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REGRAS GERAIS DO DIREITO DE EMPRESA
NO CÓDIGO CIVIL DE 2002
I. INTRODUÇÃO
A tentativa de unificação do direito privado é apenas formal,
continuando a existir, como ramos autônomos e independentes da árvore
jurídica, o direito civil e o direito comercial. A autonomia de um direito
não é a existência de um diploma legislativo que contemple
exclusivamente suas regras jurídicas, mas a existência de institutos
jurídicos e princípios informadores próprios.
No Brasil, a tentativa de unificação nem poderá ser afirmada, uma
vez que o Código Comercial não foi totalmente revogado, restando em
vigor a parte segunda, relativa ao comércio marítimo. Ademais, existem
diversas normas de direito comercial espalhadas pelo ordenamento
jurídico, tais como a Lei das Sociedades por Ações (Lei 6.404/1976), a Lei
de Propriedade Industrial (Lei 9.279/1996), a Lei de Falência e
Recuperação de Empresas (Lei 11.101/2005), entre outras.
Assim, continuam a existir o direito comercial e o civil
como disciplinas autônomas e independentes. O fato de grande
parte das regras que compõem o regime jurídico comercial/empresarial
estarem hoje espalhadas pelo Código Civi1 e em diversas leis esparsas
não descaracteriza o direito comercial/empresarial, nem retira a sua
autonomia e independência.
De outro modo, é fato que no CCB/02 estão as regras básicas e
gerais do direito empresarial brasileiro, isto é, sua matéria nuclear,
ficando para disciplinamento em leis específicas temas especiais, como o
direito de propriedade industrial, as sociedades por ações e o direito
falimentar, por exemplo - Título I do Livro II, da Parte Especial,
denominado de Direito de Empresa.
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Está em tramitação no Congresso Nacional o PL 1.572/2011, que
visa a instituir um novo Código Comercial no Brasil, o qual revogará
toda a parte do Direito de Empresa do atual Código Civil, acabando
inclusive com a unificação legislativa que hoje existe no Direito Privado
brasileiro.
2. O CONCEITO DE EMPRESÁRIO
O Código Civil de 2002 adotou a teoria da empresa em substituição
à antiga teoria dos atos de comércio, suas antigas regras que se referiam
a ato de comércio e comerciante foram substituídas pelas expressões
empresa e empresário.
O conceito de empresário está no art. 966 do Código Civil
("considera-se empresário quem exerce profissionalmente atividade
econômica organizada para a produção ou a circulação de bens ou de
serviços"). Dela podemos extrair os principais elementos à sua
caracterização: a) profissionalidade ; b) atividade econômica organizada
e c) produção ou circulação de bens ou de serviços.
Profissionalidade significa dizer que só será empresário aquele que
exercer determinada atividade econômica dessa forma (profissional), ou
seja, se fizer do exercício daquela atividade a sua profissão habitual. O
exercício de atividade econômica esporádica (venda de um carro, de um
apartamento), não será considerado empresário, não sendo abrangido
pelo .regime jurídico empresarial.
Atividade econômica organizada representa a empresa como uma
atividade exercida com intuito lucrativo, pois é característica intrínseca
das relações empresariais a assunção do risco e a obtenção do lucro. Essa
atividade é também organizada, ou seja, significa que empresário é
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aquele que articula os fatores de produção (capital, mão de obra,
insumos e tecnologia). No mesmo sentido, diz-se que o exercício de
empresa pressupõe, necessariamente, a organização de pessoas e meios
para o alcance da finalidade almejada. Como dizia Asquini, o empresário
é responsável pela "prestação de um trabalho autônomo de caráter
organizador", e é isso, junto com a assunção dos riscos do
empreendimento, que justifica a possibilidade de ele auferir lucro.
Entretanto, essa ideia fechada de que a organização dos fatores de
produção é imprescindível para a caracterização do empresário deve ser
ponderada à luz da economia capitalista. De um lado há os
microempresários, os quais, não raro, exercem atividade empresarial
única ou preponderantemente com trabalho próprio. De outro lado, há os
empresários virtuais, que muitas vezes atuam isoladamente, resumindo-
se sua atividade à intermediação de produtos ou serviços por meio da
internet.
Por fim, em contraposição à antiga teoria dos atos de comércio, a
qual restringia o âmbito de incidência do regime jurídico comercial a
determinadas atividades econômicas elencadas na lei, a teoria da
empresa abrange qualquer atividade econômica e as submete-se ao
regime jurídico empresarial, bastando que seja exercida
profissionalmente, de forma organizada e com intuito lucrativo. Sendo
assim, a expressão produção ou circulação de bens ou de serviços deixa
claro que nenhuma atividade econômica está excluída, a priori, do
âmbito de incidência do direito empresarial.
A teoria da empresa, além de denotar a abrangência sobre toda
atividade econômica, também nos permite concluir que só restará
caracterizada a empresa quando a produção ou circulação de bens ou
serviços destinar-se ao mercado, e não ao consumo próprio.
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2.1. Empresário individual x sociedade empresária
O art. 966 do Código Civil, ao conceituar empresário como aquele
que exerce profissionalmente atividade econômica organizada, não está
se referindo apenas à pessoa física (ou pessoa natural) que explora
atividade econômica, mas também à pessoa jurídica. O empresário pode
ser um empresário individual (pessoa física que exerce profissionalmente
atividade econômica organizada) ou uma sociedade empresária (pessoa
jurídica constituída sob a forma de sociedade cujo objeto social é a
exploração de uma atividade econômica organizada).
No caso de sociedade empresária importa dizer que seus sócios
não são empresários: o empresário, nesse caso, é a própria sociedade,
ente jurídico ao qual a lei confere personalidade e, consequentemente,
capacidade para adquirir direitos e contrair obrigações.
Nesse sentido, a expressão empresário designa um gênero, do qual
são espécies o empresário individual (pessoa física) e a sociedade
empresária (pessoa jurídica). Confira-se, a esse respeito, o seguinte
julgado do STJ:
Recurso especial. Ofensa aos arts. Direito Civil e Processual Civil. Insolvência
civil. Ofensa aos arts. 458, II, e 515, § 1º, do CPC. Alegação genérica. Incidência
da Súmula 284/STF Omissão. Não ocorrência. Manifestação direta do Tribunal
acerca do ponto pretensamente causa madura. Aplicação extensiva do art.
omisso. 515, § 3.º do CPC, Pedido de insolvência civil manejado contra sócio de
empresa. Possibilidade. Ausência da figura do comerciante. Recurso especial não
conhecido.
