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POLÍTICAS PÚBLICAS E SOCIAIS Prof. Dr. Éder Rodrigo Gimenes Diretor Geral Gilmar de Oliveira Diretor de Ensino e Pós-graduação Daniel de Lima Diretor Administrativo Eduardo Santini Coordenador NEAD - Núcleo de Educação a Distância Jorge Van Dal Coordenador do Núcleo de Pesquisa Victor Biazon Secretário Acadêmico Tiago Pereira da Silva Projeto Gráfico e Editoração Douglas Crivelli Revisão Textual Leandro Vieira Web Designer Thiago Azenha FATECIE Unidade 1 Rua Getúlio Vargas, 333, Centro, Paranavaí-PR (44) 3045 9898 FATECIE Unidade 2 Rua Candido Berthier Fortes, 2177, Centro Paranavaí-PR (44) 3045 9898 FATECIE Unidade 3 Rua Pernambuco, 1.169, Centro, Paranavaí-PR (44) 3045 9898 FATECIE Unidade 4 BR-376 , km 102, Saída para Nova Londrina Paranavaí-PR (44) 3045 9898 www.fatecie.edu.br FICHA CATALOGRÁFICA FACULDADE DE TECNOLOGIA E CIÊNCIAS DO NORTE DO PARANÁ. Políticas Públicas e Sociais Éder Rodrigo Gimenes Paranavaí - PR.: Fatecie, 2018. 81 p. Ficha catalográfica elaborada pela bibliotecária Zineide Pereira da Silva. As imagens utilizadas neste livro foram obtidas a partir do site ShutterStock PALAVRA DA DIREÇÃO Prezado Acadêmico (a), É com muita satisfação que inauguramos um novo mundo de oportunidades e expansão de nossa instituição, que estrapolam os limites físicos e permite por meio da tecnolgias digitais que o processo ensino educação ocorra de formas ainda mais dinâmicas e em consonância com o estilo de vida da sociedade contemporânea. Empregamos agora no Ensino a Distância toda a dedicação e recursos para oferecer a você a mesma qualidade e excelência que virou a marca de nosso grupo educanional ao longo de nossa história. Queremos lembrar a você querido aluno (a), que a Faculdade Fatecie nasceu do sonho de um grupo de professores em contribuir com a sociedade por meio da educação. Motivados pelo desafio de empreender, tornaram o sonho realidade com a autorização da faculdade fatecie no ano de 2007. Desde o princípio a fatecie parte da crença no sonho coletivo de construção de uma sociedade mais democrática e com oportunidades para todos, onde a educação prepara para a cidadania de qualidade. Toda dedicação que a comunidade acadêmica teve ao longo de nossa história foi reconhecido ao conquistarmos por duas vezes consecutivas o título de Faculdade Número 1 do Paraná. Um feito inédito para paranavaí e toda região noroeste. No ranking, divulgado pelo mec em 2014 e 2015, a Fatecie foi destaque como a faculdade melhor avaliada em todo o estado. Posição veiculada em nível nacional pela Revista Exame e Folha de São paulo, apontando a Fatecie como a 1ª colocada no Paraná. Essas e outras conquistas que obtivemos ao longo dos nossos 10 anos de história tem como base a proposta global da faculdade fatecie, que consiste em criar um ambiente voltado para uma abordagem multidisciplinar, crítica e reflexiva, onde se desenvolvem as atividades ensino, pesquisa e extensão. Para isso, a Fatecie conta com um corpo docente composto, em sua maioria, por professores com mestrado e doutorado e com ampla experiência profissional nas mais diversas áreas do mercado e da educação. Seja bem-vindo! Direção Faculdade Fatecie A U T O R Prof. Dr. Éder Rodrigo Gimenes Doutor em Sociologia Política pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), com Mestrado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Maringá (UEM). Segundo Lí- der do grupo de pesquisa “Cultura Política, Comportamento e Democracia” (UEM/CNPq), pesquisador do “Núcleo de Pes- quisas em Participação Política” (NUPPOL - UEM). Professor permanente do Programa de Pós-Graduação em Ciências So- ciais e colaborador do Programa de Pós-Graduação em Políti- cas Públicas da UEM, docente dos cursos de Gestão Pública e de Gestão das Organizações do Terceiro Setor no Centro Uni- versitário de Maringá (UniCesumar). Autor de artigos publica- dos em periódicos nacionais e internacionais, de capítulos de livros, da obra “Eleitores e partidos políticos na América Latina” e organizador das coletâneas “Participação política e democra- cia no Brasil contemporâneo”, “Comportamento político e opi- nião pública: estudos sobre Brasil e América Latina” e “Poder legislativo e cultura política: valores, atitudes, trajetória e com- portamento político dos vereadores e vereadoras do Estado de Santa Catarina”. Coordenador do projeto de pesquisa “Ações coletivas, participação institucional e políticas públicas: rela- ções entre Estado e sociedade civil nos municípios brasileiros”. APRESENTAÇÃO O que são políticas públicas? Como são formuladas e implementadas? Quais os papeis dos nossos representantes, dos gestores públicos e da popu- lação nesses processos? E qual a relação entre voto, participação, políticas públicas e democracia? São muitas perguntas, as quais parecem requerer distintas respostas, mas nesta disciplina de Políticas Públicas e Sociais, percorreremos juntos o caminho que nos levará a conhecer de maneira mais específica os aspectos que permeiam cada uma das temáticas acima mencionadas, tendo o intuito de que, ao fim desta jornada, cada aluno seja capaz de responder às perguntas aqui apresentadas. Nesse sentido, esta disciplina tem como objetivo tratar de maneira ampla sobre as políticas públicas, de modo que as quatro unidades didáticas e o estudo de caso conformam a construção do conhecimento sobre o tema, complementan- do-se de maneira dialógica. Na primeira unidade, discutiremos acerca dos conceitos de Estado e governo, que, não raras vezes, tanto a população em geral quanto indivíduos ligados à gestão pública entendem como sinônimos. Por meio de distinções terminoló- gicas e de suas caracterizações, oferecemos a possibilidade de interpretação do que, de fato, constituem Estado e governo. Para contribuir com tal definição teórica, apresentamos também aspectos que conformam o Estado e o governo no Brasil atualmente. A segunda unidade de estudos, versa sobre as políticas publicas, partindo da noção de democracia e de sua relação com o tema da unidade e em diálogo com o conteúdo da unidade de estudos anterior. Nesse sentido, discorreremos sobre os conceitos e a tipologia de políticas públicas, bem como sobre a con-tribuição de entes privados à sua consecução por conta da responsabilidade social empresarial. Já a terceira unidade, aprofunda o conhecimento ao abordar dois expressivos aspectos teóricos sobre o tema desta disciplina, quais sejam: as distinções que configuram as políticas de Estado e as políticas de governo e as etapas que compõem o ciclo de realização de uma política pública. Ademais, complementamos esta unidade com uma análise empírica exemplificativa da etapa mais relevante do ciclo de políticas públicas e sua avaliação. Por im, em nossa quarta unidade, aprenderemos sobre o contexto em que as políticas públicas são conformadas no Brasil, tendo como ponto de partida o processo de redemocratização e o texto constitucional em vigor desde 1988. Em seguida, avançaremos para caracterizarmos a participação social no Brasil, discutindo, em seções distintas, as ações coletivas e as instituições participa- tivas. Tais conteúdos nos permitirão conhecer com maior detalhamento o im- pacto e o papel de organizações da sociedade civil, do associativismo, dos mo- vimentos, dos conselhos e conferências de políticas públicas, das audiências públicas e orçamentos participativos à construção de políticas. Diante de tais conteúdos, esperamos que as perguntas expostas nesta apre- sentação serão respondidas ao longo das unidades de estudos, e minha expectativa é que percorramos juntos o caminho de construção do co- nhecimento sobre a temática das políticas públicas e sociais. Esse caminho é, ainda que figurativamente, como uma viagem. Embarquemos juntos, então, neste estudo! SUMÁRIO CAPÍTULO 1 08 | Estado e Governo CAPÍTULO 2 23 | Políticas Públicas CAPÍTULO 3 39 | Ciclo de Políticas Públicas CAPÍTULO 4 59 | Instituições Participativase Políticas Públicas PÁGINA 8 CAPÍTULO 1 ESTADO E GOVERNO Prof. Dr. Éder Rodrigo Gimenes Objetivos de Aprendizagem: • Conceituar o Estado em suas interpretações clássicas relacionadas ao poder e ao contratualismo; • Abordar aspectos conceituais acerca do governo e suas diferentes for- mas, sistemas e regimes; • Abordar aspectos contemporâneos da conformação do Estado e do go- verno no Brasil. Plano de Estudo: • O Estado • O governo • Estado e governo no Brasil PÁGINA 9 INTRODUÇÃO Como definir Estado e governo? Se há distinções entre os termos, quais são? Essas questões são exploradas nesta primeira unidade de estudos, na qual abordaremos teorias e aspectos normativos que tratam do surgimento do Esta- do, dos elementos constitutivos, governos e de como esses dois conceitos se apresentam no Brasil hoje. Para tanto, iniciaremos esta discussão refletindo sobre a importância e a neces- sidade de compreender autores que elaboraram teorias e análises em períodos distintos do nosso, os quais são considerados clássicos. O que são clássicos e por que ler esses autores e textos? Esta é uma pergunta de resposta simples, mas que merece atenção: os clássicos são autores que produziram teorias explicativas ao período em que viveram de maneira autêntica e que servem como modelo para reflexão da realidade até hoje. Segundo Bobbio (2000), clássicos são autores que produziram teorias que permanecem atuais, de modo que a necessidade de releitura sempre se torna aparente e, ao reler, reinterpretar, ou seja, mais importante do que ler um clássico considerando-o como registro histórico, é lê-lo sob a perspectiva de que é possível a reflexão acerca de temas e objetos para análises, pesquisas, hipóteses e investigações. É esta a posição contemplada na disciplina de Políticas Públicas e Sociais, de modo geral, e nesta unidade, em específico, no qual apresentamos as bases políticas, filosóficas e históricas da constituição dos Estados nacionais e dos governos, com ênfase específica no caso brasileiro na última seção de estudos. Desta maneira, esta unidade de estudos corresponde à base para a discussão sobre as relações entre Estado, governo e políticas públicas, com planos a entender tal relacionamento no Brasil. Bons estudos! PÁGINA 10 1 O ESTADO Diversos autores apresentam conceitos de Estado, desde aqueles mais sim- ples ou sintéticos até outros mais complexos e detalhados. Segundo Azambuja (2005), é difícil estabelecer uma definição única por conta da complexidade que o Estado assume enquanto fato social. Ainda assim, o referido autor apresenta seu conceito (ou sua visão) sobre o Es- tado como uma organização político-jurídica, com governo e territórios próprios, que visa ao bem público. Segundo Azambuja (2005), para que tal objetivo se cumpra, a necessidade de hierarquização entre governantes e governados se impõe. As discussões acerca do conceito de Estado decorrem desde muito antes da Era Moderna, como pontuam Montaño e Duriguetto (2011, p. 19): O Estado, e as análises sobre ele, não tem origem na era moderna. Efetivamente, desde a antiga Grécia existem pre- ocupações e estudos sobre o Estado e os governos, e suas relações entre si e com o povo. A vida na pólis grega, as- sim como na res publica romana, despertaram o interesse e a reflexão de filósofos e autoridades políticas. Em idêntico sentido, a pulverização das cidades-Estado na Itália tam- bém determinou a preocupação com a unificação delas. No que tange à unificação da Itália, tal debate está presente em O Príncipe (1512), de Nicolau Maquiavel, considerado um pai da Filosofia Política Moderna e um dos mais importantes fundadores da Ciência Política. PÁGINA 11 SAIBA MAIS Secretário diplomático da República de Florença no início do século XVI, Ma- quiavel dedicou suas obras à questão do Estado real, capaz de impor a ordem. Na referida obra, o autor expôs argumentos que podem ser sintetizados na im- portância da manutenção do poder como chave explicativa para a política, ou seja, a ação política do governante deveria ter como objetivo a manutenção de sua condição/posição de poder. O autor refletiu sobre como seria mais importante escrever acerca da verdade efetiva dos fatos, ao invés de suas aparências ou de pensar sobre o “dever ser” (posição filosófica). Para ele, o mundo não deveria ser pensado como lugar ideal, mas caberia ao homem buscar a verdade real, a fim de ser possível transformar a realidade. No caso do príncipe, essa busca seria pautada pelo co- nhecimento do uso do poder e de como mantê-lo, para o que precisaria aprender a utilizar os recursos disponíveis para a satisfação de seus interesses e neces- sidades. Essa sabedoria era o que Maquiavel pretendia expor ao Príncipe, por meio de seus conselhos e regras. Segundo o autor, o Príncipe precisaria de virtù e fortuna. A virtù correspon- deria ao poder, à glória e à honra pelas quais o homem deveria lutar, e não se referia exatamente à força bruta e violência, mas à sabedoria para o uso da força e a tornar público aos súditos sua capacidade de manter seus domí- nios e, se não pudesse ser amado, ser ao menos respeitado ou temido pelos cidadãos. Por outro lado, a fortuna estaria relacionada à visão que o Príncipe deveria transmitir aos seus súditos, de homem viril e corajoso. Nesses termos, a aparência era mais importante do que o ser. Em resumo: o Príncipe deveria governar com violência e astúcia. Dentre os conselhos ao Príncipe, Maquiavel pontuou situações que ilustram a importância da manutenção do poder, como o cuidado que o soberano deveria ter em parecer bom, mesmo que não o fosse, e a preocupação em demonstrar à sociedade que seu objetivo seria realizar a justiça e promover o bem comum, ainda que sua atuação efetiva se desse com vistas à conservação de seu status quo. Nos séculos posteriores a Maquiavel e à sua noção de Estado, temos muitos autores que, especialmente ao longo dos séculos XVI e XVIII, contribuíram ao desenvolvimento da Teoria Política e seguem relevantes até os dias atuais, seja por inovações conceituais ou pela atualidade das temáticas abordadas. Dentre as discussões desses pensadores, destaca-se o debate em torno da formação do Estado Moderno sob a perspectiva dos contratualistas. PÁGINA 12 A partir de distintas perspectivas acerca de como os homens se comportariam em seu estado de natureza (condição abstrata da humanidade, antes da introdu- ção de estruturas e normas sociais), Thomas Hobbes, John Locke e Jean-Jac- ques Rousseau discorreram acerca do estabelecimento de um contrato entre os indivíduos para a vida em coletividade, o que teria originado o Estado. Para Thomas Hobbes, em seu estado de natureza, os homens seriam agentes racionais que buscariam a maximização de seu poder e agiriam conforme seus interesses próprios, numa condição de guerra contra todos, pelo fato de sua obra “Leviatã” (1651) argumentar em favor do Estado como autoridade real. Para o autor, o estado de natureza seria comparável à guerra e só poderia ser evitado, caso todos os indivíduos entregassem suas armas a um terceiro – o soberano –por meio de um contrato social que garantisse que todos os demais também o fizessem. O que levaria os indivíduos racionais a entregarem sua liberdade ao soberano, seria o fato de que a vida no estado de natureza implicaria em preocupação constante com a própria sobrevivência, pois em um contexto em que todos os atos são justificáveis, não havia direitos que protegessem os indivíduos. Nesse sentido, o contrato social, que concederia autoridade indivisível ao soberano, seria um mal necessário para evitar o destino cruel dos homens diante da não contenção de seus impulsos destrutivos. Contudo, cabe destacar que o contrato social seria estabelecido entre os indivíduos, sendo o soberano