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Cidades modernas no mundo Apresentação O urbanismo modernista é um movimento que trouxe novas visões e diferentes estratégias para a organização das cidades, destacando fortemente a necessidade do planejamento urbano. Essa vertente se consolidou apresentando algumas caraterísticas marcantes como, por exemplo, o zoneamento, a racionalidade e a funcionalidade, as quais puderam ser aplicadas em porções de cidades existentes e também em novas cidades. Apesar de suas contribuições, esse movimento também sofreu duras críticas de outros estudiosos. Nesta Unidade de Aprendizagem, você entenderá o que é o urbanismo modernista, compreendendo suas principais características e identificando sua aplicação em cidades do Brasil e do mundo que foram criadas com base nesse pensamento. Você ainda reconhecerá quais foram as críticas levantadas sobre esse movimento e seus motivos. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer as características do urbanismo modernista.• Exemplificar aplicações dos conceitos do urbanismo modernista em cidades existentes.• Identificar o movimento de crítica às cidades modernistas.• Infográfico O urbanismo moderno, apesar de ter significativa relevância na história do urbanismo e na introdução da importância do planejamento urbano para as cidades, também foi duramente criticado por suas ideias utópicas e padronizadas. Neste Infográfico, entenda melhor quais foram as principais críticas relacionadas aos princípios desse movimento. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/7078db88-a06b-4395-9c72-8c39b5c84273/f257de2f-d8dd-4d8b-ab05-948ec4f19fbb.jpg Conteúdo do livro O movimento moderno teve como grande personagem o arquiteto e urbanista Le Corbusier, que trouxe novos conceitos e estratégias para o melhoramento das cidades, sendo considerado o pai do modernismo. Essa vertente de pensamento urbanismo tinha como característica a racionalidade e o funcionalismo, e aliava suas propostas a setorização, a padronização, a grandes quadras e espaços livres, tudo com o intuito de melhorar a qualidade das cidades. Mesmo com um pensamento inovador, algumas soluções desse urbanismo não obtiveram tanto sucesso, trazendo outros problemas para as cidades e sendo criticadas por isso. No capítulo Cidades modernas no mundo, da obra Estudo da cidade, você poderá compreender melhor as principais características do urbanismo moderno, identificando sua aplicação em duas cidades que são referência – Brasília, no Brasil, e Chandigarh, na Índia. Você ainda poderá reconhecer as principais críticas tecidas à esse movimento, entendendo as considerações de importantes autores sobre o modernismo. Boa leitura. ESTUDO DA CIDADE Vanessa Guerini Scopell Cidades modernas no mundo Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer características do urbanismo modernista. Exemplificar aplicações dos conceitos do urbanismo modernista em cidades existentes. Identificar o movimento de crítica às cidades modernistas. Introdução O movimento moderno foi uma vertente que surgiu após a Revolução Industrial com o objetivo principal de criar soluções e estratégias para melhorar as cidades, demonstrando a importância do planejamento urbano e do estudo sobre diversos aspectos da cidade, como ruas, quadras e habitações. Esse movimento foi um marco para o século XX porque trouxe novas visões sobre a vida nos centros urbanos; por outro lado, após alguns anos, sofreu duras críticas em virtude de uma nova perspectiva levantada por outros estudiosos. Neste capítulo, você entenderá o que foi o urbanismo modernista e quais foram as principais características desse movimento. Você também identificará exemplos de cidades que foram projetadas com base nesse conceito, no Brasil e no mundo. Ainda, você poderá perceber as críticas que esse movimento recebeu ao passar dos anos. 1 Características do urbanismo modernista O urbanismo modernista surgiu, conforme Abiko, Almeida e Barreiros (1995), a partir de um contexto onde, entre os anos de 1800 a 1914, a população da Europa aumentou de 180 milhões de habitantes para 460 milhões. Conside- rando essa realidade e a consolidação dos processos histórico e civilizatório que ocorreram ao fi nal do XIX, por meio da revolução industrial, a busca por soluções dos problemas relacionados à cidade foi uma ação obrigatória. Para Ultramari (2009), o fenômeno socioeconômico desse período resultou em uma intenção de um tipo de cidade requerida, o que necessitava de novos procedimentos de análise e de intervenção. A cidade do momento da Revolução Industrial traz como consequências o congestionamento, a insalubridade, a falta de espaços livres de qualidade, a má preservação de edificações históricas, o surgimento de construções de baixa habitabilidade, a carência de sistemas de esgoto e abastecimento, a proliferação de doenças, entre outros. Esse reflexo se dá pela intenção de uma cidade almejada pela iniciativa privada que busca o máximo aproveitamento do espaço urbano visando ao lucro, sem qualquer organização ou controle. Nesse contexto e diante das novas necessidades, surgiram diferentes ex- periências para encontrar modelos de cidades ideais que pudessem combater e mudar a realidade dos centros urbanos, evitando seus problemas. “Surge então a necessidade de uma ação pública, ordenando e propondo soluções que até o momento eram implementadas apenas pelo setor privado, com objetivos individuais, de curto prazo e em escala reduzida” (ABIKO; ALMEIDA; BARREIROS, 1995, documento on-line). Com isso a disciplina do urbanismo passa a ser considerada, sendo um meio para entender e buscar soluções para esses problemas urbanos. Benevolo (2001) destaca que o urbanismo surgiu muito antes desse momento, mas foi nesse período que ele adquiriu importância. Conforme Abiko, Almeida e Barreiros (1995), em um primeiro momento surgiram algumas ideias urba- nísticas sanitaristas, priorizando abastecimento de água e melhoramento do sistema de esgoto, com a intenção de promover a salubridade das cidades. Nesse momento legislações relacionadas a esse assunto também foram criadas e cidades industriais como Londres, Manchester e Liverpool puderam criar estratégias para combater tais problemas. Ao nível das ideias, os primeiros intelectuais a estudar e a propor formas para corrigir os males da cidade industrial polarizaram-se em dois extremos: ou se defendia a necessidade de recomeçar do princípio, contrapondo à cidade existente novas formas de convivência ditadas exclusivamente pela teoria, ou se procurava resolver os problemas singulares e remediar os inconvenientes isoladamente, sem ter em conta suas conexões e sem ter uma visão global do novo organismo citadino (ABIKO; ALMEIDA; BARREIROS, 1995, documento on-line). Um dos exemplos de planos desenvolvidos nesse momento foi a proposta de cidades-jardins de Ebenezer Howard, que tinha como objetivo, segundo Cidades modernas no mundo2 Abiko, Almeida e Barreiros (1995), a eliminação da especulação dos terrenos, o controle do crescimento através da limitação da população e o equilíbrio funcional entre as atividades. Outro exemplo foi a proposta de cidade industrial de Tony Garnier, que, com base no urbanismo progressista e racionalista, buscou a ordenação das cidades através de soluções plásticas e utilitárias. Esse pensamento de urba- nismo culminou na criação dos Congressos Internacionais de Arquitetura, que iniciaram no ano de 1928 com a junção de arquitetos e urbanistas que conceituam o urbanismo e deram origem ao conceito modernista. Segundo a Declaração de La Sarraz, de junho de 1928, o urbanismo pode ser definido como “[…] a disposição dos lugares e dos locais diversos que devem resguardar o desenvolvimento da vida material,sentimental e espiritual, em todas as suas manifestações individuais e coletivas” (BIRKHOLZ, 1967, p. 33). Ainda, no documento foi destacado que tanto as aglomerações urbanas quanto rurais interessam ao urbanismo, e que suas três funções principais são habitar, recrear e trabalhar. Com os objetivos do urbanismo foram definidas as ações de uso e ocupação do solo e a organização da circulação e legislação. Já no ano de 1933, o 4º Congresso Internacional da Arquitetura Moderna (CIAM), ocorrido na Grécia, originou a Carta de Atenas que, conforme ressal- tam Abiko, Almeida e Barreiros (1995), foi a chave para mudanças qualitativas nas cidades. Dentre as principais características do urbanismo modernista, demonstradas nesse documento, pode-se destacar: a cidade como parte do conjunto político, econômico e social; o urbanismo não pode se submeter às regras estéticas gratuitas; o urbanismo deve ser sua própria essência, tendo ordem funcional; as cidades devem ter quatro funções principais, as quais o urbanismo deve zelar: habitar, trabalhar, circular e cultivar o corpo e o espírito; o parcelamento do solo fruto de partilhas, vendas e especulações deve ser alterado por uma economia de reagrupamento; o urbanismo deve dar condições para criação de circulações modernas; deve priorizar a criação de espaços livres; obrigatoriedade do planejamento regional; submissão da propriedade privada do solo urbano aos interesses coletivos, a industrialização dos componentes e a padronização das construções; edificação concentrada, mas adequadamente relacionada com amplas áreas de vegetação; 3Cidades modernas no mundo admite ainda o uso intensivo da técnica moderna na organização das cidades, o zoneamento funcional, a separação da circulação de veículos e pedestres, a eliminação da rua corredor e uma estética geometrizante; zonas urbanas definidas e separadas; grandes espaços livres entre as edificações; circulações bem definidas. Ainda, conforme acrescenta Choay (2007), é importante compreender que a linha de urbanismo progressista/funcionalista/racionalista que deu origem ao urbanismo moderno acreditava que suas estratégias poderiam ser utilizadas em qualquer cidade e qualquer local, tendo um caráter universal. Nesse sentido, outra característica dessa vertente é que ela é marcada por uma simplificação funcional. Como grandes objetivos do modernismo para as cidades, pode-se destacar a ocupação racional do uso do solo, a organização da circulação urbana e a criação de meios legais para a atuação de melhoria tanto no território da cidade como do campo. Através disso, busca-se promover o desenvolvimento da via material, espiritual e sentimental. Pode-se afirmar que esse foi um momento onde os arquitetos e urbanistas puderam colocar suas ideias em prática, tirando muitas propostas do papel: assim, as características mais marcantes desse movimento foram sendo incor- poradas em propostas e planos urbanos com o intuito de resolver os problemas e criar melhores condições de moradias nesses locais. 2 Urbanismo modernista em cidades existentes O urbanismo modernista foi importante porque trouxe uma nova visão sobre o funcionamento das cidades, demonstrando a relevância de se projetar para uma melhor qualidade de vida e de pensar questões relativas a recuos, afastamentos, ajardinamentos, insolação, ventilação natural e outros aspectos. Com isso, os conceitos do urbanismo modernista refl etiram em planos para cidades existentes e, igualmente, em planos para novas cidades. A importância desse movimento foi tão grande para o período pós-revolução industrial que cidades projetadas com base nesse pensamento modernista surgiram no Brasil e no mundo. Dois grandes exemplos de cidade modernistas são Brasília, capital do Brasil, que foi inaugurada no ano de 1960 e atualmente é o centro político do país, tendo quase dois milhões e meio de habitantes, e Chandigarh, que é a capital dos estados de Punjabe e de Haryana, na Índia. A cidade de Chandigarh foi Cidades modernas no mundo4 fundada no ano de 1947, após a divisão do país com o objetivo de servir de capital à porção indiana de Punjabe. Cidade de Brasília Brasília foi inaugurada no dia 21 de abril do ano de 1960 e é Patrimônio Cultural da Humanidade, tendo a maior área urbana inscrita na lista de Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO). De acordo com Buchmann (2002), a ideia de construir uma nova capital para o Brasil surgiu ainda no ano de 1789, em virtude de acharem o Rio de Janeiro muito vulnerável a ataques, por estar situado no litoral. Foi sugerido que a nova capital fosse localizada na região do planalto central. Através da Constituição de 1891, defi ne-se que a Capital deve ser transferia ao Planalto Central do país. Porém, somente no ano de 1955 Juscelino Kubitschek promete, como campanha para ser eleito, construir a nova capital. Assim, no ano de 1956, o então presidente do Brasil anuncia o Concurso Nacional do Plano Piloto da Capital do Brasil, que já estabelecia os contornos do Lago Paranoá, as localizações do aeroporto, do Palácio da Alvorada e do Brasília Palace Hotel. A Figura 1 mostra uma vista aérea de Brasília. Figura 1. Vista aérea de Brasília. Fonte: Wagner Santos de Almeida/Shutterstock.com. 5Cidades modernas no mundo Conforme Buchmann (2002), a ideia da comissão organizadora e julgadora do concurso era que a capital fosse diferente de qualquer outra cidade de 500 mil habitantes (que era a população estimada para habitar esse novo local). O local deveria ser uma cidade funcional, com base nos preceitos da Carta de Atenas, e que fosse a própria expressão da sua arquitetura. Com a principal função governamental, as demais — habitar, trabalhar, recrear e circular — deveriam coexistir e formar um traçado moderno, com as funções integradas de uma maneira racional. Outra exigência da comissão para o novo Plano era que a proposta apresentasse grandeza e unidade, através da hierarquia e clareza de elementos. Deste modo, o plano piloto que melhor integra os elementos monumen- tais na vida cotidiana da cidade como Capital Federal, apresentando composição coerente, racional, de essência urbana, baseado na teoria do urbanismo moderno, é o projeto do arquiteto e urbanista Lucio Costa. Como o urbanismo moderno/funcionalista trata a cidade como máquina, onde o autoritarismo espacial visa um rendimento máximo das funções urbanas, o projeto da cidade moderna de Lucio Costa vai ao encontro também com os anseios do Governo do então presidente Juscelino Ku- bitschek (SABBAG, 2012, p. 60). Sabbag (2012) complementa que essa proposta foi escolhida porque acre- ditaram que a monumentalidade das edificações e a forma do traçado urbano iriam impulsionar a concretização da nova capital. Ainda, além do projeto, foram estabelecidas estratégias para o crescimento da capital para os próximos 40 anos. As principais características modernistas na cidade dizem respeito à setorização extrema e à funcionalidade rígida do traçado. As áreas são definidas em áreas residenciais, administrativa e comercial/serviços. A estrutura hierárquica do Plano evidencia a parte residencial disposta no eixo rodoviário e a parte administrativa e comercial no eixo monumental. Sabbag (2012) destaca que o Plano é resultado do eixo rodoviário, eixo monumental e da plataforma, que é a área que faz a ligação entre os dois eixos e onde se encontra a rodoviária. Segundo o autor, a proposta foi concebida de um gesto que traça dois eixos que se cruzam, formando uma cruz, adaptando o Plano à topografia local, considerando o escoamento das águas e a orientação solar. Na Figura 2, vemos o croqui do projeto do Plano Piloto de Brasília, de 1957. Cidades modernas no mundo6 Figura 2. Croqui do projeto do Plano Piloto de Brasília (1957), em que se observam o eixo monumental (ao centro), com setores de comércio, hotelariae lazer, e as asas nas laterais, compostas pelo setor residencial. Fonte: Sabbag (2012, p. 64). Outra característica marcante da cidade de Brasília é a utilização de quatro escalas, sendo elas: monumental, residencial, gregária e bucólica. A monumen- tal refere-se ao eixo monumental, que se estende desde a Praça dos Poderes até a Praça do Buriti. A escala residencial é representada pelas superquadras das asas norte e sul. A gregária, também chamada como escala de convívio refere-se aos setores comercial, hoteleiro, de diversão, plataforma rodoviária e antenas. Já a escala bucólica é definida pelas grandes áreas verdes presentes e espalhadas por toda a cidade. O eixo rodoviário tem como função a integração da circulação e contém pistas centrais de velocidade e pistas laterais para tráfego local, substituindo as ruas corredor e incorporando sistemas de trevos. A parte administrativa e governamental da cidade é composta pelos centros cívico, cultural, de diversões, de esportes, entre outros. 7Cidades modernas no mundo Conforme Sabbag (2012), a cidade de Brasília é considerada o maior exemplo brasileiro do urbanismo modernista, porque além de apresentar os preceitos dessa vertente, com a separação de funções e setores na ci- dade, e das grandes edificações soltas nos espaços verdes e circulações de dimensões largas, ela apresenta os ideais de integração, desenvolvimento e modernização nacional. Atualmente, Brasília contém mais de 2,5 milhões de habitantes que estão situados, além do Plano Piloto, nas adjacências através de cidades-satélites. Essas cidades, diferentemente da parte central, não foram planejadas e sofrem com diversos problemas relacionados ao seu crescimento desordenado. Cidade de Chandigarh A cidade de Chandigarh, na Índia, cuja planta vemos na Figura 3, é um dos grandes exemplos internacionais de urbanismo moderno. O local foi projetado por Le Corbusier, o maior representante dessa vertente urbanista. A cidade, que fi ca aos pés da Cordilheira do Himalaia, foi totalmente planejada. Segundo Pacca (2016), a proposta de planejamento dessa cidade passou pela mão de diversos profi ssionais até chegar para Le Corbusier. O local foi considerado um grande laboratório para levantar e aplicar conceitos do urbanismo modernista relacionados a densidade, relação entre espaço público e privado, cidade e natureza, circulações, entre outros. O núcleo original da cidade também foi pensado para abrigar 500 mil habitantes, e o traçado, segundo Semin (2012), deu-se através da malha orto- gonal desenhada com base no cardo e no decumano (conceito da morfologia romana), considerando hierarquia de circulações e superquadras. As unidades de vizinhança explicitam os princípios do movimento mo- derno e da nova condição política pós-colonial dos indianos. Os centros comerciais (inner market) são mais atraentes e dinâmicos que em Brasília por terem mais andares com escritórios e com mais ruas internas com estacionamento formando um conjunto muito movimentado por pedestres que percorrem as galerias e as ruelas cheias de árvores (SEMIN, 2012, documento on-line). Cidades modernas no mundo8 Figura 3. Chandigarh, planta da cidade projetada. Fonte: Semin (2012, documento on-line). As edificações projetadas para a cidade também expressam o momento e a ideia do urbanismo, representando um momento de libertação da popu- lação da Índia através da implantação, das proporções e do tratamento das superfícies como, por exemplo, as cores, os volumes, etc. A cidade conta com artérias de circulação muito bem definidas que dão origem às superquadras, e essas são definidas por setores, como por exemplo, comerciais, institucionais, residenciais, entre outros. As áreas verdes contam com enormes canteiros e um paisagismo projetado. Suas superquadras têm dimensões de 800 × 1200 metros, rodeadas por estradas que não dão acesso direto às residências. Cada setor foi pensado para atender às necessidades dos seus habitantes e é composto por faixas verdes para acomodar equipamentos, com tráfego proibido. As estradas são classificadas em algumas categorias, sendo divididas em vias rápidas, arteriais, caminhos de pedestres e ciclovias, entre outros. 9Cidades modernas no mundo Conforme Semin (2012), existem ainda áreas de interesse arquitetônico especial, que contam com uma harmonização e unificação nas construções, além do controle arquitetônico e também do rígido zoneamento. Nas áreas industriais, as indústrias devem ser movidas à eletricidade, para evitar a poluição. A cidade ainda conta com um lago, com o objetivo de promover aos cidadãos o contato com a natureza. O paisagismo foi pensado tendo em vista as espécies da Índia, que foram escolhidas para cada porção, considerando a composição e o esquema de cores para embelezar a cidade. A Figura 4, a seguir, mostra o zoneamento de Chandigarh. Figura 4. Zoneamento de Chandigarh. Fonte: Adaptada de Fiederer (2017). Cidades modernas no mundo10 A duas cidades demonstradas como exemplo são referências no Brasil e no mundo porque foram projetadas levando em conta os princípios do urbanismo modernista e se tornaram um marco para o momento em que foram construídas, de forma a demonstrar novas visões em novas formas de planejar as cidades que até então eram tradicionais. 3 Crítica às cidades modernistas O urbanismo modernista foi referência por trazer novas formas de pensar às cidades e discutir assuntos importantes que até então não eram tão con- siderados. Ainda, esse planejamento permitiu a valorização e destacou a importância e a necessidade de um planejamento urbano para que os centros urbanos pudessem estar adequados à necessidade dos habitantes. Apesar de trazer diversas contribuições, com o passar do tempo seus prin- cípios passaram a ser discutidos e analisados, tendo em vista que tudo pode ser melhorado e evoluído. Dessa maneira, e conforme as novas necessidades da população e também questões mal resolvidas ou problemas que foram surgindo nas cidades modernas, alguns estudiosos e críticos começaram a elaborar novos conceitos e novas formas de planejar as cidades, criticando o urbanismo modernista. Uma das grandes críticas às cidades modernistas, e principalmente ao fun- cionalista, é feita por Henry Lefebvre (2001, p. 185), que afirma que essa ideia trata-se de uma “[...] inteligência analítica”, e que quem determina os setores e suas funções acha-se um expert por acreditar que tudo pode prever e organizar, quando na verdade um centro urbano é muito mais complexo do que isso. Lefebvre (2001) complementa ainda que nesse modelo de cidade as pessoas e as habitações funcionam como se fossem anexos e auxiliares da organiza- ção técnica do trabalho. Dessa forma, esses planos ortogonais e setorizados acabaram dissociando as atividades da cidade, que antes se comportavam de forma orgânica e espontânea. Ele destaca ainda que são as cidades que devem adaptar-se aos moradores, e não o contrário. E ainda que essas questões acabam contribuindo para a segregação social, na medida em que cada classe e cidadão tem o seu lugar específico na cidade. A segregação […] hierarquiza os grupos e classes sociais e desfaz as formas tradicionais de sociabilidade espontânea — cafés, pequenos comércios e as próprias ruas. É, neste sentido, uma força no desenraizamento, na dissociação de vínculos, além de retirar parcelas da população da arena das decisões co- 11Cidades modernas no mundo letivas e excluí-las dos bens socialmente produzidos na cidade. Deste modo, a segregação contribui para instalar no urbano a cotidianidade — o trabalho estranhado, o lazer passivo e a vida privada reclusa — e, com isto, a fragmen- tação interna e externa dos sujeitos, o tédio e a monotonia, características da modernidade capitalista industrial (COLOSSO, 2016, p. 83). Um exemplo de cidade projetada em que Lefebvre (2001) critica ainda mais o urbanismo modernista é Mourenx, localizada nos Pirineus-Atlânticos, que foielaborada para os trabalhadores da indústria de gás natural. Segundo o autor, a cidade é composta por um conjunto de edifícios e torres que alternam as linhas verticais e horizontais da cidade e rompem com a paisagem e com a porção antiga, não estabelecendo qualquer conexão. Com isso, a cidade não contava com algum passado, porque não tinham monumentos, igrejas, cemitérios, e, portanto, não tinha vida urbana, e prevalecia a monotonia e o tédio. Outro ponto criticado pelos estudiosos pós-modernos diz respeito à des- consideração da análise do lugar para a implantação dos planos, na medida em que o urbanismo modernista acreditava que seus princípios seriam os mais adequados para qualquer situação. Com isso, eles não consideravam as espe- cificidades de cada local, o contexto, a vida urbana, a história e os elementos naturais dos sítios. “A ideologia urbanística decorre, em grande medida, do fato de o urbanismo se pretender um saber cujas decisões são estritamente técnicas, portanto, pautadas por um conhecimento científico exato, indepen- dente do solo histórico-social no qual foi erigido” (COLOSSO, 2016, p. 82). Outra grande crítica do urbanismo modernista foi Jane Jacobs, uma jor- nalista norte-americana que escreveu o Livro Morte e Vida das Grandes Cidades (2007), o qual traz diversos aspectos das cidades modernas com os quais ela não concorda. A autora destaca a prevalência do automóvel nas cidades modernas, evidenciando que o pedestre se perde nesse meio de grandes superfícies vazias e superquadras. Em seu livro, Jacobs (2007) critica que uma política urbana voltada para o automóvel e determinada pelo capital despreza os valores sociais e prejudica a moradia, a mobilidade e o lazer, desprezando, acima de tudo, o cidadão. Cidades modernas no mundo12 Nesse sentido, o urbanismo modernista acaba originando cidades que não valorizam a escala humana. Ela complementa que os espaços monumentais e a setorização urbana geram uma monotonia na cidade, originando locais vazios onde as pessoas não vão e nem permanecem. Isso acaba negando a vitalidade e também a interação de funções, negando a diversidade. A autora acredita que as ruas e a calçadas são os espaços vitais de uma cidade, e que a convivência e a integração social se desenrolam por meio desses elementos. Na cidade moderna esses espaços não são pensados para as pessoas, nem com relação à escala e nem com relação aos usos, o que faz com que as cidades se tornem cada vez mais inseguras e tediosas. Para Jacobs (2007), uma cidade deve ser pensada considerando o pedestre, as distâncias caminháveis, a variedade de usos, quarteirões curtos, valorização e conservação de prédios antigos, entre outros elementos. O urbanismo modernista surgiu com uma ótima intenção, que era a de melhorar as condições das cidades existentes, que estavam sofrendo com a desordem e o caos provocados pela revolução industrial. Com ideias inovadoras e diferenciadas, os modernistas demonstraram os problemas das cidades, propondo soluções. Seus planos, muitas vezes utópicos e ilusórios, serviram para demonstrar alternativas e estratégias que melhorariam a salubridade, os congestionamentos, as edificações e a qualidade de vida. Mesmo com todas essas contribuições, na medida em que esse tipo de urbanismo foi sendo aplicado, uma nova vertente passou a discutir essas propostas inovadoras, percebendo os outros problemas que elas causavam, como a falta da sensação de pertencimento na cidade, a insegurança gerada pelos grandes espaços abertos e livres, e também a escala voltada para o automóvel. Assim, críticas a esse movimento surgiram para que o planejamento urbano pudesse evoluir mais uma vez e tornar-se mais adequado às necessidades do período. Tanto Jacobs, como Lefebvre e outros pesquisadores e estudiosos começaram a trazer novos elementos para serem pensados nos planos urbanos, como por exemplo, uma escala voltada para o pedestre, a diversificação de usos, entre outros elementos. De qualquer forma, todos os pensamentos, seja da vertente modernista como da pós-modernista, trouxeram contribuições para o urbanismo e serviram para os estudos e a evolução a respeito da qualidade das cidades. 13Cidades modernas no mundo ABIKO, A. K.; ALMEIDA, M. A. P.; BARREIROS, M. A. F. Urbanismo: história e desenvolvimento. São Paulo: EPUSP, 1995. (Texto técnico TT/PCC/16). Disponível em: http://www.pcc.usp. br/files/text/publications/TT_00016.pdf. Acesso em: 27 jan. 2020. BENEVOLO, L. Histórica da arquitetura moderna. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 2001. BIRKHOLZ, L. B. O ensino do planejamento territorial. 1967. Tese (Provimento de Cátedra) — Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Faculdade de São Paulo, São Paulo, 1967. BUCHMANN, A. J. Lúcio Costa: o inventor da cidade de Brasília — centenário de nasci- mento. Brasília: Thesaurus, 2002. CHOAY, F. O urbanismo: utopias a realidades, uma antologia. São Paulo: Perspectiva, 2007. COLOSSO, P. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 15Cidades modernas no mundo Dica do professor Os conceitos do urbanismo modernista podem ser identificados na cidade de Chandigarh, na Índia. Contudo, eles também foram referências para a criação e o planejamento de outras cidades do mundo. Na Dica do Professor, veja exemplos de cidade que utilizaram alguns dos conceitos do urbanismo moderno, entendendo como ele pode ser aplicado no urbanismo atual. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/460a3f11ae173e4905d5d47b819afb09 Na prática O urbanismo modernista foi marcado por apresentar características distintas do que vinha sendo feito e visto nas cidades tradicionais. Esses princípios puderam ser aplicados em cidades novas e em porções existentes, mas também foram adaptados para contextos e realidades locais. Neste Na Prática, veja como algumas características primárias dourbanismo modernista podem ser adaptadas para o contexto atual do planejamento urbano. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/7b0a8143-67f3-4efc-8909-f9607165f6ec/7824ac9a-34ac-4834-9e5c-a9aba69e08ee.jpg Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Os projetos modernos que alteraram a hidrografia da cidade de Águas de Lindóia Uma das características do urbanismo modernista era negar o contexto e as características da área de intervenção. Isso foi o que ocorreu em Águas de Lindóia, no estado de São Paulo. Veja mais sobre as reformas urbanistas para essa cidade abaixo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. A ‘Brasília indiana’ de Le Corbusier A cidade modernista de Chandigarh, na Índia, representa a ascensão e a consolidação do urbanismo modernista no mundo. Veja mais sobre a cidade e seus elementos nesta matéria. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. A pré-história de Brasília A cidade de Brasília é o maior exemplo de urbanismo moderno do Brasil, e por isso se tornou importante referência também para o mundo. Veja mais sobre seu surgimento neste vídeo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/18.215/6936 https://brasil.elpais.com/brasil/2018/10/30/album/1540903827_900080.html#foto_gal_0 https://www.youtube.com/embed/W3i22-uS2N4 Crítica ao urbanismo moderno Apresentação O urbanismo moderno, criado no início do século XX, foi desenvolvido para resolver os problemas ocasionados pelo grande crescimento das cidades após a revolução industrial. A solução foi a separação das funções e a ligação por vias de alta velocidade. Isso resultou em cidades com pouca vitalidade e espaços aparentemente abandonados. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai ver alguns projetos realizados em Nova Iorque como exemplo de interferências bem e malsucedidas. Além disso, vai conhecer como Jan Gehl e Jane Jacobs, dois críticos de urbanismo, recomendam que seja feito o planejamento urbano. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer os planos para Nova Iorque.• Identificar os geradores de vitalidade.• Comparar espaços que obedeçam ou não às premissas de Jacobs.• Infográfico Nas cidades, os espaços públicos abertos devem oferecer boas condições de conforto aos pedestres, para que as pessoas possam usufruir dos espaços e praticar as atividades essenciais do cotidiano. Além disso, deve-se assegurar que o espaço público seja seguro e prazeroso de se frequentar. No infográfico a seguir, você vai conhecer os critérios de qualidade para a paisagem dos pedestres, de acordo com as premissas do arquiteto e urbanista Jan Gehl. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/25000058-6209-4f32-b305-6842163456af/419953e2-90c3-4616-82de-7b22b1a16ed1.png Conteúdo do livro Desde os anos 1960, a cidade moderna recebeu muitas críticas devido a sua pouca vitalidade no nível do pedestre, que muitas vezes fica desamparado entre grandes edifícios sem conexão com o térreo. Para solucionar este problema, muitos teóricos do urbanismo identificaram os elementos que podem ser os causadores da diversidade nas cidades. No capítulo Crítica ao urbanismo moderno, da obra Estudo da Cidade, você vai ver como Nova Iorque pode servir como exemplo de intervenção bem e malsucedida. Você também vai conhecer o pensamento de dois teóricos do urbanismo, a americana Jane Jacobs e o dinamarquês Jan Gehl, que até hoje estão entre os mais importantes autores na crítica do urbanismo moderno. ESTUDO DA CIDADE Anna Carolina Manfroi Galinatti Crítica ao urbanismo moderno Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer os planos para Nova York. Identificar os geradores de vitalidade. Comparar espaços que obedeçam ou não às premissas de Jacobs. Introdução Durante o início do século XX, acreditava-se que o desenho das cidades deveria focar a distribuição mais eficiente dos usos que seriam ligados por vias veiculares de alta velocidade. No entanto, algumas experiências de cidades modernas falharam ao gerar espaços urbanos onde as pessoas se sentem seguras e confortáveis. Com isso, diversos urbanistas estudaram o que fazia as melhores cidades tão atrativas, criando guias de como agir nessas situações. Neste capítulo, você identificará alguns planos realizados na cidade de Nova York com exemplos de boas e más práticas de urbanismo. Também conhecerá critérios estabelecidos por dois dos mais importantes críticos do urbanismo moderno: Jane Jacobs e Jan Gehl. Com esses saberes, você será capaz de avaliar sua cidade e propor soluções mais qualificadas. 1 Planos urbanos de Nova York Nova York é uma das cidades com maior vitalidade do mundo. Suas ruas são famosas pela animação e pela mistura de povos e costumes durante grande parte do dia. Ao longo dos anos, diversos pesquisadores voltaram sua atenção para o fenômeno da qualidade urbana dessa cidade, que contrasta com a maioria das metrópoles norte-americanas, com base no uso do automóvel. Para compreender como a cidade chegou ao século XXI com essa qualidade, é preciso conhecer um pouco de sua história, além de alguns eventos-chave que moldaram sua evolução urbana. Nova York é dividida em cinco regiões: Bronx, Brooklyn, Queens, Staten Island e Manhattan, que representa o maior interesse para os estudantes de urbanismo devido à sua alta densidade e diversidade tipológica (Figura 1). Figura 1. Mapa de New York. Fonte: Weredragon/Shutterstock.com. A ilha de Manhattan foi a primeira parte da região a ser colonizada, ainda no início do século XVII, por trinta famílias holandesas. Entre elas, estava o engenheiro Cryn Fredericksz, que trazia as instruções de como a cidade deveria ser traçada, seguindo as diretrizes do urbanismo holandês daquele Crítica ao urbanismo moderno2 século, com um forte pentagonal e casas em estilo holandês em volta de um canal artificial, assim como a paisagem de Amsterdã. Dessa tentativa de transportar a cidade europeia para o novo mundo, surgiu o primeiro nome da região: Nova Amsterdã (KOOLHAAS, 2008). Já no século XIX, foi criado o plano que definiria a morfologia urbana da ilha de Manhattan: o Plano dos Comissários de 1811. O projeto definiu a grelha de quadras regulares que dividiria toda a ilha em uma malha de 2028 quarteirões retangulares de 80 m × 274 m. Esse esquema é um dos motivos da grande varie- dade de possibilidades arquitetônicas da ilha de Manhattan e, consequentemente, de sua vitalidade (KOOLHAAS, 2008). O resultado em Manhattan é uma malha homogênea cortada por algumas avenidas diagonais, como a Broadway, e com um parque em seu centro, o Central Park, configurando um grande evento urbanístico na estrutura rígida do Plano dos Comissários (Figura 2). Figura 2. Imagem aérea de Manhattan com destaque para o Central Park. Fonte: TierneyMJ/Shutterstock.com. No século XX, com o crescimento da densidade populacional, princi- palmente, na região Sul da ilha, projetos de infraestrutura urbana e demoli- ções de zonas da cidade foram realizados sob o comando de Robert Moses. As intervenções de Moses focavam a resolução de problemas de tráfego e 3Crítica ao urbanismo moderno remoção de favelas, sob o viés do sanitarismo, que via na limpeza urbana a solução para grande parte dos problemas. Um ponto de inf lexão no trabalho de Moses como Comissário dos Parques de Nova York ocorreu na metade da década de 1950, quando ele propôs a criação de uma via expressarebaixada que passaria pelo meio do Washington Square, uma praça na região universitária do Greenwich Village. Nessa ocasião, uma jornalista residente na área e ativista pela pre- servação da vitalidade urbana chamada Jane Jacobs iniciou uma campanha para evitar a construção da nova via e garantir a manutenção da praça. Em seu livro Morte e vida de grandes cidades, publicado originalmente em 1961, Jacobs (1992) narra os acontecimentos que fizeram com que Moses recuasse e mantivesse o Washington Square Park intocado e as consequências do fechamento do parque para veículos: Todas as medições no volume de veículos em volta do parque desde o seu fechamento não mostram aumento de tráfego; na maioria dos casos, mostra redução. […] Longe de trazer mais problemas de tráfego, o fechamento aliviou os congestionamentos (JACOBS, 1992, p. 362, tradução nossa). Os esforços de Jacobs e seu livro criaram uma geração de planejadores urbanos engajados na preservação da vitalidade dos centros urbanos estabe- lecidos, colocando em segundo plano as intervenções sanitaristas defendidas por planejadores como Moses, que dominaram o discurso urbano na primeira metade do século XX. Atualmente, a cidade de Nova York recebeu uma série de intervenções urbanas pontuais para melhorar o conforto de pedestres e ciclistas, garan- tindo que as ruas tenham sempre pessoas realizando atividades, mantendo a vitalidade e segurança do espaço. Um dos exemplos mais emblemáticos foi o fechamento para veículos da Times Square, o encontro entre a Broadway e a Sétima Avenida, mundialmente famoso pelos letreiros publicitários. O projeto de fechamento da Times Square considerou a instalação de mesas e cadeiras móveis, f loreiras e desenhos no piso, todas intervenções muito simples, mas que tornaram o espaço muito mais atrativo para os pedestres (Figura 3). Crítica ao urbanismo moderno4 Figura 3. Times Square. Fonte: Martin Kovacik/Shutterstock.com. A cidade de Nova York é bastante utilizada como referência em estudos de urbanismo pela sua singularidade: dividida em cinco regiões distintas e com a terceira maior população das américas, ela consegue manter a vitalidade e qualidade espacial ao longo de sua extensão. As zonas com maior densidade, como Manhattan, são provas de que a aglomeração populacional pode gerar situações positivas na vida urbana. 2 Geradores de vitalidade Ao longo da construção e atividade das cidades planejadas do período moderno, foi possível observar o fracasso de algumas diretrizes, como a prioridade dos carros e a setorização do território. A partir dessas observações, alguns autores passaram a interpretar o que, de fato, tornaria uma cidade aprazível. Entre os principais autores, destaca-se Jane Jacobs, jornalista americana, nascida em 1916, reconhecida mundialmente por seu livro Morte e vida de grandes cidades (1961). 5Crítica ao urbanismo moderno Jane Jacobs dedicou-se a observar de forma rigorosa o território urbano e concluiu que a paisagem planejada do modernismo era muito monótona e des- comprometida com a vitalidade e diversidade, tanto estética quanto funcional, que uma cidade exige. A autora também concluiu que o planejamento urbano precisa considerar de forma aprofundada o usuário em si e cada ação dele dentro da cidade para, então, poder oferecer diretrizes e equipamentos que possam tornar o cotidiano mais fácil e agradável. Uma das diretrizes que, segundo a autora, é fundamental para as cidades e para as pessoas é que o próprio ambiente urbano seja responsável por gerar vitalidade (JACOBS, 1992). Assim, a diversidade urbana é um dos principais fatores geradores da vitalidade: A mistura de usos, se for suficientemente complexa para sustentar a segu- rança, contato e usos diversos, deve acomodar uma enorme diversidade de ingredientes. Então, a primeira pergunta […] sobre planejamento urbano é essa: como as cidades podem gerar suficiente mistura de usos — diversidade suficiente — por parte suficiente de seu território para manter sua própria civilidade? (JACOBS, 1992, p. 144, tradução nossa). Didaticamente, a autora lista uma série de condições para a geração de diversidade nos espaços urbanos, sempre utilizando experiências reais obser- vadas por ela para ilustrar o porquê da necessidade de cada condição. Necessidade de usos mistos Para que exista diversidade em um espaço urbano, é preciso que essa zona atenda a mais de um uso. Você já passou por uma rua onde só existiam prédios residenciais? Geralmente, as calçadas fi cam desertas durante toda a manhã e tarde, quando os moradores estão em seus trabalhos. Essa situação só se transforma no início da manhã, quando todos saem, e ao fi nal do dia, no retorno do trabalho. Agora, imagine que exista uma fruteira, uma pequena loja e um sapateiro nessa rua. Algumas pessoas de regiões próximas vão acabar se des- locando para essa rua durante a tarde para consumir nesses estabelecimentos, gerando movimentação na rua em horários diferentes (Figura 4). Em uma das mais icônicas passagens de Morte e vida de grandes cidades, Jacobs (1992) narra o que ela chama de ballet da rua Hudson, mostrando como as crianças saem para a escola, alguns moradores colocam o lixo nas calçadas, o dono da ferragem expõe suas mercadorias na frente da loja e diferentes pessoas vão até a fruteira, em uma sequência contínua de atores realizando seus papéis na calçada e, ao mesmo tempo, gerando vitalidade e aumentando a sensação de segurança. Crítica ao urbanismo moderno6 Figura 4. Greenwich Village (Manhattan). Fonte: Photo Kit/Shutterstock.com. Necessidade de quadras curtas Uma das observações menos óbvias que Jacobs (1992) narra em seu livro é a necessidade de as quadras serem curtas. Segundo ela, quanto menores forem as distâncias entre as esquinas, maior o número de possibilidades de caminhos diferentes que os pedestres podem tomar, aumentando a quantidade de calça- das com pessoas caminhando (JACOBS, 1992). Essa afi rmação fi ca clara ao observar os diagramas apresentados pela autora na defesa de seu argumento, reproduzidos na Figura 5. Observe como, nos dois primeiros exemplos, a maioria das pessoas acaba passando apenas pela avenida vertical, enquanto que, no terceiro exemplo, existe a possibilidade de movimento extra nas ruas 87 e 86. Dessa maneira, essas duas ruas que fi cariam apenas com o tráfego de seus moradores ganham novas oportunidades de animação. Figura 5. Mudança no tráfego conforme o tamanho das quadras. Fonte: Jacobs (1992, p. 179–181). 7Crítica ao urbanismo moderno Necessidade de edifícios antigos Ao misturar edifícios antigos com edifícios novos, é facilitada a instalação de moradores e empresas com diferentes níveis de poder aquisitivo, aumentando a diversidade das pessoas que transitam por suas calçadas e, consequentemente, a vitalidade do espaço. Edifícios novos tendem a ser mais caros do que espaços em edifícios existentes, difi cultando a presença de empresas novas, de famílias com renda mais baixa e de comércio de pequeno porte, todos tipos de usuários que necessitam de custos imobiliários baixos. Necessidade de concentração Para que exista vitalidade, é preciso que exista vida. Parece uma afi rmação óbvia, mas nem sempre foi levado em consideração no planejamento urbano. A maneira de aumentar a concentração de habitantes é pelo controle da den- sidade populacional. Jacobs (1992, p. 201, tradução nossa) demonstra como a densidade poder ser responsável pela vitalidade da seguinte maneira: A relação entre alta densidade e conveniências e outros modos de diversidade é geralmente bem entendida nos centros urbanos. […] Mas a relação entre concentração e diversidade é pouco considerada em distritos onde a moradia é o principal uso. […] Sem a ajuda da concentração de pessoas que moram nessa região, só pode existir poucas conveniências ou diversidade nos locais onde eles habitam e precisam delas. Os princípios de Jacobs (1992) são facilmente adaptados para grandeparte das situações urbanas, uma vez que as quatro condições são simples e exigem poucas mudanças de infraestrutura. Crítica ao urbanismo moderno8 3 Espaços ativos e inativos Muitas críticas ao urbanismo moderno baseiam-se no planejamento do tipo "de cima para baixo" que os arquitetos da primeira metade do século XX defen- diam, no qual um plano abstrato de ruas e quadras era desenhado, e a cidade aconteceria de maneira controlada e paralisada, obedecendo a regras rígidas de distribuição de usos. Segundo Jan Gehl (2010), esse tipo de planejamento levou ao que ele chama de síndrome de Brasília, um efeito negativo desse tipo de projeto no qual edifícios são implantados distantes uns dos outros sem que existam atrativos para os pedestres entre eles, gerando espaços urbanos com pouca vitalidade e, de modo geral, desertos, como você pode ver na Figura 6. Figura 6. Síndrome de Brasília. Fonte: Victor Hugo K F/Shutterstock.com. 9Crítica ao urbanismo moderno Em seu clássico Cidades para pessoas, publicado em 2010, Gehl atribui o fracasso de muitos projetos urbanos modernistas à negligência com a pequena escala em favor da macroescala do desenho das vias. Segundo o dinamarquês, essa é a escala das pessoas: “Essa é a cidade que as pessoas que a usarão vão perceber no nível dos olhos. Não são as grandes linhas das cidades ou o po- sicionamento espetacular de edifícios que são interessantes, mas a qualidade da escala humana, como essa é percebida por pessoas caminhando e paradas na cidade” (GEHL, 2010, p. 195). Para garantir que a pequena escala seja atendida, Gehl (2010) defende que o planejamento urbano seja feito partindo dessa escala e, somente quando ela estiver resolvida, seguir para o desenho das demais dimensões do projeto urbano. O planejamento urbano deve, segundo o autor, obedecer a ordem: vida, espaço e edifícios (Figura 7). Figura 7. Vida, espaço e edifícios. Fonte: Adaptada de Gehl (2019). A criação de espaços ativos no nível dos olhos nas cidades contemporâneas pode ser garantida por uma série de dispositivos de projeto que Gehl (2010) apresenta em seu livro. A seguir, você poderá conhecer alguns exemplos de Crítica ao urbanismo moderno10 estratégias que aumentam as chances de um espaço ter qualidade ao nível do pedestre. A Figura 8 traz exemplos de estratégias simples de desenho que podem tornar um espaço convidativo ou repulsivo para o pedestre. Figura 8. Espaços convidativos e repulsivos. Fonte: Adaptada de Gehl (2010). Seguindo o preceito de vida, espaço e edifícios, é preciso adaptar os edi- fícios — principalmente, os térreos — para que as pessoas se sintam atraídas por aquele espaço. Os espaços convidativos para os pedestres precisam ser combinados com térreos estimulantes que apresentem usos interessantes e não sejam apenas paredes fechadas. Como mostra o Quadro 1, existe uma escala de atratividade de fachadas de térreos que vai desde o ativo até o inativo. 11Crítica ao urbanismo moderno Fonte: Adaptado de Gehl (2010). Ativo: pequenas unidades com muitas portas; bastante variedade de funções; estilos diferentes de fachadas. Amigável: unidades relativamente pequenas; alguma variação de funções; poucas janelas fechadas; bastante detalhes. Uso misto: unidades médias e grandes; variação de uso modesta; poucos detalhes. Entediante: grandes unidades com poucas portas; quase nenhuma variação de função; poucos detalhes. Inativa: grandes unidades, com poucas ou nenhuma porta; sem variação de função identificável; fachadas uniformes, sem detalhes. Quadro 1. Fachadas ativas e inativas Existem muitas críticas à cidade moderna, principalmente, no que tange ao planejamento feito com foco nos veículos automotores e divisão de funções rígida. No entanto, desde a metade do século passado, diversos críticos têm se esforçado para identificar e codificar elementos que possam melhorar a vitalidade de cidades existentes e de novos assentamentos. Crítica ao urbanismo moderno12 GEHL. Disponível em: https://gehlpeople.com/blog/ucsd-envisions-new-college-with- -public-life-as-the-driver/attachment/life-space-buildings/. Acesso em: 28 dez. 2019. GEHL, J. Cidade para pessoas. São Paulo: Perspectiva, 2010. JACOBS, J. The death and life of great american cities. New York: Random House, 1992. KOOLHAAS, R. Nova York delirante. São Paulo: Cosac & Naify, 2008. Os links para sites da Web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 13Crítica ao urbanismo moderno Dica do professor Gentrificação é uma palavra temida por todos os urbanistas por tratar-se do fenômeno da substituição de populações existentes em um local por outra com maior poder aquisitivo, devido ao aumento do custo de vida em uma região. Nesta dica, você vai ver como surgiu a palavra e um exemplo contemporâneo do fenômeno na cidade de Nova Iorque. Além disso, verá que o medo da gentrificação não deve impedir o desenvolvimento das cidades, bastando utilizar ferramentas que mitiguem o efeito. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/6bc1d8d6566b99e7df19edd924000ad6 Na prática Uma das grandes críticas ao urbanismo moderno é o protagonismo dos carros dentro das cidades. Amsterdã, capital da Holanda, foi tão bem sucedida em seus projetos de incentivo ao uso das bicicletas que entrou no século XXI com um problema: a necessidade de infraestrutura específica para o ciclismo. Neste Na Prática, você vai ver os desafios enfrentados e os investimentos feitos pelo governo holandês para garantir que os ciclistas sigam utilizando esse meio de transporte com segurança e conforto. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Jane Jacobs e a humanização da cidade No artigo a seguir, o arquiteto Martín Marcos discorre sobre o trabalho da jornalista Jane Jacobs e a sua relação com a humanização das cidades. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Organização de Nova Iorque No link a seguir, você conhecerá um pouco mais sobre a cidade de Nova Iorque e a sua organização em cinco burgos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Cidade cheia de vida, segura, sustentável e saudável A reportagem a seguir ilustra os princípios defendidos por Jan Gehl no seu livro "Cidade para as Pessoas" e explica o conceito de "cidade viva" criado pelo autor. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://portal.aprendiz.uol.com.br/2018/07/24/jane-jacobs-e-humanizacao-da-cidade/?v=1652556543 https://contramapa.com/2015/10/12/como-e-que-nova-iorque-esta-organizada/?v=2073581068 https://medium.com/des-conex%C3%A3o-crici%C3%BAma/cidade-cheia-de-vida-segura-sustent%C3%A1vel-e-saud%C3%A1vel-49b8aa542ad4 Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural Apresentação As cidades são organismos completos, ocorrendo, nelas, as mais diversas relações – sejam elas sociais, políticas e econômicas, ou de caráter cultural, ambiental, comercial, entre outros. Nesse local, as pessoas podem realizar suas atividades e ter suas rotinas, buscando atender suas necessidades de moradia, lazer, estudo, trabalho e assim por diante. Para que as pessoas possam ter qualidade nos centros urbanos, é imprescindível que elas sejam consultadas sobre o planejamento e as ações de melhoramento, a fim de que essas propostasestejam adequadas aos interesses dos cidadãos. Nesta Unidade de Aprendizagem, você entenderá como ocorreu a participação da população no desenvolvimento das cidades e a importância dessa contribuição para a criação de centros urbanos melhores. Você ainda vai compreender quais são os instrumentos legislativos do Brasil que garantem a atuação dos cidadãos nos processos de planejamento, identificando, também, reflexos dessas participações nas cidades da atualidade. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a importância da participação popular nos processos de urbanização. • Definir os instrumentos de participação popular previstos na legislação brasileira. • Identificar reflexos da participação popular nas cidades.• Infográfico A Lei 10.257, denominada Estatuto da Cidade, foi sancionada, no ano de 2001, com o objetivo de tornar o espaço urbano mais igualitário, por meio da gestão democrática. Gestão essa que ocorre, dentre outros princípios, por meio da participação popular. Neste Infográfico, veja mais sobre o Estatuto da Cidade e os Planos Diretores, que são instrumentos que garantem a participação da população nos processos de planejamento urbano. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/8b561ae5-2e91-4b0e-94da-3d874fce6e2c/2f43ea00-16bb-4540-8d6c-eeb80db2b2ad.jpg Conteúdo do livro A cidade é o organismo de maior representatividade para a vida em sociedade, pois é esse espaço que possibilita as trocas sociais e comerciais, os acordos econômicos, a vida em família, a produção do trabalho e o desenvolvimento. Para que esse local esteja cada vez mais adequado a essas possibilidades, é fundamental que os cidadãos possam dar suas opiniões acerca dos problemas urbanos, discutindo soluções para dar mais qualidade à cidade. No capítulo Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural, da obra Estudo da Cidade, você vai entender a importância da participação popular nos processos de desenvolvimento urbano, identificando os instrumentos que garantem esse direito e as formas em que isso pode acontecer. Ainda, você vai perceber, por meio de alguns exemplos atuais, como a participação popular muda e melhora a realidade das cidades. Boa leitura. ESTUDO DA CIDADE Vanessa Guerini Scopell Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a importância da participação popular nos processos de urbanização. Definir os instrumentos de participação popular previstos na legislação brasileira. Identificar reflexos da participação nas cidades. Introdução O surgimento das cidades está relacionado com questões econômicas e sociais. Com o passar do tempo, esse organismo foi incorporando novas funções, representando a política, a cultura, o conhecimento e outros elementos. Desde o princípio, a população contribui para a evolução dos espaços urbanos, seja de forma orgânica e natural ou por meio de ideias e intenções de alguma parte dos cidadãos, geralmente, aqueles de classe social privilegiada. Para garantir a participação de todos nas decisões sobre as cidades, colaborando com a elaboração de ações de melhoramento, surgiram instrumentos de consulta popular, uma vez que todos têm esse direito, sem exceções. Neste capítulo, você compreenderá a importância da participação popular para os sistemas e processos da cidade, entendendo o motivo pelo qual essa ação é fundamental nos dias de hoje. Identificará os ins- trumentos da legislação brasileira que determinam essa participação, entendendo de que maneira isso pode ocorrer. Também conhecerá algumas iniciativas públicas e privadas que incluem a população na elaboração de propostas de melhoramento, buscando cidades mais justas e igualitárias, onde o direito de todos é garantido. 1 Participação popular nos processos de urbanização Quando se fala sobre o estudo da cidade e a evolução dos centros urbanos, é importante relacionar esses temas à produção do espaço urbanizado para compreender o seu surgimento. Em seus livros, Henri Lefrebvre, David Harvey e Karl Marx escrevem e analisam a produção do espaço urbano, defendendo a ideia de que esse espaço é produzido a partir das relações sociais. Desde o princípio, com o nascimento das primeiras aglomerações urbanas, a partici- pação das pessoas foi fundamental para a organização e o mantimento das cidades, quando as comunidades se fi xaram em porções do território, defi nindo os locais de moradias, convívio, alimentação, entre outros. Com o passar dos anos e conforme essas aglomerações foram adquirindo importância, a vida em sociedade passou por mudanças e, além de espaços para moradias, surgiu a necessidade de áreas comerciais para a troca de produtos, originando as relações econômicas. Para Carlos (1994, p. 14), esse fenômeno está relacionado com questões que vão além da necessidade das pessoas, envolvendo também relações de capital, ressaltando que a produção do espaço urbano é “[…] produto de contradições emergentes do conflito entre as necessidades da reprodução do capital e as necessidades da sociedade como um todo”. Diante da necessidade de espaços mais apropriados para as moradias, para o lazer, para o trabalho, para o comércio e para a política, as cidades passaram a se organizar de forma mais complexa, com alguns responsáveis que detinham o poder e definiam questões relativas ao funcionamento desses locais. Na sociedade grega, segundo Vieira et al. (2013), a cidade estava vinculada a uma forma de governo exercida pelos cidadãos que, conforme Aristóteles, tinham por intuito alcançar uma igualdade social. Assim, o termo política advém desse momento da história e deriva de assembleia de cidadãos, que deve ser parte dos processos do governo. Ao longo dos anos e por meio de diferentes momentos da história, a participação dos cidadãos no desenvolvimento das cidades expressou-se de maneiras distintas. Entretanto, na maior parte do tempo, questões relativas à cidade eram definidas por membros dos governos, que tinham interesses particulares ou que privilegiavam determinadas classes da sociedade, descaracterizando um processo igualitário e democrático. Na cidade do período da Revolução Industrial, por exemplo, Vieira et al. (2013, p. 117) ressaltam que havia uma fala política, pois a dita democracia era marcada pelo patrimonialismo e individualismo, “[…] cujas origens remetem ao Renascimento, quando as classes emergentes perceberam que seu envolvimento na política poderia lhes proporcionar vantagens na seguridade de seus patrimônios”. Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural2 Com isso, surgiram políticas centralizadoras, em que a individualidade permaneceu sobre as intenções públicas, enfatizando ainda mais a segregação social. Nos anos de 1930, as ideias do urbanismo modernista buscavam uma sociedade mais igualitária a partir da padronização arquitetônica, que visava proporcionar igualdade. Segundo Holston (1993), por meio da Carta de Ate- nas, que foi o documento que traçou os princípios do urbanismo modernista, a cidade poderia ser organizada e projetada de acordo com as necessidades humanas universais do século XX, visando às quatro funções: trabalhar, habitar, locomover-se e recrear. Conforme Oliveira Filho (2009, p. 123): […] este conceito recebeu fácil aceitação pelo Estado, especialmente no caso brasileiro, graças ao intenso conteúdo técnico que ganhou alcance mundial, havendo uma renovação jurídica e política pela forma inovadora destes pro- jetos, que respondia à racionalidade dominante naquele momento histórico. Contudo, mesmo que a intenção de urbanismo igualitário do modernismo tenha sido interessante, essa vertente urbanística conformou-sede uma ma- neira muito engessada, e a gestão continuou autoritária, o que desfavoreceu a participação popular nas ações de planejamentos urbano. No Brasil, importante expoente mundial do Modernismo, essa vertente se expressa em um período que o interesse do país voltou-se ao ambiente urba- no (não mais rural), havendo forte concordância com as políticas nacionais. Esses projetos reformadores eram regidos por meio de planos, zoneamentos, leis de ocupação e ordenação do solo e que, por isso, tinham um respaldo jurídico complexo. A concordância desses projetos com a política resultou na supervalorização dos planos diretores, sem o entendimento do que esse instrumento realmente era pela maior parte da população, bem como pelos técnicos e gestores municipais (VIEIRA et al., 2013, p. 117). Esses planos foram submetidos a interesses imobiliários, sem comprometi- mento com todas as classes sociais. Essa falta de engajamento desmobilizou a população, que não encontrava representatividade ou resultados políticos. As leis de zoneamento, por exemplo, apesar de serem desenvolvidas com bastante rigor, ignoravam as questões de ilegalidade de moradias, comuns em muitas cidades brasileiras, excluindo a porção da população que convivia com esse problema. Vieira et al. (2013) ressaltam que as primeiras críticas à qualidade dos espa- ços das cidades no mundo iniciaram por volta dos anos de 1960, fortalecendo-se em 1970, fomentando o debate sobre novos conceitos de planejamento urbano que incluíssem a participação popular em 1980. Rolnik (2006) acrescenta que os anos de 1990 foram marcados por muitos avanços relacionados à moradia e 3Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural ao direito à cidade, discutindo o importante papel dos cidadãos na gestão dos espaços. O movimento se fortaleceu por meio da participação da população nos orçamentos, programas de autogestão, conselhos gestores, entre outros. Os anos de 1990 foram marcados por muitos avanços no direito à moradia e em seu fortalecimento jurídico, bem como no direito à cidade, com debates partindo da sociedade civil acerca do papel dos cidadãos na gestão, com a reestruturação de um movimento pela reforma urbana e pela constituição de um fórum. Esse movimento se fortaleceu, havendo a participação popular em orçamentos, conselhos gestores e programas de autogestão de forma efetiva em diversos municípios, não restrita ao campo parlamentar. Nesse momento em que a participação popular era discutida e implementada no Brasil, em países mais industrializados, como na Europa, já surgiam linhas de pensamento buscando um planejamento urbano colaborativo, incluindo a população por meio de discussões e ações colaborativas acerca da organização das cidades. Torres (2009) destaca que o modelo de planejamento colaborativo se caracterizava pela criação de relações e pelo compartilhamento de conhecimentos entre diferentes agentes da população, a fim de criar argumentos para confrontar e resolver situações emblemáticas nas cidades, priorizando sempre o diálogo, buscando soluções comuns e compartilhadas (VIEIRA et al., 2013). Diante dessa explanação, é possível perceber que a cidade é caracterizada por um conjunto indissociável de elementos, de sistemas, de objetos e de ações. Por isso, esses locais necessitam da interação das pessoas e de suas contribuições para adquirir funcionalidade. Assim, a cidade se comporta como um território onde ocorrem acontecimentos econômicos, sociais, políticos e culturais, diretamente ligados ao espaço construído, responsáveis pelas mudanças e pela evolução desses locais, seja pela relação de poder nas comunidades, pelas trocas, pelas apropriações ou até mesmo pelo domínio de áreas da cidade. Assim, não existe uma cidade sem a participação da população, seja ela planejada e requerida ou desenvolvida de modo orgânico, afinal os espaços são produzidos por meio da expressão dos povos e influenciam diretamente a reprodução da sociedade. Para Lefebvre (2008, p. 26), o espaço como produto de uma sociedade é “[…] um modo e um instrumento, um meio e uma mediação. […] O espaço é um instrumento político intencionalmente manipulado, mesmo se a intenção Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural4 se dissimula sob as aparências coerentes da figura espacial”. Isso quer dizer que, quando analisamos um espaço que é produto das ações de pessoas sobre determinada área, podemos tirar dessa análise conclusões sobre como as pessoas se sentem em relação àquela porção da cidade. Soja (1993, p. 38) acrescenta ainda que: O espaço social e político tornou-se cada vez mais reconhecido como uma força material (e não material, isto é, ideológico) influente, ordenando e re- ordenando as próprias relações sociais produtivas. Longe de ser um reflexo passivo, incidental, um “espelho”, a espacialidade tornou-se ativa como uma estrutura concreta e repositório de contradições e conflitos, um campo de luta e estratégia política. As relações sociais e espaciais, a divisão social e espa- cial do trabalho, a práxis social e espacial estão deste modo interativamente engajadas e concatenadas, ao invés de reduzidas a simples gênese-reflexo, causa inicial e efeito subsequente. Assim, a produção dos espaços urbanos é contínua e acontece por meio da ordenação das coisas, a partir das necessidades das pessoas, o espaço é “[…] visto como um receptáculo no qual o mundo avança, mas também como coproduto dos processos, ressaltando a importância de se entender o espaço como construção da sociedade e que consequentemente tem influência sobre esta” (THRIFT, 2007, apud SILVA, 2010, p. 29). Lefebvre (2008) ressalta também que o espaço urbano tem papel ativo e passivo com relação à reprodução da sociedade. Pode ser considerado passivo porque está em segundo plano, tendo em vista as relações sociais que ocorrem nesses espaços. Também pode ser considerado um local ativo por exercer forte papel no cotidiano da sociedade. Apesar de a população sempre estar presente no desenvolvimento das cidades, dando formas e gerando apropriações em espaços, a discussão sobre o planeja- mento urbano e sobre a participação efetiva de todos só foi confirmada a partir da criação do Estatuto da Cidade. Trata-se da Lei nº. 10.257, de julho de 2001 (BRASIL, 2001), que regulamenta os artigos 182 e 183 da Constituição Federal, estabelecendo diretrizes gerais da política urbana, entre outras providências. Klink (2011, apud VIEIRA et al., 2013, p. 118) ressalta que “[…] a inclusão de um modelo de construção através da participação, conforme o Estatuto da Cidade exige, já após o ano 2000, tendo como princípio a ideia de rompimento com as estruturas de poder vigente produtoras das lógicas de segregação socioespacial”. Com esse instrumento e essa legalização, a participação da população nos processos da cidade passou a ser regulamentada, coerente e exigida para fo- mentar os avanços e o desenvolvimento necessários ao meio urbano e voltados 5Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural às carências e aos problemas dos cidadãos. Quando a população participa dos processos, ela dá sua voz para as ações, demonstrando suas opiniões e permi- tindo que o planejamento urbano esteja adequado a todas as classes e situações. 