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MÓDULO 5 - OS PRINCÍPIOS BIOÉTICOS E A PSICOLOGIA Objetivo O módulo apresenta a relação da bioética com a construção do Código de Ética do Psicólogo. Busca explicitar como a Psicologia tem enfrentado os dilemas bioéticos na contemporaneidade ao produzir conhecimento cientifico. INTRODUÇÃO Nos últimos anos, a Psicologia Brasileira aprimorou sua interface com a área da Saúde, que contribuiu para uma discussão profunda sobre a postura ética do psicólogo em relação ao usuário do seu serviço. Essa discussão foi pautada por documentos éticos, como a Resolução 196/96 (a atual 466/12), sobre as “Diretrizes e Normas Regulamentadoras de Pesquisas envolvendo seres humanos”, promulgada pelo Conselho Nacional de Saúde. Esse documento foi construído com o intuito de assegurar os direitos do sujeito que esteja participando de pesquisas científicas, garantindo a ele, entre outros: o direito à autonomia na decisão de participar ou não do projeto de pesquisa, o direito ao consentimento livre e esclarecido, entre outros. A Resolução 196/96, reformulada e substituída recentemente pela Resolução 466/12 foi elaborada pelo Conselho Nacional de Saúde sob influência das preocupações mobilizadas pelo contexto biomédico, por meio das pesquisas clínicas para investigar os agentes causadores de doenças em humanos, como a aids e a aprovação de novos medicamentos no mercado. Fundamenta-se no modelo estadunidense e incorporou os princípios bioéticos, já presentes na pauta internacional de preocupações éticas com a produção de conhecimento científico. A Resolução 466/12 em seu preâmbulo contextualiza a necessidade de parâmetros éticos devido ao progresso da ciência e da tecnologia, que desvendou outra percepção da vida, dos modos de vida, com reflexos não apenas na concepção e no prolongamento da vida humana, como nos hábitos, na cultura, no comportamento do ser humano nos meios reais e virtuais disponíveis e que se alteram e inovam em ritmo acelerado e contínuo. (Resolução 466/12, disponível em http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf, acesso em novembro 2013) A partir disso, reafirma a importância de ponderar entre riscos e benefícios para o participante da pesquisa e para a sociedade, pois: http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf Considerando o progresso da ciência e da tecnologia, que deve implicar em benefícios, atuais e potenciais para o ser humano, para a comunidade na qual está inserido e para a sociedade, nacional e universal, possibilitando a promoção do bem-estar e da qualidade de vida e promovendo a defesa e preservação do meio ambiente, para as presentes e futuras gerações. (Resolução 466/12, disponível em http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf, acesso em novembro 2013) Segundo Diniz&Guilhem (2008), o sistema brasileiro de revisão ética está vinculado ao Sistema CEP/Conep- Comitês de Ética em e Comissão Nacional de Ética em Pesquisa- que teve inicio em finais dos anos de 1980, que instituiu a Resolução 196/96 e atualmente foi revista sendo considerada a atual 466/12. Uma das pressuposições dessa lei, afirma que todas as pesquisas com seres humanos de todas as áreas do conhecimento, devem ser avaliadas pelo Sistema CEP/Conep, antes de iniciar a fase de coleta de dados. Desde a regulamentação da Resolução 196/96, em outubro de 1996, o número de CEPs (Comissões de Ética em Pesquisa) vem crescendo, principalmente junto às organizações civis, as de defesa dos direitos e apoio aos portadores de deficiência e patologias. Paralelamente, nota-se uma expansão da Bioética, devido às inúmeras questões morais provindas do avanço técnico-científico na área da Saúde. (PALÁCIOS, MARTINS e PEGORARO, 2001) A Resolução 466/12 encontra-se amparada pela Cultura dos Direitos Humanos e pela Bioética, aplicadas à prática científica, nos cuidados mantidos com o participante da pesquisa. Para isso, os Comitês de Ética necessitam aprovar os protocolos de pesquisas e os projetos desenvolvidos. Segundo Diniz e Guilhem (2008, p.77), a cultura ética fomentada pela Resolução 196/96, em diálogo com as diretrizes internacionais, estabeleceu alguns critérios para a aprovação dos protocolos de pesquisa, a partir de uma preocupação básica com a minimização de riscos e a proteção dos direitos dos participantes de pesquisas, tais como: - relevância social: os estudos devem contribuir para a melhoria