um ente externo à parte do contrato. John Locke viveu ao longo do século XVII e foi contemporâneo de Hobbes du- rante partes de suas vidas. Locke destacou-se como o primeiro pensadora ar- ticular os princípios liberais de governo, quais sejam: preservação dos direitos à liberdade, vida e propriedade, busca pelo bem público e a punição aos que violassem os direitos do homem. Em sua obra “Dois tratados sobre o Governo civil” (publicada originalmente após 1689), o autor afirmou que os indivíduos aceitariam o contrato social e se submeteriam a um governo por esperar que ele regulasse acordos e conflitos com neutralidade. O autor entendia que, no estado de natureza, os indivíduos conviveriam em relativa harmonia por boa parte do tempo, agindo com razão e tolerância, de modo que os conflitos não seriam necessariamente comuns. Entretanto, com o aumento da densidade populacional, a escassez de recursos e o surgimento do dinheiro, teriam surgido desigualdades econômicas, que levaram a mais conflitos, o que gerou a dependência, pelas sociedades de leis e juízes. O terceiro autor contratualista é Jean-Jacques Rousseau nascido na Suíça no século XVIII, cuja teoria era de que a política deveria ser exercida pelo povo, de forma soberana. Sua argumentação sobre a formação do Estado encontra-se em duas obras. Em “Discurso sobre a origem e os fundamentos da desigualdade entre os homens” (1755), o autor desenvolveu uma história hipotética da huma- nidade, na qual afirmou que a trajetória dos homens ao longo dos séculos sofreu uma alteração em sua condição de liberdade quando do surgimento da proprie- PÁGINA 13 REFLITA dade privada, de modo que a história da humanidade seria de desigualdade e se iniciou quando os demais membros de uma sociedade legitimaram a afirmação daquele que chamou um pedaço de terra de seu. A partir dessa história hipotética, Rousseau discutiu em “Do contrato social” (1762) sobre as condições para que fosse estabelecido um pacto legítimo, no qual os homens, após terem perdido sua liberdade natural, tivessem garantida suas liberdades civis, o que decorreria da existência de igualdade entre os indivíduos. Nesse contexto, o Estado seria responsável por determinar o funcionamento da política e se constituiria como o conjunto de indivíduos responsável pela elaboração de leis e cumpridores delas, o que significa que a liberdade do povo estaria relacionada à sua obediência às normas por cada cidadão, parte integrante do poder soberano. Isso significaria que o corpo administrativo do Estado seria subordinado ao soberano (povo). Para Rousseau, a partir do momento em que uma sociedade elegesse represen- tantes, a liberdade findaria, pois a vontade geral não se manifestaria por meio da vontade dos representantes. PÁGINA 14 2 O GOVERNO Segundo o verbete apresentado por Levi (2010, p. 553) no “Dicionário de Políti- ca”, considerando uma conceituação de linguagem corrente, [...] pode-se definir Governo como o conjunto de pessoas que exercem o poder político e que determinam a orienta- ção política de uma determinada sociedade. É preciso, po- rém, acrescentar que o poder de Governo, sendo habitual- mente institucionalizado, sobretudo na sociedade moderna, está normalmente associado à noção de Estado. Nesse sentido, caberia as definições de dois conjuntos de atores sociais rele- vantes: os governantes, aqueles que regem o funcionamento do Estado, e os governados, sujeitos ao poder instituído. Contudo, o mesmo autor destaca haver uma segunda concepção, mais próxima à realidade dos Estados modernos, a qual considera como governo não apenas o conjunto de atores que detêm o po- der de dirigir o Estado, mas também o complexo de órgãos institucionais onde o poder se desenvolve. Em se tratando de sua origem, Levi (2010, p. 553-554) afirma que a necessi- dade de governos é anterior ao surgimento dos Estados, ainda que os primei- ros governos assumissem formas rudimentares e o funcionamento do governo pode ocorrer de maneira mais ou menos autônoma com relação aos indivíduos, os governados. Em outras palavras, significa que, conforme sua estrutura, um governo pode buscar aproximação ou distanciamento com relação à população, bem como atender ou ignorar suas necessidades e demandas, ou mesmo permitir ou negar a possibilidade de manifestação e participação política e social. Conforme compõem sua estrutura, é possível definir a origem da força de um governo (e, por conseguinte, de um Estado): o consenso e apoio popular, ou a imposição e a coerção sobre a população. Diante do exposto, um governo é resultado da soma de, ao menos, três aspectos relevantes: a forma por meio da qual o governo é instituído, o sistema de funcio- namento desse governo e as instituições que compõem sua estrutura e que, em consequência, definem o regime político em vigor. As formas de governo tratam dos modelos institucionais por meio dos quais uma sociedade é administrada, o que implica afirmar que corresponde, então, à ma- neira como é exercida a função de chefia de Estado. Nesses termos, são dois os principais modelos de formas de governo nas sociedades contemporâneas: a república diz respeito ao governo em que o posto de chefe de Estado pode ser ocupado por um indivíduo ou por um conjunto, desde que eleito (s) pelo povo, seja de maneira direta (eleições com votos individuais) ou indireta PÁGINA 15 (em assembleias primárias ou representativas), para administrar bens de interesse público com vistas ao bem-estar da população (MATTEUCCI, 2010); e a monarquia, cujo chefe de Estado é um monarca, imperador ou rei, o qual goza de poderes absolutos e exerce seu cargo de maneira vitalícia até sua morte ou abdicação, com seu sucessor descendente de sua linhagem familiar direta por hereditariedade, sem realização de eleições para chefe de Estado (FARIA, 2017). Em se tratando dos sistemas de governo, estes dizem respeito às maneiras como o poder político é exercido no âmbito de um Estado, ou seja, como os governos se organizam, de modo que pode haver dois tipos de sistemas: o par- lamentarismo, é o sistema de governo no qual há distribuição de poder entre Executivo e Legislativo, cabendo ao segundo proporcionar a sustentação política do governo, seja de maneira direta ou indireta, e onde, enquanto o chefe de Es- tado representa a sociedade. O Legislativo é composto por membros vencedores das eleições e, portanto, representantes do povo, sendo o primeiro ministro eleito entre os eleitos, pelo partido que obteve o maior número de assentos; e o presidencialismo, cuja figura central é o presidente, que concentra os cargos de chefe de Estado e chefe de governo no comando do Poder Executivo, e demais Poderes – Legislativo e Judiciário – atuam de maneira independente do primeiro (FARIA, 2017). Por fim, com relação aos regimes políticos, que se caracterizam pelo conjunto de leis e instituições que conformam a organização dos Estados e a maneira como ocorre o exercício do poder para com os cidadãos, ou seja, os regimes políticos determinam a relação entre governantes e governados e as maneiras como as formas e os sistemas de governo operam, uma vez que definem aspectos como, a centralização ou distribuição do poder, a repressão ou ampliação de liberdades individuais e políticas, a política interventora ou liberal do Estado na economia e a composição do arcabouço jurídico. É possível inferir que diferentes tipos de regimes políticos emergiram ao longo dos séculos, destacando-se na História a existência de Estados: absolutistas, pautados pela concentração do poder na figura do Rei e pela utilização de meios repressivos e violentos contra os cidadãos, que contrariassem ou con- testassem as leis; autoritários, caracterizados pela concentração do poder nas mãos de um pequeno grupo de indivíduos não eleitos, os quais agem de maneira dominadora para manter sua condição por meio da imposição da obediência da população às leis e da apatia e despolitização dos cidadãos; totalitários, pau- tados pela concentração do poder em um indivíduo que controla o Estado de maneira rígida e submete os cidadãos à condição de subordinação total, quando seobserva a existência de uma ideologia oficial imposta à população e torna- se coletiva, bem como a repressão a organizações políticas e a persistência de partido único; ditatoriais, com concentração do poder em um indivíduo ou PÁGINA 16 grupo político, com consequente desconsideração da existência de divisão dos poderes e forte opressão a qualquer tipo de manifestação política contrária aos seus interesses, além da manutenção da ordem ocorrer pelo controle das Forças Armadas e os direitos civis e políticos dos indivíduos serem suprimidos; e demo- cráticos, que se constitui em um regime político no qual a soberania é exercida pela população, que elege representantes por meio de eleições. 3 ESTADO E GOVERNO NO BRASIL O Estado federativo brasileiro se caracteriza pelo exercício de competência de cada nível da federação com corpo administrativo próprio, sendo que as uni- dades federativas têm representação paritária em uma das casas legislativas ( Senado) e representação proporcional (respeitando limites mínimo e máxi- mo de representantes) em outra casa legislativa (a Câmara dos Deputados) do Congresso Nacional e deve ser respeitada a tripartição dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário (RABAT, 2002). Nesse sentido, o Estado federativo é pautado pela pactuação entre entes fe- derados, que se submetem a regras majoritárias a um Legislativo comum e a Poderes Executivo e Judiciário federais. De acordo com Höffe (2005), o pacto federativo consiste na união de entes federados que, dotados de autonomia, submetem-se ao poder central e soberano. Conforme Arretche (2002), o federalismo implica em reciprocidade e cooperação entre o governo central e os governos subnacionais, a fim de manter o equilíbrio determinado no texto constitucional com relação às suas autonomias administrativas, políticas, tributárias e financeiras. Cabe destacar que as unidades da federação gozam de autonomia, mas não dispõem de soberania e representação na ordem internacional, sendo de responsabilidade da União (o Estado federativo) representar o conjunto de entes. Em se tratando especificamente da Constituição de 1988, esta oferece garantias institucionais à manutenção do pacto federativo e, segundo Biondini (2007), um dos destaques na Carta Magna, com relação ao federalismo, foi a determinação dos municípios como entes federados, o que culminou na defi- nição de normas para repartição de receitas tributárias e contribuiu para a ex- pansão da capacidade tributária dos entes federados. Dentre outros aspectos, a distribuição de recursos tributários de maneira a contemplar especialmente municípios de regiões menos desenvolvidas, foi responsável pelo surgimento de um grande número de pequenas municipalidades. O desenvolvimento do Estado federativo brasileiro é perpassado por um conjun- to de aspectos de naturezas social, econômica, jurídica, política e cultural, dentre as quais destaca-se o funcionamento do governo nacional. PÁGINA 17 SAIBA MAIS Com relação à forma e ao sistema de governo brasileiros, verificamos a estabili- dade das características desde 1889, quando a monarquia foi substituída como forma de governo por ocasião da proclamação da república, o que ocorreu em paralelo à alteração do sistema de governo parlamentarista pelo presidencialis- mo, que persiste até os dias atuais. Em 1993, foi realizado um plebiscito referente à forma e ao sistema de governo, quando a república venceu a monarquia com cerca de 87% dos votos válidos e o presidencialismo superou o parlamentarismo com aproximadamente 69% dos votos válidos. Enquanto forma e sistema de governo gozam de certa estabilidade no governo brasileiro, o regime político foi alterado diversas vezes desde a independência em 1822, em termos absolutistas, totalitários, autoritários e de- mocráticos. Atualmente, a configuração do regime político nacional é de demo- cracia semidireta, de modo que a democracia brasileira é considerada como modelo de participação reconhecida em todo o mundo, especialmente por conta do desenvolvimento de mecanismos de engajamento políticos dos indivíduos nas discussões sobre recursos e políticas públicas, o que retomaremos nas pró- ximas unidades de estudos. Neste momento, cabe destacar alguns aspectos de nosso regime democrático, com destaque à pluralidade partidária, que permite, por um lado, a ampla ofer- ta de propostas e interesses em disputa, mas implica, por outro lado, em difi- culdade de parcela significativa do eleitorado em diferenciar partidos (BORBA; GIMENES; RIBEIRO, 2015) e estabelecer vínculos com eles (GIMENES, 2015), especialmente em contextos de conformações de governos de coalizão, onde muitos partidos participam do governo (LIMONGI, 2006). Ademais, ressalte-se que nosso sistema eleitoral tem distintas regras para os muitos cargos em disputa (vereador, prefeito, deputado estadual, deputado fe- deral, governador, senador e presidente) e uma regra de cotas míninas para candidaturas que suscita muitas discussões referentes ao seu efeito sobre a conformação dos legislativos (AYRES; OLIVEIRA; GIMENES, 2017). Contudo, finalizamos esta unidade destacando um aspecto de extrema impor- tância: para além do sufrágio universal, dispomos de múltiplas possibilidades de espaços de participação individual, coletiva e institucional, por meio dos quais a população pode se pronunciar e organizar para encaminhar demandas, comu- nicar interesses e articular seu engajamento à construção de políticas públicas. PÁGINA 18 CONSIDERAÇÕES FINAIS Chegamos ao fim desta primeira unidade de estudos, na qual abordamos inicial- mente distintas concepções sobre o surgimento do Estado, com a finalidade de destacar dois elementos que permanecem relevantes à organização dos Esta- dos nacionais na contemporaneidade: o poder e o pacto social (contrato). Sobre tais elementos, é relevante destacar que há um ponto que reúne esses autores clássicos e suas teorias, uma vez que Maquiavel, Hobbes, Locke e Rou- sseau têm em comum um aspecto central: o Estado como construção humana. Na sequência, destacamos o conceito de governo e seus principais aspectos– formas, sistemas e regimes – com a finalidade de possibilitar a interpretação de que governos são elementos constitutivos do Estado, daí a diferença entre ambos. Ademais, a seção sobre o tema buscou evidenciar como são possíveis múltiplos arranjos de governos, diante da combinação dos elementos acima menciona- dos, de modo que é preciso atenção ao compararmos resultados de Estados nacionais com relação a políticas públicas e outros aspectos políticos, por conta das configurações dos governos de cada Estado. Finalizamos esta unidade de estudos conhecendo aspectos relevantes da conformação contemporânea do Estado e do governo brasileiro, cujo intuito foi de apresentar um patamar, ainda que breve e exploratório, sobre as maneiras como o Estado, o poder, a pactuação social, a forma e o sistema de governo, encontram-se atrelados na atual configuração de nosso regime democrático, sobre o qual trataremos com maior detalhamento – tanto teórico quanto empírico com relação ao Brasil - em nossas próximas unidades de estudos, tendo em vista avançarmos nas discussões que nos permitam compreender de maneira mais aprofundada as relações entre Estado, governo e políticas públicas na realidade brasileira do século XXI. PÁGINA 19 MATERIAL COMPLEMENTAR FILME LIVRO Título: Teoria Política Moderna: uma introdução Autor: Isabel de Assis Ribeiro de Oliveira Editora: Universidade Federal do Rio de Janeiro Sinopse: nesse livro, a autora apresenta sua leitura de clássicos da teoria política moderna, com o objetivo de introduzir o estudante universitário - mas não só ele - numa vertente importante de nossa cultura. Os autores aqui considerados, contribuíram de forma decisiva para a constituição da ordem própria à modernidade, sob a qual ainda vivemos. É nesse campo de ideias que fo- ram concebidas, dentre outras, as figuras do cidadão e seusdireitos, das instituições governamentais de cunho representativo e princípios de legitimação do poder, que caracterizam os sistemas políticos da modernidade. É também nele que a luta política se delineia como legítima forma de renovação social. Este livro oferece um primeiro tratamento do tema e incentiva, no leitor, o desejo de aprofundar a pesquisa. Título: Cruzada Ano: 2005 Sinopse: ainda em luto pela repentina morte de sua esposa, o ferreiro Balian junta-se ao seu distante pai, Baron Godfrey, nas cruzadas a caminho de Jerusalém. Após uma jornada muito difícil até à cidade santa, o jo- vem valente entra no séquito do rei leproso Balduíno IV, que deseja lutar contra os muçulmanos para seu próprio ganho político e pessoal. PÁGINA 20 NA WEB Apresentação: Na Biblioteca Digital Mundial há uma linha cronológica com fatos históricos, políticos, religiosos, filosóficos, artísticos, científicos, tecnológicos e econômicos da humanidade desde 8.000 anos antes de Cristo. Disponível em: <https://www.wdl.org/pt/>. PÁGINA 21 REFERÊNCIAS ARRETCHE, M. Relações federativas nas políticas sociais. Educação & Socie- dade, Campinas, v. 23, n. 80, set. 2002. p. 25-48. AYRES, C. S. L. S. S., OLIVEIRA, R. A.; GIMENES, É. R. O Legislativo municipal catarinense sob a perspectiva de gênero: origem, trajetória e adesão à democra- cia. 