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Brasília-DF. Panorama da Cultura e das artes: as linguagens da Produção Cultural Elaboração Tania Maria dos Santos Produção Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração Sumário APRESENTAÇÃO ................................................................................................................................. 5 ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA .................................................................... 6 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 8 UNIDADE I CONCEITUAÇÃO DE ARTE ..................................................................................................................... 9 CAPÍTULO 1 O QUE É ARTE? ........................................................................................................................ 9 CAPÍTULO 2 BREVE RESUMO DA HISTÓRIA DA ARTE .................................................................................... 14 CAPÍTULO 3 PERIODIZAÇÃO DA HISTÓRIA DA ARTE .................................................................................... 16 UNIDADE II AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS ................................................................................................................ 25 CAPÍTULO 1 ARTES VISUAIS ......................................................................................................................... 27 CAPÍTULO 2 DANÇA .................................................................................................................................. 46 CAPÍTULO 3 TEATRO ................................................................................................................................. 54 CAPÍTULO 4 TECNOLOGIA E TRANSFORMAÇÃO CULTURAL – FOTOGRAFIA E CINEMA ................................. 59 CAPÍTULO 5 MÚSICA ................................................................................................................................. 66 UNIDADE III ARTE CONTEMPORÂNEA ...................................................................................................................... 68 CAPÍTULO 1 A DIVERSIDADE NAS LINGUAGENS ARTÍSTICAS CONTEMPORÂNEAS ......................................... 72 CAPÍTULO 2 AUDIOVISUAL ......................................................................................................................... 83 UNIDADE IV O CONCEITO DE CULTURA .................................................................................................................. 86 CAPÍTULO 1 A CULTURA E AS DIFERENTES CONCEITUAÇÕES E FUNÇÕES .................................................... 86 CAPÍTULO 2 PRODUÇÃO CULTURAL ........................................................................................................... 90 CAPÍTULO 3 APRESENTAÇÃO E DISCUSSÃO DO PANORAMA DA ARTE E CULTURA NO MUNDO CONTEMPORÂNEO ................................................................................................................ 93 CAPÍTULO 4 RISCOS E DESAFIOS PARA A MANUTENÇÃO DOS PATRIMÔNIOS CULTURAIS DA HUMANIDADE ................................................................................................ 127 REFERÊNCIAS ................................................................................................................................ 130 5 Apresentação Caro aluno A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade. Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da Educação a Distância – EaD. Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo. Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira. Conselho Editorial 6 Organização do Caderno de Estudos e Pesquisa Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares. A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos Cadernos de Estudos e Pesquisa. Provocação Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor conteudista. Para refletir Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões. Sugestão de estudo complementar Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo, discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso. Atenção Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a síntese/conclusão do assunto abordado. 7 Saiba mais Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões sobre o assunto abordado. Sintetizando Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos. Para (não) finalizar Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado. 8 Introdução Seja bem-vindo à disciplina Panorama da Cultura e da Arte. Esta disciplina aborda o que é arte e seus diversos conceitos, iniciando por um breve resumo e periodização da história da arte, seguidos da apresentação das principais linguagens artísticas e seus conceitos; aborda, também, o que é cultura em diversas formas de expressão, objetiva pensar os delineamentos da cultura e da arte dentro da produção e reverberação dessas no mundo. Apesar de concisa, essa teoria introdutória se faz necessária para embasar as formas de expressão artísticas encontradas na atualidade. Dessa forma, traz um prisma de diferentes temas como: arte visuais, dança e suas dinâmicas, breve história da fotografia e do cinema como produção cultural, artes cênicas e performance, a rua como parte da cultura, dinâmicas da periferia e centro. Por fim, busca trazer de forma crítica e reflexiva um panorama da cultura e da arte contemporânea. Objetivos » Capacitar os egressos para promover a discussão, execução e a difusão de bens e projetos culturais dos mais variados campos dentro da sociedade e, assim, colaborar com o desenvolvimento e promoção da cultura em suas atuações profissionais. » Desenvolver a compreensão teórica e técnica em relação ao campo das artes e da cultura na sociedade contemporânea, dando aos alunos a capacidade e conhecimento para a construção, elaboração e avaliação de projetos culturais e políticas públicas voltadas para a área de cultura. » Proporcionar o conhecimento teórico e prático do próprio conceito de cultura, suas expressões e formas de produção, difusão e consumo. 9 UNIDADE ICONCEITUAÇÃO DE ARTE Nesta primeiraunidade do texto, você trabalhará com uma abordagem um pouco mais reflexiva e conceitual sobre a questão da arte. Em um primeiro momento, será elaborada uma breve digressão sobre as possibilidades e limites da conceituação de arte. Em um segundo momento, as questões específicas da história da arte e os seus principais métodos de abordagem serão rapidamente enunciados e discutidos. A seguir, será enfocada a questão das periodizações na história da arte e será proposto um quadro de periodização baseado em dimensões espaço-temporais. Este percurso é fundamental como base para seus estudos sobre arte, porque coloca as questões no campo de conhecimento correto e constrói o alicerce conceitual que irá sustentar a sua percepção e produção de conhecimento sobre arte. CAPÍTULO 1 O que é arte? Um curso sobre arte sempre coloca uma questão preliminar que, na verdade, incomoda a todos que trabalham com o tema. Afinal, o que é arte? Ao longo dos anos, as definições e conceitos de arte se multiplicam, e não se chega a um consenso. Assim, para iniciar a disciplina, sem que se pretenda esgotar o inesgotável, é necessário que se faça um recorte conceitual sobre o que será aqui considerado arte, mesmo sabendo que esse recorte será, de qualquer modo, reducionista e arbitrário, dada a ausência de um conceito consensual sobre o tema. Os vários teóricos da arte elaboraram formulações conceituais ou definições de arte que têm como principal característica o fato de serem excludentes. A ausência de consenso no campo conceitual leva a construir campos interpretativos diversos, fundados nos diferentes conceitos de arte. 10 UNIDADE I │ CONCEITUAÇÃO DE ARTE Para servir de guia nessa discussão, optou-se pelo pequeno, porém esclarecedor, trabalho de Giulio Carlo Argan (1994), “Guia de história da arte”, no qual o autor conduz a discussão a partir de uma digressão sobre o campo da arte: O campo fenomenal da arte é dificilmente delimitável: cronologicamente, compreende manifestações que vão da mais remota pré-história até aos nossos dias; geograficamente, todas as áreas habitadas da comunidade humana, qualquer que seja o seu grau de desenvolvimento cultural. Consideram-se artísticas atividades muito diferentes entre si: não apenas as chamadas artes visuais, [...], mas também a poesia, a música, a dança, o espetáculo, a jardinagem. [...] é impossível indicar categorias de objetos que, pelo simples fato de pertencerem a uma dessas categorias, sejam todos objetos artísticos (ARGAN, 1994, p. 13). Ainda que seja tomado como parâmetro o tamanho ou a complexidade, podem ser consideradas como arte desde obras minúsculas, miniaturas, até um complexo urbano inteiro. Tampouco se pode delimitar o artístico pela função da obra de arte. Um templo pode ser um lugar cuja função seja o encontro com o espiritual, mas pode ser uma obra de arte arquitetônica, decorada com obras de arte em forma de escultura, pintura, mosaico, entalhes... A celebração religiosa que ali se realiza é acompanhada por música, cantos e, às vezes, dança. Ali se encenam obras de arte teatral, cenas da história sagrada daquela religião e se narram literariamente os mistérios daquela fé. Outra tentativa de definir os limites do campo da arte passa pela excelência técnica. “Quase todas as técnicas praticadas pelo homem têm produzido por vezes obras artísticas, mas nenhuma técnica tem produzido sempre obras com valor artístico” (ARGAN, 1994, p. 13). Em todas as linguagens artísticas, encontraremos obras que serão consideradas obras de arte e outras não. Assim, pode-se concluir que o conceito de arte é um tipo de valor dado às coisas produzidas artisticamente nas mais variadas linguagens, porém esse valor não está no objeto final, acabado, produzido pelo artista em si. É, porém, um valor atribuído a partir de alguns pressupostos. Argan afirma que esse conceito sempre está ligado ao trabalho humano e às suas técnicas. E que essa relação consiste em uma operação que envolve uma atividade mental e uma atividade operacional. Porém, nem sempre o resultado dessa operação é considerado uma obra de arte. Assim sendo, o valor artístico 11 CONCEITUAÇÃO DE ARTE │ UNIDADE I será revelado pelas configurações visíveis, ou seja, pela sua forma, por meio da percepção e representação, no momento da experiência com o real. E a importância dada a essa experiência infere no valor que será atribuído a esse objeto, sendo, portanto, esses pressupostos que o definirão como obra de arte ou não (ARGAN, 1984, p. 14). A partir dessa explanação, fica claro que encontrar uma definição de arte abrangente o suficiente para abarcar todas as formas, dimensões e nuances da produção artística humana é algo impossível. Faz-se necessário um consenso mínimo sobre a atribuição do valor “arte” a algo produzido pelo homem. Isso quer dizer que, para uma obra ser considerada “obra de arte”, é preciso que uma consciência coletiva, a qual jamais será unânime, sequer hegemônica, assim o determine. Na cultura ocidental, já estão consolidadas as atribuições de valor de arte naquilo que chamamos de cânone1 da história da arte ocidental. Ou seja, alguns autores, técnicas e obras já são considerados produtores de obras de arte, consagrados como cânones, como padrão pré-estabelecido e sua natureza inquestionável. Os primeiros cânones estabelecidos na história da arte surgiram na Grécia, no período conhecido como clássico (arte greco-romana). E, durante quase quatro séculos, o cânone renascentista foi o norteador da arte aceita pelas academias e era almejado por todos os artistas. Importante ressaltar que, durante um longo período da história da humanidade, a produção artística esteve a serviço da Igreja. A arte tinha como função divulgar a história do cristianismo e doutrinar através da representação de cenas bíblicas reconhecíveis pelo povo, que, em sua grande maioria, não era alfabetizado nem tinha a permissão de acesso aos livros sagrados. Somente com a invenção da prensa por Gutemberg, a bíblia passa a ser produzida de forma mais rápida e se torna mais acessível ao homem renascentista. O que antes era feito à mão pelos frades copista e artistas – ou seja, a reprodução do texto e as iluminuras que serviam para ilustrar as passagens históricas e também como forma de descanso para os olhos – passou a ser feito pela técnica da impressão, sendo as imagens impressas pela técnica da gravura (xilogravura). No período do Renascimento, os artistas passam a estudar e investigar os princípios e cânones estabelecidos pela arte clássica e superam algumas limitações existentes na representação graças os novos conhecimentos como a perspectiva e a técnica do sfumato2, possibilitada pelo uso da tinta a óleo. 1 Regra padrão – principio absoluto do qual são retiradas diversas regras específicas. 2 Sfumato é uma técnica desenvolvida por Leonardo Da Vinci, em que ele conseguia um efeito de transição de luz e sombra tão suave, graduações quase imperceptíveis, dando uma maior noção de volume e realismo. 12 UNIDADE I │ CONCEITUAÇÃO DE ARTE Paralelamente a esse interesse dos artistas pela pesquisa, estudo e investigação da arte clássica no Renascimento, surge um mercado específico de arte, principalmente nas artes visuais, que, constrói um ranking de obras e autores, relacionando valor artístico com valor de mercado. No início do século XX, a partir da “revolução da luz” impressionista, dos movimentos vanguardistas de desconstrução da forma, do abandono do naturalismo e da narrativa nas obras de arte, temos o mercado como sendo a instância hegemônica de atribuição de valor artístico. O artístico, assim, passou de uma atribuição de valor de consciência a uma atribuição de valor de mercado. E esse é um fenômeno cujo ápice ocorre na arte contemporâneo mais recente. Figura 1. “Dama com um Arminho”, c. 1485, Leonardo da Vinci, Museu Czartoryski, Cracóvia. Fonte: http://www.historiadasartes.com/wp-content/uploads/2017/10/m_LeonardoVinciDamaArminho-1.jpg.Acesso em: 27/3/2020. O cânone se constrói naquilo que Argan (1994) chama de “literatura artística”: em todas as épocas e em todas as culturas existiu a consciência do valor artístico. As coisas de valor artístico sempre foram direta ou indiretamente associadas àqueles que a sociedade considerava os valores supremos: o culto do divino, a memória dos mortos, a autoridade do Estado, a História. Sempre as coisas em que 13 CONCEITUAÇÃO DE ARTE │ UNIDADE I se reconheceu valor artístico se transformaram em objeto de particulares atenções: expostas, admiradas, celebradas, conservadas, protegidas, transmitidas de geração em geração. A literatura que de diversas maneiras trata da arte é apenas um pálido testemunho parcial do valor atribuído à arte. Mas também por ela se vê como a arte foi desde a antiguidade uma das componentes essenciais, e por vezes verdadeiramente o eixo do sistema cultural. Dela se ocuparam os filósofos, cientes da impossibilidade de construir um sistema de saber sem ter em conta a arte: a partir do século XVIII criam-se, sucedendo-se até os nossos dias, autênticas filosofias da arte. Dela se ocuparam os literatos e, sobretudo os historiadores, conscientes da importância das obras de arte como factos históricos e acontecimentos memoráveis, na história religiosa e civil. Pelo meio do século XVI surge, com as Vite, de Georgio Vasari, a primeira história da arte específica, que traça o desenvolvimento orgânico dos factos artísticos por um período de cerca de três séculos, ilustrando os contributos originais das personalidades emergentes, de Cimabue a Miguel Ângelo. (ARGAN, 1984, pp. 14-15). Essa literatura artística se expressa, principalmente: em obras da tratadística de arte, que enunciam as normas do fazer artístico e dão indicações de como os artistas poderiam evitar erros e chegar à arte “perfeita”, ideal (para a época em que foram escritas, é claro); nas obras de crítica de arte, que pretendem definir regras de pertencimento a movimentos artísticos, atribuição de autoria e construir juízos de valor qualitativo em arte; e, como já visto, nas obras de história da arte. Assim, a arte não é um mero reflexo de uma conjuntura cultural e social, ela é um agente, um sujeito da história, e a história da arte é um campo historiográfico específico, mas que se encontra indissoluvelmente articulado à história geral da cultura, fornecendo a esta contribuições específicas de como a cultura é percebida e elaborada pela arte de forma particular. 14 CAPÍTULO 2 Breve resumo da história da arte Para esta disciplina, será privilegiada a história da arte, não apenas como produção histórica, mas também como elemento fundamental para a consolidação do cânone ocidental. Uma das formas mais usadas para a definição do cânone que fundamenta o consenso sobre o que é arte é a construção histórica do valor artístico, expressa na história da arte. Mas, efetivamente, é possível uma história da arte? E, se é, quais seriam os seus limites, fontes e métodos? Essas questões pareciam de resposta tranquila desde que Giorgio Vasari (1550), em “Vidas dos artistas”, construiu as bases para a construção do cânone renascentista na Itália. A forma e a metodologia de escrita histórica de Vasari permaneceram como padrão até o século XIX, quando a história da arte passou por uma redefinição radical, quer em relação a método e a objeto, quer em relação aos seus pressupostos teóricos, como pode ser visto no interessante livro de Germain Bazin (1989), “História da história da arte”. Essa mudança radical acabou, já na primeira década do século XXI, por levar ao questionamento radical da possibilidade de existência de uma história da arte, questionamento este posto já no anúncio da crise da pós-modernidade pelo movimento “morte da história da arte”. Mas, dentro do consenso do campo historiográfico ainda vigente, de existência de uma história da arte, deve-se perguntar, em primeiro lugar, qual é o seu objeto e a abrangência e limites de seu campo. Para Argan, a história da arte constitui um campo historiográfico próprio, que não consta somente do reagrupamento dos factos artísticos segundo certos critérios de ordem, mas visa também explicar historicamente toda a fenomenologia da arte. A obra de arte não é um facto estético que tem também um interesse histórico: é um facto que possui interesse histórico porque tem um valor artístico, é uma obra de arte. A obra de um grande artista é uma realidade histórica que não fica atrás da reforma religiosa de Lutero, da política de Carlos V, das descobertas científicas de Galileu. Ela é, pois, explicada historicamente, como se explicam historicamente os factos da política, da economia, da ciência. (ARGAN, 1984, p. 17). 15 CONCEITUAÇÃO DE ARTE │ UNIDADE I É evidente que isso não reduz nem retira a especificidade do campo artístico na construção da obra de arte. As questões enfrentadas e as respostas encontradas na produção de uma obra de arte são questões especificamente artísticas. Mas, como toda obra de arte é, por definição, um produto cultural, e porque a própria arte faz parte de um sistema cultural, há uma clara relação entre as questões artísticas e as questões sociais e culturais de uma determinada época. Mas essa relação não deve impor um status de determinação às questões sociais sobre os problemas artísticos. A história da arte aborda os problemas artísticos como problemas históricos, e não como questões subordinadas aos problemas sociais e culturais. 16 CAPÍTULO 3 Periodização da história da arte As questões relativas à periodização na história da arte são inúmeras e impossíveis de serem sintetizadas ou resolvidas aqui. Mas isso não quer dizer que qualquer das periodizações existentes (e praticamente cada pesquisador de história da arte possui uma) seja definitiva e esgote a questão. As periodizações são, por definição, reducionistas e arbitrárias, até porque é impossível a construção de um modelo ou sistema de periodização que consiga abarcar em si a complexidade, a extensão e as próprias contradições da produção artística em sua dimensão histórica. Assim, em vez de se construir uma análise comparativa das propostas de periodização, o que só teria sentido em um estudo comparado dos métodos em história da arte, o que não é o objetivo desta disciplina, e tendo clara a dimensão informativa e de circunscrição que a periodização tem neste estudo, foi feita a opção por se trabalhar com uma fundamentação não teórica, mas topográfica, de periodização. Dessa forma, serão privilegiados os vetores de tempo e espaço nessa construção, e a denominação que será empregada para titular os diferentes períodos é aquela presente na maioria dos livros de história da arte, e será empregada aqui de maneira acrítica, de forma referencial e não conceitual. O senso comum do campo historiográfico de história da arte a divide em quatro grandes períodos temporalmente definidos: a arte antiga, a arte na Idade Média, a arte do Renascimento e a arte do Mundo Moderno (JANSON; JANSON, 1996, pp. 4-5). Cada período comporta um número variável de subperíodos, definidos temporal, espacial ou estilisticamente. É evidente que essa periodização traz certo determinismo em seus recortes, mas, de uma forma ou de outra, qualquer periodização também o traria. Assim, pouco mais que esquematicamente, pode-se articular uma periodização aceitável de história da arte, como se mostra a seguir. A arte antiga Este período é normalmente dividido em arte pré-histórica, arte egípcia, arte no antigo oriente próximo e no mar Egeu, arte na Grécia, e arte etrusca e romana. 17 CONCEITUAÇÃO DE ARTE │ UNIDADE I Figura 2. A “Caverna de Lascaux”, em Dordonha, na França, descoberta em 1940, data de 15 mil a 17 mil anos a.C. Fonte: https://www.historiadasartes.com/wp-content/uploads/2015/10/1.35Gruta_Lascaux.jpg. Acesso em: 27/3/2020. Esse período compreende uma longa duraçãotemporal e uma vasta abrangência espacial, entre cerca de 35.000 anos antes de Cristo, no Paleolítico Superior, quando o homem começa a se expressar através de pinturas nas paredes das cavernas, até cerca do ano 300 depois de Cristo, com o declínio e queda do Império Romano. Figura 3. Afresco do quarto da Villa de Plubius Fannius Sinistro, Boscorreale, perto de Pompeia. Fonte: https://www.historiadasartes.com/wp-content/uploads/2015/10/SegundoEstilo.jpg. Acesso em: 27/3/2020. A arte na Idade Média Para fins deste trabalho, a Idade Média não é um referencial estritamente temporal, mas esteticamente definido. Diz respeito à crise da concepção romana de arte e ao 18 UNIDADE I │ CONCEITUAÇÃO DE ARTE surgimento de novos referenciais alternativos a ela, os quais, embora influenciados pela forma romana de produzir arte, construíram espaços próprios de concepção, finalidade, técnicas e temáticas para a produção da obra de arte. Assim sendo, ainda dentro do período cronologicamente compreendido pelo Império Romano, surgiram alternativas estéticas no campo artístico e, especificamente na pintura, nos espaços onde havia contestação à hegemonia romana, como foi o caso da arte cristã primitiva e, depois da separação entre o Império Romano do Ocidente e o do Oriente, da arte bizantina. O final da Idade Média foi uma época de grande transição nas artes. No final do século XIII, a pintura italiana revolucionou as artes visuais com uma nova forma de representação do mundo. Giotto di Bondone (1266-1337), pintor italiano, foi o primeiro a explorar a técnica da perspectiva, ainda que de forma rudimentar, o que permitiu a ilusão de profundidade na representação do espaço na pintura. Por não haver preocupação com o realismo das figuras, elas parecem ser desproporcionais; o desenho de modo geral era muito ruim, pois a arte tinha uma função específica, que era de contar a história da religião para o povo que não sabia ler nem escrever. Giotto e seus discípulos foram responsáveis, também, pela humanização na forma de representação dos santos, e essa novidade já prenunciava o que viria a seguir no Renascimento. Os artistas não assinavam suas obras, não eram valorizados em sua individualidade, e não aprendiam o seu ofício pelo método de observação da realidade e sim com seus mestres, seguindo as regras por eles ensinadas. Figura 4. Giotto, “Fuga para o Egito”, têmpera afresco, 1306. Fonte: https://www.italian-renaissance-art.com/images/590px-Giotto_-_Scrovegni_-_-20-_-_Flight_into_Egypt.jpg. Acesso em: 27/3/2020. 19 CONCEITUAÇÃO DE ARTE │ UNIDADE I A arte da Idade Média é normalmente colocada nas seguintes fases: arte cristã primitiva e arte bizantina, arte da Alta Idade Média, arte românica e arte gótica. A arte no renascimento Novas visões de mundo contribuíram para a mudança na forma como as imagens eram representadas. Na passagem da Idade média para a Idade Moderna, houve um período de grande desenvolvimento científico e artístico como consequência do desenvolvimento comercial advindo das grandes navegações e descobertas de novos continentes. Esse período ficou conhecido como Renascimento, época em que as relações passaram a ser regidas pela razão, ou seja, mais pelas coisas do mundo do que por valores espirituais e religiosos. A capacidade intelectual humana passou a ser mais valorizada e os artistas passam adquirir conhecimento técnico pela observação direta do mundo real, procurando representar as figuras com suas características de volume no espaço tridimensional e novas regras surgem, como, por exemplo, a perspectiva. O termo “renascimento” tem origem na intenção dos artistas e intelectuais da época em fazer renascerem os valores da cultura da antiguidade clássica greco-romana, considerada o berço da civilização ocidental. No campo das artes, o Renascimento surgiu na Itália, nas cidades de Florença e Siena na região da Toscana, e daí se espalhou para o resto da península itálica e, mais tarde, para os demais países da Europa ocidental. Na Inglaterra, Países Baixos e Alemanha, ocorreram manifestações renascentistas de grande expressividade; o mesmo não ocorreu de forma tão significante na península Ibérica, em Portugal e Espanha. Para alguns historiadores, o termo Renascimento está mais relacionado à arte italiana e, nos demais países, os ideais clássicos pertencem mais propriamente ao período conhecido como Maneirismo. É fato que, no Renascimento, todas as artes alçaram um nível superior devido à apropriação de novas tecnologias o que resultou em um novo padrão estilístico e social. O artista deixou de ser artesão, com ofício especializado, que trabalhava por encomenda, para ser considerado autor e proprietário de sua obra. 20 UNIDADE I │ CONCEITUAÇÃO DE ARTE Por consequência dessa elevação qualitativa na técnica e na valorização do artista, aconteceu o surgimento de um mercado de arte. A arte deixa a sua função didática e seu caráter religioso e a obra de arte passa a ser uma mercadoria. Na pintura, o desenvolvimento técnico passou pela fixação dos cânones da perspectiva e pelo uso de novos materiais de pintura, e a temática privilegiada, inclusive na pintura religiosa, passou a ser a natureza, a figura e as produções humanas. Figura 5. “A Criação de Adão”, 1508-1512, Michelangelo, Teto da Capela Sistina, Vaticano. Fonte: http://www.historiadasartes.com/wp-content/uploads/2016/12/m_MichelangeloCriacaoAdao.jpg. Acesso em: 27/3/2020. Uma obra de referência particularmente recomendada para o estudo da arte nesse período é o livro de Giulio Carlo Argan (1999), “Clássico anticlássico – o Renascimento de Brunelleschi a Brueghel”. Figura 6. Pieter Bruegel, o Velho (1520 – 1569). “O cego guiando cegos”, 1568. Fonte: https://www.theartstory.org/artist/bruegel-the-elder-pieter/artworks/#pnt_8. Acesso em: 27/3/2020. 