2 Instrumentos de participação popular da legislação brasileira O planejamento pode ser compreendido como a “[…] ação de preparar um trabalho, ou um objetivo, de forma sistemática, ou efeito de planejar, de ela- borar um plano” (DICIO, c2020, documento on-line). Quando relacionado às cidades, o planejamento refere-se à organização de atividades para o seu melhoramento. O planejamento urbano, portanto, permite que a cidade possa ser pensada sob diversos aspectos que gerem qualidade de vida e melhorem o espaço urbano. Para isso, é fundamental que a população esteja engajada na elaboração das ações de planejamento urbano, tendo em vista que essa açãoé realizada para o melhoramento da vida nas cidades. Para planejar, é preciso um vasto estudo sobre os diferentes contextos, áreas e realidades de cada região. Atualmente, as cidades brasileiras ainda são reflexo da falta de organização e de planos específicos de crescimento, e seu tecido urbano é o resultado da vinda da população rural para a cidade, que não tinha estrutura para receber tantas pessoas. Com o advento da industrialização no país e com o êxodo rural, as cidades tiverem que se adequar ao aumento da população de forma muito rápida, e isso ocasionou diversos problemas de infraestrutura, saneamento e densidades. O planejamento urbano no Brasil é uma atividade recente cuja necessidade pas- sou a se fazer sentir com intensidade cada vez maior nas últimas décadas sob o impacto do crescimento rápido e desordenado das nossas cidades. Com efeito, em consequência do crescimento econômico e físico e da industrialização, as cidades brasileiras perderam o caráter de organismo dotado de funções urbanas diferen- ciadas e específicas, capazes de satisfazer a uma ampla gama de necessidades, para se transformarem nos aglomerados uniformemente caóticos e congestionados que todos nós conhecemos (OLIVEIRA; BOLAFFI, 1970, p. 155). Todo o debate sobre a importância e necessidade do planejamento urbano aliado à participação popular resultou na inclusão dos artigos 182 e 183, que tratam da política urbana na Constituição Federal de 1988, com o objetivo de “[…] ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade” (BRASIL, 1988, documento on-line). Com isso, a Constituição evidenciou Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural6 que o Plano Diretor é o principal instrumento para o desenvolvimento e para a expansão das cidades, e que os municípios são os atores principais dessa política de gestão urbana, devendo sempre considerar a opinião da população. Somente a partir do ano de 2001, com a implementação do Estatuto da Cidade, é que o planejamento urbano passou a ser valorizado em políticas urbanas e, com isso, sofreu algumas mudanças significativas. O Estatuto da Cidade é o nome dado à Lei Federal nº 10.257 (BRASIL, 2001). Em seu art. 2º, ele ressalta que a política urbana tem como objetivo principal o desenvolvimento das fun- ções sociais da cidade e também da propriedade urbana por meio de algumas diretrizes gerais, como a “[…] gestão democrática por meio da participação da população e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade na formulação, execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano” (BRASIL, 2001, documento on-line). Esse artigo ressalta também a necessidade de se promover audiências com a população interessada nos processos de implantação de empreendimentos ou atividades com efeitos potencialmente negativos sobre o meio ambiente natural ou construído. Esse Estatuto foi criado com o intuito de democratizar a gestão das cidades no país, exigindo que os municípios com mais de vinte mil habitantes tenham um Plano Diretor que normatize e especifique as áreas e ações futuras para a cidade (BRASIL, 2001). Os Planos Diretores, que são instrumentos do Estatuto da Cidade, há alguns anos, passaram a regulamentar e normatizar usos e índices. Assim, a ação de planejar a cidade fica assegurada por esse documento, que configura um planejamento municipal com orientações e normativas. Villaça (1999, p. 238) acrescenta que o Plano Diretor refere-se a: […] um diagnóstico científico da realidade física, social, econômica, política e administrativa da cidade, […] apresentando um conjunto de propostas para o futuro desenvolvimento socioeconômico e futura organização espacial dos usos do solo urbano, das redes de infraestrutura e de elementos fundamentais da estrutura urbana, […]. Nos processos de elaboração dos Planos Diretores, conforme dita o art. 40 do Estatuto da Cidade, os Poderes Legislativo e Executivo garantirão: I – a promoção de audiências públicas e debates com a participação da popu- lação e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade; II – a publicidade quanto aos documentos e informações produzidos; III – o acesso de qualquer interessado aos documentos e informações produ- zidos (BRASIL, 2001, documento on-line). 7Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural Ainda, para garantir a gestão democrática da cidade, deverão ser utilizados os seguintes instrumentos: órgãos colegiados de política urbana, em níveis nacional, estadual e municipal; debates, audiências e consultas públicas; conferências sobre assuntos de interesse urbano, em níveis nacional, estadual e municipal; iniciativa popular de projeto de lei e de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano. É imprescindível que a população seja consultada nas fases de elaboração do Plano, bem como na proposição de projetos urbanos ou qualquer ação de melhoramento, seja para toda a cidade ou para porções e áreas específicas. O art. 44 do Estatuto da Cidade ainda complementa, evidenciando que a realização dos debates, a promoção das audiências e as consultas públicas sobre as diretrizes orçamentarias, plano plurianual e orçamento anual são fundamentais para a sua aprovação da Câmara Municipal (BRASIL, 2001). Assim: [...] os organismos gestores das regiões metropolitanas e aglomerações urbanas incluirão obrigatória e significativa participação da população e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade, de modo a garantir o controle direto de suas atividades e o pleno exercício da cidadania (BRASIL, 2001, documento on-line). O melhor modo de tratar das questões urbanas é com a participação de todos os cidadãos interessados. Segundo Clark (1985, p. 37), “[...] a imagem que o indivíduo tem da cidade determina se ela é amada ou odiada, e onde dentro dela, ou se em alguma outra parte, ele escolherá para morar, comprar, traba- lhar e passear.” [...] As análises sobre a percepção do ambiente resultam em informações mais confiáveis e legítimas para proposições futuras em relação à melhoria da qualidade ambiental, ou seja, as propostas estarão mais próxi- mas das expectativas daqueles que vivenciam os problemas dos lugares e que utilizam o ambiente projetado, pois, eles estarão participando ativamente do que será planejado (ABRANCHES, 2013, p. 5). Compreender a importância das especificidades de cada região e comuni- dade, considerar a participação efetiva da população, promovendo encontros para que sua voz seja ouvida e, acima de tudo, considerada efetivamente nos processos de projeto garantirá que o planejamento urbano atue nos pontos principais de cada contexto, garantindo a melhora dos espaços. Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural8 3 Reflexos da participação popular nas cidades O processo de produção do espaço urbano não é homogêneo, mas fragmentado e articulado de acordo com as necessidades. Da mesma forma, a produção do espaço urbano é desigual, pois refl ete as ações de cada grupo social em detrimento a uma área. De acordo com Carlos (1994, apud SILVA, 2010, p. 41), “[...] cada sociedade produz e reproduz sua existência de modo determinado, deixando no espaço as marcas de suas características históricas específi cas”. Os instrumentos reguladores que exigem a participação popular nos processos de planejamento da cidade têm por intuito permitir que todos possam ser ouvidos, evitando que a produção do espaço urbano seja voltada para apenas alguns privilegiados. É importante destacar que o Estado deve se impor no sentido da ação de planejar, evitando conflitos e benefícios a privilegiados, mas isso não significa que essa tarefa represente uma hierarquia de poder sob os demais agentes. O Estado tem papel fundamental na produção dos espaços, pois ele decide por quê, quando, como e onde intervir, considerando também a opinião dos cidadãos, semprelevando em conta a distribuição igual dos benefícios e áreas, assim como dos investimentos. Afinal, os espaços urbanos são a garantia da manutenção da vida, do solo como moradia e fonte de riqueza, portanto, possui um valor importante para as cidades, devendo ser gerido de maneira eficaz e apropriada. Nem sempre o Estado estará inserido nas ações de melhoramento, isso pode acontecer por meio de iniciativas privadas que, apesar de não haver obrigatoriedade da participação da população nessas ações, já percebeu a necessidade de ouvir os principais interessados. Um bom exemplo é a inicia- tiva de se projetar um conjunto de casas impressas em 3D (GRACE, 2019), elaborado pela organização filantrópica New Story (Figura 1). Atualmente, a organização está realizando testes no México, mas já en- tregou mais de 2.500 casas em pelo menos quatro países. A ideia é utilizar a ferramenta para solucionar a falta de moradia digna, oferecendo abrigo seguro. Para isso, a empresa realiza o projeto com base nas características e realidade de cada local. Depois, realiza testes com a participação da população para compreender o que pode ser melhorado. Só assim, por meio da opinião e da colaboração da população beneficiada, é que eles prosseguem com o projeto, compartilhando a ideia (GRACE, 2019). 9Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural Figura 1. Projeto de moradias impressas em 3D no México. Fonte: Perez (2019). O projeto “O coque que queremos” é outro exemplo de como a comunidade pode ser engajada nos processos e demonstrar suas vontades para o melhoramento das cidades (COURB BRASIL, 2019a). A ideia partiu de um trabalho de conclusão de curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal de Pernambuco, a fim de engajar os moradores para discutir melhorias para os espaços públicos da comunidade. O trabalho contou com o apoio de duas instituições que promovem projetos sociais e foi realizado a partir de debates e colagens. A intenção é partir para a execução das propostas elaboradas com a participação dos moradores (Figura 2). Figura 2. Projeto com participação popular em Pernambuco. Fonte: Courb Brasil (2019b). Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural10 A proposta do Coletivo Massapê, em Olinda, foi engajar a população para a realização do projeto “Meu bairro brincante” (COURB BRASIL, 2019a). A ideia era pensar o espaço público para as crianças, envolvendo-as em todas as fases do processo, que consistiram na realização de oficinas buscando as ideias de professores, crianças e cuidadores, a validação do projeto junto aos moradores, a realização de mutirões para a construção e a pintura do local, além da celebração do local pronto. A última etapa buscou avaliar tanto o processo de criação e elaboração da proposta quanto os resultados da sua execução (Figura 3). Figura 3. Revitalização de espaço público com base na partici- pação popular em Olinda. Fonte: Courb Brasil (2019c). O “Transforma Brasília” é outro exemplo de projeto que conta com a cola- boração da população, que busca ser agente ativo na construção de soluções para os problemas atuais da cidade (COURB BRASIL, 2019a). No projeto, a premissa é compreender de forma empática as necessidades das pessoas, buscando uma alternativa em que prevaleça o equilíbrio entre o que é desejável e o que pode ser executável no aspecto financeiro. No ano de 2013, a cidade de São Paulo convocou sua população para par- ticipar da revisão de seu Plano Diretor Estratégico, buscando sugestões por meio do mapeamento colaborativo. Com isso, as pessoas puderam participar de três maneiras diferentes: 11Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural por meio do mapeamento colaborativo, em que se pode apontar dire- tamente no mapa municipal os locais que apresentam deficiências e propor soluções para os problemas identificados; por meio do Formulário de Propostas, em que as pessoas puderam contribuir para o Plano Diretor Estratégico com um enxuto texto que aponta as carências e propõe alguma intervenção; por meio da agenda de atividades, cujo objetivo foi levantar propostas e contribuições em oficinas realizadas nas 31 Subprefeituras. Com base nesses exemplos, é possível afirmar que a participação da população em ações de planejamento urbano é imprescindível para que essas propostas de fato contribuíam para gerar uma melhor qualidade de vida aos seus moradores. A participação pode ocorrer de diferentes maneiras, seja por meio de ideias, debates, discussões, desenhos, entrevistas, encontros ou qualquer outra maneira em que as pessoas se sintam importantes e inseridas no processo. Buscar a opinião e a participação das comunidades permite que cada um se sinta parte do projeto e com isso se envolva mais, ajude a realizar e a manter, entendendo que o que será realizado é para um bem comum e maior. Com isso, nota-se que o planejamento urbano está diretamente relacionado à produção do espaço urbano, e a atividade de planejar tem o poder de induzir, limitar e direcionar investimentos, opções e usos de forma distribuída por todo o território da cidade, de maneira a evitar ao máximo as desigualdades sociais, muitas vezes, intensificadas pela influência dos agentes nos órgãos públicos e na sociedade em geral. O planejamento urbano deve entrar e se impor, a fim de organizar as políticas, analisar situações e viabilizar o que for do interesse de todos, ou da grande maioria, afinal, o espaço público é um bem comum da sociedade. Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural12 ABRANCHES, M. Controle social e planejamento urbano participativo: o mapeamento dos problemas da cidade pelos seus diversos atores. In: SIMPÓSIO MINEIRO DE ASSISTENTES SOCIAIS, 3., 2013, Belo Horizonte. Anais [...]. Belo Horizonte, MG: CRESS-MG, 2013. Disponível em: https://www.cress-mg.org.br/arquivos/simposio/CONTROLE%20SOCIAL%20E%20 PLANEJAMENTO%20URBANO%20PARTICIPATIVO%20O%20MAPEAMENTO%20DOS%20 PROBLEMAS%20DA%20CIDADE%20PELOS%20SEUS%20DIVERSOS.pdf. Acesso em: 04 fev. 2020. BRASIL. Presidência da República. Casa Civil. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988. Brasília, DF, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/ constituicao.htm. 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Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 15Estudo da cidade como fato econômico, político, social e cultural Dica do professor Quando a população participa dos processos e das ações de planejamento urbano, ela contribui para que a gestão democrática do solo aconteça. Assim, garante que ocorra uma justa distribuição de benefícios e investimentos nas áreas da cidade. Na Dica do Professor, veja a importância da participação popular nos processos de urbanização. Também, entenda como isso pode ocorrer por meio do urbanismo tático. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/84cc6770f7ff811df01afa0df0947ae1 Na prática Quando a população se engaja em ações urbanas, elas se tornam mais adequadas às necessidades dos próprios cidadãos. Além disso, a participação possibilita uma melhor relação com o espaço urbano, permitindo a convivência em sociedade. Na Prática, veja como é possível envolver a população local em uma proposta de melhoria de um assentamento precário. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Participação Popular e Plano Diretor Para que o Plano Diretor seja elaborado e esteja adequado as necessidades dos cidadãos, é preciso que os mesmo contribuam com suas ideias através da participação popular. Neste artigo, leia mais sobre o assunto. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Instrumentos de promoção da participação popular Buscar alternativas para facilitar a participação dos cidadãos nas decisões das cidades é importante para que esse direito se torne cada vez mais presente. Veja uma ideia nesta matéria. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. http://www.ucs.br/etc/revistas/index.php/direitoambiental/article/view/4322/3219 https://www.archdaily.com.br/br/897115/plataforma-inovadora-e-gratuita-de-participacao-popular-deve-ser-usada-em-cidades-brasileiras?ad_source=search&ad_medium=search_result_all Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas Apresentação A forma das cidades sofreu diversas alterações ao longo dos anos, se modificou e foi responsável por novas paisagens urbanas. Essas formas influenciaram diretamente a vida nas cidades e a qualidade de habitabilidade desses locais, por isso o estudo delas é fundamental para a melhoria das localidades. Após a Revolução Industrial e o surgimento de problemas de salubridade nos centros urbanos, nasceram movimentos e urbanistas que tinham por intuito entender melhor os processos e elaborar os planos de reformas. A grande figura desse momento foi Le Corbusier que, por meio da Carta de Atena, introduziu um urbanismo diferente para a época. Nesta Unidade de Aprendizagem, você entenderá quem foi Le Corbusier e do que se trata a Carta de Atenas, além de compreender a sua origem e as suas diretrizes principais. Também estudará as críticas dos urbanistas modernos às cidades industriais e a importância e a superação desse movimento. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer as diretrizes da Carta de Atenas, de Le Corbusier.• Identificar os precedentes criticados pelos modernistas.• Entender a superação e a importância do movimento moderno.• Infográfico Os urbanistas modernistas foram estudiosos da cidade industrial, porque viam nela muitos problemas e tinham por objetivo criar melhores condições de vida nesses centros urbanos, garantindo a qualidade e o bem-estar da população. O pensadores e estudiosos modernistas, que se reuniram no Congresso Internacional de Arquitetura Moderna no ano de 1933, desenvolveram críticas referente aos principais aspectos das cidades naquele período, a fim de embasarem suas visões e opiniões sobre um novo urbanismo. No Infográfico a seguir, veja as principais críticas desse urbanismo às cidades do momento pós- industrialque serviram para a consolidação das visões modernas sobre as cidades. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Conteúdo do livro A morfologia urbana é importante por vários fatores, mas principalmente para compreender a evolução das cidades e também porque a forma dos espaços urbanos acaba influenciando diretamente a vida e a qualidade urbana. Esse assunto passou por um aprofundamento após a Revolução Industrial, adquirindo grande importância nos Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna, que discutiram profundamente o tema trazendo novas estratégias para o melhoramento das cidades. Nesse momento, o arquiteto e urbanista Le Corbusier foi um personagem importante, que trouxe novas visões sobre o tema e oficializou essas alternativas por meio da Carta de Atena, no ano de 1933. No Capítulo Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas, da obra Estudo da Cidade, você vai entender esse momento do estudo do urbanismo, as visões e a influência de Le Corbusier e da Carta de Atenas, bem como as críticas que os urbanistas modernistas teceram sobre a cidade desse momento. Boa leitura. ESTUDO DA CIDADE Vanessa Guerini Scopell Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer as diretrizes da Carta de Atenas, de Le Corbusier. Identificar os precedentes criticados pelos modernistas. Demonstrar a superação do movimento moderno. Introdução O desenvolvimento dos centros urbanos passou por diversos estágios e estudos, recebendo contribuições de todos os momentos da história e das sociedades. Em virtude da Revolução Industrial e dos problemas oriundos da urbanização acelerada, do aumento populacional e da falta de infraestrutura urbana, estudiosos do século XIX passaram a analisar e estudar as cidades com o intuito de melhorar suas condições de vida, proporcionando mais qualidade à população. Nesse contexto, surgiu o pensamento modernista de urbanismo, e um dos grandes marcos desse momento histórico foi a Carta de Atenas, bem como a atuação de Le Corbusier como urbanista. Neste capítulo, você estudará o momento da história e os motivos que levaram à criação dos congressos de arquitetura, entendendo o que foi a Carta de Atenas e suas diretrizes, bem como a importância de Le Corbusier para as novas visões sobre as cidades. Também identificará as críticas que os urbanistas modernistas teceram sobre as condições das cidades daquele momento, demonstrando a sua superação com relação aos estudos e às análises realizadas nesse período. 1 Carta de Atenas A partir dos problemas ocasionados nas cidades pelos efeitos da Revolução Industrial, surgiram diversos planos e reformas de estudiosos e urbanistas para melhorar os aspectos dos centros urbanos e tentar resolver seus problemas. Como exemplo, tem-se o denominado urbanismo moderno, que surgiu após esse momento industrial. O movimento, segundo Castelnou (2013), surgiu paralelamente a uma evolu- ção tecnológica, em que se consolidaram os princípios do urbanismo moderno e do funcionalismo. Os problemas de moradia, nesse início do século XX, tornaram-se bastante preocupantes em muitos países da Europa. Porções da população das cidades não tinham casa e, com o aumento do preço dos materiais de construção, foi necessária a intervenção do governo para assegurar um local de moradia para as classes mais baixas. Para melhorar a situação, o governo contribuiu por meio de créditos concedidos às associações particulares ou da construção de alojamentos por iniciativa das entidades públicas que, na maioria das vezes, localizavam-se em regiões insalubres, próximas às fábricas (Figura 1). Figura 1. Proposta urbanística para um distrito em Viena (1911). Fonte: Castelnou (2013, documento on-line). Diante desse contexto, as iniciativas públicas controlavam a maior parte das construções nas cidades e, conforme destaca Castelnou (2013), nesse momento, começaram a surgir também leis e planos de regulação do crescimento e do uso do solo, mesmo que com pouca intensidade e de forma gradual. Segundo o autor, a Inglaterra foi o país pioneiro na elaboração desses planos, enquanto Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas2 os outros países da Europa só começaram a se preocupar com esses aspectos décadas mais tarde. Nesse período, surgiu o denominado urbanismo moderno, amadurecendo ideias que buscavam alternativas para as cidades burguesas, estudando e conside- rando o urbano a partir da sua decomposição. Esse urbanismo buscava também discutir temas importantes para o melhoramento e desenvolvimento da cidade, elaborando alternativas para que a qualidade desses locais fosse aumentada. Como exemplos de primeiros urbanistas desse momento pós-Revolução Industrial, pode-se citar Camillo Sitte e Ebenezer Howard, que trouxeram algumas ideias de melhoramento para as cidades. Entretanto, com a ascensão do movimento moderno, foi Le Corbusier que se destacou como personagem principal, um dos nomes mais importantes desse tipo de urbanismo. Corbusier foi um arquiteto, urbanista, escultor e pintor, considerado um grande talento do século XX. Suas ideias revolucionaram a forma de pensar a arquitetura e de considerar os aspectos de estética e funcionalidade. Assim, o urbanista foi o responsável pelos princípios do urbanismo raciona- lista, que considerava aspectos quantitativos da cidade e defendia a eficiência e a densidade demográfica. Segundo Castelnou (2013), os fundamentos desse urbanismo eram: melhorar as demandas de circulação, descongestionando o centro; aumentar a densidade do centro, facilitando as comunicações e os negócios; mudar a concepção original da rua para que ela possa atender a mais tipos de transportes; aumentar a área de superfícies verdes para assegurar a higiene e a salubridade nas cidades. Esses ideais foram consagrados por meio da realização do 4º CIAM, ou Congresso Internacional de Arquitetura Moderna, realizado no ano de 1933. Segundo Gurgel (2019), esse Congresso, com o tema “cidade funcional”, deu origem à Carta de Atenas, um marco para o urbanismo moderno e para a evolução e os estudos sobre as cidades. A Carta de Atenas traz, inicialmente, diversas observações sobre as condições das cidades e os seus problemas, discutindo-os em pontos como lazer, circulação, transportes, entre outros. Os participantes ponderaram sobre os critérios levados por Le Corbusier, examinando 33 cidades do mundo, com o objetivo de abordar a experiência individual de 33 arquitetos e urbanistas. Foi considerado, até aquele momento, o Congresso mais abrangente do ponto de vista urbanístico. 3Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas A Carta fez uma análise das condições das cidades da época, elencando aspectos que deveriam ser respeitados para o seu melhoramento. Ao final, concluiu que o Estado é o responsável por garantir a supremacia dos interesses coletivos sobre os privados e individuais, assegurando que “[…] a violência dos interesses privados provoca um desastroso desequilíbrio entre o ímpeto das forças econômicas, de um lado e, de outro, a fraqueza do controle admi- nistrativo e a imponente solidariedade social” (CARTA de Atenas, 1933, p. 28). Ainda, a Carta determina que a medida natural do homem deve servir como base para escalas relacionadas à vida e às funções da cidade. Escala das medidas, que se aplicarão às superfícies ou às distâncias; escala das distâncias, que serão consideradas em sua relação com o ritmo natural do homem; escalas dos horários, que devem ser determinados considerando-se o trajeto cotidiano do sol (CARTA de Atenas, 1933, p. 28). A Carta complementa que as chaves do urbanismo estão em quatro funções principais: habitar, trabalhar, recrear e circular. No item habitar, a Carta de Atenas ressalta que é preciso, primeiramente, assegurar moradias sustentáveisaos cidadãos, ou seja, edificações com o espaço adequado, o ar puro e tam- bém a insolação essencial. No trabalho, o documento afirma que eles sejam organizados, sem representar uma tarefa penosa, mas retomando o seu caráter de atividade humana natural. Para a atividade de recrear, deve-se prever ins- talações que possam ser utilizadas pelos cidadãos para que passem suas horas de folga, que sejam espaços que tragam benefícios e conexões entre o cidadão e a natureza. Já a ação de circular deve ser resolvida com base na criação de redes de circulação que assegurem as trocas, respeitando as prerrogativas de cada um. Foram essas diretrizes que inspiraram planos ideais para as cidades, com o intuito de melhorar as condições de vida, gerando maior qualidade nos espaços urbanos do século XX. Como exemplo do surgimento desses pontos da Carta de Atenas de 1933, pode-se citar a Cidade Radiante, ou Ville Radieuse (seu nome original). Trata-se de um plano urbano não construído, elaborado e apresentado por Le Corbu- sier no ano de 1924 (Figura 2). A ideia desse plano era proporcionar meios eficientes de transporte, abundância de espaços verdes e luz solar para que os habitantes tivessem uma qualidade de vida melhor. O plano tem como base a ordem, a padronização e a simetria e foi pensado para ser construído em áreas de cidades ou cidades inteiras destruídas pela guerra. O autor do projeto propunha edificações altas, densas e idênticas, organi- zadas a partir de uma malha cartesiana e locadas soltas em grandes espaços Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas4 verdes. O plano ainda demonstra claramente o conceito do zoneamento, divi- dindo e segregando a cidade em áreas determinadas a partir de suas funções, evitando a mistura e a diversidade. O setor de negócios contava com grandes arranha-céus, com 200 metros de altura, que tinham capacidade para abrigar de cinco a oito mil pessoas, localizados no centro da cidade. As áreas habitacionais eram compostas por apartamento pré-fabricados, com altura de 50 metros e capacidade para abrigar em torno de 2.700 moradores. Os blocos eram espaçados com dimensões que permitiam a luz e a ventilação natural por meio de parques. Nos pavimentos térreos, estariam as áreas de uso comum. Figura 2. Projeto da Cidade Radiante para Meux. Fonte: Panerai, Castex e Depaulo (2013, p. 146). Conforme Panerai, Castex e Depaule (2013), o plano da cidade representa claramente a obsessão pela ordem, materializando um controle total do arqui- teto sobre o espaço urbano. Os autores ainda afirmam que Le Corbusier não respeita o meio rural, reduzindo a cidade a alguns monumentos importantes, à sua arquitetura e ao seu aspecto monumental. O zoneamento, elemento fundamental nesse plano e no urbanismo modernista, é visto por eles como a maior segregação, expondo a incapacidade da arquitetura em atender várias funções com uma única forma. Algumas críticas de Panerai, Castex e Depaule 5Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas (2013) em relação à ideia da Cidade Radiante de Le Corbusier representam o posicionamento de outros estudiosos, que passaram a analisar os princípios da Carta de Atenas e do urbanismo modernista discutindo os ideais propostos para as cidades, trazendo novos questionamentos e alternativas para o melhoramento dos espaços e demonstrando algumas incongruências desse movimento. 2 Críticas do urbanismo modernista O movimento moderno e o urbanismo racionalista surgiram com o intuito de melhorar a realidade das cidades, que estavam apresentando cada vez mais problemas. A Carta de Atenas, formulada no ano de 1933, cita diversas observações sobre o estado crítico das cidades naquele período. Entre as situações criticadas pelos modernistas, pode-se citar a alta den- sidade nos núcleos históricos das cidades e também em porções de expansão industrial, que contavam com até 1.500 habitantes por hectare. Essa situação se agravava porque, além da insuficiência de superfície habitável por pessoa, as edificações tinham poucas aberturas para o exterior, não recebiam luz solar, não tinham um sistema de esgoto ou contavam com um sistema ineficiente, o que acabava colaborando para a proliferação de doenças. Nos setores urbanos congestionados, as condições de habitação são nefastas pela falta de espaço suficiente destinado à moradia, pela falta de superfí- cies verdes disponíveis, pela falta, enfim, de conservação das construções (exploração baseada na especulação). Estado de coisas ainda agravado pela presença de uma população com padrão de vida muito baixo, incapaz de adotar, por si mesma, medidas defensivas (a mortalidade atinge até vinte por cento) (CARTA de Atenas, 1933, p. 6). Os cortiços, já com a sua pouca infraestrutura, tinham sua miséria pro- longada pelas partes externas que eram constituídas por ruas estreitas e sombrias, sem qualquer área verde livre que pudesse oferecer oxigênio e ar puro à população. A crítica do movimento advinha não só da falta de espaços verdes disponíveis, mas por conta da tomada do espaço verde pelas edificações que cresciam progressivamente sobre essas porções. Segundo a crítica da Carta, “[…] esse afastamento cada vez maior dos elementos naturais Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas6 aumenta proporcionalmente a desordem higiênica” (CARTA de Atenas, 1933, p. 7). Os congressistas complementam que essa falta de elementos naturais cria uma atmosfera insalubre tanto para o corpo quanto para a mente. Além disso, os bairros com mais população estavam localizados em zonas muito desfavorecidas, próximos a encostas e áreas invadidas por nevoeiros, gases das indústrias, passíveis de inundações. Essas condições não asseguravam proteção ao habitante, desrespeitando as condições mínimas de habitabilidade. Isso acontecia, principalmente, em bairros de operários, o que colocava a vida desses trabalhadores em risco. Já as classes mais ricas ocupavam áreas privilegiadas da cidade, com construções arejadas, próximas a locais bonitos como mares, lagos e montes, com vistas para espaços graciosos, privilegiando a perspectiva paisagística e com insolação em abundância. A distribuição dos pobres em zonas mais afastadas com poucas condições de habitualidade e dos ricos em áreas privilegiadas das cidades era reavaliada por meio do zoneamento, ou seja, “[…] a operação feita sobre um plano de cidade com o objetivo de atribuir a cada função e a cada indivíduo seu justo lugar” (CARTA de Atenas, 1933, p. 8). Essa condição evitava que a cidade fosse acessível a todos, uma vez que as condições justas de distribuição das terras estavam diretamente ligadas ao poder aquisitivo. Outro precedente criticado pelo movimento moderno diz respeito ao ali- nhamento tradicional das habitações que, por estarem encostadas nas ruas, não recebiam a insolação adequada. Ainda, a locação dos equipamentos de uso coletivo nas cidades foi fortemente criticada, alegando que a maioria deles se encontrava muito distante das habitações, além da negação dos subúrbios, que não tinham qualquer planejamento ou ligação com o restante da cidade. A Carta de Atenas (1933, p. 11) traz que “[...] frequentemente os subúrbios nada mais são do que uma aglomeração de barracos onde a infraestrutura indispensável dificilmente é rentável”. As críticas às cidades existentes são relacionadas a todos os problemas de falta de planejamento que resultam na má qualidade de vida. Todas estão voltadas à ocupação da edificação no lote, à carência de áreas verdes e ele- mentos naturais, bem como à precariedade de sistemas. Assim, o urbanismo modernista pretende elaborar planos para melhorar todas essas questões e mudar a maneira de organização das cidades. 7Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas Os Congressos Internacionais de Arquitetura Moderna (CIAMs) foram fundados em 1928, na Suíça, por 28 arquitetos — entre eles, Le Corbusier. Esses congressos tinhampor objetivo avançar nas discussões sobre a arquitetura vista como uma arte social. Assim, os CIAMs foram responsáveis por pesquisas e discussões inéditas até aquele momento, revolucionado a forma de pensar o social, o estético e o cultural desse período (CASTELNOU, 2013). 3 Superação do movimento moderno O movimento moderno foi considerado revolucionário por representar um marco para a evolução das cidades, além de introduzir a atividade de pensar e analisar os espaços urbanos, demonstrando a importância dessa ação para o meio urbano. A evolução do movimento moderno está ligada aos CIAMs que, a cada ano, traziam debates e novidades ao estudo das cidades. Os CIAMs eram de proveniência francesa, e toda a sua documentação estava em francês. Durante e após a Segunda Guerra Mundial, os aliados ocidentais impuseram o inglês como língua internacional, e a arquitetura e a arte que, ao final da década de 1940, giravam em torno de Paris debilitaram-se. Assim, os debates arquitetônicos passaram a ser proferidos em inglês (SPELLMAN; UNGLAUB, 2004). A Declaração do Habitat foi um dos aspectos que demonstrou a superação desse movimento. Essa declaração foi produzida nos anos de 1950 por parte dos integrantes do Team 10. Segundo Ramos (2013), Team 10 foi o nome dado ao grupo de jovens arquitetos encarregados de organizar o X CIAM. Essa decla- ração encerra um momento de manifestos que expressavam ideias e propostas de urbanismo geradas ao longo de anos durante outros CIAMs, trazendo o conceito de habitat e o entendimento sobre a importância do ambiente como fatores determinantes da arquitetura e também da cidade. Essa declaração, além de seu conteúdo e de sua discussão inovadora, destacou-se também por algumas outras particularidades que diferenciavam esse manifesto daqueles tradicionais anteriores. Conforme Ramos (2013), a primeira particularidade deu-se pelo fato de que o documento foi escrito em inglês, com o intuito principal de quebrar o domínio francês da estrutura dos Congressos, que permaneceu entre a primeira e a segunda geração de urbanistas. A segunda particularidade foi a introdução de um termo latino Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas8 demonstrado ainda por Le Corbusier no VIII CIAM, “[…] assim, o docu- mento servia aos interesses de vários grupos que de fato eram antagônicos, o que o transformava num “cavalo de Troia” plantado às portas do X CIAM” (RAMOS, 2013, p. 161). A terceira particularidade é que esse manifesto tinha duas versões, a De- claração do Habitat e o Manifesto de Doorn. Mesmo diferentes com relação à sua forma, os dois documentos têm textos muito parecidos: a Declaração apresenta quatro pontos principais, e o Manifesto, oito. Ambos os documentos trazem esclarecimentos dos membros do Team 10 referentes à construção do ambiente humano, que vai desde a casa até a cidade. Eles afirmavam ainda que o modelo de casa depende do ambiente (MUMFORD, 2000). Para validar essa afirmação, os integrantes do Team 10 adaptaram um diagrama do urbanista escocês Patrick Geddes com diferentes agrupamentos humanos em diversos estágios de produção, relacionando-os com o seu meio ambiente. Com isso, os integrantes do Team 10 “[…] imaginaram uma nova organização do diagrama, que apresenta a casa rural, vinculada à produção agrícola, passando pela vila pré-industrial até a cidade industrial, que era a maior conquista da civilização e ficava no eixo do vale” (RAMOS, 2013, p. 162). Esse estudo permitiu que uma nova visão do urbanismo fosse concebida, na medida em que se vincula ao estudo da cidade, relacionado aos diferen- tes graus de complexidade e considerando diferentes realidades. Todos os congressos e discussões levantadas nos CIAMs foram fundamentais para o surgimento de novas maneiras de se pensar as cidades. Um desses exemplos foi o movimento New Urbanism, que conectou algumas ideias do Team 10 a novos pensamentos. Conforme destaca Andrade, Domeneghini e Morando (2013), o New Urba- nism surgiu nos Estados Unidos, no século XX, por iniciativa de um grupo de urbanistas, a fim de responder à suburbanização e ao espraiamento americano, além de integrar o usuário com a cidade. Esse movimento resultou em um documento denominado Carta do Novo Urbanismo Norte-americano, com pontos relacionados à preservação do patrimônio e de todo o meio urbano, considerando tanto as áreas construídas como as áreas naturais. O documento datado do ano de 1996, serviu como referência para os profissionais arquitetos e urbanistas que pretendiam requalificar o meio am- biente ou relacionar porções da cidade à sua área global, buscando também integrar as periferias que estavam presentes nas cidades e se conformavam como porções isoladas no território. “Todavia, o novo urbanismo não deve ser confundido com um estilo de projetar, nem com uma metodologia oriunda de um projeto urbano sustentável. O novo urbanismo busca a adequação de 9Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas projetos arquitetônicos de forma integrada ao meio natural ou urbano onde está inserido” (ANDRADE; DOMENEGHINI; MORANDO, 2013, p. 2). O movimento teve como influência os ideais modernistas porque buscava as áreas verdes e livres, porém em uma escala mais adequada aos pedestres, evitando dispersões exageradas no território (Figura 3). Macedo (2007) res- salta que essa vertente prioriza o equilíbrio entre as construções, para que possam atender às necessidades humanas e ao ambiente natural, buscando a preservação do patrimônio histórico e também a participação da comunidade na gestão sobre as áreas dos bairros. O New Urbanism era imbuído de grande reflexão sobre os espaços e bus- cava compreender a sociedade em seus mais variados âmbitos a fim de propor projetos coerentes para cada área, “[…] pensando no desenvolvimento que esta terá, preparando-a com uma infraestrutura para acomodar um aumento populacional que esta possa receber” (ANDRADE; DOMENEGHINI; MO- RANDO, 2013, p. 3). Ascher (2010) complementa que o novo urbanismo pode ser compreendido como uma forma de gestão estratégica das cidades, para reduzir as incertezas sobre o futuro e marcar uma aceleração no mercado econômico. Assim, a Carta do Novo Urbanismo pode ser entendida a partir de alguns pontos principais (LUCCHESE, 2008): facilidade para pedestres, a partir da simplificação de caminhos e da criação de vias rápidas; conectividade entre os bairros da cidade, por meio dos transportes públicos e outras alternativas; uso misto e diversidade, a fim de melhorar o aproveitamento dos espa- ços, evitando setorização e áreas isoladas, facilitando o atendimento às necessidades dos usuários sem precisar de grandes deslocamentos; diversificação de moradias, para facilitar a interação entre as diferentes classes sociais, permitindo a criação de vínculos; qualidade do projeto arquitetônico e urbanístico, por meio da análise do contexto e previsão do futuro; estrutura tradicional de bairro, com quadras tradicionais, projetos de vizi- nhança, diversos tipos de funções e desenvolvimento de forma equilibrada; aumento da densidade e diminuição dos espaços; transporte público ambientalmente adequado, sem interferir no trânsito e prejudicar o fluxo; princípios sustentáveis com reutilização da água, resíduos, iluminação, entre outros; busca pelo bem-estar e pela qualidade de vida dos usuários das cidades. Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas10 Figura 3. Monumentos, arquitetura, circulações e jardins adequados à escala do pedestre. Fonte: Tiesdell (2016, documento on-line). O objetivo era trabalhar todos esses princípios isoladamente ou em con- junto, buscando novas formas de melhorar a vida nas cidades. Dessa maneira, é possível perceber que o movimento moderno foi um precursor no que diz respeito à reflexão sobre os espaços das cidades, demonstrando a importância de conceber novas visões e entender o quanto o espaçourbano influencia a vida das pessoas. Esse movimento foi, de certa forma, revolucionário, porque demonstrou ideias diferenciadas e, muitas vezes, utópicas, mas que tiveram uma função como referência para questionamentos e debates, além de proporcionar o surgimento de novos pensamentos e vertentes. ANDRADE, G. M.; DOMENEGHINI, J.; MORANDO, J. P. S. K. Princípios do novo urbanismo no desenvolvimento de bairros sustentáveis brasileiros. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE CONSTRUÇÕES SUSTENTÁVEIS, 2., 2013, Passo Fundo. Anais [...]. Passo Fundo, RS: IMED, 2013. Disponível em: https://www.imed.edu.br/Uploads/Princ%C3%ADpios%20 do%20Novo%20Urbanismo%20no%20desenvolvimento%20de%20bairros%20 sustent%C3%A1veis%20brasileiros.pdf. Acesso em: 20 jan. 2020. ASCHER, F. Os novos princípios do urbanismo. São Paulo: Romano Guerra, 2010. (Coleção RG bolso, 4). 11Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas Os links para sites da Web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. CARTA de Atenas. 1933. Disponível em: http://portal.iphan.gov.br/uploads/ckfinder/ arquivos/Carta%20de%20Atenas%201933.pdf. Acesso em: 20 jan. 2020. CASTELNOU, A. Urbanismo moderno. 2013. 1 apresentação em powerpoint. Disponí- vel em: http://istoecidade.weebly.com/uploads/3/0/2/0/3020261/ta447_aula13a.pdf. Acesso em: 20 jan. 2020. GURGEL, A. P. Carta de Atenas: os aportes do urbanismo modernista. 2019. (Apostila de Curso — Disciplina de Arquitetura e Urbanismo da Sociedade Industrial, Depar- tamento de Teoria e História em Arquitetura e Urbanismo, Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de Brasília). Disponível em: https://aprender.ead.unb. br/pluginfile.php/204238/mod_resource/content/1/CARTA%20DE%20ATENAS.pdf. Acesso em: 20 jan. 2020. LUCCHESE, C. O novo urbanismo. 2008. Disponível em: https://theurbanearth.wordpress. com/2008/06/05/sala-de-leitura-o-novo-urbanismo-the-new-urbanism/. Acesso em: 20 jan. 2020. MACEDO, A. C. A carta do novo urbanismo norte-americano. Arquitextos, ano 7, n. 082.03, mar. 2007. Disponível em: https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arqui- textos/07.082/262. 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Estudo das formas urbanas: Le Corbusier e a Carta de Atenas12 Dica do professor A Carta de Atenas foi um documento importante formulado no ano de 1933 que trouxe novas visões sobre as cidade e o urbanismo do período após a Revolução Industrial, demonstrando novos conceitos e formas de pensar a cidade. Assista ao vídeo da Dica do Professor e perceba como esses temas foram fundamentais para o estudo do urbanismo, das teorias, dos instrumentos e dos documentos atuais. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/f17acd9548f3263bd5d41264410a199b Na prática O movimento moderno foi importante porque trouxe uma nova visão para o urbanismo, por meio da introdução de temas, análises do espaço e diversos documentos que demonstram sua superação na criação de ideias para aquele momento. O New Urbanismo foi um movimento que usou como base alguns dos preceitos modernistas, incorporando outros e evoluindo. Neste Na Prática, veja mais sobre esse movimento. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/4566cfee-9bcf-4afc-bb30-90883cc4af06/f4f4c54d-edc7-4e4f-840d-82123ee89f71.jpg Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Os 5 pontos da arquitetura moderna por Le Corbusier Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. La città ideale As ideias que originaram ao urbanismo modernista surgiram a partir da ideia utópica de criação de cidade perfeitas. Leia uma matéria que trata desse assunto. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Da antiga à nova Carta de Atenas - em busca de um paradigma espacial de sustentabilidade Nas últimas décadas surge a emergente necessidade da incorporação da sustentabilidade na sociedade e em sua formação. Leia nesse artigo o que a Nova Carta de Atenas sugere para que se atenda a essa necessidade. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.archademy.com.br/blog/5-pontos-da-arquitetura-moderna/ https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/20.234/7569 https://pdfs.semanticscholar.org/8974/dcf78e99e6afcbcbebc3d7fbbf9626a44ace.pdf Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX Apresentação A Revolução Industrial foi extremamente importante para os avanços das cidades, pois ocasionou uma imigração populacional em massa e um consequente caos urbano – com edificações insalubres, inexistência de sistemas de esgoto e água e condições precárias de moradia. Porém, essas transformações negativas trouxeram reflexões e impulsionaram o estudo do urbanismo, de modo que ele fosse repensado com o intuito de gerar maior qualidade de vida para a população. Nesta Unidade de Aprendizagem, você entenderá como eram as cidades no período da Revolução Industrial, objetivando compreender as principais características e o contexto histórico dessa revolução. Você também identificará quais foram as grandes reformas desse período, que surgiram com o intuito de melhorar a realidade das cidades, além de assimilar as críticas sobre o urbanismo higienista. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a cidade da Revolução Industrial.• Identificar as grandes reformas do século XIX.• Demonstrar as críticas ao modelo higienista.• Infográfico As cidades na Revolução Industrial foram marcadas por acontecimentos que influenciaram diretamente vários aspectos da vida urbana, pois esse período foi um grande divisor de águas na história da humanidade e também na história do urbanismo. Neste Infográfico, veja algumas características das cidades antes e depois da Revolução Industrial, buscando compreender esse importante momento de transição urbana. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/e4e3cd76-e95c-4979-94f4-25959f93b9cd/22cadab0-be08-46b9-a674-a723e76f0b02.png Conteúdo do livro Os espaços urbanos nas grandes cidades foram se transformando e se adequando às necessidades da população. No caso das cidades da Revolução Industrial, elas não estavam adequadas para receber a população do campo, as fábricas e as novas condições de vida urbana, o que ocasionou conflitos sociais agravados pela falta de infraestrutura e planejamento urbano. Nesse momento, percebeu-se a necessidade de organizaros centros urbanos para torná-los apropriados, proporcionando maior qualidade de vida para a população residente. No Capítulo Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX, da disciplina Estudo da Cidade, você vai compreender as grandes mudanças ocasionadas pela Revolução Industrial em seus mais diversos aspectos, entendendo como esse momento gerou o caos urbano e a necessidade de repensar profundamente a organização das cidades. Você também vai identificar algumas reformas propostas nesse período, assimilando conceitos sobre o urbanismo higienista e as críticas feitas a esse pensamento. Boa leitura. ESTUDO DA CIDADE Vanessa Guerini Scopell Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a cidade da Revolução Industrial. Identificar as grandes reformas do século XIX. Demonstrar as críticas ao modelo higienista. Introdução As cidades foram evoluindo com o passar dos anos e conforme as con- tribuições de cada civilização em seu momento da história. Assim, os espaços urbanos adquiriram importância e se tornaram grandes núcleos estruturadores dos avanços e das tecnologias. A Revolução Industrial foi um marco para a história do mundo e das cidades em seus mais diversos aspectos, e as transformações desse momento resultaram em muitos problemas urbanos pelo fato de que as cidades não estavam preparadas para todos esses avanços. Neste capítulo, você compreenderá o que foi a Revolução Industrial e como esse momento da história influenciou a vida das cidades. Também identificará as mudanças ocasionadas pelo industrialismo e as grandes re- formas que surgiram nesse período com o intuito de melhorar as cidades. Além disso, entenderá o urbanismo higienista e as críticas a esse pensamento. 1 Cidade da Revolução Industrial O processo de urbanização das cidades acompanhou a própria evolução da sociedade, crescendo junto com as civilizações em cada um dos seus momentos. Cada comunidade, ao longo dos anos, a partir de suas necessidades de criar e organizar espaços adequados para as suas funções de descanso, alimentação e higiene, foi percebendo e aprimorando técnicas construtivas e ideias que resultaram em diversos tipos e estilos de cidades. Todas as cidades e modelos de urbanização sempre estiveram diretamente ligadas ao contexto histórico de cada momento. Assim, o urbanismo foi se desenvolvendo por meio da ordenação das cidades, dos sistemas de esgoto e abastecimento de água, da organização das quadras e da delimitação das vias de circulação. Desde o período neolítico, de quando datam as primeiras aglomerações que se assemelham às atuais cidades, as comunidades se organizavam com o objetivo comercial e também para se protegerem contra os inimigos. As primeiras civilizações que evoluíram o conceito de cidade, organizando esses espaços como os centros da vida política, social e econômica, foram a grega e a romana. Os gregos, por meio de suas cidades-estados, possuíam uma organização própria, além de uma independência nos aspectos social, político e econômico. Já os romanos eram mais práticos e técnicos, e suas cidades já apresentavam sistemas de abastecimento de água e de esgoto (ALBUQUER- QUE, 2017). Além disso, suas cidades eram planejadas de forma ortogonal, ligadas às vias pavimentadas. Com o passar dos anos, as cidades medievais, desenvolvidas entre os séculos V e XV, destacaram-se na evolução do urbanismo. Segundo Silva (c2020), essas cidades surgiram em virtude da fragmentação do Império Romano no Ocidente, passando por um longo período de invasões e destruições. Por conta disso, muitas pessoas se abrigaram nas zonas rurais. Aos poucos, os espaços foram se reconstituindo e se desenvolvendo. Somente a partir do século XI que surgiram inovações técnicas, como a adoção do arado animal e a rota- ção das colheitas, que permitiram o desenvolvimento agrário e o aumento populacional. Esse aumento da população ocorreu pelo fortalecimento das produções e também das trocas, melhorando a economia. Para Araújo (c2020), com o renascimento das cidades e as relações de comércio estabelecidas, o feudalismo (sistema de comércio controlado pelo Estado e por alguns nobres) passou a ser substituído pelo capitalismo (sistema econômico que se caracteriza pela propriedade privada dos meios de produção e pela liberdade de iniciativa dos próprios cidadãos), provocando grandes mudanças na sociedade e nas cidades. A Revolução Industrial foi um dos marcos do urbanismo, pois, por meio dela, a população das cidades aumentou consideravelmente, resultando em diversos problemas urbanos. Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX2 A maioria das cidades do mundo, após a ascensão do feudalismo, eram pe- quenas em termos de população, sendo que em 1500, existiam somente apro- ximadamente duas dúzias de cidades com mais do que cem mil habitantes. Em 1700, este número era pouco menor do que quarenta, um número que pularia para 300 em 1900, graças à Revolução Industrial (ARAÚJO, c2020, documento on-line). A Revolução Industrial, ao final do século XVIII, ocasionou mudanças na Europa e depois em cidades de outras regiões do mundo. As cidades passaram a concentrar as atividades econômicas, voltadas para a acumulação de capital, buscando o lucro. Nesse período, surgiram as máquinas a vapor e os teares mecânicos, impulsionando a vinda da população do campo para a cidade em busca do emprego assalariado. Entre os principais aspectos da cidade da Revolução Industrial (Figura 1), pode-se citar o aumento da população, que passou a se espalhar pela área da cidade, redistribuindo os habitantes no território urbano, a ampliação da oferta de bens e serviços, o desenvolvimento dos meios de comunicação, além da rapidez com relação às transformações da paisagem urbana. Nesse período, houve uma tendência para o pensamento político ligado ao desenvolvimento do liberalismo econômico e, conforme Choay (1965, p. 4), “[...] uma nova ordem é criada, segundo o processo tradicional de adaptação da cidade à sociedade que nela habita”. Figura 1. Paisagem da cidade industrial. Fonte: Benevolo (1983, p. 553). 3Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX Benevolo (1983) ressalta que, nesse período, houve a ruptura da morfolo- gia da cidade tradicional através de uma nova estrutura urbana que passou a dividir o núcleo central da cidade e a periferia. As classes mais abastadas passaram a ocupar as periferias da cidade, onde tinham um território livre, enquanto os mais pobres foram morar no centro, em edificações mais velhas. Diante dessa nova realidade, a homogeneidade social e arquitetônica presente na cidade antiga foi se perdendo. Com o avanço da indústria e diante da pouca infraestrutura das cidades, que não estavam preparadas para receber tantos moradores, diversos outros problemas foram surgindo (Figura 2). De acordo com Benevolo (1983), os bairros mais pobres começaram a surgir em locais inadequados, e as casas dos operários das fábricas não tinham condições e qualidade de habitabilidade. Com isso, a cidade desse momento era caracterizada por um espaço bastante desordenado e insalubre, propagando doenças e epidemias que atingiam todos os grupos sociais da época. Figura 2. Gravura representando a desordem da cidade industrial. Fonte: Benevolo (1983, p. 554). Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX4 Este processo de crescimento transforma os núcleos estabelecidos das cidades existentes num novo organismo e cria, consequentemente, em redor deste nú- cleo central, uma nova faixa construída: a periferia. Sendo que o núcleo central das cidades já tem uma estrutura formada, não se torna possível albergar um aglomerado humano muito maior: as ruas são demasiado estreitas para conter o trânsito em aumento, as casas são demasiado pequenas e compactas para hospedarsem inconvenientes uma população mais densa. Assim, as classes privilegiadas estabelecem-se gradualmente nestas periferias, longe das zonas comerciais e industriais, do caos das fábricas e das condições miseráveis vividas pelo resto da população (FONSECA, 2010, p. 35). Engels (1979) descreve que as cidades desse momento baseavam-se em ruas estreitas e tortuosas, as casas eram velhas, situadas em locais com pouca higiene, além de as circulações serem estreitas para se chegar a vielas e pátios. As casas e demais edificações eram locadas de forma amontoada, sem áreas livres, com pouca ventilação e iluminação natural e desprovidas de rede de esgoto. A partir desse momento, ocorreram diversas inovações nas cidades, que precisaram se adequar para atender às grandes populações. Com isso, começou a se pensar sobre urbanismo e planejamento das cidades, a fim de estudar e melhorar os centros urbanos para que pudessem atender com qualidade os habitantes. Além disso, a fim de melhorar as cidades, surgiram diversos planos urbanísticos, que acreditavam que serviriam como referência para uma cidade ideal. Nenhum deles, naquele momento, consolidou-se como a solução para todos os problemas, mas eles serviram para demonstrar como o urbanismo era importante para o desenvolvimento das cidades. O início da Revolução Industrial ocorreu na Inglaterra, no século XVIII — apelidado como Século das Luzes por surgirem ideias iluministas e a primeira máquina a vapor. A Revolução se expandiu e ganhou força no século XIX, apresentando não apenas um caráter comercial, mas também influenciando a agricultura, as ideias sociais e econômicas e os meios de transporte e comunicação. Nesse momento, nasceram doutrinas que constituíram a base ideológica desse movimento, com o intuito de um desenvolvimento industrial e capitalista e de uma subdivisão do trabalho. Pode-se afirmar que a Revolução Industrial foi um conjunto de transformações em todos os setores da economia que firmaram o sistema capitalista, tornando-o dominante (FONSECA, 2010). 5Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX 2 Grandes reformas do século XIX A Revolução Industrial mexeu com todos os sistemas das cidades, ocasio- nando rápidas transformações, sem o cuidado e a organização adequados. Não somente as edifi cações sofreram com essas mudanças, mas o sistema de transporte também demandava reformas. A industrialização, segundo Fonseca (2010), dependia do transporte das mercadorias tanto para a aquisição de matéria-prima, como para a distribuição do produto fi nal. Assim, o desen- volvimento dos meios de transporte também ditou a organização territorial e a dimensão do industrialismo. Diante da nova realidade ocasionada pela Revolução Industrial, surgiu a necessidade de estudar as cidades e pensá-las de forma organizada por meio do planejamento urbano. De acordo com Fonseca (2010, p. 23), “[...] o planejamento das cidades começou assim por ser um conjunto de experiências urbanísticas e medidas interventivas que trouxessem alguma ordem ao caos instaurado nos núcleos industriais formados nas grandes cidades”. O planeja- mento urbano é um instrumento de organização das cidades, seja no âmbito físico-territorial, social, ambiental ou habitacional. Tem sua preocupação em analisar, sob diversos aspectos, a realidade das cidades a fim de melhorar o seu funcionamento. Diante dessa realidade e da preocupação em melhorar as cidades, surgiram algumas ideias, já em meados do século XIX, para torná-las mais salubres, que incluíam um trabalho de demolições e obras de saneamento básico. Conforme destaca Fonseca (2010), além das reinvindicações dos sindicatos, surgiram algumas iniciativas privadas para o melhoramento das cidades. Entre os pensamentos para a reforma dos centros urbanos, algumas ideias de urbanismo tiveram destaque, como as descritas a seguir. Urbanismo culturalista: a partir das cidades-jardim de Ebenezer Howard (Figura 3), baseava-se em uma forma urbana diferenciada, rompendo a concep- ção urbana existente. Esse modelo consistia em unidades urbanas autônomas, com atividades econômicas e equipamentos coletivos, mas com um número limitado de área e de habitantes. Tinha em sua forma o objetivo de estabelecer uma relação entre campo e cidade, aproveitando as vantagens de cada um e excluindo suas desvantagens. O modelo integrava: Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX6 […] núcleos de seis cidades-jardim ligadas entre si e à cidade central. O seu conjunto formaria a chamada ‘Cidade Social’. O esquema feito para a cidade assume uma estrutura radial, sendo composto por seis grandes boulevards que cruzam a estrutura territorial desde o centro até a periferia, dividindo-a em seis partes iguais (FONSECA, 2010, p. 41). Essa porção era dividida em setores, interligados por vias. Figura 3. Esquema da cidade-jardim. Fonte: Fonseca (2010, p. 41). Urbanismo progressista: seus representantes tinham como base a crença do progresso e a busca absoluta pelo comportamento racional. Seu modelo referia-se ao urbanismo com espaços abertos e grandes áreas livres, a fi m de melhorar a higiene do local. O espaço urbano era traçado conforme setores e funções, de forma organizada e regular. Esse modelo recusa qualquer he- rança artística, desconsiderando a parte existente das cidades e sua história, submetendo-se a leis geométricas e edifi cações defi nidas e padronizadas. 7Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX Urbanismo higienista: baseava-se em ações sanitárias para combater as epidemias, tratar os aspectos de pobreza e levar a limpeza para as cidades, por meio de um desejo utópico de progresso. Com isso, defendiam um modelo de cidade que nega sua identidade e sua beleza, privilegiando-se de formas que escondem a realidade social. Das grandes reformas ocorridas no século XIX, duas cidades são bons exemplos de um pensamento higienista: Barcelona, na Espanha, e Paris, no território francês. Em Paris, capital da França, o projeto urbanístico para melhorar a salubridade do espaço urbano contou, segundo Oliveira Sobrinho (2013), com a ideia de modernidade vinculada à modificação da paisagem urbana existente. A reforma de Paris teve como base a “[…] negação dos pobres, a higienização dos espaços públicos e o sonho de limpeza e disciplinamento das condições de vida dos mais pobres” (OLIVEIRA SOBRINHO, 2013, p. 217). Esse projeto deu-se em uma concepção da burguesia, apoiada nos ideais de ordem e progresso, a partir da proposta de Georges Eugène Haussmann, prefeito da cidade na época. Segundo Rouanet (1992), a proposta tinha como ponto primordial a disseminação de largas perspectivas através das avenidas, a fim de não só melhorar a ventilação e a iluminação como também facilitar a movimen- tação das tropas, dificultando a construção de barricadas em virtude do alargamento das vias. As vias deviam ser pensadas também do ponto de vista paisagístico (Figura 4), o que representou, na época, uma inovação urbana e um ponto de partida para a modernidade. Para Oliveira Sobrinho (2013), essa invenção possibilitou a desarticulação da rua como espaço de organização dos trabalhadores, significando novas maneiras de estabelecer o poder e demarcação do território. Os bulevares representam apenas uma parte do amplo sistema de planejamento urbano, que incluía mercados centrais, pontes, esgotos, fornecimento de água, a Ópera e outros monumentos culturais, uma grande rede de parques […]. Os bulevares de Napoleão e Haussmann criaram novas bases – econômicas, sociais, estéticas – para reunir um enorme contingente de pessoas. No nível da rua, eles se enfileiravam em frente a pequenos negócios e lojas de todos os tipos e, em cada esquina, restaurantes com terraços e cafés nas calçadas […] (BERMAN, 2007, p. 180–181). Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX8 Figura 4. Bulevares de Paris. Fonte: jplenio/Pixabay.com. Em Barcelona,diante do crescimento demográfico, no ano de 1840, tiveram início as renovações urbanas, começando pela demolição das muralhas da cidade antiga. Com seu núcleo histórico sendo estendido e com a ocupação gradual do seu território, conforme Debrassi (2006), houve a escassez do solo na área intramuros e viu-se a necessidade de incorporar um novo bairro à cidade. Apesar disso, a urbanização na porção antiga foi intensificada, aumentando as alturas e as densidades das edificações. Mesmo com reformas pontuais, foi somente no ano de 1854, diante de demandas políticas e econômicas e do grande crescimento da população — que passou de 150 mil no ano de 1850 para 600 mil em 1900 —, que autorizaram a demolição das fortificações para que fosse elaborado um plano geral de desenvolvimento. Esse plano foi realizado por Ildefonso Cerdá “[…] e consistia na combinação do planejamento radial e reticular da cidade antiga medieval com o novo traçado proposto para sua expansão” (DEBRASSI, 2006, p. 76). O projeto de Cerdá tinha como base uma proposta ideal da cidade, através de uma projeção perfeita (Figura 5) e de um conceito higienista. A ideia era que o espaço urbano se tornasse um meio terapêutico contra os males da sociedade, com um valor curativo. 9Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX Nele, a urbanização perfeita seria o resultado da junção ideal da natureza humana e do progresso técnico e científico. Sua cidade deve assegurar um máximo de higiene pública preservando a independência da moradia; deve facilitar as relações sociais graças a um sistema eficaz de comunicações (BRESCIANI, 1998, p. 6). Cerdá estabeleceu uma estrutura de quadrícula dez vezes a superfície que Barcelona tinha naquela época e criou um sistema de coleta de água. Além disso, abriu ruas, exigiu zonas verdes dentro das quadras, definiu alturas máximas, assegurou equipamentos comunitários a certas distâncias e zonas industriais mais afastadas (LÓPEZ DE ABERASTURI, 1979). Figura 5. Projeto de Cerdá para Barcelona. Fonte: López de Aberasturi (1979, p. 20). Ildefonso Cerdá determinou características para as vias públicas: primei- ramente, definiu as quadras e, depois, suas combinações, para então começar a delimitar os bairros. Ele deixou evidente a estrutura viária do conjunto, prevendo quatro vias de comunicação, além de uma grande rede de saneamento (LÓPEZ DE ABERASTURI, 1979). Tanto a reformulação de Paris quanto a de Barcelona tinham como base a abertura de vias, a implantação de sistemas de esgoto e de água, a priorização de iluminação e ventilação, além da implantação de vegetações nos espaços públicos. Essas transformações, com o intuito de melhorar a salubridade e a higiene das cidades, foram um marco para esse momento do urbanismo. Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX10 3 Críticas ao modelo higienista O modelo de urbanismo higienista surgiu no século XIX buscando modifi car e prover melhoramentos nas condições urbanas, além de terminar com as epidemias e doenças ocasionadas pela falta de saneamento básico, vegetações, iluminação e ventilação nas edifi cações. Para isso, seus planos de reformulação das cidades incluíam a criação de sistemas de esgoto e o alargamento das vias, além da busca pelo melhoramento estético das paisagens. O viés estético sempre foi muito criticado por pesquisadores e historiadores porque, segundo Oliveira Sobrinho (2013), esse desejo era algo almejado pela burguesia da época, que tinha por intuito romper com o espaço público utili- zado pelos pobres e para manifestações. Nesse sentido, melhorar a aparência das ruas criando bulevares tornaria o espaço público mais privado, ou seja, um lugar de socialização para a classe burguesa. Oliveira Sobrinho (2013, p. 219) afirma ainda que “[...] assim, separam-se os sujeitos desprovidos das qualidades burguesas necessárias ao uso e ocupação do espaço, pelas rupturas como demolições, novas construções e contrastes entre riqueza e pobreza. Observa-se o espetáculo da miséria no centro”. O alargamento das vias e a criação de artérias de circulação eram ideias modernas para a época, algo inimaginável até o momento. Para buscar essas transformações, houve a eliminação de algumas habitações miseráveis para abrir espaços, deixando-os livres. Essa reforma possibilitaria a expansão de negócios locais que ajudavam a custear as mudanças e empregariam dezenas de trabalhadores (OLIVEIRA SOBRINHO, 2013). Outro objetivo do alargamento era evitar manifestações das classes mais pobres, facilitando o deslocamento das tropas, o que excluía ainda mais essa porção da população. De certa forma, os objetivos por trás das reformas eram alimentar os ideais burgueses e manter as outras classes distantes e escondidas. O planejamento urbanístico explorou as contradições da modernidade. Foi um projeto burguês que visou mascarar os conflitos de classes, as lutas e reivindicações sociais das ruas, ou seja, acalmar o povo. Tirando as multidões das ruas, procurando manter as mentes distantes e camuflando as desigual- dades sociais, introduziu o modo de vida burguesa, ainda que pelo desejo de ser burguês (OLIVEIRA SOBRINHO, 2013). O urbanismo higienista demonstrava ser para todos e com o objetivo maior de melhorar as cidades, porém, tinha suas preferências. O trânsito nas vias alargadas era permitido, contudo, vigiado, e muitos moradores das cidades não tinham condições aos bens e serviços. As classes mais baixas eram loca- das longe do centro, justamente para não influenciar a área nova da cidade. 11Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX Oliveira Sobrinho (2013, p. 221) salienta que “[...] essa foi a grande lição da revolução urbanística: explorar os espaços por meio das pessoas, do sentimento e desejo individual de ser burguês. Inaugurou uma nova maneira de vida em sociedade”. Esse modo de reforma gerou novos tipos de relações tanto políticas e econômicas quanto urbanísticas e sociais, configurando o mundo burguês como um sistema fechado. A modernidade, concebida como espaço de aglutinação com as tradições, especialmente no campo ideológico, mistura o antigo com o novo, já que o processo de construção humana é dialético. Nos padrões da modernidade e suas contradições, brutal violência, desigualdade e intolerância, também existe uma ordem, tanto do ponto de vista econômico, social, como político. É a ordem burguesa em formação e o incipiente capitalismo industrial e financeiro. Esses valores e tradições, “modernos” na forma, mas “antigos” em conteúdo, podem ser estabelecidos numa estética, mas adaptados às con- dições concretas do tempo e espaço de cada país e cultura no Ocidente. Um processo massivo, de vigilância constante do modo de vida dos trabalhadores (OLIVEIRA SOBRINHO, 2013, p. 222). Diante dessa explanação, é possível perceber que, por trás do desejo de melhoramento das cidades, oferecendo a elas uma infraestrutura urbana melhor, gerando uma paisagem mais bonita e acolhedora, existiam também interesses de classes que influenciavam esse tipo de urbanismo e suas políticas, como uma ideologia de progresso, mas que acabavam beneficiando apenas alguns privilegiados da sociedade. De qualquer forma, foi nesse período que os sistemas políticos e econômicos avançaram, gerando mudanças muito profundas nas estruturas das sociedades, incrementando hábitos, incorporando necessidades e mudando a forma de viver nos centros urbanos. A paisagem urbana foi outro aspecto que mudou consideravelmente, incorporando circulações, vias para diferentes tipos de transporte, além das grandes fábricas até então inexistentes. Além disso, os aspectos sociais entre as classes foram elementos que trouxeram muitos debates relacionados ao urbanismo, principalmente, pela expulsão das classes mais baixas das áreas centrais, gerando espaços ainda menos planejados, distantes, com nenhuma infraestrutura e organização. Esse contexto influenciou o desenhourbano, trazendo mais debates sobre a necessidade de interligação de áreas e do acesso igual a todos, evidenciado o urbanismo no século XX. Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX12 ALBUQUERQUE, M. Roma: cidades e fundamentos urbanos. 2017. Disponível em: https:// historiaartearquitetura.com/2017/05/06/roma-cidades-e-fundamentos-urbanisticos/. Acesso em: 13 jan. 2020. ARAÚJO, T. S. História das cidades. c2020. Disponível em: https://www.portalsaofrancisco. com.br/historia-do-brasil/historia-das-cidades. Acesso em: 13 jan. 2020. BENEVOLO, L. História da cidade. São Paulo: Perspectiva, 1983. BERMAN, M. Tudo que é sólido desmancha no ar. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. BRESCIANI, M. S. Leituras da cidade: a formação de um saber e de uma disciplina, o urbanismo. Campinas, 1998. Mimeografado. CHOAY, F. O urbanismo. São Paulo: Perspectiva, 1965. DEBRASSI, T. M. F. B. Paradigmas e teorias da cidade: das reformas urbanas ao urbanismo contemporâneo — o caso de Barcelona. 2006. 206 p. Dissertação (Mestrado em Urba- nismo) — Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Campinas, SP, 2006. 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SILVA, D. N. Desenvolvimento da cidade medieval. c2020. Disponível em: https://mun- doeducacao.bol.uol.com.br/historiageral/desenvolvimento-cidade-medieval.htm. Acesso em: 13 jan. 2020. 13Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX Os links para sites da Web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Estudo das formas urbanas: Revolução Industrial e século XIX14 Dica do professor Em decorrência dos problemas urbanos gerados a partir do rápido processo de industrialização, como a diminuição da qualidade de vida dos habitantes e o aumento da proliferação de doenças, foi criada uma vertente de planejamento urbano denominada de higienista. Na Dica do Professor, veja mais sobre o movimento higienista, compreendendo quais reformas ele propôs e qual a importância desse pensamento para a melhoria das grandes cidades. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/d03453277b86638da0c8ef2ff9a4b74e Na prática Algumas reformas surgiram no século XIX, após as transformações da Revolução Industrial, visando melhorar a aparência e a qualidade de vida nas grandes cidades, visto que elas não foram preparadas para receber uma demanda populacional tão grande vinda do campo. Neste Na Prática, veja o exemplo da reforma realizada em Paris e como poderia ser sua aplicação com base no urbanismo contemporâneo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/5d970639-19fb-465c-9d4d-e4a3d19bc21e/b871450c-b478-4ac9-8e15-5f4c5180e2d2.png Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Da cidade industrial segregada à cidade pós-industrial fragmentada: reflexões sobre a (re)produção do espaço urbano na cidade de Pelotas-RS A Revolução Industrial transformou profundamente as cidades e a qualidade de vida dos centros urbanos. Entenda mais sobre essas transformações na cidade de Pelotas-RS por meio da leitura deste artigo: Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Revolução Industrial A Revolução Industrial foi tão profunda que transformou as cidades, os sistemas de economia, o comércio e as relações sociais. Entenda mais sobre essas mudanças neste link: Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. http://www.revistas.usp.br/geousp/article/view/89283/124685 https://www.youtube.com/embed/qpxaj1XEPko Produção do espaço, planejamento e políticas públicas Apresentação A ação de planejamento das cidades é considerada uma atividade tão complexa que influencia e depende de vários aspectos. Assim como o planejamento está relacionado à produção do espaço urbano, podendo promovê-lo, incentivá-lo ou controlá-lo, ele só se efetiva por meio das políticas públicas. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar sobre o funcionamento e o surgimento dos espaços urbanos, relacionando o planejamento a esse fenômeno das cidades. Além disso, vai poder assimilar a influência das políticas públicas no processo de planejamento das cidades. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer como ocorre a produção do espaço urbano.• Relacionar o planejamento e a produção do espaço.• Evidenciar o impacto das políticas públicas no processo de planejamento urbano.• Infográfico A produção do espaço urbano se dá por diversos agentes. Alguns deles produzem o espaço urbano por meio de ações voluntárias, como o Estado, ou por seus interesses, como os proprietários e promotores imobiliários. Já os grupos sociais excluídos produzem o espaço urbano numa ação não organizada, pois para eles qualquer pedaço de terra já é o suficiente para se estabelecer. Confira o Infográfico. Conteúdo do livro A produção do espaço urbano é uma ação que pode ser voluntária ou involuntária, pensada estrategicamente ou não, que pode ocorrer a partir de um planejamento ou simplesmente a partir da ação de grupos da sociedade. Nesse sentido, é muito importante que as políticas públicas governamentais deem suporte para que o planejamento possa cumprir sua função de organizar o território e prever a produção do espaço urbano de forma consciente e equilibrada. Na obra Planejamento Urbano, leia o capítulo Produção do espaço, planejamento e políticas públicas, base teórica desta Unidade de Aprendizagem. Boa leitura. PLANEJAMENTO URBANO Vanessa Scopel Produção do espaço, planejamento e políticas públicas Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Reconhecer como ocorre a produção do espaço urbano. � Relacionar o planejamento à produção do espaço. � Evidenciar o impacto das políticas públicas no processo de planeja- mento urbano. Introdução A ação de planejamento das cidades é considerada uma atividade tão complexa que influencia e depende de vários aspectos. Assim como o planejamento está relacionado à produção do espaço urbano, podendo promovê-lo, incentivá-lo ou controlá-lo, ele só se efetiva por meio das políticas públicas. Neste capítulo, você estudará sobre o funcionamento e o surgimento dos espaços urbanos, relacionando o planejamento a este fenômeno das cidades. Além disso, poderá assimilar a influência das políticas públicasno processo de planejamento das cidades. A produção do espaço urbano Quando se fala em produção do espaço, é preciso pensar em como os locais surgem nas sociedades e por meio do que. Alguns autores importantes discor- rem sobre a produção do espaço urbano em seus livros, explicando um pouco U N I D A D E 2 sobre como esse fenômeno ocorre. Henri Lefrebvre, David Harvey e Karl Marx defendem a ideia de que o espaço é produzido a partir das relações sociais. Para Carlos (1994), esse fenômeno tem a ver com questões que vão além da necessidade das pessoas, envolvendo, também, relações de capital, de modo que a produção do espaço urbano é “[...] produto de contradições emergentes do conflito entre as necessidades da reprodução do capital e as necessidades da sociedade como um todo [...]” (CARLOS, 1994, p. 14). Santos (2008, p. 63) considera a produção do espaço como algo “[...] formado por um conjunto indissociável, solidário e também contraditório de sistemas de objetos e sistemas de ações, não considerados isoladamente, mas como o quadro único no qual a história se dá [...]”. Segundo o autor, os espaços estão sempre interagindo com as pessoas, condicionando ações, adquirindo funcionalidade. Dessa maneira, Santos (2008) vê o espaço produzido como uma totalidade que está sempre em constante movimento: “É o espaço que, afinal, permite a sociedade global realizar-se como fenômeno” (SANTOS, 2008, p. 119). Sendo assim, é importante pensar sobre a produção do espaço urbano levando em consideração aspectos como as relações de poder nas comunida- des, as relações de troca e as apropriações e os domínios dos espaços. Esses espaços produzidos pelas relações da sociedade são a expressão dos povos, mas também têm grande influência sobre a reprodução da sociedade. Para Lefebvre (2008, p. 26), o espaço como produto de uma sociedade é “[...] um modo e um instrumento, um meio e uma mediação. [...] O espaço é um instrumento político intencionalmente manipulado, mesmo se a intenção se dissimula sob as aparências coerentes da figura espacial [...]” . Isso quer dizer que quando analisamos um espaço que é produto das ações de pessoas sobre uma determinada área, podemos tirar dessa análise conclusões sobre como as pessoas se sentem em relação àquela porção da cidade. Soja (1993, p. 38) acrescenta, ainda, que: O espaço social e político tornou-se cada vez mais reconhecido como uma força material (e não material, isto é, ideológico) influente, ordenando e re- ordenando as próprias relações sociais produtivas. Longe de ser um reflexo passivo, incidental, um “espelho”, a espacialidade tornou-se ativa como uma estrutura concreta e repositório de contradições e conflitos, um campo de luta e estratégia política. As relações sociais e espaciais, a divisão social e espacial do trabalho, a práxis social e espacial estão, deste modo, interativamente engajadas e concatenadas, ao invés de reduzidas a simples gênese-reflexo, causa inicial e efeito subsequente. Produção do espaço, planejamento e políticas públicas2 Thrift (2007) destaca que a produção dos espaços urbanos é contínua e acontece através da ordenação das coisas, a partir das necessidades das pessoas. Segundo o autor, o espaço é “[...] visto como um receptáculo no qual o mundo avança, mas também como coproduto dos processos, ressaltando a importância de se entender o espaço como construção da sociedade e que, consequentemente, tem influência sobre esta [...]” (THRIFT, 2007, p. 96). Lefebvre (2008) ressalta, também, que o espaço urbano tem um papel ativo e passivo com relação à reprodução da sociedade. Pode ser considerado passivo porque está em segundo plano, tendo em vista as relações sociais que ocorrem nestes espaços; por outro lado, também pode ser considerado um local ativo, pois exerce forte papel no cotidiano da sociedade. A produção do espaço, portanto, engloba a materialidade, a subjetividade, o real e o imaginado, os objetos e as ações, sempre vistos de forma interligada; é esse o espaço que nos serve aqui, o espaço do movimento das sociedades. Sendo assim, a cidade pode ser considerada uma produção permanente das sociedades, que materializa, nas paisagens, diferentes períodos e fases de relações sociais. Em resumo, quando se fala em produção do espaço, considera-se as influências das ações das pessoas sobre as áreas urbanas. Por exemplo, a ocupação de áreas para habitação resulta em espaços que podem ser bons locais para viver, mas também podem se tornar um problema para as cidades por estarem localizados em áreas insalubres e perigosas. Outro exemplo comum é quando vendedores de artesanato se estabelecem em praças ou vias das cidades, transformando esses locais em espaços de troca e comer- cialização. Nas nossas cidades, temos diversos exemplos da produção do espaço urbano que podem ter como agentes não somente a sociedade, mas o Estado, entidades, entre outros. O termo Placemaking está relacionado à valorização de áreas públicas surgidas a partir do uso e da apropriação das pessoas. Ou seja, quando grupos sociais se estabelecem em determinadas áreas, produzindo espaços urbanos, promovendo, nesse sentido, o encontro e a interação entre as pessoas, esses espaços, a partir da prática do Place- making, podem ser valorizados. Entenda um pouco mais sobre o que é Placemaking lendo o texto “O que é placemarking?” (PLACEMAKING BRASIL, 2017). 3Produção do espaço, planejamento e políticas públicas Planejamento e produção do espaço O processo de produção do espaço urbano é fragmentado, articulado de acordo com as necessidades, não sendo homogêneo. Da mesma forma, a produção do espaço urbano é desigual, pois reflete as ações de cada grupo social em detrimento de uma área: “Cada sociedade produz e reproduz sua existência de modo determinado, deixando no espaço as marcas de suas características históricas específicas [...]” (CARLOS, 1994, p. 26). Considerando essa influência da sociedade na produção dos espaços ur- banos, esses locais tornam-se áreas de “batalhas”, que se constituem pelos diferentes agentes do espaço na briga pelo solo urbano. Nesse sentido, segundo Carlos (1994, p. 291), “[...] estabelece-se, portanto, um conflito entre o espaço abstrato, concebido pelos interesses e necessidades do capital, e o espaço vivido, fragmentado pelas estratégias dos diferentes atores sociais, percebido pelo indivíduo através de sua vida cotidiana [...]”. A produção do espaço se dá no plano da vida cotidiana e se determina entre os diferentes agentes responsáveis pela reprodução deste espaço urbano. Nesse sentido, existem diversos atores sociais responsáveis pela reprodução do espaço urbano, cada um atuando de acordo com seus interesses de classe. “Os agentes responsáveis pela produção do espaço urbano, de forma geral, são os proprietários dos meios de produção, os proprietários fundiários e usuários de moradia, os promotores imobiliários, o Estado e as instituições governamentais, e os grupos sociais excluídos” (HARVEY, 1980, p. 139). Na contemporaneidade, a produção do espaço urbano se caracteriza por ações, relações e processos. Para Piccinato Junior (2014, p. 249), [...] os agentes sociais, que podem ser entendidos como aqueles que são vistos como indivíduos, como as empresas, as parcerias público-privadas, as orga- nizações sociais, culturais e econômicas, etc., agem diretamente na definição do que é espaço, entretanto, há várias formas de entender o espaço em razão das diversas escalas de lugares que são (re)estruturados. Para fundamentar a reflexão acerca dos caminhos possíveis de serem traçados para construir uma ideia de produção do espaço urbano, quanto mais complexas as divi- sões do trabalho, maior a diversificação e complexificação dos agentes e de suas ações. Em outras palavras, tomando a perspectiva do lugar e de seus habitantes, a espacialidade se constrói a partir de articulações financeiras e socioculturais distantes e estranhas, mas que, de certa maneira,acabam se impondo à consciência daqueles que irão viver sob essa ação. Produção do espaço, planejamento e políticas públicas4 Esses agentes que interferem e produzem o espaço urbano têm estratégias diferenciadas, de acordo com seus respectivos interesses, podendo conflitar entre si ou, em algumas situações, unir-se para agir em busca de um mesmo interesse. Portanto, a apropriação do solo, dos espaços da cidade, das áreas e terras, torna-se um objeto de conflito, disputado por esses agentes. É nesse sentido que o planejamento urbano deve entrar e se impor, a fim de organizar as políticas, analisar situações e viabilizar o que for do interesse de todos ou da grande maioria, afinal, o espaço público é um bem comum da sociedade. É importante destacar que o Estado deve se impor no sentido da ação de planejar, evitando conflitos e benefícios a privilegiados, mas isso não significa que essa tarefa represente uma hierarquia de poder em relação aos demais agentes. O Estado tem papel fundamental na produção dos espaços, pois é ele que decide por quê, quando, como e onde intervir, considerando também a opinião dos cidadãos, sempre levando em conta a distribuição igual dos benefícios e áreas, assim como dos investimentos. Afinal, os espaços urbanos são a garantia da manutenção da vida, do solo como moradia e como fonte de riqueza; eles têm, portanto, um valor importante para as cidades, devendo ser geridos de maneira eficaz e apropriada. Um exemplo de intervenção do Estado na produção do espaço urbano é uma proposta para a cidade de Madri. O espaço anteriormente ocupado pela rodovia M-30, construída na década de 1970, ganhou, em 2011, um novo rosto e uma nova função (Figura 1). A gestão do prefeito Alerto Ruiz–Gallardón resolveu devolver à população o espaço que antes era ocupado apenas por carros, transformando essa via em um parque com 9 km de extensão. A avenida, que antes poluía e separava bairros e pessoas, agora é o ponto de encontro de muitos madrilenhos que redescobriram uma área quase abandonada do centro. Figura 1. Vista aérea da rodovia M-30, em Madri, antes e depois da intervenção. Fonte: Cantanhede (2012). 5Produção do espaço, planejamento e políticas públicas Atualmente, é notório que este espaço se tornou ponto de encontro para a população de Madri, que passou a redescobrir uma área que, anteriormente, estava inacessível, quase abandonada. O Parque Madrid Río, como foi chamado, segue um plano de integração completo, une fisicamente bairros e tem estações de metrô e trem que conectam zonas da periferia ao centro da cidade (Figura 2). Figura 2. Intervenções realizadas em Madri. Fonte: The City Fix Brasil (2017). O que acontece atualmente é que, ainda, às vezes, o planejamento urbano não consegue ser justo e igualitário, refletindo, assim, as diferenças sociais, que, com certeza, não têm a ver apenas com essa atividade, mas contemplam infinitos aspectos que devem ser considerados para a resolução dessa situação. Conforme expõe Harvey (1980, p. 61): A atuação dos incorporadores imobiliários, dos proprietários e do Estado determina a distribuição das benfeitorias (infraestrutura urbana) e das ex- ternalidades de forma diferenciada, o que vai gerar diferentes valores do solo urbano. A atuação desses grupos determina espaços diferenciados, com valores de solo diferenciados, determinando também o direcionamento da população para cada área da cidade. Como esses grupos possuem os recursos necessá- rios e, consequentemente, grande poder de barganha política, são capazes de determinar a disposição final dos recursos e da infraestrutura urbana, o que contribui para reforçar a desigualdade social na cidade. Essa desigualdade fica expressa na paisagem urbana (Figura 3), basta observar diferentes áreas das cidades para entender quais são aquelas áreas Produção do espaço, planejamento e políticas públicas6 privilegiadas e supervalorizadas e quais são os pontos que foram quase es- quecidos pelos investidores e pelos planos das cidades. Conforme Ribeiro (2004, p. 27), “[...] a segregação social expressa na paisagem urbana reflete também a distribuição do poder social na sociedade [...]”. Isso é resultado das ações dos diferentes agentes junto ao Estado e da capacidade diferenciada de algumas classes na obtenção de recursos e investimentos. Figura 3. Cenário da desigualdade e segregação na paisagem urbana. Fonte: Esquerda Online (2017). Nota-se, com isso, que o planejamento urbano está diretamente relacionado à produção do espaço urbano, de modo que a atividade de planejar tem o poder de induzir, limitar e direcionar investimentos, opções e usos de forma distribuída por todo o território da cidade, de maneira a evitar ao máximo possível as desigualdades sociais, muitas vezes intensificadas pela influência dos agentes nos órgãos públicos e na sociedade em geral. As políticas públicas no processo de planejamento Atualmente, discute-se muito o papel das políticas públicas nos governos locais e como cada vez mais se tornam importantes para o aperfeiçoamento da qualidade de vida. Considera-se política pública uma ação do governo que influencia a vida dos cidadãos, assim como uma diretriz elaborada para enfrentar algum problema de caráter público. A essência das políticas públi- 7Produção do espaço, planejamento e políticas públicas cas é a discussão de ideias e interesses. Segundo Souza (2006, p. 32), “[...] a definição mais conhecida continua sendo a de que decisões e análises sobre política pública implicam, em linhas gerais, responder as questões: quem ganha o quê, por quê e que diferença faz [...]”. Na maioria das vezes, as políticas públicas são elaboradas com o intuito de criar ações para tratar ou resolver alguma situação imperfeita. As políticas públicas são elaboradas por meio de leis, projetos, campanhas, programas, entre outros. Porém, para que se possa implantar uma política pública com qualidade, é necessário organizar todo um esquema de implemen- tação, iniciando pelos objetivos daquela política, até a maneira de implantar, monitorar e controlar sua eficácia. Dessa forma, podem estar voltadas para diversos segmentos da sociedade, mas, em geral, a maioria das políticas públicas abrange aspectos que, de uma maneira ou de outra, dizem respeito ao planejamento urbano e influenciam diretamente o funcionamento das cidades. Portanto, a relação entre a atividade do planejamento urbano está estrita- mente ligada às políticas públicas, de maneira que, para que se possam resolver os problemas das cidades, são necessárias a formulação e a implementação dessas políticas que têm a ver com as alternativas e ações para a resolução das disfunções urbanas. O planejamento urbano não se torna eficaz nem aplicável senão pelo desenvolvimento destes planos, projetos e leis. O grande problema relacionado a essa questão de planejamento e de políticas públicas é que, em nosso país, esse processo é ainda bastante burocrático e requer uma aplicação bastante técnica na formulação de planos e projetos que, muitas vezes, nem saem do papel. Então, por mais que exista a necessidade de resolver um problema e a intenção para se implantar essas políticas, isso esbarra em etapas penosas que empatam a aplicabilidade da proposta. Além disso, os recursos disponíveis são muitas vezes precários, limitando projetos de qualidade. Assim como o planejamento é um processo, a elaboração e a implemen- tação de uma política pública também deve ser. Portanto é preciso haver um diálogo entre essas partes, de maneira que a produção da mesma deve prever e analisar também sua aplicabilidade no contexto. Para Fausto Ancona (2011), A preocupação com o planejamento, principalmente em políticas públicas, já não é de hoje. Desde a década de 70, um grupo de estudiosos já se preocupava com os problemas que a falta de se esquematizar um plano poderia trazer. Escritores norte-americanos, como Jeffrey Pressman e Aaron Wildavisky, em 1973, optarampor desenvolver essa temática, após ficarem impressionados com a falta de informação sobre o assunto. Desde então, muitos autores vêm desenvolvendo esse assunto de forma a melhorar cada vez mais o processo Produção do espaço, planejamento e políticas públicas8 de se planejar com qualidade. Essas obras, em sua grande maioria, propõem identificar as possíveis falhas nos projetos e em suas implementações, pautados em três aspectos: Político-institucional, Econômico e Técnico. Conforme Ancona (2011), em função de o Brasil ser uma democracia recente, constatam-se falhas em suas políticas públicas no que diz respeito ao aspecto político institucional, de maneira que não houve tamanha evolução na Constituição de 1988, o que influencia diretamente as maneiras de fazer política pública no Brasil. Considerando o ponto de vista econômico, [...] notou-se, nos últimos anos, um aumento significativo da receita do governo brasileiro, mas muito desse dinheiro é oriundo de arrecadação de impostos e serve exclusivamente para pagamento da dívida pública e de rombos da previdência, não deixando uma quantia suficiente para se elaborar planos de qualidade ou faltar recursos quando a implementação não é pensada (AN- CONA, 2011). E no que se refere ao viés técnico, porque o nosso país é bastante buro- cratizado, existe uma grande dificuldade na implantação de projetos, o que torna essa ação ainda mais complicada. Embora existam aspectos que dificultem a implementação das políticas públicas, é de extrema importância pensar o planejamento urbano em conso- nância com essas aplicações, pois isso é uma maneira de assegurar, mesmo que aos poucos, uma sociedade mais justa, equilibrada e com qualidade de vida para todos. Conforme Ancona (2011), [...] não se pode ver o planejamento como forma de controle da economia e da sociedade, mas, sim, como colaboração dos diversos atores envolvidos. [...] Deve-se empregar tecnicidade, reconhecendo-se limites para formulação de políticas públicas de qualidade, de maneira justa, ética e responsável, como o próprio autor frisa no texto. É preciso que se pense e que se planeje não só bons projetos, mas como eles serão aplicados e como contribuirão para a sociedade. Portanto, o planejamento urbano está intimamente ligado à produção do espaço urbano, não de maneira a impedi-lo, afinal ele é resultado muitas vezes das ações involuntárias da sociedade, mas de organizá-lo e incentivá-lo de uma forma mais justa e igualitária; no entanto, também está totalmente conectado com as políticas públicas, já que sem elas o planejamento se torna ineficaz, pois não completa seu processo de ação até o fim. É relevante entender que a produção do espaço, o planejamento e as políticas públicas são itens interligados que, se considerados em conjunto na elabora- 9Produção do espaço, planejamento e políticas públicas ção de planos e na resolução de problemas, podem trazer os mais variados benefícios para a população das cidades. Como exemplo de política pública voltada ao planejamento urbano, pode-se citar a Lei nº 12.1587/2012 (Lei da Mobilidade Urbana Sustentável), que pode ser definida como o resultado de um conjunto de políticas de circulação e transporte que tem por objetivo proporcionar o acesso amplo e democrático ao espaço urbano por meio da priorização de modos de transporte não motorizados e coletivos (Figura 4). Figura 4. Exemplo de cidade que privilegia a mobilidade sustentável com corredores de ônibus e ciclovias. Fonte: Haus (2016). 1. Podemos considerar o processo de produção do espaço urbano como uma ação: a) desarticulada. b) heterogênea. c) homogênea. d) desvinculada. e) desassociada. 