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Enquanto a primeira tem caráter universal às populações e remete, por exemplo, às definições sobre ações financeiras por parte dos governos, a segunda remete a coletividades específicas, que devem ser atendidas em suas demandas também distintas. Neste material didático, adotamos a perspectiva de discussão das políticas públicas sociais, que também podem ser denominadas de políticas sociais. Para tanto, a primeira seção desta unidade trata do conteúdo do regime demo- crático, em diálogo com o exposto na unidade anterior e avança ao expor dois elementos importantes à reflexão sobre políticas públicas em democracias: os partidos políticos como mediadores do voto e da representação, e a congruência enquanto possibilidade de mensuração da qualidade da representação. Na segunda seção, são apresentados os conceitos de políticas públicas, bem como discutida a dificuldade em estabelecer uma definição única ao termo. Além disso, expomos uma proposta de tipologia às muitas possibilidades de conformação de políticas públicas. Por fim, nossa terceira seção tratamos da discussão contemporânea acerca do papel compartilhado pelo poder público (primeiro setor da economia) com empresas privadas (segundo setor) e organizações da sociedade civil (terceiro setor) para a consecução dessas políticas. Tal contextualização é salutar ao avanço de nosso estudo, cujos próximos passos dependerão da compreensão do conteúdo tanto desta unidade, quanto de nossa primeira unidade de estudos. Boa reflexão! PÁGINA 25 1 DEMOCRACIA E POLÍTICAS PÚBLICAS Um governo democrático seria aquele responsivo aos cidadãos, ou seja, que oferece respostas às necessidades e demandas dos cidadãos, os quais devem ter oportunidades de formular e expressar suas preferências, de maneira individual e coletiva, bem como de ter tais preferências consideradas pelo governo, quando da elaboração de ações e gestão da máquina pública (DAHL, 1997). Bobbio (1998, p. 326) corrobora a concepção do autor anteriormente mencionado, ao postular a democracia como “um método ou um conjunto de regras de procedimento para a constituição de governo e para a formação das decisões políticas (ou seja, das decisões que abrangem toda a comunidade) mais do que de uma determinada ideologia”. Nesses termos, outra distinção fundamental desse regime é a proteção e garantia de direitos humanos e sociais, de liberdades individuais de expressão e manifestação e de participação social, política, cultural e religiosa. Em termos empíricos, é possível vislumbrarmos três diferentes maneiras, por meio das quais governos democráticos se desenvolvem. A primeira maneira é a democracia direta, que remete à Ágora grega e diz respeito à possibilidade de que, para cada assunto de interesse público, os cidadãos possam participar de discussões e votar. A segunda maneira é a democracia indireta, também conhecida como representativa, que corresponde àqueles regimes nos quais os indivíduos participam da escolha dos representantes, por meio do voto, e depois são os eleitos que deliberam em nome e (espera-se) em favor da coletividade. A terceira maneira é denominada democracia semidireta e reúne características dos modelos direto e semidireto, de modo que permite a participação e envolvimento nas discussões e deliberações de maneira ampliada, por meio do voto e de instrumentos, como plebiscitos, audiências e conferências (BOBBIO, 1998). Considerando, que a democracia é o regime político que permite o desenvolvimento da gestão pública de maneira efetiva, na busca pela garantia de justiça social e da melhor utilização dos recursos públicos com vistas à realização do bem comum e da promoção de equidade social, é importante aprofundarmosnosso conhecimento sobre ela. Considerando que o funcionamento da democracia é permeado por um conjunto de instituições, destacamos aquelas que possuem natureza política e são essenciais à manutenção do regime por conta de sua relação com o principal mecanismo de participação política democrática: o voto. Nesse sentido, destacamos dois aspectos vitais à relação entre o voto e as políticas públicas, quais sejam: os partidos políticos e a congruência política. PÁGINA 26 Segundo Schattschneider (1942), a democracia é impensável sem a existência de partidos políticos. De acordo com Baquero e Borba (2008, p. 2), “a literatura que se desenvolveu posteriormente a esta afirmação, aceitou pacificamente e sem ressalvas esta formulação como um dos poucos teoremas válidos na Ciência Política” e são muitos os autores que corroboram com a máxima, de que os partidos políticos são essenciais à democracia (PASQUINO, 2010). Entre os cientistas políticos, a definição de partidos políticos de Weber (2012 [1922]) é tratada como clássica e afirma que tais instituições são voluntariamen- te criadas, baseadas em livre recrutamento e objetivam a obtenção de votos em eleições para cargos políticos. Em diálogo com o autor clássico e com Sartori (1982), Pasquino (2010) afirma, que a classificação de uma organização como partido depende do atendimento de três condições: estruturas que permitam a participação dos inscritos, possibilidade de formulação de um programa de políticas públicas e a perduração da instituição para além de um ciclo eleitoral. Basicamente, as funções dos partidos estariam relacionadas à educação política da população, à mobilização para a participação, à criação de raízes partidárias entre o eleitorado, ao recrutamento de liderança e à articulação e agregação de interesses de grupos sociais de modo, que os partidos em democracias como a brasileira, seriam mediadores da relação entre a sociedade e o Estado, pois, só podem ser eleitos como nossos representantes, aqueles indivíduos que disputam eleições após uma escolha por parte das legendas partidárias. Nesse sentido, com relação ao seu papel governativo, os partidos devem organizar o governo, controlar o desempenho administrativo e buscar viabilizar a implementação de suas propostas de políticas públicas (MAIR, 2003). Para além dos partidos e das eleições depois de eleitos, os nossos represen- tantes devem, em alguma medida, legislar e/ou atuar considerando as vontades, desejos, anseios, necessidades, demandas e interesses da população. As democracias representativas contemporâneas são caracterizadas por eleições e, especialmente nas últimas décadas, distintos campos da Ciência Política e também das demais áreas da Ciências Sociais, se dedicam a compreender em que medida o ato do voto seria suficiente (ou não) para que os cidadãos tivessem assegurado que os governos atuariam no sentido de atender às suas demandas. Dentre tais estudos, há aqueles que tratam da verificação de congruência política entre representantes e representados. PÁGINA 27 REFLITA Urbinati (2006) afirma, que a representação política iria além do momento eleitoral, ainda que as eleições sejam, apesar de limitadas, fundamentais ao aprendizado democrático pelos indivíduos. A congruência política se constitui em análise acerca da medida em que as de- cisões tomadas pelos representantes correspondem às preferências daqueles que são representados. Ainda que não seja especificamente sinônimo de repre- sentação, a congruência se constituiria em indicador adequado à mensuração dessa relação e contribuiria para verificarmos o quanto os cidadãos se sentem contemplados ou se identificam com as deliberações de seus representantes, o que teria consequentes efeitos sobre a confiança que depositam nos governos e no regime político como um todo. Por outro lado, os estudos de congruência po- lítica permitiriam, também, verificarmos em que medida os representantes con- sideram as opiniões e necessidades de seus representados quando deliberam acerca de políticas públicas e demais temáticas. Para além dos estudos precursores sobre o tema, (MILLER; STOKES, 1963; PAGE; SHAPIRO, 1983), destacamos que Carreirão (2015), primeiro pesquisa- dor brasileiro a se dedicar à congruência política, apontou, em importante ba- lanço bibliográfico acerca do tema, que seria possível classificar tais estudos em duas vertentes: a primeira seria pautada pela comparação entre opiniões e preferências dos representados com as preferências de seus representantes e as propostas de campanha de seus partidos; a segunda maneira seria a compa- ração as opiniões e preferências dos eleitores com relação às políticas efetiva- mente aprovadas por seus representantes. Contudo, devemos nos lembrar que, independentemente da vertente analítica adotada e dos resultados que apontem congruência ou incongruência política entre representantes e representados, a representação é, per se, um processo, o que implica na necessidade de que sua avaliação seja realizada em perspec- tiva dinâmica, uma vez que a proximidade ou afastamento entre eleitores e re- presentantes tendem a variar ao longo do tempo, assim como a capacidade de nossos representantes de atenderem (ou não) as necessidades e demandas da população no que tange às políticas públicas. PÁGINA 28 SAIBA MAIS Há países onde são permitidas candidaturas avulsas (de indivíduos sem filiação a partidos) ou por grupos políticos organizados, como o Movimiento al Socialis- mo (MAS), na Bolívia, que se autointitula movimento social “não partidário”. Fonte: Mayorga (2003). PÁGINA 29 2 POLÍTICAS PÚBLICAS Como o Estado visa servir à população, cabe à gestão pública trabalhar de modo a atender as necessidades dos cidadãos, por meio de ações que visem otimizar a responsabilidade e a transparência dos atos públicos. Assim, a gestão pública está relacionada ao desenvolvimento político do Estado, cujas alterações não têm, necessariamente, relação direta com seu desenvolvimento econômico, o que implica inferir que as reformas pelas quais o Estado moderno tem passado tendem a gerar muitos conflitos, uma vez que confrontam a visão do Estado burocrático em contrapartida a inovações que podem contribuir para o desenvolvimento e aprimoramento do processo de administração pública. Diante desse contexto, cabe ao Estado a implementação de ações que atendam aos interesses e necessidades da população, especialmente quando Estado e governo se manifestam sob o regime democrático. O meio para tal implementação corresponde às políticas públicas. Políticas públicas constituem mecanismos de efetivação das deliberações do poder público para com a população. Considerando sua amplitude em termos de áreas de ação e atuação, bem como as distinções que pode assumir conforme os arranjos entre Estado e governo, não há um conceito único para tratar do tema. Para Souza (2006), as políticas públicas correspondem ao campo de conhecimento que tem como finalidade a realização efetiva das ações de governo, bem como suas avaliações em depender dos resultados dessa análise, também a proposição de mudanças com relação à execução das atividades. Rodrigues (2010) entende, que políticas públicas é o conjunto de processos por meio dos quais diferentes grupos, com demandas e interesses distintos, debatem com vistas à tomada de decisões coletivas que direcionem caminhos ao desenvolvimento de determinadas áreas em um âmbito da sociedade (municipal, estadual ou federal). PÁGINA 30 Por fim, expomos o verbete produzido por Amabile (2012), que apresenta um conjunto de características que permeiam o conceito de políticas públicas, quais sejam: • Decisões que envolvem questões de ordem pública e que gozam de abrangência ampla, com vistas à satisfação de interesses de coletivida- des; • Estratégias de atuação pública com capacidade de impactar na realidade; • Representam a concretização das ações governamentais e se desenvol- vem por meio de um processocomplexo. Diante do exposto, é possível sintetizar as diversas definições de políticas pú- blicas como um conjunto de ações administrativas, programas e decisões go- vernamentais adotadas por atores públicos (gestores, membros do Executivo ou Legislativo) com vistas à garantia de direitos que tangenciam a cidadania, de modo que as políticas públicas encontram-se sempre em diálogo com as Cons- tituições. Nesse sentido, [...] mesmo nem sempre encontrando correspondência per- feita em normas constitucionais, as políticas públicas no mínimo não podem ferir esses preceitos e são, sob muitos aspectos, o braço executivo de direitos expressos na Cons- tituição (KERSTENETZKY, 2015, p. 175). Considerando tal perspectiva, os direitos sociais que as políticas públicas visam atender as mais diversas áreas, como educação, saúde, transporte público, lazer, cultura, habitação, previdência social ou pautas de minorias, o que significa que o foco das políticas públicas não é um campo de atuação, mas a garantia de cidadania ampla, isso quer dizer que nem todas as ações contemplarão a totalidade da população. Contudo, cabe destacar que tais ações podem ser direcionadas a atender demandas ou necessidades de segmentos sociais, culturais, étnicos ou econômicos que estejam em condição social-política que inspire cuidados. Desta forma, as políticas públicas podem afetar tanto a população como um todo quanto grupos específicos, independentemente de aspectos, tais como gê- nero, faixa etária, nível de escolarização, religião, qualificação profissional, tipo de vínculo empregatício etc. Isso significa, tanto a diversificação de áreas e gru- pos atendidos quanto a universalização da preocupação com o alcance do bem- estar da sociedade como um todo, ainda que a contribuição efetiva do Estado para tanto venha a ser eventualmente pequena. PÁGINA 31 SAIBA MAIS A discussão sobre vertentes explicativas, interpretações teóricas, principais conceitos e os autores que se destacam no campo de estudos das políticas pú- blicas foi sistematizado em balanço de literatura por Agum, Riscado e Menezes (2015). Fonte: o autor. Conforme Brancaleon et al. (2015), considerando a multiplicidade de modelos por meio dos quais podemos pensar classificações das políticas públicas, ne- nhuma divisão ou categorização será exata, mas ainda assim simplifica e escla- rece sobre o tema, além de possibilitar a identificação de aspectos relevantes e o direcionamento de nosso olhar para melhor entendermos o campo das políticas públicas. Diante de tal argumento, os autores oferecem um modelo de classificação para diferenciarmos as políticas públicas, composto por quatro categorias: a. Políticas Públicas distributivas - as chamadas políticas distributi- vas não consideram a limitação dos recursos públicos e buscam privilegiar não a sociedade como um todo, mas uma parcela da população. Um risco iminente advindo das políticas distributivas é a ocorrência do que conhecemos como clientelismo, assistencia- lismo etc.; b. Políticas Públicas redistributivas - por meio destas é que se alo- cam bens ou serviços a segmentos específicos da sociedade me- diante recursos que são extraídos de outros grupos específicos; c. Políticas Públicas regulatórias - são as mais facilmente identifica- das e envolvem prioritariamente os policymakers, a administração pública e a burocracia estatal, além de outros grupos de interesse. As políticas regulatórias conformam-se em ordens e proibições, decretos e portarias; d. Políticas Públicas constitutivas - são elas que estabelecem as ‘re- gras do jogo’, as normas e procedimentos a partir das quais devem ser formuladas e implementadas outras políticas (BRANCALEON, 2015, p. 2-3). PÁGINA 32 Diante desse contexto, é consenso entre os autores dos campos da Ciência Polí- tica e da Administração Pública a responsabilidade do Estado para com a gestão de políticas públicas. Contudo, por conta de um conjunto de aspectos que per- passam o sucateamento da máquina pública, a proliferação de práticas ilícitas e corrupção, as crises econômicas e o desenvolvimento da globalização, não são raros os casos de entes públicos (prefeituras, governos estaduais ou mes- mo governos federais) que declaram dificuldades e assumem sua debilidade em arcar com as políticas públicas, sejam elas das mais diversas áreas. 