21 CONCEITUAÇÃO DE ARTE │ UNIDADE I A série televisiva norueguesa “O mundo de Sofia”, acessível em DVDs, é uma excelente e acessível obra para entender o que foi esse período, especialmente nas artes. A arte na idade contemporânea Considera-se como mundo contemporâneo o mundo construído após a consolidação da ascensão da burguesia, que tem como marco referencial de início, politicamente, a Revolução Francesa, em 1789, e, no mundo do trabalho, a Revolução Industrial, também no final no século XVIII. A decadência da influência da Igreja e da nobreza, a consolidação do humanismo e do racionalismo burgueses e a ascensão do mercado como instância de normatização da sociedade e da cultura levaram a uma revolução no campo da arte e da pintura. Após um início de racionalização formal das formas e temáticas greco-romanas no período neoclássico, e da reação, na recuperação dos sentidos e sentimentos na produção artística no período romântico, o realismo e mais tarde o Impressionismo, por consequência do surgimento da fotografia, começam um processo, que não se encerrou ainda hoje, de fragmentação da imagem e, consequentemente, do estilo, da forma, da cor, da temática e da própria concepção da arte, inserida, logicamente, na fragmentação da sociedade instituída pela sociedade de mercado no mundo contemporâneo. Em relação à arte, o período contemporâneo é tradicionalmente dividido em arte do neoclassicismo, arte do romantismo, arte do realismo, a invenção da fotografia e suas influências na arte do impressionismo, arte do pós-impressionismo e arte do século XX. A arte do romantismo é caracterizada pela emancipação do artista, que, desprendido da encomenda, faz a sua obra baseado na sua própria inspiração e nos impulsos da sua alma. Na pintura, pela primeira vez, vemos um personagem/protagonista da narrativa representado de costas, contemplando a paisagem majestosa que se desdobra à sua frente. O pintor lança um olhar subjetivo sobre o mundo objetivo e apresenta ao observador uma imagem filtrada pelas suas emoções. O artista torna-se o intérprete do mundo (MARTINS; IMBROISI, 2018).Nas obras românticas, encontramos composições solitárias e indefesas perante as forças da natureza. Um personagem anônimo, de costas, olhando nostalgicamente para o horizonte. Composições com árvore mortas e ruínas cobertas por vegetação mostram a passagem do tempo e o ciclo da evolução denota novamente a nostalgia que transpassa o artista romântico (MARTINS; IMBROISI, 2018). 22 UNIDADE I │ CONCEITUAÇÃO DE ARTE Figura 7. “Caminhante Sobre o Mar de Névoa”, de Caspar David Friedrich, 1818. Fonte: https://jhonnynergal.xyz/wp-content/uploads/2019/11/andarilho-scaled.jpg. Acesso em: 25/3/2020. A idade contemporânea é um período histórico riquíssimo, cheio de grandes transformações e desvios de normas. Para saber mais sobre o tema indicamos os livros do historiador inglês Eric Hobsbawn: “A era das revoluções”, “A era do capital” e “A era dos impérios”. As obras artísticas sendo reflexo e/ou reflexão do tempo vivido em que elas são materializadas também são excelentes documentos visuais. Por isso, os livros de história da arte relativa a esse período também são recomendados, como: “A história da arte”, de Ernst Gombrich. As vanguardas artísticas do século XX ou arte moderna Diversas tendências artísticas surgiram na Europa na virada do século XIX para o século XX, pois os novos artistas desejavam romper com as regras acadêmicas e com a forma de representar renascentista. Essas tendências romperam com o que era considerado de bom gosto e correto pelos conservadores. Ao negarem as regras acadêmicas, se desvencilham da perspectiva renascentista, explodem a figuração, rompem com o naturalismo, na intenção de abandonar, também, a narrativa. Quanto a essa súbita ruptura, Nikos Stangos (2000) considera que refletia uma mudança na visão que o homem tinha do mundo como um todo. Transformações sociais, políticas e econômicas ocorreram paralelamente ao desenvolvimento científico e filosófico. Nas artes, a tradição do passado era contestada de todos os lados (STANGOS, 2000, p. 7). 23 CONCEITUAÇÃO DE ARTE │ UNIDADE I O questionamento e a rejeição pelo passado equivaleram a uma verdadeira revolução. Embora esse desejo de renovação tenha ocorrido em todas as artes, ela foi mais patente nas artes visuais. Na pintura, essa tendência iniciou no impressionismo e rapidamente até mesmo os impressionistas se viram em posição de retaguarda, ou seja, de acadêmicos (STANGOS, 2000, p. 7). Essa revolução e suas rupturas influenciaram movimentos artísticos em outras partes do mundo. A ideia de representação como duplo da realidade foi sem dúvida uma das principais rupturas. Criando suas próprias regras, a arte moderna rompeu com a ideia de que a arte deveria reproduzir o real fielmente. Voltada para sua especificidade, a arte moderna passa a se preocupar com a própria arte e não mais em ser um ideal de beleza. Figura 8. Henri Matisse – “Dança II”, 260 x 391 cm – 1910 – Hermitage Museum St. Petersburg, Rússia. Fonte: https://pt.wahooart.com/Art.nsf/O/8XY7KF/$File/Henri-Matisse-Dance-II-.JPG. Acesso em: 27/3/2020. A fotografia foi uma das invenções que mais influenciaram as mudanças ocorridas nesse período, pois, a partir dela, ocorreu uma mudança na maneira como vemos o mundo e, por consequência, como o representamos. A palavra “vanguarda”, que vem do francês avant-gard, é um termo usado para descrever algo novo, também usado para fazer referência aos movimentos que estão à frente de sua época, que propõem ideias e ações novas. Portanto, as manifestações artísticas experimentais surgidas no final do século XIX e no início do século XX ficaram conhecidas como arte moderna ou vanguardas artísticas do século XX. 24 UNIDADE I │ CONCEITUAÇÃO DE ARTE Que tal aprofundar seus conhecimentos sobre a história da arte? Alguns dos autores mais conhecidos e citados são aqueles que organizaram séculos e séculos de história de produção visual, nos ajudando a construir um panorama do desenvolvimento das técnicas e dos artistas. Outros ocupam-se das especificidades das suas regiões e relacionam produções locais com o panorama da arte mundial. Separamos os nomes de alguns deles para que você possa aprofundar suas pesquisas e conhecimento sobre a história da arte. São eles: » Ernst Gombrich – nascido em Viena em 1909, o historiador viveu até 2001. Publicou, em 1950, o célebre livro “História da Arte”, um dos livros de história da arte mais traduzidos e editados ao redor do mundo. » Giulio Carlo Argan – Argan viveu entre 1909 e 1992 na Itália. Conhecido, sobretudo, pelos seus estudos sobre história da arte no Renascimento e no período Medieval, o autor também publicou artigos e livros sobre “Arte Moderna”, além de ter sido prefeito de Roma. » Giorgio Vasari – nascido em 1511, viveu até 1574. Vasari ficou conhecido como o primeiro historiador da arte, através de seu livro “Vite ou Le vite de’ più eccellenti pittori, scultori e architettori” (1550), onde registrou a biografia dos principais artistas do Renascimento. Foi um pintor e arquiteto italiano conhecido principalmente por suas biografias de artistas italianos. » Martin Kemp – nascido em 1942 no Reino unido, é professor de História da Arte na Universidade de Oxford. Estudioso e profundo conhecedor da obra davinciana nas suas várias vertentes. Seu livro “História da arte no ocidente”, de mais de 500 páginas, é uma das obras mais atualizadas sobre o tema. » Aracy Amaral – a brasileira nasceu em 1930 e construiu carreira na Universidade de São Paulo (USP) e na Pinacoteca do Estado de São Paulo. Amaral publicou dezenas de livros, coletâneas e ensaios sobre arte brasileira. » Walter Zanini – “História geral da arte no Brasil” tem dois volumes em que organiza textos de diversos autores sobre a arte e a cultura brasileira. 25 UNIDADE IIAS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Nesta unidade, vamos nos aproximar das diferentes linguagens das artes procurando responder à pergunta: quais são as possibilidades de se expressar de maneira criativa e artística? Nosso principal objetivo é aproximar o leitor do universo das possibilidades e linguagens em artes para qualifica-lo para a produção de projetos culturais. Você observará que o universo das artes é abrangente e está em constante transformação. Além disso, irá notar que a compreensão das linguagens artísticas perpassa pelo estudo de sua história. Aquilo que entendemos e classificamos como arte transforma-se ao longo dos anos com expressões e técnicas que se consolidam enquanto clássicas e acadêmicas, perpassando por áreas mais experimentais. O diálogo entre tradição e inovação é um dos principais motores da criatividade e do fazer artístico. As divisões das linguagens artísticas possuem uma longa trajetória histórica, de maneira que as fronteiras entre as linguagens nem sempre foram rigidamente impostas ou, se assim o foram, enfrentam momentos de questionamento. Quando propomos um projeto para alguma instituição e/ou empresa, precisamos delimitar nossa área de atuação escolhendo uma área das tantas possíveis no mundo das artes. O mesmo acontece ao ingressarmos em programas de pós-graduação. As áreas de atuação variam de acordo com o entendimento daqueles que preparam a chamada pública, mas, de maneira geral, tendem a seguir algumas linhas delimitadas pelos espaços de produção de conhecimento em artes, sobre tudo os universitários. Ainda que as fronteiras entre as expressões sejam cada vez mais porosas e que muitos programas de pós-graduação procurem caminhos interdisciplinares, essas delimitações contribuem para que tenhamos algumas referências práticas, históricas e técnicas. 26 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS No conjunto dos Programas de Pós-Graduação (PPG) brasileiros em artes, temos as seguintes subdivisões criadas pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (CAPES): Arte e Cultura Visual, Artes, Artes Cênicas ou da Cena, Artes Visuais,Artes, Cultura e Linguagem, Cinema e Artes do Vídeo, Computação, Comunicação e Arte, Dança, Ensino das Práticas Musicais, Ensino de Artes Cênicas, Estudos Contemporâneos das Artes, Formação de professores – Prof-Artes, História da Arte, Música e Teatro (CAPES, 2019, p.3). Essas divisões nos proporcionam uma primeira aproximação das tantas áreas possíveis, as quais, internamente, possuem suas próprias subdivisões. E é por conta da compreensão de que as possibilidades são infinitas que na atualidade muitas das chamadas para projetos culturais deixam essas fronteiras em aberto e permitem expressões que ainda carecem de definições precisas. A inserção da área de Artes no contexto dos Programas de Pós Graduação (PPG) brasileiros é relativamente recente. “A área de Artes passou a integrar o Sistema Nacional de Pós-Graduação a partir de 1974, com a abertura do Mestrado na Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo ECA/USP” (CAPES, 2019, p. 2). Por isso, é uma área que cresce exponencialmente e vem formando uma série de novos profissionais. Para entender melhor o contexto de expansão da área, acesse o Relatório de Área produzido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) em: https://www.capes.gov.br/images/Documento_de_ área_2019/Artes.pdf. Prontos para mergulhar no mundo das artes, conhecer um pouco da história de cada uma das linguagens artísticas e aprofundar seus conhecimentos? 27 CAPÍTULO 1 Artes visuais As artes visuais são uma área bastante abrangente e englobam diferentes técnicas. Tradicionalmente as áreas clássicas das artes visuais dividiam-se em: pintura, escultura, desenho e gravura. Mas, na contemporaneidade e com a criação e exploração de novas linguagens a partir dos anos 1960, as fronteiras entre as práticas tornaram-se mais porosas ao mesmo tempo em que novas possibilidades de expressão criativa surgiam, tais como: a vídeo arte, a performance, a fotografia e, mais recentemente, as artes tecnológicas. Tendo em vista a crescente amplitude dos modos de fazer em arte, em diversos círculos artísticos, essas diferenças já não possuem o mesmo peso que um dia ocuparam em circuitos mais tradicionais. Na contemporaneidade, artistas exploram as possibilidades de materiais e processos traçando pontes entre as áreas acima mencionadas e, com isso, criando tantas outras. A história da arte e das técnicas nos revelam os bastidores dos processos de criação e como foram se transformando ao longo do tempo. A seguir, vamos refletir sobre as possibilidades que estão englobadas nas artes visuais. Vamos percorrer as diferentes áreas das artes visuais em dois momentos: 1) as divisões e técnicas clássicas; e 2) as linguagens contemporâneas. Em cada fase, faremos uma breve abordagem histórica, conheceremos artistas e especificidades técnicas. Vamos começar? Pintura Dentre as subáreas das artes visuais, a pintura talvez seja a mais antiga. Se você conhece um pouco da história da arte, deve ter percebido que toda narrativa sobre o desenvolvimento das linguagens visuais começa nos tempos distantes da pré-história quando os seres humanos compreenderam as possibilidades de deixar suas marcas nas paredes das cavernas. É evidente que, por se tratarem de tempos tão remotos, não temos como precisar nossos conhecimentos sobre períodos em que a escrita ainda não existia para nos auxiliar a passar conhecimentos de geração em geração. De qualquer maneira, 28 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS remeter o início da história da pintura aos seres humanos das cavernas é uma forma de imaginarmos possibilidades e também de nos relacionarmos com essa técnica de maneira afetiva. Todas essas estranhas ideias são importantes porque podem ajudar-nos a compreender as mais antigas pinturas que chegaram até nós. São tão antigas quanto qualquer vestígio existente da habilidade humana. Entretanto, quando foram descobertas em paredes de cavernas e rochas na Espanha e no Sul da França, no século XIX, os arqueólogos recusaram-se, de início, a acreditar que representações tão animadas, tão naturais e vigorosas de animais pudessem ter sido feitas por homens da Época Glacial. Gradualmente, os rudimentares apetrechos de ferro e osso encontrados nessas regiões tornaram cada vez mais certo que essas imagens de bisões, mamutes ou renas tinha sido escoriadas ou pintadas por homens que caçavam esses animais e, portanto, os conheciam muito bem. É uma estranha experiência descer nessas cavernas, por vezes através de corredores baixos e estreitos, mergulhar na escuridão do ventre da montanha e, de súbito, ver a lanterna elétrica do guia iluminar a imagem de um touro (GOMBRICH, 1999, p. 17). De fato, muito do que sabemos sobre os seres humanos vem de informações deixadas para a posterioridade por meio de pinturas preservadas por terem ficado isoladas em lugares de pouco acesso e protegidas das ações do tempo. Acredita-se que muitas dessas imagens foram realizadas no contexto de rituais. Com o passar dos séculos, nosso entendimento das obras pictóricas foi se transformando. O período conhecido como Renascimento é símbolo da transformação da nossa maneira de entender a pintura. Durante o Renascimento, artistas como Michelangelo, Rafael e Leonardo da Vinci aliaram a pesquisa científica à representação das imagens e histórias religiosas. O desenvolvimento da perspectiva e de técnicas de pintura como a velatura – técnica realista que consiste na aplicação de finas camadas de tinta – trouxeram profundos avanços e revolucionaram nossa maneira de representar o mundo (GOMBRICH, 2000). 29 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II Figura 9. “A Criação de Adão” é um afresco pintado por Michelangelo no teto da Capela Sistina entre os anos de 1508 e 1510, a pedido do papa Júlio II. Fonte: https://cdn.culturagenial.com/imagens/acriacaodeadao-1-cke.jpg. Acesso em: 27/3/2020. Além disso, foi nessa época que os artistas começaram a ser conhecidos por eles mesmos, por seus nomes e conquistas individuais, já que, até então, a figura do autor era menos importante do que aquilo que era retratado. Perceba como essa é uma transformação importante e que revolucionou a relação dos seres humanos com as artes. Na atualidade, costumamos nos referir ao nome de um artista e sua biografia muito antes de descrevermos uma imagem que consideramos bela ou importante. Isso porque reconhecemos o autor e celebramos trajetórias de vida específicas. Os períodos artísticos e os artistas que seguiram o Renascimento tinham a preocupação de honrar e questionar as tradições, contribuindo assim para a construção de um ciclo de realizações que, em conjunto, passaram a constituir a cronologia que conhecemos como história da arte ocidental (GOMBRICH, 2000). A história da pintura está intimamente ligada às transformações de cada um desses períodos e o entendimento geral que se faz do seu desenvolvimento percorre épocas em que a pintura tinha como objetivo reproduzir o mundo que nos circunda (Renascimento e Neoclassicismo) até épocas em que os artistas libertaram a pintura da sua relação mimética e passaram a focar em questões plásticas como cor e composição (pintura modernista, vanguardas europeias). » Renascimento. » Romantismo. » Realismo. 30 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS » Impressionismo. » Fauvismo. » Expressionismo. » Cubismo. » Dadaísmo. » Surrealismo. » Pop Arte. » Minimalismo. As variadas técnicas de pintura e seus suportes São muitas as maneiras de pintar, diferenciadas entre si por meio dos materiais utilizados como também da maneira como as imagens são realizadas. Algumas técnicas são: » Aquarela – técnica em que os pigmentos da tinta são dissolvidos na água e aplicados em camadas mais densas ou transparentes sobre o suporte escolhido, geralmente papel de alta gramatura. » Pintura a óleo – tinta à base de óleo que pode ser aplicada em diferentessuportes e possuir múltiplas densidades de acordo com a sua diluição. A tela de algodão e a madeira são materiais frequentemente escolhidos para receber a tinta. » Guache – técnica à base da água que se aproxima da aquarela, mas que possui uma característica opaca e reflete pouca luz. » Pintura acrílica – tinta à base da água com textura emborrachada. É uma tinta jovem se comparada com as demais técnicas aqui mencionadas, criada e desenvolvida no século XX. Possui uma ampla gama de cores e secagem rápida. O suporte, ou seja, em qual superfície a imagem pictórica é construída, também varia de artista para artista. Alguns dos suportes mais comuns são: tela, madeira, papel, tecido, chapa metálica. 31 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II Escultura A escultura trabalha com a transformação de materiais brutos – como pedra, argila, madeira e metal – em formas. Essas formas são expressas em relevos ou de modo tridimensional, isso é, com largura, altura e profundidade. A escultura, pela sua característica tridimensional, de ocupar um lugar no espaço, está diretamente relacionada com a arquitetura. Escultura pública é aquela que é colocada no espaço público e ocupa locais de grande circulação de pessoas. Além disso, muitos dos registros que temos de culturas da Antiguidade são na forma da escultura, pois diversos dos materiais utilizados possuem grande durabilidade. Novas técnicas trabalham a tridimensionalidade através de procedimentos tais como dobra e solda de chapas metálicas, nos quais fatores internos, como peso, e externos, como a incidência da luz, completam a obra. Escultores famosos da história da arte: Michelangelo, Auguste Rodin, Camille Claudel, Aleijadinho, Brâncuși, Giacometti, entre outros. Figura 10. Rodin, “Os burgueses de Calais”, 1889. Fonte: https://image.slidesharecdn.com/mdulo8-4-escultura-131210164447-phpapp01/95/a-escultura-no-final-do-sculo-xix- rodin-7-638.jpg?cb=1386693957. Acesso em: 27/3/2020. 32 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Existem diversas técnicas escultóricas, as quais se transformam e renovam-se com o passar dos anos. Dentre elas, estão: » Cinzelação ou entalhe: consiste na utilização de materiais mais duros, como o mármore, por exemplo; o artista retira matéria para obter a forma desejada. » Modelagem: consiste na utilização de material mais maleável, macio e flexível, como a argila (barro), por exemplo; o artista dá forma usando as próprias mãos, acrescentando matéria para obter a forma desejada. » Fundição é a técnica na qual se verte metal derretido em um molde feito com outro material, como, por exemplo, molde de cera. » Assemblage: consiste na aglomeração de partículas diversas. É considerada uma modalidade mais contemporânea, cuja composição se dá a partir de apropriação de objetos pré-existentes. Figura 11. Rauschenberg, “Coca Cola Plan”, assemblage de 1958. Fonte: https://communityartsnyc.files.wordpress.com/2014/03/screen-shot-2014-03-21-at-9-46-21-am.png. Acesso em: 27/3/2020. Desenho O desenho é uma técnica bidimensional que consiste na marcação de uma superfície com materiais diversos, dentre os quais os mais tradicionais são: lápis, caneta e 33 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II pincel. O desenho pode ser apresentado enquanto um trabalho final, mas também é uma das principais técnicas utilizadas para estruturar e planejar trabalhos finalizados em técnicas diversas como a pintura e a escultura. Temos duas categorias de desenho: desenho artístico e desenho técnico. Essas categorias são subdivididas em modalidades que estão ligadas direta ou indiretamente às artes. São elas: » Desenho técnico: envolve os estudos do desenho geométrico, descritivo, projetivo. Aplicado nas áreas da engenharia, design e arquitetura. » Desenho artístico: engloba croqui ou esboço (os estudos ligeiros para registrar uma ideia ou iniciar um desenho bem estruturado) e o desenho de modelo ou de observação que busca reproduzir o objeto preservando suas proporções e características naturais. Desenhistas famosos da história da arte: » Leonardo da Vinci (Itália, 1452 – 1519) – um dos mais conhecidos artistas renascentistas, da Vinci foi um homem de seu tempo. Ele dominava conhecimentos de diferentes áreas e, por meio de análises racionais, inovou nas áreas de engenharia, pintura e anatomia humana. O desenho acompanhou Leonardo da Vinci nos estudos que envolveram todas essas áreas. » Maurits Cornelis Escher (Holanda, 1898 – 1972) – o artista gráfico é conhecido mundialmente pela sua capacidade de criar espaços incríveis, detalhados e realistas. Construções e espaços aparentemente impossíveis ganham vida com as linhas construídas pelas mãos do artista e pelo seu estudo aguçado das técnicas de perspectiva geométrica. Figura 12. Escher, “As três esferas II”, 26.9 cm × 46.3 cm, 1946. Litografia. Fonte: https://lh3.googleusercontent.com/-I-bbyx875aU/WIBTn140PSI/AAAAAAAABKI/GLVlSXi1y_o/s1600/Kopie%252520van%2525 20M%252520C%252520Escher%252520-%252520three%252520spheres%252520II%2525201946%252520-%252520lithograph. jpg. Acesso em: 27/3/2020. 34 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Gravura – reprodução e transformação O ser humano já reproduzia imagens há milhares de anos, porém em um processo lento e trabalhoso, pois todo ele era feito de forma artesanal, o que praticamente impossibilitava a sua divulgação. E foi por meio da transformação das imagens em sinais gráficos que surgiu a escrita. A gravura é uma das mais antigas formas de reprodução de imagens. A xilogravura, uma das primeiras técnicas de reprodução, não se sabe exatamente quando surgiu, apenas que era utilizada pelos chineses para estampar tecidos. Ambos a xilogravura e o papel vieram da China e chegaram ao ocidente na Idade Média; na Europa, a xilogravura se popularizou no século XV. A gravura era usada para reproduzir imagens já conhecidas em outras técnicas, como a pintura; poucos artistas usavam a xilogravura como técnica artística. O alemão Albert Dürer (1471 – 1528) e o holandês Rembrandt van Rijn (1606 – 1669) são exemplos de artistas que, além de pintar, também criaram em gravura. A mecanização da produção de livros aconteceu quando o alemão Johann Gutenberg (1387 – 1468) inventou um sistema de impressão em que as letras eram entalhadas em peças individuais, os tipos móveis, e podiam ser reutilizadas para compor novos textos. E as imagens para ilustrar os livros, que poderiam ser originais ou reprodução de pinturas, eram impressas diretamente nas páginas dos livros pela técnica da xilogravura. Figura 13. Albrecht Dürer, “Os quatro cavaleiros do apocalipse”, 1497 – 1498, xilogravura, 39,1 cm x 28,2 cm. Fonte: Reprodução/Museu Britânico, Londres. 35 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II Espaços de circulação das artes visuais Museus Do latim musēum, um museu é um lugar onde se guardam e exibem coleções de objetos de interesse artístico, cultural, científico, histórico etc. Costumam ser geridos por instituições sem fins lucrativos que procuram difundir os conhecimentos humanos. Existem, de qualquer forma, museus privados com fins lucrativos. Em todo o caso, os museus consagram-se à investigação, à conservação e à exposição de coleções que tenham um valor cultural. [...] O museu, tal como o conhecemos na atualidade, surgiu no Renascimento. Estas instituições dispõem de uma equipe de profissionais, formada por curadores, restauradores, analistas e seguranças, entre outros (CONCEITO, 2013b). Galeria de arte É um espaço arquitetônico que expõe e comercializa adequadamente as obras de arte. Os espaços são definidos para proporcionarem segurança e uma correta apreciação dos objetos expostos, levando em consideração o posicionamento, iluminação e possibilidade de distanciamento e circulação do espectador. Centros culturais O conceito de centro tem a sua origem no latim centrum e pode fazer menção a diversas questões. Uma das acepções refere-se ao lugaronde se reúnem as pessoas com alguma finalidade. Cultural, por sua vez, é aquilo que pertence ou é relativo à cultura. [...] Um centro cultural é, portanto, o espaço que permite participar em atividades culturais. Estes centros têm o objetivo de promover a cultura entre os habitantes de uma comunidade (CONCEITO, 2013b). Bienais Bienal é considerado tanto um adjetivo de dois gêneros, como um substantivo feminino da língua portuguesa que diz respeito a um período de tempo de dois anos. Define um acontecimento social ou artístico que acontece de dois em dois anos (SIGNIFICADOS, 2014). 36 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Bienal de Veneza A Bienal de Veneza teve início com a celebração do aniversário de casamento do Rei Umberto e Margherita, em 1893. Consistia em uma exposição nacional de arte com condecoração de medalha artística. Dois anos mais tarde, o evento ocorreu novamente, porém, com um sistema diferente, a exposição se adaptou para receber artistas internacionais, sempre via convite. No início do século XX, o evento passou a ser internacional e diversos países convidados instalaram seus pavilhões. Durante a II Guerra, o evento foi interrompido e retomado 1948. Nas exposições de 2001, com a direção de Harald Szeemann, o evento incorporou artistas da Ásia e da Europa Oriental. A faixa etária dos participantes também mudou, com artistas mais jovens participando. Em 2005, pela primeira vez, duas mulheres foram curadoras do evento: Maria de Corral e Rosa Martinez. E, em 2015, o primeiro curador nascido em país africano assume a Bienal. Além das artes visuais a Bienal também foca na premiação do cinema, condecorando projetos de destaque com o Leão de Ouro. A divisão por pavilhões de países segue viva na Bienal de Veneza. Figura 14. Chiharu Shiota, “The Key In The Hand”, instalação do Pavilhão do Japão, 2015. Fonte: http://www.mulhersingular.com.br/wp-content/uploads/2016/02/BIENAL-DE-VENEZA.jpg. Acesso em: 27/3/2020. 37 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II Nos últimos anos, uma série de eventos que ficaram conhecidos como bienais discursivas (FERGUSON; HOEGSBERG, 2010) foram criados baseados, sobretudo, na experiência da Documenta 5 realizada em 1972 e durante a qual os curadores exploraram a ideia de construção social da realidade. A Documenta é uma exposição de arte que ocorre a cada 5 anos na cidade de Kassel na Alemanha. É considerada um dos eventos mais importantes do mundo da arte pela “extrema” contemporaneidade dos trabalhos exibidos. Bienal de São Paulo A Bienal Internacional de Arte de São Paulo é uma exposição de artes plásticas de grandes proporções que, como o nome indica, ocorre a cada dois anos na cidade de São Paulo. Considerada um dos três principais eventos do circuito artístico internacional – ao lado da Bienal de Veneza e da Documenta de Kassel –, é responsável por projetar a obra de artistas desconhecidos e por refletir as tendências mais marcantes no cenário artístico global. Costuma acontecer no Pavilhão Ciccillo Matarazzo do Parque do Ibirapuera, motivo pelo qual o prédio também é conhecido como “Prédio da Bienal”, projetado por Oscar Niemeyer. Memorial cronológico (Texto disponível no site da Bienal e reproduzido para fins pedagógicos). 