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Autora: Ana Lúcia Guimarães ÉTICA E CIDADANIA Ética e Cidadania © by Ser Educacional Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, do Grupo Ser Educacional. Imagens e Ícones: ©Shutterstock, ©Freepick, ©Unsplash. Diretor de EAD: Enzo Moreira. Gerente de design instrucional: Paulo Kazuo Kato. Coordenadora de projetos EAD: Jennifer dos Santos Sousa. Equipe de Designers Instrucionais: Gabriela Falcão; José Carlos Mello; Lara Salviano; Leide Rúbia; Márcia Gouveia; Mariana Fernandes; Mônica Oliveira e Talita Bruto. Equipe de Revisores: Camila Taís da Silva; Isis de Paula Oliveira; José Felipe Soares; Nomager Fabiolo Nunes. Equipe de Designers gráficos: Bruna Helena Ferreira; Danielle Almeida; Jonas Fragoso; Lucas Amaral, Sabrina Guimarães, Sérgio Ramos e Rafael Carvalho. Ilustrador: João Henrique Martins. G963e Guimarães, Ana Lúcia. Ética e cidadania [recurso eletrônico]: Recife: Telesapiens, 2022. 120 p.: pdf ISBN: 978-85-54921-12-5 1.Ética II. Título. CDU 172 (Bibliotecário responsável: Nelson Oliveira da Silva – CRB 10/854) Grupo Ser Educacional Rua Treze de Maio, 254 - Santo Amaro CEP: 50100-160, Recife - PE PABX: (81) 3413-4611 E-mail: sereducacional@sereducacional.com Iconografia Estes ícones irão aparecer ao longo de sua leitura: ACESSE Links que complementam o contéudo. OBJETIVO Descrição do conteúdo abordado. IMPORTANTE Informações importantes que merecem atenção. OBSERVAÇÃO Nota sobre uma informação. PALAVRAS DO PROFESSOR/AUTOR Nota pessoal e particular do autor. PODCAST Recomendação de podcasts. REFLITA Convite a reflexão sobre um determinado texto. RESUMINDO Um resumo sobre o que foi visto no conteúdo. SAIBA MAIS Informações extras sobre o conteúdo. SINTETIZANDO Uma síntese sobre o conteúdo estudado. VOCÊ SABIA? Informações complementares. ASSISTA Recomendação de vídeos e videoaulas. ATENÇÃO Informações importantes que merecem maior atenção. CURIOSIDADES Informações interessantes e relevantes. CONTEXTUALIZANDO Contextualização sobre o tema abordado. DEFINIÇÃO Definição sobre o tema abordado. DICA Dicas interessantes sobre o tema abordado. EXEMPLIFICANDO Exemplos e explicações para melhor absorção do tema. EXEMPLO Exemplos sobre o tema abordado. FIQUE DE OLHO Informações que merecem relevância. SUMÁRIO UNIDADE 1 Fundamentos de ética e cidadania � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 11 Conceitos, objetivos e princípios da éticae da moral � � � � � � � � � � 11 Conceito de cidadania � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 18 A ética social e a política � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 27 A ética e a moral na contemporaneidade � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 33 UNIDADE 2 A ética no mundo do trabalho � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 43 A ética e a sociedade globalizada � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 43 Problemas éticos nas profissões � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 49 Código de ética das profissões: conceitose finalidades � � � � � � � � � � � 53 UNIDADE 3 A ética em profissões não regulamentadas � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �58 A ética nas relações humanas � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �65 Diversidade cultural, étnica, religiosae de gênero � � � � � � � � � � � 65 Ética e cidadania na sociedade tecnológica � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �76 A intolerância, o racismo e a xenofobia � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �79 O ensino da ética nas instituições � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �85 UNIDADE 4 Direitos humanos � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 91 Conceituação e princípios dos direitos humanos � � � � � � � � � � � � �91 Ação comunitária e participaçãodemocrática � � � � � � � � � � � � � � � � � � 94 Ética, direitos humanos e violência � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 99 Cenário atual e tendências da éticae da cidadania � � � � � � � � � � � � � �102 Ética e política � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 104 Ética na saúde � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 105 Ética as redes sociais � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � 106 Educação, ética e cidadania hoje � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � � �110 Autoria Ana Lúcia Guimarães. Olá, meu nome é Ana Lúcia Guimarães. Sou Doutora em Ciências Humanas e possuo mais de vinte anos de atuação como pro- fessora na Educação Superior. Além disso, tenho doze anos de militância como diri- gente sindical da causa dos professores, o que me agrega conhecimentos e experiências para localizar-me como autora nesta disciplina. Portanto, atuar e defender a causa da educação, laica, democrática e de qualidade é mais que um princípio em minha formação e trajetória profissional, é um compromisso de ofício. Por isso fui convidada pela Editora Telesapiens a integrar seu elenco de autores independentes. Estou muito feliz em poder ajudar você nesta fase de muito estudo e trabalho. Conte comigo! UN ID AD E 1 Objetivos Seja muito bem-vindo(a) à disciplina Ética e Cidadania. Nosso objetivo é auxiliar você no desenvolvimento dos seguintes objetivos de aprendizagem até o término desta etapa de estudos: 1. Diferenciar os conceitos de ética e moral. 2. Identificar o conceito de cidadania. 3. Demonstrar o conceito de ética social e sua relação com a ética política. 4. Ilustrar a relação entre ética e moral em tempos contempo- râneos. 10 Introdução Olá! Seja bem-vindo(a) à disciplina Ética e Cidadania. A partir de agora, daremos início a uma nova etapa de estudos e este vídeo in- trodutório foi preparado para orientar a sua trajetória na trilha da aprendizagem que será percorrida por você ao longo das quatro unidades letivas que estão por vir. Assista! Você sabia que estudar ética e cidadania possui uma impor- tância significativa nos tempos atuais? Isto porque os indivíduos estão cada vez mais confusos em relação a construção de suas atitu- des e pensamentos quanto às rápidas e volumosas transformações de nossa sociedade. Trata-se de entender como e de que forma de- vemos interagir com os diferentes sujeitos sociais e seus diferentes pertencimentos culturais e políticos. Enquanto a ética nos imprime uma ideia de valores e normas sociais construídos historicamente de acordo com as diferentes demandas sociais dos grupos que inte- gram a sociedade, a ideia de cidadania nos remete ao pertencimento a uma localidade e ao compartilhamento de valores e normas sociais da mesma. Portanto, tanto a questão da cidadania quanto a ideia da ética nos fornecem mapas referenciais para nossas ações e intera- ções, com o objetivo de identificar a qual conceito de moral estamos submetidos. Entendeu? Vamos explorar mais este debate ao longo desta Unidade. 11 Fundamentos de ética e cidadania Ao término deste capítulo você deverá estar dominando os con- ceitos de ética e moral, sabendo diferenciá-los e identificando sua importância para a vida em sociedade. Na atualidade, quando os in- divíduos não conseguem perceber situações de caráter moral, eles acabam sendo capazes de manifestar posicionamentos ou formas de agir que podem acarretar em julgamentos negativos pela ordem social constituída. Vamos lá? Conceitos, objetivos e princípios da ética e da moral Iniciamos os nossos estudos sobreética e moral procurando enten- der a definição desses conceitos e as diferenças existentes entre eles. Para o educador Mário Sergio Cortella (2009), a ética é o princípio orientador de nossa conduta em sociedade, ela nos per- mite distinguir e definir nossas ações e pensamentos em relação as diferentes experiências no mundo social. A ética está em nosso dia a dia e, em qualquer situação ou acontecimento, percebemos várias inferências dos moralistas ao solicitarem uma maior necessidade de afirmação ética. Realmente há um desgaste em falar de ética em tempos atuais, mas ainda é muito necessário entender o conceito e valorizar a sua aplicação. Pode-se ousar dizer que é impossível avançar na compreensão do conceito de ética sem abordar a concepção de valores. Mas então, o que são valores? Desde quando nascemos somos ensinados sobre o que é certo e errado, a partir daí vamos direcionando nosso olhar e também disseminando valores impostos pela sociedade. Se con- OBJETIVO 12 siderarmos que o valor moral é uma necessidade para a sobrevivência em sociedade, estaremos começando a entender mais sobre ética, moral e vida social, no sentido relacional – ou seja, de interação de uns com os outros. Ademais, Cortella (2009) também vai afirmar que a ética é compreen- dida no bojo dos estudos da filosofia e ela tem uma ligação com a construção da moralidade, pois a partir dessa relação nasce a ideia de um “exer- cício de condutas”. Isto significa, para o autor, que a partir da con- cepção ética espera-se que um indivíduo aja de forma previsível em uma determinada situação, pois entende-se que ele já incorporou as regras morais que irão compor o seu comportamento social. Por meio destas considerações podemos inferir que a ética é a vida pensada, isto é, uma proposta de ação a partir do que a moral estabelece. Nesse sentido, precisamos reconhecer que a ética está no centro da construção de relações sociais harmônicas e benéficas para a preservação do todo social, isso porque ela aponta a ideia de uma ação que leva em conta o outro e que se fundamenta na forte presença dos valores morais. ÉTICA: define-se como um modo de agir a partir de uma norma moral incorporada, refere-se à uma orientação de vida que deve, supostamente, levar em consideração a preservação positiva da vida em sociedade. Ainda explorando o conceito de ética como parte da Filosofia, a qual fundamentalmente implica em um entendimento do com- portamento moral, vejamos de forma panorâmica como os clássicos filósofos consideravam este conceito. Figura 1: Ética e vida coletiva Fonte: Pixabay DEFINIÇÃO 13 Nos estudos da pesquisadora Marilena Chauí (2010) encon- tramos que, para os sofistas, a ética era relativista, pois em suas concepções não haviam normas universais de definição para a vida social. Sócrates, tanto quanto Kant, buscavam o entendimento da ética a partir da compreensão da alma humana, eles acreditavam que nela residiria os fundamentos da moral. Já nos ideais de Platão, vemos a separação entre corpo e alma, para ele o corpo estava su- jeito as paixões e poderia desviar-se do bem, por isso o homem só conseguiria desenvolver a ética para o bem comum na Pólis. Ainda em Chauí (2010) vemos que, para os estóicos, a ética constituía uma ideia de autocontrole que levava à uma aceitação da realidade, uma clara noção de destino traçado sob a égide de uma razão universal, o que levava a um estado de serenidade da alma. Por outro lado, os epicuristas ao falarem de ética e da imperturba- bilidade da alma mostravam que esta era uma finalidade da mesma. Entretanto, estes pensadores adotavam quatro princípios para entendimento da ética: o primeiro era que o homem não devia temer aos deuses; o segundo indicava que o homem não devia te- mer a morte; o terceiro apontava que a felicidade era possível de ser alcançada; e, finalmente, o quarto princípio dizia que qualquer dor pode ser suportada. Por meio destas ideias os filósofos pretendiam afirmar que a ética enquanto bem fundamental é a defesa do prazer, não o prazer sexual, mas, sobretudo, o prazer relacionado ao sen- timento de amizade. Ademais, em Aristóteles veremos que a ética está relacionada à busca pela felicidade, que deve ser encontrada no bem comum e na ação do homem na Pólis. Figura 2 - Reflexão sobre Ética Fonte: Freepik. 14 Anteriormente falamos sobre o conceito de ética, mas não podemos deixar de trazer considerações sobre o conceito de moral. Portanto, o que é a moral? Podemos inferir que a moral é um con- junto de regras, normas de uma sociedade ou localidade, tornando- -se relevante pela proporção do desrespeito das pessoas às leis. A moral funciona como um conjunto de condutas que devem direcio- nar as diferentes formas de agir dos indivíduos. MORAL - o conjunto de condutas e normas que os indivíduos costu- mam aceitar como válidas. Essas regras são adquiridas na educação, através da cultura e das tradições dos diferentes grupos sociais. Cada grupo tem suas regras e concepções morais. Para Chauí (2010), o filósofo Immanuel Kant (1921) foi quem mais discutiu a ética formal, compreendendo que a moral do com- portamento reside na vontade e nos motivos do agente considerado. É importante entender que aquilo que não é moral, pode ser: IMORAL: com conotação de tudo aquilo que se opõe a moral, por exemplo, o questionamento da atuação dos políticos no Brasil. AMORAL: um homem que se comporta de forma independente dos juízos sobre o bem e o mal, ele não considera qualquer parâmetro de moral para sua conduta. DEFINIÇÃO IMPORTANTE 15 Figura 3 - Regras morais para o erro ou acerto social Fonte: Pixabay. A ética e a moral andam de mãos dadas, apesar disso, elas essen- cialmente possuem conceitos diferentes. É preciso saber que a éti- ca é importante porque revela o respeito aos outros e a dignidade humana. Todos nós possuímos ética, mas temos que desenvolver e acreditar no bem, pois ela tanto nos orienta quanto nos ajuda para termos uma vida boa. A seguir, observe o quadro com as principais diferenças entre os conceitos de ética e moral: Tabela 1 - Ética e Moral: apontamentos diferenciais Fonte: Elaborada pela autora. Assim, a ética pode ser entendida como um parâmetro, a lei do que seja ato moral, o controle de aplicação da morali- dade. Ou seja, são os códigos de ética que devem ser exercidos para os diferentes conjuntos de grupos dentro do sistema social EXPLICANDO ÉTICA Princípio teórico-reflexivo Ética é temporal Ética é universal MORAL Regras de condutas específicas Moral é temporária Moral é cultural 16 mais abrangente. Já a moral, por sua vez, de acordo com as ideias de Kant e sistematizadas por Chauí (2010), é tudo aquilo que precisa ser feito, independentemente das vantagens ou prejuízos que pos- sa trazer. Se praticarmos um ato moral, podemos até sofrer conse- quências negativas, já que o que é moral para uns pode ser amoral ou imoral para outros. Figura 4 - Diferenças entre Ética e Moral Fonte: Editorial Telesapiens. ÉTICA Lida com o CERTO e o ERRADO Modo social de agir: implica no consenso e na adesão da socie- dade. Norma e regras pessoais: é guiada pela cultura da socieda- de. Coletivo: se constrói a partir do consenso de várias morais. MORAL Lida com o CERTO e o ERRADO Modo pessoal de agir: é adqui- rida e formada ao longo da vida, por experiências. Normas e regras pessoais: é guiada pela consciência. Individual: é o que fundamenta a ética. 17 E então? Gostou do que lhe mostramos? Aprendeu um pouco mais? Agora, para reforçarmos o tema de estudo desta primeira parte da Unidade 1 e termos a certeza de sua fixação, vamos resumir tudo o que vimos até aqui. Você deve ter aprendido que ética e moral são conceitos complementares, porém, diferentes em sua essência. Além disso, procuramos destacar que a ética é uma reflexão e a in- ternalização dos valores morais, que são específicos para um grupo ou sociedade, pois cada grupo social possui suasnormas e orienta- ções de conduta. Ao escolhermos orientar a nossa ação pensando na preservação positiva da interação social e no bem do outro, estamos atuando de forma ética. Nem sempre, durante a história, a ideia de ética foi pensada e empregada da mesma forma que adotamos nos dias de hoje. A ética nos faz discernir entre certo e errado, mas com foco na organização e preservação do social, da manutenção do bem estar alheio. RESUMINDO 18 Conceito de cidadania Pensar em um conceito de cidadania nos remete a um sentimen- to de pertencimento a um Estado, uma nação ou um Estado-nação. Devemos entender que este conceito vem a ser um grande ponto de referência para extrairmos a compreensão de direitos, obrigações e deveres de cada indivíduo mediante o todo social que, a partir de uma representação política, pode direcionar ou não os interesses de um grupo de indivíduos em um sistema político. Estes indivíduos podem, ou não, se constituírem como cidadãos. A partir destas con- siderações, levantamos duas questões: o que é ser cidadão? O que podemos entender sobre cidadania? Para o cientista político e historiador brasileiro José Murilo de Carvalho (2002), o conceito de cidadania foi relacionado a um cos- tume de desdobrar a cidadania em direitos civis, políticos e sociais. Por meio desta ideia, ele defenderá que o cidadão pleno seria aque- le que possuísse os três direitos. Contudo, ainda teria os cidadãos incompletos, cujos direitos estariam reduzidos em alguns poucos, como também aqueles que não teriam nenhum dos direitos, sendo considerados não-cidadãos. Para ele Carvalho (2002), ao resumir o conceito de cidada- nia a posse e o gozo de direitos civis, políticos e sociais, também é preciso compreender o que significa cada um desses direitos. Neste sentido, de acordo com o autor, vemos que: • Direito civil: é aquele que garante o ir e vir, além da possi- bilidade de agrupar-se em movimentos, como sindicatos, de realizar greve etc; possuir seus próprios bens (propriedade privada); livre organização religiosa ou mesmo ideológica. • Direito político: é aquele que se realiza no ato de votar e ser votado, na participação da vida política do país. O indivíduo pode ser candidato à representação e também pode escolher quem quer que o represente. • Direito social: é aquele que se refere às ações governamentais e da sociedade civil organizada em prover serviços ao cidadão, como: saúde, educação e políticas (assistências) sociais. 