3 POLÍTICAS PÚBLICAS E RESPONSABILIDADE SOCIAL Conforme destacado no fim da seção anterior, já há algumas décadas as ações de políticas públicas não tem sido desenvolvidas exclusivamente pelo poder pú- blico. Tal situação tem se revelado não apenas possível, mas também tem se repetido nacional e internacionalmente, de modo que Amabile (2012, p. 390) afirma que: [...] são de responsabilidade da autoridade formal legal- mente constituída para promovê-las, mas tal encargo vem sendo cada vez mais compartilhado com a sociedade civil por meio do desenvolvimento de variados mecanismos de participação no processo decisório. Um dos caminhos por meio dos quais o compartilhamento da responsabilida- de pelas políticas públicas tem se desenvolvido é a inclusão da população nas discussões e deliberações, o qual será abordado na última unidade de estudos desta disciplina. Outra forma de compartilhamento do processo de construção de políticas pú- blicas pelo Estado em parceria com setores da sociedade é a responsabilidade social empresarial. Atualmente, as empresas privadas buscam diferenciais com- petitivos para se destacarem no mercado. Nesse sentido, é perceptível que as empresas não estão focadas apenas na melhoria da qualidade da produção de bens e prestação de serviços, uma vez que a tecnologia e a especialização da mão de obra têm permitido àquelas organizações dotadas de maior capital, condições de competição praticamente igualitárias. Para Silva et al. (2004): [...] as organizações empresariais necessitam estar abertas a um processo contínuo de mudança em que a orientação dos investimentos, a utilização de novas tecnologias e a ex- ploração dos recursos naturais estejam de acordo com as necessidades atuais e futuras da sociedade. PÁGINA 33 Já Fucs (2007, p. 74) afirma que [...] nos últimos anos, virou uma espécie de sacrilégio criti- car as ações de responsabilidade social das empresas. Elas se tornaram tão valorizadas pela sociedade que, hoje, qual- quer empresa que se preze precisa ter seu projeto social. Nesse cenário, a responsabilidade social por parte das organizações privadas tem sido assunto recorrente, e tem se tornado prática num número crescente de empresas. Afinal, ao mesmo tempo em que realizam trabalhos sociais, as em- presas ganham reconhecimento junto à população, vislumbrando a possibilidade de um aumento de seu número. Esses trabalhos sociais, realizados pelas organizações do setor privado, são denominadas ações de responsabilidade social. Por responsabilidade social, o Instituto Ethos (2007) conceitua como a gestão por parte das organizações, de maneira ética e transparente perante toda a so- ciedade, com estabelecimento de metas compatíveis com o desenvolvimento social sustentável, de modo a preservar recursos ambientais e culturais, promo- vendo a redução das desigualdades sociais. Nesse sentido, Mendonça e Carreira (2006, p. 1) complementam: A responsabilidade social empresarial vem se tornando uma importante ferramenta para a sustentabilidade das organizações. O gestor deve estar atento às suas relações éticas e ser transparente em relação a todo o público que se relaciona com a empresa para o desenvolvimento do seu negócio e da sociedade, de maneira a preservar também os recursos ambientais para as gerações futuras. PÁGINA 34 É importante salientar que, além de agregar valor às marcas em curto prazo, a responsabilidade social contribui para o aumento da confiança dos consumidores nos produtos e serviços prestados pela empresa, constituindo uma vantagem competitiva em médio prazo (MAZZEI; ROCHA, 2003). Sobre as ações de responsabilidade social,Reich afirma, ainda, que elas podem ser consideradas como práticas de boa gestão para as empresas quando con- tribuem, de fato, para o aumento dos lucros da organização. Porém, o professor questiona acerca do direito das empresas de decidir sobre as ações de interesse público, uma vez que oficialmente tal prerrogativa compete ao Estado (FUCS, 2007, p. 76). Assim, fica evidente que uma empresa socialmente responsável é aquela que se preocupa com a sociedade e assume caráter ativo na promoção de mudanças no cenário social, preocupando-se não apenas com a satisfação de seus clientes e proprietários, mas também o meio em que está inserida e com aqueles com os quais se relaciona, direta ou indiretamente. Em se tratando da responsabilidade social empresarial, cabe, ainda, destacar um aspecto importante a ser atentado pelos gestores públicos, por gestores das empresas privadas que atuam no mercado e também por gestores de organi- zações do Terceiro Setor: para além das relações binárias do Estado com a so- ciedade (estabelecida tanto por meio da participação institucional quanto das ações coletivas) e do Estado com o mercado (quando empresas desenvolvem diretamente ações de responsabilidade social), há, ainda, a interconexão desses três atores sociais para o desenvolvimento de ações que visam a consecução de políticas públicas. Tal situação ocorre quando as empresas privadas não realizam suas ações dire- tamente em comunidades, por exemplo, nem optam por doar recursos ou trans- ferir montantes que seriam destinados a impostos para utilização pelo poder público, mas decidem criar suas próprias entidades com fins sociais ou esta- belecem parcerias com organizações do Terceiro Setor para transferir recursos financeiros, materiais ou de mão de obra para o desenvolvimento das ações das entidades. Tais parcerias são positivas tanto às empresas, por conta da visibilidade posi- tiva que geram, quanto para as organizações do Terceiro Setor, cujos recursos geralmente são limitados para a consecução das atividades, e também para o Estado, uma vez que contribui para a redução da pressão social interven- ção de ações coletivas para sanar determinado problema, desde que a parceria estabelecida produza resultados consistentes e adequados às necessidades sociais da população a ser atendida, uma vez que tal aspecto é central às políticas públicas. PÁGINA 35 CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro (a) aluno (a), concluímos, aqui, uma parte de nossa viagem rumo ao entendimento sobre as relações entre Estado, governo e políticas públicas. Até esta etapa, nossos diálogos versaram, especialmente, em torno da conceituação desses tripés que norteiam nossas discussões no âmbito deste material de estudos. Contudo, avançamos também no sentido de compreender outros importantes aspectos, quais sejam: a maneira como Estado e governo estão organizados e articulados no Brasil, a relevância da democracia ao funcionamento da gestão pública no país e os papeis dos partidos políticos e da congruência política com relação ao voto e, por fim, a responsabilidade social empresarial como maneira suplementar de desenvolvimento de ações sociais e de políticas públicas. Esse caminho constitui a base necessária à conformação da visão de um es- pecialista que busque compreender, de fato, como se estruturam as políticas públicas, para o que, por exemplo, por serem múltiplos e diante da impossibilida- de de uma abordagem única, discorrer sobre o conceito de políticas públicas é essencial ao conhecimento sobre as distintas possibilidades de desenvolvimento de ações desta natureza, as quais serão analisadas em nossa próxima unidade de estudos. Diante das bases até aqui constituídas, podemos avançar para conhecer a rea- lidade cultural, histórica, social, econômica e política brasileira sob a perspectiva da conformação das ações sociais e das políticas públicas ao longo do período republicano, com ênfase tanto às distintas mobilizações e articulações de atores individuais e coletivos ao longo do tempo, quando das principais políticas públi- cas decorrentes da abertura do Estado ao diálogo no atual período democrático. Caminhemos, então, rumo ao entendimento acerca dos arranjos constituintes das políticas públicas e de como é possível compreender o processo de sua consecução enquanto ciclo social. PÁGINA 36 MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO NA WEB Capa do livro: Título: Dicionário de Políticas Públicas Autor: Carmen Lúcia Freitas de Castro, Cynthia Rúbia Braga Gontijo e Antônio Eduardo de Noronha Amábile Editora: Universidade Estadual de Minas Gerais Sinopse: o Dicionário disponibiliza conceitos relaciona- dos à teoria e à prática das políticas públicas para es- tudantes, pesquisadores, gestores públicos e cidadãos interessados na compreensão da gestão pública con- temporânea e suas relações internas e externas. FILME Pôster do filme: Título: Quanto vale ou é por quilo? Mais valem pobres na mão do que pobres roubando Ano: 2005 Sinopse: O filme faz uma comparação com tráfico de es- cravos do século 17, ao mesmo que critica as ONGs e suas captações de recursos, junto ao governo e empresas privadas. Por meio da Pró-Reitoria de Extensão da Universidade Federal do Ceará, o Ob- servatório de Políticas Públicas (OPP/UFCE) apresenta documentos oficiais, notícias e resultados de pesquisas científicas voltadas ao debate sobre o forta- lecimento social, crítico e propositivo de políticas públicas no Ceará e no Brasil. Disponível em: <https://oppceufc.wordpress.com/tag/biblioteca/> PÁGINA 37 REFERÊNCIAS AGUM, R.; RISCADO, P.; MENEZES, M. Políticas públicas: conceitos e análise em revisão. Agenda Política, v. 3, n. 2, jul./dez. 2015. p. 12-42. AMABILE, A. P. N. Políticas públicas. In: CASTRO, C. L. F.; AMABILE, A. E. N.; GONTIJO, C. R. B. (Orgs.). Dicionário de políticas públicas. Belo Horizonte: Universidade Estadual de Minas Gerais, 2012. p. 390-391. BAQUERO, M.; BORBA, J. A (re)valorização dos partidos políticos no Brasil via capital social. Revista de Estudos e Pesquisas sobre as Américas, v. 2, n. 1, jan./jun. 2008. BOBBIO, N. Dicionário de política. 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PÁGINA 40 INTRODUÇÃO Não raras vezes, temos a percepção de que algumas políticas públicas tramitam ou tramitaram de maneira lenta e outras foram aprovadas e implementadas com extrema rapidez. Seria impressão, desconhecimento ou a sensação está corre- ta? Os processos que envolvem a criação de políticas podem, de fato, ser lentos ou rápidos, a depender de aspectos como os atores envolvidos na discussão e a urgência em sanar ou minimizar problemas. Daí a existência de políticas de Estado e políticas de governo, bem como a necessidade de conhecer seus processos. Nesse sentido, a primeira seção versa sobre políticas de Estado e políticas de governo, distinção necessária à reflexão sobre os mecanismos que permeiam a definição, a implementação e a persistência ou extinção das políticas públicas ao longo do tempo e espaço. Na segunda seção, tratamos do ciclo de atividades que compõem uma política pública, desde o início da discussão (entrada da temática na agenda pública), passando pela formulação e implementação da política e até sua avaliação, cuja finalidade é de geração de feedback aos diversos atores sociais envolvidos. A título de aprofundamento do conhecimento acerca do ciclo de políticas públi- cas, oferecemos como exemplo um compêndio de resultados decorrentes de distintas análises relacionadas ao Programa Bolsa Família, cuja abordagem se revelou múltipla tanto em termos metodológicos quanto de maneiras como os pesquisadores vislumbraram a referida política e seus desdobramentos. Após esses avanços, caminharemos rumo à exploração de aspectos que rela- cionam Estado, governo e políticas públicas, considerando seu ciclo como um todo, com a democracia no Brasil, de modo a conhecer com maior detalhamento os avanços em termos de participação social. Bons estudos! PÁGINA 41 1 POLÍTICAS DE ESTADO E POLÍTICAS DE GOVERNO Nas unidades anteriores deste livro, discutimos os conceitos, aspectos histó- ricos, as tipologias e características, e a conformação de Estado e governo no Brasil. Nesta unidade, ao tratar de políticas públicas, cabe retomar brevemente as distinções entre os termos: Estado diz respeito à concentração ou dispersão do poder; enquanto governo se refere à forma, sistema e regime por meio dos quais o exercício do poder ocorre. Em termos práticos, seria como dizer que o Estado apresenta a definição de quantas pessoas comandam os processos políticos; enquanto o governo diz res- peito de como a organização dos mandatários (os governantes) é exercida em termos de gestão pública. Retomados esses conceitos, em somatória com o conceito de políticas públicas, como responsabilidade do poder público para com coletividades que necessitam de serviços específicos, é importante entendermos como tais políticas são inter- pretadas: políticas de Estado ou políticas de governo. As políticas de Estado se caracterizam pelo envolvimento com a estrutura burocrática de funcionamento da máquina pública, como agências de Estado, instâncias de discussão e de deliberação, bem como estudos técnicos e, até mesmo, realização de consultorias antes da entrada em pauta legislativa. Nesse processo, não raras vezes, dois conjuntos de atores para além daqueles perten- centes ao Poder Executivo se fazem relevantes. O primeiro grupo de influência na elaboração de políticas de Estado são os po- líticos, seja por meio de partidos e suas bancadas, (de situação ou de oposição ao governo, conforme as coalizões) ou por meio de sua influência nos postos legislativos e cadeiras de secretarias, ministérios ou cargos de alto escalão. O segundo grupo é composto por membros da sociedade civil, mobilizados com a finalidade de exercer pressão para que um projeto ou ação seja contemplado em pautas de deliberação de políticas, de conferir visibilidade a um tema ou de coibir decisões políticas que desrespeitem a vontade de uma coletividade, seja ela ampla ou restrita. Tal grupo compreende atores individuais (por meio de manifestações online ou “off-line”, abaixo-assinados, greves, ocupações etc.) ou coletivos (movimentos sociais, associações, sindicatos, comunidades religiosas, organizações do Terceiro Setor, empresários etc.) que visam vocacionar suas demandas e opiniões. PÁGINA 42 Conforme explica Almeida (2016, on-line)2: Políticas de Estado, por sua vez, são aquelas que envolvem as burocracias de mais de uma agência do Estado, justa-mente, e acabam passando pelo Parlamento ou instâncias diversas de discussão, depois que sua tramitação dentro de uma esfera (ou mais de uma) da máquina do Estado envolveu estudos técnicos, simulações, análises de impacto horizontal e vertical, efeitos econômicos ou orçamentários, quando não um cálculo de custo-benefício levando em conta a trajetória completa da política que se pretende implementar. Para além do reconhecimento de demandas populares ou coletividades es- pecíficas e da tensão entre atores políticos, uma política de Estado se caracte- riza, ainda, pela necessidade de ampla discussão de ordem financeira acerca do impacto sobre o orçamento do ente estatal e sua relação custo-benefício em termos de despesas e resultados quantitativos e qualitativos. Dado que políticas de Estado são construídas para perpetuarem-se na estrutura de funcionamento da máquina pública, o processo de criação, alteração ou ex- tinção de uma política de tal natureza é moroso. O trabalho da burocracia pode levar meses, bem como o eventual exame e discussão no Parlamento, pois políticas de Estado, que respondem efetivamente a essa designa- ção, geralmente envolvem mudanças de outras normas ou disposições pré-existentes, com incidência em setores mais amplos da sociedade (ALMEIDA, 2016, on-line)2. Em contrapartida, a elaboração de políticas de governo é mais simples e ágil, especialmente pelo fato de que são formuladas de maneira unilateral e têm al- cance, na maioria das vezes, mais restrito do que políticas de Estado. Políticas de governo são aquelas que o Executivo decide num processo bem mais elementar de formulação e imple- mentação de determinadas medidas, para responder às demandas colocadas na própria agenda política interna –pela dinâmica econômica ou política-parlamentar, por exemplo – ou vindos de fora, como resultado de eventos internacionais com impacto doméstico (ALMEIDA, 2016, on-line)2. PÁGINA 43 Nesse sentido, ainda que tratem de temáticas ou áreas de ação que possam vir a exigir deliberações complexas, os trâmites necessários à aprovação de polí- ticas de governo são mais curtos e cabem, geralmente, ao plano administrativo específico ou a níveis de competência, como secretarias ou ministérios. Diante de tais conceitos, percebemos que políticas de Estado e políticas de go- verno não são termos intercambiáveis, não são sinônimos e não refletem o mes- mo processo de deliberação. Ainda que uma política definida por um governo possa atender, em alguma medida, o clamor popular, ou que determinada políti- ca de Estado seja definida exclusivamente pelo Poder Executivo diante de uma conjuntura específica, as diferenças persistem. Assim, para além da relação entre atendimento aos anseios da população ou decisão baseada em elites políticas ou burocráticas, é preciso, ao gestor público, atentar para: • A rede de interações que permeou a formulação de acordos, parcerias, estudos, aprovações e debates, que culminaram em determinada lei que define uma política pública. • Os impactos dessa alteração no campo das políticas públicas, de modo a verificar as diferenças em termos de investimento e retorno (custo- benefício) orçamentário/financeiro, econômico, social, cultural e político. A relação entre redes de interações e impactos prospectivos, é essencial para refletirmos sobre a natureza de uma determinada política pública: ação de Estado ou ação de governo. As discussões sobre a distinção são inúmeras e retomadas a cada nova rodada de debates sobre criação, ampliação, reformulação, adequação ou extinção de uma determinada política pública. É assim no mundo todo e não há distinções no caso brasileiro, em que, por exemplo, são candentes os debates acerca de políti- cas públicas de saúde (FLEURY, 2003), educação (OLIVEIRA, 2011; OGIBA, 2016), transferência condicionada de renda (AZEVEDO, 2007; RÊGO; PIN- ZANI, 2013a; 2013b), para refugiados (DIAS et al., 2011), entre outros. PÁGINA 44 REFLITA Busque, na internet, a legislação referente ao seu município na página da Câma- ra de Vereadores e procure identificar se políticas públicas aprovadas remetem a políticas de Estado ou de governo. Há clareza nas informações disponíveis? O estudo sobre as políticas públicas no Brasil, contudo, não é de competência desta unidade. Por se tratar de temática de grande importância à gestão pública e, por conseguinte, à construção do conhecimento por parte de futuros gestores públicos, aspectos relacionados às lutas históricas e sociais no Brasil, avanços e retrocessos ocorridos ao longo do período republicano sob distintos regimes políticos, bem como acerca do desenvolvimento da participação, integrarão nossas próximas unidades de estudo, com destaque ao impacto do compartilhamento da responsabilidade de sua formulação com a sociedade civil, por meio de ações coletivas e da participação institucional. PÁGINA 45 2 CICLO DE POLÍTICAS PÚBLICAS Durante muitas décadas, as políticas públicas foram analisadas apenas como resultados de demandas e articulações de interesses de ordem política. Nesses termos, a ênfase das investigações e debates recaia sobre o processo decisó- rios no âmbito da gestão pública (FARIA, 2003). Apenas a partir da década de 70, a atenção voltou ao contexto geral que culmina em uma política pública, de modo que a perspectiva de análise de trâmites foi substituída pela pluralização de objetos analisados, o que significou que o olhar científico e da administração pública, voltou-se para as distintas etapas relacionadas às políticas públicas, desde o surgimento de demandas até a avaliação dos indicadores depois da política em prática ou em funcionamento. Esse conjunto de etapas corresponde ao ciclo político de uma política pública. Conforme Amábile (2012), não há definição única para o termo “políticas públi- cas”. De modo semelhante, também não há unanimidade com relação às etapas que compõem um ciclo político de políticas públicas. Contudo, autores como Trevisan e Van Bellen (2008), Chiari (2012), Azeredo, Luiza e Baptista (2012), Secchi (2012) e Brancaleon et al. (2015) apontam, distintos conjuntos de etapas analíticas. Brancaleon et al. (2015) propõe o ciclo de políticas como um conjunto de cinco atividades e, ao final, haveria uma retroalimentação do sistema, conforme exposto na figura a seguir. Figura 1 - Esquema do ciclo de política pública Fonte: Brancaleon et al. (2015, p. 3). PÁGINA 46 SAIBA MAIS Dentre os autores anteriormente mencionados, são três as etapas recorrentes: formulação, implementação e avaliação. Nesta seção, trataremos dessas etapas e, também, da agenda que, apesar de não ser destacada por todos os autores, é essencial ao início e a retroalimentação do ciclo. Cabe destacar que a tomada de decisão está contemplada na discussão enquanto ação a ser empregada nas diversas etapas do ciclo. À explicação sobre cada etapa antecede um breve conceito decorrente da revisão de literatura sobre o campo das políticas e de avaliação de sua implementação, publicado no Boletim de Informações Sociais da Associação Nacional de Pós- Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais. Com relação à construção de agenda, pode ser definida como o espaço de constituição da lista de problemas ou assuntos que chamam a atenção de governos e cidadãos, convertidas em demandas que policy makers escolhem ou são compelidos a escolher (AZEREDO; LUIZA; BAPTISTA, 2012, p. 9). A agenda diz respeito ao conjunto de discussões, temáticas, problemas ou de- mandas relevantes ao poder público, mas não dependem exclusivamente do próprio governo para sua composição, uma vez que diferentes atores individuais e coletivos, como partidos ou políticos, meios de comunicação, associações ou lideranças expressivas, podem expor como aspectos problemáticos à comunidade política, merecedores de atenção e intervenção públicas (SECCHI, 2012). A formulação compreende a fase de elaboração de alternativas e escolha de uma delas, uma vez que um problema tenha sido identificado e tenha expressão suficiente para provocar uma resposta dos agentes governamentais (AZEREDO; LUIZA; BAPTISTA, 2012, p. 9). Em se tratando de segurança pública, a urgência pela intervenção federal no Rio de Janeiro por conta das condições de insegurança e violência são exemplo de política de governo, enquanto a instalação de unidades de polícia pacificadora (UPPs) decorreu de estudos e discussões que conformaram uma política de Estado. PÁGINA 47 A partir do momento em que determinado tema ou assunto se torna pauta de dis- cussões, ou seja, passa a compor a agenda pública, inicia-se o processo de aná- lise da questão, o qual é sucedido pela formulação de proposta de intervenção pública por meio de uma ação política. Tal intervenção deve considerar tanto se há perspectiva de alcance da coletividade que necessita daquela política pública quanto os resultados esperados em decorrência da aplicação dessa legislação (TREVISAN; VAN BELLEN, 2008), e tal processo finda com a tomada de decisão acerca da política pública a ser implementada. A implementação diz respeito à etapa em que as intenções, construídas na fase de formulação da política, se convertem em ações, ou a fase em que se im- plantam intenções para se obter impactos e consequências (AZEREDO; LUIZA; BAPTISTA, 2012, p. 9). Nesse sentido, a fase de implementação corresponde ao período em que determinada política pública aprovada entra em vigor, ou seja, trata-se do momento do ciclo em que a deliberação pública se efetiva à popu- lação. Nesse sentido, essa etapa se compõe de uma sucessão de tomadas de decisões e de monitoramento das ações, pois diante de eventualidades ou da verificação de falhas de planejamento, faz-se necessária a alteraçãodo curso da política em favor da melhor gestão dos recursos e interesses públicos. A última etapa do ciclo de políticas públicas carece de maior aprofundamento, até mesmo porque as etapas anteriores são permeadas por ações tangenciadas por outros processos, no âmbito real e público, bem como por outras disciplinas, no tocante à formação dos gestores públicos. Tal etapa é a avaliação. A avaliação parte do entendimento de que uma política é composta de ações que ocorrem entre uma situação atual e uma nova, provocando mudanças. Seus objetivos podem estar ligados ao incremento no conhecimento, levantamento de informações causais, lógicas sobre eficácia de métodos e sobre a operação da política e seus impactos, entre outros (AZEREDO; LUIZA; BAPTISTA, 2012, p. 9). Sobre a avaliação de políticas públicas, Trevisan e Van Bellen (2008) e Chiari (2012) afirmam que, assim como o conceito de políticas públicas não é consen- sual, sua avaliação assume diversas possibilidades de definição, pois decorre de distintos conhecimentos científicos, atores e instituições políticas, demandas e contextos. De maneira simples, a etapa compreende a avaliação dos resultados de um programa, ação, projeto ou legislação, sempre trazendo como princípio da análise os objetivos propostos quando da formulação da política. Nesse sentido, cabe destacar pontos positivos e negativos desta etapa do ciclo, conforme expostos a seguir: PÁGINA 48 • É positiva a possibilidade de identificação do impacto das políticas públicas sobre a população a ser atendida e as melhorias dos processos de gestão, de prestação de contas e de tomada de decisões sobre recursos públicos (TREVISAN; VAN BELLEN, 2008); • Resultados negativos podem promover constrangimentos dos governan- tes, uma vez que sua utilização pela população, por adversários políticos e/ou pela imprensa é passível de tom crítico. Em contrapartida, resultados positivos tendem a ser amplamente divulgados, o que contribui para uma boa avaliação do governo (TREVISAN; VAN BELLEN, 2008); • É negativo também o risco de que fatores externos às próprias políticas possam interferir na utilização dos resultados de sua avaliação, como a existência de conflitos de interesses entre órgãos envolvidos na execução da política, mudanças no pessoal encarregado pela execução ou mesmo de gestão (Poder Executivo) e cortes orçamentários decorrentes de alterações no ambiente político (FARIA, 2005). Com relação à utilização dos relatórios de avaliação de políticas públicas, são diversas as finalidades, desde geral até outras específicas, denominadas instru- mental, conceitual, de persuasão e de esclarecimento: • Geral - “[...] os relatórios das avaliações podem servir tanto para divulga- ção, quanto para fomento do debate público em torno das alternativas de intervenção governamental em uma dada realidade social” (TREVISAN; VAN BELLEN, 2008, p. 540). • Instrumental - relatório como instrumento, com informações de boa qua- lidade, com divulgação dos resultados de maneira clara e recomendações factíveis. • Conceitual - relatório como reflexão aos técnicos envolvidos nos ciclos de políticas públicas, para refletirem sobre a natureza, a operacionaliza- ção e os impactos dos programas e ações que implementam. • Persuasão - relatório que visa a adesão/apoio à posição dos gestores sobre as alterações necessárias à determinada política pública (busca alterar opiniões para coincidirem com as do gestor). • Esclarecimento - relatório que interfere na própria forma de ação de go- vernos e na agenda do Estado, relacionado a avaliações de técnicos e profissionais, formadores de opinião e membros do próprio Estado (altera modo de atuação do gestor/Estado conforme as avaliações). PÁGINA 49 Sobre os usuários a quem se destinam tais relatórios, é importante destacar inicialmente que, por se tratarem de avaliações de políticas que visam atender a necessidades ou demandas de coletividades e por utilizarem recursos públicos para sua consecução, as avaliações de políticas públicas devem ser publiciza- das aos diversos atores sociais para conhecimento, sujeitas, inclusive, a even- tuais questionamentos. Nesse sentido, a gama de usuários dos relatórios de avaliação é ampla e abran- ge, por exemplo, gestores públicos, outros agentes governamentais de mesmo âmbito ou de esfera administrativa ou de poder distinta, pesquisadores que se interessem pela temática para fins acadêmicos, movimentos sociais e outros grupos de ações coletivas organizados, cidadãos “comuns”, veículos de co- municação e a sociedade civil de maneira ampliada, que constitui, de fato, o público alvo das políticas. Segundo Trevisan e Van Bellen (2008), a metodologia de avaliação de políticas públicas deve considerar, basicamente, três aspectos: o timing de realização, a posição do avaliador e a modalidade de avaliação. O timing diz respeito ao tempo ou período de avaliação, que pode ocorrer antes (para analisar a relação custo-benefício, custo-efetividade e o retorno econômico sobre o investimento), ao longo da implementação (busca conhecimento sobre tal processo, seu desenvolvimento e gestão) ou após a implementação (com vistas a julgar os resultados, de fato, seus impactos e processos). No que tange à posição do avaliador em relação ao objeto avaliado, o ideal é que seja externo ou independente, para garantir (ao máximo) a neutralidade na análise, uma vez que, quando o próprio ente público avalia a política pública ou implementou, a tendência é analisar de maneira positiva ou minimizar os fracassos (vide formas negativas de uso dos relatórios). Além disso, a