Prévia do material em texto
FORMAÇÃO DOCENTE NO BRASIL Neste capítulo, você vai estudar sobre a formação e reconhecimento acadêmico do pedagogo, além de analisar a atuação deste profissional no âmbito escolar e, ainda, os desafios da contemporaneidade no processo de formação e no campo de trabalho da Pedagogia. Nesta perspectiva, vale ressaltar a necessidade de compreendermos quem é o profissional em Pedagogia, os conhecimentos necessários para tal, as demandas existentes, as lacunas da profissão e, também, os distanciamentos que, muitas vezes, ocorrem entre o processo formativo e a realidade de atuação do profissional. Ou seja, é necessário a realização de uma análise acerca da identidade do pedagogo, contemplando principalmente seu percurso acadêmico profissional. Com base nos conteúdos e atividades propostas, a pretensão é que você, com interesse e dedicação, possa construir novos conhecimentos, além de novas aplicabilidades para o material aqui apresentado. Pensemos, portanto, a partir daqui, na formação acadêmica do profissional em Pedagogia. AULA 06 FORMAÇÃO ACADÊMICA E PROFISSIONAL Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: • Descrever a importância de uma formação teórica e metodológica na formação acadêmica do profissional em Pedagogia. • Identificar as relações existentes entre a formação do pedagogo e a sua atuação no contexto escolar. • Reconhecer a influência dos desafios contemporâneos na formação acadêmica do profissional em Pedagogia. 6 FORMAÇÃO PROFISSIONAL TEÓRICA METODOLÓGICA Para discutirmos sobre o processo de formação teórica-metodológica do pedagogo, que, entre outros vieses, perpassa pela área da formação e pelo aperfeiçoamento docente, inicialmente é necessário ressaltar que são muitos os desafios quando o assunto é formação dos profissionais da educação (pedagogos, professores, gestores, etc.). Contudo, é preciso lembrar também que existem diversos pesquisadores que têm se debruçado nessa temática e, assim, muitos estudos têm apresentado possibilidades de reflexão sobre formação continuada e práticas pedagógicas que envolvem os diferentes assuntos no contexto escolar. A formação pedagógica, assim assumida, surge como a construção de caminhos coletivos que possibilitam o novo, além de contribuir para o reconhecimento da necessidade de problematizar e discutir os diversos aspectos que envolvem o contexto escolar, entendendo a construção do conhecimento como algo processual, com vistas a ir além para analisar, ressignificar, desconstruir e articular saberes. De maneira a aprofundar em alguns conceitos para promover atravessamentos, destaco que o termo problematização foi muito utilizado por Foucault nos seus últimos dois anos de sua vida. Ele entendia como o conjunto de práticas discursivas ou não discursivas introduz algo no jogo do verdadeiro e do falso e o constitui como objeto para o pensamento (seja sob a forma da reflexão moral, do conhecimento científico, da análise política, etc.) (REVEL, 2011). Na perspectiva da problematização, é preciso pensar a escola como um lugar de produção de verdades e de condutas, bem como um ambiente onde as relações são marcadas pelas diferenças, portanto, as práticas pedagógicas devem ser repensadas e o profissional em pedagogia deve estar sempre atualizado, com uma visão crítica, criativa e eficaz. A escola é também regida por normatizações que, muitas vezes, controlam, proíbem e reprimem, impedindo os acessos e ocultando saberes, porém, é também um lugar de resistências, pois, diante do medo, da repressão e da renúncia, emergem resistências, fugas e vontades estratégicas que se materializam em pequenas revoluções cotidianas, pois “onde há poder há resistência” (FOUCAULT, 2010, p. 105). Dessa maneira, há inúmeras possibilidades para o fazer pedagógico, para a atuação do profissional em pedagogia e para a reelaboração de processos e espaços escolares. O termo resistência emergiu, a partir da década de 1970, distante da ideia de transgressão: “a resistência ocorre, onde existe poder, porque poder e resistência não se separam [...]. A resistência é a possibilidade de abrir espaços de lutas e de administrar possibilidades de transformação por toda parte.” (REVEL, 2011, p. 127- 128). Vale lembrar que a transgressão sugere um passar dos limites, ocorrendo no processo coletivo relacional, enquanto a resistência é singular, a partir das pequenas revoluções diárias que ocorrem no íntimo de nossas práticas individuais. Devemos pensar em resistência como uma estratégia para mostrar que, mesmo em meio a todos os desafios e todos os percalços que acometem o sujeito, nesse caso o profissional em pedagogia, ele resiste, além disso, mesmo em meio a todo disciplinamento, este é capaz de criar mecanismos e estratégias para fugir ao enquadramento. Nesse momento, é necessário pensar com profundidade esses conceitos. Assim, podemos pensar que a escola, por muitas vezes, tem procedimentos disciplinares de controle e de massificações, designando uma série de mecanismos de vigilância que têm como meta