da qualidade de vida das pessoas envolvidas nas pesquisas, ampliando o conhecimento aplicável a diferentes contextos sociais; -validade científica: o desenho metodológico deve garantir a validade da pesquisa e a apropriação de resultados pelos países envolvidos; -seleção equitativa: a escolha dos participantes deve seguir objetivos definidos pela pesquisa e não atender as amostras de conveniência. Pessoas vulneráveis devem ser protegidas e não podem ser excluídas do envolvimento na pesquisa sem razões científicas; - balanço favorável entre riscos e benefícios: as pesquisas tem que ser conduzidas de acordo com o melhor padrão de atenção à saúde disponível. Deve ser feita uma avaliação dos potenciais riscos e benefícios para os participantes; -revisão ética do protocolo: deve ser realizada por um Comitê de Ética em pesquisa, de conformação colegiada, que atue de forma independente; http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf -consentimento livre e esclarecido: é tido como uma das peças centrais à avaliação ética de um protocolo de pesquisa. Deve ser considerado um processo e não apenas um ato de apresentação de um documento escrito ou oral. O objetivo é garantir a livre e informada decisão de um individuo em participar de um estudo; - respeito pelos participantes: ultrapassa o instante do estabelecimento do vínculo e da assinatura do termo de consentimento. Refere-se à proteção da confidencialidade, ao acesso a informações sobre a pesquisa e ao direito de se retirar do estudo a qualquer momento; - capacitação e fortalecimento local: a pesquisa colaborativa internacional deve contribuir para o crescimento científico local e para a consolidação do processo de revisão ética das pesquisas. O campo da Bioética, também determinante na elaboração da Resolução, é compreendido como a ética da vida (do grego bios- vida, e ethike- ética). Pode ser definida como o estudo sistemático da moralidade das tecno-ciências da vida e da saúde, examinadas a luz de princípios morais. É uma vertente importante no cenário das éticas aplicadas, oriunda de campo multidisciplinar, cujo diálogo visa o entendimento dos problemas morais na sociedade contemporânea. Envolve diferentes pontos de vistas de várias disciplinas, tais como a Filosofia, Teologia, Direito, Medicina, Psicologia, entre outras. (PALÁCIOS, MARTINS E PEGORARO, 2001, p. 32). A partir da Resolução 466/12, da versão anterior 196/96 e em consonância com outras cartas éticas, regulamentadas pelo mundo, como a Declaração de Helsinque (1975) e o Relatório de Belmont (1974), consolidou-se quatro princípios bioéticos, essenciais nos cuidados tomados ao se realizar pesquisas com seres humanos. São eles: autonomia, não maleficência, beneficência e justiça. O princípio bioético da Autonomia referenda-se ao direito de escolha livre e consciente de pesquisas. É necessário respeitar a vontade do sujeito, para que esse possa participar ativa e livremente da pesquisa. Segundo Kovacs (2003), o exercício de autonomia só se dá quando há compartilhamento de informações e conhecimentos de modo didático e compreensível ao sujeito, para que então, ele tome a melhor decisão. Nas pesquisas científicas alcança-se a autonomia, quando se oferece o termo de consentimento livre e esclarecido ao sujeito, em uma linguagem acessível, explicitando os direitos e deveres do participante. Assim como relatando de forma sucinta, os aspectos metodológicos e analíticos da pesquisa, para que se tenha conhecimento global do trabalho científico que poderá vir a participar. Segundo Kovacs (2003): “Quando se favorece a autonomia, ocorre uma relaçãosimétrica entre profissionais e pacientes, sendo que estes últimos participam de maneira ativa das decisões que envolvem seu tratamento, bem como sua interrupção.” ( Kovacs, 2003, p. 119) O valor da não maleficência diz respeito ao não fazer o mal ao sujeito da pesquisa, isso quer dizer, não ter nenhuma atitude interventiva, seja clínica ou dialógica, que coloque em risco a saúde biopsicossocial do individuo que participa do processo investigativo científico. Para ponderar esse aspecto, o pesquisador deve realizar uma reflexão criteriosa sobre os riscos envolvidos em sua pesquisa, e caso não seja possível evitá-los completamente, apresentar ao sujeito da pesquisa, possíveis suportes e amparos para lidar com qualquer mal estar, prejuízo suscitado pela pesquisa científica. O valor da Beneficência por