avaliação deve ser um processo transparente, ao qual o público tenha acesso, o que signi- fica que deve ser um instrumento de controle da ação do Estado pela população (TREVISAN; VAN BELLEN, 2008). Por fim, em se tratando das modalidades de avaliação, são três as possibilida- des analíticas: PÁGINA 50 • Avaliação de metas: mensura o grau de êxito que uma política pública atinge a partir do atendimento de metas estipuladas quando de sua for- mulação (exemplo: número de pessoas atendidas em centros de saúde, número de horas de aula, número de leitos hospitalares etc.). • Avaliação de processos: visa identificar e corrigir defeitos ou problemas e promover melhorias na implementação da política para otimizar seu fun- cionamento, podendo tais alterações ocorrer ainda ao longo do processo de implementação, conforme indicações do monitoramento da política. • Avaliação de impacto: focaliza efeitos ou impactos sociais da política, ou seja, identificar as mudanças ocorridas, sua abrangência e alcance, não apenas restrita aos beneficiários e considerando a multiplicidade de efeitos possíveis, sejam eles quantificáveis ou não (exemplos: elevação da autoestima dos cidadãos, redução da distância até os equipamentos sociais, melhoria na possibilidade de deslocamentos dos indivíduos por conta de horários de ônibus mais flexíveis, segurança no trânsito em vir- tude de pavimentação asfáltica etc.). Após a avaliação da política pública, é importante que os relatórios sejam utiliza- dos pela gestão pública como fonte de informações para a tomada de decisões de natureza gerencial e burocrática, uma vez que os resultados são feedbacks úteis à análise das condições de determinadas áreas de políticas públicas e do acesso de coletividades aos espaços e serviços que devem ser oferecidos pelo Estado. Ademais, cabe destacar que é responsabilidade dos entes públicos, a prestação de contas sobre suas ações e maneiras como utilizam recursos públicos. Na última seção desta unidade é apresentada uma avaliação de política pública de âmbito nacional implementada no Brasil na década passada, cujos resulta- dos quantitativos e qualitativos são perceptíveis e foram sistematizados após a primeira década de implantação da política. PÁGINA 51 3 AVALIAÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS: EXEMPLO EMPÍRICO Dentre as muitas políticas públicas em vigor no Brasil atualmente, o ProgramaBolsa Família (PBF) destaca-se como responsável pela maior mudança dos in- dicadores sociais e econômicos da história política do país. Por conta de sua relevância, estabelecemos, aqui, uma breve análise de resultados de sua im- plementação, levando em consideração, para além de sua relevância social, a existência de mapeamento de seus resultados. Em 2013, o PBF completou a primeira década de existência e foi organizada uma importante obra com diagnósticos e análises acerca de sua implementa- ção, resultados e prospecções, cujo título é indicativo do que pode ser seu efei- to mais efetivo: “Programa Bolsa Família: uma década de inclusão e cidadania” (CAMPELLO; NERI, 2013). Cabe destacar, inicialmente, que programas de transferência condicionada de renda existem na América Latina desde 1990, de modo que no início de 2010 havia políticas públicas desta natureza em 20 países na região, os quais con- somem, em conjunto, cerca de 0,4% do Produto Interno Bruto (PIB) latino-ame- ricano. Tal percentual demonstra que o impacto econômico de programas des- sa natureza são pequenos, ainda mais quando comparados com seus reflexos nas condições de subsistência dos beneficiários (CECHINNI, 2013). PÁGINA 52 No caso brasileiro, a criação do PBF, no início do primeiro mandato de Luiz Iná- cio Lula da Silva pelo Partido dos Trabalhadores (PT), não se constituiu em total inovação, uma vez que essa política foi resultado da reunião e expansão de programas sociais anteriormente implementados por seu antecessor, Fernando Henrique Cardoso, do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB). Contudo, destaca-se que o PBF possibilitou o crescimento do número de beneficiários e promoveu a já mencionada transversalidade entre políticas públicas, em que consistem suas maiores inovações. Em se tratando do perfil dos beneficiários do PBF, 50,2% residiam na região Nordeste e outros 25,4% no Sudeste, e cerca de um quarto dos beneficiários encontrava-se distribuído entre Centro-Oeste, Norte e Sul do país. Dados oficiais informam que seriam cerca de 14 milhões de famílias que corresponderiam a, aproximadamente, 26% da população nacional, con- forme dados do Censo 2010, e dentre essas famílias 72,4% viveriam em situação de extrema pobreza, com renda per capita de R$ 70,00, e rece- beriam, em média, R$ 149,71 de benefício. A análise de Camargo, Curralero e Licio (2013) aponta, ainda, que tal público é majoritariamente composto por indivíduos pardos, jovens com baixa escolaridade ou analfabetos, com uma infraestrututra limitada – como saneamento básico, energia elétrica e abastecimento de água – disponíveis em 48,9% dos domicílios urbanos e em apenas 5,2% dos domicílios rurais dessas famílias. Com relação às condicionalidades para recebimento do benefício, estas se re- lacionam ao acompanhamento de educação e saúde de crianças e adolescen- tes. Nesse sentido, a despeito do senso comum e/ou de afirmações sem fun- damentação, é importante destacar que a criação do PBF não influenciou no aumento do número de filhos por famílias com baixa renda, mas, ao contrário, o estudo de Alves e Cavenaghi (2013) demonstra que a taxa de fecundidade é decrescente no país, de modo geral, e, também, considerando categorias como unidades da federação, faixas etárias das mães e critérios de renda, o que sig- nifica que a redução do tamanho das famílias atinge beneficiários do PBF, as- sim como o restante da população. Em se tratando da educação, Craveiro e Ximenes (2013) destacam, que a frequência às aulas é critério para percepção financeira do benefício, e que crianças e adolescentes entre 6 e 15 anos devem manter taxa de presença de, ao menos, 85%, e adolescentes entre 16 e 17 anos precisam comprovar, ao menos, 75% de frequência às aulas. Os principais resultados decorrentes de tal condicionalidade são a redução do número de crianças e de adolescentes fora da escola e/ou com baixa escolarização e o indicador que aponta menor taxa de abandono escolar entre beneficiários, quando comparados com não beneficiários. PÁGINA 53 Já no que tange à saúde, o foco principal do PBF são gestantes, lactantes e crianças com até 7 anos de idade. O acompanhamento desse público trouxe uma série de resultados positivos, conforme destacam Magalhães Junior, Jai- me e Lima (2013): aumento do acompanhamento pré-natal, redução da morta- lidade e da desnutrição infantil, elevação do percentual de crianças amamen- tadas, exclusivamente, com leite materno nos primeiros seis meses de vida (quando comparados filhos de beneficiárias e de não beneficiárias) e cresci- mento do percentual de crianças vacinadas. Esse conjunto de resultados, bem como a maior parte dos demais apresenta- dos na obra organizada por Campello e Neri (2013), tratam de dados estatísti- cos e/ou realizam análises quantitativas acerca dos efeitos do PBF sobre a vida dos beneficiários. Em sentido distinto, Rêgo e Pinzani (2013a) realizaram uma pesquisa qualitativa, que resultou em um capítulo na mencionada coletânea e também no premiado livro Vozes do Bolsa Família: autonomia, dinheiro e cida- dania (2013b). Em decorrência de 150 entrevistas realizadas ao longo de cinco anos em re- giões que configuram bolsões de pobreza em diferentes regiões do Brasil, os autores identificaram uma série de percepções de beneficiários acerca de efei- tos do PBF, a saber, além da questão financeira e daquilo que dados estatísticos captaram, dentre os quais destacam-se a ausência de percepção de que o recebimento do benefício está atrelado a um direito social, constitucionalmente, determinado, e garantir que os lucros sejam favorecidos pelo governo e/ou que decorreria da trajetória do presidente que o criou, por ter sido uma vida humilde e infância pobre. Além disso, os resultados apontaram aquilo que as análises quantitativas des- tacaram – a perspectiva de melhoria efetiva das condições de sobrevivência da população beneficiária –, mas, e principalmente, a possibilidade de garantia mínima de autonomia para as mulheres, especialmente em localidades onde o patriarcado é mais forte, e a visão de pertencimento ao Estado, ainda que com visão distorcida acerca de seu papel cidadão, seja a vivência da cidadania (RÊGO; PINZANI, 2013a; 2013b). PÁGINA 54 CONSIDERAÇÕES FINAIS Relembrando o que discutimos nas unidades anteriores desta disciplina, des- tinamos esta unidade ao aprofundamento da temática das políticas públicas. Essa escolha decorreu do fato de que, após apresentarmos os conceitos e tipos de políticas públicas e de refletirmos sobre sua relação com a democracia e com empresas privadas, tornou-se importante destinarmos nosso olhar não mais às relações externas, mas ao conteúdo das políticas públicas. Nesse sentido, procuramos desenvolver nosso olhar para entendermos o que são políticas de Estado e o que são políticas de governo, pensando-as especialmente a partir das maneiras como os processos políticos que lhes dão origem ocorrem. Para contribuir com esse objetivo, exploramos as etapas que compõem um ciclo de políticas públicas, bem como ressaltamos aquelas que mais demandam atenção específica, especialmente a avaliação, por conta da perspectiva de que, quando realizada de maneira correta, é fonte de retroalimentação de informações à gestão da política pública, ou seja, tem em sua finalidade o feedback que alimenta o ciclo. Dito isso, os dois temas discutidos nesta unidade de estudos se revelaram densos, de modo que propus uma leitura exemplificativa sobre como uma avaliação de política pública pode ser relevante, a partir de um programa amplamente conhecido e também minuciosamente pesquisado desde meados da década passada: o Bolsa Família. Por meio da descrição de resultados de um conjunto de estudos que versaram sobre distintos aspectos pertinentes ao programa, a terceira seção ofereceu um panorama sobre seus resultados, ao mesmo tempo em que demonstrou como avaliações de políticas públicas podem ser importantes para refletirmos sobre acontinuidade, pertinência ou eventuais alterações em uma ação social. PÁGINA 55 MATERIAL COMPLEMENTAR LIVRO FILME NA WEB Capa do livro: Título: Dicionário de Políticas Públicas – volume 2 Autor: Carmen Lúcia Freitas de Castro, Cynthia Rú- bia Braga Gontijo e Antônio Eduardo de Noronha Amábile Editora: Universidade Estadual de Minas Gerais Sinopse: com objetivo semelhante ao primeiro volu- me, o Dicionário disponibiliza conceitos relacionados à teoria e à prática das políticas públicas para estu- dantes, pesquisadores, gestores públicos e cidadãos interessados na compreensão da gestão pública con- temporânea e suas relações internas e externas, es- tendendo o número de verbetes analisados. Pôster do filme: Título: Um sonho intenso (documentário) Ano: 2014 Sinopse: documentário do cineasta José Mariani, traz como protagonista o processo histórico, social e eco- nômico do Brasil dos anos 30 até os dias de hoje. Um painel inteligente e surpreendente do processo de de- senvolvimento do país visto pelo olhar crítico de econo- mistas, sociólogos e historiadores. Comentário: tendo em vista dos diferentes regimes po- líticos em vigor no período, o filme perpassa a confor- mação das políticas públicas no país ao longo do tempo. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) é um órgão vinculado ao Governo Federal que coleta, organiza e disponibiliza dados sobre inúmeros in- dicadores nacionais de natureza demográfica, econômica, social e política, por exemplo. Há séries temporais, em alguns casos, desde meados do século XIX. Web: <https://www.ibge.gov.br/> PÁGINA 56 REFERÊNCIAS ALMEIDA, P. R. de. Sobre políticas de governo e políticas de Estado: dis- tinções necessárias. Disponível em: <https://www.institutomillenium.org.br/arti- gos/sobre-politicas-de-governo-e-politicas-de-estado-distincoes-necessarias/>. Acesso em: 13 set. 2018. ALVES, J. E. D.; CAVENAGHI, S. 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Plano de Estudo: • Redemocratização e Constituição cidadã; • Ações coletivas; • Instituições participativas. PÁGINA 60 INTRODUÇÃO Nas unidades anteriores, discutimos sobre aspectos teóricos relacionados aos conceitos de Estado, governo, políticas públicas e seus aspectos, como a diferenciação entre políticas de Estado e governo, e as etapas do ciclo de uma política. Em todas as unidades, destacamos tanto aspectos teóricos quanto análises e dados referentes ao caso brasileiro, a fim de contribuição com a formação de profissionais com conhecimento acerca da realidade social contemporânea. Nesta última unidade de estudos, nosso objeto de estudos é especificamente o caso brasileiro, de modo que as três seções destacam elementos relevantes às análises sobre políticas públicas. Na primeira seção, estabelecemos um breve histórico do contexto sócio-político nacional até o início do período democrático recente, bem como destacamos o contexto e as principais mudanças legais instituídas pela Constituição de 1988. Na sequência, abordaremos aspectos que conformam os espaços de desen- volvimento de ações sociais, de estabelecimento e fortalecimento de grupos de pressão e que buscam o diálogo com o poder público, bem como os reflexos daatuação da sociedade civil e do Estado, em termos de avanços na efetivação dos direitos sociais determinados pela Constituição Federal de 1988. Nesse sentido, a segunda seção desta unidade aborda os avanços em termos de organização social da população brasileira, especificamente por meio de três formas de ação coletiva, quais sejam: as organizações do Terceiro Setor, as as- sociações e os movimentos sociais. De modo a concluir esta unidade e nosso estudo, a terceira seção trata dos mecanismos produzidos pelo Estado brasileiro para possibilitar o engajamento da população nas discussões sobre os caminhos das políticas públicas no país, que fazem do Brasil um destaque internacional com relação aos espaços parti- cipativos. Bons estudos! PÁGINA 61 SAIBA MAIS 1 REDEMOCRATIZAÇÃO E CONSTITUIÇÃO CIDADÃ Desde a instauração da República em 1889, o Brasil foi cenário de muitas re- voltas, lutas e mobilizações sociais, como a revolta da vacina, os primeiros mo- vimentos grevistas e as pressões que culminaram na criação do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio – até a década de 1930. Dentre vitórias substan- ciais de demandas sociais, destaca-se especialmente a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada na década de 1940. A obra “A integração do negro na sociedade de classes”, de Florestan Fernan- des, é um importante marco analítico acerca da maneira como a miscigenação e a urbanização ocorreram no Brasil até a primeira metade do século passado. PÁGINA 62 Para além desses resultados positivos, o país sofreu um período de retração no acesso a direitos e à mobilização social entre 1964 e meados da década de 1980, por conta do regime militar que, dentre outras ações, extinguiu partidos po- líticos e proibiu manifestações públicas relacionadas à política.Naquele contexto, setores da população se organizaram em torno da resistência política à ditadura e passaram a encampar lutas tanto por pautas específicas quanto pela retomada da democracia (SADER, 1988; AVRITZER, 1997; SCHERER-WARREN, 2012). As manifestações por “Diretas já!”, o fim do bipartidarismo e a aprovação da reto- mada do voto direito para presidente foram