(...) 5. A pessoa física, por meio de quem o ente jurídico pratica a mercancia, por
óbvio, não adquire a personalidade desta. Nesse caso, comerciante é somente a
pessoa jurídica, mas não o civil, sócio ou preposto, que a representa em suas
relações comerciais. Em suma, não se há confundir a pessoa, física ou jurídica,
que pratica objetiva e habitualmente atos de comércio, com aquela em nome da
qual estes são praticados. O sócio de sociedade empresarial não é
comerciante, uma vez que a prática de atos nessa qualidade são
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imputados à pessoa jurídica à qual está vinculada, esta sim, detentora
de personalidade jurídica própria. Com efeito, deverá aquele sujeitar-se ao
Direito Civil comum e não ao Direito Comercial, sendo possível, portanto, a
decretação de sua insolvência civil. 6. Recurso especial não conhecido (REsp
785.101/MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, 4.ª Turma, j. 19.05.2009, DJe
01.06.2009).
A diferença entre o empresário individual e a sociedade empresária
é que esta, por ser uma pessoa jurídica, tem patrimônio próprio, distinto
do patrimônio dos sócios que a integram. Assim, os bens particulares dos
sócios, não podem responder por dívidas da sociedade (nesse sentido,confira-se o disposto no art. 1.024 do Código Civil).
O empresário individual, por sua vez, não goza dessa separação
patrimonial, respondendo com todos os seus bens, inclusive os pessoais,
pelo risco do empreendimento. Por isso se diz que a responsabilidade dos
sócios de uma sociedade empresária é subsidiária (já que primeiro devem
ser executados os bens da própria sociedade), enquanto a
responsabilidade do empresário individual é direta.
A respeito do assunto, foi aprovado o Enunciado n° 5 da I Jornada
de Direito Comercial do CJF, com o seguinte teor: "Quanto às obrigações
decorrentes de sua atividade, o empresário individual tipificado no art.
966 do Código Civil responderá primeiramente com os bens vinculados à
exploração de sua atividade econômica, nos termos do art. 1.024 do
Código Civil". É preciso destacar que o art. 1.024 do CC é uma regra
específica para as sociedades.
Ademais, a responsabilidade dos sócios de uma sociedade
empresária, além de ser subsidiária, pode ser limitada, o que ocorre, por
exemplo, nas sociedades limitadas e nas sociedades anônimas. Nessas
sociedades, o sócio se compromete a contribuir com determinada quantia
para a formação do capital social, e sua responsabilidade fica restrita a
esse valor. Integralizado o capital social (todos os sócios tendo
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contribuído com suas respectivas quantias), os bens particulares dos
sócios não podem ser executados por dívidas da sociedade, mesmo que os
bens sociais não sejam suficientes para pagamento das dívidas. Há
hipóteses excepcionais de responsabilização pessoal e direta dos sócios
pela prática de atos ilícitos e a possibilidade de desconsideração da
personalidade jurídica da sociedade (art. 50 do Código Civil).
O empresário individual não goza da prerrogativa de limitação de
responsabilidade e responder diretamente com todos os seus bens pelas
dívidas contraídas no exercício de atividade econômica (inclusive seus
bens pessoais),
Portanto, enquanto a responsabilidade do empresário
individual é direta e ilimitada, a responsabilidade do sócio de
uma sociedade empresária é subsidiária (seus bens só podem ser
executados após a execução dos bens sociais) e pode ser limitada, a
depender do tipo societário utilizado.
Por essas razoes, no Brasil, o exercício de empresa em sociedade é
mais vantajoso do que o exercício de empresa individualmente. E dentre
os modelos de sociedade empresária existentes, a limitada é a que tem
mais utilização social.
2.1.1. A Empresa Individual de Responsabilidade Limitada
(EIRELI)
O legislador brasileiro criou a figura da empresa individual de
responsabilidade limitada, por meio da Lei 12.441/2011, que alterou
alguns dispositivos do CC.
Há duas hipóteses que poderiam se adotadas pela lei: (i)
empresário individual de responsabilidade limitada ou (ii) sociedade
limitada unipessoal.
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No primeiro caso, o empresário individual, pessoa física, ao iniciar
o exercício de uma atividade empresarial, constituiria para tanto um
patrimônio de afetação, que não se confundiria com seu patrimônio
pessoal, e o registraria na Junta Comercial. As dívidas adquiridas em
função do exercício de sua atividade empresarial não poderiam ser
executadas no seu patrimônio pessoal.
No segundo caso, seria suprimida a necessidade de pluralidade de
sócios para a constituição de sociedade limitada. Um única pessoa seria
titular de 100% das quotas do seu capital social. Assim, o patrimônio
social não se confundiria com o patrimônio pessoal do sócio, o qual não
poderia ser executado para garantia de dívidas sociais.
Em ambos os casos, o objetivo seria o mesmo: permitir que um
determinado empreendedor, individualmente, exercesse atividade
empresarial limitando sua responsabilidade ao capital investido no
empreendimento, o que estimularia o empreendedorismo e acabaria com
a prática, tão comum no Brasil,de constituição de sociedades limitadas
em que um dos sócios tem percentual ínfimo do capital social
(geralmente 1%) e nenhuma participação na gestão dos negócios sociais.
Em ambos os casos seria possível a execução dos bens pessoais do
empreendedor que utilizasse qualquer uma dessas figuras jurídicas de
forma abusiva ou fraudulenta, com desvio de finalidade ou pela confusão
patrimonial. Para tanto, os credores usariam a regra do art. 50 do CC
(desconsideração da personalidade jurídica).
O legislador brasileiro, porém, acabou criando uma nova figura
jurídica, a qual se assemelha a essas duas que mencionei acima, como
veremos a seguir.
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Primeiramente, segue o texto da Lei 12.441/2011:
LEI 12.441, DE 11 DE JULHO DE 2011.
Altera a Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), para
permitir a constituição de empresa individual de responsabilidade limitada.
A PRESIDENTA DA REPÚBLICA Faço saber que o Congresso
Nacional decreta e eu sanciono a seguinte Lei:
Art. 1.º Esta Lei acrescenta inciso VI ao art. 44, acrescenta art. 980-A ao
Livro Il da Parte Especial e altera o parágrafo único do art. 1.033, todos da
Lei n.º 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), de modo a instituir a
empresa individual de responsabilidade limitada, nas condições que especifica.
Art. 2.º A Lei n.º 10.406, de 10 de janeiro de 2002 (Código Civil), passa a
vigorar com as seguintes alterações:
“Art. 44”.
(...)responsabilidade
VI - as empresas individuais de limitada.
(...)
"LIVRO II
(...) TÍTULO I-A
DA EMPRESA INDIVIDUAL DE RESPONSABILIDADE LIMITADA
Art. 980-A. A empresa individual de responsabilidade limitada será
constituída por uma única pessoa titular da totalidade do capital social,
devidamente integralizado, que não será inferior a 100 (cem) vezes o maior
salário mínimo vigente no País.
§ 1.º O nome empresarial deverá ser formado pela inclusão da expressão
'EIRELI' após a ou a denominação social da empresa individual de
responsabilidade individual.
§ 2.º A pessoa natural que constituir empresa individual de
responsabilidade limitada somente poderá figurar em uma única empresa dessa
modalidade.