sua vez diz respeito ao fazer o bem ao sujeito da pesquisa, o que significa promover ganhos com a atividade investigativa, seja no tratamento de uma doença, seja na testagem de medicamentos, ou então, num ganho psicossocial ao refletir conjuntamente com o pesquisador sobre um tema de relevância pessoal e social. Esse valor bioético é essencial numa relação simétrica entre pesquisador e participantes, pois sugere uma relação igualitária, sem uma postura de exploração utilitária que costumeiramente se tinha em pesquisas de campo, quando pesquisadores absorviam as informações que necessitavam dos sujeitos e não se responsabilizavam com os possíveis ganhos de quem participava da pesquisa. Com relação ao valor da equidade e/ou justiça social, há uma preocupação em promover o bem estar coletivo e a igualdade social com a pesquisa científica, universalizando o conhecimento desenvolvido e retroalimentando o serviço de saúde que usufrui das pesquisas para atender o grande público. A Psicologia Brasileira compreendeu que seria importante realizar uma aproximação com esses princípios, pois a Bioética estaria atravessando o campo de estudos psicológicos e sociais, como uma discussão sobre valores inerentes à vida e à saúde, extrapolando o cenário biomédico com o qual é associada. Essa aproximação encontra-se presente no Novo Código do Psicólogo em vários momentos, são eles: No princípio fundamental V, que versa principalmente sobre o valor da justiça social, ao afirmar que O psicólogo contribuirá para promover a universalização do acesso da população às informações, ao conhecimento da ciência psicológica, aos serviços e aos padrões éticos da profissão. Nos deveres fundamentais (art. 1º), nas alíneas: (c) ao reafirmar seu serviço em prol dos seus clientes com dignidade, ao prestar serviços psicológicos de qualidade, em condições de trabalho dignas e apropriadas à natureza desses serviços, utilizando princípios, conhecimentos e técnicas reconhecidamente fundamentados na ciência psicológica, na ética e na legislação profissional; (e) ao realizar a ponderação entre os riscos e benefícios do seu serviço, ao estabelecer acordos de prestação de serviços que respeitem os direitos do usuário ou beneficiário de serviços de Psicologia; (f) garantir o sigilo profissional como dever ético, ao fornecer, a quem de direito, na prestação de serviços psicológicos, informações concernentes ao trabalho a ser realizado e ao seu objetivo profissional; (g) ao realizar a devolutiva do seu serviço- informar, a quem de direito, os resultados decorrentes da prestação de serviços psicológicos, transmitindo somente o que for necessário para a tomada de decisões que afetem o usuário ou beneficiário. Essa aproximação encontra-se mais evidente no Novo Código do Psicólogo, em seu artigo 16, nas considerações sobre as diretrizes éticas expostas pela Resolução 466/12. Esse artigo possui quatro subitens (a, b,c,d) que versam sobre os cuidados (bio)éticos que o psicólogo deve tomar ao realizar estudos, pesquisas e atividades voltadas para a produção de conhecimento e desenvolvimento de tecnologias, tais como: avaliar os riscos envolvidos, garantir o caráter voluntário da participação dos sujeitos, assim como assegurar o anonimato das pessoas e o acesso das mesmas aos resultados das pesquisas. O artigo 16 é indicação explicita da preocupação da Psicologia com o respeito aos valores bioéticos numa Cultura de Direitos Humanos, seja com a relação dos psicólogos com seus clientes, ou enquanto sujeitos de pesquisa científica na área psicológica. Como se pode ver: Art. 16 - O psicólogo, na realização de estudos, pesquisas e atividades voltadas para a produção de conhecimento e desenvolvimento de tecnologias: a. Avaliará os riscos envolvidos, tanto pelos procedimentos, como pela divulgação dos resultados, com o objetivo de proteger as pessoas, grupos, organizações e comunidades envolvidas; b. Garantirá o caráter voluntário da participação dos envolvidos, mediante consentimento livre e esclarecido, salvo nas situações previstas em legislação específica e respeitando os princípios deste Código; c. Garantirá o anonimato das pessoas, grupos ou organizações, salvo interesse manifesto destes; d. Garantirá o acesso das pessoas, grupos ou organizações aos resultados das pesquisas ou estudos, após seu encerramento, sempre que assim o desejarem. ( Código de Etica da Psicologia, disponível