1951 – Concebida no âmbito do MAM/SP, a primeira Bienal foi inaugurada em 20 de outubro na esplanada do Trianon, local hoje ocupado pelo MASP. O espaço, projetado pelos arquitetos Luís Saia e Eduardo Kneese de Mello, deu lugar a 1.800 obras de 23 países, além da representação nacional. A primeira edição ocorreu devido aos esforços do empresário e mecenas Francisco Matarazzo Sobrinho (conhecido como Ciccillo Matarazzo, 1892 – 1977) e de sua esposa Yolanda Penteado. 1953 – A segunda edição ficou famosa por trazer ao Brasil a obra “Guernica”, de Pablo Picasso, até então inédita no país, e ocorreu no parque do Ibirapuera recém-inaugurado por ocasião das comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo, cujo projeto é assinado por Oscar Niemeyer (1907) e Burle Marx (1909 – 1994). 38 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Figura 15. “Guernica”, de Picasso. Fonte: http://imgs.fbsp.org.br/files/02BSP_AMPLI_00017_p01_72dpi.jpg. Acesso em: 27/3/2020. 1955 – A terceira Bienal beneficiada por 46 trabalhos de Sophie Taeuber-Arp (1889 – 1943) e por 44 gravuras dos muralistas mexicanos, marca a consolidação do evento. 1957 – A quarta Bienal contou com a presença surrealista e com a participação da obra de Jackson Pollock (1912 – 1956). Figura 16. Jackson Pollock. Fonte: http://www.brasilartesenciclopedias.com.br/temas/images/bienal2.jpg. Acesso em: 27/3/2020. 39 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II 1959 – Grande sucesso de público, a quinta Bienal trouxe como novidade, segundo o crítico Mário Pedrosa (1900 – 1981), a “ofensiva tachista e informal”. Nesta edição, também foi inaugurada uma área para teatro, que passou a dividir o espaço físico disponível com as mostras de filmes, com as artes plásticas e a arquitetura. 1961 – A curadoria geral de Mário Pedrosa combinou obras contemporâneas (Kurt Schwitters, 1887 – 1948) com retrospectivas históricas (Alfredo Volpi, 1896 – 1988). A ampliação da participação nacional e a maior representação de obras de caráter histórico valeram uma série de críticas ao evento por parte da imprensa. 1963 – A mostra destacou-se pela grandiosidade que, a partir daí, tornou-se um de seus traços característicos. 1965 – 1973 – Neste período, a Bienal sofreu de perto os efeitos do golpe militar e da repressão política no país. As participações, nacionais e internacionais, diminuem sensivelmente – o que quase comprometeu o evento (mesmo assim, a mostra de 1967 contou com representativa presença da arte “pop”). 1969 – A oposição dos artistas à ditadura militar ganhou expressão ampliada nesta 10ª Bienal quando, no Museu de Arte Moderna de Paris, diversos artistas e intelectuais assinam o Manifesto Não à Bienal. 1977 – A partir da 14a Bienal, a exposição passou a se organizar por núcleos temáticos, no interior dos quais as obras passaram a ser alocadas. Década de 1980 em diante – Os curadores se notabilizaram pela definição de temas e questões que orientaram a organização dos trabalhos, assim como pelas inovações museográficas. 1981 e 1983 – A 16a e a 17a Bienais, sob a curadoria geral de Walter Zanini, têm papel importante no resgate do prestígio do evento, abalado na década anterior. Zanini organizou a mostra tendo como eixo as analogias de linguagens entre obras variadas (Núcleo 1: “Linguagens aproximadas”). Fortaleceu o núcleo histórico (Núcleo 2), apresentou o acervo do Museu do Inconsciente e reconquistou a participação dos artistas contemporâneos – causando grande impacto a representação nacional, com Antônio Dias (1944), Cildo Meireles (1948) e Tunga (1952), dentre outros. 40 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS 1985 e 1987 – A curadora da 18ª e da 19a Bienais, Sheila Leirner, com o auxílio de arquitetos, apresentou novas soluções para a montagem da exposição. As ideias norteadoras dos eventos – “A grande tela”, onde as obras foram expostas em três vastos corredores, com 30 cm de distância entre cada uma delas, e “A grande coleção”, onde os trabalhos foram exibidos de forma vertical no grande hall do Pavilhão projetado por Oscar Niemeyer – marcaram um novo conceito de curadoria. Anos 1990 – As mostras são organizadas com base em grandes temas: “Ruptura com o Suporte” (1994) e “Antropofagia” (1998). Nessa década, as bienais são tomadas por espetáculos de diversos tipos: dança, teatro, música etc., o que faz delas eventos culturais mais amplos. Atualmente – A Bienal é mantida pela Fundação Bienal de São Paulo, entidade sem fins lucrativos que também promove a Bienal Internacional de Arquitetura, Urbanismo e Design de São Paulo em colaboração com o Instituto de Arquitetos do Brasil (CUNHA, 2001?). Artenas cidades A vida urbana é experienciada por muitos de nós em nosso dia a dia ou, ainda, faz parte da construção simbólica das nossas subjetividades, já que a cultura popular frequentemente representa modos de viver associados aos grandes centros. Desde o final do século XIX, com a expansão das cidades no mundo ocidental os centros urbanos representam lugares de oportunidade, mas também de modos de viver individualistas, anônimos e de consumo. Aos poucos, a sociedade foi observando como esses espaços viraram, para muitos, sinônimo de troca de mercadorias, lugares tomados pela publicidade e onde o trânsito de pessoas deveria ser realizado sempre em direção a um lugar específico. A partir dessas observações e da ideia de que as cidades podem provocar novas relações é que artistas atuantes no espaço da rua iniciaram suas ações. As ruas passaram a ser percebidas, para além dos fluxos do capital, verdadeiras galerias à céu aberto e lugares onde o estranhamento pode trazer questionamentos sobre o estado das coisas. [...] o que a arte pública se propõe a fazer é expor as fraturas da sociedade e as arbitrariedades do poder. Pretende, assim, produzir um estranhamento da realidade, principalmente realizando a crítica das representações sociais como “objeto dado”. 41 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II Uma das tarefas da arte pública é não só chamar a atenção para a construção social do espaço, mas também quebrar a fetichização do espaço como entidade física que existe anterior à sociedade. Representado como objeto independente, o espaço aparece com capaz de exercer controle sobre as pessoas que o utilizam. A impressão de objetividade é estendida à cidade, que parece sempre alienada da vida social de seus habitantes (VELOSO, 2012, p. 310). A ocupação do espaço urbano pela arte como conhecemos e vemos hoje – em paredes de prédios, viadutos, muros, portões, fachadas de casas etc. – surgiu durante as décadas de 1960 e 1970, com o movimento hip-hop. A ideia de trazer discussões sociais e políticas para a cidade foi o gatilho para esse tipo de intervenção artística. Segundo Mariza Veloso: A arte pública tem procurado estar atenta à permanência real da democracia, buscando escutar vozes de grupos sociais silenciados, questionando as “imagens sociais” estereotipadas, criando novas visibilidades e inserindo a discussão sobre os espaços urbanos, a cidade e sua organização no debate sobre espaço público e as formas de legitimidade e participação possíveis dos diferentes grupos sociais que habitam a cidade (VELOSO, 2012, p.310). O trabalho exposto na rua discute a sociedade e seus pilares e tem origem na tentativa de dar visibilidade a questões propostas por parte da trama social que costuma ser ignorada. Na arte urbana, existe uma ação frequente de se utilizar o anonimato para com a sociedade, mas não para com seus pares. O artista de rua implanta sua assinatura em seus trabalhos, mas não para todos e sim para aqueles que dividem os mesmos signos. A obra está para todos, mas alguns níveis da sua leitura necessitam o conhecimento de determinadas especificidades. A ocupação de determinada área e a disputa territorial dentro das cidades são fatores determinantes para muitos grupos e a ação destes grupos em territórios da cidade. Assim, o espaço geográfico é de extrema relevância para o artista de rua e a sua área de atuação. As cidades são divididas em zonas, e as zonas são ocupadas por grupos diferentes. Existem regras para essa ocupação, fronteiras e modo de operação. O revigoramento da pintura nos Estados Unidos na década de 1980 está ligado ao surgimento do grafite nas grandes cidades. Em cidades como Nova York, à época violenta e com alta taxa de desemprego, jovens pintavam os muros, o metrô e os espaços públicos de regiões degradadas. No início, essas intervenções foram vistas como vandalismo (MEIRA, 2015). 42 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Perceba como a arte realizada em locais públicos tem como objetivo desestabilizar o nosso cotidiano e nos fazer refletir sobre o espaço que nos cerca. Essas intervenções artísticas podem assumir diversas formas como: Performance: um tipo de arte efêmera, muito utilizada por artistas conceituais na década de 1970. Algumas tinham caráter teatral, ritualístico, político ou filosófico. No Brasil, nesse período, com as obras de Hélio Oiticica, Lygia Clark e Lygia Pape, as artes visuais passaram a ser fonte de novas proposições e novas formas estéticas, também no cenário internacional. “Divisor” é uma obra performática que a artista brasileira Lygia Pape apresentou pela primeira vez no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, em 1968. Ela mesma sublinhou que a participação dos espectadores é um elemento crucial da obra, algo bastante característico da poética do movimento neoconcreto. Com “Divisor”, Pape queria criar um trabalho coletivo que pudesse ser repetido mesmo quando ela não estivesse presente. Figura 17. Lygia Pape, “Divisor”, tecido recortado, 3000 cm x 3000 cm, 1968. Fonte: https://static4.museoreinasofia.es/sites/default/files/styles/ficha_actividad_exposicion/public/actividades/divisor-lygia- pape_0.jpg?itok=zmF3E28Z. Acesso em: 27/3/2020. Grafite: a arte do grafite é uma forma de manifestação artística em espaços públicos. Surgiu na década de 1970, em Nova Iorque. No início, alguns jovens começaram a deixar suas marcas nas paredes da cidade, e, com o tempo, esses grafites evoluíram com técnicas e desenhos. 43 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II Segundo Veloso (2012), o grafite é uma forma de expressar a opressão que a humanidade vive no seu cotidiano, principalmente os menos favorecidos. Jovens do mundo todo, especialmente os que estão nas periferias, afastados do centro do poder, propõem uma visão mais aguda da sociedade. Vendo o mundo a partir de outras realidades, nutrem o cenário da arte urbana com novas diversidades (MEIRA, 2015). O grafite foi introduzido no Brasil no final da década de 1980, em São Paulo. Hoje é reconhecido como um dos melhores do mundo. Alex Vallauri (1949 – 1987), usando a técnica do estêncil, espalhou pela cidade de São Paulo seus personagens. Os irmãos Otávio e Gustavo Pandolfo (1974 –), conhecidos como “Os gêmeos”, foram estimulados a pintar em grandes dimensões na escola pública, acabaram se dedicando à pintura dos muros da cidade. Os gêmeos, reconhecidos internacionalmente, já realizaram grafites em vários países, em fachadas de antigos edifícios e até mesmo de um castelo na Escócia (MEIRA, 2015). Figura 18. Grafite dos “Os Gêmeos” - Reprodução para fins didáticos. Fonte: https://www.hypeness.com.br/wp-content/uploads/2019/07/OSGEMEOS_Pinacoteca_5.jpg. Acesso em: 27/3/2020. Teatro de rua: modalidade de teatro produzida em espaços abertos, exteriores ao edifício teatral, tais como ruas ou praças. Designa espetáculos com textos elaborados especialmente para representação na rua, bem como manifestações cênicas improvisadas ou performáticas (incluindo-se aí performances que 44 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS dialogam com o universo das artes plásticas e números ligados à tradição da comédia popular ou do circo). Muralismo: a técnica de pintura mural nos leva para tempos remotos, quando artistas decoravam grandes prédios e palácios com pinturas históricas e alegóricas. Na década de 1920, no México, os artistas estavam ávidos para reviver a riqueza cultural das antigas civilizações e, ao mesmo tempo, fazer do país uma nação moderna. Em busca de uma linguagem que pudesse alcançar as massas, optaram pelas figurações murais em edifícios públicos com temática histórica exaltando os lemas da Revolução Mexicana e dialogando com os pintores realistas da antiga União Soviética, que também espalhavam imagens que valorizavam a força laboral do país e defendiam os ideais da época. No Brasil, diversas técnicas de murais foram desenvolvidas ao longo dos anos, e a azulejariaé uma das mais populares. A política cultural do governo de Getúlio Vargas visava modernizar a educação e promover as raízes culturais brasileiras. Nesse contexto, o pintor Cândido Portinari (1903–1962) foi convidado a produzir diversas obras para o governo seguindo as tendências internacionais à monumentalidade. Realizou essas obras em diferentes técnicas, como afresco e mosaico de azulejo. Outro artista que popularizou esse tipo de mural foi o paranaense Poty Lazzarotto (1924–1998). Colagem: você já deve ter andando pelas ruas de grandes centros urbanos e encontrado cartazes com imagens e dizeres que chamam a atenção por quebrarem com as nossas rotinas. Também deve ter visto adesivos com desenhos “estilosos” colados nos cantos e espaços menos usuais. Os cartazes, mais conhecidos na linguagem de arte urbana como lambe-lambe, e os adesivos são duas das formas mais comuns de colagens que encontramos nas ruas das cidades. Poesia visual: “Gentileza gera gentileza”. Você já deve ter visto essa frase em adesivos e pôsteres espalhados pelo país, mas você sabia que esse lema da contemporaneidade foi criado por um poeta das ruas do Rio de Janeiro? O Profeta Gentileza, cujo nome real era José Datrino, viveu de 1917 a 1996 e ficou famoso por escrever suas frases em letras garrafais no viaduto do Gasômetro. Por mais de 50 pilastras, é possível ler os ensinamentos desse profeta urbano cujos murais foram tombados como patrimônio cultural em 2000. 45 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II Figura 19. A expressão de um pensamento no muro. Fonte: https://www.bonde.com.br/img/bondenews/2016/01/img_1_31_6038.jpg. Acesso em: 27/3/2020. Ainda que as ações do Profeta Gentileza não objetivassem diretamente um diálogo com o circuito de arte urbana, já que sua missão estava relacionada a uma espécie de discurso religioso, na atualidade, seus trabalhos ganharam estatuto de arte. G.L assina diversas frases de amor que podem ser encontradas pelas ruas da cidade de Curitiba, capital do Paraná. Giovanna Lima é o nome por trás das iniciais que assinam frases de amor, arte e solidão como: “Vandalismo é não falar de amor”, “Teu espírito provinciano não assombra a minha matéria subversiva”. Procure por registros da poetisa pichadora quando estiver passeando pelas ruas da cidade. Quais são as expressões de arte urbana presentes na sua cidade? Você conhece alguns dos nomes de artistas que realizam intervenções e apresentações nos espaços públicos de onde você vive? Que tal pesquisar um pouco sobre eles? Conheça o trabalho da Galeria Sem Licença. Criada em Curitiba, no muro do antigo Clube Operário no centro histórico da cidade, o projeto já viajou por diversas partes do mundo montando galerias de fotografia ao céu aberto. A partir da ampliação de grandes impressões fotográficas e realização de colagens a partir da técnica do lambe, a Sem Licença desestabiliza o cotidiano das ruas. 46 CAPÍTULO 2 Dança A dança é uma expressão antiga presente em diversas culturas e registros históricos. Ela pode ser entendida como uma expressão artística, mas também como parte de rituais e celebrações. De fato, pesquisadores se debruçam para entender as possibilidades de interpretação das áreas da dança. Antonio José Faro, por exemplo, analisa a história da dança a partir de três eixos: étnica, folclórica e teatral. Essas divisões não são estáticas, mas podem nos ajudar a criar eixos de entendimento. O movimento e o gesto são as formas elementares e primitivas da dança e constituem assim a primeira forma de manifestação de emoções do homem e, consequentemente, de sua exteriorização. Com isso, ancorados na perspectiva de Hannelore Fahlbusch (1990), anterior à fala, o movimento corporal, constatamos que o gesto primitivo, era a forma de manifestação do ser humano diante do mundo orientado pelo “ritmo natural de suas emoções” (FRANCO; FERREIRA, 2016, p. 267). A história da dança está diretamente ligada à religião e aos rituais. Para Faro (2004), a dança seguiu caminhos ligados a espaços geográficos: templo, aldeia, igreja, praça, salão e o palco. Note como cada um desses espaços está relacionado a um estilo de dança. Essa linha de transformação das expressões em dança está diretamente ligada às transformações sociais, ao desenvolvimento da dança enquanto campo de produção de conhecimento e à ideia de dança enquanto entretenimento. A dança é realizada através de movimentos espontâneos do corpo humano e por meio de movimentos planejados e ensaiados, os quais são conhecidos como coreografias. De fato, é na tensão entre a preparação e a espontaneidade que a maior parte das escolas de dança das últimas décadas foi criada. Da rigidez das técnicas do balé clássico à espontaneidade de movimentos pouco calculados da dança contemporânea, temos milhares de bailarinos e coreógrafos inovadores. Para efeito de analisarmos a dança como linguagem artística, nos concentraremos em alguns momentos da história da dança. Estamos tratando aqui de uma das mais antigas formas de expressão humana e, por isso, não esgotaremos todas as possibilidades e escolas de dança em tão poucas páginas. Ao mesmo tempo, você 47 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II encontrará neste texto uma porta de entrada para esse mundo, o qual poderá ser explorado por você no aprofundamento da bibliografia da área indicada neste material. Você sabia que, durante séculos, a dança era considerada uma atividade masculina? Tendo em vista o viés ritualístico das expressões em dança, muitas das atividades aconteciam dentro dos templos e as mulheres não podiam ocupar aqueles espaços. Balé clássico Ao falarmos de dança, a figura de uma bailarina flutuando nas pontas dos pés de um canto ao outro do palco iluminado é uma das primeiras que surgem em nossas mentes. Isso porque o balé clássico é uma das danças mais populares ao redor do mundo, presente no imaginário de todos nós. O balé clássico é um estilo de dança bastante conhecido e se tornou base de diferentes estilos de dança moderna e contemporânea. Suas origens se deram através do encontro de danças populares e costumes das cortes. O balé clássico é uma dança cênica, isso é, realizada em palco, com aparatos, coreografia, cenário, iluminação e vestimentas apropriadas. Conta-se uma história para o espectador, o qual é guiado por uma narrativa. A efetivação do que conhecemos como dança teatral ocorreu em 1661, quando Luís XIV fundou a Academia Nacional de Dança, hoje Escola de Balé e Ópera de Paris, consagrando o trajeto descrito por diversas fontes históricas de que o balé nasceu quando as acrobacias dos ciganos e saltimbancos de feira se misturaram com a graça artística dos cortesões (FRANCO; FERREIRA, 2016, p. 269). A evolução do balé clássico está diretamente ligada ao processo de transformação das vestimentas. Era comum que bailarinos usassem roupas grandes e pesadas que dificultavam movimentos mais complexos. Por isso, foi com a criação das malhas que as escolas de balé deram um salto: Somente na Revolução Francesa (1789) acontece o abandono das pesadas saias quando Maillot, modista de ópera francesa, inventou a malha que foi aceita somente na cor azul pelo papa “para não sugerir a perigosa cor da carne.” As duas principais escolas básicas das danças clássicas se formaram nesta época, a francesa – inspiradas 48 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS em movimentos realizados de forma constante e fluida, e a italiana – que predo – minava uma característica mais atlética e vigorosa (FRANCO; FERREIRA, 2016, p. 269). Os movimentos do balé clássico são pré-determinados, aprendidos e passados de geração em geração. O ensino e aprendizagem desse estilo exigem um alto rigor técnico por meio do qual são aprendidas as posturas, passos, poses e vocabulários próprios. As cinco posições clássicas são ensinadas por instrutores em todos os cantos do mundo, tornando o balé clássico umadança internacional. É comum associarmos o balé diretamente à França, mas a técnica tem origem na Itália Renascentista. Ao se popularizar ao redor da Europa e, anos depois, do globo, países como a França e a Rússia foram berços de inovações e alto rendimento da modalidade. Você sabe o nome de algum bailarino clássico? Já foi em algum espetáculo de balé na sua cidade? Separamos uma breve biografia de alguns dos maiores bailarinos clássicos da história da dança mundial e nacional para que você se aproxime deste universo. Ana Pavlova A russa Ana Pavlova viveu entre 1881 e 1931, em uma família camponesa. Ingressou na Escola Imperial de Balé de São Petersburgo, onde realizou a sua formação. Graduou-se aos 18 anos de idade e, em seguida, entrou para o corpo de balé de São Petersburgo. Rapidamente, Pavlova chamou a atenção dos coreógrafos da época e conquistou papéis de destaque nos balés. Realizou diversas turnês internacionais, arrebatando uma série de admiradores. Mikhail Baryshnikov Mikhail Baryshnikov nasceu 1948, em Riga, Latvia, estado da então União Soviética. Filho de um oficial estalinista, enfrentou resistência em casa quando quis ingressar no Ballet Kirov, em 1967. Em 74, durante uma turnê do Ballet Kirov no Canadá, o bailarino pediu asilo político em Toronto. Após desertar, foi 49 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II para os EUA. De 74 a 78, Baryshnikov foi o dançarino principal do American Ballet Theater (ABT), onde se associou ao estilo contemporâneo. Em 1978, deixou a companhia e se juntou ao New York City Ballet, também como dançarino principal. Em 1980, o bailarino voltou para a ABT, agora como dançarino e diretor artístico, cargos que exerceu por uma década. Em 2005 inaugurou o Baryshnikov Arts Center, em Nova York (FUNDAÇÃO CIDADE DAS ARTES, 2014). Ana Botafogo Ana Botafogo nasceu em 1957 é uma bailarina e atriz brasileira. Começou a estudar ballet clássico em sua cidade natal e a dançar profissionalmente na França, no Ballet de Marseille. Frequentou ainda diversas academias de dança europeias. Desde 1981 é a primeira-bailarina do Teatro Municipal do Rio de Janeiro já tendo se apresentado na Europa, América do Norte, América Central e América do Sul. Estreou no Municipal com o ballet Coppélia, o que abriu portas para novos convites internacionais. Ana Botafogo é, sem dúvida, o principal nome da dança clássica brasileira (MUNDO BAILARINÍSTICO, [2013-2020]). Dança moderna A dança moderna surge no contexto de rebelião das regras rígidas do balé clássico e do desejo de mudar e liberar os movimentos do corpo na tentativa de explorar com mais profundidade a autoexpressão. No final do século XIX e durante o período do entre guerras, diversos bailarinos, educadores e coreógrafos estavam em busca de novas possibilidades de expressão e movimento em dança. Os Estados Unidos e a Alemanha foram dois dos países que mais concentraram as pesquisas no que hoje chamamos de dança moderna. A figura que mais simboliza o desenvolvimento da dança moderna e é ela mesma precursora chama-se Isadora Duncan. 50 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Figura 20. Isadora Duncan. Fonte: https://media.gettyimages.com/photos/dancer-isadora-duncan-picture-id2642539?s=2048x2048. A dançarina estadunidense ousou em diversos sentidos: desconstruiu a rigidez dos ensinamentos clássicos e dançou descalça (até então, as sapatilhas e a ponta eram uniformes considerados essenciais). Dentre outros precursores da dança moderna, destacamos Emile Jacques Dalcroze, compositor e pedagogo suíço, criador da rítmica, método que permite adquirir o senso musical por meio do ritmo corporal. De grande influência nos estudos da dança moderna e contemporânea, Rudolf Laban criou vários métodos de estudo do movimento ancorado no desejo de explorar os segredos do espaço físico e mental. Em suas investigações criou o método da “labanotação” que seria uma forma de registro criterioso do movimento na e para a dança: uma “notação” da dança (FRANCO; FERREIRA, 2016, p. 270). Essas pessoas estavam em busca da valorização do corpo, da expressão e de movimentos mais autênticos. Note que o balé clássico é composto de uma série de posições, gestos e vocabulários rígidos que podem limitar a criação gestual livre. 51 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II As iniciativas europeias e estadunidenses influenciaram a dança brasileira: A Dança Moderna norte-americana e a Expressionista alemã ̃ tiveram profundas influências no trabalho de coreógrafos e dançarinos brasileiros do século XX e esse impacto ainda está bastante presente no século XXI. Nessa perspectiva, entendo a importância de se compreender as influências das danças Moderna e Expressionista no Brasil como oportunidades privilegiadas nas quais os que delas se apropriaram articularam sua cultura, problematizando e apropriando-se de significados, crenças, valores e visões de mundo (VIEIRA, 2009, p. 3). Conheça alguns dos precursores da Dança Moderna Rudolf Laban (1879 – 1958) – considerado um dos pioneiros da dança moderna na Europa e um dos fundadores da dança expressionista, esse artista de origem austro-húngara transformou o mundo da dança. Laban passou a se interessar pela relação entre os movimentos corporais e o espaço de seu entorno quando ainda estudava na Escola de Belas Artes de Paris. Ao longo dos anos, ele desenvolveu um método próprio, o qual embasou com uma série de anotações e publicações que são populares entre dançarinos até os dias de hoje. Isadora Duncan (1877 – 1927) nasceu nos Estados Unidos e viveu grande parte da sua vida adulta na Rússia e na Europa. Desde muito cedo, Duncan demonstrava aptidão para a dança. Sua espontaneidade e desejo de explorar os movimentos de forma improvisada não encontraram eco em seu país de origem, fato que a fez procurar novas oportunidades em outras nações. Ela distanciava-se das concepções de que a dança é uma forma de entretenimento e das fórmulas convencionais de apresentação e organização de espetáculos. Por isso, ao longo de sua vida, uma das suas principais missões foi a da educação em dança. Duncan formou diversos alunos em seus estúdios. Ela buscava movimentos mais naturais que emanam dos corpos. A artista também buscou levar, para o universo da dança, a emoção e a expressão. Ela experimentou a liberdade de dançar de pés descalços e coberta apenas por uma túnica leve, deixando seu corpo exposto aos olhos do público. Isadora Duncan desafiou os rígidos padrões da dança cênica da época. 52 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Martha Graham foi uma dançarina e coreógrafa norte americana, nascida no final do século XIX, que ficou conhecida ao redor do globo, conquistando prêmios e reconhecimento. Graham tinha como objetivo libertar a dança da sua função de entretenimento e colocá-la no patamar da arte. Em 1926, Graham fundou a sua própria escola de dança. Nos anos seguintes, ela criou uma série de espetáculos e transformou a história da dança. Ela teve uma vida longa e faleceu em 1991 aos 96 anos de idade. Até os últimos dias da sua vida, a artista coreografou e criou. Dança contemporânea Nome próprio de todas as danças do século XX que não hesitaram em abandonar o compromisso com a dançalidade em favor “da ação, da consciência do sujeito no mundo” (LOUPPE, 2004, p. 43). Cada nova obra (de arte) contemporânea, digamos, desontologiza o objeto de uma origem já dada na arte, antepondo, neste lugar de origem, a dúvida. O que é arte? Especializado ou não, o espectador se vê confrontado e impelido a criar categorias a partir do enfrentamento com a obra, com cada obra em particular, na medida em que é o objeto que nos pergunta, porque pergunta a si mesmo: Por que sou uma obra de arte? (ROCHA, 2011) Figura 21. Grupo Corpo – “Gira”, 2017. Fonte: http://www.grupocorpo.com.br/uploads/galeria_obras/AyW5SinF3YzKPbowaKrO9p6VR2C1WzSCX4tSiFHi.jpeg.Acesso em: 27/3/2020. 