19 Figura 5 - Cidadania e a relação com os direitos Fonte: Wikimedia Commons. O sociólogo britânico Thomas Humphrey Marshall (2002), ao desenvolver a discussão sobre o conceito de cidadania, mostra que essa concepção foi construída na Inglaterra, antes da Revolução In- dustrial e em um contexto de necessidade de afirmação de direitos, uma vez que o reconhecimento de garantias legais aos nobres, pos- teriormente aos burgueses e até à classe trabalhadora, mostrou-se como uma tarefa primordial à organização das relações de produ- ção, que se consolidariam mais tarde na sociedade moderna. Para o teórico, a evolução da cidadania só se concretiza com a conquista de direitos ao longo da história. A cidadania é pensada por ele considerando aspectos civis, políticos e sociais. Por outro lado, se nos voltarmos à origem histórica do conceito, partindo da gêne- se do seu vocábulo, percebemos que ele vem do latim “civitas”, que significa cidade. Esta palavra, cidadania, era comumente utilizada no contexto da Roma antiga para identificar a situação política de uma pessoa e os direitos que ela poderia usufruir. Com esse histórico de debates e conceitos, vemos que a ideia de cidadania não é algo estável, definido ou adquirido sem um en- tendimento de ação. Com isso, faz-se necessário destacar que não é 20 a conquista de um direito que significa que ele vá de fato ser efeti- vado. A cidadania é um exercício de saber agir da forma necessária para ser incluído socialmente, ela também se relaciona com o desejo do cidadão em participar da construção de novas relações, da sua consciência de direitos e a busca por suas possíveis efetivações. É muito comum acharmos que a ideia de cidadania pode se resumir apenas com a efetivação de direitos para cada indivíduo ou grupo social. Entretanto, é necessário destacar que a cidadania envolve também uma compreensão dos deveres de cada um para com o seu país, estado ou a cidade onde habita. Ter deveres é assumir que há uma relação de troca recíproca entre receber, obter ou conquistar direitos e praticar a realização de deveres. Ao indivíduo cabe exerci- tar o cumprimento de um papel social que possui tarefas para con- tinuamente fortalecer e ressignificar a vida social. SAIBA MAIS 21 Tabela 2 - Direitos e deveres do cidadão brasileiro Fonte: Tabela elaborada pela autora e baseada nas informações de Tié Lenzi (Toda Política/Cidadania). Direitos civis direito à vida; direito à liberdade de expressão; liberdade de ir e vir; igualdade entre homens e mulheres; proteção da intimidade e da vida privada; liberdade para exercer sua profissão; direito à propriedade. Direitos sociais educação; saúde; alimentação; trabalho; moradia; transporte; lazer. Direitos políticos garantia de voto direto e secreto, com igual valor para todos; direito a ser candidato a um cargo nas eleições. — — — — — Deveres participar das eleições, escolhendo e votando nos seus candidatos; estar atento ao cumprimento das leis do país; pagar os impostos devidos; participar da escolha das políticas públicas; respeitar os direitos dos outros cidadãos; proteger o patrimônio público; proteger o meio ambiente. 22 Figura 6 - Cidade e cidadania Fonte: Pixabay. Com toda a discussão apresentada, é importante lembrar da obra “O Cidadão de Papel”, do escritor brasileiro Gilberto Dimenstein, pu- blicada e vencedora do Prêmio Jabuti de Literatura em 1994. O livro aborda o fato de que no Brasil a cidadania está no papel, ou seja, não existe de verdade. Isso é perceptível uma vez que o autor destaca a violência social e a juventude dos anos 90, além da ausência de projetos voltados para educação, informação e a pobreza. De lá pra cá muitas situações se atualizaram, mas de todo modo esta obra é bastante atual e nos faz refletir sobre o quanto ainda temos por con- quistar por meio da participação e reinvindicação de nossos direitos. Vale a pena lê-lo. IMPORTANTE 23 Figura 7 – Capa da obra “O Cidadão de Papel”, de Gilberto Dimenstein Fonte: Editora Ática. CIDADANIA: refere-se a um conjunto de ações com caráter de rei- vindicação que se volta para o interesse coletivo. É em seu exercí- cio que se aprimoram práticas de convivência melhores e tratam da qualidade de vida dos habitantes da cidade. Ademais, trata-se de um conceito diretamente ligado a uma ideia de aprendizagem so- cial, que busca em sua culminância o atendimento de direitos, como também a compreensão dos compromissos e deveres a cumprir. É muito importante também entender sobre a relação entre o conceito de cidadania e a educação. Pois durante o processo educa- tivo se desenvolvem valores e uma maior consciência com relação a preocupação com o outro, além da responsabilidade para com a vida social. Nesse sentido, no Brasil e na América Latina, a partir das décadas de 80 e 90, as discussões sobre cidadania, direitos huma- nos e democracia ganham muito destaque, sobretudo nos exercícios da educação formal e informal. Em decorrência disso, foram criados documentos formais com o objetivo de orientar a educação para à DEFINIÇÃO 24 formação da cidadania. Exemplos claros dessas iniciativas encon- tram-se nos documentos listados abaixo: • Constituição Federal (1988); • Lei de Diretrizes e Bases – LDB (1996); • Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (1990); • Programa Nacional de Direitos Humanos – PNDH (1996); • Propostas de Políticas Educacionais. É notável que existemsentimentos e valores educacionais que podem ser desenvolvidos e aprendidos na família ou na escola, tanto pela educação formal quanto pela informal, capazes de cola- borar para o despertar da cidadania. Neste contexo, destacamos os valores da cooperação, perdão, respeito, sinceridade, diálogo, soli- dariedade, combate à violência, bondade, etc. Tratam-se de valores presentes em nossa humanidade e quando eles são bem trabalhados podem otimizar responsabilidades e aptidões para o fortalecimento de relações sociais pautadas na garantia recíproca de efetivação de direitos e deveres. Veja como a LDB 9.394/96 direciona as suas diretrizes para uma educação nacional voltada à formação do cidadão, disponível no link ou no QR Code ao lado: O professor José Gimeno Sacristán (2000) infere que a dis- tância entre os direitos no papel e a efetiva cidadania só é possível ser estreitada quando os envolvidos tomam para si a atitude de fo- mentar ideias práticas. SAIBA MAIS 25 As autoras Claudia Mara de Almeida e Kátia Cristina Dambiski Soares (2010) apontam que a ligação entre a vida individual e a co- munitária só ocorre quando há um reconhecimento mútuo da rele- vância recíproca entre os dois. Este, para os autores, é o verdadeiro sentido da cidadania, sem exclusões sociais. Já sobre a relação entre cidadania e educação, o educador Paulo Freire (2011) orienta que o homem deve ser o sujeito da sua ação, criando e transformando o mundo. Em seu olhar, a escola deve funcionar como um espaço que tende a oferecer ao indivíduo o exer- cício da cidadania e a possibilidade de redefinição da realidade. Figura 8 - Escola e Cidadania Fonte: Pixabay. Saiba mais sobre a cidadania em contexto escolar através do artigo acadêmico “Cidadania em contexto escolar: concepções e práticas” escrito pelas pesquisadoras Francielle Barrinuevo Zambon e Francieli Araujo (Universidade Estadual de Londrina). SAIBA MAIS 26 E então? Como foi a experiência de aprendizagem com o conceito de cidadania? Vamos resumir um pouco do que vimos até aqui, ,para que você possa fixar o assunto desta parte da Unidade. Você deve ter aprendido que é muito importante compreender que a cidadania é um conceito que articula nossos direitos e deveres. Além disso, o exercício da mesma torna a coletividade ativa e integrada para uma harmonia social. A cidadania destaca a liberdade e a convivência co- munitária muito mais do que qualquer questão de relações de poder ou governo constituído. Ser cidadão é participar de forma ativa da realidade social em que se está inserido, protagonizando a busca de qualidade de vida para seus membros, pela via da efetivação de direitos. No entanto, não devemos esquecer que também possuí- mos deveres com a nossa comunidade. Por fim, vimos o importante papel que a educação ocupa na formação do cidadão, uma vez que através da educação formal e informal é possível transmitir os valo- res para a formação cidadã, oferecendo liberdade e autonomia para os indivíduos atuarem na sociedade de forma digna. RESUMINDO 27 A ética social e a política Iniciamos nossos estudos sobre a ética e a política considerando o pensamento da filósofa alemã Hannah Arendt (2003) que nos mostra que política é ação e, portanto, nenhuma questão política pode, segundo ela, estar submetida a subjetividade. Na visão des- ta autora, o entendimento da ideia de práxis é a mola mestra para a compreensão de seu conceito de ética, que muito está relacionado com o que já vimos aqui. Para ela, a ética envolve-se com o cuidado com o mundo, com o espaço das relações humanas e também com o local que permite a vida e a singularidade humana. Arendt (2003) preocupa-se não com a subjetividade do homem, mas sim com os homens em pluralidade. Assim, perce- bemos que o conceito de ética social está direcionado para este olhar. A filósofa aponta que as atividades humanas são o resultado da produção desenvolvida no mundo da vida ativa, além disso, é no mundo (na práxis) que o homem transita e desenvolve atividades que condicionam sua existência. O cuidado com o mundo é, por con- seguinte, o cuidado com a singularidade humana, para a autora. Permanecendo neste raciocínio, as reflexões de Hannah Arendt colaboram para o nosso conhecimento sobre a questão política, pois ela define que esta atividade não deve se submeter às questões morais, contrapondo-se as ideias do pensador italia- no e renascentista Nicolau Maquiavel ao afirmar que a política não deve ser guiada para atingir meios e fins. Popularmente é atribuída a Maquiavel, um dos clássicos da política, a frase de que os fins jus- tificam os meios, contudo, Arendt (2003) acredita que se a pratici- dade é o agir, então a forma instrumentalizada de calcular formas para atingir objetivos em política acabam por se configurarem em pré-ação e teoria para controlar a ação. Segundo a filósofa alemã, a política não deve seguir qualquer natureza ou espírito, mas sim ter o compromisso com o “espírito correto”, algo que se define em si mesmo, sem qualquer teleologia ou previsibilidade. A ação política informa a distinção articular de cada homem. Ainda seguindo o pensamento de Arendt (2003), a ética é a pluralidade humana constitutiva do mundo, o que faz a ideia de uma 28 ética social ser mais forte e presente para que as relações humanas se processem de forma operativa. Visto dessa forma, a pensadora mostra que a ética varia de acordo com o espaço político e o agir é livre de qualquer determinação. A discussão que trouxemos até aqui serve para evidenciar que a experiência coletiva das pessoas e sua respectiva construção cultural têm em si mesmas um valor significativo para a compreen- são do conceito de ética social. Inclusive, ao abordarmos tal conceito estamos, na verdade, no campo do pensamento sobre o que pode ou não ser aceitável socialmente. Ademais, isso se deve ao próprio princípio que o conceito traz consigo: a ideia de que os membros de uma comunidade precisam de cuidados de forma homogênea. ÉTICA SOCIAL: conjunto de regras e diretrizes que balizam as es- colhas e comportamentos de uma sociedade que resolveu adotá-los como padrões de conduta. Ela funciona como um roteiro, um código de práticas, mas sem que haja uma necessidade de dizer o que se deve ou não seguir, ou seja, tratam-se dos modelos que são funda- mentalmente seguidos socialmente. A ética social apresenta princípios que precisamos conhecer: à dignidade da pessoa; o direito de propriedade; a primazia do tra- balho; a primazia do bem comum; à solidariedade e subsidiariedade. Em continuidade, o escritor Antônio Lopes de Sá (2009) de- senvolve a ideia de que existem hábitos dignos de louvor, isto é, existe uma conduta virtuosa padrão que serve de referência quan- do pensamos no respeito a todos os seres humanos. O autor bus- ca em Aristóteles a lógica da virtude já que, para o filósofo grego, se um homem adota uma conduta virtuosa em um local onde não há a prática comum desta atitude, então este seria um homem virtuoso. DEFINIÇÃO 29 Em Aristóteles (1997) vemos também uma iniciativa em considerar que o verdadei- ro sentido da ética é voltar-se para a comuni- dade na amplitude da mesma e no exercício da cidadania, objetivando a formação e or- ganização da consciência política humana. Para ele, “o homem é um animal político”. Dessa forma, é possível traçar ime- diatamente uma relação entre a ética social e a política, pois, conforme Aristóteles de- marca em seus estudos, a política é o campo da busca do bem comum. Nesse sentido, vale a ideia de que ética e política devem caminhar lado a lado, uma vez que ambos os conceitos apresentam um viés corporativo, aquele que conduz ao bem-estar da comunidade, do co- letivo, do social. Analisando a etimologia da palavra política, observamos que ela é derivada do termo grego pólis (politikós) e seu signifi- cado diz respeito ao urbano, ao civil, ao que é da cidade (da pólis). O cientista político Francisco Correia Weffort(2001) mos- tra que os pensadores clássicos podem nos guiar na compreensão do conceito fundamental de política, como também na sustenta- ção da sua relação com a ética, já iniciada acima. Segundo o autor, para Thomas Hobbes a humanidade vivia em estado de anarquia e ao criar a sociedade, através do pacto social, formou-se conjunta- mente a chamada sociedade política. Para o filósofo clássico inglês, os homens mediante seu estado de guerra abriram mão de suas de- cisões e escolhas mais individuais para constituírem o Estado sobe- rano, que não permitiria a volta ao Estado de natureza (estágio en- tendido com a ausência de sociedade). Tal movimento fez com que a representação política desses homens fosse delegada ao soberano, que deveria exercer o seu poder em favor do bem comum, garantin- do o perfeito funcionamento de todo grupo social. Em sua obra, o cientista político também revela que em John Locke vemos que no Estado de natureza não teria um significado Figura 9 – Capa da obra “A Política”, de Aristóteles Fonte: Edipro. 30 de caos, mas de ordem e razão. Segundo o filósofo empirista inglês, o Estado surgiu para assegurar a lei natural, bem como para man- ter a harmonia entre os homens. Locke destaca que não houve uma transmissão dos direitos naturais ao Estado, pelo contrário, ocorreu um cessão temporária deles, pois o pensador acredita que a sobe- rania é um valor e que deve ser exercido pela maioria, assim como o respeito aos direitos à vida, à liberdade, à propriedade. Weffort (2001) apresenta, ainda, a teoria de Jean Jacques Rousseau, que parte do princípio de que houve um Estado de na- tureza que não se constituía no caos de Hobbes e nem no mundo ordeiro e racional, como assegurava John Locke. Os homens viviam em caráter de desigualdades, mas eram livres e felizes. A sociedade política surge, então, como um mal necessário para manter a ordem e evitar o retorno das desigualdades. Assim, na criação do Estado a partir do contrato social, o indivíduo cedeu parte de seus direitos naturais para a criação de uma entidade detentora de uma vontade geral, portanto, a soberania do Estado é a incorporação da vontade geral de todos. John Locke, Thomas Hobbes e Jean Jacques Rousseau integram os teóricos do volume 1 da obra “Os clássicos da política”, organi- zado por Francisco Correia Weffort. Os filósofos clássicos discutem a criação do Estado a partir de um pacto social, fomentado pe- los homens. Para saber mais sobre tais teorias, leia: WEFFORT, Francisco Correia (Org.). Os clássicos da política: Maquiavel, Hobbes, Locke, Montesqueu, Rousseau, “O federalista”. v. 1. 13 ed. São Paulo: Ática, 2001. Uma questão que merece ser ressaltada é a de que todos es- ses pensadores falam de política como um lugar de representação de todos e essa possibilidade de ação está diretamente vinculada à concepção de ética social. Isso pois, quando se analisa a criação DICA 31 do contrato social, a organização da sociedade política e a soberania da vontade geral, deve-se considerar o princípio de comando polí- tico com referência da orientação ética, do governar para o outro. Semelhante ao que pensamos, temos visto nos dias atuais a questão da ética social nas empresas e, no interior das socieda- des empresariais, já existem comportamentos de valorização e di- mensionamento da preservação ambiental, por exemplo. Ideias e projetos ecológicos que, inclusive, fundem-se com perspectivas de responsabilidade social, além disso, muitos líderes corporati- vos precisam, por normas éticas, doar uma porcentagem dos lucros anuais para instituições de caridade. Essa pode ser uma ação que está diretamente vinculada com a real necessidade de ajuste para condutas que são aceitas, valorizadas e instituídas socialmente. Temos muitos padrões que fortalecem a ética social e que se in- cluem nos valores familiares, nas crenças religiosas, na morali- dade e na integridade. Figura 10 - Problemas para a Ética Social Fonte: Elaborada pela autora (2019). Os desafios para a ética social, aliada a representação políti- ca, são obstáculos ainda vigentes no mundo atual. Com base neles, é preciso rever práticas e condutas de gestão de comunidades, re- cursos e da própria concepção de coletividade e bem comum. CLONAGEM HUMANA ECONOMIA POBREZA IMIGRAÇÃO FOME 32 Entendeu um pouco sobre a relação entre ética social e política? Nes- ta parte da Unidade procuramos demonstrar como os conceitos de ética social e política devem estar associados para a prática do bem comum. Reforçamos que a ética consiste em uma regra usada para focar na construção do relacionamento com os outros, além disso, destacamos que. o sentido e conceito de ética social foi desenvolvi- do como um verdadeiro código de conduta que é aceito e praticado pelos membros de um grupo social. Falamos também dos clássicos da política: Hobbes, Locke e Rousseau, com o intuito de mostrar que em meio ao caos social os homens criaram a ordem e delegaram sua concepção de representação ao Estado, acreditando que este pode gerir suas vontades comuns. Vimos cada pensador com a sua teoria, mas no bojo conceitual, o principal é entender que a política deveria conduzir a sociedade pela lente da ética, já que em sua originalidade conceitual, ela pode se voltar para o bem comum. RESUMINDO 33 A ética e a moral na contemporaneidade Chegamos na parte desta Unidade em que será possível estabe- lecer uma reflexão muito importante e capaz de promover novos olhares sobre as diferentes situações em que vivemos nos tempos atuais. Devemos observar a relação sobre ética e moral na sociedade contemporânea para que possamos entender melhor os diversos posicionamentos em diferentes culturas e grupos sociais. Anteriormente vimos que existem desafios impostos à aná- lise da ética social, vinculada à política, mas a partir de agora pre- cisamos pensar na generalidade das concepções de ética e moral já aprendidas e que podem ser utilizadas para o entendimento dos diversos desafios. Vamos iniciar nossa reflexão escolhendo um dos grandes problemas da humanidade, cuja dimensão nos entristece: a fome mundial. A fome é uma questão social, mas atente-se para a relação com que os países de primeiro mundo têm no que se refere ao tra- to desta problemática. Você poderá entendê-la melhor ao acionar os conceitos de ética e moral, aplicando-os tanto para analisar quanto para refletir sobre as informações das duas reportagens apresentadas abaixo: • Primeira reportagem: Fome extrema atinge mais de 113 milhões no mundo África é o continente mais afetado Influenciado por conflitos armados DEUTSCHE WELLE 02.abr.2019 (terça-feira) - 18h32 atualizado: 03.abr.2019 (quarta-feira) - 7h12 Mais de 113 milhões de pessoas em 53 países sofreram “insegurança alimentar aguda” em 2018, afirma um relatório global da ONU sobre a crise alimentar divulgado nesta terça- feira (02/04). O relatório apresentado pela União Europeia (UE), Orga- nização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) e o Programa Alimentar Mundial (PAM), entre outras organizações, destaca que o problema afeta principalmente o continente africano. 