§ 3.º A empresa individual de responsabilidade limitada também poderá
resultar da concentração das quotas de outra modalidade societária num único
sócio, independentemente das razões que motivaram tal concentração.
§ 4.º (VETADO).
§ 5.º Poderá ser atribuída à empresa individual de responsabilidade
limitada constituída para a prestação de serviços de qualquer natureza a
remuneração decorrente da cessão de direitos patrimoniais de autor ou de
imagem, nome, marca ou voz de que seja detentor o titular da pessoa jurídica,
vinculados à atividade profissional.
§ 6.º Aplicam-se à empresa individual de responsabilidade limitada, no
que couber, as regras previstas para as sociedades limitadas.
..............................................................”
"Art. 1.033 .............................................................................
Parágrafo único. Não se aplica o disposto no inciso IV caso o sócio
remanescente, inclusive na hipótese de concentração de todas as cotas da
sociedade sob sua titularidade, requeira, no Registro Público de Empresas
Mercantis, a transformação do registro da sociedade para empresário individual
ou para empresa individual de responsabilidade limitada, observado, no que
couber, o disposto nos arts. 1.113 a 1.115 deste Código. (NR)
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Art. 3.º Esta Lei entra em vigor 180 (cento e oitenta) dias após a data de
sua publicação.
Sobre o tema, foram editados alguns Enunciados nas
Jornadas de Direito Civil e nas Jornadas de Direito Comercial,
ambas realizadas pelo CJF:
Jornadas de Direito Civil:
468) Art. 980-A. A empresa individual de responsabilidade limitada só
poderá ser constituída por pessoa natural.
469) Arts. 44 e 980-A. A empresa individual de responsabilidade
limitada (EIRELI) não é sociedade, mas novo ente jurídico personificado.470) Art. 980-A. O patrimônio da empresa individual de
responsabilidade limitada responderá pelas dívidas da pessoa jurídica, não se
confundindo com o patrimônio da pessoa natural que a constitui, sem prejuízo
da aplicação do instituto da desconsideração da personalidade jurídica.
471) Os atos constitutivos da EIRELI devem ser arquivados no registro
competente, para fins de aquisição de personalidade jurídica. A falta de
arquivamento ou de registro de alterações dos atos constitutivos configura
irregularidade superveniente.
472) Art. 980-A. É inadequada a utilização da expressão "social" para as
empresas individuais de responsabilidade limitada.
473) Art. 980-A, § 5.º A imagem, o nome ou a voz não podem ser
utilizados para a integralização do capital da EIRELI.
Jornada de Direito Comercial
3) A Empresa Individual de Responsabilidade Limitada - EIRELI não é
sociedade unipessoal, mas um novo ente, distinto da pessoa do empresário e da
sociedade empresária.
4) Uma vez subscrito e efetivamente integralizado, o capital da empresa
individual de responsabilidade limitada não sofrerá nenhuma influência
decorrente de ulteriores alterações no salário mínimo.
2.1.1.1. A nomenclatura
O legislador não optou por nenhuma das nomenclaturas sugeridas
acima. Preferiu chamar o novel instituto de "empresa individual de
responsabilidade limitada".
Há um distinção entre empresa (atividade econômica organizada)
e empresário (pessoa que exerce atividade econômica organizada).
Infelizmente, o legislador não obedeceu a tal distinção. O correto seria
chamar o instituto criado de "empresário individual de responsabilidade
limitada", porque empresa é a atividade desenvolvida.
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2.1.1.2. A exigência de capital mínimo
Regra polêmica sobre a EIRELI é a que exige capital mínimo
(igualou superior a 100 vezes o valor do maior salário mínimo vigente no
país) para a sua constituição. Com efeito, no Brasil não existe nenhuma
regra legal que exija capital mínimo para a constituição de sociedades,
razão pela qual é questionável a referida exigência para a constituição de
EIRELI, a qual é objeto da ADI 4.637, perante o STF.
Na ação, proposta pelo PPS, alega-se que "o salário mínimo não pode
ser utilizado como critério de indexação para a determinação do capital mínimo
necessário para a abertura de empresas individuais de responsabilidade
limitada", uma vez que "tal exigência esbarra na notória vedação de vinculação
do salário mínimo para qualquer fim, prevista no inciso IV do artigo 7° da
Constituição Federal". Alega-se ainda violação do princípio da livre iniciativa,
previsto no art. 170 da CF/88, uma vez que a exigência de capital mínimo
"representa um claro cerceamento à possibilidade de abertura de empresas
individuais de responsabilidade limitada por pequenos empreendedores". O
Ministério Público Federal já ofereceu parecer opinando pela improcedência da
ação.
Sobre o assunto, foi editado o Enunciado 4 da I Jornada de Direito
Comercial: "Uma vez subscrito e efetivamente integralizado, o capital da
empresa individual de responsabilidade limitada não sofrerá nenhuma
influência decorrente de ulteriores alterações no salário mínimo ". Tal
entendimento é corretíssimo. Caso contrário, sempre que houvesse alteração do
valor do salário mínimo, poderia ser necessária a modificação do capital da
EIRELL Imagine-se, por exemplo, que uma EIRELI tenha sido constituída com
capital social de R$ 70 mil. Caso o salário mínimo aumentasse para R$ 800,00, a
EIRELI teria que aumentar seu capital para R$ 80 mil.
2.1.1.3. Natureza jurídica da EIRELI
O legislador criou um novo tipo de pessoa jurídica, acrescentando
um inciso ao rol das pessoas jurídicas de direito privado constante do art.
44 do CC.
Se o intuito era criar um "empresário individual de
responsabilidade limitada", não precisava tê-lo colocado no rol de
pessoas jurídicas de direito privado do art. 44 do CC. O empresário
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individual de responsabilidade limitada pode perfeitamente ser uma
pessoa física, e a limitação de sua responsabilidade seria feita por meio
da constituição de um patrimônio especial, formado pelos bens e dívidas
afetados ao exercício de sua atividade econômica (patrimônio de
afetação).
De outro modo, se o intuito do legislador era criar uma pessoa
jurídica constituída por apenas um sócio, também era desnecessário
acrescentar uma nova espécie de pessoa jurídica no rol do art. 44 do CC.
Nesse caso, era só permitir que a sociedade limitada pudesse ser
constituída por apenas um sócio, o qual seria titular de todas as quotas.
Ter-se-ia, então, uma "sociedade limitada unipessoal".
Tal com legislado, a EIRELI não é um empresário individual nem
uma sociedade unipessoal: trata-se de uma nova espécie de pessoa
jurídica de direito privado, que se junta às outras já existentes
(sociedades, associações, fundações, partidos políticos e organizações
religiosas).
Para alguns autores, o simples fato de a EIRELI ter sido prevista
em novo inciso acrescentado ao art. 44 do CC não é suficiente para
caracterizá-la como nova espécie de pessoa jurídica. Para esses autores,
a EIRELI seria uma subespécie da sociedade, assim como os partidos
políticos e as organizações religiosas seriam subespécies da associação.