53 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II Na dança contemporânea, o corpo é construído a partir de técnicas diversas, que trazem o trabalho da conscientização do corpo e do movimento no espaço em que se encontra, e seu entorno, dialogando com o ballet, o jazz e o hip-hop. Cada nova obra (de dança) interroga não somente o meio naquilo que o definia como tal; interroga conjunta e mais gravemente o próprio meio acerca dos a prioris que garantiam o seu estatuto como sendo de arte. E é precisamente aí que a dança se alinha a todas as investidas disso que não menos problematicamente se denominou de arte contemporânea (ROCHA, 2011). É possível dizer que todo ser humano tem um corpo propositor pelas suas potencialidades inerentes, pela via biológica de acesso, mas, para que essa proposição aconteça efetivamente, é necessário que o sujeito perceptor proponha-se a se relacionar com outros aspectos do corpo que também são inerentes (o físico, o mental, o emocional e o cultural). E que se permita a novas descobertas que essa experiência sensória traz, mobilizando seus aspectos inerentes, transgredindo modos de estar e dançar no mundo (SILVA, 2013, p. 65). Grupos de dança contemporânea de destaque no Brasil e no mundo: » Grupo Corpo. » Companhia de dança Deborah Colker. » Companhia de dança de São Paulo. » Momix. » Pina Bausch. 54 CAPÍTULO 3 Teatro Foi na Grécia antiga que o culto à Dionísio se tornou mais público, em festivais que associavam a celebração do vinho à representação dramática. Nesses festivais que incluíam canto, dança e declamação e poesias, era servido vinho preparado com as uvas da última colheita. A partir do século VI a.C., o teatro deixou de ser um ritual de improviso e passou a ser um espetáculo que envolvia competição. Havia dois tipos de peças: tragédia e comédia. Os espetáculos eram antecedidos por procissões trazendo a estátua do deus do vinho – Dionísio (MEIRA, 2015). Na sociedade grega, o teatro era considerado fundamental para a formação dos cidadãos, levando-os a refletir sobre as crenças e o comportamento na vida social. Com o passar do tempo, o teatro foi se profissionalizando, foram sendo incluídos elementos tais como figurino e adereços, cenários, e os atores passaram a receber pelo seu trabalho. Na Idade Média, as trupes (grupos de teatro) eram itinerantes, viajavam de cidade em cidade em carroções, que serviam de transporte, camarim e palco. Esses pequenos grupos com poucos atores tinham palhaços, malabaristas e pelo menos um músico. No Renascimento, o teatro elisabetano, que se desenvolveu no período do reinado de Elisabeth I (1533 – 1603) e do qual William Shakespeare (1564 – 1616) foi o maior expoente, era frequentado por todos – do povo à rainha. Todos se viam representados no palco e, através dessa representação, sentiam a complexidade da condição humana, do agir no mundo, de questionar-se sobre ele. Shakespeare misturava, no linguajar de seus personagens, a alta poesia e a fala corriqueira da população. Era uma de suas características fundamentais, pois suas peças precisavam abarcar os gostos de uma plateia muito diversificada (MEIRE, 2015). Havia vitalidade nos personagens contraditórios e palpáveis, diálogos rápidos, enredos bem construídos. No período do Barroco, surgiu a primeira companhia de Commedia dell’Arte registrada, em 1545 na cidade italiana de Pádua. Essas companhias costumavam se apresentar em praças, sobre uma carroça. Os atores, acompanhados de música, acrobacias e máscaras, representando personagens caricaturais ou grotescos que compunham uma comédia praticamente improvisada. 55 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II Os personagens evocavam figuras típicas da sociedade, e cada ator se especializava em um deles. As tramas giravam em torno de tema simples, como a sátira dos costumes, velhos apaixonados, servidores malandros, maridos traídos. A Commedia dell’arte fazia sucesso entre as camadas populares, das quais tiravam seus personagens e situações, mas era o mecenato de nobres poderosos que garantia a sobrevivência do empreendimento. Graças à insistência das companhias, esse gênero ecoa até hoje. Muitos dos seus personagens clássicos podem ser identificados nas novelas da TV. Aqui no Brasil, nosso carnaval conta com três de seus personagens típicos: o Pierrô, Arlequim e a Colombina. Figura 22. Peeter van Bredael, cena da Commedia dell’arte em uma paisagem italiana (detalhe). Fonte: https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Peeter_van_Bredael_Commedia_dell_arte_Szene_Detail_B%C3%BChne.jpg. Acesso em: 27/3/2020. No início do século XX, novos movimentos e experimentações artísticas surgem contrariando e até mesmo negando as regras dominantes até então – nas quais o “naturalismo” era o estilo predominante. As experiências e inovações teatrais provocam uma expansão nas possibilidades teatrais. Desses experimentos, se destacam o novo teatro expressionista alemão, o teatro épico de Bertold Brecht (1898 – 1956), o teatro da crueldade de Antonin Artaud (1896 – 1948) e o teatro do absurdo de Eugène Ionesco (1909 – 1994). 56 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Bertolt Brecht cria uma forma de expressão artística teatral na qual encontramos uma comunicação direta entre ator e público, um a ruptura de tempo-espaço entre as cenas e, ainda, o posicionamento do ator como um agente da história e crítico das ações da personagem que interpreta. Há uma transparência que deseja a afirmação do que é real e não a ilusão. Figura 23. Selo comemorativo da produção do “Berliner Ensemble” de 1945. “Mãe coragem e seus filhos”, de Bertold Brecht. Fonte: https://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/thumb/f/f8/Stamps_of_Germany_%28DDR%29_1973%2C_MiNr_1852. jpg/800px-Stamps_of_Germany_%28DDR%29_1973%2C_MiNr_1852.jpg. Acesso em: 27/3/2020. A proposta teatral desenvolvida por Antonin Artaud também possui a pretensão de rejeitar as regras do teatro naturalista de Stanislavski, o qual considera uma forma de ação dramática limitada. Artaud acreditava na comunicação teatral dada pelos sentidos. Para ele, o teatro deveria ser uma forma de expressão artística mágica, cheia de energia, que levasse essa experiência ao público onde ele estivesse – nas ruas, nas fábricas, no comércio etc. –, extrapolando os espaços teatrais convencionais. Essa forma de ação teatral dramática, em um processo doloroso, possibilitaria ao público confrontar seus sentimentos, encarar sua própria subjetividade, e esse tipo de ação comunicativa dada pela ação teatral foi por Artaud denominando teatro da crueldade. A segunda grande guerra não destruiu apenas de vidas, destruiu também valores e crenças. No cenário devastado do pós-guerra, surgem novos dramaturgos que, por retratarem a condição humana, incompreensível e sem perspectiva em seus textos teatrais, criam um novo tipo de teatro denominado teatro do absurdo. Ao abordarem temas sombrios como o isolamento humano e os conflitos nas relações interpessoais, abandonam a estrutura narrativa familiar e sequencial. 57 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II Um dos expoentes do teatro do século XX na França e um dos maiores dramaturgos do teatro do absurdo foi Eugène Ionesco. Sobre as novas obras teatrais e seus autores, Ionesco explica: O que as pessoas chamam vanguarda só interessa na medida em que marca um retorno às fontes, somente se se integra a uma tradição viva, atravessando um tradicionalismo esclerosado e um academicismo desgastado. O trabalho de todo autêntico criador consiste em se livrar dos detritos, dos clichés de uma linguagem degradada, a fim de encontrar uma linguagem recém-nascida, simplificada, essencializada, capaz de exprimir realidades novas e velhas, presentes e passadas, vivas e permanentes, particulares e, ao mesmo tempo, universais. As obras de arte mais jovens e novas são reconhecíveis, e falam a todas as idades. Sim, é o Rei Salomão o meu verdadeiro líder, e Jó– esse contemporâneo de Beckett (PEREIRA, 2014). Figura 24. Teatro do absurdo. Fonte: https://estadodaarte.estadao.com.br/wp-content/uploads/2019/07/absurdo.jpg. Acesso em: 27/3/2020. No Brasil, para fazer frente à censura e à repressão desencadeadas pelo AI-5, o método teatral e o modelo de prática cênico-pedagógica sistematizados e desenvolvidos por Augusto Boal (1931-2009), nos anos 1970, promove uma aproximação de sua prática às propostas de Bertolt Brecht. 58 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Aquele que transforma as palavras em versos transforma-se em poeta; aquele que transforma o barro em estátua transforma-se em escultor; ao transformar as relações sociais e humanas apresentadas em uma cena de teatro, transforma-se em cidadão (BOAL, 2005). O teatro do oprimido (TO) é uma metodologia de trabalho criada pelo teatrólogo brasileiro Augusto Boal que busca não só conhecer a realidade, mas também transformá-la através de um processo expressivo artístico que pretende transformar o espectador em sujeito atuante, transformador e protagonista da ação dramática a ele apresentada (BOAL, 2005). Essa transformação da sociedade carrega um sentido de libertação dos oprimidos. Para Boal, a vida é o teatro; todos os seres humanos, mesmo que não façam teatro, carregam em si o ator e o expectador, porque agem e observam. Atualmente, a metodologia de trabalho do TO está presente em mais de 70 países espalhados pelos cinco continentes. Nas últimas décadas, surgiram grupos teatrais que propõem eliminar a parede invisível (a quarta parede) que separa público dos personagens através da interatividade. A encenação interativa e a produção coletiva de textos são uma tendência atual. 59 CAPÍTULO 4 Tecnologia e transformação cultural – fotografia e cinema O desenvolvimento tecnológico ocorrido no século XIX, no que concerne à técnica de captura e reprodução de imagens, contribuiu enormemente para o surgimento da fotografia e do cinema. Finalmente, após séculos de pesquisa, a busca de tantos artistas e cientistas chegava ao fim. Pesquisadores dedicados descobriram uma forma de fixar as imagens desenhadas pela luz em um suporte. A princípio, em uma chapa de vidro. Mais tarde, em papel. As primeiras fotografias (ainda não existia esse termo) demoravam muito tempo para serem capturadas; mesmo assim, essa nova forma de reprodução e fixação de imagens causou grandes transformações na sociedade, em especial devido à mudança na forma de vermos o mundo e as coisas nele existentes. Diversas novas invenções, ligadas diretamente à fotografia, causaram um desvio da norma na história da sociedade e da arte. Seu surgimento afetou diretamente a vida dos artistas pintores, pois registrar retratos e paisagens passou a ser um processo cada vez mais mecanizado, mais preciso da realidade e mais rápido. Mais ou menos ao mesmo tempo, pessoas diferentes realizaram experimentos físicos e químicos em vários lugares, inclusive no Brasil, que contribuíram para o aperfeiçoamento e reconhecimento dessa inovadora técnica. Foi Hercule Florence, um francês radicado no Brasil, quem cunhou o termo “photografie” pela primeira vez. Informações sobre seus estudos e descobertas só foram reconhecidas internacionalmente na década de 1970, quando seus cadernos de anotações vieram a público. Da captura e impressão da imagem congelada à criação do cinema – imagem em movimento – fui um pulo. Entusiastas das novas tecnologias passaram a se dedicar em criar um modo de capturar o movimento. Os primeiros equipamentos eram rudimentares, mas foram suficientes para que se chegasse rapidamente à lógica da repetição de frames fotográficos capturados com diferentes espaços de tempo entre si, os quais, ao serem projetados de forma acelerada, dessem a noção de movimento. 60 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Em síntese, assim surgiu o cinema. Em poucas décadas, se tornaria mais que um divertimento de alguns pesquisadores para se tornar o grande negócio da primeira metade do século XX. Fotografia Antes do surgimento da fotografia, a possibilidade de se reproduzir imagens estava restrita às mãos dos artistas (desenhistas ou pintores). Criar uma imagem era, portanto, algo demorado, custoso, e sua posse era restrita às classes sociais mais abastadas. O surgimento da fotografia “popularizou” a imagem, no sentido de que – com o advento desta técnica – mais pessoas puderam adquirir seus próprios retratos, “ir” a locais antes não visitados, conhecer obras de arte de museus distantes, ver pessoas que nunca viram pessoalmente etc. Sendo assim, pode-se dizer que a reprodução fotográfica mudou a maneira dos seres humanos se perceberem no mundo. Minha imagem agora não está refletida apenas no espelho, eu posso guardá-la, outros poderão me ver e eu poderei ver aos outros, mesmo os mortos. Com a difusão da fotografia, muitos serviços sociais passam do pintor para o fotógrafo (retratos, vistas das cidades e de campos, reportagens, ilustrações etc.) A crise atinge, sobretudo, os pintores de ofício, mas desloca a pintura, como arte, para o nível de uma atividade de elite. Se a obra de arte se torna um produto excepcional, há de interessar apenas a um público restrito, e ter um alcance social limitado; além disso, a produção de alta qualidade na arte também deixa de ter função, caso não sirva de guia a uma produção média. Não mais se qualifica como um bem de consume normal, e sim como arte malograda; tende, portanto, a desaparecer (ARGAN, 1992, p. 79). As técnicas de fotografia tornaram-se objetos de interesse de cientistas e artistas no início do século XIX. Porém, desde o Renascimento, os artistas já utilizavam dispositivos mecânicos como a câmara escura para auxiliá-los na reprodução de objetos e cenas. A câmara escura é uma caixa revestida internamente de preto, com um buraco em uma das faces por onde entram os raios de luz que se projetam na face oposta – revestida de branco –, onde uma imagem invertida dos objetos iluminados que se 61 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II encontram no exterior da caixa será formada. Desde o século IV a.C., os gregos já tinham conhecimento desse dispositivo (câmara escura). Com o passar do tempo e com as inovações tecnológicas, foram incorporando lentes e um jogo de espelhos que permitiam a projeção das imagens diretamente sobre o papel (MEIRA, 2015, p. 196). Quem obteve a primeira imagem duradoura produzida unicamente pela ação da luz foi o francês Joseph-Nicéphore Niépce (1765 – 1833). Essa imagem de 9 de maio de 1816, uma paisagem vista de uma janela, ficou impregnada em uma chapa metálica, na qual Niépce aplicou betume – uma substância sensível a luz. Figura 25. Primeira fotografia, 1816, uma paisagem vista de uma janela, Niépce. Fonte: https://www.dw.com/image/38763030_303.jpg. Acesso em: 27/3/2020. Niépce se associou a Louis-Jacques Daguerre, um pintor francês que juntamente com o irmão havia desenvolvido a primeira câmera (improvisada) equipada com lentes. Após a morte de Niépce, Daguerre continuou com suas experiências e, acompanhando as pesquisas de outros cientistas, passou a utilizar placas de cobre banhadas em sais de prata, já conhecidos por suas características fotossensíveis. Em 1937, Daguerre conseguiu fixar a primeira imagem gravada pela luz em placas de vidro, chamadas de daguerreótipos e, em seguida, patenteou seu invento na Inglaterra. Os pintores foram os primeiros a perceber que a invenção da fotografia era um desvio da norma e geraria mudança significativa nas artes visuais. Alguns artistas souberam tirar proveito do novo invento, utilizaram a fotografia como auxílio para a suas pinturas. Outros foram mais visionários e perceberam nelas uma nova maneira de ver o mundo e usaram essas informações para mudar a forma de representar o mundo em suas pinturas. 62 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Com o aparecimento do primeiro meio de reprodução verdadeiramenterevolucionário, a fotografia (primeira metade do séc. XIX), Benjamin considera que “pela primeira vez, com a fotografia, a mão liberta-se das mais importantes obrigações artísticas no processo de reprodução de imagens, as quais, a partir de então, passam a caber unicamente ao olho que espreita por uma objetiva” (BENJAMIN, 1992, p. 76). Segundo Benjamin, ao longo do século XIX, travou-se uma disputa entre a pintura e a fotografia, “relativamente ao valor artístico dos seus produtos” (BENJAMIN, 1992, p. 88). Isso em nada afeta o significado da fotografia, até o acentua. Cronologia – alguns eventos significativos na história da fotografia: » 1826 – Primeira fotografia – Niépce. » 1837 – Daguerreótipo – modo de fotografar que não permitia cópias. A imagem era fixada em uma placa de cobre. » 1841 – Utilização do papel na fotografia – Talbot. » A fotografia como processo de reprodução tomou forma comercial no final da década de 1840. » 1857 – O francês Félix Nadar foi um dos primeiros a obter sucesso artístico e financeiro com o novo meio. Em 1883, abriu um estúdio de retratos. “Nadar” passa a ser sinônimo de retrato feito por essa técnica mecânica e o fotógrafo decide reivindicar legalmente seu pseudônimo e questionar a autoria da fotografia. Dessa forma, questiona-se o seu status. » 1860 – Início da popularização da fotografia. Advento dos “cartões de visita”. » 1900 – A empresa estadunidense Kodak entra forte no mercado e inicia a fabricação de câmeras populares: “You press the button. We do the rest”. » 1940 – Os museus adquirem fotografias para seus acervos. A fotografia enquanto arte A legitimidade cultural e artística da fotografia é recente. Por volta dos anos 1970, na França e no mundo ocidental, 63 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II produziu-se uma forte mudança de tendência. Criaram-se numerosos festivais, revistas, galerias; publicaram-se obras; abriram-se escolas especializadas e departamentos universitários; realizaram-se estudos e pesquisas, históricos e teóricos; constituíram-se coleções privadas e públicas; obras ingressaram em museus, e houve uso crescente de procedimentos fotográficos pelos artistas, nascendo, assim, um mercado. Em resumo, as práticas de produções fotográficas migraram do restrito território do útil para o da cultura e da arte. Essa consagração foi acompanhada de um novo olhar dirigido à fotografia. Tendo sido vista, durante muito tempo, como simples ferramenta útil, suas produções têm sido, cada vez mais, apreciadas pelo que são em si. Substitui-se o uso prático do dispositivo pela atenção sensível e consciente prestada às imagens. Mudaram as práticas e as produções, os lugares e os circuitos de difusão, bem como as formas, os valores, os usos e os autores (ROULLIÉ, 2009, p. 15). Poéticas Visuais Como artista visual e pesquisador em artes, minhas perguntas iniciais são: qual caminho escolher para abordar este assunto? Qual via seguir para chegar à exposição dos vários problemas com os quais sou confrontado diariamente e os métodos aí utilizados? Logo em seguida percebo que um dos significados de método, talvez o mais importante, é o de caminho: “caminho pelo qual se atinge um objetivo”, nos diz o dicionário. [...] O caminho está indissoluvelmente ligado ao caminhante e a seu andar. Resumindo: os caminhos em questão se fazem à medida que caminhamos. Daí a dificuldade de traçá-los inteiramente a priori, sem que esse trajeto inicial não seja revisto, alterado, modificado a todo instante. Dai talvez sua impossibilidade mesmo. (FERVENZA, 2002, p. 67). Cinema Na última década do século XIX, Paris presenciou invenções tecnológicas espantosas, como o cinema e o avião (MEIRA, 2015, p. 210). O desenvolvimento do cinema enquanto tecnologia foi antecedido pela criação de diversas outras máquinas de reprodução de imagem. 64 UNIDADE II │ AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS Registrar imagens em movimento era algo que fotógrafos, artistas e cientistas buscavam desde a invenção da fotografia. As inovações tecnológicas na área de equipamentos ópticos produziam ilusão de movimento por meio da repetição de frames fotográficos ou de desenhos; foram inventados equipamentos como o praxinoscópio e o zootrópico, nomes de origem grega relacionados à ação e ao movimento circular. Em 1879, um estadunidense George Eastman comercializava uma película de celulose flexível transparente contendo em um dos lados uma emulsão química sensível a luz que substituía as chapas de vidro como suporte para o negativo fotográfico. Anos mais tarde, na França, os irmãos Lumière criaram o cinematógrafo, um dispositivo que permitia filmar e projetar imagens em movimento. Thomas Edson e os irmãos Lumière são alguns dos nomes que figuram na trajetória histórica do cinema. Entretanto, não é apenas de destaques que podemos entender o desenvolvimento dessa grande arte. Ao levantar as origens do cinema, nada mais difícil que estabelecer datas e nome inaugurais: o primeiro filme, o primeiro projetor, o verdadeiro inventor ou a primeira sessão. Esses marcos, aliás, seriam de pouca serventia, já que encaramos o cinema como parte de um processo longo, amplo e ramificado de experiências e conquistas no campo da projeção da imagem (DARIN, 2006, p. 23). Arnold Hauser (1985) cita Walter Benjamin quando refere que o filme é, acima de tudo, “fotografia” e, como tal, já uma arte técnica de origens mecânicas, tendo como finalidade a representação mecânica (BENJAMIN apud HAUSER, 1989, p. 68). Figura 26. Auguste e Louis Lumière, “A chegada do trem na estação de Ciotat”, 1895. Fonte: http://4.bp.blogspot.com/-GYml3vfV7dE/UEt4T1kGu5I/AAAAAAAAAKA/-V88K7nKX0Y/s1600/lumiere.jpg. Acesso em: 27/3/2020. 65 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II Somente cem anos depois da invenção da fotografia foi possível unir as invenções tecnológicas de reprodução de som e imagem. Surge o cinema falado. Walter Benjamin salienta: “A realização de um filme, especialmente de um filme sonoro, proporciona um espetáculo como nunca anteriormente, em tempo ou lugar algum, tinha sido imaginável” (BENJAMIN, 1992, pp. 98-99). 66 CAPÍTULO 5 Música As divindades responsáveis por inspirar o conhecimento, as ciências e as artes na mitologia grega eram chamadas de “musiké téchne” – arte das musas. E essa é a origem da palavra música, muito embora ela seja muito mais antiga que os gregos. Há indícios de que a música já era produzida desde a pré-história, pois foram encontrados vestígios de flautas feitas de ossos. Provavelmente os povos primitivos imitavam os sons da natureza a partir da observação. É praticamente impossível encontrar uma única definição para qualquer tipo de manifestação artística. E com a música não poderia ser diferente, devido à grande variedade de produção musical e sonoridades existentes no mundo. Sendo uma forma de arte imaterial e temporal ao mesmo tempo, podemos dizer que a música é a arte de combinar as variedades de sons e de silêncios, acontecendo uns após os outros, criando um sentido na recepção desses elementos. As práticas musicais existentes nas mais diversas culturas mostram diferentes graus de complexidade sonora. A música provavelmente surgiu da observação dos sons da natureza, portanto, como uma produção cultural, ela existe desde que o homem passou a se organizar em grupos; era parte integrante do cotidiano desses povos primitivos. Acredita-se que as primeiras manifestações tenham ocorrido no continente africano e, de lá, se espalharam pelo mundo com migrações dos povos. A música é influenciada diretamente pela organização sociocultural e econômica de cada região, e até mesmo pelas características climáticas. Possui a capacidade estética de expressar sentimentos, atitudes e valores culturais de um povo ou nação (BENNET, 1986). Os gregos estabeleceram as bases para a cultura musical do Ocidente. Essa arte abrangia, ao mesmo tempo, a poesia e a dança, etodas essas expressões eram praticadas de modo integrado. Os poemas eram recitados ao som de acompanhamento musical da lira, daí o nome “lírica” para denominar esse gênero poético. Os instrumentos principais eram a cítara, a lira e o aulo (instrumento de sopro). Os gregos atribuíam aos deuses sua música, definindo-a como uma criação integral do espírito, um meio de alcançar a perfeição (RECCO, 1999). 67 AS LINGUAGENS ARTÍSTICAS │ UNIDADE II A música grega se baseava em oito escalas diatônicas descendentes – os modos gregos e se fundamentavam na ética e na matemática. Pitágoras estabeleceu proporções numéricas para cada intervalo musical (RECCO, 1999). Na Idade Média, a questão da música foi assumindo uma importância muito grande entre os clérigos. Por um lado, essa importância deve ser entendida porque os monges tinham tempo e oportunidade de conhecer todo o saber musical oriundo da civilização clássica através das bibliotecas dos mosteiros. Por outro lado, também pode ser entendida porque o uso da música foi assumindo grande importância na realização das liturgias que povoavam as manifestações religiosas da própria instituição (SOUZA, 2018). Foi nesse contexto que um monge beneditino francês chamado Guido de Arezzo, nascido nos fins do século X, organizou o sistema de notação musical conhecido até os dias de hoje (SOUZA, 2018). 68 UNIDADE IIIARTE CONTEMPORÂNEA Contextualização histórica Em junho de 1944, as tropas aliadas – que combatiam a coligação Alemanha, Itália e Japão – retornaram a Paris. Em 1945, Inglaterra, Estados unidos e Rússia negociaram o fim da Segunda Guerra Mundial. No oriente, o conflito só chegou ao fim depois que os Estados Unidos lançaram duas bombas atômicas sobre as cidades de Hiroshima e Nagasaki, obrigando o Japão a se render. Afinal, o que se compreende por arte contemporânea? Além de ser utilizado como critério de periodização, o termo é atribuído à produção de artes plásticas que começou a ser desenvolvida depois da Segunda Guerra Mundial, tendo seu ápice na década de 1960, quando a arte Pop deu mais visibilidade a essas manifestações, e também designa a arte atual. Vale ressaltar que nem todas as obras artísticas produzidas hoje podem ser classificadas como arte contemporânea. No pós-guerra, o centro cultural do mundo passa a ser Nova York – o centro do mundo cruzou o Atlântico: por causa da guerra, com a Europa devastada, muitos artistas europeus mudaram-se para os Estados Unidos, para onde as atenções da crítica especializada se voltavam. Ao término da Segunda Guerra, o Brasil havia expandido sua indústria graças à necessidade de produzir produtos antes importados da Europa. Com isso, sua reserva aumentou e comércio internacional era favorável, especialmente com a Europa empobrecida pela guerra. Esse contexto possibilitou investimento em projetos urbanísticos e culturais. Na Europa, foi preciso levantar fundos pra recuperar as indústrias, o que fez com que empresários colocassem à venda suas coleções particulares de arte. Consequentemente, os preços despencaram e propiciaram a aquisição de arte europeia para montar acervos no outro lado do Atlântico. No Brasil, três museus foram criados no final da década de 1940, patrocinados por empresários brasileiros que desejavam ser reconhecidos como patrocinadores do projeto de modernização cultural no país: o Museu de Arte de São Paulo (MASP) e o Museu de Arte Moderna (MAM), ambos em São Paulo, e o MAM do Rio de Janeiro. 