2. Podemos considerar como atores sociais responsáveis pela reprodução do espaço urbano: a) os comerciantes. b) as instituições educacionais. c) os grupos sociais excluídos. d) as instituições filantrópicas. e) os fazendeiros. Produção do espaço, planejamento e políticas públicas10 3. O que são políticas públicas? a) Ações do governo que influenciam positivamente a vida dos cidadãos. b) Diretrizes elaboradas para enfrentar algum problema de caráter privado. c) Ações voltadas para a resolução dos problemas do governo. d) Instrumentos de valorização do patrimônio público. e) Ações voltadas para resolver problemas de segmentos privilegiados da sociedade. 4. A dificuldade de implementação das políticas públicas no Brasil acontece por ele ser considerado um país: a) desorganizado. b) burocrático. c) de terceiro mundo. d) pouco desenvolvido. e) atrasado. 5. Com relação à produção involuntária do espaço urbano, o planejamento urbano deve tomar uma atitude: a) passiva, deixando livre a produção do espaço. b) compreensiva, entendendo os interesses privados dos agentes. c) repreensiva, aplicando multas para aqueles que estiverem envolvidos na produção do espaço. d) autoritária, dando a entender que o Estado, sozinho, é que pode tomar decisões sobre os espaços urbanos. e) impositiva, a fim de organizar as políticas e os espaços. ANCONA, F. A importância do planejamento nas políticas públicas. Observa- tório da Gestão Pública, 18 nov. 2011. Disponível em: <http://www.igepri.org/ observatorio/?p=5117>. Acesso em: 10 dez. 2017. BRASIL. Lei nº 12.587, de 3 de janeiro de 2012. Institui as diretrizes da Política Nacional de Mobilidade Urbana; revoga dispositivos dos Decretos-Leis nos 3.326, de 3 de junho de 1941, e 5.405, de 13 de abril de 1943, da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), aprovada pelo Decreto-Lei no 5.452, de 1o de maio de 1943, e das Leis nos 5.917, de 10 de setembro de 1973, e 6.261, de 14 de novembro de 1975; e dá outras providências. Brasília: Presidência da República, 2012. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12587.htm>. Acesso em: 10 dez. 2017. CANTANHEDE, L. Ao invés de enterrar um rio, enterrem as rodovias. [S.l.]: Dose de sus- tentabilidade, 2012. Disponível em: <http://dosedesustentabilidade.blogspot.com. br/2012/10/Parque-Linear-Madrid-Rio.html>. Acesso em: 10 dez. 2017. CARLOS, A. F. A. A cidade. São Paulo: Contexto, 1994. ESQUERDA ONLINE. 2017: Aumenta a desigualdade social no Brasil. [S.l.]: Esquerda Online, 2017. Disponível em: <https://esquerdaonline.com.br/2017/02/19/desigual- dadesocial/>. Acesso em: 10 dez. 2017. 11Produção do espaço, planejamento e políticas públicas HARVEY, D. A justiça social e a cidade. São Paulo: Hucitec, 1980. HAUS. Mobilidade Urbana Sustentável será tema de palestra na sede do CAU. Gazeta do Povo, 23 mar. 2016. Disponível em: <http://www.gazetadopovo.com.br/haus/eventos/ mobilidade-urbana-sustentavel-sera-tema-de-palestra-na-sede-do-conselho-de- -arquitetura/>. Acesso em: 10 dez. 2017. LEFEBVRE, H. Espaço e política. Belo Horizonte: UFMG, 2008. PICCINATO JUNIOR, D. A produção do espaço urbano: agentes e processos, escalas e desafios. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais, Recife, v. 16, n. 2, p. 246- 249, nov. 2014. RIBEIRO, L. C. Q. O futuro das metrópoles: desigualdades e governabilidade. Rio de Janeiro: Revan, 2004. SANTOS, M. Técnica, espaço, tempo: globalização e meio técnico-científico informa- cional. 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Conteúdo: Dica do professor Na Dica do Professor, você vai entender as relações entre o planejamento, ou a falta dele, na produção dos espaços urbanos e a sua importância para a criação de locais adequados para a população. Assista. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/9a632a53536d4d1471bf62a15b908b0c Na prática As políticas públicas são um instrumento determinante no processo de planejamento das cidades, contribuindo para a elaboração dos objetivos e a execução destes. Elas são uma resposta do Estado às necessidades da coletividade, que, por meio do desenvolvimento de ações e programas, objetivam o bem comum e a diminuição da desigualdade social. Essas ações precisam ser estruturadas de maneira funcional e sequencial para tornar possíveis a produção e a organização do projeto. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/1b1f5eca-83de-4ffc-a3f2-e7868c838bba/14572213-395a-4c67-b19c-fb0b7aac371d.jpg Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Este vídeo fala sobre o que são as políticas públicas. Para saber mais, acesse o link a seguir. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. As políticas públicas podem ser divididas em três tipos. Esta matéria explica um pouco melhor do que se trata cada um desses tipos de políticas públicas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Este vídeo aprofunda sobre o conceito de mobilidade urbana. A mobilidade está prevista na Lei no 12.587, Lei da Mobilidade Urbana Sustentável, que é uma política pública relacionada ao planejamento urbano. Acesse o link. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.youtube.com/embed/ehLZKqU1QQw?rel=0 http://www.okconcursos.com.br/apostilas/apostila-gratis/134-politicas-publicas/1156-tipos-de-politicas-publicas#.Why5u1WnHIU https://www.youtube.com/embed/CX6Krvv7ss8?rel=0 A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável Apresentação Espaços pouco estimulantes visualmente acabam se tornando entediantes e pouco atrativos para os pedestres. Isso ocorre porque a percepção do ser humano evoluiu, percebendo ameaças e atrativos a partir de pistas visuais. Atualmente, os urbanistas dispõem de uma série de estratégias para garantir que as ruas sejam atrativas ao nível dos olhos. Tornam, assim, as cidades mais atrativas e seguras para seus usuários. Parte dos problemas das cidades contemporâneas está justamente no planejamento setorizado, que não leva em conta a escala humana em sua concepção. Dessa maneira, o projeto que parte das dimensões do corpo humano, garantindo a vitalidade urbana, apresenta vantagens quando em comparação com argumentos como a criação de vias expressas. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai entender o que torna uma cidade atrativa ao nível dos olhos e a importância disso. Também, conhecerá os atributos que garantem a vitalidade urbana, por meio de exemplos bibliográficos e de espaços urbanos transformados por projetos. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a cidade ao nível dos olhos.• Identificar fatores de vitalidade urbana.• Exemplificar a utilização de fatores de vitalidade. • Infográfico No planejamento urbano, é muito comum que seja dada bastante atenção para elementos públicos, como vias de rodagem, calçadas e parques. No entanto, as atividades que acontecem ao longo das vias, como o comércio e as residências, têm bastante impacto na vitalidade e na segurança dos espaços urbanos. Neste Infográfico, você vai conhecer exemplos de como os usos e o desenho dos pavimentos térreos adjacentes às calçadas podem potencializar a qualidade do espaço urbano, fazendo com que os pedestres circulem pelas calçadas de maneira mais lenta e aumentando a segurança de todos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/9dd660d0-94b5-4d88-a566-b40624109132/0898d948-14cb-429e-b458-2bf5fc2690f2.jpg Conteúdo do livro Hoje, as cidades são lar de mais da metade da população mundial. Pela primeira vez na história da humanidade, mais pessoas habitam ambientes urbanos do que rurais. Por isso, modificações nestes espaços têm potencial de transformar a vida de bilhões de pessoas. Para garantir que as intervenções urbanísticas tenham os melhores resultados possíveis, é preciso que os planejadores conheçam os modos como as pessoas percebem o espaço urbano, para propor projetos adequados a esses dados. No capítulo A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável, da obra Estudo da cidade, você vai conhecer o que é percebido por uma pessoa transitando pelas calçadas de uma cidade e como essa percepção é influenciada pela vitalidade da rua. Nesse sentido, verá alguns exemplos de cidades que satisfazem a seus moradores e visitantes. Boa leitura. ESTUDO DA CIDADE Anna Carolina Manfroi Galinatti A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a cidade ao nível dos olhos. Identificar fatores de vitalidade urbana. Exemplificar a utilização de fatores de vitalidade. Introdução O ser humano percebe o seu entorno a partir da perspectiva de quem caminha, ou seja, aproximadamente, 1,70 m de altura movimentando-se a 5 km/h. As cidades que são percebidas como as mais agradáveis têm características que as tornam prazerosas por esse modo de percepção. Neste capítulo, você perceberá a cidade a partir do nível dos olhos e conhecerá os fatores que influenciam a vitalidade urbana a partir desse ponto de vista. Também verá alguns exemplos de centros urbanos que exploraram essa característica com sucesso. 1 Cidade ao nível dos olhos Imagine que você está caminhando em uma calçada de uma rua bastante agradável. Que imagem vem à sua cabeça? Pessoas aproveitando a sombra das árvores? Crianças brincando nos recuos de jardins dos edifícios? Talvez uma ou outra senhora abanando para você da janela de seus apartamentos? Essas são características de um espaço urbano otimizado para a escala humana, em que a principal forma de percepção é a de uma pessoa caminhando em velocidade moderada. Agora, imagine que você está em uma rua desagradável para quem ca- minha. Provavelmente, a imagem que vem à sua mente é a de uma calçada com muito sol e calor, certo? Também deve pensar em uma via barulhenta, com muitos carros passando em alta velocidade, fazendo com que a calçada pareça ainda mais estreita. Ao olhar para os edifícios, a única visão é a de um paredão contínuo com poucas aberturas, sem pessoas aproveitando o espaço. Nesse exemplo, o que temos é uma cidade desenhada para quem está em um veículo, em velocidade muito mais alta do que a de um pedestre. As cidades tradicionais, cujas ruas e calçadas evoluíram lentamente ao longo das gerações, em geral, apresentam-se bem adaptadas aos pedestres. Por outro lado, algumas cidades planejadas, em especial, aquelas projetadas no século XX, em muitos casos, não levaram em conta como os espaços seriam percebidos por uma pessoa caminhando em velocidade moderada pela cidade. Segundo o urbanista dinamarquês Jan Gehl, é na “[…] pequena escala, na paisagem de 5 km/h, que as pessoas se relacionam intimamente com a cidade” (GEHL, 2010, p. 118, tradução nossa). É nessa velocidade que a maiorparte das pessoas frui a cidade e, portanto, os esforços de planejamento devem ocorrer no sentido de tornar essa experiência agradável. As atividades realizadas nos espaços públicos das cidades podem ser divididas em caminhar, ficar em pé, sentar, escutar e conversar. Todas essas atividades podem ser enquadradas nas ações que são beneficiadas por cidades agradáveis ao nível dos olhos (GEHL, 2010). Cidades boas para caminhar Gehl (2010, p. 119, tradução nossa) afi rma que: É um grande dia quando […] uma criança dá o primeiro passo. […] O pequeno caminhante pode ver muito mais e mover-se mais rapidamente. A partir de agora o mundo da criança — campo de visão, perspectiva, velocidade, flexi- bilidade e oportunidade — se moverá em um plano mais rápido e alto. Todos os momentos importantes da vida a partir de agora serão experienciados em pé, seja caminhando ou parado. O caminhar é uma das atividades que define o ser humano. Segundo Yuval Noah Harari, o fato de as pessoas caminharem de maneira ereta sobre duas pernas é um traço humano singular que nos permitiu “[…] realizar tarefas complexas com as mãos” (HARARI, 2015, p. 14). Jan Gehl defende que uma das características que torna a cidade agradável para os pedestres é ter espaço para caminhar, ou seja, ter espaço suficiente nas calçadas para transitar sem desviar de outras pessoas ou objetos no caminho (GEHL, 2010). Além disso, as distâncias percorridas pelos A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável2 pedestres devem ser pequenas o suficiente para permitir o deslocamento eficiente e confortável. Em seu livro, Jan Gehl traz um mapa mostrando como os centros de cidades notoriamente agradáveis se inserem em um raio de até 500 metros, permitindo a caminhabilidade para a maioria das pessoas. A Figura 1 mostra a sobreposição dos centros de quatro cidades com o raio de 500 m. Figura 1. Centros urbanos e escala humana. Fonte: Adaptada de Gehl (2010). Para que uma cidade seja agradável ao nível dos olhos, é preciso que ela tenha a infraestrutura necessária para que as pessoas possam ficar paradas realizando alguma atividade — como vendas — ou até mesmo esperando alguém sem propósito definido. As cidades agradáveis devem apresentar elementos que facilitem e encorajem a permanência. A Figura 2 demonstra uma cafeteria cujas mesas são colocadas em duas fileiras independentes, com espaço para caminhar entre elas. 3A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável Figura 2. Café com mesas na calçada. Fonte: María Teresa Martínez/Pixabay.com. Cidades boas para o encontro Segundo Gehl (2010, p. 148, tradução nossa): Encontros nos espaços urbanos se dão em vários níveis. Encontros ao acaso e oportunidades de ver e ouvir a vida urbana representam uma forma despre- tensiosa e não obrigatória de contato. Ver e ser visto é, de longe, a maneira mais difundida de encontro entre pessoas. Para permitir o encontro entre seus moradores, as cidades devem possuir um conjunto de características complementares que as tornarão um espaço agradável e propício para esse tipo de interação involuntária. A primeira delas é que os espaços urbanos devem ter visuais agradáveis, que façam com que as pessoas permaneçam por mais tempo, potencializando, assim, as chances de encontros não planejados. Os encontros entre desconhecidos são potencializados pela possibilidade de interação entre pessoas que estão dentro de espaços fechados e aqueles que transitam pelas calçadas. Para isso, os térreos dos edifícios devem ser porosos o suficiente para que essas interações aconteçam de maneira espontânea. Assim, os espaços urbanos agradáveis ao nível dos olhos são aqueles que são pensados para satisfazer a necessidade de uma pessoa caminhando a, aproximadamente, 5 km/h. Esses espaços devem permitir, obviamente, o A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável4 trânsito desses pedestres, mas também devem apresentar oportunidades para que essas pessoas possam ficar paradas para verem e serem vistas por outros em encontros não planejados. 2 Fatores de vitalidade urbana As cidades são entidades complexas e mutáveis, o que torna o entendimento de seu sucesso um assunto bastante complicado. A maneira mais assertiva que os planejadores têm para garantir o sucesso de novos empreendimentos urbanos é analisar os acertos e os erros daquelas cidades que já são ocupadas há bastante tempo. Nesse sentido, a jornalista americana Jane Jacobs escreveu, nos anos de 1960, um livro que se tornou um clássico do planejamento urbano: Morte e vida das grandes cidades. Em seu livro, Jacobs narra as qualidades de bairros com bastante vitalidade, demonstrando os elementos que esses espaços têm em comum. Ao mesmo tempo, traz algumas experiências malsucedidas de intervenções urbanas realizadas após a Segunda Guerra para demonstrar como um planejamento ineficaz pode destruir a vitalidade de uma rua. Uma das grandes contribuições de Jacobs para a disciplina do planejamento urbano foi a identificação de quatro atributos, os quais ela chamou de geradores de diversidade que, em conjunto, podem tornar os espaços da cidade mais mo- vimentados e interessantes. As quatro condições são, segundo Jacobs, o ponto mais importante de sua obra. No entanto, ela alerta que “[…] nem todos os bairros irão produzir diversidade equivalente” (JACOBS, 1992, p. 151, tradução nossa), mas que a adoção dessas táticas farão com que “[…] o bairro atinja o seu melhor potencial, qualquer que este seja” (JACOBS, 1992, p. 151, tradução nossa). As quatro condições apontadas por Jacobs são: encorajar a adoção de diferentes usos nos edifícios; ter cuidado com o tamanho das quadras, que devem ser relativamente curtas; evitar que existam apenas edifícios novos; e garantir uma densidade mínima de habitantes na área. Necessidade de uso misto Os edifícios de um bairro devem apresentar, preferencialmente, mais de um uso, por exemplo, uma loja no térreo e apartamentos nos andares superiores. Para Jacobs, em uma situação ideal, um bairro teria ainda mais diversidade. O exemplo apresentado pela autora é o seu bairro, o Greenwich Village, em Nova York, que apresenta, segundo a autora, um verdadeiro balé de funções ao longo do dia. 5A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável Para entender como o uso misto pode tornar um espaço mais movimentado, pense em uma rua onde as pessoas saem para trabalhar entre 7h e 9h da manhã. Se existirem apenas casas ou apartamentos nesse bairro, esse será o único horário em que haverá movimento nas calçadas. No entanto, se o bairro que estamos imaginando abrigar fruteiras, mercados e outros tipos de comércio, mais pessoas circularão pelas ruas durante o dia. Ainda, se alguns bares e restaurantes se instalarem na região, o movimento se estenderá para a noite, garantindo um fluxo contínuo de pessoas nas calçadas na maior parte do dia. Necessidade de quadras curtas Quadras muito longas diminuem as possibilidades de trajetos de um ponto para outro. As pessoas que moram em edifícios construídos em quadras muito longas tendem a tomar o mesmo caminho sempre, diminuindo as potencialidades de animação das calçadas. Desse modo, essas ruas tornam-se pouco atrativas para o comércio, que demanda movimento constante de pedestres. A Figura 3 traz uma ilustração apresentada por Jane Jacobs que demonstra em forma de diagrama como as quadras mais curtas facilitam a tomada de caminhos alternativos de um ponto para outro, aumentando a animação das ruas. Figura 3. Comparativo entre quadras longas e curtas. Fonte: Jacobs (1992, p. 179 e 181). A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável6 Necessidade de edifícios antigos Esse critério parece pouco objetivo e um pouco arbitrário, mas trata-se de um argumento econômico. Edifícios antigos tendem a ter preços de aluguéis mais baratos do que os lançamentos imobiliários e, por isso, essas construções atraem um conjunto de moradores que não teria condições de pagar por espaços maiscaros. Dessa maneira, a diversidade de edifícios traz consigo uma variedade de moradores, o que cria padrões de movimento diferenciados ao longo do dia. A Figura 4 mostra como o contraste entre os edifícios traz benefícios visuais para a cidade, tornando a experiência mais rica. Figura 4. Edifício antigo e edifício moderno. Fonte: Sinuswelle/Shutterstock.com. Necessidade de densidade Para garantir a vitalidade urbana, é preciso que exista vida na cidade. Para isso, os bairros devem ter uma densidade relativamente alta de moradores por metro quadrado. No entanto, esse número deve ser equilibrado para 7A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável não gerar um espaço urbano muito denso, onde as infraestruturas como transporte, esgoto e eletricidade acabem entrando em colapso. Além do número de moradores de um bairro, os dados de densidade devem levar em consideração as pessoas que utilizam as ruas em diferentes horários, como trabalhadores de um edifício de escritórios ou consumidores em um shopping center. A Figura 5 demonstra como a densidade das cidades se modifi cou ao longo dos anos. Figura 5. Transformação da densidade ao longo do tempo. Fonte: Adaptada de Gehl (2010). As cidades são fenômenos humanos extremamente complexos, muitas vezes, encaradas como entidades incontroláveis pelas autoridades. Os exemplos de Jacobs e Gehl nos demonstram, no entanto, que as cidades bem-sucedidas do passado podem servir de guia para novas intervenções urbanas. A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável8 3 Exemplos de cidades com vitalidade “Todas as famílias felizes são iguais. As infelizes o são cada uma à sua maneira” (TOLSTÓI, 2017). A descrição das famílias russas feita pelo Conde Liev Tolstói no clássico Anna Kariênina, publicado originalmente em 1877, pode ser facil- mente adaptada às cidades. Os exemplos de espaços urbanos bem-sucedidos compartilham um conjunto de soluções que se repetem ao longo de todo o mundo, adaptando-se às necessidades locais. Em Cidades para pessoas, Jan Gehl demons- tra esse princípio ao mostrar quatro exemplos de fachadas porosas que permitem que as pessoas fi quem paradas com conforto e segurança no espaço, cada um em uma localidade com cultura distinta. A Figura 6 mostra pessoas se apoiando em recessos de térreos de edifícios na Espanha, Portugal, México e Canadá. Figura 6. Pessoas utilizando recessos em edifícios. Fonte: Gehl (2010, p. 140). 9A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável Orla de Chicago A revitalização da orla de Chicago é um exemplo claro de apropriação das potencialidades do entorno. Nesse projeto, os arquitetos da prefeitura da cidade americana utilizaram o desnível entre calçada e rio para criar escadarias que funcionam como arquibancadas, gerando vitalidade e usos espontâneos ao longo do dia. Na Figura 7, é possível observar como essas atrações, somadas à mistura de edifícios novos e antigos com densidade adequada, geram vitalidade no espaço. Figura 7. Orla de Chicago. Fonte: Adaptada de Departamento de Transporte de Chicago (2016). Outro atributo interessante desse projeto é a reutilização de armazéns antigos para funções diversas como lojas e restaurantes, complementando a mistura de usos do entorno. Desse modo, esses espaços servem tanto para quem mora e trabalha no local quanto para outros visitantes. Caminho em Pilar de la Horadada Esse singelo projeto de requalifi cação urbana na Espanha toma partido dos usos e fl uxos existentes para potencializar a vitalidade do espaço urbano. Em vez de tentar criar comportamentos inexistentes, os projetistas levaram em conta as atividades já realizadas no local, aumentando o conforto dos usuários. Na Figura 8, é possível observar como as calçadas abrigam espaços de estar confortáveis, deixando uma faixa livre para a movimentação de pedestres. Nas ruas desse espaço, já existiam condições de vitalidade, como a mistura de usos e de idades dos edifícios — nesse caso, coube aos arquitetos contemplar esses usos. A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável10 Figura 8. (a) Calçada do Caminho em Pilar de la Horadada. (b) Adaptação dos espaços urbanos para usos que gerem vitalidade. Fonte: Adaptada de Bañón (2014). As experiências bem-sucedidas de outras cidades podem servir de guia para a criação de espaços urbanos que preencham os potenciais de vitalidade do bairro que se está projetando. Para isso, é preciso conhecer tanto as teorias e análises urbanas quanto os exemplos de lugares onde as pessoas se sentem seguras e felizes nas ruas. BAÑÓN, J. A. Caminho em Pilar de la Horadada. 2014. Disponível em: https://www. archdaily.com.br/br/01-187757/caminho-em-pilar-de-la-horadada-slash-joaquin-alvado- -banon. Acesso em: 4 fev. 2020. DEPARTAMENTO DE TRANSPORTE DE CHICAGO. Chicago riverwalk. 2016. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/794654/chicago-riverwalk-departamento-de- -transporte-de-chicago. Acesso em: 4 fev. 2020. GEHL, J. Cities for people. Washington: Island, 2010. HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. 3. ed. Porto Alegre: L&PM, 2015. JACOBS, J. Death and life of great American cities. New York: Vintage Books, 1992. TOLSTOY, L. Anna Kariênina. São Paulo: Companhia das Letras, 2017. 11A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. A cidade como um organismo vivo, seguro e saudável12 Dica do professor Você já caminhou por uma rua se sentindo inseguro ou desconfortável? Já caminhou por outra se sentindo abrigado pelo espaço urbano? A diferença qualitativa entre esses exemplos é medida pela caminhabilidade. Esse índice é a classificação dos espaços urbanos quanto à facilidade do deslocamento de pedestres por suas ruas. Atualmente, existem índices que medem essa característica de acordo com padrões de qualidade identificados em cidades ao redor do mundo. Nesta Dica do Professor, você vai aprender sobre esse conceito por meio da metodologia do Instituto de Políticas de Transporte e Desenvolvimento do Brasil (ITDP), que desenvolveu uma ferramenta capaz de medir a caminhabilidade de um espaço urbano adaptada à realidade brasileira. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/bc35c26592239186a3a947acb30f3f74 Na prática Algumas cidades modernistas planejadas no período pós segunda guerra possuem características que as tornam pouco atrativas para os pedestres – resultado da priorização do transporte por veículos automotores. No Brasil, o exemplo mais claro disso é a cidade de Brasília, na qual os deslocamentos diários são geralmente feitos por vias de alta velocidade, deixando poucos espaços para a vida ao ar livre. Com o passar do tempo, foi necessário adaptá-las às necessidades da sociedade do século XXI, como o desejo de se movimentar pela cidade a pé ou de bicicleta. Acompanhe, Na Prática, mudanças que um arquiteto propôs para as passagens sob o Eixão, a principal via de transporte de Brasília, em um concurso promovido pelo governo do Distrito Federal. Sua proposta se baseia na priorização dos pedestres frente aos carros, garantindo vitalidade e uma boa experiência ao nível dos olhos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/3cca56f9-42d9-45a7-8dd4-81c902f70c49/037b350f-bc8f-4a9d-8c03-9175dac9491c.jpg Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor:Jeff Speck: quatro maneiras de tornar cidades mais caminháveis (em inglês) A caminhabilidade é uma das maneiras que os urbanistas têm para medir o conforto que os pedestres sentem nas cidades. Para melhorar esse índice, podem ser utilizadas estratégias de desenho. A seguir, confira uma palestra do urbanista Jeff Speck, que apresenta o conceito de caminhabilidade, junto a algumas estratégias para tornar as cidades mais atrativas para quem caminha. Ative as legendas em Português. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. 7 cidades que transformaram seus rios em novos atrativos urbanos Muitas vezes, o trabalho dos urbanistas reside na transformação de centros urbanos consolidados. Atualmente, uma das frentes mais atrativas para o trabalho é a revitalização dos cursos d'água que correm por cidades. Neste artigo, Constanza Martínez Gaete demonstra exemplos de intervenções urbanas bem-sucedidas em cidades com rios. Boa leitura. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Carros versus pedestres: entrevista exclusiva com Janette Sadik- Khan A cidade de Nova Iorque é um dos exemplos mais bem-sucedidos de espaço urbano qualificado para pedestres, com transporte público de qualidade e calçadas confortáveis. A seguir, confira uma https://www.youtube.com/embed/6cL5Nud8d7w https://www.archdaily.com.br/br/794544/7-cidades-que-estao-transformando-seus-rios-em-novos-atrativos-urbanos entrevista com a secretária de transportes de Nova Iorque, que mostra as ações da cidade para melhorar a mobilidade. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Cidade, centralidade e configuração Neste seminário, você vai ver ideias e conteúdos bem interessantes sobre cidades, centralidade e suas configurações, que ajudam a enxergar os espaços e as cidades de outra maneira. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://caosplanejado.com/carros-vs-pedestres-entrevista-exclusiva-com-janette-sadik-khan/ https://www.youtube.com/embed/mAmxhUHcsG0 A dimensão humana e os sentidos de escala Apresentação As cidades antigas surgiram, cresceram e se modificaram gradualmente ao longo de séculos, sempre de maneira lenta e orgânica, respeitando as dimensões otimizadas para os seres humanas. A necessidade de crescimento rápido que a revolução industrial trouxe às cidades fez com que fosse preciso criar novos bairros rapidamente, algumas vezes sem muito sucesso, uma vez que a escala humana acabou ficando sem prioridade nesses planos. Nesta Unidade de Aprendizagem, você entenderá porque a escala humana deve ser o principal guia para a criação de formas urbanas. Para tanto, conhecerá diferentes escalas de percepção do espaço, dependendo do nível de intimidade entre os envolvidos. Finalmente, verá alguns exemplos de projetos urbanos que utilizam a escala humana de maneira correta. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a escala humana como geradora da forma urbana.• Demonstrar as diferentes escalas de percepção.• Exemplificar o bom uso da escala humana.• Infográfico As interações entre os seres humanos são otimizadas de acordo com a distância entre os participantes. Para que elas possam acontecer em toda sua potencialidade, é necessário que os espaços em que essas conversas acontecem sejam dimensionados de acordo com o tipo de interação. Neste infográfico, você conhecerá quatro diferentes escalas de interação, desde as mais íntimas, em que é possível que os participantes se toquem, até a pública, em que as pessoas podem se sentir à vontade com estranhos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/89679d24-27f7-41cc-b3e6-4b408f2cf743/362d12b6-d9de-4e62-9652-f277cbc21efa.jpg Conteúdo do livro A escala humana esteve presente na evolução das antigas cidades, uma vez que seu crescimento ocorria de modo lento e orgânico, modificando-se ao longo dos séculos para abrigar novas funções. Com a necessidade de novos bairros e cidades, tornou-se necessário aos planejadores o conhecimento das dimensões otimizadas para cada tipo de atividade. No capítulo, A dimensão humana e os sentidos de escala, da obra, Estudo da cidade, você entenderá como a escala humana pode ser utilizada como geradora das formas da cidade, por meio do conhecimento das diferentes escalas de percepção do espaço. Poderá, finalmente, conhecer alguns exemplos do uso da escala humana em projetos urbanos. Boa leitura. ESTUDO DA CIDADE Anna Carolina Manfroi Galinatti A dimensão humana e os sentidos de escala Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer a escala humana como geradora da forma urbana. Demonstrar as diferentes escalas de percepção. Exemplificar o bom uso da escala humana. Introdução As cidades surgiram há cerca de 5 mil anos graças à agricultura, que permitiu que as populações se mantivessem por bastante tempo em um mesmo local. De modo geral, até a Revolução Industrial, as cidades cresceram de maneira lenta em resposta a necessidades reais. Entretanto, o aumento exponencial das cidades a partir do século XIX fez com que fosse necessária a criação de novos centros que, em alguns casos, igno- raram a escala humana para dar lugar à otimização do tráfego veicular. Neste capítulo, você entenderá por que as cidades devem ser criadas a partir das dimensões do ser humano e de suas escalas de percepção do espaço, respeitando as diferentes zonas de intimidade. Também co- nhecerá alguns exemplos bem-sucedidos de projetos urbanos que têm por princípio o respeito à escala humana. 