34 Os países que atravessaram as mais graves crises alimentares são: Iêmen, República Democrática do Congo, Afeganistão, Etiópia, Síria, Sudão, Sudão do Sul e o norte da Nigéria. Dominique Burgeon, chefe de emergências da FAO, afirmou que os países africanos são atingidos de forma “desproporcional” pela fome aguda, com quase 72 milhões de pessoas afetadas. Segun- do o documento, nos últimos três anos, cerca de 50 países vivem dificuldades cada vez maiores para alimentar a suas populações. A principal causa da insegurança alimentar em todo o mundo foram as guerras. Cerca de 74 milhões de pessoas, ou seja, dois ter- ços da população que enfrenta a fome aguda, estavam em 21 países ou territórios localizados em zonas de conflito, assim como já havia ocorrido em 2017. “Nesses países, até 80% das populações afetadasdependem da agricultura”, afirmou Burgeon. “Estas pessoas precisam receber assistência humanitária de emergência para poder se alimentar e con- dições para impulsionar a agricultura.” Em 2018, o número total de pessoas que sofreram fome aguda apresentou leve redução em comparação a 2017 (124 milhões). Isso pode ter ocorrido em razão de alguns países estarem menos expos- tos a riscos climáticos violentos, como secas, inundações ou chuvas. “Este recuo no valor absoluto é um epifenômeno”, minimizou Burgeon. A redução ocorreu “devido à ausência do fenômeno climáti- co ‘El Nino’, que afetou muito as culturas na África Austral e no Sudeste Asiático em 2017”. “Por causa dos violentos ciclones e tempestades em Moçambique e no Malawi este ano, já sabemos que esses países estarão no relatório do ano que vem”, observou. José Graziano da Silva, diretor-geral da FAO, avalia que, ape- sar da ligeira queda em 2018 no número de pessoas com insegurança alimentar aguda, a forma mais extrema de fome, “o número ainda é alto demais”. Ele diz que é preciso investimentos de grande porte no de- senvolvimento, ajuda humanitária e na construção da paz “para construir a resiliência das populações afetadas e pessoas vulneráveis”, acrescentando que “para salvar vidas, também temos que salvar os meios de subsistência”. 35 O diretor-executivo do PAM, David Beasley, observou que para erradicar a fome é necessário atacar suas causas fundamen- tais. “Conflitos, instabilidade, impacto dos choques climáticos. Rapazes e moças precisam ser bem nutridos e educados, as mulheres precisam ser verdadeiramente fortalecidas, a infraestrutura rural deve ser forta- lecida para conseguirmos esse objetivo de fome zero”, destacou. O relatório pede o fortalecimento da cooperação entre a pre- venção, preparação e reação no atendimento às necessidades hu- manitárias urgentes e às causas profundas, que incluem as mudan- ças climáticas, choques econômicos, conflitos e deslocamentos. RC/afp/lusa/dpa Fonte: Poder360. Acesso em 04 de julho de 2022. • Segunda reportagem: Saiba quem é a brasileira que doou R$ 88 milhões a Notre-Dame Viúva de banqueiro, ela tem sala em sua homenagem no Louvre Da Redação 17.04.2019, 18:32:00 Uma brasileira está entre os bilionários que doaram grandes somas para a reconstrução da Catedral de Notre-Dame, de Paris, atingida por um grande incêndio na segunda-feira (15). Lily Safra, 81 anos, viúva do banqueiro Edmond Safra, enviou para a campanha de re- construção um cheque de 20 milhões de euros - cerca de R$ 88 milhões. Segundo o Glamurama, ela tem fortuna estimada em 1,3 bilhão de dólares (R$ 5,1 bilhões). A bilionária atualmente se divide entre casas que tem na Eu- ropa - vive entre Mônaco, Londres, Nova York e a própria Paris. Ela já recebeu uma Légion d’Honneur, uma medalha de honra dada para pessoas que contribuíram com a França. Uma sala no Museu do Louvre, a Galeria Edmond et Lily Safre, é batizada em homena- gem a ela e ao falecido marido. O ambiente é todo decorado com mo- biliário do século 18 doado pelo casal. Um livro da jornalista canadense Isabel Vincent chama a bi- lionária de “Lily Dourada”, nome da biografia. A escritora, que era 36 na ocasião repórter do New York Post, passou cerca de um ano no Brasil entrevistando pessoas sobre o casal. A publicação traz deta- lhes sobre o suicídio do segundo marido de Lily, o empresário Alfre- do Monteverde. No almoço antes da morte, Lily e o marido discuti- ram detalhes do divórcio. Quando ela saiu, ele tirou a própria vida. O pai de Lily era um inglês do ramo de ferrovias que che- gou ao Brasil no início do século XX. Ela nasceu em Canoas, no Rio Grande do Sul. Seu primeiro marido, o argentino Mario Cohen, era um milionário fabricante de meias de náilon. O casal viveu no Bra- sil, Argentina e Uruguai e teve três filhos - o mais novo, Claudio, morreu em 1986 em um acidente de carro. A relação com Monte- verde veio depois - ela se divorciou para ir morar no Rio com a nova paixão, que era empresário e foi fundador da rede Ponto Frio. Mon- teverde tirou a própria vida em 1969. Eles tiveram dois filhos. Depois, Lily se mudou para o Reino Unido, onde morou por 10 anos. Ela chegou a casar em 1972 com um inglês, mas o casamento foi posteriormente anulado. Então conheceu Safra, na época o bra- sileiro mais rico do mundo. Os dois se aproximaram durante uma disputa em um leilão, segundo a revista Joyce Pascowitch. Edmond, já quarentão, ganhou e comprou a escultura, mas presenteou Lily com a obra. Libanês naturalizado brasileiro, era um homem mui- to discreto. Viveram muitos anos em Nova York, em uma cobertura repleta de pinturas e esculturas — arte era uma paixão de ambos. O casamento durou 23 anos, até que em 1999 Safra morreu. Em Mônaco, onde passavam temporadas, Edmond Safra foi víti- ma de um incêndio. Seu corpo foi achado na banheira de uma suíte, próximo ao de sua enfermeira. O julgamento sobre o caso consi- derou culpado pelo incêndio um de seus enfermeiros, Ted Mahrer, que teria ateado fogo a uma lixeira para salvar o patrão, como herói, depois. Trancado no banheiro por seis horas, o empresário morreu asfixiado pela fumaça. Safra lutou nos últimos anos de vida contra o Mal de Parkinson e tinha acompanhamento especializado em casa. Em 1998, ao revelar que sofria a doença, ele fez doação de 50 mi- lhões de dólares a uma instituição de pesquisa sobre o tema. Desde a morte do marido, Lily passou a se desfazer de parte dos bens e se envolver mais com ações filantrópicas, com a Fun- 37 dação Edmond J. Safra. Em 2004, ela doou 10 milhões de dólares à Universidade Harvard e o mesmo valor para uma entidade criada pelo ator Michael J. Fox para pesquisar a origem do Mal de Parkin- son. Em 2005, colocou à venda 800 peças de sua coleção particu- lar de arte pela casa de leilão Sotheby’s. “Minha vida e meus inte- resses mudaram, e já não tenho tempo nem escala nas casas para apreciar a coleção como fazíamos antes. Tive então que tomar uma decisão difícil: é hora de transferir aos outros o prazer de possuir estes tesouros”. Arrecadação A campanha para reformar Notre-Dame arrecadou até ago- ra quase 1 bilhão de euros. Entre os doadores famosos está Fran- çois-Henri Pinault, marido da atriz Salma Hayek, do grupo Kering, que afirmou que vai contribuir com 100 milhões de euros. O grupo LVMH, da bilionária família Arnault, também doou € 200 milhões (R$860 milhões). A empresa francesa de cosméticos, L’Oréal, dará 200 milhões de euros, um valor agregado aos 200 milhões doados pelo grupo LVMH e aos 100 milhões prometidos respectiva- mente pela família Pinault e pela petrolífera Total. O presidente francês Emmanuel Macron disse que a França iria contar com ajuda de “talentos” para reconstruir a torre mais alta da construção, que ficou destruída. Ela afirmou que em 5 anos o local estará totalmente renovado e “ainda mais bonito”. [...] Fonte: Correio 24 horas. Acesso em 04 de julho de 2022. A seguir, observe uma possível análise para à questão da fome, em face das circunstâncias expostas nas reportagens anteriormente. Sob a ética do bem comum, quando comparamos as duas reportagens, logo nos vêm uma ideia de que a bilionária que doou milhões para a reconstrução da Catedral de Notre Dame, na Fran- ça, supostamente não está apresentando uma preocupação ética em relação aos números da fome africana, problemática apresentada na primeira reportagem. 38 Esse tipo de reflexão, na verdade, é um importante exercício para a nossa compreensão sobre ética e moral. Em nossa observa- ção, é possível perceber que devido a bilionária, com toda a sua ri- queza, em se disponibilizar para ajudar nos custos da reconstrução de um patrimônio histórico da humanidade, a Catedral de Notre Dame, poderíamos compreender que para sua moral (a moral que a formou e a cultura da qual ela pertence) há um sentido de nobreza em tal gesto. No entanto, podemos conceber como “imoral” a ati- tude dela em relação a não se disponibilizarpara doar uma quantia similar para o combate à fome na África. Note que esta situação é só um exemplo ou uma forma de debatermos questões contemporâ- neas sob a perspectiva da ética e da moral. Semelhante a esta reflexão, vemos também a situação da vio- lência que invade as escolas no mundo inteiro. Há diversos casos de jovens e adultos que cometeram atentados sem qualquer escrúpu- lo, fazendo alunos e alunas inocentes vítimas fatais de suas ações. De forma que nos colocamos perplexos, sem palavras, transtorna- dos e tristes diante destas notícias. Figura 11 - Violência nas escolas Fonte: R7. O fenômeno da violência nas escolas suscita reflexões sobre a moralidade presente no contexto em que ocorre, como também nos provoca a pensar acerca das nossas crenças éticas e se é possí- vel traçar explicações para a ocorrência de tais atitudes por parte de alguns indivíduos. Tal conduta pode ser uma consequência de uma suposta situação de violência vivida na infância ou em decor- 39 rência dos atos de bullying sofridos na adolescência, por exemplo. Diante destas circunstâncias violentas é imprescindível que cada escola esteja atenta e preparada para acolher e formar os seus alu- nos, fortalecendo os valores morais de bem comum e de promoção pessoal com cada aluno. O importante em todas essas ideias e reflexões é compreen- der a relatividade das situações, além da profundidade e contextua- lização dos conceitos de ética e moral. Com isso, não estamos aqui para defender criminosos ou indivíduos negligentes com a questão social, pelo contrário, mostramos que matar não é ético, mas bus- camos pensar sobre qual moral pertence aquele que pratica tal ato. Dessa forma, consideramos que na atualidade, com as situações desafiadoras trazidas pela era da globalização, a atual crise das re- presentações políticas, a recessão econômica, a individualização, a tendência ao xenofobismo, a intolerância às diferenças, o avanço das tecnologias digitais e os estudos das possibilidades de mutações genéticas, vemos a grande importância da educação para a forma- ção ética e da moralidade nos indivíduos. O professor Marcus Levy Bencostta (2007) afirma que as ins- tituições educacionais são fundamentais para o aprendizado de co- nhecimentos específicos na formação de indivíduos autônomos ca- pazes de interagir com as diferentes situaçsões que podem vivenciar no mundo contemporâneo. Ademais, o professor espanhol Adolfo Sánchez Vázquez (2003) nos lembra bem que a função social da mo- ral deve ser a de regulamentação das relações entre os homens para contribuir com a manutenção e garantia da sociedade. Da mesma forma que é importante relembrar que a ética é uma prática direta- mente relacionada à ação humana. Bencostta (2007), em suas considerações, ainda reforça que a atividade em sala deve ser capaz de desenvolver habilidades e competências que colaborem para a definição de soluções para di- lemas sociais. Pois é na escola que se pode criar um ambiente ideal para o aprendizado e a prática da ética, como também para a for- mação do caráter e a possibilidade de falar sobre respeito, justiça, solidariedade e moral. 40 Por fim, o autor relaciona algumas propostas de trabalho para que tudo isso aconteça na escola. Observe: • Trabalhar conceitualmente – definir o conceito de ética e pro- mover o debate criativo. Aceitar e mediar as opiniões das tur- mas; • Construir uma atividade relacional – fornecer desafios para que os alunos e alunas convivam com a diferença; • Incentivar a tomada de decisões – Levar alunos e alunas a pensar nas situações concretas e como seria decidir pelo certo ou errado naquela situação. Por exemplo, desde contar uma mentira para sair mais cedo da escola até mesmo pensar a corrupção na política; • Jogar com situações limítrofes – apresentar circunstâncias em que o aluno é levado a pensar como se um familiar ou ami- go estivesse em uma situação de risco, por exemplo; • Criação de regras com a turma – essa situação leva a debates quanto ao que os alunos querem para suas rotinas em termos de normas de conduta e o que realmente fazem, uma reflexão sobre o pensamento e ação. Neste último tópico da Unidade 1 fomos capazes de revisar e exer- citar a aplicação dos conceitos de ética e moral, você percebeu? Pensando sobre situações do contexto contemporâneo, vimos que a ética está sempre ligada a nossa formação moral. Compreendemos que ética e moral são conceitos que devem ser trabalhados na edu- cação formal, ou seja, na escola. Além disso, não se pode prescindir de considerar que em situações afetadas por uma crise de valores os indivíduos podem deixar de agir conforme a moral e a ética social- mente vigentes. RESUMINDO UN ID AD E 2 Objetivos 1. Debater e compreender como o conceito de ética tem sido uti- lizado na sociedade contemporânea. 2. Exprimir como problemas éticos podem apresentar-se nas profissões em cenários atuais. 3. Debater e entender a importância do Código de Ética para as diferentes profissões. 4. Demonstrar como se desenvolvem os princípios éticos em profissões não regulamentadas. 42 Introdução Você sabia que pensar sobre ética em tempos atuais nos leva a ter que compreender cada vez mais as transformações sociais, econô- micas e políticas em nossas vidas? No cenário de agudas mudanças trazidas pela globalização, vemos uma acentuada necessidade de atuar com ética para que a sociedade e as relações humanas possam acontecer de forma íntegra. Temos, ainda, a reflexão sobre nossa conduta e atuação no mundo profissional, portanto, precisamos saber como o conceito de ética colabora para definir determinados olhares e ações em diferentes profissões. O mundo do trabalho mudou, as situações que se apresentam são inovadoras, mas e quanto aos códigos de conduta no ambiente de trabalho? Será que eles possuem sua validade? Vamos lá! Esse é um convite para nos aprofundarmos nesses temas. 43 A ética no mundo do trabalho Ao término desta Unidade você deverá estar debatendo e compreen- dendo como o conceito de ética tem sido utilizado na sociedade con- temporânea. Além disso, será capaz de avaliar diferentes situações que ocorrem no dia a dia das nossas rotinas de trabalho e que susci- tam frequentemente uma ação fundamentada em uma visão ética, que aprendemos anteriormente. Vamos lá! Temos muito a aprender! A ética e a sociedade globalizada O filósofo e sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1999) nos apre- senta a ideia de que a globalização é um processo do qual não conseguimos fugir, ela está em toda parte, seja financeira ou cul- turalmente, invadindo nossas vidas e intensificando as trocas comerciais, culturais, sociais e políticas. Todo esse movimento, para o autor, gera mudanças nos costumes, tradições e valores. Ele aponta que a globalização tem o mérito de aproximar e distanciar culturas e mundos diferentes. Essa dinâmica, em seu olhar, pode gerar exclusões e/ou segregações de indivíduos e grupos. Segundo o teórico, não há fixidez para os centros de produção de significado e valor, pois estes são extraterritoriais e emancipados de restrições locais. É a condição humana que dá sentido a esses valores. Complementando esta visão, vemos em Viviane Forrester (1997) que a evolução tecnológica e a globalização trazem além da crise de emprego, uma profunda redefinição da humanidade civili- zada, revelando um mundo em que uma minoria de indivíduos passa a ter valor na vida social e produtiva. Os desempregados são os ex- cluídos e o capitalista não se preocupa com mais nada além do lucro, o que agrava a questão dos problemas sociais. OBJETIVO 44 Figura 1- Globalização Fonte: Freepik. Essa introdução marca bem o cenário de expansão econômi- ca, política e cultural a nível global que vivenciamos nos dias atuais. A globalização como processo dinâmico não se manifesta igualmen- te em todos os lugares, observe as características deste fenômeno: Homogeneização de centros urbanos e hibridização cultural:uma tendência a considerar países e comunidades como uma al- deia global, além de uma inclinação a padronizar gostos e prefe- rências culturais. Por isso, a globalização é também conhecida como mundialização, em que há diferentes movimentos de aculturação e transculturação, gerando hibridização, apontando novas culturas que surgem pelo profundo e intenso contato que os países iniciam e investem. Amplitude de corporações para regiões fora de seus núcleos geo- políticos: as trocas comerciais se intensificam e, por conta disso, as corporações passam a ter sedes, matrizes e pontos de negócios em várias localidades em nível mundial. “Boom” da tecnologia nas comunicações e na eletrônica: a che- gada da internet torna mais fácil comunicar-se, além de facilitar a geração de informações e dados sobre diferentes campos da vida e da Ciência com o advento das redes sociais. IMPORTANTE 45 Redefinição geopolítica do mundo em blocos comerciais: o mundo passa a ser considerado a partir das alianças comerciais e financei- ras que os países conseguem formar. Figura 2 - Hibridização cultural Fonte: Freepik. HIBRIDIZAÇÃO CULTURAL: processo de trocas culturais entre gru- pos em contato, que gera uma “nova” cultura neles, com diferenças nos valores, hábitos e tradições que antes definiam as culturas que entraram em contato. Em geral, é como se uma cultura em contato com a outra influenciasse na geração de mudanças. Neste processo, há uma forte presença de aculturação e transculturação. Nos perguntamos quais são os tipos de problemas éticos que surgem com todas essas transformações. Logo, identificaremos uma sucessão deles, já que a ética, dentro de uma perscpectiva glo- bal, nunca