69 ARTE CONTEMPORÂNEA │ UNIDADE III Para entendermos as obras contemporâneas, precisamos aprender a fazer a leitura dessas, pois, somente através da reflexão, é possível compreender a criação artística, seu poder transformador e crítico social. As obras contemporâneas abrangem o uso de uma grande diversidade de materiais, técnicas, mídias, suportes e espaços. O pós-guerra determinou uma ampliação considerável do mundo das artes plásticas em escala internacional, e, mesmo dentro das possibilidades de concretização, surge uma expansão do campo da arte abrangendo o uso de uma grande diversidade de materiais, suportes, mídias e espaços para sua exposição. Para alguns historiadores, a base da arte contemporânea surgiu no início do século XX, com as experimentações das vanguardas artísticas da arte moderna. O afrouxamento das categorias e desmantelamento das fronteiras entre as linguagens e técnicas possibilitou a expansão do campo da arte. E, a partir da década de 60, a arte assumiu muitas formas e nomes diferentes: Conceitual, Land Art, Arte Povera, Body Art, Performance e Política. Porém todas essas formas de expressão artísticas têm suas raízes nas ramificações da Art Pop e do Novo Realismo (ARCHER, 2011, p. 61). Figura 27. Andy Warhol e Untitled (Marilyn Monroe). Fonte: https://s.ebiografia.com/img/an/dy/andy_e_obra_c.jpg. Acesso em: 27/3/2020. A Pop Art foi um movimento artístico que surgiu no final dos anos 1950, no qual jovens artistas iniciaram um retorno à figuração em suas práticas artísticas, muito embora os críticos ainda afirmassem que a abstração era o caminho para o futuro. Esse movimento surgiu praticamente ao mesmo tempo nos Estados Unidos e na Inglaterra. 70 UNIDADE III │ ARTE CONTEMPORÂNEA Nos Estados Unidos, onde o direito de escolha do consumidor era propagado como um indicador de liberdade, o poder aquisitivo dos estadunidenses tinha aumentado significativamente nas últimas décadas; sem terem sofrido nenhum ataque em seu território, eles produziram e abasteceram a Europa destruída, no durante e no pós-guerra. Havia abundância, e o consumismo se tornou a norma do estilo de vida estadunidense. O interesse dos artistas da Pop Art girava em torno dessa abundância, do consumo desenfreado, da fama e do boom das mídias. O objetivo principal desses artistas era criticar a sociedade de consumo instaurada no pós-guerra. Para tanto, se apropriaram de imagens da publicidade, de elementos da propaganda e do consumo para produzir uma arte associada à cultura popular. A ideia de reprodutibilidade e repetição estava na base da sociedade de consumo instaurada nos Estados Unidos do pós-guerra. A Pop Art emergiu da cultura popular em uma sociedade caracterizada pelo capitalismo, influenciada pela moda e pelo uso das tecnologias para produzir em série e incentivar o consumismo. Andy Warhol (1928–1987), ao reproduzir muitas vezes a mesma imagem lado a lado, apontava para a padronização decorrente dos processos industriais que pareciam moldar a sociedade estadunidense. Segundo o crítico e historiador Arthur Danto, Warhol provocou um último grande desvio de norma da história da arte. Danto elege como agente desse deslocamento as “Brillo Boxes” de Warhol, as quais, colocadas ao lado das caixas de sabão Brillo encontradas nos supermercados, eram indiscerníveis de tão idênticas. Surge a expressão “o fim da arte”. Boa parte da produção artística desenvolvida desde meados da década de 1960 denotam o caráter reflexivo, uma consequência desse desvio da norma ocorrido na Pop Art. Tanto nas obras do minimalismo como nas obras da arte conceitual encontramos aquilo que Danto definiu como uma dissolução na filosofia. São obras artísticas que questionam a natureza da arte; muitos artistas consideravam suas obras como proposições para reflexão e não objeto artístico acabado. Na década de 1980, temos o retorno expressivo da pintura e o surgimento dos movimentos artísticos revisionistas, os “neos” – Neoexpressionismo, Neorrealismo – bem como os movimentos de arte dos guetos. Uma nova cena artística surge a partir dos anos de 1990, com diferentes objetividades e clamores, em torno da discussão sobre sistemas político e 71 ARTE CONTEMPORÂNEA │ UNIDADE III estético, em função da crise em que se encontravam as várias categorias da arte como objeto. Uma das principais vocações da cultura e da arte moderna desde o final do século XIX é a de se tornarem espaços que trazem à tona problemáticasimportantes do mundo contemporâneo, que podem ser tanto de ordem local como universal, discorrendo sobre temáticas muito variadas que abarcam tanto a esfera pública quanto o domínio da intimidade (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 13). O mundo da arte contemporânea já extrapolou há muito tempo o universo da pintura e da escultura. Muito embora elas ainda permaneçam como parte dele, ressurgem com uma outra apresentação mais sintonizada com as expressões do repertório de comunicação da época em que vivemos (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p.12). 72 CAPÍTULO 1 A diversidade nas linguagens artísticas contemporâneas (Fonte: ENCICLOPEDIA ITAU CULTURAL reproduzido para fins educativos) Happening A palavra de origem inglesa significa “acontecimento” e descreve ações artísticas que simplesmente “acontecem”. O termo foi cunhado pelo artista norte-americano de origem russa Allan Kaprow (1927-2006) para falar sobre alguns dos experimentos que foram por ele desenvolvidos durante os anos 50. Durante um happening existe espaço para o desconhecido, para ações sem planejamento prévio que simplesmente acontecem e que articulam diferentes objetos e materiais. Por isso o happening é também multifacetado e composto por diversos gestos, sons e barulhos. Artistas que trabalham com essa linguagem: John Cage, Maurizio Calvesi, Allan Kaprow, Jim Dine, Claes Oldengurg, Robert Whitman. Instalação Embora oficialmente difundida somente a partir de 1980, Hélio Oiticica, um visionário que criou uma obra autêntica e conectada com valores culturais brasileiros, como a escola de samba e a favela, propôs um tipo de arte que chamou de ambiental, e que hoje é conhecida como instalação (MEIRA, 2015). O termo instalação nomeia a ação artística que transforma seu entorno em parte integrante da obra, nas últimas décadas do século XX, tornou-se uma das categorias ou linguagens artísticas mais populares no circuito de arte contemporânea. 73 ARTE CONTEMPORÂNEA │ UNIDADE III Figura 28. Hélio Oiticica, “Tropicália”, instalação, 1967. Fonte: https://miro.medium.com/max/1600/1*SNuKnpdKoUJeLL4jwGhN6w.jpeg. Acesso em: 27/3/2020. Arte conceitual O precursor da arte conceitual foi Marcel Duchamp, que questionava o sistema da arte já nas primeiras décadas do século XX, seus readymades eram uma forma de questionar o que era arte e quem decidia o que era obra de arte. Ele afirmava que arte não era uma atividade física e sim mental. No fim da década de 1960, artistas estadunidenses e europeus seguindo o desvio de norma e coma compreensão de que a arte deveria ser dissolvida na filosofia vão retomar os questionamentos duchampianos e produzindo obras nas quais o conceito tem prioridade em relação à exterioridade da obra. Para a materialização da obra o artista pode delegar a sua formalização a quem possua habilidade técnica específica ou até mesmo à indústria. O que importa é o conceito, a ideia elaborada mentalmente antes de sua materialização. Podemos considerar os procedimentos e dispositivos utilizados pelos artistas conceituais como uma “atualização” do legado Duchampiano. O mais proeminente artista conceitual foi Joseph Kosuth (1945), abandonou a pintura para trabalhar com a linguagem. Ele acreditava que focalizar a linguagem distanciaria a arte dos padrões estéticos e a direcionaria às especulações filosóficas (MEIRA, 2015, p. 343). Joseph Kosuth – Uma e três cadeiras (1965) – A obra consiste na combinação de três elementos: uma fotografia em preto e branco de uma cadeira, uma cadeira propriamente dita e um verbete de dicionário sobre o que é uma cadeira. 74 UNIDADE III │ ARTE CONTEMPORÂNEA Figura 29. Joseph Kosuth, “Uma e três cadeiras” (1965). Fonte: https://comunicacaoeartes20122.files.wordpress.com/2013/01/uma-e-trc3aas-cadeiras1.jpg?w=487. Acesso em: 27/3/2020. Arte ambiental A arte ambiente ou ambiental não faz referência a um movimento artístico particular, mas sinaliza uma tendência da arte contemporânea que se volta mais decididamente para o espaço – incorporando-o à obra e/ou transformando-o –, seja ele o espaço da galeria, o ambiente natural ou as áreas urbanas. Diante da expansão da obra no espaço, o espectador é convocado a se colocar dentro dela, experimentando-a; não como observador distanciado, mas parte integrante da obra (ENCICLOPEDIA ITAU CULTURAL, 2018). A Land art pode ser considerada o passo decisivo da arte em direção ao meio exterior, tomando como material a natureza e fazendo dos seus espaços, espaços da própria arte, do próprio trabalho. A noção de arte ambiente entra no vocabulário da crítica nos anos 1970 com sentido amplo, designando obras e movimentos variados. O contexto artístico a informar as novas experiências com o ambiente refere-se ao desenvolvimento da arte pop, do minimalismo e da arte conceitual que tomam a cena estadunidense das décadas de 1960 e 1970, desdobrando-se em instalações, performances, happenings, arte processual, land art, videoarte etc. Robert Smithson, escultor e artista experimental estadunidense, produziu intensamente a maior parte de seus trabalhos considerados minimalistas. Voltou-se 75 ARTE CONTEMPORÂNEA │ UNIDADE III para a Land Art no final da década de 1960. Sua principal obra foi “Spiral Jetty”, de 1970, feito no grande lago salgado de Utah. Figura 30. A famosa “Spiral Jetty” de Robert Smithson, 1970. Fonte: https://rfluxus.files.wordpress.com/2015/06/land_art_art_101_land_art_710x400.jpg?w=500&h=286. Acesso em: 27/3/2020. No Brasil, experiências artísticas sobre o ambiente natural foram realizadas no interior do Projeto Fronteiras, desenvolvido pelo Itaú Cultural em 1999, quando nove artistas – Angelo Venosa (1954), Artur Barrio (1945), Carlos Fajardo (1941), Carmela Gross (1946), Eliane Prolik (1960), José Resende (1945), Nelson Felix (1954), Nuno Ramos (1960) e Waltercio Caldas (1946) – realizam intervenções em diferentes lugares das fronteiras do Brasil com países do Mercosul (ITAU CULTURAL, 1999). Body art A body art, ou arte do corpo, designa uma vertente da arte contemporânea que toma o corpo como meio de expressão e/ou matéria para a realização dos trabalhos, associando-se frequentemente a happening e performance. Não se trata de produzir novas representações sobre o corpo – encontráveis no decorrer de toda a história da arte –, mas de tomar o corpo do artista como suporte para realizar intervenções, de modo geral, associadas à violência, à dor e ao esforço físico. As experiências realizadas pela body art devem ser compreendidas como uma vertente da arte contemporânea em oposição a um mercado internacionalizado 76 UNIDADE III │ ARTE CONTEMPORÂNEA e técnico e relacionado a novos atores sociais (negros, mulheres, homossexuais e outros). A body art filia-se a uma subjetividade romântica, que coloca o acento no artista: sua personalidade, biografia e ato criador. Retoma também as experiências pioneiras dos surrealistas e dadaístas de uso do corpo do artista como matéria da obra. Reedita certas práticas utilizadas por sociedades “primitivas”, como pinturas corporais, tatuagens e inscrições diversas sobre o corpo. Performance A performance pode ser entendida como uma arte de fronteira ou uma arte dos limites (desafiadora destes). É uma expressão artística difícil de ser rotulada por transitar entre os campos das artes visuais e cênicas. Por isso que a performance também é entendida como uma arte de intervenção e experimentação que propõem outras formas de percepção da realidade e das formas de expressão. Uma das principais características da performance é seu questionamento do natural que pensa a arte e o corpo enquanto enfrentamento de maneira a questionar os conceitos sobre o corpo humano. Artistas que trabalham com performance: » Joseph Beuys. » Marina Abramovich. » Carolee Schneemann. Figura 31. Joseph Beuys, “I like America and America likes me”, performance 1974. Fonte: https://www.comunidadeculturaearte.com/wp-content/uploads/2018/02/20807864_960.jpg.Acesso em: 27/3/2020. 77 ARTE CONTEMPORÂNEA │ UNIDADE III O desenvolvimento da performance enquanto linguagem está diretamente relacionado aos questionamentos sobre gênero e sexualidade que surgiram nas décadas de 1960 e 1970. Performance e ciber espaço – Lynn Hershman Leeson Entre 1974 e 1978 Leeson criou o Alterego Roberta Breitmore. » Alterego se expandiu a partir da criação de clones performados por atrizes. » Leeson deixou seu alterego e apenas seus clones seguiram vivos até um exorcismo na cova de Lucrezia Borgia quando elas deixaram de existir fisicamente. » Ente 1995 e 2000 Roberta virou a CybeRoberta, uma escultura interativa de inteligência artificial na web. » Em 2006 Roberta virou um personagem do ambiente virtual Second Life. Arte e política As reflexões sobre as relações entre arte e política são amplamente exploradas pelos campos de produção de conhecimento e não é exclusividade de um período da história, podendo ser estabelecidas a partir de diferentes temporalidades e pontos de vista. Afinal, refletirmos sobre as relações entre arte e política é sempre uma tentativa de respondermos a pergunta: Como a arte interage com as estruturas políticas de sua época? Na contemporaneidade, as relações entre arte e política ganham destaque dado os cenários de mudanças e incertezas marcados por acontecimentos em diferentes pontos do globo, tais como: o Brexit e o questionamento da possibilidade da Europa enquanto projeto político e cultural; a eleição de Donald Trump nos Estados Unidos e a insurgência de um discurso autoritário proto-fascista; a diáspora Síria e as manifestações no Brasil em 2013 e a destituição da presidenta Dilma Rouseff, apenas para citar alguns dos últimos acontecimentos. Nesses cenários artistas de diferentes partes do globo vêm dialogando com as tensões socioculturais do presente e refletindo sobre as possibilidades de se fazer e pensar arte. 78 UNIDADE III │ ARTE CONTEMPORÂNEA Ao mesmo tempo, como bem apontado por proeminentes pesquisadores como Alan Tourraine e Anthony Giddens, demandas de grupos que poderíamos chamar de “novos movimentos sociais” colocam pautas de extrema pertinência que perpassam por questões que vão desde a ecologia, as relações de gênero, políticas da sexualidade, a ocupação do espaço público, justiça social, raça e etnia, dentre outras. Diversas dessas demandas vêm adentrando as políticas públicas, o imaginário cultural, bem como as instituições universitárias e do mundo da arte. As pautas citadas vêm trazendo questões para as instituições do mundo da arte, culminado na criação de espaços mais plurais como o New Museum em NY e o museu do Chopo no México, bem como a revisão da estrutura de funcionamento de museus consagrados como o Georges Pompidou e o Reina Sofia. No caso das instituições citadas, percebe-se um movimento constante em abri-las para a comunidade no sentido de tornar esses espaços mais multifacetados e locais de produção de conhecimento em movimento. Em paralelo às transformações institucionais temos o fenômeno das manifestações sociais incorporarem elementos artísticos em seus atos e vice e versa, criando situações em que arte e vida aproximam-se. Figura 32. “Espaço para Abortar”, instalação do Mujeres Creando na Bienal das Artes 2014. Fonte: http://ovelhamag.com/wp-content/uploads/2015/04/mujerescreando-bienal2014-690x461.jpeg. Na 31a Bienal de São Paulo (2014), por exemplo, tivemos a ação do coletivo Mujeres Creando no Ibirapuera. Em marcha, as integrantes do coletivo anarquista e feminista caminharam pelo parque, seguidas de diversas mulheres e empunhando uma espécie de útero gigante. As mulheres que caminhavam compartilhavam suas experiências de aborto em gravações que depois foram incorporadas em uma instalação no pavilhão da Bienal. 79 ARTE CONTEMPORÂNEA │ UNIDADE III Desde o ponto de vista histórico, como ficará claro no desenvolvimento deste texto, podemos traçar relações históricas entre o momento atual com os anos 1960 e o engajamento de artistas junto ao movimento feminista, ou ainda, os anos 1970 e 1980 na América Latina e a vida em meio às ditaduras militares na América latina. Intervenção A noção de intervenção é empregada, no campo das artes, com múltiplos sentidos, não havendo uma única definição para o termo. A intervenção se dá, assim, sobre uma realidade preexistente, que possui características e configurações específicas, com o objetivo de retomar, alterar ou acrescentar novos usos, funções e propriedades e promover a apropriação da população daquele determinado espaço. O termo intervenção é também usado para qualificar o procedimento de promover interferências em imagens, fotografias, objetos ou obras de arte preexistentes. Intervenção, nesse caso, possui um sentido semelhante à apropriação, contribuição, manipulação, interferência. Colagens, assemblages, montagens, fotografias e desenhos são trabalhos que frequentemente se valem desse tipo de procedimento. Diversas intervenções artísticas se concretizam sem licença para serem realizadas, por vezes ilicitamente. Entre tantos artistas que trabalham nessa linha, é possível citar o brasileiro Cildo Meireles (1948), reconhecido como um dos mais importantes artistas brasileiros contemporâneos. “Inserções em Circuitos Ideológicos” (1970), a série de trabalhos em que imprime frases subversivas em cédulas de dinheiro e garrafas de Coca-Cola, deslocando a recepção da obra da dimensão de “público” para a de “circuito” Figura 33. “Inserções em Circuitos Ideológicos” (1970). Fonte: HERKENHOFF, 2000. 80 UNIDADE III │ ARTE CONTEMPORÂNEA Site-specific O termo site-specific foi proposto por Robert W. Irwin, artista estadunidense que explorou a percepção como a questão fundamental da arte. Irwin começou sua carreira como pintor na década de 1950 e se tornou o pioneiro do movimento Light and Space. Na década de 1960, passou a considerar o papel da arte como “condicional”, através de intervenções arquitetônicas específicas do local onde essas intervenções ocorreram, alterando a experiência física, sensorial e temporal do espaço. Ou seja, o termo faz menção a obras criadas a partir de, e em concordância com um determinado local. Figura 34. Henrique Oliveira. Fonte: https://oglobo.globo.com/rioshow/mar-villa-aymore-recebem-obras-que-dialogam-com-sua-arquitetura-23290504. Acesso em: 27/3/2020. Trata-se, em geral, de obras artísticas desenvolvidas especialmente para serem materializadas em um local específico em que os elementos compositivos dialogam com o entorno, para o qual a obra foi elaborada. A noção de site-specific está diretamente ligada à ideia de arte ambiente. Sendo, portanto, uma tendência da produção artística contemporânea a preocupação com o entorno da obra, e em agir com e sobre esse espaço, seja ele o espaço da galeria, o espaço ao ar livre em áreas urbanas ou na natureza Essa forma de arte se propagou pelo mundo a partir dos anos 1970. Um exemplo desse tipo de arte é a obra criada pelo artista plástico brasileiro Henrique Oliveira, a qual se estabelece como uma intervenção no endereço onde seguirá permanentemente exposta, o casarão da Glória no Rio de Janeiro. Oliveira tem 81 ARTE CONTEMPORÂNEA │ UNIDADE III obras nos Estados Unidos, Japão e Europa, ele é conhecido justamente por suas obras esculturas site-specific (CUNHA, 2018). Videoarte A videoarte é uma proposta artística baseada na projeção de imagens dentro de uma perspectiva minimalista, que pretendia problematizar o fazer artístico e a própria arte contemporânea. A introdução do vídeo e da televisão entra com muita força no processo de criação artístico no fim da década de 1960, muito por causa da acessibilidade, o baixo custo e possibilidade de difusão. Trazem novos elementos para o debate sobre o fazer artístico, além de transformar a relação da obra de arte com o espaço físico onde ela é exposta. O campo de visão do espectador é alargado, transitandodas imagens em movimento ao espaço envolvente da galeria (ITAU CULTURAL, 2018). Portanto, se a videoarte mexe com espaço, ela visa, também, alterar as formas de apreensão do tempo na arte. Estendendo o conceito de espaço como campo perceptivo, extrapolando os limites da tela e colorindo as paredes do espaço destinado à exibição. Figura 35. Imagem do vídeo “The Crossing”, realizado por Bill Viola. Fonte: http://s.rfi.fr/media/display/a5ef0726-0ec5-11ea-add8-005056a9aa4d/w:900/p:16x9/billviola2.jpg. Acesso em: 27/3/2020. 82 UNIDADE III │ ARTE CONTEMPORÂNEA Uma das características da arte contemporânea é o hibridismo de linguagens. Por isso, é possível encontrar variadas definições, que parecem sinônimas de videoarte, mas conceitualmente possuem especificidades próprias. Podemos citar: videoperformance, videotexto, videoinstalação, videopoema, videoescultura, entre outras tantas. Vito Acconci (1940), Nam June Paik (1932-2006), Joan Jonas (1936), Robert Morris (1931), Richard Serra (1939), Keith Sonnier (1941), Bruce Nauman, Robert Smithson (1938 – 1973), Bill Viola (1951), entre outros, são artistas que desenvolveram obras com essa mídia. 83 CAPÍTULO 2 Audiovisual Audiovisual é um termo genérico que pode se referir tanto a formas de comunicação que combinam som e imagem como a cada produto gerado por estas formas de comunicação, ou ainda à tecnologia empregada para o registro, tratamento e exibição de som e imagem sincronizados, ou, por fim, à linguagem utilizada para gerar significados combinando imagens e sons. De forma técnica, o audiovisual é um modo de comunicação produzida através de componentes visuais. Esses podem ser imagens, desenhos, signos e até gráficos (MENDONÇA, 2018). Entram nessa categoria os itens que são sonoros, como voz, música, ruído, efeitos onomatopeicos etc. Esses itens garantem a comunicação por meio de diversas combinações (MENDONÇA, 2018). No Dicionário Houaiss, a palavra traz o seguinte significado: “qualquer comunicação, mensagem, recurso, material etc. que se destina a ou visa estimular os sentidos da audição e da visão simultaneamente”. O audiovisual nas artes O vídeo inscreveu-se como um meio heterogêneo no campo artístico, conquistando lentamente a sua legitimidade na arte. Através do vídeo, os artistas criaram obras inéditas, como narrativas e imagens documentais que, mostradas através de projeção ou em monitores, constituem cada vez mais matéria de referência para estudo e reflexão nas várias áreas artísticas. Para Rosalind Krauss, o vídeo proclamou o fim da sua especificidade: Vivemos em um tempo em que são as ideias — e não os meios específicos — que são centrais para os artistas. Sugerir que o vídeo proclamou esta deslocação de praxis é assumir ousadamente a importância que o vídeo teve para a arte contemporânea (KRAUSS in RUSH, 2007, p. 11). Como observam Lipovetsky e Serroy, há “tela em todo lugar e a todo momento [...] telas para ver e fazer tudo. Tela de vídeo, tela em miniatura, tela gráfica, tela nômade, tela táctil: o século que começa é o da tela onipresente e multiforme, 84 UNIDADE III │ ARTE CONTEMPORÂNEA planetária e multimídia” (2009, p. 12). Nossas relações são perpassadas, atravessadas, mediatizadas por uma quantidade de telas em interface, interconectadas. Muitas telas que, através do discurso visual e do não visual, nos mostram o mundo; indicam modos de ver, pensar, vestir, comer, viver; nos constituem e nos colocam em presença de realidades construídas, editadas. Para Lipovetsky e Serroy, “estamos no tempo da tela-mundo [...] A arte (arte digital), a música (videoclipe), o jogo (videogame), a publicidade, a conversação, a fotografia, o saber, nada mais escapa completamente às malhas digitais da nova ecranocracia” (SERROY, 2009 apud PILLAR, 2012, p. 710). Videoarte Com interesse nas possibilidades expressivas da linguagem audiovisual, artistas começam a explorar o vídeo como meio de expressão, contrapondo-se aos modos utilizados na televisão comercial. Dessas experimentações, originaram-se as videoartes, que propiciam outras relações estéticas com o audiovisual. A esse respeito, Arlindo Machado diz que “a videoarte surge oficialmente no começo dos anos 1960, com a disponibilização comercial do Portapack (gravador portátil de videoteipe) e graças sobretudo ao gênio indomável de Paik” (2007, p. 27). Nam June Paik, artista coreano, foi o primeiro a realizar experiências de distorção e exploração das imagens da mídia televisiva, criando a videoarte. Anne Cauquelin (2005, p.154) ressalta que “com Nam June Paik, é o universo da tela que perturba a distinção entre realidade/imagem e questiona a relação do espectador com a tela televisual” (CAUQUELIN, 2005 apud PILLAR, 2012, p. 711). Uma nova revolução no domínio da indústria cultural ocorreu no final dos anos 1970, no âmbito da tecnologia voltada para o audiovisual. Aparelhos mais econômicos e de fácil manipulação transformam todo receptor em um produtor virtual. Com isso, tem-se uma nova forma de desterritorialização da produção audiovisual para além das fronteiras dos grandes estúdios e das grandes gravadoras (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001). Filmadoras não profissionais e aparelhos de videocassete surgidos nos anos 1980 e 1990 ampliaram consideravelmente o número de produtores de audiovisual que conseguiram entrar no mercado utilizando a tecnologia doméstica. No campo das artes plásticas, o uso dessas novas tecnologias proporcionou aos artistas incorporar em suas produções os recursos audiovisuais, modificando o próprio universo material do artista plástico (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001). 85 ARTE CONTEMPORÂNEA │ UNIDADE III Manuel Castells (2000) observa que, a partir de então, a audiência deixou de ser objeto passivo para se tornar sujeito interativo. As pessoas começaram a filmar seus eventos, de férias a comemorações familiares, assim produzindo as próprias imagens, além do álbum fotográfico. Apesar de todos os limites dessa autoprodução de imagens, tal prática realmente modificou o fluxo de mão única das imagens e reintegrou a experiência de vida e a tela” (CASTELLS, 2000, p. 363). 86 UNIDADE IVO CONCEITO DE CULTURA CAPÍTULO 1 A cultura e as diferentes conceituações e funções A maneira como uma sociedade se estrutura e se comporta fornece dados para a definição de cultura, muito embora existam diversas conceituações possíveis para o termo, pois este engloba tudo: linguagem, comportamento, símbolos, técnicas, objetos, ideias, crenças – tudo o que ela produz de material e imaterial. Trata-se do patrimônio material e intelectual compartilhado, recriado e transmitido ao longo das gerações que distinguem as características de uma sociedade. Sabe-se que a humanidade começou a produzir cultura a partir da grande explosão criativa que aconteceu no Paleolítico Superior, por volta de 40 mil anos atrás. Há várias hipóteses a respeito da produção cultural dos povos que viveram nesse período (MEIRA, 2015, p. 15). Os arqueólogos se referem aos artefatos encontrados dessa época como “cultura material”, sem distinguir objetos utilitários, como vasilhas e ferramentas, dos objetos simbólicos, como aqueles destinados a rituais. No Paleolítico Superior, os grupos humanos que habitavam vários pontos da Terra já dispunham de grande capacidade de manipulação de materiais. Esses grupos começaram a deixar indícios de desenvolvimento da expressão simbólica, ou seja, da capacidade de representar conceitos através de imagens, símbolos e objetos. Esse período também coincide com a aquisição de vocabulário abstrato: a linguagem passou a expressar ideias e sentimentos (MEIRA, 2015, p.16). O conceito de cultura é difícil de definir, exatamente porque diferentes áreas das ciências humanas têm realizado estudos sobre esse tema e, conforme seu ponto de vista e de leitura, apresentado uma gama variada de significados, como exporemos a seguir. 