Entretanto, o entendimento majoritário e expresso no Enunciado 3, da I
Jornada de Direito Comercial, é o seguinte: "A Empresa Individual de
Responsabilidade Limitada - EIRELI não é sociedade unipessoal, mas
um novo ente, distinto da pessoa do empresário e da sociedade
empresária".
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2.1.1.4. . O nome empresarial
A EIRELI pode usar tanto firma quanto denominação, assunto
que será detalhado adiante.
2.1.1.5. O veto ao § 4.º do art. 980-A
Houve o veto da Presidenta da República ao § 4.º do art. 980-A, que
tinha a seguinte redação: "§ 4.º Somente o patrimônio social da empresa
responderá pelas dívidas da empresa individual de responsabilidade
limitada, não se confundindo em qualquer situação com o patrimônio da
pessoa natural que a constitui, conforme descrito em sua declaração
anual de bens entregue ao órgão competente".
Esse dispositivo que permitia a afetação de determinados bens e
dívidas à "empresa", separando o patrimônio da EIRELI e o patrimônio
da pessoa física que a constituiu. Das razões do veto, extrai-se a seguinte
justificativa: "Não obstante o mérito da proposta, o dispositivo traz a
expressão 'em qualquer situação', que pode gerar divergências quanto à
aplicação das hipóteses gerais de desconsideração da personalidade
jurídica, previstas no art. 50 do Código Civil. Assim, e por força do § 6.º
do projeto de lei, aplicar-se-á à EIRELI as regras da sociedade limitada,
inclusive quanto à separação do patrimônio".
Ainda assim e apesar do veto, deve ser mantido o entendimento de
que o patrimônio da EIRELI e o patrimônio da pessoal natural que a
constitui não se confundem, o que garante a possibilidade de limitação
de responsabilidade, pela aplicação do § 6.º do art. 980-A do CC, o qual
determina a aplicação à EIRELI das regras da sociedade limitada.
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A respeito do tema há o Enunciado 470 da V Jornada de Direito
Civil:
“Art. 980-A. O Patrimônio da empresa individual de responsabilidade
limitada responderá pelas dívidas da pessoa jurídica, não se confundindo com o
patrimônio da pessoa natural que a constitui, sem prejuízo da aplicação do
instituto da desconsideração da personalidade jurídica".
2.1.1.6. Constituição por pessoa jurídica
Há uma polêmica sobre a possibilidade da EIRELI ser constituída
por pessoa jurídica. O tema divide a doutrina especializada.
Pela leitura do caput do art. 980-A do CC, a lei não proibiu que
pessoa jurídica constituísse uma EIRELI, mas o entendimento que
prevaleceu na V Jornada de Direito Civil foi o de que "a empresa
individual de responsabilidade limitadasó poderá ser constituída por
pessoa natural", conforme já mencionado acima.
Esse tem sido também o entendimento adotado pelas Juntas
Comerciais, em obediência à Instrução Normativa n° 10 do DREI, que no
item 1.12.11 do anexo V dispões que "não pode ser titular de EIRELI a
pessoa jurídica, bem assim a pessoa natural impedida por norma
constitucional ou por lei especial".
2.1.1.7. Constituição de mais de uma EIRELI
Outra polêmica sobre a EIRELI é a regra do § 2.° do art. 980-A do
CC, segundo a qual "a pessoa natural que constituir empresa individual
de responsabilidade limitada somente poderá figurar em uma única
empresa dessa modalidade".
Se o objetivo da EIRELI é criar uma espécie de patrimônio de
afetação para permitir que um empreendedor goze da limitação de
responsabilidade sem precisar constituir sociedade com outrem, por que
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limitar esse direito?
A falta de razoabilidade nessa proibição fica aparente quando se
imagina que um empresário pretenda empreender em áreas distintas,
como deverá proceder? Constituirá uma EIRELI para explorar um
empreendimento, mas no segundo terá que constituir sociedade?
2.2. Agentes econômicos excluídos do conceito de empresário
A teoria da empresa, sem se preocupar em estabelecer um rol de
atividades sujeitas ao regime jurídico empresarial, optou por um critério
material para a conceituação do empresário, critério abrangente e que
pretende todas as atividade econômica do seu âmbito de incidência.
Ocorre que esse critério material - previsto no art. 966 do Código
Civil - não se aplica a determinados agentes econômicos específicos,
acerca dos quais nos referiremos adiante. Para estes agentes, a lei optou
por critérios outros para a determinação de sua submissão ou não ao
regime jurídico empresarial.
O conceito de empresário previsto no art. 966 do Código Civil
abarca toda e qualquer pessoa, física (empresário individual) ou jurídica
(sociedade empresária), que exerça toda e qualquer atividade econômica
organizada. Entretanto - por opção do legislador – determinados agentes
econômicos não são considerados empresários, embora exercerem
atividades econômicas.
Esses agentes econômicos não são considerados empresários pelo
Código Civil e são basicamente o profissional intelectual (profissional
liberal), de natureza científica, literária ou artística, o exercente de
atividade rural e a sociedade cooperativa.
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2.2.1. Profissionais intelectuais
A situação específica dos profissionais intelectuais, também
chamados de profissionais liberais, está disciplinada no art. 966,
parágrafo único, do Código Civil: "não se considera empresário quem
exerce profissão intelectual, de natureza científica, literária ou artística,
ainda com o concurso de auxiliares ou colaboradores, salvo se o exercício
da profissão constituir elemento de empresa".
Os profissionais intelectuais (advogados, médicos, professores etc.)
não são considerados empresários, salvo se o exercício da Profissão
constituir elemento de empresa.
Enquanto o profissional intelectual apenas exerce a sua atividade
intelectual, ainda que com o intuito de lucro e mesmo contratando
alguns auxiliares, ele não é considerado empresário para os efeitos
legais. Um profissional que atua sozinho, faz uso apenas de seu esforço,
da sua capacidade intelectual, não é considerado empresário, não se
submetendo, pois, ao regime jurídico empresarial.
A empresa é uma atividade econômica organizada, isto é, atividade
em que há articulação dos fatores de produção. No exercício de profissão
intelectual essa organização dos fatores de produção assume importância
secundária, às vezes irrelevante. No exercício de profissão intelectual, o
essencial é a atividade pessoal do agente econômico, o que não acontece
com o empresário.
Entretanto, a partir do momento em que o profissional intelectual
dá uma forma empresarial ao exercício de suas atividades
(impessoalizando sua atuação e assumindo a postura de organizador da
atividade desenvolvida), será considerado empresário e passará a ser
regido pelas normas do direito empresarial.