esteve tão evidente, em virtude das redefinições socio- culturais, misturas de valores e trocas de rotinas culturais que fre- quentemente confundem os indivíduos. Mas, é preciso atentar que a ética continua a informar acerca do bem comum, sobre a preser- vação do outro e da sociedade em que se situa. Na verdade, é muito DEFINIÇÃO 46 mais que isso, trata-se de considerar o bem-estar mundial Pensar sobre a globalização pela ótica moral é refletir e situar-se no bojo da velocidade de informações, como também da intensidade das trocas comunicacionais, pois nada escapa das inferências e posta- gens trazidas pela facilidade da internet em nosso dia a dia. O neo- liberalismo e a liberdade de mercado, do ponto de vista econômico da globalização, nos leva à uma realidade em que poucos usufruem da riqueza geral do planeta e muitos vivem em condições de neces- sidades extremas. Destas primeiras situações, indagamos que seria ético pensar cada vez mais na amplitude de lucros para uma mino- ria e a precarização ou exclusão social para a grande maioria diante de um cenário neoliberal da economia global. Além do mais, quan- to às redes sociais, as criações e divulgações de notícias, tornam-se verdades absolutas para quem as lê e que, muitas vezes, não tem acesso a uma educação crítica que permita escrutinar, investigar e debater as informações veiculadas, em busca da verdade. Figura 3 - Social media Fonte: Freepik. O professor e geógrafo Milton Santos (2003) afirma que a glo- balização mostra a face de um mundo mágico em que todos podem ter tudo na palma da mão. Contudo, há diferenças locais profun- das que não se encaixam em homogeneização geopolítica de for- ma alguma. Existe um incentivo ao consumo exagerado, o que leva às pessoas a passarem umas por cima das outras para adquirir coi- sas e valores que, muitas vezes, não estão ao seu alcance financeiro, 47 por exemplo. Essa reflexão do autor nos leva a entender que o conceito de ética balança e se fragiliza diante de tantas solicitações fantasiosas. O autor avança em seus estudos e ainda procura demonstrar que há um desemprego estrutural, já que algumas profissões se ex- tinguem e a questão da ocupação profissional tem sido bastante problemática, uma vez que os indivíduos entram em um exaustivo embate para poder ocupar uma vaga ou conseguir uma reinserção no mercado de trabalho com uma alta concorrência e em transformação. DESEMPREGO ESTRUTURAL: é aquele resultante das transfor- mações na estrutura econômica mundial ou local, com a intro- dução de novas tecnologias que inovam e promovem a criação de empregos. No caso da globalização, vemos que muitas profissões acabam e outras são criadas, mas há um distanciamento entre a criação de novos postos de trabalho e a preparação de recursos humanos para ocupá-los. O vídeo acima, é uma boa referência de aprendizagem, por trazer algumas reflexões sobre a questão moral, a ética que deve prevalecer em nosso mundo globalizado. O que precisamos enten- der é que a ética a ser trabalhada hoje, é a ética do consenso, da boa vontade, da gentileza e da solidariedade. O sentimento de indivi- dualismo, trazido por este cenário, colabora para um pensamento de que “cada um deve ser por si e Deus por todos”. Assim, os indi- víduos passam a se isentar da responsabilidade de cuidar uns dos outros. A solução para os problemas de ordem moral que emanam da globalização está no diálogo e reforço de que ainda podemos sus- tentar um mundo de respeito e cuidado coletivo. O próprio respeito ao ecossistema do planeta é uma dis- cussão ética muito longa, pois exige das empresas e dos indiví- duos, um olhar de sustentabilidade e responsabilidade social com o mundo. Isto é, não deveria ser possível avançar economicamente DEFINIÇÃO 48 sem impor limites à degradação da natureza. Um caso recente, no Brasil, que nos evidencia esta realidade, foi o que ocorreu em 2019, em Brumadinho, Minas Gerais. Concluindo, a globalização é o resultado das relações huma- nas e precisa então, haver uma tomada de consciência para a busca de soluções mais próprias, diferenciais, para os problemas recor- rentes e emergentes que se desenvolvem em decorrencia das mu- danças e propostas da mundialização. Se não tomarmos consciên- cia da necessidade do bem comum, a humanidade terá que pagar um preço bastante caro pelas ações irracionais e fora das perspec- tivas éticas que deveriam ser propagadas. Sobre o desafio ético na era da globalização, leia o artigo “Um de- safio (ético) na era da globalização: a Informação” de Paulo Antunes e Sara Vargas (2016). Nos estudos apresentados acima, tratamos de apresentar o cenário da globalização e trazer considerações sobre o seu concei- to e as perspectivas em diálogo com a concepção de ética. Falamos sobre o avanço econômico e a sustentabilidade humana, como tam- bém procuramos perceber que a ética é um princício fundamental para este mundo que se transforma em virtude da revolução tecno- lógica, promovendo de fato uma redefinição e mudanças no mer- cado de trabalho cada vez mais velozes. E você, como enxerga essa relação entre a ética e globalização? DICA 49 Problemas éticos nas profissões Iniciaremos o nosso estudo destacando que um problema ético é um problema de desvio de conduta. Nesse sentido, ressaltamos que a ética, presente em nossa vida e na sociedade como um todo, é de vital importância também no mundo do trabalho. Por isso, os valores éticos devem ser ensinados, processados e praticados para a preservação da sociedade. Como campo da Filosofia, a ética interpõe-se na relação entre os indivíduos e o que pretendemos ensinar é que todo e qualquer profissional deve estar atento para manter sua integridade ética em qualquer ambiente de trabalho, porque certamente irá encon- trar com indivíduos que não compartilham da boa ética. Com isso, a chamada “boa ética” nos orienta que, no mundo do trabalho, é preciso ter honestidade, ser íntegro e um fiel seguidor das regras de conduta expressas nas leis, códigos e documentos normativos da sua profissão e do seu ambiente de trabalho. O professor emérito da Universidade de Brasília Vicente de Paula Faleiros (2006), teórico do Serviço Social, ao refletir so- bre inclusão social e cidadania, conceitos chaves para nosso olharsobre ética profissional, orienta que ambos tratam-se de “proces- sos complexos, históricos, diversificados, de mobilidade, de re- dução da desigualdade, da polarização, da assimetria, de formas desiguais de implicação dos sujeitos e de afirmação da identidade, da segurança, do trabalho, da efetivação dos direitos, da criação de oportunidades, da formação de conhecimentos, competên- cias e habilidades, do fortalecimento dos laços sociais, do respeito, da vida digna e da justiça, do empoderamento, do acesso a ativos e à renda, do respeito à diversidade, à cultura e à vida social e co- munitária” (FALEIROS, 2006, p. 12). Isto é, conceitos que pensam na presença de uma vida coletiva respeitosa. Os pesquisadores Silveira e Costa (2001) compreendem que as modificações sociais são resultantes da interação das pessoas, dos sujeitos da sua própria história e que desejam essa transforma- ção. Desta forma, ao desejarem mudanças de atitudes e de compor- tamentos, os indivíduos conseguem atingir esse fim. Além disso, 50 no ambiente de trabalho, consideramos que é um princípio basilar a tomada de consciência para práticas e atitudes éticas. Figura 4 - Pensando ética nas profissões Fonte: Freepik. Conforme nos mostra a filósofa espanhola Adela Corti- na (2005), se formos criar um tipo ideal de profissional virtuoso, para destacar a ideia de virtude aristotélica, esse profissional se- ria o exemplar, aquele que busca atingir suas metas com zelo em sua moral. A autora chama atenção para o fato de que, em contexto de trabalho, é mesmo necessário exigir que a competência se dê não só em relação às atividades materiais a serem desenvolvidas, mas também em relação às aptidões envolvidas nelas. Isso, segundo a pensadora, pode levar à uma disputa descontrolada, mas que pre- cisamos ter em destaque o profissional virtuoso que alcança as fina- lidades internas projetadas. Para tanto, é necessário ter consciência que, apesar da concorrência desenfreada, devem ser preservados os valores morais presentes no pluralismo social, em detrimento de valores e códigos particulares. A ética das profissões precisa guardar em si, enquanto ma- nual e roteiro de orientação às diferentes profissões, os valores universais como: igualdade, justiça, solidariedade, colaboração, honestidade, respeito, entre outros. Da mesma forma que as di- versas práticas profissionais precisam considerar todos os ângulos 51 dos envolvidos na profissão, dentro e fora do seu ambiente de tra- balho, bem como as perspectivas e aprendizagens da moral social. ÉTICA NA PROFISSÃO: é agir em seu ambiente de trabalho de acordo com os valores morais universais e, também, considerando o código de conduta específico do mesmo. A conduta profissional virtuosa é aquela em que se observa o cumprimento de projetos e metas profis- sionais com observância da moral social e da profissão em questão. Na sequência, vamos listar e examinar alguns problemas éti- cos que ocorrem no mundo do trabalho. O teórico britânico Gareth Morgan (1996), em seus estudos, sinaliza que os empregados podem trazer para o ambiente de traba- lho visões particulares acerca dos seus projetos de ascensão de car- reira, mas que por buscar um alvo futuro de progresso profissional, as aspirações individuais do empregado podem alinhar-se com as aspirações coletivas do ambiente em que trabalha. Ademais, o escritor Antônio Lopes de Sá (2001), afirma que a utilidade individual de quem exerce uma profissão é superada pelas características sociais e morais da mesma. Em suas refle- xões, ele lista os fatores que reforçam esta visão: a profissão provê destaque e realização aos indivíduos; o homem eleva seu nível mo- ral a partir do exercício profissional; na profissão, o homem torna- -se útil à sua comunidade. Finalizando estas considerações, vemos em Lisboa et al (1997) os quatro elementos necessários à conduta ética nas profis- sões e que, portanto, devem constar nos manuais normativos das empresas: competência, sigilo, integridade e objetividade. Vislumbrando alguns problemas éticos nas profissões, observe os listados a seguir: DEFINIÇÃO 52 1. Se eu trabalho com transporte público devo considerar o se- máforo e suas orientações. Entretanto, na prática vemos esses veículos avançarem o sinal. 2. Um funcionário vê uma situação prejudicial à empresa, mas o colega envolvido o corrompe em troca do seu silêncio. 3. Profissional que fica olhando o relógio e enrolando para pas- sar seu horário de trabalho, sem produzir. 4. Médico que fica falando no celular e deixa o paciente aguar- dando na sala de espera. 5. Professor que libera alunos antes do horário de término da aula e bate o ponto no horário correto. 6. Vendedor que vende “gato por lebre”, engana o cliente com produto de má qualidade. Esses são apenas alguns exemplos básicos de condutas antié- ticas em diferentes meios de trabalho e profissões. Figura 5- Condutas profissionais Fonte: Freepik. Nesse tópico da Unidade 2, vimos como é importante combi- nar a conduta pessoal com a profissional para manter uma harmonia tanto no emprego quanto nas aspirações de projeção profissional. 53 Observamos que não é possível acreditar que em um ambiente pro- fissional somente os nossos ideais, gostos e desejos devem impe- rar, pelo contrário, a moral coletiva deve ser mantida e preservada. Assim, destacamos a importância em manter os valores de solida- riedade e companheirismo nas práticas profissionais, uma vez que o profissional da atualidade é constantemente exposto a situações em que precisa reforçar sua conduta ética. Então, você percebeu o quanto a ética no ambiente de traba- lho pode abrir ou fechar portas? Código de ética das profissões: conceitos e finalidades Tendo aprendido anteriormente sobre o valor da conduta ética nas profissões, trataremos agora da normatividade que está pre- sente no universo profissional, através da discussão e apresentação acerca do código de ética. Um campo da Filosofia que aborda diretamente o conjunto de normas éticas na sociedade é a Deontologia. DEONTOLOGIA: etimologicamente o termo surge das palavras gre- gas “déon, déontos” que significa dever e “lógos” que se traduz por discurso ou tratado. Sendo assim, a deontologia seria o tratado do dever ou o conjunto de deveres, princípios e normas adotadas por um determinado grupo profissional. A importância do código de ética para os profissionais e para as empresas situa-se no fato de que há um princípio universal que devemos usar: bom senso para tomar decisões sem ignorar o bem- -estar do outro. Nesse sentido, as empresas na atualidade organi- EXPLICANDO 54 zam os seus códigos de conduta a partir dos pensamentos, valores, visão e missão a serem desenvolvidos em suas atividades e no am- biente de trabalho. O teórico suíço Jean Piaget (1994) destaca que a importância das regras é algo vital, pois as regras funcionam como se fossem intangíveis, imutáveis, a moral que impõe a coerção, levando a um respeito único. No entanto, se depender de costumes, elas precisam da cooperação de todos para se efetivarem. Segundo Paulo Freire (1996), o respeito ao outro, a coerência, a convivência com a diferença, o evitar a antipatia e o mal-estar ao outro devem ocupar um lugar especial na ação dos indivíduos em qualquer espaço. Para o educador, quem promove intrigas, desa- venças, atritos, não está no terreno da ética. Além disso, vemos em Marilena Chauí (2010), que a existên- cia da conduta ética pressupõe a agência consciente do indivíduo, pois só ele tem a capacidade de discernir entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, o permitido e proibido, a virtude e o vício. Com estas primeiras reflexões, imaginamos o porquê das empresas adotarem códigos de ética. Vejamos alguns dos princi- pais motivos: • Dar um parâmetro de segurança para a condução das relações; • Homogeneizar o tratamento de encaminhar as diferentes questões profissionais; • Incentivar a integração de seus funcionários;• Criar um ambiente de trabalho harmonioso que incremente mais a produção; • Desenvolver nos funcionários a sensação de que convivem em bem-estar e precisam oferecer esse mesmo bem-estar aos clientes e fornecedores; • Consolidar práticas de comprometimento profissional; • Investir em lealdade e fidelidade do cliente; 55 • Agregar valor à empresa e garantir a existência sustentável da mesma. CÓDIGO DE ÉTICA: define-se como um instrumento de síntese nor- mativa da filosofia da empresa, de como ela pensa e constrói sua vi- são e seus valores. Funciona como um verdadeiro roteiro normativo para orientar as ações dos funcionários e as ações corporativas em relação ao mundo exterior na representação da empresa. O professor Jean-François Chanlat (1999) apresenta a real necessidade de se pensar à questão ética no interior das empre- sas, ele cita o conceito de ética das responsabilidades do sociólogo Max Weber para dizer que esta leva os indivíduos a refletirem sobre as consequências de sua ação em relação aos outros. Além disso, o historiador Ademar Heemann (1993), avalia que ao pensar nas atitudes envolvendo o que é certo e o que é er- rado, os padrões de discernimento dos indivíduos, sejam privados ou sociais, consideram três grupos: o teleológico, voltado para consequências; o deontológico, o padrão da decisão moral que se volta para o bem produzido e sua dimensão coletiva; o relativista, envolvendo a recusa de princípios relativistas por conta de estar vivenciando um mundo instável. Figura 6 - Código de Ética e as diretrizes profissionais Fonte: Freepik. DEFINIÇÃO 56 Com isso, faz-se necessário dizer que os códigos de ética das diferentes profissões, bem como das organizações, direcionam profissionais para atuações morais no intuito de elevar o padrão de existência de seus campos de atuação. Um código de ética profissional guarda em si normas éticas, que devem servir de baliza para profissionais no exercício de seu tra- balho. Ele é elaborado pelos conselhos das intituições, os quais podem fiscalizar o exercício da profissão e de suas respectivas atividades. A seguir, observe alguns pontos do Capítulo I, Art. 1º sobre os “deveres éticos do representante comercial”, presente no código de ética e disciplina da referida categoria profissional: • zelar pela existência e finalidade do Conselho Federal e Con- selho Regional a cuja jurisdição pertença, cumprindo e coope- rando para fazer cumprir suas recomendações; • no âmbito de suas obrigações profissionais, na realização dos interesses que lhe forem confiados, deve agir com a mesma diligência que qualquer comerciante ativo e probo costuma empregar na direção de seus próprios negócios; • conduzir-se sempre com lealdade nas suas relações com os colegas; [...] • envidar esforços para que suas relações com o representado sejam contratadas por escrito, com todos os requisitos legais bem definidos; • informar e advertir o representado dos riscos, incertezas e de- mais circunstâncias desfavoráveis de negócios que lhe forem confiados, sobretudo em atenção às momentâneas variações de mercado local; • prestar suas contas na forma legal, com exatidão, clareza, dis- sipando as dúvidas que surgirem, sem obstáculos ou dilações. 57 É de fundamental importância que se esclareça que o não cumpri- mento de uma regra, seja ela do código de ética de uma empresa na qual se trabalha ou da profissão que se exerce, implica em puni- ções e sanções que podem ressultar desde o desligamento do fun- cionário até à cassação de sua licença para atuar em determinada profissão. Em alguns casos, a infração pode se estender para uma grande celeuma jurídica. Figura 7 - Julgamento de infração ao código Fonte: Freepik. Devemos compreender que o verdadeiro cumprimento da lei é uma necessidade e, sobretudo, uma garantia assegurada a todos os trabalhadores que se sentem lesados. Nesse sentido, compete aos responsáveis pelas tratativas jurídicas observar se o funcionário não cumpriu especificamente com a sua função, conforme o que está dito na regulamentação da mesma ou, ainda, se a empresa empre- gadora descumpriu com algum dos direitos do profissional previs- tos em lei. Neste tópico, você aprendeu mais sobre Códigos de Ética nas profissões e empresas. Como destaque, fizemos um relevo mos- trando a capacidade de ajuste que o funcionário deve ter para tra- balhar de acordo com a questão normativa de conduta que cada em- IMPORTANTE 58 presa demanda. Além disso, mostramos os princípios dos Códigos das profissões. É muito importante conhecer o código de Ética da profissão que você escolheu seguir, a fim de evitar consequências desagradáveis no não cumprimento das normas. A ética em profissões não regulamentadas Agora que aprendemos sobre o código de ética e seus desdobra- mentos no cenário profissional, é preciso compreender que existem profissões que não possuem uma regulamentação por conselhos e órgãos oficiais do governo. Reconhecendo que elas existem, é im- portante saber como se dá a prática ética nesses casos. Sobre esta situação de regulamentação e não regulamenta- ção, podemos entender que todas as profissões possuem direitos e deveres tanto para os empregadores quanto para os empregados. Ademais, quando uma profissão é regulamentada, pode existir uma legislação específica para a sua categoria, como também é ne- cessário que ela venha a atender algumas demandas trabalhistas, conforme as que nomeamos abaixo: • Carteira profissional; • Cédula profissional e piso salarial; • Piso de honorários; • Jornada de trabalho; • Exames médicos; • Órgãos reguladores; • Licença. 