87 O CONCEITODE CULTURA │ UNIDADE IV Para a filósofa brasileira Marilena Chauí, as percepções de cultura no senso comum são respaldadas em ações do cotidiano que naturalizam o comportamento humano, bem como o seu modo de viver e agir. Concordando com as palavras do historiador inglês Peter Burke “a ideia de cultura inclui também a cultura cotidiana, ou seja, costumes, valores e modo de vida” (BURKE, 2005, p. 48). Também é possível pensarmos cultura como sendo o mundo das ideias, interpretações, valores, regras, comportamentos, linguagens, representações, sentidos, projetos, lembranças, desejos e sonhos de uma sociedade; aquilo que até meados do século XX era nomeado como “mundo superestrutural” (REIS, 2003, p. 58). Do ponto de vista da filosofia, encontramos a classificação da cultura em três grupos, designados pelo pensador francês Félix Guattari: cultura-valor, cultura-alma coletiva e cultura-mercadoria (TOMAZI, 2010, pg. 171). » Cultura-valor: é o que permite estabelecer a diferença entre quem tem cultura e quem não tem, define um julgamento de valor sobre essa situação (TOMAZI, 2010, p. 171). » Cultura-alma coletiva: expressa a ideia de que todas as pessoas, grupos e povos têm uma cultura e identidade cultural (TOMAZI, 2010, p. 171). » Cultura-mercadoria: corresponde à cultura de massa. nessa concepção, cultura compreende bens ou equipamentos – os como centros culturais, os cinemas, as bibliotecas –, as pessoas que trabalham nesses estabelecimentos, os conteúdos teóricos e ideológicos de produtos – como filmes, discos, livros – à disposição de quem queira comprar e possa comprá-los, ou seja, que estão disponíveis no mercado (TOMAZI, 2010, p. 171). Já na área da antropologia, o conceito de cultura é bem variado. Entram diversos conceitos que partem de uma visão mais ampla/universalista a uma visão mais particularista. Para exemplificar uma definição universalista, ou seja, mais ampla, podemos citar a definição de cultura do antropólogo inglês Edward B. Taylor (1832 – 1917): segundo ele, cultura é o conjunto complexo de conhecimentos, crenças, arte, moral e direito, além dos costumes e hábitos adquiridos pelos indivíduos em uma sociedade (TOMAZI, 2010, p. 172). Para o antropólogo Claude Lévi-Strauss, a cultura deve ser considerada como um conjunto de sistemas simbólicos, e esses sistemas se relacionam e influenciam a realidade social e física das diferentes sociedades (TOMAZI, 2010, p. 173). 88 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA São diversas as condições que nos levam a pensar na diversidade humana: pertencer a uma etnia, pertencer a uma classe social, ser homem ou mulher e ter uma visão de mundo são algumas condições entre tantas outras. Pensar na alteridade, isso é, pensar no outro, que é igual e, ao mesmo tempo, diferente. O desenvolvimento das tecnologias de comunicação no século XX tornou o cinema, a televisão e a internet meios de trocas culturais intensas, e gerou múltiplos pontos de origem para os contatos individuais e sociais. (TOMAZI, 2010, p. 173). Constituída por elementos herdados do passado, por influências exteriores adaptadas e por novidades inventadas localmente, a cultura exerce funções importantes na sociedade. A função da cultura é ser cultura e não salvar o mundo. Se a cultura educa, se ela serve ao social, isso vem no lucro. A função essencial da cultura é manter-nos vivos, pensantes e humanizados (FREITAS, 2011). A cultura tem a função de dar ao indivíduo o sentimento de pertencimento, e se identificar com o grupo ao qual pertence automaticamente afetará a autoestima desse indivíduo. A autoestima é a condição sine qua non de qualquer forma de realização, quer seja pessoal ou coletiva. Paulo Freire analisou essa “cultura do silêncio” que caracteriza as sociedades dependentes e emudecidas. Esse silêncio e essa apatia resultam nomeadamente da perda de autoestima enquanto sociedade. A afirmação do seu valor e do seu potencial propicia a criatividade e a ação (FREIRE, 1976, p.116). Cada vez mais, as culturas vêm trocando os seus saberes, por meio da atividade comercial, por exemplo, ou pelas redes de comunicação. Desse modo, aspectos de uma cultura acabam sendo assimilados por outra, contribuindo para transformar a vida social de diferentes grupos. Com a revolução digital – que é muitíssimo recente –, o impacto do cânone da cultura ocidental sobre outras culturas se tornou enorme. Por exemplo, existem grupos nômades que hoje carregam televisores e computadores. Por outro lado, também possibilitou o acesso à educação a distância não apenas do ensino formal regular ou profissionalizante, como de idiomas. Hoje, é possível aprender chinês on-line. A cultural digital facilitou o aparecimento de novas formas de se relacionar, novas vozes, novos olhares, novos gestos mais livres e menos padronizados que no passado. 89 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV Nas últimas décadas do século XX, o mundo cultural já não se importava com a expectativa do novo, o mito da originalidade já tinha sido superado e renovava-se o interesse pelo passado, por criar releituras do que fora criado outrora. Havia também o reconhecimento de que a manifestação cultural era heterogênea e pluralista. As fronteiras que distinguiam a cultura erudita da cultura popular e da cultura de massa se tornaram mais tênue. No final do século XX, as tecnologias digitais possibilitaram às pessoas se conectarem não apenas aos seus vizinhos como a pessoas do outro lado do mundo. Essas trocas culturais simultâneas têm o poder de gerar diversidades em escala exponencial (MEIRA, 2015, p. 378). Universalidade e particularidades na cultura, segundo o antropólogo Claude Lévi-Strauss: O homem é como um jogador que tem nas mãos, ao se instalar a mesa, cartas que ele não inventou, pois o jogo de cartas é um dado da história e da civilização (...). Cada repartição de cartas resulta de uma distinção contingente entre os jogadores e se faz à sua revelia. Quando se dão as cartas, cada sociedade assim como cada jogador as interpreta nos termos de diversos sistemas, que podem ser comuns ou particulares: regras de um jogo ou regras de uma tática. E sabe-se bem que, com as mesmas cartas, jogadores diferentes farão partidas diferentes, ainda que, limitados pelas regras, não possam fazer qualquer partida com determinadas cartas (LÉVI-STRAUSS, 1999, p. 99). Há diversos livros e artigos sobre cultura, escritos por sociólogos, filósofos, antropólogos e historiadores, portanto, há diversas definições de cultura segundo diferentes pontos de vistas. Citamos aqui alguns: CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: Edusp, 2000. CHAUÍ, Marilena. Cultura e democracia: um discurso competente e outras falas. São Paulo: Cortez, 1989. SANTAELLA, Lúcia. Arte e Cultura: equívocos do elitismo. São Paulo: Cortez, 1995. SANTOS, José Luiz dos. O que é Cultura? São Paulo: Brasiliense, 1982. 90 CAPÍTULO 2 Produção cultural Neste capítulo, apresentaremos as tendências das políticas públicas para o setor cultural, buscando trazer o que vem sendo realizado na produção artística e cultural na contemporaneidade. Para tanto, usaremos como referência uma revisão parcial da literatura disponível e informações provenientes de fontes governamentais e empresas privadas. Para começo de conversar – o que é produção cultural? Produção cultural pode ser definida como uma atividade que gerencia, planeja e organiza eventos culturais, bem como a formalização de bens culturais. Os profissionais que atuam nessa atividade são chamados de produtores culturais e devem ser habilitados para gerenciar desde a criação até a materialização de inúmeras atividades de expressão cultural, como, por exemplo: shows, exposições de arte, espetáculos cênicos, ou coordenar a gravação de discos, vídeos, programas de TV ou rádio. Na virada do século XIX para o XX, o mundo ocidental conheceuuma nova forma de produção cultural. O método de produção em larga escala, difundido por Henry Ford, começou a se estender. Os avanços tecnológicos possibilitaram o surgimento de novas formas de expressões artísticas e o estabelecimento de novas relações entre o público e a arte. O cinema, por exemplo, é uma dessas expressões. A gravação de determinada sequência de cenas pode ser copiada e o filme pode ser visto por diversas pessoas em diversos lugares do mundo. É certo que essa possibilidade de alcançar muitas pessoas é boa. Porém, alguns filósofos perceberam que havia algo não tão positivo nessa nova realidade. Os filósofos alemães, Max Horkheimer (1895-1973) e Theodor Adorno (1903-1969), observando esse novo momento do fazer artístico, cunharam o termo “indústria cultural” (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001). Indústria cultural, portanto, é o termo usado para designar esse modo de fazer cultura, a partir da lógica da produção industrial. Significa que se passou a produzir arte com a finalidade do lucro. 91 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV Historicamente falando, a primeira grande expansão da cultura e da arte no século XX ocorreu nos Estados Unidos, durante o período que ficou conhecido como a Crise de 1929, que se estendeu ao longo da década de 1930. Essa expansão ocorreu em especial no setor da indústria cultural, um fenômeno estadunidense que atingiu proporções internacionais, formando os fluxos que constituem o espaço cultural globalizado em que vivemos. No Brasil, em dois momentos históricos3, o Estado desempenhou o papel de gestor cultural, organizando e conduzindo a produção cultural, de forma intervencionista. Nas últimas décadas, desde o início da redemocratização, sua ação se manteve restrita ao fornecimento de subsídios e suporte, sem interferir diretamente sobre os conteúdos (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 10). Em 2020, no Brasil, existe a possibilidade de retornarmos ao sistema intervencionista do período das ditaduras, devido à corrente ideológica que se instaurou no poder nesse momento e que tem proposições extremamente conservadoras. Segundo Ortiz Ramos, no final do século XX, a produção cultural transformou-se em um dos principais nichos da economia globalizada, sem que este fenômeno tenha derivado um estado de degradação cultural generalizada, conforme os prognósticos mais pessimistas de Theodor Adorno. O processo de consolidação da cultura só veio a ser um empreendimento bem-sucedido, nos países ricos, graças à atuação conjunta do mercado com o Estado, após os anos 1960. (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 1). As novas políticas culturais associadas às alterações nas legislações, criação de novos mecanismos fiscais, possibilitaram a consolidação da cultura como um campo econômico bem sucedido. A indústria cultural, a partir da segunda metade do século XX, torna-se o setor em que se desenvolvem as principais atividades culturais, de informação e entretenimento. No setor da cultura contemporânea, houve uma multiplicação dos campos de produção em diferentes regiões do planeta, que resultou na desterritorialização da indústria cultural, principalmente a partir dos anos 60, quando o processo de expansão da cultura gerou uma redefinição do papel da produção cultural, como também uma reorganização das formas de gestão e organização dos domínios da cultura (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 2). Alguns conteúdos adquirem mais visibilidade – seja por estarem ligados a tradições fortes, seja por contarem com um respaldo sólido da mídia, como é o caso das 3 A história da república brasileira teve dois momentos de ditadura: o Estado Novo (1937 – 1945) e Ditadura Militar (1964 –1985) 92 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA produções cinematográficas hollywoodianas, que combinam as duas condições (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 3). Desde o final da Segunda Guerra Mundial, a produção cultural e artística não pode mais ser encarada apenas do ponto de vista do entretenimento ou do prazer estético. Novos redirecionamentos da função da cultura no âmbito da recepção fazem-se necessários (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 3). Outra mudança mais radical, ainda associada à tecnologia, diz respeito ao próprio processo de recepção, que passou por grandes transformações com o uso corrente de aparelhos como o videocassete, as câmeras de vídeo e, mais recentemente, os microcomputadores (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 4). Consequentemente, houve uma complexificação do fluxo e uma intensificação da segmentação da recepção no domínio da cultura de massa (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p.4). Seria o que Nestor Garcia Canclini designa como descolecionamento: As culturas já não se agrupam mais em grupos fixos e estáveis [...]. Agora as coleções renovam sua composição e sua hierarquia com as modas, entrecruzam-se o tempo todo, e, ainda por cima, cada usuário pode fazer sua própria coleção. As tecnologias de reprodução permitem a cada um montar em sua casa um repertório de discos e fitas que combinam o culto com o popular, incluindo aqueles que já fazem isso na estrutura das obras, (CANCLINI, 1997, p. 304). Com a globalização, as imagens e os conteúdos culturais passam a circular e interagir em escala planetária, transformando o espaço da cultura de massa (compreendida como ampliação do público) e da indústria cultural em um domínio da diversidade e da heterogeneidade, mesmo que elas ainda dependam de formatos e padrões para serem veiculadas. No entanto, esses padrões vêm se revelado cada vez mais flexíveis, com um grande potencial para incorporar as inovações (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 4). Todos os países possuem políticas e leis de incentivo e proteção à produção cultural e artística nacional, sejam elas mais ou menos agressivas. Cada país obedece, no entanto, a uma lógica cultural própria que comporta medidas específicas de apoio à produção nacional. 93 CAPÍTULO 3 Apresentação e discussão do panorama da arte e cultura no mundo contemporâneo Diante do atual contexto histórico, imerso na internacionalização da cultura e na hibridação das identidades culturais, as atuais proposições para a cultura e a arte não se encontram mais divididas entre culturalistas e industrialistas como nas décadas finais do século XX, apesar de ainda haver divergência entre os profissionais da área. As temáticas permanecem nacionais, mas os modos de produção transitam entre o nacional e o internacional. Essa dinâmica interfere diretamente no conteúdo das obras contemporâneas. A interface nacional transnacional encontra respaldo nas leis e políticas públicas adotadas para o setor e transforma os modos de produção que compõem a cadeia produtiva cultural no Brasil (CESÁRIO, 2007, p. 34). A cultura ocidental está orientada para a novidade e a arte contemporânea não difere dessa atitude. Os artistas tendem a centrar a sua atenção no inabitual, no desconhecido e no inadvertido. A parte da arte comprometida principalmente com questões formais, o “desconhecido” inclui o reprimido, o suprimido, o ausente e o desaparecido, referindo-se mais frequentemente na revelação de temas e subtextos do que no superficial das coisas (TEIXEIRA DE CAMPOS, 2014, p. 54). Após os anos 1960, por conta das grandes mudanças a nível cultural e social, a televisão, o cinema e a música rock modificam a maneira de pensar e de agir e a arte acompanha todo esse processo. Os artistas passam a experimentar novos materiais e técnicas, recorrendo às tecnologias e exploram, em suas obras, de maneira híbrida, os vários meios expressivos disponíveis, como as instalações e performances. A multiplicidade e diversidade das artes no panorama contemporâneo resultam, entre outras coisas, das misturas e hibridismos entre gêneros, suportes, técnicas, tecnologias, mídias e linguagens que foram se acentuando a partir do final do século XIX e que introduziram a fotografia, o cinema, o vídeo, a arquitetura, o design e suas variadas misturas no panteão das artes. Dissoresulta a quase impossibilidade de categorização ou apontamento de tendências da arte contemporânea (SESC/SP, 2014). 94 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA Cultura audiovisual A produção audiovisual – o cinema e, particularmente, a televisão – é um caso exemplar e se constitui em um dos setores mais sólidos da economia da cultura. Com relação ao cinema, a sua expansão começou nos anos 1930, nos Estados Unidos, durante a recessão provocada pela queda da bolsa em 1929 (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 6). Inicialmente o boom da indústria cinematográfica foi um fenômeno identificado com os grandes estúdios de Hollywood. Após o final da Segunda Guerra Mundial, emergiram novos polos cinematográficos, em diferentes países, que, apesar de apoiados em bases industriais pouco sólidas, conseguiram um impacto cultural muito forte, vindo a redirecionar não apenas os caminhos da produção e da linguagem cinematográficas, mas também o papel do cinema enquanto produção cultural no mundo contemporâneo (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 6). Cinema contemporâneo O cinema contemporâneo tem exibido, com considerável frequência, obras cuja estrutura narrativa se revela quebrada, descontínua e dispersa. Observa-se, nesse tipo de cinema, a subtração ou a desativação do fluxo narrativo, da linearidade narrativa, o que vem a promover novas formas de experiência fílmica, uma nova topologia do olhar do espectador, que migra do centro da representação para sua periferia. Esse deslocamento provoca, sem dúvidas, uma importante transformação na compreensão daquilo que se passa em cena. Mas, se isso acontece, não é porque tal centro se encontraria em outro lugar, alhures ao filme; mas, sim, em virtude de uma multiplicidade de centros, de olhares e de pontos de vista e de escuta possíveis que esse novo cinema faz surgir. Cinema pós-moderno O conceito de pós-moderno no cinema se aplica para designar filmes que fogem às classificações tradicionais da teoria. Essa designação foi atribuída a filmes que desconcertavam a crítica, como “O fundo do coração” (Francis F Coppola, 1982), “Blade Runner, caçador de androides” (Ridley Scott, 1982), “Zelig” (Wood Allen, 1983), “Brazil, o filme” (Terry Gilliam, 1985), “Veludo Azul” (David Linch, 1986). Tais filmes desafiavam as categorias cinematográficas: clássicas, modernista, vanguardista, expressionista, surrealista – nenhuma delas parecia dar conta de suas especificidades (PUCCI JR., apud MASCARELLO, 2006, p. 363). 95 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV Certas narrativas contemporâneas exploram a ideia de terras imaginadas, de nações não iniciadas, sinalizando para comunidades de sentimento sob novas espacialidades: contranacionais, transnacionais, pós-nacionais (APPADURAI, 1998, p. 41). É uma nova cartografia que aparece nesse cinema, uma outra espacialidade cinema-topográfica, feita de dispersões, deslocamentos, nomadismo (FRANÇA apud MASCARELLO, 2006, p. 398). Um cinema de terras e fronteiras tem no horizonte o contexto da internacionalização e, ao usar esse termo, queremos marcar um deslocamento em relação à noção de “globalização”, de modo a enfatizar a imediata tensão com o termo “nação” (FRANÇA apud MASCARELLO, 2006, p. 398). A partir dos anos 1990, filmes de países considerados periféricos, como os da região dos Balcãs, da China e do Irã, adquirem considerável visibilidade internacional (FRANÇA apud MASCARELLO, 2006, p. 402). O cinema asiático, em um espaço de poucos anos, tornou-se o novo centro de gravidade do cinema mundial (FRANÇA apud MASCARELLO, 2006, p. 403). Por mais de duas décadas, o cinema iraniano tem brilhado em eventos culturais internacionais (FRANÇA apud MASCARELLO, 2006, p. 405). Cinema brasileiro contemporâneo Analisar o cinema brasileiro contemporâneo é deparar-se com um momento extremamente frutífero, muitas produções, diferentes linguagens, estilos, um público que vem dando legitimidade aos novos filmes. Todo um caminho foi percorrido desde a chamada “retomada”, mais especificamente após o fenômeno “Carlota Joaquina”, de Carla Camurati, que significou, na época, a convergência das empresas produtoras com investidores do setor privado, a articulação do mercado financeiro pelos mecanismos de renúncia fiscal, por meio de leis de incentivo à cultura (FRANÇA apud MASCARELLO, 2006, p. 409). Você tem conhecimento sobre o cinema brasileiro? Conhece alguns dos nossos principais diretores e conquistas históricas? Então vamos recordar algumas das pessoas e momentos emblemáticos do nosso cinema. Walter Salles é um dos diretores brasileiros mais conhecidos da atualidade, com filmes de sucesso em seu currículo. Sua carreira foi alavancada com o filme “Central do Brasil” (1998), o qual rendeu ao Brasil duas indicações ao Oscar: melhor filme estrangeiro e melhor atriz (Fernanda Montenegro). 96 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA Central do Brasil retoma o projeto que fascinou o Cinema Novo: mostrar o Brasil escondido ao Brasil oficial. As personagens que parte em busca do país, do pai ou das emoções perdidas vão revelando, no mesmo movimento, o mais íntimo de si e o mais íntimo de uma terra que amedronta e seduz. Depois desta viagem, não serão mais as mesmas. A apatia converte-se em ação, a indiferença em solidariedade e o desprezo em confiança. Como em toda bela fábula moral, Central do Brasil não se preocupa em doutrinar. Contenta-se em mostrar, sugerir e convidar a que quiser para que vá e veja. Em seguida, a cada um segundo sua vontade e de cada um segundo sua possibilidade. (COSTA, 2003, p. 63). Figura 36. Cena do filme “Central do Brasil”, 1998. Fonte: https://br.web.img3.acsta.net/medias/nmedia/18/87/30/56/19911024.jpg. Acesso em: 27/3/2020. Outro filme brasileiro de grande repercussão foi “Cidade de Deus” – um filme brasileiro de ação, criado a partir do livro homônimo de Paulo Lins (1997). Com roteiro de Bráulio Mantovani e direção de Fernando Meirelles e Kátia Lund, o filme foi lançado no Brasil em agosto de 2002. Com um grande impacto internacional, o longa se tornou um marco no cinema brasileiro, tendo sido indicado ao Oscar nas categorias de melhor diretor, melhor roteiro adaptado, melhor fotografia e melhor edição. 97 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV O filme acompanha a vida de várias personagens que moram na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro. Buscapé, o narrador-protagonista, conta a história da comunidade segundo a sua perspectiva, desde os tempos de infância. Enquanto o protagonista fugia da violência, garotos da sua idade como Dadinho e Bené acompanhavam os assaltantes da região nos seus crimes. Dadinho se tornou Zé Pequeno, um bandido perigoso que tomou todas as “bocas” de tráfico e virou o dono da região (SANTOS, 2019). Figura 37. Cena do filme “Cidade de Deus”, 2002, de Fernando Meirelles e Kátia Lund. Fontes: https://secureservercdn.net/166.62.108.43/rk3.bec.myftpupload.com/wp-content/uploads/2019/02/52451601_4617299 54364660_2421116104622473216_n.jpg?time=1584072958. Acesso em: 27/3/2020. Outro filme brasileiro recente é “Bacurau” (2019), de Kleber Mendonça Filho. Sua exibição e premiação em diversos festivais internacionais4 teve repercussão estrondosa a nível nacional. Muito comentado e debatido, o filme tem uma temática que possibilita um leque aberto para as mais variadas formas de especulações analíticas (SANTOS, 2019). 4 Além dos prêmios em Cannes e Munique, o longa já foi contemplado em diversos festivais pelo mundo. No 23o Festival de Cine de Lima, no Peru, foi considerado: melhor filme, melhor direção (para Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles) e Prêmio da Crítica Internacional. No Sitges – Festival Internacional de Cinema Fantástico da Catalunha, na Espanha –, o longa venceu nas categorias Melhor Direção, Melhor Filme - Juri Jovem, e Prêmio da Crítica. E no Montréal Festival of New Cinema, no Canadá, o público elegeu “Bacurau” como melhor filme. O longa também foi exibido no Festival de Toronto(TIFF 2019), na prestigiosa Mostra Contemporary World Cinema, e foi escolhido para representar o Brasil nos prêmios Goya, o equivalente ao Oscar na Espanha, concorrendo a uma vaga na disputa pelo prêmio de melhor filme ibero-americano (O TEMPO, 2019). 98 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA Figura 38. Cena do filme “Bacurau”. Foto de Vitor Jucá. Fonte: https://diarinho.com.br/wp-content/uploads/2019/12/bacurau.jpeg. Acesso em: 27/3/2020. O filme Bacurau estreou dia 29 de agosto em 286 salas de cinema em todo o país. Foram dez semanas em exibição e 700 mil espectadores. De que forma podemos explicar tamanha recepção? Talvez o mais impressionante seja o fato de o filme ter se tornado capaz de suscitar variadas leituras nas quais se realizam, de forma catártica, as expectativas e valores de parte da população. Como já estava claro em seu filme anterior, “Aquarius”, o diretor Kleber Mendonça Filho aposta mais nas dicotomias e, fundamentalmente, no caso de “Bacurau”, aponta para os riscos da agressão e da violência que essa intolerância e não aceitação do outro pode gerar. Seguindo uma forte tendência dos filmes de gênero, que começam a despontar no Brasil com títulos como “As Boas Maneiras” e “Branco Sai, Preto Fica”, “Bacurau” se destaca ao renovar a temática do sertão, bastante abordada nos anos 1970 (SEGANFREDO, 2019). Cinema e tecnologias digitais Como falar de cinema, em sentido estrito, em um momento histórico no qual seu próprio suporte material, a película, começa a dar lugar a novos e complexos suportes imateriais? 99 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV A introdução das tecnologias digitais facilitou imensamente os processos do cinema industrial e massivo, ao mesmo tempo em que ampliou possibilidades estéticas e abriu novos caminhos aos realizadores independentes (FELINTO apud MASCARELLO, 2006, p. 414). A hibridação das formas, gêneros e conteúdos narrativos representam uma aparente tendência da produção cultural contemporânea. Nesse novo cenário, os realizadores independentes não apenas exploram as potencialidades de criação oferecidas pelas tecnologias digitais, mas também suas possibilidades de difusão e distribuição. As salas de cinema tradicionais e o grande mercado já não são mais as únicas opções à disposição do criador (FELINTO apud MASCARELLO, 2006, p. 419). A internet abriu um novo horizonte à difusão de trabalhos independentes, em formatos para computador e mais recentemente para smartphones. O audiovisual e a educação Com a pedagogia da criação, Alain Bergala (2008, p. 33-4) propõe um cinema que vai para a escola não como texto ou como tema, mas como ato de criação. A criação dos estudantes – e professores – acontece enquanto espectadores, ao imaginar como se deu a produção dos filmes, bem como quais seriam e como se deram suas escolhas. Sejam como espectador ou como “construtor/criador” de imagens, os estudantes e professores retomam suas capacidades de autoria, por meio do cinema, na escola. Segundo Marília Franco, a existência e a importância da impregnação afetivo/ emocional proporcionada pela linguagem ou pela estética cinematográfica, seja nas formas mais tradicionais ou nas mais experimentais, mobiliza nossa percepção, sensibilidade e adesão afetiva, emocional, intuitiva. E, pra ela, essas constatações ajudam a entender as hipóteses de Bergala (FRANCO, 2010, p. 9). Arte contemporânea No caso da arte contemporânea, presenciou-se, no pós-guerra, um fenômeno análogo ao que ocorreu no cinema e em outras esferas culturais, com uma multiplicação de campos de produção fortes em vários países do mundo. O hibridismo é bastante encontrado e discutido no universo da Arte Contemporânea. Vai além dos limites de uma linguagem e/ou cultura e/ou 100 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA sociedade. A performance é um exemplo de hibridismo e, segundo Renato Cohen, em seu livro “Performance como Linguagem” (2004), […] é impossível falar-se de uma linguagem pura para a performance. Ela é híbrida, funcionando como uma espécie de fusão e ao mesmo tempo como uma releitura, talvez a partir da sua própria ideia da arte total, das mais diversas – e às vezes antagônicas – propostas modernas de atuação (COHEN, 2004, p. 108). Para Nathalie Heinich (1998a), trata-se de um gênero da arte atual – como foram, em outras épocas, a pintura histórica e a pintura de paisagens – e, da mesma forma que todo gênero, tem como principal finalidade organizar a produção no mercado (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 9). O mundo da arte contemporânea é um espaço internacionalizado, gerido pelas redes de galerias e de instituições, cuja participação, nos últimos anos, vem se revelando cada vez mais preponderante (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 10). Em seguida, e em consequência desta transformação, na proporção em que a globalização se consolida, as artes plásticas passam a operar na esfera da indústria cultural (HUYSSEN, 1991, p. 78). Atualmente, por exemplo, o custo de uma grande exposição é equivalente ao de uma produção cinematográfica de porte, sendo que o público e as receitas obtidas nas duas categorias de eventos também se equiparam (BUENO, 1999, p. 283). Tendo em vista que a circulação da arte contemporânea só se concretiza a partir do desvendamento da produção para o público, a construção da recepção passou a ser um elemento fundamental na organização de seu universo (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 11). Na esfera restrita do mercado de arte moderna, o marchand e o crítico realizavam essa operação junto aos diretores de museus e colecionadores. No contexto atual, com as instituições artísticas funcionando como ramos da indústria cultural, voltadas para um público ampliado, esse empreendimento revelou-se não apenas mais custoso como também mais complexo (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 11). Em suma, as artes plásticas contemporâneas, para poderem se realizar plenamente, necessitam do apoio de recursos substanciais, que possibilitem não apenas sua recepção e circulação, mas também sua produção (ORTIZ RAMOS; BUENO, 2001, p. 12). 