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Nesse sentido, são bastante elucidativos os Enunciados 193, 194 e
195 do Conselho da Justiça Federal, aprovados na III Jornada de Direito
Civil, realizada em 2005, os quais dispõem, respectivamente, que:
"o exercício das atividades de natureza exclusivamente intelectual
está excluído do conceito de empresa";
"os profissionais liberais não são considerados empresários, salvo
se a organização dos fatores de produção for mais importante que a
atividade pessoal desenvolvida";
"a expressão 'elemento de empresa' demanda interpretação
econômica, devendo ser analisada sob a égide da absorção da atividade
intelectual, de natureza científica, literária ou artística, como um dos
fatores da organização empresarial".
Importa estabelecer critérios minimamente objetivos para aferir se
o exercício de profissão intelectual configura ou não uma empresa, isto é,
uma atividade econômica organizada. Deve-se analisar, em cada caso
concreto, se:
(i) há mais de um ramo de atividade sendo exercido, ou se
(ii) há contratação de terceiros para o desempenho da atividade-
fim.
A expressão elemento de empresa está intrinsecamente relacionada
com a organização dos fatores de produção para a caracterização do
empresário.
Com efeito, o empresário é a pessoa que exerce atividade
econômica organizada, ou seja, é quem articula os diversos fatores de
produção - insumos, mão de obra, capital e tecnologia - tendo em vista a
exploração de uma determinada atividade econômica. Para tanto,
constituirá todo um complexo de bens materiais e imateriais e buscará,
a partir da organização e exploração desse complexo de bens (o
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estabelecimento empresarial), auferir lucro, porém, sabendo que sofrerá
também eventuais prejuízos resultantes do fracasso do empreendimento.
Em regra essa organização dos fatores de produção inexiste na
atuação dos profissionais intelectuais,. Esses profissionais não raro
exercem suas atividades sem a necessidade de organizar um
estabelecimento empresarial, vale dizer, sem a necessidade de contratar
funcionários, de criar uma marca, de fixar um ponto de negócio etc. (é o
caso do professor que ministra aulas particulares, dentre outras
situações). É por essa razão, em suma, que o profissional intelectual não
é considerado empresário segundo os fundamentos da teoria da empresa.
No entanto, o professor que se torna dono de um cursinho
preparatório, ainda que continue a ministrar aulas nessa mesma
instituição, é empresário. O músico que se torna dono de um centro de
promoção de eventos, ainda que continue a tocar nas festas organizadas
por ele, é empresário. Isso porque, nesses casos, o exercício da profissão
intelectual deixa de o ser fator principal do empreendimento, passando a
ser um mero elemento de uma atividade econômica organizada a partir
da articulação de outros fatores de produção: contratação de
funcionários, criação e registro de uma marca, fixação de um ponto de
negócio. Por mais que o professor ou o músico mencionados acima
continuem a exercer suas respectivas profissões intelectuais, terão que
assumir também a posição de organizadores do empreendimento. É isso
o que caracteriza o empresário, como bem destacava Asquini.
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2.2.1.1. A questão da regulamentação das profissões
OS profissionais intelectuais (profissionais liberais) não são
considerados empresários e não precisam se registrar na Junta
Comercial para que possam exercer suas atividades. No entanto, muitas
das profissões intelectuais são "regulamentadas", o que exige muitas
vezes que os profissionais intelectuais (profissionais liberais) se
registrem nos órgãos regulamentadores de suas respectivas profissões
(Conselho Federal de Medicina, Ordemdos Advogados do Brasil, entre
tantos outros).
A criação de tais órgãos regulamentadores, com a exigência de
filiação compulsória dos profissionais restringe a liberdade de exercício
da profissão, mas essa exigência tem sido admitida no país. A crítica é a
de que o profissional já está habilitado pela graduação em ensino
superior e a filiação obrigatória servem para cartelizar determinados
setores, garantindo reserva de mercado.
No Brasil, a regulamentação de profissões tem crescido
exponencialmente. Se antes apenas profissões mais técnicas, como
engenharia e medicina, eram regulamentadas, atualmente até os
simples ofícios estão sendo regulamentados, muitas vezes para obter
benesses do Estado.
O site do Ministério do Trabalho e Emprego informa que existem
nada menos que 68 profissões regulamentadas no Brasil
(<http://www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/regulamentacao.jsf>, acesso
em: 29 set. 2014), embora acreditemos que esse número seja bem maior.
Em quase todos os casos, a regulamentação impõe a contratação de
profissional regulamentado por certas empresas e/ou proíbe o exercício
da profissão por pessoas não regulamentadas.
19
Uma dessas dezenas de profissões regulamentadas recentemente,
por exemplo, foi a de sommelier , regulamentada pela Lei 12.467/2011,
que dispõe:
Art. 1.º Considera-se sommelier, para efeitos desta Lei, aquele que executa o
serviço especializado de vinhos em empresas de eventos gastronômicos,
hotelaria, restaurantes, supermercados e enotecas e em comissariaria de
companhias aéreas e marítimas.
Parágrafo único. É opcional aos estabelecimentos referidos no caput deste
artigo a oferta da atividade exercida pelo provador de vinho ou degustador.
Art. 2.º Somente podem exercer a profissão de sommelier os portadores de
certificado de habilitação em cursos ministrados por instituições oficiais públicas
ou privadas, nacionais ou estrangeiras, ou aqueles que, à data de promulgação
desta Lei, estejam exercendo efetivamente a profissão há mais de 3 (três) anos.
O Supremo Tribunal Federal também já teve a oportunidade de se
manifestar em defesa da liberdade de exercício de qualquer arte, oficio
ou profissão, como aconteceu no julgamento em que se dispensou até
mesmo a exigência de diploma universitário para o exercício da profissão
de jornalista. Confira-se:
Jornalismo. Exigência de diploma de curso superior, registrado
pelo Ministério da Educação, para o exercício da profissão de jornalista.
Liberdades de profissão, de expressão e de informação. Constituição de
1988 (art. 5.º IX e XIII, e art. 220, caput e § 1.º). Não recepção do art. 4.º,
inciso V, do Decreto-lei n.º 972, de 1969.
(...)
4. Âmbito de proteção da liberdade de exercício profissional (art. 5.º inciso XIII,
da Constituição). Identificação das restrições e conformações legais
constitucionalmente permitidas. Reserva legal qualificada. Proporcionalidade. A
Constituição de 1988, ao assegurar a liberdade profissional (art. 5.º XIII), segue
um modelo de reserva legal qualificada presente nas Constituições anteriores, as
quais prescreviam à lei a definição das "condições de capacidade" como
condicionantes para o exercício profissional. No âmbito do modelo de reserva
legal qualificada presente na formulação do art. 5.º XIII, da Constituição de
1988, paira uma imanente, questão constitucional quanto à razoabilidade e
proporcionalidade das leis restritivas, especificamente das leis que disciplinam
as qualificações profissionais como condicionantes do livre exercício das
20
profissões. Jurisprudência do Supremo Tribunal Fede-ral: Representação n.º
930, Redator p/ o acórdão Ministro Rodrigues Alckmin, DJ 02.09.1977. A reserva
legal estabelecida pelo art. 5.º XIIL não confere ao legislador o poder de
restringir o exercício da liberdade profissional a ponto de atingir o seu próprio
núcleo essencial.