passos importantes à redemocratiza- ção, que tem na Constituição de 1988 sua principal base. Tal Carta Magna ficou conhecida como “Constituição cidadã” por conta de aspectos que ampliaram os direitos dos brasileiros e os mecanismos de participação social. Sobre o primeiro aspecto, a legislação define, em seu primeiro artigo, o seguinte: Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: I - a soberania; II - a cidadania; III - a dignidade da pessoa humana; IV - os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa; V - o pluralismo político. Parágrafo único. Todo o poder emana do povo, que o exer- ce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição (BRASIL, 1988). Dentre os fundamentos da República brasileira, de acordo com o novo texto, é possível destacar a relevância dos aspectos a serem valorizados pelo regime democrático: a autoridade soberana do Estado (inclusive diante de grupos que busquem o poder), a preocupação com a ampliação efetiva da cidadania (até então regulada, como visto em unidade de estudos anterior), a valorização da dignidade humana (o que rompia com o tratamento ofertado pelo regime militar àqueles contrários ao poder instituído), o reconhecimento de aspectos laborais e econômicos e o respeito à organização de grupos em partidos com diferentes ideários políticos. Em seus artigos seguintes, a nova Carta Magna determinou, dentre outros as- pectos, a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, na qual fossem garantidos os direitos à vida, liberdade, igualdade, segurança e propriedade, bem como os objetivos de erradicação da pobreza e da marginalização combinadas com diminuição de desigualdades sociais e regionais e ainda a promoção do bem de todos, sem preconceito ou discriminação. PÁGINA 63 Em se tratando de direitos sociais, a lei define amplo conjunto de áreas de po- líticas públicas, como educação, saúde, moradia, previdência social e trabalho como responsabilidades do Estado para com os brasileiros. Houve, também, de- terminação do sufrágio universal (com facultatividade para analfabetos, jovens entre 16 e 17 anos e idosos com 70 anos ou mais), determinação de voto secreto e direto e estabelecimento de mecanismos de participação, como plebiscito, re- ferendo e iniciativa popular. Ademais, a Constituição extinguiu distinções quanto às diferentes ocupações, com relação a postos/funções ou condição urbana/rural ao definir, um conjunto de cerca de trinta direitos dos trabalhadores em artigo cujo caput indica que “são direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social: [...]” (BRASIL, 1988, art. 7º). Dentre os demais artigos da Constituição cidadã, destacamos, neste estudo, mais dois temas. O primeiro trata de sindicatos e manifestações. Diferentemente do tratamento conferido às organizações operárias no período militar, a Carta Magna de 1988, define aspectos que permitem a livre associação profissional e sindical (artigo 8º), o direito à realização de greves (artigo 9º) e de representação dos trabalhadores junto aos colegiados (no caso de órgão público – artigo 10) ou aos empregadores (artigo 11). O segundo aspecto diz respeito à cidadania e serviços e remete a conquistas e oferta de políticas públicas, não restrita apenas a garantia dos direitos sociais, mas também extensiva, por exemplo, a que pessoas portadoras de deficiência e os idosos recebam salário mínimo para subsistência, possibilidade de participa- ção da população na formulação de políticas públicas e controle de ações esta- tais, e estruturação das áreas de saúde e assistência social, de modo a tornar a primeira pública, gratuita e universal e a segunda pública, gratuita e direcionada aos que dela necessitem. As garantias acerca de possibilidades de organização e acesso a direitos, contribuíram para a reestruturação democrática do país. Nesse contexto, as ações coletivas e a participação política voltaram a se destacar, no que foram acompanhadas pela emergência de mecanismos de participação institucional. PÁGINA 64 REFLITA 2 AÇÕES COLETIVAS Haja vista que o processo de globalização afetou não apenas o mercado econômico, mas também as demais áreas da organização das sociedades, as formas de mobilização da sociedade sofreram efeitos expressivos nas últimas décadas, o que refletiu, inclusive, em como campos de estudos como Sociolo- gia e Ciência Política interpretam as maneiras como as ações são articuladas e conduzidas. Sobre tal alteração, que ocorreu, também, no Brasil, Scherer-Warren (2012) des- taca dois pontos relevantes. O primeiro diz respeito à identificação de distintas possibilidades de organização dos indivíduos, as quais a autora denomina ações coletivas: [...] expressão ações coletivas tem sido geralmente utiliza- da, mesmo na academia, como definição de um conceito empírico para se referir a toda e qualquer forma de ação reivindicativa ou de protesto realizada através de grupos so- ciais, tais como associações civis, agrupamentos para a de-fesa de interesses civis comuns e organizações de interesse público (SCHERER-WARREN, 2012, p. 19). Tal conceito se refere a amplo espectro de modalidades, com diferentes interes- ses e níveis de atuações, o que pode incorporar desde a atuação de uma organização não governamental (ONG) ou organização da sociedade civil, (OSC) que realiza seu trabalho em uma comunidade ou bairro de determinado município até organismos de atuação nacional, como o Movimento dos Sem-Terra (MST) no Brasil, ou internacionais, como a World Wide Fund for Nature (WWF) – ONG internacional que atua na conservação, investigação e recuperação ambientalem todo o mundo. Quantas diferentes formas de organização atuam no entorno de sua realidade social? Pense, pesquise, informe-se sobre atividades desenvolvidas por ONGs, associações comunitárias, iniciativas de responsabilidade social desenvolvidas por empresas e/ou agrupamentos religiosos, por exemplo. PÁGINA 65 O segundo aspecto destacado por Scherer-Warren (2012) diz respeito à arti- culação das ações coletivas na contemporaneidade. Conforme a autora, essa articulação pode ocorrer em três níveis, conforme a complexidade de sua orga- nização: [1] redes sociais, quando se trata de laços estabelecidos por conta de continuidade entre as ações ou de interação em sua execução, sem necessidade de organização formal e maior possibilidade de ação conduzida por indivíduos; [2] coletivos em rede, referem-se as articulações entre ONGs ou outras orga- nizações em torno de categorias temáticas específicas, como o Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais para o Meio Ambiente e Desenvolvimento, que reúne distintos atores coletivos que se mobilizam por causas ambientais; e [3] movimentos sociais em rede, em alusão às uniões de movimentos sociais em torno de causas gerais ou específicas, sendo que em diferentes momentos é possível haver articulações em redes também distintas, por conta dos objetivos, interlocutores e demandas em pauta. Movimentos sociais, enfim, são redes sociais complexas, que transcendem organizações empiricamente delimitadas e que conectam, de forma simbólica, solidarística e estra- tégica, sujeitos individuais e atores coletivos, que se orga- nizam em torno de identidades ou identificações comuns, da definição de um campo de conflito e de seus principais adversários políticos ou sistêmicos e de um projeto ou uto- pia de transformação social (SCHERER-WARREN, 2012, p. 21). Nesse sentido, é possível pensar como o desenvolvimento de ações coletivas implicou em alterações nas articulações e conquistas ao redor do mundo, mas, focando em nosso objeto de interesse, trataremos de conquistas sociais no caso brasileiro. Os dados oficiais mais recentes disponibilizados pelo Instituto de Pesquisa Eco- nômica Aplicada (IPEA, 2018), referentes ao ano de 2016, apontam a existência de 820.186 OSCs em exercício no Brasil, com distribuição e crescimento contí- nuo em todas as unidades da federação e segmentos. Em paralelo ao crescimento das entidades legalmente constituídas com atua- ção social, houve, também, expansão do associativismo no Brasil, porém este é mais, dificilmente, mensurável em termos institucionais por conta de sua carac- terização, uma vez que não há necessidade de formalização jurídica, e mesmo sua finalidade pode se manifestar como pontual ou perene, tanto que mesmo entre teóricos políticos não há consenso sequer sobre um conceito de associati- vismo (PUTNAM, 1995; COHEN; ROGERS, 1995; WARREN, 2001; SCHERER- -WARREN, 2004; LÜCHMANN, 2016). Nesse sentido, Warren (2001) destacou que tal campo é diverso, complexo, plural, amplo e multifacetado. PÁGINA 66 No entanto, é fato a relevância das associações da sociedade civil com atua- ção na esfera pública, de modo que tanto autores internacionais (HABERMAS, 1997; COHEN, 1999, por exemplo) quanto nacionais (como LÜCHMANN, 2016) apontam que cabe a tais entidades “[...] a construção, na esfera pública, da formação da opinião e da vontade, influenciando o poder político institucional” (LÜCHMANN, 2016, p. 46), além de se constituírem como recursos à atuação de movimentos sociais e de bases ou estruturas de mobilização aos processos políticos (MCADAM; MCCARTHY; ZALD, 2008) e de se apresentarem como alternativas tanto para o desenvolvimento local quanto ao desenvolvimento social e econômico regional no país (AGUIAR, 2007; LEONELLO; COSAC, 2008; BATTISTI; DENUZI, 2009; ALVES et al, 2011). Assim, o associativismo contribui para que a sociedade se constitua de maneira ativa, autônoma e diversificada, o que é essencial para o desenvolvimento da democracia, pois as articulações dos cidadãos permitem a expressão de demandas e problemas sociais, bem como são capazes de estimular a inclusão de atores individuais e coletivos na vida democrática. Além disso, “[...] as associações também exercem um papel mais ativo na promoção de espaços e atividades de interação com o Estado, como a implementação ou execução de políticas públicas, por exemplo” (LÜCHMANN, 2016, p. 49). Dados de opinião pública, coletados desde a redemocratização e disponíveis na página do Centro de Estudos de Opinião Pública da Universidade Estadual de Campinas (CESOP/UNICAMP), apontam relativa estabilidade nos percentuais de brasileiros que participam de sindicatos, associações educacionais, culturais, esportivas, de proteção ao meio ambiente, profissionais e partidos políticos. Entre as modalidades associativas, destacam-se as religiosas, especialmente por conta da manutenção do número de brasileiros que se envolvem em atividades relacionadas à temática e da elevação daqueles que se declaram evangélicos e protestantes, e as associações comunitárias ou de bairros, categoria na qual o envolvimento dos brasileiros sofreu expressiva elevação entre 1991 e 2014, superior a 100%, ainda que não seja este o vínculo associativo com maior participação dos cidadãos. De modo geral, a permanência do percentual de envolvimento em boa parte das categorias associativas demonstra, por um lado, o crescimento do número de brasileiros engajados; mas, por outro lado, aponta que para a maioria das mo- dalidades de envolvimento, a tessitura social não tem se expandido para além da taxa de crescimento populacional. Contudo, há de ser destacado o efeito do crescimento das religiões cristãs não católicas sobre a política, por conta das atuações considerada conservadora e da argumentação contrária àquela de Estado laico nos debates e pautas políticas do Legislativo, e ainda a forte expressão do associativismo local, representado pela articulação em rede de indivíduos de comunidades e bairros em torno de demandas e lutas sociais, o que, em alguma medida, pode estar relacionado às experiências democráticas de orçamentos Participativos, os quais serão abordados ainda nesta unidade de estudos. PÁGINA 67 Por fim, sobre o associativismo, cabe destacar a relevância de tal mecanismo de ação coletiva à representação política e à participação institucional. Com relação ao primeiro aspecto, as pesquisas de Almeida, Lüchmann, Ribeiro (2012) e Silva (2015) demonstram a relação entre vínculos associativos e a atuação de parlamentares federais brasileiros na Câmara dos Deputados para as legislaturas entre 2003 e 2015. Sobre o segundo aspecto, os vínculos associativos são determinantes para o envolvimento dos indivíduos com a esfera pública por meio de conselhos de políticas públicas no Brasil, aspecto que reforça a importância de tal modalidade de engajamento social à tessitura social no país (LÜCHMANN; ALMEIDA; GIME-NES, 2016). Em se tratando de movimentos sociais, qualquer tentativa de mensuração é, ainda, mais dificultosa do que quando se trata do associativismo, já que, como destacado por autores, anteriormente mencionados, tais movimentos podem se constituir em paralelo ou em diálogo com outras modalidades de engajamento, como as ONGs, o associativismo ou, ainda, ações de grupos mobilizados em redes. Para além de sua relevância aos processos e lutas políticas no país, desde a ultima década do século passado, os movimentos sociais têm se caracterizado por outros aspectos, de modo que, para Gohn (2010; 2011), neste início do milênio, houve expansão das formas de ação coletiva e de pautas, com destaque aos movimentos populares que buscam a redução de carências socioeconômicas, como aqueles de lutas por moradias e outras questões urbanas, em torno de questões ambientais urbanas e rurais, por questões identitárias e relacionados a temas como democratização do setor de comunicações e antiglobalização. Tais movimentos têm, tambémse articulado em redes de ações coletivas, e a pauta de interesse, demandas e lutas se diversificaram ao longo das décadas sob o regime democrático, o que, conforme a plataforma de direitos se amplia, permite que grupos de atores coletivos percebam novas possibilida- des de combinação de identidades políticas e valores, os quais culminam na transversalidade de lutas por direitos e cidadania. PÁGINA 68 3 INSTITUIÇÕES PARTICIPATIVAS Ao longo desta disciplina, houve algumas menções às práticas de participação institucional, bem como ao seu destaque com relação à articulação de interesses e como repertório de ação política. Este tópico é dedicado a tal inovação político- -administrativa brasileira, cujo início se deu em meio à redemocratização nacio- nal na década de 80 e, especialmente, após o fortalecimento de ações coletivas e da participação individual nesse processo histórico. Com relação à sua materialidade, a participação institucional é ampla e multifa- cetada, de modo que “a diversidade dos experimentos pode ser vista nos níveis de governo em que são aplicados, nas áreas de políticas públicas e nos contex- tos políticos e regionais [...]” (ALMEIDA, 2013, p. 12) e que são diversos os con- ceitos que buscam expressar tal fenômeno, como de instituições participativas (AVRITZER, 2009) ou de controle social (LÜCHMANN, 2011), por exemplo. De modo geral, é possível inferir que a participação institucional diz respeito ao conjunto de mecanismos legais, por meio dos quais o Estado promove a interação com a sociedade, a fim de formular políticas públicas e redistribuir bens e serviços, em atendimento aos direitos sociais previstos na Constituição. Segundo Avritzer, Santos (2003) e Avritzer (2009), instituições participativas promovem o relacionamento entre Estado e sociedade por meio da operação de princípios de participação e de representação de maneira simultânea, com destaque a dois aspectos. Primeiramente, saliente-se que há uma crise de representatividade em curso, na qual os partidos políticos e sua capacidade de representação dos interesses dos indivíduos são amplamente questionados em democracias ao redor do mundo, inclusive no Brasil, por