59 Figura 8 - Ética nas Profissões Fonte: Freepik. É fundamental destacar que o fato de uma profissão não ser regu- lamentada não significa uma inexistência de preocupações com a qualidade da formação e com o reconhecimento da atividade profis- sional. O que garante a inserção e continuidade de um trabalhador no mercado não é somente a sua regulamentação ou não, mas a forma com ele atua e, sobretudo, a sua competência para atuar na profis- são que escolheu. Por que algumas profissões são regulamentadas e outras não? Na verdade, a explicação para essa situação volta-se para o fato de que o Estado sempre regulamenta uma profissão quando considera que seu exercício indiscriminado pode colocar em risco à sociedade. Por isso existem os conselhos profissionais, autarquias federais de direito público para fiscalizar o exercício profissional. Quando uma profissão ainda não é regulamentada não há uma observância nor- mativa direta sob seu exercício, no entanto, em relação à questão éti- ca os profissionais devem pautar-se na moral vigente como um todo. IMPORTANTE 60 As profissões em si constroem suas rotinas e atribuições enquanto se organizam de forma corporativa e acadêmica. No próprio apa- rato legal da sociedade podemos encontrar a capacidade de julgar e condenar pelo olhar o mal exercício de um serviço ou profissão em relação ao mundo social. Na Constituição brasileira, de 1988, identificamos que no capí- tulo I, artigo 5º, inciso XIII, temos a premissa de que “é livre o exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, atendidas as qualificações profissionais que a lei estabelecer” (BRASIL, 1988, s. p.). Observamos, ainda, que a legislação abre a possibilidade de, no interesse da so- ciedade, criar restrições em situações especiais por meio de uma regulamentação. Pois, anteriormente ao fato de se regulamentar qualquer profissão, deve ser considerado se o exercício profissional da área pode causar danos sociais ou expor vidas humanas, confor- me apontamos anteriormente. A questão da regulamentação das profissões é também muito complexa no Brasil. Afinal, existem muito mais de 300 profissões no mundo do trabalho, sem falar das novas demandas profissionais que surgem de tempos em tempos. Podemos nos referir ao campo da tecnologia e também da internet. Atualmente, por exemplo, jáse fala em regulamentar a profissão de Youtuber e, sendo autorizada, também será necessá- rio estabelecer um código de ética para normatizar essa profissão. Contudo, ainda há uma grande discussão sobre o impacto que este profissional pode trazer a nossa sociedade, como a disseminação e produção de informações que podem ser tidas como verdades ab- solutas ou que possam mascarar (falsear) a realidade. Neste tópico aprendemos a diferença entre uma profissão regula- mentada e uma profissão não regulamentada. Entendemos, ainda, que não é porque uma profissão não é regulamentada que deixa de ser importante ou passa a ser menos valorizada. Avançamos so- RESUMINDO 61 bre a inserção profissional sem regulamentação e concluímos que o que mantém o indivíduo no mundo do trabalho e o reconhecimen- to da sua profissão, é muito mais a sua competência e referência ética, que pode não estar registrada em um código, mas está em sua moral de origem e na preocupação com o seu bem-estar e do outro. E você, percebeu como é um sujeito ético no mundo das profissões? 62 UN ID AD E 3 Objetivos 1. Especificar os estudos sobre diversidade cultural, étnica, reli- giosa e de gênero. 2. Debater as questões éticas e a relação com os princípios de ci- dadania na sociedade tecnológica. 3. Discutir e conhecer questões vinculadas ao debate sobre into- lerância, racismo e xenofobia. 4. Demonstrar a importância do ensino da ética nas instituições. 64 Introdução Iniciamos mais uma etapa de estudos e agora vamos pensar sobre a questão da ética nas relações humanas. Em nosso debate e aprendi- zado temos muitos temas para abordar, desde a diversidade cultural até a xenofobia. Falamos tanto em considerar o bem comum, em construir uma cidadania de liberdade e respeito ao outro e, agora, chegamos ao momento de saber se estamos entendendo sobre como estão e como devemos considerar as relações humanas do ponto de vista moral. Será que ser de uma religião ou cultura diferente nos faz tratar nossos vizinhos, parentes e amigos de forma hostil ou segre- gadora? Vamos estudar e conhecer mais estas realidades e apostar no conceito de ética que nos trouxe até aqui. Avante! 65 A ética nas relações humanas Ao término desta Unidade você deverá dominar a compreensão sobre as diferenças culturais, étnicas e religiosas. Além disso, irá perceber que é possível conviver com a diferença de forma res- peitosa e harmônica, como também conceberá a ética como um conceito chave para as relações humanas. Vamos lá! Temos muito a aprender! Diversidade cultural, étnica, religiosa e de gênero Nada mais oportuno do que entender cultura e diversidade cul- tural após termos compreendido as particularidades e demandas do conceito de ética. Assim, vamos iniciar as nossas reflexões tra- zendo para essa discussão a definição de cultura. Logo de início, cabe lembrar que cada um de nós temos particularidades e vivências ricas e fecundas porque somos diferentes, da mesma forma que nós podemos nos comunicar por meio das nossas diferenças e construir novas possibilidades de viver. O professor Clifford Geertz (1989), ao apresentar os seus estudos sobre cultura, vai referir que a atividade do antropólogo é interpretar e que cada cultura pode ser vista e entendida como um texto, no qual cada texto demanda uma interpretação. Para o autor, a cultura constitui-se como formas de ações significativas, simbó- licas e parece estar oculta na mente dos homens, contudo, ela passa a ser exposta por meio das suas manifestações, comportamentos, atitudes, etc. Ele ainda afirma que é possível observar a cultura de um povo porque ela está expressa em suas relações sociais. OBJETIVO 66 O antropólogo estadunidense mostra que a cultura se revela a partir de uma descrição densa, pois são as ações produzidas, percebidas e interpretadas que a definem. Em suas considerações, Geertz (1989) está, então, atrás da teia de significados de cada so- ciedade. Além disso, ele não defende a ideia de ter que “se tornar um nativo” para conhecer a fundo uma cultura, mas sim estar familia- rizado com o grupo que se pretende observar e compreender. Figura 1- Cultura como teia de significados Fonte: Pixabay. Cabe ressaltar que é muito importante o destaque dado pelo antropólogo sobre a cultura ser compreendida pela teia de significa- dos, isso porque se as relações são traçadas por meio de interligações de valores, símbolos e tradições, logo, tudo o que dá um sentido di- nâmico à cultura passa a ser visto através o olhar e da necessidade de compreensão do que vem a ser a diversidade cultural. Geertz (1989) também mostra que o ponto de vista do na- tivo é sempre uma construção cultural e isso pode ser constatado através de uma pesquisa. Ademais, cada cultura acolhe todo um arsenal simbólico que é próprio do “ser humano”, indivíduo cria- dor e transformador da cultura e o antropólogo só tem acesso a isso a partir desses símbolos. Para o autor, as situações universais são sempre descritas de forma singular, seu enfoque privilegia as situa- ções particulares. 67 Dessa forma, a cultura é única para cada grupo e singular em cada indivíduo. No mundo existem milhares de tradições, símbolos, pensamentos, manifestações e identidades culturais, tal diversida- de enriquece nosso mundo social. Para sociólogo e antropólogo francês Denys Cuche (2012), o conceito de identidade ganha destaque com o nascimento do multiculturalismo, o qual nos mostra a face de que os imigran- tes e as diversas minorias buscam o direito da diferença, o direito de ter uma identidade própria digna de respeito. Por outro lado, os grupos maioritários colocam em debate tal pretensão, temendo, entre a expansão de múltiplas identidades que competiriam para enfraquecer e fragmentar a identidade nacional, a própria susten- tação do Estado. Cultura: conjunto de pensamentos, sentimentos, atitudes, tradi- ções, símbolos, hábitos e valores que pertencem a um grupo. Dão sentido a sua identidade cultural, sua marca como grupo. Diversidade cultural: é o reconhecimento de diferentes culturas para diferentes grupos sociais. Figura 2 - Diversidade cultural Fonte: Pixabay. DEFINIÇÃO 68 Para a professora Maria Aparecida Bergamaschi (2008), a di- versidade cultural e a presença de inúmeros povos indígenas com suas tradições e línguas marcam nossa diversidade étnica e cultural. Ampliando as considerações sobre esse tema, os cientistas sociais Amanda Microni Macedo Alves e José Márcio Pinto de Moura Barros (2009) definem que a diversidade cultural está relacionada aos aspectos distintivos de uma cultura para outra, uma riqueza dada pela capacidade dos humanos de criar e transformar o legado que receberam. As identidades culturais aparecem a partir das ma- nifestações culturais. O debate sobre a questão da diversidade cultural abre todo um feixe de outras discussões importantíssimas e nos faz pensar que com a educação podemos formar indivíduos capazes de enten- der que ser diferente é poder trazer algo novo no diálogo e troca cultural. Assim, a fundamentação do respeito da ética está no bojo dessa compreensão. Nessa seara de pensamentos e reflexões sobre a diversida- de, podemos pensar também acerca da pluralidade étnica, religiosa e de gênero. Quanto à diversidade étnica, temos muito a comemorar des- de que superamos a explicação da existência de diferentes culturas pelo conceito de raça, para o conceito de etnia. Uma vez que se con- cluiu que falar em raça é apontar diferenças puramente biológicas, físicas, sem considerar os aspectos culturais para a compreensão dos diferentes povos. Com o conceito de etnia é possível alargar essa possibilidade de entendimento do outro. A pedagoga Nilma Lino Gomes (2004) mostra que o uso do conceito de etnia se ampliou para fazer referências a povos diferen- tes como judeus, índios, negros, entre outros, enfatizando os seus processos históricos e culturais. No Brasil, o termo relações étnico-raciais é muito utilizadopara apresentar e debater questões relacionadas à população afro- -brasileira, indo além dos temas voltados à cor da pele e as origens culturais. Ademais, há um misto desses olhares na alocação e inter- pretação dos lugares sociais que os indivíduos ocupam na sociedade. 69 Portanto, falar de raça ou de etnia em nossa cultura traz um apa- nhado de significações de quem fala, como fala e por que fala, o chamado “lugar de fala”. É também com estas construções que nascem conceitos e atribuições que, culturalmente, vão fundamen- tar visões preconceituosas e discriminatórias. Estes preconceitos e discriminações podem ser racistas, tendo por base algumas per- cepções sociais e diferenças de raça ou etnia, mas que tendem a ser estruturados e explicados pela questão racial. Enquanto o preconceito é definido como uma interpretação sobre as coisas, muitas vezes herdada por conta da socialização recebida, a discriminação é a própria manifestação ou prática do preconceito. Assim, o racismo trata-se de uma construção ideoló- gica de que existem raças diferentes e que elas estão submetidas a uma hierarquia de classificação como inferiores e superiores. Nesse caso, essa teoria sempre acaba por delegar aos negros os status mais baixos em nossa sociedade estratificada. O racismo é uma mani- festação perversa, que separa e agride os indivíduos pertencentes a determinados grupos e que estejam vulneráveis a serem discri- minados em razão da sua raça ou origem étnica. Figura 3 - Racismo e preconceito Fonte: Wikicommons. A diversidade étnico-racial deve ser pensada por toda a comu- nidade escolar, inclusive pelos professores e gestores educacionais que são agentes importantes na formação dos indivíduos. 70 Compreender que negros e brancos têm sua importância e valor cultural é colaborar para o entendimento da diversidade cultural e étnica. É importante saber que a cultura afro-brasileira tem uma grande influência na composição e trajetória da nossa na- ção. Não é possível falar de diversidade étnica sem considerar que o Brasil, após a abolição, atravessou grandes obstáculos para alcançar o reconhecimento desta cultura e dos seus praticantes, em decorrên- cia das lutas sociais, o reconhecimeto da miscigenação, o combate à discriminação racial e a intolerância ao sincretismo religioso. Para saber mais, leia o artigo “Diversidade étnico-racial, inclusão e equidade na educação brasileira: desafios, políticas e práticas” da pedagoga Nilma Lino Gomes. De forma muito clara, no Brasil, vemos a existência de um pre- conceito racial explícito e velado contra os negros. Além disso, esses indivíduos ainda não alcançaram uma plena igualdade de oportuni- dades que tanto é divulgada, mas que atualmente é apenas tolerada. Veja a Lei 7.716, de 05 de janeiro de 1989, conhecida como a Lei do Racismo, que define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Entretanto, cabe ressaltar que as ligações íntimas com pes- soas negras não são vistas com bons olhos. Os negros de pele mais clara são mais aceitos e passam por um número menor de atitudes discriminatórias que os negros retintos, mas eles também são ví- timas do preconceito e da segregação. Constantemente cada um SAIBA MAIS FIQUE DE OLHO 71 de nós já presenciamos discussões que escancaram o preconceito racial e a discriminação étnica por parte de alguns indivíduos, com falas como: “você é negro”, “você é indígena”, “por isso não con- seguiram obter êxito em nada…”, entre outras, são extremamente recorrentes em nossa sociedade atual. Seguindo essa discussão, é importante considerar que a dis- criminação e o preconceito também ocorrem em relação às questões religiosas e, como temos visto habitualmente, existe uma maior ocorrência de intolerância e perseguição contra as religiões de ma- triz africana. No entanto, mesmo que normalmente seja entendido que uma religião proporciona coisas boas aos seus seguidores, pois é nela que eles depositam sua fé espiritual e se dedicam professando as suas crenças, há, ainda, muitos indivíduos que por ignorância ou maldade promovem guerras, matam e perseguem religiões di- ferentes das suas em nome da fé. Nesses casos, o etnocentrismo predomina e faz com que a religião de uma pessoa ou grupo seja considerada a melhor ou a que tem mais pureza, etc. A superação deste fenômeno de pejoração negativa das dife- rentes religiões só acontece quando os indivíduos estão disponíveis para entender a diversidade religiosa. Conhecer é importante para melhor conviver e isto não significa converter-se, mas respeitar os diferentes credos. Quando estudamos um pouco, vemos que o catolicismo tra- dicional também teve influência religiosa na formação de alguns santos de origem étnica africana, como: São Benedito, Santo Elesbão, Santa Efigênia e Santo Antônio de Noto (Santo Antônio do Categeró ou Santo Antônio Etíope). Ademais, nessa prática de culto aos san- tos há, ainda, aqueles que podem ser associados aos orixás africanos e toda essa combinação religiosa pode ser vista com São Cosme e Damião (Ibejis), como também com o próprio São Jorge (Ogum no Rio de Janeiro), Santa Bárbara (Iansã), além daqueles oriundos da criação de santos populares como a escrava Anastácia. 72 Figura 4 - Diversidade religiosa Fonte: Rogério Chimello. É interessante pontuar que, segundo Maisa Cristina de Oli- veira Meirelles (2020) em algumas “igrejas pentecostais do Brasil, que combatem as religiões de origem africana, na realidade têm vá- rias influências destas como se nota em práticas como o batismo do Espírito Santo e crenças como a de incorporação de entidades espirituais (vistas como maléficas). Enquanto o Catolicismo nega a existência de orixás e guias, as igrejas pentecostais acreditam na sua existência, mas como demônios” (MEIRELLES, 2020, p. 379). O sincretismo religioso é resultante do processo de transcul- turação das religiões e, conforme ocorre na Umbanda, é possível ver uma fusão de diversos elementos provenientes das práticas religio- sas dos africanos, indígenas e europeus que historicamente também formaram o povo brasileiro. Por essa razão, é necessário compreen- der a existência da diversidade religiosa e a importância dela em nossa cultura, logo, é imprescindível que ela seja respeitada. No cenário relativo à compreensão das relações de gênero e sua di- versidade também não verificamos a prática do respeito. Nesse contexto, sobretudo na atualidade, temos um polêmico e conflituoso tratamento dado aos termos orientação sexual e identidade de gênero que abrangem concepções diferentes e precisam ser aprendidas corretamente. 