conter condutas, limitar comportamentos e ações, restringir desempenhos e gerenciar posturas. A visão e a postura críticas de um pedagogo poderão resultar em um novo modelo de instituição escolar. A essas alturas, é relevante atentarmos para o quanto a formação do profissional em pedagogia nos é favorável e necessária para repensarmos a escola e as diversas formas de sermos pedagogos e professores. Dessa maneira, as possibilidades não se excluem, mas se conectam em um movimento de descobertas, reconhecimentos e reinvenções. Enfim, para elevarmos ainda mais nossas reflexões sobre a urgência e a importância da formação teórica-metodológica profissional em pedagogia, torna-se indispensável considerar o que nos diz Larrosa (2004) quando este fala da (im)possibilidade traduzida como aquilo frente ao qual se desfalece todo o saber e todo o poder. Para pensar em uma formação eficaz para o pedagogo, é necessário nos despojarmos de todo o saber e de todo o poder, ou seja, abrirmo-nos ao (im)possível. Pensar no (im)possível é vislumbrar as possibilidades. O (im)possível, portanto, é aquilo que exige uma relação constituída segundo uma medida diferente à do saber e à do poder. O autor descreve, ainda, que o nascimento constitui a possibilidade de tudo o que escapa ao possível, ou, dito de outra maneira, do que não está determinado pelo que sabemos ou podemos. Dessa forma, como será possível pensar em uma formação significativa ao profissional de pedagogia? 6.1 A formação do pedagogo e a atuação no contexto escolar Pensar o processo de formação do profissional em pedagogia, vislumbrando sua atuação no contexto escolar, requer mais do que uma simples reflexão. Na verdade, é preciso levar em consideração toda a complexidade que envolve as transformações sociais, bem como os diferentes contextos escolares, para assim iniciarmos uma possível discussão e, certamente, um aprofundamento sobre o assunto, sem a pretensão de esgotá-lo ou de chegar a uma resposta única para tal situação. Nessa perspectiva, compreende-se à docência como ação educativa e processo pedagógico, metódico e intencional, construído com relações sociais, étnico- raciais e produtivas, as quais influenciam conceitos, princípios e objetivos da Pedagogia, desenvolvendo-se na articulação entre conhecimentos científicos e culturais, valores éticos e estéticos inerentes a processos de aprendizagem, socialização e construção do conhecimento no âmbito do diálogo entre diferentes visões de mundo (BRASIL, 2006). É recomendável, na hora da escolha da instituição a cursar, que seja uma reconhecida pelo MEC e um curso pautado em seriedade e compromisso com a profissão, pois isso fará diferença na formação e no concorrido mercado de trabalho. Após esse período, como opção,há as especializações em várias áreas. Dessen e Polonia (2007) apontam que, considerando as transformações sociais e, consequentemente, as mudanças no contexto escolar, o pedagogo deverá exercer, de forma satisfatória, as suas funções em seu campo de atuação e deverá trabalhar, de maneira determinada, para que possa reconhecer a realidade de cada problema, solucioná-los de forma adequada e com isso, obter resultados positivos para o corpo docente. Confirmando a necessidade de uma formação teórico e metodológica efetiva, é possível apontar alguns pontos importantes para o sucesso desse processo: • Desenvolvimento de projetos de educação para contribuir com a profissionalização e com o crescimento dos educadores; • Implementação, planejamento e acompanhamento quanto a qualidade e o desenvolvimento do ensino; • Auxílio ao corpo docente, com ofertas de disciplinas variadas, implementação de técnicas de estudo e integração da escola com a comunidade qual está inserida; • Organização dos métodos de ensino buscando inovações, formação de grupos de docentes motivados e competentes; • Identificação das áreas com piores resultados, agindo para que os problemas sejam sanados; • Construção de uma equipe de ensino qualificada; • Orientação para estudantes durante o processo de aprendizagem com métodos da psicologia e pedagogia; • Orientação de jovens para a escolha vocacional; • Desenvolvimento de programas de treinamento em recursos humanos; • Assessoria pedagógica para os canais de comunicação e para a divulgação cultural; • Atuação em organizações não governamentais com coordenação de programas de saúde, meio ambiente, trânsito, entre outras; • Desenvolvimento de pesquisas cientificas. 