram valor além das ações de investidores e agregam valor para o mundo como um todo. 2.1 Ameaça versus oportunidade Uma análise interessante que Christensen e Raynor (2003) apresentam é a relação de ameaça e oportunidade frente à inovação disruptiva. É notável o comportamento de empresas estabelecidas quanto à introdução de tecnologias disruptivas, pois, no momento em que estas aparecem, não faz sentido investir em negócios crescentes quando os seus próprios negócios estão indo muito bem. Quando executivos das empresas estabelecidas percebem Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 o poder das tecnologias disruptivas, eles passam a enxergá-las como ameaça. Então, buscam entender essas novas tecnologias de modo a proteger seus atuais clientes, levando a empresa a perder o foco e deixar passar as oportunidades de crescimento – e, eventualmente, levando a empresa ao fracasso. Isto leva a entender que as empresas estabelecidas devem reposicionar sua estratégia como oportunidade frente às ameaças dos novos entrantes no mercado. De outro lado, estão as empresas entrantes, aquelas que estão ameaçando as empresas estabelecidas com suas tecnologias novas e disruptivas. Para elas, a disrupção é pura oportunidade. No entanto, faz-se necessária a criação de áreas específicas para gerenciar e comercializar essas tecnologias disruptivas. Como no exemplo das editoras de jornais de papel, que aproveitaram o crescimento da internet para levar o jornal on-line para os mesmos clientes que já liam o jornal em formato físico, a organização deve colocar foco e desmembrar- se para que o negócio disruptivo se torne um centro de lucros autônomo. Quando isso acontece, os membros desses centros independentes dentro da organização se encontram trabalhando em um negócio de grande oportunidade de crescimento. Então, criam-se novos processos e novas formas de vender essas novas tecnologias e, muitas vezes, o novo negócio passa a canibalizar os negócios antigos da organização. Ou seja, as novas tecnologias tornam-se oportunidades de negócio tão importantes que podem acabar substituindo os negócios principais da empresa. 2.2 Canais disruptivos Alcançar novos clientes do mercado geralmente exige novos canais de entrega (canais disruptivos). O termo “canal”, como é normalmente utilizado no mundo dos negócios, refere-se às empresas de atacado e varejo que distribuem e vendem produtos. No entanto, Christensen e Raynor (2003) oferecem um significado mais amplo para esse termo: O canal de uma empresa inclui não apenas distribuidores e varejistas, mas qualquer entidade que agregue ou crie valor para o produto da empresa à medida que ele segue seu caminho em direção às mãos do consumidor ou usuário final. Por exemplo, os computadores da IBM e da Compaq são os canais para que os microprocessadores da Intel e o sistema operacional da Microsoft atinjam os usuários finais (CHRISTENSEN; RAYNOR, 2003, p. 116). Essa definição mais ampla tem impacto sobre como estão interligados os elos da cadeia de valor. Se um produto não agregar valor em cada elo dessa cadeia para fazer melhor o seu trabalho – como empurrar a cadeia para frente para sustentar maiores margens de lucro, Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 promovendo maiores ganhos para todos – e não colaborar para que os elos alcancem esses resultados melhores, é provável que o negócio não tenha sucesso. No entanto, se o produto fornecer incentivos aos elos da cadeia e alcançar maiores margens, então, a sinergia criada no canal ajudará o negócio a ser bem-sucedido (CHRISTENSEN; RAYNOR, 2003). Exemplos do que aconteceu com algumas empresas recentemente reforçam a importância da criação de canais disruptivos para empurrar a venda de produtos disruptivos. Em 1997, as empresas Intel e SAP desenvolveram uma parceria para vender um sistema ERP para micro e pequenas empresas,chamado Pandesic. Esse produto foi apresentado para os parceiros dos canais de venda da SAP na época, especialmente a empresa Accenture, que tinha expertise na venda dos sistemas ERP da SAP para grandes empresas cujos investimentos somavam milhões de dólares para comprá-los e outros milhões para implementá-los. Como esse novo ERP – que tinha valor menor e implantação mais barata – se sobressairia ao ERP para grandes empresas, lucrativo para os parceiros com a Accenture? Evidentemente, o software inovador e que atenderia a um grande mercado não teve forças para competir com o antigo ERP, altamente lucrativo, e acabou falindo. O mesmo exemplo acontece com a área de vendas que, quando se acostuma com a trajetória de sucesso de um produto, torna insensato oferecer incentivos financeiros para vender um produto novo e disruptivo, pois isso tira a responsabilidade dos vendedores de vender os produtos mais rentáveis na trajetória de sustentabilidade do negócio. Portanto, produtos disruptivos requerem canais disruptivos também. 3 Os clientes como canais disruptivos Para os fabricantes de componentes e materiais, os usuários finais dos seus produtos constituem-se em um importante elo da sua cadeia produtiva. De forma semelhante, os provedores de serviços que usam um produto para entregar o seu serviço tornam-se o canal para entregar aquele produto para o cliente final. Por exemplo, os fabricantes de computadores, como a Compaq e a Dell Computer, constituem o canal pelo qual os processadores da Intel têm percorrido a cadeia de valor de computadores pessoais e, assim, conseguem competir com os caros computadores de ponta, como os da empresa Sun. A mesma situação existe nos negócios de serviço. Assim como os produtos de menor performance conquistam espaço em aplicações mais simples e, depois, tornam-se produtos melhorados, o progresso tecnológico também pode permitir que os serviços de menor valor agregado rompam com os serviços mais avançados, que estão acima deles. De forma análoga à relação da Intel com a Dell, são os fornecedores de serviços potencialmente disruptivos que constituem o canal para as empresas fornecerem as tecnologias disruptivas possíveis. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 Outro exemplo mais recente é o que acontece na área de saúde, no diagnóstico de problemas do cólon. Até hoje, se um paciente apresentasse uma possível lesão ou tumor no cólon, seria necessário pagar um médico para fazer uma colonoscopia em um hospital ou clínica relativamente caro. Se a colonoscopia revelasse algum problema, então, o paciente seria submetido a um especialista em uma clínica ainda mais cara. Agora, uma empresa está introduzindo uma tecnologia muito mais fácil de usar e acessível a médicos que não são especialistas, permitindo a realização de procedimentos seguros e com efetividade nas suas clínicas – e vão, portanto, adicionar valor aos seus procedimentos médicos, que, historicamente, esse tipo de procedimento só era realizado nos “canais” mais caros, ou seja, clínicas e hospitais especializados. Essa nova tecnologia tornou-se, então, acessível a muitos médicos, criando um novo canal disruptivo. 3.1 O papel das empresas na conquista de canais disruptivos Que tipos de cliente vão fornecer a fundamentação mais sólida para o crescimento dos negócios? A empresa quer consumidores que sempre desejaram os seus produtos, mas não eram capazes (por falta de dinheiro ou de habilidade) de obtê-los até um novo produto entrar em cena. A empresa quer ser capaz de encantar esses consumidores rapidamente, para que desejem esses novos produtos ou serviços. Essa empresa também quer fazer de tudo para que seus clientes fiquem longe do avanço da concorrência. Essa empresa vai querer que seus parceiros também sejam atraídos pela inovação disruptiva, de maneira que todos que formam o seu canal fiquem motivados a cooperar e a ganhar com a nova oportunidade. A procura por clientes assim não é uma questão idealista. Estes são os tipos de cliente que uma empresa encontra quando ela relaciona ideias inovadoras para se enquadrarem nos quatro elementos (ver item 2) do modelo para competir contra o “não consumo”. Independentemente de quão extravagante esses tipos de cliente parecem ser no papel, o processo de alocação de recursos força a maioria das empresas, quando encontram oportunidades como esta, a conquistarem exatamente o tipo oposto de clientes: elas focam em clientes que já estão usando um produto com o qual já estão acostumados. Para escapar desse dilema, os gerentes precisam enquadrar a disrupção como uma ameaça para garantir o comprometimento dos recursos e, então, colocar nas mãos da equipe responsável por construir o negócio, que fará da oportunidade uma das grandes fontes de crescimento. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 Gerenciar esse processo cuidadosamente visando focar nesses clientes ideais pode oferecer, às empresas disruptivas, um futuro de crescimento sólido e duradouro. Considerações finais As inovações disruptivas podem dar poder de escolha e mais informações ao cliente. Elas, geralmente, tornam os produtos mais baratos e acessíveis do que os produtos regulares encontrados no mercado, além de facilitar os processos de produção e atendimento, no caso de serviços. Os produtos que são historicamente acessíveis apenas a consumidores de alto poder ou habilidade passam a ter concorrente forte nas tecnologias disruptivas, sendo que estas podem transformar um mercado inteiro, ameaçando e, às vezes, acabando com produtos estabelecidos pelos grandes players do mercado. Os autores Christensen e Raynor (2003) definem padrões para a inovação disruptiva em novos mercados para que empresas possam usá-los para dar forma às ideias nascentes e transformá-las em planos de negócios, visando gerar novo crescimento no mercado. Esse modelo apresenta quatro elementos, sendo eles: I. os clientes-alvo estão buscando resolver seus problemas, mas, por causa da falta de dinheiro ou de habilidades, não há possibilidade de adquirir uma solução; II. esses clientes vão comparar inovações disruptivas com “nada”, pois não tiveram acesso a outros produtos e, como resultado, ficam encantados com os produtos disruptivos; III. a tecnologia que permite a disrupção pode ser um pouco sofisticada, mas os disruptores preparam-se para que o uso e a compra desses produtos seja simples, conveniente e infalível; IV. a inovação disruptiva cria toda uma nova cadeia de valor. Os novos consumidores, tipicamente, compram produtos por meio de novos canais. Outro aspecto importante da avaliação de quais clientes são possíveis e necessários para uma organização é a relação de oportunidade e ameaça. Tanto a empresa dominante quanto a empresa disruptiva devem medir o impacto de quando uma tecnologia disruptiva torna-se ameaça ou oportunidade de crescimento para os negócios. Alcançar novos clientes do mercado geralmente exige novos canais de entrega (canais disruptivos): o canal de uma empresa inclui não apenas distribuidores e varejistas, mas, também, qualquer entidade que agregue ou crie valor para o produto da empresa, à medida que ele segue seu caminho em direção às mãos do consumidor ou usuário final. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 10 Por fim, os próprios clientes podem ser os canais disruptivos dessas tecnologias. Tanto um produto quanto um serviço podem entregar suas tecnologias disruptivas e agregar valor em cada elo da cadeia, fortalecendo os parceiros e abrindo oportunidade para a aceitação da tecnologia no mercado, gerando oportunidade de crescimento para o seu negócio. Referências CHRISTENSEN, Clayton M. O crescimento pela inovação: como crescer de forma sustentada e reinventar o sucesso. Rio de Janeiro: Campus, 2003. ______; RAYNOR, Michael E. A Solução do Inovador. HBR Press, 2003. Inovação e CompetitividadeAula 11 Diferenciação x comoditização de produtos Objetivos Específicos • Definir características visando à diferenciação de novos produtos. Temas Introdução 1 Diferenciação x Comoditização de produtos 2 Diferenciação Considerações finais Referências Professora Autora Roseli Jenoveva Neto Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução Um assunto que vem sendo discutido no meio acadêmico e que está despertando bastante interesse no meio empresarial é comoditização x diferenciação. Comoditização é um termo originado da língua inglesa “commodity” (plural commodities) que, segundo Oxford Dictionaries significa mercadoria, matéria-prima ou material-base a partir do qual um produto é transformado. Explicando um pouco mais, a comoditização quer dizer igualdade de ofertas, ou seja, na perspectiva do cliente, não há diferença entre os produtos (bens e/ou serviços) ofertados. Sendo assim, se o cliente não consegue perceber a diferença (o valor agregado), então, provavelmente, escolherá aquele produto de menor preço ou melhor oferta. Essa situação estabelece uma concorrência “por preço” entre as empresas, e a finalidade é a atração ou manutenção de seus clientes, tendo em vista que as ofertas são muito parecidas (quase iguais) às de seus concorrentes. Isso não é bom, pois estas entram num processo de redução de margens de lucro. Nenhuma empresa sobrevive sem que haja lucro. Então, o que a empresa precisa fazer para sair desta situação? Uma das alternativas é a “diferenciação” de seus produtos. É o que vamos estudar nesta aula: Diferenciação x comoditização de produtos (bens e/ou serviços). Bons estudos! 1 Diferenciação x Comoditização de produtos 1.1 O que são commodities? Commodities é o plural de commodity e significa mercadoria, em inglês. Essa palavra é usada para descrever produtos de baixo valor agregado e é importante ressaltar que as commodities têm seus preços definidos pelos mercados – bolsa de mercadorias e futuros –, e não pelo produtor. Commodities são artigos de comércio e produtos que não sofrem processos de alteração (ou que são pouco diferenciados). Muitas vezes a palavra commodities pode ser sinônimo de matéria-prima. Nesse contexto, importa observar que o Brasil é um grande produtor de algumas commodities, como café, laranja, petróleo, alumínio, minério de ferro etc. As commodities podem ser divididas em quatro categorias: Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 Figura 1 – Categorias de commodities I. Commodities minerais: petróleo, ouro, minério de ferro etc. II. Commodities financeiras: real, euro, dólar etc. III. Commodities ambientais: água, madeira, energia etc. IV. Commodities agrícolas: soja, trigo, café, algodão, borracha etc. Observe o exemplo de uma commodity exportada pelo Brasil: o país exporta laranja e importa ácido cítrico1. Isto significa que o Brasil vende (exporta) a laranja com baixo valor agregado, competindo por preço e compra (importa) o ácido cítrico com alto valor agregado. Então, a comoditização ocorre quando os consumidores podem comprar o mesmo produto (bens e/ou serviços) optando entre diferentes empresas, pois o preço é o único fator de distinção, não existindo diferenças significativas na qualidade ou na forma com que os consumidores percebem e usam esses produtos. Geralmente, nesses casos, as empresas não podem aumentar os preços, pois os consumidores poderão optar pelo concorrente que oferecer os mesmos produtos ou similares a preços mais baixos. 1.2 Comoditização Devido à alta competitividade e o processo de globalização, uma parcela significativa de produtos (bens e/ou serviços) está passando por um processo de “comoditização”, isto é, as empresas oferecem seus produtos numa faixa de preço muito similar. A internet, por 1 É um ácido orgânico fraco, que se pode encontrar nos citrinos. É usado como conservante natural (antioxidante), dando um sabor ácido e refrescante na preparação de alimentos e de bebidas. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 exemplo, constitui um bom exemplo de comoditização, na medida em que permite ao consumidor comparar preços, tipos de produtos e serviços, o que amplifica ainda mais a competição entre as empresas. O consumidor não percebe a diferenciação, as margens de lucro das empresas diminuem consideravelmente e os clientes compram somente em função do preço. Considerando esse ambiente de alta competitividade, torna-se indispensável a criação de valor, caso contrário haverá a pressão do processo de comoditização. O interesse de Christensen2 por esse tema iniciou em 1994, com a publicação do livro Hypercompetition (Hipercompetição). A hipercompetição nunca foi tão intensa para tantas empresas quanto hoje, e o argumento básico do autor é que várias empresas estão padecendo de uma maneira que Christensen chama de armadilha das commodities. O autor considera que é um fato cada vez mais comum no mundo dos negócios: parece que as escalas de tempo estão encolhendo e o relógio da comoditização está acelerando. Para começar esta conversa, uma questão para pensar: como uma empresa se descobre numa situação de comoditização? Por que isto ocorre? É tentador atribuir a culpa aos fabricantes de baixo custo da China ou a algum outro fator. No entanto, de acordo com Christensen (2003), em sua maioria, é a falta de atitude ou de consciência dos gestores, normalmente provocada pela incapacidade de agir a tempo. Os gestores não percebem uma comoditização iminente ou, então, por falta de competência (conhecimento, habilidade e atitude), deixam de reagir oportunamente. A causa talvez seja que a de esses gestores estejam concentrados em metas de curto e médio prazos, desconsiderando as metas de longo prazo, nesse caso, a uma ameaça de comoditização. Se a opção consistir em diminuir continuadamente os preços de seus produtos (bens ou serviços) para vencer os concorrentes, então, isso aumenta a profundidade e gravidade da situação relacionada à comoditização. Convém ressaltar que a responsabilidade não deve ser atribuída somente aos gestores, inclui também os gerentes de marca, de mercado, designers, projetistas, financeiro, produto, processo, entre outros. 1.2.1 Como superar a comoditização? Na realidade, raramente a comoditização acontece de maneira acidental ou aleatória. Geralmente o processo ocorre quando a empresa deixa de inovar, tem produtos ruins, ignora 2 Clayton M. Christensen é autor de vários livros sobre inovação, como: “O Dilema da Inovação”, “O Crescimento pela Inovação” e “Hypercompetition” e foi ele quem cunhou o termo “inovação disruptiva”. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 as tendências de mercado, as necessidades dos clientes ou deixa de prestar atenção nos concorrentes. Na afirmação de Christensen (2003), uma das formas eficientes de combater a comoditização é a diferenciação contínua – estar sempre à frente e acima do concorrente. O autor ressalta que isso não significa uma vantagem sustentável em longo prazo, mas vencer a comoditização é um dos fatores que contribuem para manter a vantagem competitiva. Primeiramente, as empresas precisam entender o que causou a comoditização. Sustentado por estudos em mais de 30 setores, D’Aveni (2012) sintetiza os três padrões mais comuns que causam a comoditização, como segue: • deterioração: empresas inferiores ou menos sofisticadas entram com produtos de baixo custo – que atraem o mercado de massa – como a rede Zara fez com as sofisticadas Maison3 de alta costura na Europa; • proliferação: as empresas desenvolvem novas combinações de preços correlacionadas com outros benefícios exclusivos para investirem em parte do mercado de empresas já estabelecidas. Foi o que fizeram os fabricantes de motocicletas japoneses e americanos com a Harley-Davidson, por exemplo; • escalada: os concorrentes oferecem maisbenefícios pelo mesmo preço ou por um preço inferior, comprimindo as margens de lucro de todos os outros – como a Apple fez com sua série de iPods. A análise da causa da comoditização iminente e uma análise mais atenta dos padrões de deterioração, proliferação e escalada pode ser um bom ponto de partida. O quadro a seguir traz questões que ajudam a identificar as armadilhas da comoditização que agem nos mercados. Quadro 1 – Questionamentos sobre armadilhas da comoditização Qual(is) das três armadilhas da comoditização está ameaçando o mercado da sua empresa? Examine as seguintes perguntas Deterioração • Surgiu algum concorrente de baixo custo predominante em seu mercado que tenha abalado o status quo em relação a sua empresa? • Os clientes estão cada vez menos dispostos a pagar por benefícios complementares? • As margens de lucro estão diminuindo e a empresa está perdendo participação de mercado, mesmo baixando seus preços para ficar à altura da concorrência? 3 Maison em francês significa casa ou mansão, mas muitos usam para dar um charme a mais em estabelecimentos mais chiques, como rede de lojas e/ou grifes famosas. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 Proliferação • O mercado de sua empresa está cada vez mais fragmentado? A todo tempo novas ofertas e variações estão sendo lançadas pelos concorrentes? • A principal proposta de valor do produto da sua empresa está sendo prejudicada por novas ofertas dirigidas a nichos de mercado cada vez mais estreitos? • Sua empresa está sob constante pressão para diminuir os preços dos produtos (bens e/ou serviços) tão somente para manter os atuais clientes porque os concorrentes os rodearam por todos os lados? Escalada • Sua empresa sente como se estivesse travando uma luta com seus concorrentes, a todo o tempo acrescentando novos benefícios e diminuindo os preços apenas para acompanhá-los? • Você acha que um concorrente está prosperando por encabeçar a escalada de benefícios e diminuir os preços, enquanto sua empresa está caindo na armadilha de um jogo de equiparação não lucrativo? • Seus clientes têm o poder de exigir constantemente a diminuição de preços? Fonte: Adaptado de D’Aveni (2012). Para se diferenciar um produto não basta ser o melhor, tem que parecer o melhor na perspectiva do cliente/consumidor. 2 Diferenciação Diferenciação é a capacidade que uma empresa tem de ser percebida como diferente em relação ao concorrente, em função de suas vantagens competitivas. Ela pode se diferenciar a partir da segmentação de seu mercado, seu posicionamento e mix de marketing – produto, preço, promoção, ponto de vendas/distribuição. Para a diferenciação de produtos, alguns parâmetros podem ser considerados, como forma, características, desempenho, conformidade, durabilidade, confiabilidade, estilo e design. Para que a diferença seja considerada significativa, precisará satisfazer critérios como: • Importância: oferece um benefício de alto valor; • Destaque: é oferecido de maneira destacada; • Superioridade: é superior a outras maneiras de se obter o benefício; • Exclusividade: não pode ser facilmente copiada pela concorrência; • Acessibilidade: o comprador deve poder pagar pela diferença; • Lucratividade: deve ser lucrativa para a empresa. 2.1 Por que a diferenciação não é suficiente? Se a comoditização pode ocorrer às maisons de alta costura, pode acontecer com qualquer empresa. Como afirma D’Aveni (2012), experiências comprovam que a diferenciação não é Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 suficiente. Que utilidade tem uma nova coleção de moda se ela pode ser copiada e vendida por um preço inferior? O fato é que as vantagens baseadas nos produtos estão se tornando limitadas e efêmeras. Quase todos os gestores pesquisados pelo autor estão recorrendo à diferenciação, mas poucos acreditam que a diferenciação contínua seja a solução. O fato é que ainda não estão obtendo os resultados que esperam. Por quê? Porque muitas empresas estão fazendo a mesma coisa. Os gestores estão sentindo que estão tendo que correr mais depressa para ficar no mesmo lugar. Sendo assim, não vence quem é o mais ligeiro, mas aquele que corre na direção correta. A diferenciação pode ser uma estratégia muito eficaz para mudar o posicionamento. Para correr na direção correta, a empresa precisa ter competência para reconhecer de que maneira as armadilhas da comoditização estão acontecendo, bem como as maneiras de contorná- las. Isto significa que as empresas devem não somente diferenciar seus produtos (bens e/ ou serviços), mas também usar a diferenciação para atuar de tal forma que as diferentes armadilhas sejam avaliadas, enfraquecidas e extinguidas. As empresas de modo geral focam o conceito da diferenciação nos aspectos físicos do produto, mas cabe ressaltar que um aspecto importante pode estar nos serviços agregados aos produtos físicos, como também na marca. 2.2 O valor das marcas Muitos gestores que procuram evitar a comoditização geralmente confiam na força de suas marcas para sustentar os ganhos financeiros – mas as marcas também podem ser comoditizadas e descomoditizadas. No entendimento de Christensen (2003), quando os clientes ainda não estão certos de que o desempenho do produto será satisfatório, a marca bem estabelecida pode influenciar na decisão de compra, principalmente quando o cliente pesa o que necessita e o receio de não consegui-lo se comprar o produto de um fornecedor de reputação desconhecida. Com base em lógica semelhante, contudo, a capacidade das marcas de conseguir adicionais de preço tende a atrofiar-se quando o desempenho de uma classe de produtos de vários fornecedores é notoriamente mais do que adequado. (CHRISTENSEN, 2003, p. 191). Uma estratégia interessante é fazer um trabalho sobre a marca, como a empresa Nike, que opera suas campanhas de publicidade sobre as sensações que os consumidores terão ao usar os produtos, e não sobre o produto em si. Muitos consumidores valorizam mais o status proporcionado pela marca do que os benefícios racionais do produto. As empresas, de modo geral, mantêm o conceito da diferenciação pelos materiais, aspectos físicos, esquecendo-se desse fator importante – a marca. Construir uma marca não Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 é barato, nem fácil e nem garantido – não é possível garantir que investindo muito dinheiro em campanhas publicitárias será possível atingir sucesso. Para a consolidação de uma marca, no mínimo, é necessário ter visão e clareza sobre aonde se quer chegar e muito trabalho. Nesse caso, o mais importante são os atributos emocionais e psicológicos proporcionados por uma espécie de transferência de prestígio do produto ao usuário. No entanto, é o valor percebido da marca que garante poder à empresa. Num mundo onde as capacidades são cada vez mais equivalentes e as tecnologias acessíveis a todos, o magnetismo de uma marca pode ser o grande diferencial de uma empresa. Elas vendem produtos, os consumidores compram sonhos e desejos, os quais são realizados através das marcas (MARTINS, 1999). 2.2.1 O caso do vestuário O vestuário é um setor em que o poder da marca começou a migrar para um estágio diferente da cadeia de agregação de valor. Uma geração atrás, a maioria das marcas valiosas estava nos produtos. Jeans marca Levi’s e camisa marca Gant, por exemplo, desfrutavam generosas fatias lucrativas de mercado. Esses produtos eram vendidos em lojas de departamentos que alardeavam sua exclusiva capacidade de oferecer as melhores marcas em roupas (CHRISTENSEN, 2003). Ainda de acordo com o autor, ao longo dos últimos quinze anos, a qualidade das roupas produzidas por vários fabricantes tornou-se garantida, enquanto os produtores com mão de obra de baixo custo melhoraram sua capacidade de produzir tecidos e roupas de alta qualidade. Em consequência, mudaram as bases da competição na indústriado vestuário. Varejistas especializados roubaram grande fatia de mercado das lojas de departamentos com ampla linha de produtos, pois seu conjunto de mercadorias, mais concentrado, permite ao cliente encontrar com mais rapidez e conveniência o que precisa. Uma parcela considerável das roupas vendidas traz a marca, mas não o fabricante. As empresas podem oferecer produtos (bens e/ou serviços) complementares em torno de artigos comoditizados como forma de agregar valor em longo prazo. Por exemplo, um provedor de serviços de internet pode compartilhar informações sobre como criar sites de pequenas empresas, mas as empresas precisam saber comunicar o seu diferencial, qual o valor agregado de suas ofertas para que os clientes sempre fiquem informados e atualizados. Considerações finais Vários setores empresariais estão sendo comoditizados num ritmo cada vez mais acelerado, e as empresas que quiserem se diferenciar deverão criar maneiras de agregar valor aos seus produtos (bens e/ou serviços). A inovação é uma das maneiras eficientes que poderá ser utilizada para se diferenciar e evitar a comoditização. Até a próxima e bons estudos! Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 Referências CHRISTENSEN, Clayton M. Crescimento pela inovação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. D’AVENI, Richard A. Superando as armadilhas da comoditização: como maximizar sua posição competitiva e aumentar seu poder de ditar os preços. São Paulo: DVS Editora, 2012. MARTINS, J. A natureza emocional da marca: como escolher a imagem que fortalece a sua marca. São Paulo: Negócio, 1999. OXFORD DICTIONARIES. Commodity. Disponível em: <http://www.oxforddictionaries.com/ definition/english/commodity>. Acesso em: 13 nov. 2015. Inovação e Competitividade Aula 12 Estratégias para inovações disruptivas Objetivos Específicos • Formular estratégias para a implementação de inovações disruptivas. Temas Introdução 1 Inovação 2 Formulação de estratégias 3 Alocação de recursos Considerações finais Referências Roseli Jenoveva Neto Professora Autora Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução Se a inovação tem sido considerada um dos fatores mais importantes e é amplamente aceita no mundo dos negócios no século XXI, então, a empresa deverá ser capaz de adaptar- se e progredir, se desejar sobreviver (TROTT, 2012). Inovação é um termo amplo. Com base em mais de 20 anos de estudos, alcançou- se o consenso de que os fatores relacionados à inovação são muitos e variados e mudam constantemente com o contexto (KOULOPOULOS, 2011). Um conceito difundido por Clayton Christensen e que ganhou bastante notoriedade em muitas publicações foi a inovação disruptiva. Nesse sentido, o objetivo desta aula é o de entender a formulação de estratégias para a implementação de inovações disruptivas. Bons estudos! 1 Inovação As discussões sobre inovação saíram da academia e de projetos de pesquisa para incorporar-se à pauta de preocupações dos mais diversos tipos de organizações (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). O conceito de inovação foi introduzido por Schumpeter para referir- se à entrada de um novo produto, método de produção, mercado, novos fornecedores ou novas formas de organização da manufatura; a ênfase era colocada no “novo”. O conceito evoluiu e hoje não se exige novidade ou desconhecimento absoluto, podendo falar-se em inovação quando se trata de um produto ou processo significativamente melhorado no âmbito da empresa, do mercado e do mundo. De acordo com o Manual de Oslo (OECD, 2005), a inovação é definida como a implementação de um produto (bem ou serviço) novo ou significativamente melhorado, ou um processo, ou um novo método de marketing, ou um novo método organizacional nas práticas de negócios, na organização do local de trabalho ou nas relações externas. A inovação está vinculada ao conceito de transformar uma ideia nova (invenção) em algo com valor comercial. Para facilitar o entendimento da diferença entre invenção e inovação, Trott (2012) conceitua a invenção como a novidade tecnicamente viável, e a inovação como a novidade técnica economicamente viável. A inovação é uma invenção comercializável ou que tenha potencial de aplicabilidade. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 1.1 Tipos de inovação O influente estudo de Clayton Christensen chamou a atenção para casos em que o mercado foi o verdadeiro gatilho. Todavia, pode não ser evidente se uma inovação é disruptiva até bem depois de sua introdução no mercado. O autor distingue entre “inovações de ruptura” e “inovações de sustentação”, respectivamente inovação radical e incremental. Inovações sustentadoras recorriam para clientes existentes. Inovações disruptivas tendem a oferecer melhorias além das demandas (CHRISTENSEN, 2003). Ainda segundo Christensen (2003), existem três tipos de inovação que geram oportunidade de crescimento para o pequeno empresário. Os dois primeiros têm relação com novos produtos vendidos dentro de um modelo de negócio: • Inovação de sustentação: se alguém tem um negócio e segue esse princípio, terá os melhores produtos que vão vender e um lucro relacionado aos seus melhores clientes. Geralmente, esse tipo de inovação apoia e sustenta os negócios já existentes. Não traz muitas mudanças; • Inovação de ruptura: quando um mercado que costuma ser dominado por produtos complicados e caros é transformado em algo muito simples e acessível. Ou seja, o produto está no mercado e sofre uma inovação incremental. A telefonia, por exemplo, foi de uma rede muito cara de cabos e fios para uma rede de telefonia sem fio, tornando-se acessível para um grupo maior de pessoas. A ideia é a empresa criar uma estratégia – criar produtos disruptivos dentro de seus próprios produtos para evitar que outros o façam; • Inovação baseada em modelos de negócios: permite arrebanhar novos clientes com um custo mais baixo e com uma eficácia maior do que no modelo anterior. 1.2 Categorização das inovações Há quase meio século, um grande número de estudiosos vem desenvolvendo taxonomias da inovação. O Quadro 1 apresenta algumas dessas classificações. Quadro 1 – Categorização das inovações Categorização Tipos Baseada no foco Produto, processo, serviço, organizacional ou administrativa, marketing e social. Impacto ou grau de novidade Radical, incremental, arquitetural, modular, disruptiva e revolucionária. Difusão Empresa, mercado nacional e mundial. Fonte: Adaptado de Christensen (2003). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 Para um melhor entendimento das categorizações apresentadas no Quadro 1, alguns exemplos serão dispostos na sequência, com base em Tidd, Bessant e Pavitt (2008), OECD (2005) e Trott (2012). 1.2.1 Inovações baseadas no foco • Inovações de produto: o termo “produto” é comumente usado para abranger tanto bens como serviços. Exemplos: telefone celular em comparação ao telefone fixo, a venda por internet em comparação à venda direta na loja. • Inovação de processo: como exemplo, cita-se a logística reversa, que é o processo inverso ao da logística, ou seja, trata do ponto de consumo dos produtos até o seu ponto de origem, como um processo de aproveitamento de resíduos de produtos usados e devolvidos pelo cliente para a fabricação do mesmo produto totalmente novo. • Inovação social: depois de um período em que a inovação esteve quase que exclusivamente ligada ao campo tecnológico, a inovação social vem ganhando importância e surge como uma das formas de buscar alternativas viáveis para o futuro da sociedade humana – ações voluntárias, grupos de ação social, iniciativas na economia solidária, ONGs, programas de combate ao analfabetismo, fome e drogas contemplam projetos de inovações. • Inovação em marketing: a implementação de um novo método de marketing com mudanças significativas na concepção do produto ou em suaembalagem, no posicionamento do produto, em sua promoção ou na fixação de preços. 1.2.2 Inovações segundo o impacto ou grau de novidade • Inovação incremental: apresenta mudanças relativamente menores para os produtos existentes, reflete pequenas melhorias. • Inovação radical: baseada em uma novidade tecnológica ou mercadológica e que causa um impacto significativo, podendo (ou não) acarretar a descontinuidade (disruption) do mercado existente. • Inovação revolucionária ou disruptiva: ocorre quando os novos produtos têm um impacto tão grande sobre o sistema produtivo que podem tornar as bases tecnológicas existentes obsoletas. Como exemplos de inovação tecnológica revolucionária, cita-se a televisão e a telefonia celular, os computadores pessoais e a internet. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 1.2.3 Difusão Existe certa confusão em relação à adoção e à difusão. A difusão (da inovação) é essencialmente a disposição do consumidor de aceitar a mudança (adotar) e também apreciar o benefício que esse produto inovador possa oferecer. A adoção de uma inovação é parte de um processo de difusão mais amplo. A difusão é o processo pelo qual uma inovação é comunicada. Esta pode acontecer em três domínios: • Inovação para a empresa: um método de produção implementado no âmbito da empresa, mesmo que as mudanças existam em outras empresas ou instituições, é uma inovação para essa empresa; • Inovação para o mercado: quando a empresa é a primeira a introduzir a inovação no seu mercado. Pode incluir uma região geográfica ou uma linha de produto; • Inovação para o mundo: é nova para o mundo quando a empresa é a primeira a introduzir a inovação em todos os mercados e indústrias, domésticos ou internacionais (OECD, 2005). 2 Formulação de estratégias No entendimento de Christensen (2003), a maioria das questões sobre estratégias que surge durante o desenvolvimento de um novo negócio diz respeito ao conteúdo da estratégia. No entanto, raramente os gerentes lembram-se de fazer uma pergunta ainda mais importante – a questão crucial tem a ver com o processo de formulação da estratégia a ser usado para desenvolver o plano. Já é de nosso conhecimento que as ideias inovadoras, na maioria das vezes, surgem como uma meia ideia e, em seguida, passam por um processo de acabamento. Nesta seção, serão apresentados dois processos de formulação de estratégias a serem utilizados pelos gestores. Trata-se dos processos deliberado e emergente que, segundo o autor, estão sempre em atuação em qualquer empresa. Quer saber de onde vêm as boas ideias? Acesse a Midiateca da aula. 2.1 Estratégias deliberadas O processo deliberado é consciente e analítico. Em geral, baseia-se em análise rigorosa dos dados sobre crescimento do mercado, necessidades dos clientes, pontos fortes e pontos Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 fracos dos concorrentes e trajetórias tecnológicas. Como afirma Christensen (2003), as estratégias deliberadas são ferramentas geralmente formuladas para projetos com início e fim nítidos e implementados de “cima para baixo”. O conceito de estratégia está vinculado à ideia de antecipação de cenários e planos de ação a serem desencadeados. A estratégia deliberada é planejada com base em avaliações de tendências futuras com prazos determinados e apresenta os objetivos finais. É considerada uma estratégia com grande rigidez. As estratégias deliberadas são ferramentas adequadas para organizar a ação quando cumprem três condições, conforme afirmação de Christensen (2003): 1. a estratégia deve abranger e abordar impecavelmente todos os detalhes importantes, e cada um deles deve ser bem compreendido pelos responsáveis pela implementação; 2. para que a organização adote ações em conjunto, o entendimento e a perspectiva da estratégia devem estar alinhados, de forma adequada e consistente, entre a alta gerência e os demais funcionários que irão colocá-la em prática; 3. as finalidades coletivas devem ser realizadas com pouca influência imprevista de forças externas, políticas, tecnológicas e de mercado. No entanto, Christensen (2003, p. 242) ressalta que “[...] é difícil encontrar uma situação em que se preencham essas três condições, o processo de formulação de estratégias emergentes quase sempre altera a estratégia realmente implementada pela empresa”. 2.2 Estratégias emergentes As estratégias emergentes são decisões táticas e rotineiras, envolvendo os gerentes de nível médio, engenheiros, pessoal de vendas e financeiro. É uma estratégia não planejada anteriormente, ou seja, uma estratégia não deliberada (não originada pelas lideranças estratégicas). A emergente é a estratégia criada ao longo do caminho, caso surja uma grande oportunidade para a empresa. Por exemplo, a decisão de Sam Walton de construir sua segunda loja em outra cidade pequena – perto da primeira, em Arkansas, para efeitos de eficiência logística e gerencial – em vez de fazê-lo em uma cidade grande resultou no que veio a constituir-se na estratégia brilhante da Walmart de disseminar lojas de desconto em pequenas cidades cujo tamanho fosse suficiente para prevenir a entrada de novos concorrentes. As estratégias emergentes são o produto das reações dos gerentes a problemas e oportunidades. Esse tipo de estratégia pode surgir, por exemplo, da iniciativa de um vendedor, ao perceber uma necessidade não atendida de um cliente, e que convence os Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 gestores estratégicos a produzirem um produto adaptado ou um novo produto seguindo as suas orientações. Na afirmação de Christensen (2003, p. 243), “Quando se conhece a eficácia da estratégia resultante de um processo emergente, é possível formalizá-la, melhorá-la e explorá-la, transformá-la, assim, em estratégia deliberada”. O processo de estratégia emergente deve ser utilizado nas situações em que é difícil ler o futuro e quando não se tem convicção de qual seria a estratégia certa. Essa situação é quase sempre predominante durante as primeiras fases da vida de uma empresa. O referido autor ressalta, ainda, que o processo de estratégia deliberada deve predominar quando a estratégia vencedora se torna evidente, pois, nessas situações, a execução eficaz quase sempre é a diferença entre o sucesso e o fracasso. Aprofunde seu conhecimento sobre o assunto através da leitura do Caso Intel, páginas 246 a 248 do livro “Conhecimento pela Inovação”. CHRISTENSEN, Clayton M. O crescimento pela inovação: como crescer de forma sustentada e reinventar o sucesso. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. 3 Alocação de recursos Ideias e iniciativas de ordem deliberada ou emergente são selecionadas por meio do processo de alocação de recursos. O processo determina as iniciativas que serão financiadas e implementadas e quais receberão recursos, e é quase sempre complexo e difuso, interagindo continuadamente em todos os níveis da organização. O monitoramento, o alinhamento das ações e o controle sobre os critérios utilizados para tomar as decisões cotidianas a respeito da alocação de recursos estão entre os relevantes desafios enfrentados pelos gerentes no processo de desenvolvimento da estratégia. Assim, para compreender a verdadeira estratégia das empresas, você deve prestar atenção ao que fazem, em vez de ao que dizem, conforme afirma Andrew Grove, Presidente da Intel, citado por Christensen (2003). Em outras palavras, segundo o autor, isso significa que a estratégia da empresa é o que sai do processo de alocação de recursos, não o que entra nele. No dia a dia das atividades empresariais, os gestores enfrentam situações inesperadas, tomam decisões, aprendem com as experiências e realimentam o processo, definem novos critérios, prioridades e realinham as ações em relação às estratégias. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 3.1 Fatoresque influenciam a alocação de recursos Dois fatores influenciam de maneira relevante os valores que orientam as decisões sobre alocação de recursos. O primeiro é a estrutura de custos; o segundo é o tamanho mínimo das novas oportunidades, e esse limite aumenta à medida que as empresas crescem. Na afirmação de Christensen (2003), resultados da pesquisa indicam que, historicamente, em mais de 90% de todos os novos negócios bem-sucedidos, a estratégia traçada deliberadamente pelos fundadores não foi a que, em última instância, determinou o sucesso do negócio. Ou seja, os empreendedores raramente desenvolvem a estratégia certa na primeira tentativa. Os vencedores chegam lá porque têm dinheiro para tentar mais uma vez, depois de constatarem que a estratégia inicial era falha. Os fracassados gastaram os recursos na implementação de uma estratégia deliberada antes de verificar sua viabilidade. Uma das funções mais importantes da gerência sênior durante os primeiros anos de um empreendimento é aprender com as fontes emergentes o que é eficaz e ineficaz e, em seguida, realimentar o processo com o novo aprendizado. Na maioria das ondas de crescimento disruptivo, vários concorrentes são atraídos para a oportunidade. “A passagem do modo de estratégia emergente para o modo de estratégia deliberada é fundamental para o sucesso no negócio disruptivo inicial de uma empresa” (CHRISTENSEN, 2003, p. 250). No entanto, o trabalho do gestor estratégico continua, pois não é raro uma estratégia deliberada converter-se em obstáculo aos esforços da empresa para lançar novas ondas de crescimento disruptivo bem-sucedido. Os esforços das empresas para pegar novas ondas de crescimento disruptivo devem ser orientados por processos de estratégia emergente. Ao mesmo tempo, os negócios tradicionais da empresa, que ainda têm muitos anos de rentabilidade – no momento em que os novos empreendimentos disruptivos já estejam em andamento –, precisam ser impulsionados por processos de estratégia deliberada para orientar as inovações sustentadoras, que os manterão competitivos e lucrativos. O simples empenho em ter a estratégia certa não leva muito longe. A chave é gerenciar o processo pelo qual se desenvolve a estratégia (CHRISTENSEN, 2003, p. 260). As iniciativas estratégicas que entram no processo de alocação de recursos são oriundas de dois tipos de fontes: deliberadas e emergentes. Em casos de inovações sustentadoras e em certas disrupções de baixo mercado, o panorama competitivo deixa bastante claro que a estratégia pode ser concebida e implementada de maneira deliberada. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 Nos estágios iniciais das disrupções de novo mercado, é muito difícil acertar os detalhes da estratégia. Nessas circunstâncias, em vez de executarem uma estratégia, os gerentes precisam implementar um processo que possibilite o surgimento de uma estratégia viável. São três os pontos de alavancagem na elaboração da estratégia: 1. gerenciar a estrutura de custos, de modo a priorizar os pedidos de produtos disruptivos advindos de clientes ideais; 2. planejamento movido a descobertas – processo disciplinado que acelera o aprendizado do que não dará certo; 3. empenhar-se com os processos de estratégia deliberada e emergente, nas circunstâncias apropriadas, em cada negócio da empresa. Este é um desafio superado por poucos executivos e uma das principais causas do fracasso das inovações nas empresas tradicionais. Considerações finais Inovação disruptiva foi um conceito introduzido por Clayton Christensen e difundido em muitas publicações. Pense a respeito: você estaria disposto(a) a pagar a mais por uma versão de um aparelho eletrônico que oferecesse muitas funcionalidades, mas que não iria utilizar? Situações como essa abrem espaço para a inserção de uma inovação direcionada a uma camada inferior do mercado que não compraria esse tipo de produto. Esta inovação é denominada disruptiva. Normalmente, apresenta um produto “nem tão bom” como o produto das empresas líderes, mas traz uma compensação de custos que permite que esses consumidores passem a adquirir o produto. Por exemplo: a empresa Gol entrou no mercado aéreo oferecendo serviços mais simples do que os concorrentes – poucas rotas, barras de cereais –, mas, em compensação, permitiu que muitas pessoas viajassem de avião. No início, era vista como uma concorrente de ônibus. Até a próxima e bons estudos! Referências CHRISTENSEN, Clayton M. O crescimento pela inovação: como crescer de forma sustentada e reinventar o sucesso. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. KOULOPOULOS, Thomas M. Inovação com resultado. São Paulo: Gente, 2011. OECD. Manual de Oslo: Diretrizes para coleta e interpretação de dados sobre inovação. 3. ed. 2005. Disponível em: <http://www.uesc.br/nucleos/nit/manualoslo.pdf>. Acesso em: 16 nov. 2015. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 10 TIDD, Joe; BESSANT, John; PAVITT, Keith. Gestão da inovação. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2008. TROTT, Paul. Gestão da inovação e desenvolvimento de novos produtos. 