5. Jornalismo e liberdades de expressão e de informação. Interpretação do art.
5º, IX, XIV; 5.º inciso XIII em conjunto com os preceitos do art. 5.º e do art. 220
da Constituição. O jornalismo é uma profissão diferenciada por sua estreita
vinculação ao pleno exercício das liberdades de expressão e de informação. O
jornalismo é a própria manifestação e difusão do pensamento e da informação de
forma continua profissional e remunerada. Os jornalistas são aquelas pessoas
que se dedicam profissionalmente ao exercício pleno da liberdade de expressão.
O jornalismo e a liberdade de expressão, portanto, são atividades que estão
imbricadas por sua própria natureza e não podem ser pensadas e tratadas de
forma separada. Isso implica, logicamente, que a interpretação do art. 5.º inciso
XIII da Constituição, na hipótese da profissão de jornalista, se faça,
impreterivelmente, em conjunto com os preceitos do art. 5.º incisos IV; IX, XIV, e
do art. 220 da Constituição, que asseguram as liberdades de expressão, de
informação e de comunicação em geral.
6. Diploma de curso superior como exigência para o exercício da profissão de
jornalista. Restrição inconstitucional às liberdades de expressão e de
informação. As liberdades de expressão e de informação e, especificamente, a
liberdade de imprensa, somente podem ser restringidas pela lei em hipóteses
excepcionais, sempre em razão da proteção de outros valores e interesses
constitucionais igualmente relevantes, como os direitos à honra, à imagem, à
privacidade e à personalidade em geral. Precedente do STF: ADPF n.º 130, Rel.
Min. Carlos Britto. A ordem constitucional apenas admite a definição legal das
qualificações profissionais na hipótese em que sejam elas estabelecidas para
proteger, efetivar e reforçar o exercício profissional das liberdades de expressão
e de informação por parte dos jornalistas. Fora desse quadro, há patente
inconstitucionalidade da lei. A exigência de diploma de curso superior para a
prática do jornalismo o qual, em sua essência, é o desenvolvimento profissional
das liberdades de expressão e de informação não está autorizada pela ordem
constitucional, pois constitui uma restrição, um impedimento, uma verdadeira
supressão do pleno, incondicionado e efetivo exercício da liberdade jornalística,
expressamente proibido pelo art. 220, § 1.º da Constituição.
7. Profissão de jornalista. Acesso e exercício. Controle estatal vedado pela
ordem constitucional. Proibição constitucional quanto à criação de ordens ou
conselhos de fiscalização profissional. No campo da profissão de jornalista, não
há espaço para a regulação estatal quanto às qualificações profissionais. O art.
5.º incisos IV; IX XIV; e o art. 220, não autorizam o controle, por parte do
Estado, quanto ao acesso e exercício da profissão de jornalista. Qualquer tipo de
controle desse tipo, que interfira na liberdade profissional no momento do
próprio acesso à atividade jornalística, configura, ao fim e ao cabo, controle
prévio que, em verdade, caracteriza censura prévia das liberdades de expressão
e de informação, expressamente vedada pelo art. 5.º inciso IX, da Constituição. A
impossibilidade do estabelecimento de controles estatais sobre a profissão
21
jornalística leva à conclusão de que não pode o Estado criar uma ordem ou um
conselho profissional (autarquia) para a fiscalização desse tipo de profissão. O
exercício do poder de polícia do Estado é vedado nesse campo em que imperam
as liberdades de expressão e de informação. Jurisprudência do STF:
Representação n.º 930, Redator p/o acórdão Ministro Rodrigues Alckmin, DJ,
02.09.1977.
8. Jurisprudência da Corte Interamericana de Direitos Humanos. Posição da
Organização dos Estados Americanos OEA. A Corte Interamericana de Direitos
Humanos proferiu decisão no dia 13 de novembro de 1985, declarando que a
obrigatoriedade do diploma universitário e da inscrição em ordem profissional
para o exercício da profissão de jornalista viola o art. 13 da Convenção
Americana de Direitos Humanos, que protege a liberdadede expressão em
sentido amplo (caso "La colegiación obligatoria de periodistas" - Opinião
Consultiva OC-5/85, de 13 de novembro de 1985). Também a Organização dos
Estados Americanos - OEA, por meio da Comissão Interamericana de Direitos
Humanos, entende que a exigência de diploma universitário em jornalismo,
como condição obrigatória para o exercício dessa profissão, viola o direito à
liberdade de expressão (Informe Anual da Comissão Interamericana de Direitos
Humanos, de 25 de fevereiro de 2009).
Recursos extraordinários conhecidos e providos (RE 511.961, Rel. Min. Gilmar
Mendes, Tribunal Pleno, j. 17.06.2009, DJe-213, Divulg. 12.11.2009, Publico
13.11.2009, Ement. vol-02382-04, p. 692, RTJ vol-00213, p. 605).
Outro julgamento em que o Supremo Tribunal Federal garantiu o
livre exercício de profissão foi aquele no qual se afastou a
obrigatoriedade de os músicos se filiarem à Ordem dos Músicos para
poderem exercer a sua atividade artística. Confira-se:
Direito Constitucional. Exercício profissional e liberdade de expressão.
Exigência de inscrição em conselho profissional. Excepcionalidade. Arts. 5.º IX e
XIII, da Constituição. Nem todos os ofícios ou profissões podem ser
condicionadas ao cumprimento de condições legais para o seu exercício. A regra é
a liberdade. Apenas quando houver potencial lesivo na atividade é que pode ser
exigida inscrição em conselho de fiscalização profissional. A atividade de músico
prescinde de controle. Constitui, ademais, manifestação artística protegida pela
garantia da liberdade de expressão (RE 414.426, Rel. Min. Ellen Gracie,
Tribunal Pleno, j. 01.08.2011, DJe-194, Divulg. 07.10.2011, Publico 10.10.2011,
Ement. vol-02604-01, p. 76).
22
Apesar de o Supremo Tribunal Federal, nos dois julgamentos acima
transcritos, ter assegurado o livre exercício das profissões de jornalista e
de músico, a leitura dos acórdãos deixa claro que ele não o fez em
homenagem à livre-iniciativa e à livre concorrência, mas em homenagem
à liberdade de imprensa e de expressão. Ademais, é possível perceber
que o STF não comunga do entendimento de que o exercício de
qualquer profissão deve ser absolutamente livre. Nossa Suprema
Corte entende que certas profissões são mais nobres do que outras, razão
pela qual permite que em algumas a liberdade seja tolhida por
exigências burocráticas impostas pelo Estado, como a posse de um
diploma, a necessidade de registro em um órgão ou mesmo a submissão a
um teste, como é o caso do Exame de Ordem, cuja realização é
imprescindível para todos aqueles que quiserem exercer a profissão de
advogado. No julgamento do RE 603.583/RS, assim se decidiu:
Trabalho - Oficio ou profissão - Exercício. “Consoante disposto no inciso XIII do
artigo 5.º da Constituição Federal, que é livre o exercício de qualquer trabalho,
oficio ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer”.