101 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV No caso das artes plásticas, na base dessa ampliação estão as novas políticas culturais responsáveis pela redefinição das instituições, que deixaram de ser redutos de uma cultura de elite para atuar como espaços da cultura de massa. 36ª edição do Panorama da Arte Brasileira No segundo semestre de 2019, aconteceu uma nova edição da mostra Panorama da Arte Brasileira com a temática “Sertão”, proposto pela curadora Júlia Rebouças. Após um extenso processo de pesquisa e viagens por diversas regiões do Brasil, a curadora convidou artistas que se relacionam com o conceito, entendendo a própria arte como “sertão” – em sua instância de experimentação e resistência –, contestando, portanto, o viés restritivamente geográfico facilmente associado à palavra. As informações a seguir foram reproduzidas do release disponibilizado no site do MAM – Museu de Arte Moderna de São Paulo. “Sertão é apresentado nesta exposição como um modo de pensar e de agir, que tem a criação artística como um de seus, importantes, aspectos definidores” (MAM, 2019) Entre os tópicos presentes no texto e reverberados na mostra, estão: » vontade construtiva; » tendência para o objeto; » participação do espectador (tátil, visual, semântica); » tomada de posição política, ética e social; » tendência para proposições coletivas; e » novas formulações do conceito de antiarte. Entre os temas nas obras expostas na mostra, estão: A necessidade de reelaborar a história brasileira, uma repactuação social, espiritualidade, identidade de gênero, lutas antirracistas e a relação com o meio ambiente são algumas das questões que aparecem nas instalações, fotografias, pinturas, vídeos, esculturas e projetos deste Panorama. Os artistas selecionados estão em início ou meio de carreira, com produções que apontam para territórios especulativos que dão sentidoà ideia de sertão 102 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA Estratégias de criação não hegemônicas e novas tecnologias sociais aparecem em diversos trabalhos [...] que tratam de processos de construção coletiva. [...] [Outros apresentam] esculturas que se relacionam com tecnologias de construção popular. [...] Discutem as possibilidades de relacionar o campo da arte com outras atividades humanas e matrizes de conhecimento, como por exemplo, a agricultura. (MAM, 2019). Filmografias questionam territórios e geografias a partir do encontro entre ficção e história. Arquivos e documentos históricos propõe um debate sobre as cercas como conceito e estrutura político-culturais. A luta constante pela resistência do povo fulni–ô em seu território de origem. O resgate da técnica mais antiga de reprodução de imagens – xilogravuras de grande dimensão – retratam espécies nativas da caatinga, recriando imaginários (MAM, 2019). A vertigem da vida contemporânea aparece nas pinturas e instalações, recorre a obras tridimensionais para se referir ao corpo humano e seus rituais de prazer e de intimidade. Reflete sobre a arqueologia da violência, tensionando a relação de objetos de poder com o corpo. Questiona narrativas que criam apagamento e estigmatização dos grupos atingidos (MAM, 2019). Populações segregadas historicamente, como indígenas, mulheres e pessoas LGBT, criam novas escrituras políticas por meio de fotoperformances e colagens. Debatem a invisibilidade de pessoas trans, travestis e não binárias em espaços institucionais. Ao passo que artista travesti que transita entre a música e as artes visuais trata dos enfrentamentos sociais dos corpos dissidentes (MAM, 2019). A poesia encontra as artes visuais para discutir a necessidade de desestabilizar narrativas hegemônicas, especula sobre modos de vida que produzem exclusão e as insurgências cotidianas, problematiza o conceito de “patrimônio” e chama atenção para práticas experimentais que desafiam circuitos estabelecidos (MAM, 2019). Artivismo O conceito, longe de ser um consenso, constitui-se como uma proposta para refletirmos sobre essas novas produções. Artivismo apela para relações clássicas entre arte e política e destaca o potencial da arte de ser resistência e subversão. Ainda que acredite que a ideia de artivismo não dê conta de toda a complexidade das novas produções, é interessante notar a necessidade e a busca de pesquisadores contemporâneos por conceitos que possam nos ajudar a compreender a realidade que nos rodeia. 103 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV Sem se fechar em um diagnóstico definitivo ou em uma resposta final, a 35ª edição do Panorama da Arte Brasileira propõe uma reflexão sobre essas questões, cruciais para a reflexão sobre a arte e a cultura brasileiras, revelando a atualidade do pensamento de Oiticica em sobreposição à realidade do país e de sua arte ainda hoje. Entre sua origem ameríndia, africana e a referência europeia, o Brasil nunca chega a uma definição clara quanto a sua identidade nacional, seja dentro de suas fronteiras ou inserida no mundo globalizado. A multiplicidade da lista de artistas extrapola as artes visuais, trazendo nomes também da arquitetura, da dança e do cinema. “A ideia é alargar o campo das artes visuais, incorporando outras manifestações, justamente para explicitar como essa divisão de gêneros artísticos, no momento em que o Hélio Oiticica escrevia, já era limitante, e hoje em dia parece de fato superada” (OSORIO, 2017). Arte queer A arte queer tem gerado muita polêmica e diversas discussões a seu respeito. Inúmeros pensadores no mundo todo se debruçaram sobre o tema para expor suas opiniões. No Brasil, em 2017, houve exposição encerrada antes do prazo devido a ataques aos locais de exposições e boicote às empresas patrocinadoras do evento. Em jornais e revistas especializados, muito foi escrito na tentativa de esclarecer ao público sobre o termo queer, a arte queer e seu direito de exposição. “Queermuseu: Cartografias da Diferença na Arte Brasileira” foi cercada de polêmica após seu fechamento às pressas, em setembro de 2017, pelo Santander Cultural, em Porto Alegre, respondendo a fortes críticas de grupos que viram nas obras apologia a pedofilia, zoofilia e blasfêmia. A palavra queer, cujo sentido original era “bizarro, excêntrico, estranho”, passou a designar depreciativamente os homossexuais a partir do século XIX. Nos anos 1980, porém, a palavra foi reivindicada pelos grupos LGBT em um processo de ressignificação em que se tornou valorativa. Com essa transformação de sentido, o termo começou a ser usado no sintagma “teoria queer”, inicialmente pela feminista italiana Teresa de Lauretis (SAFATLE, 2015, p. 178) 104 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA Figura 39. Detalhe da obra do gaúcho Fernando Baril. Fonte: https://ichef.bbci.co.uk/news/555/cpsprodpb/ADEB/production/_103032544_c2419b49-c7bb-4d95-86ca-6683bc220c7a. jpg. Acesso em: 27/3/2020. Além de Lauretis, outra autora pioneira no assunto foi Judith Bluter, em seu livro “Problemas de gênero”. A publicação, fundamental para o entendimento da teoria, explica como as fábulas de gênero estabeleceram uma denominação errônea do que são fatos naturais, a partir de perspectivas feministas e gays (FIGUEIREDO, 2017). Daniela Name, crítica de arte e curadora da exposição “Queermuseu: Cartografias da diferença na arte brasileira”, em uma coluna sobre o fechamento da exposição de Porto Alegre, escreveu: “ao cartografar as diferenças, discute a alteridade de múltiplas maneiras, através de obras que não vieram ao mundo para nos dar paz. A tranquilidade nunca foi e nem será o projeto da arte” (NAME, 2017, p. 6). Figura 40. Simeon Solomon, “Sappho and Erinna apud a Garden at Mytilene”, 1864. Fonte: https://www.tate.org.uk/art/images/work/T/T03/T03063_9.jpg. Acesso em: 27/3/2020. 105 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV O escritor angolano José Eduardo Agualusa escreveu sobre a censura a essa exposição em um artigo para o jornal O Globo: A censura é lamentável, mas às vezes ela funciona como um bumerangue: se não tivesse sido cancelada, a exposição não teria recebido o destaque de mídia que acabou recebendo. Como escreveu Agualusa, a censura, em vez de apagar o incêndio provocado pela arte, pode funcionar como gasolina, ou seja, é um combustível que alimenta o fogo. (AGUALUSA, 2017, p. 2). Vale lembrar, também, uma frase do historiador e crítico literário Antoin Campagnon na qual se refere à questão da alteridade: A literatura é o único meio de preservar e transmitir a experiência dos outros, aqueles que estão distantes de nós no espaço e no tempo, ou que diferem de nós por suas condições de vida. Ela nos torna sensíveis ao fato de que os outros são muito diversos e que seus valores se distanciam dos nossos (COMPAGNON, 2009, p. 4). Música contemporânea Quando falamos em música contemporânea estamos nos referindo à música que é feita na nossa época. Se formos definir cronologicamente, podemos dizer que é a música que começou a ser produzida no século XX até os dias de hoje. O século XX é marcado por uma série de novas tendências e técnicas musicais. Porém, algumas tendências e técnicas importantes já haviam se estabelecido no seu decorrer. Esse surge como o século das experiências, da procura de novos caminhos na música e nas artes em geral. Na música, também se observa a procura de novos materiais e a utilização de recursos trazidos pelos avanços tecnológicos. Acentua-se a tendência para valorizar culturas até então esquecidas. Os novos meios de transporte e comunicação facilitam as trocas culturais e fazem com que se reconheçam na música moderna influências muito variadas (ROSÁRIO; NETO, 2009). O aparecimento da gravação sonora abre um mundo novo à produção musical. A procura de novas sonoridades faz com que os compositores explorem sons produzidos por objetos, transformando-os em instrumentosmusicais (ROSÁRIO; NETO, 2009). 106 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA Surgem os primeiros instrumentos eletrônicos, que ficarão para sempre ligados à música pop e rock, embora também estejam presentes noutros gêneros musicais (ROSÁRIO; NETO, 2009). Durante esse período, ocorreu uma série de modificações em diversos níveis que vão da própria sintaxe do discurso musical ao papel que ele desempenha dentro da sociedade. John Cage e a revolução na música John Cage (1912–1992) foi uma figura proeminente no campo da música experimental norte-americana, a personagem de maior destaque da chamada Escola de Nova Iorque e seu mais prolífico escritor. Marco de mudança nas concepções estéticas, sua influência sobre gerações seguintes é inegável, não somente pela sua obra musical, mas também por seus escritos e, o mais encantador, pela sua personalidade (GARCIA, 2019). O contato com a filosofia Zen, com a câmara anecoica5 e com as telas brancas do artista plástico Robert Rauschenberg levou Cage a retomar uma ideia que ele tinha posto de lado, a peça silenciosa: não como uma prece, como tinha pensado primeiramente, e sim uma composição com um título que expressasse uma duração ditada pelo acaso em minutos e segundos, quatro minutos e 33 segundos, a peça “4’33””, uma estrutura totalmente preenchida por silêncio, que mostraria a todos que na verdade ele não existe e há somente sons. (GARCIA, 2019). Essa é sua mais famosa peça musical. Cage passou por uma radical mudança de visão, ao constatar que o silêncio é impossível: não existe essa coisa de espaço vazio ou tempo vazio — sempre há algo. As experiências de Cage deixaram um legado, um aprendizado que ele propõe para todos: quer que ouçamos cada som, sem relacioná-lo com um referencial fora dele (como era a intenção, por exemplo, na música programática, aquela especialmente do século XIX, que queria evocar imagens, ideias, paisagens ou cenas, estados de ânimo) nem com os outros sons (em uma relação de hierarquia/ subordinação, como é típico da música tonal) — nisso o silêncio também foi útil, ajudando, junto com a ruptura com a harmonia tradicional que já estava em voga, a isolar os sons musicais e assim dissolvendo a cola entre eles (GARCIA, 2019). 5 Uma sala à prova de som, desenhada para que os sons aí feitos sejam absorvidos e não reverberem. 107 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV Segundo o historiador da música Paul Griffiths, as experiências, as descobertas e a revolução que Cage causou na música contemporânea deixaram esse legado: “não se espera que o público ouça o silêncio, mas que ouça os sons ao seu redor, o fluxo dinâmico dos sons ambientes, como eles são” (GRIFFTHS, 1995, p. 206). Philip Glass (1937 –) Embora associado ao minimalismo musical, não há nada de minimalista na carreira de Philip Glass. Aos 75 anos, ele é o compositor de música clássica vivo mais influente do mundo, tendo trabalhado com artistas como Björk, Patti Smith, Mick Jagger e David Bowie (KODIC, 2013). No cinema, fez trilhas para diversos filmes, entre eles o cult “Koyaanisqatsi” (1982), de Godfrey Reggio, e “Kundun” (1997), de Martin Scorsese, para o qual foi indicado ao Oscar (KODIC, 2013). Na opinião de Eduardo Socha: Então, eu diria que uma das principais contribuições de Glass para a história da música, ainda que polêmica, seria essa revalorização do pulso em direção a uma nova estaticidade na música ocidental (pois a dimensão harmônica, ainda que precária, é totalmente tonal), na qual pequenas células musicais se repetem à exaustão durante um longo período, com pequenas e sutis variações de um e outro parâmetro. Disso resulta uma ambientação sonora que visa suspender o tempo. É uma prática também extremamente polêmica, revolucionária para uns, regressiva para outros (SOCHA, 2018). Sobre o Brasil, Philip Glass disse: Volto de quando em quando. É um país muito rico, especialmente na música. A música popular no Brasil é a mais altamente desenvolvida mundialmente, em termos de riqueza, expressividade e quantidade de talento. E, é claro, a beleza física do país, com lugares como Foz do Iguaçu (GLASS, 2013). Arvo Pärt (1935 –) É um compositor erudito estoniano, o compositor contemporâneo favorito de Philip Glass; ele trabalha com um estilo minimalista que emprega a técnica de tintinnabuli (do latim, “pequenos sinos”) e repetições hipnóticas. Sobre seu novo estilo, qualificado por ele mesmo de “estilo tintinnabulum”, o compositor explica: 108 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA Eu trabalho com bem poucos elementos – somente uma ou duas vozes. Construo a partir de um material primitivo – com o acorde perfeito, com uma tonalidade específica. As três notas de um acorde perfeito são como sinos. Por isso eu o chamei tintinnabuli (PÄRT, 1976). Frank Zappa (1940 – 1993) Frank Vincent Zappa foi compositor, cantor, guitarrista, multi-instrumentista, produtor e realizador, considerado um dos melhores compositores da história do Rock e um dos maiores músicos da história da música do século XX. Seu processo de criação era algo alquímico. Ele misturava coisas incomuns, fazia colagens – como Stravinski com boogie woogie –, juntava estilos e fazia disso tudo uma obra de arte nova e única. Como ele mesmo dizia, eram esculturas no ar (MUNIZ, 2018). Zappa era um roqueiro admirado por seus pares que avançava vorazmente sobre a música clássica e transubstanciava ambos os gêneros em uma outra coisa: música de Frank Zappa (MUNIZ, 2018). Zappa fazia tudo isso combinando produtividade ímpar com seu parâmetro exagerado/obsessivo pela qualidade final de tudo. Se apresentou ao vivo ao redor do mundo e deixou tudo gravado. Durante 30 anos, parecia que nada iria detê-lo (MUNIZ, 2018). Zappa morreu aos 52 anos, de câncer na próstata. Sobre John Cage: » https://medium.com/zumbido/john-cage-e-o-sil%C3%AAncio- a6a4078c789c. » h t t p s : / / m e d i u m . c o m / z u m b i d o / j o h n - c a g e - renova%C3%A7%C3%A3o-na-m%C3%BAsica-c9146e7b8091. Sobre Philip Glass: » https://medium.com/revista-bravo/qual-%C3%A9-o-lugar-de-philip- glass-na-m%C3%BAsica-contempor%C3%A2nea-e925ae074e15. O rock morreu? Enquanto o gênero definha, seu espaço é tomado pelo pop e pelo hip-hop, que atendem melhor aos anseios de uma juventude voltada para o consumo, o selfie e a ostentação (COSTA, 2014). 109 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV Gênero que viveu seu auge entre as décadas de 1950 e 1970, com bandas e cantores pipocando nos quatro cantos do mundo, o rock nunca teve tão pouca relevância cultural e comercial. Rara presença nas paradas de sucesso, baixas vendas de discos e pouca execução em plataformas virtuais, em comparação com o pop e o rap, os “donos” do mercado fonográfico de hoje (COSTA, 2014). O rock tem 60 anos de idade, e poucos gêneros se mantêm frescos por tanto tempo. Os temas de muitas músicas são os mesmos há seis décadas, diz o escritor americano Charles R. Cross (COSTA, 2014). O esgotamento da fonte é só mais um fator a explicar a “bad trip” do rock. A imensa variedade de informação e a pirataria propiciadas pela internet, a situação difícil do mercado fonográfico e, principalmente, as transformações sociais decorridas nos últimos anos completam o painel (COSTA, 2014). O rock, em determinado momento, representou uma certa oposição à cultura hegemônica reinante, foi uma trilha revolucionária, e isso foi mudando, diz Micael Heschmann, historiador e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Houve o esgotamento de uma certa agenda de reinvindicações. O rock fazia parte desse movimento de resistência cultural, de contestação, mas o próprio mundo mudou. Aquelas bandeiras dos anos 1960 não estão mais aí (HESCHMANN, 2014). As melhores bandas de rock internacional no século XX – mesmo que você não seja fã de rock é interessante saber mais sobre elas, procure ler e ouvir suas músicas. The Beatles (1960 – 1970), Rolling Stones (1962–), Pink Floyd (1965 – 2014), Queen (1970 –), Led Zeppelin (1968 – 1980), Ramones (1974 – 1996), The Doors (1965 – 1973), Creedence Clearwater Revival (1967 – 1972), Sex Pistols (1975- 2008), Eagles (1971 –), U2 (1976 –), Metallica (1981–), Nirvana (1987–1994), Iron Maiden (1975 –), AC/DC (1973 –), Scorpions (1965 –). https://forum.cifraclub.com.br/forum/3/64052/. https://www.maioresemelhores.com/melhores-bandas-rock/. História da música popular brasileira [Reprodução do texto encontrado no site educamaisbrasil.com.br para fins pedagógicos.] A Música Popular Brasileira, conhecida como MPB, surgiu durante a Ditadura Militar no Brasil, na década de 60, e como uma nova opção 110 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA de estilo musical, logo após a Bossa Nova. A MPB reflete a reunião de ritmos e movimentos musicais já presentes no país, trazendo um novo conceito de “música nacional”. [...] Apesar do nome amplo, a Música Popular Brasileira não diz respeito a qualquer estilo musical presente no Brasil. Ela se refere a um estilo musical, sendo, portanto, diferente do rock, do pop, do reggae, por exemplo. Desde o século XX, o termo já era utilizado, mesmo sem fazer referência a grupos musicais ou artistas específicos. Ele só apareceu como referência a um gênero específico da música alguns anos depois, quando aconteceu o declínio da Bossa Nova, que até então dominava o cenário musical da época. A Música Popular Brasileira surgiu com novos compositores e intérpretes, além de um novo ritmo, algo que não era samba, não era bossa nova, mas mantinha características como a suavidade e o regionalismo já presente nesses ritmos. Os maiores impulsionadores desse novo ritmo foram os festivais de música que faziam grande sucesso na televisão. Nesse momento, surgiram artistas como Elis Regina, Milton Nascimento, Chico Buarque, Edu Lobo, entre outros. A MPB ficou conhecida no país como “a música da universidade”, por ter o seu maior público entre intelectuais e estudantes. Um dos marcos do início do sucesso da MPB foi a interpretação de “Arrastão”, música de Vinicius de Moraes e Edu Lobo, por Elis Regina, no I Festival de Música Popular Brasileira, da TV Excelsior, em 1965. “Disparada”, de Geraldo Vandré e “A banda”, de Chico Buarque também são consideradas músicas essências nesse processo de transição da Bossa Nova para a MPB. A interferência da ditadura militar na música popular brasileira A Ditadura Militar teve início no Brasil em 1964, com o intuito de redemocratizar o país e libertá-lo de qualquer comunista ou ser pensante que apresentasse riscos a esse regime político. Com o Ato Institucional n° 5, alguns direitos importantes foram tirados da população, como por exemplo, a possibilidade de se manifestar politicamente. Foi criada na época a DCDP – Divisão 111 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV de Censura de Diversões Públicas, por onde passavam qualquer produção cultural realizada no país. Essa produção era aprovada ou não pelo regime. Caso aprovada, poderia ser veiculada para o público e nos meios de comunicação. Caso não fossem aprovadas, as produções ficariam retidas, e não poderiam ser executadas. Os artistas, para falassem da atual situação do país, precisavam usar metáforas. As palavras ditas tinham significados diferentes do que os militares acreditavam ter. “Cálice”, de Chico Buarque e Gilberto Gil, e “Viola enluarada”, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, por exemplo, são músicas características dessa época. Qualquer manifestação que não concordasse com o governo vigente era considerada subversiva e sujeita a punições. Além da censura enfrentada pelos artistas e pela população em geral, as pessoas eram submetidas à tortura, prisão, exílio, e até a morte. Inconformados com a situação, os artistas que pertenciam à Música Popular Brasileira, passaram a expor nas suas composições a revolta que sentiam pela situação do país. Surgiu dentro da MPB outros movimentos musicais vinculados, como o “Tropicalismo”. Artistas como Gilberto Gil, Caetano Veloso, Os Mutantes, Gal Costa, Tom Zé, entre outros, clamavam em suas músicas por liberdade, que atraia ainda mais a atenção dos militares. Por conta disso, artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e Chico Buarque tiveram que sair do país e viver exilados no exterior, devido aos riscos que corriam no seu próprio país. Durante a Ditadura Militar, a música “Pra não dizer que não falei das flores”, de Geraldo Vandré, virou hino contra esse regime político. Os anos 1970 chegaram com uma explosão ainda maior de estilos. No funk, Tim Maia e Jorge Ben Jor, e o rock foi representado pelo som de Rita Lee e Raul Seixas. Apareceram no cenário artistas que ficaram consagrados, como Maria Bethânia, Gal Costa, Belchior, Fagner, Clara Nunes, Fafá de Belém, Elba Ramalho, Alceu Valença, entre outros. A Música Popular Brasileira é marcada pela sua variedade. Com a dimensão geográfica do país, são encontrados diversos estilos, que seguem características de cada região, e ao mesmo tempo do país como um todo. 112 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA O rock brasileiro nos anos 1980 Durante a década de 1980, surgiram, no Brasil, destacados grupos de rock nacional. Os Paralamas do Sucesso, Ultraje a Rigor, Ira!, Engenheiros do Hawaí, Legião Urbana, Plebe Rude, Capital Inicial, Titãs, Barão Vermelho, entre outros, alcançaram notável ressonância em nível nacional, e por vezes até internacional, contagiando uma parcela significativa da população brasileira, especialmente os jovens da época (BRANDÃO, 2009). Música popular no século XXI: uma profecia antecipada por José Ramos Tinhorão Dentro do princípio de que a mudança qualitativa na ordem das relações entre criadores artísticos e indústria ocorreu de modo a transformar os primeiros em dependentes da segunda, não chega a constituir exercício de futurologia prever que a tendência, no novo século, será a da participação cada vez menor da criação artística individual e da participação viva de instrumentistas na produção de música popular (TINHORÃO, 1998). Graças aos avanços na tecnologia dos sons digitalizados, a tendência dos estúdios das grandes gravadoras é transformarem-se em laboratórios de engenharia musical, com os músicos intérpretes sendo substituídos pelo som computadorizado de sintetizadores polifônicos e politimbrais [...]. A engenharia criativa de sons computadorizados permitirá ultrapassar as próprias possibilidades dos sons normalmente produzidos pelos instrumentos acústicos [...]. Possibilidades técnicas desse tipo, pode implicar necessariamente a dispensa de músicos e maestros- arranjadores nos estúdios, permitirão ainda programar, através de novas combinações rítmicas, o lançamento de estilos musicais caracterizados por um tipo de acompanhamento sonoro fora do alcance da participação humana. [...] As consequências naturais de tais conquistas tecnológicas na área do lazer das massas, com participação da chamada música popular, serão, no campo prático, o emprego cada vez mais raro de músicos instrumentistas e, no campo cultural, a dessacralização da criação 113 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV artística, com a transformação dos compositores em colaboradores de técnicos de programação de música, a ser criada segundo as tendências exigidas pelo mercado. Fora desse quadro geral dominante no cenário da produção das músicas de massa restarão apenas, no século XXI, os últimos vestígios da música tradicional do mundo rural e, certamente, uma multiplicidade de nichos urbanos de produção local, conformados em sobreviver fora do sistema (TINHORÃO, 1998). Qual o futuro da MPB no século XXI? Você concorda com o posicionamento do autor? Será que sua profecia está se confirmando? Participe do nosso fórum e deixe seu comentário. A mulher marca o ritmo no século XXI Se, no século XX, o ritmo da música popular foi marcadopelos homens, no século XXI, já é das mulheres. Elas são as protagonistas para nos fazer mexer o esqueleto, mas também para nos explicar a vida por meio das canções (NAVARRO, 2018). O último ícone Amy Winehouse, que morreu em 2011. Dona de um talento vocal extraordinário e uma estética fascinante, a cantora britânica conseguiu levar o soul ao topo das paradas e ser em vida uma superstar em nível mundial. Mas, após sua morte, seu simbolismo foi além. Winehouse é o último grande ícone da música popular, à altura de Kurt Cobain, Bob Marley, John Lennon, Jim Morrison, Jimi Hendrix e Elvis Presley. Poucas mulheres alcançaram esse Olimpo da memória coletiva na música pop, ao qual pertencem Janis Joplin e, com menos impacto, Nina Simone. No século XXI, apenas Winehouse se situa nesta galáxia de titãs, dando mais valor às mulheres na música deste século (NAVARRO, 2018). 