1 Escala humana como geradora da forma urbana Os seres humanos iniciaram a sua caminhada em direção à sedentarização ao mesmo tempo em que as técnicas de cultivo de alimentos permitiram a Revolução Agrícola há cerca de 10 mil anos (HARARI, 2015). O cultivo do solo levou ao crescimento dos agrupamentos humanos, que já contavam com ferramentas para colaborarem entre si. Harari (2015) afi rma que as primeiras cidades, no entanto, surgiram apenas por volta do ano 3000 a.C., como resultado da complexidade dos agrupamentos iniciais dessas sociedades primitivas. Ao agrupar em um mesmo espaço uma grande quantidade de pessoas, as cidades permitiram a especialização das ocupações humanas, levando à divisão do trabalho que conhecemos hoje. O historiador italiano Leonardo Benevolo apresenta a cidade não como uma aldeia que cresceu, mas como uma nova categoria espacial derivada das possibilidades surgidas nos grandes agrupamentos humanos. Em seu livro História da cidade, Benevolo (2015, p. 23) afirma que a cidade: […] nasce da aldeia, mas não é uma aldeia que cresceu. Ela se forma […] quando as indústrias e os serviços já não são executados pelas pessoas que cultivam a terra, mas por outras que não têm esta obrigação, e que são mantidas pelas primeiras com o excedente do produto total. As cidades, portanto, se formaram de maneira lenta, gradual e orgânica, absorvendo em seu desenho as necessidades imediatas dos moradores. Ao longo dos séculos, a evolução dos centros urbanos permitiu que soluções menos adequadas fossem naturalmente eliminadas com o passar dos anos, enquanto aquelas soluções que se provaram úteis e confortáveis são replicadas e mantidas por diversas gerações. O resultado são cidades eficientes e otimizadas para as funções que permanecem por bastante tempo. No entanto, são espaços pouco flexíveis, que admitem poucas mudanças rápidas. O crescimento dessas cidades também é limitado, uma vez que a evolução dessas áreas é gradual e lenta. Esse limitante levou ao surgimento do planejamento urbano: a necessidade de criar dispositivos que garantamo crescimento ordenado e controlado das cidades em intervalos de tempo mais curtos. Esse processo foi acentuado após a Revolução Industrial, período em que uma quantidade significativa de pessoas fez o deslocamento do campo para as cidades, levando ao rápido aumento populacional e ao surgimento de inúmeros problemas sociais e sanitários. O escritor britânico Charles Dickens é conhecido mundialmente por ser um dos mais fiéis narradores da situação das cidades europeias no período A dimensão humana e os sentidos de escala2 Pós-Revolução Industrial, narrando os problemas enfrentados pela classe trabalhadora em Londres. Em seu livro Grandes Esperanças, publicado em 1860, o inglês descreve Londres como uma cidade feia, torta, estreita e suja (DICKENS, 2012). A Figura 1 traz uma representação da habitação da classe trabalhadora londrina nesse período. Figura 1. Cortiços de Londres: gravura de Gustave Dore (1850). Fonte: Everett Historical/Shutterstock.com. O saneamento dessas mazelas levou ao planejamento sanitarista do final do século XIX, que tem como exemplo máximo as reformas realizadas por Haus- smann em Paris, posteriores ao planejamento urbano moderno preconizado por Le Corbusier no período entre a Primeira e a Segunda Guerra Mundial. Tanto o modelo sanitarista quanto o urbanismo modernista tinham como base um projeto fundamentado em um planejamento que inicia em macroescala, delimitando os grandes eixos e zonas antes de compreender a relação dos moradores com o espaço da cidade. O resultado, em muitos casos, foram cidades ou regiões onde os deslocamentos diários a pé eram desencorajados, e a vivência urbana foi prejudicada pela falta de atrativos. Na segunda metade do século XX, teve início uma série de movimentos críticos ao planejamento moderno, entendido então como prescritivo e desatento 3A dimensão humana e os sentidos de escala à vida dos moradores das cidades. O planejamento urbano assumiu uma posição oposta àquela praticada até então: as primeiras decisões do plano deveriam ser pautadas pela vida diária dos usuários, na escala dos moradores, e não em planos e grelhas abstratas que pouca relação mantêm com a realidade da vida urbana. O urbanista dinamarquês Jan Gehl chamou de “síndrome de Brasília” o conjunto de efeitos nocivos que o planejamento urbano moderno trouxe às cidades. Segundo Gehl (2010), esse tipo de planejamento é feito “de cima e de fora”, alcançando desenhos bonitos quando vistos de um satélite, mas que resultam em espaços demasiadamente grandes para serem percebidos pelas pessoas que o habitam. A Figura 2 mostra como Brasília apresenta uma geometria interessante e agradável vista de cima. Figura 2. Brasília vista do alto de uma torre de telefonia. Fonte: mbastosbr/Pixabay.com. Gehl (2010, p. 194, tradução nossa) critica que, ao contrário da vista aérea, ao nível do pedestre, a cidade fica pouco convidativa e sem atrativos para quem está caminhando: “A paisagem humana de Brasília é uma falha objetiva. Os espaços urbanos são muito grandes e majoritariamente pouco convidativos, muito longos, retos e desinteressantes; além disso, carros estacionados impedem caminhadas agradáveis nas outras partes da cidade”. Na Figura 3, é possível observar algumas imagens selecionadas por Gehl (2010) para ilustrar o seu argumento. A dimensão humana e os sentidos de escala4 Figura 3. Paisagem de Brasília vista por um pedestre. Fonte: Gehl (2010, p. 194). Gehl (2010) defende que o planejamento urbano seja feito levando em conta três momentos distintos e sucessivos: primeiramente, a vida, depois, os espaços e, por fim, os edifícios. Desse modo, a vitalidade da cidade, atrelada diretamente à quantidade de pessoas circulando, é o ponto de partida para a criação de espa- ços agradáveis que, finalmente, definirão onde serão implantados os edifícios. 2 Escalas de percepção As cidades tradicionais são o resultado da evolução lenta e constante ao longo dos anos, e esse tipo de crescimento leva a espaços urbanos otimizados para as funções que são mais necessárias. No entanto, quando é preciso fazer uma cidade nova, ou expandir uma cidade já existente com um loteamento novo, é necessário empregar estratégias de projeto que atinjam resultados similares aos da evolução ao longo das décadas. Em seu livro Cidades para pessoas (2010), Jan Gehl postula que, ao con- trário do que foi praticado em grande parte do século XX, o ponto ideal para iniciar o projeto de cidades é a mobilidade dos sentidos humanos “[…] porque estes dão a base biológica para as atividades, comportamento e comunicação no espaço urbano” (GEHL, 2010, p. 33, tradução nossa). Logo, o entendimento das relações dimensionais é essencial para o bom desenho de cidades. A percepção visual é apontada por Gehl (2010) como um dos sentidos mais evoluídos, responsável por grande parte da apreensão do espaço urbano pelas pessoas. Como a visão é um dos sentidos distantes — ao contrário do tato e do 5A dimensão humana e os sentidos de escala paladar, visão, audição e olfato prescindem de contato físico –, nossos corpos evoluíram para perceber objetos a distâncias consideráveis. Por exemplo, uma pessoa pode ser vista a mais de 100 metros de distância, mas a imagem será apenas uma silhueta, sendo impossível distinguir expressões faciais. Apenas quando estamos a 50 metros de outra pessoa é que conseguimos ouvir gritos, e são necessários 35 metros para podermos compreender a fala em volume alto. Conversas, no entanto, só podem acontecer a menos de 10 metros, distância que também permite distinguir expressões faciais detalhadas. A Figura 4 mostra uma comparação de uma pessoa a diferentes distâncias do observador. Figura 4. Comparação de detalhes percebidos a diferentes distâncias. Fonte: Gehl (2010, p. 34). A dimensão humana e os sentidos de escala6 Em resumo, Gehl (2010, p. 35, tradução nossa) observa que: Pouca coisa é percebida em distâncias entre 100 e 25 metros, depois disso a riqueza de detalhes e comunicação se intensifica dramaticamente metro por metro. Finalmente, entre sete e zero metros, todos os sentidos podem ser uti- lizados, todos os detalhes percebidos e os mais intensos sentimentos trocados. Um modelo claro dessa escala de percepção são as praças, cujos melhores exemplos apresentam dimensões dentro do domínio de 100 por 25 metros, suficientemente pequenas para que uma pessoa seja vista ao longe e, ao mesmo tempo, grande o bastante para que diversos grupos possam conviver a dis- tâncias que permitam a conversa entre si. A Figura 5 traz a praça São Marco, em Veneza, onde é possível observar diversos grupos de pessoas separados de modo a garantir privacidade. Figura 5. Praça São Marco (Veneza). Fonte: StockSnap/Pixabay.com. 7A dimensão humana e os sentidos de escala Entre as escalas que permitem troca de informação entre pessoas, Ching e Binggeli (2019) citam três diferentes zonas que variam de maior a menor intimidade. Essas zonas são relativas às distâncias que as pessoas se sentem à vontade para conviver com outros. Na Figura 6, observe como essa dimensão varia desde relações de grande intimidade até uma distância pública. Figura 6. Zonas de intimidade. Fonte: Ching e Binggeli (2019, p. 56). Portanto, a distância entre o observador e outras pessoas modifica a percep- ção e as possibilidades de contato entre eles. Essa distância pode ser calibrada no desenho dos espaços urbanos, permitindo, como no exemplo da Praça São Marco, diferentes escalas de percepção em um mesmo espaço. 3 Exemplos de uso adequado da escala humana As cidades projetadas ou adaptadas para responder positivamente à escala humana são mais agradáveis para todas as pessoas que transitam por suas ruas. O resultado dessa preocupação é o aumento da quantidade de pessoas circulando, que resulta em uma melhor percepção de segurança e bem-estar para todos. A dimensão humana e os sentidos de escala8 Uma cidade conhecida mundialmente como exemplo de adaptaçãobem- -sucedida é Copenhague, capital da Dinamarca. A cidade recebe projetos de melhoria urbana desde os anos de 1960, com foco no conforto de pedestres e ciclistas, objetivando o aumento da quantidade de pessoas circulando pelas ruas de seu centro histórico. A Figura 7 apresenta um gráfico que demonstra o aumento na quantidade de atividades nas ruas da cidade ao longo das décadas. Figura 7. Atividades ao ar livre em Copenhague. Fonte: Gehl (2010, p. 12). Segundo Gehl (2010), de 1962 a 2005, a área dedicada a pedestres e vida urbana no centro de Copenhague cresceu sete vezes, aumentando de 15 para 100 mil m2 no período. A consequência foi o aumento exponencial de pessoas circulando a pé pelas ruas. Uma das estratégias adotadas pela cidade escandi- nava foi o encorajamento de fachadas ativas, onde atividades internas podem ser vistas do exterior e vice-versa. Segundo Gehl (2010, p. 79, tradução nossa): Na frente de fachadas abertas e ativas, existe uma tendência perceptível de os pedestres diminuírem a velocidade e olharem para as fachadas. […] É possível demonstrar que, com a mesma quantidade de pessoas nos segmentos ativos ou não da rua, a quantidade de pessoas que param na frente de fachadas ativas é sete vezes maior. O parque Domino, em Nova York, projetado pelo escritório James Corner Field Operations, é um bom exemplo de como um grande espaço urbano pode ser dividido em zonas menores adequadas à escala humana (PINTOS, 2019). Trata-se de um grande parque às margens de um rio, onde os arquitetos criaram uma série de praças menores, cada uma com sua função específica, como você pode ver na Figura 8. 9A dimensão humana e os sentidos de escala Fi gu ra 8 . P la nt a do P ar qu e D om in o. Fo nt e: A da pt ad a de Ja m es C or ne r F ie ld O pe ra tio ns (2 01 8) . A dimensão humana e os sentidos de escala10 Na Figura 9, observe como uma grande quantidade de atividades distintas acontece simultaneamente nesse espaço urbano. No primeiro plano, é possível ver pais com filhos fazendo refeições junto a um degrau enquanto observam outras crianças brincando próximo aos chafarizes. Atrás desse espaço, junto ao rio, outro conjunto de pessoas está sentada em bancos visualizando a paisagem. Figura 9. Cena do Parque Domino (Nova York). Fonte: Doherty (2018). O Parque Domino é um exemplo claro de como um espaço grande pode ser subdividido em zonas menores adequadas às diferentes escalas de percepção humana. A seguir, analisaremos um pequeno projeto de intervenção urbana em São Paulo, realizado pelo escritório Zoom. Trata-se da “Calçada de todas as cores”, projeto de qualificação de uma passagem urbana no centro da maior cidade brasileira (PEREIRA, 2019). O projeto consiste na criação de espaços de interesse ao longo do passeio público, possibilitando que diferentes ativi- dades aconteçam simultaneamente pela calçada. A Figura 10 mostra como o desenho da calçada se abre em diferentes pontos para abrigar as atividades, com arquibancadas e jardins. 11A dimensão humana e os sentidos de escala Figura 10. Calçada de todas as cores. Fonte: Adaptada de Zoom Urbanismo Arquitetura e Design e Lao Engenharia & Design (2018). O resultado são espaços urbanos convidativos que, por seu interesse in- trínseco, levam as pessoas a permanecerem neles e a assistirem atividades externas, como apresentações artísticas ou até mesmo outras pessoas que transitam pelo espaço. A Figura 11 traz um desses espaços de permanência, uma arquibancada semicoberta. É possível observar pelo menos dois grupos distintos de usuários utilizando o espaço ao mesmo tempo. A dimensão humana e os sentidos de escala12 Figura 11. Usuários da “Calçada de todas as cores”. Fonte: Eiko (2018). O desenho para a escala humana pode parecer um conceito complicado inicialmente. No entanto, ao observar a maneira como as pessoas ocupam de modo natural os espaços da cidade, é possível encontrar padrões de uso que podem ser potencializados pelo desenho urbano. Assim, cidades agradáveis para os pedestres tendem a atrair mais pessoas para as calçadas o que, por sua vez, aumenta a sensação de segurança de todos. 13A dimensão humana e os sentidos de escala BENEVOLO, L. História da cidade. São Paulo: Perspectiva, 2015. CHING, F. D. K.; BINGGELI, C. Arquitetura de interiores ilustrada. 4. ed. Porto Alegre: Book- man, 2019. DICKENS, C. Grandes esperanças. São Paulo: Penguin; Companhia das Letras, 2012. DOHERTY, B. Parque Domino. 2018. 1 fotografia. Disponível em: https://www.archdaily. com.br/br/917748/parque-domino-james-corner-field-operations/5ca8cfc4284dd113c 9000bc4-domino-park-james-corner-field-operations-photo. Acesso em: 03 fev. 2020. EIKO, S. Calçada de todas as cores. 2018. 1 fotografia. Disponível em: https://www. archdaily.com.br/br/912054/calcada-de-todas-as-cores-zoom-urbanismo-arquitetura- -e-design-plus-lao-engenharia-and-design/5c703638284dd1facd00015c-calcada-de- -todas-as-cores-zoom-urbanismo-arquitetura-e-design-plus-lao-engenharia-and- -design-foto. Acesso em: 03 fev. 2020. GEHL, J. Cities for people. Washington: Island Press, 2010. HARARI, Y. N. Sapiens: uma breve história da humanidade. Porto Alegre: L&PM, 2015. JAMES CORNER FIELD OPERATIONS. Parque Domino: planta baixa. 2018. 1 imagem de planta arquitetônica. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/917748/ parque-domino-james-corner-field-operations/5ca8cfea284dd1149400003d-domino- -park-james-corner-field-operations-plan. Acesso em: 03 fev. 2020. PEREIRA, M. Calçada de todas as cores: Zoom Urbanismo Arquitetura e Design e Lao Engenharia & Design. 2019. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/912054/ calcada-de-todas-as-cores-zoom-urbanismo-arquitetura-e-design-plus-lao-engenha- ria-and-design. Acesso em: 03 fev. 2020. PINTOS, P. Parque Domino: James Corner Field Operations. 2019. Disponível em: https:// www.archdaily.com.br/br/917748/parque-domino-james-corner-field-operations. Acesso em: 03 fev. 2020. ZOOM URBANISMO ARQUITETURA E DESIGN; LAO ENGENHARIA & DESIGN. Calçada de todas as cores: axonométrica. 2018. 1 imagem de projeção axonométrica. Disponível em: https://www.archdaily.com.br/br/912054/calcada-de-todas-as-cores-zoom-urbanismo- -arquitetura-e-design-plus-lao-engenharia-and-design/5c70350f284dd1facd000156- -calcada-de-todas-as-cores-zoom-urbanismo-arquitetura-e-design-plus-lao-engenha- ria-and-design-axonometrica. Acesso em: 03 fev. 2020. A dimensão humana e os sentidos de escala14 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. 15A dimensão humana e os sentidos de escala Dica do professor O dimensionamento das cidades, tanto de suas edificações quanto de seus espaços abertos, impacta diretamente no cotidiano dos usuários. A proximidade da cidade com a escala dos usuários, a escala humana, tem sido cada vez mais defendida pelos urbanistas contemporâneos, que procuram incentivar o desenvolvimento de espaços saudáveis e seguros para a convivência. Na Dica do Professor, você verá a importância do adequado dimensionamento das cidades, identificando alguns pontos nos quais a escala pode ser facilmente observada e que exercem influência no uso do espaço. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/dcdb1919c1ebcd8ff41bebb4b9121b4b Na prática As cidades brasileiras apresentam diversos atributos complexos no tocante a interfaces entre patrimônio histórico e hábitos populares. Em muitos casos, é preciso trabalhar de maneira pontual e precisa para acomodar todasas expectativas sem prejudicar o patrimônio construído. Veja, Na Prática, o projeto da Ladeira da Barroquinha, do escritório paulista Metro Associados, construído em Salvador. Trata-se de uma passagem de pedestres com declive acentuado de terreno. Os arquitetos utilizaram um sistema de escadas, patamares e rampas para adequar esse espaço à escala humana, sem prejudicar o funcionamento do comércio local e melhorando a relação com o patrimônio histórico. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/bb87b449-da64-4e59-a1cd-649870873ed1/27bde019-8c05-4860-b003-e80fe144b95d.jpg Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Jane Jacobs e a humanização da cidade A humanização das cidades tem sido um fenômeno bastante discutido entre os urbanistas contemporâneos, e está relacionado em tornar os espaços adequados aos usuários. Neste artigo, o arquiteto Martín Marcos discorre a respeito do trabalho da jornalista Jane Jacobs e da sua relação com a humanização das cidades. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. O urbanismo se paga? Questões como o design dos espaços e a integração urbana entre o público e o privado são considerados valores intangíveis para o mercado financeiro. No entanto, seu valor econômico é perceptível, na medida em que ele valoriza os ativos imobiliários por meio da diferenciação. Confira este artigo de Rafael Birmann a respeito dos benefícios de investir em qualidade urbana em novos empreendimentos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://portal.aprendiz.uol.com.br/2018/07/24/jane-jacobs-e-humanizacao-da-cidade/ https://caosplanejado.com/o-urbanismo-se-paga/ Análise da cidade contemporânea Apresentação O planejamento urbano torna-se cada vez mais importante para garantir a sustentabilidade do planeta, visto que a maior parte da população habita cidades pouco ou mal planejadas. Os resultados são o crescente número de mortes e doenças causadas pela poluição ambiental dos centros urbanos, que poderiam ser consideravelmente minimizados se houvesse um planejamento efetivo na constituição dessas cidades. Nesta Unidade de Aprendizagem, você será apresentado a exemplos de cidades construídas do zero na China, com maior ou menor grau de sucesso. Também poderá entender quais são os principais desafios ambientais das cidades contemporâneas e como algumas localidades européias solucionaram seus problemas a partir do investimento em um planejamento a longo prazo. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer as novas cidades chinesas.• Identificar os desafios ambientais das grandes cidades.• Exemplificar boas soluções de urbanismo contemporâneo.• Infográfico Um dos maiores desafios ambientais das grandes cidades é o desenvolvimento do transporte saudável. Ainda que o deslocamento a pé ou através de meios de transporte mais sustentáveis, como a bicicleta, esteja sendo bastante incentivado atualmente, ainda observa-se, na grande maioria do países, a priorização dos veículos motorizados individuais em detrimento do demais meios de transporte. No Infográfico a seguir, você identificará os problemas associados ao transporte urbano e as principais tendências de transporte no mundo, analisando a diferenças entre cidades com baixa, média e alta renda. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/d965dacb-240a-4121-8505-c5a8d9ea5258/1b976561-dce3-402e-8314-0abc5c97782a.jpg Conteúdo do livro Um dos maiores desafios da contemporaneidade é a criação de cidades mais sustentáveis, as quais possam abrigar uma crescente população urbana sem causar problemas ambientais que devastam o ecossistema e levam à morte de um número cada vez maior de pessoas e espécies. No Capítulo Análise da cidade contemporânea, da obra Estudo da Cidade, você verá como os desafios ambientais contemporâneos estão diretamente ligados ao planejamento urbano e como o trabalho sério e continuado feito em algumas cidades ajudou a aliviar os efeitos negativos do aumento da densidade populacional. Também irá observar como o crescimento exponencial da população na China levou à construção rápida de cidades onde antes não havia urbanização. Boa leitura. ESTUDO DA CIDADE Anna Carolina Manfroi Galinatti Análise da cidade contemporânea Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer as novas cidades chinesas. Identificar desafios ambientais nas grandes cidades. Exemplificar boas soluções de urbanismo contemporâneo. Introdução As cidades de hoje abrigam mais de 50% da população mundial, refle- tindo uma mudança de paradigma inédita na história humana. Por causa disso, torna-se essencial o estudo e entendimento do funcionamento desses organismos complexos, para que o planejamento urbano seja feito de maneira efetiva e sustentável, garantindo a saúde e o bem-estar da população. Neste capítulo, você conhecerá algumas experiências de planeja- mento urbano em larga escala na China que acabaram não atingindo o seu potencial. Também será capaz de comparar esses exemplos aos bem-sucedidos planos de longo prazo de algumas cidades europeias para satisfazer os desafios ambientais da cidade contemporânea. 1 Cidades-fantasma na China contemporânea Uma das principais motivações que trazem as pessoas às cidades é a expectativa de uma vida melhor. Seja por melhores condições de emprego, maior oferta de moradia ou facilidade em obter educação, as cidades concentram mais oportunidades em várias áreas das necessidades humanas quando comparadas com o ambiente rural. Essa grande promessa fez com que mais da metade da população mundial ocupasse áreas urbanas, de acordo com o relatório da Organização das Nações Unidas de 2018 (THE SPEED of urbanization ..., 2018) — na década de 1950, esse percentual era de 30%. Esse é o resultado da inclinação humana em buscar o melhor para si e para sua família. A diáspora rural, como é conhecido o movimento de abandono do campo em direção às cidades em busca de condições melhores de vida, geralmente, tem como destino os grandes centros urbanos já desenvolvidos. É nessas cidades que está a maior parte das oportunidades de trabalho com poder de transformar a vida dos antigos camponeses. No Brasil, o termo retirante (Figura 1) foi utilizado na primeira metade do século XX para designar os habitantes da região Nordeste do país que abandonaram a sua terra fugindo da seca. Seu destino principal foram as grandes cidades do Sudeste brasileiro, em especial, Rio de Janeiro e São Paulo. Esse fenômeno foi um dos grandes responsáveis pelo aumento exponencial que esses centros tiveram no período pós-guerra. Figura 1. Retirantes, obra de Candido Portinari (1944). Fonte: Musa (1962). Análise da cidade contemporânea2 A China passou por um processo semelhante ao final do século XX, quando uma grande quantidade de moradores das regiões rurais do país migrou para as cidades em busca de oportunidades de trabalho na indústria, que havia se desenvolvido fortemente com a abertura do mercado econômico do gigante asiático. A maioria dos aparatos eletrônicos e industrializados do mundo é fabricada na China, o que exige uma quantidade considerável de mão de obra. O crescimento da população urbana na China aconteceu em um ritmo vertiginoso. Se a população urbana era de 26% em 1990, em 2014, os chineses que moravam em cidades correspondiam a quase 55% do total da população (CHINA urban population, c2020). Esse aumento de 100% seria impressionante em qualquer país, contudo, com uma população de mais de um bilhãode pessoas, um aumento de 29% corresponde a, aproximadamente, 300 milhões de pessoas, ou seja, mais do que a população de todos os países do mundo, com exceção de China, Índia e Estados Unidos. O crescimento da população urbana levou ao aumento do poder de compra das famílias de classe média chinesas que, na falta de opções de investi- mento e de um sistema bancário transparente, tendem a investir em imóveis (CALTHORPE, 2013). Esse fato, somado à política expansionista do governo daquele país, levou à construção de grandes loteamentos nos arredores das cidades existentes. Segundo Calthorpe (2013), o governo chinês planeja abrigar 250 milhões de novos moradores de cidades entre 2010 e 2030 e, para isso, será necessário construir uma infraestrutura urbana capaz de receber esse considerável contin- gente humano. Uma das alternativas encontradas para financiar essa expansão foi a eliminação dos impostos sobre propriedades, tornando o investimento em imóveis ainda mais atrativo para a classe média chinesa, que pode comprar apartamentos sem se preocupar em pagar imposto sobre eles. A Paris chinesa foi um caso que ficou conhecido mundialmente. Esse loteamento, chamado Tianducheng, foi construído na província de Zhejiang, no entorno da cidade de Hangzhou. Na região, grandes edifícios foram constru- ídos com até 700 unidades com fachadas que simulam as da capital francesa. Embora tenha capacidade para receber centenas de milhares de moradores, o loteamento conta com pouco mais de dois mil habitantes. A Figura 2 mostra o distrito de Tianducheng em 2013. 3Análise da cidade contemporânea Figura 2. Tianducheng — a Paris Chinesa. Fonte: Baratto (2013, documento on-line). A necessidade de abrigar grande quantidade de pessoas leva à construção de loteamentos com características, muitas vezes, antagônicas aos preceitos das cidades agradáveis para os pedestres. Calthorpe (2013) destaca que um dos maiores problemas das novas cidades chinesas é que, por seu projeto, dificilmente elas se tornarão centros urbanos efetivos: [...] a maior parte dos empreendimentos chineses é feita no modelo de superqua- dras, com torres em condomínios-parque fechados. As quadras possuem mais de quatrocentos metros de largura e geralmente são separadas por vias com oito pistas veiculares (CALTHORPE, 2013, documento on-line, tradução nossa). Desse modo, mesmo que ocorra a ocupação efetiva das unidades residenciais, é provável que as ruas sigam desertas, ocupadas apenas por carros. Exemplos ao redor do mundo mostram que cidades onde os deslocamentos a pé não são facilitados tornam-se menos seguras e menos atrativas. Os exemplos chineses demonstram a dificuldade em criar espaços urbanos do zero para grandes populações. Criar habitação para centenas de milhares de pessoas é um enorme desafio urbanístico porque parte das características que tornam os centros urbanos atrativos e seguros é justamente o seu crescimento orgânico, variedade de usos e idade dos edifícios, atributos que são muito difíceis de criar em cidades novas. Análise da cidade contemporânea4 2 Desafios ambientais nas grandes cidades As cidades de hoje são habitadas por mais da metade da população mundial. Embora o cidadão de uma cidade ocupe relativamente menos área que os moradores das zonas rurais, os gastos energéticos presentes na vida urbana são muito maiores que aqueles das regiões mais afastadas. Isso se deve ao maior consumo possibilitado pela vida em centros com densidades altas. Segundo a OMS (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE/WORLD HEALTH ORGANIZATION — WHO, 2009, documento on-line, tradução nossa), uma das razões para os problemas ambientais dos centros urbanos é o crescimento não planejado, o que leva a riscos tanto para o meio ambiente quanto para a saúde dos habitantes: “[...] com o crescimento das populações, a qualidade do ambiente urbano ganhará um papel crescentemente importante na saúde pública […] em questões como eliminação de resíduos sólidos, abastecimento de água limpa e saneamento”. A qualidade do ambiente urbano pode causar problemas de saúde e, em alguns casos, levar à morte. A Figura 3 demonstra como as mortes causadas pela poluição das cidades são distribuídas pelo mundo. Figura 3. Mortes por 1 milhão de habitantes causadas pela poluição. Fonte: Adaptada de WHO (2009). Uma das maneiras de mitigar o impacto ambiental dos grandes centros urbanos com projetos urbanísticos é o desenvolvimento de infraestrutura para uso de modais de transporte menos poluentes, como transporte público eficiente e uso de meios de transporte de propulsão humana, como bicicletas. 5Análise da cidade contemporânea Segundo a OMS (WHO, 2009, documento on-line, tradução nossa), “[…] o transporte é responsável por alguns dos mais sérios danos ambientais e de saúde presentes nas cidades”. Portanto, a aplicação de políticas públicas que mitiguem esses impactos é de grande importância. O urbanista dinamarquês Jan Gehl defende em seu clássico livro Cidade para Pessoas publicado em 2010 que as cidades devem ser planejadas a partir da escala humana, ou seja, suas dimensões e atributos devem ser pensados, inicialmente, para satisfazerem uma pessoa caminhando na calçada. Partindo desse princípio, os espaços urbanos tendem a se tornar mais animados, seguros e, em consequência, menos poluídos. Na macroescala, Gehl (2010) defende que as cidades devem ser planejadas com o objetivo de agregar pessoas, ao invés de dispersar. Para garantir essa característica, o urbanista lista cinco princípios de projeto que facilitam a agregação de pessoas nos espaços públicos. A seguir, estão descritos esses princípios (GEHL, 2010). Localização: as funções da cidade devem estar a pequenas distâncias entre si para garantir uma massa considerável de pessoas e eventos. Integração: as funções devem ser integradas para garantir versatili- dade, riqueza de experiências, sustentabilidade social e sentimento de segurança nos bairros. Projeto: os espaços urbanos devem ser convidativos e seguros para pedestres e ciclistas. Abertura: os edifícios devem ser permeáveis para a cidade, permitindo que as vidas externa e interna coexistam. Permanência: as permanências prolongadas devem ser encorajadas para manter movimento constante nas ruas. Uma vez atendidos os princípios anteriores, é preciso entender como fun- ciona a relação entre tráfego veicular e qualidade urbana. A OMS (WHO, 2009) coloca o transporte como um dos principais contribuidores para a poluição das cidades, portanto, a resolução desse problema é essencial para termos uma cidade realmente sustentável. A utilização de modelos centrados no transporte veicular causou grandes problemas urbanos, como a abertura de enormes viadutos cruzando as cidades, levando à degradação das áreas sob esses equipamentos. Esse foi o caso do Elevado Presidente João Goulart, conhecido popularmente como Minhocão, localizado no centro de São Paulo. Essa obra foi construída na década de 1970 para ligar a Praça Roosevelt, no centro da cidade, ao Largo Padre Péricles, Análise da cidade contemporânea6 na Barra Funda. O viaduto foi construído muito próximo aos edifícios do entorno, causando dois problemas: por um lado, os carros passam a poucos metros das janelas dos moradores dos edifícios lindeiros; por outro, o espaço sob o viaduto fica totalmente escuro e obstruído, aumentando a sensação de insegurança. A Figura 4 aponta o quão próximo aos prédios o viaduto passa. Figura 4. Elevado Presidente João Goulart (Minhocão). Fonte: Lukaaz (2008). Os problemas do Minhocão foram tão maiores que seus benefícios que no Plano Diretor Estratégico de 2016 a cidade optou por transformar a infraes- trutura em um parque urbano. Atualmente, a circulação de carros no viaduto é permitida apenas de segunda à sexta-feira, das 7h às 20h, com exceção de feriados. Fora dessa janela, o espaço é ocupado por pedestres, ciclistas e atividades culturais. Parte dos problemas das cidadescontemporâneas é ocasionada por dois fenômenos contrastantes: a falta de planejamento, apontada pela OMS (WHO, 2009) como uma das causas da poluição urbana, e o planejamento centrado no carro realizado na metade do século XX, que favoreceu os veículos particulares em detrimento ao uso de modais mais sustentáveis. 