Bacharéis em Direito Qualificação. Alcança-se a qualificação de bacharel em
Direito mediante conclusão do curso respectivo e colação de grau.
Advogado Exercício profissional Exame de ordem. O Exame de Ordem,
inicialmente previsto no artigo 48, inciso III da Lei n.º 4.215/63 e hoje no artigo
84 da Lei n.º 8.906/94, no que a atuação profissional repercute no campo de
interesse de terceiros, mostra-se consentâneo com a Constituição Federal, que
remete às qualificações previstas em lei. Considerações (RE 603.583, Rel. Min.
Marco Aurélio, Tribunal Pleno, j. 26.10.2011, DJe-102, Divulg. 24.05.2012,
Publico 25.05.2012).
Em suma: o Supremo Tribunal Federal admite a regulamentação de
profissões e entende ser legítima a exigência de diploma e/ou de filiação
compulsória de um determinado profissional ao órgão regulamentador
quando houver, por exemplo, "potencial lesivo" na atividade que ele
exerce.
23
2.2.2. As sociedades simples (sociedades uniprofissionais)
O que se disse até agora se refere a profissionais intelectuais que
exercem suas atividades individualmente, na qualidade de pessoas
físicas. Mas a regra do art. 966, parágrafo único, do Código Civil vale
também para as chamadas sociedades uniprofissionais, ou seja,
sociedades constituídas por profissionais intelectuais cujo objeto social é
justamente a exploração de suas profissões (por exemplo, uma sociedade
formada por médicos para prestação de serviços médicos, uma sociedade
formada por professores para prestação de serviços de ensino, uma
sociedade formada por engenheiros para prestação de serviços de
engenharia etc.).
Já se disse que empresário é aquele que exerce atividade
econômica organizada, a qual pode ser exercida pela pessoa física
(empresário individual) ou uma pessoa jurídica ( sociedade empresária).
Ora, se nem sempre o exercente de atividade econômica é
considerado empresário, haja vista a regra excludente do parágrafo
único do art. 966 do Código Civil, isso nos leva à conclusão de que
também nem sempre uma sociedade será empresária, haja vista a
possibilidade de se constituírem sociedades cujo objeto social seja a
exploração da atividade intelectual dos seus sócios. Essas sociedades,
antes chamadas de sociedades civis, são denominadas pelo atual Código
Civil de sociedades simples.
O Código Civil estabelece, em seu art. 982, que "salvo as exceções
expressas, considera-se empresária a sociedade que tem por objeto o
exercício, de atividade própria de empresário sujeito a registro (art. 967);
e, simples, as demais". Isso mostra que o que define uma sociedade como
empresária ou simples é o seu objeto social.
24
Há apenas duas exceções a essa regra, contidas no seu parágrafo
único, o qual prevê que "independentemente de seu objeto, considera-se
empresária a sociedade por ações; e, simples, a cooperativa".
As chamadas sociedades uniprofissionais - sociedades formadas
por profissionais intelectuais cujo objeto social é a exploração da
respectiva profissão intelectual dos seus sócios - são, em regra,
sociedades simples, uma vez que nelas faltará o requisito da organização
dos fatores de produção, da mesma forma que ocorre com os profissionais
intelectuais que exercem individualmente suas atividades.
No entanto, seguindo a diretriz do art. 966, parágrafo único, do
Código Civil, nos casos em que o exercício da profissão intelectual dos
sócios das sociedades uniprofissionais (que compõem o seu objeto social)
constituir elemento de empresa, ou seja, nos casos em que as sociedades
uniprofissionais explorarem seu objeto social com empresarialidade
(organização dos fatores de produção), elas serão consideradas
sociedades empresárias.
É o requisito da organização dos fatores de produção que
caracteriza a presença do elemento de empresa no exercício de profissão
intelectual e que, consequentemente, faz com que o profissional
intelectual receba a qualificação jurídica de empresário. Isso,
obviamente, vale tanto para o exercício de profissão intelectual
individualmente quanto para o exercício de profissão liberal em
sociedade.
2.2.2.1. As sociedades de advogados
A Lei 8.906/1994 (Estatuto da Advocacia e da Ordem dos
Advogados do Brasil) versa, em seus arts. 15 a 17, sobre a sociedade de
advogados, dispondo que ela é uma "sociedade civil de prestação de
25
serviço de advocacia" submetida à regulação específica prevista na
referida lei.
Diante disso, afirma-se que a sociedade de advogados é uma
sociedade de natureza civil simples, na dicção do novo Código Civil de
2002 - e organizada sob a forma de sociedade em nome coletivo, ou seja,
respondem todos os sócios de maneira solidária e ilimitada pelas
obrigações sociais.
Analisando questões relacionadas ao direito tributário, o Superior
Tribunal de Justiça já afirmou que as sociedades de advogados ostentam
"índole empresarial", não se distinguindo, no plano fático, das demais
sociedades prestadoras de serviçosconstituídas por outros profissionais
liberais. Confira-se:
Tributário. Contribuições ao SESC e ao SENAC. Empresa prestadora de
serviços advocatícios. Art. 577 da CLT Enquadramento sindical. Vinculação à
Confederação Nacional do Comércio. Matéria pacificada. 1. As empresas
prestadoras de serviços advocatícios são estabelecimentos de índole
empresarial, por exercerem atividade econômica organizada com fins
lucrativos, estando enquadradas na classificação do artigo 577 da CLT e seu
anexo, e por conseguinte, vinculadas à Confederação Nacional do Comércio.
Desta forma, sujeitam-se à incidência das contribuições instituídas pelo art. 3.º
do DL 9.853/46, bem como pelo art. 4.º do DL 8.621/46. (Precedentes
jurisprudenciais). (...) (AgRg nº Ag 518.309/PR, Rel. Min. Teori Albino
Zavascki, 1.ª Turma, j. 16.12.2003, DJ 02.02.2004, p. 278).
Assim, pode-se dizer que as regras dos arts. 15 a 17 da Lei
8.906/1994 configuram uma exceção à regra do art. 966, parágrafo único,
do Código Civil. Tais regras continuam em vigor, mesmo após a edição do
Código, que é lei posterior, em razão da sua especialidade. Mas é de se
pensar se não caberia ao legislador reformar a lei para adaptá-la aos
ditames do novo Código. 1
1 A Lei 13.247, de 12 de janeiro de 2016, alterou os arts. 15 a 17 da
Lei 8.906/1994, criando inclusive uma nova figura jurídica, a “sociedade
unipessoal de advocacia”.