73 Orientação sexual refere-se à atração sexual e à afetividade que um indivíduo sente por outro. Identidade de gênero refere-se ao gênero com o qual o indivíduo se identifica que pode ter, ou não, relação com seu sexo biológico. Tabela 1 - Sobre orientação sexual Fonte: Elaborada pela autora de acordo com https://bit.ly/2SR1o9m (2020). O professor Marco Antonio Teixeira Gonçalves (1999) fala, em seus estudos antropológicos, a respeito de como a sociedade Paresi, do grupo indígena denominado Aruak, localizado no estado de Mato Grosso, constrói simbólica e culturalmente o dimorfismo sexual tendo como base a sua mitologia e seus complexos rituais sagrados. Ele demonstra como a categoria da diferença é algo cons- truído, tal qual nos indica a ideia de gênero sobre os indivíduos na vida social. Nessa discussão, Gonçalves (2001) vai acrescentar que “em outros termos, analisa-se a construção de gênero como fenômeno englobado por um pensamento mais geral sobre o que significa a diferença no mundo” (GONÇALVES, 2001, p. 244). Orientações sexuais Heterossexual Bissexual Assexual Pansexual Definições Indivíduo que sente atração pelo sexo oposto. Indivíduo que sente atração pelos dois sexos. Indivíduo que não sente desejo sexual. Indivíduo que aprecia todos os gêneros sexuais. DEFINIÇÃO 74 Ainda segundo o autor, a diferença que envolveàs questões de gênero, ao mesmo tempo que informa ela também produz a sua distinção. Além disso, esta ideia da diferença não é universal, mas sim construída culturalmente. Dessa forma, as posições cultu- rais construídas e assumidas por homens e mulheres, a partir do compromisso que eles têm com as suas preferências envolvendo a diversidade que compreende os aspectos tanto da orientação se- xual quanto da identidade de gênero, passam a dar sentido às suas histórias e lugares nessa discussão. Assim, é importante entender como os indivíduos têm se referenciado, a partir das perspectivas de identidades de gênero. Tabela 2 - Sobre identidade de gênero Fonte: Elaborada pela autora de acordo com https://bit.ly/2SR1o9m (2020). Identidade de gênero Cisgênero Transgênero Não binário Definições Indivíduo que se identifica com seu sexo bio- lógico. Masculino é homem. Feminino é mulher. Indivíduo tem uma identidade diferente do seu sexo biológico. Transexuais - um homem que se enxerga como mulher ou uma mulher que se enxerga como homem. Transgênero - deve assumir definitivamente o corpo com o qual se identifica e, em muitos casos, pode desejar atravessar procedimentos de redesignação sexual ou terapias hormonais. Indivíduo que oscila entre masculino e fe- minino. Por exemplo, uma mulher que se identifica com o gênero masculino, mas não realiza procedimentos de readequação física (apenas assume um comportamento condi- zente com seu gênero). 75 Esses conhecimentos são importantes pois levam os indiví- duos a refletirem sobre esses temas e ajudam no combate de práticas preconceituosas e discriminatórias, fundamentadas em ideologias homofóbicas e de violências de gênero. Para saber mais, leia o artigo “Educação, relações de gênero e di- versidade sexual” de Nilson Fernandes Dinis. Nesta Unidade trabalhamos com o conhecimento e o debate acerca das diversidades cultural, étnica, religiosa e de gênero. Marcamos bem a questão da diferença entre discriminação, preconceito e ra- cismo. Vimos que existem várias religiões e que a pesquisa delas, o conhecimento e a forma de olhar fazem com que possamos convi- ver com elas, ainda que diferentes, de forma respeitosa. Além disso, apresentamos as conceituações inerentes à discussão sobre diversi- dade no âmbito das perspectivas de gênero. Com estes saberes, es- peramos que você possa ter aprendido que ser diverso faz parte do ser humano e que respeitar os outros, com suas particularidades, é fundamental. SAIBA MAIS RESUMINDO 76 Ética e cidadania na sociedade tecnológica Iniciaremos agora toda uma reflexão e conceituação sobre a relação ética e a sociedade tecnológica que estamos vivendo. O pensador francês Edgar Morin (2000) nos apresenta às de- mandas da educação e da sociedade do conhecimento em tempos atuais, mostrando que esta impõe aos indivíduos uma escola que lhes faça sentido, que lhes seja capaz de resgatar a formação do ser completo. Em sua visão, a escola de hoje deve oferecer aos indivíduos além do ensino básico com cálculos, língua escrita e falada, como também precisa trazer interfaces com as ferramentas e inovações tecnológicas promovidas pela era da comunicação e informação. É importante marcar que o conhecimento e a informação estão no centro do mundo atual. O perfil de indivíduo que se exige, mediante estas demandas, é de quem consegue ser flexível, poli- valente, empreendedor e altamente adaptável. Trata-se de alguém que é criativo, inovador e está sempre sendo desafiado por ques- tões profissionais e pessoais, além de estar situado em um mundo em que se fala o tempo todo a respeito de busca de soluções viáveis. Inclusive, os próprios modelos educacionais voltam-se para esta perspectiva e isto significa que o aluno a ser formado tem que ser preparado para enfrentar todo um aparato de necessidades impos- tas pela sociedade do conhecimento e da informação. Figura 5 - Sociedade do conhecimento Fonte: Freepik. 77 Nesta sociedade digital, educar um indivíduo para desenvolver sua cidadania plena também envolve construir valores de respeito, responsabilidade e participação colaborativa com a comunidade. Assistimos a uma era em que a tecnologia está na base de todas as coisas que realizamos no mundo social. Nesse contexto, o filósofo Pierre Levy (1999) traz à cena os conceitos de cibercultura e ciberespaço para mostrar a amplitude de nossas trocas de conhe- cimento e aprendizagem na era digital. Além disso, o autor ainda produz uma associação ao pensa- mento do professor Derrick de Kerckhove (1995), acerca do conceito de inteligência coletiva, que constitui-se em inteligências conec- tadas, isto é, o uso colaborativo das várias inteligências mediante processos de comunicação e tecnologias em rede. Este novo desenho pedagógico de formação dos indivíduos propõe uma revisão da forma tradicional de ensinar e aprender, nele a construção de saberes e as trocas comunicacionais ganham uma dimensão mais personalizada. Cibercultura: cultura que emerge com o advento das trocas comu- nicacionais advindas do computador. Conhecimentos, valores, informações e saberes que se constroem a partir do mundo virtual. Ciberespaço é o virtual, as redes de conexão. O que precisamos entender é como funcionam, nesse caso, os princípios da ética e cidadania em um contexto de valorização da comunicação virtual. Com o exposto acima, focamos em mostrar que a ética passa a ser uma questão central no contexto das trocas e construções vir- tuais, tanto no âmbito da vida pública como na vida privada. Nesse sentido, ser ético é pensar no que fazemos, à medida com que reali- zamos as nossas ações, considerando quem somos e com quem nos relacionamos. Além da ênfase na reflexão sobre o outro e o planeta em que habitamos. DEFINIÇÃO 78 Figura 6 - Ética e tecnologia Fonte: Freepik. Para o pedagogo norte-americano John Dewey (1979) é a partir da dúvida, da perplexidade e do ato de pensar que a reflexão emerge. Ela também envolve o ato de pesquisar, para esclarecer e resolver a tal incerteza. Dessa forma, o autor nos aponta o caminho para pensar as nossas questões éticas contemporâneas. Além dele, também o pensador Cornelius Castoriadis (1999) diz que a reflexão deve sinalizar o conhecimento para investigar, explicitar e questionar os conteúdos sociais e culturais. O acadêmico mexicano León Olivé (2000), em seus estudos, colabora com nossa reflexão sobre deveres morais do cientista e do tecnólogo em nossos tempos. Para ele, cientistas devem ter cons- ciência da responsabilidade e das consequências do trabalho que realizam. Esta responsabilidade inclui informar a sociedade com precisão sobre seus experimentos e resultados. Também, os tec- nólogos devem avaliar com cautela e seriedade as tecnologias produzidas e suas amplitudes, avaliando não só a eficiência, mas sobretudo, os impactos no meio social e natural. O autor ainda ressalta que os cidadãos, a grosso modo, também têm responsabilidade na avaliação das tecnologias, tanto em termos de sua aceitação quanto de sua propagação. Assim, eles devem buscar informações adequadas sobre a natureza da ciência e da tecnologia que estão propagando, bem como do seu uso e das consequências. 79 Para saber mais, leia a reportagem “O dilema ético dos bebês ge- neticamente modificados”, por Matheus Gonçalves, no site Tec- noblog. Com tantas discussões no terreno da ética, é preciso situar que ser cidadão é estar focado na ordem social de forma participati- va, mas considerando que apesar da evolução tecnológica é preciso adequar nossas ações locais e globais, presenciais e virtuais, de for- ma eticamente responsável. A intolerância, o racismo e a xenofobia Olá! Agora vamos refletir sobre algumas questões vinculadas ao de- bate acerca da intolerância, racismo e xenofobia. Assista à videoaula!. É muito comum, diante do que vimos até aqui, nós presen- ciarmos na sociedade globalizada e tecnológica, sentimentos de exclusão social, violência e intolerância.No ano de 2001, realizou-se a “Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia e Intolerância Conexa”, na cidade de Durban, África do Sul. Esta conferência foi determi- nante para o estabelecer demandas mundiais para o enfrentamento de um cenário sociopolítico extremamente grave em nível global: o combate ao racismo e à intolerância. Trata-se de compreender que indivíduos, povos e nações es- tavam praticando e incentivando cada vez mais atitudes de exclusão e segregação social, que em muitos casos chegavam a causar o ex- termínio de alguns grupos. Em consequência desta situação, mesmo diante de outros ins- trumentos legais e históricos para esse fim, foi necessário organizar a Conferência de 2001, no intuito de evidenciar, refletir e buscar so- luções para esta problemática. SAIBA MAIS 80 A seguir, listamos aqui alguns dos instrumentos que foram implementados sob a égide da Organização das Nações Unidas, com intuito de promover a igualdade e combater à intolerância: • Convenção para a Prevenção e Repressão do Crime de Geno- cídio (1948); • Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos (1966); • Pacto Internacional sobre os Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966); • Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discri- minação contra as Mulheres (1979); • Convenção sobre os Direitos da Criança (1989). Apesar do aparato legal acima referido, os dados mundiais seguiram apontando que seres humanos ainda são vítimas de ideo- logias racistas e tratamentos segregacionistas, principalmente com o surgimento de novas tecnologias e o advento da globalização, que trouxeram tanto os benefícios próprios de seus campos quanto a evidência de algumas problemáticas globais. Por isso a urgência de novas medidas e esforços focados em um nível nacional e inter- nacional de combate a tais práticas. Figura 7 - Diversidade racial Fonte: Nações Unidas. 81 Para avançarmos, consideramos que é preciso definir o que vem a ser racismo, xenofobia e intolerância, objetos de nossa dis- cussão. Racismo: significa preconceito e discriminação de indivíduos e gru- pos fundamentados em percepções sociais baseadas em diferenças biológicas entre os povos. Xenofobia: sentimento de desconfiança, antipatia, receio de pessoas que não são familiares ao meio de quem julga, ou ainda daqueles que não são do país de quem julga. Intolerância: capacidade mental de não desejar reconhecer e res- peitar diferentes valores, sentimentos, opiniões de grupos e pessoas que não pertencem a quem avalia. Para um melhor entendimento, vamos pensar a seguinte si- tuação: em uma sala de aula de uma escola particular, com alunos brasileiros, encontramos um aluno muçulmano, que se veste tal qual sua cultura, um aluno com autismo e apenas duas crianças negras. Todos os dias as crianças negras são isoladas das brancas, mas a convivência se dá de forma regular. Ao observar essa situação, uma professora de Sociologia começou a incentivar a integração desses alunos, crianças de 12 a 14 anos. Então, em conversa com uma do grupo de crianças brancas, a mesma falou que não gostaria de sentar com seus colegas negros para fazer o trabalho em grupo porque seus pais disseram que os negros são menos competentes que os brancos. Diante disso, a professora teve a ideia de explicar sobre a história dos negros no Brasil e as teorias racistas para seus alunos, pois ela estava na presença de a um caso de racismo. Mas não parou por aí, a mesma professora ainda observou o tratamento de exclusão que aquela turma dava ao aluno mu- çulmano, não satisfeita com aquela situação, chamou um grupo SAIBA MAIS 82 de alunos que praticavam a segregação com ele para uma conversa. Então, durante uma conversa com os discentes ela descobriu falas sobre a ideia de que os estrangeiros que vêm do Oriente Médio podem ser “homens-bombas” e que, ainda, os indivíduos prove- nientes de outro país desrespeitam as regras da nossa pátria. Nesse caso, a referida professora estava diante de uma atitude xenofóbi- ca e de intolerância. Assim, a docente tratou de construir as suas próximas aulas baseadas em vídeos e textos que pudessem ensinar sobre a cultura oriental, a importância do respeito e da convivência. Ainda na mesma sala, o aluno autista era um sujeito invisível aos olhos dos demais colegas, nenhum aluno demonstrava preocu- pação com sua presença. Fato este que levou a mesma professora a também organizar atividades em que ele pudesse ser incluído nas relações sociais entre os discentes. Além disso, ela escreveu um projeto e propôs à escola a realização de oficinas e reuniões que in- cluíssem as temáticas apresentadas, com os pais e responsáveis. Figura 8 - Ética na sala de aula Fonte: Pixabay. Diante de tal conceituação, podemos avaliar o peso negativo destas atitudes e práticas em nossa sociedade. Daí a necessidade de sabermos que importantes decisões estratégicas de combate ao racismo, discriminação racial, xenofobia e intolerância corre- lata saíram da Conferência de Durban, que em linhas gerais foram: 83 • Problemas enfrentados pelas vítimas de tais flagelos (com particular destaque para as mulheres, pessoas de origem africana e asiática, povos indígenas, migrantes, refugiados e minorias nacionais) e medidas específicas para aliviar o seu sofrimento; • Problema da discriminação múltipla; • Importância da educação e sensibilização pública no combate ao racismo; • Problemas particulares colocados pela globalização; • Aspectos positivos e negativos das novas tecnologias; • Importância da recolha de dados, da pesquisa e do desenvol- vimento de indicadores no domínio da discriminação; • Previsão de medidas destinadas para garantir a igualdade nas áreas do emprego, da saúde e do ambiente; • Importância de garantir o acesso das vítimas às vias de recurso eficazes e de assegurar a sua reparação pelos danos sofridos; • Papel dos partidos políticos e da sociedade civil, nomeada- mente ONG e juventude, na luta contra o racismo. Fonte: Conferência Mundial contra o Racismo, Discriminação Racial, Xenofobia, Intolerância Conexa (2001, p. 10), disponível em: https://bit.ly/2F9oyC4. Acesso em: 18 jul. de 2022. Ainda temos muito a saber sobre os conceitos de racismo e xenofobia que são processados de forma estrutural, fundamentan- do guerras santas e étnicas, como ocorre no Oriente Médio na atua- lidade. Tal situação de desumanidade tem tirado a vida de muitas famílias, mulheres, homens, jovens e crianças. 84 Para saber mais, leia o artigo “Combates à xenofobia, ao racismo e à intolerância”, de Paulo Daniel Farah (USP), e a reportagem da BBC “A história por trás da foto do menino sírio que chocou o mundo”. O professor Boaventura de Sousa Santos (2007) ao descrever os motivos pelos quais se pratica o xenofobismo, mostra que o mi- grante é visto como “de fora” em um território que é dominado por alguém que acredita “ser seu”, o que leva a imputar ao estrangeiro a aceitação de suas práticas, submetendo-se a seu modo de vida. Caso isso não venha a ocorrer, ou seja, quando o imigrado se percebe e busca estabelecer-se como um sujeito de direitos, o qual estando presente naquela comunidade passa a sentir o desejo de participar das decisões da vida política, social etc., o dominante começa a se sentir incomodado, buscando nas práticas racistas e xenofóbicas uma forma de coação e reação a esse migrante. Ademais, sobre o entendimento do racismo, o filósofo políti- co Frantz Fanon (2008), colabora com a ideia de que uma sociedade tende a ser racista como um todo, pois, em seu olhar, não existem “meios racismos”. Pode ter, também, uma parte da sociedade mais racista que a outra. De fato, ainda existem muitas pessoas que pensam que o migrante que chega em outra terra, isso vale para o Brasil também, consiste em uma ameaça para o trabalhador no mercado de trabalho local, o que pode reforçar a xenofobia re- produzida pela população. De qualquer forma,é preciso que através da educação e da formação de valores morais e éticos, os indivíduos possam receber o antídoto para este mal do século XXI: a segregação de pessoas, que se redefine como uma realidade de afastamento, isolamento. SAIBA MAIS 85 O ensino da ética nas instituições Antes de encerrarmos essa etapa de estudos, vamos verificar a im- portância do ensino da ética nas instituições. Assista à videoaula! Para que alcancemos a proposta que abordamos anterior- mente, de uma formação educacional em nível local e global, que alcance a tolerância das diferenças culturais, das perspectivas de fluxo migratório, da liberdade de se exercer como ser humano portador de direitos em qualquer região do planeta, é importan- te consolidar matrizes curriculares que incluam conceitos e ensi- namentos sobre ética, sobretudo, abordagens práticas de vida que possibilitem a reflexão com base na moral e na ética. Como mostramos na Unidade 1, a filósofa Marilena Chauí (2010), destaca a importância de ensinar ética por conta da con- vivência em espaços grupais. Além disso, para Maria do Carmo Brant de Carvalho (1999), nas organizações o exercício de ensinar e aprender sobre ética fundamenta a regulação e garante qualidade nas relações humanas, servindo também como indicativo do desen- volvimento organizacional. Olhando mais de perto a inserção da ética nos currículos da educação superior, vemos que nos anos 70, no Brasil, ela pas- sa a fazer parte da grade curricular do curso de Administração e negócios, um momento em que se inicia uma ampla iniciativa social e educacional para discussão de responsabilidade social, tro- cas internacionais e desafios éticos regionais do ponto de vista das estratégias econômicas. Para saber mais, leia o texto sobre “Ética, Instituições e Desenvol- vimento”, de Mendes e Bessa (2011). SAIBA MAIS 86 O pesquisador Fritjof Capra (2002), destaca que as institui- ções universitárias precisam reformular currículos que contemplem a formação ética pois, segundo ele, elas têm o papel de formar os novos profissionais. Já Leandro Sequeiros (2000), prima pelo ensino da ética da solidariedade na educação como um todo, pois ele acredita que a criança desde cedo deve conhecer a consciência ética. No entanto, o professor François Vallaeys (2003) infere que os valores dominantes das universidades atuais são o individualis- mo, a posse, a competência e a dominação. A partir da década de 1990 e com a massificação da educação superior, uma grande amplitude de oportunidades de cursos cursos e disciplinas com ênfase mercadológica, muitas instituições viram a possibilidade de agregar à sua missão, através da propaganda, os valores de formação ética e responsabilidade social, conforme si- naliza Adolfo Ignácio Calderón (2005). Figura 9 - Ética e instituições Fonte: Pixabay. Para saber mais, leia o artigo “A ética como disciplina de ensino fundamental para a construção de uma postura profissional na contemporaneidade”, de Thaynara de Melo. SAIBA MAIS 87 Em uma sociedade baseada no “capitalismo selvagem”, em que muitos comportamentos não prezam as relações éticas, é muito comum ouvirmos várias reclamações de posturas antiéticas na po- lítica e na sociedade como um todo. Nesse caso, a inclusão da ética nos currículos, sobretudo nos cursos universitários, torna-se uma urgência acadêmica, para que continue a se constituir como um ele- mento fundamental nas relações humanas. Em conclusão, o filósofo francês Armand Cuvillier (1947) marcou os seguintes pontos a serem observados na formação ética dos profissionais: a. Através da profissão o indivíduo se realiza plenamente, pro- vando sua capacidade, habilidade, sabedoria, inteligência e formando sua personalidade para vencer obstáculos; b. O nível moral dos homens é elevado pelo seu exercício c. profissional; d. Na profissão os homens mostram sua utilidade à comunidade. Neste tópico aprendemos muito sobre diversidade cultural, ra- cismo, intolerância e xenofobismo. Vimos que esses conceitos precisam ser absorvidos e entendidos para que as relações entre os seres humanos sejam mais respeitosas, solidárias e colaborati- vas. A sociedade tecnológica e global traz desafios de enfrentamento moral e ético, mas através da educação podemos fortalecer nossa capacidade de cuidar e zelar pela boa convivência social, desta forma estaremos sustentando um mundo viável para as gera- ções presentes e futuras. Por fim, é preciso ter um ensino de ética acerca do que precisa ser evitado, mas também do que precisa ser reforçado para a preservação social. RESUMINDO 88 UN ID AD E 4 Objetivos 1. Estabelecer o conceito e os princípios dos Direitos Humanos. 