7Análise da cidade contemporânea 3 Soluções de urbanismo contemporâneo O urbanismo contemporâneo tem como foco o conforto dos usuários. Grande parte dos esforços de projeto visa à qualidade do espaço urbano para os pe- destres, pois, como afi rma Jacobs (2009), a presença de pessoas nas ruas é a maior geradora de vitalidade e segurança. Segundo Caccia e Pacheco (2019), a caminhabilidade, ou facilidade do pedestre em se locomover utilizando apenas o próprio corpo, é um dos fatores que mais infl uencia a presença ou não de pessoas nas calçadas. As autoras destacam dois pontos principais para garantir um índice de caminhabilidade satisfatório: “[...] o primeiro ponto a ser observado é a possibilidade de acessar, caminhando, áreas de lazer, comércio e entretenimento, como parques, lojas, restaurantes, museus, entre outras atividades sociais e culturais que as cidades oferecem” (CACCIA; PACHECO, 2019, documento on-line). O acesso às funções urbanas vai ao encontro dos princípios de agregação citados por Jan Gehl (2010), que coloca a integração de usos e permeabi- lidade de fachadas como atributos importantes da vitalidade. O segundo ponto das autoras leva em conta o caminho percorrido: “[...] nesse sentido, a percepção que temos do ato de caminhar — nossa predisposição para optar por essa forma de deslocamento em detrimento de outras — também está intimamente ligada à qualidade das calçadas” (CACCIA; PACHECO, 2019, documento on-line). Assim, em uma cidade onde as calçadas são projetadas pensando no pedestre, estas devem ser confortáveis e trazer atrativos ao longo do des- locamento. O grande pulo de qualidade urbana ocorre quando o caminho do ponto A para o ponto B torna-se tão interessante quanto o destino que o pedestre deseja alcançar. Desse modo, quem caminha tende a se deslocar mais lentamente, aumentando o tempo de permanência na rua e, conse- quentemente, a sensação de segurança do espaço urbano. Os exemplos mais bem-sucedidos de cidades onde o pedestre é o protagonista estão na Europa, com destaque para os países nórdicos, como Dinamarca e Finlândia. Essas regiões realizaram planos urbanísticos focados em sustentabilidade desde 1960, quando a maioria dos países ainda estava apostando na construção de infraestrutura urbana para o transporte veicular. Análise da cidade contemporânea8 Copenhague (Dinamarca) Copenhague é um dos exemplos mais conhecidos quando o assunto é ur- banismo sustentável. A capital dinamarquesa teve seu primeiro projeto de humanização do espaço urbano ainda na década de 1960, período a partir do qual a cidade focou o uso da bicicleta como meio de transporte metropolitano por excelência. A infraestrutura urbana de qualidade para ciclistas permite que até mesmo pais com fi lhos pequenos possam utilizar as bicicletas para o transporte urbano. O urbanista Jan Gehl (2010) trabalhou nos planos urbanos de Copenhague. Caccia e Pacheco (2019, documento on-line) sintetizam as preocupações do planejamento de Copenhague da seguinte forma: “[...] a priorização do pedestre, dos trajetos a pé e da mobilidade ativa é um dos primeiros passos para melhorar a mobilidade, equilibrar a distribuição do espaço e construir uma cidade mais justa para as pessoas”. Helsinque (Finlândia) Outra cidade escandinava que merece menção é Helsinque, na Finlândia, onde o planejamento urbano segue a lógica de “[…] quanto mais pessoas na cidade, menos carros serão permitidos nas ruas” (CACCIA; PACHECO, 2019, documento on-line). Essa afi rmação está contida em um plano urbanístico que pretende densifi car os bairros enquanto aumenta a caminhabilidade e a conexão entre eles até 2050. Zurique (Suíça) Em Zurique, os deslocamentos diários são divididos em três grupos principais, cada um correspondente a um terço dos habitantes: ciclistas e pedestres, motoristas de carros individuais e usuários de transporte público. Esse fato é refl exo do planejamento urbano multimodal e integrado, que permite que os habitantes utilizem mais de um modo de transporte de maneira confortável e efi ciente. Na Figura 5, é possível observar como é a divisão entre os tipos de transporte em Zurique. 9Análise da cidade contemporânea Figura 5. Modais de transporte em Zurique. Fonte: Physical Activity Through Sustainable Trans- port Approaches — PASTA (2017, documento on-line). A realidade atual da cidade suíça é reflexo de um planejamento em prática desde 1996, quando foi abolida a criação de novos estacionamentos, onde é permitida apenas a substituição de garagens já existentes, “[...] desde então, grande parte dos estacionamentos construídos foi colocada abaixo do nível do solo, e o espaço desocupado na superfície foi destinado à criação de praças, espaços públicos e zonas exclusivas para os pedestres” (CACCIA; PACHECO, 2019, documento on-line). O planejamento urbano é parte importante da qualidade de vida da po- pulação mundial. Atualmente, as cidades são o habitat de mais da metade das pessoas e, portanto, mudanças urbanas têm o poder de afetar um número considerável de pessoas. Se o planejamento chinês leva à construção de grandes cidades que acabam abandonadas, os exemplos de planejamento a longo prazo de algumas cidades europeias podem servir de modelo para possíveis soluções para os problemas ambientais contemporâneos. Análise da cidade contemporânea10 BARATTO, R. Uma Paris fantasma na China. 2013. Disponível em: https://www.archdaily. com.br/br/01-133307/uma-paris-fantasma-na-china. Acesso em: 23 jan. 2020. CACCIA, L.; PACHECO, P. 5 exemplos de caminhabilidade. 2019. Disponível em: https://wri- brasil.org.br/pt/blog/2019/10/5-exemplos-de-caminhabilidade. Acesso em: 23 jan. 2020. CALTHORPE, P. The real problem with China’s ghost towns. Metropolis, 1 Sept. 2013. Disponível em: https://www.metropolismag.com/cities/planning-cities/the-real- -problem-with-chinas-ghost-towns/. Acesso em: 23 jan. 2020. CHINA urban population: 1960–2020. c2020. Disponível em: https://www.macrotrends. net/countries/CHN/china/urban-population. Acesso em: 23 jan. 2020. GEHL, J. 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Nesta Dica do Professor, você conhecerá um guia, elaborado por uma organização sem fins lucrativos, para ajudar prefeituras e corpos técnicos a criar planos diretores que priorizem modos sustentáveis de transporte. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/5ecb9b86cf4b9f5b22a35a20ef6c39d6 Na prática A divisão do solo de uma cidade em superquadras é, há tempos, questionada por importantes estudiosos do urbanismo, como Jane Jacobs e Jan Gehl. Quadras com dimensões muito grandes podem se tornar um grande empecilho para o funcionamento de uma cidade. Na China, observa-se, por exemplo, esse comportamento nas chamadas cidades-fantasmas. Você vai conhecer, neste Na Prática, o caso da cidade chinesa Chenggong, um exemplo típico de cidade fantasma planejada na qual os problemas de funcionamento estão associados ao desenho urbano. Você será apresentado a um novo plano urbanístico que redesenha a cidade e pretende, por meio da combinação de diversas ações e novos princípios, reativar a cidade. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/2b2a1e26-4d99-4a67-8582-4576c29114fc/b2cee2a6-1a62-471c-8566-c1fba57a6c02.jpg Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: DOTS nos Planos Diretores Guia para inclusão do Desenvolvimento Orientado ao Transporte Sustentável (DOTS) no planejamento urbano. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. O urbanismo se paga? Artigo de Rafael Birmann sobre os benefícios de investir em qualidade urbana nos novos empreendimentos. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Da utopia à realidade: os desafios da prática urbana no Brasil Artigo de Camilla Ghisleni sobre os principais desafios no campo do urbanismo no Brasil. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://wribrasil.org.br/pt/publicacoes/dots-nos-planos-diretores https://caosplanejado.com/o-urbanismo-se-paga/ https://www.archdaily.com.br/br/928300/da-utopia-a-realidade-os-desafios-da-pratica-urbana-no-brasil?v=1915896192 Cidades modernas no Brasil Apresentação O movimento moderno, de abrangência mundial, também esteve presente em planos para cidades brasileiras, sendo um marco no que diz respeito ao desenvolvimento do estudo do urbanismo e da organização das cidades. No Brasil, o modernismo teve como maior referência a construção de Brasília, que foi projetada e executada com base nos princípios desse pensamento. A cidade foi pensada tanto com relação ao seu aspecto urbano quanto a sua arquitetura, para que ambos estivessem conectados e representando uma mesma linguagem. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai entender quais são as características do urbanismo modernista encontradas nos planos urbanos brasileiros, conhecendo mais sobre a maior expressão modernista do país, a cidade de Brasília. Você ainda vai poder relacionar algumas obras de arquitetura brasileira com os princípios modernos. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar características do urbanismo modernista no Brasil.• Reconhecer a relevância de Brasília no contexto mundial.• Relacionar a arquitetura modernista brasileira com os preceitos urbanísticos.• Infográfico No Brasil, assim como no mundo todo, o urbanismo modernista foi pautado por alguns princípios advindos de discussões que resultaram na Carta de Atenas, do ano de 1933. Esses princípios estão presentes em todos os planos urbanos elaborados por urbanistas modernistas. Neste Infográfico, veja umas das principais características do movimento modernista no Brasil e compreenda melhor cada uma delas. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/47ee2191-818a-4e68-842b-18db6f1da475/cfb9162f-4f69-470e-9a60-e20b3e54d89c.jpg Conteúdo do livro No Brasil, a introdução do urbanismo modernista passou por algumas etapas, sendo incorporado aos poucos, através de algumas características, desde os anos 20. Ao longo dos anos, planos urbanos de melhoramento foram surgindo com base em alguns dos princípios da Carta de Atenas de 1933. Esse urbanismo foi sendo percebido pelos estudiosos brasileiros, através de suas novas visões sobre a organização das cidades. O auge desse movimento no país se deu através da construção de Brasília, que foi totalmente baseada nos princípios modernistas, tanto para o urbanismo como no âmbito da arquitetura. Com isso, pode-se perceber que o urbanismo moderista pode ser diretamente relacionado a sua arquitetura na medida em que as caracteristicas de suas cidades e de suas edificações se fundem e se complementam, relacionando-se entre si e enfatizando ainda mais esse movimento. No Capítulo Cidades Modernas no Brasil, do livro Estudo da Cidade, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você vai entender como o urbanismo modernista foi sendo introduzido no Brasil e quais foram as principais características desse movimento no país. Além disso, você vai conhecer a relevância do projeto e da construção de Brasília para o cenário modernista mundial, identificando também as relações entre a arquitetura e o urbanismo moderno. Boa leitura. ESTUDO DA CIDADE Vanessa Guerini Scopell Cidades modernas no Brasil Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar características do urbanismo modernista no Brasil. Reconhecer a relevância de Brasília no contexto mundial. Relacionar a arquitetura modernista brasileira com os preceitos urbanísticos. Introdução O urbanismo modernista foi uma vertente de pensamento que se consoli- dou no mundo e no Brasil, trazendo para o país seus princípios e preceitos e incorporando ações de planejamento urbano, reforma, revitalização e melhoramentos para diversas cidades brasileiras. No Brasil, o modernismo teve seu ápice a partir da construção de Brasília, que foi um marco para o desenvolvimento do país e serviu como referência mundial de urbanismo e arquitetura moderna. Neste capítulo, você identificará as características do urbanismo modernista no Brasil, compreendendo a importância e o significado da construção de Brasília para o país e para o mundo todo. Também relacionará a arquitetura modernista brasileira aos preceitos urbanísticos, entendendo como as edificações e os planos para as cidades conseguem representar uma mesma linguagem. 1 Urbanismo modernista no Brasil O modernismo foi um movimento comandado pelo urbanista Le Corbusier no início do século XX voltado para o planejamento urbano. Surgiu como uma tentativa de salvar as cidades de um período de problemas relacionados ao trânsito, às moradias precárias e à insalubridade. Sabbag (2012) destaca que o urbanismo moderno pode ser compreendido como o tipo de planejamento urbano adotado no Brasil entre os anos de 1970 e 1980 que esteve alicerçado nas quatro funções estabelecidas pela Carta de Atenas de 1933, que são trabalhar, circular, habitar e recrear. Esse tipo de urbanismo, com caráter racionalista e funcionalista, caracteriza-se pelo poder centralizador do Estado e de inter- venções urbanas de renovação. Del Rio e Gallo (2000) afirmam que, no Brasil, mais do que em outros locais,o urbanismo modernista foi bastante emblemático e significativo. Segundo os autores, na década de 1920, as expressões plásticas e construtivas desse movimento já estavam presentes no território, ganhando força e consistência após a implementação do Estado Novo, tornando-se parte da cultura nacional e atingindo o seu ápice com a construção de Brasília. Pode-se afirmar que o movimento encontrou respaldo no cenário brasileiro e “[…] serviu a gerações de jovens arquitetos, e ainda deixa marcas nítidas em todas as cidades brasi- leiras” (DEL RIO; GALLO, 2000, documento on-line). O denominado Estado Novo foi o período da terceira e última fase da Era Vargas, que ocorreu entre os anos de 1937 e 1945, sucedendo as fases do Governo Provisório, de 1930 a 1934, e do Governo Constitucional, de 1934 a 1937. O Estado Novo foi caracterizado por ser um regime inspirado no modelo nazifascista da Europa, que era bastante rígido e tinha o Estado como grande detentor de poderes (FERNANDES, 2020). A ideia modernista mundial também foi expressa no Brasil, segundo Del Rio e Gallo (2000), com a intenção de construir uma sociedade mais justa e igualitá- ria, além de substituir a estética historicista por uma nova estética, de máquina e industrialização. Esse momento também foi caracterizado pelo surgimento da classe operária e pela transformação de um país rural em majoritariamente urbano. Os autores ainda complementam que essa intenção de progresso coin- cide com a referência de ordem e progresso expressa pela bandeira brasileira, apoiando as expressões urbanísticas e arquitetônicas modernistas. Entre os anos de 1930 e 1940, os modelos urbanísticos adotados no Brasil, conforme Del Rio e Gallo (2000), ainda se misturavam entre os urbanismos cul- turalista e progressista. O urbanismo progressista foi consolidado pelo arquiteto e urbanista Lucio Costa, autor do projeto de Brasília. Com os planos e intervenções desse período no Brasil, que tinham como base ainda um modelo culturalista, é possível destacar os planos urbanos de Alfred Agache, que são conhecidos como os Cidades modernas no Brasil2 planos de remodelação urbana para a cidade do Rio de Janeiro, elaborados ao final dos anos de 1920, bem como alguns loteamentos inspirados nas cidades-jardim de Ebenezer Howard, localizados no Rio de Janeiro e em São Paulo. A maioria destes projetos culturalistas, particularmente os loteamentos volta- dos para as classes mais altas, possuía baixa densidade, a ocupação dos lotes residenciais dava-se em meio a espaços densamente arborizados, as ruas eram tortuosas, bucólicas e adaptadas à topografia. Hoje, estes chamados bairros jardins residenciais são muito procurados e valorizados e muitos encontram- -se protegidos como patrimônio histórico em seu traçado e volumetria (DEL RIO; GALLO, 2000, documento on-line). Aos poucos, o modelo progressista expresso pelo urbanismo moderno foi incorporado também nos planos urbanos em porções das cidades, tornando-se hegemônico. Alguns importantes projetos que expressam esse pensamento são o Conjunto da Pampulha e o Parque Ibirapuera, que foram implantados aos poucos e em parcelas no espaço urbano, além da construção de Brasília ao final dos anos de 1950, que foi a expressão máxima do movimento moderno no Brasil, construída em sua totalidade de uma só vez. O Conjunto da Pampulha, elaborado por Oscar Niemeyer e construído nos anos de 1940, foi pensado com o intuito de buscar a modernização arquitetônica da cidade de Belo Horizonte. O projeto é composto pela Casa do Baile, pelo Iate Clube, pela edificação e pelo jardim do Cassino, pela Igreja São Francisco, pelo espelho d´água e pela orla da Lagoa que articula o conjunto. O local causou grande impacto na vida da população de Belo Horizonte, que pôde usufruir desse novo espaço de lazer para a cidade. Ao passar dos anos, as residências implantadas nessa área também seguiram as tendências arquitetônicas desse momento (Figuras 1a e 1b). O Parque Ibirapuera também foi um exemplar do urbanismo modernista no Brasil. Após diversos estudos, ao longo de muitos anos, Niemayer e sua equipe projetaram a área no ano de 1952, determinando edificações unidas por marquises e ladeadas por um lago como concepção inicial. Ao longo do estudo, o espaço do conjunto cresceu proporcionalmente, e o projeto final contou com edificações espalhadas pela área, conectadas por caminhos e por grandes áreas verdes com caráter monumental (Figuras 1c e 1d). Outro exemplo de urbanismo modernista implantado em uma porção da cidade do Rio de Janeiro é o Parque do Flamengo. O local foi projetado no ano de 1961 e tombado no mesmo ano. A ideia era de um parque público com atividades lúdicas e paisagens entrelaçadas com os principais monumentos da cidade, respeitando ao máximo as questões naturais. Seu extenso programa contava com 46 itens, permitindo que as necessidades da população fossem atendidas (Figura 1e). 3Cidades modernas no Brasil Figura 1. (a) Conjunto da Pampulha, Belo Horizonte (obra edificada). (b) Croqui de Oscar Niemeyer. (c) Parque Ibirapuera, São Paulo (esboço do anteprojeto de Niemeyer). (d) Vista do parque. (e) Parque do Flamengo, Rio de Janeiro (vista do parque). Fonte: (a) Antonio Salaverry/Shutterstock.com; (b) Niemeyer (2016); (c) Arquivo Municipal Whashington Luis (1953, documento on-line); (d) By Drone Photos Videos/Shutterstock.com. Del Rio e Gallo (2000) demonstram que a implantação do modelo mo- dernista no Brasil foi facilitada por dois motivos: por estar imbuído dentro de um modelo maior de novo estado e de uma nova nação, que buscava uma identidade própria e internacionalizada; e por representar um passo para o pensamento racionalista. Com isso, o passado é negado e: […] substituído pela experiência própria, à luz da razão, desprezando o legado histórico, sobre o qual o modernismo se afirma por negação, numa cidade zonificada e fisicamente sadia para o seu perfeito funcionamento: habitar, trabalhar, circular e cultivar o corpo e o espírito (DEL RIO; GALLO, 2000, documento on-line). Cidades modernas no Brasil4 Com a compatibilidade de interesses e com as políticas de desenvolvimento e de habitação, o modelo moderno se consolidou ainda mais nos anos de 1950 e 1960. Assim, a ideologia modernista inseriu-se no cotidiano das cidades brasileiras, não apenas através da atuação de arquitetos modernistas no setor privado e em todos os níveis de governo, mas também através das ideologias explíci- tas dos agentes institucionais, tais como o Banco Nacional da Habitação, o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo (SERFHAU) e as Companhias de Habitação, e dos instrumentos reguladores do desenvolvimento urbano, tais como planos diretores, projetos-cura, leis de uso e ocupação do solo, códigos de obras, etc. (DEL RIO; GALLO, 2000, documento on-line). No Brasil, assim como no mundo, as características do urbanismo mo- dernista se devem à grande densidade dos conjuntos habitacionais, à rígida divisão de setores, ao predomínio de zoneamentos e à negação das edificações e dos conjuntos históricos. Pode-se citar também as áreas verdes e livres de grandes dimensões, juntamente com os conjuntos arquitetônicos padronizados, a ampliação de vias e a simplificação funcional. Assim, os projetos e planos modernistas no país se definem por preocupações estéticas urbanas, pela mo- dernização de portos marítimos e fluviais, por vastos projetos de saneamento, por reformas e intervenções em áreas centrais de algumas capitais e cidades importantes, bem como pelo desenvolvimento de bairros. Del Rio e Gallo (2000), afirmam que o sucesso do modelo modernista no Brasil se deu porque estava ancorado na ideia de maximizar lucros, por meio da densificação e verticalização das edificações e da simplicidade dos programas, tanto urbanos quanto arquitetônicos. O modernismo, assim como representou ao mundo todo, trouxe ao Brasil novas formas de pensar, contribuindo para revitalizações e reformasem grandes cidades brasileiras, demonstrando a importância do planejamento urbano. 2 Relevância de Brasília Brasília é o maior exemplo de urbanismo moderno no Brasil e foi construída a partir de um concurso lançado no ano de 1956 pelo então presidente do Brasil Juscelino Kubitschek. A cidade, localizada na região central do país, segundo Sabbag (2012), foi construída em um sítio estrategicamente escolhido, considerando critérios naturais, em um momento de desenvolvimento político e integração nacional, com o objetivo de ilustrar o novo momento econômico que o país vivia. 5Cidades modernas no Brasil Conforme Sabbag (2012, p. 61), Brasília é o maior exemplo do urbanismo modernista brasileiro porque foi totalmente projetada a partir dos princípios dessa vertente, uma cidade extremamente funcional, racional e setorizada, “[…] um símbolo do progresso e da modernidade nacional, um monumento a céu aberto, um marco da entrada, pelas mãos do Estado, no capitalismo no espaço nacional”. A cidade foi pensada por Lucio Costa, ganhador do concurso, para abrigar 500 mil habitantes, com planos de expansão ordenada, a fim de que todas as suas partes crescessem harmoniosamente, com espaços e ligações que proporcionassem esse fenômeno de forma equilibrada. Sabbag (2012) ainda complementa que Brasília foi pensada para ser subordinada às necessidades da região em que foi inserida, além de suas funções e importância política para o país, uma cidade destinada a abrigar as quatro principais funções elencadas na Carta de Atenas de 1933, conectadas com o uso governamental, não resultando de iniciativas acidentais (Figura 2). Figura 2. Brasília (DF). Fonte: 061 Filmes/Shutterstock.com. A cidade obteve importância no contexto mundial como uma forte repre- sentante desse urbanismo de uma maneira global, porque aplica os princípios do modernismo de forma muito fiel em seu planejamento, adaptando-o à topografia local, considerando a autonomia das quatro funções principais da cidade, incorporando-as aos costumes, clima e contexto. Segundo Sabbag (2012), o seu planejamento demonstra a aptidão de Lucio Costa e a sua familiaridade com o movimento moderno, porque ele definiu Cidades modernas no Brasil6 eixos no plano urbanístico de Brasília, abrigando cada uma das funções sepa- radamente, mas com interligações. As superquadras de 280 × 280 metros são organizadas a partir de uma nova interpretação das cidades-jardim. Pistas de tráfego de alta velocidade e grandes espaços livres demonstram ainda mais o pensamento modernista para a cidade (Figura 3). Xavier (2007, p. 278) destaca as próprias palavras do autor do projeto, que diz que: A solução da cidade é de fácil apreensão, pois se caracteriza pela simplicidade e clareza do risco original, o que não exclui a variedade no tratamento das partes, resultando daí a harmonia de exigências de aparências contraditórias. É assim que sendo monumental é também cômoda, eficiente, acolhedora e íntima. É, ao mesmo tempo, derramada e concisa, bucólica e urbana, lírica e funcional. O tráfego de automóvel se processa sem cruzamentos e se restitui o chão, na justa medida, ao pedestre. E, por ter o arcabouço, uma plataforma, suas pistas largas no sentido, uma rodovia que poderá ser construída por partes […]. As instalações teriam sempre campo livre nas faixas verdes contíguas às pistas de rolamentos. […] De uma parte, técnica rodoviária; de outra, técnica paisagística de parques e jardins). Figura 3. Plano piloto de Brasília. Fonte: Sabbag (2012, p. 76). A construção de Brasília ocorreu durante três anos, e a cidade foi inaugurada em 1960, tornando-se uma referência para o planejamento urbano adotado nos 40 anos seguintes. Por meio de seu traçado e organização urbana, e também em virtude de suas edificações monumentais, a capital pôde alcançar um nível arquitetônico superior a algumas cidades do mundo. As obras da cidade 7Cidades modernas no Brasil se diferenciam de outras obras ornamentais encontradas no mundo porque demonstram o moderno e o futurista, a partir da personalidade de Lucio Costa para a parte urbana e de Oscar Niemeyer para a arquitetura. Oliveira (2008) complementa que a cidade teve importância no contexto mundial também porque serviu para consolidar e elucidar os princípios mo- dernistas, deixando-os mais claros e entendíveis para a comunidade e para os estudiosos, ou seja, tornou-se uma experiência única entre as raras referências internacionais. Foi uma expressão do desenvolvimento, empolgando os países latino-americanos e promovendo relações comerciais e econômicas. Brasília é um exemplo tão representativo do urbanismo modernista brasi- leiro e mundial que foi reconhecida como Patrimônio Mundial da Humanidade, no ano de 1987, e também no livro do Tombo do Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) no ano de 1990. Percebe-se que Brasília, assim como o urbanismo modernista, representou os princípios desse movimento, o crescimento e o desenvolvimento do Brasil, tornando-se uma referência mundial por ser uma cidade totalmente nova, construída do zero, em poucos anos, com estratégias muito bem justificadas, zoneamentos, funções, circulações e novos olhares sobre o planejamento urbano. 3 Arquitetura modernista brasileira e preceitos urbanísticos O movimento moderno incorporou não somente o estudo das cidades, mas também trouxe princípios à arquitetura, com estratégias e intenções que estão relacionadas ao urbanismo e que formam um todo entre edifi cação e espaço urbano. Le Corbusier, que foi o representante do urbanismo modernista, também foi a fi gura da arquitetura dessa vertente. Além de contribuir para a criação da Carta de Atenas, que demonstra os pontos importantes para um urbanismo modernista, também criou os cinco pontos da arquitetura moderna que, juntamente com o planejamento urbano, deveriam ser incorporados aos planos das cidades. Le Corbusier, conforme Mendonça (2011), elaborou cinco pontos fundamentais da arquitetura moderna, descritos a seguir. Planta livre: proporcionando espaços amplos e flexíveis, com a ideia de modificar os espaços sem mexer na estrutura da edificação. Nesse caso, os pilares estruturais, juntamente com as vigas, ficam aparentes, e há uma integração entre os espaços de uma edificação. Cidades modernas no Brasil8 Fachada livre: pode ser projetada em diversos formatos, mas não possui vedações e divisórias, formando grandes panos envidraçados, buscando a conexão com a parte exterior. Pilotis: são utilizados para garantir uma construção mais livre, possi- bilitando a permeabilidade visual do pavimento. A ideia também é que os pavimentos sob pilotis possam ser permeáveis fisicamente também, para que os pedestres possam caminhar por esses locais. Terraço-jardim: a ideia é utilizar a área dos telhados para ser ocupada também com jardins, melhorando as condições climáticas e represen- tando um espaço propício para os momentos de lazer. Janela em fita: tem por objetivo ampliar a iluminação das edificações, podendo apresentar diferentes geometrias. Alguns pontos da arquitetura moderna podem ser identificados em edi- ficações brasileiras, relacionados às ideias urbanísticas desse movimento. O Edifício Copan, projetado pelo arquiteto Oscar Niemeyer na década de 1950, é um exemplo de edificação moderna que utiliza, além da fachada livre, princípio da arquitetura, a alta densidade e a verticalização, elementos priorizados no urbanismo dessa vertente. O edifício, hoje, ainda ocupado e em funcionamento, conta com 1.160 apartamentos distribuídos em seis blocos. Ele ainda contém uma área comercial em seu pavimento térreo com cerca de 72 lojas, 20 elevadores e mais de 200 vagas de estacionamento (Figura 4a). O Palácio Capanema é outra obra modernista que, através de seu térreo sob pilotis, um dos pontos da arquitetura moderna, integra-se à ideia urbanista de permeabilidade física e visual, além de permitir a integraçãodo pedestre com a parte exterior da cidade. A edificação foi construída entre os anos de 1937 e 1945, o projeto foi liderado por Lucio Costa, mas contou com a participação de outros profissionais. O prédio tem 16 andares e um pavimento sob pilotis de 10 metros de altura (Figura 4b). O Palácio Capanema também conta com um terraço-jardim, promovendo áreas livres, ajardinadas e paisagisticamente tratadas para os moradores das cidades (Figura 4c). As edificações da cidade de Brasília também estão relacionadas ao urba- nismo e aos seus princípios. Um bom exemplo é o Congresso Nacional, que conta com as janelas em fita, priorizando ainda mais a insolação natural e contribuindo para a salubridade dos cidadãos, tão almejada pelos urbanistas modernos (Figuras 4d e 4e). As edificações monumentais espalhadas por grandes áreas livres, a simplicidade de elementos, a ausência de ornamentos, 9Cidades modernas no Brasil as linhas retas e as alturas também são elementos que se relacionam com o urbanismo, que sempre buscou essa personalidade, aliada a uma atmosfera mais limpa e leve. Figura 4. (a) Edifício Copan (SP). (b) Edifício Gustavo Capanema (RJ). (c) Terraço-jardim do Palácio Capanema. (d) Congresso Nacional (Brasília). (e) Palácio da Alvorada (Brasília). Fonte: (a) Tanaka (2009); (b) Liberal (2019); (c) Viana (2016); (d) Lommiz/Pixabay.com; (e) Renne (c2018). O urbanismo modernista esteve presente no desenvolvimento das cidades brasileiras e no melhoramento de seus espaços. Inicialmente, foi apresentado por meio de propostas específicas para porções das cidades, que aliavam o urbanismo, o paisagismo e a arquitetura e, após a sua aceitação e notorie- Cidades modernas no Brasil10 dade no território, consolidou-se a partir da cidade de Brasília, que é o mais significativo exemplar modernista do Brasil, uma referência mundial desse tipo de urbanismo. Esse tipo de urbanismo foi importante para o Brasil porque trouxe novas visões, demonstrando por meio de seus planos de melhoramento ideias dife- renciadas para os espaços urbanos, possibilitando a criação de novas paisa- gens e espaços de lazer para as cidades brasileiras. Além disso, sua relação com a arquitetura intensifica ainda mais a sua importância, de modo que o projeto contempla em sua totalidade um mesmo conceito. A partir desses elementos, é possível perceber que a arquitetura modernista já andava junto com o urbanismo, e os dois se complementavam para formar as cidades com as características desse movimento. Ambos utilizam uma mesma linguagem e têm as mesmas intenções, demonstrando os ideais desse movimento com autenticidade e personalidade. ARQUIVO MUNICIPAL WASHINGTON LUIS. Projeto final da equipe de Niemeyer para o parque do Ibirapuera. 1953. Disponível em: http://docomomo.org.br/wp-content/ uploads/2016/01/048R.pdf. Acesso em: 29 jan. 2020. DEL RIO, V.; GALLO, H. O legado do urbanismo moderno no Brasil. Paradigma realizado ou projeto inacabado? Arquitextos, ano 1, n. 006.05, nov. 2000. Disponível em: https:// www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/01.006/958. Acesso em: 29 jan. 2020. FERNANDES, C. O que foi o Estado Novo? Disponível em: https://brasilescola.uol.com. br/o-que-e/historia/o-que-foi-estado-novo.htm. Acesso em: 29 jan. 2020. LIBERAL, O. 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No entanto, após a construção de Brasília, a cidade ficou conhecida como a maior representante do movimento, reconhecida como referência mundial. Na Dica do Professor, veja como o movimento moderno foi implantado no Brasil, assim como a importância de Brasília no cenário mundial e a possibilidade de utilizar os princípios modernistas nos dias atuais. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://fast.player.liquidplatform.com/pApiv2/embed/cee29914fad5b594d8f5918df1e801fd/16b8b9adfec88120e236517bac89aef5 Na prática Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://statics-marketplace.plataforma.grupoa.education/sagah/20a2cef1-0de4-4227-a37a-466a418c18c3/75fa1d73-08d4-458a-af81-e38f9c01874d.jpg Para que o pensamento modernista fique evidente em uma cidade inteira ou somente em uma porção dela, é importante que a arquitetura e o urbanismo apresentem a mesma linguagem arquitetônica, com princípios que se complementem. Neste Na Prática, veja como é possível projetar uma edificação a partir dos princípios modernistas que esteja de acordo com a porção urbana do local onde ela estará inserida. Saiba + Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Exemplares arquitetônicos modernos no Brasil No período modernista, a arquitetura também conseguiu ser referência e deixar marcas nas cidades brasileiras. Veja, nesta matéria, alguns desses exemplares na cidade de Santa Maria - RS. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. Superquadras e Brasília As superquadras são um elemento muito marcante na cidade de Brasília, sendo um dos princípios do urbanismo moderno. Leia mais sobre o assuntoneste artigo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. A arquitetura de Brasília As edificações de Brasília foram pensadas com o objetivo de transmitir os mesmos conceitos e ideias do seu urbanismo e hoje se misturam à arquitetura contemporânea. Veja mais sobre essas arquiteturas neste vídeo. Aponte a câmera para o código e acesse o link do conteúdo ou clique no código para acessar. https://www.vitruvius.com.br/revistas/read/arquitextos/19.219/7096 http://docomomo.org.br/wp-content/uploads/2016/01/077.pdf https://www.youtube.com/embed/cQPU02fTeDo