conta da pluralidade de demandas. Em segundo lugar, e em decorrência do primeiro ponto, há a necessidade de emergência de mecanismos de participação que equalizem complexidades e a pluralidade social, de modo que “tais manifestações retomam a importância da participação ativa do cidadão na vida política, surgindo mediações entre Estado e sociedade para além do momento tradicional do voto” (ALMEIDA, 2013, p. 11), de modo que a democratização da democracia passaria pela complemen- tariedade entre representação e participação (AVRITZER; SANTOS, 2003). Segundo Almeida (2013, p. 11), “esse movimento em direção à sociedade civil e a crescente força de suas manifestações não são privilégios do contexto nacio- nal”, uma vez que há experiências de participação institucional, também, em ou- tros países (CASTIGLIONE; WARREN, 2006; DELESPOSTE; GIMENES, 2015; GIMENES, 2015), mas o caso nacional destaca-se como modelo e exemplo do desenvolvimento de modalidades de participação institucional (GIMENES, 2015; 2017). PÁGINA 69 Para além do controle do Estado, os mecanismos de participação institucional representam, também, espaços para a tomada de decisões coletivas acerca de políticas públicas de diferentes áreas, e representam uma importante alteração democrática: o Brasil passou, nas duas últimas décadas do século XX, da con- dição de país com baixa propensão à participação associativa à nação de des- taque, por conta de mecanismos de participação institucional (AVRITZER, 2015). Esse é o contexto em que operam instituições participativas, como conselhos, conferências, audiências públicas e orçamentos participativos (OPs), sobre as quais serão tratados brevemente em termos de definição e características. PÁGINA 70 Conselhos de Políticas Públicas Os conselhos de políticas públicas se constituem em espaços politicamente or- ganizados, nos quais são discutidos aspectos relacionados a políticas públicas específicas. De modo geral, Castro (2012) define suas funções como sendo as seguintes: formular, acompanhar, monitorar e deliberar sobre questões relacio- nadas a políticas públicas. Os primeiros conselhos foram criados em decorrência da Constituição de 1988, com vistas à garantia de direitos sociais e à abertura da política institucional à participação cidadã, uma vez que levantamento de dados da Secretaria Geral da Presidência da República apontou, até o ano de 2014, a existência de 62.562 conselhos municipais em funcionamento no país (GIMENES, 2017). No entan- to, conforme pesquisa nacional no âmbito do Projeto Democracia Participativa (PRODEP, 2011), apenas cerca de 2% dos brasileiros participa de conselhos municipais de políticas públicas. Em se tratando de características, os conselhos existem nas esferas municipais, estaduais e federais, sendo obrigatórios para algumas áreas de políticas públicas – como assistência social, saúde e direitos da criança e do adolescente – e facultativos para as demais áreas. O primeiro grupo está presente em praticamente todo o território nacional, ainda que com constituição meramente formal, uma vez que o recebimento de recursos do Estado para o desenvolvimento de determinadas ações, depende da existência desse mecanismo de participação institucional. Já os conselhos das demais áreas podem se constituir com diferentes compo- sições, desde específicos para cada política – como de combate às drogas, de defesa do meio ambiente, transportes, turismo, desenvolvimento urbano, direitos da mulher, comunidade negra, arborização urbana etc. – até mesmo àqueles que reúnem grupos com algum aspecto em comum, como conselhos de direitos de minorias – incluídas demandas e temáticas referentes a mulheres, minorias étnicas, população LGBT, idosos e deficientes físicos, por exemplo. Outra característica relevante dos conselhos é seu desenho institucional, para o qual não há padrão determinado. Conforme Lüchmann, Almeida e Gimenes (2016), em estudo acerca de 140 conselhos das áreas de assistência social, saúde e meio ambiente nas três esferas de governo e entre todas as regiões do país, de acordo com a esfera de governo e a área de política pública, há di- ferenças na composição (se paritária ou com maior presença de representantes da sociedade civil ou do governo), no método de escolha dos representantes da sociedade civil (se por eleição, indicação do setor, por entidade ou mesmo indi- cação do governo), na competência (se deliberativo ou apenas consultivo) e no perfil dos membros (quanto à quantidade e gênero, para ambos os segmentos). PÁGINA 71 Além desses aspectos, há que se destacar, ainda, a maneira como os temas são discutidos: se em assembleia diretamente ou primeiramente entre comissões de estudos e somente depois entre a totalidade dos membros. Por fim, destaque-se uma característica relevante dos conselhos municipais, qual seja o fato de que a participação da sociedade ocorre de duas maneiras dis- tintas: a primeira diz respeito à ocupação de cadeira como membro do conselho, que cabe aos representantes definidos conforme a legislação, e majoritariamen- te recai sobre indivíduos engajados em ações coletivas – como organizações do Terceiro Setor, movimentos sociais ou associações –, os quais têm direito a voz e voto; e o segundo corresponde à população em geral, que pode assistir às reu- niões do conselho, mas necessita de autorização para manifestação oral (salvo exceções e conforme determinações em legislação específica). Conferências de políticas públicas Conferências são reuniões de representantes de grupos de determinada área de política pública, as quais têm por finalidade o “[...] debate público sobre as relações federativas no contexto das políticas e o estabelecimento de pactos entre representantes de governos municipais, estaduais e o governofederal” (ROMÃO, 2014, p. 8). Diferentemente dos conselhos, as conferências representam uma modalidade de participação institucional surgida, ainda na década de 40, durante o governo Vargas, quando da realização da primeira conferência nacional de saúde. Até o ano de 2002, ocorreram 41 conferências no Brasil, sendo que o desenvolvimen- to dessa modalidade ocorreu de maneira mais expressiva, após, a ascensão do Partido dos Trabalhadores (PT) ao governo federal – foram realizadas 82 conferências entre 2003 e 2010, nas mais diversas áreas, como assistência social, direitos humanos e saúde, por exemplo (SOUZA et al., 2013). Segundo a pesquisa do PRODEP (2011), cerca de 6% dos brasileiros já participaram de conferências. De modo geral, são características das conferências a convocação pelo Poder Executivo Federal, a participação da sociedade civil e do Estado, a realização de etapas preparatórias nos municípios e estados, com eleição/escolha de repre- sentantes para “avançar” às demais instâncias e as formulações de propostas ao longo das etapas. PÁGINA 72 Audiências públicas Audiências públicas consistem em reuniões convocadas pelo poder público para dialogar com a população com relação a temas específicos, geralmente latentes e sobre os quais a população apresenta demandas, reclamações e pode propor ações. Segundo Batista (2012), essa modalidade de participação institucional constitui um instrumento de transparência na gestão pública, previsto na Lei de Respon- sabilidade Fiscal (Lei Complementar no 101/2000), bem como na lei que regula os processos administrativos no âmbito da Administração Pública Federal (Lei no 9784/1999) e no Estatuto da Cidade (Lei no 10257/2001). Um exemplo de audiência pública remete ao período de realização das manifes- tações de rua de junho de 2013, especialmente em seu momento inicial, quan- do em muitos municípios foram convocadas audiências públicas para discutir aspectos relacionados ao transporte coletivo. Debates sobre destinação do lixo doméstico e sobre investimentos em infraestrutura também são pautas de au- diências, por exemplo. Dados coletados pelo Latin American Public Opinion Project (LAPOP), apontam que cerca de 6,4% dos brasileiros já assistiram audiências públicas em Câmaras de Vereadores até 2012 (GIMENES, 2017). Ainda que não seja a melhor maneira de estabelecer o questionamento (a pergunta continha a determinação do local “Câmara de Vereadores”, o que pode reduzir o número de respostas positivas de participantes por conta dessa limitação), é a única informação disponível nesse sentido. Orçamentos participativos A primeira experiência de Orçamento Participativo (OP) na data de 1989, foi implementada pelo governo denominado Frente Popular (PT e Partido Comunista Brasileiro – PCB), em Porto Alegre (RS), quando a prefeitura instituiu um mecanismo institucional municipal para discussão sobre um percentual específico do orçamento público por meio do envolvimento direto da população, o que elevou a transparência no processo deliberativo sobre demandas e interesses sociais (ROMÃO, 2010). Segundo Gimenes (2017), o OP passou por expressiva expansão no Brasil, ao longo da década de 90, e sofreu retração nos anos 2000, em decorrência, princi- palmente, de mudanças entre prefeitos de diferentes partidos, coligações e ideo- logias. Ainda assim, entre 2005 e 2008 havia mais de 200 municípios com OPs em funcionamento (AVRITZER; WAMPLER, 2008) e, em 2012, tal número girava em torno de 350 experiências. Ainda assim, apenas cerca de 3% da população PÁGINA 73 já se envolveu nessa modalidade institucional (PRODEP, 2011). Um detalhe interessante a mencionar é, que os OPs assumem diferentes desenhos institucionais nos municípios onde funcionam, conforme observado em estudo de Borba e Lüchmann (2007). Dentre tais características, a maneira como as reuniões se desenvolvem podem se desdobrar entre discussões abertas a toda a população ou com etapas diferenciadas, nas quais a participação seria global no início e por meio de representantes (delegados ou conselheiros), posteriormente (ROMÃO, 2010). Ademais, esta é a modalidade de participação institucional mais replicada, também, em outros países, de modo que, em 2016, havia registros de mais de 1500 experiências em países da América Latina, Europa, África, Ásia e Oceania (GI-MENES, 2015). PÁGINA 74 CONSIDERAÇÕES FINAIS No período democrático recente, para além das possibilidades de participação individual relacionadas ao âmbito eleitoral e às autoridades e instituições e do engajamento em modalidades contestatórias, o cenário da participação social se apresenta positivo no Brasil. Conforme discutido nesta unidade de estudos, nas últimas três décadas houve expressivo crescimento do número de organizações da sociedade civil formal- mente constituídas no país, efeito não perceptível em medida semelhante com relação ao associativismo, à exceção das organizações religiosas. Ademais, ocorreu a ampliação das pautas dos movimentos sociais, cuja pluralização tem conduzido à emergência de novos atores coletivos. A resposta institucional às demandas organizadas da população, por vias indi- viduais, coletivas e institucionais de participação, tem refletido em ampliação do atendimento ao disposto na Constituição federal no que tange à efetividade dos direitos sociais, como evidenciou-se por meio da relação de normas jurídi- cas que, desde o início da primeira década do século XXI, constituem políticas públicas que promovem a inclusão de grupos na sociedade e a melhoria das condições sociais e/ou econômicas da população mais necessitada. O cenário apresentado é positivo e os desafios aos profissionais que atuam em atividades relacionadas às políticas públicas também é grande. Daí a necessi- dade de conhecer atores, discursos, demandas, mecanismos de intervenção e engajamento político desses grupos, objetivo para o qual esta última unidade de estudos contribuiu ao estabelecer o cenário atual do relacionamento da sociedade e atores coletivos com o Estado brasileiro. PÁGINA 75 MATERIAL COMPLEMENTAR FILME LIVRO Capa do livro: Título: Trajetórias das desigualdades: como o Brasil mudou nos últimos cinquenta anos Autora: Marta Arretche (Organizadora) Editora: Universidade Estadual Paulista Júlio de Mes- quita Filho Sinopse: tema inesgotável da agenda pública, o debate sobre a desigualdade no Brasil é objeto de paixões de- senfreadas. Discussões impetuosas, travadas ao sabor das conveniências de ocasiões, quase sempre turvam diagnósticos abrangentes e necessários para a compreensão desse fenômeno. Esta obra navega em direção contrária e procura caminhar além do terreno da especulação. Os catorze ensaios aqui reunidos, descrevem um panorama denso e complexo das trajetórias das desigualdades de 1960 a 2010. Pôster do filme: Título: Que horas ela volta? Ano: 2015 Sinopse: depois de deixar a filha no interior de Pernam- buco e passar 13 anos como babá do menino Fabinho em São Paulo, Val tem estabilidade financeira, mas con- vive com a culpa por não ter criado sua filha Jéssica. Às vésperas do vestibular do menino, no entanto, ela rece- be um telefonema da filha que parece ser sua segunda chance. Jéssica quer apoio para vir a São Paulo prestar vestibular. Com alegria e ao mesmo tempo apreensão, Val prepara a tão sonhada vinda da filha, apoiada por seus patrões. Mas quando Jéssica chega, a convivência é difícil. Ela não age dentro do protocolo esperado para ela, o que gera tensão dentro da casa. PÁGINA 76 NA WEB Pesquisas sobre distintas modalidades de engajamento político em perspectiva longitudinal compõem o projeto de cooperação acadêmica (PROCAD-CAPES), “Mudanças e permanências nos padrões de participação política no Brasil: análise longitudinal do envolvimento político dos brasileiros (1988-2013)”, coordenado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em parceria com a Universidade Estadual de Maringá (UEM) e a UniversidadeEstadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP - Araraquara). Disponível em: <http://participacaopolitica.cfh.ufsc.br/>. PÁGINA 77 REFERÊNCIAS AGUIAR, A. M. L. O desafio do Associativismo na Agricultura Familiar: o caso dos Produtores Rurais Feirantes do Município de Pato Branco-PR. 2007. 161 f. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais Aplicadas) - Universidade Es- tadual de Ponta Grossa, Ponta Grossa, 2007. ALMEIDA, C.; LUCHMANN, L. H. H.; RIBEIRO, E. Associativismo e represen- tação política no Brasil. 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Discorri sobre o roteiro de nossa viagem, passando por abordagens teóricas, conceituais, empíricas e analíticas. Especificamente com relação às políticas públicas, a discussão teórica demons- trou tanto a multiplicidade quanto a dificuldade em estabelecer seu conceito, bem como nos permitiu compreender o que se define como políticas de Estado e como políticas de governo. Além desses aspectos, focamos nossos olhares à avaliação de políticas públicas, mister ao desenvolvimento das atividades rela- cionadas à área e que deve resultar em feedbacks capazes de otimizar a utili- zação de recursos (materiais, financeiros, estruturais e de pessoal) para que se alcancem os direitos sociais previstos na Constituição federal. Esse caminho nos trouxe à discussão sobre a realidade nacional, para a qual conhecemos os processos históricos recentes de natureza política e social que permearam a construção das lutas por direitos, com destaque à nossa Carta Magna “cidadã”, e traçamos um perfil de nossa gama de possibilidades de parti- cipação social, cujos reflexos mais positivos consistem na materialização de um amplo conjunto de políticas públicas, as quais, de maneira resumida, podemos afirmar que contribuem para a consecução do regime democrático brasileiro. O caminho foi traçado, a viagem foi realizada! Que novos caminhos se abram a novas reflexões e análises e que estas convirjam para o avanço da gestão pú- blica no país!