2. Relacionar ação comunitária com participação democrática. 3. Refletir questões e situações ligadas à ética, direitos humanos e violência. 4. Identificar o cenário atual e as tendências da ética e cidadania. 90 Introdução Nesta última Unidade de ensino da disciplina, aprenderemos sobre a importância dos direitos humanos, que incluem o direito à vida, à educação, o direito ao trabalho, à liberdade de opinião, entre ou- tros. Veremos que é possível construir nossa cidadania zelando pelos nossos direitos e dos outros, verificando, ainda, a responsabilidade dos governos a fim de garantir esses direitos. Além disso, entende- remos que só é possível participar das decisões políticas de um país a partir do exercício pleno da cidadania, ancorada na ética, quando há condições democráticas para esta participação. Por fim, também faremos uma reflexão sobre a ausência de direitos e a perpetuação da violência para entendermos o que está acontecendo nos dias de hoje com as práticas de ética e cidadania. Você também está curioso para iniciar o debate acerca desses temas? Vamos lá! 91 Direitos humanos Ao término desta Unidade você deverá ter adquirido conhecimentos sobre os Direitos Humanos, seus princípios, como também, das suas conexões com as ações comunitárias e de participação democrática. Deverá compreender que só é possível atuar de forma cidadã e ética quando há garantias de efetivação dos direitos que possuímos. Vamos lá! A aprendizagem e o debate nos esperam! Conceituação e princípios dos direitos humanos O conhecimento acerca dos direitos humanos acende uma discussão em torno da luta social, coletiva e ao mesmo tempo individual. É im- portante destacar que eles envolvem a proteção de nossa cidadania em nível mundial. Por isso não podemos colaborar para que discrimi- nações, intolerância e opressão aconteçam com qualquer indivíduo. Mas o que são direitos humanos? Inicialmente convém des- tacar que eles são a base de uma relação respeitosa entre iguais e diferentes no mundo social. Em nossa Constituição Federal, de 1988, por exemplo, há uma correspondência com a Declaração Universal de Direitos Humanos — DUDH, aprovada em 1948, pela Assembleia Geral das Organização das Nações Unidas - ONU, que preconiza em seu art. 1º que: “[...] todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fra- ternidade” (ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS, 1948, p. 3). OBJETIVO 92 Direitos humanos: são aqueles constituídos pelos direitos naturais, garantidos a todos os cidadãos e que devem ser estendidos a todos os indivíduos, sem distinção de gênero, classe social, posição políti- ca, etnia, religião ou nacionalidade. Figura 1 - Dia Internacional dos Direitos Humanos Segundo a pesquisadora Jackeline Guimarães Almeida Franzoi (2003), em pleno contexto pós Segunda Guerra Mundial (1939-1945), especificamente em 10 de dezembro de 1948, houve a publicação da Declaração Universal dos Direitos Humanos pela ONU. A autora remonta que tal documento se fez necessário para que pudéssemos lembrar e combater todo e qualquer ato de atroci- dade, violência, semelhantes aos que aconteceram durante o conflito militar global. Essa declaração é o resultadodas lutas por direitos historicamente constituídos e que possibilitou trazer uma perspec- tiva de igualdade e liberdade entre homens e mulheres. Mas é preciso compreender o significado desses direitos, no sentido de valorizar sua existência e aplicabilidade. Por este ân- gulo, a jurista Flávia Piovesan (2005), compreende que a efetiva- DEFINIÇÃO 93 ção dos direitos humanos refere-se a uma aspiração e necessidade universal de reconhecermos a nós mesmos como seres humanos, únicos, que não são julgados pelas suas diferenças para acessar espaços e culturas. Tal movimento diz respeito à valorização da dig- nidade da pessoa humana. É importante destacar que, em linhas gerais, os três princípios fundamentais apresentados na Declaração Universal dos Direitos Humanos são: • Inviolabilidade da pessoa: não sacrificar um indivíduo com o motivo de que será para o benefício de outro. • Autonomia da pessoa: assegura a liberdade de ação para qualquer indivíduo desde que este não prejudique outros. • Dignidade da pessoa: os indivíduos devem ser julgados e tra- tados conforme seus atos, unicamente. Depreende-se que o que aqui chamamos de Direitos Huma- nos trata-se de direitos e liberdades de todos os seres humanos. Ressaltamos, então, algumas características deles: • Universalidade: todo e qualquer ser humano é sujeito ativo desses direitos, independente de credo, raça, sexo, cor, nacio- nalidade, convicções; • Inviolabilidade: esses direitos não podem ser descumpridos por nenhuma pessoa ou autoridade; • Indisponibilidade: esses direitos não podem ser renunciados. Não cabe ao particular dispor dos direitos conforme a própria vontade, devem ser sempre seguidos; • Imprescritibilidade: eles não sofrem alterações com o decur- so do tempo, pois têm caráter eterno; • Complementaridade: os direitos humanos devem ser inter- pretados em conjunto, não havendo hierarquia entre eles. 94 Leia a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), documento marco na história dos direitos humanos, no site das Nações Unidas - Brasil. https://bit.ly/3BPeqwn Ação comunitária e participação democrática O ser humano imagina-se incluído em dois grupos societais: no primeiro deles ele se mostra como alguém que sente a necessidade de ser conduzido, aceita e espera confortavelmente aquilo que o Estado oferece como medidas públicas para garantir os direitos da população, bem como, as tomadas de decisões dos governan- tes no campo econômico, social e político. Já o outro grupo busca constantemente a chama acesa do questionamento, da participa- ção, da vontade de transformar e de estar construindo as decisões acima referidas. Dessa forma, consideramos significativo destacar o conceito de comunidade para pensarmos seu papel no âmbito democrático. Comunidade: sociologicamente trata-se de um grupo de indiví- duos que, além de possuírem a residência em comum do ponto de vista geográfico, compartilham uma cultura e tornam-se parte da história dessa coletividade, cujos objetivos e metas partem das demandas comuns. SAIBA MAIS DEFINIÇÃO 95 Figura 2 - Uma comunidade com pessoas de diferentes idades e raças Fonte: Freepik Em continuidade, o pesquisador Samuel Paul (1987) aponta que para uma comunidade alcançar um excelente grau de partici- pação, em um projeto comunitário, por exemplo, deve se voltar e direcionar os seus objetivos para os seguintes aspectos: • Empoderamento: alto nível de consciência coletiva e de for- ça política. O autor mostra que precisa de uma forte iniciativa com ações e organizações que possam influenciar processos de mudanças. • Capacity building: compartilhamento de tarefas relacionadas à administração do projeto de transformação. Também diz res- peito a monitoramento e construção da sustentação do projeto. • Eficácia: quando o projeto caminha junto com as demandas da comunidade. Corresponde e atende essas demandas. • Eficiência: a procura de consenso com interação e cooperação para avanços e não atrasos. Cumprindo metas e prazos. Inten- sa participação comunitária. • Compartilhamento de custos: compartilhamento de gastos do projeto a ser desenvolvido, com a finalidade de barateá-lo. 96 Quando falamos em “democracia participativa”, estamos li- dando com a situação de uma participação popular na tomada de decisões, sobretudo, no âmbito político. Esse conceito evoca a ideia de proporcionar a oportunidade de participação às pessoas, criando canais de debate que incentivem o pensar sobre questões políticas, diretamente ligadas ao exercício de sua cidadania. Uma proposta de entendimento e clareza sobre a ideia de ação da comunidade em uma perspectiva democrática volta-se para a situação do conceito de gestão democrática presente, por exemplo, nas escolas. Segundo Rosineia de Lima Nascimento (2012), o trabalho em equipe voltado à qualidade de ensino é a grande base para uma ges- tão democrática e participativa nas escolas. Além disso, o educador Vitor Henrique Paro (2012), considera fundamental que a gestão es- colar tenha a consciência de que precisa estar sujeita a mecanismos de controle e fiscalização pela própria comunidade na qual se insere. Fortalecendo estas ideias, o professor Moacir Gadotti (1995) nos lembra que descentralização e autonomia devem andar lado a lado. Da mesma maneira que a luta pela conquista da autonomia na escola é também um reflexo dos embates na própria sociedade. Assim, tal qual apresentamos até aqui, é necessário que o entendimento da condução democrática esteja presente no cenário educacional, favorecendo o estado de participação da comunidade. Na escola, bem como no Estado, uma gestão participativa e democrá- tica deve envolver: participação propriamente dita, descentralização e transparência. Permeado por essa concepção, o educador Paulo Freire (1995) mostra que a participação política das classes populares deve ocorrer através de seus representantes, seja na tomada de deci- sões, seja na definição de um projeto de ação. 97 Figura 3 - Gestão democrática É notável que tanto na escola quanto na sociedade são ne- cessários canais democráticos que possibilitem a participação dos indivíduos no processo de tomada de decisões. Leia o artigo “A gestão participativa na escola pública: tendências e perspectivas”, de Fernando Beraldo e Rita Pelozo (FAHU/ACEG). Para que a participação da comunidade aconteça de forma efetiva, é preciso também que a mesma conheça que canais existem para sua atuação. Observe a imagem abaixo e verifique as principais formas de participar: SAIBA MAIS 98 Figura 4 – Formas democráticas de participação da comunidade Dessa forma, vemos que cada grupo representado nos diálogos recebe a oportunidade de apresentar suas ideias e prováveis soluções para os entraves comunitários. Isso supera, com certeza, o fato de ter uma visão unilateral em que somente uma classe, ou grupo, toma decisões e avaliam ações, pois todos os níveis envolvidos podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida no coletivo. Conselhos Municipais: Formulam, acompanham e avaliam as políticas públicas. Neles, qualquer cidadão pode participar, apresentar projetos e dar sua opi- nião. Audiências públicas: São obrigatórias para a discussão da lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) e também podem ser requisitadas para o debate de proble- mas que afetem a cidade. Ouvidoria Pública Municipal: Atende reclamações de problemas relacionados à prefeitura. Ação popular: Permite que o cidadão proponha uma ação contra ato que lese o patrimônio público. Iniciativa popular: Com o aval de 5% dos eleitores do município, qualquer cidadão pode apresentar um projeto de lei na Câmara Municipal. Representações: Ao ministério Público, possibilita a abertura de procedimentos de investigação de supostos atos irregulares praticados contra o interesse público. Caso seja o Tribunal de Contas, o cidadão pode denunciar irregularidades ao ilegalidades na administração pública. 99 Ética, direitoshumanos e violência A temática dos direitos humanos possui relevância na constituição da lógica jurídica do século XXI e apresenta, na sua essência, traços do passado e uma perspectiva de futuro. Nesse sentido, ainda sobre os direitos humanos, vemos a necessidade de uma ampla análise histórico-filosófica, além de um grande conhecimento jurídico para melhor fundamentá-los e compreendê-los. A violência é uma questão recorrente em nosso dia a dia. Te- mos assistido muitas cenas de desrespeito aos direitos humanos, atitudes de violência e precarização da ordem social. Diante disso, como podemos nos posicionar de modo ético em relação às diferen- tes situações que saltam aos nossos olhos diariamente? A professora Flávia Schilling (2007) destaca que a violência em nossa sociedade está presente desde a fala das pessoas no dia a dia, até mesmo na mídia e nos discursos políticos. Para a autora, existem diversos tipos de violência, desde a que acontece na família até a que configura a criminalidade, abrangendo a violência física, psicológica e/ou emocional, moral, sexual, social e doméstica. Além disso, é importante evidenciar que viver em um Estado Democrático de Direito, como o Brasil, é experimentar práticas de respeito às diferenças e os preceitos dos direitos humanos. Con- tudo, isso é muito significativo e completo na letra fria do papel, mas na prática assistimos ações violentas contra a mulher, o idoso, a orientação sexual ou identidade de gênero das pessoas, além dos crimes de intolerância racial, religiosa, corrupção, violência policial, entre outros. O Estado Democrático de Direito é aquele em que os governantes seguem o que está previsto nas leis, isto é, respeitam e cumprem o que é definido em suas normas, visando à garantia do exercício de direitos individuais, sociais e dos poderes instituídos. DEFINIÇÃO 100 Figura 5 - Estado Democrático de Direito Fonte: Freepik. Como entendemos a violência em relação aos Direitos Hu- manos? Vemos, por exemplo, que a educação é um direito de todos e é dever do Estado assegurá-lo. Conforme estabelece o artigo 206 da nossa Carta Magna, de 1988, o ensino do país será ministrado tendo por base os seguintes princípios: I. igualdade de condições para o acesso e permanência na escola; II. liberdade de aprender, de ensinar, pesquisar e ampliar o pen- samento, a arte e o saber; III. pluralismo de ideias e de vertentes pedagógicas; a coexistên- cia de instituições públicas e privadas de ensino; IV. gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais; V. valorização dos profissionais da educação escolar, garantidos, na forma da lei, planos de carreira, com ingresso exclusiva- mente por concurso público de provas e títulos, aos das redes públicas; (Redação da EC 53/2006); VI. gestão democrática do ensino público, na forma da lei; VII. garantia de padrão de qualidade; 101 VIII. piso salarial profissional nacional para os profissionais da educação escolar pública, nos termos de lei federal. (Incluído pela EC 53/2006); IX. garantia do direito à educação e à aprendizagem ao longo da vida. (Incluído pela EC n. 108/2020). Fonte: BRASIL. Constituição (1988), Capítulo III, Seção I, Artigo 206. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília. DF: Presidência da República, [2020]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm. Acesso em: 22 jul. 2022. Nesse caso, a infração ao respeito dos direitos humanos está diretamente vinculada à impunidade. No Brasil já existe a Emen- da Constitucional nº 45, de 30 de dezembro de 2004, que federaliza crimes contra os direitos humanos. Assim, quando acontece alguma violação aos direitos humanos, esta é prontamente transferida para o sistema de justiça nacional, ou seja, a esfera federal. Mas o ideal seria criar políticas públicas que se voltassem para o combate direto à violência. Como o Estado apresenta dificuldades de tornar efeti- vo esse projeto, assistimos, na maioria das vezes, as pessoas em situação de pobreza e outros grupos vulneráveis, sendo a parce- la da população mais vitimada pela violência. Pois, no fundo, há uma inércia das instituições públicas para estabelecer punições e, também, um despreparo, omissão ou conivência com ações de violência física e simbólica. Leia o texto “Cidadania e violência: um desafio para os direitos humanos”, de Maysa Solheid e Robson Stigar. No que tange às discussões empreendidas até aqui, perce- bemos que ética e violência caminham em lados diferentes. Já que a violência remete a tudo aquilo que usa a força para ir contra a natureza de algum ser, esmagando-o, torturando-o, desorga- SAIBA MAIS 102 nizando-o. Portanto, podemos afirmar que uma atitude violenta em nada colabora para uma vida justa e solidária em sociedade. Dessa forma, afirmamos que violência se opõe à ética porque não considera o respeito e o compromisso de manter a integridade física e moral dos indivíduos. Cenário atual e tendências da ética e da cidadania A realidade social não está pré-concebida e os indivíduos podem atuar sobre os processos coletivos. Assim, é possível que os homens criem e recriem novas propostas de convivência que esbarram em amplas discussões acerca dos conceitos de ética e cidadania com questões, por exemplo, que envolvem os estudos de robótica, as investigações científicas sobre células tronco, o estabelecimento de poder para certos grupos, como também a autorização do porte de armas para os cidadãos em geral. Segundo o filósofo Peter Singer (2002), uma pessoa vive dentro de uma esfera do ético quando se preocupa com a justi- ficativa de sua ação, já que só o fato da pessoa querer explicá-la, podendo estar certa ou errada, demonstra que ela pauta-se em uma consciência ética. Nessa seara de conside- rações, o professor Álvaro Luiz Montenegro Valls (2000) mostra que a moral está diretamente li- gada às ações práticas dos seres humanos. Ele chama a atenção para o fenômeno da massificação e do autoritarismo presente tanto nos meios de comunicação quanto nas práticas políticas. Pois, se- gundo o autor, os homens, mesmo cientes de seu papel fundamental como executores da moral, conse- Figura 6 - Ética na atualidade 103 guem agir eticamente. Ademais, Valls traz o questionamento sobre até que ponto é possível o homem escolher entre o bem e o mal. Em tempos atuais, a educação ocupa um lugar importante para a formação de um cidadão participativo e solidário, consciente dos seus deveres e direitos. Em uma proposta de educação pautada nos direitos humanos é possível construir uma base para ampliar o que vem a ser uma educação democrática, apontando um caminho para o exercício efetivo da democracia, regime voltado para uma soberania popular, com pleno respeito aos direitos humanos. No que se refere ao mundo do trabalho, por exemplo, Robert C. Solomon (2006) destaca que o estudo da ética se faz primordial pelas infrações que aparecem em jornais no mundo dos negócios. Tal proposta deveria ocorrer a partir da compreensão profunda das experiências práticas. Ademais, o sociólogo Zygmunt Bauman (2011) também colabora com as reflexões entre a “Era da Ética”, típica da mo- dernidade, e a “Era da Moral”, peculiar da pós-modernidade. Ele apresenta a ideia de “ser-junto-com-o-outro” para, finalmente, descobrir nossa humanidade. Nesse sentido, a ética e a moral da pós-modernidade emerge de uma responsabilidade moral incon- dicional em que cada pessoa desenvolve por meio de suas atitudes o “estar junto com o outro” no dia a dia da sua vida. Ainda segundo o autor, diferentes sujeitos devem ser capa- zes de tomar decisões próprias sem serem coagidos por um sistema normativo. Eles constroem o senso de responsabilidade que os au- xilia para lidar com situações que exigem consenso, instituindo a questão ética. Já a moral, pelo olhar de Bauman (2011), consiste em categoria contingente e incontível. Para ele, a relação com o desconhecido traza possibilidade de reconhecimento de uma humanidade. Vejamos, na sequência, algumas situações em que a ética e a cidadania aparecem, exigindo dos sujeitos a utilização desse senso de racionalidade. 