114 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA Figura 41. Amy Winehouse. Fonte: https://arc-anglerfish-eu-central-1-prod-prisa.s3.amazonaws.com/public/I73DD6A46EBE4UXR5UIKEB56RM.jpg. Acesso em: 27/3/2020. Teatro contemporâneo no Brasil Grupos como Asdrúbal Trouxe o Trombone e Pod Minoga, na década de 1970, privilegiaram o teatro no qual a coletividade pautava seu processo criativo, porém não resistiram por diversos fatores, entre os quais “os efeitos da censura e do exílio combinados a abertura do mercado de televisão, nos anos de 1970”, segundo a historiadora Rosyane Trotta (2006). Na década de 80, houve um retorno à ideia do teatro de grupo do encenador, como foi o caso de Antunes Filho (Macunaíma), de Gerald Thomas (Companhia de Ópera Seca) e de Gabriel Villela e o Grupo Galpão. Permaneceram as experimentações estéticas e buscas de novas linguagens teatrais, além do predomínio da encenação a partir do texto dramatúrgico tradicional, no qual as marcas autorais dos diretores são claramente percebidas. Assim, a figura do encenador como catalizador das ideias criativas do grupo se sobressai. No teatro, as possibilidades cênicas foram expandidas e se fortaleceu a noção de que a linguagem teatral era a soma de todos os seus elementos, contrapondo-se à ideia de que a dramaturgia é o elemento central. Os anos 1990 foram um período de expressão e fortalecimento do teatro de grupo brasileiro. As companhias que surgiram no final da década de 1980 passaram por processos diversos e, atualmente, a maioria se pauta no trabalho colaborativo. 115 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV A consolidação de grupos criados nas décadas anteriores e a ascendente formação de companhias teatrais propiciaram um momento de vitalidade para as artes cênicas e a literatura dramática nacional. Algumas foram criadas a partir de escolas de teatro, como é o caso de Os Dezequilibrados e Atores de Laura. Figura 42. Os Dezequilibrados, foto de Dalton Valério. Fonte: https://acessocultural.com.br/wp-content/uploads/2019/01/b-Alcemar-Leticia-Piva-Cristina-Angela-Jorge.jpg. Acesso em: 27/3/2020. Há também a Companhia dos Atores que, assim como “Os Dezequilibrados”, além do caráter colaborativo mantém um núcleo estável de atores. Constatamos que a maioria das companhias se edificou, principalmente, sobre princípios de continuidade de trabalho, pesquisa de linguagens, aprofundamento conceitual, experimentações cênicas e dramatúrgicas e aquisição de metodologias próprias, geridas através da investigação em grupo. Na sua grande parte, a forma de estruturação das companhias se deu a partir de cooperativas, alternativa administrativa e de manutenção artística que melhor se adequava à situação econômica nacional. Em 2020, a Jornada Internacional Atuação e Presença – Simpósio Reflexões Cênicas Contemporâneas, que ocorreu em fevereiro, teve como ponto aglutinador a reflexão cênica contemporânea. A cena contemporânea abarca a coexistência de diferentes linguagens e corpos. Sua potência se mostra na pluralidade de perspectivas e de pesquisas e também no amplo espectro de manifestações. 116 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA Alguns temas propostos nas áreas de artes cênicas e dramatúrgicas são responsivos a mudanças e acirramentos sociais, políticos e ideológicos: » Como conectar-se com sua época em tempos de instabilidade política? » Qual a função da arte em meio a violações de princípios básicos de dignidade na vida humana? » Quais os saberes da arte que podem lançar gotas de inteligibilidade, afetividade e sensibilidade aos acontecimentos políticos e sociais atualmente em curso no país e no mundo? A proposta é colocar em discussão o protagonismo e inserção das mulheres nas artes cênicas e presenciais, buscando problematizar historicamente o movimento feminista nessa área, que surge como um movimento branco e de classe média e que se ramifica, na atualidade, em frentes plurais e heterogêneas. O intuito é problematizar a intensificação da escuta e as relações entre produção vocal e processos/dispositivos de escuta – a escuta, para além do ouvir, como uma ampliação da percepção e de maneiras possíveis de sentir e construir relações em estado de arte. Teatro hoje Hoje, depois de dois séculos de luta por singularidade e contra impulsos grupais, precisamos reintroduzir a ideia de pluralidade e inventar novas maneiras de estarmos juntos, formas de interação que vão além da inevitabilidade das famílias, guetos de facilidade de uso tecnológico e instituições coletivas. O teatro, não foi diferente da dança e das artes visuais: adotou também a tendência de criar redes criativas colaborativas. Christine Greiner (2017), em seu artigo “Em busca de uma metodologia para analisar a alteridade na arte”, aponta que os processos criativos explicitam questões nem sempre visíveis na vida cotidiana, e que ter consciência dessas ações pode levar a desestabilizar hábitos e crenças e apontar possibilidades de relação não só em um núcleo de criação coletiva, mas de forma macro, pensando em mudanças sociais e políticas. A autora também levanta questões em relação às políticas culturais e instrumentos de apoio à cultura atualmente, muitas vezes perversos, estipulando curtos prazos para a criação, resultados quantificáveis e alimentando competitividade. 117 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV Para denominar tal modelo de criação teatral em grupo, surge uma nova terminologia: o processo colaborativo. Percebemos que o detentor de poder sobre a realização e a manutenção das companhias é o coletivo. Em 2019, o Festival Internacional de Teatro de Brasília celebrou sua vigésima edição em 24 anos de trajetória. Cena Contemporânea 2019 traz aos palcos a diversidade da dramaturgia nacional (PINHEIRO, 2019). “Não estamos fazendo um festival que dialoga com a realidade que vivemos no Brasil, porque não precisa. Estamos tentando fazer uma programação que trabalha com a diversidade do pensamento artístico” (REIS, In PINHEIRO, 2019). De acordo com Reis, o Cena, historicamente, nunca partiu de um conceito para fazer a curadoria: Ele sempre buscou atualizar o público de Brasília das diversas tendências da produção contemporânea. Fomos nessa linha, desde o Mosh até a história da francesa que desenha com a areia um enredo lindo para toda a família. São os destaques da cena contemporânea em todas as suas vertentes (REIS apud PINHEIRO, 2019). Dramaturgias originais se somam a releituras de clássicos e trazem temáticas como memória, identidade e presença feminina. “O festival reflete o pensamento de uma época e o teatro vem sempre como uma anteninha, às vezes, antecipando coisas” (REIS apud PINHEIRO, 2019), comenta Reis. O foco da 20ª edição está no desenrolar criativo de crônicas, contas e roteiros em dramaturgias e espetáculos de qualidade. Com patrocínio do Banco do Brasil e a participação dos grupos locais, muitos apoiados pelo Fundo de Apoio à Cultura (FAC), o Cena conta com R$ 360 mil, menos da metade do valor das edições passadas. Em 24 anos de história, o financiamentosempre foi a maior dificuldade e o grande desafio. “Hoje, a gente vive uma incerteza de como se constituirão, daqui pra frente, os sistemas de financiamento à cultura no Brasil, um país tão diverso e tão rico e importante nos cenários latino-americano e mundial”, pontua o diretor (REIS apud PINHEIRO, 2019). Dança contemporânea Videodança Na fronteira com o cinema e as artes visuais, a videodança tem uma cena jovem, mas já passou por fases, que acompanham o ritmo intenso das novas tecnologias. 118 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA Rosane Chamecki e Andrea Lerner são coreógrafas e cineastas brasileiras premiadas. A colaboração coreográfica delas começou há 15 anos, com a necessidade compartilhada de desenvolver seu trabalho com uma ousada fisicalidade. Figura 43. Rosane Chamecki e Andrea Lerner, curitibanas que moram em Nova York, formam a dupla Chameckilerner, de dança e videodança. Fonte: https://ogimg.infoglobo.com.br/in/17130625-829-434/FT1086A/652/globo-6lp578h93qaqavyn9ck_original.jpg. Acesso em: 27/3/2020. É muito mais do que enquadrar movimentos de corpos com uma câmera. Por outro lado, a mágica que o vídeo pode causar no palco, junto com a coreografia, ainda é subvalorizada (LEINER , 2015). Passar da performance da vida para o cinema não mudou o interesse da dupla pelo corpo como um mapa de si mesmo (OGLOBO, 2015). Em 2015, a dupla curitibana radicada em Nova York ganhou retrospectiva no festival Dança em Foco no Rio de Janeiro (OGLOBO, 2015). “Flying lesson”, um vídeo em que as duas voam, simbólica e literalmente ganhou prêmios, rodou o mundo em festivais e abriu portas para novos experimentos. Inclusive para entender o que é videodança — “uma narrativa informada pela coreografia de corpos ou objetos” e, sobretudo, o que ela não é (LERNER, 2015). Flying lesson, o primeiro trabalho em vídeo de Chameckilerner foi uma resposta à peça anterior EXIT, que estreou no The Kitchen em 2007 (OGLOBO, 2015). 119 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV Figura 44. Flying lesson. Fonte: https://cdn.watermillcenter.org/2017/11/d_200809_banner_chemecki.jpg. Acesso em: 27/3/2020. A obra EXIT reflete tanto os desafios inerentes ao campo da dança e da arte quanto o processo de envelhecimento como criadores, servindo como uma alusão à capacidade do artista de navegar pelo desconhecido. Depois de criar uma década de obras como ChameckiLerner, a obra EXIT se concentra em criar a possibilidade de extinção, ou reinvenção. Historicamente, ChameckiLerner estabeleceu-se entre as fundadoras da manipulação, usando movimentos complexos e articulados enraizados em estruturas físicas para definir o estado psicológico de um corpo. Após a extrema repercussão dessa maneira de se mover, ChameckiLerner procurou novas maneiras de representar e apresentar corpos em um palco. Juntas, as obras “Conteúdo Visível”, “Trajes de Deus” e “EXIT” compunham uma trilogia de trabalho focada no conceito de extinção: a dissolução do foco do espectador, o deslocamento do corpo e a extinção do artista. Segundo Lerner, EXIT foi um suicídio artístico da dupla conhecida como ChameckiLerner, uma investigação sobre as possibilidades de extinção e reinvenção. Essa crise artística e a necessidade de se reinventar os levaram à peça “Flying Lesson”, um exercício de “sonhar” (LERNER, 2015). A dupla ChameckiLerner está envolvida na produção de vídeo em alta velocidade “Phantom”, a fim de obter extrema câmera lenta dos corpos dos dançarinos em um massageador de cinto vibratório. 120 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA Entrevista com as coreógrafas e cineastas, bem como imagens das experimentações mais recentes podem ser conferidas em: https://vimeopro. com/empac/empac-video-archive/video/74757908. Para produção de uma obra de videodança, as duas artes precisam se equilibrar, como questiona o cineasta Evaldo Mocarzel, documentarista da “São Paulo Companhia de Dança”: Como promover um casamento artístico do cinema com a dança, e vice-versa, sem que uma linguagem seja subserviente à outra? Como conciliar duas artes tão distintas, por vezes antípodas, embora tenham afinidades linguísticas, como, por exemplo, a possibilidade de prescindir de palavras na construção de suas estruturas narrativas? (MOCARZEL, 2016). Há muitos festivais de videodança na Suíça e também na Europa, em geral. Atualmente, também as vias europeias de produção e distribuição de videodança mudaram e mais festivais e redes vêm surgindo. Em relação à videodança ibero-americana, temos a Fundação suíça para a cultura Pro Helvetia que é fomenta programas de intercâmbio cultural como “COINCIDÊNCIA – Intercâmbios culturais Suíça-América do Sul” (2017-2020), um programa que fomenta intercâmbios culturais entre profissionais das artes da Suíça e da América do Sul para criar novas parcerias e possibilitar que plataformas sul-americanas apresentem produções suíças, mais informações podem ser encontradas no site da fundação – https://prohelvetia.ch/en/ – ou no site do programa – https:// coincidencia.net/pt/. Rede Ibero-Americana de Videodança, REDIV (Red Iberoamericana de Videodanza), criada em 2016, conta com o apoio da Fundação Pró Helvetia para realizar dois encontros anuais, para formação de grupos de trabalho temáticos, e para buscar o desenvolvimento de sua independência financeira. Essa tendência de criar rede não é algo recente, além de facilitar a cooperação entre mais de 20 festivais, colaboradores e projetos da América Latina e da península Ibérica (ZELLWEGER, 2019). A REDIV organiza apresentações de vídeos, viagens de artistas, divulgação de conteúdo, publicações, oficinas e talks artísticos. Em 2019, os membros da REDIV se encontraram em festivais no Paraguai e na Bolívia. 121 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV Figura 45. Anastassia Goiburu, 18o Encontro internacional de dança e artes contemporânea, “Criar com liberdade”, Assunção, 2019. Fonte: https://coincidencia.net/app/uploads/sites/20/2019/09/img_0326-940x390.jpg. Acesso em: 27/3/2020. [...] se o ambiente se define como o lugar de troca e diálogo entre os sistemas dança e tecnologia, como se define corpo? Uma das respostas possíveis é que para a dança tecnologizada, corpo é informação. Não necessariamente comunicação. O corpo em movimento se organiza e dança. Quando o corpo dança, o corpo pensa e ‘fala’ por meio do movimento. No processo de organização de um corpo que dança, existem informações em trânsito dentro-fora, em um processo de regulação intensa e sistêmica. As interfaces tecnológicas podem se tornar um campo ideal de conectividade e criação. (WOSNIAK, 2013). Dança hoje – inclusão de corpos diferentes A Candoco Dance Company (Reino Unido), uma das companhias de dança mais incomuns do mundo, é um grupo de dança que reúne dançarinos com e sem deficiência. Em seu país natal, opera com sucesso há um quarto de século. A empresa foi fundada em 1991 pelos dançarinos Celeste Dandeker e Adam Benjamin como uma aula semanal de dança, frequentada por pessoas com e sem deficiência que sonhavam em dançar. Dandeker se viu em uma cadeira de rodas após uma queda. Logo, percebendo que havia grandes barreiras entre as pessoas com deficiência e o resto do mundo, ela começou a promover apaixonadamente e zelosamente as ideias de inclusão na arte, particularmente na dança contemporânea. Em pouco tempo, o grupo, tendo envolvido em suas atividades muitos bailarinos e coreógrafos profissionais de todo o mundo, se transformou em uma companhia 122 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA de dança profissional que oferece ao público performances impressionantes, marcantes e criativas. Hoje, Candoco (junção das palavras “pode fazer”) é famosa não apenas no Reino Unido, mas o culto fisicamente integrado ao teatro é altamente considerado em todo o mundo. Em 2012, juntamente com a banda de rock britânica Coldplay, tocou na cerimônia de encerramento dos Jogos Paraolímpicosde Londres e, em 2015, ganhou o UK Theater Award por Achievement in Dance. Atualmente, a Candoco Dance Company é composta por sete dançarinos permanentes de diversos países. Cada um deles tem uma história pessoal, mas eles compartilham um objetivo: mostrar que todos podem dançar, independentemente de suas habilidades físicas. Figura 46. Candoco Dance Company. Fonte: https://www.culturepartnership.eu/upload/news/58d19e532e1a4.jpg. Acesso em: 27/3/2020. Arte participativa – os coletivos As atuações de coletivos na América Latina vêm crescendo nas últimas décadas. Para compreendermos melhor a existência desses grupos, faz-se necessário definir o que é um coletivo: Coletivos são os agrupamentos de artistas que atuam de forma conjunta, criativa, autoconsciente, sem hierarquia. Os coletivos são 123 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV organizações autogeridas, descentralizadas, flexíveis e situacionais. Além disso, muitas vezes têm um ativismo político em favor de melhorias nas políticas públicas de acesso à cultura ou outras causas (PAIM, 2009). Essa cena começa a aparecer com a criação de redes criativas colaborativas, com a realização de projetos participativos e desterritorializados, resultantes das práticas post-Studio em um campo expandido, com diferentes denominações e conceituações. Produzem ficções, ensaios documentais, animações e obras de diversos formatos, que repensam as formas estabelecidas de fazer e construir significados a partir da mídia audiovisual. Trabalham de forma colaborativa a partir de um framework que liga arte, comunicação, mídia audiovisual e reflexão política. Um exemplo desses coletivos é o coletivo LAC – Laboratório Audiovisual Comunitário de Buenos Aires, Argentina –, que foi criado, oficialmente, em 2013 e se configura como uma cooperativa de artistas, que, no início, se dedicava à realização de oficinas de audiovisual para estudantes adolescentes e jovens. Toda a produção desse período pode ser vista online: » https://vimeo.com/lactv. » https://vimeo.com/64420388. Figura 47. Coletivo LAB – Indesalojables. Fonte: https://scontent.fgig4-1.fna.fbcdn.net/v/t1.0-9/69961865_2420153901397463_556510324270825472_o.jpg?_nc_ cat=111&_nc_sid=730e14&_nc_ohc=izYYCwJckY0AX_Pyp6W&_nc_ht=scontent.fgig4-1.fna&oh=acfbe5b7b3a21287f8e5016b d9110b01&oe=5E904AD1. Acesso em: 27/3/2020. 124 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA O coletivo LAC é um grupo que reúne cineastas, artistas e professores e vem promovendo propostas de criação, produção e desenvolvimento audiovisual comunitário desde 2007, em todo o país. Esse coletivo associa as suas experiências na produção cinematográfica/televisiva ao campo da educação audiovisual, tanto em espaços formais quanto não formais, para produzir conteúdo e práticas audiovisuais inovadoras no âmbito de um projeto cultural coletivo. Em 2013, quando decidiram criar a Cooperativa de Trabalho LAC Ltda., tinham como objetivo potencializar e crescer o projeto, integrado aos circuitos da economia social (MASVERNAT, 2019). A proposta da LAC é abordar coletivamente uma reflexão sobre os modos de representação que promovem a inclusão de novos atores no campo da mídia e aprofundam a democratização da cultura. Pensando acerca dos diferentes modos de fazer coletivos – como se organizam, enquanto acontecimento no espaço do mundo e não apenas como expressão das dificuldades encontradas na sociedade e no circuito artístico ou contestação a estes sistemas –, é possível identificar a amizade, a afetividade existente entre os indivíduos que atuam em conjunto no espaço público do mundo, um dado que tem fundamental importância. Os próprios membros da LAC definem o coletivo como um dispositivo que vai ao encontro de outras narrativas, novos imaginários, novos territórios. O resultado é uma rede discursiva transdisciplinar entre arte, estética, história, antropologia, urbanismo, arquitetura e outras áreas de conhecimento, que vai ou não gerar, discutir e compartilhar ideias entre público, comunidade, artista e lugares. Em a “Invenção do cotidiano 1: arte de fazer”, Michel de Certeau explora o conceito de espaço e de sua prática; essa investigação serve de referencial teórico para a diversidade das maneiras de fazer coletivas, ao inventarem espaços para si próprios – o modo como os imaginaram, praticaram, vivenciaram e narraram (PAIM, 2009). Uma tendência da arte contemporânea que poderia ser denominada contextual surgiu dos modos de participação dialógicos e do envolvimento do espectador com a obra e que também estabelece vínculos com os locais (site specific), como intensas trocas (espaciais e físicas/espaço humano e social) e maior compartilhamento com as comunidades envolvidas. Em seu texto “A virada social: colaboração e seus desgostos”, Claire Bishop (2012) expõe sua observação crítica acerca de práticas artísticas colaborativas do início dos 125 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV anos 1990. A arte deixa de ser um produto, está focada em práticas e relações e não mais em objetos. Arte socialmente engajada, arte baseada em comunidades (community-based art), comunidades experimentais, arte dialógica, littoral art, arte intervencionista, arte participativa, arte colaborativa, arte contextual e arte de prática social, novo gênero de arte pública, estética relacional e outras definições (BISHOP, 2012). Bishop (2012) descartou a maioria das denominações, quando definiu a expressão “arte participativa” para significar a centralidade de ações, com um grande número de participantes, realizadas por artistas que desejavam participar e colaborar com questões sociais. A arte é um meio e não mais um fim. “Arte socialmente engajada”, “arte baseada em comunidades”, “arte dialógica”, “comunidades experimentais”, “arte colaborativa” e “arte intervencionista” são alguns dos nomes dados a essas práticas relacionais. São projetos desmaterializados, antimercadológicos e politicamente engajados que levam adiante o apelo modernista de mesclar arte à vida. São práticas nas quais o interesse artístico se encontra na coletividade e no compromisso direto com grupos sociais específicos. Muitos projetos que tratam de problemas sociais, tais como habitação, imigração, moradia, abandono, ecologia, meio ambiente, saúde e alimentação, estão no centro do interesse artístico pelo coletivo, colaborativo e pelo compromisso com grupos sociais. (BISHOP, 2012) Os principais motivos para a multiplicação dessas propostas sob o guarda-chuva da expressão “virada social”, ou uma volta ao social e para repensar a arte como uma prática coletiva seria: separação entre arte e vida; crítica institucional; oposição ao mercado de arte; negação do objeto de arte e; preocupação com a política e as causas sociais (BISHOP, 2012). Segundo Marília Franco, frente a todos os desafios históricos, ideológicos, estéticos, psicossociais, técnicos, gerenciais e políticos que teríamos que compreender equacionar e enfrentar, na direção de fazer do cinema/audiovisual um instrumento de construção/compreensão da alteridade. Ela, a alteridade, nos ajuda a nos vermos no outro, a compreender as semelhanças e a aceitar as diferenças. Ela é o 126 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA fundamento da convivência, da colaboração, da capacidade de construir coletivamente (FRANCO, 2010). O aparecimento de projetos desse tipo só é possível graças à rede de projetos, espaços de arte e militância dos quais eles do LAC fazem parte. E, também, ao fato de que todos os envolvidos contribuem com muitos recursos externos, além de ajuda de colaboradores amigos, artistas e ativistas, o que torna possível fazer essas coisas em longo prazo. No trabalho desenvolvido pelo coletivo LAC, há a busca pela emancipação dos sujeitos sociais envolvidos. Busca esta que pretende a aquisição da autonomia desses, enquanto sujeitos sociais, trabalhando as questões de inclusão, sociabilidade, senso crítico e também, criando uma culturavisual, um repertório e um olhar diferenciado. 127 CAPÍTULO 4 Riscos e desafios para a manutenção dos patrimônios culturais da humanidade Textos disponibilizados na internet e reproduzidos para fins pedagógicos. Preservar e cuidar da manutenção do patrimônio cultural construído é um grande desafio da atualidade. O crescimento das cidades, a expansão imobiliária, o déficit habitacional e os impactos ambientais constituem fatores que desafiam os gestores públicos a confrontar o desenvolvimento eminente, com a necessidade de minimização de impactos ambientais e sociais. No âmbito do patrimônio cultural, esforços têm sido canalizados visando a consolidação de uma política de proteção de acervos, assim como ações efetivas de restauração de bens culturais que se encontram em estado de conservação ruim. Ao circular pelas cidades do interior do país, observa-se, com frequência, a degradação de inúmeros imóveis seculares, de valor artístico e cultural, de propriedade particular ou pública, que lamentavelmente dão lugar a outras edificações. Estas surgem de maneira abrupta e se sobrepõem à paisagem tradicional, desconsiderando todos os condicionantes conformadores do espaço urbano e sua história. Desse modo, a leitura espacial e sua compreensão ficam comprometidas, uma vez que os suportes físicos da memória das cidades são apagados, dando lugar a construções que não dialogam e não respeitam o meio existente (QUINTÃO; PRATES, 2015). O Museu Nacional do Rio de Janeiro perdeu 90% de seu acervo em um incêndio que varou a noite do dia 2 de setembro de 2018. As chamas devoraram quase 20 milhões de artefatos da construção bicentenária, reduzindo a cinzas espécimes botânicas e zoológicas, ossadas de titânicos dinossauros e também inventários únicos da cultura de populações indígenas e africanas originárias. 128 UNIDADE IV │ O CONCEITO DE CULTURA O incêndio é parte de uma cronologia de descaso que assombra museus e instituições de cultura no Brasil, metaforizando – e materializando – o desdém para com a memória, o patrimônio e as ciências do país. Nos últimos dez anos, oito instituições culturais e históricas foram dizimadas em incêndios. O Museu da Língua Portuguesa, o Instituto Butantan, ambos em São Paulo, e o Museu de Ciências Naturais da PUC Minas Gerais, são alguns dos exemplos. O que ainda não foi consumido em labareda é ameaçado pelo lento devoro de traças e do abandono. Deborah relembra a situação do Parque Nacional da Serra da Capivara, museu a céu aberto no Piauí e que está sofrendo um desmonte ante a falta de verba, além de tantas outras instituições que sofrem o mesmo destino. O próprio Museu Nacional passou por um corte de 77% de seu orçamento em relação ao ano passado, e há anos seus funcionários alertavam sobre o risco de incêndio e falta de verba para proteger devidamente o acervo. O crânio de Luzia, que datava de 11 mil anos e era fundamental para se compreender a ocupação do continente americano, estava sem verba para ser exibido ao público (GARCIA, 2018). Figura 48. Incêndio no Museu Nacional/Crédito: Tânia Rego. Fonte: https://portal.aprendiz.uol.com.br/wp-content/uploads/2018/09/desttt-1024x682.jpg. Acesso em: 27/3/2020. 129 O CONCEITO DE CULTURA │ UNIDADE IV A escolha dos temas presentes [no I Congresso Internacional Gestão dos Patrimônios da Humanidade Urbanos: desafios e riscos da preservação, ocorrido em 2019] responde às demandas que vem se avolumando nos últimos anos, fruto de uma conscientização mais responsável por parte dos diversos atores preservacionistas, bem como da necessidade de se compreender melhor as dinâmicas, discursos e práticas de salvaguarda desses patrimônios da humanidade urbanos, sobretudo diante das ameaças cada vez mais presentes que rondam sua manutenção, conservação e preservação. Este encontro busca potencializar a troca de experiências sobre a gestão do patrimônio mundial alocado em território brasileiro, com especial atenção àqueles localizados no estado de Minas Gerais e experiências similares em âmbito internacional, enfatizando a compreensão dos processos de sua salvaguarda e difusão. Nesse sentido, compila o que de mais contemporâneo tem sido discutido e revela parte significativa do estado da arte da preservação e gestão dos patrimônios da humanidade brasileiros e estrangeiros discutidos nos seis eixos temáticos do congresso/simpósio (CIGPHU, 2019). 130 Referências ADES, Dawn. O Dada e o Surrealismo. Barcelona: Editorial Labor, 1976. AGAMBEN, Giorgio. O que é o contemporâneo: e outros ensaios. Chapecó: Argos, 2009. AGUALUSA, José Eduardo. As cortinas da censura. Segundo Caderno. O Globo. 18 set. 2017. AMARAL, Aracy. Arte e meio artístico: entre a feijoada e o x-burguer: 1961 – 1981. Apresentação Ana Maria de Moraes Belluzzo. São Paulo: Nobel, 1983. ARGAN, Giulio Carlo. Arte Moderna. São Paulo: Cia. das Letras, 1992. ARRUDA, Maria A. N. Metrópole e cultura: São Paulo no meio século XX. Bauru: Edusc, 2001. AUMONT, Jacques. A Imagem. Campinas: Papirus, 2005. BATTCOCK, Gregory. A Nova Arte. São Paulo: Editora Perspectiva, 1986. BAZIN, Germain. 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Capítulo 2 Breve resumo da história da arte Capítulo 3 Periodização da história da arte Unidade II As Linguagens Artísticas Capítulo 1 Artes visuais Capítulo 2 Dança Capítulo 3 Teatro Capítulo 4 Tecnologia e transformação cultural – fotografia e cinema Capítulo 5 Música Unidade III Arte Contemporânea Capítulo 1 A diversidade nas linguagens artísticas contemporâneas Capítulo 2 Audiovisual Unidade IV O conceito de Cultura Capítulo 1 A cultura e as diferentes conceituações e funções Capítulo 2 Produção cultural Capítulo 3 Apresentação e discussão do panorama da arte e cultura no mundo contemporâneo Capítulo 4 Riscos e desafios para a manutenção dos patrimônios culturais da humanidade Referências