6.2 Desafios contemporâneos na formação acadêmica do profissional de Pedagogia O profissional pedagogo é aquele que estuda, conhece e se envolve com a educação. Ele é um aluno contínuo cuja principal tarefa é organizar e sistematizar os vários conhecimentos que naturalmente surgem do ensino e aprendizagem humana. Importante lembrar que o profissional da pedagogia deve construir e se responsabilizar pelo controle de todas as questões educacionais que visam orientar e qualificar esse processo. É, portanto, responsabilidade deste profissional, possuir uma base teórica bem fundamentada, conhecer a legislação educacional, bem como ter uma boa capacidade de planejamento para garantir um trabalho de qualidade. Além disso, o profissional precisa ser capaz de trabalhar em equipe, uma vez que o seu trabalho inevitavelmente dialoga com outras pessoas de diferentes áreas e setores. Durante o processo de ensino e aprendizagem, são vários os objetivos deste profissional, entre os quais estão, organizar o processo de aplicação de currículos com a equipe escolar e fornecer informações sobre todo o processo realizado anteriormente. No entanto, isso não é tão fácil quanto parece, porque aprender vai além de processos didáticos e regras organizacionais, já que a aprendizagem acontece no discente, de dentro para fora, através de experiências vivenciadas que são ofertadas pelo docente através da aplicação de atividades interativas que permitam o contato, reflexão e conscientização acerca do objeto de estudo. Vale reforçar, que o profissional de pedagogia deve reconhecer para fazer valer as propostas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que visa a unificar influências e referências de cada instituição de ensino. A BNCC surge, portanto, para solucionar um problema muito comum no Brasil. Quando são analisados os currículos escolares espalhados pelo país, é possível encontrar discrepâncias muito grandes. A ideia de uma base curricular comum às escolas de todo o Brasil já existe desde a promulgação da Constituição de 1988, em que o Artigo 210º prevê a criação de uma matriz de conteúdos fixos a serem estudados no Ensino Fundamental. O profissional de pedagogia, ao realizar suas ações, precisa trabalhar acerca das competências do BNCC para o século XXI, que dizem respeito a formar cidadãos mais críticos, com capacidade de aprender a aprender, de resolver problemas, de ter autonomia para a tomada de decisões, ou seja, cidadãos que sejam capazes de trabalhar em equipe, respeitar o outro e o pluralismo de ideias, que tenham a capacidade de argumentar e defender seu ponto de vista. A sociedade contemporânea impõe um novo olhar a questões centrais da educação, em especial: o que aprender, para que aprender, como ensinar e como avaliar o aprendizado. Dessa maneira e nessas condições, emergem inúmeros desafios para a atuação do pedagogo. A pedagogia vive à procura de estratégias e metodologias que garantam uma melhor aprendizagem e apropriação de conhecimentos, tendo como alvo principal gerar mudanças no comportamento dos sujeitos, de modo que estes se aperfeiçoem. Portanto, em função de toda a mudança, há a necessidade do pedagogo se tornar uma pessoa crítica e visionária, que seja capaz de se adaptar a mudanças, ser mais flexível e que contribua, efetivamente, para o processo pedagógico e educacional. É fato que muitas pessoas são resistentes a mudanças e novas ideias, seja por medo ou mesmo por acomodação. Talvez sejam essas as características que assombram a educação e a pedagogia e aniquilam as possibilidades de continuidade e transformação. Priorizar o desejo por mudanças e novas perspectivas deve ser um argumento primordial para as pessoas inseridas nos processos de formação do profissional de pedagogia. Para que isso ocorra, faz-se necessária a ferramenta da desconstrução, pois só a partir dela poderão surgir aspectos que norteiam novas propostas educacionais e olhares renovadores sobre inúmeros assuntos dentro da educação, refletindo em novos profissionais de pedagogia. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP n° 1, de 15 de maio de 2006. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para o Curso de Graduação em Pedagogia, licenciatura. Brasília, DF, 2006. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP nº 1, de 9 de agosto de 2017. Altera o Art. 22 da Resolução CNE/CP nº 2, de 1º de 2015, que define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e curso de segunda licenciatura) e para a formação continuada. Brasília, DF, 2017. BRASIL. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP nº 2, de 1º de julho de 2015. Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada. Brasília, DF, 2015. DESSEN, Maria Auxiliadora; POLONIA, Ana da Costa. A família e a escola como contextos de desenvolvimento humano. Paidéia (Ribeirão Preto), v. 17, n. 36, p. 21- 32, 2007. FOUCAULT, M. A ordem do discurso: aula inaugural no Collège de France, pronunciada em 2 de dezembro de 1970. Tradução Laura Fraga de Almeida Sampaio. 20. ed. São Paulo: Loyola, 2010. LARROSA, J. Pedagogia profana: danças, piruetas e mascaradas. 6. ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2004. (Coleção Educação: experiência e sentido). RABELO, I. P. O papel do Pedagogo na escola. JUFMA. 2014. REVEL, J. Dicionário Foucault. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2011. RIBEIRO, C. M. (Org.). Tecendo gênero e diversidade sexual nos currículos da Educação Infantil. Lavras: UFLA, 2012. RIBEIRO, C. M.; SOUZA, I. M. S. (Org.). Educação inclusiva: tecendo gênero e diversidade sexual nas redes de proteção. Lavras: Ed. UFLA, 2008.