4. ed. Porto Alegre: Bookman, 2012. Inovação e Competitividade Aula 13 Avaliação da capacidade de inovação de uma empresa Objetivos Específicos • Avaliar a capacidade inovativa de uma empresa, segundo o Modelo de Christensen. Temas Introdução 1 Capacidade inovativa 2 Excelência tecnológica pode não ser suficiente Considerações finais Referências Professora Autora Roseli Jenoveva Neto Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução Há um consenso entre diversos autores de que o desenvolvimento dos países está condicionado ao desenvolvimento de suas empresas e que este, por sua vez, está correlacionado positivamente com a sua capacidade de inovar. Existe uma quantidade considerável de inovações que se realizam e outras que não se realizam. Os casos de insucessos podem estar relacionados à falta de gerenciamento, a problemas tecnológicos, à falta de aceitação no mercado e a outras capacidades. O êxito da gestão está em mobilizar e utilizar os diversos recursos, conhecimentos e experiências, bem como conhecer e dominar o cenário competitivo e mercadológico em que a empresa atua. De acordo com o objetivo estabelecido para esta aula, vamos nos aprofundar um pouco mais sobre capacidade inovativa. Bons estudos! 1 Capacidade inovativa A capacidade das empresas vem sendo estudada por diferentes autores que utilizam diferentes terminologias, como competências distintivas, competências essenciais, habilidades específicas, entre outras. De um lado, os esforços para inovar são internos e, de outro, necessitam de informações e fontes externas. As mudanças ocorrem do ponto de vista técnico-científico, das necessidades de mercado e necessidades da própria sustentabilidade ou manutenção da vantagem competitiva. Mas, o que significa capacidade? Este é um conceito bastante elástico e, no entendimento de Christensen (2003), uma maneira de compreendê-lo é desmembrá-lo em três classes ou conjunto de fatores – recursos, processos e valores –, que definem o que uma organização é capaz ou incapaz de realizar. 1.1 Recursos, processos e valores Embora cada um desses termos necessite de definição e análise cuidadosas, Christensen (2003) considera que, em conjunto, oferecem uma maneira importante de avaliar as capacidades e as incapacidades da organização, de modo a aumentar substancialmente a probabilidade de sucesso das inovações disruptivas. Vamos estudar cada um deles separadamente. 1.1.1 Recursos Os recursos são o mais tangível dos três fatores. Neles, incluem-se pessoas, equipamentos, tecnologia, projeto de produtos, marcas, informações, dinheiro e relacionamento com Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 fornecedores, distribuidores e clientes. São geralmente pessoas ou coisas – que podem ser admitidosou demitidos, comprados ou vendidos, valorizados ou desvalorizados. Em geral, são visíveis e quase sempre mensuráveis. Por exemplo, um engenheiro que seja colaborador de uma grande empresa talvez possa rapidamente exercer uma função mais relevante em uma pequena empresa emergente. Outro exemplo pode ser uma tecnologia que foi desenvolvida para telecomunicações e que pode ser igualmente valiosa em serviços de assistência médica (CHRISTENSEN, 2003). Entre todas as escolhas de recursos para a constituição bem-sucedida de novos negócios de crescimento acelerado, a que exerce maior influência refere-se aos gerentes. Indivíduos com o “estofo certo” geralmente são pessoas erradas – com base no se que chama right stuff (estofo certo ou requisitos essenciais), termo emprestado de Tom Wolfe (livro e filme “Os Eleitos”, 1983). Os profissionais de recrutamento e seleção geralmente presumem que gerentes bem-sucedidos podem ser identificados por características como “bom comunicador”, “voltado para resultados”, “resoluto”. Mas, de acordo com Christensen (2003), a seleção com base em requisitos essenciais geralmente resulta em categorias erradas. Observe pessoas dispostas e capazes a aprender – passíveis de fazerem coisas erradas, mas dispostas a recuperar os erros. Em vez de especificar um conjunto de right stuff attributes, seria melhor especificar as circunstâncias em que a nova equipe será solicitada a gerenciar. Essas “previsíveis” experiências devem constituir a “especificação de contratação” para a equipe de gerenciamento sênior. A fim de ter certeza de que os gerentes desenvolveram as habilidades necessárias para a nova atribuição, é preciso analisar os tipos de dificuldades com que se defrontaram no passado. Mais importante do que terem sido bem-sucedidos na solução do problema é terem enfrentado a situação, desenvolvendo, assim, as habilidades e a intuição para que tenham maiores chances de sucesso em situações semelhantes no futuro .(CHRISTENSEN, 2003, p. 208). Para ilustrar a importância da experiência anterior dos gerentes no desenvolvimento de habilidades, leia o processo de escolha de um CEO para Pandesic, nas páginas 208-210 do livro “O crescimento pela inovação”. CHRISTENSEN, Clayton M. O crescimento pela inovação: como crescer de forma sustentada e reinventar o sucesso. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. Identificar gerentes com adequada experiência é um primeiro passo crítico para a definição das capacidades necessárias para o sucesso, mas é apenas o início, pois as capacidades das organizações são o resultado de um conjunto de processos, recursos, valores, além das pessoas. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 1.1.2 Processos As organizações criam valor à medida que os colaboradores transformam os insumos representados por recursos – trabalho humano, equipamentos, tecnologias, marca, informações, energia e dinheiro – em produtos (bens e serviços) de maior valor (CHRISTENSEN, 2003). A maneira como acontecem as interações, a comunicação, a coordenação, as decisões para a transformação em produtos e a realização de serviços são os processos. Alguns processos são “formais”, ou seja, são definidos e documentados de forma explícita, visível e observados de forma consciente. Outros são “informais”, ou seja, são rotinas ou hábitos de trabalho adotados porque “é a maneira como sempre foi feita”, ou fazem parte da cultura organizacional e são realizados de maneira inconsciente. Em um entendimento mais geral, processo é qualquer atividade ou conjunto de atividades que toma um input, adiciona valor a ele e fornece um output a um cliente específico. Os inputs podem ser materiais – equipamentos e outros bens tangíveis –, mas, também, podem ser informações e conhecimento (GONÇALVES, 2000). Para aprofundar seus conhecimentos sobre processos, leia o material disponível na Midiateca da disciplina. No entendimento de Christensen (2003), os processos mais cruciais a serem examinados raramente são os óbvios, mas agregam valor às áreas de logística, desenvolvimento, fabricação e serviços aos clientes. São os processos capacitadores, ou de retaguarda, que abrangem decisões de investimento; por exemplo, a maneira como realizam as pesquisas de mercado, como as análises da pesquisa se traduzem em projeções financeiras, como negociam os orçamentos, como produzem os respectivos números e assim por diante. Esses processos são os pontos em que se situam as mais graves incapacidades das empresas em relação à criação de negócios disruptivos de crescimento acelerado. Alguns desses processos são difíceis de observar, o que, às vezes, torna muito árdua a tarefa de julgar se os processos da organização tradicional promoverão ou inibirão os negócios de crescimento acelerado. Não se espera que as organizações desenvolvam processos específicos para executar determinadas tarefas que não tenham ocorrido reiteradamente no passado. 1.1.3 Valores O termo valores apresenta diferentes significados no contexto empresarial, mas, para este contexto de estudo, os valores de uma organização são as normas com base nas quais Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 os empregados tomam decisões de priorização – julgam os pedidos, avaliam se um cliente é mais ou menos importante do que o outro, o grau de importância da ideia para um novo produto e assim por diante. Os empregados de todos os níveis tomam decisões. Quanto maior e mais complexa for a organização, maior a necessidade de capacitar as pessoas em todos os níveis a agir com autonomia e a tomar decisões de priorização compatíveis com a direção estratégica prevista. Este é o importante motivo pelo qual os gestores estratégicos bem-sucedidos passam tanto tempo definindo valores claros, consistentes e que sejam bem compreendidos em toda a organização. Com o tempo, os valores da empresa devem evoluir para configurar-se em uma estrutura de custo para que todos pratiquem e contribuam para gerar resultados positivos (lucro) previstos no modelo de negócio. 1.2 Migração das capacidades Nos estágios iniciais de um negócio, boa parte do que é feito é atribuível a seus recursos – em especial às pessoas. A admissão ou a demissão de algumas pessoas-chave pode exercer profunda influência sobre seu sucesso. Com o tempo, as capacidades podem deslocar-se para seus processos e valores (CHRISTENSEN, 2003). É mais fácil sustentar o sucesso quando o ponto focal da capacidade de inovar migra dos recursos para processos e valores. Empresas são capazes de produzir trabalho de alta qualidade continuamente porque suas capacidades estão enraizadas nos processos e valores em vez de sustentarem-se basicamente nos recursos. Quando as capacidades da organização se concentram basicamente nas pessoas, a mudança é relativamente simples, mas, quando se localizam em processos e valores, e especialmente na cultura, a mudança torna-se extremamente difícil. 1.2.1 Criação de novas capacidades Para a construção de novos negócios, há a necessidade de preparar a equipe, principalmente identificar os gerentes com potencial e qualificá-los para enfrentar o novo desafio. Dispor de gerentes competentes e em prontidão é pré-requisito para a construção de negócios de crescimento acelerado. As ações bem-sucedidas dessas dimensões do dilema do inovador é atribuição básica do gestor de recursos humanos, afirma Christensen (2003). O autor lembra que o potencial não deve ser medido com base nos atributos, mas, ao contrário, pela capacidade de adquirir as qualidades e as habilidades necessárias para as futuras situações. “O talento a ser buscado, em outras palavras, é a capacidade de aprender o que precisa ser aprendido [...]” (CHRISTENSEN, 2003, p. 225). O esforço, nesse caso, é para identificar se a pessoa está disposta a aprender novas habilidades. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 Eis o dilema: a escolhaentre aquelas que “já estão prontas” e as que “têm mais a aprender”. O equilíbrio da tensão entre utilizar as pessoas plenamente qualificadas atuais versus oferecer oportunidades de aprendizado a funcionários de alto potencial exige alta visão dos gestores responsáveis por essa imprescindível tarefa. A empresa que se empenha em criar novos negócios de crescimento acelerado deverá ser capaz de constituir um círculo virtuoso de desenvolvimento de gerentes. 2 Excelência tecnológica pode não ser suficiente Há registros de vários casos de inovação envolvendo mudanças aparentemente modestas para a tecnologia existente, mas que tiveram consequências competitivas bem dramáticas. Vamos conhecer um pouco mais de dois deles (HENDERSON; CLARK, 1990): Xerox e copiadoras pequenas A Xerox, pioneira em copiadoras de papel, foi confrontada na metade da década de 1970 por concorrentes oferecendo copiadoras bem menores e mais confiáveis do que o produto tradicional. Os novos produtos exigiam menos conhecimento científico ou em engenharia, mas, apesar de a Xerox ter inventado as principais tecnologias e ter vasta experiência na indústria, isso tomou da companhia quase oito anos de equívocos e falsos inícios para apresentar um produto competitivo ao mercado. Naquela época, a Xerox perdeu metade de seu market share e sofreu sérios problemas financeiros. RCA e o mercado americano de receptores de rádio Na metade da década de 1950, os engenheiros do centro de P&D da RCA, a gigante dos eletrônicos, desenvolveram um protótipo de rádio portátil à base de transistores, utilizando tecnologia que dominavam com vantagem. O novo produto utilizava uma tecnologia já alcançada (transistores, circuitos de rádio, autofalantes, equipamentos de sintonização), mas a RCA não viu razão em buscar uma tecnologia aparentemente tão inferior e continuou a desenvolver e fabricar seus aparelhos de longo alcance. Em contrapartida, a Sony, uma companhia relativamente pequena e nova, usou o pequeno rádio transistorizado para ganhar mercado nos EUA. Mesmo após o aparente sucesso da Sony, a RCA permaneceu como seguidora no mercado, com a Sony apresentando sucessivos modelos com qualidade de som e capacidade de FM. A Sony utilizou a tecnologia para ganhar acesso ao mercado consumidor e para construir toda uma geração de dispositivos portáteis – e, no processo, adquiriu experiência tecnológica considerável, a ponto de torná-la capaz de competir, com vantagem, em mercados de maior valor e complexidade. A ironia da situação não estava com os engenheiros de P&D: por muitos anos, os rádios da Sony foram produzidos com tecnologia licenciada da RCA, porém, esta teve grande dificuldade em adequar-se a um mercado já dominado pelos produtos da Sony. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 A inovação incremental apresenta mudanças relativamente menores para os produtos existentes, explora o potencial do projeto estabelecido e, algumas vezes, reforça a dominância de firmas estabelecidas. 2.1 O custo de errar Nos casos apresentados – Xerox e RCA –, é de se perguntar: • Por que essas empresas aparentemente tão eficientes falharam? • Qual a explicação? A resposta não é a sua incapacidade de lidar com avanços da fronteira tecnológica – na verdade, todas as tecnologias que foram desenvolvidas nos novos modelos dominantes para cada geração foram bem estabelecidas, e muitas delas surgiram em laboratórios de empresas parceiras (mais tarde, falidas). O que estava mudando era o surgimento de novos mercados com necessidades e expectativas muito diferentes, envolvendo, geralmente, consumidores procurando por algo mais simples e barato (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). O padrão de inovação de ruptura pode ser visto em muitos setores. De acordo com Tidd, Bessant e Pavitt (2008), Christensen – um professor de Administração na Harvard Business School, mundialmente conhecido pelo seu estudo em inovação dentro de grandes empresas – aprofundou essa robusta análise de relação de mercado para lidar com duas dimensões de descontinuidade. Segundo ele, a ruptura ocorre devido a um novo conjunto de parâmetros de desempenho competindo contra os mercados existentes e em que compete contra a própria ausência de consumo (este trata da criação de mercados completamente novos). O “dilema do inovador”, primeiro livro de Christensen, refere-se à dificuldade que as empresas competidoras já estabelecidas encontram em gerenciar concomitantemente aspectos estáveis (sustentáveis) e descontínuos (desconstrutores). Esse problema – o de gerenciamento simultâneo de estados de descontinuidade e de estabilidade – surge com frequência e pode ser desencadeado não apenas por tecnologia radical ou pela mudança de mercado significativa. Pode advir, por exemplo, de avanços tecnológicos importantes ou pelo uso inteligente de tecnologia já existente para atender a um mercado recém-surgido. Pode resultar da reconfiguração de um modelo de negócio – como aconteceu no setor de viagens aéreas. Enfim, estas são situações de desafios às formas como a empresa lida com a gestão da inovação (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). Este é o tipo de inovação com que a Xerox e a RCA se defrontaram. Ela destrói a utilidade do conhecimento arquitetural de uma firma, mas preserva a utilidade de seu conhecimento sobre os componentes dos produtos. A inovação arquitetural muda a forma como componentes de um produto são ligados, enquanto deixa os principais conceitos de projeto (e o conhecimento básico subjacente) intocados, como inovação arquitetural (HENDERSON; CLARK, 1990). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 Essa distinção entre o produto como um todo – o sistema – e o produto em partes – os componentes – tem uma longa história na literatura do design. Por exemplo, os principais componentes de um ventilador incluem a hélice, o motor que a faz girar, a proteção da hélice, o sistema de controle e a caixa mecânica. A arquitetura geral do produto está em como os componentes trabalharão juntos. Assim, a arquitetura de um ventilador e seus componentes criam um sistema para mover o ar em um ambiente (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). Entenda mais sobre o assunto lendo dois casos: O Wingspan do Bank One e F. W. Woolworth e o varejo de desconto, nas páginas 232 e 233 do livro “O crescimento pela inovação”. CHRISTENSEN, Clayton M. O crescimento pela inovação: como crescer de forma sustentada e reinventar o sucesso. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. Considerações finais As inovações incrementais e radicais têm diferenças competitivas, por isso, exigem capacidades organizacionais bem diferentes. As capacidades organizacionais são difíceis de serem criadas e dispendiosas de ser ajustadas. A inovação incremental reforça as capacidades de organizações estabelecidas, enquanto a inovação radical as força a fazer novas perguntas, utiliza novas técnicas e habilidades comerciais e emprega novas abordagens de resolução de problemas. Os gerentes cujas organizações estão nessa situação – de crescimento – devem avaliar o conjunto de fatores que definem o que uma organização é capaz ou incapaz de realizar, ou seja, recursos, processos e valores. Da mesma forma, os gerentes designados para trabalhar nesse cenário – que se empenharem em encontrar pessoas preparadas para a situação e conseguirem alinhar-se aos processos e valores compatíveis com a tarefa – serão capazes de criar importantes pontos de alavancagem na criação bem-sucedida de novos negócios de crescimento acelerado. Até a próxima e bons estudos! Referências CHRISTENSEN, Clayton M. O crescimento pela inovação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. GONÇALVES, José Ernesto Lima. As empresas são grandes coleções de processos. RAE - Revista de Administração de Empresas, v. 40, n. 1, jan./mar., 2000. Disponível em: <http://www.scielo. br/pdf/rae/v40n1/v40n1a02.pdf>. Acesso em: 16 nov. 2015. Senac São Paulo - Todos os DireitosReservados Inovação e Competitividade 9 HENDERSON, Rebecca M.; CLARK, Kim B. Architectural innovation: the reconfiguration of existing product technologies and the failure of established firms. Administrative Science Quarterly, v. 35, n. 1, p. 9-30, mar., 1990. Disponível em: <http://www-management.wharton.upenn.edu/ pennings/documents/Hensderson_and_Clark_ASQ_1990.pdf>. Acesso em: 16 nov. 2015. TIDD, Joe; BESSANT, John; PAVITT, Keith. Gestão da inovação. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2008. Inovação e Competitividade Aula 14 Empresas inovadoras Objetivos Específicos • Identificar características comuns de empresas altamente inovadoras. Temas Introdução 1 Empreendimentos inovadores 2 Perfil do empreendedor técnico 3 O plano de negócio 4 Crescimento e desempenho de pequenas empresas inovadoras Considerações finais Referências Professora Autora Roseli Jenoveva Neto Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução O interesse por estudos sobre a inovação tecnológica em pequenas e médias empresas ganhou relevância nas últimas décadas. As publicações resultantes de trabalhos acadêmicos eram bastante voltadas para pesquisa, desenvolvimento e inovações, especialmente das grandes empresas. As pesquisas foram ampliando-se e mostrando outras possibilidades de inovação além de P&D. Relações com clientes e fornecedores, com institutos de pesquisas e universidades ganharam espaço e musculatura, mostrando as possibilidades de superação das empresas de pequeno porte. Diversos tipos de inovação, em especial as classificadas como incrementais, não são, em geral, patenteáveis, mas configuram-se como muito importantes para o desenvolvimento tecnológico e para a competitividade das empresas de pequeno porte. Por outro lado, o aprofundamento de estudos sobre o perfil do empreendedor, suas motivações e os fatores que afetam a decisão de criar uma empresa de base tecnológica ajudam a compreender melhor o fenômeno e a pensar em ações para melhorar o contexto. Bons estudos! 1 Empreendimentos inovadores Desde a metade dos anos 1980, tem crescido o índice de comercialização de tecnologias pelas universidades. No entanto, há forte evidência de que a qualidade das patentes comerciais e científicas caiu e que um número pequeno de patentes-chave gera a maioria das receitas de licença. Isso sugere que a combinação de excelência em pesquisa e massa crítica é exigida para se obter sucesso em comercialização de tecnologia (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). A criação e o compartilhamento de propriedade intelectual são papéis centrais de uma universidade, mas gerenciá-los para ganho comercial é um desafio diferente. Acadêmicos e universidades não possuem gestão, músculos, visão e planos de negócios, e isso é 90% da tarefa de exploração e colocação da ciência no mercado. “Há uma tendência de as universidades pensarem ‘inventamos a coisa, estamos na metade do caminho’. O fato é que estão na metade do caminho para lugar nenhum”, afirma Chris Evans, fundador da Merlin Ventures (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008, p. 544). Uma frase provocativa que enfatiza o abismo entre a pesquisa e o sucesso da comercialização. A motivação de uma pessoa para tentar lançar um empreendimento depende de três fatores relacionados – influências antecedentes, experiência do incubador individual e fatores ambientais. Em relação ao empreendedorismo acadêmico, algumas variáveis institucionais podem influenciar, como: Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 • política formal e apoio da gestão à atividade empreendedora: dependendo do tipo de apoio, pode gerar diferentes efeitos, como concessão de royalties generosos a empreendedores acadêmicos. Surge para estimular a atividade de licenciamento, mas tende a extinguir significativamente o número de empresas iniciantes. Além disso, pesquisas realizadas concluem que o desenvolvimento de políticas formais pode gerar algum efeito, mas o efeito depende muito de tais políticas serem reforçadas por aspectos comportamentais. Sendo assim, características individuais e normas locais parecem, igualmente, propiciar ambiente eficaz no que diz respeito a atividades empreendedoras; • questões relacionadas aos direitos de propriedade intelectual: pesquisas financiadas pela indústria ou direcionadas ao comércio podem restringir a posse de propriedade intelectual formal; • incidência de sucesso de comercialização: o efeito de um novo empreendimento criado, quando bem-sucedido, pode gerar um círculo virtuoso, incentivando outros a tentarem a experiência. Isso leva a clusters de spin-outs no espaço e no tempo, resultando em departamentos ou universidades empreendedores em vez de acadêmicos empreendedores isolados. Contudo, há um potencial conflito real entre a busca de conhecimento e sua exploração comercial; por esse motivo, é fundamental ter orientações explícitas para a condução de um negócio universitário. Vejamos algumas orientações, segundo Tidd, Bessant e Pavitt: 1. Orientações específicas sobre o uso de instalações universitárias, equipe e alunos, e de direitos de propriedade intelectual. 2. Orientações específicas sobre emprego duplo de cientistas empreendedores. 3. Mecanismos para resolver questões de propriedade financeira e alocação de contratos de pesquisa entre a universidade e o empreendimento. (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008, p. 547). Um estudo recente com nove spin-offs originadas de universidades no Reino Unido identificou vários estágios ou fases de desenvolvimento, cada um exigindo capacidades, recursos e suportes financeiros diferentes, como apresentado na Figura 1 e tratados individualmente a seguir (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 Figura 1 – Fases de desenvolvimento de empreendimentos inovadores Empreendimentos inovadores 1. Fase de pesquisa 3. Fase de pré- organização 4. Fase de reorientação 5. Fase de retornos sustentáveis 2. Fase de construção de oportunidades • Fase de pesquisa: acadêmicos empreendedores centrados em suas pesquisas, inseridas no seu campo de conhecimento, com altos níveis de publicação, contribuindo para gerar propriedade intelectual. • Fase de construção de oportunidades: o desenvolvimento de um entendimento de como criar, da melhor maneira, valor comercial a partir da ciência. Em especial, definir sobre os recursos complementares necessários para a comercialização, incluindo recursos humanos, financeiros, físicos e tecnológicos. Por essa razão, o processo de estruturação é geralmente interativo e lento. • Fase de pré-organização: as decisões, nesse estágio, têm impacto significativo no futuro empreendimento, uma vez que direcionam o caminho e tanto podem facilitar quanto dificultar o fluxo. Contar com especialista com experiência empreendedora é fundamental. • Fase de reorientação: uma vez que o empreendimento ganha recursos suficientes e credibilidade para ter início, é hora de reavaliar sua tecnologia no sentido de criar valor para determinado grupo de clientes-alvo. • Fase de retornos sustentáveis: ênfase em capacidade de negócio, captando pedidos, vendendo produtos e serviços e obtendo retorno. Isso exige gestão profissional, recursos financeiros e ampla gama de capacidades. Em cada uma das fases, existem desafios significativos para superar a fim de realizar a transição para o estágio seguinte. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 2 Perfil do empreendedor técnico Conforme Tidd, Bessant e Pavitt (2008), a base teórica dessa seção foi originada a partir de pesquisas realizadas por Roberts (1991) com 156 empresas de base tecnológica originadas de spin-offs do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos EUA, e de 131 empresas de base tecnológica no Reino Unido. A criação de uma empresa de base tecnológica é a interação entre habilidades e disposições individuaise as características tecnológicas e de mercado, conforme a Figura 2. Figura 2 – Fatores que afetam a decisão de criar uma empresa de base tecnológica 1. Contexto familiar: - solteiro ou divorciado, - esposa apoiadora, - poucos compromissos de família 4. Ambiente de trabalho: - experiência relevante - frustração - redundância. 2. Mercados & tecnologia: - incerteza - exigências de capital - tempo de entrega 3. Apoio institucional: - organização incubadora, - capital de empreendimento - apoio do governo 5. Histórico: - pais autônomos - alto nível educacional 6. Personalidade: - grande realizador - alto controle - independência Novos empreendimentos iniciantes Fonte: Adaptada de Tidd, Bessant e Pavitt (2008). O estudo norte-americano enfatiza o papel das características pessoais, tais como experiências familiares, orientação de metas, personalidade e motivação, enquanto o estudo britânico acentua o papel dos fatores de mercado e tecnológicos. A decisão de iniciar uma empresa de base tecnológica, em geral, começa com um desejo de conquistar a independência e de fugir da burocracia das grandes organizações. Muitas pesquisas norte-americanas sobre empresas de base tecnológica enfatizam o histórico familiar e as características de um empreendedor típico. Os fatores compreendem: • histórico familiar; Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 • educação formal e experiência de trabalho prévia; • perfil psicológico. Em relação ao histórico familiar, uma significativa maioria dos empreendedores técnicos tem pais autônomos. A explicação mais comum para essa tendência observada é que os pais agem como um modelo e podem oferecer suporte para a condição de empregado autônomo. A educação e o treinamento são importantes fatores que distinguem fundadores de empresas de base tecnológica de outros empreendedores. O nível médio de educação dos empreendedores técnicos, no estudo norte-americano, foi o Mestrado. Além de uma educação em nível de Mestrado, um empreendedor técnico terá, em média, aproximadamente 13 anos de experiência de trabalho antes de criar uma empresa de base tecnológica. Entretanto, experiência de trabalho de desenvolvimento parece ser mais importante do que trabalho em pesquisa básica. Como resultado de educação formal e experiência esperada, um típico empreendedor técnico terá idade entre 30 e 40 anos quando do estabelecimento de sua primeira empresa de base tecnológica. Muito da pesquisa sobre o perfil psicológico de empreendedores tem, como base, as experiências de pequenas empresas dos EUA, ressaltando o cuidado de não ser generalizada. Nos casos específicos de empreendedores técnicos, parece haver algum consenso com relação às características pessoais necessárias. O estudo também contempla outro fator, a religião. O efeito do histórico religioso é mais polêmico, mas está claro que determinadas religiões têm mais representantes na população de empreendedores técnicos. 3 O plano de negócio A elaboração de um plano de negócio formal tem o objetivo principal de atrair recursos externos. Como importante função secundária, pode ajudar a reduzir a autoilusão dos criadores no empreendimento e evitar discussões seguintes com relação a responsabilidades e recompensas. Não existe um plano de negócio padrão, mas é bastante comum os investidores de risco oferecerem seu próprio modelo de plano. Em geral, um plano deveria iniciar-se com um sumário executivo e incluir seções sobre produto, mercado, tecnologia, desenvolvimento, produção, marketing, recursos humanos, estimativas financeiras com planos de contingência e exigências de cronograma e recursos. Conforme observa Roberts (1991), os empreendedores entendem que podem fazer algo melhor do que qualquer outra pessoa, mas podem esquecer de demonstrar que alguém deseja que o façam. Em relação às inadequações encontradas, as piores foram no marketing e no financeiro. Menos da metade dos planos examinados ofereciam uma estratégia de marketing detalhada Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 e apenas a metade incluía algum plano de venda. Três quartos dos planos fracassaram em identificar ou analisar possíveis concorrentes. Muitos dos planos de negócio incluíam apenas previsões financeiras básicas. A falta de atenção em relação a marketing e análise de concorrentes é especialmente problemática, uma vez que a pesquisa indicou que esses fatores estão associados ao sucesso subsequente. 4 Crescimento e desempenho de pequenas empresas inovadoras Muitas das pesquisas sobre pequenas e médias empresas relacionam-se com aspectos relacionados ao desenvolvimento econômico e à geração de emprego. Relativamente, pouco se sabe sobre inovação em pequenas empresas ou sobre a questão mais restrita do desempenho das empresas de base tecnológica (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). Uma pesquisa conduzida pelo Centro de Pesquisas em Pequenos Negócios, no Reino Unido, sugere que as atividades inovadoras de pequenas e médias empresas apresentam características semelhantes, como descrevem Tidd, Bessant, Pavitt (2008, p. 567): • Envolvem, mais provavelmente, inovação de produto, em vez de processo. • São centradas em produtos para mercados de nicho, em vez de mercados de massa. • Serão mais comuns entre produtores de produtos finais, em vez de produtores de componentes. • Envolverão, com frequência, alguma forma de ligação externa. • Tendem a ser associadas ao crescimento de produção e emprego, mas não necessariamente ao lucro. As limitações de um foco em inovação de produto para mercados de nicho ou intermediários estão associadas a planejamento de produto e marketing e a relacionamentos com clientes importantes e conexões com fontes externas de inovação. Os vínculos com organização de pesquisa que trabalham por contrato, fornecedores, clientes e universidades são constantemente vistos como sendo de alta significância e constituem o “capital social” (canais de troca de informações e ideias) da empresa. Contudo, tais relacionamentos não ocorrem sem custo, e a gestão e a exploração desses vínculos podem ser difíceis para uma empresa pequena ou média, além de poder sobrecarregar suas fontes técnicas e administrativas limitadas. Na Alemanha, um estudo amplo com empresas iniciantes constatou que o nível de experiência administrativa dos fundadores era um prognóstico significativo de crescimento de um empreendimento. Entretanto, os resultados estatísticos demonstraram que a inovação apresentava proporções três vezes mais importantes para o crescimento do que os atributos dos fundadores ou de qualquer outro fator mensurado (TIDD; BESSANT; PAVITT, 2008). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 4.1 Panorama no Brasil A análise de informações acerca da atividade de inovação por pequenas empresas brasileiras presentes em aglomerações em setores tecnologicamente avançados mostrou aspectos que se apresentam promissores, em termos de considerar as aglomerações como estruturas adequadas para promover atividades de inovação que se originam, em grande medida, de parcerias com as instituições de ensino/pesquisa (BOTELHO; CARRIJO; KAMASAKI, 2007). Em síntese, a pesquisa realizada junto a uma amostra de micro, pequenas e médias empresas presentes nas aglomerações de eletrônica e telecomunicações de Santa Rita do Sapucaí e na de biotecnologia de Belo Horizonte, ambas no estado de Minas Gerais, mostrou os seguintes aspectos (BOTELHO; CARRIJO; KAMASAKI, 2007, p. 366): • as empresas possuem atividades formais ou informais de P&D, dedicando parcela do faturamento para esse fim; • em geral, as empresas originaram-se de spillovers das atividades acadêmicas e possuem tanto na gerência quanto na produção um alto percentual de pessoal qualificado, com índices de escolaridade bastante elevados; • há esforços significativos de aprendizado, tanto a partir de fontes internas quantode relações externas, em geral com as instituições de ensino / pesquisa presentes nas localidades; • o percentual de inovações identificadas como sendo inovações para o setor de atuação é bastante elevado, inclusive daquelas assinaladas como inovações em nível internacional; • a geração de conhecimento para a inovação decorreu, em grande medida, das interações com as instituições locais de ensino/pesquisa, um dos elementos que a pesquisa acadêmica assinala como característico de aglomerações de empresas. O tamanho e a localização das empresas de base tecnológicas também possuem efeito sobre o desempenho. Considerando a natureza parcialmente tácita do conhecimento, verifica-se que as interações entre instituições geradoras de conhecimento e empresas se apresentam mais promissoras quando há proximidade geográfica, de modo a viabilizar que os spillovers da pesquisa acadêmica gerem, mais rapidamente, atividades produtivas (BOTELHO; CARRIJO; KAMASAKI, 2007). Considerações finais Em geral, um empreendedor constitui uma nova empresa de base tecnológica essencialmente para obter independência. Existem semelhanças importantes na organização e gestão de empreendimentos corporativos, destacando-se a necessidade de plano de Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 negócio, planos de marketing e financeiro bem detalhados e alguém que acredite e defenda o produto. Os envolvidos no empreendimento tendem a ser altamente motivados e exigem um alto nível de autonomia. Empreendedores corporativos necessitam de uma maior habilidade social, têm a vantagem de obter recursos financeiros, técnicos e de marketing da empresa às quais estão vinculados, mas também têm que lidar com políticas e burocracias internas. O empreendedor autônomo precisa captar recursos financeiros e desenvolver as especializações necessárias ao negócio, mas possui a vantagem da independência e da autonomia técnica e administrativa. Até a próxima e bons estudos! Referências BOTELHO, Marisa dos Reis Azevedo; CARRIJO, Michelle De Castro; KAMASAKI, Gilsa Yumi. Inovações, pequenas empresas e interações com instituições de ensino/pesquisa em arranjos produtivos locais de setores de tecnologia avançada. Revista Brasileira de Inovação, v. 6, n. 2, p. 331-371, jul./dez., 2007. ROBERTS, Edward. Entrepreneurs in High Technology: lessons from MIT and beyond. Oxford: Oxford University Press, 1991. TIDD, Joe; BESSANT, John; PAVITT, Keith. Gestão da inovação. 3. ed. Porto Alegre: Bookman, 2008. Inovação e Competitividade Aula 15 Os dez mandamentos da inovação - introdução Objetivos Específicos • Conhecer aspectos práticos da atividade de inovação dentro das organizações norte-americanas. Temas Introdução 1 O que é uma inovação estratégica 2 Nem todas as inovações são iguais 3 O imperativo da inovação estratégica 4 As dez regras dos inovadores estratégicos Considerações finais Referências Professora Autora Roseli Jenoveva Neto Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução Onde nascem as boas ideias? De que maneira as empresas poderiam ser mais produtivas na concepção desses insights? A geração de ideias é apenas o primeiro passo. Os inovadores estratégicos precisam de mais do que apenas grandes ideias; devem avançar da ideia para a execução. O objetivo desta aula é, portanto, conhecer aspectos práticos da atividade de inovação dentro de organizações. No entendimento de Govindarajan e Trimble (2006), a inovação é a essência da atividade econômica: impulsiona o crescimento, cria empregos, constrói riquezas, é fonte de novos propósitos para os trabalhadores, revitaliza as organizações, além de melhorar a vida dos consumidores por meio de novos produtos e serviços de alta funcionalidade e qualidade. Bons estudos! 1 O que é uma inovação estratégica Clayton Christensen popularizou a ideia de inovação disruptiva. No entendimento Govindarajan e Trimble (2006), a inovação disruptiva é considerada um subconjunto da inovação estratégica. De acordo com Christensen (2003), a inovação disruptiva, em geral, não é atraente para o cliente típico na época de seu lançamento, pois oferece desempenho inferior no atributo mais valorizado por esses clientes, que valorizam atributos diferentes fornecidos pelo inovador disruptivo. Contudo, a nova tecnologia acaba satisfazendo os clientes típicos, rompendo, assim, o negócio principal. Do mesmo modo, as inovações estratégicas desviam-se dos modelos de negócios comprovados. Porém, elas diferem-se das inovações disruptivas em várias dimensões: podem oferecer desempenho superior ou inferior em atributos valorizados pelos clientes típicos; podem almejar os clientes típicos ou um novo segmento de clientes; e podem ou não ameaçar o negócio principal (GOVINDARAJAN; TRIMBLE, 2006, p. 231). A inovação estratégica envolve perguntas como: Quem é seu cliente? Qual é o valor que você oferece ao cliente? Como você fornece esse valor? Pense em um caso fictício e imagine as respostas para essas perguntas. A inovação estratégica pode definir clientes potenciais. Por exemplo, a Canon, na década de 1970, focou no desenvolvimento de fotocopiadoras direcionadas para pequenas empresas e para escritórios domésticos, em vez de para grandes organizações. A inovação estratégica Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 também é capaz de formular conceitos sobre valor para os clientes, como na transformação da IBM, na década de 1990, da venda de produtos de hardware e software para a venda de soluções completas. A inovação estratégica também pode significar o redesenho da arquitetura da cadeia de valor, de um a outro extremo, como o modelo de vendas diretas da Dell Computer, lançado na década de 1980 (GOVINDARAJAN; TRIMBLE, 2006, p. 3). Os experimentos estratégicos apresentam dez características comuns, conforme a Figura 1. Figura 1 – Características dos experimentos estratégicos 1. Alto potencial de crescimento da receita 2. Foco em setores emergentes ou indefinidos 3. Teste de modelo de negócios não comprovado 8. Grande incerteza ao longo de múltiplas funções 9. Ausência de lucro durante vários trimestres ou mais 10. Inexistência, no começo, de imagem clara do desempenho 7. Criação de valor descontínua em vez de incremental 6. Desenvolvimento de novas capacidades e conhecimentos 4. Afastamento radical do modelo de negócios existente 5. Uso de alguns recursos e competências existentes Experimentos estratégicos Fonte: Adaptada de Govindarajan e Trimble (2006, p. 4). Alguns pontos abordados na figura merecem destaque: • teste de modelo de negócio não comprovado: é lançado antes que qualquer concorrente comprove sua eficácia e antes do desenvolvimento de qualquer fórmula nítida para a geração de lucro; • afastamento radical do modelo de negócios existente: a GM evoluiu da venda de automóveis à oferta de serviços. A Procter & Gamble mudou de produtos de consumo para serviços a empresas; • uso de alguns recursos e competências existentes: exploram alguns dos recursos e algumas das capacidades da empresa, além do capital; não são simples investimentos financeiros; Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 • desenvolvimento de novas capacidades e conhecimentos: as inovações, geralmente, são resultados de combinações de conhecimento – novo e velho, interno e externo, dentro e fora do setor; • criação de valor descontínua em vez de incremental: revoluciona a definição do negócio em vez de melhorar o desempenho dentro de modelos de negócio conhecidos, por meio de extensões de linhas de produtos, expansões geográficas ou aprimoramentos tecnológicos; • grande incerteza ao longo de múltiplas funções: os clientes potenciais talvez sejam meras possibilidades. As proposições de valor geralmente não passam de adivinhações, pois os próprios clientes aindanão sabem exatamente o que querem. O autor ressalta, ainda, que a eficácia dos experimentos estratégicos é maior quando são organizados como unidades de negócios próprias dentro da empresa. 2 Nem todas as inovações são iguais Não se pode reclamar de falta de publicações com sugestões sobre como gerenciar a inovação. No entanto, os gestores precisam de algo além de conceitos genéricos, pois há muitos tipos de inovação e cada um necessita de métodos gerenciais diferentes. A inovação estratégica, investigada por Govindarajan e Trimble (2006), possui características distintas de outras categorias de inovação, tais como: 1. melhoria contínua dos processos, que envolve longa sequência de pequenos investimentos em inovações incrementais; 2. revolução dos processos, que melhora os processos existentes; 3. inovações nos produtos e serviços ou novas ideias criativas que não alteram os modelos de negócios tradicionais; 4. inovações estratégicas abrangem inovações em processos ou produtos, mas sempre envolvem modelos de negócios não comprovados. Os quatro tipos de inovações demandam diferentes métodos gerenciais, pois diferem entre si ao longo de três importantes dimensões: as despesas de um experimento único, o prazo necessário para que os resultados se tornem visíveis e a ambiguidade dos resultados, conforme a Figura 1. Por exemplo, uma única melhoria de processo, em geral, não é dispendiosa, e seus efeitos logo tornam-se evidentes e mensuráveis em comparação com o desempenho operacional anterior, enquanto as revoluções nos processos são mais custosas e demandam mais tempo. Grandes inovações nos produtos e serviços, mesmo aquelas que preservam o modelo de negócio, geralmente exigem mais capital. Já as inovações estratégicas, quase sempre, Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 são aquelas que requerem os investimentos mais elevados e durante períodos de tempo mais prolongados, e, mesmo assim, seus resultados podem manter-se inexplicáveis durante anos. Essas diferenças relacionadas a despesas, prazo de maturação e incertezas são fatores importantes nas decisões relacionadas ao processo de gerenciamento de inovação (GOVINDARAJAN; TRIMBLE, 2006). Quadro 1 – Definição das características dos quatro diferentes tipos de inovação Tipo de inovação Despesas com um único experimento Duração de cada experimento Ambiguidade dos resultados Melhoria contínua dos processos Mais curta (podem ser dias) Mais longa (podem ser anos) Mais claraMenor Maior Mais ambígua Revolução dos processos Inovação dos produtos/serviços Inovação estratégica Fonte: Govindarajan e Trimble (2006, p. 7). A opção pelo foco na inovação estratégica não significa que seja o único caminho e que as demais formas de inovação sejam abdicadas. Os autores afirmam que preferiram concentrar a atenção na inovação estratégica, porque é dela que depende a sobrevivência a longo prazo da empresa, e, talvez, porque ela seja o desafio gerencial mais difícil e enigmático. 3 O imperativo da inovação estratégica De acordo com Govindarajan e Trimble (2006, p. 8), “As empresas que executam com sucesso a inovação estratégica são capazes de produzir crescimento disruptivo e gerar curvas de ciclo de vida inteiramente novas”, conforme apresenta o Gráfico 1. Gráfico 1 – Inovação estratégica e crescimento disruptivo Lançamento Crescimento rápido Maturidade Crescimento e renovação disruptivos Fonte: Govindarajan e Trimble (2006, p. 9). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 Na afirmação desses autores, o resultado de suas pesquisas demonstra os ciclos de mudança dos negócios, que vai do lançamento até o crescimento rápido. Ao entrar no estágio de maturidade, pode-se obter algum crescimento incremental, correndo o risco de declínio. A inovação disruptiva iniciaria nova curva de crescimento. O contexto dos ciclos de mudança do negócio pode envolver aspectos relacionados à globalização, a novas tecnologias, a mudanças demográficas e regulatórias. O gráfico ilustra o surgimento da curva da inovação disruptiva na reversão do risco de declínio do negócio. Em todos os experimentos estratégicos estudados pelos autores, foi observada a falta de padrões. A lenta acumulação de conhecimentos nessa área dá-se por conta da necessidade de pesquisas difíceis e dispendiosas. O estudo de qual estratégia escolher pode ser efetuado por meio de técnicas, principalmente quantitativas e estatísticas, mas, os mesmos métodos não são muito úteis para tratar da estratégia. A gestão da inovação é complexa e estudos quantitativos apontam apenas para umas poucas direções. Talvez indiquem que decisões gerenciais se correlacionam com o sucesso, mas dizem pouco sobre os porquês. A verdadeira compreensão sobre o quê e por que funciona exige estudos qualitativos e interpretativos de vários anos. Então, se a ciência, baseada em pesquisas sobre a gestão estratégica ainda é limitada, o conhecimento acumulado pelos gestores pode chegar até que ponto? Os praticantes sempre compreenderão melhor do que os pesquisadores certas áreas do esforço humano, sobretudo quando essa compreensão é profunda e intuitiva, em consequência da repetição. Mas os praticantes da inovação estratégica têm poucas oportunidades de repetição, pois cada tentativa demora alguns anos. Poucas vezes, os gestores de experimentos estratégicos têm uma segunda oportunidade. Se você estiver preparado para iniciar, liderar ou apoiar um experimento estratégico, considere o seguinte: • é possível que você enfrente desafios desse tipo apenas uma vez em sua carreira; • os limites à inovação têm menos a ver com a tecnologia ou criatividade do que com habilidades gerenciais; • poucas pessoas, se houver alguma, dentro de sua organização, podem orientá-lo com base em experiências diretas. As empresas que realmente querem construir a capacidade de inovação estratégica não podem meramente esperar a ação e a iniciativa de intraempreendedores. As organizações quase sempre são mais poderosas do que os indivíduos. Em termos simples, como afirmam Govindarajan e Trimble (2006, p. 16), “[...] os experimentos estratégicos tendem a fracassar se a empresa depender exclusivamente do heroísmo de indivíduos superdotados”. Em vez disso, as empresas precisam construir organizações baseadas nas dez regras desenvolvidas e sugeridas pelos autores citados. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 CoreCo – negócio principal: a unidade de negócio já estabelecida que mais se relaciona com o experimento estratégico. NewCo – negócio novo: o experimento estratégico. 4 As dez regras dos inovadores estratégicos • Regra 1: em todas as grandes histórias de inovação, a grande ideia é só o primeiro capítulo. A construção de negócios revolucionários exige esquecimento, empréstimo e aprendizado. Esses desafios centrais demandam mais do que somente liderança talentosa e ambiciosa. Também requerem alavancagem do poder do DNA organizacional. • Regra 2: as fontes de memória organizacional são poderosas. As organizações naturalmente prendem-se à ortodoxia da CoreCo, mesmo quando passam a atuar em novos ambientes. Mas a NewCo precisa agir de maneira essencialmente diferente. • Regra 3: empresas grandes e estabelecidas são capazes de superar as emergentes se conseguirem alavancar seus enormes recursos e suas capacidades. • Regra 4: os experimentos estratégicos enfrentam desconhecimentos críticos. Por mais que se pesquise, não se consegue resolver esses desconhecimentos antes do lançamento do negócio. Portanto, o sucesso depende mais da capacidade de experimentar e aprender do que da estratégia inicial. • Regra 5: a organização da NewCo deve ser construída a partir do zero, com novas escolhas em termos de pessoal, estrutura, sistemas e culturas. Esta é a única maneira de derrotar as forças poderosas da memória institucional. O reconhecimento só da boca parafora das diferenças entre os modelos de negócios da NewCo e da CoreCo não são suficientes. • Regra 6: a gestão de tensões é trabalho para a gerência sênior. A saúde das ligações entre a CoreCo e a NewCo deteriora-se com facilidade. Várias são as fontes naturais de tensão, alimentadas por forças dinâmicas – em especial, as mudanças nos níveis de oferta e demanda de capital dentro da organização. • Regra 7: a NewCo necessita do seu próprio processo de planejamento. Os padrões da CoreCo para a avaliação do desempenho do negócio impedirão o aprendizado pela NewCo. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 • Regra 8: interesse, influência, competição interna e política destroem o aprendizado. Para garantir o aprendizado, deve-se adotar um método disciplinado, imparcial e analítico para fazer precisões e interpretar as diferenças entre previsões e resultados. • Regra 9: responsabilize a NewCo por aprendizado, não por resultado. Garante-se a responsabilidade e a prestação de contas pelo aprendizado, insistindo na adoção de processos disciplinados de aquisição e na transferência de conhecimento. A responsabilidade por resultados em comparação com o plano, embora prático e simples, é contraproducente. • Regra 10: as empresas podem construir capacidade de crescimento disruptivo por meio da inovação estratégica. As capacidades de esquecer, tomar emprestado e aprender são fundamentais. Os gestores devem começar a construir essas habilidades organizacionais desde cedo na vida da empresa. Considerações finais Segundo os autores Govindarajan e Trimble (2006), gerenciar um novo negócio com um alto potencial de crescimento em uma organização tradicional equivale a um salto triplo no trapézio a dez metros de altura, sem rede de segurança. Os executivos que necessitam enfrentar desafios como este precisam contar não somente com coragem, mas, principalmente, com uma estratégia forte e dinâmica. Além disso, os autores compartilham as dez ideias bem-sucedidas sobre inovação que resultaram de suas pesquisas com empresas inovadoras, possibilitando a ampliação da capacidade de inovação estratégica das organizações interessadas no tema. Para Govindarajan e Trimble (2006), existem quatro categorias de inovação: (1) melhoria contínua de produtos e serviços; (2) revolução de processos; (3) inovações nos produtos e serviços; e (4) inovações estratégicas, as quais envolvem modelos de negócios inéditos e não comprovados. Esses negócios inéditos e não comprovados são chamados de experimentos estratégicos. Os experimentos estratégicos possuem dez características que os diferenciam dos demais, são elas: (1) alto potencial de crescimento da receita; (2) foco em setores emergentes e indefinidos; (3) modelo de negócio não comprovado; (4) afastamento radical do modelo de negócio existente; (5) uso de alguns dos recursos e competências existentes; (6) desenvolvimentos de novas capacidades e conhecimentos; (7) criação de valor descontínua em vez de incremental; (8) grande incerteza ao longo de múltiplas funções; (9) ausência de lucro durante vários trimestres; e (10) inexistência, no começo, de uma imagem clara do desempenho. Até a próxima e bons estudos! Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 Referências CHRISTENSEN, Clayton M. O crescimento pela inovação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2003. GOVINDARAJAN, Vijay; TRIMBLE, Chris. Os 10 mandamentos da inovação estratégica: do conceito à implementação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. Inovação e Competitividade Aula 16 Os dez mandamentos da inovação Objetivos Específicos • Conhecer aspectos práticos da atividade de inovação dentro de organizações norte-americanas. Temas Introdução 1 Por que as organizações, como os elefantes, nunca esquecem? 2 Construção da organização da CMT Considerações finais Referências Roseli Jenoveva Neto Professora Autora Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 2 Introdução Dizem, e já foi provado cientificamente, que os elefantes têm uma memória incrível. Mas, qual a relação dessa afirmação com o tema que vamos estudar agora? Esta aula tem, como objetivo, fazer com que você conheça aspectos práticos da atividade de inovação dentro de organizações norte-americanas e explore as causas básicas do problema de esquecimento, descrevendo a história da Corning Microarray Technologies (CMT). Como já foi relatado por Govindarajan e Trimble (2006), uma das causas do possível fracasso de uma NewCo (negócio novo, o experimento estratégico) talvez seja adotar os mesmos hábitos que contribuíram para o sucesso da CoreCo (negócio principal, a unidade de negócio já estabelecida que mais se relaciona com o experimento estratégico). A Corning tem longos antecedentes de inovações bem-sucedidas. Com vários avanços disruptivos em pesquisa científica, desativou divisões maduras e manteve-se focada em produtos de alta tecnologia, com grandes margens de lucro. Na década de 1990, a Corning fabricava ampla gama de produtos especiais de vidro e cerâmica. Apesar dessa história de sucesso, a empresa, de início, não se deu bem em seu novo empreendimento, face às suas dificuldades de superar o desafio do esquecimento, uma vez que sua alta gerência reproduziu o DNA1 organizacional da Corning ao conceber o negócio. Bons estudos! 1 Por que as organizações, como os elefantes, nunca esquecem? Nesta seção, será relatado o grande desafio da Corning em busca da biotecnologia – a necessidade de praticar o desafio do esquecimento em decorrência da incompatibilidade entre a nova oportunidade e as características da organização tradicional. Os executivos seniores da Corning, no começo, não encararam, nesses termos, o desafio do esquecimento. Do contrário, o que teriam visto? O que você teria visto? 1.1 A oportunidade e a organização O modelo de negócios da Corning era consistente em quase todos os seus mercados. A empresa destacava-se na ciência e na fabricação de vidros e cerâmicas; era detentora de importantes direitos de propriedade intelectual sobre seus produtos e, portanto, enfrentava pouca competição; e vendia componentes a outras empresas industriais e, quase sempre, enfatizava a alta qualidade e a alta confiabilidade, mais do que quaisquer outros tributos. 1 Os quatro elementos do DNA, segundo Govindarajan e Trimble (2006), são: 1. Pessoal (traços de liderança, políticas de provimento de pessoal, competências, normas de promoção, carreiras funcionais); 2. Estrutura (relações de subordinação formais, autoridade decisória, fluxos de informação, fluxos de tarefas e processos); 3. Sistemas (sistemas de planeamento, orçamentação e controle, avaliação do desempenho da empresa, sistemas de incentivos e remuneração); 4. Cultura (definição dos comportamentos valorizados pela organização; pressupostos de negócios implícitos; vieses no processo decisório). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 3 A Corning era uma organização disciplinada, com planejamentos, controle e avaliações de desempenhos rigorosos. A inovação era o elemento central da cultura da empresa e os novos gestores que lá ingressavam estudavam profundamente o processo de inovação. Com a experiência, a empresa alcançou grande capacidade no desenvolvimento e na conclusão de cada fase dos processos de inovação. Em termos simples, o processo de inovação atribuía que o grupo de pesquisa testasse a ciência básica e desenvolvesse um protótipo, enquanto o grupo de desenvolvimento projetava o produto e a unidade de negócio definia o processo de produção e lançava o produto. A Corning lançou seu negócio de Life Sciences, na década de 1920, quando desenvolveu um vidro especial chamado Pyrex. Em seguida, a Corning Life Sciences estava lançando grande variedade de produtos de vidro para laboratórios, como pipetas, jarras, tubos de ensaio e cilindros. Até princípios da década de 1990, essa linhade produtos mudou apenas de maneira incremental e representava apenas 2% da receita total da Corning. A divisão de Life Sciences afastou-se do modelo típico de negócios da Corning. Ao contrário da maioria das outras áreas da empresa, esta não mais dependia da tecnologia exclusiva e vendia seus produtos para laboratórios de pesquisa, acadêmicos ou industriais, em vez de outras empresas industriais. A Corning alocou sua verba de P&D para outras tecnologias e outros mercados, nos quais as oportunidades pareciam mais promissoras. E, assim, Life Sciences passou a ser visto como negócio confiável, embora relativamente estagnado. Na década de 1990, os avanços em biotecnologia despertaram, pela primeira vez em algumas décadas, a ambição de Life Sciences por crescimento acelerado. Suas pesquisas sobre esse mercado, que parecia a ponto de explodir, mostraram que a fabricação de microarranjos de DNA poderia criar condições para que a Corning alavancasse três áreas de expertise: aplicação de revestimentos especiais ao vidro, controle de fluxos de líquidos em escala minúscula e melhoria contínua de fabricação de microscópicos. 1.2 Elemento-chave do desafio do esquecimento A Corning considerou mais atraentes essas oportunidades de empréstimos. A necessidade de esquecimento parecia óbvia. Quadro 1 – Visão geral dos três desafios Desafio Objetivo Método Esquecer A CoreCo tem respostas comprovadas e constantes para as perguntas qual é o seu negócio e como vencer em seus mercados. As respostas da NewCo são diferentes. A NewCo deve esquecer a fórmula de sucesso da CoreCo. Ter consciência das diferenças apenas da boca para fora não é suficiente. As conversas são efêmeras. Para esquecer, a empresa deve alterar a estrutura organizacional vigente. A NewCo precisa ser diferente da CoreCo. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 4 Tomar emprestado A NewCo tem acesso a recursos da CoreCo que, para as empresas emergentes independentes, não passam de sonhos: capacidade de fabricação, expertise, relacionamento de vendas, canais de distribuição e muito mais. A NewCo pode desenvolver importantes vantagens competitivas se for capaz de explorar esses recursos mediante empréstimos. A equipe executiva sênior deve selecionar com cuidado e supervisionar de perto os elos organizacionais entre a NewCo e CoreCo. Atenção: o excesso de interação entre NewCo e a CoreCo dificulta ainda mais o esquecimento. Aprender Enquanto a fórmula de sucesso da CoreCo é inquestionável e estável, a da NewCo não passa de adivinhação. A NewCo precisa aprender. Especificamente, a NewCo deve eliminar as lacunas de conhecimento fundamentais em seu plano de negócios e acertar no alvo de um modelo de negócios eficaz tão rapidamente quanto possível. A NewCo precisa de um processo de planejamento muito diferente daquele da CoreCo – que se concentra na solução cuidadosa das disparidades entre previsões e resultados, enfatizando o aprendizado em relação à prestação de contas. Observe que, se a NewCo não conseguir esquecer a fórmula de sucesso da CoreCo, será difícil para ela aprender a sua própria receita. Fonte: Govindarajan e Trimble (2006, p. 30). Com base nas pesquisas realizadas por Govindarajan e Trimble (2006), os executivos devem fazer três perguntas genéricas antes de embarcar em um experimento estratégico, de modo que sejam capazes de compreender, em toda a sua plenitude, o desafio do esquecimento de suas implicações organizacionais para NewCo. Essas perguntas estão resumidas no Quadro 2. Quadro 2 – Perguntas sobre elementos-chave do desafio do esquecimento Modelo de negócios De que maneira o modelo de negócios da NewCo difere da CoreCo? • Quem são nossos clientes? • Que valor oferecemos aos clientes? • Como fornecemos esse valor? Competências De que maneira o conjunto de competências almejadas pela NewCo difere daquele da CoreCo? • De que áreas de expertise a NewCo precisa? • Qual a importância relativa de cada uma delas? • Como isso difere da situação da CoreCo? Incertezas Até que ponto o modelo de negócios da NewCo é incerto em comparação com aquele da CoreCo? • Como usar as previsões e projeções? • De que maneira tornar os gerentes responsáveis pelos resultados? Fonte: Govindarajan e Trimble (2006, p. 39). 1.3 Causas básicas do problema do esquecimento O desafio do esquecimento é muito mais difícil do que talvez pareça à primeira vista. Isto porque é fácil alcançar (da boca para fora) o estágio de conscientização a respeito das diferenças entre os modelos de negócios da NewCo e da CoreCo. Também não é difícil compreender os três elementos do desafio do esquecimento. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 5 Não é. As conversas são efêmeras e as organizações têm poderosas fontes de memória. As pesquisas reforçam a noção de que a NewCo precisa de um DNA diferente. Existem muitas fontes de memória organizacional ou inércia organizacional, por exemplo, filtros cognitivos, instintos, usos e costumes, preservação do poder e capacidade de absorção de novos conhecimentos. Os experimentos estratégicos deixam os gestores sob estresse muito intenso e geram contextos muito mais ambíguos do que aqueles em que convive a maioria dos dirigentes das empresas estabelecidas. Em condições de estresse e ambiguidade, as pessoas geralmente procuram o familiar – ou seja, confiam nos instintos –, sem ter consciência dessa situação. Infelizmente, os instintos baseiam-se nos fatores que determinaram o sucesso da CoreCo no passado. Assim, os gestores procuram, primeiro, os clientes que já conhecem. Naturalmente, criam propostas de valor semelhante às que já oferecem e tentam usar ou recriar os processos existentes. Os instintos dos gestores não são a única fonte de memória organizacional. Outra fonte é a natureza dos relacionamentos entre os gestores, que são desenvolvidos de maneira a facilitar a operação do velho negócio. Quando se transfere os mesmos gestores para o novo negócio, os relacionamentos mantêm-se inalterados ou muito pouco alterados. Em outras palavras, persistem os padrões de interação tradicionais. Os usos e costumes da CoreCo sobre status organizacional são outra importante fonte de memória. Em geral, dentro das organizações, certas áreas de expertise conferem mais status do que outras. Tais hierarquias sociais não são rompidas com facilidade. Os usos e costumes do status organizacional manter-se-ão intactos sem demolição cuidadosa, e a NewCo talvez acabe dominada por pessoas detentoras de conhecimentos valiosos para a CoreCo, mas não tão importantes para a NewCo. Os padrões de planejamento também são capazes de reforçar o modelo de negócios da CoreCo, enfatizando indicadores de desempenho relevantes apenas para a organização tradicional. A tendência de os indicadores de desempenho da CoreCo reforçarem a memória é ainda mais forte se eles estiverem vinculados diretamente à remuneração por incentivos ou a critérios de promoção. Isso não é tudo. Os sistemas de informação da CoreCo podem ser altamente eficientes em fornecer dados certos, para as pessoas certas, na hora certa, mas, se os sistemas forem usados na NewCo, tais dados talvez sirvam para apenas revigorar os pressupostos da CoreCo sobre as causas de sucesso. Histórias repetidas a toda hora sobre os segredos do bom desempenho da CoreCo podem produzir os mesmos resultados. A memória define o que as organizações farão e não farão. Apagar a memória organizacional é o aspecto crucial do desafio do esquecimento. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 6 1.4 O desafio do esquecimento para a CMT A CMT precisava esquecer boa parte do que contribuíra para o sucesso da Corning. Todos os três aspectos do modelo de negócios deviam ser alterados. Para começar, a CMT venderia para um cliente pouco conhecido. Ela não buscaria nem empresas industriais – a exemplo da maioria dasdivisões da Corning – nem administradores de laboratórios menos qualificados – como fazia a divisão Life Sciences. A proposta de valor da CMT não poderia se confundir com as de outros negócios da Corning. O argumento de vendas da Corning para a maioria de seus produtos era ênfase na mais alta qualidade possível, com base em tecnologia exclusiva. Embora a qualidade também fosse importante para a CMT, era necessário enfatizar com mais intensidade o custo e a eficiência. Além disso, a Corning não era pioneira nesse mercado nascente e indefinido e não tinha a propriedade intelectual mais forte do setor. Também era necessário mudar os processos. Isso exigia processo de inovação mais flexível em relação a compras, orientação de vendas etc. Além de lidar com a mudança no modelo de negócio, a CMT teve que reavaliar as competências a serem enfatizadas. O sucesso da Corning no passado era relacionado à excelência em fabricação de vidros. Será que este continuaria sendo o fator de diferenciação mais importante para a CMT? A estrutura organizacional da CMT precisava refletir essa diferença como requisito para o esquecimento. O último elemento do desafio de esquecimento da Corning revelou-se extremamente difícil: precisava enfrentar um nível de ambiguidade muito mais alto do que aquele com que estava acostumada em seu negócio principal. Até que ponto eram altas as barreiras impostas por patentes e com que rapidez outros concorrentes entrariam no mercado? E a qualidade e o custo da produção? Qual a proposta de valor para os clientes em relação aos concorrentes? O Quadro 3 resume o desafio do esquecimento para a CMT. Quadro 3 – Elementos do desafio do esquecimento para a CMT Modelo de negócios • Novos clientes: administradores seniores de laboratórios • Nova proposição de valor: custo, conveniência • Novos processos: processo de inovação mais flexível; processo de vendas com conteúdo mais orientado e mais longo Competências • Novo conjunto de competências: forte dependência em relação à expertise em ciências da vida Incertezas • Novo degrau de incerteza: previsão de resultados muito menos confiável Fonte: Govindarajan e Trimble (2006, p. 43). Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 7 2 Construção da organização da CMT Os dois primeiros anos da CMT mostram o que ocorre quando a organização não enfrenta com eficácia o desafio do esquecimento, conforme o Quadro 4. Quadro 4 – Primeiro DNA organizacional da CMT Elemento Descrição Pessoal • Os cargos gerenciais foram preenchidos mediante transferências internas. Somente os cargos técnicos envolvendo ciências da vida foram ocupados por pessoal de fora. • O pessoal da CMT continuou nos subgrupos de P&D existentes, localizados em várias unidades geográficas. Estrutura • A liderança era compartilhada por três gerentes – um chefe de pesquisa, um chefe de desenvolvimento e um chefe de unidade de negócios. Cada um se reportava a diferentes executivos seniores – chefe de pesquisa, de desenvolvimento e da Corning Life Sciences. • A equipe de vendas da CMT operava com independência em relação à Corning Life Sciences. Sistema • O plano era considerado exato e era utilizado como base para a prestação de contas.• Adotaram-se expectativas comuns no processo de inovação de cinco estágios. Cultura • A cultura da CMT não se diferenciava da cultura da Corning. Fonte: Govindarajan e Trimble (2006, p. 47). De início, os membros da equipe da CMT prosseguiram com confiança. Acreditavam que tinham habilidades únicas. Com efeito, ao conversar com outras pessoas do setor, antes de lançar o negócio, sempre ouviam que os aspectos de ciências da vida do processo eram simples. Os verdadeiros desafios relacionavam-se com as ciências físicas – exatamente a área em que a Corning tinha um triunfo. Em alguns meses, a CMT ofereceu aos pesquisadores que imprimiam seus próprios microarranjos uma lâmina de vidro não impressa muito aprimorada com revestimento especial. Mas, em breve, a CMT começava a perder os prazos definidos nos planos de negócios, entre outros problemas, e não superou as dificuldades. Outros problemas surgiam: desentendimentos com a equipe, biólogos discordavam da administração em relação aos padrões de qualidade etc. Conheça mais detalhes desse processo através da leitura do caso, páginas 48 a 50 do livro “Os 10 mandamentos da inovação estratégica”. GOVINDARAJAN, Vijay; TRIMBLE, Chris. Os 10 mandamentos da inovação estratégica: do conceito à implementação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 8 2.1 Compreensão do que deu errado Para resumir, a CMT enfrentou as seguintes dificuldades: 1. os líderes desenvolveram a percepção de que o novo empreendimento estava fracassando sem motivos reais, apenas porque o desempenho não estava correspondendo às expectativas altamente fantasiosas; 2. surpreendidos com os resultados inesperados, os líderes da CMT mantiveram-se presos ao plano, em vez de reformularem os seus pressupostos básicos; 3. assim, perderam a coesão da equipe e, em consequência, seguiram os padrões de rotina existentes, inclusive o processo estruturado e linear de inovação em cinco estágios; 4. mostraram-se ineficazes na solução de problemas técnicos emergentes; 5. insistiram em cumprir padrões de qualidade mais altos do que os exigidos pelos clientes; 6. sofreram a oposição de um gerente poderoso que estava mais preocupado em cumprir as metas de lucratividade em curto prazo. Os problemas relacionados à percepção de fracasso, apego (demasiado) ao plano, falta de coesão da equipe, inobservância das rotinas vigentes, incapacidade de resolver problemas técnicos emergentes, insistência em padrões de qualidade que superavam as necessidades dos clientes e oposição de um gerente preocupado com o lucro de curto prazo resultaram da incapacidade de esquecer e tornaram-se inevitáveis a partir do momento em que a CMT adotou o DNA organizacional da Corning. Os pesquisadores ressaltam que concentraram a atenção na maneira como o DNA da Corning, reproduzido na CMT, resultou diretamente na incapacidade de esquecer. No entanto, na função de vendas, a CMT conseguiu esquecer. Em toda a Corning, os grupos de vendas das várias unidades de negócios tendiam a trabalhar de maneira independente. Em consequência, desenvolveu novas práticas e processos apropriados para a CMT. A equipe pesquisou o mercado, conversou com clientes potenciais etc. O Quadro 5 resume os problemas resultantes da adoção pela CMT do DNA organizacional da Corning. Quadro 5 – Resultados do primeiro DNA organizacional da CMT Elemento Escolha Resultado Pessoal • As posições gerenciais eram preenchidas mediante transferências internas. Apenas para as posições técnicas, em ciências da vida, escolheu-se pessoal de fora. • O excesso de poder investido nas áreas de expertise tradicionais da Corning resultou em ineficácia na solução de problemas e em ênfase demais na qualidade. Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 9 Estrutura • O pessoal manteve-se dentro dos subgrupos de P&D já existentes, localizados em várias instalações. • A liderança era compartilhada por três gerentes – chefe de pesquisa, chefe de desenvolvimento e chefe de unidade de negócios. Cada um reportava-se a diferentes executivos seniores – chefes de pesquisa, de desenvolvimento e da Corning Life Sciences. • A equipe de vendas da CMT operava de maneira independente da Corning Life Sciences. • Falta de coesão grupal. Reversão natural às rotinas existentes. • Excesso de ênfase na rentabilidade em curto prazo. Reforço de funções, atribuições e padrões de interação entre pesquisa, desenvolvimento e unidades de negócios vigentes na época, quando, na verdade, precisava-se de um novo processo, mais interativo. • A equipe de vendas foi bem-sucedida no desenvolvimento de uma abordagem exclusiva e específica aomercado. Sistemas • Acreditava-se na exatidão do plano, que foi usado como base para a prestação de contas. • Adotou-se expectativas padronizadas nos cinco estágios do processo de inovação. • Os resultados aquém do plano foram encarados, sem realismo, como fracassos. Ao constatar que não estava cumprindo o plano, a CMT se empenhou ainda mais para corresponder às expectativas, em vez de analisar possíveis falhas nas premissas fundamentais do plano. Cultura • A CMT não tinha cultura própria. Não era diferenciada em relação ao negócio principal. • Também contribuiu para a falta de coesão e para o retorno às rotinas existentes. Fonte: Adaptada de Govindarajan e Trimble (2006, p. 56). Mas, em um curto espaço de tempo, as dificuldades com que se deparava a CMT chamaram a atenção da equipe gerencial sênior da Corning e mudanças foram realizadas. Uma das mudanças foi na estrutura organizacional da CMT, conforme comparação no Quadro 6. Quadro 6 – Comparação das estruturas organizacionais da CMT Fonte: Govindarajan e Trimble (2006, p. 46; 58). Estrutura organizacional inicial Corning Technologies Corning Technologies (Martin Ford) Pesquisa Pesquisa da CMT Pesquisa da CMT Outras funções da CMT (fabricação, vendas etc.) Desenvolvimento Desenvolvimento da CMT Unidade de Negócios CMT Funções da CMT (vendas, fabricação etc.) Funções da Corning Life Sciences (vendas, fabricação etc.) Pesquisa Outras unidades de negócios CMT (Greg Brown) Desenvolvimento da CMT (Dr. William Hall) Corning Life Sciences Funções da Corning Life Sciences (vendas, fabricação etc.) Desenvolvimento (Fred Allen) Unidade de Negócios Corning Life Sciences Outras unidades de negócios Nova estrutura organizacional Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 10 De acordo com a análise comparativa, a CMT conseguiu superar o desafio do esquecimento sob a nova estrutura organizacional. Com base na experiência da CMT e em outros experimentos estratégicos, ressalta-se que, para superar o desafio do esquecimento, qualquer empreendimento estratégico necessita desenvolver seu próprio DNA organizacional singular: seleção de pessoal, estrutura, sistemas e cultura são elementos a serem considerados com todo o cuidado (GOVINDARAJAN; TRIMBLE, 2006). Entretanto, as organizações são limitadas em sua capacidade de gerar mudanças fundamentais. Essas limitações salientam a necessidade de criar condições para que a NewCo constitua seu próprio DNA. Outros teóricos enfatizam a necessidade de criar uma divisão separada do negócio principal ou a ele unida apenas por laços frouxos, para a execução de modelos de negócios inovadores. Cada um dos experimentos estratégicos estudados pelos autores enfrentou diferentes proporções do desafio do esquecimento. Para saber mais sobre o assunto, continue a leitura dos demais capítulos do livro Os 10 mandamentos da inovação estratégica, cujo tema central de pesquisa é como as empresas estabelecidas podem converter ideias revolucionárias em crescimento acelerado. GOVINDARAJAN, Vijay; TRIMBLE, Chris. Os 10 mandamentos da inovação estratégica: do conceito à implementação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. Considerações finais A quantidade de publicações, palestras e consultorias com ideias sobre como melhor gerenciar a inovação é vasta. Há uma taxonomia ampla em relação aos tipos diferentes de inovação, por exemplo, baseada no foco (produto, processo, serviço, organizacional ou administrativa, marketing e social) ou no grau de novidade (radical, incremental, arquitetural, modular, disruptiva ou revolucionária) e inovação estratégica, tema de estudo desta aula. Cada um dos tipos de inovação exige métodos gerenciais diferentes, mas todos têm algo em comum: “[...] as inovações geralmente são resultado de combinações de conhecimentos – novo e velho, interno e externo, dentro e fora do setor” (GOVINDARAJAN; TRIMBLE, 2006, p. 232). A inovação estratégica envolve testes de novas respostas significativamente diferentes em, pelo menos, três questões fundamentais sobre a estratégia: quem é o seu cliente? Qual é o valor que você oferece ao cliente? Como você fornece esse valor? Isto porque o mercado atual é caracterizado pela mudança rápida e não linear. Bons estudos e sucesso! Senac São Paulo - Todos os Direitos Reservados Inovação e Competitividade 11 Referências GOVINDARAJAN, Vijay; TRIMBLE, Chris. Os 10 mandamentos da inovação estratégica: do conceito à implementação. Rio de Janeiro: Elsevier, 2006. INV_COM_01_PDF_2015 Introdução 1 O conceito de inovação 2 Tipos de inovação 3 A inovação estratégica 4 Manual de Oslo Considerações finais Referências INV_COM_02_PDF_2015 Introdução 1. A inovação como processo para a organização 2 Modelo de processo de inovação 3 Consequências da visão parcial do processo de inovação Considerações finais Referências INV_COM_03_PDF_2015 Introdução 1. Estratégias racionalista e incrementalista 2 Análise competitiva na inovação Considerações finais Referências INV_COM_04_PDF_2015 Introdução 1 Competitividade na indústria Considerações finais Referências INV_COM_05_PDF_2015 Introdução 1 As cinco principais trajetórias tecnológicas 2 Competências centrais das organizações 3 Rotas tecnológicas para pequenas empresas e startups Considerações finais Referências INV_COM_06_PDF_2015 Introdução 1 O posicionamento das atividades de P&D 2 Localizando atividades de P&D – global versus local 3 Alocação de recursos de P&D 4 A P&D em pequenas empresas Considerações finais Referências INV_COM_07_PDF_2015 Introdução 1 Redes de relacionamento 2 Razões para colaboração interempresas Considerações finais Referências INV_COM_08_PDF_2015 Introdução 1 O que é um empreendimento corporativo? Considerações finais Referências INV_COM_09_PDF_2015 Introdução 1 O modelo de inovação disruptiva 2 Inovações sustentáveis e geração de crescimento 3 Os dois tipos de disrupção Considerações finais Referências INV_COM_10_PDF_2015 Introdução 1 Entendendo a necessidade dos clientes 2 Alcançando crescimento por meio dos “não consumidores” 3 Os clientes como canais disruptivos Considerações finais Referências INV_COM_11_PDF_2015 Introdução 1 Diferenciação x Comoditização de produtos 2 Diferenciação Considerações finais Referências INV_COM_12_PDF_2015 Introdução 1 Inovação 2 Formulação de estratégias 3 Alocação de recursos Considerações finais Referências INV_COM_13_PDF_2015 Introdução 1 Capacidade inovativa 2 Excelência tecnológica pode não ser suficiente Considerações finais Referências INV_COM_14_PDF_2015 Introdução 1 Empreendimentos inovadores 2 Perfil do empreendedor técnico 3 O plano de negócio 4 Crescimento e desempenho de pequenas empresas inovadoras Considerações finais Referências INV_COM_15_PDF_2015 Introdução 1 O que é uma inovação estratégica 2 Nem todas as inovações são iguais 3 O imperativo da inovação estratégica 4 As dez regras dos inovadores estratégicos Considerações finais Referências INV_COM_16_PDF_2015 Introdução 1 Por que as organizações, como os elefantes, nunca esquecem? 2 Construção da organização da CMT Considerações finais Referências