http://site.cfp.org.br/wp- content/uploads/2012/07/codigo_etica.pdf, acesso novembro 2013) O Código de Ética do Psicólogo vai além da observância dos princípios elencados pela Bioética, ele exige reflexão contínua, o exercício crítico da profissão e uma atualização científica constante, evitando-se, assim, assumir posturas baseadas apenas na aceitação moral e passiva das regras. BIBLIOGRAFIAS BASICAS: MAIORINO, F. A intertextualidade ética para além do Código de Ética do Psicólogo. Texto mimeo, 2005. ROMARO, R. A. Ética na psicologia. SP: Ed. Vozes, 2006. Bibliografias Complementares DINIZ e GUILHEM. O que é ética em pesquisa. SP: Ed Brasiliense, Coleção Primeiros Passos, 2008. PALÁCIOS, MARTINS e PEGORARO. Ética, ciência e saúde: desafios da Bioética. SP: Ed Vozes, 2001. KOVACS, Maria Julia. Bioética nas questões da vida e da morte. Psicol. USP [online]. 2003, vol.14, n.2, pp. 115-167. Disponível <http://www.scielo.br/pdf/pusp/v14n2/a08v14n2.pdf>, acesso nov/2013. VALLS, A. Repensando a vida e a morte do ponto de vista filosófico. Disponível < http://www.bioetica.ufrgs.br/morteamv.htm>, acesso em dezembro de 2013. http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2012/07/codigo_etica.pdf http://www.scielo.br/pdf/pusp/v14n2/a08v14n2.pdf http://www.bioetica.ufrgs.br/morteamv.htm Uma Reflexão Inquietante: As resoluções bioéticas 196/96 e 466/12 foram construídas pelas inquietações da área biomédica em consonância com preocupações sociais da contemporaneidade. Porém, as ciências humanas tem se mobilizado a rever essas resoluções, pois afirmam possuir paradigmas divergentes do modelo tradicional da área da saúde. Nessa contestação, há de se repensar o uso do termo de consentimento como um instrumento inicial de aprovação da pesquisa, para um modelo dialógico e processual, entre outros aspectos. Será que as ciências humanas de fato, precisam reconstruir uma resolução ética específica para sua pertinência epistêmica e teórica? Sugestão hipermidiática: Visite o site sobre BIOÉTICA no link http://www.bioetica.ufrgs.br/ e conheça as áreas temáticas apresentadas no site, tais como Conceitos Fundamentais em Bioética, Comitê de Ética em Pesquisas, etc. Atividades Práticas: I) Leia o texto do professor Álvaro Valls sobre a temática vida e morte no seu artigo Repensando a vida e a morte do ponto de vista filosófico e organize um quadro com as principais definições de vida e morte nas diversas visões filosóficas (Fonte Bibliográfica: Valls, A. Repensando a vida e a morte do ponto de vista filosófico. Disponível em http://www.bioetica.ufrgs.br/morteamv.htm, acesso em dezembro de 2010) II) Imprima a Resolução Ética 466/12 e grife os quatro princípios bioéticosapresentados no documento. Depois arquive-a junto aos outros documentos já citados na disciplina, em sua pasta. Link Conselho Nacional de Saúde, disponível <http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf>, acesso nov/2013. III) Leia o Código de Ética do Psicólogo( 2005) e grife os artigos e alíneas que possuem consonância com os princípios bioéticos apresentados. Exercício comentado: A resolução 196/96 do Conselho Nacional de Saúde (CNS) regulamenta os aspectos éticos das pesquisas com seres humanos. Assinale a alternativa correta: Sua principal importância reside no fato de: A) Proporcionar uma tabela de indenizações para as vítimas de maus tratos em experimentos. B) Regulamentar o patrocínio de instituições privadas, tais como laboratórios farmacêuticos, garantindo-lhes a oportunidade de financiarem pesquisas. C) Dar autonomia total para as instituições de pesquisas. http://www.bioetica.ufrgs.br/ http://www.bioetica.ufrgs.br/morteamv.htm http://conselho.saude.gov.br/resolucoes/2012/Reso466.pdf D) Garantir a liberdade do individuo que participa da pesquisa, evitando procedimentos invasivos. E) Regulamentar o pagamento de sujeitos que participam de pesquisas e devem receber dinheiro para isto. Comentários do exercício: o aluno deve conhecer a Resolução 196/96, que promulga os princípios bioéticos em pesquisas que envolvam seres humanos, um dos princípios básicos prescritos pela resolução é chamado de autonomia, que garante o acesso do individuo a informações esclarecedoras sobre a pesquisa em que esteja sendo convidado a participar para então , de livre consentimento, aceitar ou não participar do processo investigativo, diante isso, o aluno deve assinalar o item d, que apresenta essa idéia essencial à visão bioética.