26
2.2.3. O exercente de atividade econômica rural
O Código Civil também se preocupou em dar um tratamento
especial ao exercício de atividade econômica rural, excluindo aqueles que
se dedicam a tal atividade da obrigatoriedade de registro na Junta
Comercial, prevista no art. 967 do Código.
Todo empresário, antes de iniciar o exercício da atividade
empresarial, tem que se registrar na Junta Comercial, seja empresário
individual ou sociedade empresária. Para aqueles que exercem atividade
econômica rural, todavia, o Código Civil concedeu a faculdade de se
registrar ou não perante a Junta Comercial da sua unidade federativa.
Assim, se aquele que exerce atividade econômica rural não se
registrar na Junta Comercial, não será considerado empresário, para os
efeitos legais (por exemplo, não se submeterá ao regime jurídico da Lei
11.101/2005, que trata da falência e da recuperação judicial e
extrajudicial). Em contrapartida, se ele optar por se registrar, será
considerado empresário para todos os efeitos legais. Esta regra está
contida no art. 971 do Código Civil: "o empresário, cuja atividade rural
constitua sua principal profissão, pode, observadas as formalidades de
que tratam o art. 968 e seus parágrafos, requerer inscrição no Registro
Público de Empresas Mercantis da respectiva sede, caso em que, depois
de inscrito, ficará equiparado, para todos os efeitos, ao empresário
sujeito a registro".
Confira-se, a respeito do tema, a seguinte decisão do STJ, na qual
se entendeu que pequenos pecuaristas não se enquadram no conceito de
comerciante (hoje substituído pelo conceito de empresário), razão pela
qual não sé sujeitam às regras do direito empresarial (falência e
recuperação de empresas), e sim às regras do direito civil:
27
Recurso especial. Direito civil e processual civil. Assistência judiciária
não concedida na origem. Incidência da Súmula 07/STJ. Violação ao art. 538
do CPC. Multa afastada. Incidência do Enunciado sumular nº 98/STJ.
Pedido de autoinsolvência formulado por pecuaristas. Possibilidade.
Atividade estranha ao direito comercial. Recurso especial parcialmente
conhecido e, na extensão, provido. (...) 3. A moldura fática delineada no
acórdão recorrido, de forma incontroversa, sinaliza que os recorrentes são
pecuaristas que vivem da compra e venda de gado no meio rural, atividade
civil típica, com estrutura simples. Com efeito, não sendo comerciantes, estarão
impossibilitados de se valerem das regras especificas à atividade
empresarial, como as referentes a falência, concordata ou recuperação judicial,
aplicando-se lhes o estatuto civil comum, sendo-lhes permitido o pedido de
autoinsolvência civil. 4. Recurso especial parcialmente conhecido e, na extensão,
provido (REsp 474.107/MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, 4.ª Turma, j.
10.03.2009. DJe 27.04.2009).
Conclui-se, pois, que, para o exercente de atividade econômica rural,
o registro na Junta Comercial tem natureza constitutiva, e não
meramente declaratória, como de ordinário. Com efeito, o registro não é
requisito para que alguém seja considerado empresário, mas apenas
uma obrigação legal imposta aos praticantes de atividade econômica.
Quanto ao exercente de atividade rural, essa regra é excepcionada, sendo
o registro na Junta, pois, condição indispensável para sua caracterização
como empresário e consequente submissão ao regime jurídico
empresarial.
Regra idêntica foi prevista para a sociedade que tem por objeto
social a exploração de atividade econômica rural. Dispõe o Código Civil,
em seu art. 984, que "a sociedade que tenha por objeto o exercício de
atividade própria de empresário rural e seja constituída, ou
transformada, de acordo com um dos tipos de sociedade empresária,
pode, com as formalidades do art. 968, requerer inscrição no Registro
Público de Empresas Mercantis da sua sede, caso em que, depois de
inscrita, ficará equiparada, para todos os efeitos, à sociedade
empresária".
28
Sobre os arts. 971 e 984 do Código Civil, dispõem os Enunciados 201 e
202 das Jornadas de Direito Civil o seguinte, respectivamente:
Enunciado 201 "O empresário rural e a sociedade empresária
rural, inscritos no registro público de empresas mercantis, estão sujeitos
à falência e podem requerer concordata";
Enunciado 202 "O registro do empresário ou sociedade rural na
Junta Comercial é facultativo e de natureza constitutiva, sujeitando-o ao
regime jurídico empresarial. É inaplicável esse regime ao empresário ou
sociedade rural que não exercer tal opção".
Ainda a propósito do assunto, a Terceira Turma do STJ enfrentou
uma questão interessante no julgamento do Recurso Especial
1.193.115/MT:
Produtores rurais não registrados na Junta Comercial
podem obter o beneficio da recuperação judicial, algo típico do
regime jurídico empresarial? Houve divergência, mas prevaleceu
justamente a tese que expomos acima: sem registro na Junta,
produtores rurais não são considerados empresários, para os efeitos
legais, e não podem obter o beneficio da recuperação judicial.
Finalmente, registre-se que na II Jornada de Direito Comercial foi
aprovado o Enunciado 62, com o seguinte teor: "o produtor rural, nas
condições mencionadas no art. 971 do Código Civil, pode constituir
EIRELI".
2.2.4. Sociedades cooperativas
Conforme já dito, uma sociedade será considerada empresária se
preencher os requisitos do art. 966 do Código Civil, ou seja, se exercer,
profissionalmente, uma atividade econômica organizada para a produção
29
ou a circulação de bens ou de serviços.
Caso não preencha os requisitos da norma mencionada, estar-se-á
diante de uma sociedade simples, conforme se extrai do art. 982 do CCB.
É o objeto explorado pela sociedade, por conseguinte, que
define a sua natureza empresarial ou não.
Se uma sociedade explora atividade empresarial, será considerada
uma sociedade empresária, registrando-se na Junta Comercial e
submetendo-se ao regime jurídico empresarial. Se, todavia, uma
sociedade não explora atividade empresarial, será considerada uma
sociedade simples terminologia adotada pelo novo Código Civil,
registrando-se no cartório de registro civil de pessoas jurídicas.
Note-se que faz-se uma ressalva, deixando-se claro, portanto, que
em algumas situações não se deve recorrer ao critério material do art.
966 do Código Civil para definir se uma determinada sociedade é
empresária ou não. É o que ocorre, por exemplo, com as cooperativas.Para saber se uma sociedade cooperativa é empresária, não se
utiliza o critério material previsto no art. 966 do CC, mas um critério
legal, estabelecido no art. 982, parágrafo único, o qual dispõe que
"independentemente de seu objeto, considera-se empresária a sociedade
por ações; e, simples, a cooperativa".
O legislador, por opção política, determinou que a cooperativa é
sempre uma sociedade simples, pouco importando se ela exerce uma
atividade empresarial de forma organizada e com intuito de lucro.