104 Ética e política Um problema que tem incomodado bastante a sociedade brasileira está diretamente relacionado com a questão da corrupção na po- lítica, suscitando alguns questionamentos. Será que os sujeitos eleitos democraticamente, por meio do voto direto, com a finalidade de representar a vontade geral, mas que executam uma governan- ça voltada para os seus interesses pessoais estão agindo de forma ética? Há uma falta de ética no exercício da política no meio social? Como fica a questão da cidadania relacionada à questão ética em tempos atuais? Figura 7 – Poema “O analfabeto político”, de Bertholt Brecht O analfabeto político O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio dependem das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, corrupto e lacaio das empresas nacionais e multinacionais. Bertholt Brecht Fonte: Elaborada pela autora. 105 Para o jurista Eduardo Carlos Bittar (2010), a questão éti- ca presente no mundo das atividades políticas pode ser vista como a saúde político-institucional que irá se traduzir na saúde social. Além disso, deve-se aceitar que a estrutura da éthos de uma socie- dade fica, em grande parte, na dependência das ações e atitudes políticas para alcançar direitos e acessar serviços públicos. Ainda, Elias Farah (2000) adverte que o cidadão, ou seja, o eleitor, é quem recebe o impacto de um ato de corrupção pra- ticado por um agente público, sobretudo os eleitos. O corruptor, durante o exercício das suas atribuições, busca um forte elo de captação de recursos para vaidades pessoais, fantasias próprias e de sua família, deixando de lado sua função pública. O teórico Edgar Morin (2000) destaca que o ensino da ética é um dos saberes necessários à educação. Para ele, a reflexão no campo da ação do homem, em nível das decisões da ação moral dos indivíduos, deve ganhar espaço em diferentes níveis da educação. A corrupção pode ser compreendida como um fenômeno so- cial, ela consiste em um reflexo da cultura formada sem princípios éticos e valores morais. Trata-se de uma prática cultural antiética e, no Brasil, observamos que a raiz da corrupção é tanto histórica quanto cultural. Ética na saúde O comportamento ético em atividades de saúde deve considerar um enfoque de responsabilidade social e também a expansão dos direi- tos da cidadania, uma vez que a saúde constitui um direito básico e proporciona as condições de cidadania à população. A ética da responsabilidade e a Bioética envolvem o cuidado do outro, portanto, compete aos profissionais dessa área ter cons- ciência em desenvolver esta postura. Dessa forma, vemos que a ética deve reconhecer o valor de todos os seres vivos e encarar os huma- nos como um dos pontos que também formam a base da vida. O professor Joaquim Clotet (2003) aponta que a “Bioética é uma ética aplicada que se ocupa do uso correto das novas tecnolo- 106 gias na área das ciências médicas e da solução adequada dos dilemas morais por elas apresentados” (CLOTET, 2003, p. 33). Leia o artigo intitulado “Princípios da bioética e o cuidado na en- fermagem”, de Ivanete da Silva Santiago e Karen knopp de Carvalho. Ética as redes sociais As redes sociais também têm se mostrado como um importan- te canal de informação e trocas comunicacionais. Além disso, ao mesmo tempo em que elas informam, também desinformam. Re- lacionando com a questão ética, temos a grande dor de cabeça do momento, as chamadas fake news. Estas provocam desequilíbrio, afetações emocionais e transtornos, principalmente naqueles que são os alvos dessas notícias falsas. Cabe ressaltar que as fake news reforçam preconceitos, ódio contra indivíduos ou grupos sociais. Tomemos o exemplo do impacto que a sociedade teve so- bre a enganosa notícia da existência de um “kit gay” imposto nas escolas. Essa ideia partiu da interpretação equivocada de um projeto verdadeiro que fazia parte de um dos programas do Governo Federal, intitulado de “Escola sem Homofobia”. Con- tudo, as informações originais foram manipuladas e disseminadas de forma totalmente desvirtuada, com a perspectiva de dizer que haveria uma suposta “ideologia de gênero” e o ensino de temáticas sobre sexualidade para crianças de seis anos nas escolas. A questão ética, sobretudo a sua ausência, aparece fortemente nesse fato em decorrência do compartilhamento de notícias inverídicas, causando impactos negativos ao projeto e na vida das pessoas. Todavia, tanto nessa situação quanto em todas as outras em que compartilhamos ou postamos algum conteúdo nas redes sociais, é imprescindível conferir a veracidade das informações veiculadas. SAIBA MAIS 107 Os pesquisadores Michael Schudson e Barbie Zelizer (2017) afirmam que a notícia falsa pode interferir no cotidiano do cidadão e das redações jornalísticas. Segundo eles, nas atividades periodistas, por exemplo, é preciso ter responsabilidade com a questão da re- produção de notícias falsas, exageradas ou até mesmo corrompidas. O sociólogo Michael Kunczik (2001) aplica o termo disfunção quando ocorre às notícias são alteradas e servem de ameaça à es- tabilidade social. Pois, conforme os autores Mauro Wolf e Maria Jorge Vilar de Figueiredo (1987), a circulação de notícias falsas destrói a cidadania de forma severa. Ainda, em suas considerações, os meios de comunicação têm a função de trazer a possibilidade de alertar o cidadão e apresentar instrumentos para realizar as suas ações diárias. Na sequência, observe como detectar notícias falsas, segundo os jornalistas Eugene Kiely e Lori Robertson (2017): • Considere a fonte – veja se tem credibilidade; • Considere o autor – faça uma breve pesquisa sobre ele; • Confirme a data – verifique a data e qual contexto a notícia se enquadra; • Fontes de apoio – encontre bases de informações; identifique se as fontes estão relacionadas ou tratam do assunto, pois é preciso identificá-las; • Considere todos os lados – ser contra uma ideologia não quer dizer que a notícia é falsa; • Verifique se é piada – há sites que fazem piadinhas com de- terminados temas; • Leia mais – é preciso ler sobre o assunto. Quando você pes- quisa e lê mais sobre um assunto, percebe se a informação a ser compartilhada tem ou não veracidade. 108 Leia o artigo intitulado de “O impacto das fakenews e o fomen- to dos discursos de ódio na sociedade em rede: a contribuição da liberdade de expressão na consolidação democrática”, de Isadora Forgiarini Balem. Figura 8 - Fake news Fonte: Freepik. Enfim, a discussão sobre ética e cidadania, levando em con- sideração o que estamos vivendo nos dias de hoje e a necessidade de uma convivência harmônica em nossa sociedade, deve observar se há uma compatibilidade entre o ideal da comunidade almejada e o estilo de vida construído, sem isso não é possível pensar um corpo social ético como realidade. Na atualidade, o sujeito que possui a cidadania é aquele detentor de direitos, mas também de deveres. O cidadão deve ter ciência de sua participação na sociedade e que precisa contribuir coletivamente, pois o desenvolvimento da cidadania só ocorre por meio do desejo e colaboração para a efetivação do bem comum. Uma outra perspectiva tem a ver com os aspectos atrelados à sociedade de risco que estamos vivendo. Isto significa que diante SAIBA MAIS 109 do crescimento da civilização tecnológica, vemos um número muito grande de difusãoe proliferação dos riscos, resultantes da manei- ra como a sociedade moderna foi se organizando. Riscos que estão cada vez mais presentes no nosso dia a dia, afetando as comunida- des e revelando a crise da sociedade industrial. Para o sociólogo britânico Anthony Giddens(1991), a socie- dade moderna organiza-se levando em conta o distanciamento tempo-espaço, diferentemente das sociedades pré-modernas, nas quais as relações entre os indivíduos eram construídas atra- vés das referências locais. Nesse caso, a explicação para situações e fenômenos que ali se processavam, eram situadas na lógica do conhecimento e interações cotidianas que, por sua vez, promoviam a organização social com base nas redes de confiança, depositada nos laços de parentesco e alianças. Caso qualquer coisa perturbasse o equilíbrio daquela ordem social, o grupo encontraria resolução para aquele problema, valo- rizando a confiança localizada em seu interior e entre os sujeitos. Já nas sociedades atuais, conforme deriva do pensamento de Giddens, estas constroem seu esquema de funcionamento e racionalização social fundamentadas em uma relação de confiança dos indivíduos em sistemas abstratos, fichas simbólicas, que podem ser entendidos como o progresso do conhecimento técnico, econômico e científico. Portanto, vivemos riscos de acreditar nos sistemas simbólicos, no virtual e, a partir destas crenças, também construímos nossas posi- ções éticas e cidadãs. Figura 9 - A crença e a divulgação de notícias falsas prejudicam às pessoas Fonte: Freepik. 110 Educação, ética e cidadania hoje No texto que segue temos algumas reflexões importantes acerca da ação de ensinar a pensar para a vida. Tal reflexão, baseada nas ideias do filósofo Immanuel Kant, traz em si a própria valorização da edu- cação para o bem coletivo. Ensinar a pensar Espera-se que o professor desenvolva no seu aluno, em primeiro lugar, o homem de entendimento, depois, o homem de razão, e, finalmente, o homem de instrução. Este procedimento tem esta vantagem: mesmo que, como acontece habitualmente, o aluno nunca alcance a fase final, terá mesmo assim beneficiado da sua aprendizagem. Terá adquirido experiência e ter-se-á tornado mais inteligente, se não para a escola, pelo menos para a vida. Se invertermos este método, o aluno imita uma espécie de razão, ainda antes de o seu entendimento se ter desenvolvido. Terá uma ciência emprestada que usa não como algo que, por assim di- zer, cresceu nele, mas como algo que lhe foi dependurado. A aptidão intelectual é tão infrutífera como sempre foi. Mas ao mesmo tempo foi corrompida num grau muitíssimo maior pela ilusão de sabedo- ria. É por esta razão que não é infrequente deparar-se-nos homens de instrução (estritamente falando, pessoas que têm estudos) que mostram pouco entendimento. É por esta razão, também, que as academias enviam para o mundo mais pessoas com as suas cabeças cheias de inanidades do que qualquer outra instituição pública. [...] Em suma, o entendimento não deve aprender pensa- mentos mas a pensar. Deve ser conduzido, se assim nós quisermos exprimir, mas não levado em ombros, de maneira a que no futuro seja capaz de caminhar por si, e sem tropeçar. A natureza peculiar da própria filosofia exige um méto- do de ensino assim. Mas visto que a filosofia é, estritamente falando, uma ocupação apenas para aqueles que já atingiram a ma- turidade, não é de espantar que se levantem dificuldades quando se tenta adaptá-la às capacidades menos exercitadas dos jovens. O jovem que completou a sua instrução escolar habituou-se a apren- 111 der. Agora pensa que vai aprender filosofia. Mas isso é impossível, pois agora deve aprender a filosofar. [...] Para que pudesse aprender filosofia teria de começar por já haver uma filosofia. Teria de ser possível apresentar um livro e dizer: “Veja-se, aqui há sabedoria, aqui há conhecimento em que podemos confiar. Se aprenderem a entendê- lo e a compreendê-lo, se fizerem dele as vossas fundações e se construírem com base nele daqui para a frente, serão filóso- fos”. Até me mostrarem tal livro de filosofia, um livro a que eu possa apelar, [...] permito-me fazer o seguinte comentário: estaríamos a trair a confiança que o público nos dispensa se, em vez de alargar a capacidade de entendimento dos jovens entregues ao nosso cuidado e em vez de os educar de modo a que no futuro consigam adquirir uma perspectiva própria mais amadurecida, se em vez disso os en- ganássemos com uma filosofia alegadamente já acabada e cogitada por outras pessoas em seu benefício. Tal pretensão criaria a ilusão de ciência. Essa ilusão só em certos lugares e entre certas pessoas é aceite como moeda legítima. Contudo, em todos os outros lugares é rejeitada como moeda falsa. O método de instrução próprio da fi- losofia é zetético, como o disseram alguns filósofos da antiguidade (de zhtein). Por outras palavras, o método da filosofia é o método da investigação. Só quando a razão já adquiriu mais prática, e ape- nas em algumas áreas, é que este método se torna dogmático, isto é, decisivo. Por exemplo, o autor sobre o qual baseamos a nossa instrução não deve ser considerado o paradigma do juízo. Ao invés, deve ser encarado como uma ocasião para cada um de nós formar um juízo sobre ele, e até mesmo, na verdade, contra ele. O que o alu- no realmente procura é proficiência no método de refletir e fazer inferências por si. E só essa proficiência lhe pode ser útil. Quanto ao conhecimento positivo que ele poderá talvez vir a adquirir ao mesmo tempo — isso terá de ser considerado uma consequência acidental. Para que a colheita de tal conhecimento seja abundante, basta que o aluno semeie em si as fecundas raízes deste método. Immanuel Kant Tradução de Desidério Murcho Texto retirado de “Anúncio do Programa do Semestre de Inverno de 1765-1766” da colectânea de textos Theoretical Philosophy, 1755-1770 (edição de David Walford e Ralf Merbote, Cambridge University Press, 1992), pp. 2:306-7. 112 É significativo compreender a criação de novos desenhos de sujeitos pensantes e participativos na sociedade atual, em que as tecnologias da informação e as comunicações são cada vez mais reais, capazes de oferecer uma visão e um maior conhecimento acerca das relações e saberes sociais que indicam o progresso da hu- manidade. Nesse sentido, essa compreensão é fundamental para se estabelecer um diálogo entre indivíduo, cultura e educação. Existem alguns filmes que apresentam alguns aspectos relaciona- dos à discussão, dentre eles, listamos os seguintes: A fraude (Filme de 1999, com Ewan McGregor). Aspectos identifica- dos: Contabilidade; Governança Corporativa; Ética e Responsabilidade Social; Evidenciação e Informação à Sociedade Ameaça Virtual (Filme de 2001, com Tim Robbins e Ryan Phillippe). Aspectos identificados: Tecnologias da informação; Liderança; Clima organizacional; Ética; Responsabilidade social corporativa; Qualidade de vida no trabalho. Com o dinheiro dos outros (Filme de 1991, com Danny de Vito e Gregory Peck). Aspectos identificados: Inovação tecnológica; Ética e responsabilidade social; Governança corporativa; Liderança; Fi- nanças; Globalização e internacionalização dos mercados; Clima organizacional. Erin Brockovich: uma mulher de talento (Filme de 2000, com Julia Roberts e Albert Finney). Aspectos identificados: Ética e responsa- bilidade social corporativa; Gestão ambiental; Liderança; Negociação empresarial; Administração de conflitos; Trabalho em equipe. Minority Report: a nova lei (Filme de 2002, com Tom Cruise). As- pectos identificados: Tecnologias da informação; Teletrabalho; Ética; Invasão de privacidade; Responsabilidade social corporativa. Náufrago (Filme de 2000, com Tom Hanks e Helen Hunt). Aspectos identificados: Qualidade de vida no trabalho; Clima organizacional; SAIBA MAIS 113 Planejamento de carreira; Recrutamento e seleção; Treinamento e desenvolvimento de pessoal; Planejamento corporativo.Em síntese, nessa etapa de estudos vimos que existem si- tuações e questões na atualidade que precisam estar pautadas pelo olhar da ética e cidadania, afinal, ser cidadão é colaborar para a garantia de que o respeito e a preservação das relações seja fundamentalmente harmônica. Percebemos que tanto na política, quanto na saúde, como também nas trocas via redes sociais, faz- -se necessário ter compromisso com a ética e a moralidade durante as participações e atuações. Finalmente, destacamos o papel que a educação tem na formação de indivíduos pensantes e responsáveis por suas ações no interior da sociedade. 114 Referências UNIDADE 1 ALMEIDA, Claudia Mara de; SOARES, Kátia Cristina Dambiski. Pe- dagogo escolar: as funções supervisora e orientadora. Curitiba: Ib- pex, 2010. ARANHA, Maria Lúcia de Arruda; MARTINS, Maria Helena Pires. Fi- losofando: introdução à filosofia. 2. ed. São Paulo: Moderna, 1993. ARENDT, Hannah. A condição humana. Editora Forense. Rio de Ja- neiro, 2003. ARISTÓTELES. Política. 3 ed. Brasília: UnB, 1997. BENCOSTTA, Marcus Levy A. (Org.). Culturas escolares, saberes e práticas educativas: itinerários históricos. São Paulo: Cortez, 2007. CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil: o longo caminho. 11 ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008. CHAUÍ, Marilena. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 2010. CORTELLA, Mário Sergio. Qual é a tua obra? Inquietações propositi- vas sobre gestão, liderança e ética. 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